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  • 1. AS CEBS E SEUS DESAFIOS HOJE:UM OLHAR SOBRE A CONJUNTURA E A HISTÓRIAI. A HERANÇA DE JESUS E DAS PRIMEIRAS COMUNIDADESII. CEBs: HERDEIRAS DE MÚLTIPLAS HERANÇAS ECLESIAISII.1. A HERANÇA DO CONCÍLIO VATICANO II (1962-1965)II. 2. AS CEBS NA IGREJA DO BRASIL2.1. A HERANÇA DO PLANO DE PASTORAL DE CONJUNTO, O PPC (1965)2.2. CEBS NAS POSTERIORES DIRETRIZES PARA A AÇÃO PASTORAL DAIGREJA DO BRASIL.2.3. A HERANÇA DO DOCUMENTO 25 DA CNBB: COMUNIDADES ECLESIAISDE BASE NA IGREJA DO BRASILIII. CEBS, E SUA HERANÇA LATINO-AMERICANA DE MEDELLÍN A APARECIDAIII.1. AS CEBS EM MEDELLÍNIII.2. AS CEBS EM PUEBLAIII.3. AS CEBS EM SANTO DOMINGOIII.4. AS CEBS EM APARECIDAIV. AS CEBS NA AGENDA E NO HORIZONTE DA IGREJA UNIVERSALIV.1. O SÍNODO DA EVANGELIZAÇÃO E A EXORTAÇÃO APOSTÓLICAEVANGELII NUNTIANDIIV.2. MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II ÀS CEBS DO BRASILV. A HERANÇA DAS CEBS NOS SEUS DOZE INTERECLESIAIS.ANEXO I – CARTA DO XII INTERECLESIAL DE PORTO VELHOANEXO II – CNBB – MENSAGEM AO POVO DE DEUS SOBRE AS CEBs – Brasília:12-05-2010
  • 2.  AS CEBs E SEUS DESAFIOS HOJE:UM OLHAR SOBRE A CONJUNTURA E A HISTÓRIA1Quando nos propomos examinar uma determinada conjuntura social, política ou eclesial, éimportante descobrir, por detrás dos acontecimentos que se sucedem, aqueles elementos que são decaráter mais permanente. Estes mudam também, mas de maneira mais lenta, sem perder certospontos de referência.Essas duas dimensões, quando se trata das Comunidades de Base, são ainda maisimportantes, pois do ponto de vista estrutural, as comunidades deitam suas raízes no próprio sonhode Jesus e na sua prática messiânica, no anúncio do Reino de Deus entre os homens e mulheres deseu tempo e na formação de um grupo de seguidoras e seguidores de Jesus, de discípulos ediscípulas, de apóstolos e apóstolas.O sonho e a prática de Jesus foram depois levados adiante pelas comunidades nascidas daboa notícia do evangelho e da prática de Jesus, de sua morte e ressurreição e da missão dada aosseus discípulos e discípulas:“Vão, portanto, e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos...” (Mt 28, 19).Retornando ao tema das raízes das comunidades, o X Encontro Intereclesial das CEBs emIlhéus, BA, no ano 2.000, quis celebrar e entrelaçar três eventos:- os 25 anos do I Encontro Intereclesial em Vitória, ES (1975-2000),- os 500 anos da entrada conflituosa dos portugueses - militares, administradores, colonos ereligiosos - no Brasil (1500-2000),- e os 2000 anos de caminhada das comunidades.Isso estava espelhado no tema e no lema do X Intereclesial:“CEBs, POVO DE DEUS, 2000 ANOS DE CAMINHADA”O lema seguia a mesma inspiração:“Memória e Caminhada, Sonho e Compromisso”.Na Carta final do Encontro de Ilhéus, os delegados escreveram às demais comunidades:“Na grande tradição bíblica do ´[...] nossos pais nos contaram´, as comunidades semprevalorizaram muito a memória, pois sabem que Deus fala na história concreta do povo. Sabemtambém que um povo que tem consciência de sua história, é capaz de evitar as falhas do passado,de reforçar os acertos e de dar passos firmes rumo ao futuro. Por isso, nos debruçamos sobre os2000 anos de nossa caminhada. Começamos com Jesus e seus primeiros seguidores e seguidoras,que foram perseverantes no ensinamento dos apóstolos e das apóstolas, na missão, na fração dopão, na oração e na partilha fraterna dos bens”.                                                            1Esse texto foi preparado originalmente como roteiro de assessoria aos delegados do “Dozinho”, realizado em PortoVelho, nos dias 26, 27 e 28 de setembro de 2008, como preparação ao XII Intereclesial que aconteceu na mesma cidadede 21 a 25 de julho de 2009, tendo por tema: “Ecologia e Missão” e, por lema “CEBs: Ecologia e Missão – Do ventreda terra, o grito que vem da Amazônia”. Foi depois reformulado em vista da escolha das CEBs como um dos temasprioritários da 48ª. Assembléia Geral da CNBB em Brasília de 3 a 13 de maio de 2010. Para palestra na ComunidadeMoisés Libertador da Paróquia São Paulo Apóstolo em São Paulo, no dia 30 de agosto de 2011, foi acrescentado oAnexo II: Mensagem da CNBB ao Povo de Deus sobre as Comunidades Eclesiais de Base (Brasília, 12-05-2010).
  • 3. Vamos dividir nossa apresentação em dois momentos, o primeiro de caráter mais estrutural eo segundo de cunho conjuntural2.ELEMENTOS MAIS ESTRUTURAIS DA CONJUNTURA DAS CEBsSe nos debruçarmos, pois, sobre as ESTRUTURAS mais permanentes que sustentam einspiram a caminhada das CEBs, devemos resgatar referências de pelo menos cinco ordens:I. A herança de Jesus e das primeiras comunidades;II. A herança do Concílio Vaticano II (1962-1965) e da Igreja do Brasil;III. A herança de Medellín e das demais Conferências do Episcopado Latino-americano ecaribenho, Puebla, Santo Domingo e Aparecida.IV. A entrada das CEBs na agenda e no horizonte da Igreja UniversalV. A herança das CEBs do Brasil, nos seus doze Intereclesiais.I. A HERANÇA DE JESUS E DAS PRIMEIRAS COMUNIDADESJesus curou individualmente a sogra de Pedro (Mc 1, 29-31), ressuscitou o filho da viúva deNaim (Lc 7, 11-17), o cego de nascença (Jo 9, 1-41), mas muitas vezes acudiu coletivamente a todosos que acorriam a ele, na esperança de ver curadas suas enfermidades:“À tarde, depois do por do sol, levavam a Jesus todos os doentes e os que estavam possuídospelo demônio. A cidade inteira se reuniu na frente da casa. Jesus curou muitas pessoas de váriostipos de doença e expulsou muitos demônios” (Mc 1, 32-34).Noutros momentos, comoveu-se diante das necessidades da multidão, pois as pessoas quechegavam de todos os lados eram como “ovelhas sem pastor” (Mc 6, 34).Na narrativa da segunda multiplicação dos pães em Mateus, Jesus preocupa-se ainda com afome do povo:“Tenho compaixão da multidão, porque já faz três dias que está comigo e não tem o quecomer. Não quero despedi-la em jejum, por receio de que possa desfalecer pelo caminho”(Mt 15,32).Na narrativa da primeira multiplicação no evangelho de Marcos, ao fim do dia, quando osdiscípulos queriam despedir o povo, insistiu Jesus com eles:“Vocês é que têm que lhes dar de comer” (Mc 6, 37).                                                            2Entre os elementos importantes da conjuntura atual, há os de caráter eclesial e os que advêm de transformações nasociedade. Do ponto de vista eclesial, a V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, em Aparecida, reafirmoua centralidade da comunidade, em suas várias configurações, como a maneira normal de toda a Igreja ser, viver e atuar;reafirmou a relevância e legitimidade das comunidades eclesiais de base, um dos rostos fundamentais da caminhada daIgreja latino-americana inaugurada em Medellín. Na sociedade em geral, o fenômeno da globalização e de umaeconomia de mercado, ao mesmo tempo dominante e excludente, acompanhada da explosão da comunicação e das redesdigitais, com a universalização da internet, vêem modelando as relações econômicas e sociais. O contexto em que asCEBs são chamadas a atuar tornou-se predominantemente urbano em todo o continente, num clima de exacerbadoindividualismo, de competição religiosa, com o avanço de dois fenômenos concomitantes: o dos que se declaram “semreligião”, inclusive em setores empobrecidos das periferias metropolitanas e o dos movimentos e igrejas pentecostais eneo-pentecostais. Essa nova conjuntura não será abordada nesse texto, por merecer uma exposição mais ampla edocumentada.
  • 4. E a partir da partilha dos cinco pães e dois peixes repartidos com a multidão, ainda foramrecolhidos doze cestos cheios de pedaços de pão e de peixe, depois que todos se saciaram (Mc 6, 35-44). Para todos os evangelistas, foram cinco mil homens os que comeram no relato dessa primeiradas multiplicações narradas pelos evangelhos. Mateus acrescenta, entretanto, que foram cinco milhomens, “sem contar mulheres e crianças” (Mt. 14,21). Repete isoladamente a mesma observação apropósito da segunda multiplicação dos pães, dizendo que comeram quatro mil homens, “sem contarmulheres e crianças” (Mt 15, 38). Supondo-se que as mulheres foram pelo menos tão numerosasquanto os homens e que vieram carregando em sua maioria pelo menos uma criança, já deveríamosmultiplicar por três o número inicial, pensando numa multidão de mais ou menos quinze milpessoas!Jesus enxerga ainda no encontro entre as pessoas e nas relações que estabelecem entre si decuidado mútuo, amizade, serviço, ternura ou amor, um primeiro esboço de comunidade e faz umapromessa surpreendente:“[...] onde dois ou três estiverem reunidos no meu nome, eu estou aí no meio deles” (Mt 18,20).Da prática das primeiras comunidades nos Atos dos Apóstolos, ficamos sabendo acercadaqueles quatro elementos que não podem faltar em suas vidas e na sua prática:- a Palavra de Deus (doutrina dos apóstolos),- a comunhão e a solidariedade fraternas entre si e com os mais necessitados,- a fração do pão (eucaristia),- a oração,“Eles eram perseverantes em ouvir os ensinamentos dos apóstolos, na comunhão fraterna,no partir do pão e nas orações. [..] Todos os que abraçaram a fé eram unidos e colocavam emcomum todas as coisas, vendiam suas propriedades e seus bens e repartiam o dinheiro entre todos,conforme a necessidade de cada um” (At 2, 42-45).Na experiência das primeiras comunidades e durante os primeiros trezentos anos, o lugaronde nascia e se desenvolvia a comunidade, era a CASA daquelas pessoas que aderiam aoCAMINHO (At 9, 2; 18, 25.26; 19, 9.19, 23).“Povo do Caminho” ou “Povo da Caminhada”, como dizemos, hoje, foi um dos primeirosnomes que receberam os seguidores do Ressuscitado, que já havia chamado a si mesmo de“Caminho”, no evangelho de São João:“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6).Sobre a centralidade da CASA, como berço e chão das comunidades, os Atos dos Apóstolose as Cartas de Paulo nos dão inúmeros testemunhos.Retomo do artigo, “CEBs, o que são?” do site <www.cebsuai.org.br>, as referências abaixo:“Em Atos dos Apóstolos, vamos encontrar casas acolhedoras, a serviço da evangelização,como são:- a casa de Judas (9,11);- a casa de Tabita (9,36ss);- a casa de Cornélio (10,1ss);- a casa de Maria, mãe de João Marcos (12,12ss);- a casa de Lídia (16,14ss.40);- a casa de Priscila e Áquila (18,1ss)...
