Your SlideShare is downloading. ×
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
O canto dos malditos [ok]
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Thanks for flagging this SlideShare!

Oops! An error has occurred.

×
Saving this for later? Get the SlideShare app to save on your phone or tablet. Read anywhere, anytime – even offline.
Text the download link to your phone
Standard text messaging rates apply

O canto dos malditos [ok]

801

Published on

Peça Teatral Brasileira

Peça Teatral Brasileira

Published in: Entertainment & Humor
0 Comments
0 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

No Downloads
Views
Total Views
801
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
8
Actions
Shares
0
Downloads
12
Comments
0
Likes
0
Embeds 0
No embeds

Report content
Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
No notes for slide

Transcript

  • 1. O CANTO DOS MALDITOS – TEATRO Gênero : drama Uma obra de: Procópio Pinheiro Argumento: 19 de agosto de 2012 SINOPSE: É o cruzamento entre homens e mulheres sem esperança. A boa moça que virou cafetina. O homem que acredita apenas no dinheiro. A dançarina que não consegue mais sambar. E até mesmo um padre que deixou de acreditar em Deus. Todos acoados em um beco, um canto, da metrópole maldita: São Paulo, 1960. PERSONAGENS: A EX-BOA MOÇA LAURA, ATUAL CAFETINA ANJULI LAMUR O ÓRFÃO GIGOLÔ JOÃO, PSEUDÔNIMO NA NOITE: DON JUAN PADRE SEVERINO A EX-DANÇARINA DE SAMBA, AGORA MULHER DE LUTO, VIDA CENÁRIOS: Compostos por elementos simples, como descrito no texto para denotação de cada ambiente. Troca de cenários direcionada pela luz: luz se acende sobre um cenário, apaga, acende sobre outro cenário ou personagem-solo e etc. O BECO/CANTO DOS MALDITOS O QUARTO DE LAURA – A CAMA A IGREJA
  • 2. CENA 1 - LOCUÇÃO: ESCURO. SOM DE PÚRPURA. NARRAÇÃO DE UMA MENINA (séria, mas notadamente infantil): 'Era uma vez, numa terra não muito distante daqui, num tempo não muito distante de hoje, num canto, num beco. TRECHO (ATÉ 30 SEGUNDOS DE RODA-VIVA, DE CHICO BUARQUE) OFF. MESMA NARRAÇÃO: 'Ali, num canto sujo, de uma cidade ainda mais suja. Era uma vez... São Paulo, 1960, Esquina da Brigadeiro com a Avenida Paulista, ou O Beco dos Malditos.' SOM DE VOZES, SIRENE DE POLÍCIA, OFF. LUZ ACENDE SOBRE O PRÓXIMO CENÁRIO: * CENA 2 - REPRESENTAÇÃO DO BECO: UMA CADEIRA ESTILO BANCADA, PEQUENA, UM POTE DE LIXO AO LADO, ENFERRUJADO. LAURA SENSUALMENTE SENTADA, FUMANDO UM CIGARRO. LAURA: Tudo que acontece tem que ter sentido, um significado. Mas infelizmente, não é assim. Eu estou aqui, nesse beco sujo, feito uma prostituta... Porque eu não sou uma prostituta... mais. Eu subi de casta, hoje eu sou cafetina! Tenho quatro meninas trabalhando pra mim e um michê. Ainda não tenho bordel, mas tenho essa esquina. E tenho que fiscalizar o trabalho. Cliente feliz, é retorno garantido. Mas o mundo é machista. Até entre os renegados. Não me respeitam como cafetina. Me chamam de puta mesmo. Agora se alguns desses cafetões é chamado de puto... não é palavrão. Chamar um homem de puto é elogio. Pois bem, que assim seja! Um dia, um dia!, eu terei um bordel meu, só meu, erguido de parede e cimento, com lustre, música, piano, pole dance... Uma coisa bem parisiense. Chique.
  • 3. Eu amo Paris! Nunca fui, nem conheço quem foi, mas sinto pelos folhetins, pelas fotos, pelas músicas, pelos filmes, ainda que preto e branco... Pra mim, basta sentir. É o suficiente, pelo menos por enquanto. Aí que tá o preconceito. (ri). Quem de nós não tem seus receios? Quem, me dê só um nome! Nomes... É interessante como se acham nomes para tudo, como eles qualificam as coisas. É uma questão de substantivo, como o que existe entre “putas” e “putos”. Mais um exemplo, a palavra "Buceta", parece um nome tão feio. “Bu-ce-ta”. Não é bonito, nem um pouco poético. Uma vez, um cliente, ex-cliente, chamou meu órgão de ‘rosa da representação máxima feminina’. Eu achei tão bonito, ‘minha rosa’ (toca a própria vagina), mas tão bonito, que eu quase não consegui transar com o cara...!, minha buceta pareceu tão sagrada chamada dessa forma. O mesmo, essa questão de nomenclatura, acontece com as putas. Nossa classe trabalhadora. As de rua, acabadas, velhas, drogadas,são simplesmente putas. Puta de sarjeta. Nenhuma de nós quer terminar assim! As de rua, mas bem apessoadas, as que bate ponto em esquina, são prostitutas, subiu a catigoria. Já aquelas que atendem em bordel, ou como vemos nos classificados, que tem 'local próprio' as são garotas de programa. Finalmente, surgem as acompanhantes. Aquelas que são bilingues, podem trabalhar como secretária, são lindas e mega discretas e só atendem gente poderosa. Um dia, também terei garotas assim. Serei cafetina de acompanhantes. E não uma puta de ponto que subiu meio degrau da cadeia alimentar, ora! Tratando-se de nomes, todos me conhecem como Anjuli Lamur. É um nome francês, eu sei. An-ju-li. Ah, Paris! Meu nome mesmo não é Anjuli, claro, é Laura Antonieta da Silva Pereirinha. Esse nome quem me deu foi minha mãe, quero dizer, o “Laura”. Não nasci quenga. Era boa moça, como dizem, moça de família. Vivia com minha mãe e meu pai numa casa de fazenda, família
  • 4. de colonos. Meu pai começou a me abusar, me bulinar, quando despertei pra adolescência. Aquele porco! Eu não entendia o que ele fazia, aqueles toques, aquela intimidade... Mal tinha feito 10 anos. Mas não me sentia à vontade, e sabia que era de alguma forma, sujo e errado. Porque era escondido, era segredo, tinha ameaça. Não engravidei, graças a Deus. Mas foi o meu pai, aquele filho de uma puta... (quer dizer,) Aquele desgraçado, quem tirou minha virgindade. Ele não fazia direito. Ele forçava, unfarva. Peguei nojo, não queria mais, doía. Eu era uma menina, e ele me fazia de animal. Mas quem disse que aquele desgraçado queria parar? Ele não me ouvia. Era o meu tormento. Ele disse que ia contar pra minha mãe, que ia contar pra toda a fazenda o que a gente fazia. EU que devia sentir vergonha, ELE não! E aí foi aquela desgraceira... Até o dia que minha mãe chegou mais cedo da colheita e pegou o desgraçado em cima de mim. Bem, foi um alívio... Quero dizer, aquilo finalmente ia acabar! Mas também foi decepção. Minha mãe me chamou de maldita, me expulsou de casa. Foi aí que eu acabei no mundo. Acabei virando puta mesmo, mas o que minha mãe não sabia naquela época, é que até a mais suja puta de sarjeta, ganha dinheiro, não faz de graça. O safado do meu pai tinha razão, que vá pros quintos... Fui EU quem levei a culpa. A molenga da minha mãe, não ia ficar sem o macho dela. Sem o seu sustento. Mulher sozinha não se banca. Desquitada, viúva ou solteirona. Pertencemos aos pais. Depois aos maridos. E finalmente, aos filhos. E se não morremos antes, pertencemos aos netos. Os homens é que mandam. Tudo, sempre é culpa das mulheres. Foi Eva quem mordeu a maçã. Pois bem, eu tenho uma visão mais realista desse acontecimento: se foi Eva quem mordeu primeiro a maçã, foi porque Adão era um cuzão, um autêntico bunda-mole! Mas eu, ah, eu sou cafetina, a primeira cafetina mulher-dama desse beco, desse canto, dessa esquina! E as meninas gostam
  • 5. de mim, porque os cafetões, homens, são muito brutos. Eles só pensam no dinheiro. Já eu não sou tão superficial assim. Eu ensino os meus truques às minhas meninas. O que a estrada me ensinou. Saí do mato e me fiz na vida em cidade grande. Com minha buceta entre as pernas. Ninguém quer morrer meretriz. O que elas, minhas funcionárias querem, é só um tapinha nas costas, é só disso que essas sofredoras precisam. Um pouco de aconchego. Que graça há em estar à margem da sociedade e não poder se divertir como tal? Sem amarras, convenções irritantes... Esse mês lancei uma campanha motivacional. Quem der mais durante a semana, ganha o domingo de folga! Dá pra ser bom no inferno. Até entre os renegados, deve existir direitos, sindicalismo. Se os militares me ouvem... Me acusam de comunista! Umas das coisas que eu ensino às minhas meninas, um truque, é o strip. Para que o strip tenha sentido, elas devem vestir o máximo de roupas ou acessórios possíveis. Os homens gostam de ver a mulher coberta para poder desnudá-la. Veja entre os indíos, uma comparação do método. Eles andam pelados entre si e não se importam. O sexo foi banalizado, tudo exposto, natural. O sexo não pode perder a tara! Atendi um árabe uma vez que disse que na sua terra as mulheres andavam cobertas dos pés a cabeça, a tal da burca, só havia um pequeno buraco para os olhos e às vezes elas colocavam um lenço por cima do buraquinho... O objetivo era esconder a mulher, esconder seu corpo, para não despertar o desejo, o pecado no homem. Mas era justamente isso o que acontecia! (entra uma mulher vestida de burca) Ele me contou que era extremamente excitante. Imaginar como uma mulher era, seu pecado, suas mãos, quando o vento passava e a burca levantava, revelando os pés, o tornozelo... (a mulher com movimentos sensuais, alisando o corpo sobre a burca, levanta um pouco o tecido, mostrando o tornozelo) Os homens enlouqueciam simplesmente com isso, porque era tudo o que eles tinham. A imaginação corria solta. Sexo virou tara, virou loucura. O árabe me disse que no Brasil perdeu a graça, se comparado às arábia... Porque é tudo muito fácil,
  • 6. aberto, exposto. (a mulher de burca sai, de cabeça baixa) É como com os indíos. Banalizado, cotidiano, sem graça, sem conquista, sem a bendita loucura. O strip segue essa mesma lógica. Claro, minhas meninas não vão vestir uma burca. Mas elas não podem estar tão expostas, revelar-se de graça. Excesso de nudismo, pornografia, é prejuízo pro mercado! Tem que usar sapatos, meias, espartilho, colete, saia, sutiã, calcinha, blusinha, luvas, colar, brincos, pulseiras. Tudo tem que ser tirado delicadamente. Uma coisa de cada vez. O olhar é importante. (ela começa a se despir, conforme explica) Eu estou me revelando. Aos poucos. Tornando o que é natural, pecado. O que é normal, desejo. O que é instinto, proibido. (ela vai se despindo, SOM DE CORRENTES, até ficar só de calcinha) Não se pode tirar a calcinha. Não se pode revelar a ‘rosa máxima da representação feminina’. Ele tem que imaginar. Se o idiota já não tiver gozado, vai terminar muito mais rápido. Esse é um ponto positivo da profissão mais antiga do mundo: só quem tem que gozar é o cliente. * CENA 03 - LUZ ACENDE, JOÃO ESTÁ DEITADO EM UMA CAMA, OBSERVANDO LAURA, ESTA SERIA A REPRESENTAÇÃO DO QUARTO DE LAURA. JOÃO: Nossa, como você fala! É assim que você descansa, Laura? LAURA: Só por causa disso! (e volta a se vestir, rapidamente) JOÃO: Mulheres… tão volúveis e tão cheias de segredo… Você tem razão nesse ponto: os homens amam desvendar suas mulheres. À começar pelo figurino. LAURA: Disse bem: 'suas' mulheres. Porque a nossa relação é meramente empregadícia. Pelo menos… por ora. Você roda a bolsinha pra mim e eu te protejo.
