FACULDADE PADRE JOÃO BAGOZZI

KARLA LUS CHUGAM HONÓRIO

A INTERVENÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL NO FENÔMENO DA
CODEPENDÊNCIA: D...
KARLA LUS CHUGAM HONÓRIO

A INTERVENÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL NO FENÔMENO DA
CODEPENDÊNCIA: DESAFIOS E POSSIBILIDADES ENCON...
DEDICATÓRIA

Ao Yahweh Jireh, que me levanta e sustenta
todas as manhãs e às pessoas que me
compõem.
AGRADECIMENTOS

À professora Claúdia C. B. Cobalchini, com grande estima, por ter aceitado o
desafio de orientar este trab...
“A educação será libertadora na medida em que
incentivar a reflexão e a ação consciente e criativa das classes oprimidas e...
RESUMO

Esta pesquisa é fruto do acompanhamento dos atendimentos realizados pelo Assistente
Social na Comunidade Terapêuti...
ABSTRACT

This report by the Social Assistant is the result of her accompanying the services
rendered by the Therapeutic C...
LISTA DE TABELAS
TABELA 1 – COMPARAÇÃO ENTRE DSM-IV E CID-10...............................................21
TABELA 2 – P...
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
AA - Alcoólicos Anônimos
AE - Amor Exigente
AS – Assistente Social
CAPS - Centro de Apoio P...
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO...........................................................................................................
4.1

Histórico da Instituição...........................................................................................41...
INTRODUÇÃO
O presente projeto de pesquisa resultou das ações realizadas nos campos de
estágio, primeiro no estágio voluntá...
fim de proporcionar melhor compreensão acerca do fenômeno e da atuação profissional
do Assistente Social, levantaram-se al...
profissional não pode assumir a responsabilidade de “resolver” o problema, o uso da
reflexão é viável, porém a resolução d...
1

DEPENDÊNCIA QUÍMICA

1.1

DEPENDÊNCIA: UMA RELAÇÃO QUÍMICA E PSICOLÓGICA
Dependência, em latim adictere, significa esta...
fazendo parte das reações bioquímicas, de tal forma que o organismo já as tem como
parte necessária para seu funcionamento...
documentos administrativos e inventários de imóveis descreviam que se consumia
álcool em tâmaras fermentadas. Na Idade Méd...
1.3

A PRESENÇA DAS SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS NA CULTURA BRASILEIRA
Quando os portugueses chegaram ao Brasil, segundo Andrad...
Quando se descobre que o comércio da droga é um dos três maiores negócios
no mundo – petróleo, armamento e as drogas -, e ...
Duarte (2011, p. 93) relata que os aspectos associados à saúde só foram
estudados e discutidos nos últimos dois séculos, s...
Tabela 1: Comparação entre DSM-IV e CID-10
Fonte: Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD, 2011).

Esses dois...
“uma das primeiras” medicações utilizadas para o combate do alcoolismo foi o leite de
jumenta com pó de pulmão de aves.
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Deste processo resultou um crescimento que chegou a um total de
aproximadamente 350 hospitais psiquiátricos particulares n...
em saúde, conforme previsto na Lei Federal que institui o Sistema Único de
Saúde (SUS) no Brasil.

1.5.2 POLÍTICA DE SAÚDE...
Promover assistência no âmbito de cuidados primários; disponibilizar
medicamentos de uso essencial em saúde mental; promov...
Não obstante, existem muitas críticas acerca desse modelo de tratamento
ambulatorial, pois se mostra adequado para parcela...
serviços de saúde, troca de seringa usada por estéreis e descartáveis, distribuição de
preservativos e outros demais servi...
reforçando a urgência da capacitação familiar para que o tratamento do adicto seja
assertivo.
Vários estudos na área de pr...
2

A FAMÍLIA E SEUS ATORES: PROTAGONISMO E SEUS PAPEIS

2.1

BREVE RELATO SOBRE A GÊNESE DA FAMÍLIA
Família, etimologicame...
básico para a sobrevivência, como objetivo principal tem a renúncia à individualidade.
Mais próximas ao sistema vigente, e...
Para Prado (1988), as funções de cada família dependem em grande parte da
faixa que cada uma delas ocupa na sociedade, na ...
em comum, pela cooperação econômica e pela reprodução, bem como, a relação
afetiva. Sielski (1999) acredita que o casament...
As mudanças na família, segundo Bessa (2003, p. 08) ocorrem devido às
mudanças que se originam na sociedade, a autora desc...
comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência,
discriminação, exploração, violência, crueldade e op...
falta de limites, da falta de capacitação, faz com que a família trate do adicto como um
bode expiatório, ou como relata A...
2.7

FAMÍLIA E CODEPENDÊNCIA
Durante um período indeterminado, a família convive com o indivíduo e seu

consumo, dito soci...
3

O FENÔMENO DA CODEPEDÊNCIA

A codependência é um quadro caracterizado por um distúrbio mental
acompanhado de ansiedade,...
dependência química – progressiva, crônica e fatal”, crônica, porém passível de
tratamento”.
Uma das melhores definições s...
próprio”, é o que acontece entre o adicto e o codependente, diga-se de passagem
enquanto o codependente cria vínculo, o ad...
4

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

A presente pesquisa utilizou-se de alguns caminhos para alcançar o seu objetivo
geral, uma...
A fim de conhecer os desafios e as possibilidades de avanços na prática
profissional do Serviço Social, ocorridos nos aten...
reuniões de conscientização, psicoterapia de grupo, laborterapia, práticas esportivas,
atendimento psiquiátrico individual...
Ao analisar os dados acima, percebe-se que a faixa etária dos entrevistados
varia entre 29 a 70 anos de idade. Todos são r...
À margem da interpretação pessoal, o discurso do GRUPO I é apresentado de
forma “ingênua”, ambos não demonstram discrição ...
4.2.2 O QUE SE ENTENDE POR CODEPENDÊNCIA

GRUPO I

GRUPO II

SP1. “Não sei do que se trata”

SP3. “eu sou isso, sofro muit...
comportamento de outra pessoa afetá-la (...)”. Inúmeras são as consequências
negativas geradas pela dependência química no...
4.2.3 O PAPEL DA FAMÍLIA

GRUPO I
SP1.

“Ajudar

ele,

GRUPO II
arrumando SP3. “é de entender que é a DQ é

internamento p...
vida e de suas filhas, por sentir-se na obrigação de protegê-lo das consequências das
escolhas da sua drogadição.
Os sujei...
família, porém, o SP1 não permite que assim aconteça, devido ao ‘impulso’ do cuidado
excessivo.
A SP2 refere, que tem medo...
4.2.5 MUDANÇAS NA FAMÍLIA APÓS ATENDIMENTOS COM O ASSISTENTE
SOCIAL

GRUPO I
SP1. “que meu filho pare de usar
droga”
SP2. ...
(...) os grupos contribuem não só com o aspecto espiritual da doença,
mas com o tratamento de forma integral, pois suas re...
5

SERVIÇO SOCIAL E CODEPENDÊNCIA: UMA RELAÇÃO EM CONSTRUÇÃO

A profissão do Serviço Social está inserida e regulamentada ...
Além dessa relação de construção, acredita-se que um dos grandes desafios
para a profissão - que se dá diante da dependênc...
“(...) aos profissionais da área de saúde, cabe o difícil papel
da sensibilização para que os dependentes químicos e seus
...
A intervenção do assistente social no fenômeno da codependência
A intervenção do assistente social no fenômeno da codependência
A intervenção do assistente social no fenômeno da codependência
A intervenção do assistente social no fenômeno da codependência
A intervenção do assistente social no fenômeno da codependência
A intervenção do assistente social no fenômeno da codependência
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O presente projeto de pesquisa resultou das ações realizadas nos campos de estágio, primeiro no estágio voluntário no Ministério Público do Paraná e, em seguida, no estágio obrigatório na Comunidade Terapêutica Vale do Sol. O interesse pelo tema se originou devido aos acompanhamentos dos atendimentos aos familiares dos adictos1. Pôde-se perceber que o uso nocivo de drogas e/ou do alcoolismo é uma doença que afeta não somente o usuário, mas também a família, muitos se encontravam mais doentes que o próprio adicto, retardando assim a recuperação do mesmo

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A intervenção do assistente social no fenômeno da codependência

