'Segurando na mão de Deus': Organizações Religiosas e Apoio ao Empreendedorismo"
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×
 

'Segurando na mão de Deus': Organizações Religiosas e Apoio ao Empreendedorismo"

on

  • 1,875 views

 

Statistics

Views

Total Views
1,875
Views on SlideShare
873
Embed Views
1,002

Actions

Likes
0
Downloads
1
Comments
0

1 Embed 1,002

http://administracaopublica.org 1002

Accessibility

Categories

Upload Details

Uploaded via as Adobe PDF

Usage Rights

© All Rights Reserved

Report content

Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
  • Full Name Full Name Comment goes here.
    Are you sure you want to
    Your message goes here
    Processing…
Post Comment
Edit your comment

    'Segurando na mão de Deus': Organizações Religiosas e Apoio ao Empreendedorismo" 'Segurando na mão de Deus': Organizações Religiosas e Apoio ao Empreendedorismo" Document Transcript

    • artigos Recebido em 23.03.2011. Aprovado em 17.11.2011 Avaliado pelo sistema double blind review Editora Científica: Gláucia Maria Vasconcellos Vale“SEGURANDO NA MÃO DE DEUS”: ORGANIZAÇÕES RELIGIOSAS EAPOIO AO EMPREENDEDORISMO“HOLDING GOD’S HAND”: RELIGIOUS ORGANIZATIONS AND SUPPORT TOENTREPRENEURIAL INITIATIVES“DE MANOS DADAS CON DIOS”: ORGANIZACIONES RELIGIOSAS Y APOYO AL EMPRENDEDORISMORESUMOEste artigo investiga mecanismos de apoio ao empreen- para investigar o impacto dos mecanismos oferecidosdedorismo proporcionados por organizações religiosas. pelas organizações religiosas nas etapas do processo deForam pesquisadas duas organizações, uma católica e empreendedorismo. Os resultados do trabalho indicamoutra evangélica, por meio de estudo de caso qualita- uma confluência entre os dois casos: o pertencimentotivo. A análise comparativa baseou-se em três dimen- às igrejas resulta na formação de capital social orientadosões específicas do apoio ao empreendedorismo que para as várias dimensões econômicas e no reforço reli-emergiram na própria pesquisa de campo e que deno- gioso à motivação econômica. As diferenças, contudo,minamos espaços de informação, formação e motiva- encontram-se na representação religiosa do significadoção. Consideramos tais dimensões como importantes do sucesso econômico e na articulação e fechamentoachados desta pesquisa e as utilizamos como categorias de suas respectivas redes sociais.PALAVRAS-CHAVE Empreendedorismo, organizações religiosas, capital social, recursos organizacionais, redes sociais. Mauricio Custódio Serafim serafim.esag@gmail.com Professor da Escola Superior de Administração e Gerência, Universidade do Estado de Santa Catarina – Florianópolis – SC, Brasil Ana Cristina Braga Martes ana.martes@fgv.br Professora da Escola de Administração de Empresas de São Paulo, Fundação Getulio Vargas – São Paulo – SP, Brasil Carlos L. Rodriguez rodriguezc@uncw.edu Professor at Cameron School of Business, University of North Carolina at Wilmington – Wilmington – NC, United States Abstract The article investigates mechanisms offered by religious organizations to support entrepreneurial initiatives. We examine two organizations, one catholic and one protestant, using a qualitative case study design. The comparative assessment was based on three dimensions of support that appeared as a result of the data analysis, that we called spaces of information, formation, and motivation. The dimensions are considered as possible important research results and were used to investigate the impact on the traditional stages of the entrepreneurial process of the mechanisms made available by the two religious organizations. The analysis indicates certain similarities between the two cases: church membership assists in the creation of social capital that impacts various economic dimensions, as well as provides religious support to the economic motivations. However, the differences between the two churches become evident in the religious interpretation of economic success and in the articulation and closure of their social networks. keywords Entrepreneurship, religious organizations, social capital, organizational resources, social network. Resumen Este artículo investiga los mecanismos de apoyo al emprendedorismo proporcionados por organizaciones religiosas. Fueron investigadas dos organizaciones, una católica y otra evangélica, por medio de un estudio de caso cualitativo. El análisis comparativo se basó en tres dimensiones específicas del apoyo al emprendedorismo que emergieron en el mismo estudio de campo y que denominamos espacios de información, formación y motivación. Consideramos tales dimensiones como importantes hallazgos de esta investigación y las utilizamos como categorías para investigar el impacto de los mecanismos ofrecidos por las organizaciones religiosas en las etapas del proceso de emprendedorismo. Los resultados del trabajo indican una confluencia entre los dos casos: la pertenencia a las iglesias resulta en la formación de capital social orientado hacia las varias dimensiones económicas y en el refuerzo religioso a la motivación económica. Las diferencias, no obstante, se encuentran en la representación religiosa del significado del “éxito” económico y en la articulación y “closure” de sus respectivas redes sociales. Palabras clave Emprendedorismo, organizaciones religiosas, capital social, recursos organizacionales, redes sociales.I S SN 0034-7590 © R AE n Sã o Pa ul o n v. 5 2 n n. 2 n ma r /a b r. 2 0 1 2 n 2 1 7 - 2 3 1 217
    • artigos  “SEGURANDO NA MÃO DE DEUS”: ORGANIZAÇÕES RELIGIOSAS E APOIO AO EMPREENDEDORISMOINTRODUÇÃO empreendedorismo e religião não vem recebendo a atenção necessária por parte da academia brasileira, a julgar pela escassez de trabalhos publicados, queEstudar as ligações entre mentalidade empresarial pode ser verificada na bibliografia apresentada aomoderna e religião nos conduz a um tema clássico final deste artigo.das Ciências Sociais. Segundo Max Weber, valores Este trabalho procura contribuir para preencherconformam ações e afetam processos econômicos: essa lacuna encontrada na bibliografia brasileirao ascetismo religioso contribuiu para aumentar a ra- sobre o tema, tendo como objetivos: (a) analisar ascionalidade da conduta humana e, portanto, para a maneiras pelas quais duas organizações religiosasexpansão do capitalismo moderno, apoiado, sobre- disponibilizam recursos simbólicos e materiais, detudo, na organização racional de empreendimentos modo a incentivar (no nível discursivo) e apoiareconômicos. No entanto, foi especialmente Emile (oferecendo recursos organizacionais) a formação eDurkheim, e não Weber, o autor clássico da sociolo- o crescimento de empresas de propriedade de seusgia que mais se preocupou em compreender o papel seguidores, e (b) investigar possíveis diferenças noscrucial das instituições – inclusive igrejas e comuni- métodos por elas utilizados. Para tanto, o artigo estádades religiosas – para assegurar a coesão social, que estruturado em torno de dois pontos: (1) as igrejasse encontrava ameaçada na sociedade industrial do favorecem, enquanto organização, a formação deséculo XIX. Assim, por um lado, podemos afirmar, redes onde prosperam a confiança e o capital social,acompanhando Weber, que valores conformam di- fundamentais para os negócios; (2) as igrejas incen-ferentes tipos de comportamentos econômicos, tais tivam a racionalidade da conduta em relação aos ne-como descritos em seus trabalhos sobre religião e gócios – ou seja, planejamento e maior organizaçãoeconomia (SWEDBERG, 2005). Por outro, seguindo –, disponibilizam recursos materiais e conhecimentoDurkheim (1978), somos levados a considerar que da área, assim como propiciam motivação econômica,laços sociais e comunitários, assim como outras for- entendida aqui como crença na capacidade de em-mas de socialização, configuram um conjunto de preender o próprio negócio. Contudo, se as igrejasatributos sociais que precedem o contrato, isto é, oferecem tais recursos, elas não o fazem da mesmasão requisitos de qualquer sistema econômico. As maneira, e a diversidade de mecanismos utilizadosorganizações religiosas – duas igrejas, no caso deste por cada uma, assim como eventuais diferenças emtrabalho – podem ser consideradas um bom exemplo sua eficácia, apresenta-se como importante questãodesse tipo de socialização, por propiciarem relações de pesquisa. Vale ainda mencionar que, não tendode solidariedade, confiança e redes de ajuda mútua. os autores do trabalho encontrado na literatura umaPesquisas recentes vêm demonstrando que tais be- tipologia de mecanismos de apoio à iniciativa denefícios têm impactos positivos nas várias fases do criação de negócios oferecidos por organizações deprocesso de empreendedorismo (OZGEN; BARON, caráter associativo, especialmente de natureza reli-2007; MARTES, 