Transtornos invasivos do desenvolvimento 3º milênio

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Uma das formas de superação das desigualdades
nos dias de hoje, é o conhecimento. A criação e
manutenção de serviços de informação acessíveis
ao cidadão tornaram-se sem dúvida um dos mecanismos
para o compartilhamento do saber, de forma
a reduzir as desigualdades sociais.
Há uma consciência crescente de que muitas
pessoas têm dificuldades em conseguir uma participação
igualitária na sociedade por terem pouco ou
nenhum acesso a informações atualizadas.
Não é mais possível a promoção de políticas de
inclusão social sem o conhecimento das tecnologias
hoje existentes, das normas jurídicas em vigor e de
uma visão sistêmica em termos de áreas do conhecimento.
Desta forma, o compartilhamento de informações
torna-se uma tarefa de fundamental importância.
A igualdade de oportunidades passa necessariamente
pela tomada de consciência dos direitos e
necessidades de cada cidadão, bem como da colaboração
que cada um é capaz de oferecer.
Uma preocupação da Secretaria de Estado dos
Direitos Humanos é a de oferecer ao cidadão a oportunidade
de todos exercerem a sua cidadania, com
Apresentação
conhecimento dos direitos e exercício consciente
de seus deveres.

Transtornos invasivos do desenvolvimento 3º milênio

  1. 1. Presidência da RepúblicaSecretaria Especial dos Direitos HumanosCoordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência - CORDESistema Nacional de Informação sobre Deficência - SICORDEEsplanada dos Ministérios, Bloco T, Anexo II, 2o andar, sala 20070064 - 900 - Brasília - DFFone: 0xx61 - 3429-3493 / 3429-3669Fax: 0xx61 - 3225-8806E-mail: corde@sedh.gov.brHome page: http://www.presidencia.gov.br/sedh/cordeReprodução autorizada, desde que citada a fonte de referência.Distribuição gratuitaImpresso no Brasil/printed in BrazilCopyright@ 2005 by Presidência da RepúblicaTiragem: 10.000 - 1ª Edição - 2002 10.000 - 2ª Edição - 2005 1.000 - 2ª Edição em CD - 2005E-mail do autor para contato: camargos@pobox.comNormalização: Maria Amélia Elizabeth Carneiro Veríssimo (CRB-1No 303)Os conceitos e opiniões emitidos nesta obra, assim como as ilustrações, são de exclusiva responsabilidadedos autores.Referência bibiográfica:Camargos Jr., Walter et al. Transtornos invasivos do desenvolvimento: 3o Milênio. Brasília: CORDE, 2005. 260 p.26,5 cm. Ficha catalográfica: Camargos Jr., Walter (coord.) Transtornos Invasivos do Desenvolvimento: 3o Milênio / Walter Camargos Jr e colaboradores. -Brasília: Presidência da República, Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, 2005. 260 p.: 26,5 cm. 1. Deficiência 2. Deficiência mental 3. Autismo 4. Síndrome de Asperger 5. Síndrome de Rett I. Título II. Brasil. Presidência da República, Secretaria Especial dos Direitos Humanos. Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência . CDD - 616.8588
  2. 2. Apresentação Uma das formas de superação das desigualda- conhecimento dos direitos e exercício conscientedes nos dias de hoje, é o conhecimento. A criação e de seus deveres.manutenção de serviços de informação acessíveis A edição da Coleção "Estudos e Pesquisas na áreaao cidadão tornaram-se sem dúvida um dos meca- da Deficiência", editada em parceria com a Associa-nismos para o compartilhamento do saber, de forma ção de Pais e Amigos dos Portadores de Necessidadesa reduzir as desigualdades sociais. Especiais do Rio de Janeiro - AMES e Associação Bra- Há uma consciência crescente de que muitas sileira de Autismo - ABRA, entidades de defesa depessoas têm dificuldades em conseguir uma partici- direitos da pessoa portadora de transtornos autísticos,pação igualitária na sociedade por terem pouco ou sem dúvida alguma, virá minimizar a carência de in-nenhum acesso a informações atualizadas. formações acessíveis sobre o tema. Faz parte desta Não é mais possível a promoção de políticas de primeira edição os seguintes títulos:inclusão social sem o conhecimento das tecnologias 1 - Transtornos Invasivos do Desenvolvimentohoje existentes, das normas jurídicas em vigor e de Associados a Graves Problemas do Comportamentouma visão sistêmica em termos de áreas do conheci- - "Reflexões sobre um Modelo Integrativo", de auto-mento. ria do Prof. Dr. José Raimundo Facion; Desta forma, o compartilhamento de informa- 2 - Transtornos Invasivos do Desenvolvimento -ções torna-se uma tarefa de fundamental importân- 3º Milênio, de autoria do Dr. Walter Camargos Juniorcia. e colaboradores; A igualdade de oportunidades passa necessaria- 3 - Lesão Cerebral, de autoria do Dr. José Américomente pela tomada de consciência dos direitos e Fontes;necessidades de cada cidadão, bem como da cola- 4 - Assistência Preventiva ao Recém-Nascido paraboração que cada um é capaz de oferecer. Parteiras e Agentes de Saúde, de autoria do Dr. José Uma preocupação da Secretaria de Estado dos Américo Fontes;Direitos Humanos é a de oferecer ao cidadão a opor- 5 - Obstetrícia para Pediatras e Pediatria para Obs-tunidade de todos exercerem a sua cidadania, com tetras, de autoria do Dr. José Américo Fontes. “O desconhecimento estimula a omissão; o conhecimento nos liberta do preconceito, da segregação e da falta de cidadania”. Niusarete Margarida de Lima Coordenadora Sistema Nacional de Informações sobre Deficiência Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência - CORDE
  3. 3. Lista de ColaboradoresAdrianna Zuchi Psicologia da PUC-SP.Psicóloga, Supervisora e Coordenadora daComunidade Terapêutica D.W.Winnicott, POA – RS, Cláudia Gonçalves de Carvalho BarrosEspecialista em Psicoterapia de Casal e Família. Fonoaudióloga; Pós-graduada em Distúrbios da Comunicação; Professora da Cadeira Prevenção eAdriane Gonçalves Salle Correção dos Problemas de Linguagem do Curso dePsicóloga, Supervisora e Coordenadora da Fonoaudiologia das FAMIH–BH.Comunidade Terapêutica D.W.Winnicott, POA – RS,Especialista em Psicoterapia da Infância e Cleonice BosaAdolescência. Mestre em Psicologia do Desenvolvimento (UFRGS); PhD em Psicologia (Institute of Psychiatry - UniversityAline de Castro of London, Uk); Profa Adjunto do Instituto deMusicoterapeuta da Equipe SEADDA (Serviço de Psicologia (UFRGS); Coordenadora do NúcleoAtendimento e Diagnóstico Diferencial de Autismo), Integrado de Estudos e Pesquisa em Transtornos dono Centro PsicoPedagógico – FHEMIG, BH, MG. Desenvolvimento – NIEPED (UFRGS).Ana Cristina Bittencourt Fonseca Cristina Araújo Costa OliveiraPsiquiatra da Equipe SEADDA (Serviço de Atendimento Fisisoterapeuta da Equipe SEADDA (Serviço dee Diagnóstico Diferencial de Autismo), no Centro Atendimento e Diagnóstico Diferencial de Autismo),PsicoPedagógico – FHEMIG, BH, MG no Centro PsicoPedagógico – FHEMIG, BH, MG.Ana Maria Bereohff P Bastos . Emílio SalleProfessora com Especialização em Educação Especial Médico psiquiatra. Mestre em Clínica Médica pelae Psicóloga Clínica atuando em avaliação e UFRGS, Diretor Clínico da Comunidade Terapêuticaatendimento a portadores de Transtornos Invasivos D.W.Winnicott, Membro Fundador do GEPAPI.do Desenvolvimento. Érica Gomes ForneroAna Maria S. Ros de Mello Fonoaudióloga da Equipe SEADDA (Serviço dePresidente da AMA-SP. Atendimento e Diagnóstico Diferencial de Autismo), no Centro PsicoPedagógico – FHEMIG, BH, MG.Ana Nilce PettinatePsicóloga; Psicomotricista da Equipe SEADDA (Serviço Erica de Araujo Brandão Coutode Atendimento e Diagnóstico Diferencial de Autismo), Fonoaudióloga; Psicóloga; Mestre em Educaçãono Centro PsicoPedagógico – FHEMIG, BH, MG. Especial; Docente do Curso de Fonoaudiologia das Faculdades Metodistas Integradas Izabela Hendrix –Ana Lúcia Rossito Aiello FAMIH, BH, MG.Doutora em Psicologia Experimental (USP) peloDepartamento de Psicologia, Universidade Federal Evie de França Gianninide São Carlos, SP. Bolsista de Iniciação Científica, graduanda de Psicologia da Universidade do Estado do Rio deAndréa Regina Nunes Misquiatti Janeiro – UERJ.Mestre em Distúrbios da Comunicação pela PUC-SP;Docente do Departamento de Fonoaudiologia da Fernanda Dreux Miranda FernandesUnesp-Marília/SP; Coordenadora do Ceicomhu- Centro Mestre em Distúrbios da Comunicação pela PUCSP;de Estudos Interdisciplinares da Comunicação Doutora em Semiótica e Lingüística Geral pela USP;Humana da Unesp - Marília/SP. Docente do Curso de Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina da USP; Coordenadora do Laboratório deCaio Flávio Miguel Investigação Fonoaudiológica nos DistúrbiosPsicólogo formado pela PUC-SP; Mestre e Psiquiátricos da Infância do curso de fonoaudiologia daDoutorando em análise comportamental aplicada FMUSP; Professora e orientadora nos programas depela Western Michigan University, EUA. Atua com mestrado e doutorado em Ciências da FMUSP e empesquisa na área de ensino de linguagem em Semiótica e Lingüística Geral da Faculdade de Filosofia,crianças diagnosticadas com autismo e outros Letras e Ciências Humanas da USP.transtornos do desenvolvimento. Francisco Bartista Assumpção Jr.Ceres Alves de Araújo Psiquiatra; Doutor em Psicologia Clínica pela PUC-SP;Psicóloga; Doutora em Distúrbios da Comunicação Professor do Programa de Pós-graduação emHumana pela Escola Paulista de Medicina; Professora Psiquiatria da USP e do Programa de Distúrbios dodo Departamento de Psicodinâmica da Faculdade de Desenvolvimento pela Universidade Mackenzie.