  1. 1. FACULDADE PADRE JOÃO BAGOZZI KARLA LUS CHUGAM HONÓRIO A INTERVENÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL NO FENÔMENO DA CODEPENDÊNCIA: DESAFIOS E POSSIBILIDADES ENCONTRADOS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL NA COMUNIDADE VALE DO SOL CURITIBA 2013
  2. 2. KARLA LUS CHUGAM HONÓRIO A INTERVENÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL NO FENÔMENO DA CODEPENDÊNCIA: DESAFIOS E POSSIBILIDADES ENCONTRADOS NA ATUAÇÃO PROFISSIONAL NA COMUNIDADE VALE DO SOL Trabalho de conclusão do curso apresentado a banca examinadora do Curso de Graduação de Serviço Social da Faculdade Padre João Bagozzi como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Serviço Social sob a orientação da Professora Cláudia Cibele Bitdinger Cobalchini. CURITIBA 2013
  3. 3. DEDICATÓRIA Ao Yahweh Jireh, que me levanta e sustenta todas as manhãs e às pessoas que me compõem.
  4. 4. AGRADECIMENTOS À professora Claúdia C. B. Cobalchini, com grande estima, por ter aceitado o desafio de orientar este trabalho e por oportunizar produzir ao seu lado. Ao amigo e supervisor de estágio Marco Aurélio Afornali, por dividir o conhecimento e pelo exemplo de amor e dedicação com que exerce a profissão. Ao professor Leandro J. Araújo, por todo apoio e compreensão dispensados ao longo do curso. À professora Ana Paula Barrios (in memoriam), pela presença marcante em minha vida acadêmica. À Kelley e a Luciana, por terem aberto as portas da Comunidade Vale do Sol. Aos amigos e tantos outros que acrescentaram e continuam dispostos a acrescentar mais um tijolo na construção de um mundo melhor, e que de alguma forma colaboraram para o meu aprendizado, minha eterna gratidão.
  5. 5. “A educação será libertadora na medida em que incentivar a reflexão e a ação consciente e criativa das classes oprimidas em relação ao próprio processo de libertação.” Paulo Freire
  6. 6. RESUMO Esta pesquisa é fruto do acompanhamento dos atendimentos realizados pelo Assistente Social na Comunidade Terapêutica Vale do Sol, partindo da prática de estágio na mesma. Mobilizaram-se reflexões acerca da dependência química, do papel da família na drogadição, consequentemente o fenômeno da codependência. Com foco na abordagem qualitativa, apresenta-se o olhar dos familiares de dependentes químicos e a intervenção do Serviço Social na codependência, os desafios e as possibilidades encontrados na práxis da profissão. Pode-se dizer que a prática profissional neste fenômeno está em processo de construção, embasada no projeto ético-político da profissão. Palavras chaves: Dependência Química; Codependência; Serviço Social.
  7. 7. ABSTRACT This report by the Social Assistant is the result of her accompanying the services rendered by the Therapeutic Community Vale do Sol, during her period of graduate training. Data was gathered concerning chemical dependency, the role of the family in drug addiction, and the phenomenon of codependency. Concentrating on the qualitative approach, this research presents the point of view of the family of chemical dependants, as well as the intervention of the Social Service in co-dependency, with its challenges and possibilities. We can say that professional praxis in this area is in the process of formation, in accordance with the ethics and practice of the profession. Keywords: Chemical Dependency; Codependency; Social Service.
  8. 8. LISTA DE TABELAS TABELA 1 – COMPARAÇÃO ENTRE DSM-IV E CID-10...............................................21 TABELA 2 – POPULAÇÃO E AMOSTRA DE PESQUISA............................................42 TABELA 3 – PERCEPÇÕES DA FAMÍLIA QUANTO À ATUAÇÃO DO PROFISSIONAL DE SERVIÇO SOCIAL....................................................................................................43 TABELA 4 – O QUE SE ENTENDE POR CODEPENDÊNCIA.......................................45 TABELA 5 – O PAPEL DA FAMÍLIA...............................................................................47 TABELA 6 – RESPONSABILIDADES DOS FAMILIARES DE UM DEPENDENTE QUÍMICO.........................................................................................................................48 TABELA 7 – MUDANÇAS NA FAMÍLIA APÓS ATENDIMENTOS COM O ASSISTENTE SOCIAL...........................................................................................................................50
  9. 9. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS AA - Alcoólicos Anônimos AE - Amor Exigente AS – Assistente Social CAPS - Centro de Apoio Psicossocial CAPS AD - Centro de Apoio Psicossocial – Álcool e Drogas CID-10 - Classificação Internacional de Doenças DQ – Dependente Químico DSM-IV - Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais FEBRACT - Federação Brasileira de Comunidades Terapêuticas MS - Ministério de Saúde OMS – Organização Mundial de Saúde RD - Redução de Danos SENAD – Secretaria Nacional Antidrogas SNC - Sistema Nervoso Central SUS - Sistema Único de Saúde SUAS – Sistema Único da Assistência Social PNAS – Política Nacional da Assistência Social
  10. 10. SUMÁRIO INTRODUÇÃO................................................................................................................12 1 DEPENDÊNCIA QUÍMICA......................................................................................15 1.1 Dependência: uma relação química e psicológica..................................................15 1.2 Cultura socialmente “lícita”......................................................................................16 1.3 A presença das substâncias psicoativas na cultura brasileira................................18 1.4 Drogas: Classificação e efeitos no organismo........................................................19 1.5 Dependência Química: detectação, prevenção e tratamento.................................21 1.5.1 Reforma Psiquiátrica no Brasil...............................................................................22 1.5.2 Política de Saúde Brasileira...................................................................................24 1.5.3 Rede Assistencial para usuários de álcool e outras drogas...................................26 1.6 O papel da família no uso de drogas......................................................................27 2 A FAMÍLIA E SEUS ATORES: PROTAGONISMO E SEUS PAPEIS..................29 2.1 Breve relato sobre a gênese da família..................................................................29 2.2 As funções da família.............................................................................................30 2.3 A família na contemporaneidade............................................................................31 2.4 A família como questão social................................................................................32 2.5 Família e dependência química..............................................................................34 2.6 Família: uma relação de dependência emocional e química.................................35 2.7 Família e codependência.......................................................................................36 3 O FENÔMENO DA CODEPENDÊNCIA................................................................37 3.1 Quem é o codependente?......................................................................................38 4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS..............................................................40
  11. 11. 4.1 Histórico da Instituição...........................................................................................41 4.2 População e Amostra da Pesquisa........................................................................42 4.2.1 Percepções da família quanto à atuação do profissional de Serviço Social..........43 4.2.2 O que se entende por Codependência...................................................................45 4.2.3 O papel da família..................................................................................................47 4.2.4 Responsabilidades dos familiares de um dependente químico.............................48 4.2.5 Mudanças na família após atendimentos com o Assistente Social........................50 5 SERVIÇO SOCIAL E CODEPENDÊNCIA: UMA RELAÇÃO EM CONSTRUÇÃO...52 5.1 Desafios e dificuldades encontradas no desenvolvimento do trabalho com famílias de dependentes químicos...............................................................................................53 5.1.2 Sendo a codependência algo relativo à subjetividade do ser, qual a visão do A.S sobre este tema e de que forma orienta o exercício da profissão neste fenômeno........55 5.1.3 Metodologia utilizada no acompanhamento das famílias......................................56 5.1.4 Formas assertivas de realizar os atendimentos....................................................57 5.1.5 Em meio às adversidades e contradições do exercício da profissão, possibilidades apresentadas ao longo do trabalho realizado.................................................................58 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS..................................................................................59 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................................62 REFERÊNCIAS ELETRÔNICAS.........................................................................66 APÊNDICES.........................................................................................................67 ANEXOS..............................................................................................................70 GLOSSÁRIO........................................................................................................72
  12. 12. INTRODUÇÃO O presente projeto de pesquisa resultou das ações realizadas nos campos de estágio, primeiro no estágio voluntário no Ministério Público do Paraná e, em seguida, no estágio obrigatório na Comunidade Terapêutica Vale do Sol. O interesse pelo tema se originou devido aos acompanhamentos dos atendimentos aos familiares dos adictos1. Pôde-se perceber que o uso nocivo de drogas e/ou do alcoolismo é uma doença que afeta não somente o usuário, mas também a família, muitos se encontravam mais doentes que o próprio adicto, retardando assim a recuperação do mesmo. A pesquisa tem como objetivo conhecer o papel e a importância da intervenção profissional do Assistente Social no fenômeno da codependência 2 e, por meio dessa, analisar, segundo o profissional, os desafios e as possibilidades encontrados para a capacitação da família acerca da dependência química. Com as famílias, a caracterização dos processos que envolvem a intervenção do profissional e a representação sobre a dependência química. A fim de viabilizar o estudo proposto, com desígnio de obter subsídios teóricos, a metodologia foi desenvolvida por meio de pesquisa bibliográfica, mediante consulta de materiais impressos – documentos oficiais, teses, livros, periódicos, revistas, entre outros –, e informações disponíveis na internet. Após a delimitação do universo a ser estudado, optou-se por investigar quatro famílias que foram acompanhadas pelo Assistente Social da Instituição. A pesquisa realizar-se-á por meio de entrevistas baseadas em roteiro aberto3 e semiestruturado. A 1 Adicto (latim addictus, -a, -um, particípio passado de addico, -ere, aprovar, dar assentimento a, ser favorável, adjudicar, vender, consagrar, dedicar) adj 1. Que está com outro ou se lhe junta por afeição. = AFEIÇOADO, DEDICADO 2. Que depende de ou se submete a. = DEPENDENTE, SUBMISSO adj. s. m. 3. Que ou quem depende de algo, geralmente de alguma substância química. = DEPENDENTE (Disponível:< http://www.priberam.pt>. Acesso em 31 mai.2012). 2 Com base na Organização Mundial de Saúde (2006, OMS), “codependente é um parente, amigo próximo ou colega de uma pessoa alcoolista ou dependente de drogas, cujas reações são definidas por este termo como tendendo a perpetuar a dependência daquela pessoa e, daí, retardam o processo de recuperação”. 3 Para Minayo (1993), a entrevista aberta é utilizada quando o pesquisador deseja obter o maior número possível de informações sobre determinado tema, dando ênfase à visão do entrevistado e também para obter um maior detalhamento do assunto em questão. Segundo a autora, a entrevista é utilizada 12
  13. 13. fim de proporcionar melhor compreensão acerca do fenômeno e da atuação profissional do Assistente Social, levantaram-se algumas indagações, as quais subsidiarão a ideia deste estudo. Destacam-se as seguintes questões:  Tratando-se a codependência assunto que se refere à subjetividade do ser, qual o papel do Assistente Social nesse contexto?  Quais os desafios e as possibilidades do Serviço Social no atendimento às famílias?  Qual o entendimento da família acerca da codependência e a percepção em relação ao trabalho do Serviço Social? Portanto, o objetivo geral da pesquisa é o de compreender a atuação do Serviço Social no fenômeno da codependência junto às famílias acompanhadas pelo Assistente Social na Comunidade Terapêutica Vale do Sol. E os objetivos específicos são de: analisar o papel e as ações do Serviço Social junto às famílias codependentes; identificar a percepção da família quanto ao comportamento codependente; investigar o entendimento da família no que se refere ao trabalho do Serviço Social; caracterizar os desafios e as possibilidades da intervenção profissional. Na atuação do Serviço Social, no que se refere à dependência química, entendese como uma das diversas expressões da questão social4. Na reconceitualização do objeto do Serviço Social, ao eleger as situações problemas, Kisnerman (1978) retrata que existem três alternativas de ação frente às problemáticas: racioná-la sem tocá-la; contornar o problema - porém isso o tornará vigente; ou enfrentá-la frontalmente, ou seja, assumir refletir e resolver o problema, valendo-se do auxilio de um profissional para ajudar na solução. Segundo o ponto de vista do autor, acredita-se que a intervenção do Serviço Social, no objeto da Codependência, se dá na terceira alternativa, por meio de orientações, e encaminhamentos aos equipamentos e aos respectivos profissionais, conforme demanda apresentada. Todavia sabe-se que o geralmente na descrição de casos individuais, na compreensão de especificidades culturais para determinados grupos e para comparabilidade de diversos casos. 4 Questão social é o conjunto das expressões das desigualdades da sociedade capitalista madura, que tem uma raiz comum: a produção social é cada vez mais coletiva, o trabalho torna-se mais amplamente social, enquanto a apropriação dos seus frutos mantém-se privada, monopolizada por uma parte da sociedade (IAMAMOTO, 2000, p. 27). 13
