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Antropologia Antropologia Document Transcript

  • AntropologiaProfa. Vera Cristina de Souza SEMIPRESENCIAL
  • Vera Cristina de SouzaANTROPOLOGIACursos Semipresenciais
  • SUMÁRIO PARTE I – TEORIA ANTROPOLÓGICA 61 ANTROPOLOGIA 61.1 O QUE É ANTROPOLOGIA? 61.1.1 Cultura 61.1.1.1 Pluralidades 71.1.1.2 Diversidades 71.1.1.3 Julgamento de Valor 81.2 QUAIS SÃO OS SEUS OBJETIVOS? PARA QUE SERVE? 81.2.1 Sociologia 91.2.2 O Assistente Social e a Ciência Antropológica: “Qual é a 9 Importância do Estudo da Disciplina de Antropologia para o Estudante do Curso de Serviço Social?”2 CIÊNCIA, CONHECIMENTO CIENTÍFICO E 11 CONHECIMENTO DE SENSO COMUM2.1 A ESPECIFICIDADE DA METODOLOGIA DOS ESTUDOS E 11 DAS PESQUISAS ANTROPOLÓGICAS2.1.1 Metodologia Científica - Como Proceder ao Estudo 11 Antropológico?2.1.1.1 Multidiciplinaridade 112.1.1.2 Empírico / Empirismo 112.1.1.3 Epistemologia 122.1.1.4 Senso Comum 122.2 A ETNOGRAFIA E A ETNOLOGIA: DE QUE FORMA 12 OCORRE O ESTUDO ANTROPOLÓGICO?2.2.1 Etnografia 132.2.2 Etnologia 132.3 O CONCEITO DE NEUTRALIDADE – ÉMILE DURKHEIM 132.4 ALGUNS CONCEITOS ANTROPOLOGICOS IMPORTANTES 142.4.1 Estruturas Familiares 142.4.1.1 Sistema Monogâmico 152.4.1.2 Sistema Bigâmico 15
  • 2.4.1.3 Sistema Poligâmico 152.4.1.4 Endogamia 152.4.1.5 Exogamia 152.4.2 Etnocentrismo 162.4.3 Selvagem / Bárbaro / Primitivo 162.4.4 Xenofobia 162.4.5 Eugenia 172.4.6 Raça 182.4.7 Cor 192.4.8 Etnia 192.4.9 Racismo 192.4.10 Discriminação 192.4.11 Preconceitos 192.4.12 Aculturação / Assimilação 202.4.13 Sincretismo Religioso 212.4.14 Relativismo Cultural (RC) 222.4.14.1 Selvagens, Brutos e Ignorantes 232.4.14.2 Dóceis, Ingênuos, Bestializados, Sem Razão, Sem 23 Raciocínio2.4.15 Representações Sociais 243 AS PRINCIPAIS ESCOLAS DO PENSAMENTO 26 ANTROPOLÓGICO CLÁSSICO3.1 AS PRINCIPAIS ESCOLAS 263.1.1 Escola Evolucionista: Século XIX 263.1.1.1 Características Principais 263.1.1.2 Referências Literárias 273.1.2 Escola Sociológica Francesa: Século XIX / XX 283.1.2.1 Características Principais 283.1.2.2 Referências Literárias 283.1.3 Escola Funcionalista: Século XX (Anos 20) 283.1.3.1 Características Principais 283.1.3.2 Referências Literárias 293.1.4 Escola Culturalista: Século XX (Anos 30) 29
  • 3.1.4.1 Características Principais 293.1.4.2 Referências Literárias 293.1.5 Escola Estruturalista: Século XX (Anos 40) 303.1.5.1 Características Principais 303.1.5.2 Referências Literárias 303.1.6 Escola Interpretativa: Século XX (Anos 60) 303.1.6.1 Características Principais 303.1.6.2 Referências Literárias 303.1.7 Escola Crítica (Pós-moderna): Século XX (Anos 80) 313.1.7.1 Características Principais 313.1.7.2 Referência Literária 313.2 OS CINCO POLOS DO ESTUDO ANTROPOLÓGICO 313.2.1 Antroplogia Simbólica 313.2.2 Antropologia Social 313.2.3 Antropologia Cultural 323.2.4 Antropologia Estrutural e Sistêmica 323.2.5 Antroplogia Dinâmica 32 PARTE II – CLÁSSICOS DA ANTROPOLOGIA 33 BRASILEIRA4 APRESENTAÇÃO À OBRA “CASA GRANDE E 34 SENZALA”, GILBERTO FREYRE4.1 GILBERTO FREYRE 344.1.1 Vida e Obra 344.1.2 Casa Grande e Senzala 344.1.2.1 Como Ocorreu a Formação da Sociedade Brasileira? 354.1.2.2 O Indígena 364.1.2.3 O Negro Africano no Brasil 385 APRESENTAÇÃO À OBRA “O POVO 39 BRASILEIRO”, DE DARCY RIBEIRO5.1 DARCY RIBEIRO 395.1.1 Biografia 395.1.2 O Povo Brasileiro 39
  • 5.1.2.1 Os Mamelucos e a Miscigenação Indígena 425.1.2.2 A População Negra Brasileira: o Negro Africano 435.1.2.3 A Mestiçagem e o Item Cor - a “Ninguendade” do Mulato 47 Brasileiro5.1.2.4 O Moinho de Gastar Gente: Classes e Contradição de 49 Classes5.1.2.5 As Mulheres Brasileiras 51 CONSIDERAÇÕES FINAIS 53 REFERÊNCIAS 54
  • 6PARTE I – TEORIA ANTROPOLÓGICA1 ANTROPOLOGIA1.1 O QUE É ANTROPOLOGIA? Antropo origina do grego e significa homem. Logia, de origemigualmente grega, quer dizer estudo. Então, o nosso desafio é conhecer, estudar ohomem, sob a perspectiva antropológica. Para tanto, utilizar-nos-emos das quatro áreas de conhecimento ou áreasdo saber humano1 em que se divide a Antropologia, ou seja: 1. Antropologia Físicaou Biológica (aspectos orgânicos), 2. Antropologia Cultural (símbolos, mitos, ritos,valores); 3. Antropologia Social (organização social, econômica, política, jurídica) e4. Arqueologia2 (sociedades antigas, existentes ou não). O objeto da Antropologia é o estudo dos diferentes comportamentossociais e culturais exercidos pelos distintos grupos humanos. E o que é cultura?1.1.1 Cultura São os hábitos, costumes, expressões linguísticas, danças, alimentação,religião, crenças, valores, estrutura familiar, diversão, enfim, o modo, o estilo devida de cada grupo populacional que compõe as sociedades. Mediante o estudo antropológico - ou o estudo do homem -, é possívelconhecermos o homem e a sua interação com seu meio cultural. O homem produze reproduz a sua própria cultura. A Antropologia estuda a especificidade cultural decada povo, de cada grupo social, de cada realidade cultural.1 Áreas onde há concentração e profundidade de estudos específicos.2 Arqueologia: arque “archaios” vem do grego e significa antigo. Então, arqueologia significa o estudode sociedades tradicionais, antigas – existentes ou não – mediante as suas culturas, arquiteturas,artes etc.
  • 7 A Antropologia busca investigar, compreender, e, sobretudo, respeitar econsiderar aquilo que é tido como diferente, distinto, em uma dada sociedade. Buscaconsiderar as pluralidades sem emitir julgamentos de valor. E o que são pluralidades?1.1.1.1 Pluralidades Como o próprio nome diz, pluralidade vem da palavra plural: muitos,vários, diferentes, distintos. O oposto à pluralidade é a singularidade (único, um). Nós, seres humanos, vivemos em sociedade e somos diferentes uns dosoutros, ou seja, somos plurais. Esta diferença não significa superioridade ouinferioridade e sim, diversidade. E o que são diversidades?1.1.1.2 Diversidades Diversidade significa diversos, diferentes. Os homens são diversos,diferentes entre si. Diferenciamo-nos uns dos outros por vários fatores, por váriascaracterísticas: distintas raças/etnias (brancos, negros, japoneses, judeus, ciganos,índios etc.), distintas nacionalidades (brasileiros, americanos, japoneses, franceses,alemães etc.), distintas naturalidades (paulistas, baianos, cariocas, recifenses,mato-grossenses etc.), distintos estereótipos, tipos físicos (baixo, alto, gordo, magroetc.), distintas religiões (catolicismo, protestantismo, candoblecismo etc.), distintasculinárias típicas (acarajé e vatapá, na Bahia; churrasco, no Rio Grande do Suletc.), entre outras características culturais. O desenvolvimento ou a aplicação dos estudos antropológicos devemfundamentalmente ocorrer sem que o pesquisador3, o antropólogo, utilze-se de seusvalores, de suas próprias crenças. Para tanto, é necessário que ele se dispa detodos e quaisquer julgamentos de valor.3 No universo acadêmico, o profissional de quaisquer áreas do saber pode, se assim desejar,enveredar-se, debruçar-se sobre o estudo de um tema específico, um assunto que lhe chama aatenção, que lhe atrai, desenvolvendo sobre ele novos estudos e pesquisas em profundidade.
  • 8 E o que significa julgamento de valor?1.1.1.3 Julgamento de Valor São práticas etnocêntricas4 (o homem no centro do universo) que julgama cultura, o comportamento, a forma de ser, de se relacionar a partir de seuspróprios valores. Atribui valores ao “outro” de acordo com aquilo que considera ser ocorreto, o justo, o aplicável. É uma visão que despreza o conceito5 de diversidades ese ocupa do conceito de superioridade. Parte da crença que tem o poder, o domínioda verdade.1.2 QUAIS SÃO OS SEUS OBJETIVOS? PARA QUE SERVE? Como vimos, a Antropolgia - também conhecida como a “ciência dahumanidade” - ocupa-se do estudo das diferenças culturais ou das diversidadesculturais. Ao cumprir os seus objetivos, ou seja, investigar e compreender asespecificidades culturais do “outro”, tem como maior missão demostrar quediferenças culturais não significam desigualdades culturais, não cabendovalorações. Trata-se, portanto, de respeitar as diferenças. Cabe chamar a atenção que, em larga medida, quando adentramos nouniverso antropológico, remetemo-nos ao campo dos estudos sociológicos. E o que é Sociologia?4 Adiante trataremos com mais vagar sobre o conceito de “etnocentrismo”.5 Conceitos: São significados, idéias, pensamentos oriundos de estudos e pesquisas. Os conceitospodem variar de acordo com as definições atribuídas a eles pelo pesquisador, ou seja, um conceitopoderá ter mais de um significado. Dessa forma, é necessário utilizarmos aquele que expressa onosso pensamento. Exemplo: vários autores desenvolvem e adotam distintos conceitos sobre“classes médias”: a) posso referir-me a uma pessoa como sendo de classe média de acordo com osbens materiais que possui ou b) posso referir-me a ela somente pelo nível de escolaridadeindependente de suas posses ou c) por ambos.