  4. 4. Gláucia M ª Guerra Araújo Márcia Cristina L. PereiraPedagoga - Especialista em Educação Especial. Psicóloga – Especialista Psicopatologia Dinâmica.Igor Mangueira Margarida H. Windholz, Ph.D.Estudante de jornalismo, UFS-SE; autor do romance Psicóloga formada pela USP; Doutora em Psicologia“Profunda Indiferença – As Lágrimas de um Olhar Perdido”. pela USP; Ex-docente do Departamento de Psicologia Experimental, Instituto de Psicologia da USP;José Luiz Pinto Pereira. Pesquisadora; Membro da Academia Paulista deNeurologista pela UFPR; Título de Psiquiatria pela ABP Psicologia; Co-fundadora, organizadora e supervisoraAMB; Professor Auxiliar de Psiquiatria do da primeira escola de abordagem comportamentalDepartamento de Medicina Forense e Psiquiatria da em São Paulo (CARE) em 1972.Universidade Federal do Paraná, Curitiba. Maria Cristina Machado RibeiroJosé Raimundo Facion Psicóloga, Diretora da Escola ComumViver, BH, MG.Psicólogo; Doutor em Medicina pelo Departamentode Psiquiatria Infantil e Pós-Doutorado no Maria das Dores de Oliveira NunesDepartamento de Neuropediatria da Universidade de Psicóloga, pós-graduada em Psicopedagogia.Münster – Alemanha; Professor visitante daUniversidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. Maria do Carmo Tourinho Ribeiro Vieira Presidente da Associação Brasileira de Autismo -Letícia Lima Leão ABRA e da Associação de Amigos do Autista deMestre em Pediatria pela UFMG; Médica do Serviço Sergipe.Especial de Genética doHospital das Clínicas daUFMG. Maria Eugênia Castelo Branco Albinati Musicoterapeuta e educadora musical; Vice-Marcos José Burle de Aguiar presidente da Associação Mineira deDoutor em Pediatria pela Faculdade de Medicina Musicoterapia.UFMG; Professor Adjunto do Departamento dePediatria da Faculdade Medicina da UFMG; Maria Isabel dos Santos PinheiroCoordenador do Serviço Especial de Genética do Psicóloga pela PUC/MG; Especialista emHospital das Clínicas da UFMG. Psicopedagogia pela PUC/MG; Mestranda em Educação Especial pela UF São Carlos/SP PesquisadoraLilian Pimentel Almeida Lopes pelo Laboratório de Neuropsicologia doTerapeuta Ocupacional da Equipe SEADDA (Serviço de Desenvolvimento Departamento de Psicologia,Atendimento e Diagnóstico Diferencial de Autismo), Universidade Federal de Minas Gerais.no Centro PsicoPedagógico – FHEMIG, BH, MG. Maria Isabel TafuriLívia de Castro Magalhães, PhD. Psicóloga; Psicanalista; Mestre em Psicologia ClínicaTerapeuta Ocupacional; Doutora em Psicologia da pela Universidade Federal de Brasília; Professora deEducação pela Universidade de Illinois em Chicago; Psicologia Clínica da UnB.Profa. Adjunta, Depto. de Terapia Ocupacional, UFMG. Maria Helena Siqueira SprovieriLorenzo Lanzetta Natale Mestra e Doutora em Serviço Social pela PontifíciaAlunos de graduação em Psicologia e Iniciação Universidade Católica de São Paulo; TerapeutaCientífica no Laboratório de Neuropsicologia do Familiar; Membro Titular da Associação Paulista deDesenvolvimento, Departamento de Psicologia, UFMG Terapia Famíliar.Lucia Helena Vasconcelos Freire Maria de Lourdes CanzianiPsicóloga; Extensa experiência em Escolas Especiais e Pedagoga pela Universidade Federal do Paraná -com portadores de autismo Infantil e outros TID. UFPR; Especializada em Programas de atendimento a pessoas com deficiência em cursos no Brasil e noMárcia Brandão de Castro exterior; Contribuiu para o desenvolvimento dasPedagoga; pós-graduada em Educação Pré-escolar; políticas brasileiras na área de reabilitação deCoordenadora da área Pedagógica da Escola pessoas com deficiência e elaborou diretrizes,ComumViver. BH, MG. projetos e/ou programas de atendimento a essas pessoas; atuou em cargos de direção em instituiçõesMárcia Cristina Franco Lambertuci públicas e privadas; autora de livro e artigos sobreTerapeuta Ocupacional, Especialista no Método o tema, publicados em revistas científicas nacionaisNeuroevolutivo e Terapia de Integração Sensorial. e internacionais.
  5. 5. Marli Bonamini Marques Membro do Serviço de Neurologia Infantil doCoordenadora Pedagógica da Associação dos Amigos Hospital das Clínicas da UFMG; Membro do Centrodo Autista - AMA/SP. de Neuropediatria do Hospital Infantil São Camilo, Belo Horizonte, MG.Mauro Ivan SalgadoCirurgião Dentista, Médico, Professor Assistente de Rosa Maria Melloni HoritaCirurgia da Faculdade de Medicina da UFMG, Membro Psquiatra da Infância e Adolescência da Secretaria deTitular da Academia Mineira de Odontologia e da Saúde do Distrito Federal.Associação Brasileira de Pesquisadores de História eGenealogia. Autor de vários livros pedagógicos para Rosana Soares Melo Limacrianças na área odontológica. Psicóloga Clínica, Especialista em Neuropsicologia – FUMEC- MGMaycoln Leôni Martins TeodoroPsicólogo pela UFMG; Mestre e, Psicologia Social pela Shawn E. KenyonUFMG; Doutorando em Psicologia pela Universidade Mestre em Psicologia Clínica pelo Assumptionde Freiburg. College, EUA – Especialização em Terapia Comportamental para Crianças e Adolescentes.Nylse Helena Silva CunhaPedagoga; Membro Fundadora do GEPAPI. Simone Aparecida Lopes-Herrera Fonoaudióloga; Mestre e Doutoranda em EducaçãoPatrícia Coacci Rangel Especial pela Universidade Federal de São CarlosAssistente Social e Especialista em Saúde Mental; (UFSCar); Coordenadora do Curso de FonoaudiologiaCoordenadora do SEADDA ( Serviço de Atendimento do Centro Universitário do Norte Paulista (UNORP -e Diagnóstico Diferencial de Autismo), no Centro São José do Rio Preto-SP).PsicoPedagógico - FHEMIG. Tânia Gonzaga GuimarãesPatrícia Martins de Freitas Psicóloga – Especialista em Psicodiagnóstico InfantilAlunos de graduação em Psicologia e IniciaçãoCientífica no Laboratório de Neuropsicologia do Tatiana de Melo PereiraDesenvolvimento, Departamento de Psicologia, UFMG. Psicóloga da Equipe SEADDA (Serviço de Atendimento e Diagnóstico Diferencial de Autismo),Paula Braga-Kenyon no Centro PsicoPedagógico – FHEMIG, BH, MG.Psicóloga formada pela PUC-SP; Mestre em análisecomportamental aplicada pela Northeastern Vera Lúcia Diniz de LimaUniversity, EUA. Psicóloga; Diretora da Escola ComumViver, BH, MG.Paulo Berél Sukiennik Vicente de PaulaMédico psiquiatra , Mestre Educação pela PUCRS Técnico em Musicoterapia da Equipe SEADDA (ServiçoDiretor Clínico da Comunidade Terapêutica D. W. de Atendimento e Diagnóstico Diferencial de Autismo),Winnicott, POA, RS., Membro Fundador do no Centro PsicoPedagógico – FHEMIG, BH, MG.GEPAPI.. Vitor Geraldi HaasePriscilla Siomara Gonçalves Neurologista; Mstre em Lingüística pela PUC/RS;Analista de sistemas com especialização em Doutor em Biologia Humana pela Universidade depsicopedagogia. Coordenadora da Lista de Discussão Munique; Professor Adjunto do Departamento dede Autismo. Psicologia da UFMG.Regina Fanfa Onófrio Viviane Costa de LeonPsicóloga, Supervisora e Coordenadora da Terapeuta Oucpacional; Especialista emComunidade Terapêutica D.W.Winnicott, Especialista Psicopedagogia Clínica; Mestranda em Psicologia doem Psicoterapia da Infância e Adolescência. Desenvolvimento pela Universidade Federal do RioRoberto Antonucci Grande do Sul.Psicólogo clínico; Mestre e Doutorando, em psicologiaclínica pela PUC/SP; Supervisor clínico da Faculdade de Walter Camargos JuniorPsicologia da Universidade Santo André –SP. Psiquiatra infantil; Professor Assistente de Psiquiatria na Faculdade de Ciências Médicas deRodrigo Carneiro de Campos Minas Gerais; Psiquiatra Infantil no Centro GeralNeurologista Infantil da Prefeitura de Belo Horizonte de Pediatria – FHEMIG; Membro fundador doe do Centro Psicopedagógico da Fundação GEPAPI.Hospitalar do Estado de Minas Gerais, FHEMIG;
