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Comentários contextuais acerca do texto “cultura y culturas desde la colonialidad del poder y desde los pueblos indígenas” texto

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Comentários contextuais acerca do texto “cultura y culturas desde la colonialidad del poder y desde los pueblos indígenas” texto

  1. 1. 1 COMENTÁRIOS CONTEXTUAIS ACERCA DO TEXTO “CULTURA Y CULTURAS: DESDE LA COLONIALIDAD DEL PODER Y DESDE LOS PUEBLOS INDÍGENAS”1 José Arnaldo dos Santos Ribeiro Junior21 IDENTIFICAR O AUTOR E SUA OBRA Com o intuito de estabelecer um diálogo com a, até então, desconhecida obra deRodrigo Montoya Rojas, escolhi como interlocutora do estudo a antropóloga Selma Baptistaque é atualmente professora da Universidade Federal do Paraná cujas pesquisas e orientaçõestem tido como temática, dentre outros aspectos, as discussões sobe Antropologia na AméricaLatina. De acordo com Baptista (2002), Rodrigo Montoya Rojas é um antropólogo e novelistaperuano que retoma a concepção de socialismo mágico presente de forma incipiente nopensamento do também antropólogo e novelista José Maria Arguedas. Tanto Arguedas,quanto Rojas possuem como linha de pensamento as contribuições deixadas por JoséMariátegui que combina uma tradição de esquerda (marxista) com a questão étnica. O antropólogo e novelista Rodrigo Montoya Rojas decidiu estudar Antropologia depois de um encontro com José Maria Arguedas, que era amigo do seu pai. Serrano de Puquio, chegou em Lima nos anos sessenta, para frequentar a Universidade de San Marcos. Seguiu uma carreira acadêmica de muito êxito sendo atualmente professor emérito da referida universidade. Em 1994, já afastado da militância política desde 1978, trouxe aos círculos intelectuais um trabalho de síntese da questão étnica e política de ressonâncias muito diretas com a obra de Arguedas e de Mariátegui (BAPTISTA, 2002, p.64). Depreende-se que o objetivo de Rojas é sintetizar a questão étnica e política na medidaem que a politização étnica resolve a contradição existente entre a etnicidade, definida porpadrões linguísticos e culturais no território social, e a política enquanto luta pelo poder eimposição de limites. Por isso: Além da intenção explícita de fazer um balanço ideológico das tendências políticas do país, contando a história de uma exclusão fundante da sociedade peruana,1 Texto produzido originalmente como requisito para obtenção de nota na disciplina Globalização e Cultura,ministrada pela Profa. Dra. Zilda Márcia Grícoli Iokoi, no Programa de Pós-Graduação em História Social daUniversidade de São Paulo. Agradeço ao geógrafo e doutorando em Geografia Humana (FFLCH/USP) ThiagoAraújo Santos por suas inúmeras colaborações.2 Bacharel e Licenciado em Geografia pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Mestrando emGeografia Humana na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de SãoPaulo (USP). Membro do Grupo de Estudos: Desenvolvimento, Modernidade e Meio Ambiente (GEDMMA) edo Núcleo de Estudos e Pesquisa do Sindicalismo (NEPS). Integrante da Rede Justiça nos Trilhos.
  2. 2. 2 apresenta sua proposta de um socialismo mágico: um projeto de transformação, agora realmente ligado ao entendimento da diversidade étnica e cultural, postulando- o como a única saída para uma sociedade democrática (Montoya,1994). Desta maneira, a idéia de uma utopia andina, formulada originalmente por Manuel Burga e Alberto Flores Galindo, reaparece vários anos depois como utopia da diversidade (BAPTISTA, 2002, p.64). Assim, o socialismo mágico é a combinação de uma sociedade organizadademocraticamente no qual há um controle da produção (pelo proletariado?) junto com ocomponente étnico-cultural que marca forte presença não só na realidade peruana, mastambém na América Latina de modo geral. Todavia, não se trata de uma simples operaçãomatemática de adicionar ao socialismo científico os elementos étnico-culturais das diversassociedades existentes, mas sim de uma construção do socialismo desde abajo3, ou seja, umsocialismo capaz de reconhecer e incorporar dialeticamente as diversas formaçõessocioculturais na luta contra o capitalismo enquanto modo de produção e sistema civilizatório. Trabalhando com a questão étnica ele aponta a profunda relação entre messianismo/milenarismo e a política, que no Peru não seria uma atividade profana e sim profundamente condicionada pelo fator religioso. Na realidade, esta seria a chave para a compreensão do que Montoya chama de horizonte utópico, ou seja, uma combinação de utopia andina e socialismo, fruto de um processo de mitificação da história incaica e sua apropriação pela política. A questão que se põe é: como articular política e religião sem (se isso for possível) teruma visão religiosa da política? A meu ver a resposta que Montoya oferece, a partir da leiturade Baptista, é a politização da religião isto é, por a religião como um fator político enquantoluta pelo poder. Dessa forma, a politização da religião é um mecanismo de defesa daetnicidade e simultaneamente de uma busca de emancipação, de uma utopia. Ao mesmo tempo, Montoya vê na utopia andina uma resposta totalizadora ao localismo, enquanto resquício do Império Incaico, projetando a idéia de um homem andino enquanto uma totalidade de traços comuns, expressando uma história imaginada ou desejada e não a realidade de um mundo fragmentado. Seria, desta maneira, o conjunto de projetos para enfrentar esta realidade, o ponto de encontro entre a memória e o imaginário. O que parece importante salientar é que esta utopia necessita da existência, real ou imaginária, desta pluralidade/diversidade, enquanto ao mesmo tempo precisa postular uma andinidade que dê unidade às suas proposições. Enfim, o localismo pode ser compreendido como fonte identitária e, ao mesmo tempo, como aquilo que precisa ser superado (BAPTISTA, 2002, p.65). Todavia, o problema da totalidade/fragmentação que se põe complexifica o debate.Para Montoya, a partir da leitura de Baptista, a utopia andina é uma resposta ao localismo3 Esta locução expressa substantivamente a produção de conhecimento a partir de matrizes de racionalidadesindígenas, afro-americanas (quilombolas, negras) e camponesas. É uma qualificação muito utilizada peloGeógrafo e Professor Dr. Carlos Walter Porto-Gonçalves para trabalhar o conflito social como categoriageográfica. Em seus textos (Porto-Gonçalves, 2006a; 2006b), Carlos Walter tem chamado atenção para ageograficidade do social na construção de uma cartografia de poder, indicando que o conflito é o lado prático daabstração e imanente às relações sociais, assim como é o lugar do epistemológico.
