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Ocupação das terras do maranhão ao longo do século xx e a injeção do grande capital internacional modernização capitalista do campo e os conflitos agrários

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Ocupação das terras do maranhão ao longo do século xx e a injeção do grande capital internacional modernização capitalista do campo e os conflitos agrários

  1. 1. 1OCUPAÇÃO DAS TERRAS DO MARANHÃO AO LONGO DO SÉCULO XX E A INJEÇÃO DO GRANDE CAPITAL INTERNACIONAL: “modernização” capitalista do campo e os conflitos agrários Danniel Madson Vieira OLIVEIRA (UFMA*/GEOTEC/LEBAC/UEMA**) José Arnaldo dos Santos RIBEIRO JUNIOR (UFMA*/GEOTEC) Tiago Silva MOREIRA (UFMA*/GEOTEC/UEMA**)Orientadora: Profª. Esp. Márcia Fernanda Pereira GONÇALVES (UFMA/DEGEO/NEPA) * Discente do Curso de Geografia. **Discente do Curso de História. RESUMOA ocupação do território do Maranhão ao final do século XIX e durante o século XXocorreu de forma concomitante aos conflitos agrários em decorrência da inserção do estadono contexto capitalista mundial. Os incentivos governamentais que impulsionaram amodernização da agricultura maranhense são relativamente recentes e privilegiaram oslatifundiários com a construção da infra-estrutura apelativa ao capital internacional e acriação de órgãos cujo objetivo de deslocar o camponês das terras hipervalorizadas émarcante – órgãos como o ITERMA (Instituto de Colonização e Terras do Maranhão),COLONE (Companhia de Colonização do Nordeste) e INCRA (Instituto Nacional deColonização e Reforma Agrária). Na medida em que se intensifica a modernizaçãocapitalista, vem sendo consolidada uma situação de exclusão social, fundamentada nagrande propriedade de terras, seja pela expropriação e assalariamento do camponês, sejapela favelização na periferia dos centros urbanos como São Luís, Imperatriz, Açailândia,Paço do Lumiar, São José de Ribamar, entre outros. Daí o objetivo deste artigo: explanaras fases de ocupação das terras do Maranhão no século XX, suas relações com aapropriação da terra pelo trabalhador rural e a modernização capitalista do campo. Pontosdemasiadamente essenciais para compreender a problemática fundiária do estado. Acercada elaboração e consequentemente a conclusão do presente artigo foram utilizados no seudecorrer os métodos dialético e o dedutivo.Palavras-chave: Ocupação do Território. Espacialidade. Conflitos Agrários. Campesinato.Capitalismo.1 INTRODUÇÃO Dentre tantas questões pertencentes ao saber geográfico, a discussão sobre aquestão agrária se caracteriza como uma das mais abrangentes onde aspectos comoespacialidade e colonização se fundiram desencadeando uma nova perspectiva do espaço.O processo de redefinição do lugar, através do fluxo demográfico, de capital e de poder,
  2. 2. 2acaba adquirindo um caráter protagonizante no que diz respeito à noção de desigualdadeterritorial, ou seja, o antagonismo existente entre os espaços que “mandam” e aqueles que“obedecem”. A própria dinâmica da espacialização global vai elencar e definir o que écentro e o que é periferia, sempre em busca de uma melhor forma de exercer ou impor opoder (SANTOS; SILVEIRA, 2006, p. 259). Numa perspectiva local o território do Maranhão sofreu um processo demetamorfisação, durante o século XX, no que tange a demografia. Diversos fatoreshistóricos, sociais, fisiográficos e econômicos contribuíram para a dinamização e orealocamento de pessoas e capital no estado. Desse modo, inicialmente faz-se uma breve discussão sobre o território: umconceito-chave da Geografia. Em seguida, detalha-se a ocupação territorial do Maranhãono século XX para entender-se como chegamos ao quadro atual de “modernização”,investimento de grandes somas de capital e “latifundização” das terras antes camponesas,já que o processo de capitalização do campo é algo concreto no estado. Por isso tudo,pretende-se reforçar e ampliar as informações a respeito da formação do territóriomaranhense, bem como compreender as características históricas, sociais, políticas,administrativas e econômicas que motivaram a atual configuração territorial desse estado.2 METODOLOGIA Para a realização do presente artigo procedeu-se o levantamento e exame domaterial bibliográfico que visa validar as informações aqui apresentadas. Foram analisadaspublicações em livros e artigos, destacando-se: Asselin (1982), Ferreira (2006), Gistelink(1989), Musumeci (1988), Paulino; Fabrini (2008) e Rapôso (1999). Acerca da elaboração e consequentemente a conclusão do presente trabalho e,imbuídos de abalizar as informações aqui referenciadas, desenvolvidas e discutidas foramutilizados no seu decorrer os métodos dialético e o dedutivo. Fez-se necessário a utilização do método dialético, haja vista foi possível encontrardiferenças de pensamento, teorias, perspectivas e análises, assim como uma necessidade deesclarecer os ajustamentos territoriais que o estado do Maranhão sofreu no século XX. Ométodo dedutivo possibilitou a formulação de um argumento lógico, buscando atravésdeste meio evidenciar as abordagens no que toca as recentes configurações territoriais,demográficas, sociais e econômicas do Estado do Maranhão.
