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Linguagem e pensamento

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  • 1. FD4 (2000) ARTIGOSA LINGÜÍSTICA E A RELAÇÃO ENTRE LINGUAGEM EPENSAMENTOKATHARINE DUNHAM MACIEL (UFRJ) Este trabalho tem como objetivo apresentar posições da TeoriaLingüistica sobre a relação entre linguagem e pensamento. Partindo do pressuposto de que teoria Lingüistica é a Teoria daCiência Lingüística, tomamos como primeira necessidade a definiçãode Lingüística. A Lingüística é muitas vezes apresentada como o estudocientífico da linguagem. Há necessidade de se definir melhorlinguagem, como também o que se pretende dizer com "estudocientífico da linguagem". Linguagem vista como propriedade naturaldo ser humano, que se comunica com outros homens através de códigooral ou escrito, linguagem que apresenta propriedades peculiares aoser humano(dualidade de estrutura, produtividade) e que difere dasoutras linguagens - códigos de comunicação - tais como a linguagemgestual, a linguagem de sinais entre outras. Não podemos deixar denotar também a linguagem como componente da cultura de umdeterminado grupo social. Para o lingüista americano Noam Chomskya linguagem era considerada como um conjunto de sentenças, cadauma finita em comprimento e construída a partir de um conjuntofinito de elementos (Syntatic Structures, 1957). Chomsky enfatiza aspropriedades estruturais da linguagem que podem ser estudadas numaperspectiva matemática.(Lyons, 1987) Continuando na nossa linha de raciocínio, o que se pretendedizer com o estudo científico da linguagem? A questão fundamentalpassa pela necessidade da Lingüística, enquanto pertencente àsCiências Humanas, em alcançar o status científico das Ciências Exatas.As Ciências Humanas e Sociais visavam ganhar reconhecimentoadequando-se aos modelos das Ciências Exatas. Citando Freitas(1994):"A partir do século XIX, o homem ingressou na era da representação.Tornou-se necessário naturalizar os fenômenos humanos e sociais paraexplicá-los, uma vez que as Ciências da Natureza passaram a ser a basesólida e insuspeita de conhecimentos objetivos. Tudo passou a serexplicado pelo modelo de inteligibilidade das Ciências Naturais. AsCiências Humanas, ao se pretenderem científicas, tomaram dasCiências Naturais os seus métodos. Passaram a almejar objetividade eneutralidade em direção a um conhecimento positivo da realidadehumana." Somente através do discurso "científico" a Lingüística 104
  • 2. FD4 (2000) ARTIGOSpoderia se alçar a produzir conhecimento reconhecido e respeitado nomundo científico. Não só os modelos, como o próprio discurso daLingüística tenta muitas vezes se aproximar do discurso da Física, daQuímica, da Biologia. Esta questão epistemológica é central nosmovimentos lingüísticos do século XX, caracterizando-se as teoriaslingüísticas por esta preocupação com a cientificidade de suaspropostas e conceitos. Uma gramática no sentido de Chomsky seriaestruturalmente semelhante a uma teoria matemática formalizada (cf.Bach) As mais marcantes teorias lingüísticas deste século são oestruturalismo e o gerativismo, com os quais nos ocuparemosposteriormente. A questão da linguagem é fundamental para o ser humano;desde tempos antigos o homem tem se preocupado com a origem enatureza da linguagem. Em várias épocas filósofos e cientistas seocuparam e abordaram a linguagem de inúmeras maneirasformulando perguntas tais como: a linguagem é anterior aopensamento, existe pensamento sem linguagem, como o homemconhece o mundo, qual o papel da experiência? Todas estas questõessão polêmicas e se aguçam a partir da tentativa de se estabelecer umabase científica para explicar as Ciências Humanas. Em seusprimórdios, o interesse pela linguagem está ligado aos estudosfilosóficos. Platão coloca a questão da existência de ligação entre aspalavras que usamos e as coisas que elas designam. Para Aristóteles,tratar-se-ia apenas de convenção a ligação entre forma e significado. ORenascimento e o Iluminismo, o despertar para as Ciências Exatas(ligadas a mudanças político-sociais), fazem surgir o debate entreempiristas e racionalistas. Os séculos XVII e XVIII foraminfluenciados por discussões relacionadas à filosofia. Para osempiristas, todo o conhecimento provém da experiência,diferentemente dos racionalistas, para os quais todo o conhecimentoprovém da razão - através da razão o homem procuraria conhecer omundo que o cerca. A questão da linguagem e do pensamento, de acordo com o quefoi exposto, ocupa a discussão filosófica há vários séculos. A filosofia daLinguagem tem contribuído significativamente para os estudos sobre anatureza da linguagem e os processos cognitivos do homem. AsCiências Humanas e Sociais estão envolvidas naturalmente com estasquestões, uma vez que a linguagem e o pensamento são fundamentaispara a análise da ação do homem no mundo. As principais teorias lingüísticas do século XX estão ligadas, decerta forma, a questões básicas de filosofias dos séculos anteriores. O 105