  3. 3. 3fragmentador. No entanto, ao propor um homem andino, Montoya transformou afragmentação (andino) em totalidade (homem). A menos que tal andinidade seja ummomento necessário para a superação, como me parece entender o autor, o discurso dadiversidade atrelado ao direito da diferença pode desembocar numa fragmentação reacionáriae pós-moderna, reafirmando o localismo e não o combatendo. De qualquer forma, para fazer um contraponto à perspectiva do autor analisado éimportante recuperar o filósofo húngaro György Lukács (1885-1971) e seu esforço (bemsucedido, diga-se de passagem) de por o debate no plano ontológico da especificidade do sersocial. Com efeito, o homem que existe é o homem em sua totalidade, um ser que se objetivahistoricamente, posto que a história é a produção e a reprodução das objetivações (NETTO,2004). Ou seja, o debate antropológico é posto no sentido lato de uma Humanidade4, assimmesmo, em maiúsculo. Parece que a nossa interlocutora e estudiosa do autor analisado temciência desta possibilidade: Na realidade, a ideia de uma diversidade/pluralidade étnica está naturalmente ligada à uma concepção espacial específica: grupos diversos, ligados aos seus lugares de origem ou, pelo menos, aos locais que lhes foram destinados para viver. Portanto, localismo ligado à diversidade pressupõe fragmentação. Daí a necessidade de superá-lo numa concepção unitária de identidade que seja capaz de manter a ideia de diversidade/pluralidade, atrelada a uma concepção espacial que independa do contexto real. A recriação de uma identidade étnica numa metrópole como Lima, por exemplo, passa a supor que ela seja capaz de lidar simultaneamente com a diluição de um localismo geográfico enquanto suporte de identidade, e a recriação de espaços concretos e/ou imaginários onde ancorá-la. Neste caso, interpretar a história peruana apresenta-se como a própria caracterização desta utopia da diversidade a qual, por razões óbvias, encontra em Arguedas sua mais autêntica expressão (BAPTISTA, 2002, p.65). Indubitavelmente, na visão de Montoya está posto a totalidade e a fragmentação,sendo esta um momento necessário para àquela. Assim a fragmentação liga-se ao espaço localem contraposição a uma história universal. No entanto, tal perspectiva abre espaço,literalmente, para a realização da vida no espaço (de origem, como diz a interlocutora) maisdo que tomar o espaço (o mundo) como realização da vida, da existência. Ora, seconcordarmos com Lukács para quem a história é o processo de produção e reprodução dasobjetivações (NETTO, 2004), perde o sentido advogar uma defesa extremada de umadiversidade e um localismo geográfico: tomar-se-ia, então, como aspecto central asobjetivações humanas em sentido lato, acumuladas em processo.4 Que na visão do geógrafo Milton Santos (2008) nunca houve, apenas estão começando os primeiros ensaios.Quando analisamos tal observação vemos que Milton pôs a discussão sobre humanidade em seu sentido maisamplo, no plano da totalidade do homem.
