Tudo começou no longo envelhecer do inverno, gélido e rijo. As nuvensrabugentas, gritando com a lua, e a chuva pesada ench...
prático apurado, e pouco dado ao teórico, sempre o caracterizara como sendoprofundo e íntimo do seu próprio toque.       C...
temporários do contentamento autêntico, puro e duro ao qual se chama amor, eao qual levanta questões racionais.       Deci...
nossa junção? É difícil esquecer tal facto, esse mesmo facto que nosperseguirá até ao fim, eu nunca deixarei de ser aquilo...
Assumi a culpa de deixar para trás a hipótese de ter uma família, comtrês pequenos rapazes a gritar e a pedir o novo jogo ...
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  1. 1. Tudo começou no longo envelhecer do inverno, gélido e rijo. As nuvensrabugentas, gritando com a lua, e a chuva pesada encharcara os meusombros. Questiono-me porque não tirara o guarda-chuva do bengaleiro, aqueleantigo e dourado bengaleiro com o dálmata de porcelana a proteger. Sempreque o olho revivo fragmentos da minha meninez em que o coloria e o traziadebaixo dos meus braços. Mas estava particularmente fresco, nem agasalhada me sentira, foi purainsolência e rebeldia minha. Foi um instinto supérfluo que devia ter calculado.Mas confesso a elegância da noite, apesar da geada, estava agradavelmentebom para caminhar e reaver a forma que perdi no Natal passado. Desde nova que sinto presenças que me roubam a bonança e o fôlego,mas aquele vulto negro e nublado que me cercou foi mais que isso, roubou-meo coração e os sentidos. Foi um fervor incrivelmente abafado e sufocante queme ocupara o corpo. Calculei que ele estava apenas de passagem, e que seriaapenas uma coincidência – se elas existem – algo que não mais me seria dadoe atirado tão facilmente para as mãos, um reencontro talvez desejado maspouco trabalhado. E se um dia o encontrei, ele de olhos azuis, motivados edestemidos, que tem cabelo dourado, cor de mel torrado. Estupendamenteousado, com coração cheio e sofisticado. Entrou sem temores pela porta dosmeus braços. Esteve no ponto certo, com o condimento e modos certos, nãomais acrescentaria, talvez mudasse a feição do seu sorriso, tornando-o maisrasgado e pontiagudo. Ele é um padrão de Deus, ao qual rezo e acredito emseus bem-feitos e milagres. Milagres dos quais, revelam o horizonte e aconfiança das minhas miragens num deserto alaranjado. Puder vê-lo como um reflexo turvo do céu, sentir a sua mão de encontreao meu rosto, chamá-lo no silêncio ruidoso do meu pensamento, talvez tenhaaberto e criado aquilo que se crê chamar de fé, fé de querê-lo no limiar dosmeus devaneios. Ele não mais muda, e se algum dia o fizer, se por algumacircunstância mo retirarem dos braços, eu descansarei, pois sempre que lhepedi a mão, ele singelo e frágil, me deu as duas. Aquele encontro, em perfeita luz da noite, arrefecida e serena, com omar agitado. Com o frenesim das suas mãos, grandes e largas, que meaprisionaram fortemente e com paixão nos seus braços, braços enormes ecarentes do meu aroma. Eu sentira pelo olhar dele, que teria agido bem, que ofacto de o nosso reconciliar lhe limpara os medos antigos. O ambiente que nosfoi dado, e as bebidas quentes acalmara-nos. Fintava-o sempre que podia, talcomo ele a mim, pois sempre fomos bons ouvintes e interlocutores com osolhos. O ensinara a ter calma com o mundo, e com a humanidade, deveria lheter dito e falado do orgulho colossal que nunca perdera dele. Ele aprenderarapidamente, tão veloz como um cavalo de corrida. Pouco fala e dúvidas nãoadvêm. Não lhe peço muito, pouco menos o mundo, exijo-lhe sentido de ordeme gosto pelo seu espírito, pela sua consciência e inteligência. Ensinara-o aavaliar a sua baixa auto-estima, baixa no sentido de débil, pois ele sempre foraum homem bem-parecido e elegante, ligeiramente magro mas forte, com forçade invocar todas as energias. Ele conseguira ser muito com tão pouco que lhederam e lhe tiravam com o seu desenvolvimento. Um homem com o sentido 1
