Your SlideShare is downloading. ×
Poetas da I República
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Thanks for flagging this SlideShare!

Oops! An error has occurred.

×

Introducing the official SlideShare app

Stunning, full-screen experience for iPhone and Android

Text the download link to your phone

Standard text messaging rates apply

Poetas da I República

1,377
views

Published on

Os poetas da I República Portuguesa.

Os poetas da I República Portuguesa.

Published in: Education, Technology

0 Comments
1 Like
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

No Downloads
Views
Total Views
1,377
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
3
Actions
Shares
0
Downloads
24
Comments
0
Likes
1
Embeds 0
No embeds

Report content
Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
No notes for slide

Transcript

  • 1. PRIMEIRA REPÚBLICA
    POETAS E POEMAS
  • 2. GOMES LEAL
    1848-1921
    Os gemidos da árvore
    A Árvore, em pé, no meio das planuras,cheia de riso e flor, verduras, passarinhos,- Ela é o guarda-sol dos frutos e dos ninhos.- É o tecto nupcial das conversadas puras.
     
    O humilde cavador que foiça as ervas durasdos broncos matagais e escalrachos maninhos,sob ela faz o seu leito, ao cruzar os caminhos,torrado da soalheira ou nas sombras escuras.
     
    Contudo, o Homem ingrato esquece a Árvore amigae prefere a Cidade e a balbúrdia inimiga,onde a alma corrompe em orgias triviais.
     
    Mas a Árvore lá fica, a espreitar nas ramadascomo a mãe lacrimosa, a olhar sempre as estradas- a ver se o filho volta à cabana dos pais!
      
  • 3. GUERRA JUNQUEIRO
    1850-1923
    Nessa tremenda ansiedade É que tu verteste, flor, A tua imensa piedade Na minha infinita dor!...Eu era a sombra funesta E tu o clarão doirado; Juntámo-nos, que é que resta? Um céu de Maio estrelado.Quando vais serena e calma, Linda, inefável, como és, Vou pondo sempre a minha alma No sítio onde pões os pés.Corre o mundo, (o mundo é estreito) Podes mil mundos correr, Que hás-de calcar o meu peito sempre por ti a bater.
  • 4. CAMILO PESSANHA
    1867-1926
    Passou o Outono já, já torna o frio...- Outono de seu riso magoado.Álgido Inverno! Oblíquo o sol, gelado...- O sol, e as águas límpidas do rio.
    Águas claras do rio! Águas do rio,Fugindo sob o meu olhar cansado,Para onde me levais meu vão cuidado?Aonde vais, meu coração vazio?
      
  • 5. EUGÉNIO DE CASTRO
    1869-1944
    Chuva de Setembro
    Chuvinha miúda… chove, chove,
    Molhando a eira, inchando a uva…
    Mãos d’ anjo fazem rendas d’ água,
    Prendem-me aqui grades de chuva…
    Chuvinha miúda… chove, chove,
    Nos pinheirais, dentro de mim…
    Lembra-me agora aquela tarde
    Em que também chovia assim…
    Quanto chorámos nessa hora,
    Que já de nós tão longe vai!
    Chuvinha miúda… chove… chove…
    Sonhos d’ amor, chorai, chorai…
      
  • 6. Balada da neve
    Batem leve, levemente, como quem chama por mim. Será chuva? Será gente? Gente não é, certamente e a chuva não bate assim.
    É talvez a ventania: mas há pouco, há poucochinho, nem uma agulha bulia na quieta melancolia dos pinheiros do caminho...
    Quem bate, assim, levemente, com tão estranha leveza, que mal se ouve, mal se sente? Não é chuva, nem é gente, nem é vento com certeza.
    Fui ver. A neve caía do azul cinzento do céu, branca e leve, branca e fria...Há quanto tempo a não via! E que saudades, Deus meu!
    Olho-a através da vidraça. Pôs tudo da cor do linho. Passa gente e, quando passa, os passos imprime e traça na brancura do caminho...
    AUGUSTO GIL
    1873-1929
    Fico olhando esses sinais da pobre gente que avança, e noto, por entre os mais, os traços miniaturais duns pezitos de criança...
    E descalcinhos, doridos... a neve deixa inda vê-los, primeiro, bem definidos, depois, em sulcos compridos, porque não podia erguê-los!...
    Que quem já é pecador sofra tormentos, enfim! Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor?!... Porque padecem assim?!...
    E uma infinita tristeza, uma funda turbação entra em mim, fica em mim presa. Cai neve na Natureza
    e cai no meu coração.
  • 7. TEIXEIRA DE PASCOAES
    1877-1952
    Os olhos dos animais
     
