Agenda Politica AMB Campanha 2011
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Todas as mulheres sofrem violência, mais nem sempre da mesma forma. A violência contra as mulheres negras como bem diz Lucia Xavier: " ...revela o lado mais cruel da violência contra a mulher de um ...

Todas as mulheres sofrem violência, mais nem sempre da mesma forma. A violência contra as mulheres negras como bem diz Lucia Xavier: " ...revela o lado mais cruel da violência contra a mulher de um modo geral. Elas estão sujeitas a uma série de violação de direitos em todos os campos da vida, fruto do racismo nas relações sociais brasileiras... O racismo produz para as mulheres negras vulnerabilidades que não são percebidas nas ações contra a violência... (...) vistas como inferiores, sem inteligência, lascivas, boas de cama, produto para exportação, preguiçosas, sujas, suspeitas, parideiras..."

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Agenda Politica AMB Campanha 2011 Agenda Politica AMB Campanha 2011 Document Transcript

  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011Feminismo Antirracista.......................................................................................................................................CAMPANHA NACIONAL DA AMB – LUTANDO PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRAAS MULHERES NEGRAS“A violência contra a mulher negra revela o lado mais cruel da violência contra a mulher de um modo geral.Elas estão sujeitas a uma série de violação de direitos em todos os campos da vida, fruto do racismo nasrelações sociais brasileiras... O racismo produz para as mulheres negras vulnerabilidades que não sãopercebidas nas ações contra a violência... (...) vistas como inferiores, sem inteligência, lascivas, boas de cama,produto para exportação, preguiçosas, sujas, suspeitas, parideiras. Estas representações acabam tambéminfluenciando as relações afetivas, interpessoais e profissionais, reforçando a subordinação e permitindo odesrespeito aos seus direitos. Por outro lado, o racismo também produz um ambiente de agressividade erejeição social que não permite o pleno desenvolvimento da mulher” (Lucia Xavier). ...........................................................A Articulação de Mulheres Brasileiras, neste 25 de Julho de 2011, lança em todos os estados do Brasil aCampanha Nacional pelo fim da violência contra as mulheres negras.POR QUE FAREMOS O LANÇAMENTO NACIONAL NESSE DIA?A campanha foi lançada nacionalmente durante o ENAMB 2011 e a idéia é fazermos diversas atividades nosestados para o lançamento da campanha no dia 25 de julho para dar visibilidade ao Dia da Mulher Afro-laTino-americana e Afro-caribenha.FOCO DA CAMPANHA:Na oficina nacional, realizada para pensar a proposta da campanha, decidiu-se que o foco seria: O RacismoSimbólico e Psicológico contra as mulheres negras. Neste sentido, a campanha será focada na valorização docabelo “negro” “afro” “crespo”, cuja discriminação tem sido uma das formas mais cruéis do racismo, sofridapelas mulheres negras desde a infância.O QUE QUEREMOS COM A CAMPANHA:  Denunciar o racismo contra as mulheres negras e, ao mesmo tempo, fazer uma campanha positiva valorizando a identidade étnico-racial a partir da afirmação do cabelo “afro”.  Trabalhar esse tema internamente na AMB e com nossas parceiras para fortalecer o nosso feminismo antirracista.DIMENSÕES DA CAMPANHA:  DIMENSÃO PEDAGÓGICA – Esta dimensão será interna à AMB. Está voltada para as mulheres militantes que fazem parte dos agrupamentos, envolvendo atividades como oficinas, rodas de conversa, produção de texto e criação de recursos audiovisuais para os estados (filminhos feitos com o próprio celular);  DIMENSÃO INSTITUCIONAL – Direcionada para DEAM’s, Centro de Referências, juizados especiais, hospitais, postos de Saúde, etc.; 1
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011  DIMENSÀO EXTERNA – Voltada para toda a sociedade. A idéia é termos Spots de rádio; cartazes, filminhos no Youtube; vídeos para passar nas TV alternativas, emissoras regionais; intervenção teatral nos eventos;Na primeira parte, vocês encontrarão sugestões para o lançamento da campanha nos agrupamentos, pararealização de oficinas e para intervenções. Colocamos alguns textos subsídios para os debates sobre o foco danossa campanha – A valorização do cabelo da mulher negra – através de textos de Alice Walker , Nilma Lino,Bell Hooks e novamente colocamos os textos de Sueli Carneiro e Lúcia Xavier.Portanto, será de grande importância que todos os agrupamentos nos enviem relatos, fotos, vídeos doslançamentos da campanha e das ações que realizarem em torno da campanha. Esta é a ação prioritária dasações da Frente pelo Fim do Racismo e da frente pelo fim da violência contra as mulheres. .Saudações feministas e antirracistas.Analba Brazão TeixeiraSecretaria Executiva da AMB. 2
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011SUGESTÕES PARA OS LANÇAMENTOS NOS ESTADOS:Para o lançamento da campanha nos estados vocês podem, de acordo com as possibilidades locais:  Fazer um lançamento interno, realizando uma roda de conversa ou uma oficina sobre a campanha e fazer um agendamento dos dias que iram fazer alguma atividade relativa à campanha (lembrando que a campanha terá duração de um ano) ;  Na oficina interna, fazer um vídeo caseiro, com o celular com as mulheres negras falando da sua experiência em relação ao racismo simbólico focado no cabelo;  Promover um lançamento na rua, através de uma caminhada, de uma perfomance ou instalação urbana;  Fazer debates nas escolas públicas;  Escrever artigos para jornais e divulgar na imprensa local  Construir material para a campanha: sugestões de vídeos caseiros para divulgarmos no youtube; pequenos spots de rádio; camisetas, panfletos e etc..Material de Divulgação da CampanhaJá temos para a divulgação da campanha:  Spot de rádio que foi construído pelo Cfemea http://www.cfemea.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3514&catid=213&Itemid= 148 ;  O grupo Loucas de Pedra Lilás disponibilizou letra e música para a Campanha, que o Grupo Tambores de Safo irar gravar;  As frases que foram apresentadas no lançamento da campanha que podem ser transformadas em arte para camisetas, para banners e adesivos;  Links de vídeos do Youtube: “I Love my hair” (http://www.youtube.com/watch?v=zIdyfM0AEDg&feature=related), “Imagine uma menina com cabelo de Brasil” (http://www.youtube.com/watch?v=zoSm3XcHgDQ&feature=related), entre outros que vamos divulgar nas nossas listas;  Vídeo: “Pode me chamar de Nadi”;  Música: “Respeitem meus cabelos, brancos”, de Chico César (http://www.youtube.com/watch?v=CWnq223dNp8&feature=related).ATENÇÂO: Haverá uma oficina nacional em agosto com algumas do grupo de referência da frente pelo fim doracismo, para construção de material para a campanha. Os agrupamentos também podem ir construindo edivulgando na nossa lista.TEXTOS DE SUBSÍDIO:A partir da página seguinte, seguem os textos de subsídios para aprofundarmos o foco da nossa campanha. 3
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011Cabelo Oprimido, é um teto para o cérebroPor Alice WalkerComo muitos de vocês devem saber, fui aluna desta faculdade, há muitas luas. Eu me sentava nessas mesmascadeiras (às vezes ainda com o pijama sob o casaco) e olhava para a luz que entra por estas janelas. Eu ouviadezenas de palestras encorajadoras e cantei e ouvi música maravilhosa. Acho que sentia que ia voltar parafalar deste lado do pódio. Acho que naquele tempo, quando eu estudava aqui, adolescente ainda, eu já pensavano que diria a vocês, hoje. Talvez os surpreenda saber que não pretendo falar (talvez até o período de perguntas e respostas) sobreguerra e paz, economia, racismo ou sexismo, ou sobre os triunfos e atribulações dos negros ou das mulheres.Nem sobre filmes. Embora os mais atentos possam ouvir em minhas palavras a preocupação por alguns dessesassuntos, vou falar sobre algo muito mais perto de nós. Vou falar sobre cabelo. Não se preocupem com oestado dos seus cabelos neste momento.Não fiquem alarmados. Não se trata de uma avaliação. Simplesmente quero compartilhar com vocês algumasexperiências com nosso amigo cabelo, e espero entreter e divertir a todos. Durante um longo tempo, desde a primeira infância até a idade adulta crescemos física e espiritualmente(incluindo o intelecto com o espírito), sem que nos demos muito conta do fato. Na verdade, alguns períodos donosso crescimento são tão confusos, que nem percebemos que se trata de crescimento. Podemos nos sentirhostis, zangados, chorosos ou histéricos, ou deprimidos. Jamais nos ocorre, a não ser que encontremos poracaso um livro ou uma pessoa capaz de explicar, que estamos em processo de mudança, de crescimentoespiritual. Sempre que crescemos, sentimos, como a semente nova deve sentir o peso e a inércia da terra,quando procura sair da casca para se transformar numa planta. Geralmente não é uma sensação agradável.Porém, o mais desagradável é não saber o que está acontecendo. Lembro-me das ondas de ansiedade que meenvolviam nos diferentes períodos de minha vida, sempre se manifestando por meio de distúrbios físicos(insônia, por exemplo) e como eu ficava assustada, porque não entendia como aquilo era possível. Com a idade e a experiência, vocês ficarão satisfeitos em saber, o crescimento torna-se um processoconsciente e reconhecido. Ainda um pouco assustador, mas pelo menos compreendido. Aqueles longosperíodos, quando algo dentro de nós parece estar esperando, contendo a respiração, sem saber qual será opróximo passo, com o tempo transformam-se em períodos esperados, pois enquanto ocorrem, compreendemosque estamos sendo preparados para a próxima fase da nossa vida e que provavelmente vai se revelar um novonível de personalidade. Alguns anos atrás passei por um longo período de inquietação, disfarçado em imobilidade. Isto é, isolei-me dogrande mundo a favor da paz do meu mundo pessoal, muito menor. Eu me desliguei da televisão e dos jornais(um grande alívio!), dos membros mais perturbadores da minha grande família, e da maioria dos amigos. Eracomo se eu tivesse chegado a um teto no meu cérebro. E sob esse teto minha mente estava extremamenteinquieta, embora tudo em mim estivesse calmo. Como é comum nesses períodos de introspecção, contei as contas do meu progresso neste mundo. Norelacionamento com a família e os antepassados eu agira respeitosamente (nem todos concordarão, acredito);no meu trabalho eu havia feito, usando toda a habilidade de que disponho, tudo que era exigido de mim; norelacionamento com as pessoas com quem convivo diariamente, eu agira com todo amor que podia encontrarno meu íntimo, Eu começava também, finalmente, a reconhecer minha responsabilidade para com a Terra cminha adoração do Universo. O que mais então eu devia fazer? Por que, quando eu meditava e procurava oalçapão de escape no alto do meu cérebro, o qual, nos outros estágios do crescimento, eu sempre tive a sortede encontrar, só achava agora um teto, como se o caminho para me identificar com o infinito, o caminho queeu costumava trilhar, estivesse selado?Certo dia, depois de ter feito ansiosamente essa pergunta durante um ano, ocorreu-me que, no meu ser físico,havia uma última barreira para minha libertação espiritual, pelo menos naquela fase: meu cabelo. 4
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011 Não meu amigo cabelo propriamente, pois logo percebi que ele era inocente. O problema era o modo pelo qualeu me relacionava com ele. Eu estava sempre pensando nele. Tanto que, se meu espírito fosse um balão,ansioso para voar e se confundir com o infinito, meu cabelo seria a pedra que o ancoraria à Terra. Compreendique seria impossível continuar meu desenvolvimento espiritual, impossível o crescimento da minha alma,impossível poder olhar para o Universo e esquecer meu ego completamente nesse olhar (uma das alegrias maispuras!) se continuasse presa a pensamentos sobre meu cabelo. Compreendi de repente porque freiras emonges raspam as cabeças! Olhei no espelho e comecei a rir de felicidade! Tinha conseguido abrir a pele da semente e estava subindodentro da terra. Então comecei as experiências. Durante alguns meses usei longas tranças (era moda entre as mulheres negrasna época) feitas com o cabelo de mulheres coreanas. Eu adorava isso. Realizava minha fantasia de ter cabeloslongos e dava ao meu cabelo curto e levemente processado (oprimido) a oportunidade de crescer. A jovem quetrançava meu cabelo era uma pessoa que eu acabei adorando - uma jovem mãe lutadora; ela e a filhachegavam à minha casa às sete da noite e conversávamos, ouvíamos música, comíamos pizzas ou burritos,enquanto ela trabalhava, até uma ou duas horas da manhã. Eu adorava o artesanato dos desenhos criados porela para a minha cabeça. (Trabalho de cesteiro! exclamou uma amiga, tocando a teia intrincada na minhacabeça.) Eu adorava sentar entre os joelhos dela como sentava entre os joelhos de minha mãe e de minha irmãenquanto elas trançavam meu cabelo, quando eu era pequena. Eu adorava o fato do meu cabelo crescer forte esaudável sob as "extensões", coma eram chamadas as tranças.Eu adorava pagar a uma jovem irmã por um trabalho realmente original e que fazia parte da tradição dopenteado dos negros. Eu adorava o fato de não precisar tratar do meu cabelo a não ser com intervalos de doisou três meses (pela primeira vez na vida eu podia lavar a cabeça todos os dias, se quisesse, e não fazer nadamais). Porém, uma vez ou outra as tranças tinham de ser retiradas (um trabalho de quatro a sete horas) efeitas novamente (mais sete a oito horas); também eu não me esquecia das mulheres coreanas que, de acordocom minha jovem cabeleireira, deixavam crescer o cabelo expressamente para vender. É claro que essainformação me fez pensar (e, sim, me preocupar) sobre os outros aspectos de suas vidas. Quando meu cabelo atingiu dez centímetros de comprimento, dispensei o cabelo das minhas irmãs coreanas etrancei