  • 7. JOÃO: Você ganha comissão em cima do meu corpinho, isso sim, sua exploradora! LAURA: Olha você também com esse papo de exploração de força de trabalho... isso é comunismo, olha lá hein! JOÃO: Mas eu adoro que você me explore... Sou totalmente capitalista neste sentido, meu bem. LAURA: Não me venha com esse seu charme barato. Eu que te ensinei. JOÃO: Não, não, não. Foi o contrário. Fui eu te achei na estrada, Laura. E estamos juntos nessa desde então. Eu vi você virar Anjuli Lamur. E te adoro por isso. Você é meu orgulho. E eu continuo gigolô. Vamos falar sinceramente: sexo e dinheiro é o que movem o mundo. LAURA: E o amor? JOÃO: Amor de cú é rola. LAURA: É por isso que vocês homens são péssimos cafetões. E por isso que eu virei cafetina e você continua aí… michêzão. Pelo menos, finja amar, queridinho. Um pouco de amor é fundamental nesse meio. Eu amo minhas meninas... Eu amo você. JOÃO: O dinheiro que a gente traz pra você, Anjuli. Aliás, esse negócio de rodar bolsinha... É um termo que não caiu bem em mim. LAURA: Então você roda o cinto! (ela ri) JOÃO: Assim você fere a minha masculinidade. LAURA: Como se a maioria dos seus clientes fosse mulher, ah, vá! JOÃO: Ok, ok. LAURA: Hetero, bissexual, gay. São apenas rótulos. Sexo sempre vai ser sexo, fica tranquilo. (pausa) A noite não foi muito boa hoje com o toque de recolher. As meninas estavam reclamando que você só atendeu dois e recebeu mais do que elas. JOÃO: A sua parte já tá paga, não?
  • 8. LAURA: É que é engraçado que mesmo aqui, entre as putas, os homens tem mais privilégios. Quero dizer, um michê cobra mais caro que uma garota de programa. JOÃO: Mas nesse sentido é totalmente devido. A mulher só tem que abrir as pernas e fingir que está sentido prazer. Mulher finge orgasmo. Os homens, não. Pro mastro erguer, o cara deve estar verdadeiramente excitado. E um desses clientes, se não te relataram, era uma velha, velha mesmo, de cabelo branco, enrugada e de peito caído... que você não tem noção. Eu realmente usei o poder da imaginação. A velha me chupou sem a dentadura. LAURA: Que horror! JOÃO: Não, essa parte até que foi boa. Nenhum dente raspando. (ri) LAURA: Credo! JOÃO: Você jamais se excitaria com isso... LAURA: E o que foi que você pensou, enquanto estava com ela, hein? JOÃO: Em você... (aproxima-se, beijando-a) LAURA: Você não vale um centavo! JOÃO: A hora custa 250 cruzeiros! Preço tabelado, HA! LAURA: (ela ri) Pelo menos nós nos divertimos... JOÃO: Como você acabou de dizer... 'à margem da sociedade, sem convenções irritantes'. Vai me dizer que você não sente inveja das adoráveis e corretas donas de casa com seus maridos e filhos? LAURA: Se eles são tão felizes... Por que vêm nos procurar? (pausa) Qual foi o seu outro cliente? JOÃO: Homem-mulher. LAURA: Um pederasta. JOÃO: Eles gostam de ser dominados, aceitam tudo. Eles vêm à
  • 9. mim como a última esperança de realizar seus desejos proibidos. Como se eu estivesse fazendo um favor à eles. LAURA: E você nunca foi a mulher? JOÃO: Que conversa é essa, minha quenga? LAURA: Olha o preconceito, João. JOÃO: João, não! LAURA: João José, que é o seu nome! JOÃO: Já você não precisava trocar de nome… Laura é um nome tão bonito. LAURA: Laura é meu nome de mulher, não de puta. Trabalho é trabalho. JOÃO: Então nós não estamos mesmo tendo um relacionamento estritamente profissional... LAURA: Você gosta da sensação de estar seduzindo, né, Don Juan? JOÃO: Eu sou Don Juan e você é Anjuli Lamur! LAURA: Às vezes, só às vezes, eu penso: por que não podemos ser só Laura e João? JOÃO: Simplesmente porque João José é um nome feio demais! Não é sexy! Pega mal nos classificados. LAURA: Não me venha com frescurices. Já conheci homem com nome de Estrogonófi, Pedreiras, Milaneso e até Seu Pardal! JOÃO: Don Juan combina mais com o meu charme. Você sabe quem foi Don Juan? LAURA: Um cafajeste igual a você. A diferença é que ao invés de traçar mulheres carentes e viadinhos afoitos, ele pegava princesas e condes! JOÃO: Foi tua mãe que te deu o nome de Laura, foi? LAURA: Sim. Não te falei?
  • 10. JOÃO: Teve notícias dela? LAURA: Não. Pensando bem, uma pobre coitada. Que morra de fome, nem quero saber. E que meu pai vá pro inferno! JOÃO: Mas esse lugar, essa terra, já é o inferno! LAURA: Por isso deve existir um paraíso... Por isso Deus deve mesmo existir… JOÃO: Me beija no boca. (ela lhe dá um selinho rápido) Me beija mesmo. De verdade. (beijam-se aos poucos e então se entregam num beijo molhado, selvagem, quase apaixonado) LAURA (se solta, trôpega): Por que isso? JOÃO: O beijo? (ela faz que sim com a cabeça) O beijo... ele pode ser mais intímo que o sexo, repara? Fui eu que ensinei você a não beijar clientes quando você era rameira em começo de carreira... LAURA: Agora sou ca-fe-ti-na, muito da patroa! JOÃO: Você carrega isso como uma espécie de título doentio... Vou te contar um segredo: eu beijo cliente na boca, se pagar bem. LAURA: E eu... bom, tenho que te confessar, também! JOÃO: É isso, sua traidora, você nunca me ouve! Vai pegar boqueira! LAURA: Então, diz, define: o que é intimidade de verdade? Se não é o beijo, nem o sexo... Como ver, alcançar a alma de alguém? JOÃO: Que conversa mais estranha... LAURA: Você é muito bruto. Não sabe o que é o amor. JOÃO: E você já amou alguém? Por acaso estava apaixonada pelo teu pai? LAURA: CALE-SE! JOÃO: Perdão, Laura, foi só uma brincadeira.
