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Artigo apresentado por Milena, Mylena e Yana
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Artigo apresentado por Milena, Mylena e Yana

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  • 1. Revista Brasileira de Orientação Profissional, 2005, 6 (2), pp. 71 - 80 71 Personalidades Vocacionais, Generatividade e Carreira na Vida Adulta. Mauro de Oliveira Magalhães1 Universidade Luterana do Brasil, Canoas William Barbosa Gomes Universidade Federal do Rio Grande do Sul, porto AlegreRESUMO A generatividade foi descrita por Erikson como a preocupação com o desenvolvimento da comunidade humana e o bem-estar das próximas gerações. Em nossa cultura, a atividade profissional é percebida como a forma mais significativa de contribuição individual para a sociedade. Esta pesquisa investigou relações entre generatividade e comportamentos relacionados à carreira profissional. Essa relação foi examinada em grupos definidos pelo tipo de interesse vocacional. Os sujeitos foram 733 profissionais (415 homens e 318 mulheres) com idades entre 25 e 65 anos e com, no mínimo, cinco anos de carreira profissional. Os sujeitos responderam a medidas de interesses vocacionais, generatividade, comprometimento com a carreira e entrincheiramento na carreira. A generatividade correlacionou positivamente com o comprometimento e negativamente com o entrincheiramento. Essas correlações se mostraram diferentes na dependência do tipo de interesse vocacional, revelando que fatores de personalidade podem mediar a relação entre generatividade e carreira. Palavras-chave: generatividade; carreira; interesses vocacionais.ABSTRACT: Vocational Personalities, Generativity and Career in Adult Life Erikson described generativity as the concern with the development of human communities and the welfare of next generations. In our culture, professional activity is considered to be the main individual contribution to society. This research investigated the relations between generativity and occupational career. This relationship was examined across groups defined according to type of vocational interest. The subjects were 733 workers (415 men and 318 women) with ages ranging from 25 to 65 years and with a minimum of 5 years of occupational career. The subjects answered measure instruments of vocational interests, generativity, career commitment and career entrenchment. Generativity showed positive correlation with career commitment and negative correlation with career entrenchment. Those correlation were different depending on the type of Vocational interest. The results suggested that personality variables may mediate the relationship between generativity and career. Keywords: generativity; career; vocational interests.RESUMEN: Personalidades Vocacionales, Generatividad y Carrera en la Vida Adulta La generatividad fue descrita por Erikson como la preocupación por el desarrollo de la comunidad humana y el bienestar de las próximas generaciones. En nuestra cultura, la actividad profesional se percebe como1 Endereço para correspondência: Rua Sinimbu, 78, apto 303, 90470-470, Porto Alegre, RS. E-mail: mauro.m@terra.com.br
  • 2. 72 Mauro de Oliveira Magalhães, William Barbosa Gomes la forma más significativa de contribución individual a la sociedad. Este trabajo investigó la relación entre generatividad y comportamientos relacionados a la carrera profesional. Esta relación se examinó en grupos definidos por el tipo de interés vocacional. Los sujetos fueran 733 profesionales (415 hombres y 318 mujeres) con edades de entre 25 y 65 años y con un mínimo de cinco años de carrera profesional. Los sujetos respondieron a medidas de interés vocacional, generatividad, comprometimiento con la carrera y atrincheramiento en la carrera. La generatividad se relacionó positivamente con el comprometimiento y negativamente con el atrincheramiento. Estas relaciones fueran diferentes de acuerdo con el tipo de interés vocacional, revelando que factores de personalidad pueden mediar la relación entre generatividad y carrera. Palabras claves: generatividad; carrera; interés vocacional. No modelo de estágios de vida de Erikson dico... psicólogo”), as características ocupacionais(1998), a generatividade é a questão crucial do de- normalmente se refletem em atitudes, valores e posi-senvolvimento humano na adultez média. Na sua ções políticas, associadas a fatores como classe so-concepção, uma vez que o indivíduo tenha consoli- cial e nível de instrução. O tipo de trabalho exercidodado sua identidade pessoal e estabelecido laços influencia as metas definidas para a vida e as recom-duradouros de intimidade através do casamento e/ pensas que o sujeito espera alcançar com as mes-ou