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O vermelho e o verde rastreando um marxismo ecológico n’a ideologia alemã
 

O vermelho e o verde rastreando um marxismo ecológico n’a ideologia alemã

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    O vermelho e o verde rastreando um marxismo ecológico n’a ideologia alemã O vermelho e o verde rastreando um marxismo ecológico n’a ideologia alemã Document Transcript

    • O VERMELHO E O VERDE: RASTREANDO UM MARXISMO ECOLÓGICO N’A IDEOLOGIA ALEMÃ José Arnaldo dos Santos Ribeiro Junior Graduando em Geografia-UFMA Juscinaldo Góes Almeida Graduando em Geografia-UFMA Thiers Fabrício Santos Tiers Graduando em Geografia-UFMA Prof. Dr. Baltazar Macaíba de Sousa DESOC-UFMA1 Considerações Iniciais: Ideologia, Marxismo e Ecologia É sabido que a ecologia não era o tema central dos pensadores revolucionáriosKarl Marx e Friedrich Engels. Os filósofos interessavam-se majoritariamente pelaeconomia política e questões filosóficas. De fato, as preocupações ambientais apenas segeneralizaram no final da década de 1960, tendo como marco histórico o Clube deRoma (1968). Todavia, hoje, existe a necessidade de se compreender a crise ambiental(LEFF, 2004). Nesse sentido, a crise ambiental é o resultado da reprodução dasrelações capitalistas de produção (LEFEBVRE, 1973). Nos termos discutidos comoMarx e Engels, foram os grandes teóricos críticos do capitalismo, é possível, partindoda sua cosmovisão, encontrar elementos que nos auxiliem a compreender a criseambiental. Portanto, neste trabalho buscamos procurar indícios de um marxismoecológico na obra ideologia alemã. Intencionamos também auscultar e perscrutar comofoi se construindo paulatinamente a separação entre homem e natureza, bem como,através do materialismo histórico-dialético, questionar: 1) até que ponto a construção daideologia da natureza (SMITH, 1988), construída pela burguesia, compromete, comsuas práticas produtivas concretas, a relação entre homem e natureza? E 2) será possívelrastrear as bases de um pensamento ecológico marxiano nesta obra?2 Rastreando um marxismo ecológico n’A Ideologia Alemã Em síntese, A Ideologia Alemã é uma obra fundamentalmente histórica. Porém,a história que se fazia na Alemanha era uma história das ideias: muito devido àinfluência de Hegel, dos filósofos neo-hegelianos (como David Strauss e Max Stirner) eBruno Bauer. A filosofia alemã à época, salvo o materialismo mecanicista de LudwigFeuerbach, é uma “filosofia que desce do céu a terra”, ou seja, uma filosofiaespeculativa influenciada pelo paradigma platônico-aristotélico, que tornou a
    • consciência autônoma do ser humano. Para entendermos a importância de Aristóteles(384a.C - 322a.C) vejamos o que Marilena Chauí (2008:10) tem a nos dizer acerca dopensamento do referido filósofo: O filósofo Aristóteles afirmou que só há conhecimento da realidade (portanto, da permanência e do movimento dos seres) quando há conhecimento da causa - “conhecer é conhecer pela causa”. Para tornar possível o conhecimento elaborou uma teoria da causalidade que ficou conhecida como teoria das quatro causas. [...] haveria assim a causa material (responsável pela matéria de alguma coisa), a causa formal (responsável pela essência ou natureza da coisa), a causa motriz ou eficiente (responsável pela presença de uma forma em uma matéria) e a causa final (responsável pelo motivo e pelo sentido da existência da coisa). Se Platão apontou que os objetos reais são apenas uma representação da ideia, ofilósofo de Estagira hierarquizou as causas acima referidas. As causas menosimportantes seriam a material e a motriz, e as mais valiosas seriam a formal e a final. Por isso, a causa material e a eficiente são ditas causas externas, enquanto a formal e a final são ditas causas internas. Percebe-se que são mais importantes as causas da permanência e menos importantes as causas da mudança ou do movimento (Chauí 2008:11). A “preferência” de Aristóteles pela permanência e não pelo movimento é algoque não foi exclusivo deste filósofo. Enquanto Heráclito de