  4. 4. 4 Estamos diante de um impasse: pode o homem objetivar-se no espaço? O espaço podeser também uma produção e reprodução da objetivação do homem? Na visão de Marinho(2010) existe uma relação de objetivação entre homem e lugar no plano da existência. Assim,Rojas, ao falar do Peru, do seu tempo e do seu espaço, encontra também na atividade literáriaum caminho para objetivar-se5: Hoy, treinta años después, el ritual de tomar la mochila, la libreta de campo, la grabadora y la câmara fotográfica para descubrir um nuevo lugar del Peru, es um pequeno fragmento que instantânea y fragilmente se confunde com lo que suele llamarse felicidad (ROJAS, 1994, apud BAPTISTA 2006). Dessa forma, a nossa interlocutora encerra seu artigo dizendo que: Segundo Montoya, nas palavras do discurso “No soy un aculturado” está toda a inspiração para se compreender a possibilidade da coexistência do socialismo e do pensamento mágico, ou seja, da tradição com a modernidade. E é neste sentido que caminha sua concepção de um socialismo mágico, no qual existe um encontro impostergável entre a política e os inúmeros movimentos sociais, entre o respeito pela diferença e a luta pela autodeterminação (BAPTISTA, 2002, p.65) . De fato, se pensarmos bem o simples fato de dizermos que “não somos aculturados” jáimplica em reconhecer a interiorização de uma cultura exterior. Dessa forma, o autor e a nossainterlocutora reproduzem os pares da dicotomia, caso de tradição e modernidade6. Ora, euapenas tenho ciência do que é tradicional se sei o que é moderno. Sendo assim modernidade etradição co-agem, ou seja, um constitui o outro dialeticamente. Como resolver a contradição?O socialismo mágico parece ser uma resposta salutar na medida em que afirma umaidentidade, mas negando a sua essencialização, concebendo como um momento necessáriopara a conquista da igualdade.2 RELACIONAR O TEXTO COM AS LEITURAS REALIZADAS NO CURSO O texto do antropólogo Rodrigo Rojas de imediato chama atenção pelo seu título:Cultura y culturas: desde la colonialidad del poder y desde lós pueblos indígenas. Quaisquestões se põem quando a cultura é pluralizada? Qual a função da colonialidade do poder? Equanto aos povos indígenas, que papel desempenham?5 O mesmo vale para a obra literária do jornalista português Fernando Monteiro de Castro Soromenho (1910-1968). A partir da leitura do texto de Mourão (1978) pude perceber como Castro Soromenho objetivava aproblemática colonial em virtude de a colonização trazer consigo a sua determinação negativa: a descolonização,a libertação, emancipação. A especificidade do ser social para Castro Soromenho põe-se, assim, no nívelcultural.6 Mourão (1993) condenou as análises socioantropológicas que partem da nefasta dicotomia entre tradicional emoderno. A seu ver, tais análises ora privilegiam um, ora privilegiam outro, afastando-se de uma análiserealística global (p.66).
  5. 5. 5 Para responder tais questões Rojas promove uma extensa citação do seu compatriota, osociólogo peruano Aníbal Quijano7 para mostrar como a constituição da América traz em seubojo a colonialidade do poder, marca que identifica a modernidade, o par contraditório dacolonialidade. Neste sentido, para Quijano (2005), a colonialidade do poder remete a um processoconstitutivo da América Latina e do capitalismo como um novo padrão de poder mundial. Orecuo histórico de Quijano, endossado por Rodrigo Rojas, é intencional e estratégico: buscaidentificar o nascimento do capitalismo com a colonização da América Latina. A historiadora Maria Yedda Linhares também reconhece a modernidade (que elachama de Tempos Modernos) atrelada ao nascimento do capitalismo e a colonização daAmérica: Os chamados Tempos Modernos que, para os países do Mediterrâneo ocidental e da orla atlântica do continente europeu, nasceram da crise do sistema feudal e da gestação do capitalismo, conheceram o primeiro momento de expansão transoceânica da história ocidental. Com o descobrimento dos caminhos marítimos, para o controle do comércio oriental, e a colonização na América, formaram-se os impérios mercantilistas dos séculos XVI, XVII e XVIII. A revolta dos colonos ingleses (as Treze Colônias) da América do Norte foi o início dessa primeira “descolonização”, que se concluiu com a liquidação dos impérios coloniais ibéricos na América Central e Meridional (LINHARES, 1981, p.34-35). Reconhece-se, portanto, que há semelhanças e diferenças entre os dois autores. Ambosconcordam com a existência de um colonialismo. No entanto, para Quijano o colonialismoque identifica a modernidade (daí colonialidade) tem como espaço-tempo a América Latina(numa clara distinção para com a América do Norte); Já para Linhares, a concepção decolonialismo engloba também a América do Norte (alusão às Treze Colônias, por exemplo) e,além disso, a historiadora dá mais destaque aos processos descoloniais em Ásia e África(LINHARES, 2000). Todavia, nada que cause algum tipo de constrangimento na leitura dos doisintelectuais. Quijano, segundo Rojas, vai destacar dois processos associativos que fundamentaramo padrão de poder colonial: 1) a ideia de raça; e 2) o controle do trabalho, dos recursos e dosprodutos em torno do capital e do mercado mundial. Para Quijano (2005), a ideia de raça, em seu sentido moderno, não tem históriaconhecida antes da América. Talvez se tenha originado como referência às diferenças7 Este pensador foi o responsável por desenvolver o conceito de colonialidade do poder no campo dos estudospós-coloniais.