  • 91.2.1 Sociologia Palavra híbrida (socio vem do latim e quer dizer sociedade / logia originado grego e significa estudo). Assim, Sociologia é o estudo da sociedade, doscomportamentos, instituições, práticas sociais. Percebam que a Antropologia se propõe ao estudo doscomportamentos individuais inseridos nos contextos sociais. Dessa forma, asdiferenças entre os saberes sociológicos e os antropológicos são tênues, quaseimperceptíveis, e estão basicamente voltados à metodologia de investigaçõescientíficas aplicadas quais sejam as técnicas, quantitativas e qualitativas. Enquantoa Sociologia privilegia os resultados mensuráveis, estatísticos, a Antropologia, porsua vez, preocupa-se com a história oral, com o dizível, com o relatado. Há de senotar que tais práticas não são rígidas mas, sim, complementares, uma vez que sesomam, completam-se, confluem-se.1.2.2 O Assistente Social e a Ciência Antropológica: “Qual é a Importância doEstudo da Disciplina de Antropologia para o Estudante do Curso de ServiçoSocial?” Inicialmente, cabe dizer que a aplicação dos conhecimentos advindos dasciências sociais é pertinente a todas as áreas do saber humano. Como visto, aAntropologia ao valorizar as diversidades culturais, refuta as práticas associadas aosjulgamentos de valores ou práticas etnocêntricas. A fim de tornar ainda maiscompreensível a importância disto, François Laplantine (2000) nos apresenta, entreoutros, o conceito de alteridade. Nós seres humanos - enquanto seres individuais - não vivemos sozinhos,não nos bastamos e, portanto, dependemos do outro para viver estabelecendo,consequentemente, relações sociais e interpessoais. Tais relações, por sua vez, são distintas umas das outras, já que oshomens - no que tange aos aspectos subjetivos - diferenciam-se entre si, de acordocom sua cultura, seus valores, suas emoções. Logo, independente de nossavontade, deparamo-nos com o “outro” exitente na sociedade. Dessa forma,
  • 10deparando-nos com o “diferente”, e mediante a respectiva reflexão, reconhecemo-nos em nossa própria cultura. A esse respeito, nas palavras de Laplantine, aAntropologia nos permite “uma revolução no olhar”. Ensina-nos ele: A experiência da alteridade (e a elaboração dessa experiência) leva- nos a ver aquilo que nem teríamos conseguido imaginar, dada a nossa dificuldade em fixar nossa atenção no que nos é habitual, familiar, cotidiano, e que consideramos “evidente”. Aos poucos, notamos que o menor dos nossos comportamentos (gestos, mímicas, posturas, reações afetivas) não têm realmente nada de “natural”. Começamos, então, a nos surpreender com aquilo que diz respeito a nós mesmos, a nos espiar. O conhecimento (antropológico) da nossa cultura passa inevitavelmente pelo conhecimento das outras culturas; e devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura possível entre tantas outras, mas não a única. (2000, p. 21) Dessa forma, o Assistente Social, desde o início de seu curso degraduação, aprenderá a refletir sobre realidades sociais e culturais diferentes dassuas, já que quando do exercício de sua profissão - já formado - estará,sistematicamente, em contato com o “outro”. Como compreendê-los, se não souberlidar com as diferenças?
  • 112 CIÊNCIA, CONHECIMENTO CIENTÍFICO E CONHECIMENTO DESENSO COMUM2.1 A ESPECIFICIDADE DA METODOLOGIA DOS ESTUDOS E DAS PESQUISASANTROPOLÓGICAS2.1.1 Metodologia Científica - Como Proceder ao Estudo Antropológico? Para se proceder ao correto estudo da Antropologia - bem como ao detodas as demais disciplinas - é de fundamental importância dominarmos a definiçãode ciência. Ciência consiste na produção de teorias e de conceitos obtidos a partirpressupostos teóricos resultantes de investigações científicas. A produção doconhecimento científico requer o auxílio de múltiplos saberes e por esta razão temcaráter multidisciplinar.2.1.1.1 Multidisciplinaridade Multidisciplinaridade (multi= vários; disciplinaridade = disciplinas) significaa soma dos conhecimentos produzidos pelas diferentes disciplinas, pelosconhecimentos científicos diversos. Em oposição a isso, está o monoculturalismo(mono = um, única cultura na qual as diversidades são desprezadas). Fundamenta-se no conhecimento científico que, por sua vez, é produzidomediante o rigor científico. Para ser considerado científico, deve ser empírico.2.1.1.2 Empírico / Empirismo O conhecimento científico é empírico, o que significa dizer que foiexperimentado, testado, comprovado. E ainda, os conhecimentos científicos obtidos
  • 12não são estáticos, estando, portanto, em constantes movimentos (semprerepensados, sempre revistos, sempre reavaliados). Os dados resultantes das investigações científicas podem sercorroborados (comprovados, validados) ou refutados (negados, invalidados), sendoque as respectivas análises devem ocorrer de forma minuciosa e imparcial (neutra). Logo, ao tratarmos de “ciência”, de “conhecimento científico”, estaremosigualmente tratando do conceito de epistemologia.2.1.1.3 Epistemologia Significa a fundamentação do conhecimento científico, ou seja, a buscapelo conhecimento erudito, minucioso, criterioso, aprofundado. As Ciências dividem-se em Humanas (Antropologia, Sociologia,Psicologia etc.), Naturais (Química, Física, Astronomia etc.) e Abstratas(pensamento lógico-matemático, estatístico etc.). Em oposição ao conceito de Ciência ou Epistemologia, temos o conceitode Senso Comum.2.1.1.4 Senso Comum São os conhecimentos ditos de forma não científica, não empírica; são assuposições.2.2 A ETNOGRAFIA E A ETNOLOGIA: DE QUE FORMA OCORRE O ESTUDOANTROPOLÓGICO? Como dito, a aplicação dos conceitos acerca de ciência cabe a todas asáreas do saber. No entanto, cada uma delas apresenta os seus própriosinstrumentais ou a sua própria metodologia. Dessa forma, nos ocuparemos daquelespertinentes à Antropologia, quais sejam a etnografia e a etnologia.
  • 132.2.1 Etnografia Etno quer dizer povo e grafia significa escrita, ou seja, etnografiadestina-se à “escrita do povo” e mais exatamente, à “coleta de informações relativasao povo”. Trata-se do desenvolvimento do trabalho de campo, da pesquisa decampo. Então, quando o pesquisador decide-se por fazer um estudoantropológico significa dizer que o antropólogo/pesquisador fará um estudoetnográfico (pesquisa de campo). Ao procedermos a um estudo científico e etnográfico, propomo-nos abuscar respostas para as seguintes questões: Como e onde pesquisar? Comocoletar os dados? Como devo fazer para me aproximar do meu entrevistado? Comoperguntar? Como analisar? Como não me envolver emocionalmente? Como cumpriros meus objetivos? Entre outras indagações pertinentes.2.2.2 Etnologia Etno quer dizer povo e logia, estudo. Logo, etnologia significa a análisedos dados obtidos, coletados, quando da execução do trabalho de campo(etnográfico). Dessa forma, o pesquisador/antropólogo se inclinará sobre osresultados etnográficos e desenvolverá o estudo etnológico.2.3 O CONCEITO DE NEUTRALIDADE – ÉMILE DURKHEIM Conforme apresentado, o conceito de neutralidade é parte integrante daMetodologia do Trabalho Científico, cabendo então debruçarmos sobre ele. Emile Durkheim (2007) entendia que o pesquisador, quando dodesenvolvimento do trabalho de campo, deveria conceber os fatos sociais estudadoscomo “coisas”. Essa “coisificação” seria necessária para que se pudesse investigá-los de modo neutro (neutralidade) e distante (distanciamento). Segundo ele, tal
  • 14procedimento metodológico permitiria a não interferência dos valores do pesquisadorsobre a realidade do grupo estudado. No entanto, parte dos pesquisadores sociais avalia o conceito deneutralidade apregoado por Durkheim e sua aplicabilidade. Questionam se é de fatopossível ao pesquisador manter-se “neutro” e distante frente ao estudo dedeterminadas realidades sociais e culturais. Como respostas a essas inquietações,entendem que - independente das emoções possivelmente despertadas - aminuciosidade do rigor científico deve prevalecer. Apresento abaixo uma realidade que merece ser refletida, considerando,para tanto, a discussão acerca dos conceitos de “neutralidade, diversidade cultural erigor científico”. Como você se portaria diante desta situação? Infanticídio põe em xeque respeito à tradição indígena6 Folha de S. Paulo, on line, 06/04/2008. Ana Paula Boni Mayutá, índio de quase dois anos de idade, deveria estar morto por conta da tradição de sua etnia kamaiurá. Na lei de sua tribo, gêmeos devem ser mortos ao nascer porque são sinônimos de maldição. Paltu Kamaiurá, 37, enviou seu pai, pajé, às pressas para a casa da família de sua mulher, Yakuiap, ao saber que ela havia dado à luz a gêmeos. Mas um deles já tinha sido morto pela família da mãe. Paltu enfrentou discriminação da tribo, para a qual a criança amaldiçoaria a aldeia. [...] Ainda praticado por cerca de 20 etnias entre as mais de 200 do país, esse princípio tribal leva à morte não apenas gêmeos, mas também filhos de mães solteiras, crianças com problema mental ou físico, ou doença não identificada pela tribo. Projeto de lei Há Projeto de Lei que trata de "combate às práticas tradicionais que atentem contra a vida", que tramita na Câmara desde maio passado [...] A proposta é polêmica entre índios e não-índios. Há quem argumente que o infanticídio é parte da cultura indígena. Outros afirmam que o direito à vida, previsto no artigo 5º da Constituição, está acima de qualquer questão [...].2.4 ALGUNS CONCEITOS ANTROPOLOGICOS IMPORTANTES2.4.1 Estruturas Familiares6 Este artigo, bem como outros aqui apresentados, estão disponíveis em http://www.folha.com.br/.
  • 152.4.1.1Sistema Monogâmico Monogamia – sistema familiar, cultural, social e religioso que legitima osmatrimônios mediante um só parceiro durante determinado período de tempo.2.4.1.2 Sistema Bigâmico Bigamia – sistema familiar, cultural, social e religioso que legitima osmatrimônios mediante dois parceiros durante determinado período de tempo.2.4.1.3 Sistema Poligâmico Poligamia – sistema familiar, cultural, social e religioso que legitima osmatrimônios mediante mais de dois parceiros durante determinado período detempo.2.4.1.4 Endogamia Endogamia (endo = dentro / gamo = casamento) – uniões, matrimônios,ocorridos no interior do mesmo grupo a que pertencem os envolvidos (religioso,familiar, étnico, classes sociais).2.4.1.5 Exogamia Exogamia (exo = fora / gamo = casamento) – uniões, matrimôniosocorridos exteriormente aos grupos pertencentes (religioso, familiar, étnico, classessociais).
  • 162.4.2 Etnocentrismo O termo “etno” significa povo e “centrismo” significa centro. Este conceitoquer dizer que o homem e o seu grupo social, racial/étnico consideram-se o centrodo universo. Tudo aquilo que lhes pertencem - estruturas familiares, sociais,culturais, econômicas e políticas - são padrões por eles considerados comosuperiores, corretos, únicos verdadeiros e que, portanto, devem ser seguidos. De outra forma, tudo aquilo que for diferente àquilo que conhecem,pensam, acreditam, valorizam, defendem, é, aos seus olhos, moralmenteinaceitável, inferior, anormal, selvagem, primitivo e degradante, devendo, portanto,serem modificados, destruídos, exterminados. As consequências das práticas etnocêntricas são todas elas negativas,devastadoras e violentas, verificadas nas relações de superioridade empreendidapor aqueles que mandam, impõem, julgam. Esses são representados pelas figurasdos colonizadores, civilizadores (os que mandam) e, do outro lado, estão oscolonizados, civilizados (“civilizáveis”), ou seja, aqueles que são violentados,subjugados, inferiorizados. As relações de poder são fortemente verificadas nasrelações de colonizadores e colonizados7.2.4.3 Selvagem / Bárbaro / Primitivo Termos pejorativos e preconceituosos utilizados por aqueles que seconsideram superiores aos membros de sociedades diferentes das suas e quedesenvolvem modos de vida distintos dos seus.2.4.4 Xenofobia Xeno significa estrangeiro e fobia, medo. Xenofobia significa, então,medo, horror, pânico àquele que é diferente. As consequencias xenofóbicas são7 Indico as leituras de Michel Maffesoli - Dinâmica da Violência. São Paulo: Vértice, 1997 - e AlbertMemmi - Retrato do Colonizado Precedido pelo Retrato do Colonizador. São Paulo: Paz e Terra,1999.