o meu. Só então renovei o conhecimento com suas características naturais. Descobri que era flexível,macio reagindo quase com sensualidade à umidade. Com as pequenas tranças girando para todos os lados,menos para onde eu queria que virassem, descobri que meu cabelo era voluntarioso, exatamente como eu! Vique meu amigo cabelo, tendo recuperado vida própria, tinha senso de humor. Descobri que eu gostava dele. Mais uma vez na frente do espelho, olhei para minha imagem e comecei a rir. Meu cabelo era uma dessascriações estranhas, incríveis, surpreendentes, de parar o tráfego - um pouco parecido com as listras daszebras, com as orelhas do tatu ou os pés azul-elétrico do mergulhão - que o universo cria sem nenhum motivoespecial a não ser demonstrar sua imaginação ilimitada. Compreendi que jamais tivera a oportunidade deapreciar o cabelo em sua verdadeira natureza. Descobrir que ele, na verdade, tinha uma natureza própria.Lembrei-me dos anos que passei agüentando cabeleireiros - desde o tempo de minha mãe - que faziamtrabalho missionário nos meus cabelos. Eles dominavam, suprimiam, controlavam. Agora, mais ou menos livre,ele ficava todo espetado para todos os lados. Eu telefonava para todos meus amigos no país para relatar astravessuras do meu cabelo. Ele jamais pensava em ficar deitado. Deitar de costas, na posição missionária, nãoo interessava. Ele cresceu. Ficar curto, cortado quase até a raiz, outra "solução" missionária, também não ointeressava. Ele procurava espaços cada vez maiores, mais luz, mais dele mesmo. Ele adorava ser lavado; masisso era tudo.Finalmente descobri exatamente o que o cabelo queria: queria crescer, ser ele mesmo, atrair poeira, se esseera seu destino, mas queria ser deixado em paz por todos, incluindo eu mesma, os que não o amavam comoele era. O que acham que aconteceu? (Além disso, agora eu podia, como um bônus adicional, compreender BobMarley como o místico que suas músicas diziam que era). O teto no alto do meu cérebro abriu-se; mais umavez minha mente (e meu espírito) podia sair de dentro de mim. Eu não estaria mais presa à imobilidadeinquieta, eu continuaria a crescer. A planta estava acima do solo. 5
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011 Essa foi a dádiva do meu crescimento, no meu quadragésimo ano. Isso e saber que enquanto existir alegria nacriação haverá sempre novas criações para descobrir, ou redescobrir, e que o melhor lugar para olhar é dentrode nós mesmos. Que a própria morte, sendo parte da vida, deve oferecer pelo menos um momento de prazer.Fiz esta palestra no Dia dos Fundadores, 11 de abril de 1987, no Spelman College, AtlantaALISANDO NOSSO CABELOPor Bell HooksApesar das diversas mudanças na política racial, as mulheres negras continuam obcecadas com os seuscabelos, e o alisamento ainda é considerado um assunto sério. Insistem em se aproveitar da insegurançaque nós mulheres negras sentimos com respeito a nosso valor na sociedade de supremacia branca! Nasmanhãs de sábado, nos reuníamos na cozinha para arrumar o cabelo, quer dizer, para alisar os nossoscabelos. Os cheiros de óleo e cabelo queimado misturavam-se com os aromas dos nossos corposacabados de tomar banho e o perfume do peixe frito.Não íamos ao salão de beleza. Minha mãe arrumava os nossos cabelos. Seis filhas: não havia apossibilidade de pagar cabeleireira. Naqueles dias, esse processo de alisar o cabelo das mulheres negrascom pente quente (inventado por Madame C. J. Waler) não estava associado na minha mente ao esforçode parecermos brancas, de colocar em prática os padrões de beleza estabelecidos pela supremaciabranca. Estava associado somente ao rito de iniciação de minha condição de mulher. Chegar a esse pontode poder alisar o cabelo era deixar de ser percebida como menina (a qual o cabelo podia estar lindamentepenteado e trançado) para ser quase uma mulher. Esse momento de transição era o que eu e minhasirmãs ansiávamos.Fazer chapinha era um ritual da cultura das mulheres negras, um ritual de intimidade. Era um momentoexclusivo no qual as mulheres (mesmo as que não se conheciam bem) podiam se encontrar em casa ouno salão para conversar umas com as outras, ou simplesmente para escutar a conversa. Era um mundotão importante quanto a barbearia dos homens, cheia de mistério e segredo. Tínhamos um mundo noqual as imagens construídas como barreiras entre a nossa identidade e o mundo eram abandonadas 6
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011momentaneamente, antes de serem reestabelecidas. Vivíamos um instante de criatividade, de mudança.Eu queria essa mudança mesmo sabendo que em toda a minha vida me disseram que eu era “abençoada”porque tinha nascido com “cabelo bom” – um cabelo fino, quase liso –, não suficientemente bom, maisainda assim era bom. Um cabelo que não tinha o “pé na senzala”, não tinha carapinha, essa parte nanuca onde o pente quente não consegue alisar. Mas esse “cabelo bom” não significava nada para mimquando se colocava como uma barreira ao meu ingresso nesse mundo secreto da mulher negra.Eu regozijei de alegria quando a minha mãe finalmente decretou que eu poderia me somar ao ritual desábado, não mais como observadora, mas esperando pacientemente a minha vez. Sobre este ritualescrevi o seguinte:Para cada uma de nós, passar o pente quente é um ritual importante. Não é um símbolo de nosso anseioem tornar-nos brancas. Não existem brancos no nosso mundo íntimo. É um símbolo de nosso desejo desermos mulheres.É um gesto que mostra que estamos nos aproximando da condição de mulher [...] Antes que se alcance aidade apropriada, usaremos tranças; tranças que são símbolo de nossa inocência, juventude, nossameninice. Então, as mãos que separam, penteiam e traçam nos confortam. A intimidade e a sina nosconfortam.Existe uma intimidade tamanha na cozinha aos sábados quando se alisa o cabelo, quando se frita o peixe,quando se fazem rodadas de refrigerante, quando a música soul flutua sobre a conversa.É um instante sem os homens. Um tempo em que trabalhamos como mulheres para satisfazer umas asnecessidades das outras, para nos proporcionarmos um bem-estar interior, um instante de alegrias eboas conversas.Levando em consideração que o mundo em que vivíamos estava segregado racialmente, era fácildesvincular a relação entre a supremacia branca e a nossa obsessão pelo cabelo. Mesmo sabendo que asmulheres negras com cabelo liso eram percebidas como mais bonitas do que as que tinham cabelo crespoe/ou encaracolado, isso não era abertamente relacionado com a idéia de que as mulheres brancas eramum grupo feminino mais atrativo ou de que seu cabelo liso estabelecia um padrão de beleza que asmulheres negras estavam lutando para colocar em prática.Esse momento é um marco histórico e ideológico do qual emergiu o processo de alisamento do cabelo demulheres negras. Esse processo foi ampliado de maneira tal que estabeleceu um espaço real de formaçãode íntimos vínculos pessoais da mulher negra mediante uma experiência ritualística compartilhada.O salão de beleza era um espaço de aumento da consciência, um espaço em que as mulheres negrascompartilhavam contos, lamúrias, atribulações, fofocas – um lugar onde se poderia ser acolhida e renovaro espírito.Para algumas mulheres, era um lugar de descanso em que não se teria de satisfazer as exigências dascrianças ou dos homens. Era a hora em que algumas teriam sossego, meditação e silêncio. Entretanto,essas implicações positivas do ritual do alisamento do cabelo ponderavam, mas não alteravam asimplicações negativas. Essas existiam concomitantemente. Dentro do patriarcado capitalista – o contextosocial e político em que surge o costume entre os negros de alisarmos os nossos cabelos –, essa posturarepresenta uma imitação da aparência do grupo branco dominante e, com frequência, indica um racismointeriorizado, um ódio a si mesmo que pode ser somado a uma baixa auto-estima.Durante os anos 1960, os negros que trabalhavam ativamente para criticar, desafiar e alterar o racismobranco, sinalavam a obsessão dos negros com o cabelo liso como um reflexo da mentalidade colonizada.Foi nesse momento em que os penteados afros, principalmente o black, entraram na moda como um 7
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011símbolo de resistência cultural à opressão racista e fora considerado uma celebração da condição denegro(a).Os penteados naturais eram associados à militância política. Muitos(as) jovens negros(as), quandopararam de alisar o cabelo, perceberam o valor político atribuído ao cabelo alisado como sinal dereverência e conformidade frente às expectativas da sociedade.Entretanto, quando as lutas de libertação negra não conduziram à mudança revolucionária na sociedade,não se deu mais tanta atenção à relação política entre a aparência e a cumplicidade com osegregacionismo branco e aqueles que outrora ostentavam os seus blacks começaram a alisar o cabelo.Sem ficar atrás dessa manobra para suprimir a consciência negra e os esforços das pessoas negras porserem sujeitos que se auto-definem, as empresas brancas começaram a reconhecer os negros, e demaneira especialíssima, às mulheres negras, como consumidoras potenciais de produtos que poderiamser subministrados, incluindo aqueles para os cuidados com o cabelo. Permanentes especialmenteconcebidos para as mulheres negras eliminaram a necessidade do pente quente e da chapinha. Essespermanentes não só custavam mais caro, mas também levavam todas as economias e ganâncias dascomunidades negras, especificamente dos bolsos das mulheres negras que anteriormente colhiambenefícios materiais (ver Como o Capitalismo Desenvolveu a América Negra, de Manning Marable, SouthEnd Pree).O contexto do ritual havia desaparecido, não haveria mais a formação de vínculos íntimos e pessoaisentre as mulheres negras. Sentadas embaixo de secadores barulhentos, as mulheres negras perderamum espaço para o diálogo, para a conversa criativa. Desposadas desses rituais de formação de íntimosvínculos pessoais positivos, que rodeavam tradicionalmente a experiência, o alisamento parecia cada vezmais um significante da opressão e da exploração da ditadura branca.O alisamento era claramente um processo no qual as mulheres negras estavam mudando a sua aparênciapara imitar a aparência dos brancos. Essa necessidade de ter a aparência mais parecida possível à dosbrancos, de ter um visual inócuo, está relacionada com um desejo de triunfar no mundo branco. Antes daintegração, os negros podiam se preocupar menos sobre o que os brancos pensavam sobre o seu cabelo.Em discussão sobre a beleza com mulheres negras em Spelman College, as estudantes falavam sobre aimportância de ter o cabelo liso quando se procura um emprego. Estavam convencidas, e provavelmentecom toda a razão, de que sua oportunidade de encontrar bons empregos aumentaria se tivessem cabeloalisado. Quando se pediam mais detalhes sobre essa assertiva, essas mulheres se concentravam naconexão entre as políticas radicais e os penteados naturais, seja com ou sem tranças. Uma jovem quetinha o cabelo natural e curto falava até mesmo em comprar uma peruca de cabelo liso e comprido nahora de procurar emprego.Nenhuma das participantes pensava na possibilidade de que nós mulheres negras éramos livres para usaros nossos cabelos naturais sem refletir sobre as possíveis conseqüências negativas. Com freqüência, osadultos negros, os mais velhos, especialmente os pais, respondiam negativamente aos penteadosnaturais. Contei ao grupo que, quando cheguei em casa com o cabelo trançado logo após conseguir umemprego em Yale, os meus pais me disseram que eu tinha um aspecto desagradável.Apesar das diversas mudanças na política racial, as mulheres negras continuam obcecadas com os seuscabelos, e o alisamento ainda é considerado um assunto sério. Por meio de diversas práticas insistem emse aproveitar da insegurança que nós mulheres negras sentimos a respeito de nosso valor na sociedadede supremacia branca. Conversando com grupos de mulheres em diversas cidades universitárias e commulheres negras em nossas comunidades, parece haver um consenso geral sobre a nossa obsessão como cabelo, que geralmente reflete lutas contínuas com a auto-estima e a auto-realização. Falamos sobre o 8