  • 5. Também o apóstolo Paulo, fundador de muitas comunidades e hóspede de tantas casas queo acolheram ao longo de suas viagens missionárias, recordará, com alegria, a acolhida recebida nasigrejas reunidas nas casas:“Saudações a Prisca e Áquila... Saúdem também a igreja que se reúne na casa deles” (Cartaaos Romanos 16, 3.5; cf. 1ª Carta aos Coríntios 16,19).“Saúdem os irmãos de Laodicéia, como também Ninfas e a igreja que se reúne na casadele” (Carta aos Colossenses 4,15).“Paulo, prisioneiro de Jesus Cristo... à igreja que se reúne na casa de Filemon” (Carta aFilemon 1,1.2)...A CASA é, assim, para as primeiras comunidades cristãs, o lugar de encontro. Encontra-seaberta aos vizinhos, amigos, irmãos e aos necessitados e necessitadas, em especial, as viúvas, ondetodos procuram conhecer-se mais e melhor, dividir os problemas e dificuldades à luz da Palavra,para encontrar caminhos que ajudem a transformar o sonho do reino de Deus em realidade vividapor todos.Por isso, a CASA será lugar de abastecimento da fé, onde todos renovam e revigoram suasforças e energias, para cumprir, no mundo, o mandato de Jesus: “Vão pelo mundo inteiro eanunciem a Boa Notícia!” (Mc 16,15)
  • 6. II. CEBs: HERDEIRAS DE MÚLTIPLAS HERANÇAS ECLESIAISII.1. A HERANÇA DO CONCÍLIO VATICANO II (1962-1965)O Papa João XXIII (1958-1963), ao anunciar sua decisão de convocar um Concílioecumênico, para a reforma da Igreja e para buscar a unidade entre os cristãos (25-01-1959) colocouem marcha um grande processo de renovação da Igreja.Para o surgimento das Comunidades Eclesiais de Base, foi crucial a definição conciliar sobrea Igreja, como “Povo de Deus”, na Lumen Gentium (LG, Luz das Nações). A LG define a Igreja,primeiro com inúmeras imagens bíblicas (redil, cuja porta é o Cristo, rebanho do Bom Pastor,lavoura e campo de Deus, construção de Deus, casa de Deus, onde habita sua família, tenda de Deusentre os homens e seu templo santo, Jerusalém celeste e nossa mãe, esposa imaculada do cordeiro) ecomo fruto da encarnação e da ação do Espírito Santo. A Igreja, “corpo místico de Cristo”, é aomesmo tempo uma realidade visível e espiritual.O Concílio antepõe ao capítulo III sobre a constituição hierárquica da Igreja e o episcopado,presbíteros e diáconos, o capítulo II, consagrado POVO DE DEUS. Com citação dos Atos dosApóstolos, abre-o da maneira mais universal possível, pois o povo de Deus tende a abraçar toda ahumanidade:“Em qualquer época e em qualquer povo é aceito por Deus todo aquele que O teme e praticada justiça (cfr At 10, 35)” (LG 9 [24]).O Concílio acrescenta que “Cristo Senhor, Pontífice tomado dentre os homens (cfr Heb 5, 1-5), fez do novo povo ‘um reino de sacerdotes para Deus Pai´ (Ap 1, 6, cfr 5, 9-10)” (LG 10 [27]).Para esse povo ao qual todos os homens e mulheres são chamados a pertencer, a porta deingresso é nossa vocação batismal. Do batismo, que cria um “povo sacerdotal”, brotam todos osministérios, os ordenados e os não ordenados e somos enxertados no único e mesmo tronco, JesusCristo, e santificados pelo único e mesmo Espírito. Do batismo, deriva a vocação e a missão para setecer ecumenicamente os caminhos para a unidade de todos os cristãos e cristãs, em obediência àprece de Jesus: “… para que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti” (Jo 17, 21).A LG, no seu número 8, estabelece um paralelo entre Cristo e a Igreja na sua relação com ospobres: “Do mesmo modo que Jesus Cristo consumou a sua obra de redenção na pobreza e naperseguição, assim também, a Igreja é chamada a seguir o mesmo caminho para poder comunicaraos homens os frutos da salvação. Cristo Jesus, tendo ´condição divina… esvaziou-se a si mesmo eassumiu a condição de servo´ (Fl 2, 6-7) e, por causa de nós, ´ele que era rico, fez-se pobre´ (2Cor8, 9)”. Cristo foi enviado pelo Pai ´para evangelizar os pobres… a proclamar a remissão aospresos´ (Lc 4, 18), ´a procurar e salvar o que estava perdido´ (Lc 19, 10): de modo semelhante aIgreja envolve em seus cuidados amorosos todos os angustiados pela fraqueza humana, e mais,reconhece nos pobres, nos que sofrem, a imagem do seu Fundador, pobre e sofredor, esforça-se poraliviar-lhes a indigência, e neles quer servir a Cristo” (LG 8). De modo eminente, as CEBstornaram-se a Igreja dos pobres e a presença da Igreja entre os pobres.Com a Dei Verbum, o Concílio ancorou toda a renovação eclesial no reencontro com aPalavra de Deus, sua escuta, meditação, anúncio, celebração. Com a Leitura Popular da Bíblia, aPalavra de Deus tornou-se companheira fiel e constante na caminhada das CEBs.A proposta do Concílio deu nova consciência à nossa pertença eclesial, bem expressa nolema da primeira Campanha da Fraternidade da Igreja do Brasil, em 1964: “TODOS SOMOSIGREJA”.
  • 7. Com o seu documento, a Igreja no Mundo de Hoje, a Gaudium et Spes (GS - Alegria eEsperança), o Concílio também nos mostrou o lugar onde a Igreja deve acampar: no coração domundo, atenta às angústias e necessidades, alegrias e esperanças dos homens e mulheres de hoje.II. 2. CEBs NA IGREJA DO BRASILII.2.1. A HERANÇA DO PLANO DE PASTORAL DE CONJUNTO, O PPC (1965)Os bispos do Brasil traduziram e sintetizaram o conjunto da obra e das exigências conciliaresem seis linhas de ação pastoral propostas pelo PLANO DE PASTORAL DE CONJUNTO, o PPC,aprovado ainda em Roma, ao final do Concílio, em novembro de 1965:1. Promover uma sempre mais plena unidade visível no seio da Igreja;2. Promover a ação missionária,3. Promover a ação catequética, o aprofundamento doutrinal e a reflexãoteológica;4. Promover a ação Litúrgica;5. Promover a ação ecumênica;6. Promover a melhor inserção do povo de Deus como fermento na construçãode um mundo segundo os desígnios de Deus3.Dentro da primeira linha de trabalho, ao tratar do tema da Igreja, surge por primeira vez numdocumento oficial da Igreja do Brasil e quiçá da Igreja toda, a proposta das comunidades de base. Osbispos acharam que eram elas a maneira de se concretizar muitas das melhores intuições doConcílio, de modo particular, aquela de que a Igreja deve ser sempre, em primeira e última instância,uma COMUNIDADE, com laços de amor, comunhão e de serviços, na multiplicidade dos dons,carismas e ministérios dos batizados que nela ingressam.Diz o PPC: “Nossas paróquias atuais são deveriam ser compostas de várias comunidadeslocais ou COMUNIDADES DE BASE (realce nosso), dada sua extensão, densidade demográfica epercentagem de batizados a elas pertencentes de direito. Será, pois, de grande importânciaempreender a renovação paroquial, pela criação ou dinamização destas comunidades de base.NELAS DEVEM SER DESENVOLVIDAS, NA MEDIDA DO POSSÍVEL, AS SEIS LINHASFUNDAMENTAIS DA AÇÃO DA IGREJA” (realce nosso)4.Essa ênfase nas comunidades de base, só cresceu nos anos seguintes, tornando-se o mais dasvezes prioridade número um das Diretrizes da CNBB, dos Planos de Pastoral dos Regionais e dasDioceses.O PPC que devia vigorar entre 1966-1970, foi reconfirmado para outros quatro anos (1971-1974).II.2.2. CEBs E A HERANÇA DAS POSTERIORES DIRETRIZESPARA A AÇÃO PASTORAL DA IGREJA DO BRASIL.Para o quatriênio 1975-1978, a CNBB adotou nova formulação para seu planejamentopastoral, “Diretrizes gerais da Ação Pastoral da Igreja do Brasil”. Manteve, de todo modo, as seis                                                            3CNBB, Plano de Pastoral de Conjunto 1966-1970. Rio de Janeiro: Livraria Dom Bosco Editora, 1966, pp. 51-88.4PPC, p. 58
  • 8. linhas do PPC, mas dando maior espaço às comunidades de base, como exigência para se responderao grande número de fieis e às enormes extensões territoriais das dioceses e paróquias:“Para que na Igreja local, extensa territorial e populacionalmente, seja visível o mistério decomunhão, é necessário que se estruture em comunidades menores, sempre vinculadas ao ministérioapostólico, quais sejam: a paróquia e as comunidades de base”5.As Diretrizes colocam ainda sua multiplicação como grande desafio pastoral:“Um dos principais desafios da ação pastoral no Brasil é, certamente, a multiplicação das´comunidades de Base´, que possam responder ao anseio do povo para uma vida plenamente eclesialalimentada pela palavra de Deus e os sacramentos, especialmente a Eucaristia.Essas comunidades assumirão dimensões e formas tais que permitam uma vida realmentecomunitária, fraternal, que as torne ‘sinal de comunhão e de unidade’ em seu meio (cf. AA 18, § 2º.E 3º.). Elas são chamadas a constituir, nos diversos lugares e ambientes, ‘comunidades de amor’ e‘comunidades de fé’: ‘É no amor que tiverdes uns pelos outro que vos reconhecerão meusdiscípulos’” 6.Nessas Diretrizes (1975-1978), aparece por primeira vez, num documento oficial da CNBB,a expressão “COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE”, CEBs, como ficarão mais conhecidas.Dentre as atividades propostas para o Setor A – Estruturas de Igreja, aparece a seguinte:“6. Suscitar e apoiar processos pastorais que visem a criação de COMUNIDADESECLESIAIS DE BASE, seja a partir das paróquias, e através de grupos na zona urbana, seja a partirdas capelas nas zonas rurais”7.Arrancando da anterior estrutura eclesial, são apontados dois diferentes espaços para osurgimento das CEBs: a partir das paróquias, através de GRUPOS na zona urbana e a partir dasCAPELAS, nas zonas rurais.No desenvolvimento da Linha 3, dedicada à Ação Missionária, aparece a proposta depreparação específica de ANIMADORES DE CEBs8.Ao traçar diretrizes para a linha 6, Presença da Igreja no Mundo, a ser concretizada noesforço de “Promover a ação profética do Povo de Deus e a consciência de sua responsabilidadecomo fermento de libertação do mundo, segundo os desígnios de Deus”, as CEBs reaparecem, tantono âmbito da formação, quanto da ação:“Ação eclesial revela-se essencialmente por um profundo senso de uma permanenteeducação comunitária. A longa e paciente pedagogia, tendo em vista criar a co-responsabilidade eparticipação consciente de todos e cada um dos membros da Igreja, e exigência básica do próprio sereclesial”9.Esse capítulo termina apresentando a renovação de lideranças e práticas que acontecem nasCEBs, como sinal de que o mesmo processo pode ganhar corpo em outros âmbitos da sociedadecivil:“As Comunidades Eclesiais de Base, enquanto manifestam novas forças emergentessuperando as antigas e diferentes lideranças são testemunho de que algo semelhante pode ser levadoa efeito junto às forças vivas dos meios de comunicação social e instituições educacionais”10.                                                            5CNBB, Diretrizes Gerais da Ação Pastoral da Igreja do Brasil. Documento 4. São Paulo: Paulinas, 1975, p. 37.6Ibidem, p. 37.7Ibidem, p. 42.8Ibidem, p. 659Ibidem, 79.10Ibidem, 82.
  • 9. As novas Diretrizes, aprovadas para o quatriênio seguinte (1979-1982)11, vêm mais enxutas enum tom profético. Partem da opção preferencial pelos pobres e ecoam fortemente a experiência daIgreja continental em Puebla. Retomam pontos importantes do Sínodo sobre a Evangelização e daExortação pós-sinodal, Evangelii Nuntiandi, de Paulo VI.Sobre as CEBs, o tom é mais caloroso e esperançoso:“As CEBs ‘esperança da Igreja’(EN 58), especialmente em nosso país, e outras formas decomunhão na Igreja Particular, continuam sendo o lugar privilegiado de participação livre eresponsável em comunhão fraterna, onde as pessoas se abrem à luz da Palavra de Deus, para umnovo tipo de vida mais humana e evangélica (cf P 629).Cada comunidade eclesial deveria esforçar-se por constituir para o Continente um exemplode modo de convivência onde consigam unir-se a liberdade e a solidariedade, onde a autoridade seexerça com o espírito do Bom Pastor, onde se viva uma atitude diferente diante da riqueza, onde seensaiem formas de organização e estrutura de participação, capazes de abrir caminho para um tipomais humano de sociedade, e, sobretudo, onde inequivocamente se manifeste que, sem uma radicalcomunhão com Deus em Jesus Cristo, qualquer outra forma de comunhão puramente humana acabase tornando incapaz de sustentar-se e termina fatalmente voltando-se contra o próprio homem [36].A constante renovação da vida comunitária eclesial chamada a ser sinal e sacramento dafraternidade que Cristo trouxe a todos os homens, será também um meio dos mais eficientes paraque a Igreja contribua na criação de uma nova sociedade, mais justa e mais fraterna, baseada sobre aparticipação de todos os cidadãos, em igualdade de condições, na decisão do destino da sociedade (P1308). O desafio é imenso [37].É necessário criar no homem brasileiro ‘uma sã consciência social, um sentido evangélicocrítico face à realidade, um espírito comunitário e um compromisso social’ (P 1308). O desafio éimenso [38].Muito ajudou neste sentido o esforço eclesial dos pastores que souberam ser a voz daquelesque não tinham voz nem vez [39].Agora, porém, além de falar do pobre e pelos pobres, é preciso que estejamos unidos aospobres” [40].Mais adiante, quando as Diretrizes tratam da Linha 1 e das diversas estruturas departicipação e comunhão, voltam-se para as CEBs:“3. A continuidade e o desenvolvimento das CEBs como modelos concretos de comunhão eparticipação, sejam manifestações claras da opção pelos pobres (cf. P 642-643) [61/3].II.2.3. A HERANÇA DO DOCUMENTO 25 DA CNBB:COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE NA IGREJA DO BRASIL.O crescimento das CEBs não chegou sem tensões e sofrimentos, mormente depois daabertura política, da constituição de novos partidos e de uma grande efervescência não somente nocampo social, mas também no campo político e político partidário. Era como se a barragem de quaseduas décadas de regime militar e o represamento forçado das correntes de opinião e dos mecanismosde ação política na sociedade tivessem se rompido. Nessa torrente, sindicatos, associações, novospartidos e também CEBs, pastorais e movimentos eclesiais tiveram que navegar, sem muitas balizas.Devagar, critérios de participação e normas pastorais foram sendo elaborados e testados, semeliminar inteiramente os riscos, seja de envolvimento apressado nas batalhas políticas, seja de                                                            11CNBB, Diretrizes Gerais da Ação Pastoral da Igreja no Brasil. Documentos CNBB 15. São Paulo, Paulinas, 1980.
