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Rio das Flores

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Rio das Flores de Miguel Sousa Tavares

Rio das Flores de Miguel Sousa Tavares

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  • 1. Miguel Sousa TavaresRio das flores
  • 2. http://groups.google.com/group/digitalsourceTítulo: Rio das floresAutor: Miguel Sousa TavaresGénero: Romance
  • 3. Badana da capa:Sevilha, 1915 - Vale do Paraíba, 1945: trinta anos da história doséculo XX correm ao longo das páginas deste romance, com cenário noAlentejo, Espanha e Brasil.Através da saga dos Ribera Flores, proprietários rurais alentejanos,somos transportados para os anos tumultuosos da primeira metade deum século marcado por ditaduras e confrontos sangrentos, onde ocaminho que conduz à liberdade parece demasiado estreito e o preço apagar demasiado alto. Entre o amor comum à terra que os viu nascer e oapelo pelo novo e desconhecido, entre os amores e desamores de umavida e o confronto de ideias que os separam, dois irmãos seguempercursos diferentes, cada um deles buscando à sua maneira o lugar dacoerência e da felicidade.Rio das Flores resulta de um minucioso e exaustivo trabalho depesquisa histórica, que serve de pano de fundo a um enredo de amores,paixões, apego à terra e às suas tradições e, simultaneamente, à vontadede mudar a ordem estabelecida das coisas.Três gerações sucedem-se na mesma casa de família, tentandomanter imutável o que a terra uniu, no meio da turbulência causada pordécadas de paixões e ódios como o mundo nunca havia visto. No final,sobrevivem os que não se desviaram do seu caminho.
  • 4. Badana da contracapa:Miguel Sousa Tavares nasceu no Porto. Licenciado em Direito,abandonou a advocacia para se dedicar em exclusivo ao jornalismo.Ganhou os principais prémios de jornalismo em Portugal, tendo vencido,em 1987, o 1º Prémio de Reportagem em Televisão no FestRio (Festivalde Cinema e Televisão do Rio de Janeiro), com uma reportagem sobre aIlha do Corvo, nos Açores.Estreou-se na edição com Sahara, A República da Areia, publicandodepois os livros de crónicas políticas Um Nómada no Deserto e AnosPerdidos. Eterno viajante, relata em Sul algumas das histórias das viagensque fez durante anos à volta do mundo. Escreveu ainda um contoinfantil, O Segredo do Rio, um juvenil, O Planeta Branco, e publicou um livrode pequenos textos e contos, Não te Deixarei Morrer, David Crockett,editado no Brasil.Em 2003 publica o seu primeiro romance, Equador, querapidamente se transformou num dos maiores best-sellers da literaturaportuguesa, tendo vendido mais de 300.000 exemplares em Portugal.Com edições na Holanda, Brasil, Espanha (espanhol e catalão), França,Alemanha, Grécia, República Checa, Sérvia, Bósnia-Herzegovina e Itália(onde venceu a 25aedição do Prémio Literário Grinzane Cavour para omelhor romance estrangeiro), tem ainda direitos vendidos para Inglaterrae Estados Unidos.Rio das Flores é o seu segundo romance.
  • 5. Miguel Sousa Tavareswww.oficinadolivro.pt© 2007, Miguel Sousa Tavarese. Oficina do Livro — Sociedade Editorial, Lda.Rua Bento de Jesus Caraça, 171495-686 Cruz QuebradaTel: 21 005 23 50, Fax: 21 005 23 40E-mail: info@oficinadolivro.ptTítulo: Rio das FloresAutoria: Miguel Sousa TavaresRevisão: Oficina do LivroComposição: Informaster, Lda.em caracteres Sabon, corpo 12Capa: Oficina do LivroFotografia da capa: Augusto BrázioImpressão e acabamento:Rolo & Filhos II, S.A. e Offset Mais, Artes Gráficas, Lda.1ª edição: Outubro, 2007 — 100 000 exemplaresISBN 978-989-555-318-1Depósito Legal nº 265780/07
  • 6. “A loucura é viver na solidão dos outros, numa ordem que ninguém partilha.Durante muito tempo achei que escrever podia resgatar-me da dissolução e daescuridão, porque implica uma sólida ponte de comunicação com os ouros eanula, por isso, a solidão mortal.... Depois, compreendi que aqueles aquémchamamos loucos estão, muitas vezes, para além de qualquer resgate.”Rosa Montero, A Louca da Casa.
  • 7. Mãe
  • 8. IDiogo Ascêncio Cortes Ribera Flores - conforme constava do seu registo debaptismo - tinha quinze anos de idade quando o pai o levou pela primeira vez a ver umatourada. Foram a Sevilha, na abertura da Feria de San Miguel, a feira de Setembro de 1915,touros de Santa Coloma, cartaz com José Gómez Ortega, dito Joselito “El Gallo”, e JuanBelmonte. A sua avó paterna, Gloria Ribera, era sevilhana, filha de pai e mãe sevilhanos.Fora em Sevilha que o pai de Diogo, Manuel Custódio Ribera Flores, vivera parte da suainfância e juventude, vinte anos atrás. Aí se habituara a regressar, em vida de sua mãe e nacompanhia dela, para visitar os avós, ano sim, ano não. Mas, desta vez, muitos anos depoise já nem os seus avós nem a sua mãe eram vivos, tratava-se de uma excursão de homens,para os touros e para a farra de San Miguel. Manuel Custódio escolhera viajar apenas com ofilho mais velho, dois amigos de sempre, companheiros do campo, da mesa e das tertúliasno café Central de Estremoz, um moço de estrebaria que guiava a carruagem e tratava dascavalgaduras, mais o seu criado pessoal, para se ocupar das roupas e do expedienteocasional.A mãe ficara na quinta, a vê-los partir da entrada da casa, às primeiras horas damanhã daquela quinta-feira do final de Setembro, ainda o sol mal dispersara a névoasuspensa sobre a charca em frente ao terreiro da casa, onde o primeiro restolhar das asasdos patos afastava os gritos nocturnos das corujas e das rãs. Diogo não estava feliz porabandonar tudo aquilo que lhe era tão familiar, o seu território de intimidade e de refúgio,abandonar a mãe, que adorava, e o irmão mais novo, Pedro, que deixara ainda adormecidono quarto que ambos partilhavam, com um sentimento de inveja e de tristeza. Custava-lhepensar que não iria passar o final daquelas férias de Verão no monte, a armadilhar a rede depássaros para caçar tordos no olival, a explorar a ribeira que atravessava a herdade,caminhando pelo meio da água de calças arregaçadas assustando as rãs e os pequenospeixes, que não iria visitar o velho moinho de água abandonado onde uma vez matara umacobra à pedrada, que não iria passear-se até onde o rebanho pastava, no limite dapropriedade, num terreno de arribas escarpadas sobre a ribeira e de pedregulhos enormesque pareciam ter caído do céu e terem ficado para sempre enterrados na terra, onde o paigostava de caçar perdizes rápidas como um sopro e silenciosas como um pensamento, e
  • 9. onde ele gostava de passar longas horas à conversa com o pastor, o Virgolino, quedistinguia ao longe todos os pássaros, escutava todos os sons num raio de quilómetros,sabia as histórias de toda a gente, desde os “antigos” até aos vivos, e, enquanto falava, iadesenrolando um lenço sujo que sacava do bolso do colete e lá de dentro tirava um pedaçode queijo duro e seco de ovelha ou um resto de chouriço que cortava minuciosamente como seu canivete sempre à mão e dividia com ele.A mãe fizera-lhe um sinal da cruz na testa, apertara-o contra o seu xaile de lã grossa,dissera-lhe “deixa-me olhar para ti, outra vez, meu filho”, e ele pousara-lhe um beijo namão fria daquela manhã, hoje tão distante na sua memória.Em boa verdade, nem o pai nem a mãe lhe tinham pedido a sua opinião para aquelaviagem. Ninguém lhe perguntara se ele queria ir ou se preferia ficar. Um dia, estavam àmesa a jantar e o pai anunciou simplesmente que iria à Feria de Sevilha com o Joaquim daVila, comerciante em Estremoz, e o dr. António Sacramento, latifundiário nos arredores ejuiz na comarca. E, então, fixara-o como se há muito não o visse e perguntara:- E tu, Diogo, que idade tens agora?- Fiz quinze em Junho, meu pai.- Hum, já tens idade para te fazeres homem. Vens connosco também.Ele olhara para a mãe em busca de auxílio, mas ela baixara os olhos, como se o paitivesse dito alguma coisa que a envergonhasse. E assim a sua partida fora decidida, semmais conversa.Partiram ainda antes das oito da manhã, numa longa estirada que os levou, quasenoite, até à fronteira de Ficalho, ficando hospedados numa estalagem onde o pai reservaraantecipadamente cama e comida para todos e mudas para os animais. Levavam quatrocavalos de sela e dois de tiro atrelados no landau coberto do pai, além do novo cão de caçade Manuel Custódio, um cachorro braque chamado Campeão, e o Estremoz, perdigueirodo Joaquim da Vila. Alternavam os cavalos com a carruagem, mas Diogo passou a maiorparte do tempo sentado à frente, junto ao Azevinho, o condutor. A certa altura, o pai, o dr.Sacramento e o Joaquim da Vila apearam-se dos cavalos e seguiram à frente da caravana,com os cães e as espingardas, a caçar de salto pelas bordas do caminho. Duas horas depois,tinham caçado quatro perdizes, uma lebre e uma codorniz, que ficaram penduradas de forada carruagem, a faisander, para serem comidas daí a dois dias, ao jantar.A partir do segundo dia de viagem, passada a fronteira, embrenharam-se na difícilsubida da serra de Aracena, mata espessa de sobreiros, azinheiras e ocasionais eucaliptais,com esteva e silvados cobrindo o solo até quase à altura de um homem. Esparsas casas eminúsculos povoados eram atravessados por vezes, mas pareciam habitados apenas por
  • 10. velhos ou crianças de colo, ou até mesmo abandonados de toda a gente. Os poucos quecruzavam olhavam-nos com curiosidade mas desconfiança, que só se desfazia um poucoquando eles se aproximavam e os habitantes podiam ver, pelas suas roupas, pelos cavalos epela carruagem, que se tratava de fidalgos portugueses de posses, em viagem para Sevilha.Dizia-se, por fé de alguns, que aquele era território de bandidos fugidos à justiça e deassaltos, e a maior parte do tempo o pai obrigou Diogo a viajar dentro da carruagem, ondesempre estava algum dos adultos, de arma pousada no banco e carregada com os cartuchos.Ao alto da mais íngreme das encostas, chegaram, ao cair da tarde, à aldeia deAracena, povoado de umas duzentas casas e encavalitado no topo da serra, onde sealbergaram numa estalagem já de qualidade superior. Tiveram direito, à vez, a um banhoquente, com a água trazida em grandes bacias e despejada numa banheira de zinco, com umbom naco de sabão azul e branco pousado na borda para desentranhar a poeira e sujidadedo caminho. Os criados jantaram na cozinha e eles numa mesa junto ao grande fogão desala, aquecendo-se num lume forte de sobro e entretendo-se, enquanto esperavam pelojantar, com umas lascas de excelente presunto da serra curado à lareira e vinho do planaltoandaluz. Sevilha estava agora só a um dia de marcha e a disposição dos homens erafrancamente alegre, contando histórias e anedotas e antecipando os quatro dias de festa queos esperavam na capital da Andaluzia. Veio a sopa de legumes com grão e batatas, asperdizes caçadas de antevéspera, estufadas com enchidos, azeitonas e toucinho, e umassado de perna de porco com salada de alface. Vários jarros de vinho vieram e regressaramvazios e Diogo também teve direito a um copo cerimonial, que definitivamente lheamoleceu o corpo e o espírito e o fez daí a pouco cair adormecido em cima do própriotampo da mesa. E foi assim, numa modorra reconfortante, entre o consciente e oinconsciente, que foi ouvindo, como se à distância, as vozes dos homens à conversa e osom da lenha estralejando na lareira, até que, meio adormecido, sentiu que o pai lhe pegavaao colo, subia com ele as escadas até ao quarto e, mesmo sem o despir, o enfiava entre oslençóis da cama. Essa foi a última, a primeira, a única vez que mais tarde se lembraria de opai lhe ter pegado ao colo.Partira com o pai para Sevilha com quinze anos e três meses de idade e regressara,treze dias depois, feito um homem. A mãe notou-o logo, assim que o viu descer do cavalo,ambos ensopados em suor e requebrados de cansaço, mas o rosto do filho com um brilhonovo, um brilho de descoberta no mais fundo do castanho escuro dos seus olhos. Notouaté como ele lhe falava agora de forma diferente, como se qualquer coisa de intransponívelse tivesse vindo interpor entre eles, e como respondia com uma sobranceria ridícula, e até
  • 11. aí desconhecida, às perguntas insistentes do irmão, olhando-o de cima a baixo, muito paraalém dos escassos cinco anos de idade que os separavam.Sevilha deslumbrara-o, assim que passara a ponte sobre o Guadalquivir e avistara aolonge a cúpula da Giralda elevando-se acima dos telhados da cidade. Tinha atravessadocomo num sonho a Calle de Alcalá, a avenida fronteira ao palácio real de Afonso XIII, acatedral, a Plaza Mayor e o extenso Parque de Maria Luisa, sob cujas árvores frondosas,algumas trazidas das Américas, os sevilhanos vinham abrigar-se do calor assassino dosmeses de Verão, os namorados vinham ajustar casamentos e os amantes traições a cumprir.Tivera direito a um quarto só para si, no Hotel de Inglaterra, onde se hospedaram.Ele nunca tinha estado num hotel, só ouvira falar aos adultos, e passou um tempo infinito aexplorar as gavetas da mesa-de-cabeceira, da cómoda e do armário do quarto em busca desegredos esquecidos por algum hóspede anterior, uma eternidade a experimentar a cama, acheirar os lençóis, a abrir e fechar as torneiras da casa de banho e a escutar a animaçãocrescente que vinha das ruas estreitas do centro e que ele espiava, de janela aberta. Desceuaté ao piso térreo para esperar pelo pai e o seu séquito e, enquanto esperava, perdeu-sepelos extensos salões do hotel, espreitando em todas as salas e através de todas as portas,passando a mão pelos azulejos árabes das paredes para se certificar de que eram reais, tãoexcessiva lhe parecia a sua beleza, atordoou-se de olhar os tectos altíssimos de caixotões demadeira escura trabalhados em arabescos, frisos e flores, deliciou-se ao contacto do veludogasto e suave dos sofás da sala grande e caminhou como um sonâmbulo sobre os espessostapetes orientais dos corredores. Parecia-lhe flutuar dentro de um sonho, como nos livrosde fadas que lera na infância: princesas deslizantes, lindas de morrer, desembarcavam doselevadores ou atravessavam o átrio e os salões parecendo não pisar o chão, apenas o afagar,um leve roçar dos seus vestidos de seda interrompendo as conversas à sua passagem,suspensas e etéreas nos braços de cavalheiros que ele diria reis ou senhores do mundo.Esmagado por tanta grandeza, tanto esplendor, afundara-se num canto de uma poltrona,sem ousar olhar a direito para coisa nenhuma, ouvindo o som das rolhas de garrafas dechampagne saltarem no bar, vozes alegres que riam e falavam altíssimo, às vezes até nofrancês que a mãe lhe ensinava, fósforos riscados na penumbra ambiente dos candeeiros depetróleo que acendiam longos charutos de cintas douradas, e um cheiro a tabaco dehomem e a perfume de senhoras que aos poucos tomava conta do salão e o deixavaprostrado, inebriado de um prazer novo que não sabia identificar.O pai e os amigos desceram dos quartos e todos eles saíram para jantar. Parecia queSevilha inteira flutuava como ele dentro de um carrossel de sensações, de excitação, rumo aum ponto qualquer onde tudo aquilo teria forçosamente de explodir num apocalipse. As
  • 12. pessoas acotovelavam-se nas ruas estreitas, senhoras e cavalheiros cruzavam-se comolhares noutras circunstâncias tidos como indiscretos, casais passeavam filhosabsurdamente vestidos de marujos, amas passeavam berços de crianças sobre rodas,mendigos estendiam a mão aos passantes, ciganas rolavam os olhos negros nos olhosassustados dos que cruzavam, agarrando-lhes a mão e prometendo-lhes uma sina semsombras, angariadores de clientes dos hotéis e restaurantes interpelavam todos os bem-postos, e jovens moços, vestidos pobremente de toureiros sem quadrilha, caminhavam emgrupos de dois ou três, com um olhar que suplicava a glória de uma tarde ou mesmo aglória de uma morte numa tarde de arena.A custo, abriram caminho até ao restaurante que procuravam, na Plaza de América.Instalaram-nos numa mesa ao fundo da sala, uma sala que parecia uma antevisão do caos,com um barulho ensurdecedor das conversas misturado com o lamento de um cânticoflamenco que uma cigana entoava do outro extremo do restaurante, acompanhada àguitarra por dois facínoras de cicatrizes talhadas à navalha na cara escura, uma nuvem defumo pairando como nevoeiro acima da luz trémula dos candeeiros a petróleo, as correriasafogueadas de um batalhão de criados de casaco branco, levantando bem ao alto emisteriosamente em equilíbrio bandejas de copos de cerveja e de vinho, tapas e pratosfumegantes de comidas estranhas, e uma espécie de sussurro geral, que era o sopro dosleques agitados pelas senhoras, sorrindo, como se nada fosse, a cavalheiros encharcados emsuor escorrendo pelos colarinhos de goma das camisas e pelas lapelas dos casacos.Em toda a sua curta vida, nunca Diogo tinha imaginado um tal ambiente de orgia, defesta a tresandar a vinho, a fumo, a excesso, a tentação de mulher e a perdição de homem.Era como um catálogo vivo de todos os vícios possíveis de um homem, não faltandosequer, junto ao corredor de passagem para a cozinha, uma mesa onde quatro fregueses, derosto silencioso e fechado, jogavam cartas, alheios ao ruído ensurdecedor e à confusãoreinantes. Pela primeira vez na vida, Diogo entreabria a porta de um mundo onde oshomens deitavam as cartas e se perdiam, como crianças, numa licenciosidade irresponsável.E soube, então, que pertencia a esse mundo, soube por que razão o pai o trouxera naquelaviagem.Saíram do restaurante duas horas depois, o dr. Sacramento de colarinho jádesabotoado e rosto afogueado, o Joaquim da Vila trocando o passo e insistindo em contarhistórias sem nexo, e apenas o pai, aparentemente imperturbável, composto como sempre,alto, de passo firme e o olhar, que pareceu a Diogo perpassado por uma indizível tristezaou desprendimento, fixo num ponto longínquo, para além da algarraza das ruas, agorapercorridas por caleches com os cavalos de crinas e caudas enfeitadas de papéis coloridos e
  • 13. jovens senhoras de cabelos, chapéus e olhos negros como carvão montando à amazona, aolado de uma silenciosa escolta de cavaleiros andaluzes de mortífero olhar de nobresbandidos, apertados nos seus coletes de botões de madrepérola. E, sobre tudo isso quepassava, num desfile agora ornamentado e ensaiado, uma poeira fina suspensa no ar, quetudo parecia cobrir com um púdico manto de apagamento.Uma cigana, belíssima nos seus já vinte e muitos anos, um filho ao colo que mamavade um peito perfeito e descoberto sem pudor, saltou-lhes de repente ao caminho e agarroua mão de Diogo, antes que este a pudesse retirar ou que algum dos outros conseguissefazer um gesto para o proteger. Ajoelhou-se aos seus pés, o peito completamente fora dovestido e exposto ao olhar extasiado de Diogo, e lançou-se numa lengalenga indecifrável deque ele não alcançou uma só palavra. Então, o pai sorriu, estendeu uma moeda à cigana eela agarrou mais firmemente na mão de Diogo e começou:- Nino, amor mio, dulzura mia, jcómo eres guapo! Vas a vivir dos vidas, no una sola. Te vas acasar, harás hijos... pêro distintos. Vas a viajar... muy lejos. Vas a amar, muchísimo, vas a sufrir y harássufrir. Al final, te perderás, te encontrarás, no sabría decirlo, pêro la decisión será tuya. El camino lo harástú.Levantou-se, fez uma espécie de vénia de despedida, sempre com a criança presa aobico do peito, e desapareceu entre a poeira e a semiescuridão da rua. Todos se riram, masDiogo ficou sem jeito, sem estar seguro de ter percebido bem a leitura da cigana, sem saberse aquilo era importante ou não. O pai passou-lhe um braço pelos ombros, um gesto tãoraro nele, e sorriu-lhe:- Bem, Diogo, meu filho. O teu destino parece que está traçado, pelo menos a parteamorosa. Chegou a altura de começarmos a tratar de transformar as profecias emrealidades. Estás pronto para começar a ser um homenzinho e a guardar segredos dehomem?O Joaquim da Vila e o dr. Sacramento riram-se, com ar de entendidos, mas ele nãoestava igualmente certo de ter percebido o que o pai lhe queria dizer. Tudo lhe estava aacontecer demasiado depressa e atordoadamente, como num sonho que não conseguiadecifrar. Como quer que fosse, já tinha decidido, assim que entrara por Sevilha adentro,que estava pronto para o que quer que viesse.- Estou, pai. Estou pronto.A casa de meninas era toda em veludos, cor de pêssego, vermelhos, negros, alcatifasespessas onde elas andavam descalças, luz ténue de castiçais de velas em todos os cantos emesinhas de apoio, de novo o fumo e o cheiro dos charutos dos homens e agora operfume barato de mulheres da vida. Elas iam dos quinze até aos trinta anos, eles dos trinta
  • 14. até ao infinito. E, no meio, havia ele, sentado numa ponta de um sofá, de pernas cruzadas,estarrecido de pavor, fingindo não ver coisa alguma, nem sequer o pai, que passava as suaslongas mãos com que outrora o castigava pelas coxas de uma jovem ninfa que lhesegredava ao ouvido coisas que o faziam sorrir, de um sorriso que Diogo nunca vira antes eque não sabia interpretar. Uma senhora mais velha, arrastando um longo vestido bordadoaté ao chão e um majestoso passo de imperatriz do lugar, entrou no salão e o pai levantou-se para lhe beijar a mão e manter com ela um diálogo sussurrado, entremeado por olhareslançados a ele. Ela assentiu com a cabeça ao que o pai lhe dizia e veio buscá-lo,estendendo-lhe a mão, que ele beijou também, fazendo-a soltar uma gargalhadasurpreendentemente jovem para a idade madura que aparentava. Foi falando com elebaixinho, dizendo qualquer coisa que ele nem escutou, atordoado que estava, conduzindo-opela mão através de um corredor até um quarto no fundo, onde o introduziu, fazendo-lhesinal para que esperasse ali. E ele assim fez: viu um quarto iluminado por dois castiçais develas, uma única janela fechada, uma larga cama de lençóis postos como se fosse ali que eleia dormir, e uma cómoda com uma bacia, um jarro de água e duas toalhas cor-de-rosapousadas. A alcatifa do chão era azul-celeste e havia um inesperado quadro do SagradoCoração de Jesus na parede por cima da cómoda.Diogo tinha feito rapidamente toda a inspecção do quarto, jurando a si próprionunca mais esquecer cada pormenor daquela noite em que, pela primeira vez, iria conhecero corpo inteiro de uma mulher, vê-la nua sem ter de se esconder, poder mexer nela àvontade, sentir o que era penetrá-la, como tinha ouvido ao Virgolino contar nas lonjuras domonte, ou como ouvira uma vez contar a uma criada da cozinha, sem que ela percebesseque ele estava à escuta. E deu por si a rezar para que a primeira mulher que lhe estavadestinada na sua vida de homem não fosse aquela intimidante senhora que o conduzira atéao quarto.E não foi. Foi uma rapariga dos seus vinte anos, que se fazia tratar por Jolie, quetinha um sorriso rasgado e ainda de menina, um corpo magro, onde as ancas e as costelaseram bem marcadas, um peito pequenino mas de bicos grandes e escuros, uma teia dearanha entre as pernas e umas pernas compridas, como uma centopeia. Pousou-lhe umbeijo ao de leve na boca e começou calmamente a despi-lo, enquanto lhe fazia a tão temidapergunta:- Então, é a tua primeira vez?Ele viu-a descer-lhe as calças pelas pernas abaixo e espreitou também, a medo, parase certificar de que estava à altura das circunstâncias.- Não... é a segunda - respondeu, sem grande ânimo.
  • 15. Mas, apesar do empenho aparente dela e da sua própria falta de conhecimento namatéria, não se deixou enganar pelos seus suspiros e gritinhos de suposto prazer. Soubeque tinha sido um fiasco, mas, não obstante, desfrutou de todo o prazer de a ver nua, umamulher completamente nua ao seu dispor, de mexer nela, de perceber a consistênciagelatinosa de um peito, a sensação quente e húmida de entrar dentro dela e, sobretudo, aforça de saber que tinha possuído uma mulher e que doravante podia falar de igual paraigual com qualquer homem, podia voltar à escola, entrar no café da vila com outra aura,entrar na igreja como um pecador e não apenas como um suplicante. Depois de tudorapidamente acabado, apeteceu-lhe que ela desaparecesse dali, sentiu-se um pouco sujo nasua presença e demasiado inchado de orgulho para partilhar com ela essa sensação. “Cestfini, Jolie”, murmurou para si mesmo.O seu primeiro dia enquanto homem começou cedo, porque ele mal tinhaconseguido dormir, virando-se e revirando-se na cama, passando em revista, ao detalhe, oquarto, a cama e Jolie. O pai tinha marcado encontro na recepção do hotel às dez da manhãe, muito antes disso, já ele deambulava pelas ruas, fazendo horas, enfiando-se, sem rumocerto, pelas estreitas vielas e becos da cidade, vendo os empregados limpar as casas,varrendo para a rua o lixo dos pátios interiores, esses fabulosos pátios árabes das casasandaluzas. Inesperadamente, chuviscava em Sevilha e era como se essa chuva de molhatolos varresse, também ela, os restos da noite passada. Nas ruas, nas avenidas e praças, nospasseios cobertos de detritos, Sevilha registava os sinais da primeira noite de folia do SanMiguel, mas, a par de alguns bêbados e vadios que dormiam ainda nos bancos de jardim ounas esquinas dos becos, já alguns cavalheiros aperaltados, de cabelos sedosos da brilhantinae cheirando a água-de-colónia e banho fresco, circulavam pelas ruas, montando a passo osseus cavalos enfeitados e olhando com um ar de comiseração e desprezo os vestígios damadrugada de festa.Mais tarde, durante a manhã, as nuvens partiram para sul e o sol de Sevilha regressou,prenunciando a tarde de fresta. Saiu sozinho com o pai, que tinha alugado uma caleche, naqual percorreram grande parte da cidade, visitando várias lojas, onde o pai comprou arreiospara cavalos, uma funda para a espingarda, dois chapéus, mantilhas e medalhas para a mãee umas polainas para as botas de Pedro. Visitaram a catedral, onde Manuel Custódio seajoelhou e rezou durante uns minutos e, em todo o tempo, o pai limitou-se a falar dacidade e a chamar-lhe a atenção para as coisas de que mais gostava. Diogo reparou comoele estava feliz e descontraído, falando um espanhol fluente com o cocheiro e osempregados das lojas, recostado para trás no assento da caleche, uma cigarrilha penduradano canto da boca e a sua cara, habitualmente fechada e sisuda, distendida num sorriso
  • 16. suave e íntimo. À uma hora, passaram pelo hotel, onde os esperavam o dr. Sacramento e oJoaquim da Vila e todos juntos saíram para almoçar, desta vez num restaurante muitocalmo, com uma esplanada ao ar livre, de mesas cobertas por toalhas azuis de quadrados.Almoçaram um combinado de tapas, acompanhadas por um tinto de verano e ao som deum violoncelista cego que tocava árias andaluzas, assistido por um rapaz numa cítaramarroquina. Aproveitando uma breve ausência do pai, o dr. Sacramento encarou Diogo,com o ar pasmacento com que parecia encarar tudo na vida:- Então, meu rapaz, ontem à noite divertiste-te?Diogo fez que sim com a cabeça, corando de imediato.- Tratou-te bem a tua pequena?Diogo sentiu que tinha de estar ao nível daquela conversa de homens, que deveriadizer alguma coisa adequada à situação, mas a verdade é que ele próprio não sabia aresposta. Se ela o tinha tratado bem? Fizera o que tinha a fazer, não era? Respondeu quesim, embaraçado com a conversa. Mas o dr. Sacramento parecia verdadeiramenteinteressado no assunto:- Como é que ela se chamava, a menina que te roubou a virgindade?- Jolie, foi o que ela disse.O dr. Sacramento riu-se e piscou o olho ao Joaquim da Vila, em tom entendido.- Ah, Jolie, Jolie! Assim nunca irás saber o verdadeiro nome da primeira mulher datua vida! Mas também não é importante: o mais provável é esqueceres-te do nome artísticodela, com os anos.E aí, o dr. António Sacramento, juiz titular da comarca de Estremoz, inclinou-se paraa frente, agarran-do-lhe no braço e fixando-o nos olhos, e debitou uma sábia sentença:- Meu rapaz, olha: eu já não me lembro do nome da primeira mulher com quem fuipara a cama, nem se era feia ou bonita, loira ou morena, espanhola ou portuguesa. Maslembro-me das circunstâncias e dos amigos com quem estava. Provavelmente, daqui a unsanos, não te lembras nem do nome da Jolie, mas há uma coisa de que te irás lembrar a vidatoda: que quem te deu pela primeira vez uma mulher a provar foi o senhor teu pai. Deves-lhe isso, e isso um filho não esquece.Quando saíram do restaurante, a cidade parecia tomada por um frenesim emcrescendo, uma massa de gente em movimento, como que atraída por um invisível íman,dirigindo-se toda na mesma direcção. Uma multidão que caminhava compacta, como umrolo compressor, a pé, a cavalo, de carruagem, de charrete, pelas ruas, pelos passeios,através dos jardins. Faltava ainda mais de hora e meia para o início da corrida e, apesardisso e de os bilhetes estarem de há muito esgotados, Sevilha inteira caminhava em
  • 17. direcção à Maestranza, como os adoradores do Sol caminham em direcção ao poente. Umacorrente surda, crescente, de conversas, de interpelações, de exclamações e gritosdesgarrados dividia a multidão que caminhava para a praça em dois grupos distintos eirreconciliáveis: os fiéis de Joselito e os de Belmonte. Ambos eram filhos dilectos deSevilha, genuínos andaluzes marcados pelos deuses para brilharem na arena. José GómezOrtega, chamado Joselito “El Gallo” ou “Gallito”, tinha apenas vinte anos de idade, mas játomara a alternativa há três, ali mesmo, na Real Maestranza da sua Sevilha natal. Neto, filhoe irmão de matadores, era bonito, elegante na arena e representante de um toureio clássicoque parecia sair-lhe sem esforço, naturalmente, como dom já nascido com ele. Irmão dogrande Rafael “El Gallo”, por muitos considerado o melhor toureiro de sempre de toda ahistória de Espanha, superara o irmão, não na técnica, mas na valentia. Rafael era irregulare medroso, tendo chegado a dizer, após uma chuva de críticas: “As broncas leva-as o vento,mas as cornadas levo-as eu.” Como todos os matadores, Joselito também tinha medo, masenfrentava-o preparando-se escrupulosamente antes das temporadas e aperfeiçoando semcessar o domínio de todas as sortes, de que nenhuma lhe escapava. Aprendera comonenhum outro a ligar os naturais em redondo, levando o grande Guerrita, já então retirado,a exclamar que, com Joselito, nascera o toureio moderno. A sua quadrilha, que incluía oirmão Fernando “El Gallo”, era unanimemente considerada a melhor de toda a Espanha ea sua estrela brilhara sozinha, sem rival, em todas as praças de touros para que eraconstantemente solicitado. Reinou a sós, tão jovem ainda, até ao dia em que apareceu naspraças Juan Belmonte - e isso fora pouco mais de um ano antes. Belmonte nascera noTriana, o mais andaluz de todos os bairros de Sevilha. Era o contrário de Joselito: pequeno,feio, atarracado, de braços e pernas curtas, filho de um modesto lojista da cidade, ninguémo ensinara nem vocacionara para ser matador. Mas desde pequeno que não pensava noutracoisa e, aos treze anos de idade, começou a aprender sozinho, invadindo os campos degado, em noites de lua cheia, e toureando por sua conta e risco, sem “ajudas” nem público,antes de, na manhã seguinte, ir ajudar o pai na loja. Aos dezassete anos, vestiu pela primeiravez um traje de luces, em Portugal; aos dezanove, foi colhido pela primeira vez, emValência, e enfim começaram a reparar nele. O lendário “Lagartijo” havia dito um dia que afórmula para aprender a tourear bem era saber subtrair o corpo subtilmente à passagem dotouro, porque o te quitas tú o te quita el toro. Belmonte, porém, tinha invertido a fórmula de“Lagartijo” e, com isso, revolucionou a arte de tourear: com o seu jogo de ancas, de braçose de muleta, era ele que parava o touro, fazendo-o circular à mão, mandando nele -templando, conforme passou a ser dito daí em diante. Belmonte citava o touro de frente,recebia-o quieto, em terrenos por si escolhidos e jamais pisados antes, e mantinha-o ali, até
  • 18. o despedir, dessa sorte mandando na lide desde o seu início - ni te quitas tú, ni te quita eltoro. A sua técnica era de tal forma arrojada e nunca antes vista, que El Guerra haviaaconselhado, meses antes, a quem o quisesse ver tourear, que se apressasse porque aquelerapaz não iria durar muito.Manuel Custódio era um devoto do “Gallito”. Exclamava para quem o quisesse ouvirque ali estava reunida toda a ciência e arte da faena, aperfeiçoadas ao longo de séculos ereveladas à luz do dia, em todo o seu esplendor, pelo toureio de Joselito. AntónioSacramento também tendia mais para Joselito, que tinha como um toureiro mais clássico,mais puro, e, sobre essa pureza de estilo, era capaz de dissertar longamente no Café Centralde Estremoz, noites e aguardentes a fio, até fazer cair para o lado, de exaustão, os seusoponentes. Mas também não lhe era indiferente o toureio espectacular e sempre sobre orisco de Juan Belmonte: a sua frase preferida era a de que “cada corrida é uma corrida e sóno final se pode cavar a sentença”. Já o Joaquim da Vila era capaz de matar e de morrer emdefesa de Belmonte - “o toureiro mais louco que a Espanha já viu, o louco mais lúcido daPenínsula, desde a ocupação romana”.Três meses antes, Manuel Custódio tratara de comprar os bilhetes através docorrespondente em Estremoz, e agora ali estavam eles sentados nos seus magníficoslugares à sombra, contemplando a Maestranza a encher-se de uma multidão que, mesmoassim, seria apenas uma terça parte dos que tinham ficado lá fora e que aparentemente seiriam contentar em seguir a corrida através das reacções que vinham lá de dentro e queultrapassavam os muros da velha praça barroca e se derramavam sobre a cidadesubitamente silenciosa, na expectativa das notícias que iam chegando da arena.Naquele 30 de Setembro de 1915, a cada um dos espadas calhavam dois touros deSanta Coloma. A rivalidade entre ambos, que se iniciara nesse mesmo ano, estava então noauge e era objecto de uma autêntica guerra civil entre aficionados, divididos entre a “facçãoJosé” e a “facção Juan”. Entre os próprios, porém, a rivalidade surda das primeiras corridasfora dando lugar, enquanto a época avançava, a um respeito mútuo, que para a crítica semanifestava até na forma como qualquer deles parecia absorver coisas do outro: José, otemple de Juan; e este, o domínio natural de José. Contava-se que, numa dessas corridas emque dividiam o cartaz, tendo surgido um desentendimento entre os “segundos” de ambossobre a ordem dos touros, perguntaram a Belmonte a sua opinião e ele respondera apenas:“Lo que diga José.”Nos dois primeiros touros, ambos estiveram ao nível da sua fama. Belmonte recebeuo seu em verónicas sucessivas e ritmadas, alternando com meias verónicas e chi-cuelinas e,no capote, brilhou nos naturais e nos pases de pecho, matando em volapié, ou seja,
  • 19. investindo sobre o touro já sem força e estocando firme e profundo, até que o animalajoelhou na areia e caiu de lado, morto. Joselito esteve regular e elegante com a capa, masfoi no capote que toda a beleza da sua arte começou a tornar-se evidente, mesmo aos olhosde Diogo, que pouco ou nada percebia do assunto. Toureou sobretudo por derechazos enaturais, pouco a pouco subjugando o touro, até finalmente o ter exausto à sua frente. Aílevantou a sua bela cabeça e olhou a Maestranza em silêncio, como um gladiador esperandoa decisão do povo e de César. Depois, o seu olhar regressou ao touro, quieto na sua frente,apontou-lhe o estoque, esperou uns segundos a ver se ele carregava e finalmente investiuem volapié, juntando-se ao miúra negro num abraço de morte e de despedida.Ao intervalo, a Maestranza estava dividida, como seria de esperar, mas os maisentendidos concordavam que não havia ainda, entre Juan e José, um vencedor da tarde.Diogo bebia uma limonada gelada, enquanto circulava os olhos pela praça. Apesar de serfim de tarde e de se ter já entrado no Outono, Sevilha estava ainda quente e abafada e pelasgalerias e anéis da Maestranza os leques das senhoras abanavam sem cessar. Mulhereslindas, elegantes, os cabelos negros sedosos brilhando mesmo na sombra, uma leveza depromessas imaginadas no olhar, que deixavam Diogo aturdido.O segundo touro, Belmonte recebeu-o estático, a meio da praça, nos médios, depoisde o ter observado a investir sobre as capas dos espadas da sua quadrilha. Vinha forte ecarregado de vida. Vinha desembalado, com uma fúria que nada parecia capaz de travar.Mas ele não se mexeu quando o touro investiu pela primeira vez para a sua verónica. Porcima do ombro, viu-o seguir em frente com o balanço que levava e, então, rodoulentamente sobre os calcanhares, sem sair da mesma posição e voltou a citá-lo. Deixou queele invadisse os seus terrenos, deixou que o seu corno lhe passasse a centímetros do corpo,sempre sem se mexer, e voltou a fazer o mesmo, por largas, meias verónicas e chicuelinas,até que ele percebesse quem mandava ali, no meio da praça. Depois, retirou-se para astábuas, ficando a assistir à sorte de bandarilhas. Quando o touro ficou sozinho no centroda praça, castigado mas altivo, Juan Belmonte afastou-se das tábuas, deu uns passos emfrente e, com um gesto circular da mão, dedicou o terceiro tércio, que se iria seguir, a toda aassistência. A multidão levantou-se para aplaudir e ainda estava de pé quando ele iniciou o“tércio da morte” e do capote, recebendo o touro com um natural sublime de calma juntoàs tábuas. E por aí se quedou longo tempo, alternando naturais com derechazos e depoiscom trin-cheras, da direita para a esquerda. No fim, matou recibiendo, com a mão direitasegurando a espada, encostada ao peito e o touro carregando sobre si. A Maestranzalevantou-se inteira a um só tempo e os gritos estalaram: “Belmonte, Belmonte!”
  • 20. - Caramba! Isto é ou não é um toureiro? - gritava o Joaquim da Vila, possesso,agarrado ao colete de Manuel Custódio e abanando-o.- Tenho de reconhecer que foi uma grande faena - concordou Manuel Custódio,tentando manter a distância.- Grande? Porra, sr. D. Manuel, isto foi o melhor que o senhor já viu e que há-devoltar a ver!- Espere um pouco, Joaquim. Espere um pouco...De facto, estava escrito que aquela tarde seria de Joselito “El Gallo”. Com a capa, elesegurou o seu touro, chamado Cantinero, a meia praça, com uma elegância que era quasesoberba, os braços volteando a pesada capa com naturalidade e estilo, os pés rodando paravariar a direcção da sorte, mas conseguindo também fixar o touro nos terrenos por siescolhidos, mostrando que observara bem a técnica de templar de Juan Belmonte. Mas,com o capote, ele arrasou o Cantinero. Massacrou-o com naturais e passes de peito, trouxe-o literalmente à mão até onde queria, preparou-o, como num ritual, para uma mortegrandiosa, de tal sorte que, no fim de tudo, parecia ser o próprio touro a suplicar que omatasse. Mas, antes disso, Joselito pousou um joelho no chão e chamou o touro para quepassasse rente à sua cabeça em dois derechazos suaves, primeiro de frente e depois decostas. Por fim, com aquele monstro negro completamente humilhado à sua frente,vencido e atordoado pelos gritos da multidão de pé, ele sacou o estoque da capa e parouhirto a contemplar o adversário, a espada caída ao longo do corpo, com a ponta assente nochão. Fez-se um silêncio impressionante na praça - um silêncio de morte, pensou Diogo.- Virgem da Macarena, que o mate de um só golpe... - murmurou Manuel Custódio,entre dentes.Joselito apontou o estoque ao Cantinero. Falou-lhe qualquer coisa que nem Diogonem ninguém em toda a praça conseguiu ouvir, fez um gesto com a mão esquerda comoque a despedir-se dele e, quando avançou direito ao touro, este avançou também direito àmorte: encontraram-se a meio caminho. Como diziam os aficionados, o Cantinero morreuai encuentro e, nessa tarde memorável de Setembro, Joselito “El Gallo”, filho, neto e irmãode toureiros, filho, neto e bisneto de sevilhanos, andaluz tan claro y rico de ventura,tornou-se o primeiro toureiro de sempre a quem a praça concedeu, em homenagem à suafantástica lide, a orelha do seu adversário. Ele e Juan Belmonte saíram ambos nesse final detarde pela “Porta do Príncipe” da Maestranza, levados em ombros pela gente da rua, quetinha poupado durante meses para poder assistir a esse dia glorioso.Se, ao abandonar a Maestranza, já o Sol ia baixo e a sua imaginação longe, Diogopudesse adivinhar o futuro, saberia que Joselito haveria de morrer menos de cinco anos
  • 21. depois, em Talavera de la Reina, colhido pelo touro Bailador, da viúva Ortega - um touroaparentemente inofensivo mas que via bem ao longe e que se fixou no vulto e não nocapote. Ao saber da sua morte, Guerrita comentou: “Se acabaron los toros!” “Irmão” daVirgem da Macarena, Joselito teve direito a missa de corpo presente na Catedral de Sevilhae durante muitos anos, no dia da sua morte , 16 de Maio, todas as quadrilhas que entravamna arena se perfilavam e guardavam um minuto de silêncio em sua memória.Quanto a Juan Belmonte, fadado para morrer novo por El Guerra, toureou até 1936,com 42 anos. Conta-se que uma vez o seu grande admirador e amigo, o escritor edramaturgo Valle-Inclán, lhe teria dito que ele era um toureiro tão grande que só lhe faltavamorrer na arena. Ao que Belmonte respondeu: “Se hará lo que se pueda, don Ramón.” Morreriasim, aos setenta anos de idade, suicidando-se com um tiro de pistola, segundo rezou alenda, ferido de morte pelo amor impossível por uma jovem cigana.- Conta-me, Diogo! Conta-me a história do assalto!- Outra vez, Pedro? Já ta contei duas vezes!- Só mais esta vez, Diogo!Diogo olhou com ternura para o irmão, sentado ao seu lado na margem da ribeira,segurando uma cana de pesca feita de bambu, com a qual tentava inutilmente, havia maisde meia hora, pescar o que quer que fosse. Pedro era assim, sempre impaciente por fazeralguma coisa, sempre curioso por saber tudo, incapaz de jamais sossegar e ficarsimplesmente a olhar ou a escutar o silêncio das coisas, como Diogo tanto gostava. Denoite, quando ambos se iam deitar no quarto que partilhavam, Pedro resistia a cair logo nosono, insistindo em falar e em ouvir histórias, por vezes continuando ainda a falar, já Diogoadormecera há muito, com a facilidade com que sempre adormecia em qualquer ocasião,bastando que estivesse com sono. Mas para Pedro, que era ainda uma criança nos seus dezanos, era como se a vida toda à sua frente não pudesse esperar e tivesse urgência em servivida. Diogo guiava-se pelos sentidos: adormecia quando tinha sono, acordava quando jánão tinha; Pedro, não: era como se adormecer fosse um pouco morrer e a ânsia de vivernão consentisse esse intervalo de consciência.Quando passeavam juntos pelo campo, Diogo gostava de caminhar em silêncio,atento à paisagem, aos sons, às plantas e aos bichos, absorto na sua observação e nos seuspensamentos. Pedro caminhava numa permanente inquietação: ora tentava surpreender ospássaros com a sua fisga, ora corria atrás das vacas para as espantar, ora se atar-dava acontar as ovelhas para confirmar que o rebanho estava completo, ora batia com um paunos sobreiros para ver se não estavam secos por dentro, não se esquecendo nunca deverificar o algarismo escrito a cal na casca das árvores, indicando o ano da próxima tirada
  • 22. de cortiça, de tal modo que, quando voltava a passar pelo mesmo local, ele já conhecia asárvores não pelo seu aspecto ou porte, mas pelo algarismo escrito na sua casca.Mas, mesmo diferentes como eram, Diogo amava profundamente o irmão, como amais ninguém, nem sequer à mãe. Admirava a força e a determinação daquele miúdo aindatão pequeno, a sua pressa em crescer e ser homem, e sentia-se quase com a missão de oproteger de si próprio e dos perigos de que ele não se dava conta, de vigiar a suaimpaciência, o seu destemor. E, muitas vezes, como agora, dava por si a representar umpapel que não era o seu, apenas para saciar a admiração que sentia que Pedro tinha tambémpor ele, o irmão mais velho, com o natural ascendente do primogénito, de vários anos deavanço, em sabedoria e em experiência.- Então, olha, foi assim. Vínhamos, como já te contei, na estrada de Aracena para afronteira, e vínhamos atrasados, porque se tinha partido uma roda da carruagem edemorámos muito tempo a substituí-la pela roda sobresselente. Entretanto, começou a caira noite e rapidamente tudo foi ficando escuro. Acendemos duas lanternas na frente dacarruagem e uma atrás, o pai e o Joaquim vinham a cavalo, eu e o dr. Sacramento dentro dacarruagem, o Azevinho de condutor, e o Hernâni ao lado dele. Reparei que o pai e oJoaquim da Vila tinham tirado as espingardas das fundas e seguiam com elas atravessadasna garupa dos cavalos. Ouvimos, daí a pouco, um ruído nas estevas, como se alguém sedeslocasse agachado, mas, quando o pai parou o cavalo e ficou à escuta, o Azevinho disse:“É javali, patrão”, e continuámos a andar. Daí a uma meia hora, a Lua começou a nasceratrás de nós, em quarto crescente, e já podíamos ver um pouco mais do caminho à nossafrente. Continuámos a andar em silêncio, o pai tinha acendido um cigarro e o Joaquimvinha debruçado sobre o pescoço do cavalo, como se tivesse adormecido. A certa altura,todos ouvimos ao mesmo tempo outro restolhar no mato à nossa esquerda e, logo deseguida, um movimento surdo, que pareceu de passos, correndo, à direita da estrada. Aí, opai parou o cavalo e fez sinal ao Azevinho para parar também a carruagem. Ficámos todosquietos, a escutar, eu sentindo o coração bater com tanta força que não conseguia escutaroutro som que não o dele.- Estavas com medo, Diogo?Estava sim, Pedro, acho que estava borrado de medo.Mas depois pegaste na outra espingarda do pai, não foi?- Foi. Depois o pai disse: “Todos os homens arma dos!” O dr. Sacramento pegounuma das suas espingar das e passou a outra pela janela, com um punhado de cartuchos, aoHernâni, que tremia como se estivesse com febre. Depois, passou-me a segunda espingardado pai e colocou uma caixa de cartuchos no assento, entre nós os dois, e disse-me: “Vigias
  • 23. essa janela e eu fico com esta. Cuidado para não acertares no teu pai ou no Joaquim. Atudo o resto que mexa, atira.” Então, o pai e o Joaquim colocaram-se um de cada lado dacarruagem e atrás dela, cobrindo a retaguarda. E retomámos o caminho, mais uns dezminutos, muito devagar e atentos a tudo, mas sem ouvir mais nada. E, de repente, quandosaíamos de uma curva, vimos, a uns trinta metros, iluminado pela luz da Lua, um vultobranco a cavalo, parado no meio do caminho. O pai gritou: “Alto! Quem vem lá? Fale ouatiro!” Mas, antes que o outro fizesse qualquer movimento, soou um tiro vindo do mato, ànossa esquerda, e a lanterna da carruagem do lado do dr. Sacramento desfez-se em pedaços. Depois, já te disse que não me lembro muito bem do que se passou a seguir. Lembro-me de ver clarões de tiros que vinham dos dois lados da estrada, de ouvir um grito doHernâni “minha Mãe Santíssima!” e, atrás de mim, os tiros em cadeia do pai e do Joaquimda Vila. Às tantas, apercebo-me de que, ao meu lado, o dr. Sacramento disparava e voltavaa carregar, uma e duas vezes, e então vi os arbustos a mexer à minha direita, a uns dezmetros de nós, e disparei para lá os dois tiros da espingarda. Pareceu-me ter ouvido umgemido e o barulho de um corpo pesado a cair, e logo depois estávamos a galopar quase àsescuras e eu ainda a tentar voltar a carregar a espingarda mas sem conseguir porque asmãos tremiam-me, e só parámos passado muito tempo, não sei dizer quanto, no meio deuma grande clareira, onde não era fácil eles chegarem-se a nós sem serem vistos de longe.O Hernâni tinha uns chumbos num ombro, um dos cavalos da carruagem também tinhasido chumbado, mas não havia marcas de balas em lado nenhum e em menos de uma horajá estávamos em Ficalho, sem mais nenhum alerta.- Mas mataste-o, não mataste? - Os olhos de Pedro brilhavam de ansiedade e eletinha até largado a cana de pesca para agarrar o braço do irmão.- Não, acho que não o matei. Não sei sequer se o chumbei ou se só o assustei...- Mataste-o, mataste-o! Diz que sim, diz que o mataste!- Mas porque é que tu queres tanto que eu o tenha morto?- Porque era um bandido! Temos de matar os bandidos todos: foi o pai que mo disse!Diogo olhou para o irmão, pensativo. Nunca lhe tinha ocorrido que pudesse termorto o assaltante. Recordava-se apenas de se ter sentido seguro quando pegou na armaque o dr. Sacramento lhe estendia, já carregada, e como o medo que o paralisava tinhadesaparecido instantaneamente, assim que fizera fogo em direcção ao que pensara seralguém emboscado no mato. Sim, a segurança incrível que tinha experimentado nesseinstante, a sensação de força, de autodefesa, o prazer no disparo da arma, o recuo dela noseu ombro, o clarão da pólvora na escuridão, o ruído do impacto dos chumbos nas estevas.