  3. 3. 33 O TERRITÓRIO: uma breve discussão epistemológica A geografia contém em seu arcabouço teórico-metodológico conceitos chaves, taiscomo: Espaço, Região, Escala, Lugar, Paisagem e Território. Este último é o que vaiinteressar primordialmente para o entendimento do assunto abordado. Afinal, o que seria o território? Diz-se do território um espaço delimitadojurisdicionalmente onde deve haver fundamentalmente ocupação para assegurar o direitoao espaço. Como Raffestin (1993, p. 153-154) clarifica, o espaço só se transforma emterritório após um amplo jogo de forças que se intra-articulam dando origem a um processode apropriação e reprodução do próprio espaço: Falar de território é fazer uma referência implícita à noção de limite que, mesmo não sendo traçado, como em geral ocorre, exprime a relação que um grupo mantém com uma porção do espaço. A ação desse grupo gera, de imediato, a delimitação. [...] Isso nos conduz a considerar os limites não somente do ponto de vista linear, mas também do ponto de vista zonal. [...] muitos limites são zonais na medida em que a área delimitada não é, necessariamente, a sede de uma soberania fixada de forma rígida, mas a sede de uma atividade econômica ou cultural que não se esgota bruscamente no território, mas de maneira progressiva. É suficiente dizer que as tessituras se superpõem, se cortam e se recortam sem cessar. Conceituando território Souza (2007, p. 78) estipula que “(...) é fundamentalmenteum espaço definido e delimitado por e a partir de relações de poder”. Por isso, refletirsobre as questões regionais que envolvem a dinâmica espaço-temporal do territóriomaranhense é algo relativamente complexo. Sendo assim fez-se necessário esta breve discussão epistemológica sobre o queseria, inicialmente, o território: uma materialização de identidades, anseios e poderes quepossuem certa delimitação no espaço, visando assegurar os seus direitos por sobre ele e suaocupação. Dessa forma temos um pano de fundo epistemológico que permitirá visualizaras metamorfoses que o espaço maranhense sofreu ao longo do século passado.4 AS FASES DE OCUPAÇÃO DAS TERRAS DO MARANHÃO NO SÉCULO XX O processo de ocupação das terras maranhenses ao longo do século XX foimarcado por litígios entre aqueles que conquistavam-nas de forma espontânea e os novoshabitantes que passaram a ter títulos de posse da terra (a maioria fraudulento),desencadeando uma série de conflitos fundiários com destaque para região do Bico do
  4. 4. 4Papagaio (oeste do Maranhão, norte do Tocantins e leste do Pará, área de fronteira entreesses três estados). Os tipos de colonizações efetuadas no Maranhão pelos camponeses,segundo Musumeci (1988, p. 17), são as seguintes: a) Colonização tradicional: formação de um campesinato a partir da crise da plantation maranhense no século XIX, caso ilustrado pelo estudo de Luiz Eduardo Soares sobre os camponeses de Bom Jesus (município de Lima Campos, no médio vale do Mearim), descendentes e herdeiros de ex-escravos a quem haviam sido doadas terras de uma antiga fazenda logo após a Abolição, convertendo-se em, e permanecendo até hoje como “terras comunais” (cf. Soares, 1981). b) Colonização dirigida: assentamento de lavradores por iniciativa estatal ou para-estatal, caso que Felipe Lindoso investigou, pesquisando a área pertencente ao projeto da COLONE (Companhia de Colonização do Nordeste, de economia mista, vinculada à SUDENE [Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste]), na região do Alto Turi (cf. Velho, coord., 1980). c) Colonização espontânea: ocupação de terras devolutas sem direcionamento oficial, levada a efeito