  6. 6. 6fenotípicas entre conquistadores e conquistados, mas o que importa é que desde muito cedofoi construída como referência a supostas estruturas biológicas diferenciais entre esses grupos. Estamos diante, portanto de uma construção categorial, um artifício do colonizador,que objetiva subjugar as diferenças sociais para assim identificar fenotipicamente osconquistados como índios e/ou negros. Tal mecanismo colonizatório implicou o não-conhecimento do outro como igual na diferença, ou seja, o establishment moderno-colonialremeteu a subordinação da identidade a uma relação social na qual o outro (alter, daí vemalteridade) é dependente. Isso está em total acordo com aquilo que Octávio Ianni (2004) chamou de racializaçãodas relações sociais. Para o sociólogo brasileiro, “a ideia de raça tornou-se uma categoriafundamental utilizada pra classificar indivíduos e coletividades, por meio da qual procura-sedistinguir uns e outros, nativos e estrangeiros, conhecidos e estranhos, naturais e exóticos,amigos e inimigos” (IANNI, 2004, p. 158). Racializar, por conseguinte, é tornar racial, o que, de fato, antes não era. Esse vir a seré justamente o modo pelo qual as estruturas que ensejam a dominação constroem as práticascoloniais transformando um habitus (BOURDIEU, 2004a) social em um habitus racial. “O habitus é um sistema de disposições adquiridas na relação com um determinadocampo [...] é ao mesmo tempo um sistema de esquemas de produção de práticas e um sistemade esquemas de percepção e apreciação das práticas” (BOURDIEU, 2004b, pp. 130 e 158).De acordo com o sociólogo francês é importante compreender como as estruturas dosdiscursos e a construção das práticas se forjam, conduzem representações de um determinadogrupo/classe social inserem-se em diversos campos (político, econômico, simbólico, material,epistêmico, cultural) se intra-articulando e inter-articulando de maneira heterogênea numaverdadeira disputa pelo poder (político). Mas essa disputa pelo poder político que articula representações sociais dedeterminados grupos ou classes joga um papel importante no campo da economia política docapitalismo. Creio que essa é uma questão que não pode ser posta de lado e, ao que tudo indica,Rojas em seu diálogo com Quijano possui clareza deste aspecto. Como disse anteriormente, aideia de raça foi uma construção categorial que o colono lançou mão para transmutar relaçõessociais em relações de dominação. Dominar implica em controlar. Dominar índios, negros emestiços equivalia a subjugá-los e controlar a sua força de trabalho. Ocorre então que nagestação do capitalismo as condições gerais de produção como força de trabalho (escravaindígena e negra da América e da África) e matérias-primas eram produzidas por uma forma
  7. 7. 7não-capitalista de produção, ou seja, que não se centralizam na relação capital-trabalhoassalariado. Assim o sistema capitalista nascente articulou a violência, conquista,escravização8, rapina, assassinato e a destruição para se impor socialmente. Como diz KarlMarx (2011, p.864): As descobertas de ouro e prata da América, o extermínio, a escravização das populações indígenas, forçadas a trabalhar no interior das minas, o início da conquista e pilhagem das Índias Orientais e a transformação da África num vasto campo de caçada lucrativa são os acontecimentos que marcam os albores da era da produção capitalista. No plano da economia política capitalista o ouro e a prata da América setransformaram em elementos do capital constante (MARX, 2011), ou seja, a parte do capitalque se converte em meios de produção, em matéria-prima, materiais acessórios e meios detrabalho cuja magnitude do valor não muda no processo de produção (daí o nome constante).Não obstante, a escravização indígena (mas também africana) transformou tal força detrabalho em capital variável. Some-se a isso a expropriação dos camponeses, o saque dos bensda Igreja Católica, a violência jurídica, o nascimento de uma bancocracia, a privatização deterras comuns, a força do Estado9, a dissociação entre manufatura e agricultura, o sistemacolonial, o cristianismo, em suma, todos os fatores que Marx levantou no lendário capítulo daacumulação originária10, e temos um conjunto de fatores confluindo simultaneamente adiferentes ritmos para o nascimento e posterior desenvolvimento do capitalismo. Destarte, estariam os povos indígenas subsumidos à colonialidade do poder e à culturauniversal do sistema capitalista? Para Rodrigo Montoya Rojas esta pode até ser a visão deexecutivos, gestores e funcionário do poder colonial, mas para o antropólogo peruano os8 Cabe destacar que como ressaltou Munanga (1993, p.109) ao lado exploração externa (os conquistadores)caminhava ao lado uma “exploração interna, uma pilhagem sistemática do continente por seus próprios filhos.Esta começou no século XVI com o tráfico negreiro e a escravidão dos africanos nas Américas”. É claro que istonão justifica as práticas coloniais, mas também serve para que o debate político acerca de uma africanidade, nãoseja romantizado.9 Se pensarmos bem, até o final da Guerra Fria (1945-1991), podemos distinguir um Welfare State no chamadoPrimeiro Mundo, um Estado “Socialista” no Segundo Mundo e um Estado Desenvolvimentista no dito TerceiroMundo. Não objetivamos aqui fazer uma análise pormenorizada sobre tais classificações. O que cabe destacar éque, como ressaltou o sociólogo espanhol Manuel Castells (2002), na África subsaariana do fim do milênioformou-se um Estado predatório, ou seja, uma forma estatal que destrói o próprio povo, ou parcelas desse povo(se eximirmos as elites). Indubitavelmente, como expõe Castells, esta forma-Estado está atrelada diretamente apráticas nefastas como corrupção, aparelhamento privado, prebendalização, militarização e pilhagem.10 Benko (1996) ao conceituar acumulação chamou atenção para o ambiente macroinstitucional. Em outraspalavras, para o autor além de um regime de acumulação designar uma forma de alocação das riquezas sociais éimportante que hajam, ou estejam se formando, macroinstituições que possam organizar a sociedade, econômicae politicamente, no intuito de normatizar o território para atender aos objetivos das próprias formasinstitucionais. De fato, como pensar o capitalismo e sua mais recente fase, a globalização neoliberal, sem oEstado, Bancos (BIRD, Banco Mundial), Organizações Multilaterais (ONU, FMI), a industrialização daagricultura (complexos alimentícios) e, até mesmo, o avanço do protestantismo (enquanto instituições religiosasmarcadamente modernas)?
