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Tese missao integral

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  • 1. FACULDADE TEOLOGICA E CULTURAL DA BAHIA - FATECBA MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS DA RELIGIÃO ALTEMAR OLIVEIRA MENESES MISSÃO INTEGRAL, A IGREJA COMO AGENTE DO REINO DE DEUS. SÃO PAULO, 16/06/2013
  • 2. ALTEMAR OLIVEIRA MENESES MISSÃO INTEGRAL, A IGREJA COMO AGENTE DO REINO DE DEUS Trabalho de Curso submetido à (Faculdade Teológica e Cultural da Bahia) como parte dos requisitos necessários para a obtenção do Grau de Mestre em Ciências Sociais da Religião. Sob a orientação do Professor Dr. Davi Oliveira Boa Sorte. São Paulo/SP, 2013.
  • 3. ALTEMAR OLIVEIRA MISSÃO INTEGRAL, A IGREJA COMO AGENTE DO REINO DE DEUS. Trabalho de Curso submetido à Faculdade Teológica e Cultural da Bahia - FATECBA, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do Grau de Mestre em Ciências Sociais da Religião. ___________________________ Dr. Davi Oliveira Boa Sorte Orientador/ FATECBA ___________________________ Prof° Jander Nascimento FATECBA ___________________________ Prof° Elí dos Santos FATECBA
  • 4. “Dedico este trabalho primeiramente à Deus, por ter me concedido a oportunidade de conhecer e serví-lo, dedico também a minha família e em especial minha esposa Cris, pela paciência e dedicação às coisas concernentes ao Reino de Deus, sem você não chegaria até aqui.”
  • 5. AGRADECIMENTOS Agradeço a todos os que me ajudaram direta e indiretamente na elaboração deste trabalho, a coordenadora Walquíria pela presteza, aos professores, que colaboraram de forma especial na elaboração do trabalho.
  • 6. “A Missão da Igreja é manifestar, aqui e agora como sinal profético, a maior densidade possível do Reino de Deus, que se consumará ali e além”. Dom Robinson Cavalcanti
  • 7. RESUMO Fazer Teologia no século XXI não tem sido tarefa fácil, devido as grandes facilidades que o mundo moderno oferece, como a secularização, a miscigenação do profano com o sagrado, alguns chegam a afirmar que a religião está com seus dias contados. É diante deste contexto, que somos desafiados a fazer uma teologia que seja relevante ao contexto tricotômico sócio-econômico-cultural em que vivemos hoje que se faz cada vez mais necessário requerer que os pregadores utilizem cada vez mais o texto bíblico levando em consideração as necessidades do homem secularizado, da mesma maneira que os cristãos primitivos atualizaram a mensagem do AT nos termos de Jesus para as comunidades judaico-gentílicas do primeiro século. Ao apresentar este trabalho, não quero propor adequações do texto bíblico à moralidade atual, mas trabalhar a ideia de que a interpretação das Escrituras não é a simples leitura da mesma na forma litúrgica, mas a utilização da mesma mensagem pregada na Bíblia, dos conceitos que se aprende sobre Deus, numa linguagem que o homem hodierno possa compreender. Devemos ir a busca de uma teologia compromissada com a evangelização e a ação social, que possa integrar uma forte espiritualidade religiosa com um forte trabalho social, tendo uma visão holística do ser humano, testemunhando Jesus como Senhor e Salvador, com um evangelho encarnado na vida das pessoas e na sociedade, anunciando o evangelho com todo o seu carisma e amor e levando o “Evangelho todo, para o homem todo, para todos os homens”. Palavras-chave: Missão Integral, Teologia Moderna, Missões, Teologia na América Latina.
  • 8. ABSTRACT Doing Theology in the XXI century has not been an easy task because of the great facilities that the modern world offers, such as secularization, the mixing of the profane and the sacred, some even claim that religion has its days numbered. It is within this context that we are challenged to make a theology that is relevant to the context tricotomic socio-economic and cultural environment in which we live today it is increasingly necessary to require that employers increasingly use the biblical text taking into consideration the needs the secularized man, just as the early Christians updated the message of Jesus in New Testament pursuant to the Gentile-Jewish communities of the first century. When you submit this job, do not want to propose adaptations of the biblical text to the current morality, but working the idea that the interpretation of Scripture is not simply reading the same in for ma-liturgical, but use the same message preached in the Bible , the concepts you learn about God in a language that today's man can understand. We go searching for a theology committed to evangelism and social action, which can incorporate a strong religious spirituality with a strong social work, having a saw-are holistic human being, witnessing Jesus as Lord and Savior, with a gospel embodied in people's lives and society, preaching the gospel with all his charisma and love and taking the "whole Gospel for the whole man." Keywords: Integral Mission, Modern Theology, Missions, Theology in Latin America.
  • 9. SUMÁRIO i. INTRODUÇÃO .................................................................................................... 10 1. DEFININDO O REINO DE DEUS ....................................................................... 11 1.1 O Reino de Deus e suas características..............................................................................11 1.2 Sinais Visíveis do Reino de Deus ...................................................................................... 12 1.2.1 A Igreja e o Reino de Deus ............................................................................................................. 13 2. MISSÃO INTEGRAL um novo despertar ............................................................. 17 2.1 O Movimento Evangelical Sul-Americano ......................................................................... 17 2.1.1 Os Clades ...................................................................................................................................... 19 2.1.2 O Tratado de Lausanne ................................................................................................................... 20 2.1.3 Missão Integral e a Igreja ............................................................................................................... 22 3. Evangelho e Cultura ............................................................................................. 24 4. A SOTERIOLOGIA DA MISSÃO INTEGRAL .................................................... 26 5. A ECLESIOLOGIA DA MISSÃO INTEGRAL ..................................................... 30 3.1 O presente século e a Igreja ............................................................................................ 30 3.1.1 Os desafios da Igreja no século XXI ................................................................................................ 32 3.2 A Igreja como portadora das Boas Novas de Cristo ........................................................... 34 3.2.1 As estruturas da igreja .................................................................................................................... 35 3.2.2 A mensagem da Igreja .................................................................................................................... 36 3.2.3 O Ministério integral da Igreja ........................................................................................................ 37 ii. CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................ 43 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 46 ANEXOS ................................................................................................................... 48
  • 10. I. INTRODUÇÃO Esta pesquisa não tem como intuito esgotar o tema, mas tentar mostrar que a forma com que se faz teologia no Brasil, pode ser mais eficiente, se a fizermos olhando para o contexto sócio cultural da realidade em que vivemos. Para isso, precisamos buscar novos horizontes que possam atingir o homem em sua totalidade. Creio que o melhor modelo teológico nos dias atuais é aquele que chamamos de Teologia da Missão Integral, onde propõe a mescla da ação social com o evangelismo olhando para o ser humano como uma criatura de Deus na sua totalidade com necessidades físicas, materiais e espirituais. Ela pretende desalienar as práticas de fé existentes na grande maioria das comunidades e nas atitudes das pessoas. A igreja precisa compreender que evangelizar não é simplesmente distribuir folhetos como alguns pensam, mas sim, atender o indivíduo na totalidade de suas necessidades. Por isso mesmo, a Igreja nunca deveria deixar se levar pela prática do paternalismo e assistencialismo paliativos, porém, deveria partir sempre para uma ação social transformadora, do indivíduo e da sociedade, para a honra e glória de Deus Pai. Cada igreja deve refletir sobre sua motivação em praticar evangelismo e ação social, e todas as atividades nestas direções devem estar debaixo do serviço a Deus em primeiro lugar (A. C. BARRO, sem data, p. 5). O ponto de partida é o parâmetro bíblico e o contexto da igreja local. Este texto busca, portanto, ainda que de maneira singela, auxiliar na caminhada em direção a uma resposta acerca do significado do construto teórico teológico “missão integral”, tão importante na história da Teologia Latino-Americana.
  • 11. 11 1. DEFININDO O REINO DE DEUS 1.1 O Reino de Deus e suas características Jesus apareceu no meio do seu povo anunciando o evangelho do Reino de Deus, Mt 4.17. Esta frase é uma das mais comuns usadas por Jesus. Sem dúvida alguma, representa um dos seus ensinos mais fundamentais. De acordo com o evangelho de Marcos, Jesus começou a anunciar o seu evangelho, dizendo que o Reino de Deus estava próximo, Mc 1.16. Indaguemos agora qual é a verdadeira significação desta frase "O Reino dos Céus". O termo grego usado para “Reino de Deus” é Basileia tou teou, e designa um governo ou domínio em que tem Deus por soberano ou governante e não implica necessariamente que este Reino somente se dará ao findarmos a luta do tempo presente. Ao contrário, conforme Cavalcanti, “A Missão da Igreja é manifestar, aqui e agora como sinal profético, a maior densidade possível do Reino de Deus, que se consumará ali e além” (citado por KIVITS, ÉD René). Quando Jesus afirma, que o Reino de DEUS está no meio dos homens, pode-se compreender dentre outras coisas, que este reino é parte (ou deveria fazer) integrante de uma nova proposta de uma maneira de viver, não somente do homem como ser individual, mas é uma forma de redenção de toda a criação de Deus. Entendemos pelas Sagradas Escrituras que Deus é um Deus que reina desde a eternidade e o que decorre das ações de Deus na terra é justamente o seu reinado, e as manifestações densas do reinado de Deus na história, são manifestações deste reinado, que tem seu início no gênesis, passando por todo o Antigo Testamento e que ficaram mais evidentes com a vida de Jesus Cristo, ou seja, é na pessoa humana de Jesus que esse reino tem suas características e marcas acentuadas e posteriormente essas marcas de-
  • 12. 12 vem ser sinais visíveis herdados e carregados pela igreja que tem a missão primordial de acentuar o máximo possível esses sinais visíveis do Reino de Deus, que tem o Cristo como Senhor. 1.2 Sinais Visíveis do Reino de Deus A maneira mais simples de compreendermos e visualizarmos estes sinais são a leitura mais profunda dos evangelhos e mais precisamente na vida e obra de Jesus, que nos trazem à tona todos os sinais acerca deste reino conforme veremos abaixo: a) Em Jesus o Reino de Deus é manifesto como o reino que ultrapassa a todas as regionalizações, como um reino que não se deixa conter em fronteiras (Mt 4:5). Conforme lemos no texto supracitado, podemos entender que o reino de Deus se manifesta como maior do que a fronteira religiosa, porque a tentação de ir ao pináculo do templo e de lá se lançar, para que Deus enviasse anjos para segurá-lo, era uma tentação para consumo da instituição religiosa, ou seja, serviria para satisfazer os anseios religiosos daquelas pessoas que queriam um messias por encomenda, conforme a imagem e semelhança dos projetos deles, e Jesus nega veementemente e confronta aquela tentação, dando a entender nas entrelinhas de que o reino de Deus, o qual ele veio manifestar, jamais se permitiria se manter nas fronteiras do consumo dos interesses da religiosidade, porque o reino não pode jamais se conter com as barreiras da religiosidade, seja ela qual for. b) O Reino é maior do que a fronteira carismática (Mt 4:3). Esta tentação de transformar as pedras em pães é a tentação de fazer o reino existir simplesmente para o consumo carismático (leia-se busca incessante pelos milagres). O Reino é maior que a dimensão do milagre. c) O Reino é maior do que a fronteira política (Mt 4:8). Tudo isso te darei, se prostrado me adorares, nada mais é do que a tentativa de colocar mediações ou instrumentos políticos nas mãos de Jesus para ele realizar o reino, mas Jesus rebate afirmando que o Reino não se deixa levar por nenhuma estrutura que não seja vinda diretamente do próprio Deus.