  • 11. LAURA: Me fale sobre você! JOÃO: Nós estamos juntos nessa desde sempre, é o que é preciso saber e ponto final. LAURA: Me conte agora. Quero ouvir, sempre, sempre! (aninha- se à ele) JOÃO: Isso não é uma fábula. LAURA: Todas as fábulas começam com uma boa moça pobre e inocente... (aponta para si mesma) JOÃO: Que no final se revelam princesas e não cafetinas! LAURA: Tenha um pouco de magia, João José. Corrigindo, meu Don Juan. JOÃO: Tá, tá. Era uma vez um menino ingênuo. Ele se chamava Don Juan. Ele conheceu outra menina ingênua, Anjuli. Mas ela nao tinha nada de ingênua. E o dominou. Virou sua chefe, sua patroa. Moral da história: é o dinheiro quem manda no mundo. E as mulheres são ardilosas. Adão era mesmo um cuzão. Amor ao dinheiro! LAURA: Não, não, não, seu sem graça! JOÃO: Por que você se interessa tanto por histórias tristes? LAURA: Eu não vejo bem assim. Pense: se não houvesse a tristeza, como saberíamos o que é a felicidade? JOÃO: E se não houvesse o pobre, como saberíamos o que é a riqueza? Filosofia barata de baaaaaaaar! LAURA: Não é filosofia barata de baaaaaar! Folhetins também ensinam. Não são só histórias de amor bobas. Não é só a Europa, Paris, França... JOÃO: Um menino sem pai nem mãe. Enjeitado. Assim eu nasci. Mas isso não justifica a minha escolha. Eu sou o que sou e você é o que é, como todo o resto do mundo. LAURA: É a vida. JOÃO: É nossa escolha. Não deixa de ser uma escolha. Mesmo que essa escolha se resuma entre o ruim e o pior. (pausa) Fui
  • 12. largado no orfanato, bebê. E de lá me mandaram pra um convento, quando maiorzinho, rapagote. Criado entre mulheres, não podia dar em outra coisa... LAURA: Conhece todos os nossos pontos sensíveis... Sei bem. JOÃO: Quase isso, vá lá. Minha primeira vez foi com uma freira. LAURA: Que pecado! Eu adoro essa parte! JOÃO: Com pecado é mais gostoso... (pausa) Mas aí o que era pra ser apenas uma trepada, virou caso. E aí, que acontece aquilo que acontece com todos os casos amorosos, mais cedo, mais tarde, os amantes são pegos. Flagraram eu e a Freira na Sacristia. Fomos expulsos do convento. Ela seguiu o caminho dela e eu o meu. Já não era mais criança. Aí começaram a aparecer as boas donas de casa que me acolhiam, uns dias, uma semana, meses. Ajudar um jovem rapaz. Eu tinha casa e em troca fornecia meu corpo. Às vezes eram os maridos. Às vezes eram os dois. Meu corpinho em troca de acomodação. Até a gente aprender a engenhosidade do negócio… Já era hora de ganhar dinheiro mesmo. Hoje em dia, não aceito aluguel de quarto, vale-refeição ou cheque. Só dinheiro vivo, que é o que eu reconheço! LAURA: Ah, tá. Você só fala. Você... se apaixonou por essa freira, não foi? JOÃO: Ela me ensinou que o que começa como uma trepada, deve acabar como apenas uma trepada. (pausa) Eu rodei todos esses casarões dessa vizinhança... E, repara, eu estou aqui, sem escândalos, intacto... Se soubessem a metade do que essas famílias polidas têm de podre... LAURA: Se soubessem. Por isso, um dos requisitos fundamentais dessa profissão é o sigilo. JOÃO: A confidencialidade dos médicos, padres, advogados, psicólogos e agora das putas... (ri) LAURA: Mas você não acredita que um dia podemos ter uma família nossa, eu e você, sem segredos, hein, uma suposição? JOÃO: Os segredos existem para nunca ser revelados. Então, dá
  • 13. na mesma. LAURA: Você amou essa freira idiota. E ela te deixou, isso sim! JOÃO: E daí? Não amo ninguém! É tudo conveniência. Só o dinheiro importa. Money. Cash. O resto é conversa. LAURA: Isso é conversa? (agarra-o, beija-o) Hein? Você não ama isso? Diz que me ama! JOÃO: Tá bom, eu te amo. LAURA: Assim não. Diz de verdade. Ele a beija, se amassam, a luz vai caindo... * CENA 04 - Uma espécie de confessionário improvisado, uma bancada, um jesus cristo crucificado pendurado, esta seria a representação da IGREJA DE PADRE SEVERINO. O padre Severino de um lado, Vida - a ex-dançarina sem maquiagem, num vestido preto, usando um leve véu. VIDA: Padre, eu pequei. PADRE: Diga, minha filha, o que foi que fizeste? VIDA: Estou apaixonada por um defunto. PADRE: Como assim? VIDA: Amo um homem que já morreu. PADRE: Estás me dizendo que tens relações com um fantasma? VIDA: Antes fosse, padre. Porque nem fantasmas vejo. PADRE: Então, menos mal, economiza um exorcismo. VIDA: Padre, o senhor sabe quem eu sou. PADRE: Não me lembro de você. VIDA: O Coronel Justino, seu padre...
  • 14. PADRE: Ah, sei, aquele que andava com aquela jovem prostíbula. VIDA: Essa jovem sou eu, seu padre! PADRE: Perdão, não foi o que eu quis dizer. VIDA: Não interessa. PADRE: Sim, lembro-me. O coronel Justino faleceu. VIDA: Pois bem, eu ainda o amo. Para mim é como se ele não tivesse morrido. Eu não aceito. Meu corpo não aceita. Conheci o coronel na gafieira. Dançava lá. Tenho bom samba no pé. Represento escola e tudo o mais. PADRE: Certo, a senhora rebola... profissionalmente. E conheceu Seu Justino. Um bom homem. Sozinho nesse mundo. VIDA: Sim, eu era tudo praquele homem. Eu era o mundo dele. Só não esperava que o mesmo fosse verdade. Quando ele se foi, tudo pra mim acabou-se. Eu vivo em luto eterno. PADRE: Sim, mas isso é natural, minha filha. VIDA: Mas o senhor se lembra, não lembra? PADRE: (finge) Sim, sim lembro. VIDA: Mas o senhor agora pouco não lembrava... PADRE: (fingindo descaradamente) Mas agora eu lembro, lembro sim! VIDA: Então o senhor sabe... PADRE: (fingindo) Sei, sei. Claro que sei! VIDA: Então, seu Padre...! PADRE: (fingindo) Então... VIDA: Faz 5 cinco anos que ele morreu! PADRE: (agora entende o que ela queria dizer) Sim, cinco anos que o bom coronel Justino se foi... Pensei que a senhora tivesse ido embora daqui. Era tão glamourosa. Tão exibida. O
  • 15. coronel a carregava como um troféu. Quando passava, todos os homens paravam e olhavam. VIDA: Não saio de casa, não cuido mais de mim. Quem morreu foi minha mãe, agora. E o último pedido dela era pra que eu voltasse a viver. Mas como? Se as lembranças me deixam tão deprimidas... Não quero mais ficar bonita. Não quero mais sambar. Para quê? Se não tenho meu coronel pra me ver, pra me elogiar! Do que adiantam os outros, se não são meu coronel! PADRE: Homens são homens, minha senhora. Eles não se tornam santos depois de mortos. VIDA: Mas quando se morre, todos pecados são perdoados. PADRE: Sim. E os bons vão para os reinos dos céus. Minha filha, amar não é pecado. E se eu estiver errado, que se exploda o mundo, eu só penso em você… VIDA: O quê??? PADRE: Desculpe, é uma música, me veio a cabeça, de repente. Ora, bem, amor é isso. O amor é imortal e imortal é tudo aquilo que não morre no final. VIDA: Hã? PADRE: Não há pecado algum, minha filha. Viva a vida. A senhora tinha um nome engraçado... Como é mesmo? VIDA: Padre Severino, meu nome é Vida. PADRE: Isso. Olha que benção, aleluia, glória em nome do senhor, chabelem belem. Vida. O coronel Justino se estivesse vivo não ia querer lhe ver assim. VIDA: Não sei não, padre. Ele disse que se morresse, eu deveria morrer também. PADRE: Um homem... romântico, sem dúvida. VIDA: Estavámos na cama, e fazíamos amor, enloquecedoramente. Isso o coronel me ensinou. Antes dele, eu não fazia amor. Fazia sexo. Feito animal. Ele me ensinou a ser gente. PADRE: Ele morreu com você em cima dele?
  • 16. VIDA: Diga-me, se essa não é a forma mais encantadora de se morrer? Quantos homens não morreriam para morrer assim??? PADRE: Pois bem. VIDA: Ele teve um ataque do coração, fulminante. A idade, sabe. Eu vesti ele. Acho que por isso que ele morreu. Se tivesse corrido com ele pelado, logo na hora, não tinha morrido. PADRE: (nervoso) Isso não tem o menor cabimento! O que importa é que ele morreu! (percebe a indelicadeza, se acalma) Enfim, ele infelizmente foi dessa para uma melhor. VIDA: O sr. saberia me dizer se ele foi pro céu? O sr como um representante de Deus na terra? PADRE: Os desígnios de Deus são um mistério. VIDA: Mas, se o sr. não sabe, quem saberá? PADRE: Um bom homem sempre vai para o céu. O amor entre um homem e uma mulher, por mais calourento que seja, também não é pecado. O Coronel justino era um bom homem. E a devoção de sua senhoria prova que és uma boa mulher. Mas estamos aqui pra falar de você. Melhor, para que eu possa ajudá-la. O luto, minha filha, dura 7 dias. É o prazo que a alma fica na terra para se despedir, 7 dias. Por isso tem a missa de 7º dia. É a consagração para a passagem. No 8º, a alma vai embora. VIDA: Mas eu nunca mais o vi... Nem mesmo um vislumbre depois que ele se foi. Queria tanto que ele me assombrasse! PADRE: Vá-lhe Deus, cruz credo! Aleluia, glória em nome do senhor, chabelem belem. A senhora por um acaso não foste atrás de macumbaria né? Pois isto sim é pecado! VIDA: Não, padre. Juro. Nunca vi fantasma. PADRE: Então. Faça como seu nome, Vida. Viva! Faça como sua mãe lhe pediu. Viva! Faça como o Coronel gostaria. Um homem bom, apesar de apaixonado, jamais é egoísta. Viva. Seu luto terminou. Faz cinco anos. A vida não pára. Ela continua. Se foi designio de Deus que continuasse... Arrume-se, volte a dançar, sambar. Talvez o Coronel lhe apareça.
