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20101116120551 20101116120551 Document Transcript

  • antonio flavio barbosa moreira Pesquisador em Currículo
  • perfis da educação Organização e Introdução Marlucy Alves Paraíso Textos selecionados de Antonio Flavio Barbosa MoreiraAntonio flavio barbosa moreira Pesquisador em Currículo
  • Copyright © 2010 Antonio Flavio Barbosa Moreira e Marlucy Alves Paraísocoordenador da coleção perfis da educaçãoLuciano Mendes de Faria FilhocapaAlberto Bittencourt(sobre foto de Vândiner Ribeiro)revisãoAna Carolina LinsLira Córdovaprojeto gráficoTales Leon de Marcoeditoração eletrônicaChristiane Morais de Oliveiraeditora responsávelRejane DiasRevisado conforme o Novo Acordo Ortográfico.Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhumaparte desta publicação poderá ser reproduzida, seja pormeios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica sema autorização prévia da editora.Autêntica Editora Ltda.Rua Aimorés, 981, 8º andar . Funcionários30140-071 . Belo Horizonte . MGTel.: (55 31) 3222 68 19Televendas: 0800 283 13 22www.autenticaeditora.com.br Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Moreira, Antonio Flavio Barbosa Antonio Flavio Barbosa Moreira, pesquisador em currículo / organiza- ção e Introdução Marlucy Alves Paraíso. – Belo Horizonte : Autêntica Edito- ra, 2010. – (Coleção Perfis da Educação ; 2) Bibliografia. ISBN 978-85-7526-500-0 1. Educação - Brasil 2. Educadores - Brasil 3. Moreira, Antonio Flavio Barbosa I. Paraíso, Marlucy Alves. II. Série. 10-09078 CDD-370.92 Índices para catálogo sistemático: 1. Brasil : Educadores 370.92
  • Sumário 7 Cronologia 9 Introdução urrículo: o campo escolhido por Antonio Flavio Barbosa Moreira para C aprender da tradição, subverter o possível e participar da transformação 29 Entrevista O constituir-se de um pesquisador em currículo no espaço entre a crítica e a luta por possibilidades Textos selecionadosParte 1: O crítico 59 A constituição e os rumos iniciais dos estudos de currículo no Brasil 19 Currículo e controle social 95 A configuração atual dos estudos curriculares: a crise da teoria críticaParte 2: O político119 Os Parâmetros Curriculares Nacionais em questão133 Propostas curriculares alternativas: limites e avanços159 Estudos de currículo: avanços e desafios no processo de interna- cionalizaçãoParte 3: O multiculturalista175 A recente produção científica sobre currículo e multiculturalismo no Brasil (1995-2000): avanços, desafios e tensões199 Currículo e Estudos Culturais: tensões e desafios em torno das identidades217 A qualidade e o currículo na escola básica brasileira237 Produção bibliográfica
  • Cronologia Período Atividade1945 Nasce Antonio Flavio Barbosa Moreira em Petrópolis (RJ)1951 Inicia sua escolarização na Escola Francisco Cabrita, no Rio de Janeiro (RJ)1955 Faz o curso de admissão no Instituto Guanabara (RJ)1956-1962 Cursa o ginásio e o científico no Colégio Militar do Rio de Janeiro1964-1967 Cursa Química Industrial na Escola de Química da Univer- sidade do Brasil1969-1971 Cursa licenciatura em Química na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)1971-1974 Cursa licenciatura plena em Pedagogia na Sociedade Univer- sitária Augusto Motta (RJ)1974-1978 Cursa o mestrado em Educação na Faculdade de Educação da UFRJ (FE/UFRJ)1980 Inicia sua carreira de professor no Departamento de Didática na FE/UFRJ, lecionando, inicialmente, Didática e Prática de Ensino1980-1990 Leciona Currículos e Programas na Federação das Faculdades Celso Lisboa1984-1988 Cursa o doutorado no Instituto de Educação da Universidade de Londres1990-1997 Professor adjunto da Faculdade de Educação da Baixada Flu- minense da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)1992-1995 Coordenador da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) na área de Educação 7
  • 1995-1999 Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Educação da FE/UFRJ1996-1998 Membro da Comissão da área de Educação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)1997-2003 Professor titular da FE/UFRJ2002-2003 Membro do Comitê Assessor da Área de Educação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)2003 Aposentadoria na FE/UFRJ2003-atual Colaboração no mestrado em Desenvolvimento Curricular do Instituto de Educação da Universidade do Minho2003-atual Professor titular da Universidade Católica de Petrópolis (UCP)2006-atual Coordenador do curso de mestrado em Educação da UCP2004-2007 Professor Visitante da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense da UERJ2006-2009 Vice-Presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Pós- Graduação em Educação (ANPEd)2010-atual Secretário-Geral da ANPEd8