  • 13. 13 d) Em Jesus, o Reino de Deus vence os preconceitos (Lc 10: 25-37). Na história do bom samaritano, Jesus no mostra que o reino de Deus não tem lugar para preconcepções acerca de quem quer que seja, pois no contexto em que Jesus ensinou essa parábola, o samaritano era considerado o menos provável para realizar atos de misericórdia e apresentar sinais do reino de Deus, e em meio a tudo isso, Jesus elege o samaritano como exemplo de amor fraternal, nos dando a lição de que no Reino de Deus as nossas preconcepções precisam ser esvaziadas. e) Em Jesus, o Reino de Deus muda a concepção do profano e o sagrado. Em Jesus, temos a consciência de que não devemos particionar a nossa vida entre o profano e o sagrado, toda a nossa vida deve ser um culto de louvor ao nosso Deus, no reino de Deus não há espaço para essa dicotomia. f) Em Jesus, o Reino de Deus se manifesta como um reino absoluto no seu acolhimento. (Lc 13:18) Esse reino de acolhimento absoluto, nada mais é do que o reino de aconchego, asilo, e uma das figuras do Reino de Deus na vivência de Jesus, foi essa de trazer sombra e aconchego àqueles que não tinham onde se repousar, e foi justamente isso que Jesus fez de fato com todos àqueles que não tinham esperança na vida como as meretrizes, os pagãos, os pobres rejeitados, os doentes, as crianças, todas essas pessoas encontraram no reino de Deus enviesado por Jesus, um refrigério para suas almas, e também dignidade para suas vidas não somente na divisão espiritual, mas também na dimensão física. 1.2.1 A Igreja e o Reino de Deus Nos evangelhos, a mensagem pregada por Jesus é identificada como “o evangelho do reino” (Mt 4.23; 9.35; 24.14; Mc 1.14-15; Lc 4.43; 8.1; 16.16). Esse reino é o “reino de Deus” ou sua expressão sinônima “reino dos céus”, que ocorre somente em Mateus (3.2; 4.17, etc.; ver, porém, 12.28; 19.24; 21.31,43). O Evangelho de João usa poucas vezes a expressão “reino de Deus” (só em 3.3,5), possivelmente substituindo-a por conceitos equivalentes, como “vida eterna”. Ao todo, a expressão ocorre mais de 80 vezes nos evangelhos.
  • 14. 14 O conceito do reinado ou senhorio de Deus era familiar aos ouvintes de Jesus, estando presente no Antigo Testamento. Desde o início, Deus deixou claro que ele era o verdadeiro rei de Israel. Quando o povo pediu um rei humano, o Senhor manifestou o seu descontentamento (1 Sm 8.5-7). A ideia de Deus como rei está presente em todas as Escrituras veterotestamentárias (Dt 33.5; Jz 8.23; Is 43.15; 52.7), em especial nos Salmos (10.16; 22.28; 24.710; 47.2,7-8; 93.1; 97.1; 99.1,4; 103.19; 145.11-13). Algumas passagens identificam o reino de Deus com o reino de Davi (1 Cr 17.14; 28.5; 29.11; Jr 23.5; 33.17). Esse reino será eterno e só alcançará a sua consumação em um tempo futuro, assumindo feições escatológicas (Dn 2.44). Aos tempos de Jesus, os judeus piedosos esperavam a vinda do reino (Mc 15.43; Lc 23.51). Após séculos de dominação estrangeira, havia uma tendência natural de se entender o reino politicamente – a restauração do antigo reino de Israel. A vinda do reino seria (para eles) a repentina interferência de Deus na vida do seu povo, libertando-o de seus opressores e restaurando a sua liberdade, independência e prosperidade como nos dias de Davi. O Novo Testamento não identifica a igreja com o reino de Deus. Obviamente há uma relação entre ambos, mas não uma coincidência plena. A igreja tem limites claros, assume formas institucionais, tem líderes humanos. Nada disso se aplica ao reino de Deus, que é mais intangível, impalpável. Este é uma realidade que transcende os limites da igreja e que pode não estar presente em todos os aspectos da vida da igreja. É como dois círculos que se sobrepõem em parte e que se afastam em parte. Historicamente, a igreja por vezes tem se harmonizado com o reino, outras vezes tem estado em contradição com ele. Todavia, dada a importância da igreja no propósito de Deus, ela é chamada para expressar a realidade do reino, para ser o principal agente do reino de Deus no mundo. Para que isso aconteça, a igreja e seus membros precisam manifestar os sinais do reino, ser instrumentos do reino na vida das pessoas, da sociedade, do mundo. Sempre que a igreja busca em primeiro lugar a glória de Deus, fazer a vontade de Deus, viver uma vida se humildade, amor, abnegação, altruísmo, solidariedade, etc., ela se torna agente e instrumento do reino. A oração do Senhor Jesus é um bom ponto de partida para se refletir sobre o reino de Deus. Nessa oração, Jesus coloca Deus em primeiro lugar, como o centro dos nossos interesses e afeições, e relaciona isso com o reino. “Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.9-10).
  • 15. 15 O reino de Deus torna-se presente quando os crentes se unem para invocar a Deus como Pai, quando reconhecem a sua soberania sobre suas vidas, quando o reverenciam e se submetem a ele, quando procuram fazer a sua vontade na terra como ela é feita no céu. Para que a igreja seja uma verdadeira agente do reino, primeiramente ela precisa refletir sobre a sua relação com Deus, fazer disso a sua prioridade máxima, identificar-se com os seus propósitos, associar-se a Ele em sua obra de restauração da criação. A igreja precisa ser cristocentrica, a começar do seu culto. Quando o culto e a vida da igreja são voltados em primeiro lugar para a satisfação de necessidades humanas, e não para a glória e o louvor de Deus, a igreja deixa de ser cristocêntrica, e em assim fazendo, não pode ser agente do reino de Deus no mundo. Ao mesmo tempo em que cultiva a sua vida com Deus, a igreja deve ser um lugar de relacionamentos interpessoais transformados. Uma igreja cristocêntrica será também um lugar de companheirismo, solidariedade e edificação mútua. Essa é uma das grandes ênfases do Novo Testamento. Assim como Deus nos amou e nos perdoou em Cristo, também devemos amar, aceitar e ministrar uns aos outros. Daí o grande número de exortações em que aparecem as palavras “mutuamente” ou “uns aos outros”. Como corpo de Cristo, a igreja deve reconhecer, respeitar e até celebrar certas diferenças; ao mesmo tempo, deve transcender essas diferenças, cultivando uma vida de união e fraternidade (Rm 10.12; 1 Co 12.12-27; Gl 3.28). Isso fica especialmente claro no que diz respeito aos dons (capacitações para testemunho e serviço), que são sempre discutidos em conexão com o corpo de Cristo (Rm 12.3-8; 1 Co 12.1-12; Ef 4.11-12). Os dons espirituais só têm razão de ser quando são exercidos, não para proveito e exaltação pessoal, mas para a edificação dos irmãos, para a realização do ministério da igreja. Um dos argumentos que Paulo usa em favor da tolerância na igreja é o fato de que não se deve fazer perecer “o irmão por quem Cristo morreu” (ver Rm 14.15; 1 Co 8.11). A missão primordial da igreja no que diz respeito ao mundo é a proclamação do “evangelho do reino”, assim como fizeram Jesus e os seus discípulos. Corretamente entendido, esse evangelho inclui muitas coisas importantes. Em primeiro lugar, esse evangelho é um convite a indivíduos, famílias e comunidades para se reconciliarem com Deus mediante o arrependimento e a fé em Cristo. Todavia, o evangelho são as boas novas de Deus para todos os aspectos da vida, pessoal e coletiva. Assim sendo, a legítima proclamação do evangelho não
  • 16. 16 vai se limitar ao aspecto religioso e à dimensão individual (experiência de conversão pessoal), mas vai mostrar o senhorio de Cristo sobre todos os aspectos da existência. Além disso, essa proclamação não ficará restrita ao aspecto verbal, mas incluirá ações concretas que expressem a amor de Deus pelas pessoas (Tg 2.14-17; 1 Jo 3.16-18). Aí podem ser incluídas muitas iniciativas, que vão desde o socorro a necessidades imediatas até a luta por mudanças estruturais que irão produzir maior justiça na sociedade. Exemplos: auxílio financeiro a pessoas e instituições, trabalho voluntário, mobilização para a criação de leis justas, luta pela ética na vida pública, participação em projetos comuns com outras igrejas e instituições, etc.