  • 3. FD4 (2000) ARTIGOSdebate empirismo-racionalismo, a questão do conhecimento humanoemergem nos movimentos estruturalistas e gerativistas nas CiênciasLingüísticas. Segundo Bach (1970) a visão clássica dos empiristas é ade que as imagens sensoriais seriam transmitidas ao cérebro comoimpressões e subsistiriam como idéias que seriam associadas deinúmeras maneiras dependendo do caráter fortuito da experiência.Uma língua não passaria de uma coleção de palavras, locuções esentenças, um sistema de hábitos que havia sido adquirido acidental eextrinsecamente. Para o lingüista Chomsky, as teorias racionalistas secaracterizariam pela importância que atribuem a estruturasintrínsecas nas operações mentais, a processos e princípios deorganização na percepção e princípios inatos na aprendizagem. Criticaa atitude empirista que acentuava o papel da experiência e do controlepor fatores ambientais. A abordagem empírica do estruturalismo nega os universaislingüísticos, nos remetendo à polêmica entre racionalistas e empiristasdo século XVII e XVIII. Segundo Robins (1979): "os racionalistasbuscaram a certeza do conhecimento não nas impressões do sentido,mas nas verdades irrefutáveis da razão humana". Os cartesianosdefendiam a existência das idéias inatas na mente humana, aocontrário dos empiristas que negam pensamento anterior àexperiência. Saussure desponta no início do século com a sua abordagemsincrônica do estudo da linguagem, com a sua noção de sistema, comoum dos grandes nomes da lingüística contemporânea. Saussureestabelece a distinção entre langue (sistema de signos, fenômenocoletivo e social) e parole que é a realização individual desta langue. Damesma forma que Chomsky se interessou pela competência do falante,Saussure toma a langue como base de sua teoria lingüística. Ele admiteque o signo tem duas faces (significante e significado) e é caracterizadopor sua arbitrariedade. A língua tem uma forma, pode ser descritaindependentemente da substância em que se realiza e ser consideradacomo uma totalidade viva mas estática. Os estruturalistas tinham como preocupação a descriçãominuciosa das formas físicas das estruturas de uma língua. Agramática não seria, como a gerativa transformacional, um conjuntode regras, mas uma relação de estruturas. A aquisição da linguagemera vista como algo mecânico, condicionado de acordo com a psicologiabehaviorista: "assim se impôs uma nova corrente psicológica, obehaviorismo que, excluindo a consciência, substituiu-a por um novoobjeto - o comportamento. O psíquico foi reduzido ao físico 106
  • 4. FD4 (2000) ARTIGOS(observação, quantificação como garantia de objetividade) e o social aobiológico (adaptação, organismo, estímulo, meio)" (Freitas, 1994). Háuma influência das teorias comportamentalistas sobre lingüistasestruturalistas, tais como Bloomfield, com sua teoria mecanicista queabstrai a hipótese da mente nas suas descrições lingüísticas. Bloomfieldsofreu influência dos neo-gramáticos do século XIX, que tentaramfazer da lingüística histórica uma ciência exata, adotando os métodosdas ciências naturais. A questão da influência do positivismo nasciências humanas se faz sentir fortemente através do trabalho deBloomfield. Para ele não era pertinente à lingüística o estudo dosignificado, tese que defende em seu livro Language (1933), importanteera a descrição das formas lingüísticas. Vale ressaltar, no contexto do estruturalismo americano, Sapir,que sofreu influências de Franz Boas (concepção antropológica dalingüística). Para Sapir, "a essência da linguagem está em atribuir sonsconvencionais, voluntariamente articulados ou um equivalente dessessons aos diversos elementos de nossa experiência" (Sapir, 1971). As