  • 17verificadas nas violências praticadas sobre os grupos considerados minoritários:negros, índios, homossexuais, nordestinos, portadores de ncessidades especiais. Segue abaixo um exemplo clássico de práticas xenófobas exercidas,cotidianamente, na sociedade brasileira: AÇÃO URGENTE: TEMOR PELA SEGURANÇA Folha de S. Paulo, on-line, Brasil, 08/09/2000. Um grupo neonazista enviou pacotes-bomba para a casa do funcionário da Anistia Internacional em São Paulo, Eduardo Bernardes da Silva, e para os organizadores da Parada do Orgulho Gay. [...] Em 5 de setembro, o grupo neonazista também enviou cartas a dois destacados membros de comissões de direitos humanos de São Paulo, Renato Simões e Ítalo Cardoso, ameaçando "exterminar" gays, judeus, negros e nordestinos (pessoas oriundas da empobrecida Região Nordeste do Brasil), assim como aqueles que procuram proteger os direitos dessas pessoas.2.4.5 Eugenia Em meados do século XIX (1859), o biólogo inglês Charles Darwin publicaa sua famosa obra “A Origem das Espécies”. Mediante estudos desenvolvidos complantas e animas, conclui a sua “Teoria da Seleção Natural” de cunho evolucionista. Frente à concepção evolucionista - e deturpando os estudos de CharlesDarwin -, Francisco Dalton (primo de Charles Darwin) funda no ano de 1908 a“Sociedade de Educação Eugênica”, condenando a miscigenação a fim de manter apureza das raças, surgindo, assim, o conceito de Eugenia (SOUZA, 2002). Com ela,Dalton defendia que na sociedade haveria dois grupos humanos distintos entre si,sendo um “forte” e o outro, “fraco”. Consequentemente, dada a supremacia dascapacidades intelectuais inatas do primeiro grupo (o forte), somente essesobreveveria. O outro (o fraco) estaria naturalmente fadado ao fracasso. Interessante notar que muito recentemente manifestações a esse respeitose fizeram presentes, como mostra o artigo abaixo publicado pelo Jornal Folha deSão Paulo, em outrubro de 2007.
  • 18 Africano é menos inteligente, diz Nobel Folha de São Paulo, on line, 18/10/2007. Rafael Garcia Uma entrevista do biólogo James Watson, 79, com declarações racistas anteontem a um jornal britânico atraiu uma enxurrada de críticas de cientistas, sociólogos, políticos e ativistas de direitos humanos. Watson, ganhador do Prêmio Nobel por ter descoberto a estrutura do DNA juntamente com Francis Crick, em 1953, afirmou ao jornal britânico "The Sunday Times" que africanos são menos inteligentes do que ocidentais e, em razão disso, se declarou pessimista em relação ao futuro da África. "Todas as nossas políticas sociais são baseadas no fato de que a inteligência deles (dos negros) é igual à nossa, apesar de todos os testes dizerem que não", afirmou o cientista. "Pessoas que já lidaram com empregados negros não acreditam que isso (a igualdade de inteligência) seja verdade." [...] Pessoas que apontaram erros na declaração de Watson afirmam que a reação ao cientista precisa ser contundente. Em outra ocasião, defendeu o direito ao aborto, se as grávidas pudessem saber se a criança nasceria homossexual. Entre os cientistas que reagiram de maneira mais dura contra Watson estão os próprios geneticistas. "Definitivamente, isso não faz sentido nenhum e é totalmente estapafúrdio", disse à Folha Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais. "É uma falácia de autoridade. Ele não é especialista no estudo de evolução de populações humanas. Ele estuda biologia molecular pura." Pena, cujo trabalho sobre populações brasileiras contribuiu em grande medida para derrubar o conceito biológico de raças humanas, afirma que a maioria das pessoas "não vai levar Watson a sério", mas que ele pode "inflamar os ânimos" daqueles que já são racistas. Sobre a situação da África, Pena diz que nem sequer é uma questão de inteligência. "O Watson confunde uma situação histórica e social da África com uma situação biológica", disse. "O que acontece é que os africanos foram vítimas de uma colonização brutal por parte dos europeus."2.4.6 Raça A UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, aCiência e Cultura - entre as décadas de 1950 a 1960 iniciou no Brasil uma série deestudos com o objetivo de investigar como se processava a inserção dos negros nasociedade e, sobretudo, de identificar as barreiras à sua ascensão social. Entre osseus achados, concluiu que o conceito de raça é inaplicável aos seres humanos, ouseja, “raça” não existe, expressando, portanto, um componente social e político.
  • 192.4.7 Cor Atributo, característica física e biológica cambiante (variável), relacionadaà cor da pele, dos olhos e do cabelo proveniente do processo de miscigenação.2.4.8 Etnia Conceito antropológico que trata das especificidades culturais (língua,religião, mito, rito, ritmos, vestimenta, canto, dança, alimentação etc.).2.4.9 Racismo Crê na existência de superioridade, de hierarquia entre as raças,defendendo-a e considerando os estereótipos, sobretudo, os relacionados à cor dapele: branco superior aos negros x negros inferior aos brancos.2.4.10 Discriminação Violação dos direitos das pessoas em decorrência de seus atributosfenotípicos (físicos) e genotípicos (genes, biológicos), tais como cor da pele, etnia,idade, religião, procedência regional e humanos. É a prática racista, o tratamentodiferenciado advindo do preconceito racial.2.4.11 Preconceitos No que tange às questões sociais, raciais, regionais, de gênero, entreoutras, o preconceito é manifestado através da repulsa, da intolerância, do desafeto,da violência, da discriminação afetiva, física ou emocional.
  • 20 O artigo abaixo registra a pertinência das discussões antropológicasacerca das práticas discriminatórias exercidas, por exemplo, no mercado detrabalho, envolvendo as “minorias”. Discriminação no trabalho Folha de São Paulo, on line, 25/03/2008 Nádia Demoliner Lacerda (mestre em Direito do Trabalho pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo) Atualmente, as empresas brasileiras estão continuamente sujeitas a sofrer processos trabalhistas por práticas discriminatórias. Cerca de dois milhões de ações deram entrada no Judiciário em 2006, segundo um levantamento do TST (Tribunal Superior do Trabalho). [...] O tratamento discriminatório no Brasil está ligado às grandes diferenças na distribuição da renda e à cultura secular de tratamento discriminatório, que nos acompanha desde o Brasil Colônia e que até hoje se reflete em atos contra determinados grupos, como mulheres, negros, soropositivos, deficientes, entre outros. No âmbito das relações de trabalho, é a Convenção 111 da OIT sobre "discriminação em matéria de emprego e profissão" que impõe limites ao comportamento das empresas em relação aos indivíduos, tanto em termos de escolha de candidatos ao emprego quanto aos critérios na promoção de função e na decisão de rescindir o contrato de trabalho. Eventual diferença numérica entre homens e mulheres, negros e brancos, por exemplo, resulta da legitimidade que tem o empregador de avaliar a qualificação e capacitação de cada um dos candidatos que se apresentam para uma vaga ou posição dentro da empresa, não podendo ser tida como conduta discriminatória punível.2.4.12 Aculturação / Assimilação Refere-se ao processo de perda da própria cultura, dos valores, doscomportamentos de um grupo social em detrimento da aceitação, incorporação, dasapresentas por um outro grupo. Não tem, necessariamente, conotação negativa,uma vez que pode haver - ou não - as respectivas trocas entre os grupos envolvidos. Reflitamos acerca do artigo abaixo: ESCOLA DA VIDA Folha de São Paulo, 12 de setembro de 2004. Laura Capriglione
  • 21 Com ar provocador, o aluno dispara em um português hesitante: "Professora, o que quer dizer c...?" Rosângela Portela, 46, a professora, entendeu de imediato. O estudante, um jovem negro anglófono da África Ocidental, agora desterrado, estava testando-a. “Eu respondi sem piscar. Repeti pausadamente a palavra e a traduzi para o inglês. Expliquei que se tratava de um palavrão que pessoas bem educadas não deveriam pronunciar. Perguntei, então, se ele havia compreendido", lembra a professora. O rapaz, que nunca havia visto uma professora (em seu país só homens desempenham a função), que junto a isso nunca ouviu uma mulher "direita" se referir aos genitais masculinos, fez que sim e teve, dessa forma, sua primeira aula de cultura brasileira. O episódio ocorreu na semana passada, em uma sala de aula no Sesc (Serviço Social do Comércio), no centro da cidade de São Paulo, onde começava mais um curso de português para refugiados de guerras e tragédias humanitárias, dentro de um programa de aculturação com o Brasil. Na ocasião, o jovem acabava de completar dez dias no país. [...] Expressando-se em inglês (a maioria), ou francês e espanhol, a atual leva de refugiados tem como primeira missão aprender português. A professora lembra-se de um aluno nigeriano que viveu dias de euforia na chegada. "Depois de um mês, ele entrou em depressão severa. Percebeu que estava sozinho (perdeu todos os vínculos com parentes na África), que obter trabalho era complicado. Tivemos de ampará-lo seriamente.".2.4.13 Sincretismo Religioso É a mistura, a fusão, a assimilação de um ou mais elementos culturaisentre religiões diferentes, ou seja, determinada religião se utiliza dos mitos e ritosreligiosos distintos aos seus. Exemplo disto pode ser verificado no processo históricorelativo ao tráfico de escravos para o Brasil. Como é sabido, uma das característicasprofundamente marcante que impulsionou a colonização brasileira foi o tráfico deescravos. Na África, os negros viviam em regiões distintas, cada grupo com os seuspróprios valores culturais, inclusive do ponto de vista da religiosidade. Aquichegando, foram impedidos de cultivarem suas religiões e obrigados a praticar aimposta pelo branco europeu, qual seja, o catolicismo. No entanto, como forma deresistência e preservação da religião africana, os africanos frequentavam os ritoscatólicos, mas mantinham secretamente os seus, misturando os elementos dareligião africana aos elementos da cultura católica. A Umbanda é exemplo disso. Cabe destacar que o sincretismo religioso não está presente somente nacultura africana, conforme abaixo ilustrado:
  • 22 Chá do Santo Daime transborda para outros cultos Folha de São Paulo, Revista da Folha, dezembro de 2007. O Santo Daime - culto apoiado no catolicismo popular e conhecido pelo consumo de um chá chamado ayahuasca - está em uma terceira onda de expansão. Após sair da floresta amazônica para chegar aos grandes centros e depois chegar ao exterior, agora é a vez do culto se fundir com outras religiões, em especial o hinduísmo e a umbanda, relata Roberto de Oliveira. Para o antropólogo Edward MacRae, 61, da Universidade Federal da Bahia, assim como outras religiões, o Santo Daime também tem a propriedade de aglutinar elementos de outras crenças, como umbanda, traços indígenas, cristãos, afro e esotéricos, ocidentais ou orientais. "A ayahuasca facilita a experiência mística. E é justamente essa experiência, sem a intermediação da figura de um sacerdote, que está colaborando para a sua expansão", diz o professor. Coordenador do Conub (Conselho Nacional da Umbanda do Brasil) no Estado de São Paulo, Pai Medeiros, 39, não condena a mistura. Ele diz que a umbanda é inclusiva, abrange muitas vertentes e que a umbandaime - mistura da umbanda com o Santo Daime - é uma delas. "Qualquer forma de manifestação do sagrado é respeitada."2.4.14 Relativismo Cultural (RC) O conceito de “relativismo cultural” está intimamente associado ao amploconceito de diversidades e ao de alteridade, bem como aos julgamentos de valoresdicotômicos: bom e mal, permitido e proibido, certo e errado, feio e bonito, fé eeresia, moral e imoral, entre outros. Como é sabido, qualquer tentativa de propor aum determinado grupo social que exerça crenças, valores e comportamentossemelhantes aos nossos, estaremos incorrendo certamente em práticaspreconceituosas, portanto, etnocêntricas. Há de se considerar que o que é válido everdadeiro para um determinado grupo social não se faz necessariamente realidadepara os demais. Cabe-nos perguntar: Qual é o criério para se definir econsequentente, julgar a realidade de terceiros? Qual é o critério utilizado para seestabelecer aquilo que é melhor (nós, o nosso) em contraposição ao pior (eles,deles)? Exemplos do não exercício acerca do conceito de relativismo culturalestiveram presentes no Brasil quando do processo de colonização que envolvia de
  • 23um lado os europeus e os padres-jesuítas e de outro, os indígenas vistos pelo grupoeuropeu sob duas óticas etnocêntricas.2.4.14.1 Selvagens, Brutos e Ignorantes Os índios eram concebidos como animais vestidos em pele humana,incapazes, feios, fleumáticos (lentos, preguiçosos). Viviam em uma sociedade semEstado, sem leis, sem organização social, moral ou política. Eram imorais, andavamnus e praticavam a poligamia, desrespeitando, desta forma, o sagrado significado dafamília e dos bons costumes: [...] as pessoas deste país, por sua natureza, são tão ociosas, viciosas, de pouco trabalho, melancólicas, covardes, sujas, de má condição, mentirosas, de mole consistência e firmeza [...] Nosso senhor permitiu, para os grandes, abomináveis pecados dessas pessoas selvagens, rústicas e bestiais, que fossem atirados e banidos da superfície da terra. (OVIEDO apud LAPLANTINE, 2000).2.4.14.2 Dóceis, Ingênuos, Bestializados, Sem Razão, Sem Raciocínio Aqui os índios eram inocentes, pueris, incapazes e de pouca inteligência,necessitando ser conduzidos a uma vida dignamente humana: ”eles são afáveis,liberais, moderados [...] todos os nossos padres que frequentaram os selvagensconsideram que a vida se passa mais docemente entre eles do que entre nós” [...](OVIEDO apud LAPLANTINE, 2000). Como visto, para ambas as situações caberia aos europeus - “seressuperiores” - “domesticar” e, para tanto, seria necessário propiciar aos índios, demodo imediato, uma alma, conferindo-lhes, portanto, uma religião - evidentemente, acatólica. Apresentamos abaixo um trecho da Carta de Pero Vaz de Caminha8 quetrata disso: “[...] parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a suafala e eles a nossa, seriam logo cristãos, visto que não têm nem entendem crença8 A íntegra da Carta do Descobrimento do Brasil – séc. XVI, de Pero Vaz de Caminha, pode serverificada em http://www.cce.ufsc.br/.