  14. 14. profissional não pode assumir a responsabilidade de “resolver” o problema, o uso da reflexão é viável, porém a resolução da questão vai além da relação imediata da família, pois se trata das expressões da questão social, que é fruto do sistema capitalista, o que implica muita responsabilidade para a profissão, resultando em uma responsabilidade messiânica. Assim, a fim de realizar o viável, no decorrer da pesquisa concentrar-se-ão esforços para refletir parte da complexidade sobre o tema. A presente pesquisa está divida em cinco capítulos. O primeiro capítulo traz um panorama sucinto sobre a Dependência Química - contexto cultural, classificação das drogas e seus efeitos - Reforma Psiquiátrica, Política de Saúde Brasileira e Rede Assistencial. O segundo capítulo aborda, de forma breve, a representação social da chamada família, o protagonismo dos atores e os seus papéis dentro desse contexto, a família na questão social, na dependência química e codependência. No terceiro capítulo apresenta-se o fenômeno da Codependência, o perfil e as funções do codependente. No quarto capítulo, constam os procedimentos metodológicos, a amostra da pesquisa e a análise de dados. No quinto capítulo, o olhar do Serviço Social acerca da Codependência. 14
  15. 15. 1 DEPENDÊNCIA QUÍMICA 1.1 DEPENDÊNCIA: UMA RELAÇÃO QUÍMICA E PSICOLÓGICA Dependência, em latim adictere, significa estar preso ou escravizado. O ser humano escolhe formas de dependência, e tem uma gama de opções – financeira, emocional, relacional, química. Toda dependência tem um componente biológico, psicológico, social, familiar ou espiritual (AFORNALI, 2011). A Organização Mundial de Saúde (OMS) através da Classificação Internacional de Doenças (CID-10) preconiza que a dependência química é uma enfermidade incurável e progressiva, apesar de poder ser estacionada pela abstinência. Definido pela CID-10 (1993) como um conjunto de fenômenos comportamentais, cognitivos e fisiológicos que se desenvolvem, após repetido consumo de uma substância psicoativa, tipicamente associado ao desejo poderoso de tomar a droga, à dificuldade de controlar o consumo, à utilização persistente apesar das suas consequências nefastas, a uma maior prioridade dada ao uso da droga em detrimento de outras atividades e obrigações. A dependência química é uma doença que atinge 10% (dez por cento) da população mundial, é uma doença totalmente democrática que não escolhe raça, religião, estada social ou região do mundo, ocorre nos palácios, nas favelas e na classe média (GONÇALVES, 2010). Para Afornali (2011, p.16), a dependência química abrange todos os componentes envolvidos nas demais dependências, sendo, assim, um problema de ordem biológica, psicológica, familiar e espiritual, e ainda carrega consigo um fenômeno chamado codependência5. Para uma melhor compreensão acerca da dependência química, é preciso entender que ela pode se apresentar em duas formas de dependências: física e a psicológica. A dependência física, segundo Tiba, citado por Ferreira (2008), é causada pelas drogas que funcionam da forma em que entram no metabolismo do indivíduo, 5 Segundo o autor, tal fenômeno propicia e intensifica a dependência emocional, relacional, financeira do dependente químico com os seus. 15
  16. 16. fazendo parte das reações bioquímicas, de tal forma que o organismo já as tem como parte necessária para seu funcionamento adequado. Em Schuckit (apud FERREIRA, 2008.), a manifestação da dependência física só dá quando existe interrupção no uso, o que acarreta o desenvolvimento dos sintomas, uma vez que o corpo está adaptado fisiologicamente ao uso contínuo da substância. Paula (ibid.) comenta ser preciso distinguir para poder prevenir a síndrome de abstinência6, e no que refere à dependência psicológica, a autora aponta a droga como sendo o centro da vida do indivíduo, que tem influência em seus pensamentos, atividades e emoções diárias, de tal forma que resistir à vontade constante e parar de usá-la seria algo de grande dificuldade, seus sintomas são manifestados por meio de ansiedade e dificuldade de concentração, porém é variável em cada sujeito. 1.2 CULTURA SOCIALMENTE “LÍCITA” Sielski (1999, p. 17) relata que, desde que o homo sapiens ficou mais sabido, descobriu e passou a utilizar as diversas substâncias químicas que a generosa natureza colocou à sua disposição, parte como alimento, parte como suplemento. Para o autor, a falta de registros deixados pelos antepassados impede de saber na íntegra como tudo começou. Desde a antiguidade os povos primitivos já faziam uso de drogas e medicamentos para o alívio e tratamento dos enfermos; no primeiro milênio, 6 O ato de renuncia a droga pode causar sérias perturbações ao organismo dependente, desde alterações comportamentais até sensações físicas. Os sintomas são:sofrimento mental; sofrimento físico e mal-estar. A Síndrome pode se dividir em: SAA – Síndrome de Abstinência Aguda e a SAD – Síndrome de Abstinência Demorada. A primeira pode ocorrer na ausência do composto viciante entre 3 a 10 dias do último uso, já a segunda se difere nos sintomas, que podem ser visualizados entre a sobriedade do indivíduo ocorrendo no intervalo de meses ou até anos após o uso. Alguns sintomas provenientes da SAD são: mente confusa, problemas de coordenação motora, problema de memória, reação emocional exagerada ou apatia e distúrbio do sono ou alteração. A SAD, portanto, é a mais severa e preocupante, pois dela pode resultar danos cerebrais importantes e até mesmo recaídas. Fonte: <http://www.infoescola.com/drogas/sindrome-de-abstinencia/> acesso em: 14 jun. 2013 16
  17. 17. documentos administrativos e inventários de imóveis descreviam que se consumia álcool em tâmaras fermentadas. Na Idade Média as tribos discutiam suas questões durante os banquetes, o álcool soltava as línguas e fazia com que todos se expressassem sem esconderem a essência de um pensamento, porém as decisões eram deixadas para o dia seguinte, quando os vapores do álcool não toldavam mais os espíritos (AFORNALI, 2007). Percebe-se que desde os primórdios, as relações sociais se compunham de tais “rituais”: Afornali (2007) cita a relação existente entre a Igreja, os fiéis e seus banquetes, como sendo uma comunhão, e também uma “barganha”, pela ideia de que os homens aceitariam com mais constância efetuar dada tarefa se obtivessem algo em “troca”. Vários concílios surgidos eram contra o abuso do vinho, para os clérigos e para os leigos; Carlos Magno (742-814) não bebia e pregava a sobriedade a todos, combatendo os abusos, os beberrões eram chibateados e se recaíam eram levados ao pelourinho (SIELSKI, 1999). Ainda hoje é marcada na história da Igreja uma linha tênue entre as festas dedicadas aos santos patronos, à venda de bebida alcoólica e as diversas pastorais que trabalham na prevenção ou tratamento contra o uso e abuso de álcool, percebe-se uma via de duas mãos, um tanto paradoxal. Além dos filmes, novelas, revistas, jornais e outdoors que incentivam ao uso de alguma “coisa” (sic), desde a tenra idade é passado na literatura infantil, talvez não intencionalmente, mas serve como incentivo a fazer uso de alguma substância, por ex. A Tia Nastácia faz uso do pó de pirlimpimpim para fazer uma viagem; Alice toma algum chá e come cogumelos para se sentir mais feliz e ir ao País das Maravilhas; Peter Pan faz uso de algo para viajar à Terra do Nunca (GONÇALVES, 2010). A produção de bebidas, cigarros e de drogas de todos os tipos é fantástica em todo o mundo, tal produção conta com a ajuda da mídia que é especialista em seduzir o espectador e levá-lo ao consumo desenfreado, apoiando assim os grandes grupos que aí investem e agradecem pelos astronômicos lucros que obtêm por meio da escravidão daqueles que se tornam alienados para se sentirem aliviados dos seus problemas, sejam sociais, emocionais ou de qualquer outro cunho (SIELSKI, 1999). 17
  18. 18. 1.3 A PRESENÇA DAS SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS NA CULTURA BRASILEIRA Quando os portugueses chegaram ao Brasil, segundo Andrade (1996), no inicio da colonização, descobriram os costumes indígenas de produzir e beber uma bebida forte fermentada a partir da mandioca, denominada cauim. A mesma era utilizada em rituais, festas, dentro de uma pauta cultural bem definida. O uso do tabaco também era habitual no costume indígena, porém, desconhecido dos portugueses e de outros europeus. Com o passar do tempo, aprenderam a fazer a cachaça, no processo de fabricação do mosto7, acabaram descobrindo um melaço que colocavam no cocho para os animais e escravos, denominado de “Cagaça8”. De acordo com Darci Ribeiro, citado por Andrade (1996), o açúcar era para adoçar a boca dos europeus, da amargura da escravidão; a cachaça para alterar a consciência, para calar as dores do corpo e da alma, para açoitar espíritos em festas, para atiçar a coragem em covardes e para aplacar as traições e ilusões. Se fizermos uma analogia com os tempos atuais, perceberemos que a história se repete, para os que estão à margem, que buscam justificativa no uso de entorpecentes para aliviar a realidade desigual que permeia a sociedade. O uso da maconha foi introduzido no Brasil pelos escravos africanos e foi difundida também entre os indígenas, consumida com propósito medicinal e nas atividades recreativas como a pesca e nas rodas de conversas (ANDRADE, 1996). Havia duas classes de “vícios”: os “elegantes” que eram o da morfina, heroína e cocaína, consumidas pelas elites; e os “deselegantes”, destacando-se o alcoolismo e o maconhismo, próprios das camadas pobres, em geral, segundo o autor, formadas por negros e seus descendentes. Ainda hoje a sociedade reproduz parte deste estigma, inclui-se também o crack, como sendo parte desta classe marginalizada (ibidem). Um fato incontestável, essa realidade nacional em que permanece a associação “pobre-preto-maconheiro-marginal-bandido” traduzida assim nas abordagens policiais dirigidas às pessoas autuadas pelo porte de maconha, sendo muito mais severas nas periferias do que em áreas mais ricas e socioeconomicamente mais favorecidas (ibid.). 7 Caldo em processo de fermentação que é extraído na produção do açúcar a partir da cana-de-açúcar (anotações do autor). 8 Que depois veio a ser Cachaça, destilada em alambique de barro, mais tarde, de cobre (ibidem). 18
  19. 19. Quando se descobre que o comércio da droga é um dos três maiores negócios no mundo – petróleo, armamento e as drogas -, e o que fomenta este mercado é uma atividade “empresarial” altamente organizada, envolvendo empresas que investem em pesquisas e desenvolvem constantemente novas drogas sintéticas, tais preconceitos e ignorâncias acerca do assunto acabam sendo desmistificados (GONÇALVES, 2010). 1.4 DROGAS: CLASSIFICAÇÃO E EFEITOS NO ORGANISMO Segundo a definição da OMS (2006), droga é qualquer substância não produzida pelo organismo que tem a propriedade de atuar sobre um ou mais de seus sistemas, causando alterações em seu funcionamento. Do ponto de vista psicológico, pode-se entender como sendo uma grande muleta, qual pode ser usada para fugir e não enfrentar um problema. Fazemos parte de uma geração que foi criada e treinada para não sentir nenhum tipo de dor, nem física, muito menos emocional, psicológica (GONÇALVES, 2010). A CID-10 (1993) em seu capítulo V, sobre Transtornos Mentais e de Comportamento, incluiu em sua lista de substâncias o álcool, opioides (morfina, heroína, codeína, diversas substâncias sintéticas), canabinoides (maconha), sedativos e hipnóticos (barbitúricos, benzodiazepínicos), cocaína, estimulantes (anfetaminas e substâncias relacionadas à cafeína), alucinógenos, tabaco e solventes voláteis. Diante do ponto de vista legal, classificam-se as drogas em lícitas9 e ilícitas10. No interesse didático, existe uma classificação que se baseia nas ações aparentes das drogas sobre o sistema nervoso central (SNC), conforme as modificações observáveis na atividade mental ou no comportamento da pessoa que utiliza a substância, sendo elas drogas depressoras11, estimulantes12 e perturbadoras13 da atividade mental (SENAD, 2011). 9 Comercializadas de forma legal, podendo ou não estar submetidas a algum tipo de restrição, como o álcool e alguns medicamentos que só podem ser adquiridos por meio de prescrição médica especial. 10 Proibidas por lei. 11 Substâncias que diferem em suas propriedades físicas e químicas tendem a reduzir a atividade motora, a dor e ansiedade, efeito euforizante no inicio e, posteriormente, aumento de sonolência. Sendo elas: álcool, barbitúricos, benzodiazepínicos, opioides, solventes e inalantes. 19