  • 10. retraimento frente ao inarredável compromisso com os pobres e suas causas e o combate em favorda justiça e da promoção humana.Havia também novas questões ligadas à multiplicação de ministérios leigos e à vida eclesialdas CEBs. O Conselho Permanente da CNBB, reunido de 23 a 26 de novembro de 1982 discutiu eaprovou um documento que se tornou a referência mais importante para a caminhada das CEBs noBrasil, tendo por título: Comunidades Eclesiais de Base na Igreja do Brasil12.Nos quatro primeiros parágrafos, os bispos sintetizam sua visão sobre as CEBs e a relevânciana vida da Igreja e do povo no Brasil:“1. As Comunidades Eclesiais de Base constituem hoje, em nosso país, uma realidade queexpressa um dos traços mais dinâmicos da vida da Igreja, e, por motivos diversos, vai despertando ointeresse de outros setores da sociedade.2. Podemos fazer nossas as palavras dos bispos em Puebla: ‘As comunidades de base que,em 1968, eram apenas uma experiência incipiente, amadureceram e multiplicaram-se. Em comunhãocom seus bispos, converteram-se em centros de evangelização e em motores de libertação edesenvolvimento’ (DP 96).3. Fenômeno estritamente eclesial, as CEBs em nosso país nasceram no seio da Igreja-instituição e tornaram-se ‘um novo modo de ser Igreja’. Pode-se afirmar que é ao redor delas que sedesenvolve, e se desenvolverá cada vez mais, no futuro, a ação pastoral e evangelizadora da Igreja.4. Fator de renovação interna e novo modo de a Igreja estar presente no mundo, elasconstituem, por certo, um fenômeno irreversível, senão nos detalhes de sua estruturação, ao menosno espírito que as anima”.O documento desdobra-se em uma introdução e três capítulos:- As Comunidades Eclesiais de Base no Brasil: Origem e caminhada;- A eclesialidade das CEBs;- Alguns aspectos particulares da Pastoral das CEBsNeste último capítulo, são abordados alguns temas relevantes ou conflituosos naquelemomento, muitos dos quais permanecem cruciais nos dias de hoje:- As CEBs e os pobres- CEB e dimensão sócio-política da evangelização- As CEBs, a luta comum pela justiça e os movimentos populares- A CEB e os movimentos de leigos- A coordenação e responsabilidade última nas CEBs- As CEBs, alvo de interesse e incompreensão.O documento 25 da CNBB continua sendo uma madura e válida orientação para a caminhadadas CEBs na Igreja do nosso país, sobretudo por não camuflar ou esconder as dificuldades eproblemas que podem acontecer na vida das comunidades e que precisam ser enfrentadosconjuntamente por elas e pela Igreja toda, na ajuda mútua e na eventual correção fraterna.III. CEBs, E SUA HERANÇA LATINO-AMERICANADE MEDELLÍN A APARECIDA                                                            12CNBB, Comunidades Eclesiais de Base na Igreja do Brasil. Documento CNBB 25. São Paulo: Paulinas, 1982.
  • 11. III.1. AS CEBs EM MEDELLÍNAo iniciar-se a quarta e última sessão do Concílio, os bispos da América Latina e do Caribepediram ao Papa Paulo VI que convocasse uma II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano para tratar da recepção do Concílio na realidade do povo desse continente. Paulo VIacedeu ao pedido e a II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano aconteceu em Medellínna Colômbia, de 25 de agosto a 07 de setembro de 1968.Importante em Medellín foi a decisão por parte dos Bispos de propor, em fidelidade aoConcílio, uma Igreja plantada no coração do mundo. Aprofundaram a seguir essa perspectiva,levantando a questão: Qual é o lugar da Igreja, num mundo dividido entre países da abundância e ospaíses da escassez e da miséria, entre os desenvolvidos e aqueles em vias de desenvolvimento; emnações divididas entre minorias vivendo padrões de riqueza e consumo de primeiro mundo e grandesmaiorias mergulhadas em pobreza e miséria desumanas?Neste mundo dividido, os bispos proclamaram que a Igreja devia ouvir o grito que vinha dopovo, clamando por libertação, devendo colocar-se do lado dos pobres e de sua luta por libertação,em todas as dimensões.Vale a pena retomar a sintética e abrangente descrição das CEBs nas Conclusões deMedellín:“... Por conseguinte, o esforço pastoral da Igreja deve estar orientado para a transformaçãodessas comunidades [de base] em ‘família de Deus’, começando por tornar-se presente nelas comofermento, por meio de um núcleo, mesmo pequeno, que constitua uma comunidade de fé, esperançae caridade (LG 8). Assim, a comunidade cristã de base é o primeiro e fundamental núcleo eclesial,que deve, em seu próprio nível, responsabilizar-se pela riqueza e expansão da fé, como também peloculto que é sua expressão. É ela, portanto, célula inicial de estruturação eclesial e foco deevangelização e atualmente fator primordial de promoção humana e desenvolvimento (MED 15, 10).Depois de Medellín, as outras Conferências do Episcopado Latino-americano, em Puebla, noMéxico (1979), em Santo Domingo, na República Dominicana (1992) e em Aparecida (2007), noBrasil, reforçaram a opção pelos pobres e o compromisso libertador da Igreja, em relação às suasnecessidades e carências.III.2. AS CEBS EM PUEBLANum momento de extrema tensão eclesial, em que o secretário geral do CELAM, Mons.Lopez Trujillo, em articulação com setores importantes do episcopado colombiano, mexicano,argentino, centro-americano buscava condenar as CEBs como “igreja paralela”, “igreja popular”,separada e em contraposição à hierarquia, o conjunto do episcopado desautorizou essa linha.Encontramos em Puebla, posicionamentos que refletem a rica e variegada experiência dasCEBs no continente, assim como as tensões existentes, acompanhadas de algumas advertências.Puebla liga o surgimento dos movimentos comunitários à longa caminhada pastoral da Igrejano continente, onde o protagonismo do laicato se concretizou nas inúmeras irmandades e confrarias.Afirma o documento na sua introdução histórica que estas foram:“... espinha dorsal da vida religiosa dos crentes e a fonte remota, mas fecunda dos atuaismovimentos comunitário da Igreja latino-americana” (P 09).Constata ainda que elas amadureceram e se multiplicaram:
  • 12. “As comunidades eclesiais de base que em 1968 eram apenas uma experiência incipienteamadureceram e multiplicaram-se, sobretudo, em alguns países. Em comunhão com seus bispos ecomo o pedia Medellín, converteram-se em centros de evangelização e em motores de libertação ede desenvolvimento” (P 96).Os bispos reconhecem igualmente sua fecundidade:“A vitalidade das CEBs começa a dar seus frutos: é uma das fontes de onde brotam osministérios confiados aos leigos: animação de comunidades, catequese e missão” (P 97).Lamentam que, por vezes, houve descuido na formação e tensões na esfera política:“Em alguns lugares não se deu atenção conveniente ao trabalho de formação das CEBs. Élamentável que em algumas partes, interesses visivelmente políticos as pretendam manipular eafastar da autêntica comunhão com seus bispos” (P 98).De todos os modos, ao tratarem das tendências da evangelização no futuro, afirmam que aIgreja:“Reconhecerá a validade da experiência das CEBs e estimulará seu desenvolvimento emcomunhão com seus pastores” (P 156).Liga mais adiante CEBs e Pastoral familiar, na luta por superar o agudo individualismo quemarca a realidade contemporânea:“Nota‐se uma reação em muitos países tanto no despontar da pastoral familiar quanto na multiplicação das CEBs, onde se torna possível – a nível de experiência humana – uma intensa vivência da realidade da Igreja como família de Deus” (P 239). Na terceira parte do documento, Puebla volta-se para a Evangelização na Igreja da AméricaLatina, colocando-a sob o signo da feliz expressão cunhada por Dom Luciano Mendes de Almeidada comissão de redação daquela Conferência: “Comunhão e Participação”.Os bispos dedicam todo um capítulo aos centros de comunhão e participação, incluindo aí,depois da família, “as comunidades eclesiais de base, paróquia, igreja particular”. De modo maisdireto, a reflexão sobre as CEBs encontra-se no bloco que vai do número 629 ao 643.Ao final do número 640, os bispos levantam a questão que ainda hoje se repete em muitosambientes eclesiais:“... quando é que uma pequena comunidade pode ser considerada verdadeira comunidadeeclesial de base, na América Latina?” (P 640).Ao longo do número 641, tentam dar a sua resposta, concluindo com citação da EvangeliiNuntiandi, o primeiro documento a acolher a realidade das CEBs ao nível da Igreja universal:“A comunidade eclesial de base, enquanto comunidade, integra famílias, adultos e jovens,numa íntima relação interpessoal na fé. Enquanto eclesial, é comunidade de fé, esperança e caridade:celebra a palavra de Deus, e se nutre da eucaristia, ponto culminante de todos os sacramentos;realiza a Palavra de Deus na vida, através de solidariedade e compromisso com o mandamento novodo Senhor e torna presente e atuante a missão eclesial e a comunhão visível com os legítimospastores, por intermédio do ministério da coordenadores aprovados. É de base por ser constituída depoucos membros, em forma permanente e à guisa de célula da grande comunidade. ´Quandomerecem o seu título de eclesialidade, elas podem reger, em solidariedade fraterna, sua própriaexistência espiritual e humana´(EN 58).” (P 641)III.3. AS CEBS EM SANTO DOMINGO
  • 13. Na IV Conferência Geral do Episcopado Latino-americano,em 1992, as CEBs encontraramseu lugar na segunda parte, que trata de “Jesus Cristo, evangelizador, vivo em sua Igreja”, dentro docapítulo da “Nova evangelização”, quando este aborda o tema “Comunidades eclesiais vivas edinâmicas”.Em seqüência, aparecem a Igreja Particular (SD 55 a 57), a Paróquia (SD 58 a 60) e asComunidades Eclesiais de Base (SD 61 a 63) contempladas em três curtos parágrafos.As CEBs são apresentadas como elemento da estrutura paroquial:“A Comunidade Eclesial de Base é célula viva da paróquia, entendida como comunhãoorgânica e missionária” (SD 61).Esse modo de entender as CEBs apenas no dentro do horizonte paroquial, já fora expressoanteriormente no documento, ao ser definida a missão da paróquia:“A paróquia tem a missão de evangelizar, de celebrar a liturgia, de fomentar a promoçãohumana, de fazer progredir a inculturação da fé nas famílias, nas CEBs, nos grupos e movimentosapostólicos, e através deles, em toda a sociedade. A paróquia, comunhão orgânica e missionária, éassim uma rede de comunidades” (SD 59).Ao lado do conceito novo e estimulante para a vida paroquial, de se propor a paróquia, como“rede de comunidades”, essa perspectiva reflete de certo modo, a entrada em vigor do novo Códigode Direito Canônica em 1985, em que a menor estrutura eclesiástica, com personalidade jurídica,canonicamente reconhecida, é a paróquia (Canon 515 § 3).Essa lacuna no Código, levou um pouco, por toda a parte, a um movimento de perplexidadeperante as CEBs, de interrogação sobre os termos de sua eclesialidade, dentro de uma estruturacanônica que não a contemplava e à busca de sua “paroquialização”, ou seja de sua absorção eenquadramento dentro das estruturas paroquiais tradicionais.Foi muito menor o movimento inverso de se questionar justamente essas estruturasparoquiais, para tornar a paróquia, como propunha Santo Domingo, uma “rede de comunidades”.Santo Domingo reconhece o protagonismo dos leigos nas CEBs, chamados a animá-las:“A CEB, em si mesma, ordinariamente integrada por poucas famílias, é chamada a vivercomo comunidade de fé, de culto e de amor; será animada por leigos, homens e mulheresadequadamente preparados no processo comunitário; os animadores estarão em comunhão com opároco respectivo e o bispo” (SD 61).Insiste, por outro lado na estreita vinculação dos leigos ao respectivo pároco e bispo. Sob oprisma da comunhão recíproca e respeitosa que deve reinar na Igreja, a insistência é inteiramentelegítima. Nalguns lugares, porém, comunhão foi interpretada como subordinação pura e simples,gerando um processo de decapitação das lideranças comunitárias mais adultas e amadurecidas, comretorno a formas ultrapassadas de autoritarismo clerical, na relação entre paróquia e comunidades,entre pároco e lideranças comunitárias. Padeceram as anteriores formas de organização maisautônoma das comunidades, as responsabilidades compartilhadas em conselhos democraticamenteeleitos pelos membros das comunidades e a gestão comunitária e não paroquialmente centralizadados recursos.Sob outro ângulo, a mesma insistência, atravessada por uma ponta de suspeita, retorna nonúmero seguinte:“Quando não existe uma clara fundamentação eclesiológica e uma busca sincera decomunhão, estas comunidades deixam de ser eclesiais e podem ser vítimas de manipulaçãoideológica e política” (SD 62).Santo Domingo conclui, enfatizando dois pontos que considera necessários:
  • 14. “—Ratificar a validade das comunidades eclesiais de base, fomentando nelas o espíritomissionário e solidário e buscando sua integração com a paróquia, com a diocese e com a Igrejauniversal, em conformidade com os ensinamentos da Evangelii Nuntiandi (cf. n. 58).-- Elaborar planos de ação pastoral que assegurem a preparação de animadores leigos queassistam estas comunidades, em íntima comunhão com o pároco e com o bispo” (SD 63).Em três outros lugares, a Conferência retorna à temática das CEBs:Em primeiro lugar, quando se refere à atuação dos leigos e leigas na Igreja e ao seu empenhomissionário:“Hoje, como um sinal dos tempos, vemos um grande número de leigos comprometidos naIgreja: exercem diversos ministérios, serviços e funções nas comunidades eclesiais de base ouatividades nos movimentos eclesiais. Cresce sempre mais a consciência de sua responsabilidade nomundo e na missão ´ad gentes´. Aumenta assim o sentido evangelizador dos fiéis cristãos. Os jovensevangelizam os jovens. Os pobres evangelizam os pobres” (SD 95).Em segundo lugar, ao descrever a situação e atuação das mulheres:“Na família e na construção do mundo, hoje, ganha terreno uma maior solidariedade entrehomens e mulheres, mas fazem falta passos mais concretos rumo à igualdade real e à descoberta deque ambos se realizam na reciprocidade.Tanto na família, como as comunidades eclesiais de base enas diversas organizações de um país, as mulheres são as que sustentam e promovem a vida, a fé eos valores” (SD 106). Nos compromissos pastorais, Santo Domingo considera urgente:“Desenvolver a consciência dos sacerdotes e dirigentes leigos para que aceitem e valorizem amulher na comunidade eclesial e na sociedade, não só pelo que elas fazem, mas, sobretudo, pelo queelas são” (SD 108).Finalmente, ao abordar os desafios pastorais da cidade, Santo Domingo recomenda:“Multiplicar as pequenas comunidades, os grupos e movimentos eclesiais e as comunidadeseclesiais de base”.Santo Domingo oscila entre uma abordagem positiva e encorajadora das CEBs e outraperpassada por advertências e mecanismos de controle.Nesse sentido, a Conferência de Aparecida trouxe uma retomada da anterior perspectivaaberta por Medellín e Puebla e uma lufada de ar fresco no modo de reconhecer a caminhada dasCEBs, seu testemunho profético, sua vinculação às primeiras comunidades, seu caráter martirial e decélulas iniciais de estruturação eclesial, expressão da opção pelos pobres, numa igreja comprometidacom as lutas pela justiça.III.4. AS CEBs EM APARECIDAEm Aparecida, foi proposta uma Igreja “discípula” de Jesus e toda ela missionária, comespecial apelo às CEBs13, para se colocarem à frente do novo esforço missionário da Igreja, tudo istosintetizado em três parágrafos muito densos, de tom positivo e encorajador:“178. Na experiência eclesial da América Latina e do Caribe, as Comunidades Eclesiais deBase têm sido escolas que têm ajudado a formar discípulos e missionários do Senhor, com otestemunho da entrega generosa, até derramar o sangue, de muitos de seus membros. Elas abraçam a                                                            13Pouco antes da V Conferência, o teólogo chileno, Ronaldo Muñoz, recentemente falecido, escreveu instigante estudo,em cujo centro encontrava-se o modelo de Igreja revelado nas CEBs: “Para uma eclesiologia latino-americana”, inSOTER e AMERINDIA (orgs.), Caminhos da Igreja América Latina e no Caribe – Novos Desafios. São Paulo: Paulinas,2006, pp. 303-321.