  • 17. VIDA: Como? PADRE: Na forma de outro homem. VIDA: Como assim? PADRE: A senhora precisa de um macho, Senhora Vida. Aleluia, glória em nome do senhor, chabelem belem! Arrume um macho, um novo homem. Um novo amor para esquecer o antigo. Não é impossível. Apenas tente. Pare de se lamentar. E reze três Ave-Maria para garantir! VIDA: Sim, sr padre, obrigada pelo conselho. Aleluia, glória em nome do senhor, chabelem belem! Luz apaga. * CENA 05 - LUZ SOBRE O BECO. DON JUAN EM PÉ, LÂNGUIDO, ESPERANDO SER SOLICITADO. O PADRE SEVERINO SURGE, UM POUCO DISTANTE, PÁRA. MIRA DON JUAN (JOÃO). DON JUAN RETRIBUI O OLHAR, COM SEDUÇÃO. SEVERINO FAZ O MOVIMENTO DE 'NÃO' COM A CABEÇA, VIRA-SE DE COSTAS E PÁRA. ENTÃO, COMO SE TIVESSE SE LEMBRADO DE ALGO, VOLTA. SEVERINO E DOM JUAN ENCARAM-SE SERIAMENTE. SOM DE PIANO. DON JUAN ENTÃO SORRI. O PADRE VIRA-SE DE COSTAS, MAS ENÃO VOLTA. OFF. PADRE: Olhe aqui, rapazinho, o que você pensa que está fazendo? DON JUAN (JOÃO): Ora, seu Padre, trabalhando. E o senhor? PADRE: O mesmo. JOÃO: Achas que pode salvar minha alma? PADRE: O que é que você faz? JOÃO: Padre, padre, você sabe bem o que eu faço. PADRE: Pois é isso, salvarei você!
  • 18. JOÃO: Então não precisava ficar olhando daquele... desse jeito. O que é? PADRE: Me ouça, rapaz. Como se chama? JOÃO: Vai vir de sermão barato? Bom, pode ser divertido. Se nenhum cliente aparecer, deixo já advertido. Noite fraca. PADRE: Um rapaz tão jovem, forte e bonito se degradando assim, meu Deus. JOÃO: Eu tenho uma vida melhor que a de muita gente que se diz decente. E, aliás, eu sou mais decente que muita gente que se declara assim. Eu não sou hipócrita. Estou aqui, dizendo, mostrando a que vim. PADRE: Mas é assim que você gostaria de morrer? É assim que você gostaria de ser lembrado? JOÃO: Pois então se vive para pensar na morte? PADRE: O fato de sermos mortais é o que nos motiva a querer deixar nossa marca sobre a terra. É essa a marca que você quer deixar? A de um gigolô de rua? JOÃO: Seu argumento é interessante... Me diga, o senhor sai por aí, batendo perna na noite tentando converter renegados? PADRE: Não é conversão. É salvação. Qual é seu nome? JOÃO: Meu nome de guerra... Hum... Don Juan. PADRE: Padre Severino, à seu dispôr. (dão-se as mãos) Não teme o inferno? JOÃO: Estava indo tão bem até agora! Vir com essa ladainha? Não é um bom argumento esse. Nós já estamos no inferno, Padre Severino. Dá pra imaginar coisa pior? PADRE: Sempre existem coisas piores. Não há limites para a dor. JOÃO: Afinal de contas, quem seria o Diabo então? Um psicopata refinado? PADRE: A biblia diz...
  • 19. JOÃO: (interrompe) A bíblia? Aquele livro escrito há mais de mil anos, por gente carola, que aprova incesto, escravidão e linchamentos? PADRE: Não blasfeme!!! JPAOÃO: Mas essas passagens da biblía não existem? PADRE: VOCÊ quer discutir teologia comigo??? JOÃO: Isso soou tão pedante vindo de um padre, né? PADRE: (acalma-se) Me desculpe, perdão. A principal lição que Jesus Cristo nos ensinou foi a da humildade. Mas mesmo sendo padre, um homem que representa Deus sobre a Terra, ainda assim sou um homem. Don Juan... no que acredita? O que o faz acordar todos os dias, levantar-se da cama? Um homem sem fé não consegue viver. JOÃO: Eu acredito no dinheiro. É algo que eu posso ver, tocar, sentir. É disso que um homem precisa para ser feliz. É disso que um homem precisa para deixar sua marca sobre a terra. Para ser imortal. PADRE: Jesus Cristo não tinha riquezas... e depois de tantos séculos, é como se nunca tivesse morrido. Quero dizer, está ainda mais vivo e forte! JOÃO: Essa conversa também não me agrada. Dizer que dinheiro não traz felicidade? Só se isso for piada! Senhor Padre, eu cresci em um convento. Conheço essas palavras tão sagradas, de cor. Amei uma freira. Amei loucamente. E quando descobriram a gente, fui posto na rua. E ela, não me quis mais. Eu só era o brinquedo daquela que se dizia mulher de Deus. PADRE: Mas ainda assim uma mulher, como eu, um mero homem! Quer a perfeição nos outros, se nem você é perfeito? Eu sei no que você acredita. Não é dinheiro. Isso é superficial. Dinheiro é o que você vê como ponte para alcançar aquilo que te faz levantar da cama todos os dias. É uma coisa que não se pode tocar, mas que você já sentiu e anseia com todo o coração... Você vende o corpo, meu belo rapaz, mas nunca conseguiria vender a alma. Quantos de nós não vendemos nossos corpos? Estou aqui, vendendo para a Igreja, meus pés e minha boca, nessa peregrinação pelos renegados. Em meio à noite, à
  • 20. sarjeta, disseminando a palavra de Deus. Mas por quê eu faço isso? Ora, é meu dever! Agora, você, você, Don Juan, o que você acredita, o que você anseia, é o amor. O Amor! Ser desejado, idolatrado, querido. Você quer vingança, porque foi renegado, magoado, usado. Esqueça isso. Ame. Ame! Você não está sozinho. Talvez esse seja o problema da humanidade... o amor. Não há alguém que lhe ame? JOÃO: (pensa, depois ri) Isso é muito piegas, padre. PADRE: Não é. Você precisa do dinheiro, pra sair dessa sarjeta e viver seu amor em outro lugar. Começar denovo. Ter a vida que merece. Sem obrigações. Uma vida de amor. E talvez consiga esse dinheiro. (olha para João e sorri. PIANO SOBE RAPIDAMENTE, OFF). JOÃO: O que você quer de verdade? PADRE: Eu também preciso de amor. Mas o dever não me permite. Minha vida é voltada à Deus. (o padre levanta o hábito, revelando que está usando por baixo uma sapatilha e uma meia preta. Aproxima-se para beijar João, no último momento, João se afasta) JOÃO: Sem beijo na boca. R$200 cruzeiros, a hora. PADRE: Eu pago o dobro. JOÃO: Não acredita em Deus, padre? PADRE: Eu tento, eu tento. Tens razão. O inferno é aqui. Mas podemos subir ao paraíso. Nem que seja por uma hora, apenas. É com esse dinheiro que você vai sair dessa vida, Don Juan. Tão bonito... (dá-lhe as notas) Pagamento adiantado. JOÃO: A Igreja sempre paga bem, quando quer. É a generosidade de Deus. PADRE: Sem blasfemas, sem blasfemas. Isso tudo é pecado... Deixe para lá. Fique com o dinheiro. (o padre afasta-se, João segue-o, segura-o, encara-o nos olhos, aproxima-se, quase num beijo, encarados). JOÃO: Não, não. A noite está fraca. E eu sou um homem de palavra. Eu acredito no dinheiro. E no que ele faz. Como o senhor disse, padre Severino, é a ponte que eu viso. Para
  • 21. chegar ao amor. Pode ser, não é? O senhor acredita em Deus? PADRE: Eu tento, eu tento. Aleluia, glória em nome do senhor, chabelem, belem. JOÃO: Deus perdoará esse seu pecado. E o senhor, me recompensa bem. PADRE: Eu tento, eu tento. Aleluia, glória em nome do senhor, chabelem, belem. Luz apaga sobre eles. SOM DE SINOS, OFF. * CENA 06 - LUZ SOBRE O QUARTO DE LAURA. LAURA TERMINA DE APAGAR O CIGARRO, SENTA-SE, CRUZANDO AS PERNAS. LAURA: Ande logo! VOZ DE JOÃO: Estou indo! LAURA: Para quê se banhar essa hora? VOZ DE JOÃO: Já terminei... LAURA: É pra se livrar do pecado? Por que dormir com padre... Isso é pecado graúdo! JOÃO: (entrando) Que pecado que nada! (coloca-se na frente de Laura) Pagou em dobro! Esses padres... todos esses religiosos. Andam pregando humildade... Pois a instituição mais rica que existe, não é uma empresa, é a Igreja. Podíamos abrir uma igreja, né? LAURA: Pare de falar desse jeito. Não tem medo não, cabra? JOÃO: Medo de quê? LAURA: Medo de Deus! JOÃO: Ah, vamos nos divertir. É isso o que nós fazemos juntos, né, patroa? LAURA: Era sobre isso que eu ia falar...