  20. 20. Duarte (2011, p. 93) relata que os aspectos associados à saúde só foram estudados e discutidos nos últimos dois séculos, sendo que, anteriormente, o que predominava eram as visões do senso comum e de preconceitos, pelas quais os usuários eram vistos como “possuídos por forças do mal”, desprovidos de “força de vontade” e portadores de falhas de caráter, “sem vergonha”. Para melhor diagnosticar o uso abusivo14 e a dependência, existem alguns conceitos, que, para Andrade (2009) ajudam a entender a epidemiologia15 do uso de substâncias psicoativas. Segundo a CID-10 (1993), o “uso de drogas” é autoadministração de qualquer quantidade de substância psicoativa, o termo “uso nocivo” é aquele que resulta em dano físico ou mental, enquanto no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV), “abuso” engloba consequências sociais. Para melhor compreensão observe-se na tabela I, que se segue, a comparação entre os critérios referidos no DSM-IV e na CID-10. 12 Capazes de aumentar a atividade de determinados sistemas neuronais, o que traz como consequências estado de alerta exagerado, insônia e aceleração dos processos psíquicos. Ex.: tabaco, anfetaminas e cocaína. 13 Provocam alterações no funcionamento cerebral, que resultam em vários fenômenos psíquicos anormais, como delírios e alucinações. Por ex.: maconha, alucinógenos – LSD, ecstasy – e diversas plantas. 14 Há uma diferença entre os padrões de consumo, entre eles, uso/abuso/dependência, podemos definir como uso o consumo de qualquer substância, o uso experimental, que se dá poucos episódios infrequentes ou não persistentes, o uso recreativo, acontece em circunstâncias sociais ou relaxantes, sem implicações de problemas, o uso controlado é a manutenção, não compulsivo e que não interfere no funcionamento habitual do indivíduo e o uso social, é aquele em companhia de outras pessoas de maneira socialmente aceitável. O abuso pode ser definido como qualquer consumo de drogas que cause dano, ou ameace causar dano à saúde física, mental ou no meio social, de um individuo ou na sociedade em geral. A dependência é um estado psíquico e, as vezes físico resultante da interação de um organismo vivo e uma droga, caracterizado por um conjunto de respostas comportamentais que incluem a compulsão a consumir a substância de forma continuada (DENARC, 2012). 15 A palavra vem do grego epideméion (aquele que visita): epí (sobre), demós (povo), logos (palavra, discurso, estudo). Etimologicamente significa “ciência do que ocorre com o povo” (SENAD, 2011). 20
  21. 21. Tabela 1: Comparação entre DSM-IV e CID-10 Fonte: Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD, 2011). Esses dois sistemas de classificação facilitam identificar o dependente de substância psicoativa, ficando fácil estabelecer o melhor programa terapêutico para esses indivíduos, permitindo diagnóstico e classificação da doença. Ambos, DSM-IV e a CID-10, diagnosticam que, três ou mais manifestações que ocorrem por períodos menores que um mês de forma repetida durante um ano, são critérios para deduzir que a pessoa é dependente de substâncias psicoativas, entre eles estão: tolerância16; abstinência17; a substância é frequentemente consumida em maiores quantidades. 1.5 DEPENDÊNCIA QUÍMICA: DETECTAÇÃO, PREVENÇÃO E TRATAMENTO Para Afornali (2007), com o consumo exagerado, consequentemente houve o aumento dos problemas de compulsão e começaram a surgir as primeiras preocupações com a redução de seu uso e indicações de tratamento. Segundo o autor, 16 Necessidade de quantidade progressiva maior para adquirir a intoxicação ou o efeito desejado e redução do efeito com o uso continuado da mesma quantidade (BRASIL, 2004). 17 Síndrome da abstinência característica para a substância; a mesma ou outra substância é consumida para aliviar ou evitar sintomas da abstinência (BRASIL, 2004). 21
  22. 22. “uma das primeiras” medicações utilizadas para o combate do alcoolismo foi o leite de jumenta com pó de pulmão de aves. Antes de identificar os serviços de prevenção, tratamento e reabilitação, é importante conhecer um breve apanhado histórico sobre a reforma psiquiátrica no Brasil, a política brasileira de saúde e a forma que esses serviços são organizados no sistema. 1.5.1 REFORMA PSIQUIÁTRICA NO BRASIL O primeiro momento de preocupação efetiva com o doente mental no Brasil foi em 1841, quando se autorizou, por decreto, a construção do hospício. O motivo de tal decisão “foi à perturbação do funcionamento do Cais do Rio de Janeiro pelos inúmeros loucos que por ali perambulavam”. Em 1852, onze anos depois foi inaugurado o Hospício Pedro II, o qual recebeu, de imediato, 144 pacientes oriundos dos porões da Santa Casa e de uma instalação provisória que existia na Praia Vermelha (ABP18, 2006). Com a Proclamação da República, o Asilo, controlado pela Igreja e ligado à Monarquia, tornou-se responsabilidade do novo Governo. O Hospício Nacional de Alienados, superlotado e oneroso, entrou em crise agravada pela crescente demanda, fazendo-se necessárias enérgicas medidas com a finalidade de solucionar problema tão grave, atenuando assim os elevados custos (ABP, 2006). Em função destes, surgiu o Serviço Nacional de Doenças Mentais, que mais tarde se constituiu na Divisão Nacional de Saúde Mental – DINSAM e hoje é a Coordenadoria Geral de Saúde Mental do Ministério da Saúde. Na época em que surgiram as Colônias, elas eram o que de melhor se podia oferecer à população, mas a partir da década de 1950, com a superlotação, o sistema entra em falência, principalmente pelo seu gigantismo e elevados custos operacionais, gerando a incontrolável crise da assistência psiquiátrica estatal, a qual se prolonga até os dias de hoje (ibid.). 18 Associação Brasileira de Psiquiatria 22
  23. 23. Deste processo resultou um crescimento que chegou a um total de aproximadamente 350 hospitais psiquiátricos particulares no início da década de 1980, sendo que cerca de 70% dos mais de 80.000 leitos da iniciativa privada eram custeados pelo INAMPS19, que ao surgir assumiu modelo assistencial que buscou a substituição dos grandes asilos por hospitais psiquiátricos particulares de pequeno e médio porte, cujos serviços contratou, porque eram mais eficientes e econômicos, de fácil acesso para a população e simples de fiscalizar (ibid.). Faltou o Estado dar condições para o surgimento de serviços que pudessem completar o sistema com as demais modalidades de ação terapêutica. Assim, foram construídos ambulatórios e serviços de emergência, mas não em número suficiente. A reforma psiquiátrica se originou no início na década de 70, por reivindicações de médicos e familiares de pessoas com transtornos mentais (ibid.). Em síntese, o intuito da Reforma Psiquiátrica foi de modificar o sistema de tratamento clínico da doença mental, eliminando gradualmente a internação como forma de exclusão, modelo este que seria substituído por uma rede de serviços territoriais de atenção psicossocial, visando à integração da pessoa que sofre de transtornos mentais à comunidade/sociedade. Assim, a reforma psiquiátrica propõe a desativação gradual dos manicômios, para que aqueles que sofrem de transtornos mentais possam conviver livremente na sociedade - diga-se de passagem, muitos sequer têm nome conhecido, documentos, familiares, dificultando a reinserção social e também não possuem acesso aos benefícios sociais oferecidos pelo Estado, como a aposentadoria e auxílio-doença (ibid.). A Reforma representa um salto na história, mas somente em abril de 2001 foi aprovada a Lei Federal de Saúde Mental, n.° 10.216, que regulamenta o processo da Reforma Psiquiátrica no Brasil. A rede territorial de serviços, proposta na Reforma Psiquiátrica inclui Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Centros de Convivência e Cultura Assistidos, Cooperativas de Trabalho Protegido (Economia Solidária), Oficinas de Geração de Renda e Residências Terapêuticas, descentralizando e territorializando o atendimento 19 Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social. 23
  24. 24. em saúde, conforme previsto na Lei Federal que institui o Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil. 1.5.2 POLÍTICA DE SAÚDE BRASILEIRA A política de saúde brasileira foi formulada a fim de viabilizar a garantia normativa máxima do direito à saúde, pois, na década de 1980, o intenso debate sobre os direitos humanos teve como ponto culminante a elaboração da Constituição de 1988, na qual se destaca a saúde como uma das condições essenciais à vida digna, sendo um direito humano fundamental (BRASIL, 2004). Organizado pelas Leis 8.080/1990 e 8.142/1990 e com o princípio constitucional, ocorreu à implantação do SUS, pelo qual a saúde passou a ser pensada como obrigatoriedade do Estado. O SUS foi concebido com base nos seguintes princípios doutrinários (BRASIL, 2004): Universalidade: assegura o direito à saúde a todos os cidadãos, independente de condição de saúde, gênero, idade, região, condição financeira, etc.; Integralidade: considera as diversas dimensões do processo saúdedoença que afetam o individuo e a coletividade, atuando, portanto, na promoção, prevenção e tratamento de agravos; Equidade: garante o direito à assistência de acordo com o nível de complexidade / anuência. As diretrizes organizativas20 do SUS proporcionam maior efetividade aos referidos princípios, assegurando assim a saúde como obrigatoriedade do Estado (ibidem). Quanto ao uso indevido de drogas, em 2003 foi publicada no Brasil a Política do Ministério de Saúde (MS) para atenção integral a Usuários de Álcool e Outras Drogas, concebida e articulada pela Política da Saúde Mental. Esta concepção da atual política do MS se baseia nas recomendações básicas para ações na área da saúde mental da OMS (2006): 20 Descentralização, hierarquização e a participação comunitária. 24
  25. 25. Promover assistência no âmbito de cuidados primários; disponibilizar medicamentos de uso essencial em saúde mental; promover cuidados comunitários; educar a população; envolver comunidades, famílias e usuários; estabelecer políticas, programas e legislações específicas; desenvolver recursos humanos; atuar de forma integrada com outros setores; monitorar a saúde mental da comunidade e apoiar as pesquisas. O Ministério da Saúde (2003) separa três grupos de portadores de transtornos mentais: GRUPO 1: Transtornos mentais graves e persistentes. Este grupo necessita de atenção e atendimento mais intenso, de maior complexidade e contínuo em Saúde Mental. GRUPO 2: Transtornos psiquiátricos graves decorrentes do uso de álcool e outras drogas. Este grupo também necessita de atenção específica e atendimentos constantes. GRUPO 3: Atendimento em Saúde Mental, seja ele contínuo ou eventual. Este grupo, no qual estão incluídos os inadequadamente denominados “males menores”, é o que mais cresce atualmente. Nele estão inseridos os paciente com transtornos depressivos e ansiosos. Ancorado pela Lei Federal 10.216/2001 e por meio de portarias internas21, o MS vem estruturando os serviços de atenção a usuários de álcool e outras drogas nos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD)22. Percebe-se que o referido público abordado na presente pesquisa está inserido no grupo dois, qual é denominado como “transtornos mentais graves e persistentes”, a pergunta que fica, em meio a um tema de um debate em andamento no Brasil há anos e que as resoluções tomadas neste processo ainda não foram totalmente implementadas -, quais são as estruturas e condições sociais e econômicas que o Brasil tem para tal? Para alguns estudiosos da área, os parâmetros assistências são elaborados com base num sistema de ideias que refletem os próprios interesses e nas disponibilidades orçamentárias e carecem de base científica (ABP, 2006). 21 Portarias que norteiam a atenção aos usuários de álcool e outras drogas: GM/MS 336/2002; GM/SM 816/2002; GM/MS 2.197/2004; GM/MS 384/2005 e GM/MS 1.612/2005. 22 São serviços comunitários ambulatoriais que tomam para si a responsabilidade de cuidar de pessoas que sofrem de transtornos mentais, especialmente os severos e persistentes. Dentre outras funções e objetivos, trabalha com atividades de cunho preventivo/educativo. 25