  • 24alguma, segundo as aparências. E, portanto, se os degredados que aqui hão de ficaraprenderem bem a sua fala e eles a nossa, não duvido que eles, segundo a santatenção de Vossa Alteza, se farão cristãos e hão de crer na nossa santa fé, à qualpraza a Nosso Senhor que os traga, porque certamente esta gente é boa e de belasimplicidade. E imprimir-se-á facilmente neles todo e qualquer cunho que lhesquiserem dar, uma vez que Nosso Senhor lhes deu bons corpos e bons rostos,como a homens bons. E o fato de Ele nos haver até aqui trazido, creio que não foisem causa. E portanto, Vossa Alteza, pois tanto deseja acrescentar à santa fécatólica, deve cuidar da salvação deles. E aprazerá Deus que com pouco trabalhoseja assim.”.2.4.15 Representações Sociais São as formas pelas quais os distintos grupos sociais se vêem e sevalorizam social e culturalmente. Tais considerações podem ser positivas ounegativas, sendo formadas pela ação do consciente coletivo. O consciente coletivo éconstruído a partir da soma dos conscientes individuais, ou seja: um indivíduo seidentifica com o outro devido a vários fatores entre eles: sua forma de pensar, suavisão de mundo, seus valores, suas crenças e assim sucessivamente. Desta forma,surge um grupo maior, um grupo social onde seus membros comungam de ummesmo pensamento. Esse grupo - mediante a soma das variáveis sociais,econômicas e ideológicas - multiplica-se e acaba por encontrar-se com demaisgrupos que têm representações sociais distintas das suas. Os valores, osestereótipos e os preconceitos são produzidos e reproduzidos no interior dessesgrupos, como também aplicados cotidianamente. Expressões como: “a maioria dosnegros é marginal”, “nordestino é preguiçoso”, “homossexual é imoral” e “mulher émenor capaz do que os homens”, entre outras, são frequentemente ouvidas. O artigo abaixo exemplifica um dos comportamentos das RepresentaçõesSociais em nosso cotidiano: Caio Blat relata o preconceito que sofreu em São Paulo ao incorporar características de um jovem do Capão Redondo, na periferia da cidade
  • 25Folha de S. Paulo, Ilustrada, 15/04/2008.Mônica BergamoNuma tarde de domingo [...] o ator Caio Blat estava caminhando narua São Carlos do Pinhal (paralela à avenida Paulista), onde mora,quando começou a chover. Buscou abrigo "em um restaurante"furreba” [...] Resolveu comer alguma coisa e sentou-se em umamesa no meio do salão. O ator está com aparência bem diferentedaquela de "mocinho" das novelas da TV Globo. Para estrelar o filme"Bróder!", do diretor Jeferson De, que acaba de ser rodado na regiãodo Capão Redondo, em SP, ele incorporou características dopersonagem Macu (inspirado em "Macunaíma"), um rapaz deperiferia que é branco, se vê como negro e acaba no crime. Caio [...]raspou o cabelo [...] e fez até um risco na cabeça com gilete,imitando o visual que, diz, "surgiu na cadeia e depois foi imitado nafavela". À mesa, naquele domingo, ele foi surpreendido por umfuncionário do restaurante. "Era o gerente [...] Encostou e falouassim: "Eu não vou ter problema com você não, né?", conta. O atorperguntou a que tipo de problema ele se referia. "Você sabe muitobem. Eu te conheço, eu te conheço. Vai querer alguma coisa?""Quero um suco de laranja e um galeto", respondeu. "O que vocêquiser, você pede no caixa." Caio perguntou se os outros clientestambém precisaram fazer aquilo. O gerente repetiu as instruções e odeixou sozinho na mesa. [...] Em outra ocasião, foi barrado na portagiratória de um banco. "Vi como é ser tratado como suspeito.". Porsugestão da coluna, Caio Blat aceitou voltar ao Arcadas Galeto...desta vez, ele veste camiseta branca, calça jeans e havaianas azuis.O risco na testa é quase invisível, porque seu cabelo começa acrescer. "Tem que pegar ficha no caixa ou pode pedir na mesa?", diz,após se sentar no mesmo assento que ocupou um mês antes ereceber o cardápio. "Pode ser na mesa", responde o garçom. Destavez, é atendido. Uma garota o reconhece, pede autógrafo e tira fotos.O garçom passa, põe a mão em seu ombro e diz: "É bom serfamoso. Todo mundo vem falar com você". [...] Depois que Caiorecebe o suco, o repórter chama o gerente. [...] Reconhece o ator?"Sim, ele esteve aqui há um mês", responde. E por que não foiatendido na ocasião? "Foi um equívoco. A gente não chegou a umentendimento e só percebemos depois que era ele. [...] Caioargumenta que ficou "dez minutos na mesa, esperando". "Eu estavafazendo um filme no qual vivia um marginal e tive a nítida sensaçãode que não fui atendido pela minha aparência", diz Caio ao gerente."Eu até perguntei se não te conhecia", responde Paulo Roberto. [...]Fiquei pensando se vocês já foram assaltados aqui, se achou que euera algum bandido." "Graças a Deus, nunca aconteceu", diz ogerente, [...] O ator cancela o pedido feito no restaurante e pega ocaminho de casa.
  • 263 AS PRINCIPAIS ESCOLAS DO PENSAMENTO ANTROPOLÓGICOCLÁSSICO3.1 AS PRINCIPAIS ESCOLAS Entre os séculos XVI e XIX (antes do surgimento da Antropologia comociência), os relatos sobre as especificidades culturais dos povos que aqui habitavam(comportamentos, crenças, costumes) e de seu habitat (fauna, flora) eramproduzidos de forma especulativa pelos primeiros missionários, viajantes ecomerciantes que aqui estiveram. A “Carta do Descobrimento” (1500) de Pero Vazde Caminha é uma referência literária deste período3.1.1 Escola Evolucionista: Século XIX3.1.1.1 Características Principais A escola evolucionista - e eugênica - baseada nas concepções deFrancisco Dalton (“Sociedade de Educação Eugênica”, 1908) acreditava haversuperioridade entre as raças. A sociedade estaria dividida em dois grupos: os“primitivos, inferiores, incapazes”, em contraposição aos “civilizados, superiores,capazes”. Entendia-se que o progresso viria mediante a evolução do estado primitivopara o estado mais “civilizado”, ou seja, uns chegariam aos estados de civilização eaos outros, devido à sua incapacidade nata, o mesmo não ocorreria. Como visto, o pensamento evolucionista e eugênico despreza edesqualifica o amplo conceito de diversidades, de pluralidades, estimulando, dessaforma, às práticas racistas, sexistas e xenófobas.
  • 273.1.1.2 Referências Literárias • Herbert Spencer - “Princípios da Biologia” (1864); • Edward Tylor - “A Cultura Primitiva” (1871); • James Frazer - “O Ramo de Ouro” (1890). Antes de seguirmos com as definições acerca das escolas antropológicas,segue abaixo interessante artigo acerca da visita de Charles Darwin ao Brasil no anode 1832. Grupo refaz passos de Darwin no Brasil Para cientista, brasileiros eram desprezíveis Rio de Janeiro, 23/03/2008. Ítalo Nogueira Se a floresta tropical brasileira provocou "deleite" em Charles Darwin, o naturalista não teceu muitos elogios aos brasileiros. "Miseráveis" e "desprezíveis" foram algumas das classificações dadas por ele durante a sua temporada no país. Logo no início, no Rio, Darwin se queixava da burocracia para conseguir a autorização para viajar pelo interior do Estado, exigida aos estrangeiros. No dia 6 de abril, ele escreveu: "Nunca é muito agradável submeter- se à insolência de homens de escritório, mas aos brasileiros, que são tão desprezíveis mentalmente quanto são miseráveis as suas pessoas, é quase intolerável. Contudo, a perspectiva de florestas selvagens zeladas por lindas aves, macacos e preguiças, lagos, roedores e aligátores fará um naturalista lamber o pó até da sola dos pés de um brasileiro.". Durante a viagem, queixa-se da falta de opções de comida na estalagem em Maricá. "À medida que a conversa prosseguia, a situação geralmente se tornava lastimável", escreveu, queixando-se das repetidas respostas "Oh, não, senhor" após pedir peixe, sopa e carne seca. "Se tivéssemos sorte, depois de esperar umas duas horas, conseguíamos aves, arroz e farinha." Até o Carnaval baiano o incomodou. "As ameaças consistiam em sermos cruelmente atingidos por bolas de cera cheias de água [...] Achamos muito difícil manter nossa dignidade andando pelas ruas.” Durante a viagem, Darwin relata com horror as condições a que os escravos eram submetidos. Relata o caso em que um dono de fazenda, em razão de uma briga, "estava prestes a tirar todas as mulheres e crianças da companhia dos homens e vendê-las separadamente num leilão". "Não creio que tivesse ocorrido ao
  • 28 proprietário a idéia de desumanidade de separar trinta famílias”. "Ele tinha um posicionamento preconceituoso. Apesar de ser abolicionista, ele tinha uma visão aristocrata", disse Ildeu Moreira, do Ministério da Ciência e Tecnologia.3.1.2 Escola Sociológica Francesa: Século XIX/ XX3.1.2.1 Características Principais A Escola Sociológica Francesa defendia e aplicava a investigação dos“Fatos Sociais Totais”, ou seja, entendia que a busca pelo conhecimento dos grupossociais deveria partir da interação dos elementos biológicos (físicos) com ospsicológicos (emocionais) aos sociológicos (fenômenos sociais) e aos culturais(diversidades/pluralidades). Para tal processo investigativo, é criada uma metodologia denominada“Regras do Método Sociológico”.3.1.2.2 Referências Literárias • Émile Durkheim - “Regras do Método Sociológico” (1895); • Marcel Mauss - “Ensaio sobre a Dádiva” (1923-1924).3.1.3 Escola Funcionalista: Século XX (Anos 20)3.1.3.1 Características Principais Privilegia a produção da monografia advinda da aplicação das técnicasvoltadas à observação participante (etnografia), bem como da sistematização dasinformações coletadas (etnologia).