amizades, ele estará pronto para comprometer- mas (Havighurst, 1982). A identidade individualse com o mundo social mais amplo, preocupando- depende e é alterada pelos relacionamentos sociais.se com a continuidade e aperfeiçoamento deste. Ou Por outro lado, a participação em atividades sociaisseja, o sentimento de generatividade leva o sujeito a fora do âmbito profissional geralmente não é tãocuidar, ensinar, liderar e promover o bem-estar da importante para o estabelecimento da identidade epróxima geração. De acordo com McAdams e de do status social quanto as atividades de trabalhoSt. Aubin (1998), a generatividade é um processo (Vondracek, 1998). Neste sentido, o estabeleci-que vincula o desejo do indivíduo por uma imortalida- mento e a consolidação do sujeito nos papéis pro-de simbólica com a demanda cultural de preocupa- fissionais são de grande importância para a vivênciação com as próximas gerações. Esta preocupação, da generatividade, que pode ser entendida como areforçada pela crença na bondade ou validade do experiência adulta da identidade (McAdams & deempreendimento humano, levará o sujeito a ações St. Aubin, 1998).generativas na busca da construção de um legado Por outro lado, não são todas as pessoas quepara a posteridade. A resolução satisfatória das pre- experienciam o trabalho como algo central na vida.ocupações generativas advém, em grande parte, da Carter e Cook (1995) descreveram três níveis dedefinição de qual legado será oferecido às próximas apego ao papel de trabalho. De acordo com os au-gerações. A generatividade inclui todos os produtos tores, existem indivíduos que não experienciam o tra-e realizações que beneficiam o sistema social e pro- balho com uma fonte importante de identidade.movem sua continuidade e melhoria. Portanto, as Nestas pessoas, o interesse no trabalho pode advirproduções resultantes da vida profissional podem de motivos financeiros ou de interação social, maisser fundamentais para a experiência da generativi- do que da necessidade de viver o papel de trabalha-dade (Erikson, 1998). dor. Este nível foi denominado de “baixo apego ao O trabalho é um dos aspectos mais relevantes papel de trabalho”. (Carter & Cook, 1995, p.72)da identidade individual, tal como o próprio nome, Há pessoas que necessitam ocupar um papel formalo sexo e a nacionalidade (Erikson, 1976). O suces- de trabalho para se sentirem produtivas, não impor-so e a satisfação no trabalho e na família reafirmam tando o conteúdo específico da tarefa. Este nível deo senso de identidade individual e trazem o reco- apego foi denominado de “indivíduo produtivo”, tam-nhecimento social da mesma. Embora esta estreita bém descrito como aquele que atende à ética pro-ligação entre identidade e ocupação possa ser mais testante do trabalho. (Carter & Cook, 1995, p.73)verdadeira para indivíduos situados em profissões E por fim, existem indivíduos fortemente identifica-de nível universitário (“Eu sou um advogado... mé- dos com um emprego ou profissão específica, e Revista Brasileira de Orientação Profissional, 2005, 6 (2), pp. 71 - 80
  • 3. Personalidades vocacionais, generatividade e carreira na vida adulta 73acreditam que estes oferecem uma fonte de identi- posições de trabalho, incapazes ou desinteressadosdade insubstituível. Este nível de apego foi denomi- pela busca de novos desafios de carreira (Carson &nado de “trabalho como o self”. (Carter & Cook, Carson, 1997). Este comportamento foi denomina-1995, p.73) do de entrincheiramento e definido como um pro- Sabe-se que as tendências contemporâneas do cesso de estagnação da carreira no qual o sujeitomundo do trabalho - contratos temporários, insegu- não apresenta aspectos de adaptabilidade ou moti-rança no emprego, mudanças tecnológicas acelera- vação para encontrar alternativas de desenvolvimentodas - apresentam obstáculos importantes a uma profissional (Carson, Carson & Bedeian, 1995). Ovivência de estabilidade ou consolidação de carrei- entrincheiramento é composto de três dimensões:ra. Estes processos têm gerado reflexões sobre o custos emocionais, investimentos de carreira e faltaprojeto e estilo de vida das pessoas na atualidade, de alternativas. Estas três dimensões expressam ti-pois significam novos imperativos para o comporta- pos diferentes de empecilhos percebidos pelo sujei-mento dos indivíduos com relação as suas carreiras to para fazer uma transição na carreira. Os custosprofissionais. Se a estrutura ocupacional estável do emocionais significam a magnitude percebida do danopassado não demandava a iniciativa e a criatividade emocional implicado no caso de uma mudança naem alto grau, o cenário emergente requer o planeja- carreira, revelando o grau de apego do sujeito à suamento independente da vida e