(Desre)construção do tecido urbano processo de modernização e implosão explosão urbana em são luís – ma, no limiar do século xxi
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    (Desre)construção do tecido urbano processo de modernização e implosão explosão urbana em são luís – ma, no limiar do século xxi (Desre)construção do tecido urbano processo de modernização e implosão explosão urbana em são luís – ma, no limiar do século xxi Document Transcript

    • 1 (DES/RE)CONSTRUÇÃO DO TECIDO URBANO: processo de modernização e implosão-explosão urbana em São Luís – MA, no limiar do século XXI1 Danniel Madson Vieira OLIVEIRA2; Tiago Silva MOREIRA3; José Arnaldo dos Santos RIBEIRO JUNIOR4; Hudalet da Conceição OLIVEIRA5 ; André Luís Soares RODRIGUES6; Josoaldo Lima RÊGO7; Marcelino Silva FARIAS FILHO8. 2 (UFMA9/GEOTEC10/LEBAC11/GERUR12) (<dannielmadson@hotmail.com>); 3 (UFMA/GEOTEC/NEAGH13) (<thyago_sylver@hotmail.com>); 4 (UFMA/GEDMMA14/NEPS15) (<aj_ramone@hotmail.com>); 5 (UFMA/GEOTEC) (<dallet@zipmail.com.br>); 6 (UFMA/GEOTEC/LEBAC) (<andreluis2792@hotmail.com>); 7 (UFMA/DEGEO16) (<josoaldorego@yahoo.com.br>); 8 (UFMA/DEGEO/LEBAC) (<marcelinobrasil@msn.com>).1 INTRODUÇÃO A geografia urbana se constitui numa das principais vertentes da ciênciageográfica na contemporaneidade, já que paulatinamente grande parte das sociedades maiscomplexas é condicionada a se tornar preponderantemente urbana, em detrimento do modo devida rural. Partindo desse pressuposto que Lefebvre (2008) defende a tese da urbanizaçãototalizante, “hoje virtual, amanhã real”, ou seja, vivencia-se um período de franca expansão da“sociedade urbana”, aquela “que nasce da industrialização”. É nesse contexto que São Luís, capital do Estado do Maranhão (Brasil), onde sefaz presente uma veemente (des/re)construção do tecido urbano atrelada à modernizaçãoautoritária, à explosão-implosão e à multiterritorialidade urbana, é elencada como objeto deestudo deste trabalho. Sendo assim, objetiva-se entender, refletir e interpretar os processosrecentes que dinamizaram o fluxo de pessoas, de capital e/ou de grandes empreendimentoslocais, nacionais e internacionais na supracitada cidade, oriundos da concentração e1 Os autores agradecem ao NAE (Núcleo de Assistência Estudantil – UFMA) pelo financiamento recebido.9 Universidade Federal do Maranhão.10 Empresa Júnior de Geografia (UFMA).11 Laboratório de Estudos de Bacias Hidrográficas (DEGEO/UFMA).12 Grupo de Estudos Rurais e Urbanos (DESOC/PPGCS/UFMA).13 Núcleo de Estudos Avançados em Geografia Humana (DEGEO/UFMA).14 Grupo de Estudos: Desenvolvimento, Modernidade e Meio Ambiente (DESOC/PPGCS/UFMA).15 Núcleo de Estudos e Pesquisas do Sindicalismo (DESOC/UFMA).16 Departamento de Geociências (UFMA).