  • 29 Defende e desenvolve estudos voltados às diversidades culturais,entendendo que elas exercem funções sociais. Busca entender as formas defuncionamento de determinadas sociedades.3.1.3.2 Referências Literárias • Bronislaw Malinowski - “Argonautas do Pacífico Ocidental” (1922); • Radcliffe Brown - “Estrutura e Função na Sociedade Primitiva” (1952).3.1.4 Escola Culturalista: Século XX (Anos 30)3.1.4.1 Características Principais Entende que, por serem as sociedades diferentes entre si, são distintastambém as respectivas realidades culturais, procurando, dessa forma, investigar oscontextos sociais e políticos em que são desenvolvidas. Investiga e compara osaspectos subjetivos, emocionais e de personalidade de seus atores. Buscaestabelecer conexões/comparações entre aspectos culturais e aspectos dapersonalidade.3.1.4.2 Referências Literárias • Franz Boas - “Raça, Língua e Cultura” (1940); • Margaret Mead - “Sexo e Temperamento em Três Sociedades Primitivas” (1935); • Ruth Benedict - “Padrões de Cultura” (1934); “O Crisântemo e a Espada” (1946).
  • 303.1.5 Escola Estruturalista: Século XX (Anos 40)3.1.5.1 Características Principais Procura entender de que maneira os homens concebem, estruturam,legitimam e reproduzem as especificidades culturais. Investiga as estruturasfamiliares e de parentesco.3.1.5.2 Referências Literárias • Claude Lévi-Strauss - “As Estruturas Elementares do Parentesco” (1949) e “Pensamento Selvagem” (1962).3.1.6 Escola Interpretativa: Século XX (Anos 60)3.1.6.1 Características Principais Privilegia a compreensão minuciosa acerca do valor, do significado e dainterpretação que cada grupo social atribui à sua própria cultura.3.1.6.2 Referências Literárias • Clifford Geertz: “A Interpretação das Culturas” (1973) e “Saber Local” (1983).
  • 313.1.7. Escola Crítica (Pós-moderna): Século XX (Anos 80)3.1.7.1Características Principais Nos anos recentes, os antropólogos se enveredam para uma visão críticaacerca do “saber antropológico”, ou seja, revêem os fundamentos das escolas, oselementos teóricos e os metodológicos que a compõem.3.1.7.2 Referência Literária • Michel Taussig: “Xamanismo, colonialismo e o homem selvagem”, (1987).3.2 OS CINCO POLOS DO ESTUDO ANTROPOLÓGICO3.2.1 Antroplogia Simbólica Os símbolos são objetos de investigações, pois revelam múltiplassignificações, sobretudo, nos aspectos religiosos, mitos e ritos. Questionam: “Qual éo significado de tal comportamento?, ”Qual o significado disto ou daquilo”? e “Qual éo valor deste símbolo?”.3.2.2 Antropologia Social Aqui, as variáveis sociais, econômicas e de poder são consideradas. Osrelacionamentos sociais, intergrupais, são considerados. A Antropologia Socialinclina-se sobre os seguintes questionamentos: “A que classe social petence?” e“Qual é o nível de interação deste grupo social”?
  • 323.2.3 Antropologia Cultural Preocupa-se minuciosamente com a diversidade cultural. Investiga a suaessência, as funções dos sentidos, dos símbolos e dos valores subjetivos(psicológicos) e a interação cultural e social.3.2.4 Antropologia Estrutural e Sistêmica Interessa-se pela compreensão acerca do modo pelo qual a sociedade -a comunidade, o grupo social - está estruturada. Considera a interação das variáveislinguísticas, econômicas, sociais e psicanalítica. É absolutamente contrária aosjuízos de valores dicotômicos (certo/errado); defende o saber antropológicoenquanto teoria epistemológica.3.2.5 Antroplogia Dinâmica Aqui, os conhecimentos e práticas sociológicas e antropológicas seaproximam. A linha que separa ambas as ciências é extremamente a ponto de serdefinida por alguns sociólogos/antropólogos como “conhecimento sociológico”.Questiona: “Qual é a dinâmica social de tal grupo?” Observações: Os cinco polos apresentados acima não são excluentes,havendo, inclusive, inter-relacionamento entre eles.
  • 33PARTE II – CLÁSSICOS DA ANTROPOLOGIA BRASILEIRA Os capítulos a seguir tratarão de dois clássicos da Antropologia (eSociologia) Brasileira: “Casa Grande e Senzala: Formação da Família Brasileira sobo Regime de Economia Patriarcal”, de Gilberto Freyre, e “O Povo Brasileiro: aFormação e o Sentido do Brasil”, de Darcy Ribeiro. Tem como objetivo refletir acerca da principal questão que ambos autoresse fizeram: “Quem é o povo brasileiro?”. As respostas fornecidas por Freyre eRibeiro são amplas, podendo ser buscadas sob os pontos de vistas econômicos,políticos, sociais, antropológicos, históricos ou populacionais. Aqui, debruçaremos sobre a especificidade da formação populacional emais extamente sobre o processo de miscigenação que envolveu - e envolve - apopulação brasileira. Para tanto, ocupar-nos-emos basicamente das discussõesvoltadas ao branco europeu, ao negro africano e ao índio.
  • 344 APRESENTAÇÃO À OBRA “CASA GRANDE E SENZALA”, DEGILBERTO FREYRE Todo brasileiro traz na alma e no corpo a sombra do indígena ou do negro. Gilberto Freyre4.1 GILBERTO FREYRE4.1.1 Vida e Obra Gilberto Freyre nasceu em Recife, no ano de 1900, e faleceu em 1987, namesma cidade. Foi antropólogo, sociólogo e escritor. De renome internacional, éuma referência fundamental quando se objetiva estudar a formação da sociedadebrasileira. Autor de vários livros com a temática regional, cultural, política eeconômica, publicou em 1933 o clássico “Casa Grande e Senzala: Formação daFamília Brasileira sob o Regime de Economia Patriarcal”, sobre o qual nosocuparemos adiante.4.1.2 Casa Grande e Senzala Considerada uma obra de especial excelência, Gilberto Freyre inova noconteúdo e no formato da metodologia utilizada. No conteúdo, trata dos elementoseconômicos, políticos, humanos e regionais responsáveis pela gestaçãopopulacional brasileira. Segundo Freyre (2005), “vinham sendo acumulados estudossobre a formação do Brasil, mas faltava um estudo convergente, que além de serhistórico, geográfico, geológico, fosse um estudo social, psicológico, umainterpretação [...] Creio que a primeira tentativa nesse sentido representou umserviço de minha parte.”. No formato, Gilberto Freyre buscou no interior de sua própria família oselementos para desenvolver suas pesquisas - Freyre era descendente de donos de
  • 35escravos. Somados a isso, desenvolveu estudos junto ao Museu Afro-Brasileiro NinaRodrigues na Bahia e visitou a África, Portugal e os Estados Unidos. Após anos deestudos profundos - no Brasil e no exterior - sobre sistemas patriarcais, processoscolonizadores, relações escravocratas e explorações negras e indígenas, concluiu:"o que houve no Brasil foi a degradação das raças atrasadas pelo domínio daadiantada [...] os índios foram submetidos ao cativeiro e à prostituição. A relaçãoentre brancos e mulheres de cor foi a de vencedores e vencidos”. Aqui, iremos nos ater às discussões acerca da formação populacional.4.1.2.1 Como Ocorreu a Formação da Sociedade Brasileira? Logo no início de seu estudo, Gilberto Freyre discute que o Brasil, paísmiscigenado, foi formado pelo cruzamento de etnias distintas ou seja: pelo brancoeuropeu, pelo indígena e pelo negro africano. Os resultados mais expressivos sãoverificados, até os dias atuais, na constituição do caboclo ou mameluco (branco +índio), mulato (branco + negro) e cafuzo (índio + negro). O povo mulato foi gerado sob duas égides: a econômica - era precisopovoar o Brasil, era necessário obter mão de obra para o cultivo da terra - e a“sexual” - os portugueses quando aqui chegaram não trouxeram consigo suasesposas, vieram sozinhos, passando a se relacionar sexualmente primeiro com asíndias (nativas) e, mais tarde, com as negras trazidas da África. São várias as contribuições de Gilberto Freyre para a compreensãoacerca do processo de gestação do povo brasileiro. A primeira delas, como atestamos estudiosos dessa questão, é que Freyre desqualifica de modo exaustivo, brilhantee científico, as teorias defendidas pela Escola Antropológica Evolucionista (já tratadaanteriormente), ou seja, desmistifica o conceito de determinação biológica, desuperioridade racial/étnica de quaisquer sociedades ou grupos humanos. Ao invés disto, Freyre se debruça sobre a Antropologia Cultural(igualmente discutida), enaltecendo as especificidades culturais dos povos quecompõem a sociedade brasileira (brancos, negros e índios), bem como os resultadospositivos advindos da miscigenação.
  • 364.1.2.2 O Indígena Segundo Freyre, quando da chegada ao Brasil, os europeus, inicialmenterepresentados pelos portugueses, depararam-se com duas belezas naturais: de umlado, por uma belíssima paisagem natural e, de outro, por um povo nativo que ahabitava (os indígenas). Os índios construíam suas aldeias ao longo da floresta, produzindo ereproduzindo a sua cultura, seus mitos e ritos e relacionando-se de modo particularentre si, bem como com os elementos da natureza. No que se refere à composição do povo brasileiro, o autor destaca opapel relevante ocupado e desenvolvido pela mulher indígena. Foram elas asresponsáveis pela gestação e reprodução dos “índios puros” que aqui habitavam,bem como pela primeira geração de povos miscigenados - diversidade étnica -representada pelos mamelucos, frutos das relações sexuais entre brancos e índios.Depois, com a chegada dos africanos no Brasil, surgiu o grupo étnico denominadocafuzos, resultado da relação interétnica entre negros e índias e vice-versa. Aquiloque mais tarde Darcy Ribeiro denominou por “criatório de gente”! Freyre enaltece a beleza das mulheres indígenas que, segundo ele, logode pronto encantaram os portugueses recém-chegados: a sexualidade das índias -manifestada, sobretudo, pela exposição de seus corpos nus - despertaram os“desejos carnais” dos europeus. Por outro lado, Freyre critica a interpretaçãoequivocada e preconceituosa dos europeus sobre um traço da cultura indígena, ouseja, a prática da poligamia (trata-se de um sistema familiar próprio, não cabendo,portanto, juízos de valores ou julgamentos morais). No que tange aos aspectos culturais, Freyre destaca: “é da cunhã quenos veio o melhor da cultura indígena. O asseio pessoa, a higiene do corpo, o milho,o caju, o mingau [...] o brasileiro de hoje, amante do banho e sempre de pente nobolso, o cabelo brilhante de loção ou de óleo de coco, reflete a influência de tãoremotas avós. Ela nos deu, ainda, a rede em que se embalaria o sono ou a volúpiado brasileiro”. De outra forma, Freyre trata também das violências físicas, morais eculturais que vitimaram a população indígena, podendo ser exemplificadas nainvasão de seus territórios, na escravização praticada pelos imigrantes europeus
  • 37que os forçavam ao trabalho na terra e nas dilapidações religiosas pelo processo deevangelização (catequese) de responsabilidades dos padres jesuítas. Estes, doponto de vista cultural e religioso, entendiam que os índios eram apenas animaisselvagens, primitivos e sem alma, devendo, portanto, ser humanizados nos moldeseuropeus, ou seja, nos ditos da religião católica (juízo de valor). Para tanto, a título de facilitar o processo de doutrinação, fora necessáriorever o processo de comunicação e, desta forma, o Tupi, língua nativa, foitransformada pelos padres em tupi-guarani - a nova língua brasileira. Além disso, oculto à natureza, ao Deus Maíra, o andar nu, entre outros, foram considerados - doponto de vista etnocêntrico - comportamentos imorais, vulgares e inferiores. Do ponto de vista econômico, o índio não se adaptou ao trabalho escravoe nem tão pouco cedeu facilmente ao processo de aculturação imposto pela IgrejaCatólica. A resistência da cultura indígena resultou em disputa por terras, fugas deseu próprio habitat - compuseram junto aos africanos os quilombos -, doençasmortais, mortes e destruição de famílias inteiras. Frente a isso, para o cumprimento de seus propósitos, entendem oseuropeus ser necessário substituir a mão de obra indígena pela mão de obra negra,dando início, dessa forma, ao processo de escravidão africana. Segue abaixo artigoque trata de uma das consequências negativas relativas à escravização indígenacujos desdobramentos são verificados nos dias atuais. Roraima vira palco de guerra até entre grupos de índios Folha de São Paulo, Brasil, 06 de abril de 2008. Andrezza Trajano José Eduardo Rondon Pontes incendiadas, máquinas agrícolas bloqueando acessos às estradas, índios pintados para a guerra. Este foi o cenário encontrado pela reportagem ao trafegar no interior da terra indígena Raposa/Serra do Sol, em Roraima, nos últimos dias [...] O clima de tensão e violência na área aumentou após a chegada a Roraima de agentes federais que farão a retirada dos não-índios que ainda permanecem na terra indígena. Na sexta-feira, desembarcaram em Boa Vista integrantes da Força Nacional de Segurança. [...] O "epicentro" do conflito é a vila do Surumu, na região de Pacaraima, onde há cerca de 300 famílias, a maioria não-índia [...] De um lado da vila estão concentrados os índios favoráveis à homologação, que defendem que a terra deve ser exclusivamente dos indígenas. [...] "Queremos viver no que é nosso, em paz, sem interferência", diz o coordenador do CIR, Dionito de Souza. Do outro
  • 38 lado, estão os índios contrários à medida do governo federal e que defendem a permanência de não-índios na área, inclusive os arrozeiros. [...] Para a índia Deise Maria Rodrigues, contrária à homologação, a luta dos moradores é pelo "desenvolvimento". "Não compartilhamos com essa política do governo federal de nos isolar, de nos colocar sob a tutela da Funai e de nós termos que pedir bênção aos índios do CIR. Somos brasileiros também e queremos investimentos e a garantia dos nossos direitos constitucionais." Os grupos rivais se tratam como inimigos. Qualquer tipo de relacionamento é proibido. [...]4.1.2.3 O Negro Africano no Brasil Dando continuidade aos estudos acerca da composição da populaçãobrasileira, Gilberto Freyre discute o papel exercido pela mulher negra africana que,segundo ele, substituiu a mulher indígena nos ambientes das casas grandes, bemcomo nos interiores das senzalas. Para habitar as casas grandes, os senhores, escolhiam aquelas queconsideravam ser as mais belas e sensuais, a fim de desenvolverem as funçõesdomésticas, cuidados com as crianças, bem como para servi-los sexualmente. Quanto a esta última “função”, cabe destacar que as mulheres negraseram vítimas dos abusos sexuais constantes praticados pelos senhores, resultandono elevado grau de contaminação pelas doenças sexualmente transmissíveis, entreelas a sífilis. Em contrapartida, como “medida depurativa” para as DSTs, ocupavam-se das meninas negras, uma vez que acreditavam que a cura das doenças venéreasestava em manter relação sexual entre “uma negrinha virgem” e o homemcontaminado. Além disso, sofriam também com as violências praticadas pelas esposasenciumadas: corpos queimados, dentes arrancados e espancamentos eram práticasconstantes e recorrentes. Das relações sexuais ocorridas entre senhores e escravas nasciam osmulatos que, segundo Freyre, eram “gerados nas casas grandes e paridos nasenzala”. Isso posto, e a fim de nos debruçarmos com mais vagar sobre osconceitos de Identidade Étnica e Famílias Miscigenadas, utilizaremos a obra clássica“O Povo Brasileiro”, de Darcy Ribeiro.