2011). giosa, um importante subproduto da pesquisa foi a Com o crescimento do pentecostalismo no Bra- determinação de três dimensões ligadas ao processosil – somos simultaneamente o maior país católico de empreendedorismo em torno das quais os recursose pentecostal do mundo (BERGUOCI, 2007) – e disponibilizados parecem se estruturar.com a reação da Igreja Católica a esse crescimento O trabalho está organizado da seguinte forma: na(SOUZA, 2005), tal espaço de socialização ganhou seção inicial, fazemos uma breve revisão conceitualnovas configurações. Surgiram novos tipos de cul- relacionada ao tema empreendedorismo e sua rela-tos, cursos, palestras e associações como forma de ção com religião e capital social; os procedimentosapoio ao desenvolvimento profissional/empresarial metodológicos adotados são descritos a seguir, ante-e de reorientação financeira do orçamento familiar, cedendo a apresentação dos casos das duas organiza-além de projetos que visam atenuar a miséria via ções religiosas. A seção seguinte analisa os resultadosenvolvimento de empresários-membros. Apesar de da pesquisa e compara os procedimentos adotadosalguns estudos mostrarem a importância desse fenô- pelas duas organizações. Na conclusão, apresenta-meno (e.g. SIEPIERSKI, 2003; MARTES; RODRIGUEZ, mos algumas possíveis contribuições do trabalho e2004a, 2004b; PINTO; LEITÃO, 2006; MESQUITA, oferecemos sugestões para o prosseguimento dessa2007; SERAFIM; ANDION, 2010), a relação entre linha de investigação.218 © R AE n S ão Paulo n v. 52 n n. 2 n mar /abr. 2012 n 2 1 7 - 2 3 1 I SSN 0 0 3 4 -7 5 9 0
    • Mauricio Custódio Serafim Ana Cristina Braga Martes Carlos L. RodriguezAÇÕES EMPREENDEDORAS IMERSAS de outro modo, estudar a religião significa adentrar um intrincado conjunto de práticas, inclusive cotidianas,NAS REDES RELIGIOSAS relacionadas às esferas do trabalho, consumo e negó- cios. O comportamento econômico, socialmente imerso,O surgimento das grandes corporações, a expansão está também imerso nas práticas e relações sociais edo estado de bem-estar social e o crescente aumen- religiosas (WUTHNOW, 1994, 2005). Nessa perspecti-to da burocratização, processos intensificados após va, pode-se considerar que a ação empreendedora éa Segunda Guerra, contribuíram para o declínio das incentivada, por um lado, pelas relações interpessoais,atividades empreendedoras a favor do emprego nas capazes de propiciar recursos econômicos, relacionais egrandes corporações. A função do empreendedor informacionais (MARTES; RODRIGUEZ, 2004a; 2004b),foi sendo substituída pelo quadro técnico das gran- e, por outro, por aspectos socioculturais, como a apro-des empresas. A intuição, a capacidade de perceber vação do grupo a determinadas atividades econômi-oportunidades, a vontade e a força de levá-las adiante cas e a aceitação de valores e princípios comunitáriosforam repassadas para as equipes de especialistas em (DIMAGGIO, 2003). Assim, a abordagem da sociologiaplanejamento estratégico, e o indivíduo inovador deu econômica permite compreender a atividade empre-lugar ao departamento de pesquisa e desenvolvimen- endedora por meio da: (a) estrutura social propiciadato (LÓPEZ-RUIZ, 2004). Solidificou-se a “sociedade pela igreja enquanto organização; (b) cultura religiosa,de empregados” (MILLS, 1969), cujo ator principal que pode ser entendida como orientação doutrinária/não era mais o empreendedor, mas o que Whyte Jr. teológica capaz de atribuir sentido e motivar a ação(1956) chamou de “homem organização”: indivíduos empreendedora.de uma nova classe média que confundiam seus ob- Adicionalmente, a igreja gera e propicia interna-jetivos pessoais com os objetivos da organização em mente, a seus membros, recursos organizacionais queque trabalhavam. são fatores-chave para a abertura de negócios. Isso é Contudo, a importância do empreendedorismo especialmente importante para aqueles que possuemressurge nos anos 1980, devido ao processo de rees- níveis insuficientes de capital físico e capital humano.truturação produtiva, novos padrões de concorrência Entretanto, talvez o principal tipo de capital geradointernacional e precarização do trabalho, assim como pela associação de um indivíduo a uma organizaçãoàs dificuldades surgidas na estrutura funcional do se- religiosa seja o capital social.tor público. Dentro desse novo contexto, o próprio Há pelo menos duas abordagens sobre capital so-conceito de empreendedorismo foi revisto e alguns cial. A primeira está relacionada com os trabalhos deautores passaram a associá-lo com a criação de novas Coleman (1988, 1990) e Putnam (1993, 2000) e refere-seorganizações (THORNTON, 1999; ALDRICH, 2005). Essa à facilitação da ação por meio das estruturas sociais.é, também, a definição adotada neste artigo. Especifi- Enquanto para Coleman capital social é definido pelacamos, contudo, que, para fins de operacionalização sua função e é “[...] uma variedade de entidades dife-da pesquisa, concebemos empreendedorismo como rentes, com dois elementos em comum: consistem deabertura e/ou desenvolvimento de um negócio próprio algum aspecto das estruturas sociais e facilitam certasou autoemprego. As etapas desse processo, que descre- ações dos atores – sejam pessoas ou atores corpora-veremos com mais detalhes na seção a seguir, incluem tivos – no interior da estrutura” (COLEMAN, 1988, p.iniciativas sequenciais de: (a) reconhecimento ou identi- S98), o ponto central para Putnam são as várias formasficação da oportunidade: (b) avaliação da oportunidade; de interação entre os indivíduos, que resultam em uma(c) exploração da oportunidade (BYGRAVE; HOFER, ação coletiva que contribui para o civismo ou a vida1991; SHANE; VENKATARAMAN, 2000). Mais recente- humana associada em forma de comunidade. Quantomente, as pesquisas sobre empreendedorismo têm se maior a rede de engajamento cívico – seja nas associa-beneficiado da abordagem da sociologia econômica. ções de moradores, grupos religiosos, festas de bairroTal abordagem enfatiza a cultura (DIMAGGIO, 2003), etc. – e maiores as conexões entre os indivíduos, maioras práticas sociais e a imersão social (GRANOVETTER, o capital social.1985) para analisar ação e processos econômicos. A segunda abordagem está relacionada com autores Na perspectiva da sociologia econômica, a religião como Bourdieu (1986), Burt (1997, 2000, 2001, 2004)é considerada não como um conjunto de ideias concer- e Lin (1999, 2006), que enfatizam os recursos – comonentes à transcendência, mas como prática social. Dito informações e apoios – que os indivíduos ou gruposI S SN 0034-7590 © R AE n Sã o Pa ul o n v. 5 2 n n. 2 n ma r /a b r. 2 0 1 2 n 2 1 7 - 2 3 1 219
    • artigos  “SEGURANDO NA MÃO DE DEUS”: ORGANIZAÇÕES RELIGIOSAS E APOIO AO EMPREENDEDORISMOconseguem ter acesso devido às suas relações sociais. um conjunto de forças que agem sobre as pessoas ouNesse sentido, os mecanismos de rede no qual está unidades sociais (KOENIG; GOGEL, 1981, p. 40).imerso o indivíduo – que pode ser caracterizada por Adotando o ponto de vista de Coleman e Putnam,quem interage com quem, com qual frequência e de capital social cresce com a inserção dos indivíduos nasque maneira – influenciam o fluxo de recursos através redes sociais, na medida em que propicia a elevaçãodessa rede. Aqueles indivíduos com melhores posições do número de contatos com novos indivíduos e novasna rede – o que significa acesso a mais e melhores re- redes, solidifica valores que agilizam e facilitam as deci-cursos – possuem maior capital social do que outros sões e favorece a emergência de redes de ajuda mútua.que estão em uma posição relativamente pior. Confiança, solidariedade e uma série de valores éticos Para essa segunda abordagem, uma contribuição e comunitários reforçam laços de pertencimento e aju-digna de nota é a de Burt (1997, 2000, 2001, 2004). Ao dam a construir e adensar relações sociais que facilitamtratar da vantagem competitiva proporcionada pela es- a ação, inclusive a econômica. Portanto, “pertencer atrutura das redes do indivíduo e pela localização de seus um grupo é possuir um capital, ou seja, é possuir umcontatos nessa rede, o autor define capital social como recurso que facilita as ações entre os agentes, tornando“relacionamentos com outros players”, isto é, “amigos, desnecessárias todas as precauções a serem tomadascolegas e contatos de uma maneira geral por meio dos nos casos em que a honestidade e a confiança estãoquais você recebe oportunidades para usar seu capital ausentes” (STEINER, 2006, p. 81).financeiro e humano” (BURT, 2004, p. 326). Para o au- Indo mais ao ponto, há duas propriedades específi-tor, capital social são, ao mesmo tempo, os meios de cas das estruturas sociais que facilitam a criação de ca-contatos mantidos (ou quem se alcança) e a estrutura pital social, que Coleman (1988) denomina “fechamentodesses contatos na rede (ou como se alcança) e que – [closure, no original] de redes sociais” e “organizaçãodependendo da configuração – proporcionam maior ou social apropriável (appropriable)”. A primeira refere-menor participação na e controle da informação (BURT, -se à existência de laços sociais em número suficiente2000, 2001). Burt se concentra no como e desenvolve para garantir que, em uma determinada rede, as normasa ideia de buraco estrutural, definido como uma “se- sejam estritamente observadas, inclusive por meio deparação entre contatos não redundantes” (BURT, 2004, sanções. Como um dos resultados, tais normas passamp. 