Raízes da identidade da Geografia Marxista na obra Crítica da Filosofia do Direito de Hegel: aplicações na Epistemologia da Geografia
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O presente estudo visa rastrear elementos radiculares da Geografia Marxista na obra Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, e possíveis aplicações na epistemologia da Geografia, contribuindo ...

O presente estudo visa rastrear elementos radiculares da Geografia Marxista na obra Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, e possíveis aplicações na epistemologia da Geografia, contribuindo desta forma para o avanço no campo da teoria e método.

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Raízes da identidade da Geografia Marxista na obra Crítica da Filosofia do Direito de Hegel: aplicações na Epistemologia da Geografia Raízes da identidade da Geografia Marxista na obra Crítica da Filosofia do Direito de Hegel: aplicações na Epistemologia da Geografia Document Transcript

  • 1 Raízes da identidade da Geografia Marxista na obra Crítica da Filosofia do Direito de Hegel: aplicações na Epistemologia da Geografia RIBEIRO JUNIOR, José Arnaldo dos Santos RONDON/NEPS/AGADÁ/GEDMMA/UFMA aj_ramone@hotmail.com ALMEIDA, Juscinaldo Góes - NEPS/UFMA juscinaldogoes@hotmail.com Orientadores: Prof. Dr. Baltazar Macaíba Sousa (NEPS/DESOC/UFMA) Prof. Marcelo de Sousa Araújo (PGCULT/NEPS)Resumo: O presente estudo visa rastrear elementos radiculares da Geografia Marxista na obraCrítica da Filosofia do Direito de Hegel, e possíveis aplicações na epistemologia daGeografia, contribuindo desta forma para o avanço no campo da teoria e método.Palavras-Chave: Princípios da Filosofia do Direito. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel.Marx. Geografia Marxista.1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS Inicialmente este trabalho representa um duplo desafio: 1) o desafio de se resgatar o“Marx esquecido”, ou seja, trazer à tona as discussões filosóficas e políticas que o “JovemMarx” aborda em sua Tese de Doutorado, na Questão Judaica, nos Manuscritos Econômico-Filosóficos e, no caso específico, da Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. O segundodesafio é aplicar as suas ideias filosóficas e políticas estabelecendo um paralelo e, ao mesmotempo, um diálogo entre Geografia e Filosofia, mostrando para a primeira (Geografia), que aFilosofia não é supérflua e muito menos está presa ao campo das ideias, ao passo que parasegunda (Filosofia), a Geografia afirma-se como Ciência Humana e Social, dotada de cabedalteórico-metodológico e epistemológico, no qual a teoria e a prática materializam-se noEspaço, objeto de estudo da Geografia. Dito isto, aborda-se aqui as concepções marxianas da Crítica da Filosofia do Direitode Hegel, obra do ano de 1843, na qual Marx tece críticas ferozes e contundentes ao
  • 2“endeusamento” do Estado por parte de Hegel, haja vista este último, subordina àquele aSociedade Civil e a Família na obra Princípios da Filosofia do Direito. Meticulosamente é traçado, simultaneamente à análise das obras citadas, paralelos eaplicações à Epistemologia, Método e Teoria em Geografia, uma vez que a obra de Marxapresenta material filosófico e político riquíssimo aplicável nas análises geográficas sobreEspaço.2 Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, Marxismo e Geografia 1: Contribuições para aEpistemologia na Ciência Geográfica Na obra Princípios da Filosofia do Direito, Hegel (2003: 226) deixa bem evidente ocaráter superior do Estado em detrimento da Família e Sociedade Civil, uma vez que osinteresses particulares, privados, tanto da Família, como da Sociedade Civil sãouniversalizados no Estado2. Por isso, ele afirma que: 261 - Em face do direito privado e do interesse particular, da família e da sociedade civil, o Estado é, por um lado, necessidade exterior e poder mais alto; subordinam- se-lhe as leis e os interesses daqueles domínios mas, por outro lado, é para eles fim imanente, tendo a sua força na unidade do seu último fim universal e dos interesses particulares do indivíduo; esta unidade exprime-se em terem aqueles domínios deveres para com o Estado na medida em que também têm direitos (§ 155º). Sendo assim, para Hegel, a família e a sociedade civil são esferas ideais do Estado, sãoseus pressupostos (fato este que o próprio Marx considera), mas que, contraditoriamente,estão subordinados ao Estado. No entanto, o próprio Marx (1983: 11-12) aponta: “enquanto aidéia é subjectivada, os sujeitos reais, a sociedade civil, a família [...] transformam-se aqui emmomentos subjectivos da idéia, não reais, tendo um sentido diferente”. Hegel em sua obratraça uma oposição sistemática entre a esfera política-econômica, o Estado, e a esfera social, aSociedade Civil (LALLEMENT, 2004). O que Karl Marx pretende demonstrar em sua magnífica obra é a constantecontradição em que Hegel desenvolve as suas idéias. No caso específico citado acima, Marxaponta que família e a sociedade civil são reais, ou seja, a divisão do Estado em família e1 QUAINI, Massimo. Marxismo e Geografia. 3ªed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.2 A Família e Sociedade Civil são, em dois momentos respectivos, a resolução das contradições entre o Direito ea Moral, uma vez que o Direito aparece enquanto regulação das relações entre os proprietários; já a Moral é aconstituição das relações entre os sujeitos. De acordo com CHAUÍ, Marilena. O que é ideologia. 2ªed. SãoPaulo: Brasiliense, 2008.