  • 17. 17 2. MISSÃO INTEGRAL UM NOVO DESPERTAR Neste capítulo forneceremos uma visão panorâmica dos acontecimentos que marcaram o despertar da missão integral no decorrer da história e na formação teológica dentro das igrejas com o seu pensamento e prática evangelizadora de forma integral. Em primeiro lugar, apresentaremos uma sinopse dos eventos e aspectos que originam o movimento evangelical, destacando os antecedentes históricos, o pacto de Lausanne e os Congressos Latinoamericanos de Evangelização (CLADE’s). Em segundo lugar, apresentaremos a missão integral da igreja, destacando de forma sucinta o pensar teológico manifesto na igreja. 2.1 O Movimento Evangelical Sul-Americano O século XX foi marcado pelo debate da igreja em torno da relação entre, evangeli- zação e civilização, ou seja, evangelismo e responsabilidade social, contexto onde diferentes autores procuraram expressar a missão da igreja em termos de desenvolvimento, presença cristã na sociedade, diálogo inter-religioso, justiça e paz, diaconia e outros conceitos. Estas reflexões desencadearam em diversas conferências, entre elas, destacamos a célebre Conferência Missionária Mundial, realizada em Edimburgo em 1910, que estimulou a reflexão sistemática e abrangente sobre o trabalho missionário protestante na América Latina, provocando assim em março de 1913, em Nova York, uma Conferência sobre missões na América Latina, que criou a Comissão de Cooperação na América Latina (CCLA). Por suavez, a CCLA patrocinou o Congresso de Ação Cristã na América Latina, reunido no Panamá em fevereiro de 1916, o maior encontro das forças protestantes desse continente realizado até aquela data. O Congresso mostrou a necessidade de maior cooperação em áreas como educação religiosa, missões, literatura e formação teológica. Mais especificamente, suas metas principais foram a evangelização das classes cultas, a unificação da educação teológica através de
  • 18. 18 seminários unidos, o desejo de dar uma dimensão social ao trabalho missionário na América Latina e o esforço em promover a unidade protestante. Como resultado do encontro do Panamá, nos anos seguintes realizaram-se dois congressos missionários ecumênicos regionais. O primeiro, denominado Congresso de Ação Cristã na América do Sul, reuniu-se em Montevidéu, Uruguai, em 1925. Em 1929, reuniu-se em Havana o Congresso Evangélico Hispano-Americano, presidido pelo metodista mexicano Gonzalo Baez-Camargo. Uma segunda série de encontros do protestantismo latino-americano com caráter ecumênico foi representada por três Conferências Evangélicas Latino-americanas: CELA I (Buenos Aires, 1949), CELA II (Lima, 1961) e CELA III (Buenos Aires, 1969). Essas conferências estavam ligadas às denominações históricas, que rapidamente tornavam-se minoritárias no contexto geral do protestantismo da América Latina. O protestantismo ecumênico das CELAs recebia a influência do protestantismo histórico do hemisfério norte, já o CELA III buscava aproximar-se do catolicismo posterior ao Concílio Vaticano II (1962-1965) e procurava responder à difícil situação social do continente com uma teologia radical, que eventualmente identificou-se com a célebre “teologia da libertação” que adquiriu notoriedade no âmbito católico romano com a segunda assembléia da Conferência Episcopal Latino-Americana (CELAM), reunida em Medellín, Colômbia, em 1968. Em 1962, os protestantes haviam criado a organização Igreja e Sociedade na América Latina (ISAL), após uma consulta realizada em Huampaní, Peru, no ano anterior. Ela tornou se o centro de convergência dos teólogos protestantes da libertação, tendo como órgão o periódico Cristianismo e Sociedade. Ao lado das Conferências Evangélicas continentais (CELAs) e do ISAL, o protestantismo ecumênico latino-americano criou várias estruturas para-eclesiásticas com o fim de promover os seus objetivos. Alguns organismos importantes foram os seguintes: Movimento Estudantil Cristão (MEC), União Latino-Americana de Juventudes Evangélicas, passando depois para Ecumênicas (ULAJE), Agência de Serviços Ecumênicos Latino-Americanos (ASEL), Comissão Evangélica Latino-Americana de Educação Cristã (CELADEC), Coordenadoria de Projetos Ecumênicos (COPEC) e Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI).
  • 19. 19 Uma característica desse protestantismo ecumênico era o crescente declínio do seu ímpeto evangelizador, em contraste com a vitalidade das igrejas vinculadas a missões independentes ou ao movimento pentecostal, que mantinham o seu vigor evangelístico apesar das debilidades da sua teologia. O Congresso Mundial de Evangelização de 1966, realizado em Berlim, convocado, patrocinado e dirigido pela revista Christianity Today, para comemorar dez anos de trabalhos, e pela Associação Evangelística Billy Graham, somou forças para a articulação mundial do movimento evangelical contemporâneo, sendo classificado como uma reação à postura do Conselho Mundial de Igrejas a partir dos anos de 1960 e ao movimento ecumênico. Desde então, os congressos organizados por protestantes conservadores seguiam um caminho diferente do movimento ecumênico internacional e o latino-americano. Do seio desse protestantismo majoritário conservador surgiu o impulso para os Congressos Latino-Americanos de Evangelização (CLADE), que foram organizados pela Associação Evangelística Billy Graham, sob o impulso do Congresso Mundial de Evangelização (Berlim, 1966). O CLADE I permitiu que líderes preocupados em relacionar a fé evangélica com a realidade latino-americana compartilhassem as suas inquietações, manifestando com clareza, na América Latina, o desejo de serem evangélicos e como evangélicos, serem latino americanos. Naquela ocasião e naquele contexto, tornava-se urgente que, sendo evangélicos, buscassem uma teologia da encarnação que estabelecesse as pautas para um diálogo com a situação de sofrimento e opressão que se vivia em toda a América Latina. 2.1.1 Os Clades O CLADE I foi marcado pela diferença de pensamento entre os evangelicais e con- servadores. Os teólogos latino-americanos não se viam representados pela teologia norte americana dos institutos e seminários bíblicos conservadores e tampouco pela teologia ecumênica. Portanto neste contexto, interpretado para alguns como uma separação radical, para outros como uma radicalização amena suavizando as pendengas entre fundamentalistas e ecumênicos, e ainda para outros como reação contra o ecumenismo, surge a divisão entre evangelicais e conservadores, e depois a divisão destes com o grupo ecumênico. A partir de
  • 20. 20 então, preocupados em encarar a missão e a pastoral na América Latina, manifesta-se no CLADE I três vertentes: a ecumênica, a evangelical e a fundamentalista. Foi neste contexto do CLADE I realizado em 1969 que se articulou a criação da Fraternidade Teológica Latino-Americana (FTL), organizada no ano seguinte em Cochabamba, Bolívia, tendo Pedro Savage como seu primeiro secretário e Samuel Escobar como seu primeiro presidente. Desde o primeiro momento, a FTL procurou ser uma plataforma de encontro e diálogo teológico da qual participassem pastores, missionários e pensadores evangélicos, dentro do marco evangélico de uma lealdade comum à autoridade bíblica e à fé evangélica como base da reflexão e de um compromisso ativo com o cumprimento da missão cristã. Por sua vez, a Fraternidade Teológica Latino-Americana convocou os CLADEs posteriores (que apresentaremos à frente) e procurou estar tão consciente da problemática social latino-americana quanto o grupo de ISAL, mas, ao mesmo tempo, preocupou-se em abordar a questão de uma perspectiva que entendia ser mais bíblica e equilibrada. Ela é também mais representativa do protestantismo popular da América Latina que a sua congênere ecumênica. Entre os seus participantes mais destacados e influentes está o líder Samuel Escobar. No decorrer deste despertar para as missões no mundo, destacamos o Congresso Mundial de Evangelização (Berlim, 1966), que foi a primeira grande reunião mundial de evangélicos no século XX, que também estimulou congressos regionais de evangelização em vários continentes. Estes por sua vez contribuíram para o Congresso Internacional de Evangelização Mundial (Lausanne, 1974), que evocou manifestações de opinião de toda a comunidade evangélica, à medida que os participantes se debatiam com as questões da teologia de missão no mundo contemporâneo. 2.1.2 O Tratado de Lausanne O Congresso Internacional de Evangelização Mundial (Lausanne, 1974), demonstrou o desenvolvimento de uma teologia missionária amadurecida, positiva e consistente, por parte dos evangélicos. O próprio tema “Para que o Mundo ouça a Sua (Deus) voz”, destaca a intenção da igreja de reafirmar a vocação e visualizar desafios e recursos para a evangelização em todo mundo. O Congresso de Lausanne foi considerado, na época, uma das reuniões mais globais realizada pelos cristãos. Reuniu 2473 participantes e cerca de 1000 observadores de 150
  • 21. 21 países e 135 denominações protestantes. Foi um congresso que trouxe um despertar para os milhares de cristãos no mundo, onde os evangélicos se puseram em dia com a época e com a história. Uma das grandes influências nas deliberações do congresso veio através das contribuições de oradores do terceiro mundo. O impacto de líderes como Samuel Escobar e C. René Padilla, através do grupo de Discipulado Radical, foi de especial importância. Oradores latinoamericanos como René Padilla, Orlando Costas e Samuel Escobar proferiram as declarações mais fortes no sentido de que a preocupação com as necessidades sociais da humanidade e o envolvimento com as mesmas é uma parte necessária do testemunho e da responsabilidade dos cristãos em favor do mundo. René Padilha com o tema “A Evangelização e o Mundo”, afirmou: “Nossa maior necessidade é um evangelho mais bíblico e uma igreja mais fiel. Poderemos nos despedir deste congresso com um belo conjunto de papéis e declarações que serão arquivadas e esquecidas, e com lembrança de um grande e impressionante encontro de âmbito mundial. Ou poderemos sair daqui com a convicção de que temos fórmulas mágicas para a conversão das pessoas. Eu pessoalmente espero em Deus que possamos sair daqui com uma atitude de arrependimento no que diz respeito à nossa escravidão ao mundo e ao nosso arrogante triunfalismo, com o senso de nossa incapacidade de sermos libertos dos grilhões a que estamos atados e, apesar disso, com grande confiança em Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que “é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre". Amém.” Samuel Escobar afirmou: Uma espiritualidade sem discipulado nos aspectos diários da vida — sociais, econômicos e políticos —, é religiosidade e não cristianismo... De uma vez por todas, devemos rejeitar a falsa noção de que a preocupação com as implicações sociais do evangelho e as dimensões sociais do testemunho cristão resultam de uma falsa doutrina ou de uma ausência de convicção evangélica. Ao contrário, é o interesse pela integridade do Evangelho que nos motiva a acentuarmos a sua dimensão social”.