  • 24. Mas nunca tinha pensado seriamente que o desfecho final do seu tiro pudesse ter sido amorte de homem.Não, Pedro. Eu acho que não o matei. Nem sequer sei ao certo se ali havia alguém.E o pai, achas que o pai matou algum dos bandidos?Não faço ideia, Pedro.Ele não disse se tinha morto algum?Diogo riu-se, lembrando-se do comentário que o pai havia feito à noite, na estalagemde Ficalho, já todos lavados, jantados e sossegados, em roda da lareira da sala:- Pensar que meia Europa se anda a matar na Flandres, com tanques, canhões,metralhadoras, granadas e aviões, e nós aqui, de regresso da Feira de Sevilha, pacatamente acavalo, a defendermo-nos a tiros de caçadeira de um assalto de bandidos do mato! Estamosmesmo com um século de atraso! O que me dizes tu a isto, António?- E soltou uma palmada nas costas do dr. Sacramento, que fumava placidamente oseu charuto cubano com prado em Sevilha.- Antes assim, compadre! E descansa, que não perdes pela demora. Aposto que, dapróxima vez que viermos à Feira de Sevilha, já vai ser de automóvel e em estrada comodeve ser. E Deus nos conserve os nossos bandidos de caçadeira e nos guarde dos outros,de metralhadoras e aviões!Essa é que é essa! - rematou filosoficamente o Joaquim da Vila.
  • 25. IIO tempo agora voava, parecia fugir-lhe debaixo dos pés. Maria da Glória tinhaquarenta anos, menos oito que o marido, Manuel Custódio. E tinha feito vinte e dois anosde casada, pouco mais do que a idade de Diogo, o mais velho dos dois filhos. Diogocontinuava em Lisboa, havia já dois anos, a frequentar sem grande entusiasmo o curso deAgronomia que o pai lhe mandara tirar à capital, como morgado que era, destinado aadministrar no futuro a Herdade de Valmonte. Vinha a casa apenas nas férias de Natal e dePáscoa e nas férias grandes, que duravam de finais de Julho a princípios de Outubro. Erapouco para ela, que o vira partir para Lisboa tão novo ainda, tão tímido, tão companheiroque era da mãe e do irmão.Maria da Glória sentia muito a ausência do filho. Dos dois, era o único parecido comela: reservado, senhor da sua solidão e do seu silêncio, reflexivo e quase tão sensível comouma rapariga. Pedro, o filho mais novo, pelo contrário, era o retrato do pai: impetuoso,destemido, irascível muitas vezes, sempre atento aos trabalhos da herdade e sempre prontoa dar ordens ou a descompor os trabalhadores, alguns deles homens que tinham idade paraser seus pais. Diogo era amado e respeitado por quase toda a gente de Valmonte; Pedro erasobretudo respeitado. Diogo era quem estava a estudar Agronomia para mais tarde sabercomo gerir a herdade, enquanto que Pedro já se tinha percebido que nunca acabarianenhum curso superior. Já reprovara dois anos e a escola era coisa que não lhe dizia nada.Em contrapartida, os trabalhos da herdade, tratar dos cavalos, recolher o gado, fazer ocorte da cortiça, limpar as oliveiras, sair para caçar sempre que podia, com o pai, com ofeitor, com os amigos, ou sozinho com os cães, isso era o que verdadeiramente lhe davaprazer e consumia o melhor do seu tempo e do seu talento. Não precisava de estudar oofício: já sabia tudo por experiência, apesar da sua imaturidade, e era esperto o suficientepara continuar a aprender por si o que lhe interessava e que escola alguma lhe ensinaria.Maria da Glória sabia como era profundo e inato aquele apego dos filhos à herdade,cada um à sua maneira. Vinha-lhes lá do fundo dos tempos, passado de geração emgeração. Ela percebia-o e sabia ainda como isso era importante para a continuidade dascoisas que, afinal, representavam igualmente toda a história da sua vida. Nascida tambémnuma tradicional família de agricultores de Estremoz, os Cortes, Maria da Glória vivera
  • 26. uma infância desafogada e feliz no campo, muito embora fossem sete irmãos - dos quaisela era a mais nova - e as terras que a sua família possuía não se equivalessem, em extensãoe em qualidade, às dos Flores. Mas cedo aprendera o valor da terra e o que a sua possepodia significar ali de diferença entre uma vida desafogada e uma vida de miséria ou deprivações. E melhor o percebera ainda quando, tinha apenas quinze anos de idade, os paislhe morreram, numa viagem de regresso de Lisboa, no naufrágio da barca que os trazia deVila Real de Santo António, no Algarve, para Mértola e que foi apanhada num pego do rio,junto à confluência do Guadiana com o Vascão. Aí, entre os altos penhascos solitários dorio, onde apenas o moleiro, lá em baixo junto à água, e as águias planando lá no alto embusca de caça habitavam, e aonde ela se deslocara na companhia dos irmãos para depositarflores na sepultura líquida dos pais, Maria da Glória percebera que, daí em diante, a suavida e sua fortuna iriam depender apenas da sorte. E ela deu-se quando o jovem ManuelCustódio Ribera Flores, proprietário da imensa Herdade de Valmonte, se tomou de amorespor ela e, alheio a todos os conselhos em contrário dos seus - que o queriam ver casadocom uma rapariga que tivesse por dote mais do que uma promessa afundada no Guadiana -, só esperou pelos seus dezoito anos para a fazer sua mulher e a levar como troféu de caçapara casa. E assim se vira - órfã de pais, de dote e de terras - senhora dona por casamentoda casa e dos dois mil hectares de terra dos Flores, de Estremoz. Sim, ela sabia bem o valorda terra! Sabia o que lhe tinha custado a si: a sua juventude e a sua beleza, gastas pelosexcessos e pelas traições do marido, e pelo filho mais velho, que tão depressa viera e parasempre lhe desfizera aquela cintura de bailarina e a altivez daquele peito ainda adolescente,a sua solidão de coração e de espírito, que em tão pouco tempo a transformara de meninaem mulher madura, ali encerrada na solidez daquelas paredes senhoriais e no horizontedemarcado dos dois mil hectares de terra. Mas, pelo casamento com Manuel Custódio,havia saído daquele futuro que, aos quinze anos, lhe parecia sem esperança, e os seus filhosestariam para sempre ao abrigo de um golpe da fortuna ou de uma volta do rio.Uma vez, uma amiga de infância e de escola, com quem partilhara antes os segredose os sonhos de adolescentes, os livros da Condessa de Ségur da Biblioteca Popular deEstremoz e o projecto insensato de um príncipe encantado encontrado ao virar da esquina,em plena vila, perguntara-lhe, de visita a casa:- Tu amas o teu marido, Maria da Glória?Ela olhara a amiga, como se a pergunta não fizesse sequer sentido e respondera, semuma hesitação para pensar na resposta:- Claro, é o meu homem.
  • 27. Não, não era o príncipe encantado dos sonhos de adolescente. Era arrogante,autoritário, rude por vezes, fazendo-a sentir-se eternamente em dívida, eternamenteobrigada a mostrar-se grata e obediente. Raramente lhe dirigia um elogio; apenas, em certasocasiões, um olhar de macho com cio - o que nele era uma forma de cumprimento e deaprovação. E, todavia, havia nessa relação, sem romance nem paixão, uma segurança deque ela gostava: quando se referia a ele, em conversa com uma amiga, como “o meuhomem”, ou quando se dirigia aos criados, falando dele como “o meu marido”. E haviatambém outra qualificação, que apenas usava para si própria e que se forçava a repetirbaixinho até à exaustão, quando, noites adentro, esperava, fingindo-se adormecida, que eleregressasse das suas excursões de amigos às casas de meninas de Estremoz, de Elvas, deBadajoz, rezando para que, pelo menos, voltasse vivo, inteiro e sem doenças: “o pai dosmeus filhos”.Nestes últimos tempos, o pai dos seus filhos dava-lhe mais preocupações do que ospróprios filhos. Ultimamente, de facto, Manuel Custódio andava cada vez mais envolvidona política. Na verdade, ele nunca deixara de vociferar, em público ou em privado, à mesade casa, entre amigos, ou no café da vila, entre todos, contra o “crime sem castigo” doassassinato do Senhor D. Carlos e do Príncipe herdeiro D. Luís Filipe, já lá iam treze anospassados. E nunca se conformara com a instauração da República, dois anos depois, e que,no seu julgamento, não fora mais do que o aproveitamento da cobardia da soldadesca e dosoficiais de Lisboa, recuando, sem pudor, perante a arruaça popular. Tal como ele via ascoisas, o 5 de Outubro de 1910 não passara de uma “revolta de maçons e merceeiroslisboetas”, que derrubara um regime que era querido e popular entre o povo e os homens-bons do país inteiro.- Tememos a Deus, servimos o país e obedecemos ao nosso Rei. Qualquer portuguêsde orgulho sabe isto! - era a sua frase preferida, que repetia em casa, no café, nas tertúliasde amigos ou nas discussões políticas em que cada vez mais frequentemente se envolvia.Nascera monárquico e haveria de morrer monárquico e viesse quem viesse para o fazermudar de ideias ou tentar calá-lo.A medida que a jovem República se ia degradando na instabilidade, no caciquismo,na intriga e na incompetência governativa, acumulando a dívida do Estado e expondo aseus olhos e em sua opinião a vacuidade insuportável dos seus próceres bem-falantes, assima raiva de Manuel Custódio se ia acumulando e a sua fama de feroz anti-republicanoespalhando-se como rastilho de fogo na planície. Adquirira o hábito de ir todos os fins detarde ao Café Central de Estremoz, onde, entre prosélitos, discípulos, amigos
  • 28. condescendentes ou simples curiosos atraídos pelos seus discursos inflamados, ele montavabanca e exercia política, entre uns copos de abafado e uns torresmos de porco salgados.Numa dessas ocasiões, estava ele sentado na sua habitual mesa do fundo, dissertandono meio da sua corte de ouvintes, quando entra no café o grande republicano e presidenteda Câmara, bacharel Joaquim Gomes, trinta anos antes seu colega de escola. Vinha tambémrodeado do seu próprio grupo de apaniguados e, pelo canto do olho, pareceu a ManuelCustódio, treinado que estava pela vida do campo a tudo ver ao derredor, que tinha vindoexpressamente para se pegar com ele. Mas continuou como se o não tivesse visto entrar,aliás falando ainda mais alto e concluindo o que estava a dizer, acerca das despesas da corteno tempo da Monarquia, então violentamente criticadas pelos republicanos e que hojepareciam ridículas, quando comparadas com o desperdício de dinheiros públicos dogoverno do dr. António José de Almeida - “o rei dos demagogos, o maior vendedor defeira que este país já conheceu”.A sala fez um silêncio sobre esta frase. Ele próprio se calou, deixando o efeito dassuas palavras pairar sobre a audiência. E, tal como tinha antecipado, o presidente daCâmara, o mui respeitado Joaquim Gomes, encostado ao balcão entre a sua gente, rodou ocorpo na direcção da mesa onde perorava Manuel Custódio e disse, em atitude de serenodesafio:- A diferença, senhor Manuel Custódio, entre a Monarquia que o senhor defende e aRepública que eu represento, é que hoje qualquer um pode estar aí a fazer propagandacontra o regime e no tempo do Senhor D. Carlos era comer e calar.A resposta de Manuel Custódio, passados uns momentos de silêncio de duelo,haveria de correr célere no dia seguinte, pelas boticas e cafés de Estremoz, daí chegando aoutros lugares do Alentejo. Contou-se, então, que ele se levantou, muito hirto, deu-sevagares a pegar na bengala e a largar uns cobres sobre a mesa para pagar a despesa, a fazerum gesto circular de despedida para os seus, antes de avançar em direcção à saída e parardois passos à frente do presidente da Câmara e calmamente encarar com ele:- Não. A diferença é que dantes os burros não falavam e muito menos governavam.E o país agradecia.A República parecia, de facto, perdida e à deriva. O poder autocrático e distante dosúltimos tempos da Monarquia fora substituído por um poder dissoluto, deli-quescente, queparecia sem rumo. A aristocracia caduca e inculta dera lugar a uma pequena-burguesia ávidade acreditação social e de importância pública. Aos marqueses de berço e aos condes deocasião dos saldos finais da Monarquia, tinham-se sucedido os maçons, os comercianteslisboetas, os banqueiros em ascensão, os funcionários da província, os jornalistas
  • 29. panfletários, os intelectuais auto-designados. O Estado, que confiscara os bens da Igreja eos dos aristocratas exilados, abandonara à sua sorte as colónias de África por absolutaincapacidade de gestão e arruinara-se na aventura militar da Flandres, onde o CorpoExpedicionário Português fora dizimado em dois dias de Abril de 1918, sacrificado à maisimbecil estratégia militar de todos os tempos - a chamada “guerra das trincheiras” - e ànecessidade diplomática de restabelecer boas relações com a antiquíssima e “fiel aliada”Inglaterra, de modo a que o Império Português de África pudesse continuar eternamente -adormecido e abandonado, decerto, mas português de jure.A República falhara rotundamente na sua tentativa de levar a instrução e o“progresso” a todas as freguesias do país. Um Portugal profundo e obscuro, fechado sobresi mesmo e desconfiado de tudo o que lhe parecia estranho ou alheio, resistia a cadatentativa de reforma, a cada apelo cívico à “cidadania”, e ignorava por completo asvantagens da “civilização das luzes” sobre as antiquíssimas trevas em que se habituara aviver. Pelo contrário, desde há uns anos que não parava de crescer o número dos que,todos os meses de Maio, seguiam em romaria até à aldeia estremenha de Fátima, onde umaabsurda crença popular pretendia que Nossa Senhora tinha aparecido a três jovensmiseráveis pastores, flutuando sobre uma azinheira e prometendo “a salvação de Portugal”e “a conversão” da nascente Rússia bolchevique.Fora alguns restritos círculos político-intelectuais da capital ou do Porto, ignotastertúlias de cidades do interior e alguma oficialidade dos destacamentos militares aísediados, nenhuns outros portugueses seguiam com atenção ou sequer entendiam osfloreados absurdos dos discursos dos deputados que supostamente os representavam noParlamento de Lisboa ou a grandiosidade oca dos debates que aí ocorriam. Nessa derivasem sentido em que o regime se consumia, homens-bons da província, como ManuelCustódio, homens anti-regime, capazes de argumentar com uma linguagem chã e em nomede valores tão retrógrados quanto familiares, não apenas mantinham o seu espaço deinfluência, como crescentemente eram ouvidos como se deles viesse a única e segurasabedoria: a da continuidade das coisas, a da imutabilidade das verdades de sempre.Todas as sextas-feiras, Manuel Custódio instituíra o ritual de receber alguns amigospara jantar em Valmonte e discutirem política. O grupo permanente incluía sempre o juizAntónio Sacramento, vizinho de propriedades e companheiro de caça ou de excursões aSevilha, que agora era já desembargador na Relação de Évora. Vinha no seu Ford T (preto,obviamente, como o próprio Ford determnnara: “podem escolher qualquer cor desde queseja o preto”) passar o fim-de-semana à sua herdade de Estremoz, começando as folgaspelo jantar habitual das sextas-feiras em Valmonte. Aos cinquenta anos de idade, o
  • 30. desembargador mantinha-se ainda solteiro, demasiado habituado às espanholas” oudemasiado treinado na linguagem dos códigos jurídicos para ser já capaz de algumaconversa de aproximação com uma senhora disponível e que para aí estivesse virada. Paragrande desgosto e alguma irritação de Manuel Custódio, o dr. Sacramento, que nunca fora,a bem dizer, um monárquico muito convicto, fora-se tornando aos poucos um republicanoinspirado nas ideias da “igualdade”, das “luzes”, da “cidadania”, e outras coisas que, para oseu amigo, não passavam de perigosas utopias de “bem pensantes”. Todavia, ManuelCustódio admirava o juiz, a sua vontade de não ter querido limi-tar-se a ser mais umlatifundiário alentejano, por berço e herança - antes arranjando profissão e vocação própria.Admirava a sua cultura e o seu jeito natural para a caça e outros desportos masculinos. Egostava, claro, do confronto político com ele, do prazer daquelas discussões de sexta-feira ànoite.Os outros parceiros fixos dessas tertúlias gastronómico-políticas incluíamnormalmente o Joaquim da Vila, abastado comerciante local e também companheiro decaça, o proprietário da farmácia da vila, Filinto Paz, um proto-imbecil sentencioso, se bemque sempre simpático e prestável, espécie de fiel da balança das discussões, por vezesacompanhado da sua horrenda e idiotíssima mulher, D. Conceição, e o padre JúlioBenfeitor, prior da igreja e paróquia de S. Sebastião, autêntica caricatura viva do padre deprovíncia demonizado pelos republicanos: gordo, suado e acomodado, capaz de venderuma indulgência plenária em troca de um bom convite para jantar e fatalmente subservienteperante o senhor D. Manuel Custódio e as suas, por vezes, vulcânicas opiniões. Mas nãoera estúpido, o padre Júlio: tratava apenas de sobreviver, num tempo difícil para apadragem, quando, poucos anos atrás ainda, os maçons procuravam padres, comoratazanas, nos esgotos de Lisboa, os perseguiam, prendiam, arrastavam pelas ruas e, àsvezes até, permitiam que a populaça os açoitasse ou matasse de pancada.O padre Júlio não esquecia que mesmo um homem culto e católico, como RaulBrandão, dividira os padres em duas categorias: o “ateu” e o “devasso”. O primeiro era “opadre banal e charro”, que despachava, com a fé de um amanuense, confissões e missas,casamentos, baptizados e extrema-unções; o segundo era “o padre eleiçoeiro, o padrejanota, mamando charutos à porta das tabacarias, o padre intriguista, fazendo cerco àsviúvas ricas, por vezes amigado, criando mulheres e filhos, jogadores correndo as feiras,bêbados e devassos”. A custo, Raul Brandão reconhecia ainda a existência de uma terceira eexcepcional categoria de padres que não se integrava nas duas anteriores, e, a custo, o padreJúlio tentava passar aos olhos da sua freguesia por uma raridade pertencente a essa terceiracategoria. Mas os tempos não estavam fáceis, não, para os servidores do Senhor: era
  • 31. necessário não desperdiçar a hospitalidade de casas como as da D. Maria da Glória e deManuel Custódio, e necessário também que o comum povo e os ódios anticlericais soltos ealimentados pelos republicanos e pela maçonaria não o denunciassem publicamente comoserventuário dos senhores do antigamente.- Sabe uma coisa, padre Júlio? - Manuel Custódio recostara-se para trás na cadeira, àcabeceira da mesa, visivelmente satisfeito com a cena que contemplava: os amigos estavamali reunidos, convocados pela sua hospitalidade, pelo seu gosto da discussão e da boa mesa;Maria da Glória, a sua mulher, olhava-o da outra cabeceira, a sua beleza moura impondo-seao redor, os olhos levemente esverdeados e ainda com a luz de outrora, e um sorrisoesquivo mas familiar prolongando-lhe o desenho da boca, enquanto vigiava pelo canto doolho o serviço - impecável como sempre e como só ela sabia organizar; Diogo e Pedro, osseus filhos, homens feitos ou quase feitos, cada um à sua maneira, esperavam que o paiabrisse a discussão política que antecedia invariavelmente a sobremesa, o café, o brandy eos charutos, com a atenção e o respeito de sempre; o sabor do ensopado de borrego, combatatas novas e grão, demorando-se-lhe na boca, antecedendo o pato assado com azeitonas,que era apenas um ritual para quem porventura ainda tivesse apetite ou gula; e o seu olhar,passeando-se pela magnífica sala de jantar do monte e detendo-se nos reflexos que a luz dolume vivo de azinho acendia nos azulejos moçárabes das paredes, verdes e brancos, e nodourado das panelas de cobre areado, alinhadas nas prateleiras. Cada coisa no seu sítio,tudo familiar, tudo antigo, certo, seguro, imutável.- Quer ouvir uma opinião que o vai, talvez, escandalizar, padre Júlio? Eu acho que aúnica coisa de jeito que os republicanos fizeram foi expulsar daqui os Jesuítas, tal como oMarquês de Pombal, há cento e cinquenta anos. Não fazem cá falta nenhuma!Ao padre Júlio não custava muito, também, concordar com o seu anfitrião. OsJesuítas sempre tinham adoptado uma atitude de superioridade e desdém para com o clerosecular, a que o padre Júlio pertencia. Tal como se viam a si próprios, os Jesuítas não sedeixavam confundir com o clero ignaro e boçal da província: eles consideravam-se umaelite dentro da Igreja e olhavam os padres de paróquia como uma casta acomodada eretrógrada. Não admira que, desde a sua instalação, a República tivesse feito do cleroregular, e em especial dos Jesuítas, o seu principal inimigo, procurando separá-los dorestante clero, a quem insinuava tréguas, em troca de apoio. E muitos desses pobres padresde província, como o padre Túlio, haviam visto aí uma tábua de salvação a que se tinhamagarrado com mãos ambas. Mas os republicanos não se tinham quedado por aí: depois deexpulsos os Jesuítas e praticamente proibidas as ordens, seis escassos meses após chegaremao poder, e sem sequer esperarem por uma Assembleia Constituinte, haviam feito publicar
  • 32. a “infame” Lei da Separação do Estado das Igrejas, redigida pelo radical anticatólicoAfonso Costa, ministro da Justiça. Se, por um lado e em nome da separação, a leiexpropriava a favor do Estado quase todos os bens da Igreja Católica, incluindo asresidências dos bispos, por outro lado e em nome do princípio de dividir para reinar,prometia uma pensão do Estado aos padres que não afrontassem a República e a próprialei e que, pelo contrário, se mostrassem dispostos a não obedecer aos seus bispos. Outrasdisposições incluíam o direito de intervenção do Estado na nomeação dos membros doclero e na regulação das actividades de culto, a obrigação de os seminaristas fazerem o liceunas escolas públicas, a limitação dos actos de culto na via pública e, mesmo dentro dostemplos, só entre o nascer e o pôr do Sol, a proibição de os padres andarem vestidos comotal nas ruas e o inacreditável direito de fiscalizar as missas e demais actos de culto, atravésda presença de um “fiscal” da República. Tamanho era o intuito persecutório da lei contrauma religião que, teoricamente, era professada pela quase totalidade da populaçãoportuguesa, que o próprio Papa Pio X se apressou a publicar uma encíclica contra ela e adar instruções secretas aos bispos portugueses com vista a uma resistência clandestina,como no tempo dos primeiros cristãos de Roma. Claro que a inesperada descida da VirgemSenhora sobre a azinheira de Fátima fora, literalmente, uma bênção caída dos céus para umclero que, desde a implantação da República, em 1910, vivia acossado nos seus bens, nassuas pessoas e nos seus seculares direitos. Mas o acontecimento fora recente, as própriasexcursões anuais de fiéis a Fátima eram semiclandestinas e não havia ainda condições paracomeçar a tirar livremente partido do sinal enviado pelos céus, nos púlpitos das igrejas dopaís.E era neste quadro, de desabamento de um mundo até aí seguro e tranquilo, quegente como o padre Júlio se esforçava por sobreviver, servindo a Deus sem dar nas vistas,obediente ao novo regime na igreja e nos cafés de Estremoz, nostálgico do antigamente namesa de confiança de Manuel Custódio.- Sim, os Jesuítas não despertam muitas simpatias em ninguém... - começou a ele aconcordar, antes de se ver interrompido pelo juiz António Sacramento:- Pois eu acho exactamente o contrário: a expulsão dos Jesuítas foi um erro gratuitodos republicanos. Com o devido respeito por si, padre Júlio, o senhor pode ser tido comouma excepção. A maior parte do clero dependente dos bispos seculares representa, defacto, o ultra-montanismo católico: são reaccionários sem emenda. Os Jesuítas, ao menos,dedicavam-se ao ensino, à instrução pública, às missões nas colónias. Não ficavam aí, pelasaldeias, a fornicar e a fazer filhos sem pai às beatas de sacristia, pregando virtudes vãs,
  • 33. enquanto enchiam a barriga do bom e do melhor e fingiam seguir os mandamentos doEvangelho.- Credo, Deus me valha, que o senhor doutor, quando solta a língua, vai mesmo dearraso! - E o padre Júlio benzeu-se, por dever de ofício, olhando o tecto de madeira da salade jantar, como se nele vislumbrasse o Céu.- Já lhe disse, padre Júlio: tome-se pela excepção e não pela regra. Mas nem DeusNosso Senhor me pode desmentir quando afirmo e sustento que, nesta terra, Ele estámuito mal servido de servidores.Credo, Deus me valha! - repetiu o padre, aproveitando para encher novo copodaquele excelente tinto da colheita do ano anterior, extraído às vinhas de xisto deValmonte.- Ó padre, não se amofine. - Manuel Custódio entrava, com verdadeiro deleite nadiscussão que iniciara, como o caçador que vê enfim ao alcance de tiro a presa que vinhaperseguindo. - O que o nosso doutor Sacramento quer, com esta absurda defesa dosJesuítas, é fazer-nos outra vez a pregação das virtudes da instrução republicana, das “luzes”,como eles dizem.- E, então, tu, porventura, és contra um país instruído?- Não, eu sou é contra um país estúpido. Contra um país que desperdiça recursos adar instrução à força a quem a não pediu, não a quer, não a entende e não sabe o que fazercom ela. Vai dar ali instrução ao meu moço de estrebaria, a ver se ele a quer para algumacoisa: vai largar o emprego que tem e onde ajuda os pais a serem menos pobres, a troco dequê - de voltar da escola para ordenhar vacas, outra vez, só que agora, em lugar de teraprendido melhor o seu ofício, aprendeu a recitar a tabuada e o abecedário enquantoordenha uma vaca?- Ó pai, francamente! - Diogo juntava-se agora à discussão, incapaz de se manteralheio. - O que está a dizer é de um reaccionarismo tão aberrante que até lhe fica mal.- Ah sim, filho, e então porquê: não temos todos o direito de ter opinião, não é issoque proclamam hoje em dia?- Sim, ninguém diz o contrário, mas não é isso que torna todas as opiniões válidas eaceitáveis...- Ouve lá! - Manuel Custódio estava a começar a irritar-se. - E quem és tu para medizeres se a minha opinião é ou não válida e aceitável? Só porque andas a estudar emLisboa já te imaginas superior intelectualmente?- Não é isso que o rapaz te está a dizer. - O dr. Sacramento acudia, em auxílio deDiogo. - E, se o mandaste estudar para Lisboa, farias bem em ouvir, de vez em quando, o
  • 34. que ele tem para dizer. E é claro que o Diogo tem razão: é perfeitamente retrógrado e atépouco cristão defender que a instrução para todos é uma coisa inútil. O que faz a riquezadas nações não é apenas a agricultura ou o comércio que têm e as minas que possuem. Étambém a instrução do seu povo. Olha a França, a Inglaterra, a Alemanha: as nações ricassão sempre nações instruídas.- E o que fazes tu com essa instrução?, foi o que eu perguntei. Depois de saberemler, escrever e fazer contas, se calhar, até, depois de aprenderem história, geografia efrancês, os camponeses vão querer voltar para os campos e os mineiros para as minas?Quem os substitui, então?- Vão passar a fazer melhor o seu ofício, certamente. Serão também melhorescidadãos, sem dúvida. E não te preocupes porque, mesmo que eles queiram largar osempregos que tinham e subir na vida - o que é um direito seu que não podes negar-lhes -,outros haverá sempre para ocupar os seus antigos postos. Não é obrigatório ser-seanalfabeto para trabalhar a terra ou descer à mina.- Pois eu, António Sacramento, nota bem o que te vou dizer... Foi essa fé nainstrução do povo, nos direitos civis e políticos com que vocês enchem a boca, queconduziu à Rússia dos bolcheviques e há-de conduzir à desgraça da nossa terra. Nota bemo que te digo.- Não, pai! - Diogo voltava à carga, encorajado pela intervenção do juiz. - Não é aeducação nem a justiça social que conduzem à revolta, é justamente o contrário: aignorância e os abusos. Se há coisa que devemos à República é exactamente a instruçãoobrigatória para todos.- Ah, sim? E que mais lhe devemos, já agora?- A separação entre o Estado e a Igreja, apesar dos exageros e dos abusos cometidos.O registo civil, o divórcio civil para quem não é católico, o sufrágio universal, o...- Disparates! Fantasias de jacobinos ignorantes! O nosso povo é católico e há-depermanecê-lo para sempre. Em Portugal ninguém se regista sem ser baptizado, ninguém secasa para se divorciar depois, ninguém compreende que se tenha chegado ao cúmulo dequerer proibir os padres de andarem vestidos de padres nas ruas. Afinal, que liberdade éessa.- O sufrágio universal...- O sufrágio universal? Ó filho, não me venhas com o sufrágio universal, que essa atédá vontade de rir! Sabes quem é que vai ganhar as eleições parlamentares, aqui, emEstremoz? Sabes quem vai ser o próximo presidente da Câmara?- Não, não sei! - respondeu Diogo, verdadeiramente espantado com a pergunta.
  • 35. - Pois vai ganhar quem eu disser ou quem disser aquele pateta do Joaquim Gomes, ocabo eleitoral dos republicanos em Estremoz. E só esperar para ver qual de nós os doisestá disposto a gastar mais dinheiro com a eleição e depois contam-se os votos - se nãohouver chapelada deles. Aí tens o teu sufrágio universal: o povo vota em quem lhemandarem os que ele respeita ou teme. E é assim no país inteiro!- Bem, compadre, essa não lhe fica muito bem...- Não me fica muito bem, compadre António? E não me fica muito bem, porquê?Acaso estou a dizer alguma mentira, alguma coisa que vossemecê não saiba? E assim que ascoisas acontecem e não é por acaso: porque o povo, apesar da vossa instrução para todos,direitos políticos e civis e tudo isso, não está preparado para escolher de livre vontade. E,por isso, segue aqueles que toma como uma elite: seja a velha elite, de berço e deantiguidade e respeito, seja a nova elite, autopromovida como tal, mas bem-falante e capazde enganar os tolos. Porque, por mais proclamações que façam da igualdade para todos,haverá sempre uma elite que governa e que guia e conduz os outros. E a desgraça dospovos é quando essa elite não existe ou não se assume.Pai - volveu Diogo -, não há elite alguma se o povo não a respeitar.Não, Diogo, é exactamente ao contrário: não há elite digna desse nome que não sefaça respeitar pelo povo.- E como é que se faz respeitar, pai, pelo chicote?Manuel Custódio olhou-o quase com raiva:- Olha, Diogo: dá graças a Deus por teres um pai que te está a educar para quepertenças à tal elite que, ao que parece, queres negar. À elite pertence-se, naturalmente, peloberço e, a seguir, pelo mérito e pelo exemplo. Espero bem que tu, que és tão igualitário, ovenhas a perceber por ti, porque, se o não perceberes, não vais pertencer a mundonenhum: os iguais a ti desprezar-te-ão como um renegado e os de baixo não tereconhecerão como um dos seus.Fez-se um silêncio pesado. Diogo percebeu que tinha chegado a altura de se calar. Ojuiz olhava, como que distraído, uma gravura inglesa na parede. Maria da Glória suspiroubaixinho: “Está a ficar frio.” Mas Manuel Custódio ainda não tinha acabado:- E, já agora, se queres saber, o chicote - que aqui não se usa, como bem sabes - sótem cabimento e justificação quando aquele que o usa o faz por autoridade natural, mastambém pelo mérito e pelo exemplo dados. Se, quando terminares o teu curso, mostraresaqui que aprendeste qualquer coisa que eles não sabem e que pode melhorar a exploraçãoda herdade; se deres o exemplo trabalhando e usando a favor de todos o que aprendeste,terás o respeito que te é devido e, se o não tiveres, até tens o direito ao chicote. Porque
  • 36. deste o exemplo. Mas se, porventura, esqueceres tudo o que a tua mãe e eu te ensinámos, ese só quiseres ser um desses filhos-família que vivem a derreter o dinheiro e as terras queherdaram de gerações de gente honesta, nesse caso, não terás o respeito de ninguém, acomeçar por mim. Diz-me, diz-me tu, António Sacramento, que és homem de leis e dejustiça: o que tem isto de errado? Qual é a alternativa a uma sociedade sem uma elite demérito?- É isso mesmo, pai! - E todos se viraram para de onde vinham estas palavras: paraPedro, que olhava o pai com os olhos brilhantes de admiração.
  • 37. IIIManuel Custódio viria a morrer quatro anos depois, em 1925, exactamente um anoantes de ter podido assistir ao triunfo de um golpe militar que instauraria em Portugal umaditadura retrógrada e tradicionalista, ao gosto daquilo que pregava e com queaparentemente sonhava. Ou talvez não: porque, daí em diante, os que pensavam como eleviriam a reduzir todos os outros ao silêncio e nunca lhe teria sido possível continuar asdiscussões políticas com os adversários, tão do seu agrado.Mas morreu tal como secretamente sempre desejara - se é que alguma vez desejoumesmo encarar de frente a ideia da morte, coisa de que Maria da Glória nunca o ouviu falare nunca suspeitou que sequer lhe ocorresse. Teve morte de caçador, num dia em que saírapara caçar galinholas, a sua caça favorita, acompanhado pelo seu braque, o Campeão, pelosdois filhos e pelo feitor da herdade, o Tomé da Amieira. Caçavam num terreno “sujo” edifícil, um entranhado de silvados e arbustos altos, onde a custo ele se embrenhava,arranhado nos braços e na cara e mantendo a espingarda ao alto, por cima da vegetação.Extenuado, tinha acabado de chegar ao cimo de um cerro íngreme, quando ouviu o ligeirosilvo da galinhola, levantando do chão onde estava oculta e partindo disparada, no seucaracterístico voo aos ziguezagues por entre as árvores, tornando quase impossível um tirocerteiro. Mas, apesar do cansaço, ele reagiu rápido e por instinto: apontou, meteu-a emmira, calculou numa fracção de segundo a sua trajectória, “correu a mão” para diante edisparou para um ponto à frente dela. Fulminada, a ave caiu “seca” e, no mesmo instante, oCampeão lançou-se para a cobrança.E foi aí, no alto desse cabeço, que Diogo foi o primeiro a dar com o pai, minutosdecorridos. Manuel Custódio jazia de joelhos, com a espingarda caída à sua frente e acabeça apoiada na terra, em estranho equilíbrio. Junto a ele, o Campeão gania baixinho, agalinhola morta a seus pés, e com a língua lambendo suavemente a nuca do dono. Diogogritou “pai!”, sabendo de antemão que nenhuma resposta teria. Ajoelhou-se também ao seulado e levantou-lhe a cabeça com ternura, vendo que da boca aberta lhe escorria umaespuma que se misturava com a terra que ele engolira ao ajoelhar, ferido de morte: morreraa comer a terra de Valmonte, fulminado no coração, ajoelhado num gesto de humildadeperante a morte que ninguém jamais lhe vira em vida.
  • 38. Ali os encontrou Pedro, passados uns minutos, quando assomou por sua vez ao altodo cabeço: Diogo estava sentado sobre o resto de um tronco de árvore, ao rés do chão,segurando o pai nos seus braços, como uma Madona segurando o corpo do Cristo morto.Manuel Custódio jazia de cabeça pendente sobre o ombro do filho, o corpo torcido numaposição absurda e a sua bela cabeleira negra ponteada de fios brancos, que tanto desvelo eorgulho lhe dava, caída em desalinho sobre a cara suja de terra. Pedro estava ainda à beirade fazer vinte anos - menos cinco do que Diogo, que regressara já definitivamente deLisboa e da Universidade, com o título de engenheiro agrónomo no bolso e o destino demorgado de Valmonte à sua espera. Mas, enquanto que Diogo ficou paralisado pela cena àsua frente e pela dimensão da tragédia de que começava a tomar consciência, Pedro reagiu,num tom calmo e de comando que Diogo lhe não conhecia e a que instintivamente sesentiu obrigado a obedecer.- O pai morreu, Diogo. Um ataque de coração fulminante: não deve ter tido tempopara perceber nem para sentir nada. Olha, matou esta galinhola antes de morrer: em cheiono peito! Vai lá abaixo dizer à mãe e manda subir uma carrinha para o transportarmos.Diogo chegou a casa sem fôlego pela corrida, as pernas trementes pelo choque.“Como hei-de dizer à mãe que o pai morreu?”Maria da Glória estava na sua pequena salinha de passagem entre a sala de jantar e osalão, com duas janelas abertas sobre o pomar de limoeiros das traseiras da casa, onde tantogostava de passar os tempos livres da hde doméstica -no Verão de janelas abertas sobre oPomar, no Inverno com a pequena lareira acesa e ela sentada numa pequena mesa emfrente do lume. Mas, nesse momento, estava em pé, a folhear uns papéis pousados sobre acómoda que lhe servia de arquivo. Olhou o filho Pahdo e afogueado e percebeu logo quealguma coisa de grave se tinha passado. Mas não se descontrolou - “o que tiver de vir,virá”, era o seu lema de vida, desde sempre.- Filho, o que foi? Senta-te aí, bebe um copo de água. Lurdes - gritou em direcção àcozinha -, traz-me um copo de água para o menino Diogo! Rápido!Diogo deixou-se cair sobre o sofá junto à lareira, olhando a mãe. Gostaria deconseguir chorar para a ocasião, mas não lhe chegavam lágrimas aos olhos. Só então lheocorreu - talvez pela primeira vez na sua vida de filho - que o pai era também o marido dasua mãe. O homem dela.- Mãe, aconteceu uma desgraça...- O teu irmão...?- Não, mãe. O pai...
  • 39. Maria da Glória respirou fundo. Nunca estaria preparada para a morte de um filho.Nunca. Sabia de certeza que não seria capaz de sobreviver a uma notícia dessas. E à mortedo marido, seria capaz?- Diz, filho.Lurdes trouxe o copo de água. Diogo agarrou nele com ambas as mãos e bebeu umgole profundo, antes de se voltar de novo para a mãe.- Está morto, mãe. Morreu naquele cerro alto, junto à mata do Evaristo, depois deter morto uma galinhola. Está lá o Pedro com ele...- Morreu como, Diogo?A voz da mãe soou-lhe agora de uma inesperada dureza, quase como se o culpasse aele pela morte do pai. Ele estremeceu e a resposta saiu-lhe murmurada:- De coração, mãe. Deve ter sido: demos com ele já morto, tombado no chão.De facto, Manuel Custódio não morrera tombado no chão, mas sim ajoelhado, e foraapenas ele que dera com o pai morto. Movido por um instinto de auto-protecção absurdo,ele não foi capaz de contar à mãe exactamente como as coisas se tinham passado. Talveztemendo que ela virasse a sua ira contra o mensageiro e não contra a mensagem.Ela tinha assim quarenta e quatro anos quando o marido lhe morreu - sem aviso nemrazão, nem mesmo idade adequada para tal. Vinte e seis anos casada com ele, dia por dia,noite por noite, sempre junto e disponível para aquele homem que agora lhe morrera,sepultando com ele o seu absurdo e inconfessado desejo de ainda vir a ser mãe mais umavez. Ainda tinha regras, ainda (mesmo que olhasse bem para os seus filhos já feitoshomens) se sentia mulher e não viúva. “Eis como as coisas podem ser irónicas!”, pensoupara consigo. A maior parte ou quase todas as mulheres da sua idade que conhecia, hámuito que tinham desistido da sua feminilidade, como se fosse assunto encerrado.Dedicavam-se aos filhos ou aos netos, dormiam em quartos separados dos maridos e atémesmo, quando em conversa entre elas se referiam à sua vida sexual, em tom deconfidência cómico-trágica, não era raro que exclamassem qualquer coisa como“felizmente, ele resolveu dar-me tréguas definitivas já há um tempo!”. Ela, porém, não.Mesmo então, contemplando o corpo frio do seu homem, não conseguiu deixar desentir também uma imensa pena de si própria. Chorou por dentro, enquanto à sua roda asamigas, as tias, as vizinhas ou as simples intrusas choravam alto e bem à vista de todos. Ela,se chorava, era em seco - tal como os seus dois filhos, verdadeiros Ribera Flores,verdadeiros filhos de um pai que lhes ensinara em pequenos, para valer toda a vida, que“um homem não chora”. Mas, por dentro, Maria da Glória chorava. Chorava coisasinconfessáveis talvez, coisas que não confiaria a ninguém, nem sequer ao marido agora
  • 40. morto e que enfim, quem sabe, talvez pudesse escutar-lhe os pensamentos, bem mais ebem melhor do que alguma vez escutara em vida. Chorava por si própria. Pelo filho que jánão teria, pela mulher casada que já não seria mais, pelo lugar definitivamente ausente dohomem que já não teria mais à mesa, na casa, na cama, na vida - no bem e no mal, na saúdee na doença, na felicidade e na tristeza, tal como se haviam jurado há tanto tempo atrás, nacapela de Valmonte. Junto ao corpo do morto, chorava o seu próprio corpo, que via aoespelho ainda jovem e apetecível, em que as ancas não haviam arredondadodesproporcionadamente com os partos, o peito não descaíra como se fosse velha, as pernasnão tinham perdido a sua rigidez de sempre, o pescoço não ganhara rugas, nem as costasacumulavam cansaços incuráveis. Chorava essa súbita inutilidade das coisas, como essecorpo ainda vivo, os seus vestidos de cores alegres de que tanto gostava para semprearrumados na naftalina dos armários à espera de noras ou netas, o cuidado com que sepreparava para os jantares, para a missa de domingo na vila, para receber os amigos domarido, para o baile anual de Ano Novo do Clube de Estremoz, as festas de família ou dosamigos, esse prazer para sempre perdido que era o de ver como o olhar apreciador deManuel Custódio, todavia tão pouco dado a galanterias, a acolhia quando aparecia arranjadapara jantar ou para sair. E, sim, chorava a sepultura em vida do seu desejo de fêmea aindadesperto e por saciar. “O que vier, virá...”A vida em Valmonte mudou quase da noite para o dia. A casa estava agora maissilenciosa, sem o som da voz poderosa de Manuel Custódio, dando ordens ou chamandopela mulher ou os filhos, e o das suas passadas largas no soalho de madeira dos corredorese salas. A sua ausência viera juntar-se quase logo a de Diogo, que agora passava largastemporadas em Lisboa, parecendo descobrir na cidade um encanto que nunca lhe haviamdespertado os anos de estudante que lá vivera. Mas agora era diferente: já não ficava emcasa dos tios maternos que o haviam acolhido antes, mas sim no Hotel Avenida Palace, naesquina entre a Avenida da Liberdade e a estação de comboios do Rossio. Os empregadostratavam-no por “senhor engenheiro” e ele experimentava um vivo prazer pela vida dehóspede. Gostava do pequeno-almoço no quarto, do primeiro charuto do dia fumadonuma poltrona de couro da sala de espelhos, lendo a imprensa da manhã. Gostava do arsolene com que lhe entregavam a correspondência ou os recados na recepção, quando aofim do dia regressava para se mudar para o jantar. Raramente lá almoçava, mas, emcontrapartida e a menos que tivesse algum convite ou algum jantar de amigos combinado,do que mais gostava era de ficar no restaurante do hotel, de largas janelas rasgadas sobre aAvenida da Liberdade e ainda iluminado a velas por estrita vontade da gerência. Nem seimportava nada de jantar sozinho, se assim calhasse, com o som do pianista do restaurante
  • 41. em fundo, distraindo-se a observar discretamente os restantes hóspedes, em particular osestrangeiros, e a imaginar o que seriam as suas vidas e que facto relevante os teria trazidoaté ali. Tornou-se um conhecedor e um apreciador do serviço do restaurante, da suaexcelente garrafeira e dos seus pratos de referência - os hors-doeuvres, os ovos mexidoscom espargos verdes, o foie gras trufado, o rodovalho assado no forno com tomate farei, oempadão de lebre ou o pato estufado com azeitonas. E também ele se foi tornandoconhecido dos empregados: os seus gostos, as suas preferências, os seus hábitos, as suasmanias. O café era sempre servido na salinha de leitura e nunca à mesa, o conhaque tinhade vir acompanhado por um copo de água e a caixa de charutos escusava de lhe serapresentada juntamente com um cortador porque ele gostava de os abrir com os dentes,trincando a ponta. E eram essas pequenas coisas, essas atenções, essas comodidades que odinheiro comprava, que lhe tornavam tão agradável a vida de hotel.Outras coisas, também, tinham mudado na vida de Diogo. Comprara um automóvel,um Panbard de 1924, com 72 cavalos de potência, dois lugares e cor azul berrante. Vinhade Estremoz para Lisboa sozinho no Panhard, de janela aberta e atento ao caminho,através de uma estrada que começava por ser de terra e gravilha, depois passava a vestígiosde alcatrão sobre a terra (o “maquedame”, como lhe chamavam os alentejanos), e sópróximo do Tejo, já com Lisboa à vista, se transformava em estrada asfaltada. Adoravaconduzir, adorava a sensação de liberdade e de viagem que o automóvel lhe dava, etambém o fascinava a máquina em si - o seu motor, que estudara ao pormenor, o chassis, acoluna de direcção, os travões de disco dianteiros, a direcção de cremalheira, as molas dasuspensão e todos os acessórios interiores. Tornara-se um especialista em mecânicaautomóvel e, quando em Estremoz, passava horas perdidas na Garage Auto-Estremoz, àconversa com o mecânico Joaquim Manuel, vendo-o mexer nos motores e discutindo comele cambotas, pistões e carburadores. Assinava a revista inglesa do Royal Automobile Club,que depois oferecia ao Joaquim Manuel, e assim se mantinha actualizado sobre asconstantes novidades que a todo o tempo iam aparecendo nesse fascinante mundoemergente dos automóveis.Mas os automóveis e as cada vez mais prolongadas e agradáveis estadas no HotelAvenida Palace não esgotavam os seus novos interesses, que o mantinham tanto tempoafastado de Valmonte. A morte do pai, de certo modo, libertara-o de uma vida que anteslhe parecera programada e sem desvio possível: estava destinado a ser o morgado daherdade, a ali viver e ali pôr em prática, ao serviço da herdade e da família, osconhecimentos de Agronomia para que fora despachado quatro anos para Lisboa a fim deaprender. Agora, liberto da presença tutelar e absorvente do pai, tendo tomado posse do
  • 42. dinheiro que lhe coubera em herança, Diogo sentia, pela primeira vez na vida, que esta lhepertencia. Havia um novo espaço, um novo horizonte, uma nova liberdade à sua frente eele montava no seu Panbard e fazia-se ao caminho, ao seu encontro.Desgraçadamente, a sua nova liberdade coincidiu com a morte da liberdade no país.Em Maio de 1926, um obscuro general comandando um quartel de Braga, no extremonorte de Portugal, sublevou-se contra o governo da República e veio por aí abaixo,arregimentando à passagem a soldadesca dos quartéis ociosos da província, até instalar assuas tropas no Terreiro do Paço, em Lisboa, inaugurando um novo regime a que viriamdepois a chamar Estado Novo, muito embora a sua difusa filosofia política, baseada numnacionalismo pacóvio e num autoritarismo primário, fosse tão velha quanto os mais velhosvícios do país. E aí, sem que Diogo, então à beira de fazer vinte e seis anos, o pudesseadivinhar, acabou para sempre, no tempo da sua vida, a liberdade em Portugal.A Ditadura Nacional era um movimento militar, ainda sem líderes políticos civis. Oque unira os cabecilhas que haviam derrubado a República democrática era uma confusaideologia que tinha a seu favor um programa político a que grande parte dos portuguesesera perigosamente sensível, após dezasseis anos de desordem instaurada, de caudilhismopartidário e de arrogância larvar dos vates da República: a restauração da “Ordem Pública”.Fosse isso o que fosse ao certo, alguns sectores agarraram de imediato a oportunidade deaderirem, em nome da “salvação da Pátria”: os grandes capitalistas que outrora tinhammantido cativa a Monarquia, trocando créditos à Casa Real por concessões de monopóliose oportunidades de negócio nas colónias de África; a Igreja Católica, que fora despojada degrande parte dos seus privilégios, humilhada e forçada a esconder-se ou exilar-se; e bemassim uma certa pequena-burguesia, provinciana ou citadina, que se habituara a viverparedes meias com a padralhada e que, acima de tudo, preservava a ordem e a continuidadedas coisas e temia a emergência do anticristo e dos bolcheviques - que, embora soubessedistantes, lá nas terras brancas da Rússia, sabia também, por instinto de classe, ser um malescondido e expansivo, como um vírus em incubação; e, finalmente, como não poderiadeixar de ser, os grandes terratenentes - aristocratas semiarruinados das quintas vinhateirasdo Norte, para quem a manutenção do próprio estatuto de nobreza de que se reclamavamse confundia com a viabilidade económica dos seus domínios de sempre, ou oslatifundiários das grandes propriedades do Sul, que pareciam para sempre adormecidospelo calor abrasivo dos estios na planície e pelos rendimentos certos que assegurava umamão-de-obra extensa, dócil e miseravelmente paga. Todos eles confiavam na DitaduraNacional, não apenas para repor a “ordem pública”, mas, antes de mais, a ordem naturaldas coisas. A ordem de sempre. A que fizera “o esplendor de Portugal”, isto é, a que nos
  • 43. últimos cinquenta anos dispersara pelos quatro cantos do mundo milhões de portugueses,que só tinham escolha entre a fome e a emigração: assim vira o país partir açorianos e cabo-verdianos para a América e para as costas do Pacífico para fornecer marinheiros para a caçaa baleia - os únicos que se atreviam a perseguir a remos o monstro marinho e arpoá-lo àmão a cinco metros de distancia, tão grande era o seu desespero de sobreviver; assim viraPortugal partir milhares de beirões para as colónias africanas de Angola e Moçambique pararoçar mato em terras tão perdidas que nem saberiam dizer onde estavam, semeando assementes que levavam nos bolsos, seu único tesouro, além dos mulatinhos querapidamente espalhavam, com raiva e sémen, pelas povoações à volta; assim vira partirmadeirenses para o Transval ou para o Havai, para donde quer que um conterrâneo jáinstalado lhes enviasse um bilhete de barco e uma promessa de trabalho; assim vira partir,desde o início do século, levas e levas de minhotos e transmontanos para os Brasis,largando as vinhas e eiras do Douro e Minho pelos seringais sem saída da Amazónia e,antes, pelos prósperos vales de café do Paraíba. Um país miserável, exangue, fugia de simesmo e partia, sem o saber, para nunca mais regressar: era essa a ordem natural dascoisas. Uma espécie de fatalidade portuguesa, a de um povo que ainda agora, trezentos ecinquenta anos decorridos sobre a fatal batalha de Alcácer-Quibir, travada nas areiasincandescentes de uma tarde de Agosto em Marrocos e onde se perdera o rei, aindependência e toda a elite nacional de então, continuava a alimentar a lenda do regressodesse patético rei D. Sebastião - o mais imbecil, incompetente e irresponsável governantede toda a história de Portugal.Diogo interrogava-se muitas vezes o que pensaria o pai do actual estado de coisas.Num primeiro momento, não duvidava que ele tivesse aderido aos revoltosos anti-republicanos. Afinal de contas, era monárquico desde sempre e não ignorava que amudança de regime, mesmo que não visasse aparentemente a restauração monárquica,vinha ao encontro das suas ideias conservadoras e retrógradas. Mas, por outro lado, a ideiade ditadura não deveria assentar muito bem a um homem como Manuel Custódio, paraquem os combates se travavam em campo aberto, fazendo frente aos inimigos e nãosilenciando-os. E a verdade é que havia agora um silêncio cauteloso que se iacrescentemente instalando no país e que Diogo sentia, palpável, nos cafés, nas conversasentre os amigos, na leitura dos jornais, no próprio lobby do Avenida Palace. O gosto peladiscussão política, que nos últimos anos fora uma espécie de nova fé comum a todos osportugueses, dera lugar a um súbito alheamento, como se de repente houvesse umainfinidade de coisas mais importantes e mais urgentes a fazer e que tinham sido deixadaspara trás, esquecidas. Mas, se não se discutia política abertamente como outrora, se os
  • 44. jornais só tinham notícias que pareciam reportar-se a um país surreal, a cidade, porém,fervilhava de boatos. Apesar do seu nome, a Ditadura Militar não tinha separado a naçãoentre as Forças Armadas e os civis: pelo contrário, dividira tudo a meio, militares e civis.Havia numerosas unidades e chefias militares, além da polícia militarizada criada pelosrepublicanos - A Guarda Nacional Republicana, dita GNR -, que se sabia não estarem, nemde coração nem de cabeça, com o novo regime, e sobre as quais circulavam constantesrumores de sublevação iminente. Quando, naqueles agitados tempos de boataria, Diogo iade visita a Estremoz, era assaltado por todos, num dos cafés da vila - o Café Alentejano, “omais elegante e higiénico de todos os cafés de província”, como rezava a publicidade -, àsaída da missa de domingo na Igreja de Santa Maria, mesmo nas esquinas das ruas ou noLargo do Rocio, pelos amigos ou conhecidos que queriam à viva força saber novas políticasda capital.Os jornais nacionais eram devorados assim que chegavam a Estremoz e a própriaimprensa local - o Brados do Alentejo, cujo lema, inscrito em cabeçalho, era “Alentejo,conhece-te a ti próprio e dá-te a conhecer!” -, quando não sabia, inventava. Nesse tempo, aprovíncia não estava ainda a povoar Lisboa, como sucederia anos mais tarde. Havia naspequenas e médias cidades de província uma intensa vida cultural e política, determinadapelas elites locais. Em Estremoz, por exemplo, eram célebres as récitas no TeatroBernardim Ribeiro, ao qual a grande actriz Amélia Rey Colaço chamava “um amorzinho deteatro” e o jornalista Alves da Cunha, mais eloquente, baptizara com o nome de“bocetazinha da arte”. Havia imprensa dos dois campos, os progressistas e osconservadores (só no Alentejo, havia vinte e seis jornais!), clubes de debate, tertúlias, cafés,onde todos os dias se desfazia ou restaurava a reputação da Pátria, manifestações, greves,comícios políticos, saraus de música e de literatura em que, como na eleição para os corposgerentes dos bombeiros ou do clube local, era a política que determinava o tom. A grandemaioria das sublevações militares que haviam marcado os últimos anos da Monarquia e osdezasseis anos de República tinha tido origem nos quartéis de província, que tantoforneciam revoltas ao país como mancebos para as meninas casadoiras da terra ouanimação ao comércio local.Mas ninguém mais, em Estremoz inteiro, parecia tão interessado e tão entusiasmadocom o rumo dos acontecimentos políticos como Pedro. Se Diogo tinha dúvidas sobre oque pensaria o pai se estivesse vivo, Pedro não as tinha.- Que pena que o pai aqui não esteja agora: devia estar feliz com tudo isto!Pedro falava enquanto metia à boca simultaneamente uma azeitona curada e umbocado de pão, o olhar já pousado na terrina de sopa de beldroegas com tomate e queijo de
  • 45. ovelha. Como sempre e como em quase tudo o resto, era sôfrego a comer. De poucotinham servido os anos e anos a fio que a mãe o repreendera pelas suas maneiras à mesa.Ele comia como se o mundo fosse acabar logo a seguir e a verdade é que contara semprecom o olhar complacente do pai, que não conseguia disfarçar que gostava da vitalidadeanimal do filho. Pedro era assim a comer, a trabalhar no campo, a dar ordens ao pessoaldesde miúdo, a arrear e a montar o cavalo ou a caçar de salto, onde constantemente seadiantava à linha de caçadores que deviam caminhar num movimento sincronizado emforma de ferradura, e que ele estava permanentemente a desfazer, adiantando-se.Estavam sentados à mesa da sala de jantar do monte, Maria da Glória e os seus doisfilhos, os seus dois homens que agora lhe restavam. Ocupavam apenas uma ponta daimensa mesa, Maria da Glória na cabeceira onde sempre se sentara, do lado da copa e dacozinha, os filhos um de cada lado, como se a protegessem.- O pai devia estar feliz com tudo isto, o quê? - interveio Diogo que, ao contrário doirmão, parecia distraído, fazendo um esforço para se concentrar no prato.- Ora, com o novo regime, com Portugal, com o regresso da gente de bem ao poder!Diogo levantou os olhos para o irmão: ele estava mesmo convicto do que dizia.Sorriu-lhe:- Vá lá, Pedro, gente de bem há em todo o lado. E gente de mal também. Em que éque estes são tão melhores que os outros, que os republicanos?- Bem, Diogo, parece que só tu é que não vês! Que raio fazes lá em Lisboa, para nãodar por nada? Olha, tal vez te fizesse bem passar mais tempo aqui, no campo. Epercebias como as pessoas falam e estão aliviadas.- Mas que pessoas, Pedro?- As pessoas como nós. - E, dizendo isto, Pedro olhou o irmão fixamente. “Não teafastes de mim, agora!”, pare cia dizer o seu olhar.- Ah, as pessoas como nós... Sim, os donos das herdades...- Sim, claro! Tu não és dono de uma herdade?- Sou...- E então, não achas que pelo caminho que as coisas estavam a tomar, em breveteríamos aqui os comunistas a darem volta à cabeça dos trabalhadores e a tornarem istoingovernável como estava o próprio país?- Pedro, quantas vezes tenho de te explicar que os republicanos não são comunistas?- A sua voz e o tom mantinham-se suaves, um irmão mais velho acalmando o mais novo.