  • 22. JOÃO: Vishi... Aí tem. Não. Não quero ouvir abobrinha. Tenho uma surpresa pra você. LAURA: Desencaminhar um homem de Deus não é surpresa suficiente? JOÃO: Eu vou fazer um strip-tease pra você. LAURA: Strip-tease de homem? Como é isso? JOÃO: O conceito é o mesmo. LAURA: Mas a gente tem que conversar... JOÃO: Antes da diversão, não. Nós merecemos isso. Você me ensinou. O olhar. (vai tirando as roupas, até ficar só de cueca, sensualizando, SOM DE CORRENTES OFF QUANDO TERMINA O STRIP). O desejo. Peça, por peça. A insinuação. LAURA: Não vai tirar a cueca? JOÃO: A representação máxima masculina não pode ser revelada. (ela ri) Meu cacto, sua rosa. Mas você nem precisa imaginar. Você sabe como o meu menino é grande! LAURA: Nem tanto. JOÃO: Não gostou da minha performance? LAURA: Muito rápido. JOÃO: Quem disse que terminou? (ele se atira sobre ela, coloca sua mão debaixo da saia dela, entre as pernas, masturbando-a) Quero te ver gozar... Porque aquele padre, nossa, aquele homem acabou comigo. Quem vê rosto não vê desejo. Uma verdadeira cadela. Assim está bom? (ela começa a gemer, ele a encarando-a) Assim, mais forte, Laura? Anjuli? Não feche os olhos. Olhe pra mim! Disse que queria ver você gozar. (ela abre os olhos, encara-o, contorcendo-se) Só eu te faço gozar assim né, sua safada! Olha pra mim! (ela geme cada vez mais alto, até gozar) Molhadinha... (ele tira a mão de dentro da saia dela e cheira-a). Uma rosa, definitivamente. Ela cai, estonteada. LAURA: Você realmente nasceu pra isso. Seria um crime se você não cobrasse.
  • 23. JOÃO: Sabe o que o Padre falou, Laurinha? Sobre objetivos de vida. Sabe? Nascer, comer, cagar, trepar, morrer. Pra quê? É assim que a gente quer ser lembrado? Uma cafetina e um gigolô de rua? Nós não vamos ser jovens pra sempre. É por isso que eu penso no dinheiro. Parar com isso. É claro que é fácil, é divertido. Mas sexo é viciante. E, enjoa. Isso tudo, no fim das contas, pra quê? LAURA: Você quer parar de trepar, é? Virar um padre, mas que seja de verdade! JOÃO: Parar de trepar é com os outros, feito bicho. Você não se sente cansada, entediada? Sempre as mesmas pessoas carentes, só muda o nome. A alma é a mesma. Querem alívio. E usam a gente. LAURA: A gente se faz de usado. JOÃO: Nossa escolha, sei. Mas por que não mudar de escolha? LAURA: Como assim? Não tô entendendo onde você quer chegar... JOÃO: Eu não sou tãoooo materialista assim. Eu tenho sonhos. LAURA: Que bonito, se confessar assim pra mim. JOÃO: Nós estamos juntos nessa merda né? Sem segredos, sem receios. LAURA: Sei... JOÃO: Eu acho que eu... te amo. LAURA: (pausa) Era isso...! Isso que eu ia te falar. JOÃO: O quê? LAURA: Nós estamos indo longe demais... Eu não tô falando que é errado. Mas quando a gente se conheceu, eu era rameira e você pulava de casa em casa como aspirante a michê. Hoje eu sou cafetina. Sou a SUA cafetina. As meninas tão falando... JOÃO: Mas que porra é essa, Laura? LAURA: Estão dizendo que eu estou favorecendo você. E talvez elas tenham razão. Você sabe bem. É que... e se você virar um
  • 24. cafetão? Como posso explicar... JOÃO: Não pode parecer que eu domino você. LAURA: Isso! Você, pode ser, no máximo, meu amante. Não... “namoradinho”. Eu não posso parecer fraca. Não posso parecer uma putinha apaixonada. Eu disse 'parecer'. JOÃO: Mas é isso mesmo o que você quer? Sua ambição é essa? LAURA: Não seja sentimental, não combina com você. Eu gosto de tu. Quem não gosta? O que eu tô dizendo... é pra gente se afastar um pouco. Apesar de tudo eu sou sua patroa. E não quero dar razão pra minhas quengas - que já não são muitas - dizerem que tenho preferências. JOÃO: Pois se deite com elas, se elas não tem rola! (e sai, nervoso) LAURA: João, não leve para o lado pessoal. Você nunca leva! Luz apaga. * CENA 07 - UMA VELA ACESA, VIDA CARREGANDO-A. VIDA: Ah, a paixão. Uma verdadeira obsesão. Vem assim, tão rápida. Sem que possamos imaginar a história que ela vai descarrihar. A paixão que une dois seres perdidos nesse mundo tão grande, tornando-o tão pequeno. Foi assim comigo e com Coronel Justino. Romeu e Julieta. Branca de Neve e o Caçador. Dona Ramira e O Pedreiro Tião. Mais cedo, mais tarde, a paixão chega. E cega. Nosso coração acelera, palpita. Nossos olhos ficam espertos. Nossa voz sai mais sensual... o homem vira pavão, a mulher vira girafa. Veja-me. Olhe-me. Escute- me. Ouça-me! Nossa alma grita. Grita, mas ninguém ouve. Ah, como queria que ouvissem meus gritos, meu coronelzinho, meu chamego! Não é amor. Nunca foi amor. No começo, era interesse. Coronel rico. Mas aí virou paixão, obsessão que não se consome. O Coronel se foi... Mas o homem pelo qual me apaixonei, talvez nunca tenha sido ele. É assim a obsessão. Depois que ele morreu, ele ficou melhor. Porque minha cabeça inventa e não tem a realidade pra contestar... A desgraçada da realidade, sempre contestando nossa loucura, nossos sonhos de calor, de verão, de sol, de paixões!
  • 25. (ela apaga a vela) Luz acende, João (Don Juan) deitado só de cueca numa cama (pode ser a mesma utilizada para o QUARTO DE LAURA, apenas com a troca do lençol para denotar outro local, outro quarto). Vida em pé. DON JUAN: E por que quiseste meu serviço? VIDA: Tu é homem não é? (ele faz que sim com a cabeça, aperta o saco sobre a cueca) É disso que eu preciso! DON JUAN: E a paixão? VIDA: Deixe que se consuma! Por acaso, você é pago para conversar com cliente? DON JUAN: Eu sou pago para foder. Homem, mulher. Fodo com o mesmo carinho. Um diferencial, é que sim, podemos conversar. VIDA: Se você perdesse o amor da sua vida, como faria? DON JUAN: Aparecia outro. VIDA: É o que todo mundo diz. Minha mãe, que faleceu, (faz o sinal da cruz), o padre, a vizinha... DON JUAN: Mas não ia ser a mesma coisa. VIDA: É isso, não é a mesma coisa, não é, não é! DON JUAN: Mas é amor. Histórias diferentes formam o livro. Obsessão só cura quando realizada. VIDA: E como iria realizar esse feito? Amar um homem que já morreu? (fica pensativa) DON JUAN: Venha cá, a senhora, com o perdão da intromissão, amaria um homem da vida? VIDA: Isso foi cantada, é? Pois eu vim para um programa, não fiz um pedido de casamento! (ri) Nossa, há quanto tempo não dava nem uma risada sem graça! DON JUAN: É que eu estava pensando... Sempre tem gente pra
  • 26. dar pitaco na nossa vida. VIDA: Os Fofoqueirosde plantão. E quem não é? DON JUAN: Ou... ou também pode ser a forma de Deus se comunicar com a gente. VIDA: Você, religioso? Don Juan? O michê que eu aceitei ali na esquina? DON JUAN: De certa forma, sim. Fui criado em convento. Já me deitei com freira. Dia desses... com um padre. VIDA: Vá-lha me Deus! (depois se recompõe) Que padre? DON JUAN: Isso, eu não posso falar. Discrição é a alma desse negócio. Se cada renegado falasse daquilo que sabe... não existia mais renegado vivo. VIDA: Imagina o escândalo, coisa de jornal! Você podia ganhar uma grana preta! DON JUAN: Chantagem? Ora, mulher! Podia fazer isso contigo então! VIDA: Mas a diferença, Don Juan, é que eu não tenho nada a perder. Minha mãe já é falecida. (faz o sinal da cruz). Meu marido também (repete sinal). Nunca fui mulher de boa fama. Sambista, dançarina, de doideira do pé, mulher do povo, toda colorida... Um troféu. Foi o meu melhor posto. Troféu do coronel Justino. Por que acha que vim até você? Você não deve mesmo atender muitas mulheres... Não tem nojo? DON JUAN: Sexo É nojento. Mas compensa pelo prazer. VIDA: É bem verdade. DON JUAN: O tal do Coronel... VIDA: (interrompe) Coronel Justino, minha paixão... DON JUAN: (continua) Então, ele te pegou como troféu, como disseste. Bem... isso poderia ocorrer comigo, né? VIDA: Sai pra lá! DON JUAN: Não tô indicando você...
  • 27. VIDA: Quer sair da vida através de um casamento? Arranjá-lhe um puta, só uma mulher muito burra pra te aceitar como marido. Desculpa a expressão. Tô de luto, mas não tenho medo de homem não. DON JUAN: É engraçado... como tudo sempre tem que acabar assim, com casamento e filhos. O final clássico. Mas me soa tão entediante... VIDA: Quando se tem paixão, não pode ser entediante. DON JUAN: Mas o vicío enjoa. VIDA: Até se arrumar um novo vício. É isso! DON JUAN: Isso o quê? VIDA: Uma obsessão é curada com outro obsessão! DON JUAN: Que coisa mais adulta para se dizer... VIDA: Ah, vá pra merda... Olha, quer saber? Se tá amando, se arrisca. Não importa se é puta, se é mulher rica, se é padre ou coronel. Mas te digo: paixão pode ser doença, mas amor exige dedicação. E se deitar com outros, andar em buraco de rua, se oferecendo, isso não é se dedicar. Não é o seu melhor. DON JUAN: Renegados não podem amar? VIDA: De verdade, sinceramente, não. Enquanto houver putaria, é isso que vai ser: putaria. DON JUAN: E deixar tudo? VIDA: É um risco. Toda escolha tem seu preço. E depois... essa sua vida é muito da arriscada. Você paga um preço alto demais pra ter esse retorno mixuruca. Ficou sabendo do último ataque do esganador, o matador de prostitutas? DON JUAN: Nunca pegou ninguém daqui do Canto. VIDA: Ele mata por enforcamento... Já mandou 12 pra cova. Tanto ódio assim... Quem será esse Esganador? O que ele quer? Ele seria... você?