  • 15. experiência das primeiras comunidades, como estão descritas nos Atos dos Apóstolos (At 2,42-47).Medellín reconheceu nelas uma célula inicial de estruturação eclesial e foco de fé e evangelização.Enraizadas no coração do mundo, são espaços privilegiados para a vivencia comunitária da fé,mananciais de fraternidade e de solidariedade e alternativa à sociedade atual fundada no egoísmo ena competição desapiedada.179. Queremos decididamente reafirmar e dar novo impulso à vida e missão profética esantificadora das CEBs, no seguimento missionário de Jesus. Elas têm sido uma das grandesmanifestações do Espírito na Igreja da América Latina e do Caribe depois do Vaticano II. Ascomunidades eclesiais de base, no seguimento missionário de Jesus, têm a Palavra de Deus comofonte de sua espiritualidade e a orientação de seus pastores como guia que assegura a comunhãoeclesial. Demonstram seu compromisso evangelizador e missionário entre os mais simples eafastados, e são expressão visível da opção preferencial pelos pobres. São fonte e semente devariados serviços e ministérios a favor da vida na sociedade e na Igreja”14.O alento trazido por Aparecida repercutiu em todo o continente e esteve muito vivo noIntereclesial de Porto Velho, ajudando a se superar certo clima pesado em alguns lugares, onde asCEBs se sentiam por vezes sufocadas, colocadas de lado ou teimando em sobreviver em climaadverso.IV. AS CEBs NA AGENDA E HORIZONTE DA IGREJA UNIVERSALIV.1 – O Sínodo da Evangelização e a Exortação Apostólica Evangelii NuntiandiO Sínodo da Evangelização de 1974, convocado praticamente a uma década de distância doencerramento do Vaticano II, mostrou um rosto surpreendentemente rico e diversificado da Igreja,espelhando assim a fecundidade das orientações conciliares, no sentido de as igrejas particularesprocurarem responder aos desafios concretos de sua realidade local, nacional e continental, criandoassim um rosto próprio.Enquanto as jovens igrejas da África colocavam no centro dos desafios para a evangelização,a superação dos traumas do colonialismo europeu e a busca pela inculturação, como caminho para odesabrochar dos traços de uma igreja com rosto africano, as igrejas da Ásia viam no diálogo com asgrandes religiões, o hinduísmo, o budismo, o islamismo, as religiões tradicionais da China e daOceania, a grande interpelação para o anúncio do evangelho naquele continente.Europa Ocidental, Estados Unidos e Canadá identificavam no crescente secularismo de suasculturas urbanas, técnico-científicas, que passaram a prescindir de Deus, e no materialismo práticode suas sociedades mergulhadas cada vez mais no consumismo e na busca individualista do bem-estar, da riqueza e do prazer, o maior obstáculo para a evangelização. Países da Europa do leste e daÁsia, sob o domínio de estados totalitários e militantemente ateus, que acantonavam a religião aosespaços estritamente privados, expulsando-a da esfera pública, viam nestas estruturas políticas dosregimes comunistas, o empecilho maior para a sobrevivência das igrejas e para sua tarefaevangelizadora.                                                            14O texto aqui reproduzido é o que foi aprovado por todos os bispos delegados a Aparecida no dia 31-05-07, com apenasum voto contrário e duas abstenções. O texto oficial contém, infelizmente, acréscimos, modificações e supressões quenão foram nem discutidos e muito menos aprovados pelos bispos da V Conferência, mas repetidamente repropostos poruma minoria que, por décadas, criou um clima adverso às CEBs no CELAM e em alguns setores da Cúria Romana. Estavisão não foi acolhida pelos bispos em Aparecida, mas foi reinserida no documento depois de terminada a Conferência.Cfr. MUNOZ, Ronaldo, As mudanças no documento de Aparecida, in AMERINDIA, V Conferência de Aparecida –Renascer de uma esperança. São Paulo: Ameríndia – Paulinas, 2008.
  • 16. A América Latina, por sua vez, denunciou o escândalo das estruturas econômicas e políticasde países pretensamente cristãos que mantinham a maioria da população em níveis de extremapobreza, verdadeiro insulto à dignidade humana, como o principal obstáculo ao anúncio doevangelho e do rosto compassivo e libertador de Deus.Da vivência eclesial latino-americana, vieram algumas das passagens mais luminosas da EM,como a que vincula a evangelização à totalidade da vida humana:“Mas a evangelização não seria completa se ela não tomasse em consideração a interpelaçãorecíproca que se fazem constantemente o Evangelho e a vida concreta, pessoal e social dos homens.É por isso que a evangelização comporta uma mensagem explícita, adaptada às diversas situações econtinuamente atualizada: sobre os direitos e deveres de toda pessoa humana e sobre a vida familiar,sem a qual o desabrochamento pessoal quase não é possível; sobre a vida em comum na sociedade;sobre a vida internacional, a paz, a justiça e o desenvolvimento; uma mensagem sobremaneiravigorosa nos nossos dias, ainda sobre a libertação” (EN 23).Do Sínodo, provem ainda a feliz formulação, retomada no documento de Puebla e em tantosdocumentos posteriores da Igreja:“Entre evangelização e promoção humana – desenvolvimento, libertação – existem de fato,laços profundos: laços de ordem antropologia, dado que o homem que há de ser evangelizado não éum ser abstrato, mas é sim um ser condicionado pelo conjunto dos problemas sociais e econômicos;laços de ordem teológica, porque não se pode nunca dissociar o plano da Criação do plano daRedenção um e outro a abrangerem situações bem concretas da injustiça que há de ser combatida eda justiça a ser restaurada; laços daquela ordem eminentemente evangélica, qual é a ordem dacaridade: como se poderia, realmente proclamar o mandamento novo, sem promover na justiça e napaz o verdadeiro progresso do homem? Nós mesmos tivemos o cuidado de salientar isto mesmo, aorecordar que é impossível aceitar ‘que a obra da evangelização possa ou deva negligenciar osproblemas extremamente graves, agitados sobremaneira hoje em dia, pelo que se refere à justiça, àlibertação, ao desenvolvimento e à paz no mundo. Se isso, porventura, acontecesse, seria ignorar adoutrina do Evangelho sobre o amor para com o próximo que sofre e se encontra emnecessidade’(SEDOC 7, 702).Pois bem: aquelas mesmas vozes que, com zelo, inteligência e coragem, ventilaram este temacandente, no decorrer do referido Sínodo, com grande alegria nossa, forneceram os princípiosiluminadores para bem se captar o alcance e o sentido profundo da libertação, conforme ela foianunciada e realizada por Jesus de Nazaré e conforme a Igreja apregoa” (EN 31).Além dessa contribuição no eixo da libertação, as Igrejas da América Latina trouxeram suaexperiência das CEBs no âmbito pastoral e eclesiológico, como dom precioso à caminhada da Igrejatoda, como o reconheceu o Sínodo e depois Paulo VI na sua exortação apostólica:“O Sínodo ocupou-se largamente destas ‘pequenas comunidades’ e por que é que elas hão deser destinatárias especiais da evangelização e ao mesmo tempo evangelizadoras” (EN 58).O Sínodo sentiu-se desafiado a realizar um discernimento no pulular de comunidades demuitos tipos e perfis, bastante diferentes entre si e variando muito de região para região:“Assim, nalgumas regiões, elas brotam e desenvolvem-se, salvo algumas exceções, nointerior da Igreja, e são solidárias com a vida da mesma Igreja e alimentadas pela sua doutrina econservam-se unidas aos seus pastores. Nestes casos assim, elas nascem da necessidade de vivermais intensamente ainda a vida da Igreja; ou então do desejo e da busca de uma dimensão maishumana do que aquela que as comunidades eclesiais mais amplas dificilmente poderão revestir,sobretudo em grandes metrópoles urbanas contemporâneas, onde é mais favorecida a vida de massae o anonimato ao mesmo tempo. Elas poderão muito simplesmente prolongar, a seu modo, no planoespiritual e religioso o culto, o aprofundamento da fé, a caridade fraterna, a oração, comunhão comos Pastores e a pequena comunidade sociológica, a aldeia, ou outras similares. Ou então elas
  • 17. intentarão congregar para ouvir e meditar a Palavra, para os sacramentos e para o vínculo da ágape,alguns grupos que a idade, a cultura, o estado civil ou a situação social tornam mais ou menoshomogêneos, como, por exemplo, casais, jovens, profissionais e outros; ou ainda, pessoas que a vidafaz encontrarem-se já reunidas nas lutas pela justiça, pela ajuda aos irmãos pobres, pela promoçãohumana etc. Ou, finalmente, elas reúnem os cristãos naqueles lugares em que a escassez desacerdotes não favorece a vida ordinária de uma comunidade paroquial. Tudo isto, porém, é supostono interior de comunidades constituídas da Igreja, sobretudo das Igrejas particulares e dasparóquias” (EN 58).A Exortação dedica um parágrafo àquelas comunidades que se separaram da comunhãoeclesial:“Elas não poderiam, sem se dar um abuso de linguagem, se intitular comunidades eclesiaisde base, mesmo que elas, sendo hostis à hierarquia, porventura tivessem a pretensão de perseverarna unidade da Igreja. Essa designação pertence às outras, ou seja, àquelas que se reúnem em Igreja,para se unir à Igreja e para fazer aumentar a Igreja” (EN 58).Todo o restante da conclusão está dedicado às CEBs:“Estas últimas comunidades, sim, serão um lugar de evangelização, para benefício dascomunidades mais amplas, especialmente das Igrejas particulares, e serão uma esperança para aIgreja universal, como nós tivemos ocasião de dizer ao terminar o Sínodo, à medida que: elasprocurem o seu alimento na Palavra de Deus e não se deixem enredar pela polarização política oupelas ideologias que estejam na moda, prestes para explorar o seu imenso potencial humano evitema tentação sempre ameaçadora da contestação sistemática e do espírito hipercrítico, sob pretexto deautenticidade e de espírito de colaboração; permaneçam firmemente ligadas à Igreja local em que seinserem, e à Igreja universal, evitando assim o perigo, por demais real, de se isolarem em si mesmas,e depois de se crerem a única autêntica Igreja de Cristo e, por conseqüência, perigo deanatematizarem as outras comunidades eclesiais; mantenham uma comunhão sincera com osPastores que o Senhor dá à sua Igreja, e também com o Magistério que o Espírito de Cristo lhesconfiou; jamais se considerem como o destinatário único ou como o único agente da evangelização,ou por outra, como o único depositário do Evangelho; mas, conscientes de que a Igreja é muito maisvasta e diversificada, aceitem que esta Igreja se encarna de outras maneiras, que não só atravésdelas; elas progridam cada dia na consciência do dever missionário e em zelo, aplicação e irradiaçãoneste aspecto; elas se demonstrem em tudo universalistas e nunca sectárias.Com estas condições assim exigentes, sem dúvida alguma, mas exaltantes, as comunidadeseclesiais de base corresponderão à sua vocação mais fundamental; de ouvintes do Evangelho quelhes é anunciado e de destinatárias privilegiadas da evangelização, próprias se tornarão, semtardança, anunciadoras do Evangelho” (EN 58).IV.2. Mensagem do Papa João Paulo II às CEBs do BrasilQuando de sua primeira visita ao Brasil, em julho de 1980, João Paulo II trouxe preparado,em meio aos 53 discursos, homilias, saudações e pronunciamentos, uma mensagem a ser dirigidaespecificamente para as CEBs do Brasil. Não chegou, entretanto, a pronunciá-la em nenhum dosmuitos lugares que visitou, já que elas permeavam a realidade de cada uma das igrejas locais eestavam presentes por todos os pontos por ele visitados, sem que estivesse previsto um encontroespecífico, como o realizado com os religiosos e os moradores da favela do Vidigal, no Rio deJaneiro; com os jovens em Belo Horizonte; com as comunidades de imigrantes poloneses,