  • 22. 22 2.1.3 Missão Integral e a Igreja Em meio a um período conturbado da história recente da América Latina, quando nosso fomos sacudidos por enormes convulsões políticas, ideológicas e sociais, muitos cristãos aderiram à chamada revolucionária da Teologia da Libertação, apresentada por um ramo da Teologia Católica Romana. A Fraternidade Teológica Latino-Americana havia feito um esforço sério no sentido de apresentar uma alternativa a essa teologia que fosse bíblica, evangélica e igualmente radical em suas implicações. Eles demonstraram que as igrejas podem permanecer fiéis às suas convicções históricas e, ao mesmo tempo, adotar uma postura ousada e coerente em relação às mazelas sociais. Como cristãos brasileiros, preocupados tanto com a missão da igreja, quanto com as difíceis realidades sócio-econômicas de nosso país, devemos levar a sério os desafios desses líderes, que falam com convicção, coerência e clareza sobre a necessidade de um entendimento abrangente da tarefa da igreja no mundo, como agente e instrumento de Deus. A atitude e as ações de Deus em relação ao mundo, especialmente como reveladas no seu Filho, Jesus Cristo, são os nossos grandes padrões de missão. A Bíblia fala apresenta Deus que toma a iniciativa, que vem em busca da humanidade com amor e compaixão, que quer dar vida e dignidade à sua criação. Isso foi ilustrado de maneira extraordinária por Jesus, quando, em seu ministério terreno, manifestou o interesse de Deus por todos os tipos de pessoas e pela pessoa integral. Nesta visão, fundamentado no pacto de Lausanne, entre a teologia da libertação e o neofundamentalismo, uma nova geração de pastores e líderes opta pela teologia da missão integral da Igreja. A missão integral enfatiza de modo intenso que a evangelização e a ação social não podem ser separados, tornando necessário pregar Jesus Cristo como Senhor e Salvador de forma verbal e prática, verbal no que diz respeito à palavra de Deus e ao plano salvífico de Jesus, para a restauração, transformação, libertação e cura do homem e da mulher, ou seja, de toda humanidade através do poder do Espírito Santo na vida espiritual e no relacionamento com Deus; e prática no que diz respeito ao testemunho de amor e vida de Jesus, na ação física solidária para com as necessidades dos pobres e marginalizados trazendo restauração, transformação, libertação e cura no viver do próximo dentro da sociedade, através do Espírito Santo no contato pessoal e social. Desta forma, a missão integral reflete o cuidado e os propósitos de Deus pela pessoa como um todo, alcançando as quatro áreas em que Jesus cresceu - sabedoria (aplicação de verdades bíblicas na vida), estatura (atendimento de necessidades físicas),
  • 23. 23 graça diante de Deus (ministério espiritual) e graça diante dos homens (atendimento social), reconhecendo Deus como importante, amoroso e capaz de transformar vidas, igrejas, comunidades e nações, fundamentando-se nos mandamentos bíblicos de Jesus de amar a Deus e ao próximo demonstrando um estilo de vida de amor desempenhado por igrejas e indivíduos, seguidores de Jesus que demonstram a compaixão de Deus pelo seu próximo. Assim sendo a missão social defende um evangelismo que atinja as pessoas como um todo, na vida espiritual e física. O Evangelho propõe um mundo melhor, e nos convida a promover esta plenitude do Evangelho às culturas humanas em particular, e aos nossos projetos de civilização. Qualquer outra possibilidade é uma distorção alienante que retira do Evangelho seu escopo e seu poder transformador.
  • 24. 24 3. EVANGELHO E CULTURA Essa sempre foi uma relação de grande tensão na história do cristianismo. Hoje compreendemos que não poderia deixar de ser. Evangelho e cultura se distinguem, mas não é fácil distingui-los. O Evangelho não existe a não ser enculturado, isto é, contextualizado. Há quem queira separar o Evangelho da cultura, mas isso nunca poderá ser feito. É da natureza do Evangelho, ser cultural. O Evangelho já nasce arraigado numa cultura; a cultura judaica, mas não se enleia com ela. Essa é a tensão infinitamente elástica que nos causa tantos transtornos. O Evangelho não é a cultura, nem mesmo a cultura judaica. Mas só existe imiscuído e misturado com a cultura, de tal forma que não é possível extraí-lo e limpá-lo da cultura, sem causar dano à natureza intrínseca do Evangelho e também à cultura. Se tentarmos distinguir cultura de Evangelho, fica um pouco de cultura, perde-se um pouco de Evangelho, e não se obtém um bom resultado. A primeira transposição cultural sofrida pelo Evangelho, se deu para a cultura helenista dos tempos da igreja primitiva. Essa transposição foi feita com plausível sucesso, mas não sem fortes traumas. É uma adaptação que começa com Paulo, e, portanto, ratificada pelo próprio Evangelho, pelas Escrituras Sagradas. Mas o Novo Testamento também já dá testemunho dos traumas e aflições causados pela transposição. O relativo sucesso do empreendimento, deve nos fazer perceber as tremendas transformações sofridas pelo Evangelho no mundo helenista. E em particular, a leitura de tendências neoplatônicas e semi-gnósticas que acabaram por preponderar no período patrístico, e acabaram por servir de base para a construção da teologia. Uma segunda transposição acontece no período medieval, e posteriormente no período moderno, e sempre sofreu o Evangelho transformações, assim como transformou às culturas. Com o surgimento das nações-estado modernas, e com o crescimento econômico e popu-
  • 25. 25 lacional, advindo das revoluções científica e industrial, surge um grande número de culturas ocidentais distintas promovendo novas tensões com o Evangelho herdado, e o trabalho missionário leva o Evangelho para culturas não-européias, que iriam absorver o evangelho misturado à cultura dos próprios missionários. Os missionários das igrejas protestantes históricas trouxeram ao Brasil um Evangelho marcado pelos traços culturais de onde eles haviam partido. Foi só no século XX que a relação Evangelho e cultura, passaram a ser mais estudada e compreendida. Começou-se a perceber a enorme complexidade do processo enculturação do Evangelho, e se começou a falar, no fim do século XX, em contextualização. O grande cientista da religião Helmut Richard Niebuhr, irmão do célebre teólogo Reinhold Niebuhr, foi um dos pioneiros nesse estudo, com o clássico Cristo e Cultura, onde distingue cinco diferentes possibilidades compreensão do relacionamento entre Evangelho e Cultura, que ele denomina: (i) Cristo contra a cultura; (ii) Cristo da Cultura; (iii) Cristo acima da cultura; (iv) Cristo e Cultura em Paradoxo; e (v) Cristo transformador da cultura. Niebuhr nos mostra como todos os cinco “tipos” (“tipos ideais”, como ele diz) foram praticados e implicitamente ensinados através dos tempos. No entanto, sugere que os primeiros dois são enganosos, distorções: o primeiro pela rejeição da cultura, o segundo pela sua adoção não criteriosa ou sem qualificações necessárias. Eles representariam, grosso modo, os pólos fundamentalista e liberal. Os três outros tipos estariam, segundo o autor, mais de acordo com aquilo que o Novo Testamento propõe. O terceiro representando a posição tomista, o quarto a posição existencial-dialética, e o quinto a visão mais comum na teologia contemporânea.
  • 26. 26 4. A SOTERIOLOGIA DA MISSÃO INTEGRAL A palavra "soteriologia" vem de duas palavras gregas, soteria e logos. O primeiro significa "salvação" E a última palavra ", dissertação, ou doutrina." Tendo lidado com a doutrina da teologia, que era enfatizou a santidade de Deus, e de ter visto o fracasso e o pecado da humanidade, somos levados a terrível consciência de que o homem precisa de uma intervenção suficiente e eficaz para fechar a grande diferença entre esses dois extremos infinitos, pecaminosidade do homem e da santidade de Deus. Felizmente para todos os envolvidos, Deus previu tudo o que aconteceria na queda do homem, e planejou antes da fundação do mundo a salvação. Antes mesmo que fosse cometido o primeiro pecado no universo e antes da triste condição trazida pelo homem rebelde, que havia sido criado à imagem de Deus, o Senhor tinha planejado e fornecido um meio de redenção dos rebeldes condenados pelo pecado. Nosso Deus não foi pego de surpresa. Ele previu a queda e pré-ordenada do plano de resgate. O Pacto de Lausanne chama a igreja à proclamação de Jesus como Senhor com uma forte responsabilidade de ser agente de transformação histórica, evidenciando a luta pela transformação através dos cinco itens apresentados abaixo.  Necessidade de nos dedicarmos ao serviço de Cristo e dos homens enquanto aguardamos a vinda de Cristo;  Cobrança aos governos de condições de dignidade humana, conforme consta na Declaração Universal dos Direitos Humanos;  Libertação daqueles que sofreram perseguição religiosa e a certeza de que de forma alguma nos intimidaremos diante de uma situação como essa;  Oposição a toda injustiça, permanecendo fiéis ao evangelho;  Afirmação da igreja como comunidade do povo de Deus, e não como instituição.