  • 3sociedade civil é essencial para que o próprio Estado erija-se e tenha em si mesmo essaconsciência. Marx vai refutando contundentemente, na sua obra, a mentalidade hegeliana,pois não crê que o Estado determine a Família e a Sociedade Civil, muito menos aceita amistificação proposta por Hegel para com o Estado prussiano autoritário 3. Como Lallement(2004: 111-112) aponta “[...] longe de ser a solução para todos os problemas sociais, o Estadoé na realidade - inclusive em regimes democráticos - apenas um fator de alienação. Noutraspalavras ainda, não é tanto o Estado que cria a sociedade, mas o inverso [...]”. Aqui cabe já estabelecer conexões com a Geografia Política Clássica, que tem noEstado o grande ator do espaço mundial. Moodie (1965) mostra que o Estado tem trêselementos essenciais: território, povo e organizações. Ora, mas o território nada mais é queum espaço definido e delimitado por relações poder (SOUZA, 2007). Se pensarmos bem,quando a Sociedade Civil organiza-se e luta por seu território surge uma estrutura deingerência multiescalar denominada Estado, ratificando o que Marx já havia apontado no quetange à Sociedade Civil e à Família erigindo-se a si mesmas como Estado. De fato, não podeexistir Estado sem território, território sem sociedade civil, sociedade civil sem família,portanto sem essas instâncias não há Estado. “Significa isto que o Estado político não podeexistir sem a base natural da família e a base artificial da sociedade civil” (MARX, 1983: 13). Continuando, Marx ao tecer críticas à Hegel pelo endeusamento do Estado emdetrimento da sociedade civil (LALLEMENT, 2004) traz à tona a perspectiva datransformação social. Como? Na parte dedicada ao poder soberano, Marx ironiza Hegelescrevendo: “Como se o povo não fosse o Estado real! O Estado é abstracto; só o povo éconcreto” (MARX, 1983: 44). A razão dessa ironia de Marx deve-se ao fato de Hegelconstantemente conceber Estado Político independente do povo. Isso fica bem claro nasafirmações de Hegel, quando escreve: “a razão do Estado, a consciência do Estado, é umapersonalidade empírica única que exclui todas as outras [...] a personalidade do Estado só setorna real como pessoa e no monarca (HEGEL apud MARX, 1983: 41)”. Notadamente, quando Hegel afirma que “o Estado é uma personalidade empírica queexclui todas as outras”, pode-se ler: o Estado é uma personalidade empírica que exclui aSociedade Civil e Família. Por isso, Marx vai ser incisivo ao expressar que o grande objetivode Hegel é apresentar o monarca como um ser onipotente e onisciente, uma espécie de3 Moraes (2005a: 116-117) inculca que as formulações de Ratzel constituem um dos melhores exemplos de“prussianismo”, sendo um dos veículos da aguerrida política cultural nacionalista e militarista de Bismarck.Ratzel é o pioneiro formulador da Geografia política e um teórico do apetite “territorial” do Estado.