334). Enquanto para Coleman e Putnam as redes a ser apropriadas e a orientar a comunidade, de mododensas são condições necessárias para o surgimento a facilitar, inclusive, transações econômicas sem o re-do capital social, na visão de Burt, é a relativa ausência curso de contratos legais. Tal fechamento aumenta ade laços – ou buracos estruturais – que o proporciona. confiabilidade, pois a renúncia de uma obrigação ouEssa abordagem salienta que as redes densas tendem promessa torna-se mais difícil, devido à sanção exercidaa produzir informações redundantes, enquanto os la- pelo grupo, colocando em jogo a reputação dos atoresços fracos (GRANOVETTER, 1973) – correlacionados que descumprem com sua expectativa. Dessa forma,com o buraco estrutural – podem ser fontes de novas pode-se afirmar que o fechamento favorece a lealdadeinformações, recursos e oportunidades. e a solidariedade em uma dada estrutura social. Porém, Apesar das diferentes abordagens do conceito, Por- o fechamento desfavorece o fluxo de informações rele-tes (1998, p. 6) afirma que é possível se detectar um vantes para os atores, por criar redundâncias (GRANO-consenso crescente na literatura de que capital social VETTER, 1973). A organização social apropriável, porpode ser considerado como “a habilidade de atores para sua vez, diz respeito a qualquer organização que foiobter benefícios por estarem na qualidade de membros criada para um objetivo e que foi apropriada parcial oude uma rede social ou de outras estruturas sociais”. O totalmente para outras finalidades. Dessa forma, colocaconceito descreve os benefícios que o agente econô- à disposição seus recursos organizacionais no auxíliomico pode obter (conhecimento, informação, poder, a propósitos que não faziam parte de seus objetivosinfluência e apoio) por participar de uma rede social. originais, facilitando, dessa forma, as ações de seusPara os nossos propósitos, entendemos redes sociais membros de tal modo que, sem essa apropriação, nãocomo um conjunto de atores (pessoas ou organizações) seria possível. Devido a isso, constitui-se em importanteconectados por relações sociais ou laços de um tipo es- fonte de capital social.pecífico (CASTILLA et al., 2000). As redes podem incluir Como qualquer outro tipo de capital, o capital so-tanto relações formalmente instituídas quanto relações cial também é produtivo. Segundo Coleman (1988, p.informais e são simultaneamente resultado e causa de 97), “ele é produtivo porque possibilita a aquisição de220 © R AE n S ão Paulo n v. 52 n n. 2 n mar /abr. 2012 n 2 1 7 - 2 3 1 I SSN 0 0 3 4 -7 5 9 0
    • Mauricio Custódio Serafim Ana Cristina Braga Martes Carlos L. Rodriguezcertos fins que na sua ausência não poderiam ser alcan- (dados do Censo 2000 do IBGE) e, de um modo geral,çados. Como capital físico e humano, o capital social não é reconhecida na literatura como uma instituiçãonão é completamente tangível, mas pode ser específico cuja doutrina incorpora incentivos ao empreendedo-a certas atividades”. Pesquisas sobre capital social vêm rismo. A IRC, por sua vez, foi selecionada por servirmostrando que a religião é um fator importante na for- como um contraponto à primeira: é uma igreja recente,mação de redes sociais e confiança (e.g. IANNACCONE; possui apenas 120 mil fiéis e um discurso claramenteKLICK, 2003; PUTNAM, 2000) e vêm reforçando a ideia direcionado à promoção do sucesso empresarial.de que um nível adequado de capital social entre os Para a coleta de dados, utilizamos três técnicas. Amembros de uma organização serve para lubrificar as primeira, observação não participante, foi realizada emrelações entre indivíduos, no sentido de diminuir os 2006 e 2007 e consistiu de 10 visitas às organizaçõescustos de transação e facilitar os negócios (MARTES; religiosas (Mariápolis Ginetta, sede do MF, e dois tem-RODRIGUEZ, 2004a; 2004b). plos da IRC), participação em cultos (um na igreja de No caso aqui apresentado, estamos interessados em Alphaville e cinco na Sede Internacional), missas (10compreender de que modo o capital social propiciado na igreja da Mariápolis Ginetta), um seminário/cursopelo pertencimento às igrejas é capaz de fomentar o da Arepe sobre planos de negócios, três encontros deempreendedorismo, ao lado dos recursos materiais e empresários e entrevistas informais com seus partici-simbólicos que as organizações religiosas disponibili- pantes. Todas as observações foram registradas emzam a seus membros nas diversas fases do processo de caderno de campo.empreendedorismo. Para tanto, realizamos uma pes- Entrevista em profundidade foi a segunda técnicaquisa qualitativa com duas igrejas, cujos procedimentos utilizada. No MF, foram realizadas oito entrevistas, sen-descrevemos a seguir. do duas com religiosos, uma com leiga católica, quatro com empresários-membros e uma entrevista com um pesquisador e ex-membro do MF. Na IRC, foram reali- zadas nove entrevistas: três com bispos envolvidos comPROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS a Arepe e seis com empresários-membros da igreja. A seleção dos entrevistados foi feita por meio da técnicaAdotamos neste estudo a abordagem intitulada nova bola de neve, segundo a qual os primeiros informan-sociologia econômica, por permitir compreender o tes – selecionados por seu envolvimento em projetospapel das relações interpessoais nos mais variados de apoio ao empreendedorismo – recomendam outrosdomínios da vida econômica ou, nas palavras de Gra- para entrevista.novetter (1985), a imersão da economia na vida so- A terceira técnica empregada, análise documental,cial. Nossa intenção é mostrar que as redes religiosas foi realizada com base em artigos e reportagens desão levadas em conta nas decisões do empreendedor jornais e revistas, folders, sites, material publicitário,e que diferentes estruturas de suporte proporciona- memorandos internos das empresas e associações, fo-das pelas instituições religiosas podem levar a resul- tos e regimentos. Foram consultados os jornais Folhatados também diferentes na concepção e condução de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo, as revistasdos negócios. Veja e Istoé, e sites de notícias evangélicas (como o Apresentamos neste trabalho dois estudos de caso Gospel+), nesses casos utilizando-se a tecnologia RSS,qualitativos em perspectiva comparada: 1) Igreja Evan- para se obterem informações sobre as organizações egélica Renascer em Cristo (IRC); 2) Movimento dos Fo- compará-las com os dados primários coletados. Outrocolares (MF), esse último filiado à Igreja Católica, ambos recurso tecnológico foi o site YouTube, onde se encon-com suas sedes em São Paulo, Brasil. A escolha das duas tram vídeos das celebrações religiosas, principalmenteinstituições justifica-se por serem atuantes há mais de 15 da IRC. Selecionamos 20 vídeos que estão disponíveisanos, contemplarem o segmento de empreendedores de no endereço http://tinyurl.com/394zml.classe média, difundirem um discurso com alvo nesse A análise de discurso foi utilizada com a finalidadesegmento e disponibilizarem recursos organizacionais de interpretarmos as entrevistas em profundidade. Talespecíficos para ele. No âmbito do MF, dedicou-se es- interpretação foi realizada de modo a garantir que aspecial atenção ao Polo Spartaco, por tratar-se de um falas dos entrevistados fossem consideradas com baseconjunto de empresas ligadas à Igreja Católica. Esta, em seu contexto social. Dessa análise, observamoscomo se sabe, possui 125 milhões de adeptos no Brasil semelhanças entre as informações que puderam serI S SN 0034-7590 © R AE n Sã o Pa ul o n v. 5 2 n n. 2 n ma r /a b r. 2 0 1 2 n 2 1 7 - 2 3 1 221