  • 46. - Sim, já ouvi isso muitas vezes. Mas o que eles fizeram, Diogo, o que eles fizeram foiabrir a caixa de Pandora. Começaram a prometer tudo às pessoas, a instrução, ossindicatos, o direito à greve, um mundo sem Deus nem valores de família...- Ei, ei, o que aí vai, rapaz! Olha, nessa parte de Deus, ou melhor, da Santa MadreIgreja, o nosso pai, como sabes, não deveria estar de acordo contigo.- Sim - atalhou Maria da Glória, intrometendo-se na conversa. - O vosso pai, nuncapercebi bem porquê, era muito anticlerical. Nesse aspecto, estava mais próximo dosrepublicanos do que dos monárquicos.- Sabe porquê, mãe? - Pedro retomava a iniciativa. - Porque o pai nunca gostou dequem não fazia nada. E a verdade é que a maior parte dos padres que a gente conhece poraí não fazem mais nada do que viver às sopas dos outros. Mas mesmo o pai reconhecia quea Igreja preenchia um vazio na vida desta gente e que contribuía para...- Para os manter sossegados - concluiu Diogo. - Para lhes ensinar que, como disse oCristo, também o reino deles não é deste mundo.Fez-se uma pausa. Maria da Glória parecia divertida com a conversa, mas Pedroestava com uma expressão de incredulidade séria.- Tu começas a preocupar-me, mano! Estás a ficar jacobino, o que é o primeiro passopara muitos perigos. Ainda acabas aí a pregar a revolução proletária pelos campos!Diogo riu-se. Levantou o copo de vinho tinto e fez uma saúde na direcção de Pedro:- Tchim-tchim, mano! Não te preocupes: sou demasiado preguiçoso e comodistapara virar revolucionário. Apenas acho, e falando a sério, que há um meio-termoentre uma coisa e outra: nem o comunismo nem a miséria sao as únicas alternativas e asúnicas fatalidades. E também, desculpa lá, não gosto de ditaduras. Não gosto que meproíbam de dizer o que penso, de ver toda a gente aos segredinhos, cheia de medo.- O Pedro também não gosta que lhe proíbam de dizer o que pensa - acorreu Mariada Glória.- Sim, mãe. Mas a questão é saber se também se importa ou não que proíbam osoutros?- Olha, Diogo, não vou fugir à tua armadilha: queres mesmo saber o que penso? -EPedro debruçou-se para a frente sobre o prato, momentaneamente esquecido de comer. -Penso que tens razão, em teoria: o ideal seria vivermos sempre num país civilizado, como aInglaterra, onde toda a gente tivesse uma opinião abalizada e respeitável sobre os assuntosde que fala. Mas isto é Portugal, meu querido mano: aqui falam todos e ninguém seentende, porque a República deu a todos o sagrado direito constitucional à asneira. Mas,como bem sabemos, vozes de burro não chegam ao céu e não acrescentam nada aos males
  • 47. da terra - só os agravam. Como dizia o nosso pai, nenhum país progride se as elites nãoassumem o poder. E, se não o assumem porque aquilo a que tu chamas democracia fazcom que as elites sejam esmagadas pelos ignorantes ou pelos simplesmente invejosos, entãohá alturas em que o único caminho é o da força. O da ditadura, justamente. Eu acho queeste é um desses momentos. Prefiro ver Portugal restaurado em ditadura do que destruídoem democracia.E, dito isto, voltou a recostar-se para trás na cadeira e a concentrar as suas atençõesno jantar que tinha à frente. Mas, perante o silêncio do irmão, ainda acrescentou,rematando o assunto:- Mas, claro, cada um tem as suas preferências...Diogo também se recostou para trás na cadeira de palhinha italiana. Soltou um meiosuspiro, meio assobio entre dentes, e exclamou, dando-se por vencido:- Uf! Discute-se mais política à mesa de Valmonte do que em todos os cafés deLisboa!Maria da Glória fechou a discussão, sorrindo:- Há uma coisa que eu tenho que dizer ao Pedro: esta sempre foi uma mesademocrática. Felizmente. E há-de continuar a sê-lo para sempre, meus queridos!Olhou para ambos, com um sentimento misto de ternura e espanto: ternura porserem seus filhos, espanto por serem já dois homens feitos. Tão diferentes um do outro e,todavia, tão agarrados às mesmas coisas: à família, a ela, à casa, à herdade, à vida e aoespaço do campo e, sim, à liberdade. Seriam felizes ali para sempre os dois, tão diferentesna maneira de ser, na maneira de reagir e de ver as coisas? Como era estranho, pensou, quedois homens, tão novos e tão sensíveis ao que entendiam ser a justiça, pudessem ter ideiasconcretas tão diferentes. Diogo, “o meu liberal”, como ela dizia, e Pedro, “o meu maioral”.Esperou, tranquilamente feliz, que Pedro acabasse de devorar a sobremesa de encharcadade ovos e mais meia dúzia de figos de mel colhidos por ela nessa mesma tarde junto aopoço velho, e levantou-se, disfarçando um brilho de contido orgulho, ao ver como eles selevantavam imediatamente e lhe beijavam a mão, exclamando, como o pai lhes tinhaensinado desde crianças: “A bênção, minha mãe!”Maria da Glória tinha-se retirado para a zona da cozinha, depois do jantar. O que,acima de tudo, a mantinha alegre e activa, depois da morte de Manuel Custódio, era ogoverno da casa, a crença, talvez errada, de que, sem ela, a vida em Valmonte não saberiaseguir o seu curso normal. Na longa varanda contígua à sala de jantar, sob o alpendre cáfora, Diogo e Pedro tinham-se sentado nas poltronas de madeira de costas curvasrevestidas de almofadas a que chamavam espreguiçadeiras. Sempre fora assim, no tempo
  • 48. do pai e do avô e do pai do avô. A varanda fora construída virada a poente, talvezpensando nas longas tardes de Verão alentejano, em que o sol só era suportável ao final dodia, quando as cigarras calavam enfim o seu interminável grito diurno de insectos abrasadose eram substituídas pelo inextricável diálogo entre os pássaros nocturnos e as rãs, que, nacharca logo adiante, se chamavam umas às outras e se respondiam entre elas, a noite inteirapela frente: “Estás aí? Viste bem o calor que fez hoje?”Gerações de Flores tinham-se sentado como eles, naquela mesma varanda, em noitesassim. Diogo pensava nisso, enquanto acendia com um longo fósforo o seu Partagas,comprado na Havaneza, ao Chiado. Pedro só fumava ocasionalmente cigarros, que agoraeram moda mesmo entre as mulheres. Mas bebia, gole a gole, a sua aguardente de zimbro, etambém ele convocava a memória dos antepassados, ali, na varanda, ao lado do irmão,numa noite de lua quase cheia, com o calor do dia finalmente sepultado à sombra dasazinheiras e o fantástico concerto das rãs na charca celebrando essa mágica hora de tréguas.E, pela centésima vez na sua vida, Diogo pensou na incrível, inexplicável, magiadaquele lugar. Deus sabe que, sobretudo depois da morte do pai, tinha tentado descobriroutras raízes, outras varandas, outra vida. Esforçara-se por amar Lisboa e a vida de Lisboa,como quem descobre uma nova amante, novos fascínios, novos vícios. Procurara emLisboa uma outra ocupação que o aliviasse da monotonia e responsabilidade da função deadministrador vitalício de Valmonte, para que o destino e o sangue o haviam fadado, e cujaperspectiva lhe dava uma sensação de desânimo absoluto. Juntamente com o seu melhoramigo e colega de curso, Francisco Menezes, andava a tentar montar uma empresa deimport-export com o Brasil, através de um alemão, Herr Gabriel Matthäus, que eleconhecera no bar do Palace e que, vivendo no Rio de Janeiro e sendo um homem com umespírito empreendedor e aventureiro que saltava à vista, estava naturalmente destinado a sero sócio brasileiro daquele empreendimento comercial. Indo eles avante no seu projecto,esperava Diogo que este lhe proporcionasse uma outra ocupação que o distraísse doisolamento de Valmonte e que, ao menos, lhe servisse de pretexto para regulares viagens aLisboa, que lhe limpariam a cabeça do provincianismo tacanho da vida de Estremoz - aoinvés, tão do agrado de Pedro, que a nada mais parecia aspirar da vida ou do mundo.Mas nada, nada dava a Diogo esta sensação de estar em casa como ali. Aquele era oseu território, o seu mundo, a sua varanda, a sua lua. Suspirou fundo, feliz: dali, debaixo deuma Lua que parecia fazer parte da própria terra, via a sua luz derramada sobre a lagoaonde as ras gritavam de alegria, via-a recortada entre a sombra das árvores reflectida nochão do montado de azinheiras e> a esquerda, no pomar de citrinos cujo perfume invadiao seu quarto em noites como esta, quando dormia de Janela aberta e no chão se desenhava
  • 49. um cone de luz prateada onde ele se fixava, antes de adormecer. Ao longe e de vez emquando, ouvia o balir das ovelhas que vinham beber à charca, o som abafado dos cascosdos cavalos presos na estrebaria, o ruminar baixo das vacas que pastavam ainda junto aossobreiros e que Pedro conhecia e vigiava, uma por uma. Se apurasse mais o ouvido, ouviriatambém, talvez, um cântico rouco e cadenciado, como se dormente - um “cantaralentejano” dos homens de Val-monte, afinando as gargantas com uma aguardente demedronho bebida à porta da botica da herdade, de braços dados em linha mal definida emal segura, coro cambaleante de bêbados exaustos de sol e trabalho, disputando às corujase aos morcegos o silêncio daquela noite suspensa sob a Lua, de tréguas e mistérios. Outalvez ouvisse o estalar seco da casca de cortiça de um sobreiro que se distendia, enfim, docalor que o sufocara todo o dia. A noite descera sobre a planície e, aspirando-a como coisasua, ele sabia que pertencia ali: tudo aquilo era seu, mesmo que não quisesse.Sentiu que Pedro se levantara e que chegara junto das suas costas. Sentiu a mão deleque lhe pousava no ombro, como há muito tempo, quando eram crianças e Pedro só se iadeitar se Diogo o acompanhasse.- Então, Diogo? Não fiques assim, abatido. Esta terra tem muita força: é nossa. Eusei que tu sabes isso.Diogo voltou-se de viés e agarrou a mão do irmão, que estava pousada no seu ombrodireito.- É a terra que é nossa ou nós é que somos da terra?Pedro riu-se, tranquilo, feliz. Semanas e semanas a fio, meses e meses a fio,administrava Valmonte na ausência de Diogo, sem dúvidas, sem hesitações e sem queixas,num misto de prazer e de dever, que para ele se confundiam. Mas nada o deixava mais empaz consigo e com tudo o resto do que ver o irmão de volta a casa, ver como ele observavatodos os detalhes mesmo que o não dissesse, como gostava de ver as buganvílias em florno grande pátio de entrada, os figos de mel que a mãe colhera para a sobremesa, o fenocortado e empilhado no campo, o gado cuidado e tratado, a ribeira que continuava a correr,mesmo Verão adentro.- Ah, Diogo, porque é que queres sempre complicar tudo? Tu pertences aqui, tantocomo eu. Podes correr o mundo inteiro, podes torturar essa cabeça de agrónomoarrependido, mas hás-de sempre querer voltar aqui, por que aqui é a tua casa.- Talvez, talvez tu tenhas razão...- Tenho, sim. Olha, e agora fazias bem era ir-te deitar como eu, porque amanhãtemos a feira e vamos lá levar catorze vacas, um semental e cinco cavalos, e temos de fazertambém boa figura ao lado deles.
  • 50. - Ah, já me tinha esquecido! - suspirou Diogo. - A Feira de S. Tiago! Foi por isso queeu vim, afinal! Vamos lá dormir para passear as vacas amanhã.- Não é só passear as vacas. Essa é a parte do trabalho: à noite, passeamos as miúdasda terra!- Passeamos?- Vá lá, Diogo, não te armes em santinho! Passeamo-las, sim: tiramo-las para dançarno bailarico e depois, com um bocadinho de jeito, levamo-las para trás da igreja e elasfingindo que não querem e que são muito virtuosas, saltamos-lhes para cima e, quem sabe,ainda tiras os três a uma, à sombra da Santa Maria!Aquela parte Diogo nunca dominara bem. Aliás, pensando com toda a franqueza, eraum assunto que sempre fizera grande cerimónia em abordar com o irmão. Como toda agente em Estremoz, ouvira falar várias vezes da fama de garanhão do irmão: contava-se navila que Pedro não tinha escrúpulos nem temor em tentar saltar para cima de qualquermulher que se pusesse mais ou menos a jeito, ou nem sequer tanto. Viúvas e casadas,solteiras sem dote, ciganas e filhas de camponeses, raparigas das lojas da vila, lavadeiras ouamas de leite, a tudo ele acorria e de tudo consumia em lho deixando, qual animal com cioà solta.- E - rematava agora Pedro, com uma gargalhada melíflua - se não tivermos sorte,temos sempre a casa da queridíssima D. Esmeralda, que Deus conserve assim, mais o seusempre renovado harém de meninas de Badajoz!- Pois quê, meu querido mano, continuamos a frequentar as meninas de Badajoz noharém da D. Esmeralda, como daquela vez em que, devias ter uns catorze anos, a mãe nosobrigou, a mim e ao pai, a sairmos de noite à tua procura, convencida de que estavas para aíafogado na ribeira, e tu entretido a tratar da sífilis?- O que queres tu? - E Pedro sorriu, nada embaraçado. - Eu não vivo em Lisboa,como o menino: queres que me ponha nas ovelhas? Pois é, eu vou às de Badajoz,importadas; nem todos tiveram a sorte de ter um paizinho que o levou às de Sevilha!Certo é que a ida à feira acabou por ser bem mais interessante do que Diogo tinhaantecipado. Durante a manhã, passeou-se pelo recinto na companhia do irmão, fechandojuntos uns quantos negócios de compra e venda de gado e alfaias e cumprimentando osconhecidos e amigos que iam encontrando.Também na exploração de Valmonte os dois irmãos eram diferentes, embora aqui secomplementassem. Diogo era principalmente um teórico e um estudioso da agricultura.Assinava revistas inglesas e francesas sobre a criação de gado, estava a par dos últimosprogressos de maquinaria e sempre pronto a investir em novidades e dominava bastante
  • 51. bem as modernas descobertas sobre a utilização racional dos solos, a rotação dos terrenosde cultivo e a sua alternância com os pastos e a floresta, além de ser um verdadeiroconhecedor das técnicas de irrigação, que estudara a fundo desde os romanos e os árabes,que tantos vestígios da sua arte haviam deixado na zona. Pedro era, acima de tudo, umhomem do terreno: gostava de sujar as mãos na terra, de passar dias inteiros no campoenvolvido nos trabalhos agrícolas e, embora, ainda tão novo, tivesse fama de ser um patrãoduro e exigente, ninguém o podia acusar de não dar o exemplo e ordenar coisas que elepróprio não fosse capaz ou não estivesse disposto a fazer. No pino do Verão, comtemperaturas assassinas que frequentemente chegavam aos 40 graus, ele lá estava, nocampo, participando da gadanha e da debulha do trigo. E, pelo meio-dia, com o sol caindona vertical sobre a planície, as árvores estalando sob o calor e as cigarras gritando emdesespero por tréguas, muitas vezes se sentava com os seus trabalhadores à sombra de umsobreiro e, tal como eles, sacava do seu rancho de “comida de ganhão”, como lhechamavam, à base de alho, azeite, coentros, pão e um corte de toucinho para engrossar ocaldo. Ou então, se a horta tivesse corrido bem, ficava-se por um gaspacho, que mais nãoera do que uma água mantida fria dentro de um recipiente de cortiça chamado tarro,acrescentada de azeite e vinagre e onde boiavam pedaços de pão, tomate, cebola e pimento.Mas a verdadeira paixão de Pedro era o gado. Conhecia um por um todos os cavalos,éguas, vacas e bois da herdade: com um só olhar, conseguia dizer se estavam doentes ou setinham pastado de mais ou de menos e sabia sempre onde estavam a cada hora do dia. Oseu gozo maior eram as ferras e as agarras dos novilhos, misto de trabalho e de festa e que,conforme à tradição, eram sempre participadas pelos vizinhos ou amigos, terminando emgrandes almoçaradas. No final dos dias de trabalho, com o tempo quente, mandava buscara casa uma camisa lavada e um bocado de sabão azul e branco e tomava banho na ribeiraque corria nos fundos da herdade, ensaboando-se todo nu e deixando-se ficar depoismergulhado na água fria até sentir os músculos doridos a distenderem-se devagar e umcansaço justo tomar conta de todo o corpo.Agora, percorrendo a Feira de S. Tiago, era Pedro que indicava ao irmão os animaisque valia a pena comprar e era ele que fixava o último preço do gado que tinha para vendere do qual não se afastaria. Diogo ouvia as explicações do irmão, mas não interferia nadecisão final, que era dele. Depois do almoço, enquanto Pedro voltou à feira para um leilãode ovelhas, Diogo preferiu dar um passeio até ao Castelo e ao Paço Real, sobranceiros àvila e de onde, em dias claros, se avistava tudo em redor, até cinquenta ou mais quilómetrosde distância. Diogo gostava de subir até lá acima, de ver de perto a torre de menagem docastelo, com os seus 27 metros de altura, e o Palácio Real, onde agora estacionava um
  • 52. Batalhão Militar de Ciclistas e que antes fora o maior museu de armamento do país. Erauma pena, pensou ele, que um palácio com tanta história não tivesse melhoraproveitamento do que albergar militares ciclistas. O Palácio Real de Estremoz tinha sidomandado construir por D. Afonso III, em 1258, e fora residência de D. Dinis, dito “OLavrador”, e da “Rainha Santa” - D. Isabel, de Aragão - que lá morreu. Morreu ela e o seuneto, o célebre D. Pedro I, “O Justiceiro”, que mandara arrancar o coração em vida aosdois assassinos da sua amante D. Inês de Castro. Mais recentemente, numa tarde de Julhocomo esta, do ano de 1833, o palácio fora cenário de uma tenebrosa cena das muitas quePortugal atravessou na Guerra Civil fratricida entre os partidários de D. Pedro IV, o reiliberal, o primeiro Imperador do Brasil, e seu irmão D. Miguel, o rei absolutista: 39prisioneiros da facção liberal que ali estavam detidos - a maioria deles militares, mastambém alguns civis e até uma criança de seis anos, filho de um dos presos políticos -foram chacinados a golpes de machado. Dizia-se na vila que, nos degraus da escadaria demármore do palácio, ainda havia marcas de sangue que nenhuma lavagem conseguiaapagar, e que, às vezes, na lua nova, ainda se ouviam os gritos abafados dos 39 filhos deEstremoz que ali foram massacrados. Quando Diogo era criança e à noite não conseguiaadormecer, a criada Imaculada costumava assustá-lo dizendo que, se não dormisse ou sefizesse barulho, poderia acordar os mortos do palácio, que sairiam lá do alto, vogandopelos campos fora em busca de vingança. Talvez tenha sido então que ele decidiu que,quando fosse grande, seria liberal, como a mãe lhe chamava.Nessa tarde, o seu passeio ao Castelo não acabou, Porém, com a tradicional visita àloja do sr. Augusto, um cigano que tinha uma espécie de caverna atulhada de toda a espéciede inutilidades e velharias e onde Diogo gostava de se perder, examinando detalhadamentecada peça amontoada sem nexo ao longo das três divisões da loja. O que procurava, emespecial, eram coisas romanas ou árabes, que queria sempre saber onde tinham sidoencontradas: fragmentos de colunas e capitéis, almofarizes de mármore, restos de bicas deágua, azulejos e mosaicos do chão em pequeníssimas pedras coladas como as de Pompeia,instrumentos e utensílios agrícolas de ferro, restos de faiança ou, até, uma página do Corãogravada sobre uma tábua colorida de madeira, que comprara ao sr. Augusto numa das suasincursões. Amontoava tudo o que comprava num pequeno escritório que montara emValmonte e de que a mãe era o único visitante igualmente curioso.Mas o sr. Augusto estava fechado, também ele deveria ter ido para a feira, e assim,dando meia-volta, conformado, Diogo veio descendo a pé as ruelas serpenteantes queconduziam do Castelo ao Rocio, detendo-se de vez em quando para melhor admirar umacasa mais bonita ou uma fachada mais rica de mármore, naquela vila em que a abundância
  • 53. de mármore rosa e branco nas pedreiras próximas servia para marcar o contorno das portase janelas, das esquinas e beirais das casas caiadas de branco. Mesmo os passeios das ruascalcetadas eram em mármore, como as fontes, os terreiros das igrejas e praças do centro ouos enfeites dos jardins. A sua terra de Estremoz era linda!O grande largo do Rocio estava agora apinhado de gente que se preparava para afesta que se seguiria à feira.Não estariam todas as cerca de vinte mil almas das dez freguesias do concelho, masestavam muitas delas e muitas outras que tinham vindo dos concelhos vizinhos, Évora,Borba, Elvas, ou até de Santarém e Lisboa. Havia ainda espanhóis de Badajoz, a unsquarenta quilómetros de distância, e muitos feirantes de outras terras mais longe e queainda não se tinham posto ao caminho de volta para suas casas. Estava-se naquela hora emque o Sol tinha acabado de se pôr e no céu viam-se farrapos de nuvens vermelhas e rosa aocidente, enquanto que do outro lado, do lado de Espanha, Vénus já despontara nofirmamento e em breve a Lua iria nascer dali também. A iluminação pública havia sidoligada, para logo se apagar e regressar após uns cinco minutos e alguma hesitação bruxule-ante nos candeeiros de ferro da praça. A luz deles, Diogo pôde ver uma nuvem de poeiraque subia do chão e, no ar quieto do fim do dia, ficava a pairar sobre a multidão,confundindo-se com o fumo dos fogareiros a carvão acesos nas inúmeras bancas de comese bebes que tinham ocupado todos os pontos estratégicos.O Joaquim Peixeiro, que durante anos ganhara a sua alcunha vendendo peixe do rio,sabendo a lodo e a limos, tinha reconvertido a sua actividade nestes últimos tempos.Comprara uma furgoneta em segunda mão, contratara um motorista ajudante, que era osobrinho, e, volta e meia, tocava-se para Sesimbra ou Setúbal, onde ia comprar verdadeiropeixe do mar, que trazia, conservado em sal, e vendia às gentes do sequeiro de Estremoz earredores. Ninguém diria que ele fosse capaz de tamanha revolução tecnológica, sendohomem conhecido pela sua infinita Preguiça, que numa ocasião lhe ia até custando a vida,quando adormeceu sentado sobre umas pedras em pleno mouchão do rio e caiu à águaquando uma carpa mordeu no anzol da cana que segurava e ele, com o balanço, foi atrásdela, para dentro de água. Não sabendo nadar, nem aliás pescar, foi salvo por um caçadorque assistiu à cena da margem e lhe estendeu um ramo seco de azinheira a que se agarrou,rumo à vida. Mas o certo é que o Joaquim Peixeiro, talvez instigado pelo sobrinho - naverdade, ao que se murmurava, filho da cunhada, irmã da mulher, e dele próprio, já que ocunhado, por via dos excessos alcoólicos a que se entregava, há muito que não hasteavabandeira -, aventurara-se ao estatuto de primeiro importador de legítimo peixe do mar emEstremoz, terra em que pelo menos uns dois terços dos habitantes não faziam ideia do que
  • 54. era o mar e onde ficava. O cheiro a sardinhas, às belas sardinhas gordas e prateadas deJulho, que agora subia no ar da praça proveniente de várias das barraquinhas de comida,devia-se assim à excursão matinal a Setúbal que o Joaquim Peixeiro empreendera nessamadrugada. E ele próprio, ufano e orgulhoso, sentindo-se mesmo com direito a vir a serconsiderado benemérito da terra na próxima assembleia geral da Associação deBeneficência, estava encostado ao balcão da barraquinha Cantinho do Bem-Estar, da D.Hortense, aspirando aquele perfume portentoso da sardinha de Setúbal, com que o seuempreendedorismo, a sua modernidade, o seu génio empresarial, impregnara o Rocio deEstremoz. Porém, não comia sardinhas - que, àquela hora (e isto apenas confessava aosmuito íntimos) lhe “pesavam no estômago”. Comia, sim, deliciado, umas febras na grelha,acompanhadas de quando em quando por uns nacos de toucinho rigorosamente banha,umas farinheiras, “só para experimentar”, e umas rodelas vadias de chouriço de sangue,tudo acompanhado por incontáveis copos de vinho branco fresco - enfim, nada que, àquelahora, lhe pesasse no estômago. A Diogo bem lhe apetecia também umas sardinhas no pão,que aquele cheiro era irresistível para quem passava. Mas tinha um jantar no Palace Hotel,com mesa marcada e onde, quando chegou, já Pedro o esperava, eufórico com os negóciosque concluíra durante o dia, falando alto e centrando nele a roda de atenções do grupo deamigos com quem iriam jantar. Ultimamente, cada novo hotel que nascia numa terra dePortugal, de norte a sul, recebia invariavelmente o nome de Palace. Estremoz ganhara o seuuns oito anos atrás e justificava o nome com um amplo hall de chão em mármore preto ebranco e uma imponente escadaria, toda em mármore branco, que dele subia para osquartos. A sua cozinha, que se gabava de ser “das melhores dos hotéis de província”, tinhafama de atrair espanhóis e lisboetas viajando de Espanha para a capital e vice-versa.Paravam ali, dizia-se, maravilhados pela sua cabeça de xará de porco em vinagrete, as migasde espargos selvagens, os pezinhos de coentrada, as migas de bacalhau, a perdiz estufadacom os seus dezassete temperos de lei, o coelho desfiado à S. Cristóvão, a carne de porcodo alguidar, o cabrito assado no forno e, em sua época, os tordos em vinha-dalhos e opombo bravo estufado com ervilhas.Mas Diogo não estava em maré de comezainas: ficara-lhe a tentação das sardinhasassadas lá de fora, e nada na ementa do Palace de Estremoz, por mais justificada que fossea fama, chegava aos calcanhares da comida da mãe, em Valmonte. Para além disso, o seupensamento ficara preso de um breve encontro que tivera no largo, antes de entrar nohotel. Vira uma banca de flores e aproximara-se com intenção de comprar uma rosavermelha para prender na lapela do casaco de linho branco. Olhou as flores expostas eacabou por escolher antes uma rosa amarela, que lhe pareceu mais bonita e mais discreta.
  • 55. Ia-se a virar, para perguntar à vendedora quanto era, quando escutou a voz dela, uma vozjuvenil e grave, ao mesmo tempo:- O senhor morgado só leva isso?Diogo atrapalhou-se: não gostava de ser tratado por morgado, esse título que sereferia ao iníquo sistema sucessório em que o filho varão mais velho herdava tudo, comoforma de defesa da propriedade familiar, evitando a sua divisão entre vários herdeiros. ARepública pusera fim legal aos morgadios e ele, embora tivesse saído pessoalmente aperder, estava de acordo.- Não sou morgado, isso já acabou.- Desculpe-me... senhor engenheiro... menino Diogo...Ele olhou-a então e ficou sobressaltado: era linda. Devia ter uns dezoito ou dezanoveanos, a pele morena, lisa, de uma frescura de flor como as que vendia, uns olhos escurosrasgados, denunciando traços de cigana, longos cabelos pretos caindo soltos sobre unsombros largos e direitos, um corpo de choupo, esguio e comprido, escondido num vestidoleve estampado a preto e branco e que apertava à frente por uma resma de botões dosquais os primeiros estavam negligentemente desabotoados, deixando ver o princípio de umpeito que arfava ligeiramente e que se percebia ser grande e quase irresistível de tentaradivinhar. Antes de voltar a abrir a boca, já sabia que estava apanhado por ela.- O que é isso do menino Diogo? Como sabes que me chamo Diogo e que souengenheiro?Ela sorriu - o mais bonito, o mais branco, o mais devastador sorriso que ele jamaisvira. Sorria com os dentes, com os lábios, com as narinas abertas, com os olhos ondecintilava uma luzinha no meio da sua escuridão. Pareceu-lhe, até, que também sorria comos ombros.- Não se lembra de mim, pois não, menino Diogo?Ele olhou à roda, disfarçadamente, com vergonha de que alguém a ouvisse tratá-lopor “menino Diogo”.- Bolas, não me chames menino Diogo!- Está bem... senhor engenheiro. - Novo sorriso dela, novo tiro directo aos olhosdele.- Não, não me lembro de ti. Quem és tu?- Sou filha do Manuel da Azinhaga, antigo rendeiro do seu paizinho. Tínhamos dearrendamento aquele couto lá na extrema, chamado Coelheiros, lembra-se? Eu lembro-medo me... do senhor engenheiro, quando às vezes ia com o meu pai a contas com o seu.Uma vez até me deu um saco de azeitonas, lembra-se?
  • 56. Sim, agora Diogo lembrava-se: lembrava-se dela muito miúda, vinha na carroça como pai a Valmonte, tinha um olhar assustado e ficava sempre sentada na carroça, enquantoesperava pelo pai, muito calada, tímida. Sim, dera-lhe um saco de azeitonas que estava acomer, um dia que a vira lá, e ela não disse nada, nem sequer agradeceu, estendeu apenas asua mãozinha suja de criança pobre e guardou o saco muito depressa debaixo do banco dacarroça. Lembrava-se de o pai dizer que o Manuel da Azinhaga era o mais esperto de todosos seus rendeiros, parecia que adivinhava antecipadamente os anos de chuva e os de seca, eas suas sementeiras raramente falhavam. Coisa rara num cigano, ele não apenas gostava dalavoura, como parecia trazer consigo um saber de gerações. Fez uma bela terra do seucouto arrendado e, quando o pai lhe propôs a renúncia ao arrendamento, negociou com eleuma indemnização e foi viver para a vila, onde abriu um próspero armazém chamado aLoja Popular, onde vendia de tudo um pouco: mercearias, vinhos, utensílios agrícolas e decozinha, ferragens, petróleo, fósforos, sabão, feijão, arroz, sementes, panos e lençóis ecartuchos para a caça, que enchia ele próprio nas noites de Verão, sentado no alpendre decasa, com vista para a rua. Não ficara rico, mas hoje era uma das forças vivas da terra, umcomerciante respeitado e invejado, com crédito na banca e lugar de membro efectivo naAssociação Comercial e nos Bombeiros. Uma vez, à mesa de Valmonte, ainda em vida dopai, tinham comentado isso e a mãe acrescentara que a única filha do Manuel da Azinhaganão só ajudava o pai na loja, como era também uma aluna dizia-se que brilhante do Liceudo Carmo. Então, era ela!- Pois, agora me lembro! E como te chamas? Desculpa lá, mas esqueci-me do teunome.- Maria do Amparo. Amparo, como todos me chamam.- Um nome premonitório, pensou ele. Uma mulher linda, um nome que sugeriaconfiança.- E quantos anos tens tu agora, Amparo?- Vou fazer dezanove, senhor engenheiro.- Ah... -Diogo não sabia o que dizer a seguir, mas precisava com urgência de dizeralguma coisa. - E estás a gostar da festa?Ela riu-se outra vez. Parecia divertida com o embaraço dele, o morgado.- Mas a festa ainda não começou! Agora estão todos a comer, a seguir é que vem obailarico: três bandas e um rancho. O senhor engenheiro não vem também ao bailarico?- Bem... se me prometeres que danças pelo menos uma vez comigo...- Terá de pedir autorização à senhora minha mãe...“Muito esperta, de facto”, pensou ele para consigo.
  • 57. - E tu, não tens nada a dizer sobre isso?- Logo se vê! Não levanta caça quem não sai ao cabeço...- Bem... pois... logo se vê. Tenho de ir andando. Olha, quanto te devo por esta rosa?Outra vez o mesmo sorriso. Os dentes cintilando de brancos, o olhar de gata atenta edesafiadora, o peito que parecia subir ainda mais no decote.- Essa é oferta minha! - E riu-se, outra vez.Ele inclinou a cabeça, em agradecimento mudo, murmurou “então até logo” e viroucostas, devastado de paixão. “Uma mulher destas em Estremoz! Na Feira de S. Tiago!”,pensou, enquanto caminhava em direcção ao Palace, aturdido.Quando, após o jantar no hotel, saiu lá para fora, Para o largo terreiro do Rocio, já obaile havia começado e parecia bem animado. Diogo comprou uma aguardente numa dasbarraquinhas de bebidas, acendeu um Corona para a digestão e, de copo na mão, afectandoum ar distraído, foi andando até à zona do baile - um palco de madeira sobre o qual tocavaa orquestra de quinze elementos e dançavam alguns pares, com adequada circunspecção. Àroda do palco, dispostas em cadeiras trazidas de casa, alinhavam-se as mães das meninasdançáveis, como cães de guarda das suas crias - as pobres cujas, sentadas atrás ou ao ladodas respectivas mães, procuravam disfarçar no olhar a ansiedade por um convite de algumcavalheiro, que suas mães entendessem aceitável para a função, coisa que elas faziam comuma subtil inclinação da cabeça ou um discreto gesto com que abanavam o seu excesso depeso ou de nostalgia.À passagem de Diogo, os conhecidos e até os desconhecidos cumprimentavam-nocom a deferência devida ao morgado de Valmonte e os olhares femininos, quer das filhasquer das mães, varriam-no com mal disfarçada cobiça: ali estava alguém que todas as mãesde Estremoz desejariam ver convidar para dançar as respectivas filhas. Diogo era alto ebem parecido, jovem engenheiro formado em Lisboa, filho rico da terra, culto, inteligente ecom maneiras e hábitos de cavalheiro do mundo. E solteiro, sem aventuras nem devassasconhecidas nos bordéis do Alentejo e arredores. Só tinha contra si um ligeiro temor quecomeçava a inspirar a sua fama de ser do “contra”, em matéria de política - o querapidamente se começava a perceber não ser atitude prudente nem aconselhável nostempos da jovem ditadura que se viviam.Na noite quente de Julho, Diogo sentia no ar um cheiro a gado, a sardinhas etambém a fêmea. Com o seu casaco de linho branco, a sua gravata com motivos de folhas eramagens e a rosa amarela que Amparo lhe oferecera na lapela, ele destoava com o seu arde gentleman farmer entre aqueles rostos sanguíneos, suados, ansiosos dos moços da vila,os comerciantes de gado, os espanhóis, ciganos e estremenhos de passagem. Em Lisboa, o
  • 58. seu berço e nome, assim como os seus fatos cortados nos melhores alfaiates da Baixa e oestatuto que lhe dava ser latifundiário no Alentejo e hóspede residente do Avenida Palace,abriam-lhe, sem esforço, as portas de qualquer baile de sociedade ou de salão. Mas aí, eleera um entre iguais; aqui, porém, era rei e senhor, e o que vestia, ainda quedisplicentemente, era sempre tido como a última manifestação da elegância e da moda.Senhor da sua condição, caminhava como príncipe da noite em direcção ao estradode dança, puxando baforadas do seu charuto, que ficavam suspensas no ar sem vento,como se dançassem ao ritmo do bolero que a orquestra tocava. Procurava ansiosamenteAmparo e tentava fazê-lo sem dar nas vistas, fingindo procurar coisa alguma. Descobriu-aquase ao chegar em cima da pista: ela dançava nos braços de um rapaz de Estremoz, decabelo negro acamado em brilhantina e, à vista imediata, excelente dançarino. E ela sorria-lhe, falando por cima do ombro dele, na sua expressão aquela luz inquieta que Diogo viradançando-lhe nos olhos. Instintivamente, ele recuou e começou a dar meia-volta para lhevirar as costas, mas nesse niomento ela viu-o também e fez-lhe um gesto com a mão queparecia querer dizer “não te vás embora!”E não foi. Apresentou-se à mãe de Amparo, pediu-lhe licença, logo concedida, e, nasduas horas seguintes, dançou com ela cinco muito comentadas e observadas danças. O seucabelo não refulgia de brilhantina nem ele brilhava como dançarino, mas notou como eladeslizava naturalmente nos seus braços e no seu ritmo, como uma poldra em volteio. Ecinco danças e duas horas depois, Diogo Ascêncio Ribera Flores, neto de condessasevilhana e filho de senhores da terra alentejanos, educado em Lisboa para ir conquistar omundo e expandir a sua lavoura, estava cativo do olhar, da voz e do corpo adivinhado deuma cigana, filha do nada.A noite já ia adiantada - isto é, meia-noite - quando Pedro o veio encontrar à beira dapista de dança. Tinha estado a observar o irmão, com um olhar curioso e um poucoapreensivo.- Vamos, Diogo? Aqui o pessoal está a pensar fazer uma passagem pela casa da D.Esmeralda, que hoje, de certeza, tem novidades prontíssimas, que, digo eu, estão ansiosaspor conhecer a fina flor dos garanhões de Estremoz, benza-os Deus!- Benza-os Deus! - responderam em coro os três amigos que acompanhavam Pedro.- Bem, Pedro - Diogo falava com o irmão, mas continuava ainda com o olharperdido algures -, a D. Esmeralda e as suas novidades não são coisa que me inspire muitoagora...- Vá lá, vem daí! Isto já deu o que tinha a dar!
  • 59. - Não, vai tu. Eu vou andando para Valmonte. Pedro deteve-se, de mãos nas ancas,como se citasse um touro:- Ouve, qual é o teu problema? É essa miúda, a filha do Manuel da Azinhaga? Seestás com tesão por ela, a coisa arranja-se já: no banco de trás do carro, ou na vacaria lá emcasa, atrás de um mouchão. Se quiseres, eu trato já disso. Com estas miúdas, não tem quesaber, é só dizer!Diogo virou-se, como se tivesse levado um murro. De repente, pareceu possesso,agarrou o irmão pelos colarinhos, encostou a testa à dele e falou entre dentes:- Nunca mais, Pedro, nunca mais fales assim da Amparo!Pedro recuou dois passos, tentou libertar a mão que lhe agarrava o colarinho erespondeu, sinceramente espantado:- Mas o que te deu, Diogo? Não conheces esta terra, não sabes o que a casa gasta,não sabes quem somos nós?Diogo largou-o, afastou-o mesmo, com um gesto de repulsa.- Tem cuidado, Pedro. Um dia pode acontecer que a vejas sentada à mesa, emValmonte, ao lado da mãe e ao teu lado, como tua cunhada!Virou costas e afastou-se, deixando atrás de si um silêncio de espanto. Ainda ouviunas suas costas, segundos depois, a voz de Pedro chamando-o, mas como se falasse comele próprio:- Diogo... mas tu endoideceste, Diogo!...
  • 60. IVTrês pancadas batidas suavemente na madeira da porta do quarto acordaram-no deum sono profundo, onde cavalgava à solta junto à ribeira de Valmonte.- Quem é?Era o serviço de quartos do Avenida Palace e o seu pequeno-almoço. Uma rapariganova e bonita, na farda azul e branca das empregadas dos quartos, entrou segurando umabandeja com o seu pequeno-almoço habitual, que foi pousar na mesinha aos pés da cama:chá e sumo de limão acabado de espremer, torradas com manteiga e compotas, um ovomexido e um exemplar da edição matinal de O Século. Enquanto ela abria a janela doquarto, deixando entrar a luz baça daquela manhã chuvosa de Fevereiro e o som dotrânsito de pessoas, “americanos” e automóveis que vinha lá de baixo, da Praça dosRestauradores, ele observou apreciativamente a sua silhueta estreita recortada contra a luz.Como habitualmente, dormia nu e de repente deu-lhe um impulso de saltar assim da camae agarrá-la pela cintura, quando ela se estivesse a voltar para ir embora. Mas limitou-se aperguntar-lhe:- Como está o dia?- Está mauzinho. - E fez uma espécie de vénia graciosa. - Não deseja mais nada,senhor engenheiro?Ele abanou a cabeça, vendo-a sair e fechar delicadamente a porta. “Desejar, eudesejo: desejo-te a ti, agora!”, pensou ele, enquanto se levantava e se dirigia para a casa debanho privativa do quarto. Estava há quase um mês em Lisboa e já tinha saudades demulher: do corpo de Amparo, de que apenas conhecia os contornos adivinhados sob aroupa, nos fugazes encontros que o seu namoro, ainda meio clandestino, consentia. Se ocorpo de Amparo, a sua boca fresca e sempre molhada, as suas mãos, a sua voz suave ecalma e a sua cabeça alegre e determinada o excitavam cada vez mais, outras coisas odetinham, quando parecia estar na iminência de se atirar de cabeça, propor-lhe o abismo,prometer-lhe tudo, oferecer-lhe a sua vida: a distância social entre eles, o olhar ou ossilêncios acusadores de Pedro, a decepção que adivinhava poder causar à mãe, oscomentários da vila, quem sabe, a própria memória do pai a atormentá-lo do Além. Desdeo seu encontro na Feira de S. Tiago, em Julho passado, que ela o mantinha cativo e à
  • 61. distância prudente que convinha a uma rapariga na sua situação, mais do que da suacondição. Fosse ela como Pedro tinha dito que eram todas as raparigas do seu meio, e ter-se-lhe-ia entregue, se não logo na primeira noite em que se conheceram, em qualquer outrade todas as noites do Verão e do Outono que se seguiram, em que ele logrou, através dosmúltiplos e habituais estratagemas que os apaixonados sempre descobrem nestas ocasiões,estar a sós com ela. Mas, se Amparo não repelia os seus avanços de forma clara, se tambémela lhe devolvia os mesmos sinais de ternura e paixão, nunca o deixara passar além debeijos de namorados, mãos dadas, corpos que se encontram ocasionalmente, como se nãofosse por querer. Nunca tinham falado nisso, sequer implicitamente, mas a mensagem queela lhe transmitia não consentia outras interpretações: “Estou aqui para ser amada por ti,não para ser desfrutada. Escolhe.” E aproximava-se o fim do Inverno sem que ele tivesseainda escolhido.Com o pensamento em Amparo, tomara banho, vestira-se, comera o pequeno-almoço no cadeirão do quarto e acendera agora o primeiro cigarro do dia, enquantocomeçava a leitura de O Século, a que se seguiria, conforme o ritual de todas as manhãs, aida ao Octávio, o seu barbeiro da Barbearia Central da Baixa. Bateram à porta outra vez eele admirou-se: àquela hora, não esperava visitas.Era Francisco Menezes e vinha com um ar alvoroçado.- Passei há pouco, na Avenida, pelo David Ferreira, aquele meu amigo que éjornalista. Estão a receber telegramas desde as primeiras horas da manhã: estalou umarevolta militar no Porto, esta madrugada. As forças da GNR e de Caçadores 9 já ocuparamo Quartel-General, o Governo Civil e os Correios. Prenderam o general Sampaio, chefe daGuarnição Militar, que se declarou fiel ao governo, e nomearam o Jaime Cortesão novogovernador civil. Parece que estão a combater por todo o lado: no Marquês de Pombal,Praça da Batalha, Santa Catarina, Santo Ildefonso, Cemitério do Prado. Diogo, desta vez éa sério!Tal como a maior parte dos seus amigos, Francisco também era do “reviralho”,como chamavam os jornais aos republicanos antiditadura. Mas ele era bem maisempenhado que Diogo, que não ia além das opiniões de café e de barbearia. Francisco, pelocontrário, conspirava sem cessar, nos círculos intelectuais, jornalísticos, militares. Tinhainformadores em todos os meios, sabia quem estava de que lado, com quem se podia ounão podia contar, quando a hora chegasse para o que ele esperava viesse a ser umlevantamento nacional, de norte a sul do país, que restabeleceria a Constituição de 1911, aordem republicana e o regime democrático. E, tal como ele dissera, essa hora parecia agora
  • 62. ter chegado, naquela chuvosa manhã de 3 de Fevereiro de 1927 - pouco mais de oito mesesdecorridos sobre o levantamento militar de Braga, que instaurara a ditadura.Na Praça dos Restauradores e no Rossio já havia pequenos ajuntamentos de pessoas,à porta dos cafés, dos bancos e das principais lojas de comércio, que comentavam asnotícias que iam chegando do Porto e que se espalhavam rapidamente pela capital.- É preciso que Lisboa não fique quieta! É preciso que não abandonemos os nossoscompatriotas democratas do Porto, nesta hora em que se joga a salvação da Pátria!Cidadãos de Lisboa, corramos às armas, corramos aos quartéis! - gritava um senhor, dechapéu, fato cinzento e bengala ameaçadora cortando os ares, qual sabre imaginário, de pésobre uma cadeira da esplanada do Café Nicola, no Rossio. Uma pequena multidão decircunstantes ouvia-o com atenção, acenando alguns com a cabeça, em sinal deconcordância. Mas, constatou Diogo, ninguém parecia muito apressado em desatar a correr- às armas ou aos quartéis.Quem é este tipo, conhece-lo? - perguntou Diogo a Francisco.- Um republicano demagogo e inofensivo. - E Francisco encolheu os ombros,afastando-se.Francisco tinha outros planos para ajudar ao levantamento de Lisboa. Sabia ondeencontrar as pessoas certas e as informações certas sobre o que se estava a passar.Arrastando atrás de si Diogo, desatou a correr Chiado acima, até uma casa na Rua Nova doAlmada, em cujo terceiro andar bateu à porta de forma especial: três pancadas, pausa, duaspancadas, pausa, três pancadas.A porta abriu-se e foram rapidamente introduzidos numa sala onde se lhes deparouuma verdadeira cena de conspiração: uma vintena de homens, todos à paisana, excepto umfardado de major e outro de tenente, formavam pequenos grupos que falavam em surdinaou estavam debruçados sobre uma mesa onde fora estendido um mapa militar do Norte dePortugal, com posições assinaladas na carta de forma curiosa: feijões brancosrepresentavam as forças leais ao governo, feijões vermelhos as forças revoltosas. Umaextensa nuvem de fumo pairava sobre as cabeças inclinadas para o mapa, as expressõeseram graves, os apertos de mão firmes mas breves. Nem sombra da bravata do velhorepublicano que perorava aos cidadãos de Lisboa. Diogo soube logo que estava no centrodos acontecimentos.Francisco apresentou-o ao tenente fardado, cujo olhar, simultaneamente vivo ecalmo, se deteve brevemente em Diogo.- O tenente Joaquim Videira, meu colega de tropa e meu amigo.O tenente fez o ponto da situação, a pedido de Francisco:
  • 63. - O levantamento no Porto está a ser comandado pelo general Sousa Dias e pelocoronel Freiria e todo o centro da cidade já está nas nossas mãos. Os do governo retiraram-se para o quartel da Serra do Pilar, onde têm o apoio da artilharia e são comandados pelocoronel Raul Peres, de Infantaria 18. Infelizmente, os nossos não conseguiram tomar aestação de radiotelegrafia do Bom Pastor e o inimigo está em contacto permanente com assuas unidades fiéis, ao contrário do que sucede connosco. Sabemos que eles já têmunidades a caminho para tentarem cercar o Porto e evitar a chegada de reforços aos nossose já lá têm o ministro da Guerra, o Passos e Sousa, na Serra do Pilar, a coordenar asoperações.- Há hipóteses de poderem chegar rapidamente reforços aos nossos? - inquiriuFrancisco.O tenente Joaquim Videira alisou o bigode, pensativo:- Não sabemos. Tudo vai depender das comunicações com as outras unidades. Jáchegaram reforços de Penafiel e Infantaria de Amarante, que conseguiram embarcar numcomboio para Campanhã. Sabemos que há tropas de Valença, de Santo Tirso e deGuimarães, comandadas pelo major Severino, que estão a caminho, bem como Infantaria13, de Vila Real. As outras unidades que estarão do nosso lado, não sabemos se têmcomunicações com o Porto.- E do lado deles, como é que as coisas estão em matéria de reforços?O tenente fez uma careta:- Mal. Mal para nós. Há um destacamento vindo de Coimbra e de Aveiro,comandado pelo coronel Craveiro Lopes, que estará a chegar a Gaia; há um fortedestacamento com tropas de Braga, Valença e Viana em marcha e aviões estacionados emEspinho. Meu caro amigo, ou conseguimos sublevar Lisboa e as unidades aqui à roda, ou oPorto não creio que se aguente muito tempo!Nos cinco frenéticos dias que se iriam seguir, Diogo percorreu Lisboa sem cessar, abordo do seu Panhard azul, acompanhado de Francisco. Corriam de um quartel para ooutro, de uma reunião para outra, de um encontro secreto para outro. Visitavam as casasdos oficiais ou dos políticos de renome ainda indecisos, tentavam aliciar para a causa ossargentos e cabos que tinham influência sobre os soldados, iam às redacções dos jornaispara tentar convencer os jornalistas mais influentes e os directores a esquecerem a censurae apostarem no triunfo da revolta do Porto, que em breve iria restabelecer a legalidadedemocrática no país inteiro, se todos cumprissem o seu dever. E, várias vezes ao dia,regressavam ao quartel-general da conspiração, que se mudara entretanto para o HotelBristol, onde se dava conta das diligências de cada um e se contavam quartéis, unidades,
  • 64. armas e apoios. Nesses dias sem descanso nem horários, como se a vida estivesse suspensa- e estava! -, Diogo teve oportunidade de conhecer mais de perto o amigo de Francisco, otenente Joaquim Videira. Impressionava-o o ar calmo dele, mas uma calma feita decepticismo e de resignação. O tenente Joaquim Videira lutava pelo triunfo da revoltademocrática, jogava nele todo o seu futuro e a sua carreira militar, mas não alimentavagrandes esperanças nesse desfecho.- Vamos ser derrotados - dizia ele. - Eu conheço a nossa tropa e os nossos oficiais:até ao fim, ninguém se vai querer comprometer, à espera de saber para que lado cai abalança. E como, aqui em Lisboa e nas unidades do Sul, é o governo que está com ainiciativa, é para esse lado que vai cair a balança. Foi assim no 5 de Outubro de 1910: aMonarquia só foi derrubada porque nenhuma das suas unidades nem nenhum dos oficiaisque teoricamente lhe eram fiéis quiseram arriscar um tiro que fosse antes de perceber paraque lado soprava o vento. E foi assim que uma Monarquia com mais de 750 anos dehistória caiu derrubada por um bando de marinheiros e de arruaceiros civis ajuntados naRotunda!- Mas você, Joaquim - Diogo estava sinceramente espantado -, você não érepublicano, não está metido nisto pela restauração da República?O tenente Videira olhou-o e sorriu. Engoliu mais um gole de aguardente, sentado àmesa da taberna de ocasião, junto ao quartel da Penha de França, onde tinham feito umapausa para almoçar. Sorriu, mas o seu era um sorriso triste, conformado.- Meu caro Diogo: eu, e quem quer que tenha vivido e aprendido com os últimosanos da República, não posso ser republicano. Sou republicano quanto às ideias, masmonárquico no coração. Lamento que a Monarquia não tenha sabido democratizar-se,lamento que a República tenha confundido liberdade com libertinagem. Uns e outrosprepararam a cama para a ditadura.- Por que se bate você, afinal?- Sou novo, Diogo: tenho 27 anos. Sou casado e tenho dois filhos. Se me bato poralguma coisa, ainda que confusa, é por viver num país que seja livre e onde os meus filhospossam crescer em liberdade. Sou oficial do Exército, fui educado para estar no quartel ouna frente de batalha a defender o meu país - não para andar aqui nas ruas a conspirar e atentar reunir forças para enfrentar camaradas de armas. Essa questão deveria estar resolvidapelos políticos e deveria ser consensual. Mas não é, e eu não tenho escolha: tal como sintoo meu dever de militar, a minha obrigação é justamente a de me bater contra uma ditaduragovernada pelos militares. Não sei se isto lhe parece muito confuso...