  • 4“Homem-Deus”. “A personalidade do Estado só é real como pessoa: o monarca” (HEGEL,2003: 255-256). Evidentemente Hegel contradiz os próprios pressupostos do Estado, aSociedade Civil e a Família. Não obstante, Marx (1983: 32-33) reitera dizendo que: “os assuntos e actividades doEstado estão ligados a indivíduos (o Estado só pode actuar através dos indivíduos); não oindivíduo físico, mas sim o indivíduo político, isto é, tomado na sua condição de membro doEstado”. Como se pode ver, Marx está contra-argumentando Hegel, pois este toma o podersoberano, o monarca, enquanto arbítrio, impossibilitando assim a constituição do interessegeral. Prosseguindo, Marx rebate Hegel pela definição que este último dá ao monarca:personalidade do Estado, certeza de si. “O monarca é a soberania personificada, a soberaniaencarnada, a consciência objetiva do Estado que exclui a soberania de todas as outrasentidades e as priva da personalidade e da consciência do Estado” (HEGEL apud MARX,1983: 41). Hegel parte do Estado e conclui que o homem é o Estado subjectivado; a democracia parte do homem e conclui que o Estado é o homem objectivado. Assim como a religião não cria o homem e é o homem que cria a religião, também a constituição não cria o povo, sendo este que cria a constituição. De um certo ponto de vista, a democracia está para todas as outras formas políticas como o cristianismo está para as outras religiões. O cristianismo é a religião por excelência, a essência da religião, o homem deificado sob a forma de religião particular. [...] a democracia está para todas as outras formas políticas tal como a religião está para o seu Antigo Testamento. O homem não existe devido à lei; esta é que existe devido a ele, sendo, portanto uma existência humana, enquanto que nas outras formas políticas o homem é a existência legal. Eis a diferença fundamental da democracia (MARX, 1983: 46- 47). Este trecho acima citado é riquíssimo para se entender a genialidade de Marx em suaanálise. Se repararmos bem, Marx refuta o idealismo hegeliano por meio do seu materialismohistórico-dialético, no qual afirma que é a matéria, dinamicamente, que cria a idéia, ou seja,por exemplo, é o homem que cria a religião e não o contrário. Sendo assim, Marx tira adialética da subordinação para com o idealismo, fato sumariamente evidenciado na obrahegeliana (POLITZER, 1981). No tópico do poder governativo, a idéia central da crítica de Marx é quanto ao fato deHegel ter desenvolvido este poder apenas enquanto administração (burocracia), ou seja, obraço do Estado. Hegel vai construindo a todo o momento a oposição entre poder governativoe sociedade civil, tal como dois exércitos inimigos como Marx escreve. Para Marx aburocracia é a corporação do Estado, por isso rebate Hegel (2003: 266-267) quando esteúltimo diz:
  • 5 A conservação do interesse geral do Estado e da legalidade entre os direitos particulares, a redução destes àqueles exigem uma vigilância por representantes do poder governamental, por funcionários executivos e também por autoridades mais elevadas com poder deliberativo, portanto colegialmente organizadas. No seu conjunto, as autoridades elevam-se à proximidade imediata do monarca. Equivocadamente Hegel pensara que construiu os representantes do podergovernamental, os funcionários executivos, como representantes da sociedade civil. Todaviaacabou por fixar a oposição entre Estado e Sociedade Civil por meio dos referidosrepresentantes do poder governamental, os funcionários executivos. Sabiamente Marx (1983:77) adverte que: Com estes representantes não é suprimida a oposição; esta é antes transformada em oposição legal, rígida. O Estado, na medida em que é estranho e exterior ao ser da Sociedade Civil, é defendido pelos representantes deste ser contra a sociedade civil. A polícia, os tribunais, a administração, não são representantes da própria sociedade civil, vigiando em si mesmos e através de si mesmos o seu próprio interesse comum, mas sim representantes do Estado encarregados de o administrar contra a sociedade civil. Não obstante, Hegel aborda em sua obra, um aspecto importante, que é o patriotismo eque se pode fazer um paralelo com a Geografia. Assim como a sociedade civil é o campo de batalha dos interesses individuais de todos contra todos, assim aqui se trava o conflito entre este interesse geral e os interesses da comunidade particular e, por outro lado, entre as duas espécies de interesses reunidas e o ponto de vista mais elevado do Estado e suas determinações. O espírito corporativo, que nasce da legitimidade dos domínios particulares, no interior de si mesmo se transforma em espírito do Estado, pois no Estado encontra o meio de alcançar os seus fins particulares. Esse é, deste ponto de vista, o segredo do patriotismo dos cidadãos: reconhecem o Estado como sua substância, pois conservam os seus interesses particulares, sua legitimidade, sua autoridade e seu bem-estar. No espírito corporativo, que imediatamente implica a ligação do particular ao universal, é onde se verifica como o poder e a profundidade do Estado radicam-se nos sentimentos (HEGEL, 2003: 267, os grifos são nossos). Fazendo uma comparação com a Geografia, verifica-se que esta disciplina serviudurante muito tempo (e ainda serve) à louvação da pátria, do Estado-Nação, vide a EscolaAlemã, a Escola Francesa e Escola Anglo-Saxônica4, por exemplo, que se utilizaram dodiscurso geográfico para edificar o nacionalismo. Hoje ainda, em todos os Estados, e sobretudo nos novos Estados recentemente saídos do domínio colonial, o ensino da geografia é, incontestavelmente, ligado à ilustração e à edificação do sentimento nacional. Que isso agrade ou não, os argumentos geográficos pesam muito forte, não somente no discurso político (ou politizado), mas também na expressão popular da idéia de pátria, quer se trate de4 Para maiores informações sobre as escolas geográficas vide MOREIRA, Ruy. O que é Geografia. São Paulo:Brasiliense, 2007.