  • 395 APRESENTAÇÃO À OBRA “O POVO BRASILEIRO”, DE DARCYRIBEIRO Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Como descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre marcados pelo exercício da brutalidade sobre aqueles homens, mulheres e crianças. Esta é a mais terrível de nossas heranças. Mas nossa crescente indignação contra esta herança maldita nos dará forças para, amanhã conter os possessos e criar aqui, neste país, uma sociedade solidária. Darcy Ribeiro5.1 DARCY RIBEIRO5.1.1 Biografia Darcy Ribeiro nasceu em 1922, na cidade de Montes Claros, em MinasGerais, e faleceu em Brasília, Distrito Federal, em 1997. Foi antropólogo, professor eescritor. Entre as várias atividades - todas de consideráveis envergaduras -dedicou-se aos estudos relacionados à Educação e à Questão Indígena: fundou oMuseu do Índio, criou a Universidade de Brasília, onde foi o primeiro Reitor, elaborouo “Projeto Caboclo”, voltado ao povo da floresta amazônica, e escreveu os romances“Maíra”, “O Mulo” e demais.5.1.2 O Povo Brasileiro O objetivo central da obra (prima) “O Povo Brasileiro” é oferecer ao leitor aresposta para a questão inicialmente formulada, qual seja: “Quem é o Povo
  • 40Brasileiro?”. Para tanto, Darcy Ribeiro, inicia sua reflexão discutindo a composiçãoétnica da população brasileira, tratando, portanto, do processo da miscigenação. Assim como Freyre (2005), Ribeiro apresenta os grupos étnicos cafuzo(negro + índio), mameluco (branco + índio) e mulato (negro + branco). Ao tratar dos primórdios da colonização brasileira, logo de pronto, discuteo “choque cultural” ocorrido entre os índios e os europeus. Como é sabido, os índiosforam os primeiros seres humanos que aqui nasceram e que aqui habitaram (habitatnatural) e, por essa razão, têm a gênese de sua cultura. A contradição cultural discutida por Freyre se manifestava de um lado,pelos europeus que - mediante suas visões etnocêntricas - consideravam-se o povocivilizado e desenvolvido quando comparados àqueles que julgavam bárbaros eselvagens, indagando-se entre outras: “Que animais são esses que devoram unsaos outros?” (referindo-se à antropofagia ou canibalismo), “Que tamanhaimoralidade é essa?” (referindo-se ao fato de não usarem roupas). De outro lado,estavam os indígenas surpreendidos e atônitos, pois aquela era a primeira vez emtoda a sua história que se deparavam com homens de pele clara, vestidos,gesticulando e falando alto em uma língua incompreensível. Era algo totalmenteinusitado, chegando a julgar que aquele cenário representava um castigo divino: [...] o que é aquilo que vem? Eles (os índios) olhavam, encantados com aqueles barcos de Deus, do Deus Maíra chegando pelo mar grosso. Quando chegaram mais perto, se horrorizaram. Deus mandou pra cá seus demônios, só pode ser. Que gente! Que coisa feia! Porque nunca tinham visto gente barbada – os portugueses todos barbados, todos feridentos de escorbuto, fétidos, meses sem banho no mar. (RIBEIRO, 1995). Depois, uma vez aqui instalados, os europeus concluíram que as terrasbrasilis significavam para eles um verdadeiro “paraíso”, quer do ponto de vistasexual (“encantamento” pelas índias associado ao “cunhadismo” e,consequentemente, à reprodução da mão de obra), quer do ponto de vistaeconômico (ávidos pelo enriquecimento proveniente da exploração do pau-brasil,logo era necessário, como diz Darcy Ribeiro, “povoar o país”). Assim, ora concebendo os índios como “bestializados” e inocentes e oracomo vadios, preguiçosos - e, portanto, inúteis para o trabalho - entendiam osportugueses que algo deveria ser feito para a conquista de seus objetivos
  • 41econômicos mercantis. Para tanto, partiram para evangelização e escravizaçãoindígena. De fato, tratava-se do “moinho de gastar gente”, como discute DarcyRibeiro. Um dado interessante que favorecia “a conquista dos selvagens” estavano fato de que os portugueses traziam consigo utensílios de viagens - espelhos,facas, facões, machados - que encantavam e seduziam os índios. As consequênciasdisso foram negativas, uma vez que o desejo e a disputa por esses objetos geraram,entre outras, situações de violências entre eles: “[...] para o índio passou a serindispensável ter uma ferramenta. Se uma tribo tinha uma ferramenta, a tribo do ladofazia uma guerra pra tomá-la”. (RIBEIRO, 1995). Guerras, escravização física e moral, mortes, doenças, invasões eevasões de suas próprias terras, desmonte cultural e dilapidações de famílias.Muitas foram as violências causadas pelo europeu ao povo indígena no intento decolonizar o país, o que de fato justificam as palavras de Darcy Ribeiro: “o Brasil, éformado por um povo mestiço, lavado em sangue negro, em sangue índio, sofrida etropical [...]” As discussões acerca da posse e manutenção das terras indígenas, bemcomo a preservação de suas culturas, geram polêmicas entre os estudiosos daquestão e a população em geral, não sendo incomum a ocorrência de discordânciase divisões entre eles. O artigo abaixo trata disso: Mineração implica degradação social, dizem especialistas Ana Paula Boni Folha de São Paulo, 24/11 2007. Especialistas alertam que empreendimentos para exploração mineral instalados em terras indígenas podem causar impactos tão grandes nos povos que, se não implicarem apenas sua degradação social e perda de território, podem mesmo levá-los à extinção. [...] O antropólogo Rogério Duarte do Pateo, do ISA (Instituto Socioambiental), explica que, de acordo com a magnitude da presença da mineradora e a proximidade das aldeias, as populações podem ter hábitos alterados. Isso porque o barulho das máquinas para a extração dos minérios, por exemplo, assustaria animais num local onde a caça é o principal meio de subsistência. Com isso, somado ao dinheiro dos royalties que os índios receberiam, eles passariam a comer produtos industrializados. "Daí vem doença de branco, como diabetes, colesterol, problemas dentários [...] "Os índios encostam a barriga no empreendimento e passam a depender de uma fonte externa" [...] Há também o impacto ambiental, já que
  • 42 toda atividade de exploração de minérios implica uma área de "servidão", onde vivem os funcionários da empresa, complementa o advogado Paulo Machado, do Cimi (Conselho Indigenista Missionário). "Cria-se uma verdadeira cidade para dar suporte à atividade mineradora. Isso por décadas." Dessa forma, o entorno é alterado devido à construção de estradas para escoar a produção, rios podem ser desviados e sua água, poluída. Para o antropólogo Ricardo Verdum, assessor de políticas indigenistas do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos), o maior dos males seria a perda da autoridade do índio sobre seu território, sendo os povos colocados em segundo plano e podendo, inclusive, ter de sair de uma aldeia por conta de uma jazida de minério” [...]"há populações que podem desaparecer", afirma Pateo. [...].5.1.2.1 Os Mamelucos e a Miscigenação Indígena Na continuidade de seus estudos acerca da composição populacional,Darcy Ribeiro discute o delicado tema acerca da miscigenação associado aidentidade étnica e questiona: o mameluco resultado da mistura biológica entrebrancos é índios é considerado e considera-se branco ou índio? Da mesma forma, a criança mameluca - meio européia e meio índia -frequentemente rejeitada pelo pai-sendo somente reconhecida pela mãe, á qualgrupo étnico pertence? Assim, para os mestiços – mulatos e mamelucos - sem identidade étnicaDarcy Ribeiro desenvolve o conceito de “ninguendade” e discute: essa criança deum lado, rejeitada e vista pelos membros da tribo como um estrangeiro, um diferentee de outro, não assumida pelo pai europeu e por vezes ela própria abrindo mão dacultura indígena tornava-se um “Zé Ninguém”. Como visto, a discussão acerca da mestiçagem encerra considerávelcomplexidade. O depoimento abaixo é nesse sentido revelador: Depoimento de Olívio Zeferino, estudante de Filosofia na USP In: O Povo Brasileiro, Darcy Ribeiro Meu nome é Olívio Zeferino. Não sou índio puro, sou mestiço guarani... porque o que causa essa questão de ser ou não ser é essa identidade em que você é metade. Então, por exemplo, você é um mestiço. Tem uns que assumem a cultura indígena. Tem uns que são mestiços e assumem a cultura do branco. Então uma pessoa que nasceu com fisionomia de índio não adianta querer falar que é
  • 43 branca, porque todo mundo vê. Agora, o importante é você assumir, porque mesmo sendo mestiço você pode lutar pelo seu povo. De fato, ao mestiço, de qualquer etnia, cabe o sentimento depertencimento cultural, o pertencimento de “ser brasileiro” uma vez que o Brasil é umpaís, como mostrado, genuinamente mestiço: "Nós, brasileiros, somos um povo emser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui amestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nosfazendo. Essa massa de nativos viveu por séculos sem consciência de si... Assim foiaté se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros” (DarcyRibeiro, 1995). E mais tarde, aprofunda e amplia entre outros, a discussão acerca daidentidade étnica dos mulatos - resultados da mistura entre brancos e negros -associando à sua análise as variáveis sociais como tratado em seguida.5.1.2.2 A População Negra Brasileira: o Negro Africano [...] sob trezentas chicotadas de uma vez para matar ou cinqüenta chicotadas diárias para sobreviver [...] Darcy Ribeiro Como é sabido, o processo da escravidão negra no Brasil teve início comos insucessos obtidos pelos europeus quando viram frustrados seus projetos deexploração da mão e obra indígena. Na África, os negros viviam em regiões distintas com os seus própriosvalores culturais - dança canto, língua, crenças, religiões. Aqui chegando,deparavam-se com a diversidade cultural de seus conterrâneos, bem como com aaqui imposta pelo branco, europeu, colonizador. Ao tratar da composição da população, brasileira é necessário nosreportarmos, ainda que brevemente, às condições de vida existentes nas senzalas eas consequências negativas delas resultantes para os negros nos dias atuais. Paratanto, a fim de balisarmos estas discussões sobre a perspectiva antropológicas,