  6. 6. APRESENTAÇÃO É com imensa satisfação que faço a apresentação com o tema Tratamentos. Todos os autores escreve-desse livro - Transtornos Invasivos do Desenvolvimento ram de forma clara e de fácil absorção, mesmo tratan-– 3o. Milênio! Em todo o período de gestação do livro, do-se de temas complexos.desde a idéia de editar um livro que pudesse atualizar os A seção sobre temas da psicologia inicia com ostécnicos nos conhecimentos atuais e, para isso seria Sinais Precoces onde a autora traz vários aspectos relati-necessário explicitar a prática ao invés de um suposto vos aos bebês. Abarca ainda um capítulo sobre a ópticasaber teórico que nada acresce ao portador de deficiên- psicanalítica atual, onde os pais são partícipes do proces-cia e sua família, a conversa com os técnicos da CORDE, so terapêutico. Segue-se a óptica jungiana onde a autorao convite aos autores, a revisão dos temas, e mesmo a desenvolve os conceitos e constrói uma conclusão quecontínua cobrança dos autores pela finalização dos tex- seres portadores de autismo possuem uma formataçãotos visualizei o quanto os profissionais brasileiros apren- psíquica diferente, em sua essência, em comparação aderam e agora doam esse conhecimento à população uma pessoa normal e que para isso o tratamento tam-acometida por destino tão grave. bém deve ser específico. O capítulo sobre Teoria da Men- Há pouco mais de 10 anos a CORDE concretizava o te não se prima pelas concepções teóricas profundashistórico “I Congresso Nacional de Autismo, em mas por sua aplicabilidade. O texto sobre PsicologiaBrasília”, época em que o Autismo Infantil e Síndromes Comportamental é atual e serve para utilização no coti-correlatas ainda eram uma novidade teórica para a diano clínico e de base para o capítulo seguinte que é omaioria. Práticas distorcidas sem objetivo definido e Perfil Psico-Educacional Revisado (PEP-R) na versão brasi-sem rumo eram o padrão. Profissionais médicos em leira. Os aspectos psicológicos dos portadores deperíodo de especialização sem as informações míni- Síndrome de Asperger são intensamente trabalhados nomas que os capacitassem a lidar com essa população, já capítulo seguinte. O capítulo 15 traz um tema - A Sexu-que seus preceptores também não estavam alidade do portador de TID ainda muito pouco trabalha-instrumentalizados técnicamente. Escolas que deno- do em livros e artigos técnicos mas muito conversadominava a todos e indiscriminadamente, de psicóticos. no cotidiano clínico, familiar e escolar. O importante temaPedagogos que tentavam aprender através de erros e sobre as famílias é brilhantemente comentado. Essa se-acertos qual o melhor caminho. Psicólogos que ainda ção é finalizada com informações gerais sobreacreditavam que todas as mães eram doentes e lhes Neuropsicologia e Mecanismos Neurocognitivos noimputavam a origem de tal mal. Profissionais da Saúde Autismo Infantil, onde trata de questões teóricas poucoPública que diziam que essa população era pequena comuns em nosso meio clínico.demais para merecer uma política específica e que po- A terceira seção, do capítulo 19 ao 25, traz questõesderiam/deveriam ser “tratadas” em Postos de Saúde. relativas a pedagogia. Inicia com uma visão geral sobre Percebo que estamos, aqui no Brasil, começando a o trabalho com os portadores de Distúrbios desair do “tempo das trevas” no tocante aos Transtornos Comportamento seguido de uma discussão focada nosInvasivos do Desenvolvimento. Evoluimos e espero que portadores de Transtornos Invasivos do Desenvolvimentonunca paremos. E, começamos graças ao movimento (TID) onde aborda as fronteiras pedagogia/terapia nodas famílias que se organizaram em Associações como a trabalho com essa população e se/como é possível marcarAMA-SP, a ABRE-TE, ASTECA e ABRA, etc e tiveram o com clareza tais limites. Também o tema sobreapoio governamental da CORDE. Avalio que sem esses Professores é tratado com intensidade e a sensatez dapersonagens, a grande maioria de nós profissionais não equação necessidade/possibilidade sob o título:teria adquirido o conhecimento que possui atualmente. Formando Professores. O capítulo 22 traz o método Enfim com esse livro concretizo uma visão que TEACCH, aplicação com sucesso inquestionável, seguidotive, ainda na década passada que a identificação dessa do método de Análise Comportamental Aplicada (ABA):população e suas necessidades seriam alcançadas em um Modelo para Escolas Especiais. O Inventário Portageperíodo temporal razoável. é trazido aqui nesta seção mas pode e deve ser utilizado Esse livro tem objetivo prático e foi dividido por por todos os Serviços (Escolas, Clínicas, etc.) eseções, que correspondem a áreas de atuação: Médica, profissionais que queiram e necessitem trabalhar comPsicológica, Pedagógica, Fonoaudiológica, Institucional dados mais objetivos já que oferecem uma relação entree Temas Especiais. a idade de desenvolvimento normal esperada para uma Na seção médica temos 7 capítulos. Inicia-se com dada idade cronológica, ou seja podemos saber queaspectos gerais do Autismo Infantil, seguido dos Diag- aquela pessoa que possui uma idade cronológica de pornósticos Diferenciais mais comuns, dos aspectos neu- exemplo 13 anos se encontra numa idade derológicos desse grupo nosográfico e de suas bases ge- desenvolvimento de por exemplo 14 meses e com issonéticas. O capítulo 5 e os próximos versam sobre a podemos programar seu tratamento com maiorSíndrome de Asperger, a Síndrome de Rett e finaliza especificidade e objetividade. Esta seção termina com
  7. 7. um capítulo sobre a Avaliação Psicológica e a apresentação do trabalho desenvolvido em BeloAlfabetização onde é apresentado o caminho para a Horizonte dentro de um hospital psiquiátrico infantilinternalização do mundo das letras e números para uma onde numa determinada época foi acolhida, pela entãocriança desse grupo. Diretoria, a demanda de criação de estrutura com o A quarta seção inicia com uma visão ampla da objetivo específico de assistência da populaçãoprática fonoaudiológica onde a autora traz a portadora de TID, mostrando as características daimportância do planejamento terapêutico diante das assistência própriamente dita, o trabalho em equipe emuitas opções técnicas existentes. O capítulo 28 traz seus conflitos.uma rica visão dos Transtornos da Linguagem A última seção comporta os temas especiais. OExpressiva nos diversos grupos nosológicos que primeiro é sobre a Assistência Odontológica a essacompõe os Transtornos Invasivos do população que muitas vezes sofre de dor de dente,Desenvolvimento; seguindo-se os Transtornos mesmo sem identificar de onde vem o mal-estar e reageReceptivos da Linguagem onde a autora consegue através de comportamentos inadequados (geralmenteretratar uma panorâmica do universo desses transtornos agitação psicomotora, agressividade, alterações dode tal forma que sua compreensão se torna acessível a sono, etc.) quando são medicados com psicotrópicostodos que tenham um mínimo de informação na área. que diminuem o limiar de dor o que ocasiona mais dorA seção termina com o tema Uma Introdução ao Sistema etc, etc. O autor foi muito feliz em transmitir toda suade Comunicação Através de Troca de Figuras (PECS), experiência nas técnicas de tratamento e natécnica ainda pouco utilizada entre nós porém de desmistificação das duas afirmações extremistas: não éexcelente resultado e de treinamento não muito possível o tratamento sem anestesia e o tratamento comcomplexo que possibilita a comunicação nas pessoas anestesia é maléfico para a criança. O Capítulo 37 trazque ainda não adquiriram a capacidade de verbalizar. questões muito importantes sobre o tratamento de Ao elaborar o livro senti a necessidade de pessoas que são hipersensíveis sensorialmente assimcontemplar estruturas assistenciais diversas que só são como os hiposensíveis que necessitam constantementerealizadas em Instituições, tema da quinta seção. Como de algum tipo de auto-estimulação, como identificá-é de se esperar inicia com um modelo de Escola onde as los e os tratamentos. O capítulo seguinte traz comautoras explicitam como é a avaliação do aluno, o riqueza de detalhes a utilização da Musicoterapia paraplanejamento institucional e para aquele aluno, o esse público. A docência, desse tema, num Cursoagrupamento em uma sala de aula, o trabalho em Superior tem a importância da disseminação desseequipe, o trabalho com os pais e a relação de todos com conhecimento para todos os que estão sendoo médico-que-atende-o-aluno. No capítulo 31 a diretoria instrumentalizados para a prática clínica em futuroda Associação dos Amigos do Autista de São Paulo traça próximo. Infelizmente esses temas ainda nãosua trajetória nesses 19 anos onde fica claro seu mereceram a atenção do Ministério da Educação edinamismo, a qualidade de sua organização institucional Cultura nem das Universidades ou das Faculdades doe suas propostas de trabalho em suas fronteiras e como País. O tema Integração entre a Assistência e a Pesquisadisseminador de conhecimento e técnicas. Repetindo, trata de forma elegante sobre a “velha” questão daa sociedade brasileira deve aos Pais que fundaram essa falta de recursos financeiros necessário para qualquerAssociação de Pais e as outras AMA´s espalhadas por iniciativa assistencial onde é apresentado um tipo deesse Brasil a fora grande parte do estágio de solução, que é a formatação do Projeto em Pesquisa.desenvolvimento que agora estamos e isso deve servir No capítulo 41 a autora aborda a utilização da dinâmicade exemplo para outros Transtornos cuja