Viking - Daniel de Carvalho

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Viking - Daniel de Carvalho

  1. 1. VIKING – DANIEL DE CARVALHO 1 A ESFERA UMA ESFERA DESLOCAVA-SE silenciosamente atravésdo impressionante e imponderável espaço intergaláctico. Entre osbilhões de galáxias, ela percorria enormes distâncias a umavelocidade próxima da velocidade da luz. Havia partido de umalongínqua região do cosmo, rumo a um alvo situado a milhões deanos luz de seu local de origem. Para um ser humano que pudesse estar próximo da Esfera, elalhe pareceria ter cerca de 30 metros de diâmetro e ser feita demetal altamente polido. Não havia nenhuma rugosidade em suasuperfície extremamente lisa. O espaço intergaláctico seria assustador para tal ser humano.Não fora ele apenas hipotético, não suportaria as inóspitascaracterísticas dessa região. Uma região quase totalmentedesprovida de matéria e muito próxima do vácuo absoluto, onde atemperatura chega a níveis inconcebíveis para a vida humana. Mesmo que esse hipotético ser humano pudesse sobreviverno espaço intergaláctico, ele não teria a mínima disposição paraficar observando a Esfera. Ficaria atordoado pela falta dereferência espacial e temporal. Não haveria para ele a noção do“em cima” e do “em baixo”, nem do quando e do onde. E aindaestaria submetido às angustiantes sensações do nada absoluto, dosilêncio e da desolação. Ele não teria como saber em que época talfato estaria ocorrendo. Não saberia se aquele evento estariaocorrendo em um momento posterior, anterior, ou contemporâneoà existência da Terra. Mas deixemos de lado esse ser humano hipotético e voltemosà Esfera. Ela seguia voando pelas vazias regiões situadas entre asbordas das galáxias, sem entrar nos domínios de nenhuma delas. 1
  2. 2. VIKING – DANIEL DE CARVALHO 2 A ALDEIA MORS Ano 200 A.C. Escandinávia Litoral da Noruega OS VIKINGS TORNARAM-SE conhecidos a partir do ano790 D.C. quando iniciaram suas incursões pela Europa Ocidental.Antes dessa época, apenas existiam na região aldeias isoladasformando pequenos reinos independentes que lutavam ferozmenteentre si. Um desses reinos era a fictícia aldeia Mors, próxima a ummajestoso fiorde localizado bem ao norte da atual Noruega. Osfiordes são golfos estreitos e profundos, espremidos entre altasescarpas pelos quais as águas geladas do mar invadem o interiordo continente. SENTADOS NUMA PLATAFORMA natural, no topo domais alto dos penhascos que contornavam o fiorde de Mors, umamoça e um rapaz apreciavam o início da tarde. A paisagem eradeslumbrante. Lá do alto, eles podiam ver as límpidas águas dogolfo e os punhados de neve acumulados nas saliências dosrochedos. Acostumados ao clima severo da região, elessuportavam com naturalidade a nevasca, o intenso frio e o ventoque os açoitava. Na verdade, estavam muito mais interessados naatração que sentiam um pelo outro. — É a segunda vez que viemos aqui — comentou a moçaaconchegando-se ao calor do casaco felpudo de pele de urso queservia de agasalho ao rapaz. 2
  3. 3. VIKING – DANIEL DE CARVALHO — Com você, eu virei aqui mais mil vezes! — respondeu eleenvolvendo-a carinhosamente em seu braço. — Gosta tanto assim da neve? — maliciou a jovem. O rapaz sorriu sem desviar o olhar daqueles grandes eprovocadores olhos azuis. Depois, murmurou-lhe no ouvido: — Gosto tanto assim... de você. Um beijo demorado ignorou a neve que se acumulava sobreos gorros e sobre os ombros dos casacos. Depois, permaneceramlongo tempo juntinhos, aos beijos, aquecidos pelo calor de seuscorpos e agasalhos. Passados os momentos mais intensos da paixão, voltaram acontemplar a paisagem. Puseram-se então a falar de fatos do dia-a-dia. — Quando o Magni vai voltar? — perguntou Modi. — Faz muitos dias que meu pai partiu em incursão —comentou Dalia. — Certamente, logo estará de volta. — Estou ansioso para ouvir o que ele vai contar desta vez. — Você não participou dessa última incursão, Modi.Pretende participar das próximas? — Sim. Eu gosto de lutar pela nossa Aldeia. Você sabedisso... Dalia permanecia pensativa enquanto, distraidamente, atiravapequenos seixos nas profundezas do abismo. Não demorou muitoaté que fez nova pergunta: — Não está satisfeito com o seu trabalho de extrair e fundir oferro? — Claro que estou! Mas todos os homens de Mors, além deseus trabalhos, também são guerreiros. — Forseti não precisa de você no estaleiro? 3