da carreira. Os co- área de trabalho. Os investimentos de carreira inclu-nhecimentos, tecnologias e práticas profissionais em as estimativas de perda de investimentos em edu-renovam-se em ritmo acelerado, exigindo que os cação para a área de trabalho atual, a perda dosujeitos mobilizem-se continuamente para manter tempo de dedicação à mesma, e os prejuízos finan-suas posições de trabalho através da atualização de ceiros decorrentes de uma mudança. A falta de al-suas credenciais (Zunker, 1994). As pesquisas sobre ternativas quer dizer a percepção da disponibilidadeo comportamento vocacional (e.g. Brown, George- e da diversidade de opções de carreira no caso deCurran & Smith, 2003; Freund, 2005) têm utilizado uma transição.o construto comprometimento de carreira para ca- Os comportamentos de carreira (comprometi-racterizar a qualidade e a intensidade do envolvi- mento e entrincheiramento) e a generatividade refe-mento do sujeito na sua vida de trabalho. No modelo rem-se aos dois âmbitos básicos da experiênciade Carson e Bedeian (1994), o comprometimento humana em nossa cultura: o âmbito do trabalho e dade carreira é composto de três dimensões: identida- realização profissional, e o âmbito da vida social e dasde, planejamento e resiliência. A identidade é a im- motivações comunais. As pesquisas de McAdams eportância da atividade profissional para o Azarow (1996) e De St. Aubin e McAdams (1995)autoconceito do indivíduo. O planejamento significa encontraram relações entre generatividade e medi-a definição de estratégias e metas para o desenvol- das de satisfação na vida/felicidade e bem-estar. Evimento da carreira. E a resiliência significa a per- a meta-análise conduzida por Tseng (2004) reveloucepção de que os desgastes associados à atividade que o comprometimento com a carreira é um corre-profissional não são demasiados ou prejudiciais à lato importante da satisfação no emprego. Destevida pessoal. A resiliência refere-se, portanto, à ca- modo, a relação entre generatividade e comporta-pacidade para tolerar aspectos desagradáveis da mentos de carreira encontra paralelo nas pesquisasatividade profissional e perceber os aspectos positi- sobre a relação entre satisfação na vida e satisfaçãovos como compensadores destas dificuldades. no emprego. A literatura aponta três hipóteses sobre Em resposta à insegurança e à turbulência do esta relação: transbordamento, compensação e seg-mercado atual, muitos trabalhadores têm decidido mentação (Murphy & Zelenski, 2005). A hipótesecriar novas alternativas de vida e carreira. Entre es- de transbordamento supõe uma associação positivatas possibilidades estão a abertura de um empreen- entre satisfação no emprego e satisfação na vida,dimento próprio, a diversificação da capacitação onde as vivências de satisfação num contexto afe-profissional e a mudança de emprego. Porém, há tariam o outro no mesmo sentido. A idéia da com-aqueles profissionais que ficam imobilizados em suas pensação sugere que quando ocorre insatisfaçãoRevista Brasileira de Orientação Profissional, 2005, 6 (2), pp. 71 - 80
  • 4. 74 Mauro de Oliveira Magalhães, William Barbosa Gomesem um domínio, o indivíduo irá procurar compen- profissional para a identidade do indivíduo, quantosar este déficit no outro. Portanto, uma correlação maior o grau de apego e identificação com a mes-negativa entre estas variáveis seria esperada. E a ma tanto mais positiva será a relação entre com-hipótese da segmentação sugere que não há corre- portamentos de carreira e generatividade. Sobrelação significativa entre construtos relativos a satis- este aspecto, Magalhães (2005) encontrou rela-fação na vida e satisfação no trabalho. As pesquisas, ções entre o tipo de interesse vocacional e a mag-em sua maioria, apóiam a concepção de transbor- nitude do apego emocional do indivíduo a suadamento. Porém, em menor escala, também apre- atividade de trabalho.sentam evidências favoráveis às demais hipóteses A tipologia de interesses vocacionais de Holland(Judge & Watanabe, 1994). Judge e Watanabe (1997) apresenta um modelo de personalidade asso-(1994) encontraram que a relação entre satisfação ciado ao contexto do trabalho. O autor propõe quena vida e no emprego é positiva para a maioria das os membros de uma profissão têm personalidades si-pessoas, mas não para todas, e argumentaram que milares e também histórias similares de desenvolvi-diferenças individuais são mediadores importantes mento pessoal. As pesquisas geradas pelo modelodeste processo. De acordo com Murphy e Zelenski corroboram estas idéias e, de acordo com Isaacson e(2005), a pesquisa de traços de personalidade Brown (1999), fazem-no o mais influente no campomediadores das relações entre satisfação na vida e da Psicologia das