Éfeso (540-480 a.C)pregava a existência constante da mudança, Parmênides professava que a essência doser era imutável e que o movimento era um fenômeno de superfície. A “escolha” pelametafísica de Parmênides em detrimento da concepção de Heráclito é explicada porKonder (2008:8) dizendo que: Havia certa perplexidade em relação ao problema do movimento, da mudança. O que é que explicava que os seres se transformassem, que eles deixassem de ser aquilo que eram e passassem a ser algo que antes não eram? Heráclito respondia a essa pergunta de maneira muito perturbadora, negando a existência de qualquer estabilidade no ser. Retomando a concepção aristotélica das quatro causas analisa-se que a causamaterial (aquilo que alguma coisa é feita) está ligada à causa motriz ou eficiente (oagente que faz o objeto). Em contrapartida a causa formal está ligada à final, pois osseres são criados com uma finalidade. Assim, é a finalidade que determina a essência ounatureza da coisa. Se examinarmos as ações humanas, veremos que a teoria das quatro causas leva a uma distinção entre dois tipos de atividades: a atividade técnica (ou o que os gregos chamavam de poiésis) e a atividade ética e política (ou o que os gregos chamam de práxis) a primeira é considerada uma rotina mecânica, em que um trabalhador é uma causa eficiente que introduz uma forma numa matéria e fabrica um objeto para alguém. Esse alguém é o usuário e a causa final da fabricação. A práxis, porém, é a atividade própria dos homens livres, dotados de razão e de vontade de deliberar e escolher uma ação. Na práxis, o
    • agente, a ação e a finalidade são idênticos e dependem apenas da força interior ou mental daquele que age. Por isso, a práxis (ética e política) é superior à poiésis (o trabalho) (CHAUÍ, 2008:11). A dicotomia entre ideia e materia presente em Platão é reforçada com ametafísica aristotélica que agora “racionaliza” a separação entre a técnica e aética/política, hierarquizando, tal como fez com as causas. Como o trabalhador, ohomem não-livre é aquele que faz tecnicamente um objeto, e não aquele que pensaracionalmente deliberando a sua escolha, o homem livre. Logo, aqueles são inferiores aestes em virtude da atividade que desempenham: uma prática/técnica e a outrateórica/intelectual. Sacramenta-se então a oposição entre o trabalho “braçal” e mental. A história e a filosofia medieval, nas figuras de [Santo] Agostinho e [São]Tomás de Aquino irão solidificar o idealismo platônico e a herança aristotélica naporção ocidental do mundo. Eles farão uma leitura (judaico) cristã da filosofiaplatônica-aristotélica. A oposição entre ideia e materia, corpo e alma, sujeito e objetovão ganhar “tons” racionais, lógicos. A assimilação aristotélico-platônica que o cristianismo fará em toda a Idade Media levará a cristalização da separação entre espírito e matéria. Se Platão falava que só a ideia era perfeita, em oposição à realidade mundana, o cristianismo operará sua própria leitura, opondo a perfeição de Deus à imperfeição do mundo material. Essa leitura de Aristóteles e Platão efetuada pela Igreja na Idade Media se faz evitando-se outras leituras através da censura, como muito bem o demonstrou Umberto Eco em O Nome da Rosa. Enfim, com o cristianismo, os deuses já não habitam mais esse mundo, como na concepção dos pré-socráticos. E, apesar da acusação de obscurantismo que mais tarde os pensadores modernos lançarão aos tempos medievais, a dívida que a Ciência e a Filosofia modernas têm para com a Idade Media é maior do que se admite. Foi na Idade Media, por exemplo, que teve início a prática de dissecação de cadáveres no ocidente europeu. Esse fato é de uma importância muito grande e se constituiu numa decorrência lógica de uma Filosofia que separa corpo e alma. Se a alma não habita mais o corpo depois de morto, este, como objeto pode ser dissecado anatomicamente. Afinal, aquilo que o anima (do grego ânima, alma) não está mais presente. O corpo, matéria, objeto pode então ser dissecado, esquartejado, dividido. O sujeito, o que faz viver, foi para os céus ou