teorias gerativas-transformacionalistas apresentam como seuprincipal teórico Noam Chomsky. Sua obra surge como reação àstendências empiristas da lingüistica americana das primeiras décadasdo século XX. Chomsky foi influenciado pelo pensamento dosracionalistas do Iluminismo como também pelas idéias acerca dalinguagem do alemão Humboldt. A questão da linguagem e dopensamento, como já foi dito, ocupa o centro de interesse depensadores do Iluminismo, como Descartes. O pensamento cartesiano,a lógica formal influenciam inúmeros lingüistas de nosso século. Em 1966, na Lingüística Cartesiana Chomsky ressalta que agramática gerativa-transformacional "é essencialmente uma versãomoderna e mais explícita da gramática de Port Royal" (Roulet) Chomsky expôs o seguinte sobre sua noção de competêncialingüística: "a teoria lingüística ocupa-se de um falante ouvinte idealnuma comunidade de fala completamente homogênea, que conhece sualíngua com perfeição e não é afetado por condições gramaticalmentedescabidas, tais como limitações e memória, distrações, mudanças deatenção ou interesse e erros (casuais ou característicos) na aplicação deseu conhecimento de língua ao desempenho real" (Chomsky, 1965) Chomsky critica o estruturalismo na medida em que a gramáticaestrutural segmenta os enunciados, ficando limitado à estruturasuperficial, a um corpus e não dando conta da intuição do falante queconsegue produzir um número infinitos de sentenças nunca produzidasou ouvidas antes. A gramática transformacional surge como reação ao 107
  • 5. FD4 (2000) ARTIGOSempirismo, que domina as teorias lingüisticas no início do século.Chomsky está interessado nos processos mentais dos falantes, nasestruturas profundas que seriam aquelas do pensamento. Lança mãode uma metalinguagem rigorosa como os sistemas formais damatemática e da lógica para formular regras precisas. Ao lingüistacabe, com base nos sistemas formais, dar conta do sistema abstrato quetodo falante possui de sua língua, reconstruir o sistema de regras quepermite a uma falante produzir um número infinito de oraçõesgramaticais. Chomsky separa em sua teoria a competência dodesempenho. Está preocupado, como foi exposto, com o sistemaabstrato de regras que estão na mente dos falantes, de caráteruniversal e especificamente humanas. Somente através da introspecçãoteremos acesso a esses processos cognitivos. Chomsky afirmava quelinguagem e pensamento estão estritamente relacionados e que oestudo da linguagem contribui significativamente para a compreensãodo raciocínio humano. Ele foi também influenciado por Humboldt,para quem a língua espelha o pensamento. Segundo Humboldt: "aatividade da linguagem é uma mediação entre o espírito e a realidade.O homem vive no mundo que está em torno dele exatamente como alinguagem o apresenta a ele" (Nef, 1995). As teorias mais recentes, influenciadas em parte pelos trabalhosdo lingüista inglês Firth, que considerava os papéis sociais ligados adiferentes situações, a contribuição do antropólogo Malinovski aoafirmar que a lingüística deveria se ocupar da fala viva num contextode situação levam lingüistas a considerarem não apenas o sistema dalíngua mas todo um contexto onde ela acontece, caracterizando-se alinguagem como social por excelência. Sapir e Whorf acentuaram aimportância do cultural - língua vista como parte da cultura e dasociedade: a hipótese da relatividade lingüística, isto é, a hipótese deque o pensamento dos falantes de uma determinada língua é afetadopela estrutura dessa língua. O lingüista e antropólogo Del Hymes chamou a atenção para anecessidade de novas teorias para analisar as línguas onde fossemincluídas as funções sociais e comunicativas. Fishman afirmava quetodo comportamento lingüístico é social, e Bernstein estabelecia arelação entre linguagem e estrutura social. O papel da filosofia dalinguagem se faz sentir nas primeiras décadas do século e influencia osramos da lingüística do fim do século. Nomes como Bakhtin, Searle,Austin, e Habermas são determinantes para se pensar a linguagemcomo ação. Ela se redime da neutralidade de um sistema lingüísticoabstrato e parte para ser vista como ação no mundo: "a forma e o 108