    Que triste o olhar do cão! Até parece
    Mais um queixume, um íntimo lamento
    Da noite interior que lhe escurece
    O coração, que é todo sentimento.
     
    E os mansos bois soturnos! Que tormento,
    Em seus olhos, tão calmos, transparece…
    E os olhos da ovelhinha e do jumento!
    Que tristes! Só o vê-los entristece…
     
    Chora, em todo o crepúsculo, a tristeza.
    E, além dos ser humano, a Natureza
    É lívida penumbra feita de ais…
     
    Por isso, o vosso olhar de escuridão
    É mais lágrima ainda que visão,
    Ó pobres e saudosos animais!
  • 8. AFONSO LOPES VIEIRA
    1878-1946
    Os burros
    Cuidadosos,os burrinhosvão andandopor caminhos.Levam sacos,levam lenha…Pesa a cargaque é tamanha!Levam coisasp'ró mercado,no alforgetão pesado.E transportamtudo, tudo,no seu passotão miúdo.
    Tão miúdo
    Tão esperto
    Que anda tanto
    Por ser certo
     
    Do seu dono
    Que seria
    Sem o burro?
    Que faria?
     
    E esse dono
    Quando é mau
    Dá-lhe, dá-lhe
    Com um pau!
     
    E o burrinho
    Sofre então…
    Tem nos olhos
    O perdão!
  • 9. ANTÓNIO CORREIA DE OLIVEIRA
    1879-1960
    O perfumeO que sou eu? – O Perfume, Dizem os homens. – Serei. Mas o que sou nem eu sei... Sou uma sombra de lume!Rasgo a aragem como um gume De espada: Subi. Voei.Onde passava, deixeiA essência que me resume.Liberdade, eu me cativo: Numa renda, um nada, eu vivo Vida de Sonho e Verdade!Passam os dias, e em vão! – Eu sou a Recordação; Sou mais, ainda: a Saudade.
  • 10. FERNANDO PESSOA
    1888-1935
    Gato que brincas na ruaGato que brincas na rua
    Gato que brincas na rua
    Como se fosse na cama,Invejo a sorte que é tuaPorque nem sorte se chama.Bom servo das leis fataisQue regem pedras e gentes,Que tens instintos geraisE sentes só o que sentes.És feliz porque és assim,Todo o nada que és é teu.Eu vejo-me e estou sem mim,Conheço-me e não sou eu.
  • 11. ANTÓNIO ALEIXO
    1899-1949
    É fácil a qualquer cãoTirar cordeiros da relva.Tirar a presa ao leãoÉ difícil nesta selva.
  • 12. MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO
    1890-1916
    Fim
    Quando eu morrer batam em latas,
    Rompam aos saltos e aos pinotes,
    Façam estalar no ar chicotes,
    Chamem palhaços e acrobatas!
    Que o meu caixão vá sobre um burro
    Ajaezado à andaluza…
    A um morto nada se recusa
    E eu quero por força ir de burro!
  • 13. ALMADA NEGREIROS
    1893-1970
    MOMENTO DE POESIA
    Se escrevo ou leio ou desenho ou pinto,
    Logo me sinto tão atrasado
    No que devo à eternidade,
    Que começo a empurrar pra diante o tempo
    E empurro-o, empurro-a à bruta
    Como empurra um atrasado,
    Até que cansado me julgo satisfeito.
    (Tão gémeos são
    A fadiga e a satisfação!)
    Em troca, se vou por aí
    Sou tão inteligente a ver tudo o que não é comigo,
    Compreendo tão bem o que não me diz respeito,
    Sinto-me tão chefe do que está fora de mim,
    Dou conselhos tão bíblicos aos aflitos de uma aflição que não é a minha,
    Que, sinceramente, não sei qual é melhor:
    Se estar sozinho em casa a dar à manivela da vida,
    Se ir por aí e ser Rei de tudo o que não é meu.
  • 14. FLORBELA ESPANCA
    1894-1930
    Árvores do  Alentejo
    Horas mortas... Curvada aos pés do MonteA planície é um brasido e, torturadas,As árvores sangrentas, revoltadas,Gritam a Deus a bênção duma fonte!E quando, manhã alta, o sol posponteA oiro a giesta, a arder, pelas estradas,Esfíngicas, recortam desgrenhadasOs trágicos perfis no horizonte!Árvores! Corações, almas que choram,Almas iguais à minha, almas que imploramEm vão remédio para tanta mágoa!Árvores! Não choreis! Olhai e vede:Também ando a gritar, morta de sede,Pedindo a Deus a minha gota de água!
  • 15. Palavras de um avestruz todo gris
    Arrancam-me as penas
    E eu sofro sem dizer nada:
    - Sou ave
    Bem educada.
     