    • 2confluência de interesses estatais e privados através da modernização forçada, que, porconseguinte desdobra-se na “cidade frankenstein”, que cresce vertiginosamente,contraditoriamente desordenada e especializada, mutilada. A partir do presente estudo, constatou-se que a segregação espacial da cidademoderna, reforçada pela especialização de diversas áreas de São Luís, não é umacontecimento tão recente. Alguns prédios símbolos desta tentativa de modernização doCentro da cidade e de bairros adjacentes datam da década de 1950 (LOPES, 2008)convivendo desarmonicamente com a arquitetura colonial portuguesa dos séculos XVII,XVIII e XIX. A frente pioneira em direção à Zona Norte de São Luís e dos municípioslimítrofes na Ilha do Maranhão tornou o projeto da modernização possível, com apredominância de mansões, da verticalização com espigões e prédios multifuncionais estilotorres de vidro, assim como o boom dos grandes centros comerciais, dos condomínioshorizontais e verticais da classe média. Grandes projetos industriais já instalados ou a seremconstruídos na cidade e região metropolitana de São Luís funcionam como uma forçacentrípeta para a expansão demográfica acentuada, que nos últimos cem anos (1910-2010)cresceu em termos absolutos aproximadamente 2000% (de 50 mil para 1 milhão de habitantessó na capital) (LOPES, 2008), produzindo a periferização e suburbanização desta cidade. Para melhor entendimento do assunto abordado, estruturamos o trabalhoinicialmente com os objetivos e descrição das metodologias utilizadas. Em seguida elencamosalguns conceitos com o objetivo de entender as principais categorias de análise utilizadas paradar prosseguimento com a discussão principal: a modernização e implosão-explosão urbanana São Luís (MA) contemporânea, retomando e refletindo a discussão nas consideraçõesfinais. Esta pesquisa encontra-se em estágio de andamento com conclusão prevista para ofinal do ano de 2010.2 OBJETIVOS  Analisar as transformações recentes do urbano em São Luís, capital do Estadodo Maranhão, decorrentes dos processos de modernização e implosão-explosão urbana;  Compreender as temáticas: modernização urbana, tecido urbano, implosão-explosão urbana e multiterritorialidade urbana a partir da sua inserção no contexto históricocontemporâneo do município de São Luís (principalmente) e sua hinterlândia.
    • 33 METODOLOGIAS Para a realização deste trabalho foi utilizado o método fenomenológico-hermenêutico e a dialética. A partir do método dialético buscou-se entender as contradiçõesrelativas ao processo de modernização e implosão-explosão urbana na São Luíscontemporânea. Com o método fenomenológico-hermenêutico, através da percepção in loco,objetivou-se perceber as características da dinâmica atual do tecido urbano nesta capital,diagnosticando quais são os fatores que causam a rápida expansão urbana nesta cidade, assimcomo as consequências e situações-problemas que afligem a população local em virtude daimposição da modernização, da concentração de riquezas, dos meios técnico-científico-informacionais e antagonicamente as excrescências urbanas, os imensos subúrbios aleijados,desestruturados. No que diz respeito à fundamentação teórica sobre o tema abordado, no intuito depautar e corroborar as informações discutidas, foram devidamente analisadas publicações emartigos, livros, monografias, dissertações e teses, destacando-se: Burnett (2008), Ferreira;Silva (2005), Haesbaert (2006), Harvey (2007), Lefebvre (2008), Lopes (2008), Santos;Silveira (2006) e Villaça (2001).4 PROLEGÔMENOS CONCEITUAIS A seguir faz-se uma exposição dos principais conceitos utilizados paracompreender a realidade urbana em São Luís (MA), tendo como categorias de análiseprimárias: tecido urbano, multiterritorialidade urbana, modernização urbana e implosão-explosão