  • 18. ucranianos, italianos e alemães em Curitiba, com os trabalhadores em São Paulo, com osseminaristas em Aparecida ou com os indígenas em Manaus.Em sua mensagem, o Papa resgata inicialmente a importância e relevância das CEBs:“Alegra-me, antes de tudo, poder renovar agora aquela confiança que meu saudosopredecessor, o papa Paulo VI, quis manifestar em relação às Comunidades Eclesiais de Base. A elasconsagrou um parágrafo denso, rico de conteúdo, luminoso em seus conceitos e altamentesignificativo em sua magistral Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi (n. 58). Ele recolhia nestetexto tudo quanto sobre essas comunidades se havia discutido no decorrer do Sínodo dos Bispos de1974, no qual a Divina Providência quis que eu assumisse tarefas de grande responsabilidade15. Jáno decurso da viagem pastoral ao México, três meses após a eleição para o Supremo Pontificado, eutivera a oportunidade de declarar que as Comunidades Eclesiais de Base podem ser um valiosoinstrumento de formação cristã e de penetração capilar do Evangelho na sociedade (Cf.Insegnamenti di Giovanni Paolo II, 1979, pp. 252 ss). Elas o serão na medida em que se mantiveremfieis àquela identidade fundamental tão bem descrita por Paulo VI no citado parágrafo da EvangeliiNuntiandi” (n. 2).16Depois de renovar a confiança expressa por Paulo VII, o Papa concentrou-se nos oitoparágrafos seguintes de sua mensagem, em expressar sua preocupação quanto a manterem as CEBssua identidade eclesial, não se envolverem em política ou com ideologias, cuidarem de sua formaçãoe preservarem os laços de comunhão com seus pastores, terminando com um apelo aos agentes depastoral que acompanham as CEBs:“Acrescentarei que, em todos os casos, um líder de comunidade Eclesial de Base, muitomais do que um mestre, é uma testemunha: a comunidade tem o direito de receber dele exemplopersuasivo de vida cristã, de fé operosa e irradiante de esperança transcendente, de amordesinteressado. Que ele seja ademais um homem que crê na oração e que reza. Na simplicidade emodéstia destas palavras, vai brevemente delineado, amados irmãos, todo um programa. Confio-o àvossa reflexão e, rezando por vós, recomendo-os à assistência divina. Não faltem às vossascomunidades e à vós que as representais os dons que o Espírito concede para a edificação da Igreja(Cf. 1 Cor 14, 12). Que este Espírito faça brotar e crescer em vós, como princípio vital de vossaautêntica eclesialidade um grande amor à mesma Igreja, amor filial, maduro e simples, ao mesmotempo, terno e absoluto capaz de alegria e de sacrifício. Seja este amor a inspiração de vossa vida”(ibidem, n. 10).IV. A HERANÇA DOS INTERECLESIAIS                                                            15O então Cardeal Karol Wojtyla de Cracóvia foi o responsável pela Relatio conclusiva do Sínodo que serviu de basepara a posterior Exortação Apostólica de Paulo VI. A Relatio não foi aprovada pelo plenário, terminando o Sínodo, sema tradicional divulgação das conclusões a que haviam chegado os padres sinodais. O impasse levou os bispos aentregarem ao Papa as propostas dos “circuli minori”, os grupos de trabalho organizados por diferentes idiomas,solicitando-lhe um “serviço” até então inexistente nos anteriores Sínodos, como o confessa o próprio Paulo VI, no inícioda EN: “Queremos fazer isso (a Exortação), ainda um ano depois da terceira Assembléia Geral do Sínodo dos Bispos,dedicado, como é sabido – à evangelização: e fazemo-lo também porque isso nos foi demandado pelos próprios padressinodais. Efetivamente, ao concluir-se essa memorável Assembléia, eles decidiram confiar ao Pastor da Igreja universal,com grande confiança e simplicidade o fruto de todo o seu labor, declarando que esperavam do Papa um impulso novo,capaz de suscitar, numa Igreja ainda mais arraigada na força e na potência imorredoura de Pentecostes, tempos novos deevangelização” (EN 2). A partir de então, deixou de haver a divulgação da palavra própria dos bispos reunidos noSínodo, sintetizada e votada na Relatio finalis. para haver apenas a Exortação pós-sinodal, sob a responsabilidade diretado Papa.16João Paulo II, Mensagem deixada às Comunidades Eclesiais de Base no Brasil (10-07-1980), in Todos osPronunciamentos do Papa no Brasil – Texto integral segundo a CNBB. São Paulo: Loyola, 1980, 6ª. Ed., pp. 257-258.
  • 19. Em cada comunidade que brotou em tantos lugares de norte a sul do Brasil, há algunselementos próprios que fazem parte de sua história e de sua estrutura. Algumas delas nasceram daentrega e dedicação de determinadas pessoas que ofereceram sua casa para acolher a comunidadenascente. Outras foram regadas com o testemunho de pessoas que deram sua vida e derramaram oseu sangue, como aconteceu com o Pe. Josimo Tavares nas comunidades da região do Bico doPapagaio no Tocantins; do Ivair Higino, irmão do Pe. Geraldo, assassinado em 1988 no Acre; do Pe.Ezequiel Ramin, comboniano italiano, por defender lavradores e indígenas de Rondônia.Algumas das comunidades começaram a se encontrar em nível nacional e a partilhar suaexperiência nos Encontros Intereclesiais das CEBs. O Documento 25 da CNBB reconhece nesseencontrar-se ao nível nacional “... aspecto altamente positivo enquanto dinamiza, aprofunda esustenta o ânimo das comunidades que dão, igualmente, um testemunho da vitalidade e ardor peloEvangelho a toda a Igreja. Igualmente, os encontros nacionais têm contado sempre com a presençade bispos que os tem acompanhado” (Doc. 25, n. 85)Vê também a necessidade de que a coordenação geral de cada encontro fosse mais assumidapelo Regional ou diocese que o acolhe (ibidem, n. 86). A recomendação tornou-se realidade, já apartir do V Intereclesial, em Canindé, no Ceará, quando a natural liderança de Dom AloísioLorscheider, cardeal arcebispo de Fortaleza, atraiu o concurso e a ativa e entusiasta cooperação dasdioceses todas do Ceará e do Piauí.No primeiro Intereclesial, em Vitória, no Espírito Santo, em 1975, estiveram presentesdelegados de 13 dioceses. No penúltimo, em Ipatinga, MG, vieram de 240 dioceses e, no último, emPorto Velho, RO, de quase todas as 272 dioceses, como está assinalado em sua Carta final.Esses encontros intereclesiais recolheram e enfatizaram alguns elementos estruturais dascomunidades de base aqui no Brasil ou respostas corajosas e proféticas que as comunidades deramaos desafios da conjuntura. Recordamos os temas e lemas dos 11 Intereclesiais anteriores e do 12º.,em Porto Velho, na região amazônica. Podemos intuir o quanto eles revelam acerca da estrutura, davida e da inspiração atual de nossas comunidades.Tomamos da página Retrospectiva dos Intereclesiais no site www.cebsuai.org.br daArquidiocese de Juiz de Fora, a boa síntese abaixo sobre os mesmos:“1º Intereclesial: Aconteceu na cidade de Vitória (ES), de 06 a 08 de janeiro de 1975, com o tema:UMA IGREJA QUE NASCE DO POVO PELO ESPÍRITO DE DEUS. Dele participaram 70pessoas, representantes de 11 dioceses. Foi enfatizada a importância da participação.2º Intereclesial: Também realizado na cidade de Vitória (ES), de 29 de julho a 1º de agosto de 1976,com o tema: IGREJA, POVO QUE CAMINHA. Contou com 100 participantes. No processo denova consciência sócio-eclesial, o 2º Intereclesial favoreceu a compreensão de que a fé não pode serseparada da vida e que a Palavra de Deus se revela também na história do Povo.3º Intereclesial: Foi em João Pessoa (PB), de 19 a 23 de julho de 1978, com o tema: IGREJA,POVO QUE SE LIBERTA. Dele participaram 200 pessoas. Em relação aos encontros anteriores,houve uma significativa mudança. Grande parte da assembléia era constituída de gente simples.Assessores e bispos colocavam-se no lugar de ouvintes da palavra dos pobres e pequenos, de suahistória e paixão, de seus sonhos e esperanças.4º Intereclesial: Aconteceu em Itaici (SP), de 20 a 24 de abril de 1981, com o tema: IGREJA,POVO OPRIMIDO QUE SE ORGANIZA PARA A LIBERTAÇÃO. 300 pessoas estavampresentes. O encontro deixa claro que as CEBs, em razão de sua identidade religiosa, não podem setransformar em células partidárias, mas tampouco podem deixar de lado sua educação política. AsCEBs devem ser lugar de vivência, aprofundamento e celebração da fé, mas também lugar onde seconfrontam vida e prática com a Palavra de Deus, no sentido de se verificar a coerência da ação
  • 20. política com o plano de Deus.5º Intereclesial: Foi em Canindé (CE), de 04 a 08 de julho de 1983, com o tema: IGREJA, POVOUNIDO, SEMENTE DE UMA NOVA SOCIEDADE. Contou com 500 participantes, inclusive comrepresentantes de outros países da América Latina. A reflexão central do encontro foi que, na lutapor uma nova sociedade, as CEBs encontram na motivação evangélica a razão última de todo seuempenho.6º Intereclesial: Aconteceu em Trindade (GO), de 21 a 25 de julho de 1986, com o tema: CEBs,POVO DE DEUS EM BUSCA DA TERRA PROMETIDA. Contou com 1.647 participantes,incluindo representantes dos Povos Indígenas e de Igrejas Evangélicas. Marca registrada desteencontro são as grandes temáticas ligadas à caminhada das CEBs: seu estatuto eclesiológico; CEBs epolítica partidária; a especificidade da luta das mulheres, negros e índios; e, por fim, a questãolatino-americana e o ecumenismo.7º Intereclesial: Foi em Duque de Caxias (RJ), de 10 a 14 de julho de 1989, como o tema: POVODE DEUS NA AMÉRICA LATINA A CAMINHO DA LIBERTAÇÃO. 2.500 pessoas participaramdeste encontro, que teve sua temática geral subdividida em três questões específicas: a situação daAmérica Latina, a relação entre fé e libertação, a eclesialidade das CEBs e sua dimensão ecumênica.8º Intereclesial: Aconteceu em Santa Maria (RS), de 08 a 12 de setembro de 1992, com o tema:POVO DE DEUS RENASCENDO DAS CULTURAS OPRIMIDAS. 2.800 pessoas estavampresentes. Cada bloco encarregou-se de um tema: índios, negros, migrantes, trabalhadores emulheres. Esta experiência inovadora de evangelização a partir dos povos e culturas oprimidas nãoocorreu sem momentos de forte dificuldade e tensão, conforme o que testemunha o documento final:“Tudo que é novo nasce com dor de parto, mas também traz alegria”. Em especial dos blocos dosnegros e das mulheres vieram as reivindicações mais contundentes.9º Intereclesial: Aconteceu em São Luiz (MA), 15 a 19 de julho de 1997, com o tema: CEBs, VIDAE ESPERANÇA NAS MASSAS. Contou com 2.800 participantes. O tema foi subdividido em 6eixos, formando a base do trabalho nos blocos temáticos. São eles: CEBs e catolicismo popular;CEBs e religiões afro; CEBs e pentecostalismo; CEBs e cultura de massa; CEBs: excluídos emovimento popular; CEBs e a questão indígena.10º Intereclesial: Foi em Ilhéus (BA), de 11 a 15 de julho de 2000, com o tema: CEBs, POVO DEDEUS, 2000 ANOS DE CAMINHADA. Dele participaram 3.036 pessoas. Recordou-se o sonho deJesus e a vida de comunidade assumida por seus seguidores e seguidoras de ontem e de hoje. Oencontro avaliou e celebrou os 500 anos de evangelização no Brasil e os 25 anos dos Intereclesiais,através das temáticas: CEBs, memória e caminhada; sonho e compromisso. Tudo isso para celebrar,festejar, avaliar e abrir novos horizontes para que um dia possamos colher os frutos da justiça, dapartilha, da igualdade, da ternura, do carinho e da festa.11º Intereclesial: Teve lugar em Ipatinga (MG), de 19 a 23 de julho de 2005, com o tema: CEBs,ESPIRITUALIDADE LIBERTADORA e o lema: SEGUIR JESUS NO COMPROMISSO COMOS EXCLUÍDOS, e a participação de aproximadamente 4.000 pessoas. O encontro foi avaliado, noseu conjunto, como um “Novo Pentecostes” que, alimentado por uma espiritualidade autenticamentelibertadora, uniu e reuniu povos e línguas, raças e nações, para celebrar o amor do Deus Libertador,parceiro dos pobres e oprimidos, renovando em todos e todas o empenho de “seguir Jesus nocompromisso com os excluídos”.12º Intereclesial: O Trem das CEBs caminha agora para Porto Velho (RO), para onde se prevê, de