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011quanto as mulheres negras percebem seu cabelo como um inimigo, como um problema que devemosresolver, um território que deve ser conquistado. Sobretudo, é uma parte de nosso corpo de mulhernegra que deve ser controlado. A maioria de nós não foi criada em ambientes nos quais aprendêssemos aconsiderar o nosso cabelo como sensual, ou bonito, em um estado não processado. Muitas de nósfalamos de situações nas quais pessoas brancas pedem para tocar o nosso cabelo natural e demonstramgrande surpresa quando percebem que a textura é suave ou agradável ao toque.Aos olhos de muita gente branca e outras não negras, o black parece palha de aço ou um casco. Asrespostas aos estilos de penteado naturais usados por mulheres negras revelam comumente como onosso cabelo é percebido na cultura branca: não só como feio, como também atemorizante. Nóstendemos a interiorizar esse medo.O grau em que nos sentimos cômodas com o nosso cabelo reflete osnossos sentimentos gerais sobre o nosso corpo.Em nosso grupo de apoio de mulheres negras, Irmãs do Yam, conversávamos sobre como nãogostávamos de nossos corpos, especialmente nossos cabelos. Sugeri ao grupo que considerássemos onosso cabelo como se ele não fizesse parte do nosso corpo, mas que se percebesse como algo separado,de novo um território que deve ser controlado, domado.Para mim era importante que fosse vinculada a necessidade de controlar o cabelo com a repressãosexual. Tendo curiosidade sobre o que passavam as mulheres negras que faziam chapinha ou quefizessem amaciamento, permanente ou outras químicas, quando refletiam sobre a relação do cabeloalisado e a prática sexual, perguntei se as pessoas se preocupavam com o cabelo delas, se temiam queseus pares tocassem os seus cabelos. Sempre tive a impressão de que o cabelo alisado chama a atençãopelo desejo de que permaneça no mesmo lugar. Não foi surpreendente que muitas mulheres negrasrespondessem que se sentiam incomodadas se as pessoas se concentravam e davam muita atenção aosseus cabelos, sentiam como se o seu cabelo estivesse desordenado, fora de controle. Isso porque aquelasde nós que já liberaram o seu cabelo e deixamos que ele se movimente na direção que ele queira,freqüentemente, recebemos comentários negativos.Olhando fotografias de mim mesma e das minhas irmãs de quando tínhamos o cabelo alisado no segundograu, percebi que parecíamos ter mais idade do que quando deixamos o cabelo natural. É irônico viverem uma cultura que enfatiza tanto a necessidade das mulheres serem ou parecerem jovens, mas poroutro lado incentiva as mulheres negras a mudarem os seus cabelos de maneira tal que parecemos sermais velhas.No último semestre, estávamos lendo O Olho mais azul, de Toni Morrison, em uma aula de Literatura.Pedi aos estudantes que escrevessem textos autobiográficos, que refletissem sobre o que eles pensavamsobre a relação entre raça e beleza física. Uma grande maioria das mulheres negras escreveu sobre osseus cabelos. Quando eu perguntei isoladamente a algumas delas porque continuavam alisando o cabelo,muitas atestaram que os penteados naturais não ficavam bonitos nelas, ou que demandavam muitotrabalho. Emily, uma das minhas favoritas, de cabelo curto sempre alisava, e eu lhe questionava edesafiava, até que ela me explicou de maneira muito convincente que um penteado natural ficariahorrível no seu rosto, que ela não tinha a fronte nem a estrutura óssea apropriada.No semestre seguinte, nos reencontramos e ela me contou que durante as férias tinha ido ao salão fazero permanente e, enquanto esperava, pensou sobre as leituras e as discussões de sala de aula e percebeuque estava realmente muito incomodada e amedrontada com a idéia de que as pessoas achassem que elanão seria mais atraente se não alisasse o cabelo. Reconheceu que esse medo estava enraizado nossentimentos de baixa auto-estima. Decidiu fazer uma mudança e se surpreendeu, pois estava linda emuito atraente. Conversamos bastante sobre como dói perceber a relação entre a opressão racista e os 9
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011argumentos que usamos para convencer a nós mesmas e aos outros de que não somos belos ouaceitáveis como somos.Em inúmeras discussões com mulheres negras sobre o cabelo, ficou constatado um manifesto de que umdos fatores mais poderosos que nos impedem de usarmos o cabelo sem química é o temor de perder aaprovação e a consideração das outras pessoas. As mulheres negras heterossexuais falaram sobre oquanto os homens negros respondem de forma mais favorável quando se tem um cabelo liso ou alisado.Entre as homossexuais, muitas afirmam que não alisavam o cabelo por uma reflexão de que esse gestoestaria vinculado à heterossexualidade e à necessidade de aprovação do macho.Lembro-me de ter visitado uma amiga com seu par, um homem negro, em Nova York, faz anos, etivemos uma intensa discussão sobre o cabelo. Ele se encarregou de me dizer que eu poderia ser umairmã excelente (bonita) se fizesse algo (“dar um jeito”) com o meu cabelo. Por dentro pensei que a minhamãe o tinha contratado. O que me lembro é do espanto quando com calma e entusiasmo garanti que eugostava do tato no cabelo não processado.Quando os estudantes lêem sobre raça e beleza física, várias mulheres negras descrevem fases dainfância em que estavam atormentadas e obcecadas com a idéia de ter cabelos lisos, já que estavam tãoassociados à idéia de essas serem desejadas e amadas. Poucas mulheres receberam apoio de suasfamílias, amigos(as) e parceiros(as) amorosos(as) quando decidiam não alisar mais o cabelo. E temosvárias histórias para contar sobre os conselhos recebidos de todo o mundo, até mesmo de pessoascompletamente estanhas, que se sentem gabaritadas para atestar que parecemos mais bonitas se“arrumamos” (alisamos) o cabelo.Quando eu ia para a minha entrevista de emprego em Yale, conselheiras brancas que nunca haviam feitonenhum comentário sobre o meu cabelo me animaram para que eu não usasse tranças ou um penteadonatural grande (black) na entrevista. Elas não disseram “alisa o seu cabelo”, sugeriam que eu mudasse omeu estilo de cabelo de modo tal que parecesse ao máximo ao cabelo delas, indicando certoconformismo. Usei tranças e ninguém pareceu notar. Quando fui contratada, não perguntei se importavaou não que eu usasse tranças. Conto essa história aos meus alunos para que saibam que nem sempretemos de renunciar a nossa capacidade de ser pessoas que se autodefinem para ter sucesso no emprego.Já percebi que o meu estilo de cabelo às vezes incomoda os estudantes durante as minhas conferências.Certa vez, em uma conferência sobre mulheres negras e liderança, entrei em um auditório repleto com omeu cabelo sem química, fora de controle e desordenado. A grande maioria das mulheres negras que aliestavam tinham o cabelo alisado. Muitas delas foram hostis com olhares de desdém. Senti como seestivesse sendo julgada, como uma marginal, indesejável. Tais julgamentos se fazem especialmentedirecionado às mulheres negras nos Estados Unidos que resolvem usar dreads. São consideradas, comtoda razão, da antítese do alisamento, o que torna o seu estilo uma decisão política. Freqüentemente, asmulheres negras expressam desprezo por aquelas de nós que escolhemos essa aparência.Curiosamente, ao mesmo tempo em que o cabelo natural é um motivo de desatenção e desdém, somostestemunhas da volta da moda das pinturas, mechas loiras, cabelo comprido. Em seus escritos, minhasalunas negras descreveram o uso de mechas amarelas em suas cabeças quando eram meninas, parafingir ter o cabelo comprido e loiro. Recentemente as cantoras que estão trabalhando para ser atrativaspara a platéia branca, para serem consideradas como artistas que ampliaram o público, usam implantes eapliques para conseguir cabelos compridos e lisos. Parece haver um nexo definido entre a popularidadede uma artista negra com auditórios brancos e o grau em que ela trabalha para parecer branca, ou paraencarnar aspectos do estilo branco. Tina Tuner e Aretha Franklin foram percussoras dessa tendência, asduas pintavam o cabelo de loiro. Na vida cotidiana vemos cada vez mais mulheres usando cada vez mais 10
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011químicas para ter cabelo liso e loiro.Em uma de minhas conversas que se concentravam na construção social da identidade da mulher negradentro de uma sociedade sexista e racista, uma mulher negra veio até mim no final da discussão e mecontou que sua filha de sete anos de idade estava deslumbrada com a idéia do cabelo loiro, de tal formaque ela havia feito uma peruca que imitava os cachinhos dourados. Essa mãe queria saber o que estavafazendo de errado em sua tutela, já que sua casa era um lugar onde a condição de negro era afirmada ecelebrada. Mas ela não havia considerado que o seu cabelo alisado era uma mensagem para a sua filha:nós mulheres negras não somos aceitas a menos que alteremos nossa aparência ou textura do cabelo.Recentemente conversei com uma de minhas irmãs mais novas sobre o seu cabelo. Ela usa tintura decores berrantes em diversos tons de vermelho. No que lhe diz respeito, essas escolhas de cabelo pintadoe alisado estavam diretamente relacionadas com sentimentos de baixa auto-estima. Ela não gosta dosseus traços e acredita que o estilo de cabelo transforma a sua fisionomia. O que eu percebia era que aescolha dela na realidade chamava mais atenção para a sua fisionomia e era tudo o que ela pretendiaocultar.Quando ela comentou que com essa aparência ela recebia mais atenção e elogios, sugeri que a reaçãopositiva podia ser resposta direta da sua própria projeção de um alto nível de auto-satisfação. As pessoaspodem estar respondendo a isso e não à tentativa de ocultar ou mascarar o seu fenótipo. Conversamossobre as mensagens que estava mandando para as suas filhas de pele escura: que elas certamenteseriam aceitas se alisassem os seus cabelos!Certo número de mulheres afirmou que essa é uma estratégia de sobrevivência: é mais fácil de funcionarnessa sociedade com o cabelo alisado. Os problemas são menores; ou, como alguns dizem, “dá menostrabalho” por ser mais fácil de controlar e por isso toma menos tempo. Quando respondi a esseargumento em uma discussão em Spelman College, sugeri que talvez o fato de gastar tempo com nósmesmas cuidando de nossos corpos é também um reflexo de uma sensação de que não é importante oude que nós não merecemos tal cuidado. Nesse grupo e em outros, as mulheres negras falavam de tersido criadas em famílias que ridicularizavam ou consideravam desperdício gastar muito tempo com aaparência.Independentemente da maneira como escolhemos individualmente usar o cabelo, é evidente que o grauem que sofremos a opressão e a exploração racistas e sexistas afeta o grau em que nos sentimoscapazes tanto de auto-amor quanto de afirmar uma presença autônoma que seja aceitável e agradávelpara nós mesmas. As preferências individuais (estejam ou não enraizadas na autonegação) não podemescamotear a realidade em que nossa obsessão coletiva com alisar o cabelo negro refletepsicologicamente como opressão e impacto da colonização racista.Juntos racismo e sexismo nos recalcam diariamente pelos meios de comunicação. Todos os tipos depublicidade e cenas cotidianas nos aferem a condição de que não seremos bonitas e atraentes se nãomudarmos a nós mesmas, especialmente o nosso cabelo. Não podemos nos resignar se sabemos que asupremacia branca informa e trata de sabotar nossos esforços por construir uma individualidade e umaidentidade.Como nas lutas organizadas que aconteceram nos anos 1960 e princípios da década de 1970, asmulheres negras, como indivíduos, devemos lutar sozinhas por adquirir a consciência crítica que noscapacite para examinar as questões de raça e beleza e pautar nossas escolhas pessoais de um ponto devista político.Existem momentos em que penso em alisar o meu cabelo só por capricho, aí me lembro que, mesmo queesse gesto pudesse ser simplesmente festivo para mim, uma expressão individual de desejo, eu sei que 11
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011gesto semelhante traria outras implicações que fogem ao meu controle. A realidade é que o cabeloalisado está vinculado historicamente e atualmente a um sistema de dominação racial que é incutida naspessoas negras, e especialmente nas mulheres negras de que não somos aceitas como somos porque nãosomos belas.Fazer esse gesto como uma expressão de liberdade e opção individual me faria cúmplice de uma políticade dominação que nos fere. É fácil renunciar a essa liberdade. É mais importante que as mulheres façamresistência ao racismo e ao sexismo que se dissemina pelos meios de comunicação, e tratarem para quetodo aspecto da nossa auto-representação seja uma feroz resistência, uma celebração radical de nossacondição e nosso respeito por nós mesmas.Mesmo não tendo usado o cabelo alisado por muito tempo, isso não significa que eu era capaz dedesfrutar ou realmente apreciar meu cabelo em estado natural. Durante anos, ainda considerava isso umproblema. Ele não era natural o suficiente, crespo o necessário para fazer um black interessante edecente, o cabelo era muito fino. Essas queixas expressavam a minha continua insatisfação. A verdadeiraliberação do meu cabelo veio quando parei de tentar controlar em qualquer estado e o aceitei como era.Só há poucos anos é que deixei de me preocupar com o quê os outros possam dizer sobre o meu cabelo.Só nesses últimos anos foi que eu sentir consecutivamente o prazer lavando, penteando e cuidando domeu cabelo. Esses sentimentos me lembram o aconchego e o deleite que eu sentia quando menina,sentada entre as pernas de minha mãe, sentindo o calor do seu corpo e do seu ser enquanto elapenteava e trançava o meu cabelo.Em uma cultura de dominação e anti-Intimidade, devemos lutar diariamente por permanecer em contatocom nos mesmos e com os nossos corpos, uns com os outros. Especialmente as mulheres negras e oshomens negros, já que são nossos corpos os que freqüentemente são desmerecidos, menosprezados,humilhados e mutilados em uma ideologia que aliena. Celebrando os nossos corpos, participamos de umaluta libertadora que libera a mente e o coração.Tradução do espanhol: Lia Maria dos Santos.CORPO E CABELO COMO SÍMBOLOS DA IDENTIDADE NEGRANilma Lino GomesEste artigo apresenta algumas reflexões decorrentes da minha tese de doutorado, defendida emjunho/2002, na pós-graduação em Antropologia Social/USP. Trata-se de uma etnografia em salõesétnicos na cidade de Belo Horizonte, espaços em que o corpo e o cabelo são tomados como expressõesda identidade negra. A importância desses dois ícones identitários não se limita aos salões. Ambos sãoaspectos tomados pela cultura na construção da representação social e da beleza do negro/a nasociedade brasileira. Esta é a principal discussão a ser privilegiada no presente texto.A pesquisa realizada destaca o importante papel desempenhado pela dupla cabelo e cor da pele naconstrução da identidade negra e a importância destes, sobretudo do cabelo, na maneira como o negro sevê e é visto pelo outro, inclusive aquele que consegue algum tipo de ascensão social. Para esse sujeito, ocabelo não deixa de ser uma forte marca identitária e, em algumas situações, continua sendo visto comomarca de inferioridade.O cabelo crespo, objeto de constante insatisfação, principalmente das mulheres, é também visto, nosespaços onde foi realizada a pesquisa, no sentido de uma revalorização, o que não deixa de apresentar 12