    • artigos  “SEGURANDO NA MÃO DE DEUS”: ORGANIZAÇÕES RELIGIOSAS E APOIO AO EMPREENDEDORISMOagrupadas por meio de um processo de categorização por Estevam Hernandes, ex-gerente de marketing dasimples. A análise do conjunto das entrevistas – também Xerox e Itautec. Insere-se na linha neopentecostal,confirmada pelo restante do material empírico – indicou que, no plano teológico, se caracteriza pela ênfaseque havia três categorias-chave capazes de classificar na guerra espiritual (ou seja, o embate entre o bem ee sintetizar as ações de apoio e promoção do empre- o mal), na teologia da prosperidade, e rejeita usos eendedorismo relatadas pelos nossos entrevistados. A costumes de santidade pentecostal e outros tradicio-essas três categorias chamaremos de dimensões da ação nais símbolos de conversão. Outras características sãoempreendedora. Dito de outro modo, tais dimensões a adoção de gestão organizacional do tipo empresarial,emergiram como achados da própria pesquisa de cam- o uso intensivo dos meios de comunicação – princi-po, isto é, da análise do material empírico coletado, palmente os eletrônicos – e a ênfase na arrecadaçãoe puderam contemplar o escopo geral das atividades de dinheiro dos fiéis por meio de dízimos, ofertas nospromovidas pelas organizações religiosas, embora, cultos e doações (SIEPIERSKI, 2003).evidentemente, sem desconsiderar as particularidades Desde o início de suas atividades, o bispo Estevamde cada uma delas. Hernandes e sua esposa, a bispa Sônia Hernandes, Para a seleção dessas dimensões, inicialmente escolheram os jovens como público-alvo, atraindo-osprocuramos pesquisas empíricas como as de Hung e com as bandas gospel. Com o tempo, o perfil dos fiéisHsiao (2004), que classificam a mobilização de capi- modificou-se e atualmente há um importante segmentotal social para apoio ao empreendedorismo também de empresários e profissionais autônomos que frequen-em três dimensões: oportunidade, motivação e habi- tam a igreja. A IRC passou a valorizar mais a adesãolidade. Entretanto, durante o processo de análise das empresarial do que a dos jovens (SIEPIERSKI, 2003).informações obtidas nas fontes acima mencionadas, Pensando no segmento dos empresários, em 1996, foipercebemos indutivamente que a gama de recursos fundada a Associação Renascer de Empresários e Pro-oferecidos pelas duas organizações religiosas estava fissionais Evangélicos (Arepe), que visa apoiar profis-estruturada de modo diferente, ou seja, em torno de sionais autônomos, pequenos e médios empresários etrês dimensões que representavam etapas sequenciais, iniciantes de negócio próprio. As demais linhas de atua-claramente ligadas ao próprio processo de empreende- ção concentram-se na Fundação Renascer, que, além dedorismo, que podiam ser mais apropriadamente des- administrar projetos assistenciais e de residência paracritas como espaços de motivação (tal como em Hung idosos e crianças abandonadas e centros de recupera-e Hsiao), mas também informação e formação. Isso ção para dependentes químicos, funciona como umaporque a aquisição e difusão de informação por meio espécie de holding que controla a igreja e as váriasda rede religiosa, a formação proveniente dessa mesma organizações a ela ligadas. A IRC estrutura-se tambémrede (ou seja, investimento no capital humano à luz em forma de ministérios, que são áreas de atuação dadoutrinal das igrejas), bem como a motivação – apoio igreja (e.g., busca de recursos para as obras assistenciaisemocional/espiritual/profissional baseado nas relações da igreja, grupo de apoio ao usuário de drogas e seusde confiança e solidariedade –, foram as dimensões familiares, visitas a doentes e encarcerados) e que têmque mais se destacaram nas entrevistas, observações e como função – segundo um dos entrevistados – “aten-análise documental e, por isso, as consideramos como der a todas as necessidades do homem”.as categorias que melhor agruparam os dados. A Arepe, por sua vez, tem o objetivo, segundo os Tais dimensões serão apresentadas neste artigo de entrevistados, de integrar a visão espiritual ao âmbitomaneira contextualizada, estabelecendo-se suas cone- do trabalho e proporcionar o desenvolvimento pro-xões com as fases do processo de empreendedorismo, fissional de seus membros, com base na doutrina dadescritas e analisadas mais adiante. igreja. Dessa forma, esse ministério oferece diretamente recursos organizacionais e apoio às atividades empre- endedoras. A fonte desses recursos é proveniente da própria igreja, que, por sua vez, é financiada pelosAPRESENTAÇÃO DOS CASOS fiéis por meio de dízimos, de ofertas nos cultos, do projeto Gideão da Conquista (carnês de pagamento deIgreja Evangélica mensalidades para o financiamento de seus projetosA Igreja Evangélica Apostólica Renascer em Cristo assistenciais e de expansão de suas redes de rádio e(IRC) foi fundada em 1986, na cidade de São Paulo, TV) e outras doações diversas. A Arepe não possui um222 © R AE n S ão Paulo n v. 52 n n. 2 n mar /abr. 2012 n 2 1 7 - 2 3 1 I SSN 0 0 3 4 -7 5 9 0
    • Mauricio Custódio Serafim Ana Cristina Braga Martes Carlos L. Rodriguezfundo financeiro próprio e, quando há a necessidade proposta doutrinária o “paradigma da unidade”, acimade organizar e executar algum projeto – como palestras mencionado. Um dos desdobramentos práticos do pro-e cursos (que serão abordados a seguir) –, cria ações jeto é disponibilizar parte dos lucros das empresas aosde arrecadação ad hoc, recebendo doações dos em- mais pobres, suprindo necessidades básicas e/ou ofe-presários. Adicionalmente, para a cobertura de custos, recendo postos de trabalho para esses grupos. De umcobra pequenas taxas em alguns desses eventos. Seus modo mais específico, a proposta contempla a divisãomembros são voluntários da igreja e não há funcioná- do lucro em três partes: uma voltada para a própriarios que se dediquem exclusivamente a ela. empresa; outra para a difusão da chamada “cultura da partilha”, por meio da organização de congressos, es- truturas, bolsas de estudo e divulgação na imprensa; eIgreja Católica a terceira parte para os pobres, inicialmente no âmbitoO MF foi iniciado por Chiara Lubich (1920-2008) em dos “Focolares” (PINHEIRO, 2000; BRUNI, 2005). O1943, na Itália, e tem caráter eclesial e civil. Tendo lucro é considerado um componente estratégico, dadochegado ao Brasil em 1959, está presente atualmente que mediará e processará a partilha. Sob o ponto deem 182 países, com a participação de 140 mil mem- vista do desenvolvimento da EdC, as empresas envol-bros internos e em torno de 2,1 milhões de aderentes vidas são, em sua maioria, de pequeno porte e come simpatizantes. Segundo um dos entrevistados, a sua faturamento, em geral, não superior a um milhão decaracterística principal é a espiritualidade da unidade, dólares/ano. Desde o início da EdC, em 1991, calcula-e o compromisso estabelecido entre seus membros é -se que, do universo total de empresas que iniciaram“viver o mandamento do amor recíproco”. Esses dois atividades sob sua orientação e apoio, 14% encerraramelementos constituem o que chamam de “paradigma suas atividades. No Brasil, atualmente contabilizam-seda unidade”, que significa a vivência do amor recípro- 123 empresas atuantes, e no mundo há cerca de 700co com vistas à construção da unidade (com pessoas, empresas associadas ao movimento.povos, outras denominações religiosas e na própria A atividade mais importante da EdC direcionadaIgreja Católica), a fim de “contribuir para a fraterni- aos empresários é o Polo Empresarial Spartaco, criadodade universal”. em 1994. O polo está localizado no município de Cotia O MF possui a seguinte estrutura organizacional: (SP) e abriga seis empresas num regime de condomínio,há uma presidente que dirige o movimento, auxiliada administrado pela holding Empreendimentos, Serviçospor uma copresidente e um conselho. Sob sua direção e Projetos Industriais S.A. (Espri). A Espri canaliza re-estão os “Focolares”, pequenas comunidades formadas cursos para as empresas sob a forma de participaçõesde homens ou mulheres (separadamente), em torno feitas por intermédio de subscrição de cotas de capi-de quatro a cinco membros denominados focolarinos tal, cuja propriedade é conservada pelos participantese focolarinas e que moram, geralmente, em uma casa (atualmente cerca de 3.600 acionistas). As participaçõesque serve como local de encontro para seus partici- no capital são bastante pulverizadas e não há a presen-pantes. Há também os focolarinos casados, que moram ça de um acionista ou grupo majoritário. As empresascom suas famílias. Os “Centros-Zona” são formados que atuam no Polo Spartaco pertencem a diversaspor “Focolares” que possuem papel de coordenação áreas da indústria (por exemplo, nutrição clínica, em-e administração do Movimento. As “Mariápolis Per- balagens, produtos de limpeza) e do setor de serviçosmanentes” são pequenas comunidades onde famílias, (por exemplo, comércio, educação, serviços médicosjovens, padres e religiosos moram e trabalham de ma- e diagnósticos) e, seguindo a filosofia da EdC, enviamneira comunitária, constituindo-se também como cen- parte de seus lucros para a organização.tros de formação social e religiosa do MF. Finalmente,os Centros Mariápolis são locais de encontro (comoconferências, congressos, palestras) para os membrose simpatizantes do MF. DISCUSSÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS Uma das atividades do MF no campo econômicoé denominada economia de comunhão (EdC). Propos- Nesta seção, analisaremos como os recursos criadosta por Chiara Lubich, a EdC teve início no Brasil em e disponibilizados pelas organizações religiosas pro-1991 e tem como objetivo principal a “transformação movem o empreendedorismo entre seus membros e,cultural da vida econômica e empresarial”, tendo como mais especificamente, como o capital social estimulaI S SN 0034-7590 © R AE n Sã o Pa ul o n v. 5 2 n n. 2 n ma r /a b r. 2 0 1 2 n 2 1 7 - 2 3 1 223