  • 27. 27 Desta forma, a evangelização não só tem a função de apresentar Jesus Cristo como Senhor e Salvador do mundo, que morreu pelos nossos pecados e trouxe acesso ao Pai nos purificando de todo o pecado, mas também nos orienta para a libertação total da escravidão tanto pessoal quanto do mundo, integrando o propósito de Deus de colocar tudo sob o governo de Cristo. Para isso, chama o ser humano ao arrependimento real para remissão dos pecados. A bíblia afirma que em Deus somos, movemos e existimos (at 17:28), e que por meio d’Ele e por Ele são todas as coisas (Rm 11:36), e partido deste pressuposto é que podemos lançar luz sobre a soteriologia dentro do contexto da Missão Integral, conforme Ramos afirma, Deus é um Deus que vive em Missão, um Deus missionário desde sempre, pois em sua presciência, já sabendo da condição futura do ser humano, ao invés de dar cabo, prefere manter a humanidade e tudo quanto existe, simplesmente pela sua graça. Pelo fato de Deus criar o homem, Ele tinha a obrigação moral de manter a sua criação, e quando da queda homem, Deus se vê livre dessa obrigação de mantê-lo, mas decide mesmo assim manter e resgatar a sua criação, vemos então Deus mantendo sua posição e providenciando todo o plano de redenção não somente da humanidade, mas também de toda a sua criação que sofreu com a queda do homem. É neste sentido que a missão integral enfatiza não só a salvação do indivíduo, mas a regeneração do ser como indivíduo e também em todo o seu contexto sócio-cultural, ou seja, o evangelho da missão integral visa levar a cabo as palavras ditas pelo Senhor Jesus “Curai os enfermos, limpai os leprosos, expulsai os demônios” (Mt 10:8). A soteriologia da Missão Integral é levar as boas novas e fazer discípulos (pregação do evangelho), curar os enfermos (dar possibilidades de uma vida digna), limpar os leprosos (assistência nas necessidades), precisamos compreender que essa não é uma formula que deve ser seguida a risca e nem necessariamente nesta ordem, muitas vezes (maioria), precisamos primeiro fazer o trabalho assistencial, e depois sim mostrar o caminho da salvação; A grande diferença da missão integral para os métodos tradicionais de evangelização é que na evangelização tradicional se dá da seguinte maneira: Imaginemos uma senhora enferma, vivendo abaixo da linha de pobreza, endividada e que não conhece o evangelho, o evangelista tradicional a abordaria da seguinte maneira:
  • 28. 28 Evangelista: Vim aqui porque sei que a senhora está passando por dificuldades e decidimos ajuda-la, vamos pagar suas contas, iremos cuidar da senhora em tudo o que a senhora necessitar. A senhora responde: Por que vocês estão me ajudando, qual o motivo?. Evangelista: Faço isso porque obedeço as ordens de meu Senhor que disse “amai-vos uns aos outros como eu vos amei, não poderia deixa-la dessa forma sem estender a mão e ajuda-la. A senhora pergunta novamente: Vocês me ajudaram e trouxeram esperança para minha vida, muito obrigado. Evangelista: Não tem porque agradecer, mas a Senhora não gostaria de conhecer melhor o meu Senhor? Ele poderá mudar a sua vida, seu nome é Jesus de Nazaré, e morreu pelos seus pecados, creia nele e sua vida mudará, ele trará salvação para a sua casa, haverá um dia que todo sofrimento cessará. Baseado nesta ilustração, podemos afirmar que foi isso que Deus fez em seu magnífico propósito de salvação: 1. Deus manteve sua criação, mesmo tendo o direito de destruí-la - (Graça na salvação) 2. Planeja toda a salvação de sua criação (misericórdia na Salvação) 3. Envia seu filho para redimir a criação (missão na salvação) 4. Consuma seu plano de salvação na Cruz do calvário. (consumação da salvação) 5. Nos envia para anunciar esse plano A missão integral enfatiza de modo claro que a evangelização e a ação social não se separam, tornando necessário pregar Jesus Cristo como Senhor e Salvador de forma verbal e prática, verbal no que diz respeito à palavra de Deus e ao plano salvífico de Jesus, para a restauração, transformação, libertação e cura do homem e da mulher, ou seja, de toda humanidade através do poder do Espírito Santo na vida espiritual e no relacionamento com Deus; e prática no que diz respeito ao testemunho de amor e vida de Jesus, na ação física solidária para
  • 29. 29 com as necessidades dos pobres e marginalizados trazendo restauração, transformação, libertação e cura no viver do próximo dentro da sociedade, através do Espírito Santo no contato pessoal e social. Desta forma, a missão integral reflete o cuidado e os propósitos de Deus pela pessoa como um todo, alcançando as quatro áreas em que Jesus cresceu - sabedoria (aplicação de verdades bíblicas na vida), estatura (atendimento de necessidades físicas), graça diante de Deus (ministério espiritual) e graça diante dos homens (atendimento social), reconhecendo Deus como importante, amoroso e capaz de transformar vidas, igrejas, comunidades e nações, fundamentando-se nos mandamentos bíblicos de Jesus de amar a Deus e ao próximo, demonstrando um estilo de vida de amor desempenhado por igrejas e indivíduos, seguidores de Jesus que demonstram a compaixão de Deus pelo seu próximo. Assim sendo a missão social defende um evangelismo que atinja as pessoas como um todo, na vida espiritual e física. A missão integral nos chama a identificar-nos com o mundo, sem perder nossa identidade cristã, ou seja, significa conhecer a situação que nos rodeia e conhecer as pessoas que iremos servir, fazendo o melhor por eles como pessoas no mundo, amando a Deus e ao próximo; significa conviver com as pessoas a quem Deus se preocupa e nos enviou; significa compartilhar o evangelho em sua compreensão integral, lutando pela justiça e paz se preocupando com as necessidades humanas; significa comprometer-se com a vontade de Deus e com as pessoas.
  • 30. 30 5. A ECLESIOLOGIA DA MISSÃO INTEGRAL Neste último capítulo apresentaremos uma perspectiva eclesiológica da missão integral, para compreendermos como esta teologia é vivenciada na prática da comunidade e como ela pode se estabelecer na sociedade, como representante de Jesus Cristo no mundo, sendo uma proposta teológica atual para América Latina. Para isso, iniciaremos entendendo a sociedade secular como campo para a eclesiologia da missão integral. Logo após, apresentaremos os desafios eclesiológicos atuais; depois, a eclesiologia evangelizadora da missão integral; em quarto lugar os modelos de ministério integral; e finalizaremos com o crescimento integral da igreja na sociedade atual. 3.1 O presente século e a Igreja Os teólogos da Missão Integral têm feito severa crítica à sociedade capitalista. Ela tem sido marcada pelo amor ao dinheiro a qualquer custo; o amor ao próximo tem se esfriado cada vez mais; o sofrimento do povo dominado e empobrecido pelas classes sociais dominantes tem ecoado no mundo todo; as necessidades, as dificuldades e as opressões são fortalecidas; a globalização e o capitalismo massacram a sociedade, exigindo mais e mais das pessoas; o ser humano tem tido pouco tempo para si mesmo ou para o lazer, tem sacrificado sua vida, seus sentimentos, seus relacionamentos e suas necessidades humanas para o capitalismo e a sociedade global consumidora. Em sua rebelião contra Deus, o homem é escravo dos ídolos do mundo, por meios dos quais atuam estes poderes. E os ídolos que hoje escravizam o homem são os ídolos da sociedade de consumo... Surgiu uma sociedade que absolutiza a prosperidade econômica e o conseqüente bem-estar material do homo consumens... O materialismo – a fé sega na técnica, a indeclinável reverência à propriedade privada como um direito absoluto, o culto ao aumento da produção mediante o saque irresponsável da natureza, o
  • 31. 31 desmedido enriquecimento das grandes empresas às custas do empobrecimento dos deserdados da terra, a febre do consumo, a ostentação e a moda -, esta é a ideologia que está destruindo a raça humana. PADILLA, C. René. Missão Integral: Ensaios sobre o Reino e a Igreja, p. 63. Neste sistema social, a secularização tem crescido de forma violenta; o ser humano moderno é aquele que possui uma vida secularizada, que pensa e vive o presente sem pensar nas consequências do futuro. Contudo, esta modernidade e secularização não conseguem eliminar a busca dos homens e mulheres modernos, aspirações e necessidades que marcam a humanidade. Neste contexto, a missão integral apresenta a tríplice aspiração universal do ser humano, aspirações que nascem das pessoas a partir de Jesus Cristo, chamando a igreja ao desafio de apresentar ao mundo a plenitude de Cristo, cf STOTT. A busca por transcendência: é a busca do ser humano por uma realidade suprema, que está além do universo material, ou seja, o espírito humano não consegue se satisfazer com o materialismo, ele necessita de algo supremo, transcendental, pois o ser humano “não vive só de pão”. Podemos perceber no ser humano, a busca por transcendência: Na diminuição súbita da filosofia marxista clássica que nega a existência de Deus. O fracasso do surgimento do marxismo como substituto para a fé religiosa, com doutrinas básicas do comunismo que não convenceu as mentes e nem as emoções das pessoas, enquanto a fé religiosa está longe de desaparecer. Pois, em muitas circunstâncias, tem encontrado uma nova força e vitalidade. Na proliferação dos cultos religiosos, o ser humano anda à procura de realidade transcendental no misticismo oriental, na ioga, na meditação transcendental, no ocultismo, no movimento da nova era, no misticismo materialista (sexo), na astrologia, no espiritismo, nas religiões afro, no crescimento ao culto às imagens da doutrina católica e no crescimento e divisão das diversas igrejas consideradas evangélicas. A busca por significância: é evidenciada pelo nosso senso de significância pessoal, dando sentido a nossa vida. Isto é essencial para a sobrevivência. O senso de significância tem
  • 32. 32 sido reduzido: pelo efeito da tecnologia quando homens e mulheres são identificados não mais por um nome, mas por um código ou número de série, por uma placa de computador na rede mundial; pelo efeito do reducionismo científico de afirmar que o ser humano nada mais é do que um animal ou uma máquina induzida por estímulos externos; pelo efeito do existencialismo radical que declara que Deus não existe. Portanto, não existem mais valores, leis, padrões, propósitos e nem significados e o ser humano tem que buscar significância em sua insignificância. A busca de comunhão: o ser humano vive em uma sociedade moderna que destrói a comunhão e desintegra a sociedade. Os relacionamentos são enfraquecidos, as pessoas têm dificuldades para se relacionar com outras pessoas, o amor mútuo quase não é vivido. Contudo, o ser humano tem buscado aquilo que foge dele: o amor no mundo sem amor; as pessoas vivem sedentas de amor, pois o amor é indispensável para a nossa humanidade; o ser humano, como ser social, precisa de relacionamentos para viver, por isso as pessoas vivem á procura de comunhão genuína e de relações de amor autênticas. 3.1.1 Os desafios da Igreja no século XXI A Teologia da Missão Integral indica que a igreja nos dias atuais precisa ser mais atuante como testemunha de Jesus Cristo. A pregação, a oração e a ação devem manifestar a vontade de Deus expressa em Jesus Cristo. Para isso, a igreja precisa ter seus ouvidos atentos e olhos abertos às necessidades da humanidade, precisa de uma consciência sensível no mundo, reagindo de forma construtiva e compassiva ao sofrimento do povo. A ação da igreja deve ser de viver a missão a qual foi chamada: viver em serviço, e não em servilismo, de acordo com o qual o mundo define a ação da Igreja. Ela não deve se curvar diante do mundo, e sim manifestar a vontade de Deus, declarando nossa missão de discípulos de Jesus de Nazaré, o Cristo, chorando com os que choram, tendo sensibilidade às necessidades humanas, ao grito por justiça, aos sofrimentos e angustias do povo, manifestando o testemunho de Cristo que resgata, cura, liberta, transforma e salva os seres humanos, dando vida e vida abundante, trazendo a realidade do Reino de Deus agora. A igreja precisa responder às questões advindas da sociedade secularizada, enfrentando o desafio de apresentar a realidade da adoração, o senso divino e o temor de Deus, sendo a resposta da busca por transcendência do ser humano, aos homens e mulheres modernos,