  • Introdução Currículo: o campo escolhido por Antonio Flavio Barbosa Moreira para aprender da tradição,subverter o possível e participar da transformação Marlucy Alves ParaísoEste pesquisador chamado Antonio Flavio Barbosa Moreira Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho. Clarice Lispector, A hora da estrela Evocar Clarice Lispector em epígrafe para este texto – que tem por obje-tivo apresentar o professor pesquisador Antonio Flavio Barbosa Moreira emostrar como vejo, sinto e significo sua obra – implica um ponto de partidadesta escrita. Significa um início para apresentar os traçados de um caminhoque percorri com Antonio Flavio Barbosa Moreira, seja lendo “de longe” eaos poucos aquilo que esse pesquisador ia produzindo ao longo dos anosem sua trajetória acadêmica, seja convivendo de perto com ele, como suaaluna e orientanda de doutorado e como colega do Grupo de Trabalho deCurrículo da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Edu-cação (ANPEd), seja ainda me debruçando sobre sua vasta produção paraeleger, junto com ele, um conjunto de textos para compor este livro. Trata-sede uma obra que traz ao público da Educação, em geral, e do currículo, emparticular, uma síntese daquilo que esse professor pesquisador enfrentou,pensou, problematizou, escreveu e divulgou em seu percurso acadêmico. A frase de Clarice Lispector é usada neste início de texto, então, porqueaborda um tema que sempre vi presente na trajetória desse professor 9
  • pesquisador de notório reconhecimento no âmbito da educação e do cur-rículo: o trabalho árduo pela simplicidade. Como sua aluna e orientanda dedoutorado, presenciei o seu trabalho sobre si mesmo na busca pela simpli-cidade. Também escutei dele inúmeras vezes este conselho: “procure sersimples, falar e escrever com simplicidade. Um acadêmico precisa ser, antesde tudo, compreensível!”. Escutei, aprendi e repasso hoje essa aprendizagempara meus(minhas) orientandos(as), participando também do “jogo dereceber e entregar” tão importante na educação. Preocupado com um tipo de escrita de difícil compreensão que às vezesencontramos na área da Educação, Antonio Flavio insistiu na simplicidade ena clareza tanto da escrita como da forma de falar com nossos interlocutorese nossas interlocutoras. Ao resgatar os escritos desse pesquisador para comporeste livro, espero tornar evidente que ele colheu os frutos do seu trabalho con-sigo mesmo: conseguiu abordar e discutir polêmicas do campo do currículo,teorias de currículo, políticas curriculares e práticas curriculares das escolasde forma clara, precisa e com muita simplicidade. Seus argumentos, seu modode pesquisar, os conceitos com os quais trabalha, suas contestações e reivin-dicações políticas, teóricas e práticas para o currículo são facilmente vistos ecompreendidos em toda a sua produção. Antonio Flavio perseguiu e produziuum estilo simples que faz com que suas palavras logo se conectem com quemele se dirige: colegas acadêmicos(as), estudantes, professores(as), gestores(as),formuladores de políticas curriculares, participantes de movimentos sociais, etc.Antonio Flavio nunca se negou a discutir questões centrais sobre o currículocom quem quer que fosse, sempre de forma simples, paciente, elegante, críticae politizada. Mesmo quando muitas dessas questões eram delicadas, porquesuas argumentações seguiam na contramão das “verdades” do que se dizia efazia no espaço-tempo em que estava inserido, era possível vê-lo e escutá-loem sua simplicidade e elegância. Vi esse pesquisador discutir e apresentar suasformulações, indagações e argumentações com públicos os mais variados e emdiferentes espaços – congressos (grandes e pequenos), universidades, secretariasde educação estaduais e municipais, sindicatos, associações e escolas – semjamais vê-lo perder essa simplicidade por ele cultivada e conquistada. Trata-se, portanto, de um pesquisador-professor que produz admiraçãopor muitos motivos. Como professor, priorizou sempre a clareza para ensinare para conectar-se com os(as) estudantes. Como acadêmico, demonstrousempre capacidade para dialogar com quem pesquisa e faz a Educação e comas diferentes vertentes teóricas que circulam e às vezes se enfrentam no campocurricular. Como pesquisador, procurou juntar, somar – nunca subtrair – econstruir parcerias com diferentes pesquisadores(as) para problematizar erevigorar o pensamento e as investigações em currículo. O viver e o trabalhar10