por pequenos produtores imigrantes, na maioria de origem nordestina. Como forma de tornar mais compreensível o processo de ocupação das terras doMaranhão (século XX) dividir-lhe-emo-no, baseado nas análises feitas por Asselin (1982),Gistelink (1989) e Musumeci (1988), em quatro fases elencadas a seguir.4.1 Fase de Formação do Campesinato (final do século XIX e 1ª metade do século XX) Tivemos no Maranhão a formação do pequeno camponês, constituído pelo escravoque havia “conquistado” sua liberdade, porém, permanecera no latifúndio, pois, receberado seu ex-senhor um pequeno lote de terra. Shanin explica esta relação de dependência epoder a partir do conceito de camponês enquanto classe: A dualidade principal da posição dos camponeses na sociedade consiste em que são, por uma parte, uma classe social (de escasso “caráter de classe” e em geral dominada pelas demais classes) e, por outro, “um mundo diferente”, uma “sociedade em si mesma” muito autosuficiente, que ostenta os elementos de um padrão de relações sociais separado, claro e fechado. [...] Tal autosuficiência torna o controle político do campesinato uma necessidade para os governantes. [...] (SHANIN, 1979, p. 228, 229 apud PAULINO; FABRINI, 2008, p. 50). Esta interdependência era estabelecida da seguinte forma: metade da produçãoficava com o ex-senhor e a outra metade com o camponês. Com a localização docampesinato nos limites da grande propriedade houve o fortalecimento do poder do grandeproprietário. Fase marcada pela ocupação das áreas tradicionais nos vales do Itapecuru,Mearim, Pindaré, Baixada e Litoral Maranhense, com o predomínio da lavoura algodoeira.
  5. 5. 54.2 Período de Grandes Secas (décadas de 1920 – 1950) Entre as décadas de 1920 e 1950 o Nordeste brasileiro fora abalado por grandessecas que tiveram como consequência o surto migratório de piauienses, cearenses,pernambucanos e baianos para o Maranhão, que ocuparam as terras devolutas do estadolocalizadas nos vales médios úmidos dos rios Mearim, Pindaré, Corda, Balsas e Tocantins.Essa entrada maciça de migrantes nordestinos desequilibrou a relação camponês eproprietário. Surge no campo maranhense a figura do posseiro, o indivíduo que ocupa umlote de terra sem possuir título de propriedade. O posseiro vai sobreviver da rizicultura (em pequenas lavouras) e de atividadesmarginais. A expressão mais pura do trabalho camponês, segundo o próprio grupo, é o trabalho na roça, e o arroz é o principal produto de roça. Trabalhar na roça significa superar com muito esforço etapas sucessivas, vistas como penosas e desgastantes: a “broca”, que segundo os camponeses, demanda energia eminentemente masculina, é a fase mais dura. [...] (SOARES, 1981, p.74) Destaca-se também o comerciante usineiro. O extrativismo vegetal da amêndoa dobabaçu também será característico, já que após a 1ª Guerra Mundial houve no mercadointernacional a procura por um óleo vegetal que substituísse os óleos combustíveis nalubrificação de máquinas.4.3 Fase dos Grandes Projetos Agropecuários e Rodoviários (1950 – 1970) Entre as décadas de 1950 e 1970 houve a introdução do Maranhão na ótica dogrande capital através dos projetos agropecuários e rodoviários. A construção das rodoviasBelém-Brasília (BR-010, passando por Imperatriz), da Transamazônica (cortando o sul doestado) e da BR-222 (ligando Santa Inês a Açailândia) facilitou o escoamento da produçãoagrícola. Keller apud Ferreira (2006, p. 142) descreve que: [...] foi por meio da construção da Belém-Brasília durante o governo do Presidente Juscelino Kubistschek, ligando o Tocantins Maranhense e o Norte de Goiás ao sudeste industrializado e à cidade de Belém, o grande agente transformador da região. O afluxo de imigrantes nordestinos intensificou-se extraordinariamente com a ocupação sistemática da floresta amazônica, multiplicando-se os povoados e crescendo a produção de arroz. Ao mesmo tempo começam a chegar pecuaristas vindos do sul da Bahia e Nordeste de Minas Gerais, interessados pela existência de terras devolutas de mata, susceptíveis de serem transformadas em pastos artificiais; a construção da