para os infernos e o corpo pode então virar objeto... O método experimental já estava em prática nos monastérios e universidades católicas muito antes de Galileu (PORTO-GONÇALVES, 2006a: 32-33). Como se percebe a influência do platonismo, aristotelismo e do (judaico)cristianismo é muito forte. A separação entre ideia e materia desembocou numaoposição entre perfeição e imperfeição. Para os filósofos pré-socráticos existiam deusesque faziam parte desse mundo material, terreno, da natureza (physys). Com osensinamentos platônico-aristotélicos os deuses sobem aos céus, ao mundo das ideias. Aleitura do judaico-cristianismo irá solidificar essa visão para afirmar a superioridade domonismo teológico e do Homem
    • Deus não habita mais esse mundo material, terreno vicioso: ele está em outroplano, no mundo das ideias, controlando a tudo e a todos; em outras palavras, o mundomaterial, terreno, físico (physys) está sem alma. Se a Natureza está sem alma o Homem,enquanto imagem e semelhança de Deus pode dissecá-la, esquartejá-la. No mundomoderno, a separação entre ideia/materia, corpo/alma, sujeito/objeto representaráconsequentemente a separação entre Deus/Homem e Natureza. Vejamos então o que sepassa com o mundo moderno. Com os trabalhos de Galileu, Francis Bacon 1 e Descartes (entre outros), o pensamento moderno reduziu as quatro causas apenas a duas, a eficiente e a final, passando a dar à palavra “causa” o sentido que hoje lhe damos, isto é, de operação ou ação que produz necessariamente um efeito determinado. [...] A causa não “responde” simplesmente pelo efeito, mas o produz. A física moderna considera que a Natureza age de modo inteiramente mecânico, isto é, como um sistema necessário de relações de causa e efeito, tomando a causa sempre e exclusivamente no sentido de causa motriz ou eficiente. Ou seja, não há causas finais na Natureza. No plano da metafísica, porém, além da causa eficiente, é conservada a causa final, pois esta refere-se a toda ação voluntária e livre, ou seja, refere-se à ação de Deus e à dos homens. A vontade (divina e humana) é livre e age tendo em vista fins ou objetivos a serem alcançados. Assim, a Natureza distingue-se de Deus e dos homens (enquanto espíritos); é que ela obedece a leis necessárias e impessoais - a causa eficiente define o reino da Natureza como reino da necessidade racional -, enquanto Deus e os homens agem por vontade livre, Deus e os homens constituem o reino da finalidade e da liberdade. (CHAUÍ, 2008:14- 15). A causa eficiente, de certa forma, engloba a causa material, ao passo que a causafinal recobre a causa formal, permitindo assim que haja uma relação dicotômica entre oagente, aquele que faz o objeto e atualiza a potencialidade da matéria permitindo que acausa material receba a causa formal. Causa e efeito estão intimamente ligados,logicamente e racionalmente produzidos. Então se a Natureza age mecanicamente,como um sistema de causa e efeito, se ela é apenas o agente da mudança, não existemcausas finais na Natureza, não há finalidade, motivo da existência de algo. Isso para omundo físico („physis’=natureza), pois no plano metafísico (que vai além da física, daphysis, da natureza) há a causa final, que é voluntária e livre: Deus e os homens. Temosentão cristalizada a oposição Deus/Homem - Natureza. A Natureza não é voluntária, nãoé livre, pois não tem fins, nem objetivos a serem alcançados. A Natureza está presa àsvontades necessárias, impessoais e livres, aos interesses dos espíritos (tanto de Deus,1 “Mas de maneira mais perniciosa se manifesta essa incapacidade da mente na descoberta das causas:pois, como os princípios universais da natureza, tais como são encontrados, devem ser positivos, nãopodem ter uma causa. Mas, mesmo assim, o intelecto humano, que se não pode deter, busca algo. Então,acontece que buscando o que está mais além acaba por retroceder ao que está mais próximo, seja, ascausas finais, que claramente derivam da natureza do homem e não do universo” (BACON, 2002:17).Está clarividente que Francis Bacon não admite causa final na Natureza.
