Organizador:   José Maria Vig
Dados de Catalogação na Publicação (CIP) Internacional
           (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)                ...
Título original da obra
SOBRE LA OPCIÓN POR LOS POBRES
© José Maria Vigil

Conselho Editorial
Nalália Maccari
Luzia Sena
M...
se pretende fiel ao Evangelho. No entanto, outros, apesar
de declarações formais de aceita-lo nu alguns casos, re-
jeitam ...
Há, não obstante, uma diferença digna de nota entre     este pertencer não deva supor a renúncia à crítica objetiva
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Conteúdos Fundamentais da OP          verte em critério de verificação da autenticidade da perso-
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lítica, no sentido de que situa o que a realiza num lugar      dade escandalosa e injusta dos pobres que existem de
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evangelizadora do pobre etc. Mas, em última análise, a        aventuranças, o qual além de lhe conferir especificidade
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O esforço por conhecer a realidade em profundida-        cultural em geral" se concretizam neste nível num "situar-
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até hostis aos propósitos de racionalidade científica que        confrontos... entre grupos humanos, entre classes sociais...
A OPÇÃO PELOS POBRES
                       E O DEUS BÍBLICO
                                               Jorge Pixley

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— Então, a visão da Bíblia como algo puramente         sócio-política do povo de Israel dentro do qual Deus se
espiritual,...
mundo construído e é preciso explicar quem é o Deus que        cies, mas que ofereciam uma forma de fuga aos proble-
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que se chama "Israel", mas que se considera o povo de               — A palavra "ápiro" existe em várias formas nos
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foi sua organização em tribos, em alianças de tribos. No        pais de família ouviam os casos e determinavam as penas.
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mais férteis ou planícies melhores, onde a chuva caía mais   terras; embora não vivessem nelas eram quem as explora-
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O público que ouve Jesus também abrange jornalei-             — Quer dizer que a "Boa Nova para os pobres", o
ros das pará...
mas também a deuses que se apresentam, como diríamos        legitimidade do Templo, porque vê o Templo como um
hoje, "secu...
— Talvez a palavra "prolongamento" não fosse a
mais acertada. Poderíamos dizer que é outra "manisfesta-
ção" do mesmo fenô...
Mas, por outro lado, acredito que tenha havido dois          Então, neste contexto, é preciso valorizar o que
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aparece principalmente em Lucas. E esta Boa Nova se            Reino de Deus. Por isto, eu os chamo de pobres "sócio-
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Tinha Jesus        estes grupos sociais. Ele certamente disse: "felizes vós, os
                     uma visão estrutural ...
privam os outros do conhecimento. Ou quando diz que           expulsa demônios. É um sinal para dizer: a libertação da
são...
do negativo, de querer transformar a realidade em que se      tempo, quando trata de lhes dar uma esperança, a espe-
vive....
mão seca, a seus discípulos, que tinham apanhado espigas      do neste conflito a favor dos fracos deste mundo, o agra-
de...
Aos que não são pobres, pedem-se duas coisas: se      ser humano, pode-se ignorar o que deu origem à fé em
são opressores,...
,             Opção Preferencial e não exclusiva       vida dos pobres, se nosso sacrifício, nossa abnegação se
          ...
Pode ser também que na OP, já que são necessárias
condições e mediações de todos os tipos (sociais, econô-
micas, política...
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A Opção pelos Pobres (OP) nunca foi uma moda passageira nem é, hoje, uma simples teoria já ultrapassada.
A OP, com tudo que sofre, é, sem dúvida, o acontecimento mais importante que teve lugar nas Igrejas Cristãs desde a Reforma Protestante do século XVI.
Nas Igrejas Protestantes, alguns a chamam de "a Nova Reforma". Em todas as Igrejas, a OP se converteu numa "quaestio disputata" e conflitiva.
A OP inaugura um novo ecumenismo que, por sua vez, inaugura uma nova fronteira e comunhão, adiante, inclusive, das mesmas Igrejas.
A OP é uma comoção que sacode a vida cristã a partir de seus fundamentos e envolve uma nova forma de ver e sentir, crer e amar e, principalmente, atuar.
Por outro lado, quanto mais refletimos teologicamente sobre o tema e nos aprofundamos na Palavra de Deus, mais aparecem novos fundamentos, insuspeitados, que falam da veracidade bíblica, teológica e pastoral da OP.

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Vigil Opcao Pelos Pobres

  1. 1. Organizador: José Maria Vig
  2. 2. Dados de Catalogação na Publicação (CIP) Internacional (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) José Maria Vigil Opção pelos pobres hoje / José Maria Vigil (coordenador); com a (Coordenador) colaboração de Pedro Casaldaliga.. [et ai.]; tradução Mar i Berg. — São Paulo: Ed. Paulinas, 1992. -- (Igreja dinâmica) 1. Igreja e pobres I. Vigil , José Maria. 11. Casaldaliga, Pedro, 1928-111. Série. 92-2410 CDD-261. 83456 índices para catálogo sistemático: 1. Igreja e pobres: Teologia social 261.83456 2. Pobres e Igreja: Teologia social 261.83456 OPÇÃO PELOS POBRES HOJE Com a colaboração de: Pedro Casaldaliga Victor Codina Giulio Girardi Júlio Lois Jorge Pixley Jon Sobrino Leonardo Boff EDIÇÕES PAULINAS
  3. 3. Título original da obra SOBRE LA OPCIÓN POR LOS POBRES © José Maria Vigil Conselho Editorial Nalália Maccari Luzia Sena Maria Belém Neri Emílio Stein Elide T. Pulita Apresentação Tradução Marli Berg Revisão e preparação dos originais Mônica Guimarães Reis A Opção pelos Pobres (OP) nunca foi uma moda passageira nem é, hoje, uma simples teoria já ultrapassa- Editor de arte da. A OP, com tudo que sofre, é, sem dúvida, o aconteci- Céll& Ysaya/na mento mais importante que teve íugar nas Igrejas Cristãs Capa desde a Reforma Protestante do século XVI. Nas Igrejas São Pedro Protestantes, alguns a chamam de "a Nova Reforma". Em todas as Igrejas, a OP se converteu numa "quaestio dispu- Produção gráfica Luiz C. Araújo ta-ta" e conflitiva. A OP inaugura um novo ecumenismo que, por sua vez, inaugura uma nova fronteira e comu- nhão, adiante, inclusive, das mesmas Igrejas. A OP é uma comoção que sacode a vida cristã a partir de seus funda- mentos e envolve uma nova forma de ver e sentir, crer e amar e, principalmente, atuar. Por outro lado, quanto mais refletimos teologicamente sobre o tema e nos aprofundamos na Palavra de Deus, mais aparecem novos fundamentos, insuspeitados, que falam da veracidade bí- blica, teológica e pastoral da OP. EDIÇÕES PAULINAS Muitos dos que não são mais jovens, confessam ter Av. Indianópolis, 2752 "redescoberto" o cristianismo à luz da OP e tratam de 04062-003 - São Paulo - SP (Brasil) aprofundá-la, porque ela se lhes revela não somente im- portante, mas também essencial para um cristianismo que © Edições Paulinas, São Paulo, 1992 5
  4. 4. se pretende fiel ao Evangelho. No entanto, outros, apesar de declarações formais de aceita-lo nu alguns casos, re- jeitam a OP e a vêem como um perigoso cavalo de Tróia que tivesse se introduzido nas Igrejas, O presente livro se insere neste contexto difícil de OPÇÃO PELOS POBRES: diálogo e busca fundamentação. Qis reunir abordagens SÍNTESE DOUTRINAL especializadas em torno de diferentes aspectos deste tema crucial. O tratamento teologicamente interdisciplinar do Júlio Lois assunto tornará mais fácil a tarefa do* leitores para encon- trarem alguma resposta às muitas perguntas que inquie- tam a todos. Em todo caso, os autores, com a maior boa vontade, pretenderam levar sua colaboração ao diálogo, à busca, ao aprofundamento. O conjunto do livro quer abor- Primeira definição: O que é a OP? dar todos os aspectos essenciais da OP, de forma que nenhum dos questionamentos mais profundos fique fora A OP consiste na decisão voluntária que leva a unir- de reflexão, uma vez que as últimas "novidades" se ao mundo dos pobres, para assumir, com realismo his- registradas neste campo sejam apresentadas de forma tórico, sua causa de libertação integral. acessível. Sujeito da opção: Quem deve realizar a OP? Por sua concepção o complemento pedagógico, o livro poderá servir, em primeiro lugar, para a leitura e Todos os que crêem, qualquer que seja sua condi- estudo pessoal, mas também seráÍ útil como material bási- ção sócio-econômica. co para um trabalho de formação e estudo realizado em Há quem faça a objeção que "a OP é um luxo ape- grupo. nas de quem não é pobre, porque os pobres já são pobres, não podem fazer a OP". Não é correto. Também os que já José Maria Vigil são pobres farão a opço, pois esta tem como um de seus elementos essenciais o assumir consciente e ativo da cau- sa dos pobres e esta atitude subjetiva não se deriva, auto- mática nem necessariamente, do fato de ser realmente pobre. Nem todos os pobres, pelo simples fato de sê-lo, assumiram, consciente e ativamente, sua própria causa, a qual é elemento essencial da OP. 6 7