  • 44ocupar-nos-emos inicialmente das condições de saúde dos escravos e, em seguida,passaremos pelos conceitos acerca do evolucionismo, eugenia e mestiçagem. Como é sabido, na época da escravidão no Brasil, negros e brancosressentiam-se da dificuldade de obter assistência à saúde, já que praticamente nãoexistiam médicos. Para os negros, porém, essa situação se agravava em virtude dodesinteresse dos senhores pela saúde de seus escravos. Viotti (1989), entre outros, mostram que muitas das doenças queacometiam os negros decorriam das suas péssimas condições de vida. Sofriam deproblemas pulmonares, sobretudo de tuberculose, por causa do ambiente insalubredas senzalas. Por estarem submetidos a trabalhos exaustivos e, consequentemente,à estafa, era comum entre os negros das zonas rurais os acidentes nos engenhos,que os levavam à morte ou a mutilações. Para os escravos gravemente doentes -como, por exemplo, os vitimizados pela hanseníase - a solução encontrada pelossenhores era a alforria. Assim, abandonados e inutilizados para o trabalho, restava-lhes a mendicância. Frente à crescente mortalidade de escravos, os senhores entendiam quede nada adiantaria melhorar as condições de vida da população escrava, pois paraeles os negros encontravam-se "em extinção". Mesmo com o fim do tráfico de escravos, em 1850, mantiveram-se osaltos índices de mortalidade infantil, materna e adulta devido, sobretudo, àprecariedade nas condições de moradia, de alimentação e sanitárias. De outro lado, é evidente que os efeitos destruidores advindos daescravidão negra se fazem presentes sobre os seus descendentes nos dias atuais.No entanto, artigo recente nos traz uma nova reflexão acerca das possíveisconsequências negativas de âmbito econômico para os países exportadores ereceptores de escravos, inclusive o Brasil. Reflitamos acerca do artigo abaixo: O preço de um escravo Segundo professor de Harvard, países mais pobres da África hoje são os que mais exportaram escravos no passado Folha de São Paulo, Caderno Mais, 11/05/2008. Ernane Guimarães Neto Estatísticas comprovam: vender escravos faz mal à África. É o que diz Nathan Nunn, 33, professor de economia na Universidade Harvard. Nunn apresentou, no início do ano, resultados de uma
  • 45 pesquisa que correlaciona a exportação de escravos no passado à baixa renda de hoje. A pesquisa usou informações do Projeto Base de Dados do Comércio Transatlântico de Escravos, que reúne documentos diversos, como inventários, arquivos religiosos e registros de compra e venda, relacionados ao tráfico de escravos africanos do século 15 ao 19. No artigo "Efeitos de Longo Prazo do Comércio de Escravos Africanos", publicado no "Quarterly Journal of Economics", Nunn diz que "não apenas o uso de escravos é deletério para uma sociedade, mas a produção de escravos, ocorrida por meio da guerra doméstica, da pilhagem e dos seqüestros, também tem impactos negativos no desenvolvimento". Em seus estudos, o Brasil aparece perfeitamente enquadrado à linha de correlação segundo a qual quanto maior a proporção de escravos na população em 1750, menor o PIB per capita em 2000. E, do outro lado do Atlântico, as regiões africanas que mais exportaram escravos se tornaram os países de menor renda hoje. Apesar de colegas o criticarem por cruzar dados no mínimo heterogêneos, o estudo já é visto nos EUA como prova matemática do dano causado pelo Ocidente à África. Em entrevista à Folha, Nunn não arrisca conclusões práticas. Devem-se reparações à África? "Não estudei esse ponto." Então, no final do século XIX, persistiam epidemias como o mal deChagas, febre amarela, febre tifóide, entre outras. Os intelectuais brasileiros daépoca entendiam que o país estava "doente" e era necessário encontrar a causa e acura desses males; à mestiçagem foi atribuída a responsabilidade por esta situação.Para alguns, o cruzamento constante das raças proporcionaria, através da“depuração”, a pureza da raça branca e, consequentemente, a solução para oproblema. Para outros, diferente disso, a solução “científica” apontada era condenar,conter a mestiçagem. (SCHWARCZ, 1993). A esse respeito, como já apontado em nosso curso, o pensamentoeugênico entendia que a sociedade brasileira se desenvolveria nos mesmos moldesda evolução biológica, ou seja, somente os mais fortes, capazes, superiores,sobreviveram. A eugenia, por sua vez, visava à reprodução dos mais “aptos” e àextinção dos "inferiores". No Brasil, em 1917, foi fundada a Liga Pró-Saneamento e,em 1918, a Sociedade Eugênica de São Paulo. No entanto, o movimento eugênico,após atingir o seu apogeu, declina e retorna nos anos 30, quando da ascensão donazismo, que difundia o arianismo. No início da década de 30, foi criada na cidadedo Rio de Janeiro a Comissão Central Brasileira de Eugenia, que publicava oBoletim da Eugenia. (SOUZA, 2002). No final do século XIX, foram fundadas as Faculdades de Medicina daBahia e do Rio de Janeiro, cabendo-lhes detectar o surgimento de doenças e traçar
  • 46planos para erradicá-las. Expandem-se, na escola baiana, os estudos sobremedicina legal, com o objetivo de investigar menos a doença e mais o doente,através dos estudos da craniologia9. Para se compreender o papel ocupado pelo negro no contextoevolucionista e eugênico e, posteriormente, para a compreensão do comportamentoda miscigenação nos dias atuais, Pereira (1981), elencou três fases distintas paracaracterizá-lo: 1ª. o negro como expressão de raça; 2ª. como expressão de cultura e3ª. como expressão social. Na primeira fase, os "atributos biológicos compõem uma imagemnegativa e patológica do homem de cor perante os outros ramos raciais que formama população". Nina Rodrigues10, iniciou seus estudos sobre os negros na Bahiabaseado em uma visão evolucionista, objetivando identificar quem era "aquelepovo de origem africana" e em qual estágio se encontrava a sua cultura. A segunda fase apontada por Borges Pereira - "O negro enquantoexpressão de cultura" - iniciou-se na década de 20 e, conforme o autor, teve asseguintes características: O negro se infiltra nas reflexões científicas comoexpressão de cultura. Seus atributos raciais são colocados em plano secundário,cedendo lugar às suas peculiaridades culturais. Na década de 30, Gilberto Freyreatribuiu à cultura africana papel fundamental na construção da nacionalidadebrasileira. A terceira fase dos estudos sobre o negro, que Borges Pereiradenominou como "o negro como expressão social", iniciou-se com o fim da SegundaGuerra Mundial, mediante uma reflexão crítica quanto ao "conceito de raça comorealidade empírica - uma revisão de toda a problemática social, política e científicaque historicamente se elaborara em torno da variedade fenotípica dos diferentesgrupos humanos" (PEREIRA, 1981).9 Craniologia: Teorias de matriz evolucionista, foi palco dos estudos antropométricos realizados pelada Antropologia Física ou Biológica. Tratava do tamanho, peso e formato do crânio onde seusresultados definiriam a capacidade intelectual, comportamento social e moral dos distintos gruposraciais.10 Nina Rodrigues: Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906), maranhense, era médico legista,psiquiatra e antropólogo. Desenvolveu as primeiras pesquisas antropológicas de cunho criminal,defensor do pensamento evolucionista. Fundador da Escola Nina Rodrigues que desenvolvia estudosvoltados à antropologia física.
  • 47 Na década de 50, a UNESCO (1950-60) iniciou no país uma série deestudos com o objetivo de investigar como se processava a inserção dos negros nasociedade e, sobretudo, de identificar as barreiras à sua ascensão social11. E por fim, a partir da segunda metade da década de 90, os problemasvoltados à educação e ao mercado de trabalho passam a ser discutidos com maisrigor acompanhados, inclusive, por propostas de políticas públicas. (SANTOS,2000).5.1.2.3 A Mestiçagem e o Item Cor - a “Ninguendade” do Mulato Brasileiro Ao tratar da composição do povo brasileiro, como atesta Darcy Ribeiro, aabordagem científica (já estudada) não pode se furtar da discussão acerca damestiçagem associada à discussão do item cor. O que significa isso? Como é sabido, os Censos Demográficos são pesquisas oficiais, deresponsabilidade do Governo Federal, realizadas pelo IBGE – Instituto Brasileiro deGeografia e Estatística e são executadas de dois modos: 1. Pesquisas Censitárias:os Censos Demográficos ocorrem a cada dez anos sendo de cobertura nacional(todos os estados da federação) e 2. as PNADs – Pesquisa Nacional por AmostrasDomiciliares, ocorrem anualmente, de cobertura nacional, mas mediante umaamostra de domicílios a serem investigados. Ambas - Pesquisas Censitárias e de Amostragens - têm a função detraçar um fiel retrato da composição populacional, respondendo às seguintesquestões: Quem somos? Quantos somos? Quantos nascem? Quais os tipos departos? Quantos nascem? Onde nascem? Quantos morrem? Onde morrem? Quaissão as causas de mortes? Quais são os tipos de doenças? Como são tratadas?Quais são as idades da população? Como se casam? Quais os tipos de uniões(civis, consensuais?) Quantos e como se separam (desquites, divórcios)? Quantosestudam? Quais os níveis educacionais? Onde estudam? Estudam o quê? Quais11 Dentre os autores que fizeram parte do Programa da Unesco havia nomes como: FernandoHenrique Cardoso (Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional - O Negro na SociedadeEscravocrata do Rio Grande do Sul. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1977); Florestan Fernandes (AIntegração do Negro na Sociedade de Classes, São Paulo: Ática, 1978);Oracy Nogueira (Preconceitode Marca e de Origem, São Paulo, 1979); Octavio Ianni (Raças e Classes Sociais no Brasil, 2. ed. Riode Janeiro: Civilização Brasileira, 1972; Roger Batiste (As Américas Negras. São Paulo: Difel, 1974.)