  • 21. 21 a 25 de julho de 2009, a realização do 12º Intereclesial, que abordará o tema: “ECOLOGIA EMISSÃO”, tendo como lema: DO VENTRE DA TERRA O GRITO QUE VÊM DAAMAZÔNIA”17.V. A NOVIDADE DO XII INTERECLESIALA novidade de Porto Velho é unir dois temas bem atuais: o desafio da ECOLOGIA para onosso mundo de hoje e o da MISSÃO para a Igreja toda, dando-se especial ênfase para estes doisdesafios na REGIÃO AMAZÔNICA. Inserimos ao final deste texto, a Carta Final do XIIIntereclesial., em que um dos destaques foi a palavra que os bispos presentes dirigiram aosparticipantes e, através deles, às CEBs de todo o Brasil:“Os 56 bispos participantes do Intereclesial, reunidos na sexta-feira à noite com os assessorese os membros da Ampliada Nacional das CEBs, avaliaram muito positivamente o Intereclesial,destacando especialmente a seriedade e o empenho dos participantes no debate da temática doencontro, a espiritualidade expressa nas bonitas celebrações diárias nos “rios”, o clima sereno efraterno e o grande envolvimento das comunidades das dioceses do regional Noroeste da CNBB naorganização e realização do encontro.A presença de 331 padres que participaram do Intereclesial levou os bispos a exprimirem odesejo de que, neste ano sacerdotal, todos os padres do Brasil renovem o compromisso deacompanhar as CEBs, empenhadas em testemunhar os valores do Reino, como discípulas emissionárias.Constatando que, a partir da Conferência de Aparecida, as CEBs ganharam reconhecimento enovo alento em todo o continente, os bispos tiveram também palavras de apoio e incentivo para acontinuação da caminhada das comunidades no Brasil, reforçadas pelo presidente da CNBB, DomGeraldo Lyrio Rocha.Diante da agressão continuada da Amazônia, juntamente com todos os participantes doencontro, manifestaram sua preocupação com a construção da barragem de Santo Antônio e Jirauno Rio Madeira, os projetos de outras barragens no Xingu, Tapajós, Araguaia e noutros rios e acontinuada devastação da floresta pelo avanço da pecuária, das plantações de soja e cana, e daextração ilegal de madeira”.                                                            17Sobre os Intereclesiais, cf. TEIXEIRA, Faustino (Dudu), Os Encontros Intereclesiais de CEBs no Brasil (São Paulo:1996. Sobre as CEBs em geral no Brasil, há extensa literatura nacional e internacional: TEIXEIRA, Faustino (Dudu), AFé na Vida. Um estudo teológico-pastoral sobre a experiência das Comunidades Eclesiais de Base no Brasil (São Paulo1987); Comunidades Eclesiais de Base – bases teológicas (Petrópolis 1988);); REGAN, David, Experiência Cristã dasComunidades de Base – Mistagogia (São Paulo 1995); J. MARINS/C. CHANONA, Carolee/T. TREVISAN, TheChurch from the roots – Basic Ecclesial Communities (Quezon City31997; C. POITRAS, La communauté ecclésiale debase au Brésil à la recherche de ses fondements théologiques et pastoraux. L’apport de Jean-Paul Audet. (Thèse dedoctorat. Faculté des Études Supérieurs –Université de Montreal 1997); F. WEBER Gewagte Inkulturation.Basisgemeinden in Brasilien. Eine pastoralgeschichtliche Zwischenbilanz (Mainz, 1996); F. WEBER (Hg.), FrischerWind aus dem Süden. Impulse aus den Basisgemeinden (Innsbruck-Wien 1998). Para uma revisão crítica, cf. C. BOFF etalii, As Comunidades de Base em questão (São Paulo 1997); I. LESBAUPIN (Org.), Igreja, comunidade e massa (SãoPaulo 1996); C. LEVY “CEBs in Crisis: Leadership Structures in São Paulo Area”, in J. BURDICK/ W.E HEWITT,The Church at the Grassroots in Latin América – Perspectives on Thirty Years of Activism (Westport, Connecticut,London, 2000, 167-182; J. BURDICK, Looking for God in Brazil: The Progressive Catholic Church in Urban Brazil’sReligious Arena. (Berkeley 1993).
  • 22. Com o texto integral da Carta do XII Intereclesial, em anexo, concluímos esse breveapanhado da caminhada das CEBs e da reflexão eclesial que a acompanhou nos documentos daIgreja brasileira, latino-americana e caribenha e do magistério conciliar, sinodal e papal.
  • 23. ANEXOCarta às Irmãs e aos Irmãos das CEBs e a todo Povo de DeusBem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu!Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados...”(Mt 5, 3.6)1. Nós, participantes do XII Intereclesial das CEBs, daqui das margens do Rio Madeira, nocoração da Amazônia, saudamos com afeto as irmãs e irmãos de todos os cantos do Brasil e dosdemais países do continente, que sonham conosco com novos céus e nova terra, num jeito novo deser igreja, de atuar em sociedade e de cuidar respeitosa e amorosamente de toda a criação!2. Fomos convocados de 21 a 25 de julho de 2009, pelo Espírito e pela Igreja irmã de PortoVelho/RO, para nos debruçar sobre o tema que nos guiou por toda a preparação do Intereclesialem nossas comunidades e regionais:“CEBs: Ecologia e Missão – Do ventre da terra, o grito que vem da Amazônia”.Acolhendo as delegações e celebrando os povos da Amazônia3. Encheu-nos de entusiasmo ver chegando, depois de dois, três e até cinco dias de viagemos delegados, em sua maioria de ônibus fretados, ou ainda em barcos e aviões. Em muitos ônibus,vieram acompanhados de seus bispos e encontraram, ao longo do caminho, acolhida festiva erefrigério em paradas nas dioceses de Rondonópolis, Cuiabá e Cáceres no Mato Grosso, Jataí emGoiás, Uberlândia em Minas Gerais e, entrando em Rondônia, nas comunidades de Vilhena,Pimenta Bueno, Cacoal, Presidente Médici, Ji-Paraná, Ouro Preto e Jaru. Apresentamos carinhosoagradecimento pela fraterna e generosa acolhida de todas as delegações pelas famílias,comunidades e paróquias de Porto Velho, o infatigável trabalho e dedicação do Secretariado e dasequipes de serviço, em que se destacaram tantos jovens.4. Somos 3.010 delegados, aos quais se somam convidados, equipes de serviço, imprensa efamílias que acolhem os participantes, ultrapassando cinco mil pessoas envolvidas nesteIntereclesial. Dos delegados de quase todas as 272 dioceses do Brasil, 2.174 são leigos, sendo1.234 mulheres e 940 homens; 197 religiosas, 41 religiosos irmãos, 331 presbíteros e 56 bispos,dentre os quais um da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, além de pastores, pastoras e fiéisdessa Igreja, da Igreja Metodista, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e da IgrejaUnida de Cristo do Japão. O caráter pluriétnico, pluricultural e plurilinguístico de nossaAssembléia encontra-se espelhado no rosto das 38 nações indígenas aqui presentes e no de irmãose irmãs de nove países da América Latina e do Caribe, de cinco da Europa, de um da África, deoutro da Ásia e da América do Norte. Queremos ressaltar a presença marcante da juventude detodo o Brasil por meio de suas várias organizações.
  • 24. 5. “Sejam benvindos/as nesta terra de muitos rios, igarapés e de muitas matas, onde está aArquidiocese de Porto Velho, que se faz hoje a Casa das Comunidades Eclesiais de Base”. Assim,fomos recebidos, na celebração de abertura pela equipe da celebração e por Dom Moacyr Grechi,com muita música e canto, ao cair da noite, ao lado dos trilhos da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré que lembra para os trabalhadores, que a construíram e para os indígenas e migrantesnordestinos, o sofrido ciclo da borracha na Amazônia. Foram evocadas ali e, seguidamente nosdias seguintes, as palavras sábias do provérbio africano:“Gente simples, fazendo coisas pequenas, em lugares pouco importantes,consegue mudanças extraordinárias”.6. Pelas mãos de representantes dos povos indígenas, dos quilombolas, seringueiros,ribeirinhos, posseiros e de migrantes do campo e da cidade foram plantadas ao lado do altar, trêsgrandes tochas. Nelas, foram acesas milhares de velas dos participantes, cujas luzes se espalharampelos degraus da esplanada, enquanto ouvíamos o canto do Cristo dos Seringais:“Na densa floresta vai um caminheiroCristo seringueiro a seringa a cortar... “,Os versos eram entrecortados pelo refrão:“E vem a esperança que surja a bonança,Não seja explorado o suor na balança”.“E vem a esperança que surja a mudançaE o homem refaça com Deus a aliança”.Ouvindo os gritos das comunidades da Amazônia e comungando com seus sonhos7. Com o apito da sirene da Madeira-Mamoré, o trem das CEBs retomou sua caminhada,reunindo-se no dia seguinte, na grande plenária do PORTO, aclamado pela Assembléia, “PORTODOM HELDER CAMARA”, pelo centenário do seu nascimento (1909-2009) e em resgate de suaprofética atuação. Iniciamos esse primeiro dia, dedicado ao VER, partindo do grito profético daterra e dos povos da Amazônia, símbolos da humanidade, na sua rica diversidade, deixando-nosguiar na celebração pelo som dos maracás, tambores e flautas e pela dança de louvor a Deus denossos irmãos e irmãs indígenas. Dali, partimos para os locais dos mini-plenários de 250participantes, nas paróquias e escolas. Eles levavam os nomes de doze RIOS da bacia amazônica:Madeira, Juruá, Purus, Oiapoque, Guamá, Tocantins, Tapajós, Itacaiunas, Guaporé, Gurupi,Araguaia e Jari.8. Divididos nos Rios em 12 CANOAS, com duas dezenas de participantes cada uma,partilhamos as experiências, gritos e lutas das comunidades em relação à nossa Casa comum, apartir do bioma amazônico e dos outros biomas do Brasil (cerrado, caatinga, pantanal, pampas,mata atlântica e manguezais da zona costeira), da América Latina e do Caribe. Vimos nossa Casaameaçada pelo desmatamento, com o avanço da pecuária, das plantações de soja, cana, eucalipto eoutras monoculturas, sobre áreas de florestas; pela ação predatória de madeireiras, pelasqueimadas, poluição e envenenamento das águas, peixes e humanos pelo mercúrio dos garimpos,pelos rejeitos das mineradoras e pelo lixo nas cidades. Encontra-se ameaçada também pelocrescente tráfico de drogas, de mulheres e crianças e pelo extermínio de jovens provocado pelaviolência urbana.9. Somamos nosso grito ao das populações locais, para que a Amazônia não seja tratadacomo colônia, de onde se retiram suas riquezas e amazonidades, em favor de interesses alheios,
  • 25. mas que seja vista em pé de igualdade, no concerto das grandes regiões irmãs, com suacontribuição específica em favor da vida dos povos, em especial de seus 23 milhões de habitantes,para que tenham o suficiente para viver com dignidade.10. Fazemos um apelo para que os governantes sejam sensíveis ao grito que brota doventre da Terra e, pautados por uma ética do cuidado, adotem uma política de contenção deprojetos que agridem a Amazônia e seus povos da floresta, quilombolas, ribeirinhos, migrantes docampo e da cidade, numa perspectiva que efetivamente inclua os amazônidas, como colaboradoresverdadeiros na definição dos rumos da Amazônia.11. Tomamos consciência também de nossas responsabilidades em relação ao reto uso daágua, da terra, do solo urbano e à superação do consumismo, respondendo ao apelo, para quetodos vivamos do necessário, para que ninguém passe necessidade.12. Constatamos, com alegria, a multiplicação de iniciativas em favor do meio ambiente,como a de humildes catadores de material reciclável, no meio urbano, tornando-se profetas daecologia e as de economia solidária, agricultura orgânica e ecológica. Saudamos os muitos sinaisde uma “Terra sem males”, fazendo-nos crescer na esperança de que “outro mundo é possível,necessário e urgente”.13. De tarde, realizamos a Caminhada dos Mártires, em direção ao local onde o rioMadeira foi desviado e em cujo leito seco, ao som dos estampidos das rochas dinamitadas, estásendo concretada a barragem da hidrelétrica. Celebrou-se ali Ato Penitencial por todas asagressões contra a natureza e a vida humana. Defronte às pedreiras que acolhiam as águas dascachoeiras de Santo Antônio, agora totalmente secas, ao lado da primeira capela construída naregião, foram proclamadas as Bem-aventuranças evangélicas (Mt 5, 1-12), sinal da teimosaesperança dos pequenos, os preferidos de Deus.14. No segundo dia, prosseguimos com o VER, com uma pincelada sobre a conjunturaatual na esfera sócio-política e econômica, apresentada por Pedro Ribeiro de Oliveira; naperspectiva das mulheres, por Julieta Amaral da Costa e do ponto de vista ecológico, por LeonardoBoff. Atendendo ao convite de Jesus: “Vinde e vede” (Jo, 1, 39), após a pergunta dos discípulos,“Mestre, onde moras?” (Jo 1, 38), partimos em grupos, em visita às muitas realidades locais:populações indígenas, comunidades afro-descendentes, ribeirinhas, extrativistas, grupos vivendoem assentamentos rurais ou em áreas de ocupação urbana; bairros da periferia; hospitais, prisões,casas de recuperação de pessoas com dependência química e ainda a trabalhos com menores oupessoas com deficiência. O retorno foi rico na partilha de experiências, nas quais descobrimossinais de vida nova. Reiteramos que os projetos dos grandes, principalmente as barragens dasusinas hidrelétricas, as usinas nucleares geradoras de lixo atômico que põe em risco a populaçãolocal, são projetos do capital transnacional que não favorecem os pequenos. Apoiados nasabedoria milenar dos povos indígenas, nos sentimos animados a repetir com eles: “Nuncadeixaremos de ser o que somos”. Nós, como CEBs no meio dos simples e pequenos, reafirmamosnossa teimosa opção pelos pobres e pelos jovens, proclamada há trinta anos em Puebla, resistindoe lutando para superar nossas dificuldades, sustentados pela fé no Deus que se revelou a nós comoTrindade, a melhor comunidade.15. No terceiro dia, as celebrações da manhã aconteceram nos rios, resgatando memóriasda espiritualidade dos povos da região e das experiências colhidas no caminho missionáriopercorrido no dia anterior, nas visitas às muitas realidades eclesiais e sociais de Rondônia. Aoração foi alentada pela promessa do Êxodo: “Decidi vos libertar... vos farei subir dessa terrapara uma terra fértil e espaçosa, terra, onde corre leite e mel” (Ex. 3, 8). Em cada canoa, osrelatos iam revelando uma igreja preocupada com a justiça social e a defesa da vida nostestemunhos de gente simples em todos aqueles lugares visitados. Esses relatos aqueceram nossocoração e nos desafiaram a perseverar na caminhada das CEBs.