  6. 6. 6 Belém-Brasília tornaria possível o escoamento da produção para o mercado de Belém. Não só na zona rural o povoamento se adensa, mas a cidade de Imperatriz sofre uma transformação acelerada: sua população ficava a 3 km do núcleo urbano, que logo a alcança. A cidade de Imperatriz que em 1950 tinha 1.630 habitantes, em 1960 (2 anos após a Belém-Brasília atingir a cidade) contava com 8.987 habitantes e pelo Recenseamento de 1970 a população da cidade atingia 34.709 habitantes. [Atualmente possui 232.560 habitantes] Sobre a infra-estrutura viária tem-se: As BR’s 230 e 010 (Belém-Brasília), 226 e 222, além da estadual (MA-75, Transmaranhão); a Ferrovia Norte-Sul e a Estrada de Ferro Carajás, que articuladas, concorrem para viabilizar o escoamento de grãos da “região” de Balsas através do complexo portuário da baía de São Marcos, em São Luís; a futura Hidrovia Araguaia-Tocantins, somada aos demais subsistemas de transporte, integrará o Sistema Multimodal do Corredor Norte de Exportação” [...] (FERREIRA, 2006, p. 147). Como consequência direta ocorre a hipervalorização das terras levando a umaespeculação de grandes áreas no interior do Maranhão, além de outras elencadas a seguir:  Aumento da concentração da propriedade rural com os projetos agropecuários –áreas, antes ocupadas por pequenos agricultores, foram tomadas pelo agronegócio; [...] O agronegócio não é novo, seu ideário é fruto da Revolução Verde ou Modernização da Agricultura como alguns denominam. O novo aí, se podemos chamar de novo, é que ele agora aparece como categoria homogeneizadora. Com isso o latifúndio perde o foco, este que num passado recente era no imaginário nacional uma espécie de persona non grata [...]. O problema é que nesta pseudo transformação em borboleta, acaba-se por produzir uma espécie de blindagem do latifúndio esquecendo que o agronegócio, na essência, não difere deste, logo que sua base de sustentação continua sendo rentista, pois o orgulho da nação (em que se transformou o latifúndio travestido de agronegócio) se nutre de violência, de super exploração do trabalho, do fundo público, para assim se colocar como eficiente economicamente a partir da aliança terra-capital. Grosso modo, podemos dizer que a lógica camponesa se centra na tríade família, trabalho e terra, enquanto a lógica do agronegócio no lucro e na renda. [...] (PAULINO; FABRINI, 2008, p. 59).  A expulsão do camponês para áreas de difícil acesso em decorrência da criação deuma malha viária para escoar a produção dos latifúndios; As grandes propriedades agrárias ocupam espaços antes destinados à produção de alimentos para o mercado interno (mandioca, feijão, legumes, etc.) com os cultivos destinados ao beneficiamento industrial e à exportação (soja, cana-de- açúcar, milho, etc.). Começa a se constituir o que vários pesquisadores vão chamar de complexo agroindustrial, dominado, de um lado, pela grande indústria de transformação de matérias-primas agrícolas [...] e, de outro, pelos bancos de crédito agrícola [...] que condicionam financiamentos [...] à compra de máquinas nas indústrias por eles indicadas. (PORTO-GONÇALVES, 1989, p.326).