  • desse professor pesquisador na educação produziram marcas no campo docurrículo brasileiro pela sua ação problematizadora, dedicada, solidáriae comprometida com a luta pela conquista da qualidade da educação emdiversas frentes da ação em que se situou e se situa no cenário educacionalbrasileiro. Espero que tudo isso possa ser visto nas próximas páginas destetexto, na entrevista com ele realizada e que aqui se encontra e no conjunto denove textos de sua autoria, escritos em diferentes momentos de sua trajetóriaacadêmica, que escolhemos para compor este livro. Os nove textos estãoorganizados em três partes que denominamos: (I) O crítico; (II) O político;e (III) O multiculturalista, para explicitar as frentes de ação, as perspectivasteóricas e algumas das principais preocupações desse pesquisador ao longode sua trajetória acadêmica no campo do currículo.Ocupar-se da tradição para lidar com os dilemas do campo do currículo Ocupar-se do já conhecido e realizado para interrogar; nunca ficar defora; ocupar-se da tradição para encontrar outros caminhos; tradição derever, analisar e problematizar os percursos trilhados por outros que nosdeixaram as suas propostas, suas experiências e os seus escritos; tradição deeducar as novas gerações e de pensar e se posicionar sobre que conhecimentoslhes ensinar. O trabalho árduo pela simplicidade foi feito pelo pesquisadorAntonio Flavio sem deixar de ocupar-se da tradição, daquilo que disseram,propuseram e fizeram em currículo. Sem ficar “por fora” do legado deixado por outros que o antecederam –progressivistas, pragmatistas, tecnicistas, humanistas, liberais – e sempre seocupando com os grandes desafios do “aqui e agora” do currículo, AntonioFlavio soube ser pesquisador híbrido, em metamorfose. Participou, assim,do jogo de receber e entregar de modo problematizado, modificando o quedisseram e fizeram em currículo, como o faz um educador atento aos dilemasdo seu tempo, que aceita as dores e as delícias de ser partícipe da constru-ção da história, dos acúmulos de um campo e da luta para produzir o queainda não existe. Híbrido porque recebeu diferentes influências teóricas aolongo da sua trajetória, constituindo um perfil diferenciado das influênciasrecebidas. Em metamorfose porque se deixou contagiar pelos novos mapasculturais que foram se formando na contemporaneidade e que contestamos currículos existentes; porque se deixa modificar, quando, por exemplo,introduz em suas discussões e preocupações as reivindicações dos gruposculturais que lutam por representação nos currículos escolares. Híbrido é também como Antonio Flavio caracteriza o campo docurrículo no primeiro texto que escolhemos para compor este livro – “A 11
  • constituição e os rumos iniciais dos estudos de currículo no Brasil”. Mas issosó é possível porque ele se ocupou do que já havia sido experimentado nocampo. Afinal, somente se dedicando ao já dito e feito é possível interrogaro já fabricado: o campo do currículo emerge no Brasil nos anos 1920 e 1930como cópia do que se passou nos Estados Unidos? A disciplina Currículose Programas, ensinada nos cursos de formação de professores na década de1970, se constituiria em cópia do tecnicismo forjado nos Estados Unidos? Hárealmente total falta de autonomia no campo curricular brasileiro quandoesse “novo campo” garante espaço em nossas universidades e quando aspesquisas especializadas se intensificam? As teorias e as práticas curricularesdesenvolvidas no Brasil ilustrariam um caso de cópia acrítica? Se a influêncianorte-americana no campo do currículo no Brasil foi marcante tanto naemergência como na consolidação do discurso sobre currículo entre nós,e se isso foi anunciado nos anos 1980 por inúmeros estudiosos do campocurricular, Antonio Flavio já inicia seus trabalhos, que o fazem conhecidocomo um importante pesquisador em currículo no Brasil, problematizandoos termos usados para falar dessa influência (ver Moreira, 1990a). Recebee entrega modificando o recebido. Afinal, para falar dessa influência americana na emergência e na con-solidação do discurso curricular brasileiro, inicialmente rejeita a metáfora dacópia e adota a categoria transferência educacional, que é por ele reconceptua-lizada para levar em conta tanto as interações entre os contextos culturais,políticos, sociais e institucionais dos países centrais e periféricos como asresistências, adaptações, combinações, rejeições e substituições que ocorremno processo. Recusa-se, também, a pensar esse processo como evidência deum “neocolonialismo” ou de um “imperialismo cultural” para defender quea “recepção de um material estrangeiro implica interações e resistências” emostrar que nossas primeiras teorizações sobre currículo constituem, de fato,combinações de diferentes ideias, tendências e interesses, mais que submissãoa essa ou aquela corrente do pensamento americano. Como é pesquisador em metamorfose, conectado com as mudanças edemandas de seu tempo, na continuidade de seus trabalhos, problematizadepois a categoria transferência educacional e opera com os conceitos de hibridi-zação e cosmopolitismo (ver Moreira, 1999, 2009a). Considera que a hibridiza-ção propicia uma melhor compreensão da conformação do campo do currículono Brasil porque, ao resgatar a produção bibliográfica sobre currículo no país,verifica que a recepção de materiais estrangeiros entre nós envolveu trocas,leituras, confrontos e resistências, cuja intensidade e cujo potencial subversivovariaram de acordo com circunstâncias sociais, políticas e econômicas locaise internacionais. Os discursos curriculares, nesse sentido, são compreendidos12
