Cadernos Negros
Os Melhores Poemas
Literato
Professor André Guerra
A carne
(Farofa Carioca)
A carne mais barata do mercado é a carne negra
Que vai de graça pro presídio
E para debaixo do plástico
Que vai de graça pro subemprego
E pros hospitais psiquiátricos
A carne mais barata do mercado é a carne negra
Que fez e faz história pra caralho
Segurando esse país no braço, meu irmão.
O gado aqui não se sente revoltado
Porque o revólver já está engatilhado
E o vingador é lento, mas muito bem intencionado
Esse país vai deixando todo mundo preto
E o cabelo esticado
E mesmo assim, ainda guardo o direito
De algum antepassado da cor
Brigar por justiça e por respeito
De algum antepassado da cor
Brigar bravamente por respeito
Literato
Professor André Guerra
Literato
Professor André Guerra
Literato
Professor André Guerra
Literato
Professor André Guerra
Literato
Professor André Guerra
Mama África
Mama África Quando mama sai de casa
a minha mãe, seus filhos se olodunzam
é mãe solteira rola o maior jazz
e tem de fazer mamadeira Mama tem calos nos pés
todo o dia Mama precisa de paz
além de trabalhar Mama não quer brincar mais
como empacotadeira filhinho da um tempo
nas Casas Bahia é tanto contratempo
no ritmo de vida de Mama
Mama África tem (Deve ser legal, ser Negão no
Tanto que fazer Senegal)
Além de cuidar neném
Além de fazer denguim
Filhinho tem que entender Mama África
Mama África vai e vem a minha mãe
Mas não se afasta de você. a minha mãe
a minha mãe.
Literato
Professor André Guerra
África Brasil (Zumbi)
Jorge Bem Jor
Angola gongô benguela
Monjolo capinda nina Eu quero ver
Quiloa rebolo Quando Zumbi chegar
Aqui onde estão os homens O que vai acontecer
Há um grande leilão Zumbi é senhor das guerras
Dizem que nele há È senhor das demandas
Um princesa à venda Quando Zumbi chega e Zumbi
Que veio junto com seus súditos É quem manda
Acorrentados num carro de boi Eu quero ver
Eu quero ver
Aqui onde estão os homens
Dum lado cana de açúcar
Do outro lado o cafezal
Ao centro senhores sentados
Vendo a colheita do algodão tão
branco
Sendo colhidos por mãos negras
Literato
Professor André Guerra
LINHAGEM
(Carlos de Assumpção)
Eu sou descendente de Zumbi
Zumbi é meu pai e meu guia
Me envia mensagens do orum
Meus dentes brilham na noite escura
Afiados como o agadá de Ogum
Eu sou descendente de Zumbi
Sou bravo valente sou nobre
Os gritos aflitos do negro
Os gritos aflitos do pobre
Os gritos aflitos de todos
Os povos sofridos do mundo
No meu peito desabrocham
Em força em revolta
Me empurram pra luta me comovem
Eu sou descendente de Zumbi
Zumbi é meu pai e meu guia
Eu trago quilombos e vozes bravias dentro de mim
Eu trago os duros punhos cerrados
Cerrados como rochas
Floridos como jardins
(in Cadernos Negros)
FAÇA
A COISA
CERTA
Literato
Professor André Guerra
Malcolm X
• Socialismo
• Luta armada
Literato
Professor André Guerra
I HAVE A
DREAM!
Pacifismo
Literato
Professor André Guerra
POEMA ARMADO
(Oubi Inaê Kibuko)
Que o poema venha cantando
ao ritmo contagiante do batuque um canto quente de força, coragem, afeto, união
Que o poema venha carregado
de amarguras, dores,
mágoas, medos,
feridas, fomes ...
Que o poema venha armado
e metralhe a sangue-frio
palavras flamejantes de revoltas palavras prenhes de serras e punhais ...
Que o poema venha alicerçado
e traga em suas bases
palavras tijolantes,
pontos cimentantes,
portas, chaves, tetos, muros
E construa solidamente
uma fortaleza de fé
naqueles que engordam
o exército dos desesperados
Para que nenhuma fera
não mais galgue escadas
à custa de necessidades iludidas ...
E nem mais se sustente
Literato
com carne, suor e sangue
dum povo emparedado e sugado nos engenhos da exploração!
Professor André Guerra
(in Cadernos Negros)
ARTE
AFIRMATIVA
Literato
Professor André Guerra
O Nêgo do Cabelo Bom
(Max de Castro/ Seu Jorge)
Muita gente implica com meu pixaim
Mas o que implica é que o cabelo é bom
E quando isso me irrita vai ter briga sim
Porque não aceito discriminação
E quando vou a praia alguém sempre diz prá mim
Teu cabelo é duro, entra água não
Se é impermeável isso é problema meu
Na verdade o que é duro é o seu coração
Alisa ele não
É o que minha nêga sempre diz prá mim
Alisa ele não
Você é meu nêgo do cabelo bom
Alisa ele não
É você quem dita a moda em Paris
Não sou vasilina
Não vacile não
Não sou vasilina
Não vacile não
Literato
Professor André Guerra
DANÇANDO NEGRO
(Ele Semog)
Quando eu danço atabaques excitados,
o meu corpo se esvaindo
em desejos de espaço,
a minha pele negra dominando o cosmo,
envolvendo o infinito, o som criando outros
êxtases ...
Não sou festa para os teus olhos de branco diante
de um show!
Quando eu danço há infusão dos elementos, sou
razão.
O meu corpo não é objeto, sou revolução.
(in Cadernos Negros)Literato
Professor André Guerra
Protesto Olodum
• Força e pudor
Liberdade ao povo do pelô
Mãe que é que é mãe
No parto não sente dor
E lá vou eu
Declara a nação
Pelourinho
Contra a prostituição
Faz protestos
Manifestações
E lá vou eu
iô iô iô iô iô
lá lá lá lá lá
iô iô iô iô iô
lá lá lá lá lá
E lá vou eu
EFEITOS COLATERAIS
(Jamu Minka)
Na propaganda enganosa
paraíso racial
hipocrisia faz mal
nosso futuro num saco
sem fundo
a gente vê
e finge que não vê
a ditadura da brancura
Negros de alma negra se inscrevem
naquilo que escrevem
mas o Brasil nega
negro que não se nega. Literato
(in Cadernos Negros) Professor André Guerra
Veja algumas imagens da
exposição fotográfica
“Salvador Negro Amor”
de Sérgio Guerra
Literato
Professor André Guerra
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