SO Parte I As Organizações e a Modernização do Mundo
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  • 1. SOCIOLOGIA DAS ORGANIZAÇÕES I Parte – As Organizações e a Modernização do Mundo 1.1. Modernidade e organização 1.2. Max Weber e a análise das organizações 1.3. O colete-de-forças da burocracia 1.4. As tendências variáveis da burocracia
  • 2. I – As Organizações e a Modernização do Mundo
    • A definição porventura mais consensual de Modernidade refere que esta envolve um conjunto de relações sociais ligadas com a industrialização, o que, desde logo, a separa das sociedades tradicionais (Giddens, 1992; Webster, 1995; Kumar, 1995).
    • Amplitude de datação:
      • Século XVI / finais do século XVIII  finais do século XVIII / meados do século XIX
      • Preponderância da indústria; emergência e generalização de um sistema de trocas caracterizadamente capitalista (Santos, 1999:72)
  • 3.
    • A Modernidade , entendida como implicando mudanças relevantes no sentido intelectual, económico, social e político – as quais vieram a propiciar a intervenção futura da teorização social – deve ser equacionada a partir dos primeiros desenvolvimentos do modernismo
      • Primeiro como movimento filosófico
        • Descartes e o cogitu ergo sum – declaração de uma absoluta e inevitável razão do conhecimento
      • Depois, na perspectiva cultural e estética
        • Renascimento
        • Racionalidade – Descartes e Newton
        • Positivismo
        • Secularização
  • 4.
    • No sentido intelectual, os produtores estruturantes do Iluminismo ( filósofos ) deram origem a uma nova ortodoxia intelectual com linhas de pensamento diferentes das anteriores:
      • Anti-clericalismo
      • A crença na preponderância do conhecimento empírico e materialista
      • Entusiasmo pelos progressos médicos e tecnológicos
      • Um desejo de reformas legais e constitucionais
  • 5.
    • Contudo, estas concepções não questionam ainda a estrutura económica e social do século XVIII na Europa.
    • Só com o aparecimento da Sociologia se começam a abordar as temáticas das reformas e da revolução, centradas nos campos económico (industrialização e desenvolvimento do capitalismo), social (desarticulação da sociedade tradicional) e político (ocorrência, por exemplo, das Revoluções Americana de 1776 e Francesa de 1789).
  • 6.
    • As diferentes conceptualizações sobre a modernização do mundo tendem a configurar modelos globais e, como tal, caracterizáveis sob os pontos de vista económico, político, organizacional e pessoal.
      • No campo económico , porque se dá início à separação entre a família e o trabalho e se procura o aumento da produtividade, pela concentração racional da produção em massa no sistema fabril.
      • Politicamente , pela emergência de um Estado interventivo e regulador, nomeadamente em matéria económica.
  • 7.
      • Organizacionalmente , pelas burocracias enormes e, muitas vezes inábeis que a modernidade gerou, na procura da gestão de um complexidade crescente.
      • Pessoalmente , pela construção de um sistema e de uma ordem, propiciadores de algum sentido de identidade colectiva e de pertença, o que gerou um preço a pagar pela racionalidade, que é a perda do espírito e da magia. Nomeadamente este último facto conduziu, segundo a concepção de Weber, ao desencantamento do mundo.
  • 8. 1.1. Modernidade e organização
    • MARX, DURKHEIM, WEBER  relação dogmática entre modernidade e organização .
      • Partilham do pressuposto de que a modernidade foi alcançável através das organizações.
    • Pré-modernidade:
      • Decorreu enquanto a agricultura foi mais importante do que a indústria.
    • Modernidade:
      • Iniciou-se com a maior relevância da indústria face à agricultura.
      • Após a II GM, a tese de Weber ganha notoriedade e aceitação por fazer procurar equivaler racionalidade a eficiência.
    • Pós-modernidade ...
  • 9.
    • Não é, pois, de admirar que as principais raízes do modernismo organizacional tenham sido desenvolvidas a partir a obra de Max Weber.
    • Porém, não existe uma única perspectiva quanto ao modernismo e à sua influência no campo de acção. Na verdade, as organizações foram representadas nos mais diversos termos modernistas. Foram imaginadas como:
      • Tipos ideais e respectivas disfunções (burocráticas)
      • Sistemas e respectivos mecanismos de processamento
      • Organizações e respectivas contingências
      • Mercados e respectivas ecologias
      • Culturas e respectivos rituais e mitos institucionalizados
      • Realpolitik do poder
  • 10.