Carreiras. Para Holland (1997), emno emprego, embora recomendável, ainda é incipi- nossa cultura, as pessoas podem ser classificadas deente. Os autores sugeriram que esta abordagem acordo com seis tipos de interesse ou personalidadepode ser útil no entendimento destas variáveis e vocacional: realista, investigativo, artístico, social, em-suas relações. preendedor e convencional (R, I, A, S, E, C). O tipo Deste modo, considerando uma analogia en- realista prefere tarefas que exijam habilidades técni-tre a relação entre generatividade e comprometimento cas e destreza física, através da manipulação de obje-de carreira e a relação entre satisfação na vida e no tos, ferramentas e máquinas. O investigativo tememprego, algumas sugestões podem ser feitas. No preferência por aspectos teóricos e abstratos, prefe-caso de uma associação positiva entre generatividade rindo atividades que envolvam raciocínio e entendi-e comprometimento de carreira, esta corroboraria mento. O artístico prefere usar a intuição e auma hipótese que, ao invés do termo transborda- criatividade, e tende a ser desordenado e passional.mento, poderia ser denominada de sinergia ou com- A inclinação social preocupa-se com o bem-estar deplementaridade entre as atividades generativas dentro pessoas dependentes e confia mais nos sentimentose fora do contexto formal de trabalho. Uma correla- do que em recursos intelectuais. O empreendedor querção negativa poderia ser interpretada como a com- realizar suas ambições de sucesso e busca as pessoaspensação de frustrações generativas no trabalho para dirigi-las, influenciá-las e persuadi-las na buscaatravés de outras atividades na comunidade, e vice- de seus objetivos. O tipo convencional caracteriza-seversa. E a ausência de correlação apoiaria uma hi- por ser metódico e conservador. Nas últimas déca-pótese de independência entre generatividade e das, os tipos de Holland têm se mostrado consisten-carreira profissional. temente relacionados com fatores de personalidade. Inúmeras pesquisas trouxeram evidências de As inclinações realistas e investigativas apresentaramrelações entre personalidade e comportamentos de traços de introversão e carência de habilidades so-carreira (e.g., Holland, 1997), e entre personalidade ciais. As tendências artísticas e investigativas correla-e generatividade (e.g., Bradley & Marcia, 1998), cionaram com a abertura à experiência. O tipo socialsugerindo que as relações entre generatividade e está associado com traços de amabilidade e extro-comportamentos de carreira também sejam media- versão. O interesse empreendedor se caracterizou pordas por diferenças individuais. Os níveis de apego traços de extroversão e assertividade. E o interesseao papel de trabalho, descritos por Carter e Cook convencional mostrou inclinação para a disciplina, res-(1995), parecem atuar neste sentido. Ora, consi- ponsabilidade e necessidade de realização (Larson,derando variações na importância da atividade Rotinghaus & Borgen, 2002). Revista Brasileira de Orientação Profissional, 2005, 6 (2), pp. 71 - 80
  • 5. Personalidades vocacionais, generatividade e carreira na vida adulta 75 Magalhães (2005) examinou as correlações en- to de carreira, escala de entrincheiramento de car-tre identidade de carreira (dimensão de comprome- reira e escala de personalidades vocacionais. To-timento) e custos emocionais (dimensão de dos os instrumentos foram respondidos numa escalaentrincheiramento) em cada tipo vocacional. Suge- Likert de 5 pontos A escala de generatividade (McA-re-se que esta análise possa indicar o grau de apego dams & de St. Aubin, 1998), composta de 20 itens,do indivíduo à sua atividade profissional, conside- obteve índice de consistência interna (alpha de Cron-rando o custo emocional que este percebe no caso bach) de 0.83. A escala de comprometimento dede uma transição de carreira. As magnitudes destas carreira (Carson & Bedeian, 1994) possui 12 itenscorrelações em cada tipo vocacional, da maior para e 3 fatores, a saber: identidade, resiliência e planeja-a menor, foram as seguintes: investigativo (r = 0.63, mento. A escala apresentou consistência interna dep < 0.01), artístico e social (r = 0.56, p < 0.01), 0.82. Para os fatores identidade, resiliência e plane-empreendedor (r = 0.32, p < 0.05), realista (r = jamento, os índices de consistência interna foram,0.26, p < 0.05) e convencional (r = 0.20, ns). De respectivamente 0.75, 0.72 e 0.76. A escala de en-acordo com os autores, estes achados indicam que trincheiramento de carreira (Carson, Carson & Be-indivíduos com interesses predominantemente inves- deian, 1995) possui 12 itens e três fatores com 4tigativos, artísticos e sociais apresentem um apego itens cada, a saber: investimentos de carreira, custosmais