  • 28. DON JUAN: (ri) Tu é danada de esperta, sua putinha suja. VIDA: Isso! DON JUAN: Isso o quê, tá louca? Eu não sou o Esganador! VIDA: Cale-se! (pausa) Apenas me chame de putinha suja e me foda, que é pra isso que você é pago! (senta-se sobre ele rápida, abrindo as pernas) Ande, matador! DON JUAN: O quê??? VIDA: Homem forte como o Coronel Justino. Assim deve ser esse Esganador. DON JUAN: Um asssassino! VIDA: E eu sou o quê? Vamos, diga! Estou lhe pagando! Não sei o que é montar num homem há mais de cinco anos! DON JUAN: Sua putinha suja! VIDA: (mexendo-se sobre ele) Denovo! DON JUAN: Sua putinha suja! VIDA: Coronel Justino... Ah, você é o Esganador, perigoso, assassino de putas! DON JUAN: (reajustando-se) Eu... eu não sou... VIDA: Cale-se, mandei falar foi? Mas mando agora, só me xingue como esse Esganador xingaria. É minha nova obsessão. Minha nova obsessão! Xingue! Vá! DON JUAN: Sua putinha suja! Sua putinha suja! Luz se apaga. * CENA 08: QUARTO DE LAURA, UMA CAMA, A LUZ TÊNUE. LAURA DEITADA, SEMINUA, PENSATIVA, COBERTA POR UM FINO LENÇOL. JOÃO ADENTRA. JOÃO (rápido, ajoelha-se à cama): Eu preciso tanto falar com você!
  • 29. LAURA (após um leve susto) O que você tá fazendo aqui? Não devia tar trabalhando? JOÃO: É que eu... (ele está contendo seu desespero, um esgar) Eu preciso mesmo, muito falar com você! LAURA: Eu não tô com clima, João. Eu não te disse já? Nós não podemos ficar nos encontrando assim, parecendo dois namoradinhos. As meninas estavam comentando. Como fica o meu moral? JOÃO: Mas, Laura... LAURA: Eu sou sua patroa agora, tá legal? JOÃO: Mas, Laura... LAURA: Você devia tar na rua, como as outras meninas, trabalhando! Aqui todo mundo é igual! JOÃO: Laura, não é nada disso... LAURA: Nada disso, o quê? (ela se levanta, nervosa) Eu estou cansada de promessas! O que mulheres como nós ouvimos é só isso! Promessas, invencionices, mentiras! A vida me surrou demais pra agora eu parecer fraca diante de você, de qualquer homem que seja! E logo você... ! Nós, que caminhamos juntos, você não é capaz simplesmente de obedecer uma ordem? Nós não podemos ficar nos vendo assim, toda hora! Você não é capaz de se afastar??? JOÃO: Não, Laura, eu não sou! Eu não tava pensando direito... Mas a verdade, é que eu não consigo me afastar de você, não pensar em você... Que droga, mulher, eu te amo, eu te amo tanto! Eu pensava que nunca mais ia sentir isso, essa loucura... A última vez que aconteceu... Bom, você sabe o que aconteceu. Mas agora vai ser diferente... É como você diz. Deus existe. Isso é mesmo um milagre. Dinheiro, dinheiro. O dinheiro é só um caminho. Não há dinheiro no mundo que possa comprar pelo menos um segundo disso, um segundo de prazer que vale por uma vida toda, inteira, até o fim! É paixão! LAURA (chocada): João, o que aconteceu com você? Por que... agora? Por que comigo?
  • 30. JOÃO: Você não gostou? LAURA: Não é isso. Você bem sabe! JOÃO: Eu não posso ser SÓ seu amante. Isso é pouco pra mim. E eu não aguento mais! LAURA: Eu... JOÃO: Até o mais sórdido e canalha dos homens pode amar e voltar amar. Quê graça uma vida só de trabalho desgraçado? Se no fim do dia, da noite, se eu não tenho… o calor do sol, o brilho da lua? LAURA: Que papel imbecil de poeta! JOÃO: Não tenho medo de parecer ridículo diante de ti. Amar é ridículo. Aliás, só podia ser com você... Gente igual a gente. Uma mulher de sociedade nunca ia aceitar o meu passado. E um homem sem passado não existe! LAURA: Então eu não sou decente, sou a última esperança do seu devaneio desesperado, é? JOÃO: Uma hora o jogo acaba. E o melhor momento... é quando a gente pode escolher quando acaba. Eu quero que seja agora! LAURA: Eu não posso te ter como amante mais, já que é paixão, mas também... não podemos ser namoradinhos, isso é... completamente surreal! JOÃO: E nós somos surreais, Anjuli Lamur? Os personagens que a gente montou pra aguentar essa merda! E ademais, quem disse... quem?, você ouviu sair de meus lábios que te quero como namoradinha? (pausa) Eu te quero como esposa, minha mulher, mãe de meus filhos! LAURA: (ela ri) Mas nem você acredita isso! JOÃO: Eu acredito, senão não estaria assim...Você me conhece. Sempre me conheceu. A única crítica que pode haver, não é, 'por que agora?' e sim 'por que não antes'? Você também me ama! E falava brincando que queria ouvir o mesmo de mim... LAURA: Mas, mas, mas... era brincadeira, coisa de amante! JOÃO: Não! Nunca foi! Você não é mulher de medos... Nunca
  • 31. amou? LAURA: (contida) Eu... eu... eu te amo, João, mas... JOÃO: Você não acredita em mim, ainda assim? Não pode ser! O que EU tenho a perder? O que nós dois temos a perder? Nada! Nós só temos a ganhar! Vamos largar essa vida! Eu cansei. Quero mudar. Quero outra coisa. Não vamos ser jovens e belos para sempre. O tempo está pasando... Esse beco não vai existir pra sempre. Quero tentar, pelo menos. Sem hipocrisia. Quero tanto que você venha comigo! LAURA: Viver como? Sair como? Ir pra onde? Eu não quero voltar a ser rameira de baixo escalão... Eu sou cafetina agora! JOÃO: (ele ri nervoso) E o que pode ter de bom nessa vida? Se a verdade mesmo é que aqui todos são ainda mais falsos e podres, porque não há limites! LAURA: Qual é o seu plano, é só isso o que eu gostaria de saber. Eu não posso largar o pouco que tenho assim de repente, tá certo? JOÃO: Vamos mudar de cidade. Onde não conheçam a gente. Rio de janeiro, Paris. Por que não? Isso! Paris! Pegamos um navio e zarpamos pra nunca mais voltar. Novos nomes, novas identidades. Você vai ser minha esposa e eu, teu marido. A gente se casa na igreja com tudo que tem direito... LAURA: Você vai me sustentar, como? Como vamos nos sustentar? Amor não enche barriga... Quer dizer, enche sim, de filho faminto! JOÃO: Eu vou arranjar uma grana boa. Grana preta mesmo. A gente monta um comércio... Imagina, de puta e gigolô, a burgueses! O que mais se pode pedir de Deus? Uma vida limpa, sem taras, a única tara... claro, vai ser o nosso amor! LAURA: Dinheiro, como? Que conversa é essa? JOÃO: Você tá muito desconfiada! LAURA: Eu aprendi a não confiar em homem. O primeiro homem, que conheci, foi meu pai que me botou na vida... JOÃO: Mas você ME conhece e eu TE conheço, o pior de cada um
  • 32. de nós dois, por isso… é tão perfeito! Eu só preciso que você me dê um 'sim'. O meu plano é esse. Quer ir comigo? LAURA: Paris? JOÃO: Paris ou qualquer outra cidade que você queira, do país, do mundo! LAURA: Sem soldados, sem guerra, sem gente carente, sem morte... Eu, você, um comércio e filhos lindos... Parece bom demais…! JOÃO: Sim, a hora do jogo acabar. Alguma hora alguém tem que ganhar, né? Por que não nós dois? E um comércio e filhos lindos sim! LAURA: Parece tão bom pra ser verdade! JOÃO: Deixe disso, não se pode ter medo de se ser feliz! Nunca, nunca! Você tá me ouvindo? Nunca! LAURA: Você tem razão... JOÃO: Que outra chance nós podemos ter? LAURA: Mas, vamos com calma... JOÃO: Como assim? LAURA: As meninas ainda precisam de mim, pelo menos por uma semana. Pra quem esperou até agora, o que é uma semana, ou duas? JOÃO: Elas tem o beco, nós temos um ao outro, é só o que importa. LAURA: O Esganador... JOÃO: O assassino? Que tem ele? LAURA: Atacou denovo. Matou uma das meninas. A juliete, por isso tava aqui e fiquei tão nervosa quando você apareceu. JOÃO: Que filho duma égua… A Julí? LAURA: E eu te mandando pra rua... É que eu faço questão de
  • 33. bancar o enterro e também a missa do 7º dia, se Deus vai ser bom comigo, retribuo desde já! JOÃO: Esse assassino maldito... uma cliente teve fantasia dele comigo, consegue acreditar? LAURA: Eu vou enterrar Juliete. Vou mandar padre Severino rezar a alma dela. E xingar a polícia. Porque se esse Esganador matasse moça de família, já tinham descoberto esse desgraçado faz tempo! Deve de ser uma mulher cornuda... Que foi traída pelo marido com todas as putas dessa cidade de todos os cantos! Atrás de vingança... Sempre é uma história idiota assim. Morrer de graça. Por nada! JOÃO: Não se desespere por isso, meu amor. Eu te disse. O meu plano. A minha idéia. Vou voltar com o dinheiro logo. Me espere. Você disse uma, duas semanas. Eu te digo: 7 dias, ok? Vamos enterrar com Juliete essa vida de merda! LAURA: Onde você vai? JOÃO: A única coisa que você precisa saber é a vida que a gente vai ter daqui pra frente. Nós nos conhecemos até que demais, ora! Beija-a, quase sufocando-a e sai, rapidamente. Laura fica sozinha, sorri, sonhadora. Luz apaga sobre ela. * CENA 10 – CENÁRIO DA IGREJA ILUMINADO. PADRE (caminhando lentamente, espargindo incenso): Glória em nome do Senhor, Aleluia, Chabelem, belem! João entra e se senta. PADRE (guarda o incenso): A igreja está fechada, meu caro. JOÃO: Nunca para um necessitado, seu Padre. PADRE: (reconhece-o) O que está fazendo aqui? JOÃO: Precisava falar com você... Padre Severino. Andei todo o beco a sua procura... Fica todas as noites atrás dos renegados, para convertê-los.