    • O próprio desenvolvimento da sociologia como ciência é atravessado pelo objectivo de compreensão dos contornos da modernidade emergentes no século XIX.
    • MARX e DURHKEIM desenvolveram duas importantes reacções (opostas) à modernização.
      • MARX : a modernização correspondia à maturação e à eventual superação do capitalismo como modo de produção mundialmente dominante, tal implicando a superação da divisão do trabalho (essência da racionalidade capitalista).
        • Ideia implícita – a sociedade futura, plenamente modernista, caracterizar-se-ia por estruturas organizacionais simples, indivíduos multiqualificados, ausência de hierarquia e elevados níveis de rotação de postos de trabalho.
  • 11.
      • DURHKEIM : por sua vez, antevia uma crescente divisão do trabalho nas sociedades e concebia a organização modernista como palco de uma tendência para o “sobredesenvolvimento” da divisão do trabalho.
        • Esta tendência conduziria ao aumento (moralmente arriscado) da diferenciação das identidades sociais existentes.
        • Ideia implícita – a modernidade organizacional estava associada à hierarquia e complexidade, bem como ao desenvolvimento de uma sociedade mercantilizada.
        • Apesar do autor insistir que a modernização se tratava de um processo de cariz económico, a sua análise faz transparecer um conteúdo muito menos economicista do que o trabalho de Marx.
  • 12.
    • Independentemente das perspectivas particulares dos cientistas sociais do século XIX, todos partilhavam de uma concepção “universalista” da modernização enquanto veículo para a modernidade:
      • A imagem que tinham do futuro:
        • «Eliminação gradual das diferenças culturais e sociais em favor de uma cada vez maior participação de todos num modelo geral, único e comum de modernidade.» (TOURAINE, 1988:443).
        • Assente na ideia de que os problemas humanos teriam que ser resolvidos com base na razão, i.e., a modernidade seria “alcançável” se se aplicasse à condução dos problemas humanos os princípios gerais da razão. (TOURAINE, 1988:443).
  • 13.
    • É pacífico, então, afirmar que a importância da “organização” ( vide CLEGG, 1998:31) decorria do facto de esta estar subjacente à mudança social (  modernidade).
    • COMTE , SAINT-SIMON , DURKHEIM e MARX
      • “ fundadores” da sociologia e testemunhas do nascimento da modernidade.
      • Porém, os seus escritos em pouco contribuíram para o estudo sistemático das organizações.
    • Apenas a obra de Max WEBER foi entendida como marco inaugurador de um estudo rigoroso das organizações, nomeadamente, a sua análise da natureza da burocracia, da vida económica em geral e da afinidade electiva existente entre a “ética protestante” e o “espírito do capitalismo”.
  • 14. 1.2. WEBER e a análise das organizações
    • É óbvio que Max WEBER não pretendia fundar o campo de análise específico dos estudos organizacionais.
    • Os seus intentos comparativos extravasavam as organizações em si; alargaram-se às questões e temas associados à compreensão das principais culturas mundiais e à sua relação com a modernidade secular e racional, tendo por base as religiões mundiais com maior relevância.
  • 15.
    • Daqui resultam, na década de 50, os trabalhos de:
      • Peter BLAU (1955);
      • Alvin GOULDNER (1954);
      • Amitai ETZIONI (1961).
    • Fontes de inspiração deste conjunto de autores:
      • As orientações pioneiras de Philip SELZNICK (1942; 1948) e de Robert MERTON (1940);
      • As “teorias formais de administração”, com carácter mais pragmático, desenvolvidas por consultores, engenheiros e gestores bem sucedidos, como:
        • Chester BARNARD (1938), nos Estados Unidos;
        • Charles PERROW (1986) e Henry FAYOL (1949), na Europa.
  • 16.
    • Para além destes, existia um conjunto de trabalhos claramente associado à crítica de Elton MAYO à “civilização industrial” que tinha sido construída com base na imagem individualista do homem que Frederick TAYLOR (1911) começou por desenvolver na indústria americana e que, posteriormente, foi difundida no mundo ocidental.
