Conto de António Torrado   http://www.escolovar.org
O veado florido / Conto de António Torrado   A história que vou contar passou-se há muito tempo, numaterra que muitos arad...
Nessa terra havia um senhor muito rico. Tão rico ele era quepossuía nos jardins do seu palácio uma colecção singular deani...
Os amigos e as                     visitas desse senhor muito ricoembasbacavam-se diante                das jaulas doirada...
E não era razão para menos. Havia crocodilos voadores, leõesemplumados, borboletas gigantes, serpentes luminosas, girafasl...
Esse senhor muito rico espalhara pelos quatro cantosdo mundo criados seus, encarregados de descobrir novosbichos esquisitos.
Quando um deles chegava da sua longa viagem, trazendo consigomais uma raridade para a colecção, havia sempre uma jaula àes...
Um desses exploradores, o mais velho, o mais provado emanteriores caçadas sempre bem sucedidas, descobriu, uma vez,um espa...
Foi numa floresta silenciosa. Bem perto, por entre as árvores,olhou-o um veado. Pois que admiração, se viviam na florestav...
Como era, porém, diferente aquele veado! Era um veado florido.Belo e acetinado, como os outros, corpo flexível, patas fina...
Mas, nas longas e recortadas hastes que lhe ornavam acabeça, tinha flores. Eram brancas. E tinha folhas, folhas de umverde...
O veado estacou quando homem estacou. Parado no verde-escuro das sombras, parecia dizer-lhe: «Vem admirar-me deperto. Vem!...
«-Quem me dera este veado para a colecção do meu amo.» –pensou, em voz alta, o homem. Prendeu o veado com uma rede,amarrou...
Mas, pelo caminho, notou que as hastes do veado se despiamde folhas. As flores caíam. Quis guardar uma, mas ela desfez-se-...
Olhou para as árvores em volta. Também não tinham folhas. E ocriado compreendeu: «É isso! Visto que estamos no Outono, cae...
«-Trazes-me um veado insignificante. Não tenho cá lugar paratais bichos.» - disse o senhor muito rico.«- Espere Vossa Senh...
Veio a Primavera e as hastes do veado florido continuarammudas, isto é, continuaram secas como as raízes arrancadas daarei...
Os seus criados e emissários voltavam dos quatrocantos do mundo com as redes e as cordas a arrastarpelo chão. Tinham desap...
- Deitem abaixo todas estas jaulas para prolongar osroseirais. O veado só está a estorvar. Tirem-no daí. -ordenou o senhor...
O Veado correu até àorla da floresta.Havia sol e ervastenras. Como se osraios de Sol lhedespertassem ashastes, de novo ela...
«- Senhor, senhor, venha ver! - gritava ocriado, apontando para longe.Mas, quando o senhor muito rico chegou aoportão, já ...
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  1. 1. Conto de António Torrado http://www.escolovar.org
  2. 2. O veado florido / Conto de António Torrado A história que vou contar passou-se há muito tempo, numaterra que muitos arados revolveram, muitos pés pisaram, muitosrios sulcaram, muitas árvores cobriram, muitas secas secaram. É uma história muito antiga, passada numa terra ainda maisantiga.
  3. 3. Nessa terra havia um senhor muito rico. Tão rico ele era quepossuía nos jardins do seu palácio uma colecção singular deanimais nunca vistos.O veado florido / Conto de António Torrado
  4. 4. Os amigos e as visitas desse senhor muito ricoembasbacavam-se diante das jaulas doiradas, que encerravamanimais fantásticos, ali colocados para que as visitas e osamigos do senhor muito rico abrissem a boca e ficassem semfala, cheios de espanto. Ah! Oh!O veado florido / Conto de António Torrado
  5. 5. E não era razão para menos. Havia crocodilos voadores, leõesemplumados, borboletas gigantes, serpentes luminosas, girafaslistadas, cisnes transparentes… eu nem sei descrever o que láhavia… e, quando não se sabe, inventa-se!O veado florido / Conto de António Torrado
  6. 6. Esse senhor muito rico espalhara pelos quatro cantosdo mundo criados seus, encarregados de descobrir novosbichos esquisitos.