    • artigos  “SEGURANDO NA MÃO DE DEUS”: ORGANIZAÇÕES RELIGIOSAS E APOIO AO EMPREENDEDORISMOo empreendedorismo. Conforme descrito nos Proce- te do vínculo com a igreja. Um deles é o site arepe.dimentos Metodológicos, em decorrência da análise com.br, administrado por uma das regionais da IRC edas várias fontes de dados, emergiram três dimensões cujos serviços são gratuitos ao usuário. Uma de suasfundamentais associadas aos recursos organizacionais, funções é a de informar os leitores sobre eventosquais sejam espaços de informação, espaços de for- concernentes às atividades da Arepe. O site tambémmação e espaços de motivação, que serão abordados oferece serviços de cadastramento de empresas e dea seguir. ofertas de emprego. Na página inicial, informa-se que Propomos que as três dimensões representam, em o uso do sistema não é exclusivo para evangélicosrealidade, uma tipologia das categorias de mecanismos e que o único pré-requisito para o usuário é de quede suporte às iniciativas empreendedoras, visto que “tenha um sonho e um desejo de crescer profissio-cobrem a gama completa de serviços de apoio que as nalmente”. Isso remete à possibilidade de que a redeorganizações podem proporcionar a seus membros, criada por meio do site se conecte com outras redesreferentes às três etapas tradicionais do processo de além do âmbito da igreja e do grupo de evangélicos.empreendedorismo (SHANE; VENKATARAMAN, 2000), Uma terceira função do site é a de oferecer serviçosconforme descreveremos a seguir. Os espaços de in- gratuitos de (a) aconselhamento acerca dos negóciosformação são peças-chave na fase de identificação de ou vida profissional e (b) visitas (para dar bênçãos)oportunidades de negócio, processo eminentemente cog- e/ou cultos nas empresas. Também há um quiosque,nitivo, no qual o potencial empreendedor tem que estar durante os cultos da Arepe, com voluntários da igrejaalerta para as pistas proporcionadas pelo meio ambiente. para dar informações e coletar os dados dos interes-Alguns autores (e.g., WEBB et al., 2010) destacam o fato sados, para que algum pastor ou bispo da igreja entrede esaa etapa ser bastante facilitada pela interação social, em contato com aqueles que desejam ingressar nesserecurso proporcionado em abundância pelas organiza- ministério. Para finalizar, a partir do mês de março deções objeto do estudo. Os espaços de formação forne- 2007, passou a ser transmitido aos domingos à noite,cem conhecimento crítico para a etapa de avaliação de pela Rede Gospel de TV, o programa Ideias e Negó-oportunidades, na qual se desenvolve processo racional cios, cujo público-alvo são empresários, executivos,de exame da atratividade e factibilidade das oportuni- profissionais autônomos e os que desejam montar odades identificadas. O conhecimento e os instrumentos próprio negócio.de análise possuídos pelo potencial empreendedor são Os espaços de formação definem os contornosrefinados e utilizados num processo de exame e exclu- do discurso religioso e profissional. Em relação asão, no qual a avaliação de ideias pode ficar ainda mais esse último, são oferecidas – como mencionadoenriquecida quando efetuada em fóruns formais ou in- anteriormente – palestras, seminários e cursos orga-formais de discussão (FELIN; ZENGER, 2009), tais como nizados pela Arepe com o intuito de proporcionaros oferecidos pelas igrejas aqui estudadas. Finalmente, desenvolvimento profissional e incentivo aos em-os espaços de motivação são campo propício para o preendedores para se conhecerem e trocarem in-início das atividades de exploração das oportunidades, formações. Os temas abordados abrangem desde asetapa que exige, acima de tudo, esforços na mobilização especificidades do mundo dos negócios – tais comode recursos para implementação (SIRMON; HITT, IRE- finanças, estratégia e vendas – a temas de cunhoLAND, 2007). Como veremos em seguida, ambas as or- religioso que tangenciam a gestão, como “o mundoganizações estudadas procuram disponibilizar para seus espiritual no mundo dos negócios” (palestra do diamembros o acesso a variadas fontes de insumos físicos, 7 de maio de 2007). As palestras e seminários sãofinanceiros e de conhecimento, proporcionando ainda proferidos por profissionais de algum destaque nopúblico-alvo para as iniciativas dos empreendedores, mercado de consultoria ou executivos experientesque pesquisas anteriores demonstraram ter caracterís- que geralmente estão ligados à IRC. Esse trabalhoticas de mercados cativos (e.g., LIGHT, 1972; MARTES; é feito voluntariamente, e o acesso é gratuito. UmRODRIGUEZ, 2004a; 2004b). ponto significativo desses espaços de formação é o incentivo ao relacionamento entre os frequentadores. A dimensão do discurso é o espaço da legitimação,Recursos na IRC divulgação e reafirmação dos valores que dão sentidoOs espaços de informação são recursos direcionados à ação. Resumidamente, o discurso dos membros dapara seus membros, mas cujo acesso é independen- IRC baseia-se na existência de um mundo espiritual224 © R AE n S ão Paulo n v. 52 n n. 2 n mar /abr. 2012 n 2 1 7 - 2 3 1 I SSN 0 0 3 4 -7 5 9 0
    • Mauricio Custódio Serafim Ana Cristina Braga Martes Carlos L. Rodriguezque interfere diretamente no mundo terreno. O mundo a realização de cultos, orações e unção das portasespiritual é constituído – além de Deus – de entidades da empresa. Nesse caso, um empresário (sozinhodemoníacas que agem no mundo material com o ou com um pequeno grupo de voluntários) poderáobjetivo de reter a prosperidade do homem. A igre- realizar tais atividades para outro empresário.ja, segundo um pastor, possui a função de proteçãocontra essas forças e, além de ensinar a guerrearespiritualmente, constitui-se no canal para que a Recursos no MFbenção de Deus aja sobre as pessoas, liberando a Em relação aos espaços de informação do MF e queprosperidade. O instrumento utilizado para colocar se referem à EdC, há o site oficial internacional do MFem funcionamento a dinâmica da benção é a oferta, (focolare.org), o site internacional dedicado exclusi-que, além do significado material de financiamento vamente à EdC (edc-online.org) e o site internacionalda igreja, possui a função espiritual de estabelecer de rede de empresas vinculadas às EdC (edc-info.org),uma espécie de contrato com Deus. que se dedica a criar oportunidades de negócios via O desdobramento desse discurso no campo pro- B2B, todos traduzidos em cinco línguas. Outro espaçofissional é a crença de que ser bem-sucedido nos ne- importante de informação – e que é simultaneamentegócios requer a benção de Deus, além da necessária espaço de formação – é o congresso anual da EdC,competência profissional. Para esse tipo de empre- que acontece desde 1993 na Mariápolis Permanenteendedor, há um termo específico na igreja: empre- Ginetta (em Vargem Grande Paulista – SP). Com du-sário apostólico. Esse é o empresário que tem uma ração de três dias, reúne pessoas de todo o Brasil econduta pautada na doutrina da igreja e que possui de alguns países da América do Sul, e são realizadasos seguintes objetivos: suprir sua família (porque palestras, depoimentos e o Expo EdC, uma exposiçãoacreditam que a principal prioridade é a família) e a de empresas de EdC e de seus produtos. Um terceiroigreja (por meio do dízimo), ser empreendedor (os espaço de informação é a rede dos próprios “Focola-entrevistados definiram como aquele que “faz tudo res”, que centralizam informações sobre os aconteci-para ser bem-sucedido”, de acordo com a doutrina), mentos da EdC local e nacional e disponibilizam, parae conquistar bens materiais (o ter é uma consequên- os membros do movimento, vídeos com informaçõescia de ser – servo, ter benção, limpo nas intenções). atuais do MF no mundo, vídeos de meditação com Os espaços de motivação são os locais onde Chiara Lubich, livros (geralmente da editora Cidadeocorrem práticas e rituais terapêuticos, que possuem Nova, que pertence ao MF e publica as obras sobre ao objetivo de fortalecer os laços de pertencimento EdC escritas por membros) e informações detalhadase de evitar ou dirimir dúvidas quanto à convicção sobre os eventos. O quarto