  5. 5. Há, não obstante, uma diferença digna de nota entre este pertencer não deva supor a renúncia à crítica objetiva a opção de quem não é pobre materialmente e a de quem e leal nem à contribuição com os elementos específicos o é: a este não afeta a exigência de união sociológica ou que levam à fé. de identificação com o mundo dos pobres, porque já a realiza de antemão. Destinatários da Opção A OP pode ser feita por um sujeito pessoal-indivi- A opção é pelos pobres reais, os injustamente em- dual ou por um indivíduo comunitário-eclesial. Dito de pobrecidos e usurpados, porém não isolada, mas coletiva outra maneira, os sujeitos da OP são os crentes considera- e dialeticamente considerada. Trata-se dos pobres reais, dos individualmente, em grupos ou comunidades cristãs tal como existem e são criados pelos "mecanismos opres- em geral, os diferentes setores eclesiais e a Igreja em seu sores" (Gutiérrez). conjunto. Uma e outra opção se distinguem. Enquanto se pode e até se deve interceder na opção do crente realizada É uma opção pelos pobres direta e imediata, no sen- a título pessoal — por exemplo, através da presença ativa tido de que a Igreja, tradicionalmente, se ocupava em em partidos políticos ou organizações populares concretas ajudar os pobres aliando-se às classes ricas e ficava, as- — este caminho está impedido para a Igreja em sua totali- sim, com os pobres, em forma de assistência, ajuda, cari- dade ou em suas realizações locais. dade... A relação da Igreja com os pobres era uma rela- ção intermediada: passava pelo rico para alcançar o pobre. Como sujeito da OP, a Igreja deve defender e apoiar, Com a OP, a Igreja busca uma relação direta e imediata evidentemente, o direito que o povo oprimido ou pobre (L. Boff). tem de se organizar para lutar a serviço de sua causa. Mais ainda, a Igreja deve denfender e orientar suas lutas Na OP, a "melhor parte" não se dirige simplesmen- sociais e políticas, envolvendo-se nos processos (ainda te aos pobres, mas aos "usurpados que contribuem ativa- que sem cair numa identificação total e não crítica, o que mente para que seu estado de coisas termine", às "maio- suporia de fato renunciar ao exercício de sua própria tare- rias populares organizadas", ou a "todos aqueles que, or- fa evangelizadora e incorrer numa confusão não desejável ganizados ou não, se identificam com as justas causas nem para a Igreja nem para as próprias organizações po- populares e lutam em seu favor". Quer dizer, aos usurpa- pulares). dos, enquanto constituem um coletivo social e são consci- entes dele, aos "pobres com espírito" (Ellacuria). No caso de um crente individual que faz a OP, é preciso falar de outra maneira: já não se trata somente de apoiar, defender e orientar, mas também de pertencer às organizações populares, como um membro a mais que se organiza junto a todos os outros, crentes ou não, embora 8 9
  6. 6. Conteúdos Fundamentais da OP verte em critério de verificação da autenticidade da perso- nificação no mundo dos pobres e da defesa ativa de sua A OP contém vários elementos fundamentais: causa. O martírio não é visto como algo conveniente, mas sim, como auge da perseguição e esta é vista como prepa- 1. Um elemento de ruptura que se expressa em "tro- ração e modo incipiente de martírio. ca de lugar físico ou social", "êxodo e desidentificação com o 'status' do poder", "ruptura" com o mundo cultural Características da OP próprio e com seus critérios específicos de valoração. Trata-se de uma ruptura que corresponde, logicamente, 1. Preferencial: com este termo, se pretende salvar aos que, sem serem inicialmente pobres, optam por sê-lo. a universalidade da mensagem cristã, mas destacando, ao 2. Um elemento de personificação e identificação mesmo tempo, que tal universalidade só pode se afirmar e que se expressa em "ir à periferia", "sair ao encontro do realizar evangelicamente a partir da singularidade dos po- outro", entrar no mundo do pobre e assumi-lo como pró- bres. "Quer dizer que ninguém deve se sentir excluído de prio. Este momento já afeta a todos que fazem a opção, uma Igreja com essa opção, mas que ninguém pode pre- inclusive os materialmente pobres, que nem sempre to- tender ser incluído na Igreja sem essa opção" (Sobrino). mam como seu, de coração, o mundo dos pobres. Trata-se 2. Solidária: este termo demarca o sentido da op- de uma conversão inicial e tem caráter assintótico e vai ção, tirando-lhe possíveis ambigüidades e o sabor de in- do viver "com" os pobres (mais além de viver "para" os clinação paternal ao pobre que alguns poderiam lhe atri- pobres) até o viver "como" os pobres. buir. Deste modo, se acentua melhor um compromisso 3. Um elemento de assunção consciente e ativa da real com os sofrimentos e as alegrias, as lutas contra a causa dos pobres: "solidariedade ativa com as lutas e prá- injustiça e os anseios de libertação dos pobres (Gutiérrez). ticas populares", "defesa ativa dos direitos dos pobres", Indica também a assunção da causa objetiva dos pobres, a "compromisso com sua liberação integral", "afirmação defesa ativa de seus direitos, o compromisso real contra a incondicional da vida e rejeição incondicional da injusti- pobreza injusta... ça"... Nestes elementos, repousa a maior novidade da OP, enquanto que o assumir a causa dos pobres se con- Níveis de Significação da OP verte em práxis histórica da libertação. A OP tem, como primeiro objetivo, uma dimensão 4. Um elemento de assunção do destino próprio dos histórica, porque representa o que a realiza na história pobres, que, no terceiro mundo, passa, normalmente, pela real, no mundo histórico concreto dos pobres e sua pobre- perseguição e, não raras vezes termina, historicamente, za injusta, com e intenção necessária de eliminá-la. Esta com a morte "prematura e injusta". Este elemento se con- dimensão histórica lhe confere uma clara significação po- 10 ii
  7. 7. lítica, no sentido de que situa o que a realiza num lugar dade escandalosa e injusta dos pobres que existem de determinado na correlação de forças sócias existentes, em maneira concreta. A indignação ética que tal consideração solidariedade com os povos e oprimidos, como coletivo pode provocar com a exigência que se segue da realiza- organizado que luta por sua libertação. ção da justiça pode motivar com força a OP. Tem, também, uma significação ética evidente, já 2. A honestidade em direção à realidade. A solida- que supõe a rejeição da situação tal como está configura- riedade ativa com o pobre e o oprimido surge "do reco- da, a indignação ante a injustiça escandalosa da pobreza, nhecer a realidade latino-americana tal como é e de fazer- o interesse claro pelos pobres que a sofrem e o compro- lhe justiça, quer dizer, de não aprisionar sua verdade com misso pela transformação estrutural da realidade. Supõe, a injustiça". Quando se procede com honradez com a rea- em definitivo, um "não" incondicional à pobreza injusta e lidade, escutam-se os clamores que vem das maiorias um "sim", também incondicional, à luta pela justiça. empobrecidas e se toma posição: "a honradez com o real Tem, finalmente, uma significação religiosa, que po- se realiza não somente ao reconhecê-la como tal, mas demos desdobrar em três aspectos. Uma significação espi- também ao corresponder à exigência que provém desta ritual: no sentido de que aquele que opta pelos pobres e é realidade primária. A realidade tem seu próprio peso e, coerente com sua opção, vive a história segundo a reali- por isto, sua própria exigência. Uma leitura ética honrada dade de Deus. A OP se constitui em espaço previlegiado da realidade pode e deve fundamentar e motivar de forma ou matriz, de onde pode brotar uma nova experiência de satisfatória a OP. Aquele que opta, respeita a verdade da crença, uma nova espiritualidade. Na OP "se revela o realidade, se coloca no lugar que pode permitir uma cap- mistério do Pai, se aprova a exemplaridadc definitiva da tação mais profunda desta verdade e participar com au- filiação de Jesus e se realiza a ação do Espírito, que segue tenticidade na história real. E, ao contrário, a falta de desencadeando vida à maneira de Jesus... É uma opção honestidade com a realidade, impede de escutar o desafio teológica, porque nela aparece a própria história de Deus" dos pobres e sentir a urgência da opção e se relacionar (Sobrino). A OP tem, também, uma significação eclesio- corretamente com a história (Sobrino). lógica e teológica, porque dela brota uma nova maneira 3. No entanto, para os que têm fé religiosa, a moti- de ser Igreja, a Igreja dos pobres c uma nova maneira de vação última, mais decisiva e plena, para optar pelos po- interpretar a fé: a nova teologia, a teologia da libertação. bres é a que proporciona a fé: uma motivação teologal. É o que C. Gutiérrez afirma com contundência: "Digamo-lo Motivações e Fundamentação da OP com clareza: a razão última desta opção está no Deus no qual cremos. Dizemos razão última para o discípulo de 1. Uma fundamentação puramente ético-racionai. É Cristo porque pode haver, e há, outros motivos válidos: a preciso afirmar que a opção pelos pobres pode estar sufi- situação do pobre hoje, o que a análise social deste estado cientemente motivada pela simples reflexão ética da reali- de coisas pode nos ensinar, a potencialidade histórica e 12 13
  8. 8. evangelizadora do pobre etc. Mas, em última análise, a aventuranças, o qual além de lhe conferir especificidade razão da solidariedade com os pobres — com sua vida e cristã, lhe dá elementos importantes para a realização da sua morte — está ancorada na nossa fé em Deus, no Deus opção: a libertação dos injustamente empobrecidos. da vida. Trata-se, para aquele que crê, de uma opção As motivações que a fé proporciona àquele que crê, teocêntrica, baseada em Deus". para optar pelos pobres, não excluem as outras motiva- 4. Acrescentaríamos uma fundamentação pneumato- ções que, sem dúvida, aquele que crê tem, como assinala lógica da OP. A opção cristã pelos pobres está baseada na Gutiérrez, nem as outras que se unem a elas como novas afeição de Deus por eles, expressa na própria opção de parcelas de uma soma. Talvez fosse mais correto dizer Jesus, que continua sendo normativa para todos os que que todas as outras motivações, vistas à luz da fé, sem crêem. Mas também está na presença atual do Espírito de perder sua consistência própria, readquirem nova face e Jesus, que nos leva a escolher hoje mediações concretas ganham perfil teológico: situação intolerável de injustiça diferentes das que podia e oferecia a situação histórica da se converte em realidade que se opõe ao plano de Deus, Palestina do século I da nossa era. A afeição de Deus em pecado; a luta pela justiça, em missão a serviço do pelos pobres se expressa agora sacramentalmente na OP, reino de Deus; a força histórica do pobre se relaciona com vivida pelos que crêem que, conduzidos pelo dinamismo a estratégia salvífica de Deus sempre intermediada por do Espírito, seguem as pegadas de Jesus num contexto sua afeição pelo pobre... A fé dá, assim, plenitude e radi- histórico diferente. Desta forma, a opção pelos pobres nos calidade suprema e qualquer outra motivação e propor- introduz na vivência do mistério trinitário, na vida de ciona uma nova e decisiva fundamentação que, sem dúvi- Deus na história: optando pelos pobres em virtude da for- da, torna mais premente a mesma opção. Os valores espe- ça do Espírito, vivemos como filhos (no Filho, quer dizer, cificamente cristãos, precisamente por serem cristãos, po- no seguimento de Jesus) de Deus Pai. dem ser universais e não exclusivos dos cristãos batizados. Motivação sem fé religiosa Significação política da OP e Motivação cristã da OP A OP tem uma dimensão política, porque inclui o A OP pode ser praticada e vivida segundo concep- elemento já citado de solidariedade com os pobres e luta ções ideológicas diferentes. Todos nós conhecemos pes- contra sua pobreza injusta. A OP não se esgota na entrada soas que, sem nenhuma motivação cristã, optam pelos no mundo dos pobres e na identificação com sua vida pobres, entrando em seu mundo e defendendo sua causa, (viver com e/ou como os pobres); se fosse assim, a OP dando até a vida por serem coerentes com sua opção. teria uma significação de inclinação evidentemente teste- A opção cristã pelos pobres é motivada pela fé, teo- munhai. A OP supõe, também, assumir ativamente a cau- logicamente baseada e esclarecida pelo espírito das bem- sa dos pobres e partilhar seu destino. Isto inclui: 14 15