assistência Internet como recurso terapêutico para essa populaçãoainda não esteja contemplada pela sociedade brasileira. e seus familiares, ficando evidente o carinho com queO capítulo seguinte trata de outra realidade de AMA, administra as Listas de Discussão. O capítulo seguinteagora em Aracaju onde a autora traça com clareza todas é imprescindível para as famílias cujos membrosas dificuldades pelas quais passou enquanto mãe e afetados atingiram a maioridade já que traz informaçõesresponsável pela Instituição e mais que isso, mostra o jurídicas de tutela, curatela, etc., sua importância e comoconflito entre a dor de separação de um filho incapaz concretiza-las. O Capítulo 43 traz o conceito amplo docivilmente e a racionalidade de deixá-lo morar em outra que é a inclusão desses desafortunados em nossacasa como qualquer filho capaz. Segue a seção com sociedade, não se limitando a questão escolar a qual ointrigante capítulo sobre algumas situações em que a termo ficou aderido e consequentemente restrito. Oconvivência de uma pessoa portadora desses transtornos livro encerra com o tema sobre Políticas Governamentaisatinge tal ponto de desgaste com a família e/ou onde os sem as quais não poderemos avançar.recursos terapêuticos se esgotam que é necessário uma Espero que todos os leitores tenham prazer naestrutura especializada em reverter os comportamentos leitura e que pratiquem as experiências aqui traduzidas,daquela pessoa e ensinar a família a lidar com a pessoa para que nossas crianças tenham a chance quenum novo modelo de relacionamento. O capítulo 34 merecem!versa sobre os conceitos e histórico de ComunidadeTerapêutica e a utilização dessa lógica terapêutica aosportadores de TID diferenciando essa estrutura do que Dr. Walter Camargos Jr.denomina Escola Terapêutica. Essa seção termina com
  8. 8. SUMÁRIOSEÇÃO I - TEMAS MÉDICOS Capitulo XXV - Avaliação Psicológica e Alfabe- tização ......................................................................... 160Capitulo I - Autismo Infantil .................................... 11Capítulo II - Diagnostico Diferencial do AutismoInfantil ......................................................................... 16 SEÇÃO IV - TEMAS DA FONOAU-Capítulo III - Aspectos Neurológicos ..................... 21 DIOLOGIACapitulo IV - Aspectos Genéticos ........................... 23 Capitulo XXVI - A Fonoaudiologia Aplicada aos Portadores de TID ........................................................ 165Capitulo V - Síndrome de Asperger ....................... 25 Capitulo XXVII - Trantornos da LinguagemCapitulo VI - Síndrome de Rett .............................. 29 Expressiva nos Portadores de Transtornos InvasivosCapitulo VII - Tratamento dos Portadores do Espectro do Desenvolvimento .................................................. 168Autístico ...................................................................... 36 Capitulo XXVIII - Transtornos da Linguagem Receptiva ................................................................... 173SEÇÃO II - TEMAS DA PSICOLOGIA Capitulo XXIX - Uma Introdução ao Sistema deCapitulo VIII - Sinais Precoces de Compro-metimento Comunicação Através de Troca de Figuras (PECS) .. 177Social no Autismo Infantil .......................................... 42Capitulo IX - A Participação dos Pais no Tratamento Seção V - Temas InstitucionaisPsicanalítico com a Criança Autista: Reflexões ....... 47 Capitulo XXX - A Escola para os Portadores deCapitulo X - O Autismo sob a Perspectiva Junguiana Transtornos Invasivos do Desenvolvimento ........... 183...................................................................................... 57 Capitulo XXXI - A Ama - SP Hoje ..................... 187Capitulo XI - A Teoria da Mente e a Aplicação nos Capitulo XXXII - A AMA - Aracajú .................. 190Portadores de Transtornos Invasivos doDesenvolvimento ......................................................... 64 Capitulo XXXIII - Quando a Internação é Indicada ..................................................................................... 193Capitulo XII - A Terapia Comportamental com deTranstornos Invasivos do Desenvolvimento ............ 75 Capitulo XXXIV - A Comunidade Terapêutica. 203Capitulo XIII - Perfil Psico-Educacional Revisado (PEP- Capitulo XXXV - A Dinâmica de uma Equipe Multi-R): Elaboração da Revisão Brasileira ......................... 82 disciplinar Especifica para Assistência dos Portadores de Transtornos Invasivos do Desenvolvimento InseridaCapitulo XIV - Os Aspectos Psicológicos dos num Contexto Hospitalar ......................................... 210Portadores de Síndrome de Asperger ...................... 88Capitulo XV - A Sexualidade do Portador deTranstornos Invasivos do Desenvolvimento ............ 93 SEÇÃO VI - TEMAS ESPECIAISCapitulo XVI - Aspectos Familiares do Portador de Capitulo XXXVI - A Assistência OdontológicaTranstornos Invasivos do Desenvolvimento ............ 99 ..................................................................................... 220Capitulo XVII - O Que é Neuropsicologia .......... 106 Capitulo XXXVII - Terapia Ocupacional nosCapitulo XVIII - Mecanismo Neurocognitivos no Transtornos Invasivos do Desenvolvimento .......... 227Autismo: uma Perspectiva Construtivista ................ 108 Capitulo XXXVIII - A Musicoterapia Aplicada aos Portadores de Transtornos Invasivos do Desenvolvimento ....................................................... 236SEÇÃO III - TEMAS PEDAGÓGICOS Capitulo XXXIX - Docência Sobre os TranstornosCapitulo IXX - Abordagens Pedagógicas dos Invasivos do Desenvolvimento em Curso Superior ... 242Distúrbios de Comportamento ................................ 122 Capitulo XL - A Integração entre a Assistência e aCapitulo XX - A Psicopedagogia Aplicada aos Pesquisa ....................................................................... 245Portadores de Transtornos Invasivos doDesenvolvimento ....................................................... 127 Capitulo XLI - A Ultilização da Internet como Recurso Terapêutico aos Portadores de TranstornosCapitulo XXI - Formando Professores ............... 138 Invasivos do Desenvolvimento e seus Familiares .. 247Capítulo XXII - O Método TEACCH .................. 144 Capitulo XLII - Aspectos Jurídicos na MaioridadeCapitulo XXIII- Análise Comportamental Aplicada ...................................................................................... 250(ABA): Um Modelo Para A Educação Especial ....... 148 Capitulo XLIII - A Inclusão ................................. 252Capitulo XXIV - O Projeto Portage e o Inventário Capitulo XLIV - Políticas governamentais para osPortage Operacionalizado ........................................ 154 Portadores Invasivos do Desenvolvimento ........... 256
  9. 9. Transtornos Invasivos do Desenvolvimento10
  10. 10. 3º Milênio grupo de crianças com retardo no desenvolvimento,SEÇÃO I – TEMAS MÉDICOS sem outras características associadas ao retardo mental, e deu o nome “psicopatia autística” a esta doença. Ao contrário de Kanner, que via um prognóstico mais sombrio para estes pacientes,CAPITULO I Asperger acreditava que eles responderiam melhor ao tratamento, possivelmente em função de que os pacientes descritos por ele apresentavam umAUTISMO INFANTIL - SINAIS E rendimento superior ao daqueles descritos por Kanner.SINTOMAS Coincidência ou não, dois autores escreveram, na mesma época, trabalhando isoladamente, cada umEmílio Salle em seu país, os sintomas da doença que hojePaulo Berél Sukiennik conhecemos como autismo infantil.Adriane Gonçalves Salle Discordando do proposto por Kanner, Bender,Regina Fanfa Onófrio em 1947, usou o termo esquizofrenia infantil, poisAdrianna Zuchi ele e outros consideravam o autismo como a forma mais precoce da esquizofrenia (Gauderer, 1992). Já Mahler(1989) utilizou o termo psicose simbiótica,HISTÓRICO atribuindo a causa da doença ao relacionamento mãe- Em 1906, Plouller introduziu o adjetivo autista na filho.literatura psiquiátrica, ao estudar pacientes que tinham Rutter, em 1967 , fez uma análise crítica dasdiagnóstico de demência precoce (esquizofrenia). Mas evidências empíricas encontradas acerca do autismofoi Bleuler, em 1911, o primeiro a difundir o termo e considerou quatro características como principais:autismo, definindo-o como perda de contato com a falta de interesse social; incapacidade de elaboraçãorealidade, causada pela impossibilidade ou grande de linguagem responsiva, presença de condutadificuldade na comunicação interpessoal. Referiu-se motora bizarra em padrões de brinquedo