espaço de informação éacerca do discurso da igreja. Um desses espaços é o o Escritório da EdC, localizado na Mariápolis Ginetta,Culto da Arepe, que acontece às segundas-feiras à que tem como função cadastrar as empresas de EdC,noite, em todas as igrejas Renascer. Os pastores ou seus lucros e doações, coletar informações sobre asbispos procuram adaptar as ministrações de modo pessoas ajudadas e de empresas que poderiam empre-a oferecer algumas orientações religiosas voltadas à gá-las e oferecer orientações para os empreendedoresprática dos negócios. Também são lidos o que deno- que estão iniciando seus negócios e para os que preci-minam “testemunhos de vida” de empreendedores, sam tomar decisões importantes ou enfrentam dificul-que são experiências bem-sucedidas de aconteci- dades. As Comissões Regionais, que são coordenado-mentos específicos e que acreditam ter ocorrido por ras das atividades da EdC em uma região geográfica,meio de milagres. Além dos cultos, alguns pastores também acompanham as atividades de professores ee bispos que estão envolvidos com esse ministério estudantes interessados na dimensão acadêmica dadisponibilizam-se para conversas privadas, atuando EdC, mantêm contatos internacionais que propiciamcomo conselheiros nos mais diversos assuntos rela- importação/exportação de produtos locais e divulgamcionados aos negócios, vida profissional e pessoal, soluções desenvolvidas por uma empresa para as de-com o objetivo de oferecer orações e discernimento mais. As Comissões são formadas por membros do MFao empreendedor em decisões que devem ser toma- e voluntários e estão subordinadas institucionalmentedas. Adicionalmente, o empreendedor poderá solici- aos Centro-Zonas da respectiva região (veja a seçãotar (via pastor, bispo, site Arepe ou outro membro) Apresentação dos casos).visitas a sua empresa de membros do ministério para Em relação aos espaços de formação, além doI S SN 0034-7590 © R AE n Sã o Pa ul o n v. 5 2 n n. 2 n ma r /a b r. 2 0 1 2 n 2 1 7 - 2 3 1 225
    • artigos  “SEGURANDO NA MÃO DE DEUS”: ORGANIZAÇÕES RELIGIOSAS E APOIO AO EMPREENDEDORISMOcongresso mencionado, há as Escolas de EdC, orga- explicado por fatores como: maior tempo de vida danizadas pelas Comissões Regionais e realizadas uma organização MF; o fato de terem criado um projeto es-vez por mês. As Escolas têm o objetivo de formação pecífico de experiência econômica – a EdC, enquantodos empresários na denominada “cultura da partilha”, ideal, e os polos, enquanto projeto empresarial – queque no âmbito econômico se traduz em EdC, e seus ajudou a sistematizar apoios que antes eram ofereci-empreendedores caracterizam-se, segundo o MF, por dos juntamente com outros tipos de apoio religioso;“uso responsável da própria riqueza”, por um “estilo de e pelo fato de o MF ser de âmbito internacional, oconsumo sóbrio”, assim como pela partilha dos próprios que facilitou a importação de know-how já existenterecursos com o próximo que se encontra necessitado. e de comprovada eficácia para a criação de recursosNo âmbito das organizações econômicas, essa cultura organizacionais (como os sites, o congresso nacional,é manifestada na busca pela conciliação da eficiência o “Focolare”, as comissões regionais e a organizaçãoe rentabilidade empresarial com a dignidade humana, da comunidade).no empenho pela melhoria do ambiente social no qual A IRC e o MF têm em comum a apropriação deestão inseridas e na ênfase ao estabelecimento de re- suas organizações para outros fins que vão alémlacionamentos baseados no amor recíproco com todos dos objetivos originais, como o incentivo e apoio aoos seus stakeholders. Os membros acreditam que o ter empreendedorismo. Essa característica da estrutura(posse de bens) não constitui uma verdadeira riqueza, social, denominada “organização social apropriável”mas simplesmente a possibilidade efetiva de usufruto e (COLEMAN, 1988), constitui um importante facilitadorde uso dos bens para atender às próprias necessidades de capital social. Por exemplo, no caso da IRC, é ae crescimento, sendo que essas necessidades se medem utilização do espaço da própria igreja para que ume esse crescimento acontece em conexão com as outras curso de finanças seja realizado ou para que se orga-pessoas. Devido a isso, o ter adquire o significado de nize um seminário sobre a concepção de um plano departilhar (QUARTANA, 1992). negócios, assim como para a promoção de networking Em relação aos espaços de motivação, é comum a entre os participantes. No MF, seus espaços tambémfrequência regular às missas. Outro espaço é a rede dos são utilizados para auxiliar outros propósitos além“Focolares”, onde os empreendedores podem conversar do exclusivamente religioso, por exemplo, a feira desobre vários assuntos (cotidiano, problemas pessoais, exposições das empresas de EdC durante o congres-familiares, profissionais, entre outros) de modo privado so anual, a organização e desenvolvimento do poloou com o grupo de focolarinos. As Comissões Regio- empresarial e as reuniões do workshop da EdC. Emnais possuem também um papel não apenas técnico ambas as organizações, não há restrições importantesde dar assistência ao empreendedor, proporcionando para que tais apropriações ocorram, e, pelo que seigualmente apoio emocional e espiritual quando ne- pode apreender, esse facilitador de capital social estácessário. Em comunidades organizadas, há encontros mais desenvolvido no MF devido, principalmente, àsemanais dos grupos internos do MF – como voluntá- existência de organizações desenvolvidas ao longo derios, focolarinos casados e famílias novas – nos quais é mais de 30 anos – como as Mariápolis Permanentescomum empreendedores da EdC participarem de pelo e os Centros-Zona.menos um deles. O fechamento de redes sociais (COLEMAN, 1988) é outro facilitador de capital social identificado na pesqui- sa. Os laços sociais estabelecidos nessas organizaçõesRecursos comparados: formas de apoio ao são suficientes para que as sanções tenham efeito sobreempreendedorismo a observância das normas, o que é bastante comumO Quadro 1 oferece um resumo dos recursos dispo- em organizações religiosas. Em decorrência disso, anibilizados pelas duas organizações religiosas para confiança nas estruturas sociais é maior. Pode-se per-seus membros, com ênfase nos aspectos ligados ao ceber, entretanto, que o MF possui esse facilitador deempreendedorismo e de acordo com as fases tradicio- capital social mais proeminente do que a IRC, ou seja,nais do processo descritas na literatura desse campo a rede do MF é mais fechada. Atribui-se tal fechamen-de estudo (SHANE; VENKATARAMAN, 2000). Uma to ao estilo mais comunitário de convivência do MF, oanálise do quadro mostra que o MF possui uma maior que acontece de maneira esparsa na IRC. Enquanto serdiversidade de recursos organizacionais mobilizados membro do MF é equivalente a participar de algumapara os empreendedores do que a IRC. Isso pode ser atividade, pequenos grupos ou projetos como a EdC,226 © R AE n S ão Paulo n v. 52 n n. 2 n mar /abr. 2012 n 2 1 7 - 2 3 1 I SSN 0 0 3 4 -7 5 9 0
    • Mauricio Custódio Serafim Ana Cristina Braga Martes Carlos L. Rodriguezser membro da IRC pode significar tanto participar de criação da Espri e do Polo Empresarial Spartaco, queum grupo de voluntariado voltado às ações beneficen- abriga seis empresas de EdC e cujo modelo, construí-tes quanto ir apenas ao culto, o que dá um certo grau do ao longo do tempo, serve de referência na criaçãode anonimato aos membros e, portanto, faz com que de outros polos no Brasil e no mundo. Essa iniciativa,as sanções coletivas em relação aos desvios da norma embora ainda relativamente recente, apresenta clarassejam aplicáveis de maneira limitada. Além disso, o indicações de se beneficiar das vantagens de aglomera-sistema de comunicação interna do MF é mais eficiente ção (do inglês, cluster ou agglomeration advantages),e, devido a isso, há um sistema de reconhecimento dos tais como facilidades no intercâmbio de informações,membros (e não membros, como visitantes, simpati- na obtenção de apoio financeiro e recursos de modozantes etc.) também mais eficiente. geral (incluindo, principalmente, recursos humanos), A IRC apoia seus empreendedores a partir de um relações preferenciais de compra, melhor conheci-ministério próprio, a Arepe, que é, ao mesmo tempo, mento das preferências dos consumidores, entre ou-uma associação empresarial de cunho civil. Como a tras (TALLMAN et al., 2004). Dessas vantagens deriva,Arepe é a responsável pela organização de qualquer principalmente na fase de exploração da oportunidade,evento relacionado ao empreendedorismo e mundo do significativa redução nos custos de transação (MARTES;trabalho, ela promove, além dos cultos voltados aos RODRIGUEZ, 2004b). Isso parece estar evidenciadoempresários, cursos, palestras técnicas e seminários que nos relativamente baixos índices de encerramento deobjetivam o desenvolvimento profissional e a constru- negócios entre as empresas associadas ao polo, tendoção de relacionamentos de seus adeptos. Os empre- como importante indicador o fato de que apenas umaendedores também contam com o apoio emocional/ empresa encerrou suas atividades. Embora não tenhaespiritual proporcionado pela estrutura da igreja, por sido possível adquirir dados mais precisos sobre asmeio de bispos e pastores que se dedicam ao ministério exatas datas de fundação e encerramento desses negó-e que, entre outras atividades, auxiliam os empreende- cios, uma simples comparação com o que poderíamosdores a tomar decisões na fase crítica entre a avaliação considerar uma taxa média de mortalidade empresarialda oportunidade e a resolução de empreendê-la. após quatro anos de atividade – que, segundo diferen- Além dos facilitadores de capital social citados aci- tes autores, situa-se em torno dos 50% (e.g., HEADD,ma, há formas de apoio direto ao empreendedorismo. 