  9. 9. O esforço por conhecer a realidade em profundida- cultural em geral" se concretizam neste nível num "situar- de, analisando-a segundo os métodos mais corretos que as se de maneira clara no mundo do político" (Gutiérrez). A ciências sociais proporcionam, tratando de identificar as OP conduz a uma nova experiência política. causas básicas, os mecanismos geradores e os canais A primeira característica desta nova situação con- reprodutores da pobreza injusta. Só se pode lutar eficaz- siste empossar de uma concepçãoparcializante ou setorial mente contra o que se conhece. do compromisso político a outra mais englobante e A solidariedade real com o coletivo dos pobres por totalizadora. O político deixa de ser um setor ou campo quem se opta: solidariedade com seus justos interesses limitado da existência humana (ao lado de outros espaços, objetivos, com suas práticas orientadas à consecução des- como o familiar ou profissional) ou uma atividade para ses interesses e com as organizações que planejam e reali- momentos livres ou para profissionais e se transforma zam estas mesmas práticas. numa dimensão que abrange e condiciona toda a ocupa- Naturalmente que, assim delineada, a OP se conver- ção do ser humano. "Hoje, os que optaram por um com- te numa decisão política que coloca a pessoa ou institui- promisso libertador experimentam o político como uma ção que a aceita num lugar concreto da correlação exis- dimensão que abrange e condiciona de forma exigente tente de forças sociais, ao lado dos pobres, assumindo sua toda a ocupação humana. É o condicionamento global e o práxis histórica de libertação, em confronto com os inte- terreno coletivo da realização humana" (Gutiérrez). resses objetivos dos ricos-opressores, isto é, dos estrutu- A segunda característica da nova situação é a exi- ralmente responsáveis pela pobreza injusta combatida. gência captada de um conhecimento rigoroso da realida- de, derivado do uso dos instrumentos de análise que pro- OP e nova experiência política porcionam as ciências sociais. A OP e o compromisso libertador em que esta se traduz não podem se realizar O compromisso libertador, através do qual a OP se sem pretensões de eficácia histórica, pois o que está em faz historicamente operante introduz o cristão que opta jogo é a erradicação da pobreza injusta. A indignação numa experiência política nova e conflitante, com exigên- ética não é suficiente, nem o conhecimento meramente cias também novas de racionalidade científica. O cristão intuitivo da realidade.Uma moral social de princípios con- se choca com a autonomia e densidade próprias do mun- cretizada em expressões como "a raiz de todos os males é do do político e suas exigências, espaço daquele que ti- o egoísmo", "é preciso construir uma sociedade justa, nha, habitualmente, se sentido à margem em muitas oca- igualitária e fraterna" etc; é insuficiente e desligada dos siões, inclusive por ser, supostamente, coerente com sua contextos reais concretos, deixando-nos completamente condição de crente. desarmados frente à tarefa de transformação do político. O "êxodo", o "sair ao encontro do outro", a "ruptu- "Uma formação insistentemente principista e não históri- ra com nossas categorias mentais e com nosso mundo ca levou os cristãos a serem pouco sensíveis em geral e 16 17 2. OpçSo ]>clos pobres hoje
  10. 10. até hostis aos propósitos de racionalidade científica que confrontos... entre grupos humanos, entre classes sociais abrem caminho no campo do político. No entanto, aque- com interesses opostos. Ser artesão da paz não apenas les que se encontram comprometidos na luta por uma dispensa de se estar presente nesses conflitos, como tam- sociedade diferente, sentem a urgência de conhecer, com bém exige que se tome parte neles se se deseja superá-los o maior rigor possível, os mecanismos da sociedade capi- a partir da raiz" (Gutiérrez). talista... Só isto tornará sua ação eficaz. Os vagos e líricos chamados à defesa da dignidade da pessoa humana, que não levam em conta as causas profundas da atual ordem social e as condições concretas da construção de uma sociedade justa são totalmente extemporâneas e a longo prazo, acabam sendo maneiras sutis de enganar e se enga- nar" (Gutiérrez). Gutiérrez adverte, com razão, que "custou muito e custa, todavia, aos cristãos, entrar nesta mentalidade". É, contudo, freqüente encontrar nos grupos e comunidades cristãs pessoas que acham que, para enfrentar a realidade e atuar no mundo do político, basta o Evangelho e os princípios éticos que se derivam dele. O resto — dizem — é mera aplicação à realidade mutante. Também são muitos os que pensam que acorrer à mediação das ciênci- as sociais é acorrer a empréstimos ilegítimos que condu- zem, inevitavelmente, a contaminações ideológicas inad- missíveis. A terceira característica que traça o perfil da nova experiência política é a conflitividade. "Estamos pouco acostumados em ambientes cristãos, a pensar em termos conflituais e históricos. Ao antagônico, preferimos uma ecumênica reconciliação, uma evasiva eternidade." O cer- to é que o processo libertador que leva à dinâmica da OP é um processo inevitavelmente conflitivo, dada a conflitividade que configura a realidade atual dos pobres: "o terreno do político, tal como se apresenta hoje, implica 18 19
  11. 11. A OPÇÃO PELOS POBRES E O DEUS BÍBLICO Jorge Pixley Introdução —Há muitos cristãos que pensam que a OP é algo moderno, uma novidade destes últimos dez ou vinte anos, algo que surgiu com a Teologia da Libertação e sua espi- ritualidade. A Bíblia confirma este modo de pensar? — A expressão "Opção pelos pobres" é, na verda- de, uma expressão moderna. Mas a realidade que se assi- nala com tal expressão está no próprio coração da Bíblia, ou, talvez devêssemos dizer, está no próprio fundamento da Bíblia. Toda a Bíblia parte da revelação de um Deus que fez opção por camponeses que eram camponeses opri- midos; uns, em Canaã, oprimidos pelos reis de várias ci- dades-estados que ali havia e outros, no Egito, pelo gran- de imperador Faraó. O próprio Deus, o Deus da Bíblia, se revela, pela primeira vez, como o Deus que opta por estes pobres específicos, camponeses e trabalhadores da cons- trução. Esta é uma opção no sentido mais estrito da pala- vra: toma partido a favor deles e contra seu opressor. 21
  12. 12. — Então, a visão da Bíblia como algo puramente sócio-política do povo de Israel dentro do qual Deus se espiritual, que só nos fala da graça de Deus e é alheia a revelou ? E assim ? todo conflito social e, conseqüentemente, a todo conflito — Realmente. Não poderemos entender os vários político, não é uma visão realista da Bíblia ? níveis de significação na Bíblia — como em qualquer — Sempre existiu, tanto nos tempos bíblicos como outro texto da antigüidade — sem analisar o contexto nos modernos, um setor da população de qualquer nação social no qual surgiu. No caso da Bíblia, descobrimos, que trata de negar a existência de conflitos de profundida- neste século, especialmente na segunda metade, esta rea- de na área da religião — como na área do centro de lidade. Sabia-se há dois, três século, que existem diversas correntes teológicas e políticas dentro da Bíblia que não trabalho ou de qualquer outra área da vida. Esta religião, fazem parte de um só todo. Gerhard Von Tad, o famoso que ignora ou pretende ignorar o conflito que é parte da especialista alemão em Bíblia, fala de "teologias" da Bí- vida social como a conhecemos desde o princípio da his- blia. O que descobriu, mais recentemente, é que não são tória, também está na Bíblia, pois se usa Jeová, o Deus da simplesmente correntes paralelas, mas que, freqüentemente, libertação, para legitimar uma nova e opressora socie- quando se analisa o contexto social no qual surgiram, dade. resultam ser teologias em conflito. Não apenas teologias Por exemplo, quando Salomão constrói o templo, diferentes, mas teologias em conflito. obriga os camponeses a dedicarem vários meses do ano ao trabalho de sua construção e lhes diz que este é um A OP no começo da revelação bíblica templo para Jeová, o Deus que os libertou da servidão ao Faraó egípcio. Salomão se apresenta, então, como repre- — Vendo que há, na Bíblia, estas correntes parale- sentante de um Deus, Jeová, que já não tem conflitos. las e, não poucas vezes contrapostas e até mutuamente Teve conflitos em outra era, com um Deus estrangeiro, excludentes, vamos nos remontar ao princípio: tratemos mas agora representa todo o povo, o povo camponês e o de procurar qual é a corrente primeira, a original, a da capital, Jerusalém, e os da capital têm que organizar e "primeira teologia" ou a manifestação primitiva de Deus, supervisionar o trabalho dos camponeses que vão cons- que, teve de se produzir nas origens do povo de Israel, truir este enorme templo para o Deus Jeová que, em outra não forçosamente junto aos relatos da criação, que apa- época, libertou seus pais da opressão. Assim, nega a reali- recerão muito depois... Como foram essas origens do povo dade da opressão que estão vivendo em nome da unidade de Israel e esta primeira manifestação de Jeová Deus na nacional sob o Deus que os libertou. história ? Estas origens e esta primeira manifestação têm algo a nos dizer em relação à OP? —Podemos dizer que, para entender a Bíblia, para captar sua mensagem mais profundamente, necessitamos — É importante reconhecer o que disse das narrati- também estar atentos à infra-estrutura sócio-econômica e vas sobre a criação. Mas elas são criadas quando já há um 22 23