  2. 2. prático apurado, e pouco dado ao teórico, sempre o caracterizara como sendoprofundo e íntimo do seu próprio toque. Com aquele sorriso que desorienta os atalhos do mundo, me levara aoéden sem fim, infinito. Me recolhera do oásis mediterrânico, completo e quente,agradavelmente sufocante, oriundo do picante extremo da sua boca. Elevoltara com meias e demoradas reviravoltas, sem medidas ou contestações,voltara outro e desigual, com o espírito sereno e o ritmo apressado. Fugiu masnão se entregou ao céu sem mim, ele me queria no limiar e no patamar do seupescoço, onde o pecado da tentação carnal lhe escapara do controlo que eudomino, escapara dos lábios e me revistara o corpo. O despira sem ele saber, enquanto dormia, rasgara-lhe as roupas quelhe resguardaram o coração, tirara-lhe a pele e os músculos ficando com osseus ossos, ossos fortes dos quais são os meus pilares, esses mesmo pilaresque amanha serão os meus vitrais prontos para reflectir a luz do sol em tons evalores discrepantes. Amanha enquanto ele acorda, seus olhos não abrirão,não enquanto eu intervier em cada fechar das pálpebras, onde a minhaimagem não desaparece, onde a força do meu amor por ele vence asderrocadas das montanhas e os nevões das serras. Terei lugar na nuvem mais agasalhada do céu, e não deixarei que elesalte de nuvem em nuvem, pois a minha é maior que qualquer outra ésoberana nele, e será a mais clara num céu azul, céu esse que pertence aosseus olhos. Ontem lhe fechei as portas do coração, fechei-as com vigor e combarulho, um estrondo que ecoou no meu peito, descabido e impotente, perdeua força e a firmeza. Mas hoje o reacendi onde mais longe ele chegou, não nofundo mas em todo o meu coração. Neste culminar incessante de sentir aquiloque nos desperta a memória para factos infelizes, tristes ao ponto devagarosamente me degolar aos poucos e em cheio, num alvo avermelhado emcarne viva. Meu coração foi atingido pela seta larga e comprida do seu apaixonantecupido, que as mãos dele não negam tal encarnação. Hoje poderia ter o seurasto nos meus lençóis, onde o sabor dele vencia os paladares salgadosinsonsos dos meus dedos. Sei que ele vê perante o silencio das minhaslágrimas, que tem um dom instintivo e risca quem e onde me deixei ficar. Seique ele apaga as luzes da rua quando não consigo adormecer, que cala obarulho monótono e silencioso da noite para puder me envolver com a camagrande e solitária - não para um corpo só - onde descanso fielmente com o seucoração indomesticável nas mãos. Sei que ele me protege dos monstros queme perseguem debaixo da cama, aqueles que me amedrontam sempre que elevai embora, e me deixa à mercê deles. Notei que ele aquece o frio gélido dosmeus olhos, e que deixa ferver o ambiente do meu ninho, onde o fiz sentir,embora em ocasiões, a magia de ter e não mais perder. Levitei sem ajudas, perante a sua magia, magia de meditar o meuespírito, ao qual se encanta e desenha pelo divino sem fim que se define peloseu ar cúmplice do meu tentador atrevimento ousado por ele, em cadapequena proibição do pecado, singelo e promíscuo do nosso amor. Elecaminhou livremente pelas bordas do chocolate quente que me preenche agosto a minha boca, criando efeitos resplandecentes e sensuais, até ao apogeuda sedução, onde o deixei criar caprichos e quimeras reais em pedaços 2