elevado a sua atividade específica de trabalho, emocionais e falta de alternativas. A escala apresen-pois os custos emocionais de uma transição de carrei- tou consistência interna (alpha de Cronbach) de 0.84.ra seriam maiores em comparação com indivíduos Para os fatores investimentos, custos emocionais ecaracterizados pelos interesses realistas, empreen- falta de alternativas, os índices de consistência inter-dedores e convencionais. Portanto, esta pesquisa investigou relações en- na foram, respectivamente 0.75, 0.73 e 0.72. A es-tre comportamentos de carreira (comprometimento cala de personalidades vocacionais corresponde ae entrincheiramento) e generatividade, consideran- escala de atividades do Self Directed Search (SDSdo as preocupações generativas como a questão - Holland, 1997). É constituída de seis conjuntoscentral da identidade na vida adulta (Mcadms & de de 11 itens correspondentes aos seis tipos de inte-St. Aubin, 1988) e a importância do trabalho para o resse vocacional (R, I, A, S, E, C). Esta escalaautoconceito e a identidade em nossa cultura. O es- mostrou qualidades psicométricas satisfatórias emtudo partiu da hipótese de uma associação positiva amostras brasileiras (Balbinotti, Magalhães, Calle-entre comprometimento com a carreira e generativi- gari & Fonini, 2004). Os sujeitos assinalaram odade, e de uma relação inversa entre entrincheira- quanto gostam ou não destas atividades. Os sujei-mento e generatividade. E, a fim de explorar tos responderam aos instrumentos no local de tra-mediadores disposicionais desta relação, os resulta- balho ou estudo. Após esclarecimentos sobre ados foram analisados nos grupos constituídos pelo pesquisa, os sujeitos assinaram o termo de con-tipo de interesse vocacional. sentimento livre e esclarecido. MÉTODO Delineamento Foram realizadas provas de correlação de Pe-Participantes arson entre as medidas de generatividade, compro- Participaram do estudo 733 profissionais (415 metimento e entrincheiramento na carreira na amostrahomens e 318 mulheres) com idades entre 25 e 65 total e em cada categoria de tipo vocacional. Foramanos (média = 41,1) e com, no mínimo, 5 anos de criados os seis agrupamentos de personalidade vo-carreira profissional. cacional de acordo com o interesse mais elevado (R, I, A, S, E, C). O interesse predominante foi de-Instrumentos e Procedimentos finido a partir dos escores brutos, considerando as Os sujeitos responderam a quatro instrumentos: diferenças intrasujeito, de acordo com as recomen-escala de generatividade, escala de comprometimen- dações de Holland (1997).Revista Brasileira de Orientação Profissional, 2005, 6 (2), pp. 71 - 80
  • 6. 76 Mauro de Oliveira Magalhães, William Barbosa Gomes RESULTADOS e com resiliência a correlação é inferior (r = 0.11), mas ainda significativa (p < 0.05). A associação é Na amostra total, as correlações (Tabela 1) mos- baixa e negativa entre generatividade e o resultadotraram associação positiva entre generatividade e total de entrincheiramento de carreira (r = -0.14),comprometimento de carreira, respectivamente nos sendo superior, e ainda negativa, na dimensão faltafatores identidade (r = 0.41), planejamento (r = 0.45), de alternativas (r = -0.36, p < 0.01).Tabela 1 - Correlações entre Generatividade e Dimensões de Comprometimento e Entrincheiramento deCarreira (N = 733). Variáveis de carreira Generatividade Comprometimento com a carreira 0.43** Identidade de carreira 0.41** Planejamento de carreira 0.45** Resiliência 0.11* Entrincheiramento de carreira -0.14** Investimento de carreira -0.02 Custo emocional 0.02 Falta de alternativas -0.36** *p < 0.05 **p < 0.01Tabela 2 - Correlações entre Generatividade e Comportamentos de Carreira para cada Tipo Vocacional Tipos Vocacionais R I A S E C N (n= 63) (n= 59) (n= 94) (n= 154) (n= 251) (n= 49) Comprometimento de carreira 0.57** 0.50** 0.26* 0.53** 0.35** 0.49** Identidade de carreira 0.53** 0.46** 0.30** 0.51** 0.30** 0.55** Planejamento de carreira 0.59** 0.47** 0.31** 0.57** 0.41** 0.43** Resiliência 0.11 0.10 -0.05 0.17** 0.09 0.11 Entrincheiramento de carreira -0.33** -0.09 -0.14 0.01 -0.21** -0.14 Investimento de carreira -0.30* -0.03 -0.00 0.04 -0.03 0.00 Custo emocional -0.07 0.14 0.01 0.20* -0.12* 0.04 Falta de alternativa -0.47** -0.38** -0.39** -0.31** -0.38** -0.38** *p < 0.05 **p < 0.01 Para cada tipo vocacional apresentam-se na Ta- neratividade e de entrincheiramento de carreira, nobela 2 as correlações entre generatividade e com- grupo de tipo realista o coeficiente é negativo e sig-portamentos de carreira. Nos seis grupos definidos nificativo (r = -0.33, p < 0.01), e neste grupo aspelos tipos vocacionais, os coeficientes são positi- correlações são ainda negativas e significativas, res-vos entre generatividade e comprometimento de car- pectivamente nos fatores investimento de carreira (r =reira, e ainda nos fatores identidade de carreira e -0.30, p < 0.05) e falta de alternativa (r = -0.47, p <planejamento de carreira. Contudo, no fator resili- 0.01). Salienta-se que em todos os grupos definidosência as correlações são baixas e apenas significati- pelo tipo vocacional, os resultados das escalas gene-va (r = 0.17, p < 0.01) nos resultados do grupo de ratividade e falta de alternativa mostram correlaçõestipo social. Nas correlações dos resultados da ge- superiores a 0.30, estatisticamente significativas e Revista Brasileira de Orientação Profissional, 2005, 6 (2), pp. 71 - 80