  7. 7. 7  Início do fenômeno da grilagem de terras no Maranhão: indivíduos ocupavam asterras através de um título de propriedade que era adquirido de forma fraudulenta noscartórios de São Luís, Imperatriz e do estado de Goiás; Diante dessa situação, os camponeses da terra “livre” tornaram-se vulneráveis à ação dos grileiros, que com a convivência do Estado e as fraudes cartoriais, adquiriam “juridicamente” as terras já ocupadas e instalavam suas fazendas, podendo o processo ser inverso, instalando-se primeiro as fazendas. As expulsões dos camponeses tornaram-se inevitáveis. Inicialmente realizadas com métodos violentos e, posteriormente, com os resistentes, através de processos “sutis” do tipo expansão de capinzais que, penetrando “naturalmente” nas roças, inviabilizam as culturas, ou ainda com a soltura do gado, que as destroçava (RAPÔSO, 1999, p. 309).  Outra consequência direta foi o conflito entre o campesinato e o grande capital: aterra ocupada pelo grileiro já vinha sendo trabalhada pelos posseiros desde a década de1920, com isso houve a proliferação de conflitos agrários entre os mesmos; As relações sociais sob a lógica capitalista no campo produzem resultados econômicos antagônicos, personificados por pessoas distintas, que são o “trabalhador e o capitalista”. E, na trincheira dessa relação desigual, situa-se o agricultor familiar, comprimido pela miséria e pela expansão capitalista e suas imposições. (MARTINS, 1979, p.155)  Desvalorização do potencial produtivo do camponês; Os camponeses, inseridos ou não em movimentos sociais, comumente são massacrados, seja pela expropriação e posterior assalariamento e tendência de concentração fundiária, seja pela superexploração, pobreza e exclusão social e, ainda, pela violência dos latifundiários, principalmente nas regiões mais pobres do país. (RÜCKERT, 2003, p 111)  E por fim, a organização de projetos de colonização para tentar resolver osproblemas decorrentes dos conflitos de terra no estado. A hipervalorização das terras e a especulação de grandes áreas do Maranhão vão seperpetuar nas próximas décadas, desencadeando uma explosão no número de conflitosfundiários no estado, como observa-se no próximo tópico.4.4 Fase de Implantação do Projeto Grande Carajás (PGC) e ALUMAR (1970 – 1990) Os conflitos agrários vão se intensificar nas décadas de 1970 e 1990 com aimplantação dos Grandes Projetos – implantação do PGC e da ALUMAR – que irãovalorizar ainda mais as terras do estado e simultaneamente servir como um fator de
  8. 8. 8repulsão (imposta ao camponês das terras hipervalorizadas) e atração populacional(inchaço urbano). No final dos anos 1970, inicia-se no Brasil um processo de abertura política e, cerca de dez anos depois, a abertura de mercado, responsáveis por uma série de mudanças econômicas e institucionais. Do Estado Desenvolvimentista, empreendedor e voltado para um projeto de transformação do país numa grande potência, no qual a inclusão social era concebida como decorrência “natural” do processo de desenvolvimento econômico, passamos ao Estado Neoliberal. Este último tem como principal papel garantir, em nível nacional, as condições necessárias ao bom funcionamento do mercado capitalista, em conformidade com as exigências do capital financeiro global, e administrar os custos sociais e ambientais daí decorrentes (tarefas de complexidade crescente num cenário de restauração e consolidação das instituições democráticas) (PAULINO; FABRINI, 2008, p. 59). Sobre o PGC, Rapôso (1999, p. 20-21) descreve que: O Programa Grande Carajás é considerado um dos maiores programas de desenvolvimento integrado do mundo. Atente-se para o fato de que este desenvolvimento é restrito ao âmbito econômico inserido em relações internacionais, que têm como fundamento básico a acumulação de capital e a conseqüente expansão do capitalismo. [...] Nos anos 80, com o Programa Grande Carajás assentando os trilhos de sua importante ferrovia, o “desenvolvimento” e a “modernização” adentraram esta região maranhense. O PGC atinge [...] 