bastanteoriginalmente ao autismo como transtorno básico da limitados e início precoce, antes dos trinta meses.esquizofrenia, que consistia na limitação das relações O Conselho Consultivo Profissional da Sociedadepessoais e com o mundo externo, parecendo excluir Nacional para Crianças e Adultos com Autismo dostudo que parecia ser o “eu” da pessoa. Estados Unidos (Ritvo e Freedman, 1978) define o “Alterações autísticas do contato afetivo” foi o autismo como uma síndrome que aparece antes dostítulo do trabalho escrito por Leo Kanner, em 1943, trinta meses e que possui as seguintes características:que diferenciou o autismo de outras psicoses graves distúrbios nas taxas e seqüências dona infância. Utilizando o termo difundido por Bleuler, desenvolvimento; distúrbios nas respostas aKanner separou o termo autismo para designar esta estímulos sensoriais; distúrbios na fala, linguagem edoença de que hoje todos ouvimos falar. Examinando capacidades cognitivas; distúrbios na capacidade deonze crianças de classe média americana, com relacionar-se com pessoas, eventos e objetos.problemas graves do desenvolvimento, bonitas e Essa definição (Ritvo e Freedman, 1978), mais ainteligentes, ele definiu dois critérios que seriam o eixo de Kanner (1943) e a de Rutter (1967), formaram adesta recém descoberta doença: a solidão e a insistência base para os critérios diagnósticos do autismo nasobsessiva na invariância. duas principais classificações de transtornos mentais: Referindo-se à solidão autística, escreve: “o a CID-9 (OMS, 1984) e o DSM-III-R (APA, 1980).transtorno principal, patognomônico, é a incapacidade Ambos tinham definições e critérios diagnósticos similares, mas diferenças na conceituação: enquantoque tem estas crianças, desde o começo de suas vidas, a CID-9 (OMS, 1984) conceituava o autismo comopara se relacionar com as pessoas e situações” (Kanner, um subtipo das psicoses com origem específica na1943, p.242). Em relação ao comportamento infância, evoluindo para esquizofrenia, o DSM-III-Rrepetitivo, “os sons e movimentos da criança são tão (APA, 1980) o considerava um tipo de distúrbio globalmonotonamente repetitivas como são suas emissões do desenvolvimento, apresentando psicopatologiaverbais. Existe uma marcada limitação da diversidade severa com distúrbios evolutivos precoces,de suas atividades espontâneas. Sua conduta rege-se caracterizados por atrasos e distorções nopor um desejo ansiosamente obsessivo de manter a desenvolvimento de habilidades sociais, cognitivas einvariância” (p.242). Sua conclusão principal: “assim, de comunicação. Com a evolução dos conceitos, oteremos que supor que estas crianças tenham vindo autismo, na CID-10 (OMS, 1993), passou a serao mundo com uma incapacidade inata para formar considerado um distúrbio do desenvolvimento, e, noos laços normais, de origem biológica, de contato DSM-IV (APA, 1995), os transtornos globais doafetivo com as pessoas, do mesmo modo que outras desenvolvimento (TGP) foram retirados do eixo IIcrianças vêm ao mundo com outras deficiências inatas, (prognóstico pobre) e entraram no eixo I (distúrbiosfísicas ou intelectuais” (p.250). mais episódicos e transitórios), com a possível Asperger (1944, apud Frith, 1994), quase na implicação de que o autismo passou a ser consideradomesma época que Kanner, também diferenciou um 11
  11. 11. Transtornos Invasivos do Desenvolvimentocomo distúrbio que responde melhor às intervenções significa que meninas com autismo têm danosterapêuticas, e seus sintomas podem sofrer maiores cerebral mais severos do que meninos autistas.variações. Os sintomas necessários para determinar Estudos anteriores indicavam que a freqüência doum quadro de autismo foram reduzidos de dezesseis autismo seria maior em crianças da classe média, mas(DSM-III-R – APA 1980) para doze (DSM-IV – APA, pesquisas mais recentes não mostraram variação1995), dentre quatro critérios diagnósticos principais. significativa relacionada à classe social, sendo possível que o achado anterior estivesse refletindo as distorções da procura de atendimento ou das práticas diagnósticas.EPIDEMIOLOGIA A sugestão de uma associação de autismo com Os primeiros estudos apresentavam limitações classe social elevada foi feita, inicialmente, por Kannermetodológicas relativas à distinção do autismo de outras (1943). Atualmente, porém, está claro que a condiçãoformas de psicose infantil. Mais tarde, os estudos é observada em famílias de todos os níveis detornaram-se mais confiáveis com uma maior educação e que vários fatores podem levar a um vício na determinação dos casos, podendo ser responsáveishomogeneização dos conceitos, mesmo assim com pela impressão inicial de um distribuição incomumdiversas divergências fundamentais. Com essas por classes sociais (Lewis, Melvin, 1995).dificuldades em mente, cabe notar que as pesquisasdisponíveis apresentam um consenso geral relativo àprevalência do autismo, sugerindo que a condição é rara. QUADRO CLÍNICO Quando o autismo é mais rigorosamente definido, As anormalidades costumam se tornar aparentesem geral, são relatadas taxas de prevalência de dois antes da idade de três anos. Verificam-secasos por 10 mil habitantes, no entanto, com comprometimentos qualitativos na interação socialdefinições menos rígidas, tipicamente são encontradas recíproca, que tomam a forma de uma apreciaçãotaxas de prevalência de 4 a 5 por 10 mil. Recentes inadequada de indicadores sócio-emocionais. Faltamodificações nos critérios de diagnóstico podem de respostas para as emoções de outras pessoas, faltaaumentar o número de indivíduos que receberiam, de modulação do comportamento, uso insatisfatórioatualmente, o diagnóstico de autismo. Embora as de sinais sociais e uma fraca integração dosinformações sejam limitadas, parece que o grupo de comportamentos sociais, emocionais e deTGD/TGD-SOE (sem outra especificação) é muito mais comunicação são encontrados. Como exemplo,comum do que o de autismo estritamente definido, poderíamos citar os bebês autistas que não estendemcom uma prevalência de, talvez, até uma em 200 os braços para serem levantados pelos pais, ou seja,crianças de idade escolar (Lewis, Melvin, 1995). uma ausência de atitudes antecipatórias. Este é o sinal A maioria dos pesquisadores, portanto, conclui mais marcante e mais amplamente descrito. Em suaque o número de 4 casos por 10 mil indivíduos trata- primeira descrição, Kanner (1943) já havia descritose de casos considerados como autismo genuíno. este sintoma do autismo primário e fazia dele umAproximadamente metade deste grupo é típico da dos sinais mais precoces do seu diagnóstico.descrição original de Kanner, na qual alienação social De acordo com a CID-10 (OMS, 1993), o autismoe rotinas repetitivas elaboradas eram os sintomas é também caracterizado por padrões depredominantes (APA, 1995; Garfinkel et al., 1992; comportamento, atividades e interesses restritos,Gauderer, 1992; Kaplan e Sadock, 1993; Lewis, repetitivos e estereotipados. Especialmente naMelvin, 1995; Schwartzman, 1994). primeira infância, há uma tendência de vinculação a Quanto à distribuição por sexo, o autismo é muito objetos incomuns, tipicamente rígidos. A criançamais comum em meninos do que em meninas, sendo tende a insistir na realização de rotinas particulares etipicamente relatadas razões de 4:1 ou 5:1. No entanto, rituais de caráter não-funcionais. Verificam-se, emquando as meninas são afetadas, isto ocorre com maior alguns casos, interesses tais como: datas, itinerários egravidade. As comparações de várias amostras sugerem estereotipias motoras.que a maioria dos indivíduos autistas funciona dentro Além desses aspectos diagnósticos específicos,da faixa de retardo mental (APA, 1995; Kaplan e Sadock, a criança autista freqüentemente demonstra uma série1993; Lewis, Melvin, 1995; OMS, 1993). de outros problemas não específicos, como medos, Concordando, Garfinkel e colaboradores (1992) fobias, alterações do sono e da alimentação e ataquesrelatam que os meninos superam as meninas em todos de birra e agressão. Na ocorrência de retardo mentalos estudos de autismo, mas a proporção tem variado grave associado, é bastante comum a auto-agressão.de 1,5 a 4,8 meninos para cada menina. Há alguma Prejuízos na comunicação e linguagem sãoevidência de que a super-representação de meninos freqüentes e, em geral, severos (Rutter, 1967). Osé mais marcada na presença de QI mais elevado e de autistas apresentam, especificamente, déficit emsintomas autísticos mais clássicos. A menor proporção quatro áreas: pobreza de jogos imaginativos, nãopor sexo, no grupo profundamente retardado, utilização e compreensão dos gestos; não utilização12