  • 7. Personalidades vocacionais, generatividade e carreira na vida adulta 77negativas, denotando uma relação inversa entre as duas Considerando a preocupação generativa como umdimensões em todos os grupos. Na Tabela 2 se ob- movimento espontâneo do indivíduo na direção doservam ainda correlações significativas entre os resul- bem comum, este processo não implica, necessaria-tados de generatividade e de entrincheiramento de mente, na percepção de menor ou maior sacrifíciocarreira, no grupo de tipo empreendedor (r = -0.21, em prol da comunidade. Porém, nos sujeitos de per-p < 0.01), e entre generatividade e custo emocional sonalidade tipicamente social a generatividade pare-nos grupos social (r = 0.20) e empreendedor (r = ce significar a capacidade de tolerar e superar os-0.12), sendo negativo este último coeficiente. desgastes inerentes ao trabalho. Além disto, somen- te no tipo social, a generatividade correlacionou po- DISCUSSÃO E CONCLUSÕES sitivamente com os custos emocionais de uma transição de carreira (dimensão de entrincheiramen- A relação positiva entre generatividade e com- to). Estas correlações sugerem que, para o tipo so-prometimento com a carreira é coerente com a im- cial, a generatividade implica num envolvimentoportância do trabalho para a vivência de aspectos emocional significativo no trabalho e na capacidadecomo identidade, auto-estima, reconhecimento e in- de superar experiências desagradáveis relacionadasclusão social. O comprometimento com a carreira ao mesmo. Talvez esta seja a razão de altos índicestambém pode significar a preocupação com o reco- de burn-out em profissões de ajuda (Gabassi, Cervai,nhecimento da própria contribuição para o desen- Rozbowsky, Semeraro & Gregori, 2002).volvimento da comunidade e da espécie humana, ou A falta de alternativas de carreira correlacionouseja, uma preocupação generativa. As correlações negativamente com generatividade em todos os ti-entre generatividade e comprometimento de carrei- pos vocacionais. Ora, a generatividade está ligada àra sugerem a sinergia ou complementaridade entre capacidade de criar e mudar o estabelecido na bus-as atividades generativas situadas no contexto da vida ca de novas realizações que contribuam para o me-profissional e as demais atividades significativas do lhoramento da vida humana. E a falta de alternativasindivíduo na comunidade, tais como a participação de carreira expressa a dificuldade do indivíduo paraem movimentos sociais, trabalho voluntário, asso- contribuir profissionalmente num espectro mais am-ciações civis, clubes, etc. plo de atuação, revelando sua incapacidade de ge- Entre as dimensões do comprometimento, a iden- rar alternativas e/ou encontrar novos canais detidade e o planejamento mostraram-se mais impor- realização profissional e, consequentemente, obtertantes para a generatividade do que a resiliência de novas possibilidades de generatividade. Sendo as-carreira. Portanto, a importância do trabalho para a sim, a relação inversa entre generatividade e entrin-identidade do indivíduo tende a fortalecer a relação cheiramento revela as polaridades opostas de umaentre generatividade e comprometimento de carrei- dimensão comum a estes construtos, que pode serra. Por outro lado, o planejamento da carreira é o descrita como uma maior ou menor disposição paraaspecto dinâmico do comprometimento, pois em- a criatividade e a inovação.bora a identidade seja uma variável relevante para a Tipos realistas e empreendedores foram os úni-escolha de uma ocupação e para a permanência do cos a apresentar correlações negativas entre esco-sujeito na mesma, o planejamento refere-se à dispo- res de entrincheiramento e generatividade. Isto sugeresição para fazer algo com respeito a esta escolha, que indivíduos de personalidade predominantemen-isto é, em relação ao efetivo desenvolvimento da te realista ou empreendedora sentem-se particular-carreira. Neste sentido, o planejamento parece re- mente desconfortáveis e estagnados em suas vidasvelar aspectos atitudinais importantes em termos ge- quando entrincheirados na carreira, pois, além danerativos, indicando a disposição do indivíduo para falta de alternativas, também tendem a perceber osa realização generativa através do trabalho. investimentos na sua área profissional (tipos R) e os A resiliência de carreira (dimensão de compro- custos emocionais de uma transição (tipos E) comometimento) se mostrou associada à generatividade fatores opostos à generatividade. Ou seja, as corre-somente no grupo de sujeitos de interesse social. lações encontradas sugerem que o apego à posi-Revista Brasileira de Orientação Profissional, 2005, 6 (2), pp. 71 - 80