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011contradições e tensões próprias do processo identitário. Essa revalorização extrapola o indivíduo e atingeo grupo étnico/racial a que se pertence. Ao atingi-lo, acaba remetendo, às vezes de forma consciente eoutras não, a uma ancestralidade africana recriada no Brasil.Ao falarmos sobre corpo e cabelo, inevitavelmente, nos aproximamos da discussão sobre identidadenegra. Essa identidade é vista, no contexto desta pesquisa, como um processo que não se dá apenas acomeçar do olhar de dentro, do próprio negro sobre si mesmo e seu corpo, mas também na relação como olhar do outro, do que está fora. É essa relação tensa, conflituosa e complexa que este artigo privilegia,vendo-a a partir da mediação realizada pelo corpo e pela expressão da estética negra. Nessa mediação,um ícone identitários e sobressai: o cabelo crespo. O cabelo e o corpo são pensados pela cultura. Nessesentido, o cabelo crespo e o corpo negro podem ser considerados expressões e suportes simbólicos daidentidade negra no Brasil. Juntos, eles possibilitam a construção social, cultural, política e ideológica deuma expressão criada no seio da comunidade negra: a beleza negra.Por isso não podem ser consideradossimplesmente como dados biológicos.A identidade negra é entendida, no contexto deste trabalho, como um processo construído historicamenteem uma sociedade que padece de um racismo ambíguo e do mito da democracia racial. Como qualquerprocesso identitário, ela se constrói no contato com o outro, no contraste com o outro, na negociação, natroca, no conflito e no diálogo. Como diz Neusa Santos SOUZA (1990, p.77), ser negro no Brasil é tornar-se negro. Assim, para entender o “tornar-se negro” num clima de discriminação é preciso considerarcomo essa identidade se constrói no plano simbólico. Refiro-me aos valores, às crenças, aos rituais, aosmitos, à linguagem.Jacques d’ADESKY (2001, p.76) destaca que a identidade, para se constituir como realidade, pressupõeuma interação. A idéia que um indivíduo faz de si mesmo, de seu “eu”, é intermediada peloreconhecimento obtido dos outros em decorrência de sua ação. Nenhuma identidade é construída noisolamento. Ao contrário, é negociada durante a vida toda por meio do diálogo, parcialmente exterior,parcialmente interior, com os outros. Tanto a identidade pessoal quanto a identidade socialmentederivada são formadas em diálogo aberto. Estas dependem de maneira vital das relações dialógicas comos outros. O cabelo do negro na sociedade brasileira expressa o conflito racial vivido por negros e brancosem nosso país. É um conflito coletivo do qual todos participamos. Considerando a construção histórica doracismo brasileiro, no caso dos negros o que difere é que a esse segmento étnico/racial foi relegado estarno pólo daquele que sofre o processo de dominação política, econômica e cultural e ao branco estar nopólo dominante. Essa separação rígida não é aceita passivamente pelos negros. Por isso, práticas políticassão construídas, práticas culturais são reinventadas. O cabelo do negro, visto como “ruim”, é expressãodo racismo e da desigualdade racial que recai sobre esse sujeito. Ver o cabelo do negro como “ruim” e dobranco como “bom” expressa um conflito. Por isso, mudar o cabelo pode significar a tentativa do negrode sair do lugar da inferioridade ou a introjeção deste. Pode ainda representar um sentimento deautonomia, expresso nas formas ousadas e criativas de usar o cabelo.Estamos, portanto, em uma zona de tensão. É dela que emerge um padrão de beleza corporal real e umideal. No Brasil, esse padrão ideal é branco, mas o real é negro e mestiço.O tratamento dado ao cabelo pode ser considerado uma das maneiras de expressar essa tensão. Aconsciência ou o encobrimento desse conflito, vivido na estética do corpo negro, marca a vida e atrajetória dos sujeitos. Por isso, para o negro, a intervenção no cabelo e no corpo é mais do que umaquestão de vaidade ou de tratamento estético. É identitária. 13
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011Parto também do pressuposto de que essa identidade é construída historicamente em meio a uma sériede mediações que diferem de cultura para cultura. Em nosso país, o cabelo e a cor da pele são as maissignificativas. Ambos são largamente usados no nosso critério de classificação racial para apontar quem énegro e quem é branco em nossa sociedade, assim como as várias gradações de negrura por meio dasquais a população brasileira se auto classifica nos censos demográficos.Não é minha intenção reduzir o complexo sistema de classificação racial brasileiro às impressões eopiniões sobre o cabelo e à cor da pele. Há muito os antropólogos e sociólogos (WOOD, 1991, p.93-104 eMAGGIE, 1998, p.230-233) observam que, no Brasil, o modo pelo qual as pessoas classificam a simesmas e às outras, numa perspectiva étnico/racial, não se baseia unicamente na aparência física.Distintivos de classe social como, por exemplo, renda e educação, também desempenham um papelimportante na auto-identificação e nas avaliações subjetivas que governam o comportamento intergrupal.Essa situação é tão séria que a base multidimensional da percepção de condição racial sugere apossibilidade de que um indivíduo que tenha experimentado algum tipo de ascensão social e seclassificado como preto ou pardo em algum momento da sua vida como, por exemplo, no censodemográfico,possa identificar-se como pardo ou branco, posteriormenteOS ESPAÇOS PESQUISADOS E OS SUJEITOSOs espaços pesquisados nos quais o cabelo crespo é a principal matéria-prima são quatro salões étnicosda cidade de Belo Horizonte: Beleza Negra, Preto e Branco, Dora Cabeleireiros e Beleza em Estilo. Delesemergem concepções semelhantes, diferentes e complementares sobre a beleza negra e a condição donegro na sociedade brasileira. Dois deles localizam-se no “centro da cidade” e os outros dois em bairrosbem próximos dessa região.Os sujeitos da pesquisa são 28 mulheres e homens negros. Destes, 17 são mulheres e 112 são homens.São jovens e adultos, da faixa etária dos 20 aos 60 anos. Dentre estes destacam-se as cabeleireiras e oscabeleireiros dentre os quais cinco são mulheres e quatro são homens. Do total de cabeleireiras/os, seissão proprietárias/os e as/os outras/os são funcionárias/os de confiança. A parte mais intensa daetnografia, com um acompanhamentodiário de cada salão, iniciou-se em agosto/setembro de 1999 e terminou em janeiro de 2001. O trabalhose estendeu até 2002, porém, nesse período, a ida ao campo tornou-se mais esparsa.Na etnografia, o dia-a-dia dos salões foi acompanhado, assim como as atividades externas: cursos decabeleireiros, congressos, feiras, desfiles de beleza negra, encontros com a militância negra, festas,churrascos e momentos informais dos cabeleireiros e das 2 Um dos homens entrevistados possui umsalão étnico na cidade de São Paulo. Contudo, a sua constante presença nas atividades desenvolvidas porum dos salões investigados, penteando modelos, dando cursos, participando de congressos e feiras, bemcomo a sua amizade com a cabeleireira, permitiram-me incluí-lo como um dos sujeitos da pesquisa.cabeleireiras. As entrevistas foram realizadas no espaço dos salões, nas casas, em bares e restaurantes.São depoimentos por vezes tristes, tensos e alegres. Alguns chegam a ser até mesmo divertidos, tal é aforma como algumas pessoas expressam a sua maneira de “lidar” com o cabelo e o corpo. Mas isso nãoretira a seriedade do conteúdo das falas.Além das entrevistas, outros recursos metodológicos como a fotografia, a leitura de revistas e demaispublicações sobre cabelo e corpo negro presentes no salão, a análise do visual, das cores e dasvestimentas foram privilegiados na tentativa de compor o ambiente estético no qual clientes, 14
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011cabeleireiros e pesquisadora estavam imersos. Os sujeitos desta pesquisa são “cidadãos e cidadãscomuns”. O que isso quer dizer?São homens e mulheres que não estão necessariamente vinculados ao movimento negro. Alguns jáfizeram parte deste em algum momento da sua trajetória, mas atualmente andam distantes da militânciaorganizada. Essa escolha foi intencional, pois, de um certo modo, dentro da comunidade negra já ésabida a postura desconfiada de alguns militantes ou entidades do movimento em relação à manipulaçãodo cabelo crespo. O discurso da militância é carregado de uma politização que é necessária para a suaatuação. Para este trabalho, porém, escolhi e quis ouvir homens e mulheres que constroem seu fazercotidiano em outros espaços, por meio de outras referências que não somente as da militância. Sãotambém negros e negras que alcançaram algum grau de mobilidade dentro da classe trabalhadora eoutros que se localizam na dita classe média negra. Essa escolha deve-se ao desejo de perceber se aascensão social de alguns homens e mulheres negras, por mais simples que seja, resulta na diminuiçãoou minimização das experiências desagradáveis em relação ao cabelo crespo, ao corpo e à expressãoestética negra.Durante a realização da pesquisa, tentei compreender como essas pessoas “comuns” pensam a questãoda estética corporal negra em um país que, apesar da miscigenação racial e cultural, ainda se apóia emum imaginário que prima por um ideal de beleza europeu e branco.Assim, considero que para o negro e a negra, a forma como o seu corpo e cabelo são vistos por ele/elamesmo/a e pelo outro configura um aprendizado constante sobre as relações raciais. Dependendo dolugar onde se desenvolve essa pedagogia da cor e do corpo, imagens podem ser distorcidas ouressignificadas, estereótipos podem ser mantidos ou destruídos,hierarquias raciais podem ser reforçadasou rompidas e relações sociais podem se estabelecer de maneira desigual ou democrática.Os salões trabalham com o corpo, o qual é passível de codificações particulares dentro de um gruposocial. Por isso ao estudar o corpo não se pode generalizar as diferentes formas de expressão corporalpara todas as culturas e grupos. No caso dos negros, existem códigos inscritos na forma de manipular ocabelo que não poderão ser decodificados facilmente por aqueles que não fazem parte desse grupoétnico/racial ou não possuem a convivência necessária para tal. Estudar os salões étnicos e a vida dossujeitos que nele circulam poderá ser um dos caminhos na compreensão de alguns desses códigos.Sabemos que a discussão sobre a apropriação cultural do corpo não pode ser feita sem levar emconsideração o contexto histórico, social e etnográfico no qual os sujeitos da pesquisa estão inseridos. Énesse contexto que os sujeitos e seus corpos adquirem significação. Assim, ao estudar o significado docabelo crespo na vida de cabeleireiros e clientes de salões étnicos poderemos entender algunscomportamentos que foram culturalmente aprendidos a partir da interação entre negros, brancos eoutros grupos étnicos no Brasil. Porém, cabe destacar, aqui, a especificidade do contexto urbano dacidade de Belo Horizonte. Sendo assim, é certo que algumas generalizações poderão ser feitas paraoutros contextos brasileiros, mas outras são específicas da história do negro belorizontino.No universo dos salões de beleza, os espaços onde se realizou essa pesquisa são chamados de salõesétnicos. Essa classificação é usada para destacar a especificidade racial da clientela prioritariamenteatendida por esses estabelecimentos, a saber, negros e mestiços. Ela também é atribuída devido aopertencimento étnico/racial do proprietário ou proprietária, à especificidade do serviço oferecido, a saber,o trato do cabelo crespo e à existência de um projeto de valorização da beleza negra. Assim, o termoétnico, ao se referir aos salões, às cabeleireiras, aos cabeleireiros e à sua clientela, é usado pelos sujeitosenvolvidos nesta pesquisa e por uma grande parte do mercado de cosméticos no Brasil e nos EUA comosinônimo de negro. É também uma substituição e, em alguns momentos, uma forma eufemística de se 15
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011referir ao “salão afro”, termo adotado por esses espaços durante as décadas de 70 e 80. Essaclassificação é mais do que uma terminologia. Ela diz respeito às evoluções e as mudanças ocorridas nocampo das relações raciais.Neste trabalho também adoto o termo étnico ao me referir tanto aos salões quanto aos seus profissionaistentando articular as categorias nativas com as científicas, pois tanto os salões que demarcam com maiorclareza um projeto em prol da afirmação da identidade e da beleza do negro quanto aqueles que o fazemde maneira mais fluida se autodenominam étnicos ou afro-étnicos.Essa denominação não se dá sem oscilações. Étnico ou afro? Muitas vezes, as próprias cabeleireiras ecabeleireiros confundem-se e questionam-se sobre o melhor termo a ser adotado. Essa oscilação pode serinterpretada, numa perspectiva mais ampla, como uma tentativa de conciliação das marcas identitáriascom as mudanças no campo das relações raciais. Essas mudanças, no contexto dos salões, sãoatravessadas pelos interesses do mercado e pela forma como este manipula as identidades.Mais do que a escolha pelo termo que agrada mais ou que atrai mais clientes, a terminologia adotadarefere-se à trajetória histórica e política da questão racial no Brasil, aos conflitos vividos pelos negros enegras na construção da identidade e às contradições presentes em um país miscigenado que vive sob aégide de um racismo ambíguo. Tudo isso toca de perto a vida e as escolhas das cabeleireiras e doscabeleireiros.Os salões étnicos são, então, lugares bons para pensar a relação entre cabelo crespo e identidade negra.Por quê? Porque o cabelo não é um elemento neutro no conjunto corporal. Ele é maleável, visível,possível de alterações e foi transformado, pela cultura, em uma marca de pertencimento étnico/racial. Nocaso dos negros, o cabelo crespo é visto como um sinal diacrítico que imprime a marca da negritude noscorpos. Ele é mais um elemento que compõe o complexo processo identitário. Dessa forma, podemosafirmar que a identidade negra, enquanto uma construção social, é materializada, corporificada. Nasmúltiplas possibilidades de análise que o corpo negro nos oferece, o trato do cabelo é aquela que seapresenta como a síntese do complexo e fragmentado processo de construção da identidade negra.LIDANDO COM O CABELO CRESPO NO ESPAÇO DOS SALÕES E NA VIDACabelos alisados nos anos 60, afros nos anos 70, permanente-afro nos anos 80, relaxamentos ealongamentos nos anos 90, o cabelo do negro atrai a nossa atenção. Para o negro e a negra o cabelocrespo carrega significados culturais, políticos e sociais importantes e específicos que os classificam e oslocalizam dentro de um grupo étnico/racial.Durante as entrevistas, ao falar sobre o cabelo, a expressão “lidar com o cabelo” tornou-se emblemática.A “lida” pode ser vista de várias perspectivas. Apesar dessa expressão adquirir diferentes significadospara distintas categorias sociais, no contexto das relações sociais capitalistas ela é associada ao trabalho.É o trabalho visto como fardo e exploração e não como realização pessoal.Contudo, a universalização da experiência social do trabalho não pode prescindir da particularização raciale do seu significado na realidade do negro. Para o negro, a idéia de labuta, sofrimento e fadiga faz partede uma história ancestral. Remete à exploração e à escravidão. Assim, a expressão “lida”, numaperspectiva racial, incorpora a idéia de trabalho forçado e coisificação do escravo e da escrava. Lembra,também, as estratégias do regime escravista na tentativa de anular a cultura do povo negro.No regime escravista a “lida” do escravo implicava em trabalhos forçados no eito, na casa-grande, namineração. Implicava, também, a violência e os açoites impingidos sobre o corpo negro. Dentre as muitasformas de violência impostas ao escravo e à escrava estava a raspagem do cabelo. Para o africano 16