      • Esta crítica deu origem à chamada “ teoria das relações humanas ”
        • Esta abordagem, sublinha a importância da organização social informal que era subjacente à organização formal.
  • 17.
    • Independentemente das fontes realçadas, e da sua influência tanto no campo teórico, como na prática, o certo é que foi o trabalho de Max WEBER que ganhou maior destaque e, até, estatuto académico.
    • WEBER foi, assim, eleito como percursor da análise das organizações e como um dos seus fundadores.
    • Como refere PUGH (1971:13), após ter sido eleito como fundador legítimo, podia atribui-se a Weber:
  • 18.
    • «o estudo de três tipos gerais de organizações com base no critério da legitimidade da autoridade dominante, e a concentração da análise no facto de o tipo burocrático ter-se tornado preponderante na sociedade moderna devido, segundo o autor, à sua maior eficiência técnica. Ao fazê-lo, fundou o ponto de partida de uma série de estudos sociológicos em que se pretendia analisar a natureza e o funcionamento da burocracia, mais precisamente, as disfunções desta forma estrutural que não haviam sido ponderadas pela análise original.»
  • 19.
    • As organizações, na forma como foram caracterizadas por Max WEBER, enquanto tipo ideal de burocracia, constituem uma representação modernista de práticas modernistas.
    • O modernismo consistia, assim, num conjunto de tendências empíricas, consideradas irresistíveis e inevitáveis (a famosa “racionalização” do mundo), cujo sucesso seria atribuído à burocracia, enquanto mecanismo principal da sua conquista.
  • 20.
    • Porém, o processo de racionalização do mundo desembocaria no “aprisionamento” da humanidade numa masmorra – o « colete-de-forças da burocracia ».
      • As organizações tornar-se-iam elementos essenciais e inevitáveis da modernidade, quer trilhasse esta caminhos ao som do tambor capitalista ou socialista.
      • É, por isso, que se afirma que a TO é, em vários aspectos, uma disciplina modernista (visava descortinar os factores que contribuíam para a eficiência do desenho organizacional).
      • Nesta linha, a modernidade parece estar associada não a múltiplas, mas a uma forma particular de organização que, de modo crescente e irreversível, se tornaria definitiva – a organização burocrática .
  • 21.
    • A modernidade – capacidade de responder a um ambiente instável e para gerir sistemas complexos (TOURAINE, 1988:452) – e a organização estavam envolvidas numa convergência profética:
      • A concepção específica da organização tornava-se na essência da modernidade.
        • Não se tratava de um conceito de organização meramente formal, enquanto simples meio para atingir uma acção intencional, repetitiva e rotineira, mas antes de um conceito real que, na sua definição, transportava valores e um propósito muito claros.
  • 22.
    • De facto, não raras vezes, o modernismo adquiriu um carácter moral explícito.
      • Charles PERROW – Complex Organizations , contribuiu de forma decisiva para o desenvolvimento de uma concepção de burocracia como projecto moral:
        • A racionalidade organizacional, expressa nos princípios da burocracia, surge como garantia contra a discriminação, alicerçada em aspectos particulares da identidade, como a etnicidade, o género, a idade, e religião e a sexualidade.
        • A moralidade da burocracia radica na sua promessa implícita de tratar cada um apenas de acordo com o seu estatuto, enquanto membro da organização, independentemente de quaisquer outros aspectos da sua identidade.
  • 23.
        • Nesta concepção de burocracia como projecto moral, de carácter liberal, de Perrow, espelham-se os princípios do universalismo burocrático:
          • Cada um apenas deve ser tratado de acordo com os direitos, responsabilidades, normas e deveres inerentes à sua posição, enquanto membro de uma organização; e o facto de uma pessoa ser preta, branca, vermelha ou verde, homem ou mulher, hetero ou homossexual deve ser totalmente irrelevante.
        • Em alguns aspectos importantes, as organizações constituem, de facto, a forma característica da nossa condição moderna:
          • A maioria das pessoas só consegue alcançar alguma forma de articulação de interesses através da representação organizacional. Sindicatos, partidos, governos, empresas e outras organizações privadas e públicas constituem meios através dos quais participamos na modernidade, exceptuando o teatro e o ritual ocasionais que caracterizam o processo político formal.