  • 8. 78 Mauro de Oliveira Magalhães, William Barbosa Gomesções ou áreas de carreira tem impacto negativo na Outras pesquisas também sugeriram que tipos re-generatividade de tipos realistas e empreendedores. alistas e empreendedores se preocupam mais com osEles tenderiam a perceber este tipo de vínculo como aspectos extrínsecos da tarefa (salário, status, promo-uma restrição indesejável. Uma possibilidade de en- ções) e, portanto, sentem-se menos apegados afetiva-tendimento destes dados refere-se à consideração mente a áreas específicas de trabalho, adotando umado significado do papel de trabalho para estas pes- postura mais generalista (e.g.,Amabile, Hill, Hennesseysoas. Ora, para alguns indivíduos, o conteúdo da & Tighe, 1994). Neste sentido, as correlações encontra-atividade de trabalho pode não ser a fonte principal das no presente estudo indicam que alguns indivíduosdo sentimento de identidade (Carter & Cook, 1995). experienciam o apego emocional a uma tarefa, empre-O tipo empreendedor pode perceber a sua identi- go ou área específica como particularmente problemá-dade mais conectada com a capacidade de iniciar e tico em termos da sua realização generativa. Emimplementar empreendimentos que abandonará num contraste, para outros trabalhadores a generatividadecurto ou médio prazo a fim de se dedicar a outro parece implicar num grau mais elevado de apego emo-desafio. Portanto, ele pode participar de empreen- cional as suas atividades de trabalho.dimentos variados ao longo de sua carreira sem ob- Esta pesquisa corroborou uma hipótese de com-ter o seu senso de identidade a partir do conteúdo plementaridade entre as atividades generativas em-intrínseco dos mesmos. De acordo com Nordvik preendidas dentro e fora dos papéis profissionais.(1996), o interesse empreendedor está associado As relações entre generatividade e comportamentoscom a necessidade de estimulação e a preferência de carreira foram influenciadas pelo tipo de inte-pelo trabalho administrativo em contraposição ao resse vocacional. Estas diferenças individuais mos-desenvolvimento de habilidades técnicas específicas. traram-se mais influentes nas relações entreEnfim, a identificação com uma área de especialida- generatividade e entrincheiramento na carreira. Ode técnica não é característica do tipo empreende- entrincheiramento associado com a intensidade dodor, mas sim de tipos investigativos. Estes últimos envolvimento emocional no trabalho se revelou fa-apresentaram uma correlação positiva entre custos vorável para a generatividade em tipos sociais. Deemocionais e generatividade, que, embora baixa e modo semelhante, tipos investigativos não percebemnão significativa, sugere uma contraposição à ten- este vínculo como desfavorável a generatividade. Emdência empreendedora e indica que tipos investiga- contraste, tipos empreendedores experienciam estetivos não percebem o entrincheiramento como um envolvimento como prejudicial para a sua experiên-empecilho a generatividade. Sobre este aspecto, no cia de generatividade. Ora, as atividades profissio-estudo de Magalhães (2005), os tipos investigativos nais do tipo social requerem mais investimentose mostraram mais entrincheirados na carreira em emocional, e tipos investigativos valorizam o aper-comparação com tipos empreendedores e realistas, feiçoamento de competências específicas, enquantodevido à percepção de maiores custos emocionais as atividades empreendedoras requerem comporta-no caso de uma transição de carreira. No mesmo mentos de desapego e abertura para transições.estudo, tipos investigativos mostraram-se os mais Enfim, as preferências vocacionais parecem ter im-apegados ao conteúdo específico da sua tarefa pro- plicações no modo como os indivíduos conduzemfissional, em contraste com tipos convencionais, re- as suas carreiras no sentido de contribuir socialmen-alistas e empreendedores. te e deixar o seu legado para a posteridade. REFERÊNCIASAmabile, T. M., Hill, K. G., Hennessey, B. A., & Tighe, F. M. (1994) The Work Preference Inventory: Assessing intrinsic and extrinsic motivational orientations. Journal of Personality and Social Psychology, 66, 950-967.Balbinotti, M. Magalhães, M., Callegari, S. & Fonini, C. R. (2004). Estudo fatorial exploratório da versão brasileira do inventário de preferências profissionais. Em Sociedade Brasileira de Psicologia (Org.), Resumos da XXXIV Reunião Anual de Psicologia [CD-ROM]. Ribeirão Preto, SP: SBP.Bradley, C. J. & Marcia, J. E. (1998). Generativity-stagnation: A five-category model. Journal of Personality, 66(1), 39-64. Revista Brasileira de Orientação Profissional, 2005, 6 (2), pp. 71 - 80