  • 65. Diogo olhou-o nos olhos, com admiração e respeito. Não, não era confuso: eratremendamente simples. Sem o saber, o tenente Joaquim Videira acabara de lhe explicar asrazões pelas quais ele próprio estava nas ruas a conspirar, em lugar de ficar tranquilamenteem Estremoz ou no Avenida Palace a gozar os privilégios de classe que o novo regime lheassegurava. Levantou-se, deixando uma nota para pagar a despesa. Estendeu a mão eapertou a do tenente Videira.- Vamos embora, então. Vamos lá tratar desse assunto!A verdade é que o tenente tinha razão. Não obstante o envio a Lisboa, numatraineira, de uma delegação dos revoltosos do Porto, chefiada pelo escritor Raul Proença,nada parecia capaz de fazer decidir os conspiradores da capital. O grosso das forçasmilitares disponíveis e dos oficiais simpatizantes com a revolta hesitava, hora após hora,enquanto que as forças do governo se concentravam e engrossavam na região a norte deLisboa, prontas para uma dupla missão: ou acorrer à capital, em caso de sublevação desta,ou servir de retaguarda às forças enviadas para cercar os revoltosos do Porto. E o Porto foiresistindo, sempre isolado. A 3 e 4 de Fevereiro, os revoltosos conseguiram manter odomínio do centro da cidade, rechaçando as tentativas de ataque inimigo. Mas, a partir dodia 5, a artilharia estacionada na Serra do Pilar e Monte da Virgem começou a causarpesadas baixas entre os sublevados. Os reforços governamentais tinham isolado o Porto,impedindo a chegada de ajuda aos revoltosos sitiados. Comida e munições começavam aescassear, as posições ocupadas no início do levante estavam quase destruídas pelo fogo delonga distância e os feridos eram já às centenas, entre militares e civis. E, de Lisboa, nada.Na tarde do dia 6, exauridos e sem esperanças de socorro, os militares revoltosos pediramum armistício, que lhes foi negado. No dia seguinte, o chefe dos rebeldes, general SousaDias, tentava já só negociar uma rendição que poupasse a represálias os sargentos esoldados. Nessa madrugada, à hora em que, finalmente, chegavam as notícias da sublevaçãoem Lisboa, o Porto rendia-se incondicionalmente. Desta forma, graças a hesitações semfim, o governo conseguia o melhor dos cenários para lidar com a revolta: assim que oPorto, sem o apoio de Lisboa, era forçado a render-se, as tropas à disposição do ministroda Guerra eram libertadas da Serra do Pilar, para se irem ocupar da revolta tardia deLisboa. E, uma cidade de cada vez, o governo enfrentava e resolvia o problema.O levantamento de Lisboa, que ficaria conhecido entre os revoltosos vencidos doPorto como a “revolução do remorso”, começara, de facto, tardiamente, a 7 de Fevereiro.E não fora mais do que uma agitação dispersa de forças civis, escassamente armadas,construindo barricadas de circunstância em pontos emblemáticos da cidade. Em seu apoio,tinham só praticamente grupos de marinheiros e o navio Carvalho Araújo, que, puxado por
  • 66. rebocadores, visto que tinha as máquinas avariadas, bombardeou sem sentido a cidade. Asforças governamentais de reserva, estacionadas a norte de Lisboa, chegaram à cidade ecomeçaram a varrer, no dia 8, todos os focos de resistência - o último dos quais, no Largodo Rato, comandado por Agatão Lança, combateu até à última munição, contra uma forçagovernamental onde se distinguiram dois tenentes que, mais tarde e por ironia do destino,viriam a ser dois dos mais célebres dissidentes e opositores da ditadura: Henrique Galvão eHumberto Delgado.A 9 de Fevereiro tudo estava terminado, em Lisboa e no país. Diogo não poderiasabê-lo então, mas aquela tinha sido a mais importante e a última verdadeira hipótese dederrubar a ditadura que iria vigorar em Portugal durante quase cinquenta anos. Mas muitosperceberam desde logo que aquele era o fim de um ciclo. Percebeu-o o Times, de Londres,que saudava “o fim da desordem”, e percebeu-o o chefe da Ditadura Militar e Presidenteda República, marechal Carmona, que, numa entrevista ao Le Journal, anunciava o “fim datolerância e das tréguas”, a proibição dos “agrupamentos políticos” e “a depuração dofuncionalismo”. A revolta abortada, dizia ele, “foi um incidente lamentável, masprovidencial: deu oportunidade para ver onde estavam os inimigos”. Uma centena depessoas tinha morrido no Porto e outras tantas em Lisboa; havia milhares de feridos,extensos danos em edifícios públicos e casas particulares, em ambas as cidades; a tropaestava definitivamente dividida entre revoltosos, contra-revoltosos e cobardes sem posiçãoassumida. O tempo, de facto, não era de tréguas e os vencedores da revolta de Fevereiro de1927 não as concederam. Logo a 10 de Fevereiro, todos os implicados civis que ocupavamfunções públicas foram demitidos. A 19, quinhentos presos, entre militares e civis, eramdeportados para as colónias do Atlântico ou de África, e a 22 seguir-se-ia nova leva de mais570 presos, a bordo do paquete Lourenço Marques. Entre eles, seguiam os principaischefes militares da revolta, como o general Sousa Dias, que iria vaguear de colónia emcolónia, até morrer, sete anos mais tarde, em Cabo Verde, sem ter voltado a pisar areias dePortugal. Com ele, nessa manhã cinzenta de 22 de Fevereiro, embarcou no LourençoMarques e com destino à inóspita colónia africana de S. Tomé e Príncipe o tenenteJoaquim Videira - que terminara no Largo do Rato a bater-se pela vitória em que nuncaacreditara.Sentado no restaurante do Avenida Palace, onde acabara de jantar com Francisco,Diogo lia estas notícias na edição de O Século. Pensava no tenente Joaquim Videira, commulher e dois filhos em Lisboa, que agora, expulso do Exército, sem soldo e sem carreira,vogava a bordo de um navio, na noite atlântica, a caminho do desterro em S. Tomé. E elesali, os dois, que, por não serem nada de importante nem conhecidos de ninguém, que, por
  • 67. serem apenas dois jovens engenheiros agrónomos brincando as revoluções, haviamescapado às purgas que se tinham seguido à rendição da revolta de Lisboa, e assim tinhampodido saborear em paz (mas com uma conversa já instintivamente travada commurmúrios e olhares cautelosos à roda) o jantar da tão elogiada cozinha do Palace. Lendo ojornal em voz alta, Diogo deteve-se na entrevista que o Presidente Carmona dera a maisum jornal estrangeiro e onde, do alto da sua ignorância castrense, o marechal proclamara,vaidoso: “Sim, o regime poderá vir a ter um certo ar de família com os fascismos espanhole italiano.” Subitamente enjoado, afastou o jornal, molhou ainda uma vez o charuto nocopo de cognac Rémy Martin, e afastou também o copo.- E tudo acaba assim! Sem grandeza...-...A portuguesa - concluiu Francisco, que estava sorumbático e acabrunhado comonunca.- Achas que haverá uma outra oportunidade, que mais alguém se revoltará?- Não, Diogo, deixa-te de ilusões! Agora é ditadura para muitos e bons anos - osmelhores anos das nossas vidas. Vais ver os jornais, agora: vão ser só apelos à ordem e àobediência. O que restava de bom, de digno, em Portugal, está morto para muito tempo.Aqui, já não ha nada nem ninguém: os únicos de nós que prestavam estão agoraembarcados, a caminho de África. Mil deportados políticos! Achas que resta alguém, alémdesses mil, que tenha coragem e vontade de mudar as coisas? Conforma-te, Diogo: estaorra de país ajoelhou de vez!- E então, o que fazemos nós agora?- O que fazemos? Quem - tu e eu?- Sim, por exemplo. Somos novos, não temos família nem responsabilidades...Francisco olhou o amigo em silêncio, durante breves instantes, como se estivesse àprocura da resposta para si mesmo.- O que fazemos, tu e eu? Olha, fazemos o nosso negócio com o Brasil, ou vamosembora daqui, ou conformamo-nos, casamos, temos filhos, habituamo-nos... Sei lá!Separaram-se no átrio do Palace, que agora estava agitado com a chegada dehóspedes estrangeiros desembarcados do Sud-Express da noite - o primeiro que chegara aLisboa depois de levantado o estado de sítio. Apertaram brevemente as mãos, como secada um tivesse vergonha de si perante o outro. Mas Diogo estava indeciso, agitado demais para ir dormir, deprimido de mais para ficar por ali. Olhou à volta e viu umaestrangeira, com toilette de Paris, elegante e bonita, que lhe sorriu, inclinando ligeiramentea cabeça. Ele sorriu também, ao mesmo tempo que se lhe tornava claro, com uma lucidez
  • 68. quase palpável, que não pertencia ali, que Lisboa não lhe dizia nada. Nada que fizessesentido.Dirigiu-se à recepção e pediu que lhe fossem fazer as malas ao quarto e que asdescessem. Depois foi à caixa e pediu a conta, que pagou com um cheque sobre o BancoBurnay, sem perder tempo a conferi-la. Quando as suas malas chegaram, pediu ao porteiroque as colocasse na bagageira do Panhard, deu-lhe uma gorjeta, viu a estrangeira do sorrisopromissor que o olhava da porta do hotel, ligou a chave de ignição e escutou, reconfortado,o barulho dos 72 cavalos do motor que acordavam. Subiu lentamente a rua de Lisboa queostentava o mais bonito nome de todas - Avenida da Liberdade -, passou a Rotunda, ondea República triunfara em 1910 e onde, poucos dias antes, os revoltosos se haviamentrincheirado jurando restabelecer o espírito republicano de 1910, e começou enfim aacelerar, deixando tudo aquilo para trás. À saída do Campo Grande rodava já a cem à hora,a estrada começava a ficar deserta e havia uma névoa no horizonte que anunciava a lezíriado Ribatejo. Abriu a janela toda e o ar frio da noite entrou pelo Panhard adentro e foicomo se começasse a limpá-lo daqueles dias cinzentos, daquela cidade derrotada. Chegariaa Estremoz pela madrugada, dormiria na sua cama de sempre, nos lençóis de linho pesadose húmidos que o trariam de volta às noites de infância, de manhã acordaria com o cheiro acafé e compotas que vinha da copa, a mãe esperá-lo-ia com um sorriso do tamanho domundo e à noite, depois de um dia inteiro a retomar posse do que era seu, iria ter comAmparo e pedir-lhe que se casasse com ele.
  • 69. V- A mãe não pode consentir neste casamento!Pedro parecia um animal enjaulado, percorrendo em três ou quatro passadas todo ocomprimento da pequena salinha de estar onde Maria da Glória gostava de se sentar, comoagora, a seguir ao jantar, bebendo pequenos goles do seu cálice de licor de cereja, que elamesma fazia todos os anos, e distraindo-se com as cartas da “paciência” que estendia sobrea mesa. O frio de Fevereiro entrara dentro da casa, apesar das janelas e portadas vedadascom rolos de serapilheira, que também ela, com a ajuda das criadas, cosera dentro dos seusinvólucros de algodão grosso. Como era habitual, a mesa onde jogava sozinha às cartas pelanoite fora e a que chamavam camilha, tinha no seu interior, junto ao centro e oculta pelassaias que vinham até ao chão, um buraco circular onde assentava uma larga sertã de cobrecheia das brasas do lume. E era aí que ela aquecia os pés e o calor deles lhe subia pelocorpo acima, quando um arrepio de frio vinha trespassar as suas inúteis noites perdidas deviúva a sós com as cartas e as memórias. Também Pedro interrompia às vezes a suadeambulação pela pequena sala para se deter de costas junto à lareira que ardia em frente àmesa da mãe e ficar a aquecer-se por um bocado. O seu nervosismo, que era evidente e nãosimulado, acabara por distrair definitivamente Maria da Glória do seu jogo de cartas. Eracomo se, de repente, parecesse estar a ouvir o marido a falar:- Mãe, não pode consentir que o Diogo se case abaixo da sua condição! Tão abaixo,que eu até tenho vergonha de imaginar a própria festa de casamento! Vamos serhumilhados perante a vila inteira e vamos ver ainda quem é que aceitará vir...Maria da Glória suspirou. Se ali estivesse o marido, o mais certo seria a opinião delanão contar para nada, naquele assunto. Mas a viúva de Manuel Custódio Ribera Floresdetinha agora um novo estatuto, mais simbólico do que real, mas assim mesmo de algumaimportância: era o chefe nominal da família ou, melhor dito, a guardiã da vontadepresumida do defunto chefe e seu marido.- Pois, Pedro, realmente o Diogo não deveria casar-se abaixo da sua condição...Homem algum deveria casar-se abaixo da sua condição...- Não é apenas casar-se abaixo da sua condição, mãe: ele quer-se casar com a filhadum antigo rendeiro nosso, uma miúda que nem sabe sentar-se à mesa, dessas que andam
  • 70. por aí a abrir as pernas a quem passar e exactamente à espera da sorte grande de fisgaralguém como nós!- Mas ela não é dessas, pois não, Pedro? - Maria da Glória ficara hirta e a sua firmezaimpressionou o filho.- Não, mãe, para dizer a verdade, não consta que tenha sido dessas. Mas isso sóprova que é esperta, soube-se guardar...- E é algum crime ser esperta, é mau ter-se sabido guardar - ou por esperteza, comotu dizes, ou por natureza?- Mãe! - Pedro arrastou uma cadeira e veio sentar-se em frente dela, segurando-lhe amão, para a forçar a olhá-lo de frente. - Mãe, diga-me uma coisa: acha que o pai aprovariaeste casamento?Maria da Glória não retirou a mão do filho nem evitou o seu olhar:- Queres que te diga o que penso, com toda a verdade? Penso que o teu pai nãoaprovaria este casamento, com toda a certeza. Mas esse foi sempre o problema do Diogo,como bem sabes: ser dono de si mesmo, construir a sua vida, para além da vontade do pai.Se o pai fosse vivo, o mais provável é que o Diogo fugisse com a Amparo, para se ir casar eviver longe daqui. Dou graças a Deus por o casamento o manter aqui connosco.- E como sabe a mãe que ele se vai manter aqui?- Porque ela - ela, Pedro! -, porque vem de baixo e nasceu aqui a comer o pão que odiabo amassou e a ver o pai dela arrancar à terra todos os anos o seu sustento, ela - ouve-me bem, ela, e não o Diogo! - é que dá o verdadeiro valor à terra e a tudo isto. É ela que ovai fazer ficar em Valmonte.Pedro quedou-se a olhar para a mãe. Nunca lhe tinha ocorrido aquilo.- A mãe acha que ela é assim tão ligada à terra e que a compreende como nós?Maria da Glória soltou a mão do filho e contemplou a lareira que ardia à sua frente,como se nela buscasse o fio das suas memórias.- Ouve, Pedro: o pai da Amparo, o Manuel da Azinhaga era o melhor rendeiro do teupai. Pegou numa terra de mato e esteva e, em cinco ou seis anos, tornou-a a terra maisprodutiva de Valmonte. Ao princípio, o teu pai tinha orgulho no que via e comentavacomigo: “Este homem trabalha a sério e sabe o que faz!” Mas, com o correr dos anos, eracomo se ele lhe fizesse sombra e o teu pai foi começando a ficar impaciente, ao ver que aterra mais bem cultivada destes dois milhares de hectares não estava sob a sua direcção eseu mando. Contava os meses até ao final do prazo do arrendamento e, quando chegou aaltura de renovar ou denunciar, chamou cá a casa o Manuel da Azinhaga, aqui mesmo,nesta sala, a seguir ao jantar e à minha frente, e quando o pobre homem chegou, de chapéu
  • 71. na mão e os olhos postos no chão, o teu pai disse-lhe sem rodeios que não ia renovar ocontrato. Ainda me lembro da cara do Manuel da Azinhaga, completamente atarantado,parecia que tinha levado um coice de mula em plena cara: “Mas como? O patrão está adizer que me tenho de ir embora?” E o teu pai, com uma frieza que me arrepiou,respondeu-lhe: “É isso mesmo... mas não vais de mãos a abanar. Vou-te pagar umaindemnização pelo fim do contrato e outra pelas benfeitorias que fizeste, porque eu não meesqueço do que era aquela terra quando ta entreguei.” O pobre do Manuel ficou mudo e oteu pai disse-lhe quanto é que lhe ia dar - acho que foram dez contos, uma fortuna para aépoca -, ele continuou calado e juro-te que me pareceu ver que chorava.- Mas o pai - interrompeu Pedro - também lhe ofereceu ficar aqui, a trabalhar paranós, e ele recusou...- Pois foi verdade, sim. O teu pai ofereceu-lhe vários lugares, chegou até a prometer-lhe o lugar de feitor para daí a dois anos, quando o velho Anselmo se reformasse, ofereceu-lhe casa e trabalho para a mulher, mas ele recusou tudo. Disse que só trabalharia terra quefosse sua, ou então mudava de vida. E mudou.- Sim, é verdade que o velho Manuel da Azinhaga estava muito ligado à terra. Mas,talvez por isso mesmo, a filha não esteja: esta gente, às vezes, o que quer é o contrário doque os pais foram. Eu acho que ela deve gostar mais de atender os fregueses, lá na loja dopai, na vila.- Estás enganado, Pedro. Eu era capaz de jurar que é ao contrário: ter terra, ser donode terra, é uma ambição de todos e tão antiga como o mundo. Que mais pode desejar afilha de um caseiro, que nunca teve terra sua, do que tornar-se dona de terra pelocasamento? Ela nunca vai querer sair daqui e o teu irmão vai-se quedar por ela. Não por ele- ele, por si, iria correr mundo.Pedro tinha voltado para ao pé da lareira. Maquinalmente, colocou mais um troncode azinho no lume que, porém, ardia vivo. Ficou pensativo por instantes, antes de voltar afalar, já num tom de quase resignação: Devo, portanto, apoiar este casamento?- Deves sim, Pedro. E, como eu sei o que tu gostas do teu irmão, pensa nisto: ele estáfeliz, casa-se com a mulher que ama.- Mas eu não sei, mãe, se os melhores casamentos são os casamentos por amor...Maria da Glória sorriu interiormente: aquele era mesmo o seu filho Pedro, como oconhecia.- Um casamento por amor não é, à partida, melhor ou mais adequado do que outro: éapenas mais bonito - ouviu-se ela dizer, sem pensar muito no que dizia. Às vezes, aspessoas casam-se por amor e o amor desaparece ao fim de uns anos e não fica nada ou
  • 72. quase nada; e, outras vezes, as pessoas casam-se sem amor e, ao fim de uns anos decasamento, descobrem que amam o outro. No amor, é tudo muito estranho, filho!Pedro olhou a mãe, calando a pergunta que obviamente lhe ocorria, mas que nuncase atreveria a fazer: “E a mãe, em qual dos casos se encaixou?”Chovia, chuva miudinha, naquela manhã de Abril. A pequena capela do monte nãochegava para conter todos os convidados da boda e os retardatários espalhavam-se cá fora,abrigados da chuva sob o alpendre da capela ou debaixo de guarda-chuvas trazidos àcautela. Eram para cima de cento e cinquenta os que tinham correspondido ao convite,fosse porque o nome dos Flores tinha importância em Estremoz e à roda, fosse porque umcasamento é sempre um casamento - ocasião de mesa farta, vinho velho, toilettes novas,animação e namoricos sem consequências. Outros cinquenta convidados, porém, tinhaminventado desculpas várias, reconfortando-se ao encontrarem-se uns aos outros na missaalgo despovoada desse domingo na vila e juntos desfazerem na reputação dos Flores, comose assim acrescentassem a própria.Também do lado de fora da capela de Valmonte os mexericos corriam, sussurrados,porém assassinos:- Pelo menos sempre se casou com uma rapariga da terra!- Pois, mas cigana: os ciganos não têm terra. Hoje aqui, amanhã além.- Mas estes já cá estão há umas três gerações!- É? Mas, olha, ainda vão ser precisas outras três antes que aprendam a comer à mesae a passarem por Flores!- Ah, se o velho Manuel Custódio aqui estivesse, até morria outra vez!- Bem, também não sejam assim tão radicais: pelo menos sempre é sangue novo paraa raça dos Flores!- E lá que a rapariga tem raça, isso tem! Parece uma égua por domar!- E será que o nosso engenheiro tem unhas para ela?- Bem, se não tem, então é que só sai a perder com este casamento!E a cigana saiu da capela pelo braço do seu engenheiro e marido, justamente quandoa chuva, em sua homenagem, fez uma pausa. Vinha linda, como vêm todas as noivas, sóque ela era de si mesma linda. O velho Manuel da Azinhaga, se bem que não tivesse pago ocasamento - o que seria uma ofensa para os Flores -, não se tinha poupado a despesas nahora de ver a sua filha caminhar para o altar ao encontro de tudo aquilo com que elesonhara Para ela uma vida inteira. Tinha mandado vir de Lisboa a Ritinha da Madalena, tidacomo uma das melhores Modistas dos melhores salões e famílias da capital. Alugara emÉvora um imponente Chevrolet preto de estofos e Pele branca e respectivo motorista e,
  • 73. depois de muito consultar, oferecera ao noivo, e seu agora genro, um impressionante anelde safiras azuis que Diogo só viria a usar em ocasiões festivas e na presença do sogro. Foramais comedido consigo próprio e com a sua mulher, tendo encomendado para ambos umafatiota julgada à altura da ocasião, no alfaiate e costureira locais. E ambos estavamestarrecedores: ela, com um modelo lilás, copiado de uma revista inglesa que a costureiralocal tinha visto e que retratava algumas senhoras da aristocracia britânica a caminho dascorridas de Ascott, e ele enfiado dentro de um fraque de fazenda comprada em Badajoz,com um colete de botões de ouro fingido negociado aos ciganos das portas da vila. Apobre D. Ermelinda tropeçava nos sapatos de salto que nunca antes havia experimentado,os pés transbordando-lhe como cotos daquela servidão apertada, e levava um incrívelchapéu com plumas, que ora lhe descaía para cima da cara quando falavam com ela, oraameaçava levantar voo no caminho da capela para a casa. E o digníssimo e orgulhosoManuel da Azinhaga, esse, parecia um pinguim de asas abertas, caminhando curvado aopeso da indumentária, de pernas arqueadas desfazendo qualquer hipótese de elegâncianatural, e como que enforcado no nó da gravata que o padre Júlio fizera o favor de lheajustar. Mas a família toda - pai, mãe, primos, tios e tias - desfilava orgulhosa atrás da suaprincesa Amparo, lançando à volta olhares de mal disfarçado orgulho e triunfo: ela, sim,com a sua beleza que a todos impressionava, com o seu subtil menear de ancas, misto degazela e deusa grega, com o seu olhar de carvão incandescente, os ombros direitos, a posede altivez natural, o cabelo negro de cigana entremeado de pétalas de rosas brancas, elacaminhava pelo braço de Diogo e entrava pela casa dos Flores adentro como se fosse suacondição natural desde sempre estar ali. Quinze anos antes viera até ao monte na carroçado pai, de olhos postos no chão e aceitara de Diogo um saco de azeitonas. Agora, chegarade Chevrolet, se bem que alugado por um dia, e aceitara de Diogo uma aliança de ouro delei que lhe brilhava no dedo e ouvira-o dizer, tendo como testemunha a melhor sociedadede Estremoz, que lhe seria fiel no amor, na saúde, na riqueza, na doença ou na pobreza. Esaíra da capela com uma outra identidade: Maria do Amparo Ribera Flores.Diogo estava menos triunfante, menos seguro de si mesmo do que ela. Acabara de secasar com a mulher que amava - isso ele sabia. Com uma mulher de vinte anos a cuja belezae sensualidade homem algum poderia ficar indiferente. Que era inteligente, trabalhadora,resguardada e seguramente agradecida. Ser-lhe-ia fiel, amiga e reconhecida. Esperaria porele quando tivesse de esperar, estaria ali quando ele precisasse, seria discreta quando fossede o ser, exuberante quando ele o desejasse. De tudo isso Diogo estava certo e confiante.O que o fazia sentir-se ligeiramente inseguro, um pouco confuso até, não era ela, mas simele mesmo. Era pensar que talvez fosse novo de mais para se casar e se prender, para fazer
  • 74. filhos e família, para se acomodar de vez àquele vasto pedaço de terra, dois milhares dehectares, rios, ribeiros e lagoas, floresta e pastagem, vales e montes, escarpas de estevaselvagem e planícies cultivadas e, todavia, tudo tão pouco, comparado com o mundointeiro que ele não conhecia! Mas alguém lhe estendeu uma primeira taça de chamPagne, edepois outra e mais outra. Amigos de Lisboa e de stremoz, da infância e da escola deAgronomia, abraçavam-no e reclamavam um brinde pessoal ou o reviver de uma memóriacomum, velhos tios cumprimentavam-no com um ar solene e novos tios, do lado da noiva,apresentavam-se e colocavam-se “ao dispor do menino Diogo, meu novo sobrinho”, eassim, aos poucos, ele foi varrendo do pensamento as névoas de pesar ou de lucidez queantes o inquietavam. Por volta das onze da noite, depois de já longas horas de comida,bebida, charutos, valsas e mazurcas, abraços e fotografias, o noivo estavaconsideravelmente bêbado, a custo se mantendo ainda em pé, amparadopremonitoriamente pelo braço discreto da noiva de nome premonitório: Amparo.À meia-noite, os noivos despediram-se dos convidados que ainda faziam a festacomo se fosse a última das suas vidas - e alguns deles bem conscientes de que haviampassado vinte e oito anos desde o último casamento em Valmonte. Sempre apoiado nobraço de Amparo, Diogo escalou a custo os degraus para o andar de cima e para o seunovo quarto de casado, que a mãe redecorara e reconvertera do antigo quarto principal dasvisitas. Bebeu a infusão de chá de cidreira com sais de frutos que a mãe passaradiscretamente a Amparo, antes de eles terem começado a subir as escadas para o andar decima e de ela ter feito ao filho o sinal da cruz na testa com que sempre se despedia delequando o via partir para Lisboa ou outro lado.Deixou-se cair na cama, sentindo que o chão flutuava e o tecto rodava sem parar porcima da sua cabeça. Abriu apenas o colarinho, aliviado, rolou os olhos, vendo tudo turvo euma figura branca de longos cabelos negros agora completamente soltos, que o fixavapreocupada, e deixou cair a cabeça pesadamente sobre a almofada.- Diogo, estás muito mal?- Estou péssimo, Amparo. Acho que vou morrer! Desculpa, mas hoje não consigofazer nada, nem estou digno de ti: a tua noite de núpcias vai ter de ficar para amanhã!“Isso é o que tu julgas!” - pensou ela, sorrindo. Apagou as luzes todas do quarto,deixando apenas duas velas acesas. Em esforço, soergueu aquele corpo morto e encostou-oàs costas da cama. Despiu-lhe o casaco do fraque e o colete, à custa de persistência eginástica. Depois, descalçou-lhe os sapatos e as meias, fez-lhe escorregar as calças pelaspernas abaixo e, sem que ele desse qualquer sinal de consciência, desapertou-lhe os botõesde punho, desfez-lhe o nó da gravata e começou a desabotoar-lhe a camisa.
  • 75. - Amparo - murmurou ele, de voz arrastada -, não é preciso vestires-me o pijama... eunão uso pijama...- Não, meu amor, não é preciso.Ele fechou os olhos, rodou a cabeça para o lado oposto e pareceu mergulhar numcoma instantâneo.“Paciência!”, pensou ela para consigo. “Tinha sonhado que me ia despir para ti e queiria ficar morta de vergonha e de excitação ao fazê-lo, e afinal tenho de o fazer só paramim! Mas esta é só a primeira noite da nossa vida juntos e hás-de ter tempo para ver eapreciar.”No espelho do armário em frente à cama via o seu corpo que se ia desnudando aospoucos, enquanto fazia deslizar por ele abaixo o vestido de noiva que a Ritinha daMadalena tantas vezes lhe havia feito provar, e depois a combinação, a saia de baixo, asmeias e as cuecas. O Seu Corpo moreno brilhava à luz trémula das velas, o seu Peitoexuberante de miúda estava espetado na direcção dele e ele dormia sem ao menos lançarum olhar ao espelho. Amparo agarrou no frasco de óleo de poejos colhidos na ribeira,cheirando a flores do mato, e lentamente começou a esfregar-se de cima para baixo,sentindo um calor húmido descer-lhe pelo corpo e subir-lhe ao juízo. Entrou na cama todanua, virou-o para si e encostou-se ao corpo dele, que agora apenas vestia umas ceroulas dealgodão. Começou a percorrê-lo com as mãos e, inclinan-do-se, fez-lhe deslizar as ceroulaspelas pernas abaixo, até lhe saírem pelos pés. Muito tempo sonhara com aquele momentoem que pela primeira vez veria um homem nu, deitado ao seu lado e ao seu dispor. Olhou-o com um sentimento de desejo e de posse que nem a visão de uma coisa mole eadormecida entre as pernas dele conseguiu desfazer. Mas ela sabia que não era assim:tinham-lhe ensinado que não era assim, que essa coisa, agora murcha e desfalecida, cresciade repente e sem aviso, tornando-se um falo ameaçador capaz de a romper por dentro efazê-la sofrer das dores e da vergonha dessa submissão a que as mulheres se condenam porcasamento. Mas ela queria essa dor e essa vergonha. Essa danação do casamento.Ele resmungou qualquer coisa, do fundo do torpor em que estava submerso.Amparo pousou-lhe delicadamente um beijo sobre a boca e murmurou-lhe:- Chiu, está tudo bem, estou só a desfrutar a minha noite de núpcias.- Hum? O que se passa? - resmungou ele, tentando virar-se outra vez de lado, o queela lhe impediu, seguran-do-lhe suavemente no ombro. Ele esboçou um gesto decontrariedade, mas logo desistiu e, abrindo a boca, começou a ressonar.Amparo olhou para ele e sorriu. O morgado de Valmonte, o senhor engenheiro, omenino Diogo estava bêbado como uma carroça, com uma mulher linda, virgem e nua,
  • 76. sentada na cama ao seu lado e à sua disposição. Mas não se importou: agora, o morgado, oengenheiro e o menino eram também o seu marido, o seu homem. E tinha todo o tempodo mundo para ele. A começar já por esta noite.Lentamente, sem pressa alguma, começou a percorrê-lo de cima para baixo, com apalma da mão aberta, com a boca, molhando-o ao de leve, e com o nariz, aprendendo o seucheiro. Nunca antes lhe permitira ela nada de semelhante, mas agora era diferente: souberaesperar e merecer este momento. E devagar chegou lá abaixo, onde dormia o monstroadormecido do seu adormecido marido. Contemplou-o assim, exposto, inconsciente, semnada a escondê-lo dela. Instintivamente, estendeu a mão a medo e tocou-o. Gostou de osentir na sua mão, da consistência da pele, da vida que nele sentia fervilhar, apesar deadormecido. Segurou-o com uma mão primeiro, depois com ambas, virou-o, levantou-o,mediu-lhe o peso, foi-se apoderando dele aos poucos, até que um gemido de Diogo a fezparar de repente, envergonhada e temerosa do que seria a reacção dele. Mas ele calou-se eela continuou a mexer-lhe e a brincar com ele, sentindo um calor húmido descer-lhe pelabarriga abaixo e instalar-se entre as suas coxas. Depois, quase imperceptivelmente de início,e a seguir já claramente, começou a senti-lo crescer dentro da sua mão fechada em voltadele. Novo gemido veio da cabeceira da cama, mas, desta vez, ela não parou nem se tolheu:estava fascinada com o que via e o que sentia. Irresistivelmente, foi aproximando a caradaquele membro agora palpitante de vida, até que, quando já estava tão perto que lhepareceu impossível recuar, puxou-o para si e provou-o.Diogo tinha despertado por completo. Aliás, fora despertando aos poucos, havia jáum bocado, quando o chamamento do sexo (que, como se sabe, nos homens éindependente da cabeça) o arrancou ao seu sono etílico. Ao princípio, nem se lembravaonde estava, depois foi tomando consciência do que se estava a passar: a sua mulher,casada com ele há não mais do que umas horas, explorava-o indecentemente, sem pudoralgum, enquanto o fazia adormecido. Mas aquilo era bom, caramba, se era bom, as mãosdela afagando-o, envolvendo-o, fazendo-o crescer como homem apto para o seu deverdessa noite, a língua quente e molhada descendo-lhe pelo pescoço, pelo peito, peloestômago, pelas coxas! Sem saber como reagir e o que pensar, deixou-se ficar quieto,fingindo-se ainda adormecido, só não conseguindo impedir-se de soltar um gemido, de vezem quando. Pensar até onde é que ela iria, onde é que pararia, enchia-o de um prazerdesvairante e de um terror absoluto. Sentiu, apesar das nuvens do álcool no cérebro, queaquela noite, e por iniciativa dela, marcaria para sempre a vida sexual de ambos e o tipo decasamento que iriam ter até ao fim dos dias. Por isso, e porque beneficiava da imensavantagem de se poder fingir adormecido e, mais tarde, simular que nada sabia do que se
  • 77. tinha passado, ele continuou a jogar o seu jogo disfarçado, deixando que ela se expusessecompletamente. E assim talvez tivesse ficado pela noite fora, não fosse ter perdido ocontrole da sua imobilidade, quando sentiu a boca dela entre as suas coxas.- O que fazes, Amparo? - perguntou, como se tivesse acabado de acordar.Ela não respondeu. Continuou. E continuou ainda, como se estivesse sozinha e nãolhe devesse explicações. Aliás, explicar o quê?- O que fazes? - E agora tinha-lhe agarrado a cabeça com as mãos.- Amo-te - respondeu ela.Então, ele puxou-a para cima de si, mergulhou a boca na dela como um possesso, viuenfim, e pela primeira vez, o que há tanto desejava ver - aquele peito grande, empinado ede bicos escuros e grossos - e agarrou-o com mãos ambas e depois abocanhou-o como semamasse, e foi a vez de ela começar a gemer baixinho.- Vem - disse ele. - Vem para baixo de mim!- Gosto de estar assim, por cima de ti - respondeu ela.- Não, mas agora vens para baixo de mim!Ela rodou, obediente, e sentiu que todo o peso e todo o fogo dele que ela despertaratombavam sobre si.- Por favor, Diogo, faz devagar! Não quero que me doa, quero que seja bom, muito,muito bom!Ele parou um instante a contemplá-la. Estava linda, nua, deitada à sua espera, ocorpo moreno, húmido do óleo com que se esfregara, brilhando com reflexos de ouro a luzda vela. E entrou nela devagar, conforme ela pedira. Devagar e cada vez mais fundo, atéque um dique se rebentou algures, não sabia se dele, se dela, se de ambos, e, quando maistarde foi saindo devagar de dentro e de cima dela, viu que havia uma mancha espessa sobreo lençol de unho branco e sangue que coagulava no exacto sítio em que a possuíra pelaprimeira vez.Mais tarde ainda, deitado de lado para melhor a ver, acariciando-lhe o peito expostoem direcção ao tecto, ele falou enfim:- Cheiras a flores...- É óleo de flores, uma tradição da noite de núpcias das mulheres ciganas. Gostas?- Muito. Que flores são?- Flores da ribeira. Para um Ribera Flores.
  • 78. VIMas Amparo tinha também outros talentos. Era uma doceira de mão-cheia, como sedizia: ninguém, como ela, tinha a arte de fazer compotas, marmelada e doces de frutos,sabendo exactamente quando os colher das árvores e quando interromper o ponto decozedura do açúcar. Ninguém como ela, que percorrera em miúda todos os recantosescondidos de Valmonte, sabia onde estava o melhor pomar de laranjeiras ou tangerineiras,onde encontrar os verdadeiros figos de mel de Setembro, em que silvados se enfiar paracolher as amoras selvagens. Ela sabia podar no Outono, plantar na Primavera, comoenxertar as árvores para as fortalecer, quando procurar as beldroegas da ribeira anunciandoa chegada do Verão, quando ir à procura dos poejos nascidos em plena água com asprimeiras chuvas do Outono. Sabia como dispor e manter uma horta, como escolher osmuros onde as buganvílias cresceriam sem sol a mais nem a menos, como fazer cresceruma trepadeira de hera por uma azinheira acima, como tazer o corte da cortiça nossobreiros sem ferir a árvore, como encher o jardim de canteiros de flores queperfumassema casa em cada estação do ano, como fazer ascaneiras de água das nascentes,de modo a fazê-la circular primeiro pela horta, depois pelo jardim e enfim pelo pomar, sóentão se perdendo na terra para alimentar os lençóis subterrâneos de que dependia a vidada herdade.Tudo isso ela aprendera em miúda, acompanhando o pai pelos campos e estevas deValmonte ou observando e ajudando a mãe na horta da courela de que eram rendeiros e daqual comiam tudo o que era legumes e fruta. Aprendera com o pai a ter uma verdadeiradevoção pela água, pelo que ela significava de possibilidade de vida e de prosperidade.Lembrava-se como, ainda nem sequer tinha idade para ir à escola, dois anos sucessivos deseca tinham arruinado todas as sementeiras da courela e os haviam reduzido à miséria quaseabsoluta. Lembrava-se de então ver a mãe a fazer o almoço que iria levar ao pai no campo -nada mais do que uma aguada com azeite, um dente de alho e urtigas a boiar dentro dotarro de cortiça e onde, nos dias felizes, o pai encontraria também um pedaço de toucinhoa dar alguma cor e alguma substância àquela sopa de pobre. E lembrava-se de ver o paivoltar alquebrado ao fim do dia e, nas noites de Inverno, sentar-se junto ao lume no bancode madeira que ele próprio havia feito e sacar do bolso algumas bolotas que apanhara do
  • 79. chão e começar a roê-las, como se fosse comida - aquela comida roubada aos porcos quevagueavam no montado de Valmonte. Ou então, por alturas de Novembro e do Verão deS. Martinho, chamá-la para ao pé de si, junto aos toros de azinho que ardiam no chão e queserviam para os aquecer daquele frio desumano e para aquecer a comida nas brasas, sentá-laao colo e dizer-lhe:- Adivinha o que eu trouxe para a minha Princesa? E ela respondia sempre, como sede cada vez fosse uma surpresa: - O quê, pai?E ele estendia-lhe uma mão-cheia de castanhas, que depois enfiavam dentro de umpúcaro de barro para assar na borralha do lume. Ela abraçava-se-lhe ao pescoço e os olhosdo pai brilhavam, húmidos de alegria. Um dia de festa!Anos depois e lentamente, a vida deles começou a virar para o lado do sol. Duascolheitas excepcionais haviam trazido um sorriso de volta ao olhar do pai e algumascantigas esquecidas às manhãs da mãe, passadas na cozinha ou na horta. Podiam enfimcomprar um porco todos os anos, que a horta e as bolotas alimentavam e cuja matança, nosfrios de Dezembro, atulhava a casa de enchidos dependurados a fumar sobre o lume e dearrobas de carne guardadas em vasilhas de sal ou de azeite, assegurando uma reserva decomida para quase metade do ano. A mãe comprara um outro vestido, o pai investira numamula, numa carroça e num arado novo, ela fora mandada para a escola - primeiro para aescola primária da aldeia e depois, como a sua sede de aprender e a sua inteligência fossemjulgadas excepcionais, para o colégio da D. Adozinda. Aos poucos, o pai - que aos seusolhos de adolescente lhe parecia já velho, embora não tivesse ainda quarenta anos - foifazendo dos cinquenta hectares daquela courela tomada de arrendamento ao senhorManuel Custódio Ribera Flores o canto mais bem cuidado e mais produtivo de toda aherdade de Valmonte. Mas ela sabia que isso não chegava ao pai, sabia que havia nele umdesejo secreto e profundo, alimentado por gerações de deserdados e famintos: um desejolouco de terra, de terra que fosse sua. E, sentado pensativo junto ao lume, ou olhando oSol pôr-se sobre a terra à sua frente no alpendre da casa, ouvia-o murmurar, como sefalasse para si mesmo:- Um dia hei-de ir falar com o morgado...Mas, quando enfim esse dia chegara, ele foi a mando do patrão e não a rogo seu. Efoi para ouvir o senhor D. Manuel Custódio dizer-lhe, de olhos de homem para olhos dehomem, que não só não lhe vendia a courela, como também o seu arrendamento chegaraao fim. Dava-lhe uma indemnização por todos aqueles anos perdidos de sol a sol, curvadosobre a terra dos Flores, e dava-lhe uma das casas do monte para viver com a mulher e a
  • 80. filha e onde ficaria como seu empregado, até que pudesse suceder no cargo ao velho feitorAnselmo, que em breve já teria dado o que tinha a dar.Nesse dia, que ela nunca esquecerá, Amparo vira o pai regressar a casa mais cedo emais curvado que nunca, atravessar a porta sem sequer lhe dar o beijo que sempre lhe davano regresso do campo, nem ao menos olhar para a mãe que o esperava fingindo que aqueleera como se fosse um dia como os outros, e sentar-se na sua cadeira junto ao lume, ficandopor longo tempo a contemplar as chamas que dançavam em frente aos seus olhos.- Então, homem, fala! Que te queria ele? – perguntou enfim a mãe, incapaz de seconter por mais tempo.Sem tirar os olhos do lume, o pai falou:- Quer acabar com o arrendamento, que a gente se mude lá para o monte e que eufique a trabalhar como empregado da herdade, até passar a feitor, quando o Anselmo sereformar.- E tu, que respondeste?Amparo ouviu o suspiro do pai, viu-o rodar finalmente no banco e encará-las, e o seuolhar estava cansado de resignação, mas também de determinação.- Respondi que não trabalho mais terra que não seja minha.A mãe ficou calada por instantes, como se absorvesse todo o futuro contido naquelafrase. Amparo teve medo que ela se fosse zangar, que se virasse contra o pai, que quisesseargumentar com ele. Mas, quando ela falou, fez-se paz para sempre entre todos eles:- Fizeste bem.E fora assim, sete anos atrás, que eles haviam deixado a terra e a casa arrendadas emValmonte e se haviam mudado para a vila. Com a indemnização que o patrão lhe pagara,mais as curtas poupanças que havia posto de lado nos últimos anos, o pai abrira um“armazém geral” junto ao Rocio. A mãe ajudava-o na loja, atendendo os clientes, Amparoajudava nas contas e na escrita, e o pai não parava de correr feiras e mercados e aldeias, defazer encomendas e ajustar preços, comprando o que depois vendia no armazém, comlucro. Em breve, começou a prosperar, a obter crédito junto do banco local e a expandir asexistências e o negócio, até criar a reputação de vender qualquer coisa aos melhores preços,de Elvas a Évora. Aparentemente, o desejo de terra e as saudades de terra haviam morridopara sempre, excepto, talvez, quando em algumas noites vinha até à ombreira da porta dacozinha e ficava a ver a filha cuidar da pequena horta do quintal, na casa da vila, que agoraera toda a terra em que mexiam. Não dizia nada: ficava apenas a olhar, mas Amparo eracapaz de jurar que o seu olhar reflectia a tristeza dos Verões sem água na ribeira.