  4. 4. VIKING – DANIEL DE CARVALHO — Sim. Meu pai até gostaria que eu trabalhasse o tempo todocom ele e meu irmão no estaleiro. Mas eu gosto do meu trabalhona fundição. Mais alguns beijos e carinhos interromperammomentaneamente a conversa. Mas logo depois, Dalia voltou àsperguntas: — Seu pai espera algum dia ficar no lugar do velho rei Vidar.Não é mesmo? — Vidar está muito velho — concordou Modi aderindo àdistração de lançar pedrinhas ribanceira abaixo. — Talvez nãodemore muito para morrer. Mas não esqueça que Loki tambémdeseja o lugar do Rei... A nevasca começou a ficar mais forte enquanto o ventogelado assobiava sonoramente entre as encostas. — É melhor voltarmos! — sugeriu Dalia. Modi sorriu concordando. Levantou-se e deu a mão paraajudá-la a se erguer. Depois pegou seu machado que deixara nochão e o prendeu na cinta, onde também trazia um facão. Oshomens de Mors jamais saiam da Aldeia sem alguma arma paradefender-se de algum animal feroz ou de um forasteiroinesperado. Do local onde estavam, chegariam à Mors descendo emdireção a um extenso bosque situado ao nível do mar. Depois decruzá-lo, ainda seria necessário atravessar um rio saltando sobreas pedras que afloravam na superfície da correnteza. Finalmente,bastaria contornar um grande lago para chegar até a paliçada quecercava a aldeia. Iniciaram, então, a tortuosa descida, quase vertical, emdireção ao bosque. A nevasca se tornara violenta. Eles precisavamde todo cuidado para não rolar penhasco abaixo, pois pisar em 4
  5. 5. VIKING – DANIEL DE CARVALHOfalso num dos muitos seixos roliços, seria escorregar e cair.Entretanto, a nevasca só durou enquanto eles desciam. Assim quechegaram ao sopé do despenhadeiro e alcançaram o terreno planodo bosque, o tempo mudou completamente e a neve cessou decair. — Mais alguns instantes e estaremos na margem do RioMors — comentou Modi enquanto caminhavam afundando os pésno manto branco de neve. Dalia parou um instante e voltou-se para observar o caminhoque haviam feito até então. Tudo estava muito calmo e silencioso.Só havia suas próprias pegadas além de algumas lebres quecorriam ariscas de um lado para outro. Dalia respirou fundo esorriu para Modi demonstrando que poderiam continuarcaminhando. Pouco depois avistaram o Rio Mors. Começaram a atravessá-lo saltando com agilidade de uma pedra para outra, com cuidadopara não escorregar e cair nas águas geladas. O rio não eraprofundo naquele trecho, mas uma queda sobre as pedras poderiacausar ferimentos além de deixá-los molhados, o que não serianada agradável em tão baixa temperatura. Já estavam quase alcançando a margem oposta quandoouviram um melodioso cantarolar. Pararam sobre as pedras emque estavam e ficaram prestando atenção na voz que seaproximava. — Conheço essa voz! — exclamou Dalia. — É o Ull! — Ull, o arqueiro? — Sim! Só ele canta bonito desse jeito! Modi já o ouvira cantar. Concordava que a voz dele erabonita mesmo, mas não ficou muito satisfeito com o entusiasmadoelogio de Dalia. 5