  • 6. FD4 (2000) ARTIGOSconteúdo constituem um todo no discurso compreendido comofenômeno social em todas as esferas de sua existência e em todos osseus elementos, desde a imagem auditiva até às estratificaçõessemânticas mais abstratas". (Bakhtin, 1992) Gostaria de salientar neste contexto a posição dointeracionismo social (cf. Bronckart, 1996) ao questionar ainterpretação das condutas humanas em suas especificidades,relacionando-as diretamente às propriedades do substratoneurobiológico humano (cognitivismo e neuro-ciências) ou comoresultado da acumulação de aprendizagens condicionadas pelasrestrições de um meio preexistente (behaviorismo). Coloca-se ahistoricidade do humano como ponto central para o desenvolvimentoda espécie. O agir comunicativo de Habermas, as interações verbaissão constitutivas do psiquismo humano como também do social. Ohomem transforma o meio nesses mundos representados que seconstituem específicos de suas atividades. É preciso salientar que oconhecimento humano teria sua origem na atividade coletiva, sendoum construto social(cf. Bronckart). Neste contexto de análise faz-se necessário citar a obraPensamento e Linguagem de Vigotsky. Ele afirma que uma palavravazia de pensamento é uma coisa morta, por outro lado umpensamento despido de palavras é uma sombra. Vigotsky chama aatenção para a importância de se compreender a inter-relação entre opensamento e a palavra, processo vivo e dinâmico. O discurso dáforma à consciência, cada palavra não remete a um único objeto, naverdade cada palavra é uma generalização e sendo assim já é umpensamento. Os significado das palavras são construídos, eles não sãoindependentes do pensamento, eles pertencem ao campo mental esócio-cultural. É interessante citar Vigotsky quando se considera arelação entre intelecto e afeto "a sua separação como objeto de estudoé uma importante debilidade da psicologia tradicional, pois faz comque o processo de pensamento surja como uma corrente autônoma depensamentos que pensam por si próprios, dissociada da plenitude davida, das necessidades e interesses das inclinações e dos impulsospessoais de quem pensa". Seus conceitos de discurso interior (o qualflutua entre a palavra e o pensamento) e discurso externo (pensamentoem palavras - sua materialização) são interessantes para melhor secompreender estes processos mentais. O pensamento tem a sua própriaestrutura, passa pelos significados e depois pelas palavras, sendo amotivação fundamental: "para compreendermos o discurso de outremnão basta compreender as suas palavras - temos que compreender o 109
  • 7. FD4 (2000) ARTIGOSseu pensamento. Mas também isto não basta - temos que conhecertambém as suas motivações." (Vigotsky, 1979). Estas concepções acima vão além das teorias mentalistas eabstratas do gerativismo e estruturalismo, incluindo o social comofator essencial da consciência humana. Como o texto trata da relaçãoentre linguagem e pensamento, considerei fundamental discutir alinguagem não só como fruto do psiquismo mas também como fruto dosocial. BIBLIOGRAFIA 110
  • 8. FD4 (2000) ARTIGOSAUSTIN, J. L. Quando dizer é fazer - palavras e ação. Porto Alegre,Artes Médicas, 1990.BACH, E. "A lingüística estrutural e a filosofia da ciência" in: Novasperspectivas lingüísticas. Petrópolis, Vozes, 1970.BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. Hucitec, São Paulo,1992.BRONCKART, J. P. Activités langagières, textes et discours.Paris/Neuchâtel, Delachaux & Niestlé, 1996.CAROLL, J. "Linguagem e psicologia" in: Aspectos da lingüísticamoderna. Cultrix, São Paulo, 1972.CHOMSKY, N. "A linguagem e a mente" in: Novas Perspectivaslingüísticas. Petrópolis, Vozes, 1970.________ Aspects of the theory of syntax. Cambridge, Mass: Mitpress,1965.CRISTAL D. A lingüística. Don Quixote, Lisboa, 1991.DANIELS, H. Vigotsky em foco. Papirus, Campinas, 1993.FREITAS, M. T. Vygotsky e Bakhtin. Ática, São Paulo, 1994.LYONS, J. Linguagem e lingüística. Editora Guanabara, Rio deJaneiro, 1987.MARCONDES, D. Filosofia, linguagem e comunicação. São Paulo,Cortez, 1992.________ Iniciação à história da filosofia. Zahar Rio de Janeiro, 1995.NEF, F. A linguagem. Rio de Janeiro, Zahar, 1995.ROBBINS, R. H. Pequena história da lingüística. Ao Livro Técnico,Rio de Janeiro, 1979.ROULET, E. Teorias lingüísticas, gramática e ensino de línguas. SãoPaulo, Pioneira, 1978.SAPIR, E. A linguagem. Livraria Acadêmica, Rio de Janeiro, 1971.VIGOTSKY, L. Pensamento e linguagem. Edições Antídoto, Lisboa,1979. 111

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