  8. 8. 8povos indígenas tem um potencial político capaz de subverter a ordem posta em direção aosocialismo mágico. Para além da submissão das culturas indígenas ao sistema capitalista,Rojas menciona a formação no Peru da Asociación Inter étnica para el Desarrollo de LaSelva Peruana (AIDESEP). Tal organização social da Amazônia peruana reivindica osdireitos dos povos indígenas a defender seus territórios, línguas, culturas, o direito à diferença,e autodeterminação. Constata-se então uma elevada politização da cultura. Rojas destacaainda que os levantes indígenas do Equador em 1990, a Marcha pela Dignidade e Territóriodos povos do oriente boliviano em 1993 e o Exército Zapatista de Libertação Nacional em1994 foram feitos decisivos que situaram os movimentos políticos indígenas como sujeitoscoletivos no cenário político latinoamericano. Particularmente, penso que é importante a emergência desses atores como sujeitospolíticos. Todavia, tais movimentos sempre correm o risco de, sem terem a pretensão de serrevolucionários, caracterizarem-se pelo romantismo, por uma “alteridade autêntica” comobem qualificou o geógrafo marxista David Harvey (2004). Além dos exemplos supracitadospode ser incluído nessa categoria o movimento “Chipko no Nepal, Chico Mendes e osseringueiros na Amazônia ou ainda os americanos nativos nos Estados Unidos” (HARVEY,2004, p. 106). Por um lado é legítimo que tais povos acionem politicamente sua cultura, sualíngua, sua diferença; Por outro, o apelo ao pluralismo, à diversidade, não pode anuviar que aluta se põe numa variedade de escalas controladas (nunca totalmente, é bom dizer) pelosistema capitalista e seus acólitos defensores. Dessa forma, é necessário, como diz Harvey(2004), desvelar o conteúdo de classe, sem cair na criação de uma “pessoa socialistahomogênea e unificada” (HARVEY, 2004, p.118) muito menos num “relativismoincontrolado e num ecletismo pós-moderno” (idem, ibidem). Pelo que foi analisado até aqui, Rodrigo Montoya Rojas tem ciência da complexidaderesultante da globalização do capitalismo neoliberal em especial as questões que cercam odebate sobre particularidade e universalidade, colonialidade e modernidade, igualdade ediferença. Por isso ressalta o papel que lideres intelectuais indígenas possuem com suarealidade cultural, linguística e sociopolítica. Rojas ressalta ainda que tais líderes apresentampropostas políticas e que a ação primeira é a da tentativa de cooptação. Rojas menciona quealguns líderes aceitam serem cooptados e outros não. As organizações que cooptam os lideressão o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), GovernosNacionais e Organizações Não-Governamentais (ONG). Tais organizações são o exemplocabal da institucionalização da globalização. Se dantes era a globalização do capital que
  9. 9. 9ensejava tais instituições, hoje, as instituições mais do que nunca respondem pela manutençãoda ordem capitalista mundial, sua evolução e desenvolvimento escalar. Rojas, por fim, levantou uma questão importante e crucial: qual o papel do intelectual?Quando lemos as obras de intelectuais como Kabegele Munanga, Fernando AugustoAlbuquerque Mourão, Georges Benko, Manuel Castells, Maria Yedda Leite Linhares, OctavioIanni e Pierre Bourdieu, nos interrogamos: têm desempenhado os intelectuais seu papel deforma socialmente satisfatória? Particularmente, penso que todos estes intelectuais supracitados, assim como outrosmobilizados neste texto (Mariátegui, Arguedas, Rojas, Harvey, Marx) buscaram e ainda tembuscado formar um amplo espaço de diálogo e de esperança, mas também de representação,e, sobretudo, de mobilização política, nos quais os atores envolvidos, ao transcenderem asescalas de suas regiões e nações, criam novas formas de luta pelo poder promovendo a defesade um meio ambiente sadio, denunciando violações de direitos humanos, exigindotransparência nos desenvolvimento de projetos, fiscalizando os agentes envolvidos,responsabilizando os governos, enfim, buscando a todo instante estratégias de enfrentamentoque possam satisfazer as necessidades pelo aquilo que se luta. Por fim, sem me eximir do debate, destaco também que o geógrafo e autor deste texto,no que tange ao seu caráter de pesquisador social e humano, com sua missão, herdada desde aGeografia Crítica dos anos 1970, objetiva promover estudos e lutar para que suas pesquisaspossam contribuir politicamente/concretamente para a melhoria das sociedadesdesfavorecidas, principalmente aquelas que não são contempladas com as benesses daglobalização capitalista neoliberal.3 COMO ESSAS REFLEXÕES REORIENTAM SEU PROJETO DE PESQUISA? É impossível responder a pergunta-título sem antes dedicar algumas linhas para contarum pouco da história do projeto de pesquisa. No início, a ideia original de pesquisa para o mestrado era identificar e analisar osprojetos financiados pelo BNDES no âmbito do Programa de Aceleração do Crescimento(PAC) na Amazônia Maranhense e a conjuntura dos conflitos socioambientais, bem como osimpactos territoriais resultantes. Essa foi a proposta de pesquisa apresentada à, até então,possível orientadora Profa. Dra. Marta Inez Medeiros Marques, do Departamento deGeografia da Universidade de São Paulo.