  • 6 reflexos de uma ideologia nacionalista invocada pelos coronéis, uma pequena oligarquia, uma "burguesia nacional", uma burocracia de grande potência, ou se refira aos sentimentos do povo vietnamita (LACOSTE, 2007: 57). Quando Marx inverte a lógica hegeliana que aponta a subordinação da SociedadeCivil, da Família e, até mesmo da Filosofia, para com o Estado, abriu espaço para que, maistarde, em meados do século XX, geógrafos estabelecessem este mesmo paralelo no que tangeà dialética Sociedade-Espaço. Como foi trabalhado/feito este paralelo? A resposta é aGeografia Crítica ou Marxista. A influência de Hegel pode ser reconhecida na obra de Ratzel e mesmo nos trabalhos de Ritter. Marx teria igualmente influenciado em muitos pontos o trabalho de Ratzel, de Vidal de La Blache, de Jean Brunhes. Todavia, e por múltiplas razões, foi a herança idealista e positivista que, afinal de contas, acabou por se impor à geografia, isto é, à geografia oficial: o cartesianismo, o comtismo e o kantismo eram frequentemente apoiados e misturados aos princípios de Newton e também ao darwinismo e ao spencerismo (SANTOS, 2002: 48). Até antes da incursão da doutrina marxiana/marxista na Geografia, esta ciência eradominada pelo Positivismo 5. E como é do conhecimento dos estudiosos, o positivismo incutiuna Geografia o indutivismo, a não explicação dos fenômenos e a mera observação dosmesmos. Tendo tais exercidos preparatórios mostrado espontaneamente a inanidade radical das explicações vagas e arbitrárias próprias à filosofia inicial, quer teológica, quer metafísica, o espírito humano renuncia de ora em diante às pesquisas absolutas, que só convinham à sua infância, e circunscreve os seus esforços ao domínio desde então rapidamente progressivo, da verdadeira observação, única base possível dos conhecimentos realmente acessíveis, criteriosamente adaptados às nossas necessidades efetivas (COMTE, 2009: 12). O trecho acima extraído é da obra Discurso Preliminar Sobre O Espírito Positivo, deautoria de Isidore - Auguste - Marie - François - Xavier Comte, mais conhecido comoAugusto Comte. Neste pequeno trecho têm-se idéia do pensamento comtiano e da suainfluência na Geografia, pois esta ciência adotou como pano de fundo a descrição dos fatos,dos lugares, das paisagens. A esta vertente da Geografia dá-se o nome de GeografiaTradicional e era uma vertente puramente fisiográfica, na qual, o homem era apenas umelemento da paisagem, ou como diria Paul Vidal de La Blache, “a Geografia é uma ciênciados lugares e não dos Homens” (MORAES, 2005: 79).5 “Filosofia determinista que professa, de um lado, o experimentalismo sistemático e, de outro, consideraanticientífico todo o estudo das causas finais. Assim, admite que o espírito humano é capaz de atingir verdadespositivas ou da ordem experimental, mas não resolve as questões metafísicas, não verificadas pela observação epela experiência” (RIBEIRO JÚNIOR, 2006:15).