18 municípios e uma extensão territorial de 40.000 km2 e 650 km de ferrovia [...] em terras maranhenses, as quais, com a facilidade de acesso e tudo mais que o PGC prometia, se valorizaram. As grandes empresas passaram a cobiçá-las. Nova fase da grilagem se abateu sobre os pequenos posseiros, em que pese a presença do Getat, atuando nos municípios de Açailândia, Bom Jardim, Imperatriz e Santa Luzia. Nesta década, os “fazendeiros” se organizaram, surgiu a UDR e o personagem “jagunço” ganhou status. Obviamente, a área ocupada pelos posseiros foi sendo reduzida. A luta pela terra fragilizou-se e o êxodo rural atingiu níveis extraordinários, embora os movimentos sociais fomentassem o surgimento de focos de resistência. O sonho da revolução camponesa se esvaía e os latifúndios e as empresas rurais passaram a ocupar mais de 95% das terras na área de influência da ferrovia Carajás/Ponta da Madeira (RAPÔSO, 1999, p. 19, 32). Com a implantação dos Grandes Projetos no Maranhão houve a desapropriação deterras camponesas e o aumento do êxodo rural, do custo de vida nas cidades e a diminuiçãodo poder aquisitivo do pequeno agricultor, fatores que levaram o Maranhão a serconsiderado uma das regiões mais tensas do Brasil em relação aos litígios fundiários. Quando são realizadas referências à expansão capitalista no campo e suas influências diretas sobre o camponês, surgem dois elementos, combinados entre si: de um lado, os camponeses autônomos, cuja resistência é baseada no seu trabalho e no de sua família, que estariam sendo expulsos da terra, expropriados. De outro, emerge, como consequência, uma massa de agricultores que estaria se transformando em trabalhadores assalariados ou em trabalhadores sem-terra. De um lado, o agricultor que concebe aquilo que é necessário à sua reprodução social, à sua sobrevivência; de outro, o trabalhador que só é proprietário da sua força de trabalho. Enfim, os trabalhadores não detentores dos meios de produção vêem-se obrigados a vender seu único bem. Assim, o trabalho é apropriado pelo capital. (SANTOS, 2007, p. 47)
  9. 9. 9 Os governos estadual e federal tentaram resolver tal problema através daimplantação de programas de colonização que, na realidade, foram desenvolvidos porinstituições criadas para tal fim. Tais projetos trazem embutidos na sua prática anecessidade de afastar o camponês mais para o interior “descapitalizado” e liberar a área demaior valor para o grande capital. São as seguintes instituições que atuarão no Maranhão:INCRA; COLONE; e ITERMA. O êxodo rural causado pelos conflitos agrários no Maranhão teve comoconsequências o aumento quantitativo da mão-de-obra nos grandes centros, do desempregoe subemprego, dos contrastes sociais no campo e na cidade (violência urbana) e de pessoasque vivem em péssimas condições de sobrevivência (periferização da Grande São Luís,dos centros urbanos ao longo da ferrovia Carajás/Ponta da Madeira, além das cidadesadjacentes às rodovias estaduais e federais). O êxodo rural continua se processando de forma acentuada e acelerada para as periferias urbanas. Agora, não apenas das grandes cidades, mas também das sedes de pequenos municípios. Nestes locais, quando muito os migrantes conseguem transformar-se em biscateiros ou se engajam em outras atividades que não exijam o mínimo de qualificação. Na maioria dos casos, sequer conseguem ingressar no mercado informal de trabalho, hoje tão proliferado. Nas zonas urbanas, culturalmente desintegrados, com a identidade destruída, a rigidez dos seus valores se fragiliza e estes consequentemente se rompem, principalmente no caso dos mais jovens, nessas circunstâncias, os mais vulneráveis ao ingresso na criminalidade como forma de garantir a sobrevivência (RAPÔSO, 1999, p. 42). O