  13. 13. mundo construído e é preciso explicar quem é o Deus que cies, mas que ofereciam uma forma de fuga aos proble- construiu este mundo. A construção do "Mundo", estou mas de exploração que havia na planície. agora me referindo à construção de uma sociedade orde- Este movimento, relativamente desordenado, rece- nada, que corresponde a um mundo, é anterior à necessi- beu sua expressão religiosa e ideológica quando um gru- dade de explicar suas origens. po de escravos chegou a Canaã procedente do Egito e que No caso de Israel, a visão que se impôs na segunda tinha tido uma experiência de Jeová. Jeová Deus foi co- metade do século XX e que hoje é amplamente aceita no nhecido pelo grupo em sua revolta contra as condições de terceiro mundo (eu diria: na América Latina, na África do opressão sob as quais o rei do Egito estava fazendo suas Sul, na Coréia, nas Filipinas...) é, no entanto, uma cor- obras. Isto foi no tempo do Faraó Ramsés II. Eles também rente minoritária dentro do academicismo do primeiro eram camponeses e haviam sido obrigados a realizar tra- mundo. Esta corrente reconhece na Bíblia que o povo de balhos forçados. Rebelaram-se contra esta exploração, mas Israel nasce de um movimento de revolta na sociedade sua rebelião não foi meramente política — se é que algu- cananéia. ma vez existiu tal coisa. Não sabemos se a rebelião das Em Canaã, nos séculos XIV e XIII antes de Cristo, aldeias camponesas de Canaã foi meramente política, mas havia uma organização social com múltiplos reis de cida- sabemos que o grupo se rebelou contra o Faraó do Egito des-estados. Cada rei tinha seu Estado, às vezes, indepen- como se fosse uma cruzada religiosa, como movimento encabeçado pelo profeta de Jeová, Moisés, que interpreta- dente e, às vezes, sujeito a um imperador — na maioria va a vontade de Jeová como sendo a de libertar seu povo. dos casos, em Canaã, ao rei do Egito, o Faraó. Estes reis viviam da acumulação da produção dos camponeses, que Os grupos que se rebelaram no Egito não eram, eram organizados em aldeias controladas pelos respecti- contudo, povo. Chegaram a ser povo na experiência de vos reis. Chegou um momento — talvez o século XIV ou rebelião contra as condições de opressão que sofreram no princípios do século XIII — em que a estabilidade desta Egito. O grupo saiu do Egito e não podia estabelecer-se ordem foi se desmoronando por conflitos entre os reis e perto de suas fronteiras, por medo e também porque o por problemas no império egípcio que se refletiam em deserto de Sinai não oferecia boas condições para campo- Canaã. Sabemos pouca coisa de concreto a respeito de neses. Então se transferiram às terras férteis mais próxi- como se deram as revoltas que aconteceram na raiz do mas, que eram as mesmas zonas nas quais os camponeses desmoronamento da ordem social anterior. Mas sabemos cananeus abriram novas terras de trabalho nas serras. que, destas aldeias submetidas a reis, surgiu um movi- Em Canaã, estas duas correntes se encontraram. E mento bem amplo de camponeses que deixavam suas ter- formaram um povo que se chamou Israel. Sendo assim, ras para inaugurar terras até então não cultivadas na serra. "Israel" é um nome que surge das aldeias de Canaã, en- Terras que eram menos atraentes, porque estavam nas quanto que o Deus de Israel era "Jeová", que é o nome do encostas das serras e não na superfície plana das planí- Deus da libertação do Egito. Esta dualidade entre um povo 24 25
  14. 14. que se chama "Israel", mas que se considera o povo de — A palavra "ápiro" existe em várias formas nos "Jeová", reflete a realidade desta experiência: que eram diversos idiomas semíticos da antigüidade. "Ápiro" e dois movimentos de libertação de grupos camponeses, que "hebreu" são variantes da mesma palavra em idiomas se encontraram e descobriram que sua luta era parecida e aparentados. Houve muita discussão, mas parece que, encontraram em Jeová, o Deus que Moisés havia interpre- atualmente, chegou-se ao consenso de que esta palavra tado e nas leis que Moisés lhes havia dado em nome de era usada para pessoas que se colocavam ou eram coloca- Jeová, o que eles acreditavam em comum, mesmo os que das fora da ordem social estabelecida. Em alguns casos não haviam conhecido Jeová antes. Sua experiência de eram, certamente, salteadores: simplesmente isto, bandi- vida tinha sido muito parecida, já que era a experiência de dos. Mas, em outros casos, eram como os que se rebelaram vida dos que saíram do Egito. De forma que, os que saí- no Egito contra o Faraó, sob a liderança de Moisés: um ram do Egito e antes talvez se chamassem "levitas", quando grupo organizado, com um plano de ação, só que, do chegaram a Canaã, assumiram o nome de "Israel" dos que ponto de vista dos egípcios, eram ápiros, hebreus... A já estavam em Canaã, enquanto que os de Israel, que partir de um certo momento eles mesmos assumiram a talvez antes chamassem Deus de "Ele" — nome que está palavra "ápiro". A palavra se usava tanto no Egito como contido como parte de "Israel" — agora reconheciam que em Canaã e na Mesopotâmia. Hoje ficou reduzida ao nome Ele não era exatamente seu Deus, mas Jeová, o Deus que do idioma. Não era, originalmente, termo lingüístico, não o profeta Moisés tinha interpretado. se referia a um idioma, mas a um movimento ou a diversos — Então poderíamos dizer que Jeová não se mani- movimentos de rebelão. festou pela primeira vez revelando conteúdos teológicos ou dogmáticos, nem revelando alguma doutrina ou mo- O "Projeto de Deus" ral, mas que a ação reveladora primeira do Deus bíblico, a ação reveladora primeira do Deus no qual, os que crê- —Esta "incitação à liberdade" de seu povo, com a em, consideram a Bíblia como Palavra de Deus é uma qual Jeová começa sua revelação na Bíblia não olhava incitação à liberdade feita aos pobres oprimidos? simplesmente para o passado (fugir da opressão), mas — Correto. E as doutrinas — que eram mais leis também para o futuro: para criar um projeto de socieda- para ordenar a vida social e que hoje são encontradas no de alternativa às sociedades opressoras do Egito e de Pentateuco, no Decálogo, por exemplo —, brotam tam- Canaã, uma sociedade fratena e igualitária segundo a bém de uma experiência sociopolítica de libertação, uma vontade de Deus, onde não houvesse sequer a possibili- experiência que é, verdadeiramente sócio-política, em vez dade de injustiça e opressão... Como era este "projeto de de religiosa. Deus" para os pobres, para seu povo? — Fala-se dos "ápiros". Quem eram? "Ápiros" e — Bem, o que sucedeu quando estes dois grupos se "hebreus" representam o mesmo grupo? encontraram e formaram o povo que chamaram de Israel 26 27
  15. 15. foi sua organização em tribos, em alianças de tribos. No pais de família ouviam os casos e determinavam as penas. fundo, mais importante que a tribo era o clã, que era uma Não havendo prisões, os castigos podiam ser administra- grande família, de primos, netos e até mais do uma famí- dos pela própria comunidade. Dessa forma, organizou-se lia de três gerações. Cada família ou clã podia ser dono de uma vida igualitária. (Compreendo, neste caso, por "igua- uma região, de um vale, de uma colina ou podia ter sua al- litária", a igualdade entre famílias, porque tratava-se não deia, onde se reunia e onde o patriarca ou os patriarcas só de indivíduos que acreditavam em Deus, mas também dirigiam a vida do clã. de famílias que viviam dentro do sistema de tribos e de O interessante do " projeto" é que os clãs procura- clãs que era Israel. Ou seja, que a diferença da ideologia vam estabelecer a igualdade entre si. Um primeiro requi- política da revolução francesa que conhecemos em tem- sito, em especial, para pertencer a Israel era jurar lealdade pos modernos, onde a igualdade quer dizer igualdade de exclusiva a Jeová, a nenhum outro Deus e a nenhum ou- cidadãos, no caso da igualdade que aconteceu em Israel tro rei, porque Jeová é rei. Diferente dos deuses do Faraó era de famílias ou clãs). e dos deuses de Canaã, que também acreditavam que Deus — Este "projeto de Deus" conseguiu se realizar era rei, Israel acreditava que, sendo Jeová rei, era rebelião socialmente em algum momento?Durante quanto tempo? pretender ter um rei humano: já tinham seu rei em Jeová. A primeira pedra da constituição política da lei revelada — O "projeto", realmente logrou se realizar. E, mais do Sinai era o mandamento "não terás deuses estranhos ou menos, como projeto excludente de outros projetos diante de mim", que era dirigido contra aqueles que pu- alternativos, durou uns duzentos anos: do momento da dessem pretender cultuar deuses que admitiam ter seus fundação de Israel, que foi, aproximadamente no ano 1200 lugar-tenentes nos reis das cidades cananéias ou do impé- antes de Cristo até o aparecimento de Saul e David como rio egípcio. reis de Israel. Geralmente se pensa que Davi surgiu como rei no ano 1000, mais ou menos. Durante estes duzentos Um dos pontos, o primeiro, o fundamental, da nova anos, o projeto teve vigência restrita. Depois, continuou ordem era este. Já disse algo sobre a igualdade entre os existindo por muito mais tempo como rebeldia, exigência clãs: não havendo rei, os anciãos de cada clã, quando de renovação. Mas, durante duzentos anos, foi o projeto fosse necessário, por algum motivo de interesse para vá- realizado de Israel. rios clãs, se reuniam em assembléia e, coletivamente, de- terminavam, por consenso, a postura que se deveria assu- — Podemos pensar que a instauração da monar- mir. Para se defender, não criaram um exército, mas se quia foi o começo do abandono do projeto de Deus? organizavam em milícias de camponeses. Para organizar — Creio que havia condições quase naturais que a vida social contra os anti-sociais — pessoas que mata- levaram a romper a igualdade que se desejou com as leis vam ou roubavam ou adulteravam — serviam-se de um naturais e com a religião de Jeová. Certamente alguns sistema jurídico popular de justiça, onde os anciãos ou clãs, por contigências da vida, se apropriaram de vales 28 29