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011escravizado esse ato tinha um significado singular. Ele correspondia a uma mutilação, uma vez que ocabelo, para muitas etnias africanas, era considerado uma marca de identidade e dignidade. Essesignificado social do cabelo do negro atravessou o tempo, adquiriu novos contornos e continua com muitaforça entre os negros e as negras da atualidade. A existência dos salões étnicos é uma prova disso.A forma como o par – cor da pele e cabelo – é visto no imaginário social brasileiro pode ser tomada comoexpressão do tipo de relações raciais aqui desenvolvido. Nesse processo, o entendimento do significado edos sentidos do cabelo crespo pode nos ajudar a compreender e desvelar as nuances do nosso sistema declassificação racial o qual, além de cromático, é estético e corpóreo.O cabelo crespo na sociedade brasileira é uma linguagem e, enquanto tal, ele comunica e informa sobreas relações raciais. Dessa forma, ele também pode ser pensado como um signo, pois representa algomais, algo distinto de si mesmo.Assim como a democracia racial encobre os conflitos raciais, o estilo de cabelo, o tipo de penteado, demanipulação e o sentido a eles atribuídos pelo sujeito que os adota podem ser usados para camuflar opertencimento étnico/racial, na tentativa de encobrir dilemas referentes ao processo de construção daidentidade negra. Mas tal comportamento pode também representar um processo de reconhecimento dasraízes africanas assim como de reação, resistência e denúncia contra o racismo. E ainda pode expressarum estilo de vida.Os salões étnicos são, portanto, espaços privilegiados para pensar várias questões que envolvem a vidados negros, dos mestiços e dos brancos. São espaços corpóreos, estéticos e identitários e, por isso, nosajudam a refletir um pouco mais sobre a complexidade e os conflitos da identidade negra. Nos salões ocabelo crespo, visto socialmente como o estigma da vergonha, é transformado em símbolo de orgulho.Reconheço, porém, que eles não são os únicos espaços que possibilitam tais reflexões.A construção da identidade negra se dá no espaço da casa, da rua, do trabalho, da escola, do lazer, daintimidade, ou seja, na relação entre o público e o privado. Mas, todos esses outros espaços sociais searticulam e transversalizam os salões, compondo um extenso e complexo mapa de trajetórias sociais eraciais.Além da transversalidade dos outros espaços sociais os salões étnicos incorporam discussões políticas e,por vezes, ideológicas. Estas expressam-se nos nomes escolhidos pelos estabelecimentos e nas suaspropostas de trabalho. Vemos, então, que tais espaços comportam uma ideologia racial, falam do lugarda diversidade étnico/racial e desenvolvem projetos sociais.O surgimento desses salões também se localiza num contexto histórico. Apesar dos salões populares queatendem a clientela negra ser uma realidade no Brasil há muitos anos, tais espaços não seautodenominavam étnicos ou afros e nem eram vistos enquanto tal. Eram salões de bairro, de fundo dequintal. Os espaços de beleza considerados étnicos surgem junto com a efervescência dos movimentossociais, no final da década de 70, fortalecem-se nos anos 80 e nos anos 90 tornam-se mais visíveis edivulgados, sobretudo, nos grandes centros urbanos. Aos poucos esses espaços migram para o interior,porém, até hoje, não representam um número expressivo. Há questões sociais, regionais e econômicasque interferem nessa situação. Para os salões étnicos, localizar-se no centro urbano é estar em contatocom o cosmopolitismo, com a circulação de idéias. É ter a oportunidade de divulgar o trabalho, aparecerna mídia, mas, também, ser confrontado publicamente e participar de embates políticos.Embora sejam encontrados com maior freqüência no centro urbano, esses salões não se afastam dasregiões populares. Estão próximos dos mercados, das lojas, galerias e ruas populares. É nesse local que a 17
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011comunidade negra reproduz a sua existência, por isso, seria incoerente se não estivessem próximos dasua clientela. Essa é a localização dos espaços pesquisados.Ao destacar o cabelo crespo e o corpo do negro esta etnografia coloca-nos diante de um campo maisvasto e mais profundo, a saber, a construção da estética corporal. Esta também apresenta uma dimensãosimbólica que trafega em vários contextos. O corpo humano é o primeiro motivo de estética, de beleza,possuidor de um elemento maleável que, tal como a madeira e o barro, possibilita diferentes recortes,detalhes e modelagens: o cabelo. Por isso corpo e cabelo, no plano da cultura, puderam sertransformados em emblemas étnicos.Nesse sentido, engana-se quem pensa que uma etnografia em salões étnicos diz respeito somente aotrato do cabelo. De fato, é sobre o cabelo que recaem as atenções de todos que transitam nessesespaços. Ele é um dos principais ícones identitários para os negros.Porém, o cabelo sozinho não diz tudo. A sua representação se constrói no âmago das relações sociais eraciais. Pegar no cabelo é tocar no corpo. Cabelo crespo e corpo negro, colocados nessa ordem, sãoexpressões de negritude. Por isso não podem ser pensados separadamente.A antropologia ajuda a pensar como o corpo é visto em cada cultura e a entender esse corpo para alémda sua fisicalidade orgânica e plástica, mas sobretudo como uma construção cultural, sempre ligado avisões de mundo específicas. As singularidades culturais são dadas também pelas posturas, pelaspredisposições, pelos humores e pela manipulação de diferentes partes do corpo. Por isso o corpo éimportante para pensar a cultura.ESTÉTICA, PROJETOS POLÍTICOS E SALÕES ÉTNICOSA dimensão estética e sensível presente nos salões étnicos não está isenta de uma dimensão política.Para ser mais precisa, é difícil separar-se dessa última quando falamos em beleza ou estética negra. Aexpressão estética negra é inseparável do plano político, do econômico, da urbanização da cidade, dosprocessos de afirmação étnica e da percepção da diversidade.A particularidade dos salões pesquisados em relação à estética negra só pôde ser vista através dacomparação. No caso dessa pesquisa, a comparação dos diferentes salões possibilitou perceber que,apesar de desenvolverem a sua prática em torno de questões semelhantes, cada estabelecimento possuiconcepções e projetos distintos em relação à estética negra. Se a comparação inspira cuidados doantropólogo para não incorrer no risco de generalização de aspectos observados em realidades diferentes,por outro lado, é só através dela que pude perceber a coexistência de particularidades e de característicasuniversais no universo dos salões.A formulação de uma proposta de intervenção estética que postula o direito à beleza para o povo negro,o desenvolvimento de ações comunitárias nas vilas e favelas, a maquiagem gratuita para dançarinos emilitantes do movimento negro durante eventos públicos da comunidade negra, a construção de umdiscurso afirmativo e de valorização dos padrões estéticos negros são exemplos de atividadesdesenvolvidas pelos quatro salões pesquisados, porém de maneira e intensidade diferentes. Mesmo quetais práticas aconteçam coladas à figura da dona ou do dono do salão elas não deixam de possuir umadimensão pública. Nesse caso podem ser considerados como projetos sociais, pois o seu alcanceextrapola a prestação de serviços e os trabalhos cotidianos de um salão de beleza.Tais projetos, elaborados dentro de um campo de possibilidades, possuem também diferentes níveis declareza quanto à explicitação dos seus objetivos, formas de comunicação e de alcance. Eles estão 18
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011diretamente relacionados à história de vida, à construção da identidade negra e à inserção política dacabeleireira ou do cabeleireiro em relação à questão racial.Tomando cada salão em particular, é possível observar que o projeto da cabeleireira ou do cabeleireironão garante a adesão de todos/as profissionais que atuam no interior do seu estabelecimento. Oenvolvimento da/o cabeleireira/o em projetos que extrapolam o salão pode provocar tensões ediscordâncias, sobretudo quando se refere ao envolvimento com a militância negra.Durante a pesquisa de campo foi possível observar a existência de diferentes interpretações, desacordose insatisfações de alguns profissionais com o projeto político e a prática dos salões. Essas tensões ediscordâncias resultaram, em alguns casos, em demissões, brigas e separações. Como os salões tambémse organizam em torno de laços de amizade e consangüinidade, a divergência quanto à implementaçãode um projeto social e à interferência deste na prática cotidiana dos salões resultou, em algunsmomentos, em rupturas afetivas. Algumas foram contornadas mais tarde e outras não.Há uma tensão entre o projeto individual e o social. Muitas vezes, uma ação extra salão corresponde aointeresse pessoal do cabeleireiro ou da cabeleireira frente à questão racial e não ao da sua equipe. Alémdisso, muitas vezes o/a cabeleireiro/a proprietário/a cobra dos demais integrantes da equipe oenvolvimento em trabalhos sociais de maneira voluntária, durante horas de folga ou dias de descanso.Nem sempre essa demanda é respondida com agrado por todos. Alguns aderem ao projeto social por seidentificarem com a proposta e outros não. E há outros que aderem como uma estratégia parapermanecer no emprego, pois percebem que a recusa de participar de tais ações e projetos poderepercutir negativamente diante da cabeleireira ou do cabeleireiro-chefe, podendo afetar a suapermanência no salão.Mas entre os salões e os seus projetos também acontecem conflitos. O fato de serem concorrentes, poisnão podemos esquecer de que eles são, antes de mais nada, estabelecimentos comerciais, desencadeiaalgumas brigas pessoais e discordâncias entre alguns profissionais. Essas divergências não são apenasprofissionais. Elas referem-se ao julgamento da “autenticidade étnica” da proposta de valorização danegritude desenvolvida pelo salão concorrente.Assim, nem sempre os diferentes projetos dos salões se articulam entre si. Isso nos mostra que, apesarde sua importância, esses estabelecimentos ainda não conseguiram dar aos seus projetos estabilidade econtinuidade supra-individuais, o que afeta, de alguma maneira, sua eficácia política.Por outro lado, as tensões em torno de um alcance político mais amplo não impedem que consideremosos salões como espaços que, com alguns limites, impostos inclusive pela sua própria natureza comercial,desenvolvem importantes projetos sociais, principalmente quando divulgam publicamente a profundaimbricação entre o estético e o político. Como diz Gilberto VELHO (1987), a viabilidade política de umprojeto social, propriamente dita, dependerá de sua eficácia em mapear e dar sentido às emoções esentimentos individuais. Esta é uma função que, com dificuldades, os salões conseguem desenvolver.Além disso, só o fato de afirmar publicamente a existência de uma “beleza negra”, de se especializar emtratar e valorizar o cabelo crespo e de atender uma clientela negra e mestiça, já faz com que os salõesétnicos cumpram uma importante função política no contexto das relações raciais estabelecidas em nossasociedade.Entretanto, apesar de realizar o seu trabalho de forma alegre e festiva, os salões também são espaçostensos. A rotina é desgastante, os horários de almoço e de saída são fluidos. Trabalha-se geralmente empé, o que acarreta doenças da profissão: varizes, problemas na coluna, alergias aos produtos químicos evárias lesões por esforço repetitivo (L.E.R.). Há também um desgaste emocional pois trabalhar 19