  • 26. 16. À tarde, fomos tocados por vários testemunhos. Em primeiro lugar, pela sentida oraçãodos Xerente do Tocantins que celebraram seu ritual pelos mortos, homenageando o amigo emissionário, Pe. Gunter Kroemer. Dom José Maria Pires, arcebispo emérito da Paraíba, retomouem sua história a trajetória dos negros no Brasil, suas dores, resistências e esperanças de ummundo melhor, nos seus Quilombos da liberdade. Marina Silva, senadora pelo Acre e ex-ministrado Meio Ambiente, contou sua caminhada de menina analfabeta do seringal para a cidade de RioBranco e de lá para São Paulo, mas principalmente sua incessante busca, a partir da fé herdada desua avó, alimentada pela experiência das CEBs, da leitura da Palavra de Deus e pelo exemplo deChico Mendes, de bem viver e de colocar-se publicamente a serviço, em favor do povoamazônida. Por fim, depois da apresentação de Dom Tomás Balduíno, em que ressaltou o papel deDom Pedro Casaldáliga da Prelazia de São Félix do Araguaia na fundação, junto com outros, doCIMI, da CPT e de Pastorais Sociais, acompanhamos pelo vídeo seu testemunho e nosemocionamos com suas palavras de esperança e confiança em Jesus e na utopia do seu Reinado.17. Neste dia, ocorreu também o encontro da Pastoral da Juventude de todo o Brasil e outrotambém muito significativo entre bispos, assessores e Ampliada Nacional das CEBs. Momentofecundo do estreitamento de laços e abertura a novos passos em nossa caminhada, em que foiexpressa a alegria e alento trazidos pela presença significativa de tantos bispos. Desse encontro, osbispos presentes resolveram enviar sua palavra às comunidades:Palavras dos Bispos às CEBs18. Os 56 bispos participantes do Intereclesial, reunidos na sexta-feira à noite com osassessores e os membros da Ampliada Nacional das CEBs, avaliaram muito positivamente oIntereclesial, destacando especialmente a seriedade e o empenho dos participantes no debate datemática do encontro, a espiritualidade expressa nas bonitas celebrações diárias nos “rios”, o climasereno e fraterno e o grande envolvimento das comunidades das dioceses do regional Noroeste daCNBB na organização e realização do encontro.
  • 27. A presença de 331 padres que participaram do Intereclesial levou os bispos aexprimirem o desejo de que, neste ano sacerdotal, todos os padres do Brasil renovem ocompromisso de acompanhar as CEBs, empenhadas em testemunhar os valores doReino, como discípulas e missionárias.Constatando que, a partir da Conferência de Aparecida, as CEBs ganharamreconhecimento e novo alento em todo o continente, os bispos tiveram também palavrasde apoio e incentivo para a continuação da caminhada das comunidades no Brasil,reforçadas pelo presidente da CNBB, Dom Geraldo Lyrio Rocha.Diante da agressão continuada da Amazônia, juntamente com todos osparticipantes do encontro, manifestaram sua preocupação com a construção dabarragem de Santo Antônio e Jirau no Rio Madeira, os projetos de outras barragens noXingu, Tapajós, Araguaia e noutros rios e a continuada devastação da floresta peloavanço da pecuária, das plantações de soja e cana, e da extração ilegal de madeira.Nas diferenças, o mesmo Deus que nos convoca para a Justiça e a Paz19. Na manhã do último dia, fomos guiados pelo texto do Apocalipse: “O anjomostrou para mim, um rio de água viva... O rio brotava do trono de Deus e docordeiro...; de cada lado do rio estão plantadas árvores da vida... suas folhas servempara curar as nações” (Ap 22, 1-2). Bebemos no manancial da fé que nos une a todos etodas, na única família humana, como filhos e filhas da mesma Mãe-Terra, a Pacha-Mama dos povos andinos, a Terra sem Males dos Povos Guarani, na busca, sonho econstrução do Reino de Deus anunciado por Jesus.20. Juntos, representantes das Religiões Indígenas e dos Cultos Afro-brasileiros,de Judeus, Cristãos Ortodoxos, Católicos e Evangélicos, Muçulmanos, de mulheres ehomens de boa vontade e de todas as crenças, no diálogo e respeito à diversidade da teiada vida, acolhemos os gritos da Amazônia e de todos os biomas e reafirmamos nossasolidariedade e compromisso com a justiça geradora da paz.21. Caminhamos como povo de Deus que conquista a Terra Prometida e a tornaespaço de fartura e fraternura, acolhendo todas as expressões da vida.Nossos Compromissos22. Comprometemo-nos a fortalecer as lutas dos movimentos sociais populares:as dos povos indígenas, pela demarcação e homologação de suas terras e respeito porsuas culturas; as dos afro-descendentes, pelo reconhecimento e demarcação das terrasquilombolas; as das mulheres, por sua dignidade e igualdade e avanço em suasarticulações locais, nacionais e internacionais; as dos ribeirinhos pela legalização desuas posses; as dos atingidos pelas barragens, pelo direito à terra equivalente, restituiçãode seus meios de sobrevivência perdidos e indenização por suas benfeitorias; as dos semterra, apoiando-os em suas ocupações e em sua e nossa luta pela reforma agrária, contrao latifúndio e os grileiros; as dos Movimentos Ecológicos, contra a devastação danatureza, pela defesa das águas e dos animais.
  • 28. 23. Queremos defender e apoiar o movimento FLORESTANIA, no respeito àagrobiodiversidade e aos valores culturais, sociais e ambientais da Amazônia.24. Assumimos também o compromisso de respaldar modelos econômicosalternativos na agricultura, na produção de energias limpas e ambientalmenteamigáveis; de participar na luta sindical, reforçando a ação dos sindicatos do campo eda cidade, com suas associações e cooperativas e sua luta contra o desemprego, comespecial atenção à juventude.25. Convocamos a todos nós para o trabalho político de base, para a militânciaem movimentos sociais e partidos ligados às lutas populares; para participar nas lutaspor políticas públicas ligadas à educação, saúde, moradia, transporte, saneamentobásico, emprego, reforma agrária e para tomar parte nos conselhos de cidadania, naspastorais sociais, no movimento pela não redução da maioridade penal, no Grito dosExcluídos, nas iniciativas do 1º. de Maio e das Semanas Sociais.26. Comprometemo-nos ainda a fortalecer e multiplicar nossas ComunidadesEclesiais de Base, criando comunidades eclesiais e ecológicas de base nos bairros dascidades e na zona rural, promovendo a educação ambiental em todos os espaços denossa atuação; a intensificar a formação bíblica; a incentivar uma Igreja toda elaministerial, com ministérios diversificados confiados a leigas e leigos assumindo seuprotagonismo, como sujeitos privilegiados da missão; a fortalecer o diálogo ecumênicoe inter-religioso superando a intolerância religiosa e os preconceitos.27. Queremos, a partir das CEBs, repensar a pastoral urbana, como um dosgrandes desafios eclesiais; assumir o testemunho e a memória dos nossos mártires eempenhar-nos na Missão Continental proposta pela V Conferência do EpiscopadoLatino-americano e Caribenho, em Aparecida.Rumo ao XIII Intereclesial no Ceará28. Acompanhados pelas comunidades e famílias que nos receberam e caravanasde todo o Regional, celebramos a Eucaristia, presença sempre viva doCrucificado/Ressuscitado, comprometendo-nos com todos os crucificados de nossasociedade, com suas lutas por libertação, para construirmos outro mundo possível, comotestemunhas da Páscoa do Senhor, acompanhados pela proteção e benção da Mãe deDeus, celebrada no Círio de Nazaré e invocada na região amazônica, com outros tantosnomes; no Brasil, com o título de Aparecida, e na nossa América, com o de Virgem deGuadalupe.29. Escolhida a Igreja do Crato, que irá acolher, nas terras do Padim Pe. Cícero,o XIII Intereclesial, recolocamos nos trilhos o trem das CEBs, rumo ao Ceará, enviandoa vocês, irmãos e irmãs das comunidades, nosso abraço fraterno, e cheio de revigoradaesperança. AMÉM! AXÉ! AUERÊ! ALELUIA!