  26. 26. Não obstante, existem muitas críticas acerca desse modelo de tratamento ambulatorial, pois se mostra adequado para parcela considerável de indivíduos, porém em si, tais recursos mostram-se insuficientes (SENAD, 2011)23. 1.5.3 REDE ASSISTENCIAL PARA USUÁRIOS DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS A política de álcool e outras drogas é intersetorial e visa ser inclusiva, com ações nas mais diversas áreas: saúde, justiça, educação e social. Suas ações preconizam que a assistência deve pautar-se nas ações de prevenção24, tratamento e reinserção social (SENAD, 2011). Quando se fala acerca da prevenção25 ao uso de drogas, pensa-se em dois viés, um deles mais amplo, que se constitui de políticas públicas – educação, saúde, proteção, alimentação, moradia, capacitação e geração de empregos. A outra é mais especifica: está diretamente ligada a conscientização sobre os efeitos das drogas (DENARC, 2012). Apoiada pela Lei 10.216/2001, a política de álcool e outras drogas têm como objetivo viabilizar o apoio aos usuários seja por meio de evidências científicas até o cuidado integral, o que envolve em outras palavras, práticas de promoção, precaução e reabilitação (SENAD, 2011). As estratégias da Redução de Danos (RD)26 como ações que diminuem os riscos de contaminação por via injetável ou sexual – usuários recebem informações sobre os 23 Segundo referência, os indivíduos que não conseguem se manter abstinentes em tratamento ambulatorial e apresentam risco à sociedade e sua integridade física e/ou mental, deve-se considerar a possibilidade de internação involuntária, amparada pela Lei 10.216/2001. 24 De acordo com especialistas e estudiosos da temática, a prevenção é o melhor combate, acredita-se que prevenir o uso de drogas pressupõe estabelecer um conjunto de medidas, para impedir ou ao menos reduzir o consumo abusivo (SANTOS, 1997). 25 A prevenção pode ser classificada em três níveis: primária: refere-se a todas as maneiras de prevenção, dirigida à população em geral, com intuito de evitar a experimentação de drogas, é o processo informativo para todas as pessoas que ainda não fizeram uso de drogas; secundária: é o nível de prevenção para usuários de drogas, com uso eventual e recreativo, é a prevenção a chamada população de risco; terciária: é a prevenção destinada as pessoas que são dependentes de drogas, a finalidade é de conscientizar as pessoas para que se mantenham em tratamento, e reduzam as consequências adversas da dependência (DENARC, 2012). 26 Constitui uma estratégia de abordagem dos problemas com as drogas que não parte do princípio de que haver imediata e obrigatória extinção do uso de drogas, seja no âmbito da sociedade ou individual, 26
  27. 27. serviços de saúde, troca de seringa usada por estéreis e descartáveis, distribuição de preservativos e outros demais serviços-, cujo o objetivo geral é a preservação da saúde (SENAD, 2011). Vários são os olhares e opiniões acerca da política da RD, a Federação Brasileira de Comunidades Terapêuticas (FEBRACT), coloca-se como não favorável a mesma, pois defende que seu código de ética não aceita a ideia da liberação das drogas e muito menos as estratégias apresentadas, por acreditar que a proposta pode significar destruição dos valores que dão dignidade à pessoa e à família, baseando seus argumentos nos anos de experiência empírica no trabalho com dependentes químicos (FEBRACT, 2001). Além dos serviços que compõem a rede do SUS, as comunidades terapêuticas (CT)27 se configuram como importantes dispositivos para os tratamentos, respondem por parte significativa dos serviços disponibilizados no país. Surgiram em um contexto de oposição ao hospital psiquiátrico, com abordagem de ajuda mútua no processo terapêutico, com linguagem democrática e igualitária (SENAD, 2011). Segundo a FEBRACT (2001) existem vários modelos de tratamentos – internação fechada (CT’s), semiaberta (hospitais-dia), tratamentos ambulatoriais e mistos que combinam os modelos, bem como, há diferenças entre os tempos de duração e às técnicas utilizadas para o trabalho de recuperação do adicto -, porém todos têm suas vantagens e desvantagens e uma gama de possibilidades e limites a serem considerados. 1.6 O PAPEL DA FAMÍLIA NO USO DE DROGAS A família, no tratamento ao dependente, constitui-se importante aliado na recuperação, afirmando Afornali (2011, p. 41), que “o trabalho feito com a família mostra-se importante não só para o início do tratamento, mas para a manutenção dele”, formula práticas que diminuem os danos para os usuários e para os grupos sociais que convivem (SENAD). 27 No Brasil, a regulamentação desses serviços ocorreu em 2001 e foi atualizada em 2011, com a publicação da Resolução 29 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). 27
  28. 28. reforçando a urgência da capacitação familiar para que o tratamento do adicto seja assertivo. Vários estudos na área de prevenção ressaltam a importância do papel da família, e têm este sistema como umas das principais fontes formadoras de comportamentos e crenças. Veremos no próximo capítulo a família através dos tempos, o seu processo evolutivo, essa rede de relações com regras, troca de valores e principalmente, o papel desempenhado, o que pode ser um meio de proteção ao uso de drogas ou um fator de risco (SENAD, 2011). 28
  29. 29. 2 A FAMÍLIA E SEUS ATORES: PROTAGONISMO E SEUS PAPEIS 2.1 BREVE RELATO SOBRE A GÊNESE DA FAMÍLIA Família, etimologicamente “famulus” (do latim), significa servo ou escravo. Segundo a história geral, a organização da família se deu nos tempos pré-históricos, onde se considerava sendo família um conjunto de escravos e criados de uma mesma pessoa. De acordo com Sielski (1999, p. 65), a família se originou em função de três prerrogativas fundamentais: primeira - inicio do parentesco, que determinou famílias consanguíneas, estruturadas por meio dos acasalamentos dentro do mesmo grupo; a segunda é o tabu do incesto que trouxe o impedimento das relações sexuais entre pais, filhos e irmãos; decorrente disso surgiu à terceira, o casamento fora do grupo familiar primordial, hoje conhecido como a instituição do matrimonio. Para Engels (1987, p. 120), a instituição da família “nasceu com a intenção de perpetuar a acumulação de riquezas - origem da nascente divisão de classes, com direito da classe possuidora explorar a não possuidora, e o domínio da primeira sobre a segunda”. A história ocidental registra que, a partir da Revolução Industrial (1750-1830), novos movimentos ocorreram nas famílias. Um deles foi a chamada migração – camponeses que deixaram o campo e suas grandes famílias, para trabalhar nas grandes cidades e outras regiões. Com a invenção das estradas de ferro (1829), iniciaram-se os grandes deslocamentos de pessoas e bens de produção, quando surgiram os proletariados e com eles os seus administradores, o domínio completo da burguesia sobre os assalariados. Com tantas inovações, as famílias sofreram um impacto permanente na sua estrutura primordial, entretanto mantiveram-se os quatro modelos básicos, segundo Mark Poster, historiador norte-americano, em seu livro Teoria Critica da Família (apud SIELSKI, 1999). Para Poster, a Família Aristocrática é aquela que concentra o poder em um pequeno grupo de pessoas, e que tem como objetivo principal o respeito à hierarquia social. Enquanto a família camponesa tem como prioridade a obtenção do 29
  30. 30. básico para a sobrevivência, como objetivo principal tem a renúncia à individualidade. Mais próximas ao sistema vigente, encontram-se as famílias burguesas e operárias, que para o autor uma é o oposto da outra, sendo que a dominante se apropria do trabalho braçal da dominada. Diante do ponto de vista de Engels (ibidem), pode-se perceber que dois modelos de família aproximam-se de sua teoria - a burguesa e a operária, o resultado da força que uma exerce sobre a outra se perpetua até os presentes dias. Ele analisa a instituição familiar pela interação entre elas e as instituições sociais e culturais. Assim, o significado monogamia, as relações entre homens e mulheres, o modo de produção, a propriedade dos bens de produção e demais. Para Lima (2008, p.70), a família sempre foi extremamente influenciada pelos fatores sociais aos quais ela sempre esteve intrinsecamente ligada. 2.2 AS FUNÇÕES DA FAMÍLIA Para alguns autores, a função que a família exerce sobre os indivíduos se dá por meio do nutrício, do educacional e da obtenção do básico para a sobrevivência. Bessa (2003, p. 04), refere à família como sendo o veículo social; para a autora é o local que viabiliza desde o nascimento até as condições materiais, no exercício de suas funções acredita que “são aprendidos e repassados os valores morais, sociais, humanitários e de cidadania”. As funções básicas da família podem ser desempenhadas de várias maneiras, dentro dos mais diversos sistemas culturais, para Marconi e Pressoto (1992, p. 106), a família combina duas funções específicas, como agente educador: Socializadora – na medida em transmite a herança cultural e social, durante os primeiros anos de vida: linguagem, usos, costumes, valores, crenças, essa preparação da pessoa para o ingresso na sociedade. Social – quando proporciona a conquista de diferentes status, como o étnico, o nacional, o religioso, o residencial, o de classe, o político e o educacional. 30
  31. 31. Para Prado (1988), as funções de cada família dependem em grande parte da faixa que cada uma delas ocupa na sociedade, na economia do país ao qual pertence. Porém a autora acredita que a família pode exercer inúmeras funções, sabendo que algumas recebem a intervenção do Estado enquanto outras assumem suas funções com exclusividade – saúde, educação, atividades de lazer entre outras funções. João Paulo II (1982) acredita que os deveres da família se resumem em quatro funções: “na formação de uma comunidade de pessoas; o serviço à vida; a participação no desenvolvimento da sociedade e a participação na vida e na missão da Igreja”. Diante ao exposto, percebe-se que o papel que a instituição família exerce sobre o indivíduo vai além dos suprimentos básicos, como refere João Paulo II (ibidem, p.49), sua função primordial política e social: O dever social das famílias é chamado ainda a exprimir-se sob forma de intervenção política: as famílias devem com prioridade diligenciar para que as leis e as instituições do Estado não só não ofendam, mas sustentem e defendam positivamente os seus direitos e deveres. Em tal sentido as famílias devem crescer na consciência de serem “protagonistas” da chamada “política familiar” e assumir a responsabilidade de transformar a sociedade: doutra forma as famílias serão as primeiras vítimas daqueles males que se limitaram a observar com indiferença. Para o autor, ambos - família e sociedade, têm uma função complementar, na defesa e promoção de todos os indivíduos, porém é dever do Estado subsidiar e assegurar os direitos da família – econômica, social, educativa, política e cultural. 2.3 A FAMÍLIA NA CONTEMPORANEIDADE A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948, art. 16 § 2.) trouxe um marco evolutivo para a família, “sendo ela um núcleo natural e fundamental, tem o direito à proteção da sociedade e do Estado”, e a Constituição Federal (1988, cap. VII art. 226) reforçou este processo evolutivo “como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes”, inclusive na união estável entre os companheiros e não apenas as uniões constituídas pelo casamento. Nos dias atuais é perceptível que não existe mais um modelo de família, para alguns pesquisadores o conceito de família se dá pela caracterização: pela residência 31
  32. 32. em comum, pela cooperação econômica e pela reprodução, bem como, a relação afetiva. Sielski (1999) acredita que o casamento está em decadência, ou num conflito circunstancial, para ele muito mais importante que o casamento é a família ou são os laços familiares. Sobre a desagregação ou enfraquecimento da família, muitos são os discursos e pontos de vistas; para Kaloustian (1994, p. 11), a família “é o espaço privilegiado de socialização, prática de tolerância, divisão de responsabilidades (...), lugar inicial para exercício da cidadania sob o parâmetro da igualdade, do respeito e dos direitos humanos”. Independentemente do arranjo familiar ou da forma que vem se estruturando, para o autor a família tem uma dinâmica de vida própria, ou seja, acaba sendo afetada pelo processo socioeconômico e ações do Estado (ibidem p. 12). Os valores culturais e sociais, a globalização e a revolução tecnológica trouxeram para a família atual muitos desafios, desde o enfrentamento da violência urbana, desemprego e doenças. Pesquisas sobre o funcionamento familiar referem que muitos dos desafios contemporâneos aumentam o nível de estresse intrafamiliar, repercutindo diretamente nos vínculos familiares (SENAD, 2011). 2.4 A FAMÍLIA COMO QUESTÃO SOCIAL O agravamento das manifestações da questão social determinou assim, mudanças nas formas de proteção social e de intervenção do Estado. Este passou a se constituir como principal sujeito de regulação das relações entre economia e demandas sociais (MIOTO, 2008). Após a II Guerra mundial, especialmente na Europa que havia sido destruída pelo conflito, se sedimentou a necessidade de reorganização do processo de intervenção do Estado, dando origem ao Welfare State. Segundo Mioto (2008) nos modelos de intervenção do Welfare State, existem três tipos de inserção da família, sendo: do provedor masculino - transferência de benefício ao pai trabalhador que se incumbirá de transferi aos demais membros; desfamilização: o Estado deve prover políticas que atendam as necessidades das famílias; familismo: família deve assumir a responsabilidade pelo bem-estar de seus membros. 32