  • 33. 33 manifestando a real transcendência vivida nos cultos de adoração a Deus, possibilitando um encontro intimo com o Deus vivo. A igreja precisa enfrentar o desafio de apresentar significado ao ser humano. Para isso, a qualidade de ensino da igreja deve dizer às pessoas quem elas são, esclarecer sua identidade, mostrando sua corrupção e sua dignidade bíblica, seu valor como ser humano na doutrina da criação e redenção, sua imagem e semelhança a Deus, que foi corrompida, mas não destruída. Apresentar o valor do ser humano em Cristo, no amor de Deus, para a nossa própria auto-imagem e para o bem estar da sociedade. “Mas quando os seres humanos são valorizados como pessoas, em virtude de seu valor intrínseco, tudo muda. Homens, mulheres e crianças são honrados. Os enfermos são cuidados e os idosos capacitados a viver e a morrer com dignidade. Os dissidentes são ouvidos, os prisioneiros reabilitados, as minorias protegidas e os oprimidos libertados. Os trabalhadores recebem salário digno, condições de trabalho decentes e uma parcela de participação, tanto na gerencia como nos lucros da empresa. E o evangelho é levado até os confins da terra. E por que tudo isso? Porque as pessoas importam. Porque todo homem, mulher e criança têm valor e significado como ser humano criado à imagem e semelhança de Deus.” STOTT, John W. R. Ouça o Espírito, Ouça o mundo: como ser um cristão contemporâneo, p. 258 A igreja precisa enfrentar o desafio de apresentar a qualidade de sua comunhão, anunciando e vivendo o Deus de amor que enviou seu filho Jesus Cristo para uma verdadeira comunhão, salvando o ser humano para uma vida de amor e comunhão, construindo uma nova humanidade, uma nova sociedade que vive o amor de Deus, ofuscando os valores e os padrões do mundo, quebrando as barreiras raciais, sexuais, nacionais e sociais, experimentando o amor verdadeiro e sacrificial, atencioso e de apoio mútuo, formando uma comunidade do amor ao próximo. Neste contexto, a igreja precisa satisfazer a busca da sociedade secularizada, enfrentando os desafios por Deus, pelo próximo e por si mesma, ou seja, a sociedade busca aquilo que Jesus Cristo oferece. Portanto, a igreja precisa se deixar renovar pelo Espírito Santo de Deus, manifestando e vivendo a palavra de Deus, oferecendo a transcendência na adoração, significado no ensino e comunhão no seu amor comunitário. Assim, a sociedade voltará seu olhar para a igreja reconhecendo a presença e amor de Deus nela, levando a sociedade a uma
  • 34. 34 verdadeira transformação e salvação, promovendo vida e vida em abundância, sendo o Reino de Deus agora. “Já que o Reino foi inaugurado por Jesus Cristo, não é possível entender corretamente a missão da igreja independentemente da missão de Jesus. É a manifestação, ainda que não completa, do reino de Deus tanto por meio da proclamação como por meio da ação e do serviço social. O testemunho apostólico continua sendo o testemunho do Espírito acerca de Jesus Cristo, por meio da Igreja.” PADILLA, René. 3.2 A Igreja como portadora das Boas Novas de Cristo A igreja é chamada a proclamar as boas novas de salvação, a testemunhar Jesus Cris- to como Senhor e Salvador, vivendo a palavra, a mensagem, a sensibilidade e as atitudes de Jesus Cristo, manifestando a vontade e o amor de Deus para com o ser humano, trazendo cura, libertação, transformação, vida e salvação. Esta é a missão da igreja. Portanto, para que a igreja cumpra sua missão e propósito, é necessário que ela possua uma teologia (precisa compreender-se), uma estrutura (precisa organizar-se), uma mensagem (precisa expressar-se) e uma vida (precisa ser ela mesma). Desta forma, a missão integral procura apresentar uma eclesiologia evangelizadora partir da Igreja local. A missão integral entende que a igreja precisa compreender-se, porquanto ela aindanão conseguiu entender qual é sua identidade e nem sua vocação. Por isso, as diferentes igrejas se encontram enfermas, tendo uma falsa imagem de si mesmas. No contexto atual, encontramos duas falsas imagens de igrejas, as que possuem um cristianismo introvertido e outra que possuem um cristianismo secularizado. A primeira vive como se fosse um clube religioso; seus membros pagam suas mensalidades; gozam de certos privilégios; gostam de fazer coisas juntos; são pessoas introvertidas que permanecem em seu mundinho de quatro paredes, vivem se considerando santas e separadas, de tal forma que não se relacionam com a vida social, e nem se importam com o que acontece em seu redor; permanecem em adoração a Deus, voltadas para dentro de si mesma e, quando fazem algum trabalho assistencial se consideram cumpridoras da vontade de Deus. Encontramos também igrejas ou grupos dentro delas que possuem um cristianismo sem religião, ou seja, uma missão secular. Estas igrejas, ao contrário das introvertidas, decidiram trocar o serviço divino da igreja pela comunidade secular, não mais realizam cultos de adoração a Deus, mas realizam
  • 35. 35 shows religiosos, em alguns casos, ou atividades meramente humanitárias, em outros, tentando instituir um cristianismo sem religião. No entanto, existe uma outra forma de compreender a igreja, a igreja que possui tanto o foco de adoração a Deus, vivendo uma vida de busca e santidade em Deus, quanto o foco de serviço ao mundo, dedicando-se à missão de servir o próximo testemunhando e anunciando Jesus como nosso Senhor e Salvador. Uma igreja que possui uma identidade integral, um cristianismo encarnado, sendo santa, separada para pertencer a Deus e adorá-lo, sendo apostólica, enviada ao mundo para a missão de servir em Jesus Cristo. Uma igreja compromissada com o Reino de Deus, com uma vida de santidade a Deus e compromissada com o mundo, no sentido de viver o testemunho de serviço em Cristo Jesus, sendo pró-ativa ao clamor do mundo, sua vida e sofrimento, não vivendo isolada, mas encarnada no mundo, ou seja, a igreja está mundo, testemunhando Jesus Cristo, em seus atos, palavras, sentimentos e pensamentos para estabelecer o Reino de Deus. 3.2.1 As estruturas da igreja A igreja precisa organizar-se de tal forma a transparecer sua teologia, seu compro- misso, sua missão e sua encarnação. Muitas igrejas possuem sua estrutura e organização voltada para si mesma. As programações são fechadas para si, ou seja, não possibilitam o contato com a comunidade e nem sua participação nos eventos. “Às vezes eu me pergunto (embora eu exagere, a fim de estabelecer o meu argumento) se não seria mais saudável se os membros da igreja só se encontrassem aos domingos (para adorar a Deus, ter comunhão entre si e receber ensino) e em hipótese nenhuma durante a semana. Aí a gente se congregaria aos domingos e se espalharia pelo resto da semana. Nós viríamos a Cristo para adorá-lo e iriamos por Cristo em missão. E neste ritmo de domingo-dias-da-semana, congregar-eespalhar, vai-e-vem, adoração-e-missão, a igreja expressaria sua santa mundanidade, e sua estrutura se adaptaria à sua dupla identidade.” STOTT, John W. R. A estrutura da igreja deve identificar sua dupla identidade de adoração e missão, ouseja, o prédio da igreja deve possuir uma estrutura convidativa e amistosa; os cultos da igrejadevem ser organizados de forma a incluir membros e não membros, visando o compromisso, a participação, a união e a missão. Os membros da igreja devem ser membros da comunidade,
  • 36. 36 possibilitando o testemunho de Cristo na sociedade; o programa da igreja deve favorecer para o ensinamento da palavra de Deus, o compromisso com a sociedade, a encarnação e a missão da igreja, com treinamentos para aqueles que querem se comprometer com o serviço e testemunho cristão. A igreja deve reestruturar e organizar seus trabalhos e eventos de modo a possibilitar a participação da comunidade, realizando visitas, eventos para a comunidade, atendimento e serviço à comunidade, eventos evangelísticos com jovens, adolescentes, adultos e idosos do bairro, grupos de apoio às necessidades do bairro e às necessidades sociais e econômicas das pessoas, reuniões caseiras, trabalhos familiares, discipulado em células visando à adoração e o serviço, etc, tudo com o intuito de manifestar a missão encarnada da igreja. 3.2.2 A mensagem da Igreja A igreja precisa se expressar, articulando sua mensagem, compartilhando o evange- lho. Para isso, precisa definir sua forma de apresentar as boas novas de Jesus Cristo Senhor e Salvador, declarando o amor de Deus em Jesus Cristo, seu sacrifício na cruz que nos possibilita o arrependimento para uma nova vida de perdão e libertação com participação na sociedade. Alguns anunciam o evangelho com rigidez total, são escravizados por fórmulas e palavras, como se o evangelho fosse empacotado. Outros anunciam com fluidez total, contextualizando o evangelho às situações apropriadas e particulares a cada pessoa. Contudo, é fundamental anunciar o evangelho de maneira equilibrada, não tendo rigidez nem fluidez. Devemos usar a dialética da antiga palavra com o mundo moderno, o concedido com o aberto, o conteúdo com o contexto, revelação com contextualização, à escritura com a cultura, sendo sensíveis para com as pessoas. A mensagem deve ser marcada com nosso compromisso de adoração e missão. Portanto, uma igreja que busca se estabelecer com teologia, estrutura, mensagem e vida numa identidade de adoração e missão, com foco na encarnação e na visão holística de sua missão como igreja, experimenta uma vida de santidade e serviço, testemunhando a vontade de Deus em Jesus Cristo. Para isso, a igreja pode estabelecer modelos de ministério integral na sociedade, sendo a presença de Cristo para os dias atuais, manifestando o Reino de Deus agora. “Não basta que a igreja local se compreenda e se organize apropriadamente; ela precisa também articular sua mensagem. Afinal, evangelizar, no sentido mais simples e mais básico, é compartilhar o evangelho. Assim, para definir a evangelização é
  • 37. 37 preciso também definir as boas novas.” STOTT, John W. R. 3.2.3 O Ministério integral da Igreja Como já vimos, a teologia da missão integral destaca a prática de um ministério integral que possui uma atuação de evangelização e ação social. Esta estratégia de missão é muito oportuna para a América Latina hoje e a igreja é chamada a vivenciar este ministério. “A idéia de ministério integral tem raizes bíblicas profundas. Tanto no Antigo como no Novo Testamento a Bíblia ordena à igreja que ministre à pessoa como um todo. Isto quer dizer que se deve atender tanto às necessidades físicas como às espirituais, que estão inseparavelmente relacionadas, ainda que sejam separadas em termos funcionais. Vemos esta idéia nas três formas comuns de ministério no Antigo Testamento: as funções de juiz, profeta e sacerdote.” YAMAMORI, Tetsunao & PADILLA, C. René & RAKE, Gregorio. Quando falamos sobre a igreja, não a associamos com uma instituição ou um templo, ou ainda somente ao pastor ou missionário, mas à comunidade. Ou seja, todos são chamados a servir como Cristo nos evangelhos, servindo a Deus através do serviço aos outros. Ele anunciou e ensinou o Reino de Deus, curou, libertou, resgatou as pessoas, alimentou os famintos e lavou os pés dos outros. Agora somos chamados a seguir os seus passos, imitá-lo e até aperfeiçoar os ideais de serviço que Ele iniciou. Jesus Cristo deve ser o nosso modelo; temos que dedicar nossas vidas ao serviço como Ele fez; nós somos os seus servos, como Ele foi servo do Senhor. Mas que forma nosso serviço deveria ter? Eu quero defender um conceito muito mais amplo e completo de serviço cristão do que é costumeiro entre nós. Tanto serviço quanto ministério traduzem a mesma palavra grega, diakonia. É fato que, especialmente quando se antepõe o artigo definido, muitas vezes se pensa em ministério como algo limitado ao clero ordenado. Mas o ministério cristão é praticado na mesma proporção por leigos quanto por pastores, na sociedade secular assim como na igreja. Na verdade esta é uma palavra que inclui todo tipo de serviço prestado por alguém em nome de Cristo (cf Sttot). Para servir é importante entender que, em resposta a diferentes necessidades, existem diferentes formas de ministério, já que amamos e servimos integralmente (corpo e alma) o próximo, se preocupando com o bem estar total do ser humano, ou seja, o físico, o religioso e