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011cotidianamente com processos delicados como a auto-estima e com as questões da subjetividade não éuma tarefa simples.Além disso, as preocupações de ordem financeira e o desdobramento para cumprir os projetos sociais,geralmente às noites e nos fins-de-semana, contribuem para aumentar a tensão.CONCLUINDO...Mesmo que não queiramos cobrar desses estabelecimentos uma eficácia política nos moldes tradicionaisda militância, uma vez que são estabelecimentos comerciais e não entidades do movimento negro, o fatoé que, ao se autodenominarem “étnicos” e se apregoarem como divulgadores de uma auto-imagempositiva do negro em uma sociedade racista, os salões se colocam no cerne de uma luta política eideológica. A questão racial, em um país racista, sempre será política e ideológica, quer queiramos ounão, pois se contrapor ao racismo é se contrapor a práticas, posturas e ideologias. Exige posicionamentoe mudança de comportamento.Assim, os salões são lugares em que se cruzam projetos individuais e sociais desenvolvidos em meio ainstabilidades, conflitos e negociações. Cada um encontra maneiras variadas de comunicar a sua propostade estética negra e o seu trabalho enquanto profissional da beleza. Ao longo dos anos, esses espaçostransformam, alteram e substituem os seus projetos devido às mudanças no campo da estética, dasnovas tendências da moda, do mercado de produtos étnicos e das transformações sofridas no campo daspolíticas de identidade. Através da sua prática cotidiana e dos seus projetos, os salões étnicos tentamconsciente e inconscientemente dar um sentido ou uma coerência a uma experiência identitáriafragmentada vivida pelo negro.O contato com os salões me leva a refletir que ser negro no mundo está relacionado com uma dimensãoestética, com um corpo, com uma aparência que pode ou não resgatar de forma positiva as nossasreferências ancestrais africanas recriadas no Brasil. Isso precisa ser mais a sério quando investigamos aquestão racial.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASD’ADESKY, Jacques. Racismos e anti-racismos no Brasil; pluralismo étnico e multiculturalismo. Rio deJaneiro: Pallas, 2001.GOMES, Nilma Lino. Corpo e cabelo como ícones de construção da beleza e da identidade negra nossalões étnicos de Belo Horizonte. São Paulo:USP, 2002 (tese: doutorado).HARRIS, Marvin and KOTAK, Conrad. The structural significance of Brazilian racial categories. Sociologia,v.25, n.3, p.203-208, set. 1963.LOVELL, Peggy A (Org.). Desigualdade racial no Brasil contemporâneo. Belo Horizonte:Cedeplar/Face/UFMG, 1991.MAGGIE, Yvonne. Aqueles a quem foi negada a cor do dia: as categorias cor e raça na cultura brasileira.In: MAIO, Marcos Chor e SANTOS, Ricardo Ventura (Orgs.). Raça, ciência e sociedade. Rio de Janeiro:Fiocruz/CCBB, 1998, p.225-234.SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro: ou as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensãosocial. Rio de Janeiro: Graal, 1990. 20
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011VELHO, Gilberto. Individualismo e cultura: notas para uma antropologia da sociedade contemporânea. Riode Janeiro: Zahar, 1987.______. Projeto e metamorfose; antropologia das sociedades complexas. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.WOOD, Charles H. Categorias censitárias e classificações subjetivas de raça no Brasil. In: LOVELL, PeggyA (Org.) . Desigualdade racial no Brasil contemporâneo. Belo Horizonte: Cedeplar/Face/UFMG, 1991.DADOS DA AUTORA:NILMA LINO GOMES, doutora em Antropologia Social/USP, é professora do Departamento de Administração Escolar daFaculdade de Educação da UFMG e coordenadora do Projeto Ações Afirmativas na UFMG, aprovado pelo concurso Corno Ensino Superior do Programa Políticas da Cor, do Laboratório de Políticas Públicas/UERJ.ENTREVISTA: Corporeidade transgressoraA educadora Nilma Lino Gomes acha que pensar a relação entre gênero, corpo, identidade negra esexualidade pode ajudar a aprofundar e dar outras interpretações a questões como a dos direitosreprodutivos e contracepção versus religiosidade.Em junho de 2002, Nilma defendeu sua tese no Programa de Pós-graduação em Antropologia Social daUniversidade de São Paulo (USP), a qual apresentava uma etnografia em salões étnicos na cidade de BeloHorizonte, espaços, segundo ela, onde corpo e cabelo são tomados como expressões da identidade negra.A pesquisa destacava o importante papel desempenhado pela dupla cabelo e cor de pele na construçãodessa identidade e na maneira como o negro se vê e é visto pelos outros.“Penso que o cabelo do negro é um dado da corporeidade que nos ajuda a compreender o conflito racialvivido por negros e brancos no Brasil. A expressão ‘cabelo ruim’, ‘cabelo bom’ tão usada em nossasociedade é um dos exemplos de como o cabelo crespo expressa a tensão estrutural das relações raciaisno Brasil”, diz ela. Algumas reflexões decorrentes da tese estão no artigo “Salões étnicos como espaçosestéticos e políticos de identidade negra”, integrante da coletânea Movimentos Sociais, Educação eSexualidades (CLAM/Editora Garamond), lançada recentemente em Florianópolis.Nilma é coordenadora do programa Ações Afirmativas na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).Segundo a pesquisadora, “a importância do programa é o fato de comprovar que é necessário e possívelo investimento na permanência bem sucedida de alunos negros na universidade. Não dá para pensar quea assistência estudantil oferecida pela universidade atinge a todos os alunos da mesma forma e nem dápara reduzir a questão do negro no ensino superior à idéia de assistência”, afirma nesta entrevista.Em sua tese, a sra. define os salões étnicos como espaços estéticos e políticos de identidadenegra, lugares em que corpo e cabelo são tomados como expressão da identidade negra. Quala importância desses dois ícones identitários?No que se refere à questão do negro, destaco que para se entender o corpo e o cabelo como símbolosidentitários é preciso compreendê-los no contexto da cultura, ou seja, a forma como ambos são vistos pornós, dizem respeito a uma construção cultural. Ambos ganham simbolismo nos contextos históricos,sociais e políticos que se inserem. No processo de classificação dos grupos étnico-raciais, a materialidadedo corpo recebe uma leitura cultural e, no caso dos negros brasileiros, essa leitura é atravessada pelaforma como as relações raciais se construíram no Brasil, ou seja, num contexto marcado pela escravidão, 21
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011pelo racismo ambíguo, pelo mito da democracia racial e pela desigualdade social e racial. Ao mesmotempo, o corpo e o cabelo são marcados também por uma história de luta, de transgressão, de busca deexpressão e de construção da identidade advinda dos próprios negros. Esses fatores todos estãopresentes na sociedade quando lidamos, classificamos, interagimos e vivenciamos o “ser negro” nasociedade brasileira. Por isso a dupla cabelo e cor da pele pode ser entendida como um dos fatoresprimordiais para se compreender a maneira como o negro se vê e é visto pelo outro. Não se pode pensara corporeidade negra dissociada desses fatores.Penso que o cabelo do negro é um dado da corporeidade que nos ajuda a compreender o conflito racialvivido por negros e brancos no Brasil. A expressão “cabelo ruim”, “cabelo bom” tão usada em nossasociedade é um dos exemplos de como o cabelo crespo expressa a tensão estrutural das relações raciaisno Brasil, a qual tem sido alvo de reações, transgressões e ressignficações oriundas dos próprios negrosorganizados em movimentos sociais ou por meio de diversas práticas culturais e estéticas. O cabelo donegro, visto como “ruim”, é expressão do racismo e da desigualdade racial que recai sobre esse sujeito.Por isso, é importante compreender melhor a relação do negro com o corpo e com o cabelo. A mudançado cabelo pode significar várias e múltiplas vivências, situações sociais e processos identitários. O cabelocrespo na sociedade brasileira é uma linguagem e, enquanto tal, ele comunica e informa sobre asrelações raciais.Em seu trabalho, a sra. analisa a relação entre identidade negra, corpo, gênero e sexualidade.Como articular esses temas?Essa é uma articulação complexa e há muito que se estudar sobre ela. A corporeidade estáprofundamente relacionada com as identidades que construímos em sociedade e na cultura. Ela estárelacionada com a construção do masculino e do feminino, com as hierarquias de poder, com adiversidade étnico-racial, com as leituras, vivências e interpretações sobre a sexualidade. Acho que omais importante é pensar a relação entre identidade negra, corpo, gênero e sexualidade para além daleitura sobre “a sexualidade da mulher negra e do homem negro” no contexto do racismo e das relaçõesde poder. Esses fatores são importantes e não se pode desconsiderá-los quando estudamos as relaçõesraciais, porém, há também um outro lado: aquele que se refere ao negro e à negra como sujeitos, quelidam com sua corporeidade e sua sexualidade e fazem escolhas. Essas escolhas são também políticas e éimportante entendermos como o corpo negro pode ser considerado historicamente não como um corposubmisso mas, sim, um corpo transgressor diante do processo de dominação, dos padrões morais esociais impostos. Pensar a relação entre gênero, corpo, identidade negra e sexualidade pode nos ajudar aaprofundar e dar outras interpretações a questões como: direitos reprodutivos, contracepção versusreligiosidade, a esfera dos afetos, sexo, corpo e poder, corpo e trabalho, posturas masculinas efemininas, considerando que estes têm implicações diferentes na vida dos sujeitos quando articulamosgênero, raça, idade e classe.Em seu artigo, a sra. assinala que o processo de construção da identidade/corporeidade negrano país – processo de tornar-se negro – se dá por meio de um movimento dialético derejeição/aceitação e negação/afirmação do corpo. Esse processo é o mesmo para todas aspessoas negras?Eu diria que há uma probabilidade muito grande de que muitas pessoas negras vivenciem o processo deconstrução da identidade negra dessa maneira. Tal situação não está impregnada “nas pessoas”, masprecisa ser entendida no contexto do racismo e das relações raciais construídas no Brasil. As pesquisas járealizadas sobre a construção da identidade negra apontam nessa direção. Porém, observo que as 22
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011análises realizadas tendem a privilegiar o movimento de “rejeição/aceitação” do ser negro. Eu mesma noinício das minhas pesquisas me voltava mais para esse aspecto. No entanto, o contato com os salõesétnicos me fez compreender o movimento de “ressignificação” do ser negro e este é o que eu consideroatualmente como o mais importante e pouco explorado pelo campo de estudos sobre relações raciais eidentidade negra no Brasil. Essa ressignificação vai depender da forma como o sujeito lida com a suaidentidade e com a sua corporeidade, da sua inserção em diferentes espaços sociais e das leituras einterpretações sociais e individuais sobre o “ser negro” no Brasil. Por isso, a ressignificação da identidadenegra é coletiva, mesmo que se anuncie individual. Eu diria que, até o momento, esse é o entendimentoque a pesquisa me possibilitou sobre o complexo processo de construção da identidade negra no Brasilmas, tenho certeza, de que há mais coisas que ainda não descobrimos. E é esse “a mais” que estouempenhada a pesquisar.Por que boa parte de homens e mulheres negras lidam com a corporeidade (cabelo, corpo etc)de forma tão conflituosa e o que isso nos mostra?Acho que nos mostra como o corpo foi transformado pela cultura num símbolo identitário,independentemente do sexo, idade, cor, nacionalidade etc. Estamos diante de um significado social docorpo que permeia todos os povos. Nesse processo, o contexto histórico e político vivido pelos homens emulheres imprimem marcas e especificidades a esse corpo. Eu diria que o simbolismo do corpo assumeuma tal importância na cultura que, através do estudo dos corpos, podemos compreender vários aspectosda vida social e da individualidade das pessoas.O cabelo ganha importância na constituição da corporeidade nas diversas culturas por ser um veículocapaz de transmitir diferentes mensagens, por isso possibilita as mais diferentes leituras e interpretações.Desse modo, para muitos, o cabelo é a moldura do rosto e um dos primeiros sinais a serem observadosno corpo humano.A manipulação do cabelo se faz presente nos mais diversos povos. A meu ver, essa situação apresentaalgo mais complexo: para se compreender o sentido social do cabelo e do corpo nas diversas culturas,precisamos aprofundar um pouco mais o estudo sobre as técnicas corporais e sua relação com os fatoresfisio-psico-sociológicos que as acompanham, conforme nos ensinou Marcel Mauss. Isso nos ajudará aentender os conflitos em torno da corporeidade.Como a sra. analisa as referências ancestrais africanas recriadas no Brasil?Acho que o mais importante é conhecer melhor a África, sua história, sua cultura e seus povos. Vivemos,no Brasil, uma total ignorância em relação a esses aspectos. Essa ignorância não é construída no vazio,mas é fruto do racismo, do mito da democracia racial, de uma imagem distorcida e/ou mitificada sobre aÁfrica que aprendemos a construir em sociedade. Mudar essa visão é desencadear um processo educativona sociedade brasileira em relação às nossas referências ancestrais africanas, não para cultuá-las ecristalizá-las, mas para conhecê-las, compreendê-las e valorizá-las como formadoras da nossa sociedade.Poderemos, então, ter uma outra compreensão sobre a escravidão e a história de dominação colonial dospaíses africanos, da riqueza das culturas e reinos africanos, as guerras, os conflitos, a arte, a metalurgia,a estética.Penso que ao conhecermos mais as nossas referências ancestrais africanas conheceremos um pouco maisa forma como a sociedade brasileira se construiu e entenderemos o que alguns autores chamam de“africanidades brasileiras”. Não há aqui nenhuma leitura essencialista sobre a África mas oreconhecimento de que sabemos pouco sobre uma das matrizes da construção da nossa sociedade esobre a diáspora africana. Porém, esse conhecimento não pode ficar restrito às referências ancestrais 23