    • como dos homens). O auge dessa dicotomia Homem-Natureza é visível em Descartes(2008) quando este advoga que o homem torne-se senhor e possuidor da natureza. O racionalismo cartesiano “mentor embrionário” de uma epistemologiapositivista que esquarteja a Natureza, bem como a Ciência com seu método, nos mostracomo a Natureza é vista como utilitária, um agregado mecânico de seres e indivíduos. Omaterialismo mecanicista de Descartes que trata a Natureza como um corpo movidopela causa eficiente, governada por leis mecânicas, faz com que o Homem sinta-seseparado dela. Temos então todo um contexto montado: o paradigma platônico-aristotélico, amodernidade fundada com Francis Bacon e o racionalismo material-mecanicista deDescartes que fundamenta separação entre sujeito-objeto e Homem-Natureza. Já sabemos que n‟A Ideologia Alemã Marx e Engels promovem um verdadeiroacerto de contas, tal como na Sagrada Família, com os filósofos neo-hegelianos.Segundo Marx e Engels, o objetivo desses filósofos era superar o sistema hegeliano apartir da dialética. Todavia, para Marx e Engels a intenção podia até ser válida, mastodos os filósofos fracassaram, pois a crítica feita a Hegel absteve-se dos aspectosmateriais e ignorando a realidade histórica da Alemanha. É necessário aqui apresentarmesmo que de maneira esquemática, no dizer de Marilena Chauí (2008:39-46), acaracterização da obra hegeliana: 1) um trabalho filosófico para compreender a origem e o sentido da realidade como Cultura. A Cultura representa as relações dos homens com a Natureza pelo desejo, pelo trabalho e pela linguagem, as instituições sociais, o Estado a religião, a arte, a ciência, a filosofia. É o real enquanto manifestação do Espírito.[...] 2) um trabalho filosófico que define o real pela Cultura e esta pelos movimentos de exteriorização e de interiorização do Espírito. Ou seja, o Espírito manifesta-se nas obras que produz (é isto sua exteriorização), e quando sabe ou reconhece que é o produtor delas, interioriza (compreende) essas obras porque sabe que elas são ele próprio. Por isso, o real é histórico. [...] 3) um trabalho filosófico que revoluciona o conceito de história por três motivos: - em primeiro lugar, porque não pensa a história como uma sucessão contínua de fatos no tempo [...] - em segundo lugar, porque não pensa a história como uma sucessão de causas e efeitos, mas como um processo dotado de uma força ou de um motor interno que produz os acontecimentos. Esse motor interno é a contradição. [...] -em terceiro lugar, portanto, porque não pensa a história como sucessão de fatos dispersos que seriam unificados pela consciência do historiador, mas, sim, pensa a história como processo contraditório unificado
    • em si mesmo e por si mesmo, plenamente compreensível e racional. Por isso Hegel afirma que o real é racional e o racional é real. [...] 4) um trabalho filosófico que concebe a história como história do Espírito.[...] 5) um trabalho filosófico que pensa a história como reflexão.[...] 6) um trabalho filosófico que procura dar conta do fenômeno da alienação.[...] 7) um trabalho filosófico que diferencia imediato de mediato, abstrato e concreto, aparência e ser. Imediato, abstrato e aparência são sinônimos; não significam irrealidade e falsidade, mas, sim, o modo pelo qual uma realidade se oferece como algo dado como um fato positivo dotado de características próprias e já prontas, ordenadas, classificadas e relacionadas por nosso entendimento. Mediato, concreto e ser são sinônimos: referem-se ao processo de constituição de uma realidade através de mediações contraditórias. Saliente-se que essa concepção hegeliana do real enquanto manifestação doespírito é uma característica do judaico-cristianismo: Deus é o espírito e a materialidadeé apenas o reflexo das ações de Deus. A Natureza e os homens são apenasexteriorizações de Deus e o próprio Deus se reconhece enquanto produtor destasexteriorizações (interiorização). A própria história em Hegel, apesar de não concebê-lacomo uma dimensão mecânica e sim como dialética, no final das