2003; de acordo com a pesquisa do Sebrae-SP de 2008,Nesse sentido, uma das primeiras ações do MF foi a 50% das empresas paulistas encerram suas atividades Quadro 1 – Recursos disponibilizados pelas organizações religiosas para os empreendedores DIMENSÕES FASE IRC MF Formalização Arepe EdC - Sites sobre a EdC - Site da Arepe - Congresso nacional - Balcão Informação Identificação da oportunidade - Rede dos “Focolares” - Quiosque da Arepe - Escritório da EdC - Programa de TV Ideias e negócios - Comissões regionais - Congresso nacional - Palestras, seminários e cursos Formação Avaliação da oportunidade - Escolas de EdC - Culto Arepe - Comissões regionais - Missa - Conversas privadas, conselhos - “Focolare” Motivação Exploração da oportunidade - Culto Arepe - Comunidades organizadas (conversas - Cultos e bênçãos nas empresas e conselhos) - Polo SpartacoI S SN 0034-7590 © R AE n Sã o Pa ul o n v. 5 2 n n. 2 n ma r /a b r. 2 0 1 2 n 2 1 7 - 2 3 1 227
    • artigos  “SEGURANDO NA MÃO DE DEUS”: ORGANIZAÇÕES RELIGIOSAS E APOIO AO EMPREENDEDORISMOnos primeiros quatro anos) – demonstra uma possível em suas várias fases. Tal dimensão é mais clara na Igrejaeficácia desse mecanismo de apoio à fase de explora- Católica, onde inclusive parte dos negócios concentra-ção das oportunidades. -se numa mesma região, facilitando a conectividade, o Uma segunda ação de apoio é a constituição das adensamento das relações sociais e o maior fechamentoComissões Regionais, que acompanham o desenvolvi- da rede estabelecida em torno do Polo Spartaco.mento das empresas novas já constituídas; fornecem Com base nos resultados desta pesquisa, obser-informações e consultoria; organizam palestras técnicas vamos que dois pontos mencionados na Introduçãoe intercâmbio de conhecimento entre as empresas; e – Igreja favorece formação de capital social e propiciaoferecem apoio doutrinário sobre a EdC. A Associação motivação econômica – são reafirmados em ambas asNacional por uma Economia de Comunhão, fundada organizações, mas com variação quanto à representa-em 2005, possui o papel de reunir e articular, em âmbi- ção religiosa do significado do sucesso econômico eto nacional, os envolvidos com o desenvolvimento da ao papel mais ativo dos católicos quanto à oferta deEdC. Há também o congresso nacional e as escolas de instrumentos de apoio específicos para as diversas fa-EdC, que servem como espaços de troca de informação ses do processo de empreendedorismo. Contudo, noe experiências empresariais, com enfoque em ações caso do MF, esse papel mais ativo permanece restritoque têm por base a doutrina do MF. Isso indica que há a um pequeno grupo, de modo que, quando se tratauma rede articulada de amplitude nacional, importante da igreja como um todo, o papel mais ativo/inclusivofator de constituição de capital social e, igualmente, de é desempenhado pelos evangélicos.grande potencial de apoio ao empreendedor na fase Ambas as organizações conseguem promoverde exploração do empreendimento. relações de confiança no interior de suas redes, que constituem elemento essencial para manter a associação e desenvolver cooperação entre os participantes, ele- vando, assim, os níveis de capital social e fortalecendoCONCLUSÃO os mecanismos de apoio ao empreendedorismo que oferecem. Parte desse capital foi constituída nas igre-Empreendedorismo não se desenvolve apenas por jas, antes mesmo do início de seu apoio aos negócios,motivos econômicos, mas também por valores in- especialmente no caso do MF, cujo fator “organizaçãotrojetados e pelas formas de associação (WEBER, social apropriável” (COLEMAN, 1988) é decorrente da2004). No caso das experiências aqui analisadas, a maior longevidade da organização, existente há déca-motivação religiosa-normativa, legitimada por um das, tanto no Brasil quanto no exterior. Com a adesãoideal secular de justiça social, é enfatizada entre os aos projetos específicos, em ambas as organizaçõescatólicos pesquisados. Como decorrência, a principal são colocados à disposição recursos organizacionais epreocupação desse grupo é refutar a tríade relacio- simbólicos – como analisado nas dimensões espaçosnal entre economia-individualismo-egoísmo. No caso de informação, formação e motivação – que facilitamda experiência neopentecostal, a ênfase recai mais o desenvolvimento de atividades de identificação,diretamente sobre as vantagens do pertencimento à avaliação e exploração de oportunidades, assim comoIgreja e suas redes, sendo que os recursos organi- criam um ambiente institucional de incentivo ao em-zacionais aparecem revestidos por um discurso que preendedorismo.apela para um novo tipo de chamado, secular, mas O “fechamento de redes sociais” (COLEMAN, 1988)sacralizado: o direito de ser rico e feliz, que Deus a aparece como uma característica relevante da estruturatodos concede, desde que abençoados na Terra pela de relações capaz de incrementar o capital social. Oigreja e não mais como predestinados, como no caso MF é uma rede especificamente articulada no interiordo calvinismo. Nesse sentido, ser rico e feliz adquire da Igreja Católica e sua proposta econômica projetaum caráter quase coercitivo de um dever para com um ideal que requer, para fins de pertencimento, umaDeus, o que acaba por legitimar o papel ativo da forte identidade ideológica: a economia de comunhão.Igreja diante dos negócios. Sua rede é mais fechada devido, principalmente, a essa A pesquisa mostra, igualmente, como formas especí- ideologia e à valorização de um alto grau de convi-ficas de capital social e de coesão comunitária – ou seja, vência interna e sentido de coletividade. A IRC, porde laços interpessoais mediados pela Igreja – são meca- sua vez, oferece ajuda e cria recursos organizacionaisnismos fundamentais de apoio à atividade empresarial com o propósito específico de promover o sucesso228 © R AE n S ão Paulo n v. 52 n n. 2 n mar /abr. 2012 n 2 1 7 - 2 3 1 I SSN 0 0 3 4 -7 5 9 0
    • Mauricio Custódio Serafim Ana Cristina Braga Martes Carlos L. Rodriguezindividual de seus empreendedores. As expectativas BERGUOCI, L. Brasil é o maior país pentecostal. Folha dede compromisso partem da igreja em direção a cada S. Paulo, 29.1.2007. Disponível em: http://www1.folha.uol.um dos empresários, diferentemente do MF, onde os com.br/fsp/brasil/fc2901200708.htm. Acesso em 22.11.2010.compromissos são estabelecidos entre os membrosda rede dos “Focolares”. Isso faz com que a rede da BOURDIEU, P. The forms of capital. In: RICHARDSON, J.IRC seja mais difusa e descentralizada em relação à (Ed). Handbook of theory and research for the sociology ofdo MF, o que torna mais limitada a disponibilização education. New York: Greenwood Press, 1986. p. 214-258.de capital social. Para futuras pesquisas, sugerimos o aprofunda- BRUNI, L. Comunhão e as novas palavras em economia.mento do tema capital social e sua especificidade Vargem Grande Paulista: Cidade Nova, 2005.em organizações religiosas, denominada por al-guns pesquisadores “capital espiritual” (BERGER; BURT, S. R. A note on social capital and network content.HEGNER, 2003; WORTHAM; WORTHAM, 2007; Social Networks, v. 19, n. 4, p. 355-373, 1997.SERAFIM; ANDION, 2010), bem como a investigaçãosobre a formação desse tipo de capital no Brasil e sua BURT, S. R. The network structure of social capital. Rese-ligação com o empreendedorismo. Também entende- arch in Organizational Behaviour, v. 22, p. 345-423, 2000.mos que as três categorias de mecanismos encontradasempiricamente – espaços de informação, formação e BURT, S. R. Structural holes versus network closure asmotivação – são contribuições importantes ao tema social capital. In: LIN, N; COOK, K; BURT, S. R. (Eds).pesquisado, principalmente pela sua evidente relação Social capital: theory and research. New York: Aldine decom as fases do empreendedorismo, podendo mesmo Gruyter, 2001.ser consideradas como uma tipologia da gama de ser-viços de apoio ao empreendedorismo oferecida pelas BURT, S. R. Structural holes: the social structure of com-organizações a seus associados. Acreditamos que a petition. In: DOBBIN, F. The new economic sociology: acontinuação do exame dessa relação possa mostrar- reader. Princeton: Princeton University, 2004. p. 325-348.