  16. 16. mais férteis ou planícies melhores, onde a chuva caía mais terras; embora não vivessem nelas eram quem as explora- abundantemente, ou foram mais trabalhadores, fizeram va. Havia um mordomo* que talvez se encarregasse de melhores semeaduras ou não houve tanta erosão destruin- administrá-las, como vemos nas parábolas de Jesus. Nes- do suas terras... Por uma ou outra razão, certos clãs fo- tas, a vida que se reflete não é uma vida tradicional de ram ficando mais ricos, mais poderosos que outros e as clãs, embora Jesus vivesse na Galiléia que era, justamen- leis que defendiam a igualdade não puderam, com sua te, uma das regiões mais tradicionais da Palestina. Mas, simples força legal e ideológica, preservar Israel destas apesar disto, Jesus conhece uma atividade rural que já diferenciações normais. Deste modo chegou um momento está organizada a partir de famílias autônomas, mas com em que um clã importante, como o de Efrata e uma famí- base nos latifundiários, que contratam jornaleiros e que lia como a de David, que surgiu dos clãs, conseguiram têm mordomos que vigiam o trabalho dos jornaleiros. impor-se não somente sobre a tribo de Judá, que era sua Então, a situação que o povo de Israel vive na época região, mas sobre todas as tribos. O que não se deu pro- de Jesus, em certos aspectos, difere, profundamente, da priamente sem conflitos. situação social do tempo de Moisés. No entanto, o papel de Jesus tem semelhanças com o de Moisés. O que Jesus O Projeto de Jesus fez foi organizar um pequeno movimento com a intenção de influenciar a vida das aldeias da Galiléia. Não fez —Desta época até Jesus, o espaço de tempo é mui- experiência nas cidades. Ele era de Nazaré e os lugares to grande, mas poderíamos ligar uma coisa à outra, lem- por onde andou eram povoados de pescadores como brando que Jesus retoma o "projeto de Deus" que ele Bethseda, em Carfanaum, ou aldeias de serra, como Na- chama Reino de Deus... " zaré e Canaã. Seu campo de ação foram estes povoados, — Realmente, o espaço de tempo é muito grande. que ficavam muito perto de cidades greco-romanas nas São mil anos. E em mil anos muitas coisas se modificam, quais, até onde sabemos, hoje, foi onde ele entrou (só se até numa sociedade tradicional, na qual não se modifica- menciona Cesaréia de Filipe como um lugar por onde vam tão rapidamente como no mundo moderno... passou, mas é o único lugar, a única cidade helenística da qual temos notícia dentro da qual Jesus atuou). Isto signi- No tempo de Jesus existia um império, o império fica uma estratégia através da qual Jesus se ocupa de romano e um sistema social completamente desconhecido influenciar a vida destas aldeias, nas quais vivem jorna- na época dos clãs e das tribos de Israel. É o sistema da leiros que trabalham nas fazendas dos cidadãos das cida- polis ou a cidade greco-romana, helenística. Havia na Pa- des greco-romanas... lestina, no tempo em que Nosso Senhor viveu, um grupo importante de cidades helenísticas. Eram cidades organi- zadas de latifundiários. Os cidadãos de uma cidade helenística eram, cada um, chefes de família e possuíam * Mordomo: administrador de terras. 30 31
  17. 17. O público que ouve Jesus também abrange jornalei- — Quer dizer que a "Boa Nova para os pobres", o ros das parábolas, que trabalham nas fazendas dos cida- "Reino de Deus" que Jesus prega é, na realidade, aquele dãos das cidades gregas, embora Jesus não tenha entrado mesmo projeto de Deus", aquele "Reinado de Jeová" — em tais cidades no curso normal de sua atividade. Não se reinado direto, sem reis intermediários exploradores — nota, na prática de Jesus, um propósito de restaurar a que constituía a utopia da sociedade alternativa, frater- família.Ele procurou criar um movimento no qual todos na, igualitária, para cuja consecução, Jeová se revelou fossem irmãos. Neste sentido, seu movimento está um àqueles marginalizados —oprimidos ("apiros") no Egito pouco mais perto da modernidade que no tempo de Moisés. e os encitou a se rebelar e a se libertar... Ele usa algumas expressões que soam, inclusive, — E isto tem um sentido de conflito com o Deus do antifamiliares: "aquele que ama pai ou mãe, ou filho ou templo e com os deuses do império. Conflito que se des- filha mais do que a mim não é digno de mim..." (MT faz na Galiléia com os fariseus, que representam o Deus 10,37), e outras expressões de que todos nos lembramos. do tempo, em Jerusalém, com as próprias autoridades do O que indica que ele não via a família como base social, templo (os sacerdotes, escribas, o Sinédrio de Jerusalém) mas o grupo dos que aderiam ao que ele chama de "Reino e com Pôncio Pilatos, que era o procurador de toda a de Deus". província, que tinha sua sede em Cesaréia. Jesus nunca "Reino de Deus" é sua idéia da sociedade que adere foi à Cesaréia, mas Pôncio Pilatos chegou a Jerusalém, ao projeto de Jeová. No tempo de Jesus, já não se usava o coincidindo com a chegada de Jesus, por ser tempo da nome de Jeová. Teria sido excessivamente escandaloso, festa de Páscoa. porque se considerava irreverente (não só irreverente, mas blasfemo) mencionar o nome de Jeová. Mas o Deus de OP e Conflito Jesus, quando ele fala do "Reino de Deus" é um Deus tirado da experiência bíblica, das origens de Israel. Desta — Você falou do conflito com os deuses do império. forma, deveríamos pensar que, se ele tivesse tido a liber- Isto lembra o tema dos "outros deuses". Na Bíblias está dade de usar este nome, teria falado do reino de Jeová. o Deus Jeová, mas também estão os outros deuses. O Não era sua intenção reproduzir exatamente o que existiu tema da idolatria... há 1.200 anos, a não ser as novas condições de desorgani- — Por um lado, na própria origem da religião bíbli- zação das famílias e das aldeias, quando montanhas intei- ca, já na primeira manifestação de Jeová, os outros deuses ras se tinham transformado em fazendas, propriedades de por excelência são, no Egito, o Faraó, que se considera latifundiários. Nestas novas condições, Jesus está tratando Deus e, em Canaã, os reizinhos e o Deus Baal, que servia de renovar, de tornar vigente, o "projeto do Reino de de legitimação destes reis. No tempo de Jesus, ele fala do Jeová", que foi o projeto de Moisés, Josué e Gedeon ti- Deus Mamón, que é uma expressão peculiar de Jesus que nham liderado há uns 1.200 anos antes de Jesus. parece querer referir-se não somente a deuses religiosos, 32 3. 0 | ã o pelos pobres hoje 33
  18. 18. mas também a deuses que se apresentam, como diríamos legitimidade do Templo, porque vê o Templo como um hoje, "seculares", por exemplo, o dinheiro. É um fenôme- projeto que não está a serviço do Reino de Deus, que ele no que não é moderno, embora tenha se agravado nos entende que é o "projeto" do Deus verdadeiro. Foram as tempos modernos, quando a vida e a morte dos trabalha- autoridades do Templo, em combinação com as autorida- dores se submete à concorrência. Jesus, que não tinha des imperiais, que crucificaram Jesus. ainda possibilidade de fazer uma análise sociológica, re- — O conflito destas duas correntes que atravessam conheceu, todavia, a presença do deus dinheiro em seu toda a Bíblia é, na realidade, o mesmo conflito que Jesus meio. Assim, aquele rico que o amou e que lhe havia também viveu: o Templo, os fariseus, os sacerdotes e as perguntado o que devia fazer para herdar o Reino de Deus, autoridades romanas contra o anúncio do Reino de Deus, é obrigado a ir e vender seus bens, dá-los aos pobres, contra o "projeto de Jeová", opostos à construção de voltar e seguir a Jesus, se deseja herdar o Reino de Deus uma sociedade alternativa, justa, fraterna, igualitária, (Mc 10,17-22). Ou um, ou outro.Não podia ter dois se- participativa... nhores. — Você falou de duas correntes na Bíblia, a cor- — Exato. Os inimigos de Jesus estavam contra o rente profética do Deus Jeová e a corrente mais "projeto de Jeová" que ele estava retomando, que era um institucional, mais sacerdotal, que torna legítima a mo- projeto popular, igualitário, de serviço de um para com o narquia... Esta duplicidade de correntes teológicas en- outro, onde "a ninguém chameis Pai, porque tendes um só contradas está presente ao longo de toda a Bíblia? Pai" (Mt 23,9). Jesus poderia igualmente ter dito — em- bora não fosse um problema naquele momento — "a nin- — Creio que sim, que em todas as partes do Antigo guém chameis de rei, porque só tendes um rei..."; "e vós Testamento encontramos aqueles que querem pegar a fé os chamareis de irmãos e irmãs". É um projeto igualitário popular e colocá-la a serviço de projetos antipopulares e que Jesus promove e o nome que ele dá ao projeto é isto está sempre encoberto por uma linguagem religiosa "Reino de Deus", onde, como dissemos, entende-se que que pretende separar Deus do povo. Mas, se se examina a Deus é o Jeová que promoveu a saída dos escravos do estrutura religiosa que se construiu, damo-nos conta de Egito. que não é uma estrutura a serviço dos interesses do povo. Encontramos isto, por exemplo, no caso de Salomão, que — Vamos concluir. Houve um conflito entre Jeová e mencionamos antes, confrontado com Jeroboão e Ajias. o Deus Baal, entre os ápiros e os reizinhos de Canaã, Encontramos isto também no caso Jeremias, que ataca o entre a monarquia e o profeta Natan, de Jeová... Estas templo, dizendo que "fizestes da casa que leva meu nome correntes permanecem em conflito no Antigo Testamento um covil de ladrões" (Jr 7,11). E o encontramos em Jesus, e Jesus é vítima do mesmo conflito. Poderíamos dizer que quando cita estas palavras de Jeremias ao questionar a o conflito que vivemos hoje é um prolongamento? 34 35