  3. 3. temporários do contentamento autêntico, puro e duro ao qual se chama amor, eao qual levanta questões racionais. Decididamente lhe caracterizava como um deus dono de um vulcão,quente e activo para erupções, fervilha e explode com facilidade, possui umalava espessa e delicadamente quente onde queima e mata, seja de desejo ousofrimento. E culpo-o de me roubar o sono, em plena noite graciosa e boémiaque me chama para a vida em outra grandeza, onde a consciência é deixada aarder no inferno sob o seu vulcão. Calculo que a minha falta de controlo, se domine e hipnotize pelo calmopacífico e azul dos seus olhos, cor de mar salgado, com um pouco de areiavertendo no fundo, e o fundo será negro? Tão negro quanto o poço dechocolate escaldante e estimulante que ele derretera com o olhar. Aquelaextravagância de algemar o que lhe surte provocantes efeitos, dos quais nãoorienta, e se deixara ir, num compasso ritmado, pelo barulho do seu coraçãoenfraquecido. Deveria o ter avisado do desastre que crio na minha alma, o género dehipérboles que me levam ao descalabro, o declínio das fronteiras que nosafastam entre o oceano filósofo e maduro. O sábio caminhar tão e maispiedoso que o nosso próprio olhar. Ele não deveria ter invadido o meu barco decontrafeitas confianças, ele poderia se ter afogado no rio supérfluo e gélido daminha boca, não o quis tentar, e se o seduzi foi meu corpo a quererexperimentar, se o satisfiz com meu firme encanto magnético, não o implorei,foi meu congénito acto natural. Se ele me suplicou que não destruísse nemsepultasse a clareira e a cascata do nosso sacrificado amor, amor eterno, quearde e congela o coração, não mais vacilarei em me apaixonar por cadapedaço e cada rasto dele, que navega junto ao mar. Ele tem algo que me atrai e seduz o juízo, abrasa e derrete tudo o queaquece. E se ele me deseja, se me vê sempre que fecha os olhos, ou atémesmo se me sente a pegar na sua mão antes de adormecer, confesso que eurealmente apareço em vagas decadências da sua memória, e quando repousana cama e se deixa levar pela tentação de fugir à humanidade, eu cumprominha jura de o levantar, erguer a sua cabeça e que não mais se humilhe combaixos choros, pequenos e delicados pontos fracos que o ferem e comem ocoração. O olhar amargo que me foge das mãos, não mais que um coraçãopartido, gélidas palavras e rasos olhares. Apenas vai pelo trilho dos meusbraços, e assim eu, somente, levo-o de defronte ao melhor e ao proveito domundo. Sou capaz de fazer com que não se esqueça que amanha é outro dia,do qual eu sou o fruto proibido, ousado e perdido. Ele que caminha no horizonte do Olimpo, que entristece cada pedaço desombra, muda rotas e rumos do meu destino, e porque será? Não chega pisarmeu ego, e deitar fora meu sorriso, ainda pega no mundo e pendura-lo nosmeus ombros. Não sei se lhe chame amor ou apenas obsessão sua, e não seicomo me posso ver a seus olhos, se mos fecha. Como me aguento? Viajandosempre que falo dele, isso basta para repor as energias, tal e qual como se elefosse o céu. Um céu sempre azul, sem nuvens nem chuva, um pouco difícil decalar os trovões, mas que céu seria ele se me negasse o sol? E eu que marseria se não lhe deixasse deitar ou nascer em mim? Que mar seria eu se nãotivesse a sua presença sobre mim, não seria monótona a vida do mundo sem a 3