  • 81. Ela herdara também essa fome de terra, que tivera o pai e que tivera o avô, e que, nasraízes da sua família de ciganos vagueando de terra em terra, era como uma marca deberço. Essa fome não se explicava facilmente: não era apenas uma vontade de terra quematasse a fome, de riquezas, de prosperidade, de olhar todos os dias o que fosse seu. Eraum desejo mais profundo que atinge aqueles que, tendo nascido ou vivido no campo,parece que só assim é que não se sentem deserdados, desamparados, sem poiso nem beira.Ela vira como o seu tio Aurélio, irmão da mãe, que no levante da vida se tornaraproprietário de uma pequena courela de meia dúzia de hectares, lá para os lados de Avis, jávelho e doente mas com dinheiro suficiente para viver tranquilamente os últimos anos devida, recusara mudar-se para a casa da vila, onde viviam os filhos, preferindo ficar só nomonte, agarrado àquele torrão que ninguém conseguira convencê-lo a vender. Elaconhecera muita gente assim, que, quando ficava sem terra, era como se ficasse sem chão,ricos que nunca se cansavam de querer comprar mais e mais terra e pobres que nuncaaceitavam vender, nem que fosse uma courela alagadiça, sem préstimo algum. Não, aquelafome não se justificava. Era mais do que ambição, era uma doença.E, agora, ela tinha ali à sua frente, ao seu dispor e para seu desfrute, os milhares dehectares da terra rica de Valmonte - seus também, por comunhão de bens nupcial. Assim,de repente, sem esforço algum da sua parte, apenas porque Diogo se apaixonara por ela umdia, na Feira de S. Tiago. Tudo o que o seu pai não havia conseguido, após anos e anoscurvado sobre a terra dos outros, tudo o que sucessivas gerações dos seus haviam sonhadoe falhado, conseguira-o ela com o seu olhar, o seu corpo, a sua voz, o seu encanto. E osseus filhos, se os tivesse como esperava, cresceriam ali, donos e herdeiros daquela terra, enunca teriam de saber o que era a felicidade de um pai por, de vez em quando, conseguirtrazer uma mão-cheia de castanhas para a ceia da filha. Porque só assim era possível,naquelas paragens e nestes tempos, sair da miséria: por um golpe de sorte ou um acaso danatureza. Sim, um acaso, porque o que lhe acontecera nem sequer era natural: os filhos efilhas dos ricos eram quase sempre mais bonitos e atraentes do que os filhos e filhas dospobres. Alimentavam-se melhor, iam aos médicos, tratavam dos dentes, vestiam-se à modae cuidavam-se bem mais. Falavam mais bonito, aprendiam maneiras e frequentavam-seapenas uns aos outros.Pouco a pouco, tão discretamente quanto a sensatez lho aconselhava, Amparo foitomando pé nas coisas da casa, nos domínios que, por longa tradição, eram os dasmulheres: aos homens, o cultivo das terras, o gado, a floresta, a caça, as feiras; às mulheres,o governo da casa e da cozinha, o cultivo da horta e a criação da capota, as roupas e aslimpezas. Entre nada de substancial fazer, o que seria malvisto, ou querer fazer de mais,
  • 82. como que roubando o lugar à sogra, o que seria inconveniente e imprudente, Amparo foidescobrindo, tacteando, conquistando paulatinamente o seu lugar em Valmonte. Aocontrário do costume, porém, inibia-se de tratar a sogra por mãe, e procurava não fazernada que fosse contrário à forma como ela fazia. Aliás, sabia que tinha muito a aprendercom Maria da Glória, algumas coisas que não custava imitar e outras que, a bem dizer,demoravam gerações a aprender: como pôr a mesa, que bebidas oferecer em cada altura,como dar ordens às criadas, como mandar dobrar as camisas dos homens depois deengomadas, como comer à mesa, quando falar e quando ficar calada. Era todo um mundonovo que ela queria absorver sofregamente mas sem dar nas vistas e cuja entrada Maria daGlória lhe franqueava, ensinando-a, sem que lhe falasse de cima para baixo, mas tambémsem deixar de a corrigir quando o entendia necessário.- Dona Maria da Glória, ponho um pau de canela nas compotas de laranja? -perguntava ela à sogra, tentando imitar o que vira, numa tarde em que estavam as duas nacopa a encher boiões de vidro com doces e compotas de laranja, amoras e figo.- Só nas de laranja amarga - respondia Maria da Glória, como uma professoraprimária corrigindo a aluna.- Vem cá, Lurdes, prova-me aqui esta compota - dizia ela para a criada, estendendo-lhe o frasco de compota de amoras para que ela lá mergulhasse o dedo e provasse.Maria da Glória observava em silêncio pelo canto do olho, esperava que a criadasaísse e só então lhe dizia:- Amparo, não se prova com o dedo e, aliás, a única criada que pode provar é acozinheira Maria.Entre as duas estabelecera-se como que um período de adaptação e conhecimentomútuo, sem desconfianças prévias, mas igualmente sem grandes intimidades - até ver, pelomenos. Nos anos ou décadas que se iriam seguir, teriam de viver juntas naquela casa,dividir o mesmo espaço funcional e as mesmas tarefas, almoçar e jantar juntas vezes semconta, partilhar o destino, as alegrias ou tristezas da família: tudo aconselhava a que fossemaprendendo a fazê-lo tranquilamente, sem querer apressar as coisas ou ficar reféns dejulgamentos prematuros. Maria da Glória vira-a chegar à família, não propriamente comdesconfiança, mas com algum medo da difícil adaptação a que a sua diferença de condiçãofatalmente obrigaria: não sabia se ela seria receptiva a aprender tantas coisas novas, algumasdas quais, inevitavelmente, nem sequer fariam sentido a seus olhos. Ela sabia bem que háuma diferença entre uma rapariga de determinado meio, que foi educada e preparada paraum papel que depois assume naturalmente, e outra, como Amparo, que nada, a não ser asua encandeante beleza, preparara para viver em salões. Mas Maria da Glória sabia também
  • 83. que Amparo era inteligente e ambiciosa, e no bom sentido, que não desperdiçara asoportunidades que lhe tinham dado a infância vivida no campo e os estudos em Estremoz;sabia que era trabalhadora, que ajudara sempre os pais, que nunca criara má fama nem deranas vistas, a não ser por ser bonita e boa aluna, e sentia, como mulher e como mãe, que ofilho a amava e que ela era a mulher que estaria sempre ao lado dele e lhe alegraria a vida,que a sua beleza e a natureza dele o dispensariam de andar a procurar lá fora o que tinhaem casa, e que era ela que trazia sangue novo aos Ribera Flores e que poderia encher a casado sangue novo de uma nova geração. “Talvez - pensava ela para consigo o meu filho nãose tenha casado tão bem quanto o berço e as qualidades lho facultariam, mas casou-sesuficientemente bem para a vida daqui, na herdade. E isso deve chegar-lhe para ser feliz.”Também Pedro ia observando a cunhada, entre a curiosidade natural e atenta e umfingido alheamento. Correspondendo aos olhares e pequenos gestos disfarçados da mãe,que não o perdia de vista quando Amparo estava por perto, ele via-se até a reservar-lheatenções de cavalheiro, que estava habituado apenas a guardar para a mãe: deixava-a passarà frente nas portas, não a interrompia quando ela falava, perguntava às vezes pela sua saúdeou pelo estado da horta que ela acarinhava e, a custo, é certo, continha-se para não se servirantes dela. Mas não chegara ainda ao ponto - nem ela, aliás - em que se sentisse à vontade,quando a sós com ela. Nessas alturas, se ela não o fizesse antes, tratava de se lembrarsubitamente de qualquer coisa que deixara por fazer noutro lado e afastava-se,murmurando uma desculpa. Mas se, enquanto cunhado, ainda a considerava em teste, jácomo observador isento todos os dias lhe ia descobrindo novo motivo de apreciação: era osorriso dela ou o seu riso solto, os cabelos negros e sedosos, quando de manhã emergia dobanho cheirando a lavanda, os ombros altos e direitos, as mãos de dedos compridos, a suadesenvoltura e elegância montada a cavalo, quando saía para acompanhar Diogo noslongos passeios que este gostava de dar pela herdade, a luz nos seus olhos ao fim do dia,quando regressava a casa com Diogo, e Pedro não conseguia impedir-se de sentir invejapelo que imaginava que eles pudessem ter estado a fazer, quem sabe, lá por alturas docerrado da Boa Viagem, nos altos penhascos sobre o rio, onde não haveria maistestemunhas do que as águias planando em busca de caça no solo. Pedro tinha a sensação, acada dia que passava, de que ambos, ela e também Diogo, iam desabrochando a olhosvistos. O seu instinto de macho dizia-lhe que o jovem casal deveria ter uma vida sexualbem estimulante e que talvez fosse até ela, e não Diogo, quem mais se empenhava nisso. E,pensativo, dava consigo a imaginar que se cansava da sua vida de devaneios sexuais eocasionais pela vila e arredores, e também ele trazia consigo para Valmonte uma fêmeaesplêndida como Amparo, poupando-lhe tempo, dinheiro e dissabores venéreos, naquela
  • 84. sua existência de homem de mulheres de ocasião. Mas logo sacudia esses pensamentos,ciente como estava de que o casamento não servia a um homem como ele, que não nascerapara partilhar o que era só seu - vícios, hábitos, o quarto de solteiro e os pensamentosíntimos.Raramente almoçavam juntos os quatro - a mãe, os dois filhos e a nora. Pedrogostava de comer no campo, junto com o rancho de homens, cuja refeição partilhava, a fimde dar o exemplo e não perder tempo a vir a casa. Se estivesse em Estremoz ou nas terrasem volta aonde os negócios da herdade o levavam - para ver gado, acertar a venda do trigoou a compra de forragens -, almoçava nas tascas e restaurantes locais, onde se sentiatambém como peixe na agua. Diogo vinha umas vezes a casa, partilhando a sala de jantar asós com Amparo, ou então almoçava também no campo, mas combinava antecipadamentecom ela onde se encontrariam ao meio-dia e ela levava-lhe a comida num cesto de vime,como tinha visto a sua mãe fazer todos os dias, invariavelmente, quando o pai estava nocampo. Era ela também que cozinhava para o marido, mas, ao contrário da mãe, não era“comida de ganhão”, mas sim comida de patrão o que levava ao seu homem: cabeça dexará, escabeche de perdiz, omolete de espargos verdes ou fígados de porco de coentrada.Porque os filhos não estavam presentes, ou porque apenas estava Diogo e ela queriapreservar a intimidade do filho com a sua mulher, Maria da Glória, por seu lado, preferiaalmoçar sozinha na sua pequena sala, que era uma espécie de santuário privado, onde ospróprios filhos pediam licença para entrar.Assim, era ao jantar que se reuniam todos - por vezes, com a companhia das visitasda vila ou da vizinhança, do eterno padre Júlio, sempre com o mesmo apetite voraz, ou dodr. António Sacramento, agora conselheiro jubilado e que fora em vida o melhor amigo deManuel Custódio e o seu mais estimulante contraditor político. Pobre dr. Sacramento, queum princípio de tuberculose retirara do activo, justamente quando acabara de tomar possedo seu assento no Supremo Tribunal de Justiça, em Lisboa - ao menos poupando-o aantecipáveis dissabores, que a sua formação legalista e republicana seguramente augurava,em confronto com as novas leis da ditadura! Mas, além de o ter reformado do tribunal, atuberculose retirara-o também da caça - o seu grande prazer - e deixara-o igualmentediminuído de visão para aquilo que, a seguir à caça, era o seu desporto favorito de solteirãoinveterado: mirar, remirar e voltar a mirar as mulheres, não se dispensando de, emelegantíssimo português, lhes dizer o que lhe ia na alma mais profunda ou noutrasprofundezas menos confessáveis, aproveitando bem aquela espécie de indulgência plenáriaem matéria de assuntos licenciosos que se concede àqueles que já só ameaçam com umolhar inofensivo. A deficiência visual tornou-se patente aos olhos de todos numa ocasião
  • 85. em que, sentado à mesa de Valmonte e depois de mais de uma hora de olhar fixo nos olhosnegros de Amparo, se saiu com o cumprimento:- A menina tem uns olhos verdes como eu nunca vi iguais!Nas mais das vezes, porém, jantavam apenas os quatro na ampla mesa da sala dejantar, que era, sem dúvida alguma, o móvel mais importante da história dos Ribera Flores.Nessas noites, Maria da Glória mandava retirar as tábuas do centro da mesa, porque lhefazia confusão aquela distância cerimonial entre eles, e sentava-se na sua cabeceira do ladoda cozinha, com Diogo em frente de si, Pedro à sua direita e Amparo à sua esquerda. E aela parecia-lhe que assim faziam uma família. Falavam do que acontecera na herdade, ou doque acontecera na vila, ocasionalmente e com cautelas, do que ia acontecendo no país e,muito raramente, do que acontecia no mundo - o que só parecia interessar verdadeiramentea Diogo. Numa noite em que a conversa começara com os preparativos para o jantar daConsoada de Natal e seguira para o resultado das contas anuais da exploração da herdade,que logo depois seriam fechadas, Pedro anunciou a sua intenção de denunciar o contratocom um dos rendeiros, um sujeito de poucas falas chamado Gaudêncio.- Avisou-me ontem, quando por lá passei, que não ia poder pagar a renda para opróximo ano.- E porquê, não disse? - perguntou Diogo.- Embrenhou-se para lá numas explicações muito Pinas: que não semeou em Marçoporque não havia sinais de chuva, e depois, quando semeou em Maio, choveu de mais e assementes morreram, não teve pastagens de Verão para o gado e teve de comprar palha, asuvas apodreceram porque começou a chover na semana em que ia vindimar - enfim, tudoao contrário, diz ele.- E foi verdade, filho? - interveio Maria da Glória.- Ó mãe, não sei se foi verdade ou não, não estava lá para ver. O que sei é que fez sole chuva quando para nós também fez sol e chuva e nós lá nos safámos mais ou menos...- Coitado, se calhar, teve mesmo pouca sorte... - insistiu Maria da Glória, sem grandeconvicção.- Pois, mãe, não sei se se poderá chamar pouca sorte ou se a verdade é que andou agastar o dinheiro para as sementes nas tascas de Estremoz, e não vindimou em Setembro,quando nós vindimámos, porque andava por lá a embebedar-se todas as noites...- Vê lá, filho, não me quero meter nessas coisas porque tu é que andas com eles nocampo e tu é que sabes o que se passa. Mas olha que ele tem quatro filhos pequenos paracriar: se a gente os corre dali, o que vai ser daquela família?
  • 86. - Mãe, para isso há a Santa Casa da Misericórdia de Estremoz. Nós não estamos cápara isso nem para dar o exemplo aos outros rendeiros de que, se não cumprirem ocontrato, não lhes acontece nada.- Dá-lhe um prazo, Pedro. Dá-lhe até Maio para pagar a renda. - Diogo tinharesolvido intervir também, incomodado com o que Amparo pudesse pensar daquilo, comas reminiscências que aquela história lhe poderia trazer, lembrando-se de quando o pai deDiogo e de Pedro havia também despedido como rendeiro o próprio pai de Amparo. Asrazões, as circunstâncias e as próprias condições do despedimento eram diferentes, semdúvida, mas a história era a mesma, a mesma de sempre: os donos da terra dispensavam osserviços dos sem terra.- Vá lá, Diogo, tu conheces as regras: o prazo é igual para todos os rendeiros e todoseles sabem, desde o dia 1 de Janeiro de cada ano, que têm de pagar no dia 1 de Janeiroseguinte e que têm um ano inteiro para se administrar sabendo isso. Se agora abrimos umaexcepção com o Gaudêncio e o deixamos continuar até Maio sem pagar, depois teremos dedeixar outro até Junho, outro até Setembro, e outro pagar só um ano mais tarde. Estálançada a anarquia completa!- Pois, talvez seja assim, sem dúvida que tens razão no que dizes. Mas custa-memandar fora um homem com uma mulher a cargo e quatro filhos pequenos para criar!Afinal de contas, Pedro, podíamos dar-lhe esse prazo até Maio, sem ninguém ficar a saber:dizíamos-lhe que, para seu próprio bem, calasse a boca!- É, e na próxima bebedeira que ele apanhar, aqui ou na vila, vai espalhar aos quatroventos que os Flores lhe têm muito respeito ou muito apreço e que o deixaram ficar noarrendamento sem pagar! Imagina o efeito que isso causará nos outros rendeiros, que seesmifram de sol a sol para honrarem os seus contratos e continuarem na terra! Assim, maisvale não ter rendeiros ou dar-lhes a terra de vez e abdicar das rendas!- Uma vez não são vezes, Pedro - voltou Maria da Glória.- Chama-o cá a casa, Pedro: pregamos-lhe um susto e de certeza que o homem entranos eixos. Salvamos-lhe a família e fica a dever-nos um favor que nunca mais esquecerá. -Diogo estava agora empenhado na questão: não queria que Amparo sentisse que elevacilava naquele momento e que a sua vontade contava menos do que a do irmão.Por distracção, ou porque se sentisse em desvantagem na discussão, Pedro lembrou-se então de se virar para Amparo, que se mantivera muda e com os olhos em baixo,assistindo à conversa:- E tu, cunhada? Tens alguma experiência disto, o que achas?
  • 87. “Que idiota!” - pensou Diogo. “Só faltava esta, a única coisa que ele não podia fazer:pedir a Amparo que atraiçoe os seus.”Mas, para sua grande surpresa, ela não ficou pensativa, nem se mostrou hesitante,como se, desde o início da discussão, tivesse estabelecido claramente a sua opinião:- Há anos atrás, como vocês sabem, o vosso pai acabou com o arrendamento do meupai, não porque ele não tivesse pago ou não trabalhasse bem a terra, mas porque atrabalhou tão bem que o vosso pai a quis de volta. Era um direito seu, mas foi umainjustiça para o meu pai. Este caso é completamente diferente, e eu não consigo ter respeitonem sentir piedade por gente como o Gaudêncio, que não aproveita as oportunidades.Quanto aos filhos que tem, isso, como diz o Pedro, é tarefa da Santa Casa da Misericórdia,não me parece que seja vossa.Caiu um silêncio de chumbo sobre a mesa. Nem sequer Pedro se atreveu ou sentiumotivado para explorar o triunfo que Amparo acabara de lhe colocar aos ombros. E Mariada Glória resolveu a situação como sempre o fazia:- Vamos tomar café na salinha.E levantou-se, pensando que o seu marido, se fosse vivo, era bem capaz de tergostado a sério daquela nora. Até era bem capaz de se apaixonar por ela e, se bem o tinhaconhecido, não deixaria de pensar que ela estava mal empregue para o filho. Dava-se bemconta de como em pouco tempo Amparo se tornara uma verdadeira Flores, como sesempre tivesse jantado naquela mesa. O que a preocupava agora, a ela, Maria da Glória, erasaber se era isso que Diogo esperava e desejava.Havia qualquer coisa de infantil na forma como Maria da Glória levava a peito osNatais em Valmonte. Entrado Novembro, já ela se agitava na expectativa dos preparativos,já começava a combinar com a cozinheira Maria os doces dessa Consoada, já ia à capoeiramarcar o peru da ceia e recomendar que só lhe dessem bolotas a comer, já assentara com opadre Júlio os mesmo preparativos de sempre para a Missa do Galo, já massacrara a cabeçade Diogo para que ele não se esquecesse de encomendar na casa Terra Nova, da Rua dosBacalhoeiros, em Lisboa, o bacalhau graúdo que ela haveria de cozer com as couves dahorta. E, entrado Dezembro, antes ainda do almoço solene da matança do porco, as suasatenções já estavam completamente viradas para os enfeites da casa, o musgo o presépio, abusca pelo pinheiro perfeito que haveria de servir de árvore de Natal. Dezembro era o seumês preferido e nem os trabalhos acrescidos para preparar as festas e a recepção einstalação dos chatérrimos parentes Flores de Lisboa, que não falhavam um “Natal naprovíncia” e que nada acrescentavam ao trabalho que davam, nada disso lhe diminuía o
  • 88. entusiasmo e a alegria de miúda com que comandava todas as operações natalícias, como sedisso dependesse, sabe-se lá, a salvação de Portugal ou a glória de Valmonte.O facto é que a alegria de Maria da Glória acabava por contagiar todos, filhos, nora eempregados, como antes contagiava também Manuel Custódio - que tinha sido tudo menosum coração impressionável.Faltavam agora cinco dias para o Natal e Pedro pensava em como tudo isso, naquelaactividade desenfreada e feliz da mãe nesta altura do ano, era, afinal de contas, um sinalreconfortante da continuidade das coisas, do mundo que ele conhecia e que era o único deque gostava e onde sentia tudo posto em ordem. Pensava nisso enquanto se dirigia,distraidamente e pelo passo do seu cavalo, para as terras que anos antes haviam sido dadasde arrendamento ao Gaudêncio e de que ele vinha agora retomar posse - a menos que,contra todas as suas previsões, o Gaudêncio tivesse conseguido desenterrar dinheirodebaixo do chão. Uma semana antes mandara-lhe um recado, por um moço da herdade, deque estivesse preparado para a sua visita e tratasse de arranjar forma de saldar as contas outeria de sair no primeiro de Janeiro.Levava a sua Benelli de caça atravessada sobre o selim e coberta por uma manta, comos cartuchos nos canos e o travão desactivado: levava sempre a sua espingarda de caça eum dos cães, quando saía a passear. Chegou ao velho monte que fazia parte do arrendadopelo Gaudêncio e, à vista do estado degradado das paredes de cal e xisto da construção,não pôde deixar de pensar que, de facto, aquele rendeiro estava a mais, nada parecia ocuparo seu esforço e o seu zelo. Dois dos miúdos brincavam à frente da casa, uma delas a maisvelha, uma rapariga dos seus catorze ou quinze anos, com uma cara bonita e um olhar derufiazinha selvagem, um vestido sujo de nódoas de gordura entranhadas e cujo colo, jásemi-rasgado, deixava perceber um peito juvenil que despontava pelo decote inocente.Desmontou e encarou-a:- Olá, tu és a...?- Sou a Ritinha. - Estranhamente, ela olhava-o sem mostrar sinais de acanhamento. -E aquele além é o meu irmão mais velho, o Amílcar. - E apontou com a cabeça emdirecção à porta do monte, em cuja ombreira aparecera um rapaz com a cara marcada porborbulhas e um olhar oblíquo, de raposa, que saudara Pedro com uma leve inclinação decabeça.- Ah, pois, a Ritinha, já me lembro! O teu pai está em casa?Mas não foi preciso que a miúda respondesse: o Gaudêncio, com a barba por fazer eos suspensórios das calças esticados no limite, surgira também à porta da casa, afastando ofilho e trazendo a mulher ao lado - uma figura igualmente descuidada e suja.
  • 89. - Estava à sua espera, patrão Pedro...- Ora, ainda bem! Assim, vamos direitos ao assunto: estás em condições de me pagarno dia 1 de Janeiro, ou não?O Gaudêncio não disse nada. A mulher pousara-lhe Uma mão sobre o ombro enenhum dos dois parecia querer descolar da porta, poderia haver perigo no ar einstintivamente foi recuando devagarinho em direcção ao seu cavalo e à sua arma,concentrando-se em que o seu movimento fosse o mais natural possível. Gaudênciosemicerrou os olhos, parecendo olhar para além dele, e então falou:- Não: em dinheiro, não estou em condições de lhe poder pagar, senhor Pedro.Pedro continuou a recuar imperceptivelmente, pesando a resposta.- Em dinheiro, não... E então, vês uma outra forma de nos pagar?- Bem, isso depende de si, senhor Pedro. - Gaudêncio agora olhava de lado para amulher. Ela inclinou a cabeça, concordando.- Ah, em espécie! E que tens tu para oferecer?O olhar do rendeiro desviou-se para onde instantes antes dois dos seus filhosbrincavam e agora estavam quietos, suspensos daquela conversa que a sua inteligência decrianças percebia poder ser decisiva nas suas vidas. Deteve-se na filha, Ritinha, e delavolveu a Pedro.- Ela?Gaudêncio baixou a cabeça e assentiu, em silêncio. Pedro desviou também o olharpara a Ritinha, sem disfarce: como se avaliasse uma mercadoria.- Hum... e está preparada?Foi a vez da mulher de Gaudêncio inclinar a cabeça, afirmativamente. A transacçãoestava assim estabelecida e nisso Pedro era mestre.- Seja! Mas é agora mesmo que eu cobro: vocês saiam de casa com os miúdos edêem-nos uma hora. E em Maio volto cá para receber a renda e já não aceito maispagamentos em espécie!Eles não responderam nada. Chamaram os restantes filhos, incluindo Amílcar, queavançou arrastando os pés e fazendo uma festa no cabelo da irmã à passagem e lançandoum breve olhar indecifrável a Pedro. Ajudado pelo filho mais velho, Gaudêncio aparelhourapidamente e sem dizer palavra a mula a uma carroça que estava debaixo do telheiro e fezsinal para que todos subissem lá para cima. Ritinha deu também dois passos em direcção àcarroça, mas a mãe deteve-a, murmurando-lhe qualquer coisa ao ouvido, enquanto lheajeitava o vestido e lhe dava um beijo na testa, e assim partiram, qual família desaltimbancos expulsos da cidade.
  • 90. Pedro assistira a toda a cena encostado ao seu cavalo, mirando a Ritinha de soslaio esentindo-se inchar dentro das calças. Quando ficaram a sós e a carroça já não se distinguiano horizonte, ele chamou-a, que ali continuava parada, olhando ao longe a poeira dacarroça que levava a sua família:- Vem cá! - Ela aproximou-se, devagarinho. – Tira isso!Obedecendo ao seu gesto, ela despiu a parte de cima do vestido sujo, expondo umpeito de adolescente, de bicos escuros, virados para cima.- Vamos para casa, então. Agora!Ela virou-se e entrou em casa, à frente dele.Nessa noite, em Valmonte, Pedro esteve mudo e ausente. Por vontade sua, não teriamesmo aberto a boca o jantar inteiro, não fosse Diogo tê-lo interpelado directamente:- É verdade, Pedro, o que vamos decidir em relação ao Gaudêncio? Já pensastemelhor no assunto?Já, já está decidido: passei por lá no outro dia e dis-se-lhe que ele tinha prazo atéMaio para nos pagar. Uma vez sem exemplo e, depois disso, não há mais moras.Diogo olhou o irmão, sinceramente espantado:- Eh lá, que este coração gélido se deixou comover! O que foi isso, mano? O espíritode Natal?Sem levantar os olhos do prato, Pedro resmungou entre dentes:- Sim, deve ter sido isso...Diogo olhou Amparo, com um sorriso triunfante. Parecia querer dizer-lhe: “Estás aver, não somos assim tão maus patrões quanto isso; até o Pedro, que é um brutamontes, sedeixa comover às vezes!” Depois, olhou a mãe, em frente de si: ele sorria ainda, mas elanão. Ela estava estranhamente ausente e impenetrável. Como se não tivesse estado atenta àconversa.
  • 91. VIIA lua-de-mel no campo entre Amparo e Diogo durou ainda uns largos meses. Otempo suficiente para eles criarem uma rotina de hábitos e de intimidade e para Diogocomeçar a sentir-se escasso de horizontes e novidades. Se ela não dava quaisquer sinais desaturação ou cansaço com a sua nova vida - antes pelo contrário, a cada dia pareciadescobrir novos motivos de interesse e entusiasmo em Valmonte -, já ele mostrava indíciosclaros de impaciência e nervosismo. Não pelo casamento em si, e menos ainda pela pessoade Amparo, mas pelo tipo de vida que o ocupava e prendia ali. Antes mesmo que ela onotasse ou que ele o dissesse, foi Maria da Glória a primeira a vir em seu socorro:- Diogo, e o teu negócio em Lisboa? Aquele negócio com o Brasil, que tu queriasmontar? Não precisas de ir lá pôr as coisas a andar?Ele agradeceu à mãe com um olhar mudo, uma espécie de código entre os dois, elogo no dia seguinte tratou de começar a pôr as coisas a andar. Em breve se despedia deAmparo, com um apaixonado beijo na cocheira que agora fazia as vezes de garagem, e foicom um redescoberto prazer que de novo se viu ao volante do seu Panhard na estrada paraVila Franca de Xira. Aliás, chegado a Lisboa, uma das primeiras coisas de que tratou foivender o Panhard e substituí-lo por um Citroen de seis cilindros, de cor verde-escura eestofos pretos. Era um modelo acabado de sair nesse ano de 1929, chamado Berlinda, eque rivalizava no mercado com os Durant and Rugby e os Auburn. Custou-lhe aastronómica quantia de trinta e oito contos e quinhentos, que sacou da parte em dinheiroque lhe coubera na herança do pai. Mas o prazer de deslizar suavemente pelas ruas eavenidas de Lisboa, sentindo o suave ronronar do motor de seis cilindros e o ligeiro chiarda borracha mole dos pneus no asfalto, valia bem a despesa.Voltou a instalar-se no Avenida Palace e, à parte o hotel que parecia imutável no seucharme eterno, veio encontrar uma cidade que mudara velozmente durante o ano quaseinteiro que ele vivera retirado no Alentejo. Logo na manhã seguinte à sua chegada, umradioso 24 de Abril, ao sair à rua, depois de tomado o pequeno-almoço no Palace, foi comoque arrastado por uma multidão fervilhante que se dirigia em passo de corrida, Rossio eRua do Ouro abaixo, em direcção ao Terreiro do Paço. Levado pela onda, ele foi atrás edesembarcou no Terreiro do Paço a tempo de assistir a um espectáculo inolvidável: o
  • 92. Conde Zeppelin, o grande dirigível alemão, levando a bordo uma tripulação de oitopessoas, com o seu construtor, o dr. Hugo Eckner, ao leme, e oito passageiros, entre osquais o chefe do governo da Prússia, Otto Braun, sobrevoava a praça principal de Lisboa auns setenta metros de altitude e com uma escolta espontânea de três Vickers e um Avroque haviam descolado do aeródromo da Granja do Marquês. Regressava dos EstadosUnidos, a caminho da sua base de Friedrichshafen, completando assim a primeira ligaçãoida e volta transatlântica - dois anos depois de Lindbergh haver ligado com o seu aviãoSpirit ofSaint Louis a América do Norte à Europa num voo sem escalas, e sete anos depoisde Gago Coutinho e Sacadura Cabral terem ligado a Europa à América do Sul, utilizandosucessivamente três aviões, até que o último deles conseguiu enfim atingir terras de VeraCruz.Durante cerca de vinte minutos, o Conde Zeppelin por ali andou às voltas,contornando o Castelo, descendo sobre a Mouraria e a Baixa e sobrevoando o pagodeamontoado no Terreiro do Paço. Diogo estava fascinado com o espectáculo, com osmovimentos lentos e graciosos do dirigível, como uma gigantesca ave planando sobre acidade. Imaginava o que seria estar ali dentro e ver Lisboa de cima, ou o que seriaatravessar o Atlântico suspenso daquele imenso balão de pano e daquela cabine em formade torpedo. Comentava-se à sua volta que só tinha demorado seis dias a cruzar o AtlânticoNorte e que doravante as rotas de longa distância eram suas, pois tão cedo não sevislumbrava a possibilidade de construir um avião com capacidade e autonomia para cobrirdistâncias dessas, levando a bordo umas trinta pessoas. Nesse ano de 29, Lisboa tinha jáuma carreira aérea regular Para Madrid, operada por um Junkers, capaz de levar oitopassageiros: mas a distância era de apenas 600 quilómetros e durava só três a quatro horas.Ao passo que ali, à vista de todos, estava o futuro da aviação de longa distância.Ainda aturdido pelo espectáculo não programado Diogo chegou ao escritório daPraça da Figueira do seu grande amigo Francisco Menezes. Era a partir dali que elesesperavam poder vir a montar, juntamente com o seu sócio-correspondente no Rio deJaneiro, Herr Gabriel Matthäus, uma empresa de import-export e representações com oBrasil. Importariam de lá café, madeiras e tecidos de algodão, primeiro para Portugal,depois eventualmente para outros destinos na Europa, e exportariam para lá parte domuito de que o Brasil tinha necessidade: têxteis e vestuário, vinhos, máquinas e ferramentasagrícolas e artigos de luxo. Terminada a conversa de negócios, apanharam um eléctrico parao Chiado e daí foram a pé para o Tavares Rico, onde Francisco tinha marcado mesa para osdois. Era o melhor, o mais luxuoso, o mais requintado restaurante de Lisboa e celebravaagora os seus 150 anos de história com nova remodelação, das várias que já tivera desde
  • 93. que nascera como simples tasca fundada por dois irmãos em 1779. E, entre a sua decoraçãoart déco, cheia de veludos e candeeiros de ferro forjado com abatjours de vidro pintado daBoémia, eles celebraram o seu reencontro (não se viam desde o casamento de Diogo) comuns canapés de lagosta acompanhados com champagne Taittinger, seguidos de um arroz deperdiz cuja receita se atribuía ao escritor Fialho dAlmeida, e terminando com uns crepesSuzette flambe-ados em Grand Marnier. “Ah”, pensou Diogo, acendendo enfim o seuSancho Panza, “como é bom estar de volta a civilização!”-Então, Diogo, diz-me, que estou curioso: como é o casamento, essa nobreinstituição? E coisa boa e recomendável?- Bem, Francisco, depende de com quem nos casamos, obviamente...- Pois, no teu caso, pareces ter-te casado com uma excelente mulher e, se mepermites a franqueza, uma estupenda fêmea...- De facto... -Diogo corou ligeiramente. -Tanto uma coisa como outra.- E que tal? Estás satisfeito, compensa-te de... - Francisco fez um gesto largo com amão, que tanto podia abranger o Tavares Rico como o mundo inteiro -... de tudo isto?O tom da conversa era brejeiro, como é de costume entre dois homens novos quenão se vêem há um tempo, mas Diogo ficou pensativo antes de responder.- Bem, compensar de tudo... de tudo isto, não, não com pensa, nem eu esperava talcoisa. Parece que o ser humano, como deves imaginar, nunca está inteiramente satisfeito ousaciado com coisa alguma. Mas, se dividirmos as circunstâncias da vida em compartimentosdiferentes, como eu penso que deve ser, então, sim, estou completamente satisfeito comaquilo que eu esperava de um casamento – do meu casamento. Como tu dizes, tenho umamulher excelente, bem-disposta, trabalhadora, interessada, inteligente, com vontade deaprender, enfim, a companhia ideal para uma vida passada lá na herdade. E... e...- E...?- E uma fêmea estupenda, realmente. - E Diogo sorriu, fingindo-se embaraçado. -Nesse aspecto, meu invejoso amigo, devo dizer-te que não desejo nem me vejo a cobiçarou ter necessidade de nenhuma outra. O que é uma inestimável vantagem sobre vocês, ossolteiros, e um excelente ponto de partida para ter vontade de fazer outras coisas.Francisco apertou-lhe o braço, por cima da mesa, sorrindo também: um sorriso deamigo, sem malícia.- Folgo em ver-te assim, Diogo! Da última vez que aqui estiveste, foste de volta lápara as tuas vacas bastante deprimido...- Tens razão. E, por falar nisso, como vai a merda da política? Cada vez pior, não?Francisco piscou-lhe o olho, instintivamente espreitando à volta:
  • 94. - Vai tão mal que o melhor é falarmos lá no escritório, está bem?Ia fazer três anos que fora instaurada a Ditadura Militar e dois anos que a revolta de27 havia sido sufocada. A repressão fora feroz: os implicados ou suspeitos tinham sidopresos ou deportados, forçados a exilar-se, na melhor hipótese; os partidos políticos daRepública tinham sido abolidos e os seus chefes presos ou vigiados; criara-se uma políciapolítica e a censura à imprensa fora instaurada; os monárquicos e a Igreja, que haviamapoiado o golpe militar, recuperavam aos poucos os seus privilégios e atenções. Mas onovo regime ainda não sabia muito bem que orientação adoptar e de que ideologia sereclamar. Na sua essência, os triunfadores do golpe militar de 28 de Maio de 1926 eramuma casta de provincianos ignorantes e incultos, que havia demonstrado a suaincompetência militar em 1918, deixando todo o Corpo ExpedicionárioPortuguês ser massacrado em poucas horas pela artilharia Krupp e a infantaria doKaiser. Esse fulminante massacre, aliás, fora toda a contribuição portuguesa para a PrimeiraGuerra Mundial e a última vez, por anos e anos a vir, em que o Exército Português ousariaenfrentar um inimigo em campo aberto. Agora, curvados ao peso de medalhas de feitosheróicos que ninguém conhecia, louvavam-se cá dentro de uma coragem e panache desalvadores da Pátria para que ninguém igualmente os havia convocado. À falta de melhor ede mais leituras, dera-lhes para se reverem na inspiração fascista do Duce italiano, cujaestética militar os seduzia e lhes parecia todo um programa nacional. Mas faltava-lhes oMussolini português.Foi então que alguém atentou num obscuro professor de Finanças Públicas daUniversidade de Coimbra, nascido numa vilória da Beira em modesta família de apelidoSalazar. Porém, não procuravam nele um Duce para Portugal mas apenas um salvador paraas Finanças Públicas. António de Oliveira Salazar tinha trinta e sete anos quando o forambuscar a Coimbra. Fora ministro das Finanças durante cinco dias, demitira-se e regressara,com novas condições, dois anos mais tarde. Era um típico beirão, baixinho, desconfiado,sorrateiro, de voz melíflua, quase feminina, e falsa modéstia, que exibia aos quatro ventos.Olhando à roda para os seus contratantes, rapidamente percebeu que poderia tomar contado país em dois tempos, desde que lhes alimentasse a vaidade, lhes satisfizesse osprivilégios e lhes servisse, pronta a adoptar, uma qualquer doutrina legitimadora daditadura. Solteiro, sem família, sem vícios nem prazeres conhecidos, sem vida pessoal nemamigos, avarento consigo e com as Finanças Públicas, Salazar rapidamente havia começadoa ganhar uma reputação de homem íntegro e probo, que salvara as Finanças Públicas dabancarrota e se propunha - modestamente e se o deixassem - salvar a Pátria, por acréscimo.
  • 95. Mas, debaixo da sua capa de humildade e de despojamento, Salazar era vaidoso eambicioso. O seu objectivo último era simples: o poder, o poder para sempre. Para o país,ele defendia a censura, com argumentos banais: “Compreendo que ela irrite, mas não élegítimo, por exemplo, que se deturpem os factos para justificar ataques injustificados àobra do governo, com prejuízo para os interesses do país. Seria o mesmo que reconhecer odireito à calúnia.” Mas, se ao país servia a censura, à sua própria vaidade era necessáriaalguma exposição. Viria a escolher um homem de letras e um jornalista prestigiado,António Ferro, para dele fazer o seu confidente atitré e o seu intermediário privilegiadopara se mostrar aos portugueses. “Eu sei, evidentemente - dizia ele a António Ferro -, queos grandes homens, os grandes chefes, os grandes ditadores não se embaraçam compreconceitos, com fórmulas, com preocupações de moral política. Mas - lá vai umaconfissão impolítica - eu não aspiro a tanto. Sou um simples professor que desejacontribuir para a salvação do seu país, mas que não pode fugir, porque a sua natureza nãolho permite, a certas limitações de ordem moral, mesmo no campo político.” Nem Diogonem Francisco o podiam adivinhar então, mas o “simples professor” seria feito, três anosmais tarde, chefe do governo e detentor de todo o poder pelos militares. Sem “aspirar atanto”, ficaria lá quarenta anos e, apesar das “limitações de ordem rnoral” que a suanatureza lhe impunha, mandou perseguir, prender e exilar e fechou os olhos a que a suapolícia política torturasse e até, em situações extremas, matasse os que se lhe opuseram.Sempre, sempre sustentado pelas Forças Armadas, cortejado pelos monárquicos eabençoado pela Santa Madre Igreja. A sua filosofia era simples: tratar do “nosso casocomezinho”, sem olhar ao que se passava lá fora, de onde só poderiam vir más influências.Para tal, e paulatinamente, ele foi regulando, um a um, todos os sectores da vida dosportugueses: o trabalho, a religião, os tempos livres, os livros que se podia ler, asdistracções que o povo podia ter e as opiniões que podia exprimir. Sob o governo sábio deSalazar, as únicas preocupações que os portugueses deviam ter era trabalhar e obedecer àsleis do Estado. Se o fizessem, viveriam felizes e tranquilos para sempre - aquilo a queSalazar chamava “viver habitualmente”, o grande desígnio da nação portuguesa. Quanto àpolítica, Salazar explicara, num dos seus célebres discursos, o quanto os portugueses lheagradeciam não terem de se preocupar com o assunto: “O País, longa e duramenteexperimentado por estéreis lutas políticas, tem gozado, como o maior dom da Revolução,esta calma que lhe permite dedicar-se mais confiadamente à sua vida. Têm-se-lhe poupado,sempre que possível, os sobressaltos, as preocupações, as amarguras, e o seu espírito nãotem sido torturado com as nossas dúvidas e dificuldades.” Ele sozinho dispunha-se assim aarcar com esse patriótico sacrifício de pensar na política. Só havia um problema que Salazar
  • 96. reconhecia: “Esta aparente simplicidade da vida política criou em muitos a convicção deque também eram capazes de fazer assim...” Mas, justamente para esses ingénuos, quepoderiam ser levados a ver a sua obra como coisa banal, ele criara a censura à imprensa, aocinema que despontava, aos livros e a tudo o que cheirasse a arte, logo a subversão, e criaratambém a prisão do Aljube, onde todas as ilusões políticas fatalmente haveriam de morrer.Lá, no seu desterro alentejano onde vivera no último ano, sem voltar a pôr os pés emLisboa, Diogo não se dera conta de quanto a ditadura já tinha feito o seu caminho e seimplantara solidamente. No Alentejo, como no resto do país provinciano, a censura e apolícia política ainda não se haviam completamente instalado e a “ordem pública” eramantida pela GNR, uma força criada pela República, cujos chefes só agora estavam a sersistematicamente afastados e substituídos por outros que dessem garantias de adesão aonovo regime. Da capital à província, as coisas chegavam ainda muito lentamente, e sómesmo ao voltar a Lisboa e rever os amigos, ao ler a imprensa da capital e escutar asconversas de café, é que Diogo se foi aos poucos dando conta de um certo clima de medoe secretismo, um ar de asfixia geral e crescente, que se apoderara de toda a vida pública. Oscafés de Lisboa, onde antes do golpe de 1926 se conspirava todos os dias e abertamentecontra o governo em funções, eram agora lugares estranhos, onde ninguém levantava a voze todos pareciam observar-se mutuamente. Na imprensa, pontificavam os jornalistas comoAntónio Ferro, que defendia “uma política do espírito”, que pusesse Portugal “navanguarda do seu tempo”, e Manuel Múrias, mais singelamente obcecado com a lei eordem e o regresso aos valores sagrados e grandiosos do Portugal de Quinhentos. Mas,cada um à sua maneira, ambos se mostravam fascinados com a figura de Salazar, a sua“obra de reconstrução nacional” e o seu nacionalismo extremo. Ou com a figura de umcerto Marinetti, “futurista” italiano, grande propagandista e mentor do Duce Mussolini. E,se Ferro ansiava por trazer o “espírito” nacional para a causa de Salazar, dando ao regime achancela cultural e “modernista” que ele visionava - desde escritores como FernandoPessoa ou Teixeira de Pascoaes a pintores como Almada Negreiros, passando pelo balletclássico e pelos ranchos folclóricos -, já Múrias contentava-se em mandar calar os quedesalinhavam, fiel ao princípio, que doravante se tornaria doutrina, de que quem não estavacom Salazar estava contra a Pátria.Menos de quatro anos mais tarde, Ferro iria ser escolhido por Salazar para dirigir oentão criado Secretariado da Propaganda Nacional, onde a sua “política do espírito”poderia ser posta em prática, “para integrar Portugal na hora que passa” e “dar à vidanacional uma fachada impecável de bom gosto”. Havia, porém, uma limitação de que Ferrotrataria de dar publicamente conta, ao anunciar a criação dos prémios literários anuais do
  • 97. Secretariado: quem não concordasse com os “princípios morais” de Salazar só tinha “umcaminho a seguir: nao concorrer aos nossos prémios”. Isto porque, explicava ele, “comoescritor, podemos ler, admirar, certas obras literárias, inconformistas, que consideramosdissolventes e Perigosas, quanto mais fortes. Mas, como dirigente de um organismo que seenquadra dentro do Estado Novo, não podemos aceitar nem premiar tais obras”. Fernandolessoa, já então considerado o maior génio literário do seu tempo, parecia enquadrar-sebem. Logo em 1928, ele escrevera um polémico panfleto intitulado Interregno - Defesa eJustificação da Ditadura Militar em Portugal. E, assim, não admira que fosse dos primeirosa concorrer ao prémio criado pelo Secretariado de António Ferro. Ofereceu a concurso oseu livro de poesia Mensagem, um panegírico dos descobrimentos portugueses, de quemuitos poemas passariam de boca em boca e de geração em geração. Foi-lhe atribuído oprémio, mas apenas na “categoria B”, sob pretexto de que o livro tinha menos de cempáginas, mas na realidade para poder dar o prémio principal a um medíocre poeta cujoalinhamento com o regime era absoluto. Em textos subsequentes, Pessoa ridicularizara otal Marinetti, ídolo e inspirador de Ferro, e escreveria sobre Salazar: “Salazar é consideradoum grande ser, um homem de inteligência clara e de vontade firme. Não é lógico, mas éhumano, e entre os homens é o humano que vinga.” Daí em diante, o compagnon de routecalava-se e o poeta retirava-se para a sua luminosa solidão e para o seu obscuro ofício deescriturário, dedicando-se, nos intervalos, à escrita da mais extraordinária obra literária quePortugal alguma vez tivera. Já Pascoaes, longe no seu retiro habitual dos penedos da serrado Marão, haveria de comentar amargamente, olhando para a obra social do salazarismo:“Há dois problemas em Portugal: o dos que comem de mais e o dos que comem demenos.” Quanto a Almada Negreiros, fundador do futurismo português, admirado erespeitado por todos os intelectuais do seu tempo, fossem da situação ou da oposição, sópor intervenção de alguns fiéis do regime é que não veria, mais tarde, chumbado o seuprojecto dos frescos para a nova gare marítima de Lisboa, cujo motivo eram os emigrantesque embarcavam para longe. “Pertenço a uma geração construtiva” - escrevera Almada unsanos antes, profeticamente. “Não tenho culpa nenhuma de ter nascido português.” Poucoantes da instauração da ditadura, em pleno apogeu do caos republicano, Almadadesabafara: “Viver, eis o que é impossível em Portugal!” Segundo ele, a República “provaraa todos os cérebros conscientes a ruína da nossa raça”. E, por isso, escolhera exilar-se emMadrid. Mas, mais tarde, meditando no balanço entre o caos republicano e a ordem daditadura, ao lembrar “as agruras e sofrimentos” arrostados pelos artistas da sua geração,exclamava, desanimado: “Onde estão eles, hoje? Mortos uns, destroçados outros, asfixiadostodos!”
  • 98. De volta ao escritório de Francisco, na Praça da Figueira, após o magnífico almoçono Tavares Rico, Diogo acabava justamente de ler no jornal dessa manhã a frase de Salazarsobre o “viver habitualmente”, muito louvada pelo editorialista do jornal, como sínteseperfeita de todo um programa político, social e cultural, que continha em si a chavebastante da felicidade dos portugueses. Fechou o jornal, pensativo, acendendo um cigarrocujo fumo ficou a ver elevar-se em direcção ao tecto, como o Conde Zeppelin se elevarasobre o Terreiro do Paço, nessa manhã.- Francisco, diz-me uma coisa: tu achas que estes tipos vieram mesmo para ficar?Francisco virou a cara para olhar para ele e para o jornal que ele tinha pousado sobrea mesa.- Eu acho que sim, Diogo. Acho que o melhor é não termos ilusões sobre isso.- Mas porquê? Os portugueses livraram-se de uma ditadura e, menos de vinte anosdepois, já querem outra?- Infelizmente, meu caro...- Mas porquê, porque dizes tu isso?Francisco acendeu também um cigarro e veio sentar-se na poltrona de couro inglês,em frente à de Diogo.- Os republicanos andaram a brincar à política, Diogo. Talvez a Monarquia não fossemuito popular, quando a derrubaram em 1910. Mas duvido que a maioria do povoaprovasse o assassinato do Rei D. Carlos e do Príncipe herdeiro e a instauração daRepública. E digo-te isto, como republicano, que sempre fui, ao contrário de ti, que ésmonárquico...-... constitucionalista.- Sim, constitucionalista, claro, mas monárquico: acreditas que os Bragançasherdaram algum dom divino para governar Portugal. - E Francisco sorriu, trocista. - Mas,honra te seja feita, as ditaduras não fazem o teu fato, tal como a mim.- Mas - interrompeu Diogo, ignorando a provocação do amigo -, pelo que dizes,acreditas que a ditadura faz o fato do povo, dos portugueses...- Infelizmente, Diogo! Vou-te dizer uma coisa terrível, mas que é aquilo que penso edepois de muito meditar nisto, entre o amargurado e o conformado: acho que osportugueses não gostam o suficiente da liberdade para se importarem muito com aditadura. Desgraçadamente, não somos ingleses, nem sequer franceses! Nem ao menosespanhóis!- Francamente, Francisco! Nem pareces um republicano: pareces um monárquicoiluminado a falar do vil povo!