  19. 19. — Talvez a palavra "prolongamento" não fosse a mais acertada. Poderíamos dizer que é outra "manisfesta- ção" do mesmo fenômeno, isto é, do fenômeno de que, por um lado, temos a fé de um povo que luta porque se recusa a viver oprimido para sempre e que crê que Deus, OPÇÃO PELOS POBRES tampouco, quer que viva para sempre oprimido e, por outro lado, temos o projeto de alguns que vêem a vida E SEGUIMENTO DE JESUS como algo onde os conflitos são estimulados por agentes Jon Sobrino provocadores e não refletem interesses em conflito. Neste segundo caso, Deus vem a ser um Deus que bendiz as estruturas sociais, que se compreende não serem produto- ras de conflito em si mesmas, já que conflitos nascem O amor e os pobres na Igreja quando chegam agentes estranhos para desencadeá-los. Estas duas correntes, a de um Deus que oculta os Creio que é verdade que sempre se manteve, na conflitos de interesses, sempre em benefício que vivem autocompreensão da Igreja, que o principal é o manda- do trabalho dos outros, e a de um Deus que excita as lutas mento do amor ao próximo e que, moralmente, este pró- do povo para livrar-se das opressões às quais vivem sub- ximo foi considerado como o necessitado, colocado, às metidos, continuam estando presentes hoje em dia e seu vezes, claramente, como o pobre. Que o mandamento do conflito adquire manifestações diferentes. amor é aquele que dá identidade ao cristão e fica claro a Dentro da Igreja, o conflito se produz entre os que partir de Jesus, porque ele o diz explicitamente. Também veneram o Deus da alienação e tranqüilidade e os que Paulo e sua teologia enfatizam, no capítulo 13 de sua veneram o Deus do compromisso e libertação, mas é o primeira carta aos coríntios, que nesse amor se joga a mesmo conflito que vemos fora da Igreja, nas lutas dos identidade cristã. Certamente, a primeira carta de João e a operários contra os patrões, dos guerrilheiros revolucio- primeira de São Tiago o reafirma e o torna concreto, ain- nários contra forças repressivas... Dentro da Igreja, esta da mais entre os pobres. Isto é muito claro, desde o prin- mesma luta, que se reflete nas esferas seculares, assume cípio. características próprias e é também a mesma luta que se Também é claro que, em diversas épocas da história refletiu na religião e na sociedade do tempo de Salomão; da Igreja, este amor ao próximo foi enfatizado como amor mas não deixa de ser o mesmo conflito. aos pobres e aos fracos e, como se sabe, há, a respeito, inúmeros textos de Padres da Igreja. É claro também que santos importantes, renovadores, como, por exemplo, São Francisco de Assis, voltaram-se para ele. 36 37
  20. 20. Mas, por outro lado, acredito que tenha havido dois Então, neste contexto, é preciso valorizar o que tipos de desdobramento em geral, na história da Igreja, ocorre hoje, voltar a pôr em primeiro plano a OP e de ir à que tenderam a relativizar o que é a prática do amor e, de origem para fundamentá-la. Esta origem está, sem dúvida concreto, a prática do amor ao próximo, o que hoje cha- em Jesus de Nazaré. mamos OP. Jesus, os pobres e Deus Um primeiro desdobramento seria a ortodoxia. Pela necessidade de esclarecer quem realmente é Deus, quem é Jesus Cristo etc, colocou-se a ênfase — principalmente Como ver a OP em Jesus de Nazaré e como ver a para afastar-se das heresias — em formular a fé correta- centralização da OP no próprio Jesus? Creio que não se mente e em elevar esta formulação correta à doutrina. trata, fundamentalmente, de encontrar alguns textos, em- Quase sem sentir, embora nunca se tivesse negado que a bora, certamente existam, para ver se Jesus fez ou não a identidade cristã vem da prática do amor, sabemos que se OP. Creio que a OP de Jesus está num nível muito mais deu uma impotância muito grande, eu diria excessiva, isto profundo e fundamental. Na própria visão que Jesus tem é, pouco dialética, ao aspecto doutrinai, com relação à de Deus, aparece esta relação, essencial entre Deus e os prática do amor. pobres deste mundo. Como bom judeu, Jesus herdou o melhor das tradições deste povo e nisto se pode encontrar, O outro desdobramento era o de constituir-se como como é do conhecimento de todos, o acontecimento fun- uma Igreja forte e poderosa, que tem seu aspecto pecami- damental do êxodo como revelação de Deus, de maneira noso, é óbvio, mas também tem seu aspecto positivo, ao que ele se revela não só com oportunidade, mas através menos na intenção. Quer dizer, como constituir uma igre- de um povo de pobres. Em toda a tradição do Antigo ja forte e poderosa para criar uma cultura cristã, um tipo Testamento, especialmente nos profetas — inclusive de sociedade cristã através da qual a fé pudesse se trans- lingüisticamente, quando, através dos profetas fala de "meu mitir com mais facilidade. Para isto, a Igreja, procurou povo" — não se refere a todo o povo de Israel, mas ter, ao longo da história, meios, e isto a introduziu — àquela parte do povo que são os pobres, os oprimidos, os consciente ou inconscientemente — no mundo do poder, órfãos e as viúvas. dos meios poderosos, o que, objetivamente, a distanciava dos pobres deste mundo. Sem dúvida, isto — que é falado O que se quer dizer é que, para Jesus, os pobres de forma muito generalizada — explica por que, pouco a estão em sua própria concepção de Deus. E, paralelamen- pouco, a prática da caridade e, mais concretamente, a te a isto, os pobres estão presentes no mais fundamental prática da caridade com o pobre, foi-se desviando, ou, de sua visão. mais ainda, mantendo-se como problema concreto regio- Como é hoje do conhecimento de todos e reconhe- nal, ético da Igreja, mas não como problema central, não cido, a missão de Jesus foi anunciar a iniciar o Reino. como realidade teologal. Este Reino é proclamado por ele como a Boa Nova e 38 39
  21. 21. aparece principalmente em Lucas. E esta Boa Nova se Reino de Deus. Por isto, eu os chamo de pobres "sócio- dirige explicitamente aos pobres deste mundo. Os textos econômicos", embora saiba que a linguagem é difícil. estão em Lucas: "Vim anunciar a Boa Nova aos pobres", Por que os chamo, em primeiro lugar, pobres "eco- diz no discurso de abertura. Em Lucas e em Mateus, nômicos?" "Economia" vem de "oikos", a casa. Quer di- quando Jesus diz aos discípulos de São João Batista: zer, pobres econômicos são aqueles para os quais a casa, '"Olhem o que está acontecendo, anuncia-se a Boa Nova o lar, o símbolo do que é o mínimo de vida não está aos pobres". E também, sob a formulação do Reino de assegurado. Deus, isto aparece claramente nas bem-aventuranças em Pobres econômicos são aqueles para quem o fato de Lucas: "Felizes vós, os pobres, porque o Reino de Deus viver é um fardo pesado. Para Jesus, este tipo de pobres será vosso". Então os pobres aparecem como os destina- estaria personificado na viúva (naqueles tempos não ha- tários primeiros da Boa Nova de Jesus, como os destina- via seguro social para as viúvas); nos órfãos (viver é duro tários primeiros da missão de Jesus. Em linguagem orde- para eles); nos doentes (que não têm acesso à saúde)... nada pode-se dizer que existe uma correlação transcedental Pobres está simbolizado pelo nu, o que está à mercê das entre Reino de Deus e pobres. Para eles é o Reino de intempéries etc. Tudo isto é o que quero dizer quando Deus. falo do "pobre econômico": aqueles para os quais viver é um pesado fardo. Quem são os pobres? E os chamo pobres "sócio-econômicos", pobres so- ciais, quer dizer, aqueles para quem viver em sociedade é É aqui, sem dúvida, que a pergunta deve surgir: O também um fardo pesado, aqueles a quem a sociedade que Jesus entendia por pobres quando dizia que a Boa priva da dignidade elementar de pessoas, de seres huma- Notícia é para eles? Quando dizia que para eles é o Reino nos. No tempo de Jesus, este tipo de pobres era simboli- de Deus? zado pelas crianças, pelas mulheres, pelos que tinham Sobre isto há muitos estudos, mas me parece que profissões desvalorizadas, os bêbados, as prostitutas, os hoje, na atualidade, a grande maioria dos exegetas estão que aparecem no Evangelho como pecadores, mas não de acordo em que os pobres aos quais Jesus se refere são, pecadores do tipo opressor, e sim gente pobre que infrin- antes de tudo — vou dizê-lo, com palavras atuais, que gia a lei. O que resulta de tudo isto é que socialmente, logo explicarei — os chamados pobres sócio-econômicos. sobrevém a indignidade: são os marginais, os desvaloriza- Assim como no passado, atualmente alguns exegetas que- dos. rem ver nestes pobres, os pobres espirituais, quer dizer, as Então, numa visão de conjunto, os pobres, para Je- pessoas que estão abertas a Deus. Que Jesus admire e sus, são aqueles a quem a vida é negada ou muito dificul- louve este tipo de pessoas é evidente. Mas o que se quer tada e a quem é negada a dignidade que vem de viver em ressaltar, aqui, é que não se refere a eles quando fala do fraternidade. 40 41
  22. 22. Tinha Jesus estes grupos sociais. Ele certamente disse: "felizes vós, os uma visão estrutural da sociedade? pobres, ai de vós, os ricos". Na bonita parábola do rico e Lázaro, o mínimo que se pode dizer é que Jesus contra- Pode-se perguntar se Jesus tinha uma visão estrutu- põe dois tipos de existência: uma, a dos que têm tudo e ral do que é pobreza e suas causas e do que são os pobres. outra, a dos que não têm nada. Do pobre Lázaro se diz Seria, sem dúvida, anacrônico, procurar teorias modernas que sua vida e sua morte dependem dos outros, pelo me- estruturais em Jesus sobre pobres e pobreza. Pode-se di- nos das migalhas que lhe dêem. Creio que em Jesus não é zer, em minha opinão, algo de importante. tão forte quanto nos profetas de Israel, a causalidade que Chama-me muito a atenção o fato de que nos Evan- existe entre pobreza e riqueza. Entre os profetas de Israel, gelhos, com grande freqüência, se usa plurais "Felizes isto parece formulado de maneira mais clara. Por exem- vós, os pobres", "ai de vós, os ricos", "ai de vós, escribas plo: o profeta Amos disse que tudo começa com a acumu- e fariseus"... Jesus usa o plural. Ao menos pode-se dizer lação de terras que fazem os latifundiários e que isto produz que está se referindo a grupos, grupos sociais, não tanto a a pobreza. Mas me parece que não é exagerado dizer que pessoas concretas. Os pobres são felizes como grupo so- Jesus também vê, na atuação destes grupos sociais pode- cial. Há algo que lhes é comum e que os torna felizes. Os rosos, o motivo da existência dos pobres. Em nível de ricos, os escribas, os que governam este mundo: nestes pobreza e riqueza, deve-se acrescentar a palavra de Jesus plurais aparecem grupos sociais e há algo neles que faz quando classifica a riqueza de injusta. E os exegetas di- com que sejam reprovados por Jesus. Não creio que se zem hoje, com