          • Na verdade, para a maioria das pessoas, vida organizacional significa vida pública .
  • 24.
    • Porém, definitivamente, WEBER não era a favor nem contra o conceito de burocracia.
      • Enquanto nacionalista liberal convicto, interpretou a pré-modernidade em termos germânicos:
        • Como reportando-se a um conjunto de Estados enfraquecido e fragmentada, não a um forte Estado-Nação.
        • Desta forma, e inerente aos ideais iluministas, tal correspondia à aniquilação dos “selvagens” das Américas, da África, da Ásia, da Oceânia e da Austrália e à sua transformação numa massa subordinada ao modelo dominante.
      • Porém, a realidade actual nada tem a ver com o contexto em que ele viveu. Aliás, Weber apenas insiste na racionalização das formas de vida menos “racionais” .
      • Tendo por base esta perspectiva, o projecto de eliminação da diferença pode ser descrito através da metáfora do “colete-de-forças da burocracia”.
  • 25. 1.3. O colete-de-forças da burocracia
    • Segundo WEBER, o advento da modernidade testemunhava a invasão das esferas da vida pela “disciplina” da burocracia.
      • A difusão da burocracia tornou-se irresistível devido à «superioridade puramente técnica, por comparação com as restantes formas de organização» (Weber, 1948:214), mas em muitos aspectos Weber encarava-a com cepticismo, pois, a burocracia não deixava de ser um produto humano.
  • 26.
    • Porém, a superioridade técnica da burocracia – comparativamente com as administrações pré-burocráticas – não significa que Weber chegue a conclusões optimistas:
      • Ele reconhece as ambivalências, nomeadamente pelo perigo de despersonalização e pelo facto de a racionalidade conduzir ao desencantamento de que falamos ( vide Clegg, 1998:35).
      • Para Weber, ainda que a burocracia fosse “necessária”, “inevitável”, “inelutável”, “infalível”, “universal” e simplesmente “inquebrável”, tal ilustrava, em última instância, algum pessimismo cultural: a burocracia, ainda que irresistível, era totalmente “horrenda”, mas marcava o «destino da (nossa) época» (Weber, 1920).
  • 27.
    • George RITZER , que analisou a McDonaldização como uma ilustração da teoria de Weber da racionalização e do desencantamento, diz o seguinte:
    • «A McDonalds opera com um menu limitado, quantidades certas de comida e sistemas padronizados de distribuição com vista a aumentar a eficiência, margens de lucro e segurança. A McDonaldização retira todas as surpresas da vida; os seus métodos de produção anulam o aleatório, incluindo o risco de intoxicação. A pequena e rápida refeição ingerida na McDonalds é o oposto do ritual de orgia das refeições das hordas primitivas. A diferença entre a refeição da família tradicional, com a sua civilidade e convivialidade, e a refeição no McDonalds revela bem a distinção entre o modo de vida tradicional e o sistema racional da moderna sociedade industrial.» (Ritzer, 1996, in Turner Ed., 2000:492)
  • 28.
    • Segundo GRUMLEY (1988), o trabalho de Max Weber constitui provavelmente a tentativa intelectual mais complexa de sistematização da repentina mudança da pré-modernidade para a modernidade.
      • A acção racional consistia precisamente na capacidade de responder às novas incertezas de um mundo sem significado.
      • O mundo moderno era, por definição, uma época de incerteza e, esta, definia e limitava a liberdade.
        • As práticas racionais conduzem à previsibilidade dos comportamentos organizacionais.
        • Só a racionalidade limitaria a incerteza do mundo moderno.
  • 29.
    • Segundo Weber, a burocracia constituía um modo de organização.
      • O conceito de organização agregava: Estado, partidos políticos, igreja ou seita e a empresa.
      • Mas a característica definidora da organização era a presença de:
        • um líder
        • um corpo administrativo
    1.4. As tendências variáveis da burocracia
  • 30.
    • A racionalidade burocrática desenvolveu-se, assim, a partir de dois grandes tipos de acção:
      • Acções racionais comparativamente com os valores ;
      • Acções racionais relativamente aos fins – Weber privilegiava este tipo de acção, subordinando a dimensão humana ao funcionamento (técnico) da burocracia.