urbana. Dos autores utilizados como referencial teórico foram essenciais para esteestudo Burnett (2008), Lefebvre (2008), Lopes (2008) e Santos; Silveira (2006). Modernização urbana Tomamos como base para este conceito não somente a visão esclarecedora demodernização segundo as ciências sociais, já que a modernização aqui discutida é maisespecífica, pois trata-se da modernização urbana, ou seja, uma modernização atrelada aosvalores urbanos contemporâneos, como explica Le Corbusier (1973, p. 128 apud BURNETT,2008, p. 83): Sem „condicionante ambiental ou cultural‟ e voltada para „a eficiência e a estética‟, a cidade modernista disseminada em zonas funcionais, passa a ter um crescimento
    • 4 individualizado de suas partes: “A cidade, definida daqui em diante como uma unidade funcional, deverá crescer harmoniosamente em cada uma de suas partes, dispondo dos espaços e das vinculações nos quais se poderão inscrever, de forma equilibrada, as etapas de seu desenvolvimento”. Sendo assim, a modernização urbana é um dos valores disseminados como umacondição sine qua non presente principalmente nas sociedades capitalistas ocidentaiscontemporâneas, consistindo na especialização das zonas urbanas, interligação dos policentrosurbanos por vias de acesso rápido (estas com expansão contínua para suprir a necessidade demobilidade nas grandes cidades, que geralmente tem crescimento exponencial no número deveículos individuais), arquitetura (pós)moderna 17 (na qual o monumento passou a fazer partedo cotidiano na cidade), refuncionalização dos bairros e monumentos tradicionais/ históricos,assim como das áreas verdes, vistas no urbano moderno como locais que, além dapreservação, tem que ter funcionalidade (geralmente áreas de escape para o lazer e descanso)para que a população desenvolva sentimento de pertencimento e consumam a/na paisagemurbana. Multiterritorialidade urbana A cidade é o lugar de surgimento e confluência das “tribos urbanas” – díade depalavras que representa a heterogeneidade cultural que convive (des)harmoniosamente nassociedades urbanas contemporâneas, formadas por indivíduos com identidades culturais asmais diversas, mas que procuram congregar valores afins em espaços de encontros específicosde cada “tribo”. Haesbaert (2006, p. 338, 343-344) fala-nos a respeito de um conceitointeressante e fundamental ao urbano aqui discutido, a multiterritorialidade: O que entendemos por multiterritorialidade é (...) a forma dominante, contemporânea ou “pós- moderna”, da reterritorialização (...). Ela é consequência direta da predominância (...) das relações sociais construídas através de territórios- rede, sobrepostos e descontínuos, e não mais de territórios-zona, que marcaram aquilo que podemos denominar modernidade clássica territorial-estatal. O que não quer dizer, em hipótese alguma, que essas formas mais antigas de território não continuem presentes, formando um amálgama complexo com as novas modalidades de organização territorial. (...) Multiterritorialidade (ou multiterritorialização se, de forma mais coerente, quisermos enfatizá-la enquanto ação ou processo) implica assim a possibilidade de acessar ou conectar diversos territórios, o que pode se dar tanto através de uma “mobilidade concreta”, no sentido de um deslocamento físico, quanto “virtual”, no sentido de acionar diferentes territorialidades mesmo sem deslocamento físico, como nas novas experiências espaço-temporais proporcionadas através do ciberespaço.17 David Harvey (2007, p. 69) alerta que “os pós-modernistas [vêem o espaço] como coisa independente eautônoma a ser moldada segundo objetivos e princípios estéticos que não têm necessariamente nenhuma relaçãocom algum objetivo social abrangente, salvo, talvez, a consecução da intemporalidade e da beleza„desinteressada‟ como fins em si mesmas.”