    E, se quisesse,
    Podia
    Morder-lhes as mãos morenas,
    A esses
    que sem piedade
    Me roubam estas penas que me cobrem;
     
    E, no entanto,
    Sem o mais breve gemido,
    O meu corpo
    Vai ficando
    Desguarnecido...
    E, elas,
    Aquelas
    Que se enfeitam, doidamente,
    Com estas penas formosas
    - Que são minhas!
    Passam por mim, desdenhosas,
    Em gargalhadas mesquinhas.
     
    Sim; eu sofro sem dizer nada:
    - Sou ave
    Bem educada.
    ANTÓNIO BOTTO
    1897-1959
  • 16. JOSÉ GOMES FERREIRA
    1900-1985
    Borboleta verde
    Borboleta verde,
    Aqui não há flores.
    - Procuras nas pedras
    Jardins interiores?
     
    Borboleta verde,
    Aqui não há zumbidos.
    - Procuras nas pedras
    Perfumes dormidos?
     
    Borboleta verde,
    Aqui só há calçadas.
    - Procuras nas pedras
    As flores geladas?
     
    Borboleta verde
    Chama quase morta.
    - Também eu, também
    Aos tombos nas pedras
    Não encontro a Porta.
  • 17. Fim de Outono
    Fim de outono...
    Folhas mortas...
    Sol doente...
    Nostalgia...
    Tudo seco pelas hortas,
    Grandes lágrimas no chão
    Nem uma flor pelos montes,
    Tudo numa quietação
    Soluça numa oração
    O triste cantar das fontes.
    Fim de outono...
    Folhas mortas...
    Sol doente...
    Nostalgia...
    A terra fechou as portas
    Aos beijos do sol ardente,
    E agora está na agonia...
    Valha à terra agonizante
    A Santa Virgem Maria!
    Fim de Outono...
    Folhas mortas...
    Sol doente...
    Nostalgia...
    FERNANDA DE CASTRO
    1900-1994
  • 18. JOSÉ RÉGIO
    1901-1969
    Fado português
    O Fado nasceu um dia,
    quando o vento mal bulia
    e o céu o mar prolongava,
    na amurada dum veleiro,
    no peito dum marinheiro
    que, estando triste, cantava,
    que, estando triste, cantava.
    Ai, que lindeza tamanha,
    meu chão, meu monte, meu vale,
    de folhas, flores, frutas de oiro,
    vê se vês terras de Espanha,
    areias de Portugal,
    olhar ceguinho de choro.
    Na boca dum marinheiro
    do frágil barco veleiro,
    morrendo a canção magoada,
    diz o pungir dos desejos
    do lábio a queimar de beijos
    que beija o ar, e mais nada,
    que beija o ar, e mais nada.
    Mãe, adeus. Adeus, Maria.
    Guarda bem no teu sentido
    que aqui te faço uma jura:
    que ou te levo à sacristia,
    ou foi Deus que foi servido
    dar-me no mar sepultura.
    Ora eis que embora outro dia,
    quando o vento nem bulia
    e o céu o mar prolongava,
    à proa de outro veleiro
    velava outro marinheiro
    que, estando triste, cantava,
    que, estando triste, cantava.
  • 19. VITORINO NEMÉSIO