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011vendo-as apenas na perspectiva do passado. Ele tem que se articular com o que é a África, hoje, seusdilemas, conflitos, etnias, história e inserção internacional.Atualmente, há tentativas de inserir esse processo educativo desde a educação básica. Temos, hoje, a lei10.639/03 e as diretrizes curriculares nacionais dela advindas. Por meio destas, o estudo da história daÁfrica e das culturas afro-brasileiras tornou-se obrigatório nas escolas de educação básica públicas eprivadas. Há um processo longo a ser realizado para que a lei se transforme efetivamente em práticaspedagógicas. Espero que esse movimento feito na educação básica traga luzes e estimule a discussão noscursos superiores.Publicada em: 29/01/2006 às 16:15 entrevista 24
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011Enegrecer o feminismo: a situação da mulher Negra na América Latina a partir de umaPerspectiva de gênero Sueli Carneiro (*)No Brasil e na América Latina, a violação colonial perpetrada pelos senhores brancos contra asmulheres negras e indígenas e a miscigenação daí resultante está na origem de todas asconstruções de nossa identidade nacional, estruturando o decantado mito da democracia raciallatino-americana, que no Brasil chegou até as últimas conseqüências. Essa violência sexual colonialé, também, o “cimento” de todas as hierarquias de gênero e raça presentes em nossas sociedades,configurando aquilo que Ângela Gilliam define como “a grande teoria do esperma em nossaformação nacional”, através da qual, segundo Gilliam: “O papel da mulher negra é negado naformação da cultura nacional; a desigualdade entre homens e mulheres é erotizada; e a violênciasexual contra as mulheres negras foi convertida em um romance”.O que poderia ser considerado como história ou reminiscências do período colonial permanece,entretanto, vivo no imaginário social e adquire novos contornos e funções em uma ordem socialsupostamente democrática, que mantém intactas as relações de gênero segundo a cor ou a raçainstituídas no período da escravidão. As mulheres negras tiveram uma experiência históricadiferenciada que o discurso clássico sobre a opressão da mulher não tem reconhecido, assim comonão tem dado conta da diferença qualitativa que o efeito da opressão sofrida teve e ainda tem naidentidade feminina das mulheres negras.Quando falamos do mito da fragilidade feminina, que justificou historicamente a proteçãopaternalista dos homens sobre as mulheres, de que mulheres estamos falando? Nós, mulheresnegras, fazemos parte de um contingente de mulheres, provavelmente majoritário, que nuncareconheceram em si mesmas esse mito, porque nunca fomos tratadas como frágeis. Fazemos partede um contingente de mulheres que trabalharam durante séculos como escravas nas lavouras ounas ruas, como vendedoras, quituteiras, prostitutas... Mulheres que não entenderam nada quandoas feministas disseram que as mulheres deveriam ganhar as ruas e trabalhar! Fazemos parte de umcontingente de mulheres com identidade de objeto. Ontem, a serviço de frágeis sinhazinhas e desenhores de engenho tarados.São suficientemente conhecidas as condições históricas nas Américas que construíram a relação decoisificação dos negros em geral e das mulheres negras em particular. Sabemos, também, que emtodo esse contexto de conquista e dominação, a apropriação social das mulheres do grupo derrotadoé um dos momentos emblemáticos de afirmação de superioridade do vencedor. Hoje, empregadasdomésticas de mulheres liberadas e dondocas, ou de mulatas tipo exportação.Quando falamos em romper com o mito da rainha do lar, da musa idolatrada dos poetas, de quemulheres estamos falando? As mulheres negras fazem parte de um contingente de mulheres quenão são rainhas de nada, que são retratadas como antimusas da sociedade brasileira, porque omodelo estético de mulher é a mulher branca. Quando falamos em garantir as mesmasoportunidades para homens e mulheres no mercado de trabalho, estamos garantindo emprego paraque tipo de mulher? Fazemos parte de um contingente de mulheres para as quais os anúncios deemprego destacam a frase: “Exige-se boa aparência”. Quando falamos que a mulher é umsubproduto do homem, posto que foi feita da costela de Adão, de que mulher estamos falando?Fazemos parte de um contingente de mulheres originárias de uma cultura que não tem Adão. 25
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011Originárias de uma cultura violada, folclorizada e marginalizada, tratada como coisa primitiva, coisado diabo, esse também um alienígena para a nossa cultura. Fazemos parte de um contingente demulheres ignoradas pelo sistema de saúde na sua especialidade, porque o mito da democracia racialpresente em todas nós torna desnecessário o registro da cor dos pacientes nos formulários da redepública, informação que seria indispensável para avaliarmos as condições de saúde das mulheresnegras no Brasil, pois sabemos, por dados de outros países, que as mulheres brancas e negrasapresentam diferenças significativas em termos de saúde.Portanto, para nós se impõe uma perspectiva feminista na qual o gênero seja uma variável teórica,mas como afirmam Linda Alcoff e Elizabeth Potter, que não “pode ser separada de outros eixos deopressão” e que não “é possível em uma única análise. Se o feminismo deve liberar as mulheres,deve enfrentar virtualmente todas as formas de opressão”. A partir desse ponto de vista, é possívelafirmar que um feminismo negro, construído no contexto de sociedades multirraciais, pluriculturais eracistas – como são as sociedades latino-americanas – tem como principal eixo articulador o racismoe seu impacto sobre as relações de gênero, uma vez que ele determina a própria hierarquia degênero em nossas sociedades.Em geral, a unidade na luta das mulheres em nossas sociedades não depende apenas da nossacapacidade de superar as desigualdades geradas pela histórica hegemonia masculina, mas exige,também, a superação de ideologias complementares desse sistema de opressão, como é o caso doracismo. O racismo estabelece a inferioridade social dos segmentos negros da população em geral edas mulheres negras em particular, operando ademais como fator de divisão na luta das mulherespelos privilégios que se instituem para as mulheres brancas. Nessa perspectiva, a luta das mulheresnegras contra a opressão de gênero e de raça vem desenhando novos contornos para a ação políticafeminista e anti-racista, enriquecendo tanto a discussão da questão racial, como a questão degênero na sociedade brasileira.Esse novo olhar feminista e anti-racista, ao integrar em si tanto as tradições de luta do movimentonegro como a tradição de luta do movimento de mulheres, afirma essa nova identidade políticadecorrente da condição específica do ser mulher negra. O atual movimento de mulheres negras, aotrazer para a cena política as contradições resultantes da articulação das variáveis de raça, classe egênero, promove a síntese das bandeiras de luta historicamente levantadas pelos movimento negroe de mulheres do país, enegrecendo de um lado, as reivindicações das mulheres, tornando-as assimmais representativas do conjunto das mulheres brasileiras, e, por outro lado, promovendo afeminização das propostas e reivindicações do movimento negro.Enegrecer o movimento feminista brasileiro tem significado, concretamente, demarcar e instituir naagenda do movimento de mulheres o peso que a questão racial tem na configuração, por exemplo,das políticas demográficas, na caracterização da questão da violência contra a mulher pelaintrodução do conceito de violência racial como aspecto determinante das formas de violênciasofridas por metade da população feminina do país que não é branca; introduzir a discussão sobreas doenças étnicas/raciais ou as doenças com maior incidência sobre a população negra comoquestões fundamentais na formulação de políticas públicas na área de saúde; instituir a crítica aosmecanismos de seleção no mercado de trabalho como a “boa aparência”, que mantém asdesigualdades e os privilégios entre as mulheres brancas e negras.Tem-se, ainda, estudado e atuado politicamente sobre os aspectos éticos e eugênicos colocadospelos avanços das pesquisas nas áreas de biotecnologia, em particular da engenharia genética. Umexemplo concreto refere-se, por exemplo, às questões de saúde e de população. Se, historicamente, 26
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011as práticas genocidas tais como a violência policial, o extermínio de crianças, a ausência de políticassociais que assegurem o exercício dos direitos básicos de cidadania têm sido objetos prioritários daação política dos movimentos negros, os problemas colocados hoje pelos temas de saúde e depopulação nos situam num quadro talvez ainda mais alarmante em relação aos processos degenocídio do povo negro no Brasil. Portanto, esse novo contexto de redução populacional, fruto daesterilização maciça – aliada tanto à progressão da AIDS quanto do uso da droga entre a nossapopulação – e das novas biotecnologias, em particular a engenharia genética, com as possibilidadesque ela oferece de práticas eugênicas, constitui novo e alarmante desafio contra o qual o conjuntodo movimento negro precisa atuar.A importância dessas questões para as populações consideradas descartáveis, como são os negros,e o crescente interesse dos organismos internacionais pelo controle do crescimento dessaspopulações, levou o movimento de mulheres negras a desenvolver uma perspectiva internacionalistade luta. Essa visão internacionalista está promovendo a diversificação das temáticas, com odesenvolvimento de novos acordos e associações e a ampliação da cooperação interétnica. Cresceente as mulheres negras a consciência de que o processo de globalização, determinado pela ordemneoliberal que, entre outras coisas, acentua o processo de feminização da pobreza, coloca anecessidade de articulação e intervenção da sociedade civil a nível mundial. Essa nova consciênciatem nos levado ao desenvolvimento de ações regionais no âmbito da América Latina, do Caribe, ecom as mulheres negras dos países do primeiro mundo, além da participação crescente nos fórunsinternacionais, nos quais governos e sociedade civil se defrontam e definem a inserção dos povosterceiro-mundistas no terceiro milênio.Essa intervenção internacional, em especial nas conferências mundiais convocadas pela ONU a partirda década de 1990, tem nos permitido ampliar o debate sobre a questão racial a nível nacional einternacional e sensibilizar movimentos, governos e a ONU para a inclusão da perspectiva anti-racista e de respeito à diversidade em todos os seus temas. A partir dessa perspectiva, atuamosjunto à Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, realizada no Cairo, em 1994,em relação à qual as mulheres negras operaram a partir da idéia de que “em tempos de difusão doconceito de populações supérfluas, liberdade reprodutiva é essencial para as etnias discriminadaspara barrar as políticas controladoras e racistas”.Assim, estivemos em Viena, na Conferência de Direitos Humanos, da qual saiu o compromissosugerido pelo governo brasileiro, de realização de uma conferência mundial sobre racismo e outrasobre imigração, para antes do ano 2000. Atuamos no processo de preparação da Conferência deBeijing, durante o qual foi realizado um conjunto de ações através das quais é possível medir ocrescimento da temática racial no movimento de mulheres do Brasil e no mundo. Vale destacar quea Conferência de Viena assumiu que os direitos da mulher são direitos humanos, o que estáconsubstanciado na Declaração e no Programa de Ação de Viena, que dão grande destaque àquestão da mulher e pregam a sua plena participação, em condições de igualdade, na vida política,civil, econômica, social e cultural nos níveis nacional, regional e internacional, e a erradicação detodas as formas de discriminação sexual, considerando-as objetivos prioritários da comunidadeinternacional.Se a Declaração de Viena avança na compreensão da universalidade dos direitos humanos dasmulheres, para nós mulheres não brancas era fundamental uma referência explícita à violação dosdireitos da mulher baseada na discriminação racial. Entendíamos que a Conferência de Beijingdeveria fazer uma referência explícita à opressão sofrida por um contingente significativo demulheres em função da origem étnica ou racial. Essas conferências mundiais se tornaram espaços 27