  6. 6. VIKING – DANIEL DE CARVALHO — Vamos, Dalia! — convidou-a Modi para quecontinuassem. — Espere! Acho que ele está vindo para cá... — Esperar para quê? Só para ver aquele arqueiro? Dalia sorriu. Haviam saltado mais algumas pedras quando o cantarolarcessou abruptamente. Olharam para a margem e lá estava ovistoso Arqueiro trazendo um gamo abatido sobre os ombros. Aover o casal, Ull parou de cantar. — O que vocês estão fazendo tão longe da Aldeia? —perguntou-lhes Ull com um cativante sorriso. — Fomos apreciar o fiorde lá do alto de um penhasco —respondeu Dalia no mesmo momento em que saltou para a últimapedra antes da margem. Ull apressou-se em jogar a caça no chão e estender a mãopara ajudá-la. Modi, que vinha logo atrás, não gostou da gentilezado Arqueiro para com sua namorada. — Nossa! Você caçou esse gamo? — perguntou Daliaadmirada. — Faz pouco tempo que o abati — respondeu o Arqueiro. —Mas agora estou indo para o outro lado do rio. Ainda quero caçaralguns gansos antes de voltar para casa. Prometi aos vizinhos quedividiria tudo com eles. Enquanto Ull e Dalia conversavam, Modi observavacontrariado o vistoso Arqueiro. Ull era um rapaz novo, semelhanteao Modi em muitos aspectos. Pouco mais alto e de porte atlético,ele tinha a pele clara, cabelos louros até os ombros e cativantesolhos verdes. 6
  7. 7. VIKING – DANIEL DE CARVALHO — Então vocês escalaram a escarpa? Quando quiserem fazerisso, contem comigo. Poderei protegê-la — disse Ull olhando nosolhos de Dalia. — Por quê? Pensa que não sou capaz de protegê-la? —perguntou Modi com a voz alterada. Ull observou que Modi apertava nervosamente o cabo de seumachado. Respondeu então com um sorriso quase irônico: — Claro que você é capaz! Mas aposto que a Dalia nãodispensaria uma companhia como a minha! — E em que você se acha melhor que eu? — perguntou Modiem vias de sacar seu machado da cintura. — Você sabe que sou o melhor arqueiro que existe —replicou Ull. — Não perco uma caça! E quando estou emincursões, nenhum inimigo sobrevive às minhas flechas. Dalia se deu conta do que poderia acontecer. Segurou omusculoso braço de Modi e disse com preocupação: — Agora vamos, Modi. Está ficando tarde! Modi e Ull ficaram se encarando em silêncio. Olho no olho. — Até logo, Ull — despediu-se Dalia interrompendo aqueleperigoso silêncio. Ull sorriu com tranquilidade e disse: — Também tenho que ir. Vocês sabem que os arqueiroscostumam proteger os elfos que vivem no bosque. Modi sorriu com desdém. Os habitantes de Mors, os morseanos, acreditavam naexistência dos elfos, criaturas que viviam no bosque em contatocom a natureza e que estavam sempre acompanhados de bravosarqueiros. 7
  8. 8. VIKING – DANIEL DE CARVALHO Ull pegou o gamo que deixara no chão e atleticamente jogou-o sobre os ombros pondo-se a atravessar o rio. Ainda no começoda travessia, ele parou e voltou-se: — Dalia, depois que cair a noite, eu vou passar em sua casapara lhe dar uma parte da caça. Ull deu novamente aquele sorriso irônico e continuouatravessando o rio. Modi e Dalia permaneceram parados, olhandopara o arqueiro. — Não quero que você o receba em sua casa — disse Modiem tom de ameaça. — Será que ele protege mesmo os elfos? — perguntou Daliaprocurando desviar o rumo da conversa. Modi deu de ombros e rosnou entre os dentes: — Ele que não se meta comigo! 8
  9. 9. VIKING – DANIEL DE CARVALHO 3 O PLANETA ARRET NA IMENSIDÃO DO UNIVERSO, havia um planeta fictíciochamado Arret. A principal característica desse planeta era ser, emquase tudo, semelhante ao planeta Terra. É pequena a possibilidade de um planeta ser, em quase tudo,semelhante a outro, mesmo num universo com bilhões de galáxiasque nascem, vivem e morrem ao longo de tempos intermináveis.Mas essa probabilidade se confirmou com a existência dosplanetas Terra e Arret. Havia, entretanto, duas grandes diferenças entre eles: Uma dessas diferenças era quanto à localização dessesplanetas no universo. Cinco milhões de anos-luz os separavam! A outra diferença era quanto à época em que eles surgiram nouniverso. Arret surgiu em sua galáxia, um milhão de anos após osurgimento da Terra na Via Láctea. De resto, Arret era em tudo semelhante à Terra. A estrela que fornecia luz e energia a Arret era semelhante aoSol que fornecia luz e energia à Terra. E a distância entre Arret esua