movimento campesinato brasileiro se consolidou, onde camponeses etrabalhadores rurais sem-terra no Brasil organizaram-se e mobilizaram-se contra a maisrecente incursão do capitalismo no campo. Neste contexto, a luta do Movimento dosTrabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o maior e mais dinâmico movimento de origempopular na América Latina, não apenas inspirou movimentos similares em outros lugares,mas também provocou outro debate acadêmico, revitalizando mais uma vez o estudo datransformação agrária e o desenvolvimento rural. (PAULINO; FABRINI, 2008, p. 80).5 CONCLUSÃO O processo de ocupação do Maranhão no século XX ocorreu de tal forma que odinamismo e antagonismo de interesses entre os latifundiários e migrantes camponeses queaqui chegavam provocaram o gradativo aumento dos conflitos agrários decorrentes dadesestabilização da relação proprietário/camponês. A reorganização do nosso território sob
  10. 10. 10a égide de critérios histórico-sociais, naturais, estruturais e econômicos foi diretamenterelacionada com inserção do Maranhão no contexto capitalista mundial. Com isso percebe-se que a acumulação por espoliação resultou em díspares formasde expropriação e consequentemente no paulatino empobrecimento das classes menosfavorecidas. Esta acumulação por espoliação serve como pressuposto para a resistênciacamponesa, assim como a sua “evidência” (forçada através da busca de seus direitos e daconstante luta em não ser deturpada, esquecida ou apagada da nossa memória) enquantoclasse numa sociedade que tende a homogeneizar as relações econômicas internacionais. REFERÊNCIASASSELIN, Victor. Grilagem: Corrupção e Violência em Terras do Carajás. Petrópolis:Vozes/CPT, 1982.realidade? São Luís: EDUFMA, v. 4, n. 2, pp. 138-151, dez/2006.GISTELINK, Frans. Carajás, usinas e favelas. São Luís: Gráfica Minerva, 1989.MARTINS, José de S.. A sujeição da renda da terra ao capital e o novo sentido da lutapela reforma agrária. In: Encontro Nacional de Geografia Agrária, 2°. 1979, Águas deSão Pedro. Anais. Rio Claro: UNESP, 1979, pp. 199-221.MUSUMECI, Leonarda. O Mito da Terra Liberta. São Paulo: Vértice, Editora Revistados Tribunais: ANPOCS, 1988.PAULINO, Eliane Tomiasi; FABRINI, João Edmilson. – (orgs.). Campesinato eterritórios em disputa. São Paulo: Expressão Popular: UNESP, 2008.PORTO-GONÇALVES, Carlos W. Os (des)caminhos do meio ambiente. São Paulo:Contexto, 1989.RAFFESTIN, Claude. Por uma geografia do poder. São Paulo: Ática, 1993.RAPÔSO, Maria da Conceição Brenha. A dimensão pedagógica dos movimentos sociaisno campo. São Luís: EDUFMA, 1999.
  11. 11. 11RÜCKERT, Aldomar A. Metamorfoses do território: A agricultura de trigo/soja noplanalto médio rio-grandense, 1930-1990. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2003.SANTOS, Milton; SILVEIRA, María Laura. O Brasil: Território e sociedade no início doséculo XXI. Rio de Janeiro: Record, 2006.SANTOS, Régis Ricci dos. A territorialização do capital e as relações camponesas deprodução. Campo-Território: revista de geografia agrária, v. 2, n. 3, p. 40-54, fev., 2007.SOARES, Luís Eduardo. Campesinato: Ideologia e Política. Rio de Janeiro: ZaharEditores, 1981.SOUZA, Marcelo José Lopes de. O Território: Sobre espaço e poder, autonomia edesenvolvimento. In CASTRO, Iná Elias de; GOMES, Paulo César da Costa; CORRÊA,Roberto Lobato – (orgs.). Geografia: Conceitos e temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,2007, pp. 77-116.OLIVEIRA, D. M. V; RIBEIRO JUNIOR, J. A. S; MOREIRA, T. S; GONÇALVES, M.F. P. Ocupação das Terras do Maranhão ao Longo do Século XX e a Injeção doGrande Capital Internacional: Modernização Capitalista do Campo e os ConflitosAgrários. In: VIII Encontro Humanístico Nacional (UFMA), 2008, São Luís (MA). Anaisdo VIII Encontro Humanístico Nacional. São Luís: Núcleo de Humanidades -NH/CCH/UFMA, 2008

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