    • 5 Partindo desta discussão, afirma-se que a cidade pensada como o espaço doencontro das diferenças culturais é também o lugar de concretização da multiterritorialidade,logo, a cidade pós-moderna, como um lugar de desencontros, deve ser repensada. Tecido urbano Estas palavras, “o tecido urbano”, não designam, de maneira restrita, o domínioedificado nas cidades, mas o conjunto das manifestações do predomínio da cidade sobre ocampo. Nessa acepção, uma segunda residência, uma rodovia, um supermercado em plenocampo, fazem parte do tecido urbano. Mais ou menos denso, mais ou menos espesso e ativo,ele poupa somente as regiões estagnadas ou arruinadas, devotadas à “natureza” (LEFEBVRE,2008, p. 15). Implosão-explosão urbana Esta categoria é aqui analisada segundo os estudos lefebvrianos, que explica-acomo causa das metamorfoses intensas atinentes ao processo de urbanização: “(...) a não-cidade e a anticidade vão conquistar a cidade, penetrá-la, fazê-la explodir, e com isso estendê-la desmesuradamente, levando à urbanização da sociedade, ao tecido urbano recobrindo as remanescências da cidade anterior à indústria. Se esse extraordinário movimento escapa à atenção, se ele foi descrito apenas fragmentariamente, é porque os ideólogos quiseram eliminar o pensamento dialético e a análise das contradições em favor do pensamento lógico, ou seja, da constatação das coerências e tão somente das coerências. Nesse movimento, a realidade urbana, ao mesmo tempo amplificada e estilhaçada, perde os traços que a época anterior lhe atribuía: totalidade orgânica, sentido de pertencer, imagem enaltecedora, espaço demarcado e dominado pelos esplendores monumentais. Ela se povoa com os signos do urbano na dissolução da urbanidade; torna-se estipulação, ordem repressiva, inscrição por sinais, códigos sumários de circulação (percursos) e de referência. Ela se lê ora como um rascunho, ora como uma mensagem autoritária. Ela se declara mais ou menos imperiosamente. Nenhum desses termos descritivos dá conta completamente do processo histórico: a implosão-explosão (metáfora emprestada da física nuclear), ou seja, a enorme concentração (de pessoas, de atividades, de riquezas, de coisas e de objetos, de instrumentos, de meios e de pensamento) na realidade urbana, e a imensa explosão, a projeção de fragmentos múltiplos e disjuntos (periferias, subúrbios, residências secundárias, satélites etc.)”. (LEFEBVRE, 2008, p. 23-24). Zonas urbanas de fluxos centrípetos X Zonas urbanas de fluxos centrífugos Os fluxos urbanos são determinados de acordo com os horários de ápice (fluxosconvergentes) e de rarefação (fluxos divergentes) das atividades que especializam as diversaspartes da cidade. Villaça (2001, p. 20) ao explicar o fluxo intra-urbano afirma que ele: (...) é estruturado fundamentalmente pelas condições de deslocamento do ser humano, seja enquanto portador da mercadoria força de trabalho – como no deslocamento casa/trabalho, deslocamento casa-compras, casa-lazer, escola, etc. Exatamente daí vem, por exemplo, o enorme poder estruturador intra-urbano das áreas comerciais e de serviços, a começar pelo próprio centro urbano.
    • 6 Dessa forma, durante o dia, o Centro da cidade e demais bairros ondepredominam atividades do setor terciário (policentros), assim como as zonas industriais (ondepredominam atividades do setor secundário), exercem maior influência atrativa gerandofluxos centrípetos, nos quais prevalece a convergência do fluxo demográfico, de automóveis,serviços, capital, informações..., ou seja, caracteriza-se como uma zona urbana de fluxocentrípeto diurno. Já nas áreas residenciais predomina, durante o dia, o fluxo centrífugo, poishá mais divergência daqueles que trabalham, estudam ou dependem de outras atividades quese concentram, geralmente, ao entorno e no Centro urbano. Durante a noite, os fluxos urbanos preponderantes invertem seus sentidos: acidade dos serviços, que emprega, que é multifuncional, descansa (fluxos centrífugosnoturnos) para que os atores protagonistas deste movimento pendular se dirijam em direçãoaos bairros dormitórios (zona urbana de fluxo centrípeto noturno). Próteses da modernização urbana Segundo o Dicionário Silveira Bueno (2000, p. 758) prótese significa a“substituição de um órgão ou parte dele por uma peça artificial”. As próteses da modernizaçãourbana são construções que tem o objetivo de maximizar, melhorar, auxiliar em funçõesnaturais da cidade como o setor de serviços e a mobilidade (com exemplos respectivos oscentros comerciais e elevados), gerando muitas vezes paisagens com arquitetura desarmônica. Cidade frankenstein Utiliza-se este termo para designar a cidade que convive com a simultaneidade docrescimento urbano desordenado e da modernização urbana impositiva, configurando-se numlugar de antagonismos, de realidades sócio-espaciais, culturais e econômicas multifacetadas,como um corpo formado por partes alheias, próteses. Daí a alusão à obra “Frankenstein ou omoderno Prometeu” de Mary Shelley (1818). População precariamente incluída X População hegemônica Denomina-se aquela população que possui acesso, porém demasiadamentedeficiente, dos meios básicos de sobrevivência (como alimentação e moradia) e outros que oEstado tem o dever de oferecer à sociedade (a exemplo do saneamento básico, saúde eeducação pública), de população precariamente incluída. Em contrapartida, a populaçãohegemônica é aquela que detém grande parte do montante da renda absoluta, assim como dosmeios de produção e apreende os melhores salários, cargos políticos, públicos e privados, ouseja, tem total acesso aos meios básicos de sobrevivência e não depende exclusivamente dosmeios que o Estado provê, podendo usufruir do privado, e fazendo parte da elite econômica,política e intelectual.