  10. 10. 10 Após a aprovação no mestrado, e das consequentes reuniões do campo emmovimento11, foi reavaliado o projeto cujo escopo de análise ainda estava amplo para osplanos de um mestrado, em virtude da grandeza dos projetos financiados pelo BNDES12, dacomplexidade de se analisar um plano nacional de desenvolvimento (PAC) e ainda osconflitos ambientais. Nada como uma reunião com a orientadora para reavaliar nossasespeculações e nos mostrar limites e possibilidades. Cientes disso, trocamos ideias, Marta e eu, cruzando os debates nos quais estávamosenvolvidos e que nos preocupavam mais imediatamente. Ela me enviou seu projeto depesquisa junto ao CNPq13 para que eu refletisse sobre as suas inquietudes e os fundamentosteóricos bem como na esperança de que de algum modo me auxiliasse na definição do projeto.Além do mais, em caso positivo, ou seja, se eu aceitasse sua proposta, isso aproximar-nos-iamais ainda dos estudos e os diálogos seriam mais frequentes ainda. No entanto, Marta deu-mea liberdade de aceitar ou não sua proposta. Após ler o projeto de pesquisa a inquietação de Marta tornou-se a minha inquietação.Promover uma análise geográfica da Suzano no território maranhense era absolutamentetentador e instigante. Eu poderia me envolver diretamente com o referencial teórico marxiano(além do próprio Marx, caso dos geógrafos David Harvey e Neil Smith) além de meaprofundar na literatura geográfica da Ariovaldo Umbelino de Oliveira em associação com osestudos sociológicos de José de Souza Martins. Aceita a empreitada começaram os diálogos com Marta para afinarmos a sensibilidadeda pesquisa cujo entendimento imediato remetia a uma reflexão marxiana da realidade.Encerrava (parcialmente) o ciclo de estudos de 3 anos acerca da Companhia Vale do RioDoce14 e me preparava para uma nova jornada. As ideias centrais de desenvolvimento econflito ambiental forma mantidas e foi recortado como universo empírico as comunidadescamponesas em Santa Quitéria no Maranhão. As mudanças, no entanto, em relação àgraduação eram visíveis: 1) a transição de um referencial foucaultiano/pós-colonial para ummarxiano, 2) em vez da análise do discurso, do campo e do habitus, põe-se a compreensão do11 Grupo de orientados da Profa. Dra. Marta Marques vinculado ao Laboratório de Geografia Agrária doDepartamento de Geografia (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas/USP).12 A título de ilustração cabe citar: a Duplicação da Estrada de Ferro Carajás, a Usina Hidrelétrica de Estreito, aUsina Termelétrica Porto do Itaqui e a fábrica de celulose da Suzano.13 MARQUES, Marta Inez Medeiros. Análise geográfica da expansão recente da indústria de papel ecelulose no campo brasileiro, o caso do Grupo Suzano Papel e Celulose. Projeto de Pesquisa apresentado aoCNPq - Universidade de São Paulo, Departamento de Geografia, Agosto de 2011.14 Que culminou na monografia: O discurso de responsabilidade socioambiental empregado pela Vale noperíodo pós-privatização (1997-2010) em São Luís - MA. Monografia (graduação) - Universidade Federal doMaranhão, Curso de Geografia, 2011.132p.
  11. 11. 11processo de territorialização, e 3) no lugar de perceber a responsabilidade socioambiental,compreender os conflitos e impactos com os camponeses, enquanto classe social docapitalismo. Assim, veio à tona o projeto de pesquisa intitulado “O papelão da Suzano:Desenvolvimento, Conflitos Ambientais e Impactos sobre comunidades camponesas em SantaQuitéria (MA)” visando compreender o processo de territorialização da empresa Suzano Papele Celulose no município maranhense de Santa Quitéria, bem como os impactossocioambientais oriundos do desenvolvimento de suas atividades sobre territórioscamponeses. Sob a orientação da professora Marta, busco analisar a trajetória recente daSuzano com o intuito de conhecer suas principais estratégias de acumulação eterritorialização. Tais estratégias passam pela integração de capitais (fusões e incorporações),pela maior integração técnica da cadeia produtiva, pela busca de maior participação nomercado mundial, pela expansão das áreas cultivadas e sua maior tecnificação e mecanização,pelo amplo emprego de mão-de-obra terceirizada, pela implantação de novas plantas fabris einfraestrutura de transporte, por novas formas de privatização e produção danatureza15(MARQUES, 2011). Com efeito, o estudo a ser empreendido concebe a Suzanocomo um poderoso agente econômico monopolista que transforma o território a partir derelações sociais capitalistas de produção com o intuito de realizar os seus objetivos (aumentodo lucro, da receita, da valorização do mercado). Dessa forma, o processo de territorializaçãoda Suzano em Santa Quitéria (MA) será analisado de maneira multiescalar como produtor deconflitos e resultado de geometrias assimétricas de poder no âmbito do desenvolvimentogeográfico desigual do capitalismo. Esta pesquisa tem caráter qualitativo e lança mão delevantamento de material bibliográfico, documental, cartográfico, imagens, bem comoidentificação e seleção de áreas para trabalho de campo. Além disso, dados estatísticos deórgãos do Estado e de entidades representativas do setor serão trabalhados de maneiracomplementar. Contextualizada a pesquisa podemos agora partir para a resposta da perguntaque intitula o capítulo. De maneira geral, os debates e as leituras até agora travados no âmbito da disciplinaGlobalização e Cultura, tendo como mediadora e facilitadora da discussão a Profa. Dra. ZildaIokoi, sinalizam para pensar, no âmbito da globalização neoliberal como as culturas, em sua15 Utiliza-se o conceito de produção da natureza tal como proposto por Smith (1988; 1996), que toma comoponto de partida a ideia de que a distinção entre primeira e segunda natureza é hoje irrelevante. Para ele, aprodução da natureza é um processo tanto cultural como econômico e diz respeito a como as naturezas dadas sãotransformadas. Smith nos alerta para o fato de o capitalismo construir e reconstruir paisagens como valores detroca sob o imperativo do lucro e também para o fato de que ele determina constelações particulares de produtos“naturais” em lugares particulares (MARQUES, 2011).