  33. 33. As mudanças na família, segundo Bessa (2003, p. 08) ocorrem devido às mudanças que se originam na sociedade, a autora descreve que são imposições sociais que se processam do maior para o menor, ou seja, sempre da sociedade para a família, e continua “(...) mudanças que são suscitadas por exigências de âmbito biopsico-social” (Ibidem p. 09), gerando, assim, a criação de estruturas extras familiares que se adaptem às necessidades decorrentes desse embate – social, político e econômico. Para Kaloustian (apud COSTA, 1994), a visão transformadora e crítica da sociedade propiciou a percepção da família em uma questão bem mais ampla, contraditória e complexa, a do conflito de classes, sujeitando assim o entendimento da realidade social a todas as determinações, condicionamentos e influências decorrentes do novo enfoque. Para o autor, o trabalho com a família deve ser relativizado em favor da atuação junto às comunidades e movimentos sociais. Ante o ponto de vista do autor, a família exerce o caráter nucleador, ou seja, está no centro, tanto do âmbito dos movimentos sociais quanto das políticas públicas, sendo assim, a família é o ponto de confluência das realidades, seja do idoso, da criança, da pessoa com deficiência, da mulher, do homem ou do dependente químico. Além das discussões e debates, promover a família nas políticas públicas significa, segundo Costa (ibidem p.24), enfatizar ações em favor das implementações das leis, estatutos e diretrizes, articulando e mediando os conflitos existentes, conforme demandas. A família, na maioria das vezes, é acusada de ser responsável quando dela resultam indivíduos desviantes, ou seja, aqueles que estão à margem da sociedade. Para Lima (2001, p.81), as famílias não se veem livres da culpa que a sociedade lhes impõe, porém a questão vai, além disso, os fatores socioeconômicos são variáveis determinantes no desenvolvimento familiar e na vida de cada individuo. A atual Política Nacional de Assistência Social (PNAS) em relação família e Estado é pensada da seguinte maneira (CF, 1988): Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar à à à e 33
  34. 34. comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. O Sistema Único de Assistência Social (SUAS) propõe a organização do sistema descentralizado e participativo de Assistência Social, com seus serviços, programas, projetos e benefícios têm como foco prioritário a atenção às famílias, seus membros e indivíduos. Um dos eixos estruturantes do SUAS é a “matricialidade sociofamiliar”28. Pode ser dizer que no SUAS não há distinção no atendimento para a forma que a família é constituída, o que importa é incluir os membros do grupo familiar em programas, projetos e serviços, para que saiam da situação de exclusão e possam ter suas principais necessidades atendidas (PNAS, 2004). 2.5 FAMÍLIA E DEPENDÊNCIA QUÍMICA O Observatório Brasileiro de Informações Sobre Drogas (OBID) aponta que: Nas últimas décadas houve um incontestável avanço das ciências que estudam os fenômenos mentais, com descobertas importantes, que a ancestral relação do ser humano com substâncias psicoativas ganhou notoriedade por diversas razões, desde o aumento e banalização do uso, até questões econômicas, nesse contexto, considera-se uma questão social a dependência química e que são cada vez maiores as consequências na vida social das pessoas, causando impacto na dinâmica familiar. Conforme pautado acima, percebe-se que o uso de drogas é algo que atinge, portanto, não somente o indivíduo, mas consequentemente a família e o meio social em que vive. Apesar da gravidade e relevância do assunto, sabe-se das inúmeras falhas nas políticas públicas antidrogas e de amparo e tratamento aos dependentes químicos, ocasionando assim tal impacto. Para Ferrarini (1980, p. 109), “o dependente químico passa a ser a latrina onde são depositadas todas as causa das neuroses e desentendimentos entre os demais membros da família”, ou seja, as inúmeras negações – da doença, dos problemas, da 28 Através do eixo estruturante da Matricialidade Sócio-Familiar, o atendimento na Política de Assistência Social, passa a ter centralidade na família e seus membros, pois considera-se que nela encontram-se todos os segmentos. 34
  35. 35. falta de limites, da falta de capacitação, faz com que a família trate do adicto como um bode expiatório, ou como relata Afornali (2011, p. 149), Ter um dependente químico em casa é como ter um elefante na sala de estar. Todos sofrem e se machucam com os pisões, com o tamanho, o peso e o mau humor do bicho. Suja a sala e a casa toda. Além de incomodar toda a família, ele incomoda os vizinhos. As pessoas que passam em frente a nossa casa, de longe veem o rabo do bicho pela janela, e pela porta veem sua enorme tromba. De acordo com a CID-10 (1993), a síndrome de dependência caracteriza-se por um conjunto de fenômenos fisiológicos, comportamentais e cognitivos, no qual o uso de uma substância, ou uma classe de substâncias, alcança uma prioridade muito maior para um determinado indivíduo que outros comportamentos que antes tinham, para ele, maior valor, pode-se dizer que suas relações tornam-se fragilizadas, e tem seu efeito desastroso no âmbito do trabalho, da família e das relações econômicas e sociais. 2.6 FAMÍLIA: UMA RELAÇÃO DE DEPENDÊNCIA EMOCIONAL E QUÍMICA Em estudo realizado, Ballone (apud BROWN, 1959) relata que, em 1959, de forma cientifica, foi suspeitada a existência de famílias psiquiatricamente mórbidas. As primeiras conclusões desse estudo apontaram uma associação entre a qualidade das relações familiares e o desenvolvimento da doença mental do paciente. Nesta observação se constatou que os pacientes que recebiam alta da hospitalização psiquiátrica e retornavam para o convívio familiar, tinham uma evolução pior que a evolução dos pacientes que passavam a viver sozinhos, segundo ele o “defeito” estava na família desses pacientes. Para Ballone (ibidem) esse tipo de família, em que certos indivíduos são capazes de gerar todo esse transtorno em relação aos demais membros, é chamada de Família de Alta Emoção Expressa, termo que foi adotado inicialmente para indicar as famílias que favoreciam as recaídas de pacientes psiquiátricos, hoje em dia pode-se bem empregar o termo para designar as famílias que favorecem a recaída no alcoolismo e na drogadição. 35
  36. 36. 2.7 FAMÍLIA E CODEPENDÊNCIA Durante um período indeterminado, a família convive com o indivíduo e seu consumo, dito social, a família vive uma “negação maníaca”, uma “cegueira”, faz vista grossa às condutas auto e heterodestrutivas do adicto, assumindo assim um “pacto criminoso” do qual participam ele, a família e consequentemente a sociedade (FEBRACT, 2001). Vários estudos evidenciam a relevância dos vínculos familiares – excessiva permissividade, dificuldades de estabelecer limites, superproteção -, proporcionam e leva a chamada codependência (SENAD, 2011). Acredita-se que tal permissividade e demais aspectos tendem a perpetuar a dependência do adicto e retardar o seu processo de recuperação, para poder entender com clareza o que significa tal “retardamento” é preciso ter em mente o que é o fenômeno da codependência (AFORNALI, 2011). 36
  37. 37. 3 O FENÔMENO DA CODEPEDÊNCIA A codependência é um quadro caracterizado por um distúrbio mental acompanhado de ansiedade, angústia e compulsividade obsessiva em relação ao dependente químico (FEBRACT, 2001). O termo surgiu nos anos 40 dentro dos Alcoólicos Anônimos (AA) 29, onde um grupo de pessoas - possivelmente esposas de alcoólicos, formaram grupos de ajuda mútua e apoio para lidar com as formas com que elas eram afetadas pelo alcoolismo dos maridos. As esposas dos alcoolistas também queriam um programa e, revendo as doze tradições do AA criaram o outro grupo de esposas chamado de Al-anon30. Na psicoterapia e psiquiatria o termo codependente surgiu no fim da década de 70, definindo claramente as características deste comportamento (BALLONE, 2008). No grupo Amor Exigente (AE)31 além da dependência química, a codependência é denominada como doença, é como se o dependente químico passasse a ser a “droga” dos que o cercam, é também por esta razão que se relata a dificuldade de recuperação do adicto, é um autêntico círculo vicioso (GONÇALVES, 2010). Calábria (2007) traz algo que é pertinente em relação ao fato das doenças serem concomitantes, há tamanho desconhecimento32 por boa parte da sociedade em relação à codependência, sendo muito maior que em relação à dependência. Para Gonçalves (2010, p. 31), “a codependência afeta os familiares e as pessoas envolvidas com o adicto gerando também nos mesmos as três características da 29 AA pode ser descrito como um método para recuperação do alcoolismo, no qual os membros ajudamse mutuamente, compartilhando entre si uma enorme gama de experiências semelhantes em sofrimento e recuperação do alcoolismo (Disponível em <http://www.alcoolicosanonimos.org.br> acesso em 13 jun, 2013). 30 É um programa de Doze Passos para familiares e amigos de alcoólicos. Seus membros compartilham suas experiências nas reuniões de grupo e buscam forças e esperança na tentativa de resolver seus problemas comuns (Disponível em <http://www.al-anon.org.br> acesso em 13 jun. 2013). 31 É um programa de auto e mútua ajuda que desenvolve preceitos para a organização da família, que são praticados por meio dos 12 Princípios Básicos e Éticos, da espiritualidade e dos grupos de auto e mútua-ajuda que através de seus voluntários, sensibilizam as pessoas, levando-as a perceberem a necessidade de mudar o rumo de suas vidas e do mundo, a partir de si mesmas (Disponível em <http://www.amorexigente.org.br> acesso em 13 jun. 2013). 32 Para o autor tais grupos de autoajuda, que não têm ligação institucional, serviram de estímulo e modelo para as metodologias empregadas em instituições religiosas, associações, instituições públicas, todavia tornaram-se herdeiros dos procedimentos e estratégias usados por muitos profissionais da área (ibid). 37
  38. 38. dependência química – progressiva, crônica e fatal”, crônica, porém passível de tratamento”. Uma das melhores definições sobre a “codependência” é apresentado por Afornali (2011, p. 61), “se pensarmos sobre as palavras afins como coautoria ou coresponsabilidade, já é possível deduzir um pouco do significado da codependência”. Para Afornali (ibid.), um coautor participa da autoria, é autor conjuntamente; e um corresponsável, da mesma forma. Pode-se dizer que não há um critério universal sobre o que é codependência, alguns pesquisadores tratam como sendo uma resposta complexa à experiência de se ter um relacionamento íntimo ou compromissado, com alguém que tenha um problema de dependência química (GONÇALVES, 2010). A manifestação mais encontrada da codependência é bem exemplificado por Drumond, citado por Afornali (2011, p. 62), que ressalta que “a codependência leva as pessoas a acreditarem que, mesmo em detrimento de suas próprias necessidades, deverão suprir todas as do outro, pois assim irão livrá-lo da dependência”. 3.1 QUEM É O CODEPENDENTE? Com base na OMS (2006), os adictos costumam obedecer um padrão de personalidade ao longo do tempo de dependência, para o autor existem traços e características de comportamento, relacionamento e percepção da realidade comuns aos dependentes, a diferença é que isso não quer dizer que todos tem a mesma personalidade, mas que, dentro da individualidade de cada um, eles apresentam características comuns uns com os outros. Sobre as Alterações da Personalidade produzidas por dependência química, o DSM-IV diz que "as alterações da personalidade também podem ocorrer no contexto de uma Dependência de Substância, especialmente no caso de uma dependência de longa duração". Dentre as principais características da alteração da personalidade ocasionada pela drogadição, esta distorção da verdade, e consequentemente leva e faz parte manipulação. A palavra manipular, do latim manipularis, que significa soldado raso, manipulação no sentido figurado é o “ato de condicionar, influenciar, tirar proveito 38
  39. 39. próprio”, é o que acontece entre o adicto e o codependente, diga-se de passagem enquanto o codependente cria vínculo, o adicto, enquanto manipulador, apenas se relaciona, no intuito de buscar seus próprios interesses, o de usar a droga (AFORNALI, 2011). Uma expressão que representa tal relação de manipulação é a forma que o codependente adere à situação/problema sendo como uma atadura emocional. Para Ballone (2008), atadura emocional é quando uma pessoa se encontra atrelada emocionalmente a coisas negativas ou patológicas de alguém que o rodeia, para o autor tais amarras emocionais levam o codependente a se relacionar com o outro (adicto) de igual para igual, tornando-se outro dependente. Nas relações interpessoais do dependente químico a manipulação, segundo Afornali (2011, p. 68), “cria uma espécie de vácuo, que é preenchido por uma ou por várias pessoas que chamamos, grosseiramente, de ‘mães do dependente químico’, devido ao seu cuidado maternal”. Para o autor essas relações entre o dependente e o codependente são vistas por quem está fora da relação, como sendo estranhas, até patológicas, uma vez que promovem a doença e caminham à destruição. Ambos, codependente e dependente, compartilham intensamente do mesmo ambiente, numa relação de grande carga afetiva, suas vidas são muito ligadas, no adágio poderíamos dizer que seria como uma osmose33 e inevitavelmente um prejudica e afeta o outro, desse modo acredita-se que se o codependente der o primeiro passo e buscar tratamento, as alterações do seu comportamento darão margens e ensejo para diversas crises na relação doentia, o que criara condições mais favoráveis à recuperação de ambos (CALÁBRIA, 2007). 33 Osmose significa a passagem do solvente de uma solução através de membrana impermeável ao soluto. Esta é a explicação corresponde à física e a química. Quando ocorre como por um processo de absorção que sugere o da osmose, diz-se que a pessoa aprendeu "por osmose". No texto acima trata-se de um sentido figurado, uma analogia (PRIBERAM, 2012). 39