  • como resultantes de diferentes tradições e movimentos pedagógicos e comocorrespondendo a configurações transitórias. O currículo, por sua vez, passaa ser entendido como um híbrido, resultado de seleções de parcela da culturamais ampla, sempre envolvendo disputas e interesses. Em seus modos de lidarcom os dilemas do campo, portanto, os discursos curriculares brasileiros são,então, mapeados e analisados desde sua emergência no país como “discursoshíbridos no qual discursos de origens distintas e hierarquizados de diferentesmodos se desterritorializam e reterritorializam” (Moreira, 2003, p. 172). Ocontexto brasileiro em que esses discursos chegam, se juntam e articulam é,portanto, absolutamente central para compreendermos os significados e asfunções que eles adquirem. Todo esse contexto social, econômico, políticoe cultural em que o campo do currículo emerge e se consolida no Brasil édetalhadamente resgatado e mapeado por Antonio Flavio em sua obra, eencontra-se uma excelente síntese desse minucioso trabalho por ele realizadono primeiro texto deste livro. É, portanto, resgatando o já dito e feito em currículo, ocupando-seda tradição e interrogando o já fabricado, que o pesquisador em currículoAntonio Flavio se torna conhecido entre nós como o precursor da vertenteteórica crítica de currículo no Brasil. “O crítico” foi, desse modo, o nome dadopara o primeiro conjunto de três textos que escolhemos para compor estelivro. O pesquisador em currículo, que usa a tradição para construir outrospercursos, é claramente crítico, de estilo simples, e passa a fazer parte de umaoutra tradição: a de teóricos críticos de currículo. Ocupa-se de toda umahistória construída para introduzir diferentes vertentes críticas de currículoentre nós, divulgar os conceitos produtivos para pensarmos currículos emoutras bases, fazer a história da disciplina Currículos e Programas no Brasile fazer a sua história na educação brasileira como pesquisador em currículo.Receber e entregar subvertendo o possível no campo curricular Conquistar e reconquistar o que se herdou para rever a história do cur-rículo; divulgar outras categorias e outros conceitos, especialmente oriundosdas análises sociológicas do currículo, para proliferar outro pensamentocurricular no Brasil; fazer outra coisa com o que se herdou para, mais umavez, deixar àqueles que virão; fazer outra história com e no currículo: é issoque foi feito por Antonio Flavio e que chamo de receber e entregar subver-tendo o possível. Esse pesquisador em currículo de perspectiva crítica elege definitivamenteo campo do currículo como objeto de estudo em diferentes pesquisas que se 13
  • seguem em sua trajetória acadêmica. Sem desconsiderar aqueles(as) que oprecederam – e que tanto se empenharam em escrever sobre a elaboração, aorganização, o planejamento e o desenvolvimento dos currículos –, suas pro-duções teóricas refletem influências de toda a teorização crítica em Educaçãoe especialmente da teorização crítica em currículo. As categorias usadas emseus estudos dos anos 1980 e 1990 são aquelas usadas também em estudoscríticos de currículo de diferentes países: poder, ideologia, conflitos de classe,emancipação, resistência, controle social. Sua preocupação é tornar as nossasproduções curriculares mais críticas, problematizadoras e articuladas com oprojeto de emancipação das classes populares. Além disso, Antonio Flavio sin-tetiza e divulga, em diferentes trabalhos, o modo como estudiosos importantesda Sociologia do Currículo de outros países compreendem e trabalham comesses conceitos, com o desejo explícito de “contribuir para o desenvolvimentode uma teoria crítica de currículo no Brasil” (ver Moreira, 1989, 1990a, 1990b,1992, 1994). Cabe registrar que o curriculista crítico Antonio Flavio trabalhacom currículo observando e analisando as tensões, as contradições e as con-vergências de perspectivas e de categorias usadas no campo. Em consonânciacom outros pesquisadores críticos do período, seus escritos defendem a cons-trução de currículos que contribuam para “o desenvolvimento da consciênciacrítica”, da “consciência de classe”, que “favoreçam resistências” e incorporem“interesses das camadas populares”. Dialogando, portanto, com a tradição já acumulada no campo do cur-rículo, sempre usando seu estilo simples, recebendo dos que o precederam eentregando a nós que viemos depois, e com uma perspectiva extremamentepolítico-crítica, Antonio Flavio examina, no segundo texto escolhido paracompor este livro – “Currículo e controle social” –, as teorias de controlesocial que permeavam as diferentes tendências do pensamento curricular.Contudo o curriculista crítico problematiza as perspectivas de controle socialusadas por estudiosos de currículo subvertendo o dito e o mais comumenteaceito no campo sobre o controle social no currículo. Ao trabalhar com olegado deixado por outros estudiosos críticos do currículo que associarama emergência do campo curricular nos Estados Unidos a propósitos maisou menos explícitos de controle social, Antonio Flavio revoluciona as dis-cussões usuais sobre controle social e currículo e defende que “a concepçãode controle social não envolve necessariamente intenções conservadoras ecoercitivas e que, subjacente ao discurso curricular crítico, se encontra, eprecisa encontrar-se, uma noção de controle social orientada para a eman-cipação e para os interesses dos setores populares” (Moreira, 1992, p. 21).A discussão feita sobre controle social é para reivindicar uma teoria crítica queinclua um redimensionamento da questão de conteúdo escolar e evidencie a14
  • trama de poder envolvida na determinação unidirecional de um currículo ede um saber que são usados para reforçar desigualdades existentes. O curriculista crítico, em toda a sua produção, declara, explicitamente,sua preocupação com as grandes abstrações das teorias críticas, com suaausência de sugestões para a prática curricular crítica e com seu pouco usonas diferentes instâncias das políticas e práticas curriculares. É por esses eoutros motivos que ele considera que a teoria curricular crítica se encontraem crise. Isso é detalhadamente discutido por Antonio Flavio no terceirotexto da primeira parte deste livro – “A configuração atual dos estudos cur-riculares: a crise da teoria crítica”. Mas o pesquisador em currículo, mesmoreconhecendo a crise da teoria crítica de currículo, se mantém fiel a essacorrente teórica. Mais uma vez, o minucioso resgate feito dos seus aportes,dos dilemas que a teoria crítica de currículo vivencia e de suas dificuldadesteóricas e práticas é feito com o objetivo explícito de encontrar caminhospossíveis para resolver problemas dessa teoria e torná-la mais produtiva parao campo do currículo (ver Moreira, 1998). Nesse texto, escrito inicialmente para sua aula no concurso de titular naFaculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),Antonio Flavio explicita, uma vez mais, sua posição teórica no campo: suaperspectiva para pensar e pesquisar currículo é crítica; é nela que ele se insere;é essa teoria que ele trabalha para potencializá-la; e é ela que ele consideraadequada para subverter os currículos existentes, fazendo-os trabalhar a favorda “emancipação” das classes populares. O curriculista crítico, ao resgataros embates entre as vertentes teóricas neomarxistas e pós-modernistas nocampo do currículo, aceita uma apropriação crítica do pós-modernismo desdeque esse trabalho intelectual assuma “o compromisso com a emancipação”(Moreira, 1998, p. 29). As associações com as vertentes pós-modernasem uso no campo curricular só são pensadas e aceitas caso fortaleçamo compromisso com a emancipação de grupos oprimidos da sociedade.Como o próprio Antonio Flavio explicita: “importa buscar redimensionarconcepções, categorias e ações de modo a associar pós-modernismo e pro-jetos emancipatórios. Trata-se de trabalho em desenvolvimento, no qual ofoco deve ser a promoção de interações, para que os elementos críticos dasduas tradições se reforcem mutuamente” (Moreira, 1998, p. 29). Isso tudoé pensado, claramente, então, para tirar a teoria crítica de currículo do seuestado de crise, que ele tão bem caracteriza e analisa. Nesse sentido, a intensificação da preocupação com a prática curricular,caracterizada como “o motor da inovação”, é apresentada como uma impor-tante contribuição para a superação da crise da teoria crítica de currículo.Antonio Flavio esclarece que teorizar sobre currículo implica teorizar sobre 15