  • 7 Sob a matriz do Positivismo, a Geografia serviu para escamotear a vital importância dese pensar o Espaço, escondendo assim as contradições vigentes no seu processo de produção.A preocupação social era nula, haja vista não era enfatizada a Sociedade Civil (possívelalusão à Marx), mas sim o Estado (possível alusão à Hegel). O marxismo, só penetrará naGeografia a partir da crise ambiental e dos modelos quantitativistas presentes. O marxismo representa uma forma de pensamento enraizada na filosofia de Georg Wilhelm Hegel (1770-1831). Todavia tenha aí suas raízes, não é um pensamento de corte romântico e idealista, como o é o pensamento hegeliano, ponto alto da filosofia clássica alemã. Marx (1818-1883) extrai da filosofia de Hegel o seu sentido de história e o caráter dialético do real, seja esse real a natureza - campo da história natural -, seja ele o homem - campo da história social -, uma história se desdobrando na outra como processo de construção do homem. O sentido da história dá o tom holista do pensamento marxista: a história social do homem é o salto de qualidade dialético do desenvolvimento da sua história natural, um processo realizado pelo trabalho (“desde quando aparece no mundo, história natural e história social do homem se confundem” como Marx sintetiza em A Ideologia Alemã), por meio do qual se dá a hominização do homem pelo próprio homem, fundando com isso o materialismo histórico (MOREIRA, 2006:39-40). O período de efervescência que foi experimentado na segunda metade do século XXabalou a Geografia. Geógrafos inquietos com as diretrizes tomadas por esta ciência começama questionar a função ideológica da mesma, a serviço principalmente do Estado. Colocar como ponto de partida que a geografia serve, primeiro, para fazer a guerra não implica afirmar que ela só serve para conduzir operações militares; ela serve também para organizar territórios, são somente como previsão das batalhas que é preciso mover contra este ou aquele adversário, mas também para melhor controlar os homens sobre os quais o aparelho de Estado exerce sua autoridade (LACOSTE, 2007: 22-23, os grifos são nossos). Geógrafos como P. George, R. Guglielmo, B. Kayser, Jean Tricart, Jean Dresch e,principalmente Yves Lacoste6, David Harvey, Edward Soja, Armando Correa da Silva,Massimo Quaini e Milton Santos, trouxeram para esta ciência a possibilidade de se fazer umaGeografia Nova, uma Geografia que se preocupe com a transformação da sociedade e nãosirva apenas para legitimar o domínio do aparelho Estado. Eis então o pensamento marxistasobre a Geografia. Os geógrafos dos anos 1950 e 1970 descobrem Hegel e Marx, e completam, dois séculos depois, o circuito da incursão da geografia pelo terreno da filosofia clássica6 Sobre este autor vide A Geografia - isso serve em primeiro lugar, para fazer a guerra. 13ªed. Trad. MariaCecília FRANÇA. Campinas, SP: Papirus, 2007. Nesta obra o autor tece uma crítica ferrenha e contundente àsua ciência e pelo que fizeram dela, abordando pontos ideológicos (como a ação desta disciplina e sua aliançacom o Estado), a restrição ao saber pensar o espaço que fica nas mãos de poucos, o escamoteamento darealidade social, carências epistemológicas, geopolítica, dentre outros aspectos.