  40. 40. 4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS A presente pesquisa utilizou-se de alguns caminhos para alcançar o seu objetivo geral, uma das opções metodológicas se deu por meio de pesquisa qualitativa, no intuito de compreender a realidade em sua totalidade, pois os entendimentos dos fatos ocorrem a partir da interpretação do sujeito em relação à sua vivência cotidiana (MINAYO, 1993), o que, para Bardin (2011, p. 41), representa “a análise de significados, embora seja também uma análise dos significantes”. Os participantes da pesquisa constituíram-se em quatro indivíduos de famílias que foram acompanhadas pelo profissional de Serviço Social na Comunidade Vale do Sol, durante o período de tratamento de seus familiares/adictos, sendo que dois indivíduos participaram de apenas um atendimento com o Assistente Social e os outros dois receberam o acompanhamento durante os meses de internamento dos adictos, os quais concluíram o tratamento. Como instrumento para coleta de dados foi utilizado entrevista semiestruturada (Apêndice A), com questões que caracterizam as famílias entrevistadas. As dez primeiras questões referem-se aos dados pessoais, que objetivam identificar a nacionalidade, religião, grau de instrução e situação econômica. Foram elaboradas cinco questões abertas: para analisar a percepção da família quanto à atuação do profissional de Serviço Social (questão 1); identificar o olhar da família em relação ao fenômeno da codependência (questão 2); conhecer a adesão das famílias acerca das orientações e instruções que foram prestadas nos atendimentos junto ao profissional de Serviço Social (questão 3); no intuito de verificar a visão da função que cada indivíduo exerce em relação à manutenção da doença do adicto (questão 4); investigar se houve mudanças no comportamento familiar em relação ao fenômeno da codependência (questão 5). 40
  41. 41. A fim de conhecer os desafios e as possibilidades de avanços na prática profissional do Serviço Social, ocorridos nos atendimentos aos familiares de adictos em tratamento na Comunidade, utilizou-se da entrevista aberta34 (Apêndice B). Cada participante da pesquisa recebeu o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Anexo), explicando o tema da pesquisa e a participação livre, além do sigilo sobre a identificação. O procedimento de análise dos dados se deu pela técnica de análise por categoria, ou seja, por meio da decodificação das respostas das entrevistas, diversos elementos, os quais foram classificados e formaram agrupamentos analógicos e na sequência a análise global dos dados (RISHARDSON, 1999). A seguir o histórico da instituição para que se contextualize a realidade de partida das possibilidades de ambientação da intervenção do assistente social, assim como o contato com as famílias. 4.1 HISTÓRICO DA INSTITUIÇÃO Fundada em 17 de janeiro de 2007, no Município de Morretes – PR, a Comunidade Terapêutica Vale do Sol é uma instituição sem fins lucrativos e tem como objetivo auxiliar na recuperação e reinserção social de dependentes químicos e alcoolistas. No intuito de acompanhar o percurso de cada adicto na construção de seu projeto de vida, priorizando a singularidade de cada um; a Comunidade atende o número máximo de quinze residentes concomitantemente. O programa do tratamento é baseado na metodologia dos Doze Passos35 das Irmandades Anônimas, com 34 A entrevista aberta é utilizada para obter maior número de informações sobre determinado tema e maior detalhamento do assunto em questão, para compreensão de especificidades culturais, para determinados grupos e para comparabilidade de diversos casos (MINAYO, 1993). 35 Os doze passos compõem a metodologia mais eficaz de tratamento conhecida nos dias de hoje. Eles tiveram seu inicio na década de 30, fase pós guerra e de crash nas bolsas de valores de Nova Iorque. A população vivia um momento crítico de depressão e abuso, tanto de substancias provindas do ópio como do álcool. Surgiram então os grupos de Alcoólicos Anônimos, que se expandiu rapidamente, sendo posteriormente denominados, pelo Papa João Paulo, como um dos maiores milagres do século XX. Na década de 50 surgiram os grupos de Narcóticos Anônimos. Vieram completar o que A.A. já vinha 41
  42. 42. reuniões de conscientização, psicoterapia de grupo, laborterapia, práticas esportivas, atendimento psiquiátrico individual, atendimentos de fisioterapia e enfermagem, artes em geral, ressocialização e atendimentos familiares. O trabalho do assistente social, integrante da equipe envolvida no tratamento, consiste em realizar o contato inicial com o paciente ou com a família; media o contato do paciente com seus familiares e próximos, e orienta os mesmos sobre como será o tratamento. Atua na conscientização dos dependentes químicos e familiares sobre as temáticas: dependência química e codependência – na escuta ativa e passiva. Por meio de avaliações, faz os devidos encaminhamentos para as redes de proteção e para os profissionais específicos, conforme requer a demanda. 4.2 POPULAÇÃO E AMOSTRA DA PESQUISA O universo desta pesquisa se constitui dos atendimentos realizados na área da codependência, com a amostra de quatro familiares que foram encaminhados para o atendimento com o Assistente Social. Sujeito da Pesquisa (SP) Sujeito 1 Sujeito 2 Sujeito 3 Sujeito 4 Gênero Masculino Feminino Feminino Feminino Idade 70 29 49 34 Profissão Aposentado Diarista Do lar Assistente Adm. Filhos 5 2 3 1 Grau de parentesco com o DQ Pai Companheira Mãe Mãe Tabela 2: População e amostra de pesquisa Fonte: Elaboração da autora, 2013. realizando só que agora de forma mais completa trabalhando profundamente a adicção. (Disponível em http://www.comunidadevaledosol.com.br – acesso em 27/03/13 às 17h). 42
  43. 43. Ao analisar os dados acima, percebe-se que a faixa etária dos entrevistados varia entre 29 a 70 anos de idade. Todos são residentes do Município de Curitiba. Os graus de parentesco têm-se: pai, companheira e mãe. São indivíduos de diferentes classes sociais, aposentados, do lar, trabalho informal e assistente administrativo, com renda mensal aproximada de um (1) a nove (9) salários mínimos. O que nos leva compreender que se trata de uma doença democrática, que não escolhe cor, raça, classe social e credo. Para melhor analisar a adesão e empoderamento desses sujeitos, no que se refere à codependência – se houve mudanças comportamentais que ampliam seus focos de convivência, bem como, perceber se a capacitação cria autoconsciência nos indivíduos e desenvolvem certas habilidades e postura técnicas a partir do conhecimento adquirido, com base neste argumento -, pensou-se em pesquisar duas pessoas que iniciaram o acompanhamento, e consequentemente irão receber a devida capacitação e acompanhamento, e outras duas que já foram capacitadas, e são acompanhadas esporadicamente, quando se faz necessário. Dividiu-se, portanto, em dois grupos GRUPO I (Sujeito 1 – SP1 e Sujeito 2 – SP2), que iniciaram o acompanhamento, e GRUPO II (Sujeito 3 – SP3 e Sujeito 4 – SP4), que já efetivaram o acompanhamento. 4.2.1 PERCEPÇÕES DA FAMÍLIA QUANTO À ATUAÇÃO DO PROFISSIONAL DE SERVIÇO SOCIAL GRUPO I SP1. “Espero uma oportunidade de mudança, na vida do meu filho”. SP2. “Ajuda” GRUPO II SP3. “Foi tudo de bom, se não fossem suas orientações, não sei onde estaria meu filho uma hora dessas”. SP4. “Suas orientações nos ensinaram a caminhar mais firme” Tabela 3: Percepções da família quanto à atuação do profissional de Serviço Social Fonte: Elaboração da autora, 2013. 43
  44. 44. À margem da interpretação pessoal, o discurso do GRUPO I é apresentado de forma “ingênua”, ambos não demonstram discrição de juízo para diferenciar e conhecer como se dá a intervenção do profissional do Serviço Social. No relato do SP2, em sua fala breve, de que quer “ajuda”, percebe-se que os familiares buscam uma solução, seja ela qualquer, desde que possa sanar o ‘problema’. Vale ressaltar que a família pode ser um agente mantenedor da doença ou poderá ser tornar um transformador, desde que capacitada (AFORNALI, 2007). Confluentes, buscam a resolução de um comportamento-problema, que é o internamento ou a recuperação do adicto, assim, segundo Afornali (2011), percebe-se que entrelaçados numa “dependência emocional”, acabam não sabendo diferenciar papéis. As falas obtidas no GRUPO II, remetem ao Código de Ética do Assistente Social (1994)36, é dever do Assistente Social garantir a plena informação: “esgotar os procedimentos democráticos, informar claramente as consequências e riscos que podem advir da decisão do usuário”. Uma vez orientados e capacitados, esses indivíduos, munidos de informações acerca do fenômeno da dependência química, as famílias poderão arbitrariamente ter noção de uma tomada de decisão sobre a conduta a ser tomada. É possível correlacionar o papel do profissional Assistente Social no atendimento às famílias ao papel de Tutor, que, para Mestres (2010 p. 44), é: (...) aquele que tem por encargo substituir o papel parental debilitado na família por algum motivo. Assim como o tutor, que deixa sua função formal e legalmente, quando o pupilo atinge a maioridade, o profissional transcende sua função tutorial quando a família se mostra capacitada para lidar com o fenômeno e repete na relação com o dependente o modelo paterno exercido pelo profissional, durante os atendimentos familiares. Para Mestres (ibid), o objetivo deste modelo de intervenção com as famílias é que os familiares repitam, na relação com o dependente, o posicionamento diretivo, de Lei e limites, estabelecido pelo profissional durante os atendimentos à família. 36 Título III - Das Relações Profissionais - Capítulo I – Art°5 b (BARROCO, 2012). 44
  45. 45. 4.2.2 O QUE SE ENTENDE POR CODEPENDÊNCIA GRUPO I GRUPO II SP1. “Não sei do que se trata” SP3. “eu sou isso, sofro muito com a SP2. “Nunca ouvi falar” dependência do meu filho”. SP4. “é devido à química do usuário, ele manipula e nós entramos num círculo vicioso, é como se fosse uma muleta um alimenta o outro”. Tabela 4:O que entende por Codependência Fonte: Elaboração da autora, 2013. No quadro acima percebemos que o GRUPO I não sabe identificar o que é a codependência, todavia, conforme Ballone (2008), o codependente não se percebe como tal, e permanece facilitando o agravamento do problema, parte pela negação e em parte porque se convence de que sua postura se justifica por si, uma vez que está “ajudando” o dependente a não se deteriorar ainda mais, sendo assim, a família não se desintegra e ele cumpre o seu papel. No decorrer da entrevista, o SP1 fez a seguinte colocação: “não sei de onde veio esse ‘vício’ do meu filho, porque eu nunca usei droga, só ‘bebi’ 42 anos, mas hoje não bebo mais”. É perceptível que existe a negação e a falta de conhecimento de que o alcoolismo também é considerado uma doença, porém o que nos interessa é a negação e a falta de conhecimento acerca da codependência, e para complementar a fala, o SP1 continuou “como meu filho trabalha de pedreiro, sem registro em carteira, eu pago a ‘previdência particular’ para ele”. Pode-se dizer que o SP1 não sabe definir em palavras o que é a codependência, porém se mostra inerente em suas atitudes perante ao seu filho, na minimização das consequências dos problemas. O SP2, quando questionado sobre a codependência, refere que “nunca ouvi falar”, porém em seguida exprime que “sinto meu psicológico abalado e não tenho o que dizer, não tenho ânimo, só vontade de sumir”. Aqui se pode usar a fala de Beattie (1999, p.49), em outras palavras “o codependente é aquela pessoa que tem deixado o 45
  46. 46. comportamento de outra pessoa afetá-la (...)”. Inúmeras são as consequências negativas geradas pela dependência química nos codependentes, segundo Mestres (2010) se faz necessário à abordagem multidisciplinar, aqui se aplica no caso da fala do SP2, a contribuição do campo da psicologia para aprimorar e difundir os conhecimentos sobre tais sintomas. No GRUPO II, tanto o SP3 e o SP4, mesmo sem imprecações técnicas, demonstram certo conhecimento acerca do fenômeno, indicando segundo Afornali (2011) que a informação e a capacitação têm um caráter preventivo e minimizador de riscos, pois tal proporciona certa compreensão coletiva e oportuniza uma postura técnica. O SP4 refere “(...) ele manipula e nós entramos nesse círculo (...)”; a manipulação é um sintoma da doença dependência química e, não uma falha de caráter ou desvio de conduta do paciente em questão. A “extrema” manipulação dos dependentes, quer seja para com a família, se devidamente compreendida, poderá deixar de ser um fator impeditivo à recuperação dos adictos e transforma-se numa ajuda, seria como um indicador do estágio em que a doença está. Sendo assim, seria mais um norte aos procedimentos profissionais. Quanto mais manipulador, mais doente. Mas aqui cabe analisar a questão da conscientização acerca da manipulação na codependência, ou seja, uma vez rompida tal manipulação, o indivíduo passa a compreender que deve agir de forma que seus atos não sejam permissivos e não contribuam para a manutenção da doença do adicto e passe a agir de maneira correta, não mais como um mantenedor (AFORNALI, 2007). 46