  12. 12. 12forma plural, se relacionam com os processos de acumulação capitalista. Por exemplo: comoas sociedades camponesas em Santa Quitéria têm resistido aos processos perversos deterritorialização da Suzano Papel e Celulose? Elas têm manejado o direito à diferença ou temse comportado socialmente como classe16 frente aos acólitos defensores do desenvolvimentocapitalista (Estados, Organizações Multilaterais, Empresas)? Compreender, destarte, o processo histórico que desembocou nesse estadoglobalizador e reprodutor de relações sociais desiguais é de fundamental importância para seanalisar não só como a mundialização do capital monopolista e, mais precisamente hoje, ocapital financeiro, reordena o território não mais como palco da realização da vida e daexistência, mas como espaço de poder econômico-político. Isso implica, indubitavelmente,numa busca de referencial marxiano17. O que isso sinaliza para o projeto? Um diálogo entre a perspectiva marxiana e aabordagem pós-colonial. A disciplina tem caminhado nesse sentido (mais proximamente éverdade da corrente pós-colonial), na medida em que os diálogos atestam tanto a permanênciade um referencial marxista, exemplificados pela a utilização de categorias marxianas comoluta de classes, mais-valia, comunismo; mas também a percepção de que as relações históricase os movimentos sociais que surgem com caráter marcadamente étnico-cultural apontam parauma nova conjuntura do tecido social multiescalar. A dificuldade reside justamente nisso: emsaber o que afirmar, o que negar e o que sintetizar. Um modelo claro de tal dificuldade é aprópria noção de conflito que, dependendo do referencial analítico, pode ser tanto a forma daluta de classes, como também o campo da disputa cognitiva. A reflexão até agora produzida sobre a mundialização do capital tem trazidosimultaneamente sua contradição, ou seja, a emergência de identidades fortemente vinculadasao território local que se põe como possibilidades de resistência frente à ordem hegemônica.Seja pelo âmbito propriamente científico das humanidades18 ou pela crítica literária19 ocaminho que é traçado tem alertado para a superação da colonialidade. Uma pergunta surge: práticas (neo)coloniais são detectáveis na pesquisa até omomento? Talvez a resposta mais prudente seja atestar que a Suzano tem lançado mão denovos mecanismos pra acumulação.16 O direito à diferença sugere de imediato um diálogo com pensadores pós-coloniais; por outro lado, ocomportamento social enquanto classe implica num referencial marxista de análise.17 Nomes como David Harvey, Neil Smith, François Chesnais, Michael Löwy, Theodor Shanin, José de SouzaMartins, Ariovaldo Umbelino de Oliveira.18 Por exemplo, a Sociologia de Castells, Ianni e Quijano; A Geografia de Benko, Milton Santos e David Harvey.19 Notadamente o fenômeno estético (os romances de Castro Soromenho) e a problemática colonial (analisadossociologicamente por Fernando Mourão).
  13. 13. 13 Harvey (2010) menciona que além dos mecanismos tradicionais da acumulaçãoprimitiva, tais como mercadificação e privatização da terra, expulsão de populaçõescamponesas, privatização dos direitos de propriedade (transformação de terras comuns,coletivas e devolutas em propriedade privada) mercadificação da força de trabalho, supressãode alternativas à produção capitalista, processos (neo)coloniais/imperiais de apropriação derecursos sociais (elementos da natureza), comércio de escravos, sistema de crédito, dentreoutros, foram criados uma série de novos mecanismos de acumulação por espoliação, dentreos quais destacamos aqueles que têm repercussão direta sobre a reprodução da vida e daprodução no campo: o patenteamento e licenciamento de material genético ou pilhagem doestoque mundial de recursos genéticos; e a mercadificação por atacado da natureza em todasas suas formas, exemplificada pela privatização de bens coletivos ou públicos e, em geral,administrados pelo Estado como a água, a terra, as florestas (MARQUES, 2011). Quais desses mecanismos de acumulação por espoliação podem ser detectados atéagora na pesquisa? Apropriação de terras antes dedicadas a produção camponesa(leguminosas, arroz, milho, por exemplo), a degradação de mananciais em virtude dairrigação dos plantios, aquisição da empresa de biotecnologia FuturaGene, associação aocapital financeiro20, práticas empresariais ilegais de aquisição de terras da Suzano via omecanismo de grilagem que tem lesado os agricultores camponeses nos municípiosmaranhenses de Anapurus e Santa Quitéria, por exemplo21. Como se percebe, a luta contra o (neo)colonialismo é uma luta contra o capitalismoenquanto modo de produção e sistema civilizatório. Marx, Lênin, Kautsky, entre tantosoutros, foram questionadores do imperialismo no plano da economia política; Já ospensadores pós-coloniais aqui citados põem a questão no campo epistemológico, a produçãode um conhecimento que descolonize o saber. O referencial classista, enquanto recortepolítico-ideológico não perdeu seu sentido e validade, mas hoje se relaciona com o conceitode raça, etnia ou grupo social, por exemplo. Contudo, um problema se põe ao pensamento pós-colonial. Exemplifiquemos com ojulgamento contundente do conceito de raça promovido por Aníbal Quijano. Comoapontamos anteriormente, tratou-se de uma construção categorial, um artifício do20 A Suzano recorreu ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e solicitou umempréstimo de R$ 2,7 bilhões a serem pagos em 138 meses para justamente viabilizar a instalação de suaunidade fabril no Maranhão.21 Cabe destacar, no entanto, que a prática da grilagem de terras no Leste Maranhense não é nova. Shiraishi Neto(1995, pp. 68-77) realizou levantamento nos Cartórios de Registro de Imóveis das Microrregiões de Chapadinhae do Baixo Parnaíba Maranhense e demonstrou tal prática de irregularidade e fraudulência que viabiliza para asempresas a aquisição de vastas extensões de terra. Como se vê, a terra-mercadoria é central na questão agrária eo mecanismo de grilagem serve como mais uma artimanha do processo de espoliação capitalista.