    • Tal seria uma consequência do “ desencantamento do mundo ”, até aí marcado pelo desenvolvimento da história com base em crenças, superstições, religiões organizadas ou partidos políticos centrados em “sujeitos históricos”, dos quais o proletariado é um exemplo.
  • 31.
    • Era, então, das acções racionalmente orientadas para um sistema de fins individuais discretos que decorreria a legitimidade :
      • do poder – capacidade de forçar as pessoas a obedecer, independentemente da sua vontade;
      • da autoridade – obediência voluntária a ordens por parte de quem as recebe.
    • A autoridade varia, assim, consoante o modo como é legitimidade, havendo, da mesma, três tipos:
      • a carismática , fundada na capacidade do líder;
      • a tradicional , assente no costume;
      • a racional-legal , baseada na racionalidade e na forma, sendo nesta que se sustenta o modelo burocrático.
  • 32.
    • Como afirma Evan (1993:23):
    • «A teoria racional-legal da burocracia, de Weber, constrange todo o pessoal, incluindo os decisores de topo, compele à conformidade com as políticas existentes, papéis e regulações. Se bem que não seja impossível para as elites organizacionais em burocracia iniciar políticas e mudanças organizacionais, é um lento e incerto processo, razão pela qual se caracteriza o papel da gestão em burocracia como reactivo .»
  • 33.
    • Esta “reactividade” decorria da dependência do exterior face à procura, aos mercados e à tecnologia.
    • O que explica, também, o êxito da burocracia num século que, sendo de progresso, foi, até há pouco, também de continuidade.
    • Porém, a descontinuidade do actual progresso caracteriza-se por:
      • Imprevisibilidade da procura;
      • Diversificação globalizada de mercados;
      • Intensidade da mudança tecnológica.
  • 34.
    • As organizações precisavam, assim, de “ ordem ” para subsistir, mas, adicionalmente, de capacidade para entender, interiorizar e responder aos desafios que, vindos de fora delas próprias, as obrigavam a evoluir sem pôr em causa a base que regia o seu funcionamento até essa altura.
      • Esta é, aliás, uma das debilidades actualmente apontada à teoria de Weber, já que fez encarar as organizações como “sistemas fechados”, influenciados pela envolvente, mas sem tornar evidentes os efeitos da burocracia para o sistema social.
      • De facto, Weber apenas apontou para a emergência do estado moderno e da economia de mercado capitalista como pré-requisitos para o êxito da burocracia racional-legal.
  • 35.
    • Não é, pois, de estranhar que as preferências de Weber vão para o exercício do poder racional-legal, já que os tipos de autoridade tradicional e carismático são menos bem adaptados, pela menor constância que pressupõem, como dependentes do tipo de líder ou da manutenção de costumes.
    • É a legitimidade do tipo racional-legal que entende dever caracterizar a sociedade moderna, impondo-se a autoridade pela via de um estatuto legal e de competências positivas, fundadas sobre regras estabelecidas racionalmente.
  • 36.
    • Na base da burocracia estão, assim, as crenças dos seus membros na legitimidade da sua existência, dos seus protocolos, do seu pessoal e das suas políticas.
    • É por isso que a burocracia tem razões históricas :
      • Superioridade técnica : as ineficiências podem existir e ser denunciadas como consequência de normas que as sancionam;
      • Calculabilidade do capital : decorrente da necessidade de prever de maneira racional e unívoca os custos e benefícios de todos os actos económicos relevantes;
      • Aparecimento da democracia de massas : a qual se pressupõe ser capaz de garantir a todos os cidadãos tratamentos iguais, imparciais e previsíveis, segundo as normas vigentes.
  • 37.
    • Com efeito, a burocracia marcou indelevelmente o século XX, através das seguintes tendências:
      • Descontinuidade das tarefas, pela especialização funcional ( especialização ) ;
      • Separação funcional das tarefas, que faz com que o pessoal tenha de dispor de níveis de autoridade e de poder de sanção proporcionais aos seus deveres (tendência para a legitimação da actividade organizacional );
      • Dada a distribuição funcional das tarefas, necessidade de existência de alguma relação de hierarquia entre os poderes, o que pressupõe a tendência para a hierarquização ;
  • 38.