  47. 47. 4.2.3 O PAPEL DA FAMÍLIA GRUPO I SP1. “Ajudar ele, GRUPO II arrumando SP3. “é de entender que é a DQ é internamento para ele se tratar”. uma doença, pois quando não se SP2. “Ajudar ele, pois sua família entende e não se busca tratamento, não quer mais ele em casa, a mãe toda a família sofre”. dele, o colocou na rua”. SP4. “na importante, recuperação para que é muito rompa a manipulação e para sair do círculo vicioso, e se conscientizar de que também precisa de tratamento”. Tabela 5: O papel da família Fonte: Elaboração da autora, 2013. Os quatros indivíduos entrevistados demonstraram entender que o papel da família consiste em buscar ‘ajuda’, porém, no GRUPO I, ambos os sujeitos apresentaram, em suas respostas, a necessidade de internamento para o adicto. Tal atitude não resolve o problema em sua totalidade, de forma que os mesmos também precisam de capacitação acerca do fenômeno. Certas relações impulsivas e de imediatismo dentro da família têm raízes profundas e por isso têm de ser tratadas adequadamente, nenhuma família que quer resolver seus problemas com imediatismos e impulsividades, consegue de imediato mudar seu funcionamento; a raiz do problema vai além da adicção do DQ (ZEMEL, 2001). Segundo a fala do SP2, “preciso arrumar um internamento para ele, para poder respirar mais sossegada, não aguento mais ter de segurar a ‘barra’ sustentando a casa, pois só eu trabalho”, é latente na relação existente entre os dois indivíduos a manutenção da doença, uma vez que, segundo o SP2, os pais do adicto o colocaram para fora de casa, decorrido disso viu-se na obrigação de acolher e sustentá-lo. Embora tenha duas filhas, seu cuidado maior é com o adicto, pois, segundo seu relato, “não tem como deixar padecer na rua, então preferi trazer para casa”, colocando em risco a sua 47
  48. 48. vida e de suas filhas, por sentir-se na obrigação de protegê-lo das consequências das escolhas da sua drogadição. Os sujeitos do GRUPO II demonstraram certo conhecimento acerca da função da família em buscar capacitação e romper os vínculos com a doença. Pode-se dizer que é o primeiro passo para o tratamento da família, a conscientização acerca do problema, que, segundo Afornali (2011, p. 41), a família, no tratamento ao dependente, constituise importante aliado na recuperação: “o trabalho feito com a família mostra-se importante não só para o início do tratamento, mas para a manutenção dele”. 4.2.4 RESPONSABILIDADES DOS FAMÍLIARES DE UM DEPENDENTE QUÍMICO GRUPO I GRUPO II SP1. “(...) ‘me’ sinto responsável por ele, por ser meu filho, ajudo a família dele com uma cesta básica”. SP2. “(...) tenho medo que aconteça alguma coisa com ele, medo por conta das minhas filhas, tenho medo que ‘matem’ ele”. SP3. “Participar dos grupos de mutua ajuda, todos da família devem buscar tratamento em paralelo ao tratamento do adicto”. SP4. “(...) muita responsabilidade, porém quando se busca a sanidade da relação, se consegue enxergar a impotência em meio à adicção”. Tabela 6: Responsabilidades dos familiares de um dependente químico Fonte: Elaboração da autora, 2013. Os familiares do GRUPO I, quando questionados acerca de suas responsabilidades, demonstram a necessidade de suprir certas necessidades, por ex., o SP1 refere que sua responsabilidade enquanto pai de um dependente químico é de ajudar a família dele, levando uma cesta básica, ou seja, segundo Afornali (2011, p. 89), “nas dependências químicas, o impulso de cuidado acaba por sustentar o uso de drogas e por poupá-los das consequências do seu uso”. Representa que a intenção do SP1 é a melhor do mundo, sem saber, ele é um mantenedor do uso das drogas, o querer ajudar a família com um cesta básica, tira a responsabilidade do dependente químico, enquanto pai, de prover o sustento do lar, não sofrendo a consequência do mau uso empregado do dinheiro, tal, deveria ser revertido para as despesas com a 48
  49. 49. família, porém, o SP1 não permite que assim aconteça, devido ao ‘impulso’ do cuidado excessivo. A SP2 refere, que tem medo, que aconteça algo com o DQ é por conta que possam matá-lo, ou seja, segundo ela “eu acolho ele em casa ‘drogado’, assim ele corre menos perigo que ‘estando’ na rua”, como seu cuidado e proteção fosse capaz de transformar tal situação. Segundo Zemel (2001), dentro das famílias prevalecem às mentiras que são sempre entendidas como formas de cuidados 'para poupar' ou, então, as omissões 'para não piorar as coisas'. Por sua vez, como visto anteriormente, segundo Afornali (2011, p. 125), “os codependentes (...) abrem mão de si mesmos com a desculpa de cuidar do dependente químico, sem se darem conta de que estão tão envolvidos na doença quanto o próprio”. No GRUPO II, ambas as falas demonstram ser conscientes de que precisam de acompanhamento e que não se sentem ‘capacitadas’ para enfrentar sozinhas a drogadição. Voltamos à necessidade da capacitação, não só de conhecimentos e habilidades, mas à necessidade de que ela cumpra sua importante função de forma menos visível, mas fundamental, que serve para o tratamento e a prevenção ao uso de drogas (AFORNALI, 2011). Segundo Afornali (ibid), a proposta da capacitação é para que as famílias compreendam o fenômeno que os cerca e possam estar conscientes do perigo eminente. Segundo o autor, uma vez que os familiares abandonem o papel de ‘cuidadores’, deixarão de ser manipulados e, por fim, se iniciará o processo de tratamento. Capacitados e libertos da manipulação do dependente químico, Afornali (ibid, p.163 ) acredita que “ele mesmo poderá experienciar as consequências da sua escolha, assumindo assim a responsabilidade por seus atos e optará ou não por tratamento”. 49
  50. 50. 4.2.5 MUDANÇAS NA FAMÍLIA APÓS ATENDIMENTOS COM O ASSISTENTE SOCIAL GRUPO I SP1. “que meu filho pare de usar droga” SP2. “se houver alguma mudança, vai ser um ‘prêmio’, isso como se eu ganhasse um prêmio, se ele parar de usar droga”. GRUPO II SP3. “minha família toda está participando do Amor Exigente. ‘Me’ sinto mais capacitada para entender meu filho”. SP4. “hoje consigo perceber minhas atitudes, entendo que não posso dar conta sozinha da adicção do meu filho”. Tabela7: Mudanças na família após atendimentos com o Assistente Social Fonte: Elaboração da autora, 2013. Como relatado no início, o GRUPO I é formado por sujeitos que participaram de apenas um atendimento, sendo assim não obtiveram mudanças na família, pois estão em busca da mesma. Uma vez questionados sobre quais mudanças futuras que esperam acontecer na família após os atendimentos, ambos desejam que seus familiares parem com o uso das drogas. Segundo Afornali (2011), enquanto o dependente está em uso e a família o coloca no ‘centro’ das atenções, nada pode ser construído, segundo o autor, tudo pode ser destruído, pois no presente momento todo foco dos familiares está voltado à dependência química e para o dependente. Certamente com os demais atendimentos, os sujeitos poderão mudar tal perspectiva, uma vez que o objetivo dos mesmos é a capacitação dos familiares no tratamento do doente. No GRUPO II percebe-se, em seus relatos, que os sujeitos estão conscientes de que precisam de ajuda profissional, demonstram se sentirem impotentes diante da doença, e da necessidade da família em paralelo ao tratamento do dependente químico, buscar capacitação. O SP3 refere-se à participação da família no grupo de mútua ajuda, pelo qual, segundo Mestres (2010, p. 33): 50
  51. 51. (...) os grupos contribuem não só com o aspecto espiritual da doença, mas com o tratamento de forma integral, pois suas reuniões estão constantemente motivando o paciente e confrontando-o com sua doença, de forma a prevenir racionalizações e a fortalecer o paciente como um membro ativo da equipe. O que nos leva a compreender a fala do SP4, quando comenta que “não dá conta da doença sozinha”, essa conscientização em relação à impotência, por sua vez, leva os sujeitos a se emanciparem do círculo vicioso que viviam. A partir do pressuposto, segundo Mestres (ibid.), nota-se que: (...) o papel do profissional nos atendimentos familiares é explicitar o pedido de socorro das famílias adictas, penetrando profissionalmente em suas crises, ao oferecer direcionamento, por meio da capacitação; Leis, do manejo de regras decorrentes da abordagem multidisciplinar; e limites, através das intervenções diretivas; conjunto que corresponde ao exercício da função paterna, debilitada no desenvolvimento original da família. O que para Afornali (2011) se resume no cumprimento da função da capacitação, que é responsável por um melhor suporte técnico que propõe conhecimentos e habilidades práticas. 51
  52. 52. 5 SERVIÇO SOCIAL E CODEPENDÊNCIA: UMA RELAÇÃO EM CONSTRUÇÃO A profissão do Serviço Social está inserida e regulamentada no Código de Ética e por uma lei que regulamenta a profissão (Lei nº 8662/93), a qual luta pela autonomia, emancipação, e plena expansão e inclusão dos indivíduos sociais. Luta pela defesa dos Direitos Humanos, amplia a cidadania, e se posiciona em favor da universalidade de acessos, políticas sociais, empenhando-se em combater as mazelas sociais. Articula coerentemente os elementos do projeto profissional (imagem ideal da profissão, valores que a legitimam, função social e objetivos, conhecimentos teóricos, saberes interventivos, normas, práticas, etc.). Sabe-se que é uma articulação complexa e não se faz em curto prazo de tempo, sendo assim, o projeto profissional requer uma fundamentação sobre valores de natureza ética – posta nos Códigos, mas que não se esgota neles, isto é, atravessa o projeto como um todo. Envolve também escolhas teóricas, ideológicas e políticas das categorias e dos profissionais, de onde vem à denominação: projetos ético-políticos (NETTO, 1999). Com a quebra do conservadorismo, consequentemente, o projeto profissional vincula-se a um projeto societário que propõe a construção de uma nova ordem social, sem dominação ou exploração de classe, etnia ou gênero. A partir destas escolhas que o fundam, tal projeto afirma a defesa intransigente dos direitos humanos e a recusa do arbítrio e do autoritarismo e dos preconceitos, contemplando positivamente o pluralismo, tanto na sociedade como no exercício profissional. Em decorrência, o projeto se reclama radicalmente democrático – vista a democratização enquanto socialização da participação política e socialização da riqueza socialmente produzida. Do ponto de vista estritamente profissional, o projeto implica o compromisso com a competência, que só pode ter como base o aprimoramento intelectual do assistente social. Daí a ênfase numa formação acadêmica qualificada, alicerçada em concepções teórico-metodológicas críticas e sólidas, capazes de viabilizar uma análise concreta da realidade social – formação que deve abrir o passo à preocupação com a autoformação permanente e estimular uma constante postura investigativa (ibid.). 52
  53. 53. Além dessa relação de construção, acredita-se que um dos grandes desafios para a profissão - que se dá diante da dependência química/codependência -, é há necessidade de ser um profissional versátil, na tentativa de redescobrir alternativas e com competência crítica para enfrentar as múltiplas expressões da questão social, que dão origem e espaço para os fenômenos em evidência. O profissional entrevistado é graduado em Serviço Social pela Instituição Faculdades Integradas Espírita, pós-graduado em Dependências Químicas pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná, atuou como voluntário na Comunidade Terapêutica Vale do Sol, atualmente exerce o cargo de Assistente Social no Departamento de Recursos Humanos, do Ministério Público do Estado do Paraná desde o ano de 1999; produz conhecimento científico na área dependência química/codependência, autor de vários livros na temática em questão. Abaixo, por meio da análise de dados, apresenta-se a prática, os desafios e as metodologias utilizadas/expostas pelo profissional do Serviço Social no fenômeno da codependência. 5.1 DESAFIOS E DIFICULDADES ENCONTRADAS NO DESENVOLVIMENTO DO TRABALHO COM FAMÍLIAS DE DEPENDENTES QUÍMICOS Para o profissional, os desafios são elencados da seguinte forma: “Ao longo dos anos, percebemos a necessidade de investigar a ‘aparente falta de escuta’ dos familiares (codependentes) e dos dependentes químicos no tocante aos conflitos socioeconômico-familiares, pois a demanda que se apresenta a estudo e intervenção sempre aumenta sobremaneira.” Segundo o A.S, a família, quando não capacitada, assume o papel de ‘cuidadora’, e o dependente químico, a postura de alguém incapaz e que precisa ser cuidado todo o tempo: 53
  54. 54. “(...) aos profissionais da área de saúde, cabe o difícil papel da sensibilização para que os dependentes químicos e seus familiares desejem reencontrar a saúde, a identidade, a esperança e que busquem seus direitos e não sejam omissos quando os mesmos forem violados.” Não obstante quando refere que cabe ao profissional o papel de conscientizálos acerca dos seus direitos, pode-se dizer que a codependência está atrelada à omissão, por exemplo: mães, esposas, avós que são violentadas e não recorrem aos seus direitos por medo que o adicto venha sofrer algum dano. O profissional se refere à falta de conhecimento e capacitação: “Se não compreender a manipulação inerente à doença, o contexto no qual ela se dá, e a razão pela qual ela ocorre, acaba entrando na relação com o usuário como “inocentes” (“inocentes úteis”), o que, em última análise, seria apenas para garantir-lhe o uso progressivo da droga”. Para o A.S, é uma espécie de retroalimentação, os dependentes químicos e os codependentes (geralmente os familiares diretos) não se escutam e, assim, se relacionam como se o fim último desta relação fosse o conflito: “por isso mesmo, esse relacionamento interpessoal tóxico gera as doenças, e em toda essa situação há a possibilidade de atuação do profissional assistente social.” É enfático quando refere ser uma doença progressiva: “quanto mais tardia for a intervenção profissional, mais difícil será o tratamento e, menor a chance de sucesso”, tendo em vista as suas multifaces apresentadas: “(...) como doença não somente física, emocional, psiquiátrica, social e espiritual, mas também familiar, onde a família faz parte integrante e atuante da (e na) doença, faz parte de sua origem, de sua evolução e/ou tratamento e manutenção”. 54

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