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011importantes no processo de reorganização do mundo após a queda do muro de Berlim e constituemhoje fóruns de recomendações de políticas públicas para o mundo.O movimento feminista internacional tem operado nesses fóruns como o lobby mais eficiente entreos segmentos discriminados do mundo. Isso explica o avanço da Conferência de Direitos Humanosde Viena em relação às questões da mulher, assim como os avanços registrados na Conferência doCairo e na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO 92),realizada no Rio de Janeiro em 1992. Nos esforços desenvolvidos pelas mulheres na Conferência deBeijing, um dos resultados foi que o Brasil, pela primeira vez na diplomacia internacional, obstruiuuma reunião do G-77, grupo dos países em desenvolvimento do qual faz parte, para discordar sobrea retirada do termo étnico-racial do Artigo 32 da declaração de Beijing, questão inegociável para asmulheres negras do Brasil e dos países do Norte. A firmeza da posição brasileira assegurou que aredação final do Artigo 32 afirmasse a necessidade de “intensificar esforços para garantir o desfrute,em condições de igualdade, de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais a todas asmulheres e meninas que enfrentam múltiplas barreiras para seu desenvolvimento e seu avançodevido a fatores como raça, idade, origem étnica, cultura, religião...” O próximo passo será amonitoração desses acordos por parte de nossos governos.ConclusõesA origem branca e ocidental do feminismo estabeleceu sua hegemonia na equação das diferenças degênero e tem determinado que as mulheres não brancas e pobres, de todas as partes do mundo,lutem para integrar em seu ideário as especificidades raciais, étnicas, culturais, religiosas e declasse social. Até onde as mulheres brancas avançaram nessas questões? As alternativas deesquerda, de direita e de centro se constroem a partir desses paradigmas instituídos pelo feminismoque, segundo Lélia Gonzalez, apresentam dois tipos de dificuldades para as mulheres negras: porum lado, a inclinação eurocentrista do feminismo brasileiro constitui um eixo articulador a mais dademocracia racial e do ideal de branqueamento, ao omitir o caráter central da questão da raça nashierarquias de gênero e ao universalizar os valores de uma cultura particular (a ocidental) para oconjunto das mulheres, sem mediá-los na base da interação entre brancos e não brancos; por outrolado, revela um distanciamento da realidade vivida pela mulher negra ao negar “toda uma históriafeita de resistência e de lutas, em que essa mulher tem sido protagonista graças à dinâmica de umamemória cultural ancestral (que nada tem a ver com o eurocentrismo desse tipo de feminismo)” .Nesse contexto, quais seriam os novos conteúdos que as mulheres negras poderiam aportar à cenapolítica para além do “toque de cor” nas propostas de gênero? A feminista negra norte-americanaPatricia Collins argumenta que o pensamento feminista negro seria “(...) um conjunto deexperiências e idéias compartilhadas por mulheres afro-americanas, que oferece um ânguloparticular de visão de si, da comunidade e da sociedade... que envolve interpretações teóricas darealidade das mulheres negras por aquelas que a vivem...” A partir dessa visão, Collins elege alguns“temas fundamentais que caracterizariam o ponto de vista feminista negro”. Entre eles, sedestacam: o legado de uma história de luta, a natureza interconectada de raça, gênero e classe e ocombate aos estereótipos ou “imagens de autoridade”.Acompanhando o pensamento de Patricia Collins, Luiza Barros usa como paradigma a imagem daempregada doméstica como elemento de análise da condição de marginalização da mulher negra e,a partir dela, busca encontrar especificidades capazes de rearticular os pontos colocados pelafeminista norte-americana. Conclui, então, que “essa marginalidade peculiar é o que estimula um 28
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011ponto de vista especial da mulher negra, (permitindo) uma visão distinta das contradições nas açõese ideologia do grupo dominante”. “A grande tarefa é potencializá-la afirmativamente através dareflexão e da ação política”.O poeta negro Aimé Cesaire disse que “as duas maneiras de perder-se são: por segregação, sendoenquadrado na particularidade, ou por diluição no universal”. A utopia que hoje perseguimosconsiste em buscar um atalho entre uma negritude redutora da dimensão humana e auniversalidade ocidental hegemônica que anula a diversidade. Ser negro sem ser somente negro,ser mulher sem ser somente mulher, ser mulher negra sem ser somente mulher negra. Alcançar aigualdade de direitos é converter-se em um ser humano pleno e cheio de possibilidades eoportunidades para além de sua condição de raça e de gênero. Esse é o sentido final dessa luta.Acredito que nessa década, as mulheres negras brasileiras encontraram seu caminho deautodeterminação política, soltaram as suas vozes, brigaram por espaço e representação e sefizeram presentes em todos os espaços de importância para o avanço da questão da mulherbrasileira hoje. Foi sua temática a que mais cresceu politicamente no movimento de mulheres doBrasil, integrando, espera-se que definitivamente, a questão racial no movimento de mulheres. Oque impulsiona essa luta é a crença “na possibilidade de construção de um modelo civilizatóriohumano, fraterno e solidário, tendo como base os valores expressos pela luta antirracista, feministae ecológica, assumidos pelas mulheres negras de todos oscontinentes, pertencentes que somos àmesma comunidade de destinos”. Pela construção de uma sociedade multirracial e pluricultural,onde a diferença seja vivida como equivalência e não mais como inferioridade. (*) Fundadora e coordenadora-executiva do Geledés – Instituto da Mulher Negra São Paulo SP 29
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011Desafios para o Enfrentamento da Violência contra a MulherLúcia Xavier1Direitos Humanos e Violência contra a MulherA violência contra a mulher é seguramente uma das mais importantes violações dos direitoshumanos em todo o mundo, particularmente no Brasil. Ela é a expressão da combinação deideologias conservadoras e retrógradas que se reavivam cotidianamente através das mais variadaspráticas de negação dos direitos das mulheres. Homicídios; tráfico para fins sexuais e exploração dotrabalho; trabalho forçado; agressões físicas e psicológicas; cárcere privado; maustratos;mutilações; discriminações; falta de políticas públicas eficientes e a miséria, são exemplos destaspráticas.No Brasil, setores da sociedade e do estado têm se mobilizado para encontrar formas deenfrentamento deste problema. Alguns avanços já foram alcançados em termos das políticaspúblicas em todos os âmbitos. Mas os dados ainda apontam que a cada 15 segundo uma mulher éespancada por um homem. 2De acordo com a pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo, das 2502 mulheresentrevistadas 33% admitem já ter sido vítima de violência em algum momento de sua vida; 24% jáforam ameaçadas com armas e sofreram cerceamento do direito de ir e vir; 13% sofreram abusoou estupro conjugal.; 27% sofreram violências psíquicas e 11% afirmam já ter sofrido assédiosexual”. 3Em Recife, mulheres negras, na faixa entre 20 a 29 anos são mais assassinadas do que as brancasda mesma faixa etária. Estudo de Sony Santos, sanitarista da Secretaria Municipal de Saúde doRecife, aponta que as mulheres negras têm 1,7 vezes mais chance de morrer do que as brancas.4 Apesquisadora afirma que “os agressores são geralmente homens com os quais elas mantêm relaçõesafetivas ou familiares, usuários de drogas e álcool e com baixa escolaridade. E as mulheres negrasestão mais expostas a esse tipo de agressor”.A violência contra a mulher negra revela o lado mais cruel da violência contra a mulher de um modogeral. Elas estão sujeitas a uma série de violação de direitos em todos os campos da vida, fruto doracismo nas relações sociais brasileiras.Desafios para o Enfrentamento da ViolênciaO racismo produz para as mulheres negras vulnerabilidades que não são percebidas nas açõescontra a violência. Como também desigualdades no campo do trabalho, da educação, da saúde, dajustiça, da moradia que impede sua autonomia e, sobretudo, reforça uma representação negativadestas, vista como inferiores, sem inteligência, lascivas, boas de cama, produto para exportação,preguiçosas, sujas, suspeitas, parideiras. Esta representação acaba também influenciando asrelações afetivas, interpessoais e profissionais, reforçando a subordinação e permitindo o1 Lúcia Xavier, assistente social, ativista, coordenadora de CRIOLA e secretária executiva da AMNB.2 Fundação Perseu Abramo A mulher brasileira nos espaços público e privado. SP, 2001.3 Portal da violência contra a mulher. http//. www.patricia galvao.org.br4 http://www.pnud.org.br/raca/reportagens/index.php?id01=2371&lay=rac “Desigualdades Sociais na mortalidade de mulheresadultas do Recife nos anos de 2001 a 2003”, desenvolvido pela pesquisadora Sony Santos, sanitarista da Diretoria de Vigilância àSaúde da Secretaria de Saúde do Recife(2005). 30
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011desrespeito aos seus direitos. Por outro lado, o racismo também produz um ambiente deagressividade e rejeição social que não permite o pleno desenvolvimento da mulher.Dados da Secretaria Estadual de Segurança Publica do Rio de Janeiro demonstram que entre asmulheres pretas e pardas(negras), as pardas são as maiores vitimas da violência sexual.  A proporção de mulheres pardas e pretas vitimadas por estupro (37,7% e 13,6%, respectivamente) é superior à proporção de mulheres pardas e pretas na população (25,1% e 12,6%, respectivamente), enquanto o percentual de brancas estupradas (48,7%) é inferior ao de mulheres brancas na população do estado (62,2%).  A proporção de pessoas negras vitimadas por atentado violento ao pudor (37,8% de pardas e 11,5% de pretas) é superior ao conjunto da população negra residente no estado do Rio de Janeiro (24,5% de pardas e 12,2% de pretas, considerando-se homens e mulheres, já que o atentado violento ao pudor atinge ambos os sexos). As pessoas brancas vitimadas por atentado violento ao pudor, representam 50,6% do conjunto das vítimas, enquanto, na população do estado, os brancos perfazem o total de 59,4%.5Ao deixar de lado esta dimensão, se estabelece ações no campo das políticas públicas queconsideram apenas as dimensões de gênero e, às vezes, a condição econômica para oenfrentamento deste problema. A dimensão racial é apresentada com secundária ou periférica compouca influência na analise do problema, logo desconsiderada nas ações políticas de enfrentamento,ampliando assim o quadro de violência.Esta desconexão não é uma particularidade da dimensão de raça, outros contextos sociais quetambém animam e redimensionam a violência contra as mulheres são deixados de lado nasproposições de políticas públicas. Um bom exemplo é a situação das mulheres, adolescentes ejovens nas favelas. Elas podem até não sofrer violência doméstica ou intrafamiliar, mas vivem emambiente de constate violência e violação dos direitos. E acabam vulnerabilizadas no processo deviolência.Tiroteios, balas perdidas, a lei do tráfico e da polícia, obriga as mulheres a manterem constantevigilância com a sua segurança e dos filhos e da família, bem como da própria comunidade. Semcontar o stress e a depressão gerados pela violência que é agravado pela falta de resolutividade dosserviços públicos.O desafio está em pensar ações que percebam a mulher negra na sua integridade, inserida numcontexto histórico, social, político, econômico e cultural. Essa perspectiva, já construída emconceitos como interseccionalidade, pode desenhar novas ações que permitam a constituição depolíticas que venham ao encontro das necessidades, desejos e interesses das mulheres negras e quepossam modificar de fato as suas vidas.Considerar a perspectiva da interseccionalidade para o enfrentamento da violência é, sobretudo,mudar a matriz que dão base as políticas voltadas para as mulheres. Essa matriz que contamina omodo de pensar essa realidade e, por conseqüência, o modo de pensar a política impede, muitasvezes, de ter medidas simples, claras e eficazes no combate à violência contra a mulher. Por que, asmulheres em situação de violência vivem contextos diferenciados e estes influem na sua maneira depensar a sociedade, as relações de trabalho, a sua relação de gênero e de sujeito político que podedizer não à violência, especialmente aquela perpetrada pelo estado.5 Werneck, Jurema. Projeto Iyá Agbá Rede de Mulheres Negras Frente a Violência.Criola, RJ:2005.(Mimeo). 31
  • Agenda Política -------- CAMPANHA NACIONAL PELO FIM DA VIOLENCIA CONTRA AS MULHERES NEGRAS ------- Circulação Interna 25/07/2011Sabemos que historicamente as mulheres negras também aprenderam a enfrentar a violência tantono campo individual – relações afetivas, de trabalho, nas ruas – como no campo coletivo –escravidão, racismo institucional, violência policial. Mulheres negras são responsáveis, por exemplo,por uma boa parte do acolhimento, das pessoas em situação de violência na sua comunidade, quersejam jovens, maridos, companheiros. Mas também são elas as produtoras de mecanismos queimpede que outros jovens façam partes de redes que produzirão violência.Estudo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, informa que muitos jovens atraídos pelo tráficonão entram no tráfico à partir da presença em suas vidas de uma mulher. Alguém que está no dia-a-dia, no convívio com ele, que o ajuda, colabora na persuasão de não entrar em malhas criminosasou mafiosas, mas, sobretudo nas malhas da violência. Essa experiência única que as mulheresnegras vivem é desconsiderada quando se olha às políticas públicas voltadas para elas. Visto que,nessa perspectiva, olhando-as como vítima, esquecemos de considerar que boa parte das suasações vão de encontro da diminuição da violência.As políticas voltadas para o enfrentamento da violência precisam encontrar outros mecanismos queampliem o empoderamento das mulheres e a sua participação política. E, sobretudo, que dê a elas achance de revisar conceitos, práticas culturais, no sentido de se sentirem mais seguras para asescolhas e as opções que fazem na vida.A revisão dos marcos jurídicos sobre a violência contra a mulher já está em fase de revisão comgrande chance de mudança no campo do legislativo e do judiciário. Mas no que se refere a violênciacontra a mulher é preciso pensar nos modos de punição a indenização. A justiça já tem umaexperiência profunda de como guardar o patrimônio e fazer com que os cidadãos reintegrem essepatrimônio à partir da indenização. Esta medida também seria uma inversão de valores, poiscolocaria a vida com maior valor do que o patrimônio.Estratégias PossíveisTalvez as principais estratégias para o enfrentamento da violência contra a mulher negra já estejamnas mãos das mulheres há muito tempo sem serem consideradas como tal. A primeira tem havercom a incorporação das estratégias já utilizadas por elas para enfrentar diferentes formas deviolência que atingem as suas vidas, de suas famílias e comunidades, que reduzem os danoscausados pela violência. Mas ainda não restaura os direitos e nem a sua condição de sujeitos dedireitos.Outra estratégia importante que passa pela compreensão da interseccionalidade como instrumentode restauração dos direitos e fortalecimento da cidadania, são os marcos conceituais do feminismo edo anti-racismo que precisam ser radicalizados na execução de políticas públicas.Estas concepções são paradigmas que podem permitir o enfrentamento da violência, bem comoproduzir avanços não só para a qualidade de vida, autonomia e liberdade, mas também para ajustiça. 32