-se frutífera, não somente no âmbito de organizaçõesdo tipo das estudadas nessa pesquisa, mas também BYGRAVE, W. D; HOFER, C. W. Theorizing about entre-em organizações de outras naturezas ou ideologias. preneurship. Entrepreneurship Theory and Practice, v. 16,Finalmente, esperamos que este trabalho, pelo seu n. 2, p. 13-22, 1991.aspecto multidisciplinar, possa motivar pesquisadoresa continuar investigando as influências institucionais CASTILLA et al. Social networks in Silicon Valley. In: LEE,na criação de capital social que reforça os mecanismos C. M; MILLER, W. F; ROWEN, H; HANCOCK, M. (Orgs).de suporte às várias etapas do processo de criação The Silicon Valley edge: a habitat for innovation and entre-de negócios. Há grande interesse na identificação de preneurship. Stanford: Stanford University, 2000.políticas públicas e de mecanismos privados que, imer-sos em instituições de diferentes naturezas – inclusive COLEMAN, .J. S. Social capital in the creation of humanreligiosas –, tenham impacto positivo no estímulo ao capital. The American Journal of Sociology, v. 94, p. S95-empreendedorismo. -S120, 1988. COLEMAN, .J. S. Foundation of social theory. Cambridge:REFERÊNCIAS Belknap, 1990. DIMAGGIO, P. Aspectos culturais da acção e da organi-ALDRICH, H. E. Entrepreneurship. In: SMELSER, N. J; SWE- zação econômica. In: PEIXOTO, J; MARQUES, R. A novaDBERG, R. (Eds). The handbook of economic sociology. 2nd sociologia econômica: uma antologia. Oeiras: Celta, 2003.ed. Princeton: Princeton University Press, 2005. p. 451-477. p. 167-194.BERGER, P. L; HEGNER, R. W. Spiritual capital in compa- DURKHEIM, E. Da divisão social do trabalho: as regrasrative perspective. 2003. Disponível em: http://tinyurl.com/ do método sociológico – as formas elementares da vidabergerke. Acesso em 10.9.2005. religiosa. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Os Pensadores)I S SN 0034-7590 © R AE n Sã o Pa ul o n v. 5 2 n n. 2 n ma r /a b r. 2 0 1 2 n 2 1 7 - 2 3 1 229
    • artigos  “SEGURANDO NA MÃO DE DEUS”: ORGANIZAÇÕES RELIGIOSAS E APOIO AO EMPREENDEDORISMOFELIN, T; ZENGER, T. R. Entrepreneurs as theorists: on the MARTES, A. C. B.; RODRIGUEZ, C. L. Afiliação religiosa eorigins of collective beliefs and novel strategies. Strategic empreendedorismo étnico: o caso dos brasileiros nos Es-Entrepreneurship Journal, v. 3, p. 127-146, 2009. tados Unidos. RAC – Revista de Administração Contempo- rânea, v. 8, n. 3, p. 117-141, 2004b.GRANOVETTER, M. S. The strength of weak ties. The Ame-rican Journal of Sociology, v. 78, n. 6, p. 1360-1380, 1973. MARTES, A. C. B. New immigrants, new land: a study of Brazilian immigrants in Massachusetts. Gainesville: Uni-GRANOVETTER, M. S. Economic action and social struc- versity of Florida, 2011.ture: the problem of embeddedness. American Journal ofSociology, v. 91, n. 3, p. 481-510, 1985. MESQUITA, W. A. B. Correndo atrás da prosperidade: trabalho e empreendedorismo entre fiéis neopentecos-HEADD, B. Redefining business success: distinguishing tais. Ciências Sociais e Religião, v. 9, n. 9, p. 195-215,between closure and failure. Small Business Economics, 2007. Disponível em: http://goo.gl/gtQSj. Acesso emv. 21, n. 1, p. 51-61, 2003. 20.02.2011HUNG, S. C; HSIAO, Y. C. Mobilizing social capital to pur- MILLS, C. W. A nova classe média [White Collar]. Rio desue entrepreneurship. In: International Engineering Mana- Janeiro: Zahar, 1969.gement Conference (IEEE), p. 684-688, 2004. OZGEN, E; BARON, R. A. Social sources of informationIANNACCONE, L. R; KLICK, J. Spiritual capital: an intro- in opportunity recognition: effects of mentors, industryduction and literature review. 2003. Disponível em: http:// networks, and professional forums. Journal of Businesswww.metanexus.net/spiritual_capital/research_review.asp. Venturing, v. 22, n. 2, p. 174-192, 2007.Acesso em 10.09.2005. PORTES, A. Social Capital: its origins and applications inKOENIG, T; GOGEL, R. Interlocking corporate director- modern sociology. Annual Review of Sociology, n. 24, p.ships as social networks. American Journal of Economics 1-24, 1998.and Sociology, v. 40, n. 1, p. 37-50, 1981. PINHEIRO, M. B. Economia de comunhão: uma experiênciaLIN, N. Building a network theory of social capital. Con- peculiar de economia solidária. In: SINGER, P; SOUZA, A.nections, v. 22, n. 1, p. 28-51, 1999. R. de (Orgs). A economia solidária no Brasil: a autoges- tão como resposta ao desemprego. São Paulo: Contexto,LIN, N. Social capital. In: BECKERT, J.; ZAFIROVSKI, M. 2000. p. 333-351.International Encyclopedia of Economic Sociology. Londonand New York: Routledge, 2006. p. 604-612. PINTO, M. C. S; LEITÃO, S. P. Economia de comunhão: empresa para um capitalismo transformado. Rio de Janei-LIGHT, I. Ethnic enterprise in America: business and wel- ro: FGV, 2006.fare among Chinese, Japanese, and Blacks. Berkeley andLos Angeles: University of California, 1972. PUTNAM, R. D. The prosperous community: social capital and public life. The American Prospect, v. 4, n. 13, 1993.LÓPEZ-RUIZ, O. J. O ethos dos executivos das transna- Disponível em: http://prospect.org. Acesso em 05.03.2007cionais e o espírito do capitalismo. 2004. 375 p. Tese deDoutorado em Ciências Sociais, Instituto de Filosofia e PUTNAM, R. D. Bowling alone: the collapse and revival ofCiências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, American community. New York: Simon & Schuster, 2000.Campinas, 2004. QUARTANA, P. A economia de comunhão no pensamentoMARTES, A. C. B.; RODRIGUEZ, C. L. Church membership, de Chiara Lubich. In: QUARTANA, P. et al. Economia desocial capital, and entrepreneurship in Brazilian commu- comunhão. São Paulo: Cidade Nova, 1992. p. 11-22.nities in the U.S. In: Stiles, C. H; Galbraith, C. S. (Orgs).Ethnic entrepreneurship: structure and process. Boston: SERAFIM. M. C; ANDION, C. Capital espiritual e as rela-Elsevier Ltd., 2004a. v. 1, p. 171-202. ções econômicas: empreendedorismo em organizações230 © R AE n S ão Paulo n v. 52 n n. 2 n mar /abr. 2012 n 2 1 7 - 2 3 1 I SSN 0 0 3 4 -7 5 9 0
    • Mauricio Custódio Serafim Ana Cristina Braga Martes Carlos L. Rodriguezreligiosas. Cad. EBAPE.BR [on-line], v. 8, n. 3, p. 564- WUTHNOW, R. Religion and economic life. In: SMELSER,579, 2010. Disponível em: http://goo.gl/aLsHK. Acesso N. J; SWEDBERG, R. (Eds). The handbook of economic so-em 05.03.2011 ciology. Princeton: Princeton University, 1994. p. 620-646.SHANE, S; VENKATARAMAN, S. The promise of entrepre- WUTHNOW, R. New directions in the study of religion andneurship as a field of research. Academy of Management economic life. In: SMELSER, N. J; SWEDBERG, R. (Eds).Review, v. 25, n. 1, p. 217-226, 2000. The handbook of economic sociology. 2nd ed. Princeton: Princeton University, 2005. p. 603-626.SIEPIERSKI, C. T. Fé, marketing e espetáculo: a dimensãoorganizacional da Igreja Renascer em Cristo. Civitas, v. 3,n. 1, p. 127-146, 2003.SIRMON, D. G; HITT, M. A; IRELAND, R. D. Managing firmresources in dynamic environments to create value: lookinginside the black box. Academy of Management Review, v.32, n. 1, p. 273-292, 2007.SOUZA, A. R. Igreja in concert: padres cantores, mídia emarketing. São Paulo: Annablume; Fapesp, 2005.STEINER, P. A nova sociologia econômica. São Paulo:Atlas, 2006.SWEDBERG, R. Max Weber e a ideia de sociologia econô-mica. Rio de Janeiro: UFRJ; São Paulo: Beca ProduçõesCulturais, 2005.TALLMAN, S; JENKINS, M; HENRY, N; PINCH, S. Knowledgeclusters and competitive advantage. Academy of Manage-ment Review, v. 29, n. 2, p. 258-271, 2004.THORNTON, P. H. The sociology of entrepreneurship. An-nual Review of Sociology, v. 25, p. 19-46, 1999.WEBB, J. W; IRELAND, R. D; HITT, M. A; KISTRUCK,G. M; TIHANYI, L. Where is the opportunity withoutthe customer? An integration of marketing activities,the entrepreneurship process, and institutional theory.Journal of the Academy of Marketing Sciences, v. 39, p.537-554, 2011.WEBER, M. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo.São Paulo: Companhia das Letras, 2004.WHYTE JR, W. H. The organization man. New York: Si-mon & Schuster, 1956.WORTHAM, R. A; WORTHAM, C. B. Spiritual capital andthe “good life”. Sociological Spectrum, v. 27, n. 4, p. 439-452, 2007.I S SN 0034-7590 © R AE n Sã o Pa ul o n v. 5 2 n n. 2 n ma r /a b r. 2 0 1 2 n 2 1 7 - 2 3 1 231