    • 75 MODERNIZAÇÃO: expansão e proliferação dos espaços da(s) modernidade(s) em SãoLuís (MA) Os Grandes Projetos minero-metalúrgicos instalados na Ilha do Maranhão(ALUMAR e VALE) a partir da década de 1970 e a viabilização do Corredor Norte deexportação pelo sistema Multimodal composto pelo Complexo Portuário de São Luís,rodovias e ferrovias, possibilitaram a “complexificação” dos serviços oferecidos na capital,assim como um aumento na renda mensal dos trabalhadores formando um mercadoconsumidor em potencial recém-nascido (com a expansão da classe média), atraindo diversosempreendimentos comerciais, residenciais e de lazer, antes inexistentes na cidade provinciana. A especulação imobiliária cresceu em torno do solo urbano. O Centro urbano,tradicional, já não comportava as necessidades da população hegemônica local que consumiapadrões da elite do Centro-Sul que se modernizava. Áreas da Zona Norte de São Luís (figura01), localizadas próximas às praias foram paulatinamente estruturadas com vias asfaltadas,iluminação, saneamento básico e consequentemente loteadas. A venda da paisagem (vistapara o mar) é um dos fatores desta área ser a mais valorizada localmente (possibilitando oprojeto de verticalização e modernização urbana), somada à proximidade com os centroscomerciais, de lazer, bancos, restaurantes, trabalho, escolas e faculdades da classe média.Figura 01. Contraste entre os modernos bairros da Zona Norte de São Luís (parte superior da foto) e bairros dapopulação precariamente incluída na Área Itaqui-Bacanga (parte inferior da foto), separados pelos estuários dosrios Anil e Bacanga. Fonte: TORRES (2010).
    • 8 Configurou-se gradativamente esta expansão da classe média em direção ao eixonorte do município (que acarretou na repulsão dos moradores pobres mais antigos desse eixo)a partir da finalização das obras de construção das Pontes José Sarney (em 1970), BandeiraTribuzi (em 1980), Hilton Rodrigues e Governador Newton Bello (conhecida popularmentecomo Ponte do Caratatiua), ambas localizadas sobre o rio Anil, permitindo a ocupaçãoplanejada no bairro São Francisco seguida (não necessariamente nesta ordem) dos bairrosPonta D‟Areia (parte deste bairro está sobre um pontal extremamente valorizado queatualmente é denominado pelas imobiliárias de Península da Ponta D‟Areia) Renascença I eII, Calhau, São Marcos, Cohama, parte do Jaracaty, Olho D‟Água, Turu, dezenas decondomínios residenciais fechados, enfim, bairros que margeiam as avenidas Castelo Branco,Colares Moreira, dos Holandeses, Litorânea, Jerônimo de Albuquerque, São Luís Rei deFrança e Daniel de La Touche. Como afirma Ferreira; Silva: (...) o eixo Renascença-Calhau é o mais valorizado dessa cidade e em 1999 possuía o metro quadrado mais caro da macrorregião Nordeste (Ferreira, 1999a). A essência dessa lógica é tão evidente que um edifício de 22 andares localizado no Calhau, com dois apartamentos por andar (média de R$ 300.000,00/unidade) pode