  • 99. - Não disse que era o vil povo, disse apenas que é o povo português, tal como o vejo:preferem a ordem à liberdade, preferem que alguém decida por eles, em vez do fardo deterem de ser eles a decidirem e a baterem-se pelo seu destino. E verdade que, tal como te iadizendo, os dezasseis anos de República contribuíram em muito para o descrédito dademocracia...- De facto, foi um caos...- Foi pior do que um caos, Diogo. Foi o triunfo da demagogia, da mediocridade, dooportunismo político, do caciquismo de aldeia, da instabilidade política constante e,finalmente e como era inevitável, da ruína económica do país. Como republicano, tenho deconfessar amargamente que só tenho uma resposta para a pergunta “O que deu aRepública a Portugal?” E a resposta é: “Nada.”- E o que lhes dá Salazar e a ditadura desses militares imbecis?- Coisas que, para ti e para mim, significam pouco, mas que para eles, os quesimplesmente lutam todos os dias para poder sustentar a família, significam muito mais doque a liberdade de poder ler jornais não visados pela censura: a paz, a tranquilidade, acerteza de que amanhã acordam e não há uma revolução nas ruas nem uma dívida urgentedo Estado que é preciso pagar com mais um imposto extraordinário.- E isso vale a liberdade?- Para eles, vale.- E para ti, Francisco?- Para mim, não. Mas eu não sou o povo: sou um privilegiado, como tu és.Diogo mexeu-se na poltrona, desconfortável. Voltou a acender o cigarro, que setinha apagado.- Francisco, esta conversa, para mim, é importante: sou novo de mais para meconformar com o “viver habitualmente”, de que fala o Salazar. A tua opinião conta muitopara mim e o que tu estás a dizer é grave. Estás a dizer que aquilo que para nós é essencial,que é a liberdade - a liberdade de se poder dizer o que se pensa, viver sem censura, sempolícia política, para o povo não é importante ou até é mesmo prejudicial?- É, é isso mesmo...- Então a liberdade, Francisco, é um privilégio de classe? As democracias são umgoverno de privilegiados?- Não: de países ricos, que nós não somos.Diogo levantou-se, começando a percorrer a sala em passadas nervosas. Falou, quaseexaltado com o amigo:
  • 100. - Francisco, eu conspirei contigo contra esta ditadura! Não foi um sport de Inverno,foi uma coisa convicta, um acto de consciência e de cidadania. Talvez nós sejamosprivilegiados, mas isso também acarreta obrigações: a de sermos, por exemplo, uma eliteque tem o dever de se bater pela liberdade e não deixar que o seu país se transforme numaditadura de gente que odeia a inteligência, a cultura, a coragem! O que tu estás a dizer - e euacredito que é o desespero que te leva a falar assim - é que aquilo em que nós acreditamos éum devaneio de gente rica e de países ricos.- Não, não é um devaneio. Mas também não é uma necessidade que eles sintam.- Então, é o quê, Francisco: um luxo? Quem não tem dinheiro não tem vícios, é issoque tu estás a dizer? Não basta aos pobres não terem pão, ainda têm de se conformar emnão ter liberdade?- Mas pode haver liberdade sem pão? Tu e eu almoçamos no Tavares Rico e custa-nos não haver liberdade para, no fim do almoço, com os brandies e os charutos, podermosdiscutir política livremente. Mas o problema deles é diferente: não são os brandies, nem oscharutos, nem a falta de liberdade - é o almoço. Acorda, Diogo: o mundo em que tu vivesnão é o mundo em que todos vivem!Diogo parou, estarrecido. De repente, foi como se tivesse tido uma revelação.- Francisco: sou teu amigo íntimo. Podes-me contar tudo, que eu nunca te trairia.Diz-me: viraste comunista?Francisco soltou uma gargalhada, e pareceu a Diogo que espontânea e sincera.- Não, podes crer que não. Se virar comunista, prometo avisar-te.- Então, viraste fascista? És mais um seduzido pelo “Estado Social” daquele palhaçodo Mussolini, aquela caricatura de imperador romano?- Também não, podes estar tranquilo. - E Francisco recostou-se para trás napoltrona, aparentemente tranquilo. - Limito-me a pensar contigo em voz alta o que muitasvezes tenho pensado para comigo: porque é que, e acredita que é verdade, a ditadura e oSalazar são populares entre tantos portugueses?- Queres que eu te diga porquê? - Diogo parecia agora mais relaxado. - Porque osportugueses não prestam! Aquele tão exaltado espírito de aventura e de coragem dosnavegadores de outrora morreu algures. Talvez na Índia, talvez em Alcácer-Quibir, talvezesgotado no Brasil. Mas aqui não ficou. Os portugueses de hoje não prestam! Gostam deobedecer e calar e só protestam pela calada ou a coberto do anonimato. Tu ouve-los falar,quando se juntam nos cafés em grupos de três ou quatro, e, para eles, todos os políticos epoderosos são uma cáfila, que eles estão prontos para enfrentar imediatamente, se ninguémos segurar. Mas, quando se encontram a sós e expostos, quando não há ninguém para fazer
  • 101. número com eles nem podem ficar protegidos pelo anonimato, não se atrevem nem aenfrentar a autoridade do polícia de turno!- É possível que tenhas razão... Bem, vamos tratar um bocado do nosso negócio e danossa sobrevivência?Diogo voltou a sentar-se, já mais calmo.- Sim, vamos a isso: vamos lá pôr em marcha o nosso projecto com o Brasil. Sempreé um horizonte bem mais vasto do que esta nossa pequenez lusitana!O negócio com o Brasil foi avançando a passos firmes e rápidos. A Atlântica C.a -Companhia Luso-Brasileira de Representações, Lda saiu do papel e ganhou vida numcartório notarial da Baixa, com um capital social de sessenta contos, integrado em partesiguais pelos seus dois sócios portugueses e o sócio alemão. Em meados do ano de 1930,quando os efeitos do estoiro da bolsa de Nova York, no ano anterior, se faziam sentir jáem toda a Europa e Estados Unidos, ocasionando um vendaval de falências de empresas eo correspondente exército de desempregados, eles arrancavam, confiantes em que o seunegócio de vaivém através do Atlântico Sul, porque era novo e porque era diferente,poderia escapar ao clima geral de pessimismo que se abatera sobre o mundo capitalista. Decerta forma, tinham razão para esse optimismo: o problema português não era o de falênciadas empresas, era o da inexistência de empresas. Os poucos que se aventuravam a criá-las,financiá-las e levá-las para o mercado aberto eram uma excepção numa classe empresarialque, como já era tradição vinda de muito atrás, não se atrevia sequer a existir sempreviamente garantir o favor do Estado. A grande aposta de Diogo e de Francisco erajustamente essa: nascer e sobreviver, talvez mesmo prosperar, sem mendigar os favorespolíticos e a protecção do regime. E, lenta mas firmemente, eles foram criando o seuespaço e fazendo os seus negócios: ao fim do primeiro ano, já ganhavam dinheiro, emboranada estivesse ainda consolidado.Por força da Atlântica, Diogo passara nesse ano mais tempo em Lisboa: pelo menos,uma ou duas semanas por mês. Mas continuavam a pertencer-lhe também as decisõesprincipais que tinham que ver com a parte agrícola de Valmonte: o que cultivar, quando eonde, que experiências fazer, que culturas abandonar, que técnicas utilizar. Aos poucos, foideixando cada vez mais, e com indisfarçável alívio, a gestão dos assuntos correntes daherdade a Pedro. Era este que geria o pessoal, distribuía as tarefas diárias, tratava do gado,vistoriava as cercas, os caminhos, as canadas de água, ordenava as obras necessárias,organizava as idas às feiras, tratava com os fornecedores e compradores.Entre Estremoz e Lisboa, Diogo estava dividido: queria ter um pé firme em Lisboa e,por isso, decidiu-se a abandonar as suas mordomias do Palace e a alugar uma casa na
  • 102. capital. Encontrou um amplo quarto andar na Rua das Janelas Verdes, com uma vistamagnífica sobre o Tejo e todos os navios que passavam a barra e vinham acostar à cidade.Não tinha um terraço aberto sobre o campo, como em Valmonte, mas tinha uma belavaranda sobre Lisboa, onde à noite se vinha sentar, fumando e bebendo o seu cognac,contemplando as luzes da cidade reflectidas nas águas paradas do Tejo. Trouxe umacozinheira de Estremoz e contratou também uma governanta que fazia igualmente o“serviço de fora”: a mesa, os quartos, a roupa, as limpezas. E começou a trazer tambémAmparo para organizar a vida doméstica.Amparo só tinha estado duas vezes em Lisboa: uma com os pais, durante dois dias,outra com a escola, durante outros dois dias. Vira os Jerónimos, a Torre de Belém, a Sé, oCastelo, Alfama, o Terreiro do Paço e o Chiado e não ficara com vontade de voltar. Lisboaparecia-lhe incompreensível e excessiva. Desde que se conhecia que tentara sempreaprender com o desconhecido e não se deixar nunca ficar de parte. Estudara, lera,aprendera, observara tudo, com atenção e inteligência. Com o casamento com Diogo, deraum salto muito para além do que as suas origens mais do que humildes permitiriam supor.Mas o mais longe que estava preparada para ir eram os domínios da herdade e a curta vidasocial de uma vila do Alentejo, com os seus rituais da missa de domingo, o baile do clube,as festas das duas feiras anuais e alguns jantares onde a sua beleza e juventude e o estatutode mulher de um Flores jogavam em sua defesa. Mas Lisboa era outra coisa. Sobretudo nosmeios que Diogo frequentava e onde tudo o que aprendera e lera lhe parecia ter semprecinquenta anos e três gerações de gosto em atraso. Onde Diogo se movia com naturalidade,ela movia-se com dificuldade. Ele, se quisesse e apenas se quisesse, podia até aparecervestido ao contrário da moda, sacar do bolso um canivete para cortar o laço de umembrulho a uma senhora, sentar-se ao contrário numa cadeira com um ar displicente. Tudoisso era visto naturalmente como os traços de identidade próprios de um fidalgo deprovíncia, com estudos feitos em Lisboa. Mas ela, não; a ela não lhe perdoavam umatoilette deslocada, uma frase imprevista, a troca de um talher ao jantar: era a “saloia”, a“cigana” de Estremoz que tinha seduzido o fidalgo, que com ela acabara por casar, à faltade melhor e de mais escolha local.Um dia foram jantar à Costa do Castelo, a casa de uma prima segunda de Diogo,casada com um marquês, sem outros préstimos conhecidos. Havia uns dez casais à mesa,numa imensa sala de jantar com as paredes forradas a azulejos azuis do século XVIII. Ageografia protocolar tinha-a deslocado para longe de Diogo, do lado oposto da extensamesa, e ela sentiu-se desde logo desprotegida, sem a sua presença por perto. Em vão,tentou várias vezes ao menos um olhar dele que a apoiasse, mas ele, como peixe na água,
  • 103. estava lançado em conversas e discussões apaixonadas com os seus parceiros de lado e eracomo se tivesse esquecido a presença dela e, de facto, tivesse vindo sozinho ao jantar.Amparo fixou-se no marido, embrenhado numa discussão com o seu vizinho, enquantoque, reparou ela, a senhora sentada à esquerda dele, o ia olhando cativada e, de vez emquando, lhe agarrava o pulso ou a mão, com toda a naturalidade e coquetterie. Amparoolhava-o, via-o bonito, novo, rico, inteligente, com aquele à-vontade que era uma das suasgrandes qualidades, de quem parecia estar sempre no seu mundo - fosse com ostrabalhadores da herdade, fosse com o marquês casado com a prima -, e deu consigo apensar: “O que acrescento eu à vida deste homem? O que perdia ele se não me tivesse amim?”Sentindo-se abandonada e sozinha, começou a olhar a toda a volta, tentando fixartudo, todos os pormenores, para lhes decifrar um sentido e extrair uma lição, como semprese tinha habituado a fazer. Mas havia ali, naquele ambiente, qualquer coisa que elapressentia, mas que lhe escapava. Havia a luz do fogo que ardia na lareira e que fazia dançaras figuras dos azulejos joaninos, que fazia brilhar a prata dos castiçais de velas, das travessase dos talheres, e que fazia cintilar um raio de luz no cristal dos copos ou nas jóias dassenhoras. Era uma atmosfera quente, confortável, um perfume flutuante de coisas quepareciam vir de muito longe e desafiar a eternidade. Sim, ela também tinha um anel deesmeraldas que Diogo lhe oferecera no primeiro aniversário do casamento; também haviatalheres de prata em Valmonte, que saíam dos armários da copa no Natal ou nos jantaresmais importantes; também havia uma lareira na sala de jantar, sempre acesa nas noites deInverno, e também ela espalhava calor e reflexos de luz à volta. Mas não era igual: havia ali,naquela casa, naquela gente, naquele jantar, qualquer coisa de mais sólido ou de maisarrogante, que ela não sabia dizer o que era. Como se todos eles se conhecessem há séculose estivessem a repetir um ritual mil vezes estabelecido, do qual apenas ela estava excluída.Mas o seu marido fazia parte deles.- Minha querida: os ovos não se comem com faca. – A senhora que lhe falou, sentadaem frente dela, lançou-lhe um sorrisinho trocista e o cavalheiro sentado ao lado da senhora,que toda a noite ainda não tirara os olhos do decote de Amparo, sorriu também, sentindo-se intimado a escolher o seu campo.Ela olhou a criatura de frente e não disse nada. Olhou-a apenas, sabendo que essa eraa sua única defesa. E, tal como esperava, a outra baixou os olhos. Mas não a língua: olhoupara o lado e comentou, como se não falasse com ninguém:- É muito nova ainda...
  • 104. Amparo continuou calada, não dando parte de achada. E foi o dono da casa, sentadotrês lugares à sua esquerda, que veio em seu auxílio:- Ah, mas a juventude não é nenhum defeito! Quanto mais não seja, sempre é umbálsamo para os olhos, sobre tudo quando vem de mãos dadas com a beleza! Não acha,minha querida Olga?- Sim, claro... Juventude e beleza! E isso a nossa... Amparo - é assim que se chama,não é...? -É.- ...isso a nossa Amparo tem, temos de concordar! Em Estremoz, deve ser obastante, suponho...E o dono da casa voltou em seu socorro (“Sempre serve para alguma coisa ummarquês”, pensou ela):- Em Estremoz e aqui também, digo eu. Juventude e beleza terão sempre indulgênciaplenária à minha mesa!E o marquês soltou uma gargalhada, satisfeito com a sua rima e com a sua verve.- Vamos embora, por favor, tira-me daqui! - sussurrou ela a Diogo, quando enfim selevantaram da mesa e ela se conseguiu aproximar dele.- Vá lá, querida, está um ambiente simpático e toda a gente me tem feito elogios a ti!Tenta tirar partido das coisas!Ela não teve tempo de responder. O marquês já o chamava em altos berros:- Diogo, vai um charuto?- Como não? Ora, o que temos aí? - E desapareceu, rumo à caixa de charutos, aosalão e à discussão política com os cavalheiros, deixando-a outra vez sozinha nas garras dassenhoras a quem a juventude já desertara e a beleza nunca chegara.Mas logo depois e ironicamente, as coisas alteraram-se. Um cavalheiro menos velho eoutro menos estúpido vieram sentar-se ao pé dela e, aparentemente, tinham um desejogenuíno de saber “como iam as coisas no campo”. Se havia futuro para a agricultura emPortugal e no Alentejo particularmente, se o investimento saía muito caro, se arentabilidade era boa, se a aposta na cultura intensiva do trigo nas extensas e quentesplanícies do Sul era bem ajuizada. E aí, para grande espanto dos cavalheiros, que se tinhamaproximado e puxado a conversa mais por mérito dos seus atributos à vista do que pelosseus presumidos conhecimentos na matéria, Amparo começou a debitar de sua ciência e desua experiência. E em breve tinha tomado conta da cena e formara-se uma pequena rodade circunstantes atentos às suas opiniões.Já Diogo estava num transe mais apertado. Debatia-se contra três convidados, que oatacavam à vez: um empresário de negócios com Angola que se dizia espoliado pela
  • 105. República, de rosto sanguíneo e os poucos cabelos brancos brilhando sobre o suor docrânio, um subsecretário de Estado do governo com o cabelo cuidadosamente penteadopara trás e acamado em brilhantina, um fato cinzento de riscas e um emblema do ColégioMilitar ao peito, e o próprio dono da casa, o marquês marido da sua prima, que era oparadigma da aristocracia afastada em 1910, com a implantação da República: tão poucodotado de inteligência quanto o era de boas maneiras e de pedigree familiar.- Aqui o meu primo - explicava o marquês aos outros dois - é um rapaz com ilusõesliberais. Ainda é muito novo para perceber o valor da ordem e da autoridade.- Não, não! - interrompeu Diogo. - Eu sei o valor da autoridade e compreendo aimportância da ordem. Só não sei é se a ditadura será ordem e se a autoridade que não élegitimada será autoridade ou prepotência.- Mas como legitimada, senhor engenheiro? - Era o subsecretário de Estado, de vozbaixinha e insinuante.- Como? Através de eleições, claro! Que outra forma há de legitimar a autoridade,nos tempos de hoje? Já não vivemos na Idade Média...- Ah, as eleições! - Era agora a vez do empresário africanista. - As eleições! A famosademocracia! Olhe o que se passa ali ao lado, em Espanha...- O que se passa em Espanha? Houve eleições, ganharam os republicanos e ossocialistas e há um governo legítimo em funções. Um governo escolhido pelo povo:conhece melhor alternativa para governar as nações?Diogo referia-se às eleições legislativas de 28 de Junho desse ano, 1931, que tinhamlevado a esquerda ao poder em Espanha, dois meses depois de outras eleições, asmunicipais, terem dado o golpe final na desacreditada Monarquia, forçando a partida para oexílio do desprestigiado Rei Afonso XIII e a proclamação pacífica da República. Nada quenão fosse previsível e que o filósofo Ortega y Gasset, grande referência intelectual daEspanha, havia prenunciado meses antes: “Delenda est monarchia!”- Ah, meu caro, desculpe que contrarie as suas ilusões: os republicanos e ossocialistas vão dar cabo da Espanha! Oiça o que lhe digo. - E o velho empresárioaproximou-se do ouvido de Diogo, salpicando-o com perdigotos de eloquência. - AEspanha vai-se dividir em duas e, no fim, os seus não vão ganhar!- Hão-de lamentar amargamente - interveio o subsecretário de Estado - terem postofim à ditadura provisória e esclarecida de Primo de Rivera. A verdade, verdadíssima, é quenunca, como com ele, a Espanha se desenvolveu e prosperou, e foi ele que pôs fim ao caose à anarquia e afastou o regime corrupto e incapaz do parlamentarismo democrático.
  • 106. - Ditadura provisória? E esclarecida? - contrapôs Diogo. - Quando ele tomou opoder (por golpe de Estado, note!), em 1923, declarou que era por quinze, vinte, trinta dias:e ficou lá mais de seis anos, até ser expulso por toda a intelectualidade de Espanha einclusivamente pelos próprios militares que lhe tinham servido o poder numa bandeja...Não sei se está a ver as semelhanças...?Fez-se um silêncio - provisório e esclarecido. Também a Ditadura Militar emPortugal se estabelecera provisoriamente, três anos depois da de Primo de Rivera emEspanha, e também tinha em comum com ela uma difusa ideologia que aliava a atracçãopelo fascismo italiano ao catolicismo social, resultando numa amálgama de Estadocorporativo, onde o antagonismo de classes e os conflitos sociais e diferenças políticastinham sido oficialmente banidos, “a bem da Nação”, que o governo representava. E, talcomo Salazar, também Primo de Rivera justificara o seu Directório Militar pelo imperativode “libertar a Pátria dos políticos profissionais... que ameaçam conduzir a Espanha a umfim trágico e desonroso”.- Está enganado, meu caro amigo. - O subsecretário de Estado continuava no seutom de voz baixo e melífluo que, por qualquer razão, provocava em Diogo uma sensaçãode perigo e desconforto. - Está redondamente enganado. Se Primo de Rivera governou emditadura esclarecida durante seis anos, foi porque o povo o quis. O povo sabia o que tinhasido o desastre do parlamentarismo democrático, essa falsa encenação de democraciafundada no caciquismo local dos partidos. A Espanha estava à beira da miséria e dadesagregação quando ele tomou o poder.- Mas, então - interrompeu-o Diogo -, porque caiu a sua ditadura esclarecida?- Essencialmente, por culpa do Rei e dos monárquicos, que - desculpe-me, senhormarquês, mas isto é a verdade histórica - chegavam a conspirar contra o governo com ospróprios inimigos da Monarquia. Coitados, esperavam sobreviver à queda de Primo deRivera, e foi o que se viu!- Foi tudo junto por água abaixo! - suspirou o marquês, com um ar triste.- Mas, se foi por água abaixo, é porque a Espanha não quis nem o Rei nem Primo deRivera - voltou Diogo à carga.- Não. - O subsecretário de Estado encarou-o com um olhar desafiador. - Porque ospovos são ingratos. Os espanhóis esqueceram-se do que viveram com a anarquia ditademocrática e agora resolveram voltar a ela. Hão-de arrepender-se mil vezes!- Isso é uma jura? - Diogo desafiava-o também.
  • 107. - Eu só juro por Deus e pela minha Pátria. Não, isto não é uma jura. Isto é umaprevisão do que vai acontecer em Espanha. E, ou me engano muito, ou não terá de esperarassim tanto para confirmar que eu tinha razão.- Ordem e autoridade, Diogo! Nenhum povo vive sem elas durante muito tempo.Chega uma altura em que todos os povos preferem a ordem sem liberdade à desordemcom democracia. - Era o empresário, agora, passando o braço por cima do ombro deDiogo em tom paternal.- Mas, se é assim, se acreditam mesmo nisso, porque não perguntam ao povo?Porque não vão a eleições?O subsecretário de Estado riu-se e, antes de mal-educadamente virar as costas àdiscussão, encarou Diogo e respondeu:- Já perguntámos: o povo responde todos os dias que está connosco.Diogo afastou-se também. Sentia a cabeça azoada, uma espécie de névoa que oimpedia de pensar claro. Olhou a sala e os circunstantes, que pareciam animados, seguros,descontraídos: aquela era a sua gente, de berço, de educação. E, todavia, era como sealguma coisa de irreconciliável o fizesse sentir distante deles. O marquês marido da primapassou por ele, segurou-lhe no braço e murmurou-lhe, em tom de amigo:- Diogo, tu és parvo ou fazes-te? Não sejas ingénuo nem infantil: não convémdesafiar estes tipos assim! Mais vale tê-los do nosso lado, e tu e os teus têm tudo a ganharcom este regime. Afinal de contas, tens uns milhares de hectares de terras a defender, lá noAlentejo, e de certeza que não queres comunistas por perto! Eu concordo contigo que estesfascistas não são gente muito agradável para se ter a jantar em casa, mas, que queres,sempre é melhor do que aqueles imbecis perigosos dos republicanos! Ou não achas?Ele não achava nada. Apressou as despedidas, ajudou Amparo a vestir o casaco àsaída, agradeceu o jantar à prima e ao marquês e, enquanto se dirigia para o Citroen,respirou o ar fresco do Outono em Lisboa. Não se viam estrelas no céu e havia umaatmosfera húmida anunciando chuva. Então ela enfiou o braço no dele, encostou-se aocorpo dele, e disse-lhe:- Diogo, leva-me embora daqui!- Vamos sim, querida, vamos embora daqui.- Vamos voltar para o monte. Aqui nenhum de nós vai ser feliz!Diogo parou um instante para a contemplar à luz fraca do candeeiro de iluminaçãopública. As primeiras gotas de chuva começaram a cair. Ela estava linda, como sempre. Opeito espreitava de dentro do decote do vestido de noite que ele lhe tinha comprado noParis em Lisboa, no Chiado, e os seus dentes brancos brilhavam na luz cinzenta da rua.
  • 108. Deu-lhe um intenso desejo do corpo dela e apressou o passo para o carro. Mas ela fê-loparar e olhá-la:- Promete-me que vamos embora! Que voltamos para o Alentejo e para sempre!- Não te prometo isso. Mas prometo-te que estou disposto a ir até onde for preciso,até ao fim do mundo, para me ver livre deste sufoco.
  • 109. VIIIMais do que as folhas do calendário, eram os sinais do campo, os sinais da casa, aforma como a luz do Sol entrava pelas portadas e desenhava sombras no soalho demadeira, ou a forma como a luz da Lua entrava pela janela do quarto à noite e vinhapousar-se ao lado da almofada, como se fosse um amante furtivo, que lhe davam a certezade que o Verão tinha chegado. Maria da Glória enchia a alma e o corpo com todos os sinaisdo Verão: o cheiro do mato e da bosta dos animais que se incrustava na cozinha, como seviesse agarrado às botas dos homens ou as saias das mulheres, o cheiro da horta - operfume do aipo, dos orégãos, dos coentros - que entrava à noite pelo quarto adentro e sejuntava à luz do luar para não a deixar adormecer em paz. Parecia que no Verão o seucorpo despertava de um longo torpor e que os pensamentos - essa yadia libertinagem docérebro - emergiam de uma hibernação que se lhe tinha tornado, desde a morte do marido,quase uma condição de sobrevivência. Seis anos passados desde que se vira viúva, aosquarenta e quatro anos, tinham-lhe ensinado que, se a cabeça estivesse ausente e o corpoadormecido, a vida podia ser vivida tranquilamente.Mas a chegada do Verão era terrível. Tudo despertava, a natureza inteira - e a suatambém. Sim, ela conhecia as regras do jogo e nunca lhes fora rebelde. Uma mulher,quando se casava, casava-se para sempre com o mesmo homem, o seu homem. Era-lhe fiele dedicada, enquanto ele fosse vivo, e era-lhe fiel e dedicada, mesmo depois de ele estarmorto. Por desgraça sua, vira-se viúva demasiado cedo, mas tanto fazia que tivesse sido aosquarenta e quatro como aos sessenta e quatro ou aos vinte e quatro: havia um papel, umafunção social e um estatuto estabelecido para as viúvas naquela sociedade onde tinha sidocriada, e ela sabia qual era e nunca, verdadeiramente, tinha desejado, nem no seu maisíntimo, pô-lo em causa. Mas isso era o que ela pensava e o que tinha aprendido ser justo.Outra coisa era o que o seu corpo pensava. E, mais do que uma vez (muitas, para vergonhasua!), não era a cabeça, mas sim o corpo que, de noite, deitada na cama além dela vazia, lheassaltava a determinação e a paz que o seu espírito buscava. E tudo era mil vezes pior noVerão, com a luz do luar ou o cheiro das ervas entrando pelo quarto adentro.Então, era aquilo a viuvez! Fazer de conta que não estremecia, fingir que nãopensava, esforçar-se por sentir apenas, nas noites de Inverno, o frio que dividia consigo a
  • 110. cama e não a ausência do homem que outrora a dividira, e, nas noites de Verão, convencer-se de que era so a natureza, lá fora, que acordava para a vida e não o seu corpo oficialmenteadormecido para todo o sempre! Os seis anos de viuvez foram deslizando, penosos, aolongo do seu corpo e dos seus pensamentos, correram devagar pelos seis Invernos e seisVerões que se tinham seguido e ela quase que conseguiria contá-los, dia por dia, como seobservasse a areia a escorrer por uma ampulheta. Cada dia, cada mês, cada ano a afastavammais do lugar onde tinha sepultado a sua juventude juntamente com o seu marido. Cadadia, cada mês, cada ano a aproximavam mais de um tempo que não tinha definição nemlógica, que ela não sabia onde arrumar, como organizar e enfrentar. E assim chegara aoscinquenta anos, sem saber o que fazer deles. Sem saber ao certo o que fazer da vida, daí emdiante.Esforçara-se por manter a casa em ordem, a vida de todos os dias em ordem. Passavaa maior parte das tardes e noites de Outono e Inverno na sua pequena salinha, junto àcopa, de onde podia ouvir o que se passava na cozinha, sentada à sua mesa de camilha, ospés enfiados na braseira sob a mesa, quando o frio das noites de Dezembro vinha arrepiarainda mais a sua solidão. E, sentada à mesa, escrevia distraídas cartas às amigas de Lisboaou do Porto, à sua antiga colega de escola Maria Carolina, que vivia em Faro, no Algarve, àstias e primos e sobrinhas, que algures viviam uma outra vida, tão diferente da sua, quemsabe, talvez ainda mais só. Ou, então, ncava horas a fazer paciências com as cartas, a pôrem ordem as contas da cozinha e do governo da casa que depois entregaria a Pedro, outão-somente a olhar para o fogo que ardia na pequena lareira da salinha e a comtemplar àdistância as fotografias de um outro tempo: ela Manuel Custódio no dia do seu casamento;ele junto à sua vaca preferida, a Ranhosa; ela com Diogo ao colo no dia do baptizado dele àsaída da capela do monte; ela no campo, vestida de ceifeira, com trinta e dois anos e um arde miúda feliz, rindo-se para o fotógrafo, como se não houvesse outra hipótese que não aeternidade da juventude.Ao longo de todos esses anos em Valmonte, ela aprendera a ver o tempo escoar-seao seu próprio ritmo, que, como se sabe, nunca é igual ao longo da vida, e aprenderatambém que tudo se pode perder de um instante para o outro, tanto a tristeza como afelicidade. E assim os anos foram passando, escorrendo ao longo da vidraça da janela dasalinha onde ela se sentava, de costas voltadas para fora, de modo a que a luz incidissesobre aquilo que tinha em mãos. Houve dias luminosos, como os anos de juventude, emque a luz cegava de tão intensa. Houve dias de uma luz ténue e coada, como os anos dematuridade, com um rasto de poeira suspensa no raio oblíquo do Sol, que penetravaatravés da janela e deixava no ar lembranças, sorrisos distantes, nostalgias ainda por
  • 111. arquivar. Houve dias sombrios, de uma ausência de luz pesada e absoluta, que no seuespírito se confundiam com as tragédias e os desgostos que tinham assombrado a casa. Ehouve dias molhados, com o vidro encharcado de grossas lágrimas de chuva que escorriamlivremente até secarem de cansaço junto à madeira gasta do caixilho. E havia, agora, estesdias de névoa, estes anos cinzentos de viuvez, em que a própria vida parecia esperar que elalhe desse um destino.Sim, mantivera a casa a funcionar, como se nada fosse: no Outono faziam-se ascompotas, recolhiam-se as pinhas, enceravam-se os soalhos; no Natal cortava um pinheiroe fazia a árvore na sala de visitas, colhia musgo e fazia o presépio, com pedras e lagos deágua verdadeira, como se os filhos ainda fossem crianças, e mandava cobrir as árvores dopomar com os seus vestidos de palha para que as geadas as não secassem; na Primaveralimpava a casa de alto a baixo e fazia barrelas na ribeira para as roupas da casa, vigiava aarrecadação do grão, do feijão, do café e das ervas secas nas gavetas fundas do imensoarmário da copa a que chamavam “mercearia”; e no Verão ocupava-se da horta de cheiros,da capoeira, das caiações da casa, pincelando a cal fresca as marcas do fumo das lareiras naparede. Mantivera tudo como desde sempre, sabendo bem que era isso que todos - os seusfilhos, as suas empregadas, as visitas da casa - esperavam dela. Como se nada de importantetivesse mudado - apenas o lugar vazio na cama ao seu lado. Amparo viera, porém, mudaralgumas coisas. Não a rotina das coisas, mas a alegria das coisas. Tinha, como Maria daGlória, aquela mistura de dever e de satisfação em fazer com que tudo funcionasse comodevia ser, em Valmonte. Mas tinha também uma alegria de jovem casada que em Maria daGlória já não fazia sentido. Amparo tinha tido a delicadeza e a sensibilidade de fingir queaprendia com ela - e muitas coisas aprendia, mas o essencial ela sabia-o, ou por experiênciaou por intuição. Não tinha tido a presunção de ocupar o lugar de Maria da Glória naorganização doméstica da casa, não dava ordens às criadas que contrariassem as dela ouque se lhes antecipassem, nao reivindicava o mérito daquilo que tinha feito por si, Pelocontrário, deixava que Diogo e Pedro pensassem que, como sempre, tudo era obra edecisão da mãe.Ao princípio, Maria da Glória pensara que aquela atitude era uma estratégia cautelosada nora. Mas depois percebera que ela era genuína: não aspirava a roubar-lhe o lugar, fosseele qual fosse, apenas desejava verdadeiramente ser aceite, ser útil, retribuir o tanto quetinha recebido pelo seu casamento com Diogo. Era uma rapariga vinda da pobreza que seesforçava por merecer o que tinha conquistado. E, aos poucos, em silêncio edisfarçadamente, Maria da Glória foi-lhe cedendo espaço, importância e responsabilidades.E quando, por vezes ao jantar, os filhos lhe gabavam a cozinha, ela respondia naturalmente:
  • 112. - Não fui eu que estive na cozinha: foi a Amparo.E agora, sentada naquela noite de Junho na varanda sob o alpendre, ouvindo todosos sons nocturnos que só no Verão se ouviam tão nítidos, ela escutava também o choro dobebé, que vinha do quarto de Amparo e de Diogo. O seu primeiro neto: nascido emValmonte, como convinha a um Flores, e baptizado com o nome de Manuel, como o avô.E pensava que a vida é mesmo assim: uns que morrem, outros que nascem, coisas queacabam e outras que começam. A continuidade das coisas, a lei da natureza. Ali estava umManuel Flores, seu neto, seis anos depois de outro Manuel Flores, seu marido, a terdeixado como que apeada em vida. Fechava-se um ciclo, fechava-se o seu tempo deinterregno, acabava o seu estatuto de viúva sem sentido para a vida, as suas noites deangústia, as exigências do corpo que a sobressaltavam e envergonhavam perante si mesma:agora era avó. Qualquer coisa tinha acabado para que outra começasse. Mas porque é queagora, ali, naquela noite de Junho que lhe trazia à memória tantas outras noites mágicas deJunho - quando, sentada no mesmo lugar, conseguia aspirar o perfume a homem do seuhomem e olhava disfarçadamente o seu corpo de felino em repouso que, logo depois emais tarde, poderia ser seu e por ela desfrutado -, porque é que agora sentia realmente quequalquer coisa tinha acabado, mas não conseguia sentir que qualquer coisa de igualmenteimportante tinha começado?Levantou-se e olhou as estrelas que brilhavam como diamantes na noite limpa. Umavez, lembrou-se, sentada ali mesmo com Manuel Custódio, numa ocasião em que ele estavaparticularmente feliz e terno, como nem sequer era seu hábito, ele tinha-se levantadotambém para olhar as estrelas. E, então (estava a vê-lo como se fosse agora, a camisabranca brilhando na escuridão, o corpo seco e ligeiramente curvado como um tronco desalgueiro), ele virou-se e disse:- Quando eu morrer, vou ficar lá em cima, sentado numa estrela, a olhar para ti e atomar conta de ti.Um berro do seu neto despertou-a das recordações. Sentiu um inesperado arrepio defrio na noite quente de Junho e aconchegou o xaile aos ombros. Virou costas às estrelas eentrou dentro de casa, para onde a chamava um choro de criança.A paternidade trouxera alguma calma a Diogo, a sua ansiedade habitual recuara, osufoco ganhara mais ar para espirar - mesmo a política e o estado do país, que sempre oocupavam e consumiam, tinham como que passado para segundo plano. Nas suas visitas aLisboa para tratar dos negócios da empresa, que agora se tinham tornado mais dispersas,descobrira uma paixão recente: o cinema. Quase todos os meses abria uma nova sala nacapital e Diogo já as conhecia todas: o Roxy, o Rex, o Chiado Ter-rasse, o Éden, o
  • 113. Politeama, etc, etc, um nunca mais acabar de salas que todos os dias anunciavam nosjornais as suas matinées com dois filmes e as suas soirées - desde as populares até às maissofisticadas. O Royal Cine, no bairro da Graça, estreara o primeiro filme sonoro exibidoem Portugal: Sombras Brancas nos Mares do Sul, de W. S. Van Dyke. Tinham sidosemanas de sala esgotada, com intermináveis filas de gente que se sentava nas cadeiras depalhinha para assistir àquele milagre do cinema em que os actores falavam e o som erasíncrono com a imagem. Logo depois, era a vez de o S. Luiz estrear o primeiro filmesonoro português: A Severa, de Leitão de Barros. “Ir ao sonoro” transformou-se mesmonuma expressão corrente e popular, que abarcava o que de mais chie podia haver comoprograma nocturno. Toda a gente previa que o cinema tinha vindo para ficar, paradestronar o teatro e a ópera, e os mais futuristas previam até o dia em que os filmes seriama cores no ecrã.Lisboa, à semelhança de várias outras cidades europeias, concentrava o grosso da suavida intelectual nas tertúlias dos cafés: A Brasileira, do Chiado, que servira já de cenário agerações de escritores, pintores, actores; o Nicola, no Rossio, ou o Martinho da Arcada,onde Fernando Pessoa parava habitualmente, numa discreta mesa de canto. Diogo cruzara-se várias vezes com a que era então a elite cultural do seu tempo, conhecera alguns delespessoalmente, conversara, discutira com eles. Constatou que muito poucos pareciam darimportância à censura, aos jornais controlados, aos livros banidos, às peças de teatro e aosfilmes cortados ou simplesmente proibidos. Era como se houvesse coisas mais importantesa discutir e a fazer, ou como se o talento que mostravam fosse superior e indiferente àsvárias formas que a ditadura tinha de o vigiar e de assegurar que ele não fosse posto aoserviço de “ideias subversivas”. Muitos, como o próprio Almada, trabalhavam aliás para oEstado Novo, como arquitectos, escultores, ceramistas ou propagandistas da escrita.Parecia até haver, entre os que não se tinham exilado, uma divisão de águas que seestabelecia, não pela política, mas pelo talento: com raras excepções, os que tinham talentonão se importavam com a ditadura; e os que se importavam não tinham talento.Se eles podiam ser vistos como um espelho do sentimento do país, então,aparentemente, os portugueses estavam conformados com a ditadura. No ano anterior,1931, tinham estalado, na Madeira e Açores e depois em Lisboa, com cinco meses deintervalo, duas revoltas militares facilmente sufocadas pelo regime e que, tudo o indicava,tinham sido o estertor final do reviralhismo republicano. A revolta em alguns quartéis deLisboa durara apenas um dia de Agosto e terminara com 40 mortos, 200 feridos e mais 600prisioneiros políticos que, uma semana depois, sem julgamento nem despedida das famílias,eram embarcados a caminho da deportação. Só que, desta vez e avisadamente, foram
  • 114. mandados Para bem mais longe do que a ilha da Madeira ou as de S. Tomé e Príncipe:foram enviados para a ilha de Timor, a norte da Austrália, a mais remota possessãoportuguesa no mapa-mundo.Passo a passo, a ditadura instalava-se. Nem a crise económica importada do crashnova-iorquino de 1929, que, entre outras coisas, fizera subir o preço do trigo e do pão edisparara o número de desempregados, abalara a solidez do regime. A única ameaça sériaao regime vinha agora da República espanhola, instalada do lado de lá da fronteira e cujocontágio e capacidade de exportar a destabilização política muito se temiam. Os doisvizinhos ibéricos viviam um curioso intercâmbio: enquanto os republicanos e socialistasespanhóis davam abrigo aos oposicionistas portugueses exilados, do lado portuguêsacolhiam-se os exilados espanhóis anti-republicanos. O chefe destes era o general Sanjurjo,que iria viver para o Estoril, a “Riviera portuguesa”, onde montaria quartel-general. Aliás,para grande escândalo do embaixador da República Espanhola em Lisboa, Sánchez-Albornoz, que se queixava de que o general Sanjurjo recebia e conspirava livremente comos seus conterrâneos que o visitavam e parecia até ser acolhido com especial deferênciapelas autoridades portuguesas, sendo convidado habitual dos principais acontecimentosmundanos, como os banquetes e bailes do recém-inaugurado Casino do Estoril, uma dasobras emblemáticas do novo regime. Com o decorrer dos anos, aliás, o Estoril tornar-se-iaterra de acolhimento de vários refugiados políticos de diversas proveniências enacionalidades, com especial predominância de reis sem trono, caudilhos sem povo egenerais sem ditadura.Em 1932, inevitavelmente, Salazar chegara ao lugar supremo: presidente do Conselhode Ministros. E verdade que, acima dele e nominalmente, havia o Presidente da República,mas os poderes deste, que a Constituição de 1933 confirmaria, haviam sidovoluntariamente esvaziados de qualquer conteúdo efectivo e reduzidos a funçõesprotocolares. Quem mandava, governava, punha e dispunha de tudo livremente era opresidente do Conselho: Salazar. Logo no discurso da tomada de posse, a 5 de Julho,anunciou as regras do jogo: ali chegado, não havia mais amigos nem aliados. Era ele, oExército, que lá o colocara e o deveria manter, e Deus, que o destinara para aquela missãode sacrifício. Aos capitalistas, que nele tinham saudado o homem que restabelecera acredibilidade das Finanças Públicas e afastara o temor do comunismo, Salazar avisava quetoda a iniciativa privada dependia do favor e das boas graças do Estado - no que, aliás, selimitava a reproduzir o que fora, durante séculos, a história da iniciativa privada portuguesa,desde o tempo das Descobertas, pelo menos. Aos operários, trabalhadores e camponeses,que, nos tempos difíceis que se viviam, a prudência aconselhava a não hostilizar, ele
  • 115. oferecia o Estado Social Corporativo, onde as lutas de classe desapareciam a favor dobenefício de todos, pois que, reflectia ele, sem sombra de ironia, “não seria justo fazer dooperariado uma classe privilegiada”. Aos monárquicos, que tao entusiasticamente haviamapoiado a sua ascensão ao poder, vendo nele o homem que afastara de vez o pesadelorepublicano e que, mais dia menos dia, restabeleceria a velha, boa e tradicional Monarquiaportuguesa, Salazar aplicava candidamente que era uma pena que o destino tivesse levadotão cedo o Rei D. Manuel II - que morara, sem descendentes, apenas três dias antes, no seuexílio em Londres, para onde se havia retirado assim que a República o afastou do trono,em 1910. Sem querer alienar desde logo o apoio monárquico, Salazar não fechava a portaàs suas pretensões, mas também não tinha uma palavra sobre elas. Não podendo ignorarque havia um pretendente designado pelos monárquicos ao trono de Portugal - onotoriamente incapaz D. Duarte Nuno de Bragança -, o primeiro-ministro limitava-se aexaltar as qualidades do rei que já não o podia ser, lamentando que a morte o tivesselevado, e abstinha-se de qualquer referência ao candidato que o queria ser. E, com essaambiguidade, entreteria os monárquicos daí em diante. Relativamente à Igreja Católica, quetivera um papel preponderante na sua carreira até ao topo, através da acção política dosCentros Católicos onde ele próprio militara, Salazar dava ordem de missão cumprida eretirada de cena: o lugar da Igreja, dizia ele agora com todo o cinismo, não é na política.Enfim, restavam as Forças Armadas e, porque eram forças e porque eram armadas, Salazarreservava para elas todos os encómios e a promessa de todas as atenções e mordomias. Asua própria sobrevivência e a do regime dependiam delas e, por isso, a sua política, aqui, eraclara e iria sê-lo cada vez mais: tudo o que pedissem, ele dava; excepto o poder, que elastinham acabado de lhe dar.O regime adoptara o nome oficial de Estado Novo e criara o seu próprio partidopolítico - a União Nacional - aliás, único consentido e único com sentido, visto que nelecabiam “todos os portugueses de bem que amam a sua Pátria”. Por todo o paísorganizavam-se as estruturas distritais e concelhias da União Nacional, com todos os“homens de bem” das terras.A Estremoz, a União Nacional chegou logo em 1932 e Pedro foi um dos primeiros ainscrever-se, dos primeiros a contribuir financeiramente, dos primeiros a tornar-se assíduodas suas reuniões e comícios. Ao contrário de Diogo, que, depois do nascimento do filho,como que se tinha desinteressado das outras coisas, recolhido a um universo de fraldas,biberões, pó de talco e sussurros de mulheres pelas madrugadas adentro, Pedro estavapossuído de uma febre de agitação e vida que não o deixava quieto. Com o advento daRepública espanhola e depois da Feira de Sevilha de Abril, a que nunca faltava, tinha
  • 116. interrompido as suas frequentes visitas à Andaluzia, para as touradas e para as farras deamigos em todas as tascas e bordéis dos pueblos que conhecia como a palma das suasmãos. Agora embrenhara-se na política - tanto a espanhola como a portuguesa - e eram osseus amigos espanhóis que vinham visitá-lo com frequência. Mas eram mais reuniõesconspirativas do que encontros de amigos. Às vezes, ao jantar, ele anunciava:- Mãe, vêm aí uns amigos meus, depois do jantar. E, assim que eles chegavam,enfiavam-se todos no antigo escritório do pai, que em breve estava submerso no fumo doscigarros e dos puros formando uma nuvem cinzenta que flutuava ao lado das lombadas doslivros que Manuel Custódio havia conscienciosamente encadernado e arrumado, raramenteencontrando tempo para os ler. Numa dessas noites, quando estava reunido com dois dosseus amigos de Sevilha, abriu-se a porta e eles depararam com a cara de Diogo espreitando,de cabelos desalinhados e olhos vermelhos de mais uma madrugada sem dormir, ao lado dobebé.Ouvindo as vozes na biblioteca, Diogo viera em busca de uma bebida e de umaconversa de circunstância que o distraísse daquelas noites de terror ao lado do berço dofilho, que Amparo não deixava de forma alguma que dormisse fora do quarto, entregue auma ama ou a uma criada. Quando entrou na biblioteca, a primeira coisa que Diogoreparou foi nos dois espanhóis, de camisa azul-escura, os cabelos escrupulosamenteacamados em brilhantina, um dos quais fumava um cigarro na ponta de uma longaboquilha de prata e marfim.- Ah, Diogo, jovem pai! Entra! - exclamou Pedro, apresentando-o à roda, com umgesto circular da mão.- Este é o meu irmão mais velho: acaba de ser pai e está retirado da política.Felizmente...Diogo ignorou a ironia da frase do irmão. Estava demasiado cansado para pensarnisso. Ouviu as apresentações, apertou as mãos que se lhe estenderam e perguntou, semverdadeiro interesse na resposta:- Então, que assunto determinante os mantém aqui acordados, a esta hora damadrugada, em lugar de se estarem a divertir por aí, na palpitante noite de Estremoz?Um dos espanhóis olhou-o fixamente, como se o interpelasse:- Hablamos de España.- Ah, sim? - Diogo serviu-se de um brandy com gelo.- Qué pasa en Espana?O outro espanhol chegou-se à frente e só então Diogo reparou que ele tinharealmente um ar sinistro:
  • 117. - Cómo qué pasa? Pasa que los anarquistas, los comunistas y los socialistas y republicanos estándestruyendo a Espana. Y después, va a seguirse Portugal!- Sí, destruyendo? - Diogo continuava com um ar entre o cansaço e o desinteresse.Os dois espanhóis entreolharam-se e procuraram silenciosamente a ajuda de Pedro.- Ah, o meu irmão anda fora do mundo! E, pensando bem, é melhor assim: antesdisso, andava fora da realidade...Diogo estava a começar a sentir-se irritado e a atitude condescendente de Pedroainda mais o enervava.- Não, eu não estou nem fora do mundo, nem fora da realidade, meu querido irmão:ainda leio jornais. E, tanto quanto sei, a Espanha é governada por um governo legítimo,que ganhou eleições e que foi escolhido pelo povo: ao contrário do nosso, que resultou deum golpe militar e que ninguém escolheu. Estarei enganado?Fez-se um silêncio embaraçado. Ninguém parecia com vontade ou presença deespírito para resolver aquele incómodo causado pela súbita aparição de Diogo. Finalmente,foi o primeiro dos espanhóis que havia falado, e que parecia o mais velho, que quebrou osilêncio, com uma voz rouca mas que se esforçava por soar delicada:- D. Diogo, nosotros no lo vemos así. Y la mitad buena de Espana tampoco. Llegará el tiempo deescoger - allí, como aqui. Y yo creo, sinceramente, que los Flores, de Estremoz, estarán en el mismo campo.El campo dei honor, de los valores cristianos y...- De la Pátria! - concluiu Diogo, levantando o copo, como se brindasse.- Exactamente.Diogo sorriu e pousou o copo. Pensando bem, disse Para consigo, cheirava melhorno quarto, com o cheiro a fraldas sujas do seu filho Manuel, do que ali. Fez uma saudaçãode cabeça e, antes de virar costas, deixou cair, em forma de despedida:-Si, nos veremos por ahí... Los que no mueren se encuentran.Mas Diogo não estava retirado do mundo, ao contrário do que dissera Pedro. Tinhatornado mais esparsas as suas idas a Lisboa, tinha decidido tentar viver o seu papel de pai -tendo de escolher entre ser posto de lado ou compartilhá-lo com Amparo - e tinha feitoum esforço para não procurar nem alimentar tantas discussões políticas, respeitando o queconcluíra ser o sentimento de conformismo dominante entre os portugueses, em relação aoestado de coisas. Mas continuava a dar os seus longos passeios a pé ou a cavalo, com ousem Amparo, quando estava na herdade, e continuava a seguir de perto os assuntosreferentes à sua exploração. Sentava-se muitas vezes à noite, na salinha da mãe, para jogarcartas com ela ou ficar apenas à conversa, ou mesmo calados, olhando ambos o fogo queardia na lareira: sempre se tinham entendido bem um com o outro, assim em silêncio. E
  • 118. criara outros interesses: o cinema, quando estava em Lisboa, ou a leitura minuciosa dalllustrated Lon-don News, uma revista inglesa cuja assinatura fizera e que recebiasemanalmente em Valmonte, permitindo-lhe estar a par de tudo o que se passava nomundo - ou, ao menos, no mundo britânico - e dar cartas no Café Central de Estremoz,nas tertúlias de domingo de manhã ou das noites de quinta-feira.Era uma tertúlia de amigos, sete ou oito, que vinha desde os tempos do liceu e que seestabelecera exactamente para os manter em contacto, depois que a Universidade, oscasamentos, o trabalho e a política os tinham separado. O seu melhor amigo desse grupoera Rafael Monteiro, o mais culto e o mais alegre deles todos. Acabado o liceu, em Évora,onde tinham andado juntos, Diogo fora estudar Agronomia para Lisboa, e Rafael fora paraCoimbra estudar Direito. No regresso, já advogado, montara banca em Estremoz, mesmona Praça Central, e em breve começara a criar fama e clientela na cidade e à sua volta: emMora, Arraiolos, Elvas, Évora, Montemor. Tanto defendia pobres como ricos, inocentescomo criminosos, casos de terras como crimes, republicanos como salazaristas. Dizia-seque levava caro aos ricos e grátis aos pobres, mas todos concordavam que tê-lo do seu ladoem tribunal era uma vantagem à partida, porque na barra o seu estilo era mortífero, como oda serpente: podia passar um julgamento inteiro com um ar desinteressado e ausente, mas,assim que o adversário ou as testemunhas contrárias abriam o flanco, saltava em cima delese arrasava-os. E, para o final, guardava o seu melhor: as alegações, onde juntava a umalógica argumentativa demolidora uma selecção cuidada de referências e citações de toda aordem, que revelavam a sua grande cultura e deixavam a audiência presa das suas palavras eos juízes impressionados com o alto nível da sua litigância. Fora do escritório e do tribunal,Rafael tinha ainda a grande qualidade de ser outra pessoa. Jamais falava de direito ou davida profissional, falava, sim, de tudo o resto: de cubismo e de Picasso, de Roosevelt e doNew Deal, das nacionalidades espanholas, das modas das senhoras de Paris, da Guerra daManchúria ou, acima de tudo, da sua grande paixão: a aviação. Ao ouvi-lo discorrerlongamente sobre todos os assuntos à mesa do café, ao prestar atenção às suas ideiassempre anticonvencionais, ninguém diria estar perante um homem de leis, antes umanarquista sem causa certa. Tirando uma: tal como Diogo, era abertamente contra osalazarismo e não se esforçava por escondê-lo.Casara-se com uma rapariga do Norte, que havia conhecido na Universidade, emCoimbra. Ao fim de quatro anos de casados, não tinham filhos e todos os Verões, quandoos tribunais fechavam para férias de Junho a Outubro, ele pegava na mulher e ia viajar:tinha estado em sítios tão extraordinários como o Egipto, Malta, a Turquia, a Finlândia ouVilnius, na Lituânia. Também o seu casamento era sui generis, para os padrões da época:
  • 119. Luísa, a sua mulher, discutia de igual para igual com ele, saía sozinha à noite e ia sentar-seno café a ler um jornal e a beber whisky irlandês que encomendava especialmente. Volta emeia, desaparecia para temporadas em Lisboa, de onde regressava esfuziante, passeando noRocio de Estremoz as últimas criações da moda, compradas no Chiado e na Baixa.Um domingo de manhã, estavam sentados os três numa mesa de canto do CaféCentral - Luísa, Rafael e Diogo - bebendo vinho branco, acompanhado de torresmos.Diogo fazia horas para se encontrar com Amparo, que deixara na missa das onze - umritual familiar, que ele, todavia, não cumpria nem se preocupava que ela cumprisse. JáRafael e Luísa, como toda a vila sabia, não só não iam à missa, como nem sequer, paragrande escândalo local, se tinham chegado a casar na Igreja. Diogo estava bem-disposto,reconfortado por um sol outonal que entrava pela janela do café e o aquecia do outro ladodo vidro.- Que fazes hoje, Rafael?- Ah, hoje é um dia especial: vou a Évora, para a viagem inaugural do meu novoavião, que chegou há quinze dias dos Estados Unidos e só ontem é que ficou montado epronto. A Luísa não quer vir comigo, quererás tu vir?- Eu? Eu nunca andei de avião, Rafael! Não estou preparado para uma coisa dessas!Tinha de pensar muito nisso, preparar-me psicologicamente, fazer testamento, despedir-meda Amparo, não fosse o Diabo tecê-las...- Não, Diogo, não é nada disso! Todas as primeiras vezes têm de ser sem preparação.Olha, vou dizer-te o que deves fazer: não dizes nada à Amparo que vais andar de aviãocomigo. Diz-lhe que vamos almoçar a Évora por qualquer razão e, quando lá chegares,sobes para bordo e fechas os olhos: o resto é comigo! Aceitas?- Aceito! - E Diogo fechou os olhos, rindo-se.- Ah, grande homem! Quando aterrares, já não vais ser o mesmo! - comentou Luísa,agarrando-lhe o braço.E assim foi. Chegados ao aeródromo de Évora, Diogo sentia-se um autómato, nãoacreditando que se tivesse voluntariado para aquilo e que dentro em breve estivesse a voar.A voar!- Ele ali está: que coisa mais linda, é ou não é? - E Rafael apontava para um pequenoavião de dois lugares, de carlinga pintada de azul e as asas e a cauda pintadas de amarelo.Um biplano aberto de dois lugares e uma hélice à frente, que parecia saído das trincheirasda Flandres e da Primeira Guerra Mundial.- Que avião é este? - perguntou Diogo, profundamente desconfiado.