clareza, que o adjetivo "injusta" não é uma possa tirar do uso destes plurais um argumento para uma possibilidade entre outras, como se a riqueza pudesse ser teoria social em Jesus. Mas tampouco creio que se possa justa ou injusta, mas que tal adjetivo classifica, essencial- minimizar tal uso. Mesmo sem ter uma teoria explícita, mente, a riqueza. Jesus capta, como capta qualquer pessoa de bom senso, Também está claro que, quando Jesus condena ou- que a sociedade está estruturada em "plurais". E Jesus tros grupos poderosos e os denuncia por sua hipocrisia, dá diz: defendo um tipo destes plurais, os pobres, e os defen- também o motivo da maldade suprema destas atitudes: do de outro tipo de plurais, que são os que têm algum tipo escribas e fariseus não somente são maus porque são hi- de poder, sobretudo o da riqueza, da lei da ciência etc. pócritas, mas porque seu coração está cheio de injustiça. Estes grupos sociais coexistem, segundo Jesus, de "Injustiça" é um termo de relação: o injusto é aquele que maneira justaposta, ou há entre eles algum tipo de confli- não faz justiça aos outros, é aquele que oprime os outros. to fundamental para não falar já de luta de classes? Ou, quando Jesus diz que colocam fardos intoleráveis, E preciso dizer, de novo, que é anacrônico procurar estes fardos se colocam sobre outros e estes outros são os explicações deste tipo em Jesus, mas não é anacrônico ver que ficam encurvados pelo peso destas cargas. Ou quando que pelo menos Jesus cantrapõe entre si estes plurais, diz que levaram a chave da ciência significa dizer que 42 43
  23. 23. privam os outros do conhecimento. Ou quando diz que expulsa demônios. É um sinal para dizer: a libertação da são guias de cegos, isto é, que conduzem outros de ma- possessão do maligno é possível. Quando Jesus acolhe o neira ruim. Então, não se deve pensar em teorias estrutu- pecador é uma forma de dizer: é possível superar a indig- rais em Jesus, mas sim que é preciso ver que ele capta a nidade social à qual estas pessoas, tidas como pecadoras, sociedade dividida em diversos grupos sociais, em diver- estão submetidas. Quando Jesus come com gente tida por sos "plurais", como dissemos, e também capta que por indigna, está querendo dizer: é possível superar o despre- causa da atuação de uns, segue-se o tipo de vida pobre, zo social. E assim sucessivamente. miserável e indigna de outros. O que quero dizer é que estas atividades de Jesus são dirigidas a dizer que o Reino de Deus é possível, a O que fez Jesus frente a estes pobres libertação de opressões concretas também é possível, se e seus opressores. Os Sinais. bem que como atividades que não são dirigidas a mudar a sociedade, mas colocar sinais de possiblidade desta troca. Jesus falou disto, sem dúvida. Em primeiro lugar, O sentido das parábolas de Jesus é defender sua própria ele teve a experiência da palavra. Na liguagem de hoje, atuação em benefício das pessoas pobres e frágeis. Os seria uma "prática conscientizadora" através da experiência adversários de Jesus não aceitam que seus sinais dêem da palavra: dava esperança a uns, condenava a outros. preferência e caminhem imediatamente em direção aos Além desta experiência da palavra, Jesus teve algumas pobres e frágeis. E Jesus quer defender sua atuação. Em atividades concretas que é o que chamamos sinais do Rei- termos finais, sua defesa é a seguinte: eu atuo assim, opto no de Deus. Quero esclarecer que estes sinais são sinais e pelo pobre deste mundo, porque Deus é assim. apenas sinais, isto é, não são atividades com intenção de mudar a estrutura da realidade, mas sim para dizer que é A Práxis possível mudá-la e qual o caminho que levará a esta mu- dança. Os milagres de Jesus, as narrativas de milagres, Mas além destas atividades de Jesus já menciona- devem ser, como diz Schillebeeckx, tradições muito anti- das, ele teve outros tipos de atividades que se aproxima- gas que ficaram na memória dos pobres. Isto é, um mila- riam mais ao que, na liguagem de hoje, chamamos práxis. gre, principalmente em forma de cura, é um modo de Quer dizer: fazer com que a sociedade como tal se trans- mostrar que o Reino de Deus tem poder para libertar da forme. Isto que chamo práxis de Jesus acontece, principal- doença e, como naquela época a doença costumava ser mente em níveis de sua palavra, no que chamamos con- vista como produto de algum poder opressor — entenda- trovérsias, descaramentos e denúncias. O que ele quer mos isto hoje de forma mágica ou não —, o fato de curar mostrar, através de tudo, é que existem, na realidade, po- alguém significava colocar um sinal de que a libertação deres que a configuram de uma maneira opressora. Des- era possível. Isto se vê com mais clareza quando Jesus mascarar e denunciar estes poderes é uma forma, a partir 44 45
  24. 24. do negativo, de querer transformar a realidade em que se tempo, quando trata de lhes dar uma esperança, a espe- vive. Jesus quer que estes poderes opressores desapare- rança de que o Reino de Deus é possível, quando trata de çam e que a realidade seja diferente e oposta à de agora. desmascarar os poderes que estão na raiz de uma socieda- Creio que, quando Jesus analisa estes poderes opressores, de opressora, provoca um conflito, se mete num conflito... tal como o Evangelho os refletem, não se fixa tanto no Para mim, é evidente. Em primeiro lugar, meteu-se poder político, embora faça algumas denúncias, principal- num conflito porque assim está estruturada a sociedade, mente no final de sua vida ("não façais vós como os que seja hoje, no tempo de Jesus e antes de Jesus. Novamente, governam, que colocam fardos intoleráveis", diz a seus não há que procurar palavras explicitamente no Antigo discípulos); em geral, se fixa mais no poder econômico e, nem no Novo Testamento sobre a luta de grupos ou a luta principalmente, no poder religioso; como usam a lei, a de classes, ou, como diz a instrução vaticana, sobre "con- religião, a ciência teológica da época para oprimir o povo. flitos muito agudos"; mas, na própria concepção de Deus, Daí, o fato de suas imprecações mais duras serem contra aparece que na realidade há um conflito. O primeiro man- os fariseus, que representariam o poder, digamos, da damento diz: não adorem outros deuses rivais. Isto signi- exemplaridade, e contra os escribas, que representariam o fica que, como a teologia latino-americana o disse muito poder da lei e sua interpretação. claramente, existem vários deuses, o verdadeiro Deus e os Estas denúncias, desmascaramentos, controvérsias de ídolos, que estão na realidade e necessariamente em luta, Jesus podem ser consideradas como uma autêntica práxis, agrade isto ou não. Jesus o disse de maneira simples e porque estão destinadas a mudar a realidade através da sábia: não se pode servir a dois senhores, porque se al- palavra. Isto, creio eu, para citar um exemplo atual, é guém serve a um, abandonará o outro e vice-versa. É parecido ao que fazia Monsenhor Romero, que estava preciso escolher. O que se deve ressaltar é que estes dois muito interessado em mudar toda a realidade salvadorenha. senhores não somente são diferentes mas que estão em Sua atividade não era meramente uma soma de atividades luta. E, se alguém serve a um deus, os adoradores do próprias, mas uma práxis, porque era voltada para isto. E outro deus reagirão e farão algo em oposição. o meio que ele tinha para concretizar essa práxis era a Que toda a vida de Jesus se realiza em conflito está palavra e não outra forma como têm outros grupos so- bastante claro. Nos sinópticos já se fala nisso, desde o ciais. princípio, talvez de forma um pouco anacrônica. Depois do discurso original de Jesus na sinagoga de Nazaré, Lucas A Conflitividade conta que queriam matá-lo. E, depois das controvérsias de Jesus, que estão no início do Evangelho de Marcos, con- Há um ponto a considerar que é, em si mesmo, ta-se que fariseus e herodianos se juntaram porque queri- evidente, mas que, às vezes, parece ser questionado. Je- am eliminá-lo. E o que Jesus havia feito para que quises- sus, quando realmente trata de defender os pobres de seu sem eliminá-lo? Apenas defendeu o oprimido que tinha a 46 47
  25. 25. mão seca, a seus discípulos, que tinham apanhado espigas do neste conflito a favor dos fracos deste mundo, o agra- de um campo alheio no Sábado, porque tinham fome. vou; que contra ele reagiram os que defendem outros in- Esta defesa do fraco acarreta, automaticamente, uma rea- teresses, os poderosos, e que, por isto, em última análise, ção do forte. Em linguagem atual, esta defesa do oprimido Jesus é assassinado. Para mim, como para tantas pessoas, acarreta, automaticamente, uma reação do opressor. é realmente surpreendente que um exegeta do porte de O Evangelho de João mostra, com fartura, este am- Bultmann pudesse dizer que a cruz de Jesus foi um erro biente de conflito durante toda a vida de Jesus. É incon- lamentável. Indubitavelmente foi um erro, e não apenas testável que a razão histórica pela qual matam Jesus é por um erro, mas uma mentira, o conjunto de acusações con- ele ter tomado parte neste conflito de um lado e não do cretas que lhe faziam, mas não havia erro quando o poder outro. Quando acusam Jesus de blasfemo e de agitador religioso, principalmente, e o poder político, viam em Je- político no tribunal religioso e político, enganam-se nas sus uma grande ameaça e, por isto, queriam eliminá-lo. razões concretas que dão: Jesus não andava amotinando o Em nossos tempos, Monsenhor Romero o disse com mui- povo de forma concreta, nem impedindo que pagasse im- ta clareza: quem prega a verdade da Palavra de Deus, postos a César ou, muito menos, blasfemando etc. As quem defende de verdade os preferidos de Deus, os po- razões concretas que dão são falsas, mas o que está por bres, este incomoda e é preciso eliminar aquele que inco- trás dos tribunais é profundamente verdadeiro. Acusam moda. Jesus no tribunal religioso porque dizem que quer destruir A Opção pelos Pobres e Jesus o templo de Jerusalém. Suponho que Jesus não tivesse nenhum interesse em destruir as pedras do templo, embo- Com isto se quer dizer que, em Jesus, há uma OP, ra quisesse destruir o significado do templo, quer dizer, o mas não só que ela existe, como é algo fundamental, tanto centro de um poder religioso, financeiro, político, econô- em sua visão de Deus como na prática que conduz em sua mico que, em seu conjunto, configurava a sociedade de vida. Não é que Jesus já tivesse uma idéia de Deus, que seu tempo como uma teocracia. Jesus via que este conjun- soubesse que tinha que pregar o Reino de Deus e que, to de fatores era opressor e queria terminar com ele. En- depois lhe aparecesse a pergunta: o que vamos fazer com tão, no aspecto religioso, os poderes eclesiásticos da épo- os pobres?... Esta pergunta não é secundária. Está inte- ca viam em Jesus uma ameaça. grada no principal e, por isto, a OP, por assim dizer, não a No tribunal político fica também muito claro que o inventou em Puebla nem Medellín, nem é somente um condenam quando exigem que Pilatos escolha entre Jesus problema pastoral de como a Igreja há de atuar, nem ape- e César. O que isto significa é que Pilatos tem de escolher nas um problema quantitativo (quanto tempo, quantos re- entre o império romano, a paz romana ou o ideal que cursos dedicamos a uns e a outros...), mas é um problema Jesus representa, que é o Reino de Deus. Então, fica bem teologal. Quem crê no Deus de Jesus, por essência, tem claro que Jesus viveu num conflito e que, ao tomar parti- de fazer esta OP. 48 49 4 Oiãt> petos pobres hoje