  • 34. PADRE: Não é uma missão de conversão. O termo correto é salvação. Eu vou salvá-los. JOÃO: Tanto faz qual é o termo correto. Gay ou boiola, é a mesma coisa. PADRE: O que você quer dizer? JOÃO: Quero agradecê-lo, padre. O sr. me salvou. PADRE: Ora, ora. Deixou a vida? JOÃO: Praticamente… E o senhor me ajudou. Quero dizer... aquela conversa que a gente teve. Quando o senhor falou de opções, de objetivos pra vida, do amor. E vai me ajudar ainda mais padre! PADRE: Descobriu o amor? JOÃO: O amor sempre esteve ali. Simplesmente eu não o via. PADRE: Que excelente notícia, Deus fica mais contente. JOÃO: Por que não foi pregar essa noite, o senhor não saiu? PADRE: O esganador. JOÃO: Medo de ser atacado pelo assassino misterioso, padre? Ele só mata putas... Se bem que, quando eu o atendi, o senhor se comportou como a maior das putas! PADRE: Cale-se, meu filho, que essa é a Casa de Deus! JOÃO: Me desculpe, Padre. PADRE: Eu devia imaginar... O que é que você quer? JOÃO: Como disse, primeiro agradecê-lo. E depois... bem, o sr. vai me ajudar. PADRE: Como, posso saber? JOÃO: A Igreja é tão rica e vocês padres tem que ter uma vida mais humilde, como a de Jesus Cristo, não é? Então, sendo assim, sobra bastante dinheiro... Foi uma idéia que eu tive, ou melhor, uma idéia que me deram. Uma cliente. Um plano que
  • 35. eu fiz, enfim. Como eu respondi ao senhor, estou na fase da transição, para deixar de ser um renegado. É aí que o sr entra. PADRE: Ah, então Don Juan anda de tramóias com a clientela? JOÃO: Nada disso. Eu vou me casar com uma boa mulher. Que sabe pelo o que passei e me entende. PADRE: Uma... puta, devo supôr. JOÃO: Quando nos casarmos, ela não será mais uma puta. PADRE: E você não será mais um gigolô barato. E quer... que eu abençoe esse matrimônio? JOÃO: Não será necessário. Vamos sair daqui. Pro exterior. Nos casaremos lá, bom... Mas eu sei, desde já, que temos a sua benção, Padre Severino. PADRE: E eu posso saber pra onde vocês vão, exatamente? JOÃO: É melhor que não. Ninguém sabe. Só ela. Somos eu e ela, sozinhos a desbravar o mundo. PADRE: ELA, (resmunga) Hum! JOÃO: Padre, não fique magoado. Foi minha escolha. Igual a sua. Que é a de servir a um homem apenas... Jesus Cristo, o filho de Deus. Não estou correto? PADRE: Está, está. JOÃO: Eu quero o dinheiro da sua Igreja. O sr. vai bancar a minha transformação. PADRE (assustado): Como assim? JOÃO: Não se faça de burro... Eu quero dinheiro, o seu dinheiro, Padre! Seja um homem generoso. Vou mudar de cidade, de identidade, casar, quero abrir um negócio pra me manter... Eu sou um homem que pensa. Talvez até mesmo possa lhe retribuir com uma última noite... (se insinua e o padre se afasta) PADRE: Valha-me Deus!
  • 36. JOÃO: Tudo bem, tudo bem. Sexo sempre é opcional. Já o dinheiro não... (aproxima-se do Padre e cochicha em seu ouvido) PADRE (ainda mais assutado e fragilizado, se distancia) É muito, é muito dinheiro! Eu não tenho tanto dinheiro assim! JOÃO: Mas a Igreja tem! PADRE: Quer que eu roube pra você? JOÃO: É por uma boa causa, padre. Na hora de falar, todos falam. Agora, quando é necessário agir... PADRE: Eu não posso ajudá-lo assim. JOÃO: Padre Severino, o sr vai me salvar! PADRE: Desse jeito, não. JOÃO: Escute aqui... (agarra o padre pelo colarinho) Se você não me der o dinheiro, todos vão saber o que aconteceu entre nós dois, cada beco dessa cidade. Eu, sinceramente, não vejo nenhum problema nisso. Mas as pessoas, a tua Igreja, acho que eles não vão gostar nadinha. O padre homem-dama, sairia até em jornal! Imagina o escandâlo! Imagine! PADRE: Você... você está me chantageando... e eu... eu só queria salvá-lo! Não importa onde você esteja, que nome você use. Na essência, você sempre vai ser um renegado podre. JOÃO: O que você falou, Seu Padreco??? PADRE: Que você não tem nenhuma decência! A única coisa que se pede de vocês, açougueiros que vendem a própria carne... é a discrição do negócio, o segredo. E você ameaça me revelar! JOÃO: E você é mais decente que alguém? (solta o padre) PADRE: Não, não sou, eu sou um mero homem! JOÃO: Então cale essa matraca... PADRE: Tenha piedade... JOÃO: Vai implorar agora, Padre? E o seu Deus?
  • 37. PADRE: Você não tem salvação! JOÃO: Quem terá piedade de mim, então seu Padre? Quem? PADRE: Foi sua escolha! JOÃO: Sim, infelizmente, foi. (pausa) Você tem 7 dias. PADRE: Não, não tenho. É você que tem 7 dias...! JOÃO: Não estou brincando! PADRE: Quando se morre, a alma fica na Terra, por 7 dias. É na missa de 7º dia que ela sobe aos céus ou vai pro inferno. Ou fica rodeando por aí, assombrando, alma penada. Mas quem não crê em deus, não tem alma. Você me traiu... Todos traidores deveriam morrer e eu faço minha parte! JOÃO: Ah, pare de falar asneiras, eu disse: 7 dias pra me pagar. Ou o dinheiro na minha mão ou toda a cidade vai saber a verdadeira puta que se esconde debaixo dessa batina! (vira- se de costas, saindo) O Padre tira um cardaço da batina, enrola-o entre as mãos, prepare-se para atacar João, João se vira, o Padre esconde o cardaço, sorriso amarelo. JOÃO: Fique com Deus... (e volta a virar de costas, saindo) PADRE: (tira novamente o cardaço) Eu acho que você é que vai precisar de Deus… JOÃO: O quê? PADRE: (ataca-o, enforcando-o) Morra, lazarento! JOÃO: Pare, por favor, eu vou deixá-lo em paz, eu juro, por favor… socorro… so-co… (engasgando) PADRE: EU SOU O ESGANADOR! EU SOU O ESGANADOR! EU SOU O ASSASSINO DE PUTAS, SEU MALDITO! (termina de enforcar João. João caído, o Padre verifica seu pulso para confirmar o óbito) Eu só quero salvá-los, mas vocês não querem a salvação... Por isso merecem morrer, todos os renegados! É um serviço de limpeza social! Uma pena, um rapaz tão jovem, forte e bonito. Com uma vida
  • 38. toda pela frente. Ah, senhor, perdão. Matei dois hoje, com esse. A outra, tinha sido a puta... Juliete. Ha! Desrespeitei sua Casa Senhor... Isso não se faz na Casa de Deus. Como eu vou me livrar desse corpo, que saco? Merda... Será que alguém sabia que ele vinha aqui?, (refere-se ao cadáver) que você vinha aqui, seu bostinha! Você nem é tão bom assim! Já peguei muitos outros melhores de cama e de graça. Ai, ai. Menos um pecador.(faz o sinal da cruz)Glória em nome do Senhor, Aleluia, Chabelem, belem! LUZ APAGA SOBRE OS DOIS. * CENA 10 - LUZ SOBRE O BECO, LAURA FAZENDO O PONTO. LAURA: (diz, sem expressão) DOIS MESES DEPOIS... Luz apaga e volta a se concentrar sobre ela, em foco vermelho. LAURA (grita, aflita) : Dois meses seu desgraçado! Disse que ia me levar à Paris, que ia casar comigo, montar comércio, ia ganhar muito dinheiro, íamos ter filhos, novos nomes, nova vida, era pura mentira! Homens são assim, homens não prestam. Quantas vezes você tem que aprender, sua burra? Que ódio, que ódio! Por que mentiu pra mim, Don Juan??? Por quê? Não bastava simplesmente ir embora??? Tinha que tirar uma comigo??? Pois deve de estar rindo ao lado de uma outra puta que te apeteça mais ou de um maricas ou sei lá... Nunca vou lhe perdoar, por me fazer perder uma coisa que eu nunca pude ter! Por me fazer sonhar! Você me fez sonhar, até os renegados tem sonhos, até os renegados têm sonhos!!! (acalma- se) Mas... se eu o visse, eu não ia conseguir te odiar. Eu te amo, maldito. Eu te amo... você me fez sonhar. Luz apaga e acende novamente, foco normal. Laura com um sorriso falso no rosto. VIDA (entra vestindo roupas coloridas, mais feliz): Por que esse sorriso falso mulher? LAURA: Te interessa? Quem manda nesse canto sou eu, então se veio rodar bolsinha, que vá pra outro beco! VIDA: Eu, prostituta? Pois tô tão bonita assim, ainda? Medo de concorrência? Ai, ai, se eu fosse rameira não ia fazer
  • 39. ponto em rua, querida! LAURA: E o que uma dama quer a essa hora, neste canto? VIDA: É o canto dos malditos! (ri) LAURA: Perdeu alguma coisa, minha senhora? VIDA: Sim, sim. Venho a procura de um excelente rapazinho. Don Juan. Já é a terceira vez que bato perna atrás do galante... LAURA: Aqui era onde ele fazia ponto. VIDA: Foi. Quando peguei ele, foi aqui nas redondezas mesmo. Fez bom serviço. Queria usá-lo. LAURA: Aqui ele não bate mais ponto. Faz mais de mês. VIDA: Então você conhecia o camarada? LAURA: Eu era a chefe dele. VIDA: Cafetina... então tá fiscalizando o negócio? LAURA: Rodando bolsinha mesmo, minha senhora. Meu gigolô deu no pé. Uma das minhas meninas, a Juliete, foi morta pelo esganador. E as outras duas, foram pegas pela polícia. VIDA: Mas que merda! LAURA: Pois é, são tempos difíceis pra todo mundo. VIDA: Puxa vida, eu tava tão necessitada! Depois que eu descobri esses prazeres... Eu sempre os conheci, havia é me esquecido deles. LAURA: A senhora é casada? VIDA: Quer me chantagear, é? LAURA: Eu ganho meu dinheiro é aqui. VIDA: Viúva de 5 anos. LAURA: Não é mais fácil arranjar marido?