  7. 7. Quando um deles chegava da sua longa viagem, trazendo consigomais uma raridade para a colecção, havia sempre uma jaula àespera, porque os bichos nunca vistos, embora fossem muito bemtratados, cedo morriam, deixando vazias as jaulas doiradas. Porisso os criados se afadigavam pelos quatros cantos do mundo,não sucedesse um dia o senhor muito rico não ter nenhuma novararidade para mostrar às visitas e aos amigos.O veado florido / Conto de António Torrado
  8. 8. Um desses exploradores, o mais velho, o mais provado emanteriores caçadas sempre bem sucedidas, descobriu, uma vez,um espantoso animal, daqueles que só aparecem nos sonhos,mas não em todos.
  9. 9. Foi numa floresta silenciosa. Bem perto, por entre as árvores,olhou-o um veado. Pois que admiração, se viviam na florestaveados que espreitavam num repente, que espreitavam e fugiam,cheios de susto…
  10. 10. Como era, porém, diferente aquele veado! Era um veado florido.Belo e acetinado, como os outros, corpo flexível, patas finas,focinho aguçado, humedecido de ternura. Tal como os outros.
  11. 11. Mas, nas longas e recortadas hastes que lhe ornavam acabeça, tinha flores. Eram brancas. E tinha folhas, folhas de umverde luzidio, quase transparente. Entre as folhas, tinha botões,donde brotariam novas flores. Era um veado florido.
  12. 12. O veado estacou quando homem estacou. Parado no verde-escuro das sombras, parecia dizer-lhe: «Vem admirar-me deperto. Vem!» O homem foi e o veado não fugiu. Queria que lhefizessem festas. Gostava muito de festas.
  13. 13. «-Quem me dera este veado para a colecção do meu amo.» –pensou, em voz alta, o homem. Prendeu o veado com uma rede,amarrou-o bem e levou-o consigo. Nunca caçara presa tãovaliosa. Que bela recompensa iria receber!
  14. 14. Mas, pelo caminho, notou que as hastes do veado se despiamde folhas. As flores caíam. Quis guardar uma, mas ela desfez-se-lhe nas mãos.
  15. 15. Olhou para as árvores em volta. Também não tinham folhas. E ocriado compreendeu: «É isso! Visto que estamos no Outono, caemas folhas das árvores e as flores das hastes do veado.» E o criadoprosseguiu, satisfeito da vida, em direcção do palácio do senhormuito rico.
  16. 16. «-Trazes-me um veado insignificante. Não tenho cá lugar paratais bichos.» - disse o senhor muito rico.«- Espere Vossa Senhoria pela Primavera e verá como das hasteshão-de nascer flores mais catitas do que as rosas dos seuscanteiros.»«- Veremos então.». E o senhor muito rico virou as costas aocriado, sem o recompensar.
  17. 17. Veio a Primavera e as hastes do veado florido continuarammudas, isto é, continuaram secas como as raízes arrancadas daareia. O veado mal comia. Nas outras jaulas os outros bichostambém não tocavam na comida. Muitos morreram. E o senhor muito rico começou a enfastiar-se. «- Afinal, que graça têm estes animais?» - perguntava ele, desi para si.
  18. 18. Os seus criados e emissários voltavam dos quatrocantos do mundo com as redes e as cordas a arrastarpelo chão. Tinham desaparecido todos os animaisestranhos que havia à face da Terra. Nas jaulas doiradasos últimos morriam. Só ficou o veado, aquele veadovulgar que o senhor muito rico nunca vira florir.
  19. 19. - Deitem abaixo todas estas jaulas para prolongar osroseirais. O veado só está a estorvar. Tirem-no daí. -ordenou o senhor. Foi o criado que o aprisionara quemabriu a porta da jaula e o afugentou para fora dosmuros do jardim.- Vai-te, bicho nojento, que não me serviste de nada!
  20. 20. O Veado correu até àorla da floresta.Havia sol e ervastenras. Como se osraios de Sol lhedespertassem ashastes, de novo elasse cobriram defolhas luzidiasquase transparentes,e de flores muitobrancas.
  21. 21. «- Senhor, senhor, venha ver! - gritava ocriado, apontando para longe.Mas, quando o senhor muito rico chegou aoportão, já o veado tinha desaparecido.
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