estrela era a mesma distância entre a Terra e o Sol. Da mesmaforma, o diâmetro de Arret, sua rotação e translação eramsemelhantes aos seus equivalentes da Terra. Arret abrigava milhares de espécies de seres vivos. E comotinha as mesmas características geológicas da Terra, Arret tambémpossibilitara o surgimento dos arreteanos, seres humanosinteligentes e semelhantes aos seres humanos da Terrra. Os arreteanos, que desenvolveram uma incrível civilização,tinham começado a contar o tempo havia 2010 anos. Entretanto, oano 1 de Arret, só ocorrera um milhão de anos depois do ano 1 daTerra. 9
  10. 10. VIKING – DANIEL DE CARVALHO 4 A ESFERA ENTRA NA VIA LÁCTEA A ESFERA DEIXOU O ESPAÇO intergaláctico emergulhou na Via Láctea, passando a se deslocar no espaçointerestelar dessa galáxia. Nessa fase da viagem, a Esfera passavaao longo de milhares de estrelas orbitadas por seus planetas. AEsfera seguia resoluta para algum lugar e para alguma época pré-determinados. Para o hipotético ser humano que estivesse acompanhando aEsfera em sua viagem, não haveria diferença perceptível entre oespaço intergaláctico e o espaço interestelar onde ele estiveraantes. O espaço entre as estrelas seria tão assustador e inóspitoquanto o espaço entre as galáxias. O espaço interestelar eratambém uma região desprovida de matéria e muito próxima dovácuo absoluto e com temperaturas inconcebíveis para a vidahumana. A falta de referência espacial e temporal continuaria tãoaterradora quanto antes. Mas no espaço interestelar ele teria aimpressão de estar no centro de um enorme globo negro, commilhões de estrelas cintilantes, acima, abaixo, e a toda sua volta. Viajar pelo espaço, nessa escala, é também viajar no tempo.Tanto a Esfera como o hipotético ser humano não estavam apenasviajando no espaço. Mas também no tempo. Esqueçamos novamente o ser humano imaginário eobservemos a Esfera. Ela “viu”, ao longe, um pontinho luminososemelhante aos milhões de outros pontinhos que a circundavam.Tal pontinho era o Sistema Solar. E esse pontinho era de seuinteresse! Passou então a deslocar-se em sua direção até queentrou nos domínios da estrela chamada Sol. 10
  11. 11. VIKING – DANIEL DE CARVALHO 5 A CASA DE MODI DEPOIS DE TEREM DEIXADO o arqueiro Ull, Modi eDalia continuaram caminhando por mais um trecho do bosque atéalcançarem a margem do lago. Como Mors ficava mais adiante,tiveram que contorná-lo. O frio aumentara muito e a temperaturacaíra abaixo de zero. — Você ainda está aborrecido por causa do Ull? —perguntou Dalia. Modi não respondeu. Tinha uma expressão carrancuda. — Fiz uma pergunta! — insistiu Dalia. — Claro que estou aborrecido. Você falou mais do que deviacom aquele idiota. — Não acho que ele seja um idiota. Ele quis ser simpáticoconosco. Só isso. — Conosco, não. Com você! — Ele é assim mesmo. É um brincalhão. — Você o admira, não é mesmo? — Realmente ele tem de tudo para ser admirado... porqualquer pessoa... Modi olhou para ela como quem pede que se expliquemelhor. Dalia começou então a enumerar as qualidades doArqueiro: — Ele é lindo... grandão... canta como ninguém... é valente...excelente arqueiro e ótimo caçador. — Só isso? — perguntou Modi com ironia — Também é educado e agradável! — Então por que você não o namora, em vez de namorar amim? — Porque eu gosto de você! 11
  12. 12. VIKING – DANIEL DE CARVALHO — Mas você acabou de falar com tanto entusiasmo dasqualidades dele... — Mas eu não disse que você não tem qualidades. Essas últimas palavras de Dalia recuperaram em parte o amorpróprio do rapaz. Pararam de caminhar e beijaram-se longamente.Depois seguiram rumo à aldeia. Quando avistaram a paliçada, jáestava começando a escurecer. A paliçada, construída com toras de madeira na posiçãovertical, cercava a aldeia incluindo uma grande enseada que secomunicava com o mar por um estreito canal. A paliçada cruzavaesse canal, havendo um grande portão que só