  • 120. - Isto, meu caro amigo, é um Curtiss P-l, um modelo de 1925, conhecido comoHawk - o “Falcão” -, com o qual o Doolittle conseguiu fazer o primeiro voo invertido dahistória da aviação e ganhou a Taça Schneider!- O que é um voo invertido?- De cabeça para baixo.- Ah...- Não te assustes: ainda não estou em condições de o experimentar.Diogo quedou-se a olhar para o avião, aterrorizado.- Quem é que fez isto?- Os americanos: a melhor coisa que eles fizeram desde os filmes de cowboyslMandei vir este de Detroit, esteve ao serviço da US Navy, antes de ser licenciado comoavião civil.- E como é que tu sabes que está em condições de voar?- É suposto. - E Rafael sorriu, dando-lhe uma palmada no ombro. - Mas isso, meucaro baptizado, só lá em cima é que vamos ter a certeza!Diogo subiu em silêncio para o lugar da frente, o do passageiro. Ouviu o motor apegar e as asas do avião a estremecer, viu um mecânico tirar os calços de baixo das rodas,ouviu a aceleração do motor e sentiu o avião começar a mover-se e dirigir-se para o inícioda pista de descolagem. Houve um chiar de travões e a asa esquerda rodoo sobre si mesma,alinhando o avião com a pista. Ficaram assim um bocado e ele pensou por instantes quehavia algum problema mecânico e que Rafael tinha decidido abortar o voo. Mas logodepois escutou o ruído tremendo do motor em aceleração máxima e foi abanado pela forçacom que toda a estrutura do frágil Curtiss estremecia, como se se fosse desintegrar, peçasobre peça. Sentiu a mão de Rafael, sentado atrás dele, que pousava, tranquilizadora, sobreo seu ombro, e no segundo seguinte começaram a rodar na pista, em direcção às árvores,no fim dela. Rodaram e rodaram e rodaram, no que lhe pareceu uma eternidade, demasiadolonga e demasiado lenta. Se bem que aquela fosse a primeira vez que voava, Diogopercebeu instintivamente que, àquela velocidade, não conseguiriam descolar do chão antesde atingirem as árvores. Mas, assim que o percebeu, realizou logo também que já nãotinham espaço para conseguir travar antes delas: não havia escapatória. “Que estúpido queeu fui! E com um filho de meses!”, pensou, antes de se preparar para morrer de encontroàs árvores. Fechou os olhos e encostou-se para trás, à espera do choque.E, imediatamente a seguir, estava morto: sentiu que se elevava da terra, de todas aspreocupações do mundo, de todas as coisas boas e más da vida. Levitava acima de tudoisso. Era assim a morte: uma partida suave da terra, elevando-se lenta, mas definitivamente,
  • 121. acima da vida, fora dela, para além dela. Abriu os olhos: o Curtiss inclinava-se suavementesobre a asa direita, lá em baixo viu a pista, surpreendentemente longe e minúscula, e, para ládela, campos e campos de sobreiros a perder de vista e, mais além ainda, um rio que corriaentre searas de milho e casinhas brancas, absurdamente pequenas. Olhou para cima,quando o avião se endireitou, e viu que uma nuvem branca vinha em grande velocidade emdirecção a eles, como se os quisesse abraçar e dar-lhes as boas-vindas lá em cima. Então,virou-se para trás e viu que Rafael lhe sorria, com um olhar feliz e tranquilo por detrás dosóculos de voo. Fez-lhe um sinal com a mão, de polegar para cima, e ele sorriu também.Recostou-se no assento e abriu a boca para engolir o ar. Rafael puxou o manche para si e,com um ligeiro safanão, o Curtiss subiu ainda mais, pulando sobre a nuvem e apontando onariz em direcção ao céu. No lugar da frente, Diogo abriu os braços, como se quisesse voarsozinho, e inclinou-se fazendo o gesto de curvar sobre a direita. Atrás dele, Rafael fez-lhe avontade e durante alguns segundos, eternos e mágicos, o avião curvou sobre a planície doAlentejo acompanhando a trajectória desenhada pelos braços abertos de Diogo.- Sim, não há dúvida de que a aviação vai ser o futuro: o futuro do transporte civil e,antes ainda, o futuro das armas de guerra.Pedro disse isto e ficou calado, olhando o céu, como se meditasse no alcance daquiloque dissera. Os dois irmãos estavam sentados junto ao ribeiro, onde tantas vezes sesentavam em crianças, partilhando os seus segredos ou aquele comum amor pela terra queera sua. Desde pequenos que se tinham habituado a refugiar-se ali e, particularmente noVerão, para se certificarem de que o ribeiro não secara.- Porquê o futuro das armas de guerra? - Diogo pensava o mesmo, mas queria ouvira explicação do irmão.- Porquê? Olha, por todas as razões. Na próxima guerra, a aviação militar não vai ternada que ver com a da Guerra de 14-18, aqueles solitários e heróicos combates aéreos, emque os pilotos nem sequer tinham pára-quedas para saltar de um avião em perdição e emque, em caso de derrota nesses combates singulares, perdia-se o quê? Um avião de madeirae um soldado, entre milhões de outros lá em baixo!- E, em tua opinião, onde é que vai estar a grande diferença?- Na capacidade de bombardeamento aéreo. Os aviões vão deixar de servir para essescombates singulares, tipo torneio medieval, e vão passar a ter um grande depósito de carga,atulhado de bombas.- Para bombardear o quê?- Tudo, Diogo: linhas de caminhos-de-ferro, estradas, exércitos inimigos, fábricas,navios, cidades. Tudo!
  • 122. Diogo ficou pensativo. Era evidente que o Pedro tinha razão, mas havia uma coisaque ele dissera que não percebera se fora por acaso ou não.- Tu falaste na próxima guerra... Achas que vai haver uma próxima guerra?Pedro sorriu. Ele sabia que a sua opinião interessava ao irmão. Nesse Verão, talcomo Diogo fizera antes, também ele tinha ido viajar pela Europa. Estivera em Espanha,em França e em Itália, tal como o irmão e quase todos os portugueses que viajavam e quenão iam simplesmente a Paris. Mas, ao contrário de Diogo, não fora a Inglaterra, rmas simà Suíça, a partir da Itália, e daí à Alemanha.- Sim, Diogo: não tenho dúvidas de que vai haver outra guerra na Europa.- E quando?Pedro abriu os braços, querendo dizer “não sou bruxo!”.- E quem contra quem, Pedro?Pedro sorriu, outra vez.- A Alemanha, seguramente: contra quem se lhe opuser. E a Itália de Mussoliniprovavelmente também.- A Alemanha?- Sim, a Alemanha. A Alemanha de Hitler.- Porque achas que o Hitler vai chegar ao poder?- Não tenho uma dúvida.- E porquê?- Ora, porquê, Diogo? Para que te serve leres essa revista inglesa que devoras comose fosse uma Bíblia? Porque os alemães o vão levar ao poder. Porque ele é a únicaesperança de restauração do orgulho da raça alemã. Porque ele tem ideias firmes ecorajosas, numa Europa que perdeu de vez a grandeza de outros tempos e já nemacredita na missão civilizadora dos impérios coloniais. Uma Europa que contemporiza comos bolcheviques russos e onde os estudantes da selectíssima Universidade de Oxford,símbolo supremo da tua tão admirada Inglaterra, não tiveram vergonha de votar umaproclamação onde juram jamais voltar a morrer em combate pelo rei ou pelo país! Hitler éo oposto disso: ele veio para devolver aos alemães o orgulho na Pátria e o orgulho noscombates que valem a pena!- E que combates tão orgulhosos são esses, que justificam, em tua opinião, mais umaguerra com milhões de mortos e centenas de cidades destruídas na Europa?Pedro hesitou na resposta.- É uma questão de... uma questão de...- Uma questão de quê?
  • 123. - Eu ia dizer que é uma questão de carácter, Diogo, mas não te quero ofender.Digamos que é uma questão da maneira como se vive a vida e os valores que cada umtem...- Os valores da guerra, os da morte? Para restaurar o orgulho da raça alemã? Amissão civilizadora da Europa, como tu dizes? A guerra como missão civilizadora?Pedro suspirou: odiava discutir política com Diogo. Era como se tudo aquilo quedesde sempre os tinha juntado, em sítios como aquele à beira do ribeiro, em tantas e tantasocasiões da vida, de repente se quebrasse sem remédio.- Diogo, cada um pensa o que pensa...- Sim, mas tu... de onde te vêm essas ideias, caramba? Fomos ambos educados damesma maneira, somos filhos do mesmo pai e da mesma mãe...- Que queres, tu saíste à mãe e eu saí ao pai...Diogo levantou-se, agitado.- Não, Pedro, aí é que te enganas: o nosso pai era um autocrata, um senhor medievalà moda antiga, se quiseres. Um conservador, um reaccionário, um homem que, porvontade sua, nunca mudaria um átomo ao mundo onde crescera e aprendera a viver. Masnão era, nunca foi, um adepto das ditaduras. Como esta ditadura fantoche, que tu tantoveneras e que até representas, aqui, em Estremoz! Tu é que estás, ou melhor, queres estarenganado. O nosso pai sempre defendeu o poder das elites e sempre desprezou a lógica e amoral democráticas. Vá lá, Diogo, sê honesto: tu ouviste-o dizer isto, vezes sem fim!- Mas tu pensas - Diogo virou-se de frente para o irmão, que continuava sentadonuma pedra -, tu pensas que o pai ia achar que o Estado Novo representa uma elite? Queaqueles patetas enfatuados, que vomitam baba patriótica por todos os lados, são uma elite?Que aquele falso franciscano beirão do Salazar representa o melhor que temos? Tu achas?- Salazar, para o caso de não saberes, é um brilhante professor de Finanças Públicas eapenas o homem que salvou Portugal da bancarrota. Duarte Pacheco é o melhor ministrodas Obras Públicas que o país teve desde o Marquês de Pombal...- Ora, Pedro, que grande elite! Uma elite que é tão brilhante que tem necessidade desilenciar todos os outros, não vá alguém desmascará-los!Pedro levantou-se. Deu três passos em direcção ao ribeiro, abaixou-se e apanhou umramo que colocou à tona de água para deslizar pela corrente abaixo, como fazia em miúdo.Quando falou, em contraste com Diogo, foi num tom absolutamente calmo.- Não, Diogo. Não é por isso que existe a censura e as outras restrições. É porque aliberdade - ou a libertinagem, que os portugueses confundem com liberdade - já causoudemasiados danos ao país, e não é possível permitir que, num momento em que se tenta a
  • 124. dolorosa restauração da dignidade e do orgulho nacional, um bando de demagogosirresponsável prossiga tranquilamente a sua obra de destruição. Porque, depois, eles piram-se para Paris e é o povo que fica cá a arcar com as consequências!Pedro falara muito calma e pausadamente, e Diogo fez um esforço para responderno mesmo tom:- É mesmo isso que tu pensas, Pedro? Que uma elite, como tu achas - de que tens asorte de fazer parte e eu não -, se arrogou o direito de decidir o que é bom para o país, etodos os outros ou concordam ou vão para Paris, ou acabam na prisão, ou degredados emTimor ou África?- Acabam degredados os que se revoltaram com armas na mão e causaram mortos eferidos...- O teu Estado Novo não se estabeleceu também com armas na mão e contra umgoverno legítimo, votado em eleições?- Nenhum governo é legítimo quando não serve os interesses nacionais. E derrubá-lo, sim, é um fim legítimo e patriótico.- E quem é que decide isso - tu e os teus? Por mandato divino?- Por amor a Portugal, Diogo! E tenho pena, acredita que tenho uma infinita pena denão estarmos juntos nisto, como sempre estivemos em tudo o resto...Diogo ficou a olhar para o irmão em silêncio. Depois, falou, com uma tristeza queparecia vir de muito fundo:- Também eu, Pedro. Tenho tanta pena!Ficaram os dois calados por um tempo, olhando a agua que corria, uma espécie depudor e cerimónia de repente instalada entre ambos.- Pelo menos, Diogo, para mim as coisas estão claras: sei o que penso, o que quero eo que tenciono fazer.- Mas tu, desculpa-me se me engano, pareces-me bastante à deriva...“Sim, ele tem razão”, pensou Diogo.- Ao menos, ainda me sabes observar! Sim, tens razão, estou um bocado perdido.Tenho aqui a mulher que eu amo, um filho que cresce e outro já a caminho. A mãe, tu, estaterra que é a minha casa, os amigos. Mas falta-me horizonte, percebes? Sempre me faltou, eagora mais do que nunca. Queria viajar pelo mundo, conhecer outras coisas, outrasculturas, outros povos, e ter um país livre à minha espera, quando voltasse. Mas aquisufoco, foi preciso que Rafael me levasse a dar uma volta de avião para que eu tornasse asentir o que era respirar a liberdade!
  • 125. - Porque não viajas, Diogo? Tu e a Amparo vão viajar durante uns tempos e deixamo Manuel com a mãe. Ou deixas a Amparo, se ela não quiser ir, e vais sozinho o tempo queprecisares. Eu tomo conta da herdade e da tua família como a coisa mais preciosa domundo e estaremos sempre todos à tua espera.- Sabes, Pedro - Diogo falava agora como se pensasse em voz alta -, isso já me temocorrido, mas há uma coisa que me faz confusão na ideia de viajar: eu sou livre para partir evoltar, mas há outros que não são. Vivemos num país e numa situação em que os que estãocá dentro e são contra o regime estão proibidos de sair; e os que estão lá fora e são contra oregime estão proibidos de voltar...- Pois, mas tu não. Tu és livre para uma coisa e outra, conforme disseste...- Sim, por enquanto, pelo menos, tenho essa liberdade e essa possibilidade. Mas sinto- como é que te hei-de explicar? - que, quando partisse, estaria a abandonar uma prisão, e,quando regressasse, estaria a voltar à prisão.- Estás a ser melodramático, estás a tentar convencer-te de uma coisa, de umsentimento futuro totalmente hipotético e fabricado.- Não, Pedro: aí é que nós pensamos e sentimos de forma realmente diferente.Tenho medo de uma coisa que tu não temes: que, depois de conhecer a liberdade, de terviajado e vivido em países livres, não me volte a habituar a viver de outra maneira. Tenhomedo que a liberdade se torne um vício, enquanto que agora é apenas uma saudade.
  • 126. IXOs tempos estavam complicados em Valmonte. Os tempos estavam complicados emtodo o Alentejo, em Portugal, na Europa e no mundo. As consequências do estoiro dabolsa de Nova York, em Outubro de 1929, haviam-se espalhado aos poucos como umaepidemia, atravessando o Atlântico a partir da América e atingindo as principais naçõeseuropeias. Todos queriam vender e ninguém queria comprar. Como resultado, as empresasentraram em subprodução e começaram a falir. Os créditos que tinham contraído junto dabanca não foram pagos e os bancos viram-se de repente a braços com receitas incobráveise com um efeito de histeria que levou as pessoas a correrem ao levantamento de depósitos.Em breve, começaram eles próprios a não conseguir cumprir e apelaram aos governos:alguns foram ajudados a tempo, uma grande parte sucumbiu. Um exército de milhões dedesempregados, vindos da indústria e dos serviços, nasceu numa Europa ainda mal refeitados efeitos catastróficos da imbecil guerra de 14-18. Durante um tempo, pensou-se quePortugal poderia escapar incólume: fechado sobre si mesmo, com uma indústria e serviçosincipientes, uma economia fundada na agricultura e nas relações em circuito fechado entrea Metrópole e as possessões coloniais africanas, acreditou-se que se conseguiria escapar aodesespero que varria o mundo capitalista. Mas a curto prazo as esperanças começaram aesfumar-se.O primeiro impacto foi sentido a nível da emigração: se, em 1929 e seguindo osnúmeros de uma tendência que vinha desde o início dos anos vinte, 40 000 portuguesestinham emigrado legalmente para o estrangeiro, dois anos depois, em 31, o número tinhacaído para 6000 e iriam ser precisos muitos anos até que a emigração voltasse a readquirir oseu triste estatuto de alternativa económica. Paralelamente, o Brasil passara a proibir aexportação de capitais e os que haviam emigrado para os Estados Unidos viam-se agoranecessitados de todos os dólares que haviam poupado: de um só golpe, a balança depagamentos do país entrara em colapso.A seguir, veio a crise económica. Se a indústria, porque era incipiente comparadacom os países mais desenvolvidos da Europa, não sentiu um abalo profundo, já a lavouranão escapou. Dos sete milhões de portugueses recenseados em 1930, mais de metade - 4,7milhões - dependiam, directa ou indirectamente, da agricultura. Ironicamente, foram os
  • 127. pequenos, que praticavam uma lavoura familiar, quase de sobrevivência, os que melhoraguentaram o impacto da crise. E seriam os maiores, os que mais haviam investido, os quese haviam modernizado e estavam nas fileiras da exportação, que iriam pagar o grosso dafactura. Grande parte desses estavam sobretudo no Alentejo, onde as grandes propriedadespermitiam um tipo de lavoura extensiva, que não existia no Norte. Ao contrário do quesucedia no resto do país, não havia pequenos proprietários nem agricultura de subsistênciafamiliar no Alentejo: havia grandes latifúndios com um só dono e uma imensidão deassalariados rurais que para eles trabalhavam. E tudo o que era o essencial da sua produçãoe da sua riqueza entrou em crise, a partir de 1930: a arroba de cortiça, a principal da suasproduções e que representava quase 30% das exportações portuguesas, valia 23 escudos em1929 e 11 escudos em 1933; a carne de porco, que valia 150 escudos a arroba, caiu para 60;e o azeite desvalorizou um terço no mesmo período de tempo.Cortiça, gado e azeite eram exactamente as três principais produções de Valmonte.Durante dois anos aconteceu que a herdade deixou simplesmente de dar lucro. Depois, apartir de 32, começou a perder dinheiro. Os pequenos rendeiros deixaram de poder pagaras suas rendas e Pedro, perante a complacência impotente de Diogo e o silêncio de Mariada Glória, foi-os dispensando, pura e simplesmente. Mas não havia quem ficasse com asterras que eles tinham abandonado, nem a herdade poderia pegar nelas sem aumentar a suamão-de-obra - o que era inimaginável nos tempos de crise que se viviam. As terras até aídadas de arrendamento ficaram ao abandono e o problema que agora se punha era o desaber se outras não deveriam também seguir o mesmo caminho. Certas coisas não tinhamsolução, outras precisavam de uma resposta: a cortiça formava-se por si nos sobreiros etinha de ser extraída a cada ciclo de nove anos, sob pena de as árvores adoecerem e, aprazo, morrerem. Um sobreiro demorava trinta anos, depois de plantado, até dar cortiça:deixá-lo morrer estava fora de questão. Mas já as azeitonas, por exemplo, valeria a penacolhê-las se o preço à saída do lagar não compensava a mão-de-obra na apanha?Estas questões trazia-os a todos preocupados, sobretudo Pedro, para quem era quaseincompreensível que uma crise económica desencadeada na bolsa de Nova York pudesseafectar os resultados de uma exploração agrícola no Alentejo, do lado oposto do mundo.Na sua maneira de entender as coisas, e tal como aprendera de pequeno, uma herdade bemtratada, bem cuidada, com o mato limpo e as árvores desbastadas, as sementeiras feitas naépoca certa e as colheitas planeadas com antecedência, com o gado vacinado e vigiado, comsuficientes pastagens nos anos de chuva e forragens nos anos secos, só podia dar lucro -porque não havia fonte de riqueza como a terra, para quem a sabia cuidar e amar. Era essaa parte do trabalho que lhe competia em Valmonte e de que ele se desempenhava com
  • 128. inquestionado zelo e ciência. No campo - “a minha Universidade”, como ele dizia,metendo-se com Diogo - Pedro era mestre e senhor e, apesar dos seus jovens vinte e oitoanos, não havia praticamente ninguém, nem mesmo entre os velhos, que lhe pudesseensinar qualquer coisa que ele não soubesse já. Essa era, aliás, a razão principal e quaseúnica por que o respeitavam. Temiam-no porque era patrão e de difícil trato, masrespeitavam-no porque amava o que era seu, sabia o que fazia e trabalhava nisso tanto oumais do que todos.Nada do que acontecia no campo lhe escapava. Não só sabia exactamente o que cadatrabalhador estava a fazer em cada dia, que tarefas tinha levado a cabo e quais searrastavam, como também sabia tudo sobre o gado. Conhecia cada cabeça pelo nome, sabiaa sua idade e o seu historial certos, e um só olhar, que aos outros até parecia ser desatento,permitia-lhe detectar de imediato qualquer problema numa vaca ou numa bezerra: quandoo veterinário chegava para examinar o animal, já ele tinha feito o diagnóstico certeiro. Omesmo sucedia com as sementeiras ou com as árvores, de que era infalivelmente o primeiroa aperceber-se de doenças que tivessem, o primeiro a concluir quando é que uma oliveiraprecisava de ser esgalhada ou uma azinheira desbastada. Era sempre ele, no início de cadaVerão e apenas acompanhado pelo velho André da Cruz (assim chamado porque, há maisde trinta anos, lhe competia marcar as árvores com uma cruz de cal branca), que percorriao montado assinalando os sobreiros prontos para o corte da cortiça e mostrando ao Andréda Cruz até onde é que cada corte poderia ser feito, sem perigo de desgastar a árvore. Tinhatambém, e herdado da mãe sem dúvida, aquele dom mágico de fazer crescer tudo aquiloque plantava, fossem searas de trigo ou sementeiras de tremocilha para o gado, fossemplantas para rodear os muros da casa, fossem árvores. Porque certas pessoas, por mais quese esforcem, parece que dão mau olhado àquilo que plantam, enquanto que outras têm essedom de fazer prosperar tudo o que sai das suas mãos. Na herdade comentava-se essa suaaptidão inata dizendo-se que era porque ele falava sozinho com as árvores, fazia-lhes festascom a mão e, por diversas vezes até, fora visto a beijá-las, como se se tratasse de mulheres.Era tudo verídico, mas não chegava como explicação: a verdade é que, quando plantavauma árvore, por exemplo, ele começava por enfiar os dedos na terra do local escolhido e àsvezes mudava-o uns centímetros apenas porque não tinha gostado da consistência da terra;punha-se de cócoras, com a cara junto ao chão, para sentir a força e a direcção do ventonos locais de plantio; e sabia determinar exactamente a quantidade de luz que, ao longo doano, cada árvore iria receber aonde ele a tivesse plantado. De certa forma, sentia que, emmuitos aspectos, a sua vida se confundia com a vida de tudo o resto que ali vivia, árvoresou animais, como se todos fossem filhos da mesma sementeira.
  • 129. Já Diogo amava o campo de forma diferente. Acima de tudo, gostava de ocontemplar. Podia passar horas inteiras perdido a olhar o campo, fosse de dia ou de noite,na varanda da casa ou à sombra de uma árvore. Depois, gostava de o sentir, de o cheirar,de observar como as estações do ano o percorriam e mudavam. Pedro passeava-se pelocampo com o olhar do lavrador, Diogo com o do visitante, eternamente espantado. Pedroamava a terra - aquela terra, em concreto; Diogo estava apaixonado por ela, mas comopoderia estar por outra que a seus olhos o merecesse. O que gostava, mais do que de tudo,era de passear pela herdade, a pé, a cavalo ou de charrete, com Amparo e agora com o filhoManuel, ou sozinho. Gostava de ir até ao ribeiro e nele tomar banho nas tardes de calorlancinante de Julho e Agosto, de sair com os amigos para a abertura da caça às perdizes eaos coelhos em Outubro, de ver as chuvas de Novembro abrirem regatos por todos oslados, de ficar de tocaia, num abrigo montado nas árvores, para, em noites de lua cheia,esperar os javalis, de ver o ondular das searas de trigo ao vento, de entrar na adega e sentiro cheiro a mosto das uvas fermentando nas imensas talhas de barro em que faziam o vinhoque se bebia à mesa em Valmonte. De resto, no que às suas tarefas dizia respeito, ele era oagrónomo, “o engenheiro”, como dizia Pedro, meio a sério, meio a brincar. Eleaconselhava o que se devia semear e onde, que máquinas tinham aparecido e poderiam serúteis à exploração, que rendimento poderia dar cada hectare disto ou daquilo, onde é que ogado poderia pastar sem prejudicar as culturas, que terrenos deveriam ficar em pousioenquanto outros iniciavam a exploração. O seu saber era útil e atento, mas, como elepróprio reconhecia sem problema algum, era Pedro a alma daquela herdade, era dele queValmonte não poderia prescindir sem grave prejuízo. 1933 tinha sido um ano complicadopara todos, no Alentejo. Havia a crise dos preços da produção agrícola, que fazia com queo ano estivesse a ser ainda mais ruinoso que o anterior. De comum acordo, os dois irmãoshaviam tomado a decisão de não vender gado nas feiras agrícolas a que tinham ido e ondeos preços dos leilões eram de tal forma baixos que Diogo achara melhor não fecharnegócios. Mas não tinham tido sucesso nas diligências feitas junto de outros grandesganadeiros da zona para que não vendessem também, como forma de pressionar a subidados preços: a maioria deles estava endividada perante os bancos e sem capacidade paraaguentar um ano inteiro sem receitas da venda do gado. Grande Parte da cortiça extraídaestava ainda por vender, apesar do preço de saldo que se praticava, e, em Novembro,tinham tomado a decisão de deixar metade das azeitonas no chão para os porcos, porque opreço da azeitona à entrada do lagar não justificava a jorna do rancho a contratar para aapanha.
  • 130. Amparo engravidara outra vez, apenas quatro meses após o nascimento de Manuel,em Junho do ano anterior. Ao contrário do que sucedera com o seu primeiro filho, passarauma gravidez difícil. Primeiro, eternamente enjoada, ao ponto de não se conseguir manterde pé, dias a fio. Depois, com problemas na posição da criança, que não parecia acomodar-se ao útero, deixando-a com dificuldades em respirar e obrigando-a a passar os últimosmeses da gravidez deitada na cama do quarto ou estendida sobre almofadas no salão. Paraela, sempre tão cheia de actividade e de vontade de participar em tudo, foi como que ocumprimento de uma sentença de prisão. Tanto mais que Diogo, decerto aborrecido comos seus enjoos, o seu mal-estar e a sua má disposição, longe de lhe acudir e de a confortar,passava cada vez mais tempo em Lisboa - “a negócios”, como ele dizia. De facto, gastandoo melhor do seu tempo no cinema, em jantares e tertúlias de amigos, discutindo políticafuriosamente e, quando estava em Valmonte, embrenhado na leitura da Illustrated LondonNews ou numa selecção de livros e artigos sobre o Brasil - um assunto que ultimamenteatraía o seu interesse, desde a história à geografia, passando pela economia e pela política:tinha-se tornado um especialista em Brasil.Portugal trazia Diogo acabrunhado, mais do que os problemas financeiros daherdade. Passo a passo, ele sentia que a ditadura se instalara para ficar. O Secretariado daPropaganda Nacional, presidido por António Ferro, graças à sua energia e capacidaderealizadora, havia-se transformado imediatamente num poderosíssimo instrumento depropaganda do regime, tanto mais que a censura velava para que todas as visõesdiscordantes fossem silenciadas à nascença. Como Salazar explicara a António Ferro, comtoda a desfaçatez, “a censura tem um aspecto moralizador: o jornal é o alimento espiritualdo povo e deve ser fiscalizado, como todos os alimentos”. Tratada a propaganda e acensura, criou a sua polícia política - a PVDE, Polícia de Vigilância e Defesa do Estado - eos Tribunais Militares Especiais, duas organizações que não tardariam a mostrar a suautilidade na repressão de uma tentativa de revolta em Bragança, no extremo norte do país,e numa “intentona” inventada pelo próprio Salazar, tudo resultando em mais uma leva deprisões políticas e deportações para as colónias. Definitivamente, o medo instalara-se nodia-a-dia dos portugueses, e, em Lisboa mais ainda do que em Estremoz, Diogo sentia essemedo, palpável, silencioso, pegajoso, que pairava no ar, que se insinuava entre ele e os seusamigos de ontem, que condicionava as conversas, determinava as carreiras de cada um,seleccionava agora as amizades. O medo que sentia à sua volta metia-lhe nojo, embora porvezes fosse forçado a compreendê-lo até. Funcionários jovens com todo um percursoprofissional a fazer, diplomatas que juravam representar o país e não o regime, militaresque viam alguns dos seus camaradas de curso e de caserna serem destituídos de todas as
  • 131. honras e deportados para África e que continuavam obedientes a cumprir “ordenssuperiores”, escritores e intelectuais que fingiam não se sentir incomodados pela censuraporque a “profundidade” da sua obra estava para além da compreensão dos censores,jornalistas fascinados com o “renascimento da Pátria” e arregimentados para a “defesa doImpério” ou a “restauração do orgulho nacional”, sacerdotes e bispos que, no lugar damiséria e da iniquidade, preferiam ver a “caridade cristã” do regime, a humildade em quevivia Salazar e o culto que devotava à Virgem de Fátima, e até futebolistas dispostos amorrer em campo pela honra patriótica de uma vitória (uma que fosse!) contra a Inglaterraou a Espanha - essas duas sombras seculares pairando sobre o orgulho lusitano. Todoseles, essa fina flor da nação, funcionários e diplomatas, militares e escritores, intelectuais epadres, jornalistas e futebolistas, pareciam ter-se acomodado - e porque não? - à paz doEstado Novo.Durante um tempo, Diogo tinha acreditado que a ditadura haveria de cair, se não àsmãos dos opositores internos, ao menos às da repulsa estrangeira. Ele, que pelas suasleituras regulares da imprensa inglesa, se tornara um admirador da democracia da velhaInglaterra, imaginara, candidamente, que “o mais velho aliado de Portugal”, a ele unido porum tratado de amizade e assistência que era antigo de séculos e o mais antigo do género emtoda a Europa, fatalmente haveria de se opor, de combater ou, ao menos, de ajudar a minaro regime ditatorial implantado em Portugal em 1926. Estava, mais uma vez, redondamenteenganado.Acima de tudo, os amigos ingleses manifestavam um profundo desprezo porPortugal e pelos portugueses, esse povo sobre o qual, segundo rezava a lenda, já osromanos, dois mil anos antes, haviam estabelecido que “não se governam nem se deixamgovernar”. Perante o caos e a anarquia que tinham caracterizado os dezasseis anos deRepública, após a queda da Monarquia, em 1910, os ingleses, se bem que democratas etolerantes, tinham chegado rapidamente à conclusão de que mais valia aos portugueses umaditadura que restabelecesse alguma ordem do que a continuação da desordem em quetinham vivido nos anos anteriores. Aliás, olhando para Portugal e para os portugueses, elesnão alcançavam grandes diferenças entre o velho aliado europeu e qualquer territórioafricano governado por régulos primitivos. Como explicava o embaixador inglês emLisboa, Sir Charles Barclay, escrevendo ao Foreign Office em 1929, “a nação portuguesa,em parte devido à grande mistura de sangue negro, e em parte devido ao enervante clima, éfísica e mentalmente degenerada... incapaz de um esforço regular ou de um raciocíniológico”. Aliás, concluía Sua Excelência, enervada pelo clima e exaltada por algum encontrãode um negro nas ruas de Lisboa, “se a exterminação sem dor de uns milhares de habitantes
  • 132. de Lisboa fosse possível, o resultado seria provavelmente bem mais auspicioso”. Opiniãopartilhada por um outro ilustre inglês, R. A. Gallop, que, pela mesma altura, publicou assuas impressões sobre Portugal num opúsculo intitulado Notas sobre o Carácter Português.Nele, os portugueses eram caracterizados como um povo que, além do hábito generalizadode cuspir na rua e “satisfazer em público as necessidades vitais mais vis”, era tolerante“com a porcaria, a distinção racial, a deformidade e doença dos mendigos”, embora fossem“excepcionalmente amigos das crianças e, para um povo do Sul, dos animais”. Tolerantescom os negros e com os animais: degenerescência e virtude, ao mesmo tempo.Não admira assim que os ingleses tenham passado sucessivamente da fase dedesconfiança em relação à ditadura, à de compreensão e aceitação e, finalmente, à de apoioenvergonhado. Em 1931, o novo embaixador inglês em Lisboa, Sir C. Russell, resumia, nuae cruamente, a moral das coisas: “Se se realizassem eleições livres, ninguém duvida de que ogoverno seria derrotado por enorme maioria. Não porque a ditadura não mereça a gratidãodo país, mas porque o eleitor comum não sabe valorizar o seu bom trabalho.” O mesmopensava a ditadura e, por isso mesmo, para evitar a ingratidão democrática, decidiu pôrtermo a eleições livres. E, instigado pelo seu embaixador em Lisboa, o Foreign Officepromoveu as visitas a Portugal do príncipe de Gales e dos navios-bandeira da Royal Navy eacabou a sugerir ao Times um artigo elogioso para a ditadura do Estado Novo, destinado acontrariar a imagem negativa que o regime português tinha na imprensa britânica e queconstituía “uma ameaça aos milhões de libras investidas (por ingleses) nas colóniasportuguesas de África”.Embora não pudesse conhecer o teor dos relatórios que os embaixadores ingleses emLisboa mandavam para Londres e estivesse longe de imaginar a atitude complacente ecúmplice da Inglaterra com a ditadura portuguesa, Diogo percebia, pela leitura da imprensabritânica, e especialmente da sua querida Illustrated London News, que não havia - nem daparte da Inglaterra nem da República espanhola - nenhum desejo de contribuir de formadeterminada para que a democracia fosse restaurada em Portugal. Por qualquer ânguloque olhasse a situação política em Portugal, ele era forçado a concluir racionalmente que oEstado Novo se implantava cada dia mais firmemente e que os que se lhe opunhamestavam cada vez mais numa situação de cerco. Era isso mesmo que os jornais gritavamtodos os dias: quem está pela Pátria, adere; quem não está, não tem futuro em Portugal.Mas ele tinha uma terra a defender, em Portugal. Tinha uma propriedade de família, porcujo destino lhe cabia velar como filho mais velho na ausência do pai, e tinha uma famíliaque amava e cujo futuro passava igualmente por essa terra e por esse país, que era tambémo seu. O cerco estava montado e ele estava lá dentro.
  • 133. Também as suas relações com Amparo tinham estado difíceis, ao longo do ano.Enjoada, maldisposta, desconfortável quase todos os dias, Amparo tinha pouca paciênciapara escutar os seus desabafos sobre a situação política do país.- Devias preocupar-te é com a situação na herdade! Em breve, vais ter dois filhospara criar e é daqui que eles, que todos nós vamos ter de viver - dizia-lhe ela, contribuindoainda mais para o exasperar.Amparo não se dava a esforço algum para o acompanhar nos seus devaneiosintelectuais. Interessava-lhe muito pouco ou nada os assuntos que ele lia na sua revistainglesa -as campanhas da Inglaterra no Egipto e no Sudão, a situação no Extremo Orienteou a política económica do New Deal do Presidente Roosevelt nos Estados Unidos.Quanto à política portuguesa, que tanto o obcecava, passava de largo, fingindo nãoperceber nada do assunto e insinuando não haver remédio para esse mal. Era inteligente eestava longe de ser ignorante: pelo contrário, fazia escolhas e, tudo o que lhe parecia útilaprender, aprendia. Mas, no que não lhe parecia trazer utilidade alguma à família ou à vidadeles, ou que, até, a poderia prejudicar, ela preferia fingir-se de ignorante ou desinteressada.Subtilmente, tentava atrair-lhe, sim, a atenção para os assuntos domésticos: o filho queensaiava os primeiros passos, o novo sofá da sala que escolhera em Estremoz com a sogra,a safra dos figos e das amoras para as compotas, que fora nesse ano excepcional. Mas, semque ela o percebesse, tudo isso contribuía ainda mais para deixar Diogo abatido e com asensação de estar só, mesmo dentro da sua própria casa: estava ele angustiado com a sortede dois conhecidos que tinham sido presos pela PVDE, e ela embevecida com os primeirospassos do filho; ele acabrunhado com os discursos sibilinos de Salazar, e ela entusiasmadacom as compotas de amora! E, se à sua roda e fora de casa todos se iam calando e evitandoas conversas que a prudência não aconselhava, e em casa tinha um irmão que apoiava aditadura e uma mulher que achava que o assunto não tinha importância alguma, com quemdesabafaria ele - com as árvores?Assunção nasceu em Julho, com um mês de intervalo sobre o primeiro aniversáriodo irmão. Tal como Manuel, nasceu também em Valmonte, após um parto longo ecomplicado, assistido pelo médico da família, Dr. Suggia, e a parteira encartada deEstremoz, a D. Jesuína - que foi, aliás, quem melhor deu conta da situação, numa altura datarde em que as coisas pareceram complicar-se seriamente e Maria da Glória entrava e saíado quarto da parturiente, levando e trazendo toalhas e alguidares, passando pela sala ondeDiogo aguardava notícias e comentando apenas:- Está a correr e ela está a portar-se com muita coragem, a tua mulher!
  • 134. Às nove da noite, finalmente, dez minutos depois de ter escutado o primeiro chorodo bebé, chamaram-no ao quarto, que fora arrumado à pressa, mas que ainda guardava,visíveis a um olhar atento, as marcas de uma luta vital que ali se travara. O médico deu-lheos parabéns, informando-o de que era uma menina e soltando um suspiro de alívio quelogo revelou a Diogo que a luta fora incerta. Depois, viu a sua filha adormecida encostadaao ombro da mãe e viu o rosto quase desfigurado de Amparo, de longos sulcos negrosdebaixo dos olhos, a cor pálida e exangue, a expressão devastada que um sorriso a custoesboçado não conseguia suavizar. Percebeu que ela tinha estado muito perto de se perder,que tinha andado tempo de mais sobre essa ténue linha de fronteira, indecisa entre ficar dolado da vida ou tê-lo deixado assim, sem aviso, com uma filha acabada de nascer e um filhode um ano para criar, sozinho.Saiu do quarto e foi festejar com Pedro, para os cabarets de Lisboa. Voltaram já demanhã, sem ter dormido, e veio encontrar Amparo, que estava deitada na cama, recostadanuma profusão de almofadas, a dar de mamar a filha. Já recuperara alguma cor e sorriu-lhe,agora mais genuinamente. Tinha um peito de fora, inchado de leite e com o bico a sersugado pela filha, o cabelo despenteado e comprido, caindo em madeixas soltas sobre asalmofadas. Ele parou a olhá-la e sentiu vergonha de si próprio ao achá-la incrivelmenteatraente e sensual assim.Aquilo que para Diogo era motivo de descrença e desânimo, para Pedro, pelocontrário, era motivo de exaltação e entusiasmo. Ele não levara a brincar a sua filiação emilitância na União Nacional de Estremoz: era assíduo nas reuniões e generoso nosfinanciamentos. Trabalhava, gastava-se, expunha-se, não tinha pudor nem cerimónia emandar de porta em porta a solicitar adesões à causa, não ignorando embora o quanto ela eraainda pouco popular em Estremoz. Mas ele acreditava sinceramente que o Estado Novoera o que de melhor podia ter acontecido a Portugal, depois da fraqueza e da indecisão dosúltimos tempos da Monarquia, depois do caos e da demagogia republicana. E acreditavaque Salazar era o homem - não enviado pela Virgem de Fátima, mas desejado peloshomens de bem de Portugal - que a Providência tinha posto no caminho dos portuguesespara restaurar algumas noções essenciais, tais como os valores da honra, da terra, dafamília, do trabalho, o orgulho de pertencer a uma nação que tinha um Império espalhadopelo mundo e a um Estado que agora honrava os seus compromissos, pagava as dívidas,vivia com o que tinha e, acima de tudo, era soberano e fazia-se respeitar. Com Salazar, eleganhara um líder; com o Estado Novo, ganhara uma causa e uma ideologia.Apesar disso, procurara nunca mais discutir política com Diogo. Esforçava-se porrespeitar as suas diferenças, respeitar o seu estatuto de irmão mais velho - que, para ele,
  • 135. contava muito -, respeitar a sua nova condição de pai e respeitar, porque o amava, a suaangústia e o seu visível mal-estar com o país. Tinha pena que as ideias políticas os tivessemafastado, mas, no que dependesse de si, nada, absolutamente nada, o separaria do irmão.Além do mais, não era só Diogo que andava ocupado e distraído com a suaabsorvente condição de pai, que tivera dois filhos no espaço de um ano. Também Pedrotinha andado distraído e ocupado com outros assuntos, para além da política e daexploração da herdade. Pela primeira vez na sua vida, ele tinha-se apaixonado e, pelaprimeira vez na sua vida, tinha-se sentido à toa, numa situação que não controlava e quenem mesmo entendia bem.Ao pensar na maneira como tudo aquilo lhe tinha acontecido, dava-se conta, aliás, decomo a história lhe parecia inverosímil: quer o objecto da sua paixão, quer as circunstânciasdela. Numa tarde de domingo, em Julho, tinha aparelhado a sua égua favorita, a RibadAguia, para dar uma volta de observação ao estado das searas de milho e trigo e à vinha.Ao fim de uma hora, tanto ele como a montada transpiravam sob o calor inclemente datarde. O sol trespassava o seu chapéu de palha e empapava o cabelo de suor, que escorriapara a cara e para a nuca e que ele ia limpando com o lenço de algodão que trazia atado aopescoço. Maldisse a crise, que os tinha levado a adiar por mais um ano as obras projectadaspara o tanque grande de granito e que iriam permitir que a água da mina fosse desviadapara ali, a caminho dos campos, transformando o inútil tanque de recipiente de aguasestagnadas para rãs numa fabulosa piscina de água corrente para eles se banharem em diasde Verão como aquele. O pensamento levou-o naturalmente a inflectir o Passo pesado daRiba dÁguia a caminho do estábulo, desviando-o em direcção ao trilho que conduzia àribeira. O seu curso era agora uma sombra dos dias de Outono e Inverno, e mesmo daPrimavera, mas, ao menos, sempre tinha fundura suficiente para que ele se pudesse despir eentrar na água, ficando deitado sobre o seu fundo lodoso, expulsando para a margem as rãse sapos que se imaginavam únicos donos do lugar.A égua resfolegou à vista da água e foi então que ele, olhando em frente, distinguiuum vulto de qualquer coisa que não pertencia ali: uma mancha de cor, que ocupava umadas grandes pedras sobre a ribeira. Aproximou-se a passo, curioso, e deteve-se a uns vintemetros do vulto, sem ter ainda sido descoberto. Por momentos, julgou que o calor lhetinha provocado alguma espécie de miragem: sentada sobre a pedra e de costas para ele,estava uma rapariga nova, de longos cabelos castanhos caídos sobre as costas, calçasarregaçadas até ao joelho descobrindo umas pernas bem desenhadas, descalça, uma camisade homem que manifestamente lhe estava grande e saía por fora das calças e, montado em
  • 136. frente dela, estava um cavalete, no qual ela pintava a pincel. Uma pintora, na ribeira deValmonte!Finalmente, ela apercebeu-se da sua presença e da do cavalo. Voltou-se subitamente,assustada, o pincel suspenso no ar. Tinha uns olhos grandes e rasgados, um olhar lânguido,uma boca grande, um cabelo que brilhava com reflexos de luz. Mas não era bonita: faltava-lhe qualquer coisa na expressão, no desenho da cara, que pudesse acrescentar ao seu tomgeral estouvado a natureza de uma aparição.Mas não deixava de ser uma aparição. Pelo menos, aos olhos de Pedro.- Olá! - disse ela, finalmente, olhando-o, enquanto ele desmontava do cavalo e oabandonava para que se dessedentasse na ribeira, sem nunca tirar os olhos dela.- Olá - respondeu ele, em tom neutro.- Espero que não faça mal eu estar aqui! - disse ela, começando a limpar o pincelnervosamente, num pano incrivelmente sujo que sacou da sua frente.- Quem é a menina? - Pedro foi sentar-se noutra pedra, a poucos metros dela,continuando sempre a encará-la.- O meu nome? Chamo-me Angelina... Angelina Dória.- Dória? Do sr. Ângelo Dória, do Cartório?- Isso mesmo: do Cartório - respondeu ela, em tom de alívio.- Filha?- Sim.- Ah, e é pintora, pelo que vejo?- Bem, estou a aprender... Fiz o curso e agora estou a praticar...- O curso?- O curso de Belas-Artes, em Lisboa.- Fez o curso de Belas-Artes em Lisboa?- Fiz...Ele riu-se, sacudindo a cabeça, como se lhe custasse a acreditar.- Caramba, Estremoz está a ficar uma terra de intelectuais!Ela acabou de limpar o pincel e guardou-o numa caixa que trazia consigo.- Não sou intelectual: sou pintora. Ou melhor, espero vir a sê-lo.Pedro levantou-se e encaminhou-se para onde ela estava. Instintivamente, elalevantou-se também, limpando as mãos sujas de tinta à camisa. Ele aproveitou para repararque ela não era alta nem baixa, mas que tinha uma cintura estreita e um peito quedespontava levemente sob a abertura da camisa e que parecia sedutor.
  • 137. - Posso ver o que pinta? - E estendeu a mão, como se esperasse ser convidado comum gesto dela.- E eu, posso saber antes quem é você?- Claro, desculpe: esqueci-me de me apresentar. - Fez uma ligeira inclinação decabeça. - Chamo-me Pedro Ribera Flores.- Ah, o dono disto tudo! - E ela fez um gesto largo com o braço, querendo designartodo o horizonte à volta.Pedro sorriu.- Não: um dos donos, e só até onde a vista alcança! Estendeu-lhe uma mão, que elaapertou.- E até onde é que a sua vista alcança?- Neste momento, alcança uma jovem pintora, sentada na beira do ribeiro onde eume vinha banhar...- Mas pode banhar-se à vontade! O ribeiro é seu!- Não, não posso.- Porque não?- Porque você está aí e eu costumo tomar banho nu. Ela riu-se e o seu riso, notouele, era bonito e leal.- Ah, mas eu viro as costas e vou-me já embora! Não lhe quero estragar o seu banho!Aliás, invadi-lhe a propriedade sem pedir licença: era o que faltava que também o impedissede tomar banho!- Não, não, não vá! Deixe-me ver o que estava a pintar.Ela afastou-se do cavalete para que ele pudesse observar o óleo que lá estavacolocado. “Estranho”, pensou ele, havia um desenho a lápis, que reproduzia a paisagem emfrente ao quadro, de forma fiel. E, sobre o desenho, ela tinha começado a aplicar grossaspinceladas de cor que esbatiam o desenho e tornavam a paisagem incompreensível.- Então, o que acha? - perguntou ela, nas suas costas.Ele virou-se devagar, hesitando na resposta. Por qualquer razão que não lheinteressava agora analisar, não queria afastá-la, vê-la partir assim como tinha aparecido.- Acho estranho: ao princípio, parecia que você ia desenhar a paisagem, tal como elaé, mas a seguir, começou a... a...- A estragar tudo?- Não, mas a complicar as coisas... como aquele francês, comunista, que faz tudotorcido, parece que não sabe desenhar. Como é que ele se chama?... É o...- Picasso?
  • 138. - Isso mesmo, Picasso!Ela riu-se, e agora parecia francamente divertida.- Não é francês: é espanhol, mas vive em França. E desenha fabulosamente bem. Sevocê visse os primeiros quadros que ele fez, em miúdo, os retratos do pai dele,por exemplo, ia perceber como ele desenha bem!- Então, porque é que faz tudo distorcido, disforme?- Porque é assim que ele vê as coisas, no fim. Primeiro, vê-as completamente nítidas,como todos nós as vemos, e, depois, vê-as com um olhar que é só dele, e então elasganham a forma desse olhar. Aí é que está o génio dele: vê o que todos vemos, mas vêtambém para além disso. Um quadro não se pinta só com o olhar, pinta-se também com ossentimentos, com a alma, com o estado de espírito, com os sonhos, os pesadelos, tudo isso.É o consciente e o inconsciente, o visível e o obscuro. É isso a arte moderna.- A pintura abstracta?- Sim, há quem lhe chame pintura abstracta, por oposição à pintura figurativa,concreta. Eu não gosto da classificação.- Porquê?Ela fez uma pausa, como se esperasse essa pergunta há muito tempo.- Porque é uma classificação errada, que não significa nada. Eu, por exemplo, estudeium tempo com o mestre José Malhoa, que é um pintor figurativo absolutamente fantástico:não é antigo nem moderno, nem concreto nem abstracto, é eterno. Mas a pintura dele nãoé aquilo que eu sinto, nem aquilo que eu quero fazer.- Quem é, então, o pintor português que mais a atrai?- O Amadeo de Souza-Cardoso, que é bem mais próximo do Picasso.- Também é comunista?Ela riu-se, outra vez: o primarismo intelectual, genuíno ou forçado, que Pedro faziagala em exibir, parecia diverti-la francamente.- Mas que obsessão é essa com os comunistas?- Não, a obsessão é deles: parece que têm todos que se declarar comunistas, parapoderem ser reconhecidos como grandes pintores. Como aquele outro espanhol que pintaesqueletos e cavalos abandonados no deserto e relógios a derreterem-se ao sol...- Quem, oDali?- Sim, esse!- Mas esse não é comunista: pelo contrário, é fascista e exibicionista!- Ah, então você não gosta dele?- Acho-o genial. Um dos maiores pintores de sempre.
  • 139. - E é fascista? A sério?- É. Fascista e surrealista.- O que é isso?Ela recolheu a tela do cavalete e começou a guardar os pincéis e as tintas. Embrulhoua tela que estava a pintar num papel pardo que trazia e pôs-se a arrumar tudometiculosamente, mas sem pressa.- O surrealismo, Pedro? É difícil de explicar o que é. Quando se viu muita pintura,quando se gosta muito de pintura, às tantas o surrealismo torna-se uma coisa evidente enatural por si. Mas assim, a partir do nada, é difícil de dizer como é que se chega lá e comoé que a pintura surrealista faz toda a lógica e todo sentido.- Angelina: eu sou ignorante, mas acredito que não sou estúpido. Tente explicar-me.Outra vez o sorriso dela, que era a coisa mais bonita que tinha. E agora, meigo,pareceu a Pedro.- Está bem: o surrealismo é uma fusão perfeita entre técnica e a sensibilidade. Àpartida, você tem um cenário tecnicamente perfeito ao nível da pintura - tão perfeito queparece quase uma fotografia. Nenhum pormenor capa; as lmhas, as sombras, os contornosestão rigorosamente desenhados: é o real absoluto. Depois, o retrato começa como que aperder o juízo, a fartar-se de tamanha fidelidade e, de repente, é como se você estivesseaqui a olhar para o ribeiro e, à força de o ver sempre nítido e imutável, fechasse os olhos e,quando os abria, via qualquer coisa de absurdo, que não está lá, mas que, na suaimaginação, podia estar. Como...- Como você, por exemplo...Ela olhou-o, antes de responder. Olhou-o e, sem que soubesse dizer porquê,percebeu naquele instante que se tinha apaixonado por ele. Em quinze minutos.- Isso mesmo. - E suspirou profundamente. - O surrealismo é isso: quando o real setorna tão excessivo ou tão insuportável, que se transforma em surreal.Todo o resto do Verão eles foram aos poucos aprofundando uma relaçãoimprovável, nascida daquele extraordinário encontro à beira do ribeiro numa tarde deJulho. Ele convidou-a para vir pintar todos os dias, se quisesse, a Valmonte, edisponibilizou-se para a levar aos cenários que, na sua maneira de ver a pintura, melhorpoderiam servir para a inspirar. E aí, como ele dizia, rindo-se, ela tratava logo de “assassinara paisagem”. Era, de facto, uma estranha relação: ela ficava horas a ouvi-lo dissertar sobre asituação do gado, o estado das colheitas, a avaria no tractor, a dificuldade de escoamento daprodução a preços rentáveis - coisas que nada lhe diziam, mas que ela escutava, atenta edivertida. E ele passava horas a falar e a vê-la pintar telas em que não reconhecia coisa
  • 140. alguma daquilo que via, se olhasse em frente. Mas fazia mais do que isso, ainda: de manhã,passava pela cozinha e encomendava à Maria da Cozinha, que era quem reinava naquelelocal desde sempre, um farnel para dois, que depois vinha buscar por volta do meio-dia elevava num cesto de vime, ao encontro dela: tortilha de batata e tomate, pastéis de bacalhaucom arroz de feijão ou costeletas de porco panadas, queijo, paio, fruta - deixava essa parteao critério da Maria da Cozinha, que andava espantada, agradavelmente espantada, comaquelas encomendas do seu “querido menino” Pedro.Um dia, disfarçadamente, ele começou a levar mais coisas, para além do farnel com oalmoço. Levava umas mantas e umas almofadas, que arrumava discretamente na mala docarro em que a ia buscar a Estremoz todas as manhãs. Primeiro, a pretexto de que era olugar mais abrigado do sol, nos dias de Verão, depois a pretexto de que era o mais abrigadodo frio, quanto entrou o Outono, tinha criado o hábito de a levar para almoçar no velhomoinho de água, de há muito abandonado, suspenso sobre a ribeira. Deu-se mesmo aotrabalho de trazer uma vassoura, varrer o chão todo e libertar as paredes das teias de aranhae das silvas que entravam pelas janelas sem vidros nem portadas. E era ali, sentados nochão e com os pés praticamente na água, que eles almoçavam, na pausa dos trabalhos deambos. Depois, trouxe as almofadas e os cobertores para estarem mais confortáveis, e umdia, em que chovia lá fora e eles estavam ali ao abrigo da chuva e de todos os males domundo, um dia em que, surpreendendo-lhe de repente o olhar, a viu incrivelmente expostae doce, inclinou-se sobre ela e beijou-a na boca, suavemente. Ela, porém, retribuiu o beijocom paixão e intensidade, e ele ficou como que perdido, à deriva na boca dela. Ela agarrou-o Pelo pescoço e tombaram de lado, abraçados. Continuou a beijá-la, enquanto as mãosdela se encostavam ao seu peito e deslizavam pelos seus músculos. Ele fez o mesmo esentiu-lhe o peito fremente, inchado de desejo. As pernas dela enrolaram-se nas dele e eleabriu-lhe a blusa, quase rasgando-a, e expondo um soutien do qual o peito delatransbordava, oferecendo-se. Pedro tentou desapertar-lho, mas os seus dedos pareciamtrôpegos e a ânsia não os ajudava. Ela riu-se:- Eu faço isso.Desapertou o soutien atrás, mas não o tirou, deixan-do-o solto. Em vez disso,levantou-se e começou a despir o resto: a saia, as meias de lã, as botas. Quando ficouinteiramente nua da cintura para baixo, e só então, tirou o soutien e deixou-se ficar em pé, aolhar para ele. De olhos semicerrados, ele fez um gesto com a mão: “Vem cá!” Ela abanoua cabeça, sem mudar de posição:- Não, agora é a tua vez de te despires.