  • 38. 38 o sócio-político. Somos chamados a nos preocupar tanto com o bem-estar eterno da pessoa quanto com o bem-estar material. De acordo com a vocação e o dom de cada servo, também existem diferentes ministérios. Cada pessoa contribui para o ministério de alguma forma, se engajando em e encorajando alguma atividade, em diferentes esferas de ministério, conforme Deus nos coloca, seja no nosso lar, local de trabalho, local de estudo, vizinhança, igreja local e comunidade. As pessoas são capacitadas por Deus e chamadas por Ele a se especializarem conforme a vocação e oportunidade, manifestando um ministério cristão que signifique pessoas inteiras servindo pessoas inteiras no mundo inteiro. Desta forma, somos chamados a praticar um ministério integral em nossas vidas, sendo:  Um ministério integral em nosso lar  Um ministério integral em nosso trabalho – vivendo um testemunho cristão como filosofia de vida;  Um ministério integral em nossa igreja – como cristãos, devemos participar do serviço ao mundo (como igreja) de forma integral, ou seja, aproveitar a vocação, a capacitação, a educação, a experiência e o dom de cada membro parpossibilitar a manifestação do Reino de Deus na terra;  Um ministério integral em nossa vizinhança – como igreja ou como membros individuais da igreja, precisamos participar da sociedade, precisamos ser sal e luz do mundo, devemos deixar que a luz de Cristo brilhe em nós, através de nossas palavras e atos, impregnando na sociedade, ou melhor, na vizinhança, os valores e os padrões do Reino de Deus, impedindo assim sua deterioração;  Um ministério integral no mundo – devemos ser cidadãos cristãos do mundo, se comprometendo com a missão mundial e se preocupando com as questões mundiais, ou seja, devemos anunciar a Cristo como Senhor e Salvador, manifestando o Reino de Deus, testemunhando a Cristo no mundo, se preocupando com a paz, a justiça e o meio ambiente, com estudo, atuação e manifestação do amor e justiça de Deus nas questões da fome, dos sem teto, da desigualdade econômica, da ecologia, dos conflitos raciais ou direitos humanos, bem como da santidade da vida humana. São vários problemas que, mesmo comnosso tempo e energia limitados, somos chamados para manifestar o Reino de Deus, através da participação nos inúmeros ministérios, grupos ou departamentos que se formam para trabalhar nestas áreas, informados e envolvidos, vivendo em um ministério integral que manifeste os valores e padrões do
  • 39. 39 Reino de Deus, sendo um corpo bem ajustado em que a cabeça é Cristo Jesus Senhor e Salvador do mundo. O modelo de ministério integral não está ligado às estruturas eclesiásticas, administrativas e organizacionais de uma denominação, igreja, comunidade ou movimento cristão, mas sim a um estilo de vida cristã que busca encarar a missão de maneira integral como Jesus Cristo encarou, uma missão integral que anuncia o Reino de Deus e sua justiça, entre a fé e as boas obras, entre as necessidades espirituais, materiais e físicas, entre a dimensão social e pessoal do evangelho, estabelecendo o Reino de Deus, agora. Com este ministério integral, temos casos de igrejas que estão escrevendo uma nova história a cada dia, mudando a vida e o serviço do povo evangélico latino-americano. As igrejas, sejam elas divididas em departamentos, ministérios, associações, grupos e células, trabalhando com instituições de assistência, com ensino bíblico, com cultos e grupos familiares, com discipulado em células, com ação social, auxílio à comunidade carente, recuperação de dependentes químicos e co-dependentes, trabalho com moradores de rua, e muitos outros trabalhos evangelísticos e sociais, podem ter uma vivência de ministério integral em sua missão de anunciar a Salvação em Cristo Jesus, independente se é uma igreja histórica, pentecostal ou neopentecostal. O modelo de ministério integral, que tem Jesus Cristo como modelo, não reduz o evangelho a uma mensagem para o indivíduo e para vida privada, mas valoriza o evangelho como uma mensagem para a sociedade e para a vida pública, manifestando, em Jesus Cristo, a cura, libertação, transformação e salvação pessoal e social para a humanidade. A igreja brasileira possui o desafio de manter o crescimento numérico de sua membresia sem perder de vista a profundidade do discipulado. Vivemos hoje um crescimento estrondoso de igrejas evangélicas. O problema é que hoje existem pessoas que mostram este crescimento com um triunfalismo que só celebra números, mas a grande pergunta é se este crescimento numérico tem transformado a sociedade, manifestando o Reino de Deus, formando discípulos de Cristo. Como vimos no início deste capítulo, a sociedade secularizada e capitalista tem buscado cada vez mais respostas para suas necessidades. Neste crescimento numérico de evangélicos, nem sempre conseguimos ver os valores e padrões de Cristo na sociedade, mas sim, temos visto os valores e padrões desta sociedade secularizada crescendo, transformando a igreja evangélica numa grande empresa que busca aumentar sua produção, para o crescimento de seu poderio no mercado eclesiástico altamente
  • 40. 40 competitivo. As igrejas devem crescer, mas deve ser um crescimento que evidencie a presença do amor de Deus Pai, o exemplo de Jesus Cristo o Filho, e a vida do Espírito Santo consolador, manifestando o Reino de Deus e sua justiça. Temos hoje um crescimento da igreja que é fato, Glória a Deus por isso, porém nossa preocupação deve estar em não ser um crescimento superficial, mas um crescimento com profundidade do discipulado de Cristo. A igreja evangélica precisa crescer, e crescer com discípulos e discípulas compromissados com o propósito de Deus e com sua missão de forma integral, um evangelismo pessoal e social, que manifeste uma espiritualidade carismática na unção do Espírito Santo, que possua conversão real, transformação de vida, mudança de caráter, com cura e libertação pessoal e social, espiritual e material, contemplando a vida do ser humano de forma integral, ou seja, em todos os seus aspectos. Não existe uma fórmula específica para o crescimento integral, mesmo porque não existe um modelo de missão perfeita que possua uma correlação absoluta entre todas as qualidades e dimensões do crescimento integral da igreja, ou seja, todo modelo pode ser aperfeiçoado e reavaliado, sempre buscando o estabelecimento do Reino de Deus de forma integral. O propósito de buscar um crescimento integral no projeto redentor de Deus, podemos observar alguns aspectos dimensionais que podem nos direcionar para um modelo de missãoque cresça integramente. Entre eles, estão:  A dimensão numérica – a igreja apresenta um crescimento integral quando toda necessidade humana serve como oportunidade para o anúncio da mensagem do evangelho na vida das pessoas e grupos, independente do que vem primeiro, a evangelização ou o serviço. A justificativa dos projetos de serviços deriva do Amor de Deus, cumprindo com vários objetivos do anúncio das boas novas de Jesus Cristo. A vida dos mensageiros do evangelho não se separa da mensagem anunciada. Os próprios líderes da igreja estão comprometidos com a evangelização e o serviço no ministério integral. O ministério integral favorece a ampla participação dos leigos, evitando que a igreja se torne uma seita religiosa.  A dimensão orgânica – a igreja apresenta um crescimento integral quando existe um estímulo no aproveitamento dos recursos humanos e econômicos por parte do ministério integral, que se ajusta às situações locais. O desenvolvimento da liderança local surge das bases com o incentivo do ministério integral. Existe a participação dos cristãos e de outras pessoas nos problemas e nas lutas, bem como nas aspirações e esperanças do povo. O ministério integral fornece uma base econômica à igreja para a rea-
  • 41. 41 lização de seu ministério. O ministério integral é capacitado pelas entidades paraeclesiásticas que encontram sua razão de ser, na medida em que favorecem o crescimento orgânico da igreja.  A dimensão conceitual – a igreja apresenta um crescimento integral quando forma os lideres eclesiástico através do ministério integral, com uma visão ampla da vida e missão da igreja. O ministério integral, através das necessidades dos pobres e marginalizados, favorece a oportunidade de ensinar a igreja local, de forma teórica e prática, a respeito do plano de Deus para a criação e a humanidade, e ainda sobre o lugar da igreja em relação a este plano. O ministério integral fornece as condições apropriadas para que a conversão a Jesus Cristo seja uma conversão ao Reino de Deus e sua justiça, reorientando a vida do ser humano em sua totalidade para o propósito de Deus, não sendo somente entendida como uma experiência religiosa.  A dimensão diaconal – a igreja apresenta um crescimento integral quando as oportunidades de serviço surgem de cada necessidade humana. A igreja possui os recursos necessários para servir a sua própria comunidade e o serviço fornece o contexto apropriado para o anúncio do evangelho de Jesus Cristo. O ministério integral, a partir do Evangelho do Reino de Deus, forma um todo com outros aspectos do ministério, liberando a igreja para ajudar as entidades seculares na promoção do bem comum, manifestando o testemunho cristão e ampliando sua esfera de ação. Estas dimensões apresentadas nos direcionam para um crescimento integral, que vem da qualidade da espiritualidade, da encarnação e da fidelidade da igreja para com o propósito de Deus de estabelecer em Cristo Jesus o Reino de Deus e sua justiça. Para isso, a igreja precisa de uma espiritualidade que manifeste a presença do Espírito Santo trazendo um real avivamento para igreja em seu ministério integral, ou seja, é necessário acreditar no poder da Unção do Espírito Santo na vida da igreja. Uma coisa é falar uma mensagem bonita, outra coisa é pregar uma mensagem ungida, com vidas se rendendo aos pés do Senhor Jesus, sendo curadas, libertas, transformadas, restauradas e salvas por Ele. Uma coisa é ajudar um necessitado, outra coisa servir na unção do Espírito Santo, amando e servindo como Jesus, se preocupando com a vida humana, chorando com os que choram e se alegrando com os que se alegram. “Acredite na realidade diferenciadora da unção. Acredite que uma coisa é pregar um sermão bonitinho, outra coisa é pregar um sermão ungido; uma coisa é falar do evangelho, outra coisa
  • 42. 42 é anunciar o Evangelho no poder do Espírito Santo. A diferença é brutal!” D’ ARAUJO FILHO, Caio Fábio. Igreja Crescimento Integral, p. 99. Somos chamados para ser uma igreja viva que cresce integralmente, conforme o modelo de Cristo Jesus, amando e servindo, em teoria e prática, defendendo a vida e a criação de Deus em todos os seus aspectos, manifestando o Reino de Deus, aqui e agora.