  14. 14. 14colonizador para racializar as relações sociais. Isto é fato. Todavia, se ainda opera-seanaliticamente com a categoria raça, que é uma invenção colonial, isso não mostraria que opensamento pós-colonial é na verdade, uma forma de ser do próprio pensamento colonizado?Surge uma hipótese que merece uma investigação aprofundada para além destas linhas. REFERÊNCIASBAPTISTA, Selma (2002) “A construção cultural e política da etnicidade no Peru: JoséCarlos Mariátegui, José Maria Arguedas e Rodrigo Montoya”. En: Daniel Mato (coord.):Estudios y Otras Prácticas Intelectuales Latinoamericanas en Cultura y Poder. Caracas:Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO) y CEAP, FACES, UniversidadCentral de Venezuela. pp: 59-66.BAPTISTA, Selma (2006). Rodrigo Montoya Rojas: um intelectual das fronteiras. Disponívelem http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=1919. Acesso em 28 de abril de 2012.BENKO, Georges. Economia, espaço e globalização. São Paulo: Hucitec, 1996.BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. 5ªed. São Paulo: Perspectiva,2004a.BOURDIEU, Pierre. Coisas Ditas. Trad. C.R SILVEIRA e D. M. PEGORIM. São Paulo:Brasiliense: 2004b.CASTELLS, Manuel. Fim do Milênio. A Era da Informação: economia, sociedade ecultura. Vol.3. 3ªed. São Paulo: Paz e Terra, 2002.HARVEY, David. Espaços de Esperança. Trad. de Adail Ubirajara Sobral e Maria StelaGonçalves São Paulo: Edições Loyola, 2004. 382 p.HARVEY, David. O novo imperialismo. Trad. Adail Ubirajara SOBRAL e Maria StelaGONÇALVES. 4ªed. Loyola: São Paulo, 2010.IANNI, Octávio. A era do globalismo. 8ªed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.LINHARES, Maria Yedda Leite. A luta contra a Metrópole (Ásia e África: 1945-1975).São Paulo: Brasiliense, 1993.LINHARES, Maria Yedda Leite. Descolonização e lutas de libertação nacional. In: REISFILHO, Daniel Aarão (org.). O Século XX: o tempo das dúvidas. Vol 3. Rio de Janeiro:Civilização Brasileira, 2000.MARINHO, Samarone Carvalho. Um homem, um lugar: Geografia da vida e Perspectivaontológica. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas daUniversidade de São Paulo. Departamento de Geografia Humana São Paulo, 2010. 335 f.
  15. 15. 15MARQUES, Marta Inez Medeiros. Análise geográfica da expansão recente da indústria depapel e celulose no campo brasileiro, o caso do Grupo Suzano Papel e Celulose. Projetode Pesquisa apresentado ao CNPq - Universidade de São Paulo, Departamento de Geografia,Agosto de 2011.MARX, Karl. O capital: crítica da economia política: livro I. Trad. Reginaldo SANT’ANNA.25ªed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011. 2v. 966p.MOURÃO, Fernando Augusto Albuquerque. A sociedade angolana através da literatura.São Paulo: Ática, 1978.MOURÃO, Fernando Augusto Albuquerque. África: fatores internos e externos da crise. In:Dossiê Brasil/África. Revista USP, nº18, jun/jul/ago 1993, pp.62-69.MUNANGA, Kabengele. África, trinta anos de processo de independência. In: DossiêBrasil/África. Revista USP, nº18, jun/jul/ago 1993, pp. 100-111.NETTO, José Paulo. Marxismo Impenitente: contribuição à história das ideias marxistas.São Paulo: Cortez, 2004.PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. A globalização da natureza e a natureza daglobalização. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006a.PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. A geograficidade do social: uma contribuição para odebate metodológico para os estudos de conflitos e movimentos sociais na América Latina.Revista Eletrônica da Associação dos Geógrafos Brasileiros - Seção Três Lagoas - MS, V1- nº3 - ano 3, Maio de 2006b.QUIJANO, Anibal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. En libro: Acolonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas.Edgardo Lander (org). Colección Sur Sur, CLACSO, Ciudad Autónoma de Buenos Aires,Argentina. setembro 2005. pp.227-278.SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciênciauniversal. 15ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2008.SHIRAISHI NETO, Joaquim. Grilagem de terras no Leste Maranhense. In: In: PAULAANDRADE, Maristela de. (org). Carajás: desenvolvimento ou destruição? Relatórios dePesquisa. São Luis: CPT, 1995.pp.67-80.SMITH, Neil. Desenvolvimento Desigual. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1988.SMITH, Neil. The production of nature. In: Robertson, M et alli (eds.), Future natural.London, Routledge, 1996. pp. 35-54.

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