representar para o proprietário uma lucratividade de até 13.200.000,00 (treze milhões e duzentos mil reais). Isso num Estado considerado um dos mais pobres do Brasil, em que 60% da PEA recebem menos que dois salários mínimos e em uma capital em que somando os que não têm renda e os que ganham até um salário mínimo (...) correspondem a 66,33% da PEA (BRASIL, 2000 apud FERREIRA; SILVA, 2005, p. 06). Os shoppings mais antigos como Garden e Tropical estão em sua terceira década,demonstrando e resistindo (com adaptações) às intensas metamorfoses urbanas desse período,já que outros posteriores sucumbem às novas ordens econômicas locais e à desconcentraçãocomercial do Centro. Atualmente está sendo construída uma franquia do Carrefour e o décimoe maior shopping da capital maranhense, o Shopping da Ilha (figura 02), numa área total de176 mil m2, ambos nos eixos de expansão da especulação imobiliária. Figura 02. Projeto do Shopping da Ilha: Área Bruta Locável de 41 mil m2, área construída de 82 mil m2, 16 torres residenciais (2880 apartamentos) e 7 comerciais (1600 salas comerciais), área principal do shopping com 4 andares, 15 lojas âncoras/mega-lojas, 330 lojas ao total, 2 mil vagas para estacionamento, 1200 lugares na praça de alimentação. Fonte: Shopping da Ilha, 2010.
    • 96 IMPLOSÃO-EXPLOSÃO URBANA E CONSIDERAÇÕES FINAIS: esquadrejamentosócio-econômico e espacial paulatino – precariedades e hegemonias em redes de influêncianas áreas/ zonas de São Luís (MA) A rápida expansão demográfica em São Luís a partir da década de 1970 (figura 03A) não conseguiu ser concomitante ao planejamento urbano, gerando um tecido urbano denso,desordenado, de antagonismos evidentes, com multiterritorialidades, várias próteses urbanas,configurando-se na cidade frankenstein contemporânea. O aumento dos fluxos urbanos,aeroviários (com aproximadamente 985 mil passageiros, em 2009, no Aeroporto Internacionalde São Luís, segundo a Infraero), rodoviários, ferroviários e marítimos em direção à São Luísse dão cada vez mais pela disponibilidade e melhoria de serviços e infra-estrutura (como aexpansão da rede hoteleira internacional), aumento do mercado consumidor, dos atrativosfiscais e turísticos, assim como pela expansão e implantação de grandes projetos comerciais eindustriais no município e sua hinterlândia (como a Refinaria Premium da PETROBRAS,obra de 20 bilhões de dólares, que será a maior refinaria da América Latina e uma das maioresdo mundo com capacidade para produzir, em 2016, 600 mil barris/dia de derivados depetróleo – 1/3 da produção nacional – e gerar 132 mil empregos diretos e indiretos).Figura 03. Mosaico. A: Expansão da mancha urbana no município de São Luís de 1926 a 2004. B: Palafitassobre o Rio Anil no Bairro Liberdade. C: Vista das unidades localizadas à margem direita da Avenida principaldo Bairro Cidade Operária, conjunto habitacional com aproximadamente 14 mil residências no subúrbio de SãoLuís. Fonte: Lopes (2008).