era aberto para apassagem de um barco por vez. No contorno da enseada, ficava oestaleiro de Forseti e também o cais para os barcos de pesca e dosbarcos de guerra, chamados de drakkar pelos morseanos. Na área protegida pela paliçada, além do estaleiro e do cais,ficavam as casas e também algumas atividades produtivas taiscomo a carpintaria do artesão Karl, pai do Arqueiro Ull, e aoficina onde Magni, pai de Dalia, forjava armaduras, armas eutensílios de uso doméstico. Do lado de fora, ficavam as fazendas, os currais, os vinhedos,a olaria para produção de peças de cerâmica, o curtume doarqueiro Ull para produção de peles e couros, a fundição de ferrodo Modi, e a madeireira de seu irmão Hoenir, onde os lenhadorestransformavam as árvores derrubadas no bosque, em pranchaspara construção de casas, móveis e cascos de embarcações. Os morseanos não eram tão cuidadosos a ponto de mantersentinelas nos portões da Aldeia. Estavam tranquilos, pois o medoque os povos vizinhos tinham de seus guerreiros era tão grandeque ninguém se atreveria a atacá-los. O portão que ficava no canale o portão que dava para o bosque permaneciam sempre 12
  13. 13. VIKING – DANIEL DE CARVALHOdestrancados, pois havia constantemente grande movimentoatravés deles. O terreno da aldeia era plano e ficava pouco acima do níveldo mar. Não havia ruas e as casas não mantinham uniformidadeem sua distribuição. Na maioria, eram casas pequenas econstruídas de madeira e pedra com cobertura de capim embebidoem turfa, uma espécie de barro. Na parte mais alta dos telhados,havia uma abertura para o escape da fumaça proveniente do fogoque se costumava acender internamente para aquecimento ecocção. O chão era de terra batida, ou de tábuas nas casas dasfamílias mais privilegiadas. Os sanitários eram coletivos eficavam sobre o mar, em construções tipo palafitas. Um costumecomum da maioria das famílias era abrigar, dentro da casa,animais domésticos como cabras, porcos e galinhas. Modi e Dália passaram pelo portão semiaberto eatravessaram a aldeia. Quando chegaram à frente da casa de Dalia,pararam para conversar antes que ela entrasse. A casa da moça era bem maior que a maioria das outras casasda aldeia. Afinal, aquela era a casa de seu pai, o mais respeitado etemido guerreiro de toda a região. Magni, como uma das maisimportantes figuras da aldeia, gozava de grande consideração porparte do rei Vidar, pois quando não estava em uma de suasincursões, fabricava as armas e as armaduras essenciais para queos guerreiros de Mors pudessem impor seu poderio na região. O casal conversou mais um pouco e logo depois Modi rumoupara sua casa. Atravessou a Aldeia pisando na espessa camada delama formada pela terra e pela neve derretida, até que chegou asua casa. Era também uma casa grande, pois Forseti, o pai deModi, era um respeitado construtor de barcos, além do que,candidato à sucessão do rei Vidar. 13
  14. 14. VIKING – DANIEL DE CARVALHO Já estava escurecendo e a luminosidade do interior da casapodia ser vista pelo lado de fora. Modi aproximou-se da porta e,ao abri-la, constatou que toda sua família estava lá dentro ocupadacom seus afazeres. Antes que entrasse, Snotra, sua mãe, o alertou: — Deixe as botas, aí fora, Modi. — Estou tirando, mãe. Deixando as botas de couro do lado de fora, Modi entrou nogrande cômodo onde a família estava reunida. — Onde você estava até agora, filho? — perguntou Forseti,sentado num banco de madeira enquanto examinava a miniaturade um novo barco de guerra que ele idealizara. — Passeando pelo bosque com a Dalia, pai. A menininha de três anos puxava a perna da calça de linhoque Modi estava usando. — Olhe minha boneca, tio! Modi estava acabando de se desvencilhar do comprido casacode pele de urso, pois o calor do fogareiro e do fogão instaladosdentro da casa mantinha o ambiente muito aquecido. — Deixe-me ver essa boneca! — disse Modi, pegandocarinhosamente sua sobrinha no colo. Era uma boneca feita de uma colher de pau com a carinhadesenhada em sua parte convexa. Um trapo de tecido velho servia-lhe de roupa. — Quem fez a bonequinha pra você? — perguntou Modibeijando o rosto da menininha. Gna apontou o dedinho para sua mãe que trabalhava no tearinstalado no fundo do cômodo. Fulla parou o trabalho que estavatecendo e disse sorrindo para o cunhado: — A Gna ficou tão contente com essa bonequinha quebrincou o dia todo com ela... 14