contas é uma históriado Espírito, de Deus. Marx e Engels vão então buscar reverter esse processo partindo de concepçõesbasilares do seu pensamento: 1) a contradição, que em Hegel é do Espírito consigomesmo, aparece em Marx e Engels concretamente como luta de classes; 2) a dialética,que em Hegel é idealista, em Marx e Engels torna-se materialista; 3) não obstante, Marxe Engels mantêm do entendimento hegeliano o fenômeno da alienação como algoseparado, estranho ao sujeito que produz a história. Em todo caso é o método dialético,partindo de uma cosmovisão materialista da história que os dois filósofos vão seencarregar de criticar a história (entendida como) das ideias e a filosofia “celestial” deHegel e os neo-hegelianos. Os homens até hoje, sempre tiveram falsas noções sobre si mesmos, sobre o que são ou deveriam ser. Suas relações foram organizadas a partir de representações que faziam de Deus, do homem normal, etc. os criadores se prostraram diante de suas próprias criações. Libertemo-los, portanto, das ficções do cérebro, das ideias, dos dogmas, das entidades imaginárias, sob o domínio dos quais definham (MARX; ENGELS, 2007:35-36). Dentro desse contexto, e pelo que já foi interrogado e criticado, qual é o papel daNatureza? Como se apresenta a Natureza? Qual a relação entre uma cosmovisãomaterialista da história e a Natureza? Marx e Engels (2007:44, os grifos são nossos)falam que “a forma pela qual os homens produzem seus meios de vida depende,
    • sobretudo da Natureza dos meios de vida já encontrados e que eles precisamreproduzir”. A Natureza aparece aqui como uma condição de existência do homem e dereprodução da vida. O homem encontra-se dependente da Natureza para realizar a suavivência e reprodução. Nessa ótica, o homem está metabolicamente ligado à Naturezaatravés do trabalho, mas contraditoriamente separado dela. Até agora, toda a concepção histórica tem omitido completamente a base real da história, pois a tem considerado como algo secundário, sem qualquer vinculação com o curso da história. Resultam daí noções de que a história deva sempre ser escrita de acordo com um critério localizado fora dela. A produção real da vida aparece como se estivesse separada da vida comum, como alguma coisa extra e supraterrenal. Por isso, as relações dos homens entre e natureza são excluídas da história, o que faz surgir a oposição entre natureza e história (MARX; ENGELS, 2007:66-67, os grifos são nossos). A partir do momento em que se negligencia a base real da história vai-se pouco apouco dando alto relevo a base ideal da história. Como se releva a idealidade da históriaacaba-se por desvencilhar a história da materialidade. Em se fazendo isso, a históriasobe da terra ao céu. E então o que ficou na base material, na realidade, é governado poralgo fora dela: uma Verdade Eterna, um Espírito. A Natureza aparece então comomaterialidade, como algo terreno, e a história como coisa ideal, supraterrenal. Comoambas estão em dimensões diferentes as relações que os homens têm com a Natureza ecom a história são separadas e opostas. Posteriormente, Marx e Engels irão atacar Bruno Bauer e sua obraCaracterização de Ludwig Feuerbach, no sentido de que “São Bruno” concebe aNatureza e a História como “coisas” separadas, contraditórias, e que por esse motivonão tinha capacidade de raciocinar que o Homem se encontra sempre diante de umahistória natural e uma natureza histórica. Os filósofos do materialismo histórico-dialético também irão redargüir Feuerbach que, apesar de ser materialista, não percebe aindistinção entre Homem e Natureza. Certamente o primado da natureza exterior não subsiste, e tudo isso não pode ser aplicado aos homens primitivos produzidos por generatio aequivoca [lat.:geração espontânea], mas essa distinção só tem sentido se o homem é considerado distinto da natureza. Em resumo, a natureza que precede a história humana não é de maneira nenhuma a natureza em que vive Feuerbach; (MARX; ENGELS, 2007:76, os grifos negritados são nossos). De fato, o materialismo de Feuerbach não dá conta de explicar as relaçõesHomem-Natureza haja vista que o mesmo distingue sensivelmente Homem e Natureza,e acaba caindo num materialismo mecanicista: homem e natureza entendidos como