    • 10 Porém, esta concentração (implosão urbana) enquanto atrativo populacional, geraum processo inverso, as excrescências (explosão urbana). Como já foi dito, o crescimentodemográfico acentuado e desordenado trouxe uma série de estigmas para a populaçãoprecariamente incluída: o esquadrejamento sócio-econômico e espacial na cidade é feito deacordo com o valor de uso e troca do solo urbano, logo, a população hegemônica estabiliza-sesobre áreas de elevada especulação financeira e pressiona os mais pobres a fixarem-se naperiferia precariamente “infraestruturada”, a exemplo dos moradores de palafitas (figura 03B) que não têm condição sequer de ter uma propriedade sobre um terreno estável, seco. Os imensos conjuntos habitacionais são construídos durante o boom populacionalem São Luís, na 2ª metade do século XX, a exemplo da Cidade Operária (figura 03 C). Com adisponibilidade de terras vazias nas adjacências deste bairro (que surge como um centro dereferência para os bairros vizinhos, já que possuía uma boa infra-estrutura viária e urbana)elas serão ocupadas rapidamente, surgindo um complexo de vilas, dentre elas a CidadeOlímpica com quase 100 mil habitantes (LOPES, 2008). Vários bairros surgem na cidadecomo essenciais para desconcentrar os serviços do Centro como: Renascença, Cohab, Turu,Cidade Operária e São Cristóvão, gerando novas redes de influência entre as diversas áreas deSão Luís. Apesar disso, o Centro ainda concentra o setor secundário na capital maranhense. REFERÊNCIASBURNETT, Frederico Lago. Urbanização e desenvolvimento sustentável: asustentabilidade dos tipos de urbanização na cidade de São Luís do Maranhão. São Luís:UEMA, 2008.DICIONÁRIO SILVEIRA BUENO. Direção editorial: Moacir da Cunha Viana. São Paulo:Didática paulista, 2000.FERREIRA, Antonio José de Araújo; SILVA, Cláudio Roberto Marques da. A lógicacapitalista da produção do espaço urbano de São Luís (1971 a 2003). In: Anais do IXSimpósio Nacional de Geografia Urbana. Manaus: UFAM, 2005.HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização: do “Fim dos Territórios” àMultiterritorialidade. – 2ª ed. – Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.HARVEY, David. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudançacultural. – 16ª ed. – São Paulo: Edições Loyola, 2007.INFRAERO. Movimento Operacional Acumulado da REDE INFRAERO (janeiro atédezembro de 2009).In:<http://www.infraero.gov.br/upload/arquivos/movi/mov_operac._1209_revisado.pdf>.Acesso em 30 jun. 2010.
    • 11LEFEBVRE, Henri. A Revolução Urbana. – 3ª reimpr. – Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2008.LOPES, José Antonio Viana – (org.). BRASIL; ESPAÑA. Ministério da Cultura (Brasil).Cidade de São Luís (Maranhão). Ministerio de Assuntos Exteriores y Coperación, AECID.Junta de Andalucia. Consejeria de Obras Públicas y Transportes. Dirección General deArquitectura y Vivenda. São Luís Ilha do Maranhão e Alcântara: guia de arquitetura epaisagem = San Luis Isla de Marañon y Alcântara: guia de arquitectura y paisaje – Ed.Bilíngüe. São Luís-Sevilha: 2008.SANTOS, Milton; SILVEIRA, María Laura. O Brasil: Território e sociedade no início doséculo XXI. Rio de Janeiro: Record, 2006.SHOPPING DA ILHA. In: <http://www.shoppingdailha.com.br>. Acesso em 30 jun. 2010.TORRES, J. B. In: <http://jbtorres.blogspot.com/>. Acesso em 30 jun. 2010.VILLAÇA, Flávio. Espaço intra-urbano no Brasil. São Paulo: StudioNobel/FAPESP/Lincoln Institut, 2001. OLIVEIRA, D. M. V; MOREIRA, T. S; RIBEIRO JUNIOR, J. A. S; OLIVEIRA, H.C; RODRIGUES, A. L. S; RÊGO, J. L; FARIAS FILHO, M. S. (Des/Re)Construção do Tecido Urbano: Processo de Modernização e Implosão-Explosão Urbana em São Luís MA, no Limiar do Século XXI. Anais do XVI Encontro Nacional de Geógrafos - ENG, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 25 a 31 de julho de 2010. Disponível em http://www.agb.org.br/xvieng/anais/index.html