  • 9. Personalidades vocacionais, generatividade e carreira na vida adulta 79Brown, C., George-Curran, R. & Smith, M. L. (2003). The role of emotional intelligence in the career commitment and Decision-Making Process. Journal of Career Assessment, 11 (4), 379-393.Carter, M. A. & Cook, K. (1995) Adaptation to retirement: Role changes and psychological resources. Career Development Quarterly, 44(1), 67-82.Carson, K. D. & Bedeian, A. G. (1994). Career commitment: Construction of a measure and examination of its psychometric properties. Journal of Vocational Behavior, 44(3), 237-262.Carson, K. D., Carson, P. P. & Bedeian, A.G. (1995). Development and construct validation of a career entrenchment measure. Journal of Occupational and Organizational Psychology, 68, 301-320.Carson, K. D & Carson, P. P. (1997). Career entrenchment: A quiet march toward occupational death? Academy of Management Review, 11(1), 63-75.De St. Aubin, E. & McAdams, D. P. (1995). The relations of generative concern and generative action to personality traits, satisfaction/happiness with life, and ego development. Journal of Adult Development, 2, 99-112.Erikson, E. (1976). Identidade, juventude e crise. Rio de Janeiro: Zahar.Erikson, E. (1998). O ciclo de vida completo. Porto Alegre: Artmed.Freund, A. (2005). Commitment and job satisfaction as predictors of turnover intentions among welfare workers. Administration in Social Work, 29(2), 5-22.Gabassi, P. G., Cervai, S., Rozbowsky, P., Semeraro A. & Gregori, D. (2002). Burnout syndrome in the helping professions. Psychological Reports, 90(1), 309-314.Havighurst, R. J. (1982). The world of work. Em B. B. Wolman (Ed.), Handbook of developmental psychology (pp. 771-787). Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall.Holland, J. L. (1997). Making vocational choices: A theory of vocational personalities and work environments. Odessa, FL.: PAR.Isaacson, L. E. & Brown, D. (1999). Career information, career counseling, and career development. Needham Heights, MA: Allyn & Bacon.Judge, T. A. & Watanabe, S. (1994). Individual differences in the nature of the relationship between job and life satisfaction. Journal of Occupational and Organizational Psychology, 67, 101-107.Larson, L. M., Rottinghaus, P. J. & Borgen, F. H. (2002). Meta-analyses of Big Six Interests and Big Five Personality Factors. Journal of Vocational Behavior, 61(2), 217-239.Magalhães, M. (2005). Personalidades vocacionais e desenvolvimento na vida adulta: Generatividade e carreira profissional. Tese de doutorado não publicada, Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul.McAdams, D. P. & Azarow, J. (1996). Generativity in black and white: Relations among generativity, race and well-being. Trabalho apresentado na Convenção da American Psychological Association, Toronto.McAdams, D. P. & De St. Aubin, E. (Eds.) (1998). Generativity and adult development. Washington, DC: APA.Murphy, S. A. & Zelenski, J. M. (2005). A dispositional approach to the job-life satisfaction relationship. Trabalho apresentado no Annual Meeting of the Society for Industrial and Organizational Psychology, Los Angeles.Nordvik, H. (1996). Relationships between Holland’s vocational typology, Schein’s career anchors and Myers- Briggs’ types. Journal of Occupational and Organizational Psychology, 69, 263-275.Tseng, W. (2004). Meta-analysis of student affairs professional’s job satisfaction. Journal of Taiwan Normal University: Education, 49 (2), 161-182.Vondracek, F. W. (1998). Career development: A lifespan perspective (Introduction to the special section). International Journal of Behavioral Development, 22(1), 1-6.Zunker, V.G. (1994). Career Counseling: Applied concepts of life planning. Pacific Grove, CA: Brooks/Cole. Recebido em: 03/10/05 1ª revisão: 12/12/05 Aceite Final: 22/01/06 Sobre os autores Mauro de Oliveira Magalhães é psicólogo Doutor em Psicologia do Desenvolvimento de Carreiras,professor da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA), vice-presidente da ABOP. William Barbosa Gomes é professor do Progama de Pós-Graduação em Psicologia da UniversidadeFederal do Rio Grande do Sul, bolsista Produtividade CNPq.Revista Brasileira de Orientação Profissional, 2005, 6 (2), pp. 71 - 80