    • agregados mecânicos de seres e indivíduos, suas relações são apenas de causa e efeito.Em oposto, Marx e Engels não produzem tal distinção, pois o Homem é parte daNatureza. O campo (a água, etc.) pode ser considerado como um instrumento de produção natural. No primeiro caso, quando se trata de um instrumento de produção natural, os indivíduos encontram-se submetidos à natureza; no segundo caso, estão subordinados a um produto do trabalho. [...] No primeiro caso, o intercâmbio é essencialmente um intercâmbio entre os homens e a natureza, um intercâmbio entre os homens no qual o trabalho dos primeiros é comutado pelos produtos da natureza (MARX; ENGELS, 2007:101, os grifos negritados são nossos). Prosseguindo, Marx e Engels atestam que a submissão à Natureza deve-se aosinstrumentos da produção natural, ou seja, os homens permutam com a própriaNatureza. Todavia, com o desenvolvimento dos instrumentos de produção e formas depropriedade civilizadas, a divisão do trabalho produz uma subjugação da Natureza aoHomem e, por conseguinte, de homens para com homens (dominar a Natureza é,portanto dominar os homens naturais: os homens inferiores, imaturos, débeis, bárbaros,incivilizados). O câmbio, o intercâmbio, é agora uma relação apenas entre homens, aNatureza está excetuada. Não olvidemos que parte dessa separação entre Homem eNatureza está incrustada no paradigma platônico-aristotélico (que foi instituindopaulatinamente a distinção entre trabalho prático/técnico e atividade teórica/intelectual)e no racionalismo cartesiano. Finalmente, após os dois pensadores alemães pulularem críticas aos neo-hegelianos, bem como ao materialismo de Feuerbach, eis que surge uma conclusãobastante interessante para nossa análise: No desenvolvimento das forças produtivas chega-se a uma etapa em que são originadas forças produtivas e formas de trocas as quais, no quadro das relações existentes, produzem apenas estragos e não são mais forças produtivas, e sim forças destrutivas (maquinaria e dinheiro); e junto disso, surge uma classe que tem de suportar todos os ônus da sociedade sem usufruir de suas vantagens; (MARX; ENGELS, 2007:105). Os pensadores aqui tecem críticas às forças produtivas, mostrando que, aoatingir um determinado nível “evolutivo”, elas podem transformar-se em forçasdestrutivas. É claro que eles não lançam mão de um exemplo ecológico, tampouco sepode afirmar, pelo exemplo, que a destruição em questão é a da Natureza (LÖWY,2005). Mas, suponhamos que a força destrutiva, suscitada por Marx e Engels emquestão, tenha como alvo a Natureza. A crítica então passa a ter um sentido ampliado:de um lado a racionalidade capitalista condena uma classe, o proletariado, a suportar
    • todas as desvantagens da produção, como exemplo a precarização das condições detrabalho; na outra ponta o produtivismo capitalista destrói a Natureza, rompe oequilíbrio ecológico e promove impactos ambientais. No dizer de Michael Löwy (2005), é esse produtivismo capitalista, essairracionalidade ecológica que se transforma em um liame entre as lutas sociais e as lutasecológicas. Tem-se, então, o embrião de um novo socialismo: o ecossocialismo. Osocialismo do século XXI.3 CONSIDERAÇÕES FINAIS: a possibilidade de um Ecossocialismo O grande objetivo de nossa análise foi buscar pistas nesta grande obra queajudassem a pensar os limites e contribuições de um possível marxismo ecológico noque tange as relações Homem-Natureza. Não foi simplório o caminho tortuoso pelo qual a humanidade percorreu atéchegar ao atual paradigma ecológico: as contribuições deixadas pelo paradigmaaristotélico-platônico fundamentaram embrionariamente a separação entre homem enatureza, entre ideia e materia. Posteriormente, na modernidade, principalmente com Descartes, canoniza-se aseparação entre homem e natureza. O racionalismo cartesiano é um dos muitosfundamentos sobre os quais se assentam a