  • a prática escolar, o que “não precisa se reduzir à prescrição”, podendo “con-figurar-se em uma abordagem contextualizada”. Suas sugestões para os(as)pesquisadores(as) em currículo são claras: desenvolvimento de investigaçõesda prática curricular, em diferentes espaços, de modo a favorecer a renova-ção da prática e promover o avanço da teoria; participação na elaboraçãode políticas públicas de currículo; acompanhamento da implementação depropostas curriculares e realização de estudos nas escolas que avaliem essaimplementação (ver Moreira, 1998). O pesquisador em currículo – que é claramente crítico e simples, quesabe receber e entregar, conquistar e reconquistar e rever o que herdou, sub-vertendo o possível – deixa-nos, então, um legado: é importante continuarcompreendendo o currículo como uma construção social! É necessário nãoperder de vista as complexas conexões entre currículo, cultura e poder! Asteorias curriculares não podem perder de vista as análises das práticas cur-riculares nem mesmo os projetos de emancipação! É necessário trabalharpara politizar radicalmente o currículo e fazê-lo trabalhar contra a exclusãoe a reprodução de privilégios! Legado importante esse deixado por AntonioFlavio. Contudo, cabe a nós, curriculistas, que herdamos esse legado, saber-mos receber e, mais uma vez, entregar aos que virão de modo transformado,levando sempre em consideração os desafios curriculares e educacionais dotempo em que vivemos, como o próprio Antonio Flavio soube fazer.Desaprender o aprendido, transgredir o existente e fazer outras políticas de currículo Politizar radicalmente o currículo, a Pedagogia, a Educação; desconfiardas explicações, dos métodos e dos projetos tradicionalmente aceitos; exa-minar as relações entre currículo e a estrutura de poder na sociedade maisampla; ter clareza da função política que um currículo exerce e pode exercerem uma sociedade; suspeitar de todas as propostas de currículos feitas “emgabinetes fechados”, sem a participação daqueles(as) que verdadeiramentelidam com as práticas pedagógicas; abrir possibilidades para a construçãode propostas curriculares informadas por interesses emancipatórios; fazê-lotrabalhar a favor das lutas contra as desigualdades sociais; tornar o currículosempre e cada vez mais político: foi necessário que Antonio Flávio se ocu-passe do aprendido e do já existente em currículo, entendendo e analisandosuas propostas de educação das novas gerações, para que, como pesquisadorcrítico-político, pudesse escolher adequadamente as suas ferramentas teóricasa fim de politizar o currículo e transgredir o existente. Denominamos “O político” o segundo conjunto composto de outrostrês textos exatamente porque sintetiza essa preocupação do pesquisador16
  • Antonio Flavio em politizar radicalmente o currículo ao mesmo tempo quepassa a analisar as políticas curriculares brasileiras. Os efeitos dessa politi-zação podem ser vistos em suas análises críticas das políticas curriculares– tanto as oficiais como as chamadas alternativas –, nas discussões feitassobre os resultados políticos e culturais do processo de internacionalizaçãodo campo e nas relações que estabelece em seus estudos entre essas políticasde currículo e as práticas curriculares das escolas brasileiras. Nas análises das políticas de currículo que encontramos no conjuntoda obra de Antonio Flavio, há discussões tanto do processo de elaboraçãocomo dos próprios textos oriundos dessas políticas e também dos efeitosdessas políticas nos currículos das escolas (ver Moreira, 1996, 2006, 2007,2008, 2009a, 2009b). Nesses estudos, o professor pesquisador se manifestacrítico contundente das políticas de currículo nacional, de avaliação nacio-nal e das reformas curriculares empreendidas por governos neoliberais (verMoreira, 1995a, 1995b, 1996). Dentre sua produção sobre essa temática,escolhemos dois artigos que consideramos exemplares das análises efetuadassobre as políticas curriculares: “Os Parâmetros Curriculares Nacionais emquestão” – quarto texto deste livro – e “Propostas curriculares alternativas:limites e avanços” – quinto texto. O último texto da segunda parte, sextotexto escolhido para compor este livro – “Estudos de currículo: avanços edesafios no processo de internacionalização” –, movimenta-se politicamentesobre o campo do currículo discutindo o processo de internacionalização eseus efeitos para o campo curricular brasileiro. As análises críticas das reformas curriculares realizadas por AntonioFlavio são trabalhos de grande importância para o campo curricular brasi-leiro. Afinal, ele foi testemunha de todo o processo de construção dessas polí-ticas naquele momento histórico e, além disso, analisou propostas curricularesoficiais e alternativas empreendidas no Brasil em diferentes momentos: nosanos 1980, após a abertura política; no início dos anos 1990, quando dife-rentes municípios e alguns estados brasileiros resolveram elaborar propostascurriculares alternativas; e no final dos anos 1990, quando foram definidos,elaborados e implementados os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN)brasileiros. No quarto texto deste livro, portanto, o pesquisador analisa oprocesso de definição e elaboração dos PCN para o ensino fundamental,ocorrido no governo do então presidente da República Fernando HenriqueCardoso, antes mesmo de sua divulgação oficial em outubro de 1997 (verMoreira, 1996). Nesse trabalho são sistematizadas as principais críticas feitas,por diferentes estudiosos, ao processo de definição de Currículo Nacionalocorrido em outros países, especialmente na Inglaterra e na Espanha, a fimde encontrar subsídios para pensar os possíveis efeitos de um currículo 17