  • 29. ANEXO IICONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL48ª Assembleia Geral da CNBBBrasília, 4 a 13 de maio de 2010 48ª AG(Doc)MENSAGEM AO POVO DE DEUS SOBRE ASCOMUNIDADES ECLESIAIS DE BASEIntrodução“As Comunidades Eclesiais de Base”, dizíamos em 1982, constituem “emnosso país, uma realidade que expressa um dos traços mais dinâmicos da vida da Igreja(...)” (Comunidades Eclesiais de Base na Igreja do Brasil, CNBB, doc. 25,1). Após aConferência de Aparecida (2007) e o 12º Intereclesial (Porto Velho-2009), queremosoferecer a todos os nossos irmãos e irmãs uma mensagem de animação, embora breve,para a caminhada de nossas CEBs.Queremos reafirmar que elas continuam sendo um “sinal da vitalidade daIgreja” (RM 51). Os discípulos e as discípulas de Cristo nelas se reúnem para umaatenta escuta da Palavra de Deus, para a busca de relações mais fraternas, para celebraros mistérios cristãos em sua vida e para assumir o compromisso de transformação dasociedade. Além disso, como afirma Medellín, as comunidades de base são “o primeiroe fundamental núcleo eclesial (...), célula inicial da estrutura eclesial e foco deevangelização e, atualmente, fator primordial da promoção humana (...)” (Medellín 15).Por isso, “Como pastores, atentos à vida da Igreja em nossa sociedade,queremos olhá-las com carinho, estar à sua escuta e tentar descobrir através de sua vida,tão intimamente ligada à história do povo no qual elas estão inseridas, o caminho que seabre diante delas para o futuro”. (CNBB 25,5)Os desafios postos às CEBs hoje: a sociabilidade básica no clima culturalcontemporâneoCom as grandes mudanças que estão acontecendo no mundo inteiro e emnosso país, as CEBs enfrentam hoje novos desafios: numa sociedade globalizada eurbanizada, como viver em comunidade? Nascidas num contexto ainda em grande parterural, serão capazes de se adaptar aos centros urbanos, que têm um ritmo de vidadiferente e são caracterizados por uma realidade plural? Dentro desse contexto, há outrodesafio: como transmitir às novas gerações as experiências e valores das geraçõesanteriores, inclusive a fé e o modo de vivê-la? Só uma Igreja com diferentes jeitos deviver a mesma Fé será capaz de dialogar relevantemente com a sociedadecontemporânea.O século XX foi, sem dúvida, o século da globalização. Suas consequênciaspara a vida cotidiana são tantas que hoje se fala que o mundo vive não mais uma épocade mudanças, mas “uma mudança de época, cujo nível mais profundo é o cultural”(DAp 44). De fato, “a ciência e a técnica quando colocadas exclusivamente a serviço domercado (...) criam uma nova visão da realidade” (DAp 45), mas isso não significa umpasso em direção ao desenvolvimento integral proposto pela encíclica Populorumprogressio e reafirmado pelo Papa Bento XVI em Caritas in Veritate, porque a lógica
  • 30. do mercado corrói a estrutura de sociabilidade básica que se expressa nas relações detipo comunitário. À medida que ele avança, expulsa as relações de cooperação esolidariedade e introduz relações de competição nas quais o mais forte é quem levavantagem.Desta forma, é preciso valorizar as experiências de sociabilidade básica: asrelações fundadas na gratuidade que se expressa na dinâmica de oferecer-receber-retribuir. O cultivo da reciprocidade tem como espaço primeiro aquele onde avizinhança territorial é importante para a vida cotidiana, como em áreas rurais, bairrosde periferia e favelas. É a solidariedade entre vizinhos – melhor dizendo, entre vizinhas– que assegura o cuidado com crianças, idosos e doentes, por exemplo. Não por acaso,esses espaços periféricos favorecem o desenvolvimento de associações de vizinhança emovimentos que reivindicam melhorias de equipamento urbano, bem como das própriasComunidades Eclesiais de Base (CEBs). São as relações de reciprocidade que,promovendo a solidariedade que é a força dos pobres e pequenos, permite que se digaque "gente simples, fazendo coisas pequenas, em lugares pouco importantes, conseguemudanças extraordinárias".O percurso histórico das CEBs no BrasilA experiência das CEBs não surgiu de um planejamento prévio, mas de umimpulso renovador, como um sopro do Espírito, já presente na Igreja no Brasil. Esseimpulso renovador se manifesta de forma crescente nos anos 50 e 60 do século 20. Naverdade, os tempos se tornaram maduros para uma nova consciência histórica e eclesial:primeiro, pela emergência de um novo sujeito social na sociedade brasileira, o sujeitopopular, que ansiava à participação; segundo, pela emergência de um novo sujeitoeclesial, portador de uma nova consciência na Igreja. Ele ansiava participar ativa ecorresponsavelmente da vida e da missão da Igreja. Esse sujeito provoca novasdescobertas e conversões pastorais (CNBB 25,7).Nelas se revigoravam ou restauravam as relações de reciprocidade, de modoa favorecer a reconstrução das estruturas da vida cotidiana, do mundo da vida, em umcontexto social adverso. A interação entre a CEB enquanto organismo eclesial e acomunidade local de vizinhos é uma das grandes contribuições da Igreja à conquista dosdireitos de cidadania em nosso País. Ao acolher pastoralmente a população rural oumigrante em capelas e salões improvisados nos quais elas se sentissem “em casa”, aIgreja lhes ofereceu uma possibilidade de organizar-se autonomamente, quando asempresas e os poderes públicos só viam nela o potencial de mão-de-obra a serempregada no processo de industrialização.A experiência dos IntereclesiaisOs Encontros Intereclesiais das CEBs são patrimônio teológico e pastoral daIgreja no Brasil. Desde a realização do primeiro, em 1975 (Vitória – ES), reúnemdiversas dioceses para troca de experiência e reflexão teológica e pastoral acerca dacaminhada das CEBs. Foram doze encontros nacionais, diversos encontros depreparação em várias instâncias (paróquias, dioceses, regionais) e, desde a realização do8º Intereclesial ocorrido em Santa Maria – RS (1992), são realizados seminários depreparação e aprofundamento dos temas ligados ao encontro.Manifestação visível da eclesialidade das CEBs, os Encontros Intereclesiaiscongregam bispos, religiosos e religiosas, presbíteros, assessores e assessoras,animadores e animadoras de comunidades, bem como convidados de outras igrejas
  • 31. cristãs e tradições religiosas. Neles se expressa a comunhão entre os fiéis e seuspastores.Espiritualidade e vivência eucarística“O Concílio Vaticano II, eminentemente pastoral, provocou um grandeimpacto na Igreja. Suas grandes idéias-chaves trouxeram a fundamentação teológicapara a intuição, já sentida na prática, de que a renovação pastoral deve se fazer a partirda renovação da vida comunitária e de que a comunidade deve se tornar instrumento deevangelização”. (CNBB 25,11)A exigência do Vaticano II é de razão estritamente teológica, de ordemtrinitária. A essência íntima de Deus não é a solidão, mas a comunhão de três divinasPessoas. A comunhão – koinonia, communio – constitui a realidade e a categoriafundamental que permeia todos os seres e que melhor traduz a presença do Deus-Trindade no mundo. É a comunhão que faz a Igreja ser “comunidade de fiéis”. Por isso,o Vaticano II faz derivar a união do Povo de Deus da unidade que vigora entre as trêsdivinas Pessoas (LG 4).A Trindade nos coloca, desde o início, no coração do mistério de comunhão.O Papa João Paulo II, falando aos bispos em Puebla, em 28 de janeiro de 1979,proclamou: “Nosso Deus em seu mistério mais íntimo não é uma solidão, mas umafamília... e a essência da família é o amor”. A comunhão e a comunidade devem estarpresentes em todas as manifestações humanas e em todas as concretizações eclesiais.Por isso mesmo, a Eucaristia está no centro da vida de nossas comunidadesde base. É o sacramento que expressa comunhão e participação de todos e todas, comonuma grande família, ao redor da Mesa do Pai. Há comunidades que recebem acomunhão eucarística graças a presença do Santíssimo no local ou pelo serviço de umministro extraordinário da sagrada comunhão. Como nossas CEBs, em sua maioria,“não têm oportunidade de participar da Eucaristia dominical”, por falta de ministrosordenados, “elas podem alimentar seu já admirável espírito missionário participando da‘celebração dominical da Palavra’, que faz presente o mistério pascal no amor quecongrega (cf. 1 Jo 3, 14), na Palavra acolhida (cf. Jo 5, 24-25) e na oração comunitária(cf. Mt 18,20)” (DAp 253).A realidade das CEBs se expressa na liturgia e também na diaconia e naprofecia. A diaconia educa, cura as feridas, multiplica e distribui o pão e chama para asolidariedade e a comunhão. A profecia anuncia o desígnio de Deus e denuncia osabusos, a mentira, a injustiça, a exploração e exige a conversão. Por isso, sofreperseguição, difamação, morte.Temos duas testemunhas recentes desse duplo ministério dos discípulos ediscípulas de Jesus Cristo: Dra. Zilda Arns e Irmã Dorothy Stang. Há muito conhecidaspor nossas comunidades pobres pelo Brasil afora, elas inspiraram a ação das CEBs. Elasentregaram a vida e nos deixaram seu testemunho de fé e amor aos pobres, fracos,desamparados e discriminados.Esta espiritualidade também possibilitou a produção de uma ricamanifestação artística em nossas comunidades – músicas, poesias, pinturas, símbolos –típicos da prática religiosa e cultural de nosso povo, e que também são instrumentos deevangelização e de missão.Vivência e Anúncio da Palavra de Deus e o Testemunho de fé“A Palavra se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14). A acolhida daPalavra de Deus e a vivência comunitária da fé são indissociáveis nas CEBs. A Bíblia
  • 32. faz parte do dia-a-dia da comunidade, estando presente nos grupos e pastorais, nasliturgias e na formação, na reza e nas ações que visam superar as desigualdades einjustiças da sociedade brasileira.São espaços privilegiados de leitura bíblica nas CEBs os círculos bíblicos egrupos de reflexão. Neles o povo se coloca como sujeito eclesial, assume seu lugar nacomunidade e na sociedade. O protagonismo dos leigos nas CEBs é expressão viva deuma Igreja que se renova animada pelo Espírito Santo, é também um sinal de que nodiscipulado estão surgindo novos ministérios e serviços.“O ministério da Palavra exige o ministério da catequese a todos porque‘fortalece a conversão inicial e permite que os discípulos missionários possamperseverar na vida cristã e na missão em meio ao mundo que os desafia’” (DGAE 64;DAp 278c). A vida em comunidade já é uma forma de catequese. Ela predispõe para oaprofundamento da fé e da vida cristã por meio do ministério da catequese e tambémpelo testemunho fraterno de seus membros.Solidariedade e serviçoAlimentadas pela Palavra de Deus e pela vivência de comunhão, as CEBspromovem solidariedade e serviço. Reunindo pessoas humildes, as CEBs ajudam aIgreja a estar mais comprometida com a vida e o sofrimento dos pobres, como fez Jesus.Elas manifestam, mais claramente, que “o serviço dos pobres é medida privilegiada,embora não exclusiva, do seguimento de Cristo” (DP 1145).Mais ainda, o surgimento das CEBs, junto com o compromisso com os maisnecessitados, ajudou a Igreja a “descobrir o potencial evangelizador dos pobres”,primeiro, porque interpelam a Igreja, chamando-a à conversão; segundo, porque“realizam em sua vida os valores evangélicos da solidariedade, serviço, simplicidade edisponibilidade para acolher o dom de Deus” (DP 1147). As vocações religiosas esacerdotais despertadas pelas CEBs sinalizam vitalidade espiritual, comunhão eclesial eum novo estímulo de consagração a Deus.A formação dos discípulos missionáriosNa sua experiência já amadurecida, as CEBs querem ser Igreja como oConcílio Vaticano II desejou: uma Igreja toda ministerial a serviço do Reino de Deus. Aformação do discípulo missionário começa dentro delas pela experiência de umencontro feliz e alegre com a pessoa de Jesus, sua vida e seu destino. Como Jesusconvocou discípulos e discípulas para estarem com ele, do mesmo modo, ele convocatambém hoje discípulos e discípulas para estarem com ele e dele aprenderem o amor aoPai, a fidelidade ao Espírito e o compromisso para a transformação do mundo emmundo de irmãos e irmãs.Por sua capacidade de cuidar da formação da própria comunidade e deolhar, com compaixão, a realidade, as CEBs podem e devem ser cada vez mais escolasque ajudam “a formar cristãos comprometidos com sua fé; discípulos e missionários doSenhor, como o testemunha a entrega generosa, até derramar o sangue, de muitos deseus membros” (DAp 178).A participação nos movimentos sociais, de cidadania, de defesa do meio ambiente emvista da construção do Reino de DeusNo que diz respeito à relação das CEBs com a dimensão sociopolítica daevangelização, o Sínodo sobre A Justiça no Mundo, de 1971, já tinha afirmado que “aação pela justiça e a participação na transformação do mundo nos aparecem claramente
  • 33. como uma dimensão constitutiva da pregação do Evangelho, isto é, da missão da Igrejapela redenção do gênero humano e a libertação de toda situação de opressão” (introd.).Em vista disso, a Igreja no Brasil exorta as CEBs e demais comunidades eclesiais a semanterem fiéis à própria fé, no conteúdo e nos métodos, na busca da libertação plena,superando a tentação “de reduzir a missão da Igreja às dimensões de um projetopuramente temporal” (CNBB 25,64ss; Cf. EN 32).Em relação à aproximação das CEBs com os movimentos populares na lutapela justiça, o documento 25 da CNBB afirmava que elas “não podem arrogar-se omonopólio do Reino de Deus”. Na verdade, a CEB deve tomar consciência de que,“como Igreja, é sinal e instrumento do Reino, é aquela pequena porção do povo de Deusonde a Palavra de Deus é acolhida e celebrada nos sacramentos ... sobretudo naEucaristia” (70ss). As CEBs buscam, sim, a “colaboração fraterna com pessoas e gruposque lutam pelos mesmos valores” (73).As CEBs têm despertado em muitos dos seus membros a espiritualidade docuidado para com a vida dos seres humanos, de todas as formas de vida e a vida doPlaneta Terra. A espiritualidade do cuidado tem motivado o surgimento de gestos eatitudes éticas de respeito, de veneração, de ternura, de cooperação solidária, deparceria, que promovam a inclusão de todos e de tudo no mistério da vida.As CEBs promovem a participação ativa de seus membros nos grupos deeconomia popular solidária, resgatando o sentido originário da economia como aatividade destinada a garantir a base material da vida pessoal, familiar, social eespiritual. Contribui assim para que o trabalho humano, além de ser o lugar deedificação da dignidade humana e promoção da justiça social, seja também responsávelpela promoção do desenvolvimento sustentável.
  • 34. Espírito de abertura ecumênica e diálogo interreligiosoUma das dimensões da espiritualidade cultivadas pelas CEBs é a do diálogoecumênico e interreligioso, que se dá pela abertura ao mundo do outro, promovendo aunidade na diversidade e buscando as semelhanças na diferença. Esta espiritualidadedialogal tem sido assumida pelas CEBs como uma missão de fraternidade cristã, numaatitude de profundo respeito às demais manifestações religiosas, em busca da comunhãouniversal. Essa espiritualidade nasce do desejo expresso por Jesus: "Que todos sejamum!" (Jo 17,21)Formação de rede de comunidadesOs membros das CEBs são discípulos de Cristo e ajudam a formar outrascomunidades. Em meio a grandes extensões geográficas e populacionais, a comunidadeeclesial de base requer que as relações sejam de fraternidade, partilha de vida, de bens eda própria experiência de fé. Ela deve provocar um encontro permanente com a Palavrade Deus e celebrar na liturgia, na alegria e na festa, a salvação que Jesus Cristo nostrouxe.A experiência da fé e da participação faz amadurecer a comunidade eclesialde base, e lhe confere características próprias de modo a levá-la a um relacionamentofraterno de igualdade com as demais comunidades pertencentes à mesma paróquia. Comisso, a matriz-paroquial ganha maior relevância pastoral na medida em que passa aexercer a função de articuladora das comunidades.Exortamos que a paróquia procure se transformar em “rede de comunidadese grupos, capazes de se articular conseguindo que seus membros se sintam realmentediscípulos missionários de Jesus Cristo em comunhão” (DAp 172), tendo por modelo asprimeiras comunidades cristãs retratadas nos Atos dos Apóstolos (At 2 e 4). Assim, aparóquia será mais viva, junto com suas comunidades, coordenadas por leigos ou leigas,por diáconos permanentes, animadas por religiosos e religiosas, e que tenham noConselho Pastoral Paroquial, presidido pelo pároco, seu principal articulador pastoral.ConclusãoEm comunhão com outras células vivas da Igreja, comunidades dediscípulos e discípulas geradas pelo encontro com Jesus Cristo, Palavra feito carne (cf.Jo 1,14), como são os movimentos, as novas comunidades, as pequenas comunidades,que integram a rede de comunidades que a paróquia é chamada a ser, reafirmamos aquio que está escrito no Documento 25 da CNBB: “Ao concluir estas reflexões, desejamosagradecer a Deus pelo dom que as CEBs são para a vida da Igreja no Brasil, pela uniãoexistente entre os nossos irmãos e seus pastores, e pela esperança de que este novomodo de ser Igreja vá se tornando sempre mais fermento de renovação em nossasociedade”. (94)Brasília-DF, 12 de maio de 2010

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