  • 43. 43 II. CONSIDERAÇÕES FINAIS Alguém poderá dizer, agora que desembarcamos no porto final desta caminhada teórica que compõe esta comunicação, que as conclusões a que chegamos são apenas óbvias. Diante desta observação crítica, tudo que tenho a dizer é que concordo inteiramente. Assim já dizia Caetano Veloso que seriam óbvias as palavras que o índio proferiria em um ponto eqüidistante entre atlântico e o pacífico. Nossa sociedade está contaminada pelo imediatismo e consumismo desenfreado. Que busca o lucro e a vantagem acima de tudo e de todos. A exploração dos bens naturais sem qualquer preocupação com o futuro tem, destruído a criação de Deus, comprometendo a vida humana e a natureza. Nossa política é marcada pela corrupção, pela lavagem de dinheiro e pelo descaso para com a população. Os meios de comunicações têm sido uma arma fortíssima para influenciar e propagar o sistema globalizado em que vivemos, com uma ideologia imediatista que forma um pensamento de que tudo deve ser para agora, de que, a cada dia, temos que ter produtos da moda. As pessoas devem comprar a novidade que surge no mercado hoje para mostrar um status que não existe. Todos estes fatores formam um pensamento de que não importam os meios, e sim os fins, ou seja, a forte concorrência leva as pessoas a agirem sem se preocuparem uma com as outras e com a vida. Vivemos hoje, através destas influências, numa sociedade insensível que não possui tempo para nada. Os objetos são mais importantes do que os seres humanos, fazendo assim pouco caso para as questões sociais, mesmo porque não há tempo para se importar com o problema dos outros. Os relacionamentos são descartáveis; as palavras amor, amizade, fraternidade e comunhão estão em desuso, em extinção nesta sociedade globalizada.
  • 44. 44 É diante deste desafio que se encontra a igreja de Cristo, algumas com teologias pentecostais, neopentecostais, reformadoras, ortodoxas, tradicionais, etc. Porém, suas doutrinas e práticas permanecem fechadas em si mesmas. A maioria tem um contato com a sociedade em um âmbito assistencialista de ação social; outras preferem ficar somente com a pregação do evangelho; outras ainda preferem viver no âmbito da espiritualidade sem contato com o mundo; temos aquelas que pregam o imediatismo e o consumismo cristianizado e temos também aquelas que são extremamente sociais e políticas, deixando de lado a espiritualidade religiosa. Contudo, não queremos entrar no mérito da prática e das teologias destas igrejas, mas destacar que existe uma variedade enorme de práticas teológicas e missionárias na vida das igrejas evangélicas da América Latina que precisam enxergar os desafios que a realidade apresenta para a igreja, e assim, buscar meios de anunciar um evangelho que faça diferença na vida pessoal e na sociedade, manifestando o Reino de Deus e sua justiça. A igreja precisa acordar para a realidade. Não podemos pensar que viver o evangelho é somente ter a doutrina certa, cantar boas e animadas músicas nos cultos, com os olhos fechados e mãos levantadas e ter algum envolvimento com os trabalhos das igrejas. O sistema globalizado tem moldado, através da mídia e cultura, nossa leitura da realidade. Porém como cristãos, somos chamados a deixar que a Bíblia, como Palavra de Deus, nos revele as doutrinas certas, moldando nossa cosmovisão, a forma como vemos e interpretamos a realidade. Se, como cristãos, cremos que Jesus é o Filho de Deus encarnado, precisamos viver nossa humanidade no exemplo de Cristo, sua compaixão, misericórdia, bondade e amor. Se nós somos verdadeiros adoradores, devemos não somente cantar inspirados no domingo, mas viver agradando e obedecendo a Cristo todos os dias. Se nós cremos na ressurreição e na vida eterna, não devemos ser tão materialistas e consumistas, mas menos apegados às coisas deste mundo, manifestando o reino de Deus e sua justiça. Precisamos, como igreja, ser discípulos e imitadores de Cristo, integrando as verdades bíblicas e a vida de forma que o testemunho de Cristo seja poderosamente afirmado nos atos de misericórdia, compaixão, serviço e proclamação. Devemos viver uma espiritualidade evangélica, encarnada, vivida no poder do Espírito Santo, que revele Jesus Cristo como Senhor e Salvador em nossas palavras e atos, sendo testemunha viva de Cristo. Como imitadores de Cristo, precisamos ter uma vida de testemunho, com uma espiritualidade que encontre nos evangelhos, na pessoa de Cristo e na presença do Reino de Deus
  • 45. 45 sua forma e conteúdo, com uma teologia que é vivenciada na prática da comunidade, sendo representante de Jesus Cristo no mundo, manifestando o Reino de Deus agora, na esperança da volta de Cristo. Esclareço ainda além, portanto, que este texto pretendeu apenas iniciar uma reflexão que deve continuar em conjunto agora, num espírito fraterno e elucidativo. Soli Deo Gloria
  • 46. 46 REFERÊNCIAS STEUERNAGEL, Valdir Raul. A Missão da Igreja: Uma visão panorâmica sobre os desafios e propostas de missão para a Igreja na antevéspera do terceiro mil. Belo Horizonte: Missão Editora, 1994. PADILLA, C. René. The contextualization of the Gospel. In: Journal of Theology for Southern África, vol. 24, p. 12-30 (1978). CAVALCANTI, Robinson. Evangelho e a Política na América Latina. In:STEUERNAGEL, Valdir. No princípio era o verbo: todo evangelho. Curitiba: Encontrão, 1994. SANCHES, Sidney de Morais. A teologia da missão integral como teologia evangélica contextual latino americana. Revista Caminhando, v. 15, n. 1, p. 65-85, jan./jun. 2010. D’ ARAUJO FILHO, Caio Fabio. Igreja: Evangelização, Serviço e Transformação Histórica. Vol. 1. Niterói: Editora Vinde e Editora Sepal, 1987. D’ ARAUJO FILHO, Caio F. Elias esta nas Rua. Belo Horizonte: Editora Betânia, 1990. ESCOBAR, Samuel. Desafios da Igreja na America Latina: História, Estratégia e Teologia de Missões. Tradução Hans. Udo Fuchs. Viçosa: Editora Ultimato, 1997. BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Traduzida por Odayr Olivetti. Campinas: Luz Para o Caminho, 1990. CHEUNG, Vincent. Teologia Sistemática. Tradução e revisão: Felipe Sabino de Araújo Neto e Vanderson Moura da Silva. PO Box 15662, Boston, MA 02215, USA, 2001/2003. CERVANTES-ORTIZ, Leopoldo. Génesis de la Nueva Teologia Protestante latinoamericana (1949-1970.) In: Cuadernos de Teologia, vol. XXIII, p. 221-250 (2004). SAVAGE, Pedro. O Labor teológico num contexto latino-americano. In: Boletim Teológico. FTL-Brasil, vol. 2, n. 5, p. 53-81 (1985).
  • 47. 47 LANGSTON, A. B. Esboço de Teologia Sistemática – 11ª edição. Rio de Janeiro. JUERP, 1994. CALDAS, Carlos. Orlando Costas: Sua contribuição na história da teologia latino-americana. São Paulo: Editora Vida, 2007. ALVES, Rubem. Educação Teológica para a Liberdade. In: Simpósio III/5, p. 10-20 (1970). KIVTZ, Ed René. Uma síntese teológica da Missão Integral. 2 CONGRESSO BRASILEIRO DE EVANGELIZAÇÃO. Missão Integral: proclamar o reino de Deus, vivendo o evangelho de Cristo. Viçosa: Ultimato; Belo Horizonte: Visão Mundial, 2004. SAPSEZIAN, Aharon . Em busca de um ministério caboclo. In: Simpósio, vol. III, n. 5, p. 37-48 (1970).
  • 48. 48 ANEXOS Vem e Vê TV -Vídeo Caio Fábio – O Reino de Deus - www.vemevetv.com.br/ Vimeo Vídeo Ed Renné Kivits – Missão na integra, uma releitura da missão integral http://vimeo.com/45929552 A igreja como agente do reino de Deus - Alderi Souza de Matos www.faculdadelatinoamericana.com.br Fraternidade Teológica Latino-americana –www.ftl.org.br, em 2004. Missão Plena – Teoria e Pratica – Cristiano Batista dos Santos
  • 49. 49 Oliveira Meneses, Altemar. Dissertação Mestrado São Paulo, 16/06/ 2013. nº pág. 49 Concede-se à Faculdade Teológica e Cultural da Bahia – FATECBA, a permissão para reproduzir cópias deste trabalho e emprestá-las tão somente para propósitos acadêmicos e científicos. Direitos reservados. Leis 9.609/98 e 9.610/98. Autoriza-se copia, para utilização exclusivamente com finalidade didática, desde que com a citação da fonte. Altemar Oliveira Meneses Autor

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