  • nacional no Brasil. Analisam-se também a concepção e a elaboração dessesParâmetros, assim como o enfoque de multiculturalismo que informa os PCN.Além disso, há uma defesa explícita feita pelo curriculista crítico-políticode que se valorizem e se considerem, no currículo escolar, as expressões eas vivências dos grupos oprimidos, que são desconsideradas nos PCN porele analisados. O curriculista crítico-político toma partido pela construção de currículosmais locais e com a maior participação de professores(as) e pesquisadores(as).A convocação dos(as) professores(as) das escolas para resistirem à instituiçãode um Currículo Nacional no Brasil é feita explicitamente, ainda que ante-cipasse as dificuldades que todos(as) nós enfrentaríamos nessa resistência.Afinal, como Antonio Flavio previa e anunciava, tal política viria acompa-nhada de várias outras políticas e medidas que objetivariam assegurar aimplementação dos PCN nas escolas, tais como: avaliação nacional, livrosdidáticos, materiais de apoio, formação dos docentes a distância, etc. (verMoreira, 1996).Trabalhos como esse de Antonio Flavio nos possibilitaramferramentas críticas de análise do que vinha ocorrendo em nosso país, ao seinstituir uma política curricular oficial para a nação. Podemos aprender comas críticas feitas por curriculistas de outros países e ficar mais atentos(as)àquilo que se estava instituindo entre nós. Ainda hoje esse trabalho é umadas poucas referências que temos, no campo do currículo, para conhecermoscomo se deu o processo de elaboração dos PCN no Brasil. Trata-se, portanto,de referência importante para todos(as) aqueles(as) que ficam com a tarefa decontinuar transgredindo no intuito de construir outras políticas curriculares. No quinto texto escolhido para este livro, a análise crítica recai sobre aspropostas curriculares que o pesquisador considera terem caminhado “nacontramão do discurso oficial hegemônico”, desenvolvidas nas décadas de1980 e 1990, em alguns estados e municípios brasileiros. São analisadas tantoas propostas curriculares elaboradas nos estados de Minas Gerais e São Paulo,nos anos 1980, como aquelas realizadas nos municípios de Porto Alegre, BeloHorizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, nos anos 1990. Resgatam-se, na aná-lise, as opções teóricas que subjazem a essas propostas e os enfrentamentospolíticos, culturais, sociais e pedagógicos que estas se propõem a encarar. Encontramos nesse texto uma das poucas análises de um conjuntode propostas curriculares chamadas “alternativas” no campo do currículobrasileiro. Trata-se, portanto, de mais uma importante referência ao campocurricular no Brasil e àqueles(as) que desejam subsídios para compreender osprocessos de produção dessas políticas curriculares. Trata-se de contribuiçãosignificativa para a análise das estratégias adotadas em cada uma dessas pro-postas, das preferências, dos focos, dos acertos ou erros dessas propostas de18
  • currículo produzidas nos anos 1980 e 1990 no Brasil. As reformas curricularesestudadas são, nesse seu trabalho, caracterizadas, comparadas e analisadas,destacando suas conquistas e enfatizando as alternativas que, na perspectivado autor, são possíveis, desejáveis e merecedoras de divulgação e estudo. Essetrabalho de análise dessas reformas alternativas é feito devido ao fato de opesquisador em currículo Antonio Flavio, crítico-político, explicitar que fazparte de um grupo de pesquisadores em currículo que estão convictos deque outras experiências, diferentes das reformulações curriculares oficiaisrealizadas em diversos países sob a ótica neoliberal, são possíveis. Consideratambém que, em muitos países, educadores críticos têm buscado maneirasde enfrentar as dificuldades e “praticar suas convicções democráticas”, sejana construção de outras políticas de currículo, seja na construção de práticascurriculares inovadoras. Para ele, é tarefa importante das pesquisas críticasem currículo estudar e dar visibilidade a essas propostas alternativas. Assim, nesse seu estudo das propostas curriculares