  4. 4. nossa junção? É difícil esquecer tal facto, esse mesmo facto que nosperseguirá até ao fim, eu nunca deixarei de ser aquilo que ele me reflecte, talcomo o seu céu reflecte sob o meu mar, algo mais puro do que límpido,pacífico e eterno. E nem mesmo uma maré cheia, ou uma tempestade sua,tornaria o nosso amor menos perfeito. Nem um fraquejar do sol, nem uma ondaalta, dominaria algo que nosso coração controla. Ele pode virar o sol, e deixarficar o cinzento das nuvens, mas uns dos meus tsunamis davam a volta aomundo à procura do seu calor novamente. Não me falta força de movermundos e fundos, verter as almas de quem não acredita, afundar todos osnavios para ele me olhar de novo. Enquanto dormíamos juntos, na cama pequena e estreita, onde os seusbraços me cercaram a cabeça e as suas mãos se prolongaram para além dosombros. Confesso-lhe que foi bom adormecer com a sua pele e com a suaimagem nos meus olhos, acordar e sorrir para ele sabendo que estava ali e nãosaíra mais, que sou sua prioridade e o seu o seu coração. Foi bom quando eleme amarrava com força entre o pescoço, embora ele não estivesse conscientetomo esse acto como uma reacção da sua parte, uma forma de me segurarpara não mais cair. E no entanto a fé não resulta da minha esperança contínua por ele, eleconstituiu o sabor da amargura do meu sofrido paladar. Com ele existe atendência para perder o interesse pessoal e vê-lo como meu pesar daconsciência distinta do fogo do seu coração. Ele com o tempo sagrado que nosfez voar, conseguiu destruir o inferno do mundo, conseguiu com que o céufosse sempre um caminho e uma vantagem para guardar na gaveta do meuíntimo. Sem ele a objectividade da interpretação do meu estilo de vida, perde-se num conjunto de rituais e rotinas, modelares e nómadas. Ele encontra-meonde o choro toca no riso, espera-me onde e com a aventura que preciso, ondeo mundo começa e onde a felicidade tem pernas. Enquanto o admirava na cama minúscula, a sua pele se salientava, ondeas veias se comiam umas às outras, pressenti o nervosismo à flor da pele, ofolgar prolongado da respiração incontrolável. Presumi então que o matava aospoucos, que a minha historia tórrida entre e com ele lhe provocara enumerassensações mortais que lhe dissecavam o espírito. Afastei-me minuciosamente,sem o consentimento dele, fui-me como o vento se perde nas serras, onde aesperança é vencida pelas derrocadas da chuva. Senti pena mas felizmentenão passara disso. Com ou sem ele me sigo nos passos fugidios do diabo, comou sem a terra debaixo dos meus pés. Voltei às raízes da minha origem, larguei aquela terra a que chamara“casa” e uma nova etapa me salvara, um longo pesar abateu sobre mim, eletinha sumido, como se nunca tivesse existido, tinha se varrido como a poeira. Aproximei-me então do meu novo canto, onde o mar é a primeira vistada janela e nesta época o mar é bravo e a areia, a tomara como apenas terradesfeita. Nem mesmo um forte chocolate quente me aquecera o corpo, frio epálido, ausente daquele homem que criara à semelhança do meu coração.Nunca mais o procurara, e a coragem de um telefonema desaparecera, fugi earrependo-me, pois todos os dias me deparara a ouvir à mesma hora asmesmas mensagens de voz que ele me enchera nas desesperadas manhaslonge dele. 4
  5. 5. Assumi a culpa de deixar para trás a hipótese de ter uma família, comtrês pequenos rapazes a gritar e a pedir o novo jogo de consola ou o novocarro de brincar, descartei a possibilidade de ter um marido presente de boasfamílias, bons actos e bom salário. Ignorei a ideia de ter um casamento divinocom um vestido branco titânio comprido e um véu bege presenteado de umatiara de ouro branco. Para não falar que desperdicei uma lua-de-mel entre aÍndia e o Brasil, terras quentes e deleitosas. Fugi da casa de sonho, grande ecom piscina interior. Fi-lo, deixei-o e magoei-o, morro de pensar, morro de o ter deixado. Hojeo quero, o preciso e o amo. Mas peço desculpa a impertinência, mas esteromance nunca terá fim! 5

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