  26. 26. Aos que não são pobres, pedem-se duas coisas: se ser humano, pode-se ignorar o que deu origem à fé em são opressores, que deixem, simplesmente, de sê-lo. E en- Deus e à concepção do ser humano. No Antigo Testamento tão, a Boa Nova do Reino também será para eles, verda- está claro, hoje, que o primeiro livro é o Gênesis, onde se de. E aos que não são formalmente opressores, mas fala da relação de Deus com toda a criação, com todos os tampouco pertencem, formalmente, ao mundo dos pobres, seres humanos. Mas, como bem se sabe, não foi assim a pede-se que sigam Jesus para defender os pobres. Neste origem histórica. Na origem da fé em Jeová a relação de sentido, é verdade que a mensagem de Jesus é para todos Deus com um povo se manifesta, ocorre, algo concreto e, os seres humanos, mas de forma diferente. Num primeiro além disso, uma relação com o povo enquanto oprimido, momento, é a favor dos pobres e contra os opressores. E, isto é, algo parcial. E, a partir daí, pensaram que este para estes, como já disse, a salvação, o fato de Jesus e Deus era universal. Deus serem a Boa Nova, supõe deixar de serem opresso- O que quero dizer é que é preciso ver a universali- res. dade que o Novo Testamento nos propõe em termos um Sem dúvida, o que chamamos OP tem este funda- pouco mais dialéticos. Segundo Jesus, Deus quer a salva- mento cristológico que acabamos de ver. Mas encontra-se ção de todos. Para aqueles que são, digamos, opressores, isto não apenas em Cristo, mas que em Cristo isto tam- a salvação que se lhes oferece (veja o exemplo de Zaqueu, bém é fundamental, pelo que eu disse antes de que assim que, creio que é, certamente, o único deste tipo) passa por era sua concepção própria de Deus, como um Deus par- sua conversão aos pobres, por deixarem de ser opressores. cial para os pobres deste mundo e assim era sua missão. A salvação que Jesus oferece a outros seres humanos — A pergunta está, então, naturalmente, em como foi possí- que talvez fossem ou não pobres, por exemplo, aqueles vel que isto, que para mim é evidente, deixasse de sê-lo. que chama para segui-lo — passa pelo caminho de conti- nuar a obra e a missão de Jesus em favor dos pobres. Parcialidade e Universalidade A mesma coisa deve-se dizer do pecaminoso: todos somos pecadores, incluindo os pobres. Ou, pelo menos, Creio que por razões teóricas, aparece no Novo Tes- todos somos pecaminosos. Mas em Jesus há uma diferen- tamento um processo de universalização da fé que é ex- ciação do pecado fundamental,de acordo com sua posição tremamente correto, mas que pode ser usado precipitada- mais ou menos próxima da opressão e morte do pobre. O mente. No Novo Testamento se diz, com razão, que Deus que quero dizer é que, no processo de universalização da é um Deus de todos, que Deus quer a salvação de todos, fé, passou-se por cima da parcialidade origional. Creio ao contrário, que somos todos pecadores, que estamos que esta é uma das razões pelas quais o evidente deixou todos convidados... Então isto é realmente certo, mas de sê-lo. pode-se deixar passar de maneira superficial esta universalização na concepção de Deus e na concepção do 50 51
  27. 27. , Opção Preferencial e não exclusiva vida dos pobres, se nosso sacrifício, nossa abnegação se colocou a serviço de que haja menos sacrifício, menos Isto também pode, talvez, esclarecer o que possa dureza, menos cruz, se nosso próprio conflito, as perse- significar que a OP é preferencial e não exclusiva. Jesus guições que podemos sofrer, a cruz em que podemos ter- não foi exclusivo ao oferecer salvação: ele a ofereceu a minar, se tudo isto se colocou a serviço de que os pobres todos. O que acontece é que a ofereceu de formas diferen- desçam da cruz, não há dúvida de que, no dia do juízo, tes. A uns, aos pobres, de forma direta, dizendo-lhes que escutaremos aquelas palavras de Jesus: "Venham, bem- há uma esperança, que o Reino de Deus vai se aproximar. aventurados de Meu Pai". A outros, dizendo que, para entrar neste Reino de Deus Há outra pergunta relacionada a isto, que é teórica e que vai se aproximar, têm que se converter de uma ma- prática, e para explicá-la vamos lembrar o que se dizia há neira específica: deixando de ser opressores. alguns anos. Quando se redescobriu que a oração não é Isto, para a pastoral de hoje, é extremamente impor- apenas um fenômeno individualista de ficar num lugar tante. Não se trata de dizer e quantificar que porcentagem afastado e pôr-se em relação com Deus, mas que também de nosso tempo será para ajudar os pobres e que porcenta- na vida deve-se ficar em relação com Deus, chegou-se a gem será em benefício dos não pobres. Não. Toda a ação dizer: "A vida é oração", o que a princípio, está muito pastoral da Igreja será de opção pelos pobres, mas, tendo certo. Outros disseram: "Toda a vida é oração". Mas ou- em conta os setores sociais, deve ser feita de maneira tros responderam com uma sabedoria acumulada, não hi- diferente: para os pobres, defendendo-os diretamente e, pócrita (embora também se pudesse dizer hipocritamen- na medida em que eles também vão se elevando a uma te): "pode ser que toda a vida seja oração, pode ser que categoria superior, ajudando-os a introduzir espiritualida- nada seja oração". O mesmo pode acontecer com a OP: de em sua realidade, em suas lutas e em sua causa, para tudo pode ser OP, mas, no pior dos casos, nada é OP. O que também não degenerem. E, aos que são opressores, que quero dizer? exigindo, ajudando e forçando-os a deixarem de sê-lo. A OP é algo necessário, justo, bom e santo. Mas é levada a cabo por seres humanos, isto é, seres nos quais Opção pelos Pobres, conceito e pecado atuam também a concupiscência, a pecaminosidade e, dito em outras palavras, seres que, na opção pelos outros, po- Quero, finalmente, responder a questão sobre se a dem estar procurando, sutil ou ostensivamente, a si mes- mos. Assim é a condição humana. Pode ser que, por um OP é o máximo que nós, seres humanos, podemos e deve- lado se faça a OP e, se esteja buscando o estrelismo, isto mos fazer e seremos julgados por ela. é: que se sujeite a OP a ser eu, meu grupo, minha Igreja, Creio que, na atualidade, a OP é uma reformulação meu partido político, minha organização política ou mi- adequada do que Mt 25,31-33 disse do juízo final. Em nha organização popular que lidere, a que pode ter a satis- última análise, se nossa vida se colocou em defesa da fação ou o orgulho de dizer: "Nós temos sido". 52 53
  28. 28. Pode ser também que na OP, já que são necessárias condições e mediações de todos os tipos (sociais, econô- micas, políticas e teológicas), o dogmatismo se introduza. Na medida em que a OP é uma análise, uma tentativa para encontrar e sendo a que melhor explica a opressão OPÇÃO PELOS POBRES que sofrem os pobres e sua libertação, pode-se chegar ao E ESPIRITUALIDADE dogmatismo, isto é: é esta teoria, é esta visão necessaria- mente. Repito, pois, que isto sempre rodeia e ameaça os Pedro Casaldaliga seres humanos. Então, quero dizer que na OP o pecado também se pode introduzir e que, de alguma maneira, se introduz. Isto não é de admirar, nem é motivo para se alarmar. É, OP: A própria espiritualidade cristã isto sim, um alerta para se ter cuidado com o pecado. Então, a OP envolve dois elementos. Por um lado, A OP, para o cristão, é a própria opção pelo Reino uma materialidade e visibilidade satisfatórias do que se de Deus neste mundo submetido, estruralmente, ao anti- faz: que possa ser verificada, que os próprios pobres a reino, neste mundo maltratado de Deus. compreendam como algo que se faz a seu favor... Mas, A OP não é apenas um rasgo de espiritualidade cris- por outro lado, é preciso conduzi-la com um espírito que tã. É a própria espiritualidade cristã, se entendemos que o possa curar os inevitáveis subprodutos negativos de toda Reino é a opção de Jesus, porque é a vontade do Pai. O prática — incluída a OP —, mas para isto, lhe dê a possi- Reino, visto do lado de cá, é desafio, conquista, prática, bilidade. Em palavras sistemáticas, Ignacio Ellacuría fala- resposta nossa... Visto do lado de lá — onde já não have- va de pobres materiais com espírito de misericórdia, lim- rá nem ricos nem pobres — o Reino será pura gratuidade, peza de intenções, reconciliação e paz. Pois algo deste puro dom: o Pai acolhendo a todos nós. tipo deveria ser dito da OP: é preciso fazê-la material- mente, não idealisticamente, mas é preciso fazê-la também O Filho de Deus, o Verbo, para contestar o anti- com um espírito que, no fundo, é o Espírito de Jesus. reino que o pecado do mundo vinha estabelecendo na Resumindo, é preciso fazer o que faz Jesus e é preciso terra dos filhos de Deus, não apenas "se faz homem", não fazê-lo com o Espírito de Jesus. apenas se faz humano, mas também se faz pobre, coloni- zado, incompreendido, perseguido, proibido, excluído, excumungado, executado, maldito... A OP de Jesus é a Kénosis de Cristo. E a OP é a atitude Kenótica de todo cristão. Repito: sempre que estejamos de acordo que a 54 55

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