  12. 12. 3º Milênioda linguagem com objetivo de comunicação social e esperar ser reconfortadas pelos pais, quando têm dorpresença de respostas estereotipadas ou de ecolalia. ou quando têm medo. Às vezes, elas se interessam por Outros sintomas também são comuns.O DSM IV uma parte do outro, sua mão ou um detalhe do(APA, 1995) refere uma hiper ou hiporreação a vestuário.estímulos sensoriais, como luz, dor ou som. É comum Em algumas crianças, ocorre uma falta de contatoa não identificação de perigos reais como veículos visual (o bebê não olha para a mãe, nem mesmo ao serem movimento ou grandes alturas. amamentado; não explora visualmente os objetos; prefere colocar na boca ou cheirar); entretanto, outras mantêm um contato visual que tem uma característicaEXEMPLOS CLÍNICOS diferente, causando, muitas vezes, a impressão de que Algumas situações clínicas podem auxiliar na o olhar atravessa a outra pessoa. Ao descrever asdescrição da sintomatologia encontrada nestas anomalias do olhar, Mazet e Stoleru (1990) citamcrianças autistas. Ricardo é um menino de 14 anos, ausência do acompanhamento ocular, evitamento dofilho mais novo de uma prole de três. Sua aparência é olhar de outros; olhar periférico e estrabismo.de uma criança menor, não correspondendo à sua Essas crianças demonstram uma inaptidão paraidade, e muito magro. Logo que nasceu, dormia brincar em grupo ou para desenvolver laços depouco e chorava muito. Apresentou atraso no seu amizade. Normalmente, não participam de jogosdesenvolvimento psicomotor. cooperativos, mostrando pouca emoção, pouca Quanto à linguagem, ainda não a adquiriu, simpatia ou pouca empatia por outros. Na medida emapenas produzindo balbucio e estalos com a língua, que crescem, pode-se desenvolver uma maior ligação,sem a intenção aparente de comunicação. mas as relações sociais permanecem superficiais eSeguidamente, usa uma garrafa plástica para bater imaturas. Podem seguir por tempo indeterminado,no chão ou na mesa, sendo que, na maioria das vezes, assim como serem interrompidas momentaneamente,aproxima seu ouvido, como se o seu interesse fosse sem uma lógica aparente. Sabe-se que, quanto maiores,na vibração sonora produzida, e não no uso funcional essas crianças apresentam melhoras nas relaçõesda garrafa. Tinha muita dificuldade em afastar-se da interpessoais, mas não se sabe ao certo se é algomãe, embora não aceitasse nenhum tipo de contato aprendido ou espontâneo dentro do desenvolvimento.físico. Ricardo não realiza qualquer contatointerpessoal, raramente conseguindo fixar o olhar, 2 – Condutas motorassendo este vago e distante. Grande parte dos pacientes autistas tem uma Além disso, apresenta estrabismo. Nunca se motricidade perturbada pela manifestação intermiten-alimentou sozinho e nem adquiriu controle te ou contínua de movimentos repetitivos e comple-esfincteriano. Apresenta maneirismos, movimentos xos (estereotipias). Os mais típicos envolvem as mãosde balanceio com a cabeça e com o corpo, além de e os braços, mexendo-os frente aos olhos ou batendorepetidos movimentos com as mãos. Às vezes, suas palmas no mesmo ritmo, independente do momentoauto-agressões são intensas: morde os lábios, os ou espaço em que se encontram. Balanceio do troncopunhos e as mãos e bate a cabeça. Observa-se, neste e o corpo inteiro, além de bater a cabeça repetidamen-caso, conduta negativista e isolacionista, bem como te, também são condutas observadas. Geralmente,risos e choros imotivados. andam sobre as pontas dos pés. O farejamento é tido Uma história como a de Ricardo, com algumas como uma conduta particular, na qual a criança cheiravariações, ilustra alguns dos diversos sintomas graves os objetos, as pessoas, os alimentos dos quais se apro-do autismo - tais como: xima ou toca. Quanto ao aspecto da instabilidade, geralmente observa-se um perpétuo estado de agita-1. Isolamento Autístico ção, no qual a criança sobe nas mesas e outros móveis sem temor ou noção de risco, assim como, em outros As crianças autistas apresentam, desde seus casos, pode se notar uma inibição motora, às vezesprimeiros anos de vida, uma incapacidade acentuada de acompanhada de uma inabilidade gestual, comporta-desenvolver relações pessoais, sendo esta já observada mentos automutiladores, como arrancar os cabelos,com a figura materna. Na primeira infância, observa-se a bater-se ou morder-se, são freqüentes, e está relacio-ausência de uma atitude de antecipação, permanecendo nado a uma maior gravidade dos casos.com conduta rígida. Por exemplo, ao ser pego pela mãe,não volta a cabeça para ela e nem estende os braços. Ajuriaguerra e Marcelli (1991) salientam que os 3 – Linguagem e habilidades pré-principais marcos do despertar psicomotor do primeiro verbaisano de vida estão modificados: ausência de sorriso As habilidades pré-linguísticas estão prejudicadassocial (terceiro mês) e ausência de reação de angústia na criança autista: não apresentam a imitação socialdiante do estranho (oitavo mês). A criança pode ser tão importante para o desenvolvimento daindiferente aos outros, ignorando-os e não reagindo à linguagem, que se manifesta na reprodução de gestosafeição e ao contato físico. Mais ainda, as crianças como dar “tchau”, jogar beijinhos, não imitar os paisautistas podem não procurar ser acariciadas e não nos afazeres domésticos; não usam os brinquedos 13
  13. 13. Transtornos Invasivos do Desenvolvimentoem atividades de faz-de-conta com conteúdo Crises de cólera, intolerância às frustrações esimbólico; utilizam o brinquedo em atividades automutilações são reações freqüentes. A angústia érepetitivas sem ligação com o objeto; não apresentam massiva, acarretando uma ruptura na continuidademímica e gestos para se comunicar. psíquica da criança, que provavelmente experimenta, Cerca da metade dos autistas nunca falam, e então, uma vivência de rompimento ou deemitem poucos sons ou resmungos. Quando a aniquilação.linguagem se desenvolve, não tem tanto valor decomunicação e geralmente se caracteriza por umaecolalia imediata e/ou retardada, repetição de frases 6 - Distúrbios psicossomáticosestereotipadas, inversão pronominal (utilização do Os distúrbios do sono são muito comuns e depronome “ele” quando a significação é “eu”) ou, dois tipos. Na insônia calma, o bebê mantém os olhosainda, uma afasia nominal. Notam-se da mesma forma abertos no escuro, sem dormir, sem reclamar aanomalias na melodia, que tem um aspecto cantado. presença da mãe. Na insônia agitada, a criança grita,Algumas dessas crianças conseguem reter agita-se, clama sem poder ser acalmada duranteperfeitamente as palavras de uma canção sem outra horas, todas as noites.linguagem além disso, sendo freqüente o cantarolar. Os distúrbios alimentares precoces também sãoAparecem também estereótipos verbais, neologismos freqüentes. Podem acontecer falta de sucção,bizarros e um verbalismo solitário. Em outros casos anorexia, recusa da mamadeira ou do seio, vômitosmais raros, a linguagem parece estar superinvestida: repetidos. Tanto os distúrbios do sono como os dea criança dá mostras de um extremo domínio verbal, alimentação aparecem desde de o primeiro semestre.aprende páginas do dicionário, até línguas Os distúrbios esfincterianos (enurese, encoprese)estrangeiras, mas tais casos são raros e mais podem ser primários ou secundários, permanentescaracterísticos da Síndrome de Asperger. ou intermitentes, ritmados pelos momentos Em todos os casos, o elemento significativo evolutivos, pelas fases de ansiedade e pelascontinua sendo que a linguagem não tem uma separações. É habitual o atraso na aquisição do asseio,verdadeira função de comunicação com o outro ou, mas se observa, por vezes, inversamente, um asseiopelo menos, que o prazer não reside nesta adquirido muito precocemente.comunicação. O caso de Fábio pode ser usado como exemplo. Um aspecto é característico: quando querem Ele é um jovem de 16 anos, filho caçula de uma proleatingir um objeto, os autistas pegam a mão ou o de três. Seu desenvolvimento foi aparentementepunho de um adulto. Mas, raramente, eles o apontam normal até os dois anos de idade. Não gostava de sere acompanham seu pedido de um gesto simbólico pego no colo, ficando deitado em sua cama,ou de uma mímica. tranqüilamente, durante horas. Caminhou e falou suas primeiras palavras com um ano de idade. Seu controle4 – Distúrbios das funções intelectuais esfincteriano se deu com dois anos, porém, negava- se a usar o vaso sanitário, alegando que tinha bichos Um déficit intelectual é uma constatação no mesmo. Aos dois anos, também começou