  15. 15. VIKING – DANIEL DE CARVALHO Modi olhou carinhosamente para a sobrinha em seu colo eacariciou-lhe o queixinho. Em Mors, quase tudo que as famílias possuíam era feito porelas mesmas. Isso incluía roupas, utensílios de cozinha, pequenosmóveis e até suas próprias casas. Entretanto, Mors era bastanteevoluída em relação às aldeias vizinhas, possuindo bons artesãos,carpintaria, fabricação de cerâmicas, couros e peles, produção deartigos de ferro e cobre, produção de lã e fios para tecelagem alémdas atividades de pesca, agricultura e criação de ovelhas. Dessaforma, as famílias tinham também a opção de adquirir o queprecisassem por meio de trocas internas. Praticamente não haviacomércio com outras aldeias. Os homens, quando não estavam participando de incursões aserviço do rei, se dedicavam ao trabalho em suas respectivasprofissões. As mulheres cuidavam da casa e da família.Preparavam os alimentos, o que também implicava em moer osgrãos para obter a farinha, fazer o pão e ordenar as ovelhas. Eainda se encarregavam de tecer e produzir roupas para todafamília. Continuando seu amoroso relacionamento com a família,Modi pôs Gna no chão e foi até o fogão xeretar a comida que suamãe estava preparando para o jantar. Destampou o caldeirão deferro onde o cozido de pato selvagem estava quase no ponto.Depois, roubou um dos pães quentes que estavam sobre a pá demadeira que havia acabado de ser retirada do forno. — Modi — chamou-o Forseti —, venha ver o modelo donovo barco de guerra drakkar que vamos construir. Hoenir, pai da Gna e irmão mais velho de Modi, estavasentado ao lado de Forseti examinando o modelo. Forseti e seusdois filhos puseram-se a discutir com entusiasmo as características 15
  16. 16. VIKING – DANIEL DE CARVALHOdo drakkar que começariam a construir nos próximos dias. Emdado momento, Snotra chamou Modi à atenção: — Modi! Você não reparou que temos visita? Modi já havia percebido a presença da jovem Iounn queestava junto ao tear, ao lado de sua cunhada Fulla. — Como vai, Iounn? — perguntou-lhe com um sorriso. Iounn apenas correspondeu ao sorriso. — Iounn veio nos trazer um recado do rei Vidar! — disseSnotra com um ar misterioso. Modi arregalou os olhos. — Do rei Vidar? Forseti sorriu confirmando. Modi olhou para o irmão e para a mãe quase adivinhando deque se tratava. Depois olhou para Iounn e perguntou: — Qual é o recado, Iounn? Forseti e a família estavam orgulhosos, aguardando paraouvir novamente o recado do rei Vidar. — Hoje — revelou Iounn —, quando levei ao Rei as maçãsdo meu pomar, ele disse que amanhã reunirá o senhor Forseti e oLoki para discutirem a sucessão. E o conselheiro Kvasir tambémvai. Iounn não escondeu a aversão que sentia por Loki ao fazeruma careta de desagrado quando mencionara seu nome. — Pai! Será que o senhor vai ser escolhido para suceder aoRei? — perguntou Modi. — Eu... ou o Loki... — observou Forseti. — Mas o Rei seria capaz de escolher uma pessoa como oLoki? — comentou Hoenir ainda examinando o modelo. Forseti fez uma cara de dúvida. — Não sei... Não sei... 16
  17. 17. VIKING – DANIEL DE CARVALHO — O Loki é um homem detestável — comentou a lindajovem Iounn. — Se ele for escolhido, eu vou desaparecer deMors. Ele já me persegue agora... imagine se chegar a rei! Todos ficaram pensativos, pois Loki era um gigante feioso eimprevisível. Um comerciante extremamente sagaz. Depois de várias conjecturas sobre a sucessão do rei Vidar,Iounn ficou para jantar com a família de Forseti. Mais tarde, comojá era noite, Modi a acompanhou até a fazenda onde ela moravacom os pais. 17