alternativas, Anto-nio Flavio destaca os aspectos referentes ao caráter “claramente político dasreformas examinadas”. Afinal, considera que há um esforço nessas reformas,“por atenuar as dificuldades sofridas pelas camadas mais desfavorecidas dapopulação, dentre as quais se inclui a vivência de uma escola ainda poucodemocrática” (Moreira, 2000, p. 112). Exatamente por isso, sua análise éfeita em uma direção oposta àqueles estudos curriculares que consideramexistir muitas similaridades entre as propostas alternativas e as propostasoficiais de currículo produzidas no Brasil nos anos 1990 (ver Corazza,2001). Para ele, perspectivas desse tipo secundarizam as “expressivas dife-renças envolvidas nas condições de produção dos dois discursos e nos finssociais e políticos que as norteiam” (Moreira, 2000, p. 110). Outra frentede análise que considero de grande importância nesse estudo das refor-mas alternativas dos anos 1980 e 1990, introduzida por Antonio Flavio, éa explicitação das tendências pedagógicas que ampararam essas reformas– a proposta de educação popular de Paulo Freire e a pedagogia crítico-social dos conteúdos de Dermeval Saviani –, assim como das divergênciasdessas propostas em seus modos de lidar com o conhecimento escolar. Asduas tendências que subsidiaram essas propostas curriculares, ainda que“concordando com a necessidade de se teorizar a partir da situação espe-cífica da realidade educacional brasileira, bem como com a urgência de seconstruir uma escola de qualidade para os alunos das classes populares”,divergiam radicalmente “em relação ao conteúdo a ser ensinado nessaescola” (Moreira, 2000, p. 111). Antonio Flavio traz, assim, mais uma importante contribuição para ocampo ao explicitar como essas propostas curriculares alternativas lidaram 19
  • com as culturas populares quando se empenharam em realizar todo essemovimento de renovação curricular. Aliás, a questão de como lidar com acultura popular nos currículos escolares perpassa toda a obra do pesquisadorem currículo Antonio Flavio. Trata-se de um tema frequente e polêmico quejá foi objeto de discussões e debates contundentes no campo curricular bra-sileiro (Paraíso, 1994). Foi tema dos debates realizados nos anos 1980 entreos adeptos da proposta de educação popular de Paulo Freire e os adeptos dapedagogia crítico-social dos conteúdos de Dermeval Saviani. Esse debate; esuas implicações para o currículo, foi resgatado com maestria pelo próprioAntonio Flavio em sua obra (ver Moreira, 1990), que defende explicitamente“a necessidade de se abrir espaço nas escolas para a cultura popular”. Mas elemesmo explicita que “não deseja romantizar a cultura popular, nem fazerdela o único conteúdo do currículo”. A escola precisa “criticá-la, para queseus aspectos restritivos e repressivos sejam superados, assim como precisaidentificar e eliminar os componentes ideológicos que têm tornado o saberdominante um instrumento de manutenção de privilégios” (Moreira, 1992,p. 23). Quando Antonio Flavio discute o processo de internacionalizaçãodos estudos de currículo – o que pode ser visto no sexto texto deste livro –, aperspectiva é, também, claramente crítico-política. Afinal, ele explicita queestuda a internacionalização do campo porque acredita que isso pode con-tribuir para sua maior sofisticação teórica, assim como para “consolidar ocompromisso dos pesquisadores com justiça social”. Embora reafirme que arecepção de material estrangeiro no Brasil envolveu sempre “trocas, leituras,confrontos e resistências”, considera necessário analisar como se têm dadoas trocas culturais no contato com a produção científica de outros países.Isso porque acredita ser de grande importância que, nesses intercâmbios quetemos feito, cada vez de modo mais contundente, nós, pesquisadores(as) emcurrículo, preservemos nossa autonomia e capacidade crítica, “de modo aevitar absorções apressadas de teorias e de idéias estranhas aos propósitos eaos interesses locais e específicos” (Moreira, 2009a, p. 369). Antonio Flavio problematiza o processo de hibridização vivenciado nocampo curricular no atual momento histórico em que “diferentes discursostêm sido incorporados, em certas situações, com grande velocidade, o queacaba por provocar a perda de seus marcadores originais”. A apropriaçãode reformas curriculares estrangeiras, pautada pela absorção de variadasinfluências, é citada como exemplo dessa dinâmica. Esse processo, para oautor, “diluiu as características dos contextos originais, disseminando-asem uma profusão de textos cujas fontes deixaram de ser reconhecíveis”. Porisso é que o autor considera que “não faz sentido partir do pressuposto deque as trocas culturais se inspiram sempre por posturas como tolerância e20