modernidade: as dicotomias sujeito-objeto,corpo-alma, cientificismo e evolucionismo. Neste âmbito, a modernidade seria umestágio da humanidade superior aos anteriores. Mas um estágio essencialmente europeu.Este entendido como o civilizado, culto, educado, superior. Nesse contexto, Marx e Engels não escapam da atmosfera moderna: sãoperceptíveis os traços do evolucionismo, do cientificismo, da visão de progresso e dosentido da história (tomado de Hegel) em seus escritos Todavia, Marx e Engels partido da crítica ao idealismo presente na Alemanharessalvam a dependência do homem para com a Natureza e criticam incisivamente aseparação entre Natureza e História mostrando que é impossível dissociar histórianatural de natureza histórica. Eles nos apontam uma saída filosófica e econômica que propõe uma mudançaestrutural no seio das relações socioambientais. Obviamente essa mudança estruturaldeve estar atenta para o momento histórico que vivemos: um momento de criseambiental cuja crença no desenvolvimento ilimitado das forças produtivas, no
    • industrialismo e no progresso, pode trazer sérios danos ambientais e nos encantar comuma promessa inviável. Portanto, livremo-nos das soluções simplificadas que a ecologia burguesadispõe, como se as soluções tecnológicas não fossem também fruto desse modelo deracionalidade que separou, esquartejou e amortizou a Natureza do Homem. Oecossocialismo parece-nos um liame necessário e um resultado das lutas sociais eecológicas que travamos desde o século XX. Temos que ter cuidado com as ideiassedutoras, brilhantes, sintetizadoras, no século XIX e boa parte do século XX, para quenão nos desencantemos com uma promessa que não foi (LANDER, 2006). Para tanto, éelementar entender o Espaço e a Natureza não como um palco imóvel onde osacontecimentos históricos humanos se desenvolvem no mundo, mas sim como condiçãode compreensão da modernidade, da colonialidade (PORTO-GONÇALVES, 2006b) ede criação da riqueza. É preciso também ampliar o método marxiano do materialismohistórico para o materialismo histórico-geográfico: dessa forma, poderemos entender ecriticar a visão da modernidade como um acontecimento provinciano europeuenfatizando o seu caráter colonial e civilizatório (LANDER, 2006). REFERÊNCIASBACON, Francis. Novum Organum ou Verdadeiras Indicações Acerca daInterpretação da Natureza. Trad. José Aluysio Reis de ANDRADE. 2002. Versãoeletrônica disponível em: www.dominiopublico.gov.br.CHAUÍ, Marilena. O que é ideologia. 2ªed. São Paulo: Brasiliense, 2008.KONDER, Leandro. O que é dialética. São Paulo: Brasiliense, 2008LANDER, Edgardo. Marxismo, eurocentrismo e colonialismo. In BORON, A;AMADEO, J; GONZÁLEZ, S(orgs.). A teoria marxista hoje: problemas eperspectivas. Buenos Aires: Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, Clacso,2006. pp. 201-236.LEFEBVRE, Henri. A re-produção das relações de produção. Porto: Escorpião,1973. (La survie Du capitalisme, 1).LEFF, Enrique. Aventuras da epistemologia ambiental: da articulação das ciências aodiálogo de saberes. Trad. Glória Maria VARGAS. Rio de Janeiro: Garamond, 2004.LÖWY, Michael. Ecologia e Socialismo. São Paulo: Cortez, 2005.
    • MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. Feuerbach - A Oposição entreas Cosmovisões Materialista e Idealista. Trad. Frank Müller. São Paulo: Martin Claret,2007.PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. Os (des) caminhos do meio ambiente. 14ª ed.São Paulo: Contexto, 2006a.PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. A geograficidade do social: uma contribuiçãopara o debate metodológico para os estudos de conflitos e movimentos sociais naAmérica Latina. Revista Eletrônica da Associação dos Geógrafos Brasileiros - SeçãoTrês Lagoas - MS, V1 - nº3 - ano 3, Maio de 2006b.SMITH, Neil. Desenvolvimento desigual. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1988. RIBEIRO JUNIOR, J. A. S; ALMEIDA, J. G; TIERS, T. F. S; SOUSA, B. M. O VERMELHO E O VERDE: RASTREANDO UM MARXISMO ECOLÓGICO N’A IDEOLOGIA ALEMÃ. In: X Encontro Humanístico, São Luís: EDUFMA, 2010.