afreqüente, senão constante. A profundidade deste freqüentar a escola maternal, quando apresentou umadéficit é variável, assim como sua evolução, segundo conduta de isolamento e choro intenso. Nessa época,Ajuriaguerra (1991). Se o Q.I. for inferior a 70, pior o parou de falar totalmente, apenas gritava. Nãoprognóstico, o que significa que é pouco provável conseguia interagir com os colegas e, quando estesque aprendam a falar, ou que trabalhem. O aspecto se aproximavam dele, apresentava agitaçãosocial também fica mais prejudicado, assim como psicomotora. Nos passeios com a família, apenasaumentam as tendências automutilatórias e as observava as pessoas, sem aceitar nenhum tipo deestereotipias motoras. Nesses pacientes, são mais contato. Costumava ficar segurando um carrinho ou,freqüentes as crises de epilepsia (Bartak e Rutter,1976. então, um arame, o qual ficava balançando em frenteapud Leboyer, 1987). aos olhos. Fez tratamento fonoaudiológico, apresentando alguma evolução. Sua fala é5 – Alterações afetivas estereotipada, repetitiva, com dificuldades de articulação e um tom monótono e infantil. Não utiliza O humor dos autistas é imprevisível e pode se os pronomes pessoais “eu/tu”, referindo-se a sialterar de um instante para outro, passando do riso próprio de maneira peculiar: “Fábio vai comer aincontrolável, e aparentemente sem razão, aos choros bolacha”. Apresenta movimentos repetidos com osinexplicáveis. As emoções entram, freqüentemente, dedos das mãos. Atualmente, quando busca contatoem contradição com a situação (Leboyer, 1987). Por com as outras pessoas, é sempre da mesma forma,exemplo, uma criança ri numa situação de estresse fazendo sempre as mesmas perguntas. Mostra-seou tensão. Além do mais, se a criança autista adquire preocupado com a limpeza e a organização de seusuma certa forma de linguagem, ela continua incapaz, objetos pessoais. Apresenta ótima memória,não somente de exprimir seu afeto, mas também de relembrando pessoas e fatos de seu passado. Temperceber a emoção ou os sentimentos dos outros. choros e risos imotivados. É independente dos pais14
  14. 14. 3º Milêniopara as tarefas simples: acorda sozinho, come sozinho, Médicas, 1991.toma banho e veste-se sem ajuda. 2. APA (American Psychiatric Association). - A história de Fábio ilustra importantes sinais Manual diagnóstico e estatístico de transtornospresentes nos quadros de autismo infantil. De início, mentais (DSM-III-R). 3 ed. rev., Porto Alegre : Artespodemos destacar o fato de não gostar de ser pego Médicas, 1980.no colo, isolamento na escola e evitação ao contato 3. APA (American Psychiatric Association). Manualcom outros. Estas características traduzem a diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-incapacidade da criança autista de estabelecer um IV). 4.ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.sistema adequado de comunicação com o seu meio, 4. BENDER, L. Childhoold shizophrenia: clinicalapresentando o chamado “isolamento autístico”. study of one hundred schizophrenic children. AmericanInversamente à história de Ricardo, Fábio é um rapaz Journal Ortopsych., 1947.que consegue manter contato visual e procura as 5. FRITH, U. Autismo. Madrid: Alianza Editorial,pessoas, convidando-as para “brincar de esconder”. 1994.Quanto à comunicação, Fábio apresenta ecolalia, 6. GARFINKEL, B.D., CARLSON, G., WELLER, E.B.inversão pronominal repetição de frases Transtornos psiquiátricos na infância e adolescência.estereotipadas, bem como uma modulação Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.patológica da linguagem no que se refere ao ritmo e 7. GAUDERER, E.C. Autismo na década de 80: umaà entonação. Outro sintoma clássico do autismo é o atualização para os que atuam na área, do especialistacomportamento fixado, estereotipado e repetido. aos pais. São Paulo: Sarvier, 1992.Fábio apenas tinha um carrinho com o qual não 8. KANNER, L. Autistic disturbances of affectivebrincava, somente necessitando ficar com o mesmo contact. Nerv. Child., 1943.junto de si. Também era exageradamente apegado a 9. KAPLAN, H.I., SADOCK, B.J. Compêndio deum arame, parecendo ter uma fascinação por psiquiatria: ciências comportamentais - psiquiatriamovimentos giratórios, sintoma que faz parte de um clínica. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.grupo de respostas perturbadas aos estímulos 10. LEBOYER, M. Autismo infantil: fatos e modelos.sensoriais. Fábio entrava em pânico se lhe era retirado Campinas: Papirus, 1987.o arame, querendo guardar o tempo todo consigo. 11. LEWIS , MELVIN, . Tratado de psiquiatria daContudo, não ficava claro qual o valor simbólico desse infância e da adolescência. Porto Alegre: Artes Médicas,objeto, se é que possuía algum. Também costumava 1995.se aproximar das pessoas fazendo sempre as mesmas 12. MAHLER, M. As psicoses infantis e outrosperguntas. Sabemos que os autistas têm a tendência estudos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.a fazer perguntas de forma estereotipada, 13. MAZET, P., STOLERU, S. Manual deconcernentes às datas históricas, às estradas, aos psicopatologia do recém-nascido. Porto Alegre: Arteshorários ou aos nomes, pelas quais esperam uma Médicas, 1990.resposta sempre idêntica. De fato, alguns dão provas 14. OMS (Organização Mundial da Saúde).de uma memória notável, que é o caso de Fábio. Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID-9: descrições clínicas e diretrizes diagnósticas. Porto Alegre: ArtesCONSIDERAÇÕES FINAIS Médicas,1984. Em conclusão, se considerarmos as descrições 15. OMS (Organização Mundial da Saúde).clínicas do autismo tais quais elas existem atualmen- Classificação de transtornos mentais e dete, sobressai essencialmente uma grande comportamento da CID-10: descrições clínicas eheterogeneidade devida à diferenças individuais ou diretrizes diagnósticas. Porto Alegre:Artes Médicas,na evolução dos sintomas no tempo: tal sinal vai de- 1993.saparecer ou se atenuar paralelamente ao desenvol- 16. RANK, B. Intensive study and treatment ofvimento da criança. Um autista não apresenta exata- preschool children who show marked personalitymente o mesmo quadro que outro. No entanto, a deviations or “atypical development”, and theirtríade parece ser comum a maior parte destes paci- parents. In: COPLAN, G. Emotional problems of earlyentes - comprometimentos qualitativos na interação childhood. New York: Basic Books, 1955.social, linguagem e comportamento imaginativo. 17. RITVO, E., FREEDMAN, B. The national society for autitisc children’s definition of the syndrome of autism. Journal of American Academy ChildhoodEndereço para Correspondência Psychiatric, 1978. Rua Mostardeiro 123/401, Bairro Moinhos do 18. RUTTER, M. Psychotic disorders in earlyVento, Cep: 90430-001, Porto Alegre - RS. childhood. In: COPPEN, A., WALK, A. Recent developments in schizophrenia: a symposium. London: Royal Medico-Psychological Association, 1967.Referências Bibliográficas 19. SCHWARTZMANN, J.S. Autismo infantil. 1. AJURIAGUERRA, J., MARCELLI, D. Manual de Brasília: Coordenadoria Nacional para Integração dapsicopatologia infantil. 2.ed. Porto Alegre: Artes Pessoa Portadora de Deficiência (CORDE), 1994. 15
  15. 15. Transtornos Invasivos do Desenvolvimento descritas por Gilberg (1989, 1990), BlomquistCAPÍTULO II (1985), Rutter (1981), Gilberg e Wahlstrom (1975), Riiko nen (1981), Finegan(1979), Deykin (1980), Kerbeshian(1990), Bolton(1990), Ritvo(1990), bemDIAGNÓSTICO DIFERENCIAL DOS como no clássico livro de Coleman (1976), que de-TRANSTORNOS ABRANGENTES DE vem obrigatoriamente ser consideradas quando nosDESENVOLVIMENTO dispomos a estudar esse campo extremamente com- plexo. Uma tentativa de simplificação e de esquematização dessa idéia pode ser observada noFrancisco B. Assumpção Jr algoritmo seguinte (Assumpção 1992). Temos hoje então, descritos uma série deCONCEITO problemas, de ordem genética que parecem estar envolvidos no autismo infantil, embora não tenhamos ainda condições de estabelecer uma relação causal Em 1943, Kanner descreveu sob o nome direta entre eles quer pela raridade de cada um dos“Disturbios Autísticos do Contacto Afetivo”um quadros, quer pela dificuldade que temos em estudarquadro caracterizado por isolamento extremo, um grande número dessas patologias.obsessividade, estereotipias e ecolalia. Consideramos assim que, devido a essas Este conjunto de sinais foi por ele visualizado dificuldades, torna-se bastante importante a descriçãocomo uma doença específica relacionada a de casos que, mesmo isoladamente, podem sefenômenos da linha esquizofrênica. constituir em subsídios para