      • Delegação de poderes consubstanciada em contratos de trabalho pormenorizados, que especificam deveres, direitos, obrigações e responsabilidades ( contratualização das relações organizacionais );
      • Como o contrato especifica as qualidades exigidas pelo trabalho, há uma procura de especificação das qualidades em termos de qualificações medidas por diplomas formais ( tendência para a credencialização );
      • Como o preenchimento das diferentes posições da hierarquia exige credenciais estratificadas diferenciadamente, tal pressupõe uma estrutura de carreira ( tendência para a carreirização );
  • 39.
      • Remuneração diferenciada das várias posições hierárquicas ( estratificação das organizações );
      • A hierarquia está claramente consubstanciada nos direitos de controlo, específico dos superiores, e no poder de resistência a tentativas impróprias de controlo, próprias dos subordinados ( configuração específica da autoridade no interior da estrutura);
      • A separação funcional, a descontinuidade das tarefas e as relações hierárquicas levam a que a realização e o controlo do trabalho inerente à organização devam ser alvo de uma definição normativa formal, em termos técnicos ou legais, por forma a que as normas possam ser seguidas independentemente das pessoas, isto é, sem medo de represálias (tendência para a formalização das normas );
  • 40.
      • A formalização das normas exige que a gestão se baseie em documentos escritos, adquirindo a acção organizacional uma forma estandardizada ( estandardização );
      • As relações não são exclusivamente hierárquicas; a centralidade da referida repartição promove o desenvolvimento da comunicação, da coordenação e do controlo, que passam necessariamente por este centro ( centralização );
      • A acção legítima passa por uma nítida diferenciação entre acção burocrática e acção particular dos indivíduos ( legitimação da acção organizacional);
  • 41.
      • O poder pertence ao cargo e não à função do titular desse cargo ( oficialização );
      • Como os poderes são exercidos em nome do cargo e não da pessoa, há uma tendência para a despersonalização da acção organizacional;
      • Esta despersonalização ocorre de acordo com sistemas disciplinares do conhecimento desenvolvidos na organização e importados de corpos de conhecimento profissional exteriores ( disciplinarização da acção organizacional).
  • 42.
    • Cada uma destas quinze tendências da burocracia era representada como variável do “ tipo ideal ”, podendo um dado processo estar mais ou menos presente numa organização específica.
    • De facto, «estes tipos acentuam, de forma expressa e consciente, aspectos relevantes da realidade, constituindo um modelo artificial que serve de esquema interpretativo e explicativo » (Clegg e Dunkerley, 1980:38).
    • Analisados em conjunto, estes processos expressam a forma como Weber antevia a transformação do mundo num complexo de gaiolas de ferro.
  • 43.
    • Apesar de merecidamente influentes, as análises de Weber foram objecto de revisão e crítica.
    • Quando os investigadores começaram a fazer estudos empíricos das organizações, recorrendo ao tipo ideal de burocracia, rapidamente concluíram que:
    • No mundo real da modernidade, e não na teorização de Weber, as tendências burocráticas nem sempre apareciam em conjunto num pacote racional-legal completo .
    O fim do colete-de-forças
  • 44.
    • Eis alguns autores que evidenciaram nos seus estudos que, na prática, a burocracia do “tipo ideal” não é perfeita:
      • Blau e Scott
      • Etzioni
      • Merton e Selznick
      • Hage
      • Burns e Stalker
      • Gouldner e Blau
    • ( Vide CLEGG, Stewart R. – As Organizações Modernas . Lisboa: Celta, 1998, pp. 47-55)
  • 45.
    • A burocratização (do “tipo ideal”) e a racionalização não podem ser tão facilmente conceptualizados enquanto representações da modernidade.
    • A organização racionalizada, burocratizada, não é necessariamente mais eficiente.
    • A organização burocrática foi, durante a era industrial clássica, o modelo ideal para as grandes organizações enquanto elas funcionavam num ambiente estável e de pouca mudança. Mas o tempo passou, e o mundo mudou…
    • A organização burocrática do “tipo ideal” já não é mais o «destino da nossa época»!
    Algumas conclusões…
  • 46. Advertência! O estudo destes apontamentos NÃO dispensa a leitura das obras referenciadas na Bibliografia, constante do Programa da cadeira de Sociologia das Organizações.