  • 48estabelecimentos educacionais? Público ou privado? - entre outras infinidades dequestões relacionadas às composições e estruturas populacionais, considerando asvariáveis sociais, econômicas, culturais e, preferencialmente, de cor ou étnicas. O item cor é utilizado nos censos demográficos e tem objetivo declassificar a cor/raça de uma população, no entanto, os censos demográficos doIBGE não apresentam uma sistematização a esse respeito. Foi introduzido noscensos em 1872 e compreendia as categorias "livres e escravos", sendo ascategorias de cor branca, preta e parda atribuídas pelos senhores aos seusescravos. Em 1890, as alternativas de cor foram mantidas. Em 1940, 50 e 60 foramadotadas as opções: branca, preta, amarela e parda. No censo de 1970, foi omitidoo quesito cor, que retornou em 1980, com as mesmas variáveis de classificação de1940. O IBGE em 1980 contabilizou mais de uma centena de cores: lilás, ouro,rosada, saraúba, encerada, branca suja, morena roxa, negrota, queimada, sapecadae turva são alguns exemplos do que SANTOS (2001) denomina de "exacerbadoarco-íris brasileiro". Os dois últimos censos, de 1991 e 2000, utilizaram cincocategorias para a identificação de cor: branca, parda, preta, amarela e indígena evaleram-se da autoidentificação. Contudo, o grande número e a variedade de coresmencionadas nas respostas, presentes já no Censo de 1980, evidenciam asdificuldades dos brasileiros para se autoclassificar em relação à sua cor (SANTOS,2001), o que nos remete à discussão acerca da ninguendade do mulato brasileiro. A esse respeito, estudos mostram que a não identidade étnica verificadaem parcela significativa da população negra ocorre devido, principalmente, à baixaautoestima. Esta, por sua vez, resulta das manifestações racistas - veladas ouexplícitas -, bem como dos estereótipos ou representações negativas atribuídas,devendo ser consideradas neste contexto discussões acerca das classes sociais.Nas palavras de Darcy Ribeiro: “É muito duro para um negro fazer carreira no Brasil.Eles são a parcela maior da camada mais pobre que tá lá, no fundo do fundo, e é acamada onde pesa mais o analfabetismo, a criminalidade, a enfermidade.... Aatitude para com o negro e o mulato e com o pobre é muito bruta... frequentementede profundo preconceito e nenhum respeito para com essa gente que fez o Brasil. OBrasil se fez como um moinho de gastar gente”.
  • 495.1.2.4 O Moinho de Gastar Gente: Classes e Contradição de Classes Ao investigar as condições de vida do povo brasileiro, Darcy Ribeiro nãose furta da discussão acerca das acentuadas e perversas contradições de classessociais existentes na sociedade brasileira, onde os grupos mais afetados sãojustamente os descendentes daqueles que construíram o país. Ao se referir a esses, e a título de melhor compreender suasespecificidades culturais e econômicas, classifica o Brasil cinco “diferentes brasis”,das seguintes formas: • Brasil Crioulo: predominantemente no litoral do país, sendo caracterizando pela cultura da cana de açúcar / engenho açucareiro; • Brasil Caboclo (mamelucos): predominantemente na região do Amazonas, sendo caracterizado pelo extrativismo; • Brasil Sertanejo: predominantemente na região nordeste, sendo caracterizado pela economia pastoril, agreste e caatinga; • Brasil Caipira: predominantemente nas regiões Sudeste e Centro- oeste, caracterizado pelas economias mineradoras e do café; • Brasil Sulino: predomínio dos gaúchos - imigrantes europeus - na região Sul e dos japoneses em São Paulo. Analisando cada uma delas, mostra que se de um lado a riqueza dadiversidade étnica, da miscigenação, deve ser destacada e enaltecida, de outrochama atenção para as perversidades econômicas e seus efeitos devastadores. De fato, são elevados os níveis de pobreza existentes no país, onde amaioria da população concentra-se nas regiões periféricas dos grandes centrosurbanos, apresenta precárias condições materiais de vida e baixos níveis deescolaridade, estando presentes o subemprego e o desemprego, além da exposiçãoconstante aos vários tipos de violências. A esse respeito, estudos mostram que à medida que se acentuam assituações de miserabilidade e privações - verificadas sobretudo na escassez daoferta de trabalho e de emprego -, elevam-se igualmente as situações de violências
  • 50verificadas nos casos de homicídios, suicídios, uso e tráfico de drogas, oagravamento das doenças físicas e emocionais etc. O artigo abaixo nos apresenta um dos mecanismos responsáveis pelaretroalimentação da contradição existente entre pobreza e opulência e vai aoencontro do pensamento de Darcy Ribeiro quando se refere à expressão “moinho degastar gente”. Tributos tiram mais dos pobres, diz Ipea Folha de São Paulo, Dinheiro, 16 de maio de 2008. Juliana Rocha O presidente do Ipea, Marcio Pochmann, alertou ontem de que a reforma tributária que foi enviada pelo governo ao Congresso não ajudará a reduzir as desigualdades sociais e de renda no Brasil. Em palestra no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, chamado de Conselhão, Pochmann apresentou dados mostrando que os pobres pagam 44% mais imposto, em proporção à sua renda, que os ricos. Segundo o levantamento do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), com dados de rendimento de 2002 e 2003, os 10% mais pobres do país gastam 32,8% da renda com impostos. A renda média dessa faixa da população era de R$ 49,8 por mês. Embora não paguem Imposto de Renda, são famílias que consomem bens com alta carga de impostos indiretos, como os da cesta básica. Já os 10% mais ricos do país gastam 22,7% do seu rendimento com impostos. A renda mensal destes era de R$ 2.178. Pochmann justificou que a reforma tributária do governo será benéfica para os Estados, mas não para a população mais pobre. "Não temos uma reforma tributária que fizesse com que os ricos de fato pagassem impostos de forma mais progressiva e, por conta disso, o maior ônus da tributação recai sobre os mais pobres. A proposta apresentada está dialogando com a eficiência econômica e com a repartição dos tributos do ponto de vista dos entes federativos", afirmou. Mansão e favela Pochmann apresentou dados que mostram a incidência de tributos mais forte entre os pobres. Segundo ele, 1,8% da renda dos mais pobres é gasta com IPTU, enquanto 1,4% da renda dos mais ricos é gasta com o imposto. O quadro acima se torna ainda mais alarmante nas famílias chefiadas pormulheres, uma vez que além da discriminação social (são, em larga media, pobres),deparam-se também com a desigualdade de gênero. (ABRAMO, 2004).
  • 515.1.2.5 As Mulheres Brasileiras Como é sabido, a década de 70 foi um período fértil no surgimento demovimentos sociais, incluindo-se entre eles o feminista e o de homossexuais. Nessa época, mulheres de vários países se reuniram para reivindicar porseus direitos e por igualdades socioeconômicas e políticas. Como fruto de árduoempenho do então emergente “movimento de mulheres”, a ONU - Organização dasNações Unidas declarou o ano de 1975 como o Ano Internacional da Mulher. No entanto, ainda que considerando os avanços obtidos, estudosmostram que ainda nos dias atuais são significativas as desvantagens sociais (eraciais) apresentadas pelas mulheres quando comparadas aos homens,principalmente na dinâmica do mercado de trabalho, ou seja, nas “relações degênero”. Exemplo disto podem ser verificados nas ocupações, no desemprego enos rendimentos inferiores quando comparados aos homens. Podem ser acrescidasas responsabilidades familiares e consequentemente a dupla (ou tripla) jornada detrabalho a elas atribuída (ARAÚJO, 2000). A título de melhor compreensão, segue abaixo artigo recente que trata dainserção no mercado de trabalho, segundo gêneros. Mulheres atuam 18 h em casa por semana; os homens, 5 h Folha de São Paulo, 18/05/2008. Claudia Rolli Mulheres com jornada semanal de 40 horas ou mais no mercado de trabalho trabalham quase três vezes mais em serviços domésticos do que homens que cumprem a mesma jornada de trabalho. Enquanto eles trabalham, em média, 5 horas semanais fazendo serviços em casa, elas dedicam 18 horas por semana às mesmas tarefas. O resultado é apontado por estudo do Ibmec São Paulo para avaliar as desigualdades entre homens e mulheres quanto à participação no trabalho dentro e fora casa.O levantamento foi feito a partir de dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2006, do IBGE, e levou em conta informações de 206,5 mil pessoas com renda familiar média de R$ 1.634. A idade média dos chefes de família e seus parceiros é de 46 e 41 anos, respectivamente. Entre os homens, 85,06% têm jornada de 40 horas ou mais por semana. Na média eles, dedicam 5 horas semanais ao serviço doméstico. O percentual de mulheres que cumprem horário de 40 horas ou mais no trabalho é menor: 56,29%. Entretanto, elas dispensam 18 horas
  • 52semanais para as tarefas domésticas. "Comparando mulheres ehomens, casados ou não, a diferença persiste. A mulher trabalha emcasa, no mínimo, o dobro do que o homem. Dependendo da jornadano mercado de trabalho, essa diferença chega a três ou até quatrovezes", diz Regina Madalozzo, pesquisadora do Ibmec e uma dasautoras do estudo. Renda, educação e idade são três fatores queexplicam, segundo ela, as desigualdades entre homens e mulheresao cumprir jornada em casa.
  • 53 CONSIDERAÇÕES FINAIS Que bela história tem esse povo brasileiro... Darcy Ribeiro Frente ao discutido em nosso curso, cabe-se perguntar quais são osmecanismos que a população brasileira se utiliza para conviver com as dificuldadeseconômicas, com as intolerâncias, os preconceitos e o racismo. Embora cada um denós tenhamos nossos próprios alicerces - religiosidade, fé, família, amigos, entreoutros - podemos utilizar-nos das palavras de Darcy Ribeiro (1995): “Mas foi essagente nossa, feita da carne de índios, alma de índios, de negros, de mulatos, quefundou esse país. Esse ‘paisão’ formidável. Invejável. A maior faixa de terra fértil domundo, bombardeada pelo sol, pela energia do sol. É uma área imensa, preparadapara lavouras imensas, produtoras de tudo, principalmente de energia. A Amazôniadevia ser um país, porque é tão diferente. O nordeste, até a Bahia... outro país que édiferente. A Paulistânia e as Minas Gerais juntas são outra gente... O sul, outragente... Esse povão que está por aí pronto pra se assumir como um povo em si ecomo um povo diferente, como um gênero humano novo dentro da Terra. É claroque eu tinha de fazer um livro sobre o Brasil que refletisse de certa forma isso. E vivifazendo pesquisa, e vivi muito com negros, brasileiros, pioneiros de todo o lugar doBrasil. E li tudo que se falou do Brasil. Então estava preparado pra fazer esse livro. Egosto dele. Tenho orgulho do fundo do peito de ter dado ao Brasil esse livro. É omelhor que eu podia dar. Gosto muito disso.”.
  • 54 REFERÊNCIASALVES, R. Pescadores e Anzóis. In: ______. Filosofia da Ciência: Introdução aoJogo e suas Regras. 20. ed. São Paulo: Brasilense, 1994. p. 91-105.ARAÚJO, M. J. O. Reflexões sobre a Saúde da Mulher Negra e o MovimentoFeminista. Jornal da RedeSaúde, São Paulo, n. 23, p. 13-15, mar. 2001.COSTA, E. V. Da Senzala à Colônia. São Paulo: Unesp, 1998.DURKHEIM, E. As Regras do Método Sociológico. São Paulo: Martins Fontes,2007.FREYRE, G. Casa Grande e Senzala. São Paulo: Global, 2005.LAPLANTINE, F. Aprender Antropologia. São Paulo: Brasiliense, 2000.MAFFESOLI, M. Dinâmica da Violência. São Paulo: Vértice, 1997.MARCONI, M. A.; LAKATOS, E. M. Técnicas de Pesquisa. São Paulo: Atlas, 2002.MARCONI, M. A.; PRESOTO, Z. M. N. Antropologia: Uma Introdução. São Paulo:Atlas, 2007.MEMMI, A. Retrato do Colonizado Precedido pelo Retrato do Colonizador. SãoPaulo: Paz e Terra, 1999.PEREIRA, J. B. Estudos Antropológicos e Sociológicos Sobre o Negro no Brasil. In:HARTMAN, T; COELHO, V. P. (Org.) Contribuição à antropologia em
  • 55homenagem ao Prof. Egon Schaden. São Paulo: Universidade de São Paulo -Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, 1981. p. 193-203.RIBEIRO, D. O Povo Brasileiro – A Formação e o Sentido do Brasil. São Paulo:Companhia das Letras, 2005.SANTOS, H. A Busca de um Caminho para o Brasil - A Trilha do Círculo Vicioso.São Paulo: SENAC, 2001.SCHWARCZ, L. M. O Espetáculo das Raças. São Paulo: Companhia das Letras,1993.SOUZA, V. C. Sob o Peso dos Temores: Mulheres Negras, Miomas Uterinos eHisterectomia. 2002. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – PontifíciaUniversidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2002.