diferentes autores Em trabalho de 1954 continua descrevendo o estabelecerem as relações necessárias.quadro como uma “psicose”referindo que todos os O Autismo é hoje considerado como umaexames clínicos e laboratoriais foram incapazes de síndrome comportamental com etiologias múltiplasfornecerem dados consistentes no que se relacionava em conseqüência de um distúrbio de desenvolvimentoa sua etiologia, diferenciando-o dos quadros deficitários (Gillberg, 1990). Caracteriza-se por um déficit nasensoriais como a afasia congênita e dos quadros interação social visualizado pela inabilidade emligados às oligofrenias, novamente considerando-o relacionar-se com o outro, usualmente combinado comüma verdadeira psicose”(Kanner, 1954). déficits de linguagem e alterações de comportamento. As primeiras alterações dessa concepção surgem Ao DSM-IV (1996) é relatado como um quadroa partir de Ritvo (1976) que relaciona o autismo a um iniciado antes dos três anos de idade, com prevalênciadéficit cognitivo, considerando-o, não uma psicose, de quatro a cinco crianças em cada 10.000, come sim um distúrbio do desenvolvimento, opondo-se predomínio maior em indivíduos do sexo masculinofrontalmente a visão trazida por Ajuriaguerra (1973) (3:1 ou 4:1) e decorrente de uma vasta gama deem seu clássico tratado. Dessa maneira, a relação condições pré, peri e pós-natais.Autismo - Deficiência Mental passa a ser cada vez Para seu diagnóstico, pelo DSM - IV (1996) sãomais considerada levando-nos a uma situação dispar necessários:entre as classificações francesa, americana e da A. Um total de seis (ou mais) itens de (1), (2) e (3),Organização Mundial de Saúde. com pelo menos dois de (1), um de (2) e um de (3): Assim, pela penetração e abrangência dosconceitos, somos obrigados a nos remeter ao autismo (1) prejuízo qualitativo na interação social, manifestadoa partir de sua constelação comportamental para que por pelo menos dois dos seguintes aspectos:possa ser explorado minuciosamente e para que (a) prejuízo acentuado no uso de múltiplosconexões causais possam ser estabelecidas dentro das comportamentos não-verbais, tais como contatopossibilidades atuais. visual direto, expressão facial, postura corporal e Gillberg (1990) refere que “é altamente gestos para regular a interação social.improvável que existam casos de autismo não (b) fracasso em desenvolver relacionamentos com seusorgânico” frisando que “ o autismo é uma disfunção pares apropriados ao nível de desenvolvimento.orgânica - e não um problema dos pais - isso não é (c) falta de tentativa espontânea de compartilharmatéria para discussão. O novo modo de ver o autismo prazer, interesses ou realizações com outrasé biológico.” pessoas ( por ex.: não mostrar, trazer ou apontar Considerando-se assim o autismo como uma objetos de interesse).síndrome comportamental definida, com etiologias (d) falta de reciprocidade social ou emocional.orgânicas também definidas é que temos que pensaras possibilidades de uma constelação etiológica (2) prejuízos qualitativos na comunicação,complexa envolvida nos quadros em questão. manifestados por pelo um dos seguintes aspectos: Pensando dessa maneira é que muitos (a) atraso ou ausência total de desenvolvimento daquadros de base neurológica e/ou genética foram linguagem falada (não acompanhado por umadescritos concomitantemente com a sintomatologia tentativa de compensar através de modosautistica. Temos então uma série de patologias ge- alternativos de comunicação, tais como gestosnéticas diferentes associadas ao autismo e ou mímica).16
  16. 16. 3º Milênio(b) em indivíduos com fala adequada, acentuado (2) Ausência ou busca de conforto anormal por prejuízo na capacidade de iniciar ou manter uma ocasião de sofrimento. conversação. (3) Irritação ausente ou comprometida.(c) uso estereotipado e repetitivo da linguagem ou (4) Jogo social anormal ou ausente. linguagem idiossincrática. (5) Incapacidade nítida para fazer amizade com seus(d) falta de jogos ou brincadeiras de imitação social pares. variados e espontâneos, apropriados ao nível de B.Incapacidade qualitativa na comunicação verbal e desenvolvimento. não-verbal e na atividade imaginativa,(3) padrões restritos e repetitivos de comportamento, manifestada pelo seguinte: interesses e atividades, manifestados por pelo (1) Ausência de modo de comunicação como menos um dos seguintes aspectos: balbucio comunicativo, expressão facial, gestos,(a) preocupação insistente com um ou mais padrões mímica ou linguagem falada. estereotipados e restritos de interesse, anormais (2) Comunicação não-verbal acentuadamente em intensidade ou foco. anormal, como no olhar fixo olho-no-olho,(b) adesão aparentemente inflexível a rotinas ou rituais expressão facial, postura corporal ou gestos para específicos e não-funcionais. iniciar ou modular a interação social.(c) maneirismos motores estereotipados e repetitivos (3) Ausência de atividade imaginativa como (por ex.: agitar ou torcer mãos ou dedos, ou representação de papéis de adultos, personagens movimentos complexos de todo o corpo). de fantasia ou animais, falta de interesse em(d) preocupação persistente com partes de objetos. histórias sobre acontecimentos imaginários. (4) Anormalidades marcantes na produção doB. Atrasos ou funcionamento anormal em pelo menos discurso, incluindo volume, entonação, estresse, uma das seguintes áreas, com início antes dos 3 ritmo, velocidade e modulação. anos de idade: (1)interação social (2) linguagem (5) Anormalidades marcantes na forma ou conteúdo para fins de comunicação social, ou (3) jogos do discurso abrangendo o uso estereotipado e imaginativos ou simbólicos. repetitivo da fala; uso do “você” quando o “eu” éC. A perturbação não é melhor explicada por pretendido; com freqüentes apartes irrelevantes. transtorno de Rett ou transtorno. Desintegrativo (6) Incapacidade marcante na habilidade para iniciar da infância. ou sustentar uma conversação com os outros, apesar da fala adequada. Pelo CID-1O (1993) encontramos o conceito de C. Repertório de atividades e interesses acentuadamenteTranstornos globais do desenvolvimento descrito como: restritos, manifestado pelo que se segue: “Grupo de transtornos caracterizados por (1) Movimentos corporais estereotipados como poralterações qualitativas das interações qualitativas das exemplo, pancadinhas com as mãos ou rotação,inerações sociais recíprocas e modalidades de movimentos de torção, batimentos da cabeça,comunicação e por um repertório de interesses e movimentos complexos de todo o corpo.atividades restrito, estereotipado e repetitivo. Estas (2) Insistente preocupação com parte de objetos ouanomalias qualitativas constituem uma característica vinculação com objetos inusitados.global do funcionamento do sujeito, em todas as (3) Sofrimento acentuado com mudanças triviais noocasiões. aspecto do ambiente, por exemplo quando um Autismo Infantil-Transtorno global do desenvol- vaso é retirado de sua posição usual.vimento caracterizado por: a) um desenvolvimento (4) Insistência sem motivo em seguir rotinas comanormal ou alterado, manifestado antes da idade de detalhes precisos, por exemplo a obstinação detrês anos; b) apresentando uma perturbação caracte- seguir exatamente sempre o mesmo caminhorística do funcionamento em cada um dos três domí- para as compras.nios seguintes: interações sociais, comunicação, com- (5) Âmbito de interesses marcadamente restritos eportamento focalizado e repetitivo. Além disso, o trans- preocupação com um interesse limitado, portorno se acompanha comumente de numerosas ou- exemplo interessado somente em enfileirartras manifestações inespecíficas, por exemplo fobias, objetos, em acumular fatos sobre meteorologiaperturbações do sono ou da alimentação, crises de ou em fingir ser um personagem de fantasia.birra ou agressividade (auto-agressividade). “ D. Início na primeira infância ou infância. Anteriormente pelo DSM-IIIR (1989) paradiagnosticar-se autismo necessitave-se ao menos 8 Especificar se o início se deu na primeirados 16 ítens seguintes, incluindo-se pelo menos (2) infância ( após os 36 meses de vida).ítens do grupo A, (1) do B, e (1) do C. Entretanto, diversos autores, entre os quais A. Incapacidade qualitativa na integração social Wing (1988), apresentam noção de autismo comorecíproca manifestada pelo seguinte: um aspecto sintomatológico, dependente do comprometimento cognitivo.(1) Acentuada falta de alerta da existência ou Essa abordagem reforça a tendência de tratar sentimentos dos outros. o autismo não mais como uma entidade única, mas 17

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