  • 8 alemã, incorporando ao pensamento geográfico moderno a dialética e i sentido de história de Hegel, via Marx [...](MOREIRA, 2006:40). Um dos maiores “marxizantes7” da geografia brasileira, Milton Santos também deusua contribuição, no que tange à “dialeticidade” entre Sociedade e Espaço e vice-versa,mostrando que ambos se influenciam e se determinam e não apenas um em detrimento dooutro. Milton Santos inverte toda lógica da Geografia Tradicional na qual o espaço é apenasum produto da sociedade determinado por esta. Inverte também a lógica da GeografiaRegional de La Blache na qual o Homem, ou Sociedade, é apenas um elemento da Paisagem,ou seja, à luz do materialismo dialético demonstra como Homem (Sociedade) e Espaço seinfluenciam concomitantemente. Pode-se pensar numa dialética entre a sociedade e o conjunto de formas espaciais, entre a sociedade e a paisagem? Ou a dialética se daria exclusivamente entre sociedade e espaço? É a sociedade, isto é, o homem, que anima as formas espaciais, atribuindo-lhes um conteúdo, uma vida. Só a vida é passível desse processo infinito que vai do passado ao futuro, só ela tem o poder de tudo transformar amplamente. Tudo o que não retira sua significação desse comércio com o homem, é incapaz de um movimento próprio, não pode participar de nenhum movimento contraditório, de nenhuma dialética [...] Não existe dialética possível entre formas enquanto formas. Nem, a rigor, entre paisagem e sociedade. A sociedade se geografiza através dessas formas, atribuindo-lhes uma função que, ao longo da história, vai mudando. O espaço é a síntese, sempre provisória, entre o conteúdo social e as formas espaciais. Mas a contradição principal é entre sociedade e espaço, entre um presente invasor e ubíquo que nunca se realiza completamente, e um presente localizado, que também é passado objetivado nas formas sociais e nas formas geográficas encontradas. [...] Em cada momento, em última análise, a sociedade está agindo sobre ela própria, e jamais sobre a materialidade exclusivamente. A dialética, pois, não é entre sociedade e paisagem, mas entre sociedade e espaço. E vice-versa (2006: 70-71, os grifos são nossos). Portanto, a Geografia Crítica ou Marxista é a saída da Geografia do estado deminoridade. É, pois, a Geografia Marxista que estabelece a dialética material entre Sociedadee Espaço. Se antes, para a Geografia Tradicional, pensava-se que o Espaço era determinadounilateralmente pela Sociedade (assim como Hegel subordinava a Sociedade Civil para com oEstado), foi a partir da segunda metade do século XX, com a Geografia Crítica, que o espaçoé evidenciado, ou seja, o Espaço também determina ou influencia a Sociedade, e vice-versa(tal como Marx pensava e ensinava que a Família, a Sociedade Civil e o Estado sedeterminam simultaneamente). Não há dúvida de que a assimilação do marxismo foi a pedra angular na edificação da chamada geografia crítica, influenciando de modo intenso todos os seus aspectos teórico-metodológicos e ideológicos. Houve diferenças significativas nas formas dessa assimilação, dependendo do país, instituição ou mesmo das interpretações7 Aqueles “que tiram da obra de Marx o que lhes convém”, de acordo com Netto (2006: 9).
  • 9 particulares de cada geógrafo sobre a obra marxiana, mas é inegável que o marxismo constituiu a principal fonte da geografia crítica ou radical (DINIZ FILHO, 2004: 77). Notadamente, não foi somente esta obra marxiana, Crítica da Filosofia do Direito deHegel, que influenciou os geógrafos a politizarem as questões e evidenciarem a sociedade noespaço. Todavia, as observações que Marx pondera ao longo da obra, permitem que, mesmoindiretamente, o espaço social, o espaço da sociedade seja posto em destaque.3 CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao longo do que foi trabalhado nesta análise, observou-se que é totalmente infrutíferoa indiferença entre Geografia e Filosofia, pois ambas fornecem elementos para a compreensãode aspectos do mundo moderno, tanto do ponto de vista teórico/conceitual, como da práxis. Como já fora mencionado, Hegel vê no monarca o “Homem-Deus”, bem como noautoritarismo do Estado, a universalização e a expressão da razão. Marx, ao contrário, ressaltafrequentemente a importância da Sociedade Civil e da Família, pois ambos influenciamsimultaneamente o Estado, haja vista são seus pressupostos. A louvação que Hegel faz juntoao Estado, personificados no monarca e nos funcionários executivos, os representantes, maistarde será invertida por Marx quando o proletariado assumirá o papel principal na sociedade. É esta dialética materialista que modificará a maneira de se fazer e pensar Geografia apartir de meados do século XX. Ao desgarrarem-se paulatinamente da ingerência positivistarepresentada pela Geografia Tradicional, geógrafos de todo mundo reafirmarão o Espaço naTeoria Social, bem como expressarão que o mesmo não é somente, reflexo da sociedade, mastambém exerce elevada influência sobre aquela. O salto de qualidade da Geografia nãopoderia ser expresso com melhor nome: GEOGRAFIA MARXISTA. REFERÊNCIASCOMTE, Augusto. Discurso Preliminar Sobre O Espírito Positivo. Trad. Renato BarbozaRodrigues PEREIRA. Disponível em:http://www.4shared.com/file/18694960/a31f46be/Augusto_Comte_-_Discurso_premilinar_sobre_o_espirito_positivo.html?s=1. Acesso em 19 de janeiro de 2009.
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