  18. 18. VIKING – DANIEL DE CARVALHO 6 O HOMEM DE ARRET SENDO ARRET GEOLOGICAMENTE semelhante à Terra,eram também semelhantes as condições gerais que deram origemaos seres vivos do planeta. Portanto, o homem de Arret era física ementalmente semelhante ao homem da Terra. Os arreteanos tinham duas teorias quanto à origem da vida: Uma delas era a teoria do Criacionismo, segundo a qual umdeus teria criado Arret e todos os seres vivos. A outra teoria era a da Geração Espontânea, que consideravaque a vida surgira espontaneamente a partir da matéria inerte. Exceto por essa questão controversa sobre o surgimento davida, os arreteanos possuíam bom conhecimento de sua história.Os cientistas acreditavam que os arreteanos surgiram numamesma era, numa mesma região, e depois se espalharamatravessando rios e mares, vales e montanhas. E, ao longo demilhares de anos, foram se estabelecendo em todas as regiões doplaneta. No início, os arreteanos eram nômades, deslocando-seconstantemente para terras onde o alimento fosse mais farto e osriscos menores. Até que aprenderam a cultivar o solo e a criarrebanhos, ficando menos dependentes do extrativismo e da caça.Assim, os arreteanos deixaram de ser nômades e fixaram-se àterra, passando a viver em grupos maiores. Com o passar dotempo foram criando meios para facilitar a vida, desenvolvendoferramentas e objetos de usos diversos. O progresso da ciência ada tecnologia, inicialmente lento, foi se desenvolvendo de formaacelerada, até que no ano de 2010, de Arret, a forma de viver dosarreteanos mudara radicalmente em relação aos primeiros temposde sua história. 18
  19. 19. VIKING – DANIEL DE CARVALHO As antigas aldeias e povoados foram crescendo e ocupandoterritórios cada vez maiores. Alguns povoados progrediam, outroseram atacados e destruídos. Enquanto alguns se subdividiam,outros se juntavam. Assim, foram se formando países e impérios.Porém, mesmo os grandes impérios acabavam voltando a sefragmentar. A história de Arret era uma história de lutas dehomens contra homens, de povos contra povos, de países contrapaíses. Os progressos científicos e tecnológicos eram maravilhosos,podendo propiciar uma vida cada vez melhor ao homem de Arret.Mas o mesmo não ocorria com sua organização social.Desentendimentos e guerras constantes não permitiam aosarreteanos usufruírem totalmente suas descobertas e seu beloplaneta. Quase todas as descobertas científicas, antes de seremaplicadas para o conforto da humanidade, eram imediatamenteusadas como armas de guerra. A história de Arret era uma históriade constantes conflitos. Nos primeiros tempos, as distâncias entre as aldeias eram tãograndes que pouco ou nada um povo podia saber sobre o que sepassava com seus vizinhos. O que um povoado fazia ou deixavade fazer em seu território não incomodava outros povoados. Mas,pouco a pouco, a expansão territorial foi aproximando asfronteiras até que elas se encontrassem. Assim, acabaram-se osespaços “sem dono”. O desenvolvimento dos transportes e das comunicações foitão grande que transformou Arret numa pequena e confusa aldeiaglobal, formada por países soberanos, uns incomodando eameaçando os outros. O que se fazia num país afetava a todos osdemais, consciente ou inconscientemente. O ideal de perpetuação e felicidade da espécie humana ficavaem segundo plano. Em primeiro plano estavam os interesses 19
  20. 20. VIKING – DANIEL DE CARVALHOparticulares e imediatos de cada indivíduo, de cada país e de cadageração. Mergulhado em problemas, Arret chegou em 2010 como umnavio naufragando, no qual cada camarote era soberano e tinhaseu próprio comandante. E cada comandante punha seu camaroteacima do interesse do navio. 20

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