    1901-1978
    Regresso
    Cavalo e cavaleiro o vento adornam
    Com uma pata e uma pluma;
    À tarde unidos tornam,
    Um estante de sangue numa rosa de espuma.
    Tanta pressa, afinal, para coisa nenhuma.
  • 20. PEDRO HOMEM DE MELLO
    1904-1984
    Galgos
    Quando são mansos, parecem lírios.
    Parecem rosas quando são bravos.
    A igreja é bosque, cheio de círios,
    Gótica igreja, cheia de cravos.
    Leves, tão leves! Leves, esguios…
    Não sujam praias; não lembram gente.
    E, reflectidos nas águas dos rios,
    Dir-se-iam asas… E a água não mente!
    Deram as rússias aos portugueses!
    Cães de fidalgo.
    Cães de solar.
    Ó meus irmãos, parai, por vezes,
    Parai a vê-los, que vão findar!
  • 21. Poema das árvores
    As árvores crescem sós. E a sós florescem.Começam por ser nada. Pouco a poucose levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,e os frutos dão sementes,e as sementes preparam novas árvores.E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.Sós.De dia e de noite.Sempre sós.Os animais são outra coisa.Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,fazem amor e ódio, e vão à vidacomo se nada fosse.As árvores, não.Solitárias, as árvores,exauram terra e sol silenciosamente.Não pensam, não suspiram, não se queixam.Estendem os braços como se implorassem;com o vento soltam ais como se suspirassem;e gemem, mas a queixa não é sua.Sós, sempre sós.Nas planícies, nos montes, nas florestas,A crescer e a florir sem consciência.Virtude vegetal viver a sósE entretanto dar flores.
    ANTÓNIO GEDEÃO
    1906-1997
  • 22. MIGUEL TORGA
    1907-1995
    SEGREDO
    Sei um ninho.E o ninho tem um ovo.E o ovo, redondinho,Tem lá dentro um passarinhoNovo.
    Mas escusam de me atentar:Nem o tiro, nem o ensino.Quero ser um bom meninoE guardarEste segredo comigo.E ter depois um amigoQue faça o pinoA voar...
  • 23. ALICE GOMES
    1910-1983
    Zumbido
    A menina andava no jardim
    a dançar com o jasmim.
    O menino andava no pomar
    as cerejas a provar.
    Um zângão surgiu
    a menina fugiu.
    O menino mexeu na colmeia.
    Que coisa tão feia!...
    O enxame irritou.
    O zângão
    zangado
    atacou
    e uma abelha picou.
    A mão do menino inchou
    Mas ele não chorou.
    Gato que brincas na rua
  • 24. BIBLIOGRAFIA
    O século XX português: personalidades que marcaram uma época – 1ª ed., Lisboa: Texto Editora, 2000
    http://cvc.instituto-camoes.pt/literatura/historialit.htm [consultado em 09-06-2010]
    http://www.vidaslusofonas.pt/asvidas.htm [consultado em 09-06-2010]
    http://www.leme.pt/biografias/80mulheres/castro.html
  • 25. Biblioteca Escolar
    Ano lectivo 2009/2010