  • 40. VIDA: Acho um negócio muito arriscado... É mais barato alugar homem do que comprar um. LAURA: Alugar? (ri) VIDA: E não arranjou outro gigolô? LAURA: Com homem é mais complicado. Não dá pra negar fogo, sabe? VIDA: Pois é. Que pena. Vou ter que voltar pra casa entediada e sem uso. LAURA: Não seja por isso! (aproxima-se de Vida) O que gostava que ele fazia com você? VIDA: Eu tenho vício. Obsessões. Pelo meu falecido. Don Juan fingia que era meu marido falecido e também o Esganador, esse aí, o assassino. LAURA: Ora, pois Don Juan me falou de ti! Gosta de uma fantasia, de uma coisa diferente, não é, sua safada? VIDA: Ah, mas que vergonha! LAURA: Se tivesse vergonha não tinha vindo aqui a primeira vez e nem voltado agora! VIDA: Melhora se eu dizer que foi um padre e minha mãe, também falecida, que me mandaram aqui? LAURA: Como assim? VIDA: Assim mesmo. Disseram que eu precisava de sexo. E sexo mais fácil que esse... LAURA: Pagou, usou. (ri) VIDA: Enfim, mas você... tinha... tem alguma proposta pra mim? LAURA: Prazer, Anjuli Lamur. VIDA: Meu nome é Vida. (dão-se as mãos) LAURA: Usa nome falso também?
  • 41. VIDA: Meu nome é Vida mesmo. O seu nome também é bonito. LAURA: Parisiense. VIDA: Já imaginava. LAURA: Já foi a Paris? VIDA: É a capital da cultura. E eu sou uma mulher de cultura, bonjur! Sou dançarina. De samba. Tava afastada, tristonha... Mas aí me alegrei denovo. Samba não pode ser triste. LAURA: Mas um chorinho é tão gostoso de ouvir... VIDA: Não é gostoso de sambar. Samba tem que ter batuque, senão, pra mim, não é samba. Voltei a representar a Escola Imperativa da Paulista! LAURA: Oh, meus parabéns! VIDA: É um fardo difícil... (ri) Uma vez rainha, sempre rainha. LAURA: E não tem medo de que lhe chamem de... puta? VIDA: Não devo nada a ninguém. Quem paga minhas contas é meu marido. E esse... já morreu. Bom, tinha dado um jeito de ressucitá-lo. Amor doente que não tem cura. LAURA: Eu posso me fazer de seu marido... como ele se chamava? VIDA: Essa é sua proposta? (pensa) Me parece interessante, bem distante de qualquer noção de tédio! Duas mulheres? Que pecado! LAURA: Qual era o nome dele? VIDA: Coronel Justino. LAURA: (engrossa a voz, coça um saco imaginário, cospe no chão) Eu sou o Coronel Justino. VIDA: Ele era mesmo assim bruto, macho! Beijam-se na boca.
  • 42. VIDA: Ainda que uma vida de lembranças, é uma vida! LAURA: É a vida... VIDA: E não podia ser diferente! Luz apaga sobre as duas, enquanto saem de mãos dadas. * CENA 11 - IGREJA. PADRE (sobre o confessionário, reza fervorosamente) Ave-maria cheia de graça, rogai por nós pecadores em nome... Entra JOÃO, pálido, assoviando. O padre reza ainda mais fervorosamente. João toca o ombro dele e o padre pára de rezar. PADRE: O que você quer, alma penada? JOÃO: Quero uma cova pra mim. PADRE: Nunca vai ter, porque nunca vão te descobrir no lixão! JOÃO: O sr... Padre Severino... O padre-dama... o Esganador. Deixou tanta ponta solta. Por que ainda não pegaram você? PADRE: Por que quem se importa com renegados? Pessoas somem o tempo todo… JOÃO: Que coisa triste de se dizer, Padre. PADRE: Quem se importa? O mundo não tem lugar para o que é feio. JOÃO: Mas eu sou tão bonito! PADRE: É o que se faz, que te deixa feio ou bonito, que te valoriza. Amor compartilhado, amor alugado, não tem valor nenhum! JOÃO: Eu amava o mundo todo, ah, mas eu amava! PADRE: Quem ama todo mundo, não ama ninguém. Quem tem muitos amigos, não tem nenhum. É a qualidade. Sempre vai ser uma questão de qualidade, não de quantidade. As pessoas não são iguais. Você não compreende isso?
  • 43. JOÃO: Então, onde fica o paraíso? PADRE: Suma daqui! JOÃO: Por que você fez o que fez? Deu vontade? PADRE: Matar é um instinto natural. Mas a razão barra o instinto. O fato é que eu uso a razão pra justificar o uso do instinto. Todo renegado, todo animal da noite, lembra a humanidade o quanto ela é podre. Sem o bandido, não há crime. O corpo é um receptáculo sagrado... Não pode ser vendido. O corpo é a nossa alma, nossa essência. Nossa aparência diz o que, quem somos. JOÃO: Resumindo... você é um perfeito lunático. (ri brevemente e volta a assoviar, se afastando) É difícil acreditar em Deus quando não há um paraíso visível. Mas quando há um inferno, pode ter certeza, o inferno é aqui e eu vou acompanhá-lo para todo o sempre, o marido que você sempre quis ter e nunca pôde! PADRE (temeroso): Aleluia, glória em nome do senhor, chabelem belem! JOÃO: Nós dois, a família que nunca será desmembrada, que tal, padreco? O padre volta a rezar fervorosamente. JOÃO: Eu acho que o Esganador está aposentado. João sai. Luz se apaga e foca sobre VIDA. CENA 12: VIDA: O contato do outro pode ser tão estranho... um corpo fora do nosso. Como pode existir qualquer coisa além da nossa pele, que também seja pele, mas que não podemos controlar? A dança não é estranha para ninguém. Seu corpo, sua alma. (som de um batuque) E meu corpo vive! De um jeito estranho, não sei como. Da apatia à felicidade, em segundos, minutos, anos! (outro batuque) Mudança. Eu estou aqui, parada, mas a Terra gira sobre meus pés, o tempo passa e nós fingimos que não
  • 44. percebemos... Os acontecimentos são implacáveis. Você se leva ou eles te levam! O amor... a gente inventa. A morte... enquanto houver lembrança, não há morte. E a dor? (mais um batuque) Enquanto houver prazer, vai valer a pena! Entra a bateria e samba freneticamente, até a luz se apagar totalmente, coisa de três minutos, no máximo. * CENA 13: LUZ VOLTA A SE ACENDER SOBRE OUTRO FOCO, SÓ QUE AGORA EM OFF TOTAL UM HOMEM COBERTO VESTIDO COM A BURCA, COREOGRAFANDO DANCINHAS ÁRABES, DE MANEIRA RIDÍCULA. Servirá como pano de fundo da última locução, a mesma narradora infantil (criança) da abertura: LOCUÇÃO: “Anjuli Lamur virou amante de Vida. Passaram uma temporada em Paris. O Padre foi diagnosticado com esquizofrenia e transferido para um convento. Nunca descobriram o que aconteceu com o gigolô Don Juan ou quem era o Esganador”. LUZ APAGA. BATUQUE. ACENDE NOVAMENTE, SURGE A PERSONAGEM VIDA PARADA, SÉRIA. LOCUÇÃO (agora com uma voz de locutor masculino grave, estilo Cid Moreira ou Gil Gomes): Branca de Neve se separou do Princípe Encantado. Não tinha paciência para cuidar dos 9 filhos que tiveram, estava gorda com estrias e o Reino estava em crise com a seca do Norte. Há fortes boatos de que Branca de Neve agora esteja vivendo com os 7 anões praticando as maiores orgias. E todos foram felizes até onde foi possível! VIDA SORRI, MAS COM OS OLHOS INJETADOS. Som de purpurina. LUZ APAGA COMPLETAMENTE SOBRE TODO O PALCO. FIM

×