  • 141. Ele levantou-se também e começou a despir-se, sem nunca parar de a olhar. Ficou depernas abertas, orgulhoso por ver como ela contemplava a sua excitação, com a caraligeiramente de lado e um sorriso entre os lábios. Angelina curvou-se então sobre oscobertores, de gatas como um felino, as suas longas pernas dobradas em ângulo recto ocabelo caindo sobre a cara, a pele branca brilhando na penumbra do moinho.- Anda cá tu, agora...Ele foi, rápido e impetuoso e fez tudo, rápida e impetuosamente. Não ouviu delanem um queixume, nem um murmúrio de excitação, nem uma palavra. Apenas sentiu quelhe agarrava os cabelos com força por detrás da cabeça e que arqueava levemente o corpopara facilitar os movimentos dele. Quando, exausto, tombou a cabeça de lado no peito delae, minutos depois, rodou a cara para a olhar, reparou que ela continuava com a cabeçaligeiramente de lado, o mesmo sorriso na boca e contemplava o tecto do moinho, de olhosbem abertos. Só então pareceu verdadeiramente concentrar-se nela.- Angelina?- Sim...- Diz-me uma coisa. Tu não és virgem, pois não? Ela sorriu, sem se mexer.- Então, tu acabas de fazer amor comigo, como é que queres que eu seja virgem?- Sim, claro. Antes disso, quero eu dizer... eras virgem? Não, pois não?- Isso preocupa-te?- Se me preocupa? Que raio de pergunta! Então não há-de preocupar?Ela sentou-se sobre os cobertores, afastando-lhe docemente a cabeça do colo,estendeu a mão para a bolsa, sacou um maço de Chesterfield, meteu um cigarro naboquilha e acendeu-o com o seu Zippo.- Estás a falar a sério, Pedro? Preocupa-te que eu seja virgem? Agora é que tepreocupa?- Não, pensei nisso antes, mas, como não te vi dizer nada sobre o assunto nem travaras coisas, achei que... de uma maneira ou de outra...- O quê?- Que ou não eras virgem, ou...- Ou quê?- Ou não te importavas de deixar de ser...- Ah, e o que concluíste, afinal?- Pedro estava a achar a conversa desagradável, a despropósito, e o pior é que tinhasido ele a começá-la. “Pensando bem, o que me importa a mim isso? Ela é que tem de sepreocupar com o assunto!”
  • 142. - Concluí que não, Angelina.- Não... Não quê?- Que não eras virgem, antes de mim. - Estava a começar a irritar-se com aqueleinterrogatório: então, ela não era virgem e ele é que era o réu?Angelina reclinou-se sobre ele e pousou-lhe as mãos no peito. Ele estremeceu aoreparar outra vez como ela estava sensual e exposta na sua nudez, debruçada sobre ele. Iafalar, mas ela antecipou-se-lhe:- Diz-me a verdade, Pedro: isso é grave, é importante para ti?- Não sei se é grave. Importante é. E é... é diferente.- Diferente de quê? Diferente daquilo a que estás habituado?Ele hesitou.- Não, diferente, sei lá, daquilo que seria normal esperar de uma rapariga como tu.- Como eu?- Sim, da tua condição, do teu meio... Ela pressionou-lhe mais o peito.- Estás a sugerir o quê, Pedro?- Nada. Juro que não estou a sugerir nada.- Então, onde é que está a importância para ti de saber se eu já dormi com um oucom mais do que um, antes de ti? Eu perguntei-te alguma coisa sobre a tua vida sexualpassada?- E diferente, Angelina...- Porquê diferente? Eu deixo de ser respeitável a teus olhos por já não ser virgem?Não queres voltar a estar comigo? por causa disso?- Não, não, nada disso!- Então?Ele suspirou. Demasiadas perguntas para que não estava preparado. Nunca tinha,aliás, imaginado que devesse estar.- Angelina: por mais moderna que tu sejas ou queiras aparentar ser, não podesignorar que há tradições e valores morais, no meio em que nós vivemos, que...- Convenções, Pedro!- Seja: convenções. Chama-lhe o que quiseres, mas há.- E o que interessam elas?- Interessam, sim.- Para quê?- Para quê? Olha, para o casamento, por exemplo!- Para o casamento? Mas tu pediste-me em casamento?
  • 143. - Não...- Vais pedir-me em casamento? Ou melhor, ias pedir-me em casamento, mas agora,que descobriste que eu não era virgem, já não podes? É isso?Ele afastou-lhe as mãos e levantou-se. Estava a ficar sem ar, a sentir-se acossado.- Que raio de pergunta, que raio de interrogatório! Não podemos parar com isto?Uma coisa tão boa acaba assim, nesta discussão parva!Ela baixou a guarda, enfim. Sentiu que continuar seria maldade sua.- Podemos, tens razão. Peço-te desculpa: foste tu que começaste e eu senti-meofendida. Era a última coisa de ti que queria ouvir, depois de ter feito amor contigo...- Desculpa, Angelina, não te quis ofender.- Eu sei, são coisas que estão na tua cabeça, mais do que no teu coração. Tu deviasguiar-te mais pelo coração e menos pela cabeça, Pedro. Se queres ser feliz...Ela estava sentada no chão, ele tinha-se encostado à parede que noutros tempos foracaiada e que agora tinha só a argamassa à vista por entre as pedras.- O que eu queria, agora, é que tu não me deixasses...Ela sorriu-lhe.- Não, eu não te deixava por isto. Mas mete uma coisa na tua cabeça, Pedro RiberaFlores: eu não estou aqui para que te cases comigo. Não ando à procura de noivo nem decasamento. Estou contigo porque gosto da tua companhia, gosto de estar contigo, por maisdiferentes que nós sejamos - e somos.Ele abriu as mãos, simulando um gesto de rendição. E desta vez foi ele que avançoude gatas para o chão, onde ela estava.- E de fazer amor comigo outra vez, não gostavas?- Sim, querido. Mas... mais devagar agora, pode ser?
  • 144. XDe meados de Outubro até Junho, o jantar em Val-monte era pontualmente às sete emeia; de Junho a Outubro, às oito e meia.Quando não havia visitas, retiravam-se as tábuas do centro da mesa e esta ficava emforma de quadrado, ocupada apenas com os da casa. Com as tábuas todas, na sua extensãomáxima, a mesa de jantar de Valmonte podia levar até vinte e quatro pessoas. Na versão detodos os dias, ficava a parecer uma jangada perdida na imensidão da sala, pousada sobreum magnífico tapete de lã de Arraiolos que fora presente de casamento de Maria da Glóriae de Manuel Custódio e que ocupava quase todo o soalho de tijoleira vermelho-escuro. Erauma mesa de madeira escurecida pelos anos de cera que levava em cima, de carvalhofrancês - “madeira nobre e séria”, como dizia Manuel Custódio, que gostava de a afagarcom a mão, como se alisasse o pêlo da garupa de uma égua. Era, de facto, uma mesa deformação nobre: não queimava com a cera das velas, não manchava com as nódoas devinho ou de gordura, não riscava com o roçar distraído dos talheres de prata, não guardavaressentimentos das discussões, desavenças ou mal-querenças que muitas vezestestemunhara e sempre em silêncio.Também o jantar, em si, seguia um ritual, que os anos quer os de abundância quer osoutros - não tinham alterado. Na estação de Inverno, servia-se uma sopa quente de entradae um prato - de bacalhau ou de carne, excepto à sexta-feira, que era de peixe (o bacalhaunão contava como peixe, era uma coisa à parte, um terceiro género, uma espécie deremédio nacional) - e, no final, a criada indagava de cada um se ainda podia servir o bife dacasa, uma peça de lombo de vaca grelhada em manteiga; depois, havia fruta, queijo emarmelada e doce. Na estação de Verão, a sopa quente era substituída por uma entrada friafigos com presunto, gaspacho ou melão - e tudo o resto era igual, excepto os doces, quenormalmente cediam a vez aos gelados feitos com a fruta da casa e que eram uma dasespecialidades da Maria da Cozinha. No Inverno, mas no Inverno realmente frio, deDezembro a Março, naquelas noites em que o manto translúcido da geada caía sobre oscampos lá fora, jantava-se de lareira acesa. No Verão, se a noite estava agradável, com umaligeira brisa refrescando o ar, eles gostavam de jantar no amplo alpendre, na mesa de pedraque lá havia e à luz de velas e candeeiros a petróleo para afugentar os mosquitos. Mas se
  • 145. estivesse demasiado calor, uma daquelas noites abafadas e sem vento em que o próprio arparecia sufocar, comiam na sala de jantar, ao abrigo da frescura das suas grossas paredescaiadas e do chão de tijoleira.Numa noite do início de Dezembro, Pedro tinha levado Angelina a jantar aValmonte. Para compor a mesa, convidara também um amigo seu, que tinha a virtude dequase nunca abrir a boca e, todavia, não ter um ar excessivamente estúpido: apenas tímido.Angelina sentou-se ao lado de Pedro e à esquerda de Diogo. Ao princípio estavaconstrangida, sentindo-se justamente o alvo de todas as observações. Depois, e graças aDiogo, foi-se soltando aos poucos, embrenhando-se com ele numa conversa sobre apintura moderna. Ambos achavam que o maior pintor português contemporâneo, e talvezde sempre, era Amadeo de Souza-Cardoso, morto poucos anos antes, na flor da idade;ambos estavam fascinados pela genialidade de Picasso, que em vão tentaram explicar aosoutros: só Maria da Glória parecia seriamente interessada em compreender. Mas, depois,Diogo foi-se apercebendo de que ela sabia bem mais de pintura do que ele: ela estudava eele aprendia nas revistas. Ainda se permitiu uma aparente vantagem, quando ela falou nocatalão Joan Miro e ele respondeu: “Sabe que ele treina boxe com o Hemingway?” Ela nãosabia, mas sabia outras coisas que ele ignorava por completo. Por exemplo, que tambémhavia pintura moderna nos Estados Unidos e que, garantia ela, não era possível conhecerbem a pintura moderna ignorando o trabalho de um tal Jackson Pollock ou de um EdwardHopper - um abstracto, o outro hiper-realista - ou mesmo dos precursores de Hopper:Thomas Cole, ou os pintores da Hudson River School. Assustado, Diogo refugiou-se naarquitectura, mas ela conhecia obviamente Mies van der Rohe ou Frank Lloyd Wright, e elesó conseguiu sair mais ou menos empatado quando se lembrou de uma coisa que tinhavisto na Scientific American, revista de arquitectura, e que ela não conhecia: o recentíssimosanatório de Paimio, na Finlândia, desenhado por um quase desconhecido Alvar Aalto, eque Diogo jurava ser a pedra fundadora da arquitectura moderna, para muitos e bons anos.Ela escutou-o, com um ar pensativo, enquanto acendia um dos seus Chesterfield, emboquilha de marfim.- É difícil dizer o que é moderno na arquitectura... A arquitectura é diferente dapintura: os pintores renascentistas não são modernos, mas são para toda a eternidade. Daípara trás, sim, é difícil falar em moderno, quando pensamos em todas aquelas Virgens,anjos e santos da pintura medieval: o primeiro modernista da pintura deve ter sido oBrueghel. Mas, na arquitectura, por exemplo, existirá alguma coisa mais moderna do queuma pirâmide?
  • 146. - São artes diferentes: a arquitectura tem uma funcionalidade que a pintura não tem.Por isso, dura mais tempo e escapa mais a modas.- A pintura não tem funcionalidade?- Não, não tem: você vive dentro de casas, mas não vive dentro de quadros...- Oh, Diogo, isso nem parece de um homem culto! Um homem culto não viveapenas entre paredes, também vive com o que pendura nas paredes ou, se não penduranada, vive com a maneira como pinta as próprias paredes. A arte, qualquer arte, não tem deservir um fim: a arte oferece-se a si mesma e esse é o seu fim natural.Diogo estava entusiasmado e espantado: “Incrível como é que o meu irmão, que sóse interessa pelas vacas e pela ditadura, arranjou uma mulher destas!”- Sim, Angelina, estou de acordo consigo nesse ponto. A arte serve-se e basta-se a simesma. Mas, conforme o ponto de vista social em que nos situemos, tanto pode ser umanecessidade como um luxo. Eu e você, porque tivemos essa sorte, não poderíamos viversem a arte; mas há muita gente, demasiada gente, que pode viver sem pintura, sem música,sem literatura, porque tem outras necessidades mais urgentes e mais prementes. Mas, semarquitectura, não vivem: porque precisam de uma casa, de um abrigo, de uma igreja, deuma adega, de um poço, de qualquer coisa que tem de ser desenhada para eles por umarquitecto. E, quando constroem a sua casa, muito mais importante do que terem umquadro na parede - que, a maior parte das vezes, são essas horríveis pinturas da Senhora deFátima ou do Sagrado Coração de Jesus! - é terem tido alguém que lhes desenhou a casa eque se preocupou com a luz, com os ventos, com o calor, com o frio, etc. Essa é a grandediferença da arquitectura para qualquer outra arte: não lhe basta a beleza, tem ainda de serútil, funcional.- Que utilidade tem uma flauta nas mãos de um pastor?- Utilidade? Nenhuma, que eu veja...- Mas todos eles têm uma flauta, ou todos eles gostam de música, nem que seja dosguizos das ovelhas.Ela sorriu-lhe por cima da mesa. Diogo reparou que ela não era bonita, mas, quandosorria, iluminava-se, havia um brilho no seu olhar que era de criança e o sorriso não estavagasto, era ainda infantil.- Então, Angelina, você vai ficar muito tempo por Estremoz? - Amparo resolveramudar o tom à conversa, que aqueles dois ameaçavam monopolizar eternamente. Naverdade, não lhe cabia hierarquicamente esse papel, mas sim a Maria da Glória, ou mesmoa Pedro, antes dela. Mas havia qualquer coisa na conversa de Angelina, na importância que
  • 147. Diogo lhe dera, que a estava a enervar. Estavam as duas em frente uma da outra e Angelinalevantou o olhar para ela, ao responder.- Eu sou de Estremoz...- Pois, eu sei. Mas esteve em Lisboa, a estudar, estes últimos anos, não foi?- Foi, e agora voltei.- Para ficar, para fazer o quê?Angelina tocou com o pé em Pedro, debaixo da mesa, procurando apoio.- Amparo, ela ainda não sabe bem, nem tem de ter pressa em saber. A Angelina querser pintora e um pintor tanto pinta em Estremoz como em Lisboa, como na Cochinchina -acudiu enfim Pedro.- E, para já, vai portanto pintar em Estremoz - ou, melhor dizendo, aqui, emValmonte?- Onde é muito bem-vinda, minha querida - atalhou Maria da Glória, levantando-seda mesa, sinal para todos os outros se levantarem também. - Só espero que um dia nosofereça um desses quadros que pinta aqui. Estive muito atenta à vossa conversa e acho quetem razão: uma parede sem quadros é como se estivesse incompleta.Mais tarde, quando Diogo entrou no quarto, pé ante pé para não acordar a pequenaAssunção que dormia no berço ao lado da cama dos pais, Amparo estava deitada na cama,lendo um livro, dos vários que ele lhe havia recomendado da biblioteca da casa: O Montedos Vendavais. Se bem se lembrava, era a segunda vez que ela o lia: era um dos seusfavoritos, talvez por se identificar com a personagem de Catherine Linton. Tinha umacamisa de noite de renda branca que lhe deixava à vista o pescoço alto e grande parte doseu peito moreno abundante. Os cabelos incrivelmente negros espalhavam-se pela camisa epela almofada e os seus olhos rasgados, de cigana, tinham esse brilho atiradiço, meioselvagem, que o atraíra desde o primeiro instante em que a vira. Com o tempo, com ocasamento, com a maternidade, com a sua lenta ascensão de estatuto social em Valmonte, oolhar tinha-se-lhe tornado subtilmente mais desafiador, mais determinado. Mas, aos olhosdele, mais sedutor ainda. Mulher alguma era mais bonita do que ela: e era sua mulher, todosos dias.Despiu-se rapidamente e meteu-se na cama todo nu, quase gritando de frio dentrodos lençóis de linho que pareciam ferver de humidade e gelo. Rolou para o lado dela eencostou-se ao seu corpo quente. Ela protestou:- Mas o que fazes todo nu com um frio destes?- Adivinha...
  • 148. - Não, isso não é assim, nem eu sou nenhuma botija. Ela afastou-o com o joelho,debaixo dos lençóis, mas ele não se importou. Lentamente, muito lentamente, como seestivesse distraído, começou a deslizar dois dedos pela coxa dela, para cima e para baixo, edepois espalmou a mão e foi fazendo o mesmo movimento. Subiu, muito devagar pelacoxa acima, reparou que ela não tinha nada por baixo da camisa de dormir, mas passoudirectamente para o estômago e aí se quedou uma eternidade, como se não quisesse maisnada. Encostou a sua perna à perna dela e foi subindo a mão até chegar ao vale entre o seupeito. O bebé gemeu a dormir, no berço ao lado, e ela soltou um suspiro quaseimperceptível, fingindo continuar a ler. Ele aproveitou e agarrou-lhe o peito todo com amão bem aberta, mas suavemente. Sentiu que o bico estava duro e continuou para o outro.Enfim, ela rodou a cabeça e ele procurou a boca dela, primeiro com um dedo, para que elao chupasse, depois com dois dedos, depois com a sua boca e a língua. Então, ela virou-secompletamente de lado, passou a sua perna por cima da dele e desceu a mão direita entre assuas coxas, agarrando-lhe o sexo, como dona e senhora. Soltou-se do beijo dele emurmurou:- Chega-te aqui...Tempo depois, olhando os desenhos de estuque no tecto do quarto, sentindo denovo o frio tomar-lhe conta do corpo de cima a baixo, e pensando como era incrível poderdesfrutar do fantástico corpo daquela mulher, Diogo disse, a meia voz:- Não gostaste nada dela, pois não?- Pareceu-me muito convencida.T- alvez tenha razões para isso: é uma rapariga com valor, que está a fazer o seupróprio caminho.- O caminho dela não passa por aqui, Diogo! E tu sabe-lo bem.- Por aqui, por onde?- Por aqui. Por esta casa, por nós. Por Estremoz. A menina quer mais do que isso:tem escrito na cara. E não tem nada a ver com o teu irmão.- Pois, isso também eu acho. Mas faz-lhe bem a ele: abre-lhe os horizontes. Ele sóconheceu até hoje ou putas ou meninas-família de província, snobes, feias, devotas da igrejae com bigode. E, além do mais, está apaixonado por ela!- E ela por ele, estará?- Não sei. Mas isso é entre eles. Deixa-o descobrir por ele: seja qual for o resultadoda descoberta, acho que só lhe fará bem.- Não, Diogo. Isso não é certo: acho que ela o vai magoar. Vai usá-lo e, quandoestiver farta, deita-o fora. E logo o Pedro, coitado, que não percebe nada destes assuntos!
  • 149. - Mas vai usá-lo para quê, Amparo?Amparo abanou a cabeça. De facto, essa era uma pergunta de resposta difícil.- Não sei, Diogo. Mas sinto-o.O Ano Novo foi passado em Valmonte, conforme era tradição antiga deles. Afamília, alargada a tios, sobrinhos, primos, cunhadas e cunhados de Maria da Glória,acrescentava-se com os mais íntimos da casa, da geração dos pais e da dos filhos. Ao todo,seriam umas trinta pessoas, mas só os adultos tinham direito à sala de jantar; as crianças,que eram todos os que tinham menos de dezasseis anos, ficavam-se pela copa, comevidente benefício para ambas as categorias etárias. O jantar de Ano Novo, assim como ode Natal, era sempre um acontecimento gastronómico de referência local, em cujapreparação Maria da Glória, Amparo e a Maria da Cozinha tinham investido vários diassem descanso. Serviu-se a açorda alentejana com bacalhau e ovo, o borrego do monte,alimentado a ervas o ano inteiro, o arroz de miúdos do borrego, o ensopado de lebre e acanja de pombo bravo, que fechava sempre o capítulo dos salgados, sendo seguida por umaprofusão de doces de ovos, dos quais os mais celebrados foram a encharcada, o arroz-docecom canela, o leite-creme queimado a ferro para ficar mesmo estaladiço e a siricaia - umaimprovável combinação de um doce indiano, que um Bragança, antepassado dos últimosreis de Portugal, trouxera da sua estada em Goa, a que acrescentara as ameixas verdes deElvas. Depois veio ainda à mesa um queijo de Serpa curado e um queijo da serraamanteigado, trazido no próprio dia de Seia por um parente de Maria da Glória - queijos edoces empurrados estômagos adentro com um porto vintage de 20 anos, marca Borges, euma aguardente de zimbro, cor de âmbar. Ao soarem no relógio de parede as dozebadaladas da meia-noite, já no salão aquecido pela grande lareira de pedra alentejana,bebeu-se em Valmonte, sem que eles o soubessem, o último champagne que haveria de serbebido por muitos anos: um Dom Pérignon demi-sec. Saudaram-se os vivos e, em especial,os dois mais recentes habitantes de Valmonte: os pequenos Manuel e Assunção, filhos deAmparo e Diogo. Os mais novos tomaram conta do salão e do gira-discos e, para mostrarque Estremoz não ignorava as novas modas, dançou-se a rumba e ouviram-se os grandesêxitos planetários do ano: Smoke gets in your eyes e Stormy weather. Mais tarde, remetida ajuventude a outras paragens, o velho juiz António Sacramento sacou da viola, o velhoAquino Morais, vizinho de Encerra-Vacas, a herdade que fazia extrema com Valmonte,pegou na sua guitarra portuguesa, e o filho deste, conhecido como António “o Belo”,sacudiu a sua brilhante melena negra, inchou o seu bem proporcionado peito, derramou oseu olhar melancólico pela sala e soltou o fado. O fado de Alfredo Marceneiro, o mesmo
  • 150. que corria como vento na pradaria por todos as salas, salões e casas de pasto dessa Lisboaque idolatrava Marceneiro e sabia de cor todos e cada um dos versos dos seus fados.Também Diogo era apaixonado pelo fado na voz de Alfredo Marceneiro. Esperouaté escutar o refrão do seu preferido (“Adeus, cabecita louca/ hei-de esquecer/ a tua boca/na boca/ de outra mulher...”) e saiu discretamente para a biblioteca, onde também ardia umfogo vivo, propenso à melancolia. Gostava de fado, mas não gostava da moral derrotista efatalista do fado: um lamento de vencidos, de conformados, de gente perdida numanostalgia sem grandeza. O fado, pensava ele, era bem o espelho de um Portugal semesperança, sem horizonte, que substituía o risco pela lamúria, a aventura - que, segundorezava a história, fora apanágio dos portugueses antigos - pela fatalidade do “viverhabitualmente”, de que falava Salazar. Tinha regressado de Lisboa nessa manhã, deixandopara trás uma capital empolgada com coisas sem importância, como a remodelação dovelho Café Nicola, no Rossio - onde se contava que o poeta setecentista Bocage tinha pordiversas vezes desafiado a autoridade e os bons costumes estabelecidos, coisa que agorapareceria de todo improvável de acontecer. É verdade que sentira em Lisboa a influência deum certo obreirismo a que dava rosto o ministro das Obras Públicas e Comunicações,Duarte Pacheco, um brilhante e jovem algarvio da sua idade, que se formara no Técnicocomo engenheiro electrotécnico, com 19 valores, e aos 26 anos já era professoruniversitário. Ele, nas Obras Públicas, e António Ferro, na Cultura, eram os únicos homensdo regime que davam mostras de não se conformarem com a áurea mediocritas a que o“viver habitualmente” de Salazar incitava todos os portugueses. Mas, justamente ali ao ladodo SPN, onde Ferro estimulava e subsidiava os filmezinhos que faziam a propaganda do“bom povo português”, provinciano e feliz, a quem um simples fado chegava para fazeresquecer ou tornar naturais todas as agruras da vida, ali ao lado, na sala do Politeama, elevira na véspera o último filme de John Ford, A Patrulha Perdida, e, olhando para asimagens na tela do Politeama, sentira outra vez como Portugal era pequeno - de tamanho ede alma.O seu amigo e conterrâneo Rafael Monteiro, o advogado-aviador a quem Diogoficara a dever o seu baptismo do ar, veio sentar-se com ele ao lado do fogo da biblioteca.Tinham crescido juntos no liceu de Estremoz e, agora adultos, comungavam das mesmasideias políticas. “Nada mais natural - pensou Diogo, vendo-o sentar-se a seu lado. - Comopoderia um advogado e aviador não estimar a liberdade? Advogar é desprezar as ditaduras evoar é ser livre...”O ano de 1934 chegava ao fim sem deixar saudades aos que não estavam com asituação. Salazar estendia a sua teia, mexia meticulosamente as suas peças: desentendera-se
  • 151. com o Presidente da República, forçara um braço-de-ferro e fora o Presidente a capitular:ele, chefe do Governo, promoveria o velho Presidente Carmona a marechal e faria dele, daíem diante, um fantoche ao seu serviço. Depois, subjugou os últimos resquícios da oposiçãode direita, o nacional-sindicalismo, organizou as primeiras eleições do regime, nas quais aUnião Nacional, único partido autorizado a existir e a concorrer, recolheu 100% dosmandatos, formando um parlamento de ilustres eunucos, e acabou o ano a inaugurar osdiscursos radiodifundidos em directo através do Rádio Clube Português, a primeira rádiopró-regime a instalar-se. Nada, num horizonte próximo ou longínquo, parecia agora capazde abalar o seu poder absoluto - a menos que fosse o tédio a cansá-lo e isso não pareciaprovável: como sucede com todos os ditadores, os seus desejos confundiam-se com arealidade, e, olhando-se ao espelho, ele via, todas as manhãs, um povo inteiro que o amava,venerava, trabalhava, sofria e, se necessário, morreria por ele. Como haveria de cansar-se detanta glória, tanto amor, tanta gratidão! Salazar, o homem sem mulher, sem amantes, semfilhos, sem família, sem amigos, estava “casado com o povo português”. Para toda a vida,bem entendido: não havia divórcio na lei civil do Estado Novo.O mundo, aliás, tendia para os ditadores. Hitler, aproveitando a morte do velhoPresidente Hindenburg, juntara as suas funções de chanceler às de Presidente da Alemanha.Anexara o Sarre e, a fazer fé nas incansáveis advertências do deputado, jornalista, soldado earistocrata inglês Winston Churchill, iniciara em grande escala o rearmamento daAlemanha, com o apoio de toda a indústria do Ruhr e em especial da família Krupp. Lálonge, na URSS, o “pai dos povos”, o bom do Estaline, em quem os comunistasportugueses depositavam tantas esperanças na regeneração da humanidade, iniciara as suaspurgas em grande escala, começando logo por sacrificar o seu colaborador íntimo SergeiKirov, e inaugurando a que viria a ser a mais célebre e tenebrosa prisão política de todo oséculo, a Lubianka, e os campos de concentração da Sibéria. Em Roma, o patéticoMussolini ameaçava com as novas hostes romanas e também ele purgava sistematicamentequem ousasse sequer questionar o seu génio universal, mesmo dentro do Grande ConselhoFascista. Na Áustria, o chanceler Dolfuss, depois de ter suspendido o regime parlamentar,dizimara os social-democratas, antes de acabar ele próprio assassinado pelos nazis daÁustria. Enfim, em Espanha, a extrema-direita, representada pela CEDA, que fora opartido mais votado nas eleições de Novembro do ano anterior, acabara finalmente porconseguir impor ao Presidente republicano Alcalá Zamora a sua entrada no governo decentro-di-reita chefiado por Lerroux. A CEDA, um agrupamento de partidos de direita queconseguira apear a esquerda socialista e republicana do poder, reunia os católicos, osgrandes agrários, os nostálgicos da ordem e os inimigos das autonomias regionais, deixando
  • 152. de fora, na direita, apenas parte dos monárquicos e a Falange - um corpo paramilitarfascista fundado por José António Primo de Rivera, filho do último ditador da Monarquia.A chegada ao poder da CEDA e do seu líder Gil Robles - que a esquerda acusava desimpatias nazis - provocou uma imediata revolta na Catalunha e nas Astúrias. Barcelona foisubjugada em dois dias, mas nas Astúrias a revolta só foi dominada após pesadas baixas euma batalha rua a rua na cidade de Oviedo, entre as milícias operárias e os regimentos daLegião Estrangeira, reforçados por tropas marroquinas chefiadas pelo jovem generalFrancisco Franco - um dos “africanos”, como eram conhecidos os oficiais que tinhamsubido rapidamente na carreira, a partir das guarnições sediadas no Marrocos espanhol.Mais do que pela mestria militar, as tropas governamentais chefiadas por Franco iriamdistinguir-se pela sua capacidade de ajuste de contas: cerca de vinte mil prisioneiros,centenas de revoltosos sumariamente fuzilados, torturas sem freio nas prisões. Evocando oexemplo da repressão após a Comuna de Paris, Calvo Sotelo, líder da direita monárquica,instigou o governo a não ter contemplações: “A execução dos membros da Comuna deParis deu à França setenta anos de paz social.”De facto, olhando para o país e para a Europa, Diogo sentia que o ano de 1934 foraum ano de apertar do cerco - o cerco em volta das pessoas livres, dos que gostavam depensar pela sua cabeça e não estavam disponíveis para jurar eterna obediência a chefesiluminados. Ele vira, na imprensa de Lisboa, uma fotografia de Gil Robles, passando revistaàs Juventudes do seu partido, no cenário emblemático do Escoriai: um grupo de jovens,alinhado em duas fileiras, saudava-o de braço estendido, gritando, segundo a legenda dafotografia, “Jefe! Jefe!”. Em alemão, Jefe podia-se traduzir por Fuhrer, em italiano porDuce, e em português por “Chefe”. Em qualquer língua, em qualquer lado ou em qualquercontexto, aquela fotografia e aquela saudação significavam sempre o mesmo: o desejo deser mandado, a apetência pela submissão, a estética da vassalagem. Felizmente, havia aInglaterra e os Estados Unidos, duas grandes democracias ocidentais, onde o valor daliberdade individual, dos governos sufragados, da liberdade de imprensa estavam longe dese mostrar gastos. E havia o cinema de Hawks ou de Ford, os hvros de Fíemingway, deSteinbeck, de Graham Greene, de Bernard Shaw, de Virgínia Woolf, de Orwell, deTennessee Williams ou de Scott Fitzgerald - como esse espantoso Tender Is the Nigbt, quesaíra nesse ano e que ele devorara - para lembrar que havia ainda pátrias para a liberdade erazões de crença e de esperança. Mas, onde quer que isso fosse, onde quer que se situassemessas terras da liberdade, não era aqui, seguramente. Já vira o suficiente, já lera o suficiente,já percebera o suficiente para o saber. Ele tinha exactamente a idade do século: 34 anos.
  • 153. Demasiadamente velho para se permitir ilusões, demasiadamente novo para se conformarcom a falta de ilusões.Diogo inclinou-se para a frente e remexeu o lume com o ferro da lareira. As chamasespevitaram subitamente, como se o fogo estivesse a dormir, à espera de que alguém oacordasse. Só então se deu conta de que Rafael não dissera ainda uma palavra desde queviera sentar-se no cadeirão de couro a seu lado. Ficara também em silêncio, olhando o lumee bebendo pequenos goles do seu copo de aguardente. O melhor que a amizade tem,pensou Diogo para consigo, é a partilha do silêncio.- Em que pensas, Rafael?- Provavelmente, no mesmo que tu. No ano que passou e no que agora começa...- Não vai ser muito diferente, pois não?- Não me parece, não...-Pois... -Diogo esticou as pernas em direcção à lareira. - A mim e a ti falta-nosespaço. Mas há muita gente que se diz satisfeita. E não só os privilegiados: também ospobres. Estão sempre a rezar missas de acção de graças - pela paz, pela segurança, peloEstado Novo. Pela Senhora de Fátima e pelo Salazar, as duas entidades que dizem poder“salvar Portugal”. Tu ouves o que eles cantam na igreja à Senhora de Fátima: “Enquantohouver portugueses, tu serás o seu amor.”? Caramba, será que eu, a quem a senhora daazinheira não diz nada, não sou português?Rafael riu-se.- Bem, Diogo, tu, pelo menos, tens dois filhos pequenos para criar: sempre é umprojecto, qualquer coisa que escapa à mediocridade reinante. Mas eu e a Luísa,infelizmente, não temos filhos. Só nos temos um ao outro.- Tens o teu avião, Rafael! Lá em cima és livre.- Hum, não sei quanto tempo mais, Diogo. Sabes que estão a restringir cada vez maisas autorizações de voo para os aviões de turismo de particulares? Para levantarali de Évora, é preciso enfrentar uma pequena batalha burocrática e os interrogatórios dopolícia de serviço.- Mas porquê?- Porquê ao certo, não dizem. Mas acho que tem que ver com a situação emEspanha: têm medo que os aviões levem armas para a esquerda espanhola ou que as tragamde lá para a nossa oposição.- A sério, já nem o céu?- Já nem o céu!Diogo levantou-se.
  • 154. - Bom, vamos ter com os outros. Esta é uma noite para tentar estar feliz. 1935 vai sermelhor! Sinto-o. Tchim-tchim! - E estendeu o copo a Rafael.- Tchim-tchim!Em Janeiro, as manhãs cobriam-se de um espesso manto de névoa branca que seseguia às geadas da noite. Eram as noites mais preocupantes na actividade agrícola deValmonte. A geada queimava as árvores e os rebentos e era necessário cobrir as maisfrágeis com mantos de palha durante a noite e regá-las de manhã cedo, antes que as raízessucumbissem. Se as geadas se prolongavam, as sementeiras do Outono morriam e erainevitável alimentar o gado com o feno guardado nos armazéns e esperar que ele chegassepara todo o Inverno. Mas, pelo frio, matavam-se os porcos e essas eram ocasiões solenes.Quase todos matavam: os senhores da casa, os caseiros e rendeiros, muitos dostrabalhadores, que dispunham de um espaço reservado na herdade para criarem o seuporco durante o ano. A diferença entre uns e outros era simples e via-se a olho nu: os“porcos da casa” eram mais magros, mais carne que gordura; os porcos dos caseiros etrabalhadores eram tão gordos que chegavam a pesar catorze e quinze arrobas e, nosúltimos dias antes da matança, já nem conseguiam manter-se em pé, jazendo deitados delado à espera do dia fatal. Engor-davam-nos assim porque o porco representava meses decomida para eles, durante o ano. E, por isso, a matança constituía um dia tão importante navida das famílias, que eram inteiramente mobilizadas para esse misto de ritual, trabalho ecelebração. O porco era morto por um homem, destro com a navalha, que o sangrava pelagarganta lentamente, enquanto o pobre soltava gritos lancinantes e tentava em vão soltar-seda malha formada pelos braços dos outros homens. A razão por que o matavam demaneira tão bárbara não era por sadismo, mas por fome: o sangue que pingava erarecolhido num alguidar e, logo nesse dia, parte dele seria cozinhado e comido, e outra parteseria guardada para os chouriços de sangue. Tudo, aliás, se aproveitava no porco: uma vezmorto e escorrido, eram queimados os pêlos, aberto ao meio e retiradas as tripas, que asmulheres iriam lavar ao ribeiro e que, mais tarde, serviriam para ensacar os enchidos. A peleera reservada para coiratos, que seriam assados na brasa e acompanhados com um vinhotinto de ocasião. As vísceras eram integralmente aproveitadas, assim como os pés, as mãos,a cabeça, as orelhas: tudo era conscienciosamente separado e colocado em baldes, para serlavado e preparado. Até as amígdalas do bicho, a que chamavam molejas, eram saboreadas,sendo aliás a primeira coisa a ser provada no dia da matança. Bem esquartejado, lavado edissecado, as únicas coisas que não se aproveitavam no porco deviam ser os olhos e osdentes: tudo o resto tinha a sua utilidade e os seus adeptos. Limpo das partes menosnobres, passava-se às carnes junto à camada de gordura, que eram transformadas em
  • 155. “enchidos” - paios, chouriços, farinheiras - às vezes quase só gordura, envolta nas tripas,atadas com um nó nas pontas e logo penduradas no fumeiro, onde iriam ficar durantemeses: esse era trabalho que ocupava as mulheres o dia inteiro. Alguns, mais abastados,talvez guardassem uma perna para fazer um presunto, mas a regra era então salgar toda acarne de primeira - pernas, costeletas, lombos - e, eventualmente, vender parte dela.Os convites para a matança eram habituais entre familiares, amigos ou vizinhos, peloque, durante os meses de Dezembro e Janeiro, eram raros os domingos em que não haviauma festa de matança. Num desses domingos de Janeiro, Pedro tinha acabado de sair doalmoço da matança do porco de André da Cruz, o corticeiro. Vinha com a cabeça pesadado vinho de má qualidade que bebera e da aguardente de medronho que, logo pela manhã,o haviam forçado a experimentar, para acompanhar a moleja grelhada sobre as brasasacesas em pleno chão. O seu desejo era ir para casa dormir, mas tinha-se comprometidocom Angelina a passar pelo estúdio dela na vila, e ela insistira para que não faltasse, dizendoque tinha uma coisa importante para falar com ele.Com os frios de Dezembro e Janeiro, Angelina abandonara o seu ritual de ir pintarpara Valmonte. Em vez disso, transformara a antiga cocheira da casa dos pais em estúdio eagora era ali que passava o grosso dos seus dias, entre cavaletes com quadros por acabar euma quantidade deles, já acabados ou não, encostados no chão uns aos outros. O espaçoera exíguo e húmido e ela aquecia-se com um fogareiro a petróleo que só irradiava calor ummetro à volta. Para se sentar, para descansar e para fazer amor com Pedro, trouxera de casados pais um velho sofá de pano verde desbotado e com as molas já a roçar no chão. Tinhaum cinzeiro, dois castiçais com velas que gostava de ter acesas enquanto pintava, um bancode madeira em frente ao cavalete e o gira-discos onde passava a sua música preferida: jazz.Recebeu Pedro vestida com umas calças pretas, um longo camisolão de lã castanha,cujas mangas, excessivamente grandes, lhe serviam de luvas para o frio, e, por cima disso,uma bata já sem cor bem definida, tantas e tão grandes eram as manchas de tinta que acobriam de alto a baixo. Tinha o cabelo preso ao alto com uma travessa de tartaruga,caindo-lhe em cascata desordenada dos lados da cara, uma mancha de tinta azul ao lado donariz e um sorriso limpo, aberto, que sempre tinha em Pedro o efeito de lhe fazer baixar aguarda e calar as perguntas que tantas vezes tinha para lhe pôr e não punha. Ele gostava dese sentar no sofá, ficando a vê-la meio de costas, meio de lado, e, enquanto ela pintavaouvindo a sua música, ele lia o jornal ou simplesmente observava-a. Mas nessa tarde, depoisde ele se ter sentado no sofá, ela abandonou o quadro em que estava a trabalhar e rodou obanco para ficar de frente para ele.Olhou-o por um longo instante, como se estivesse a fixar-lhe as feições.
  • 156. - Pedro, tenho um pedido a fazer-te. - Suspirou, olhando-o. - Antes que digas quenão, deixa-me dizer-te que para mim é muito importante e davas-me uma grandealegria se dissesses que sim.- O que é?- Queria pintar-te.- Pintar-me?- Sim, fazer o teu retrato. Ele sorriu-lhe.- Bem, também não me parece assim um pedido tão extraordinário...- Mas queria pintar-te nu...- Nu? Tu queres pintar-me nu? - E, levantando a cabeça para trás, desatou a rir-se àgargalhada.- Pedro, estou a falar a sério!- Ah, ah, ah! Desculpa lá, mas só consigo rir-me a imaginar a coisa! Pedro RiberaFlores, nuzinho em pêlo, aqui exposto no teu atelier para os visitantes admirarem! Ah, ah,ah! Desculpa lá, Angelina...- Não, não quero que peças desculpa, só quero que digas que sim.A custo, Pedro parou de rir e conseguiu encará-la sério.- Vá lá, meu amor, tu sabes que isso não tem pés nem cabeça!Mas Angelina tinha-se preparado para a recusa inicial, instintiva, dele. Deixou-o rir-se, escandalizar-se com a ideia, declarar que se recusava terminantemente a tal coisa, jurarque estava absolutamente fora de questão. E, depois, pegou-lhe na mão, sentou-se ao ladodele no sofá, encostou-lhe e cabeça ao ombro e começou a explicar-lhe as suas razões.Tudo resumido, ela queria guardar uma recordação do corpo dele, tal como agora era e talcomo o tinha conhecido, amado e desfrutado. Queria guardá-la para sempre, antes que ainevitabilidade dos anos escorresse pelo seu corpo abaixo, apagando da memória dela aimagem desse corpo, no apogeu dos seus vinte e nove anos de idade. Era um desejo seu,íntimo e pessoal, um segredo, que ela guardaria para si e só para si, mesmo que a vida osseparasse. Isto fazia sentido para ele?- Não, não faz sentido nenhum: para isso, era mais lógico tirares-me uma fotografia,admitindo que eu consentia.- Uma fotografia, sim, também fixaria o teu corpo de agora para sempre. Mas peloolhar da objectiva da máquina, não pelo meu olhar. Se eu te pintar, o teu quadro vai-merecordar sempre, não só como tu eras quando me apaixonei por ti, mas também como erao olhar com que eu te vi. Um quadro tem uma liberdade que a fotografia não tem: posso
  • 157. fixar-me naquilo de que mais gosto em ti e no teu corpo e posso, acima de tudo, reviverinfinitamente a maneira como hoje te vejo quando olho para ti.- Mas porquê nu?- Porque nu, és indefeso, és meu. A nudez é uma forma de generosidade: quando medespi para ti pela primeira vez, no moinho de água, ofereci-te o meu corpo, que é a coisamais íntima que eu tenho. Sabes que há pessoas, casais, marido e mulher, que vivem umavida inteira juntos, têm relações, fazem filhos, envelhecem fisicamente ao lado um dooutro, e nunca se viram nus?Ele abanou a cabeça, sem querer entender.- Que tamanho teria esse quadro?- Que tamanho? Bem, não pensei nisso. Teria o tamanho que tu quisesses.- Podia ser pequeno?- Podia, claro. Não precisa de ser à escala natural...- E o que farias ao quadro?- Ficaria comigo para sempre, junto a tudo o que me é mais querido.Pedro puxou-a para si e procurou-lhe a boca. Ela encostou-se ao corpo dele de corpointeiro, fechou os olhos e abriu a boca para a língua dele.- Deixas?Ele afastou-a ligeiramente para melhor a encarar.- Tenho duas condições...- Diz.- Uma: não me pintas a cara. Pões uma máscara, fazes uma sombra, qualquer coisa.Outra: eu quero o mesmo. Também quero guardar uma imagem do teu corpo assim, parasempre. Mas, como não sei pintar, deixas-me fotografar-te nua.Ela soltou-se do abraço dele, radiante.- Está feito! Mas, em vez de te pintar de frente com uma máscara ou uma sombra,pinto-te de costas, com a cara a três quartos: vê-se o esboço do teu perfil e nada mais.- E não te importas que eu te fotografe nua?- Nunca ninguém o fez, Pedro. Fico louca com a ideia de que tu o faças!Maria da Glória nunca se confessara ao padre Júlio. “Ou se é visita da casa, ou se éconfessor: as duas coisas juntas só pode dar confusão!”, concluíra ela, há muitos anos atrás.Na verdade, o padre Júlio ressentia-se um pouco da situação. Sabia, obviamente, que elapreferia confessar-se, aos domingos de manhã, na Igreja de Santa Maria, ao padre João, queera bem mais novo, mais “moderno” e suspeitadamente do “contra”. No tempo de ManuelCustódio - ele que não gostava de ir à missa (como, aliás, sempre fora tradição dos homens
  • 158. alentejanos) -, o padre Júlio confessava-o ocasionalmente, quando Manuel Custódio lhesoltava uma valente palmada nas costas e exclamava:- Ó padre Júlio, vamos passar ali na capela antes do jantar, que eu estou a arrebentarde pecados!Mas eram pecados de homem e eram apenas aqueles que o próprio Manuel Custódioconsiderava como pecados. O padre Júlio despachava aquilo sem criar grandes problemasao pecador, apenas suaves penitências de cinco pais-nossos e umas dúzias de ave-marias,acompanhadas de uma exclamação que parecia dirigir-se mais ao confessor que aoconfesso:- Vai perdoado, sr. D. Manuel, que a misericórdia do Senhor é infinita. Mas não seriapossível conter-se um bocadinho mais nos pecados da carne - porque os de espírito não háquem os não cometa?Manuel Custódio ria-se desanuviado, no recato do confessionário, e lá vinha maisuma grossa palmada desabar nas costas do aturdido sacerdote:- Ora, padre Júlio! Cada um é como é, e para isso é que Deus o pôs cá na terra. Paraouvir, perdoar e calar!E, se já antes, em vida do marido, a Maria da Glória não ocorria confessar-se aomesmo padre que escutava os pecados do seu homem, também após a morte deste não viramotivo para variar de método de arrependimento. Se pecados tinha, só o padre João osaberia. Uma ou duas vezes, entre o salão grande e a sala de jantar de Valmonte, quecontinuara sempre a frequentar, o bom do padre Júlio tentava vender o seu peixe:- Como vai isso de fé, minha filha?Ela respondia qualquer coisa, meio embaraçada. Mas, sem que o padre Júlio, desejosode atrair uma ovelha daquela categoria ao seu rebanho privado de fiéis, o soubesse, não eraa proposta dele que a deixava atrapalhada, mas o alcance da própria pergunta. Como vaiisso de fé? Excelente e inconveniente pergunta.Pensava na resposta a essa devastadora pergunta, ajoelhada na pequena capela daherdade, que fora mandada erguer, uns cem anos antes, pelo avô de Manuel Custódio,dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Não saberia dizer se era a fé ou o bem-estar quesentia quando vinha ali sozinha que a fazia quedar-se por vezes durante uma hora inteira,sentada ou ajoelhada, contemplando a imagem da Senhora da Conceição, sempre guardadapor flores frescas nas jarras que a ladeavam e com a chama da lamparina de azeite a seuspés, que era acesa por cada um que entrava, fazendo dançar reflexos de luz nos azulejosazuis e brancos das paredes. Ali fora baptizado Manuel Custódio, ali se casara ela e ele, alihaviam velado os corpos dos pais dele, ali o chorara morto, se casara Diogo e Amparo, se
  • 159. haviam baptizado os filhos deles. A pequena capela, onde não cabiam mais de trintapessoas apertadas, assistira a todas as alegrias e desgraças dos Flores, celebrara os nascidos,enterrara os mortos, casara os novos, escutara o desamparo dos velhos. Ali, estranhamente,ela sentia-se em casa, no mais fundo da casa, no único lugar onde, se isso fosse possível, avida fazia sentido. E até mesmo a morte.Seria isto a fé? Ou seria apenas o desejo da fé - jamais satisfeito, jamais pacificado?Sentada na primeira fila da capela, ela meditava na fragilidade de todas as coisas. A neta,Assunção, a mais frágil de todas as plantas de Val-monte, que sobrevivia a custo, e à custade sustos sucessivos, aos primeiros meses de vida, como se ainda não tivesse decidido sequeria ou não viver. O neto, Manuel, só com um ano a mais do que a irmã e a quem agravidez quase imediata e complicada de Amparo deixara meio órfão de mãe, quando maisprecisava de colo, mama e mimo. A própria Amparo, que Maria da Glória estimavaverdadeiramente, como nora e como pessoa, com qualidades profundas que ela aprendia aadmirar cada vez mais, mas que parecia de repente atordoada, um pouco perdida, tendoenfrentado duas gravidezes sucessivas, um segundo parto que quase a matara e um maridodado a ausências, físicas e mentais, que só tornava mais inseguro o chão que ela pisava.Diogo, o seu filho amado até ao absurdo, que vira crescer, tornar-se adulto e pai, semnunca largar aquela melancolia, aquele mal-estar que não se entendia, aquele eternodesassossego que perturbava todos à volta. E Pedro, o seu mais do que querido filho, comotodas as mães desejavam - seguro, firme, inabalável, agarrado a coisas simples e evidentes,tal qual o seu pai. Agora, Pedro era o seu motivo de preocupação principal: havia aquelarapariga, a Angelina, que se via que ele amava apaixonadamente, que tinha vindo, por umavez, perturbar a sua segurança, a sua frieza, mesmo a sua arrogância. O que seria dele, seaquele namoro corresse mal? Se as gritantes diferenças entre ambos fossem mais fortes doque a atracção que os juntara?Não queria ver sofrer os seus filhos. Não os queria ver, ainda tão novos, desfazeremas ilusões que tinham, como feirantes desfazendo a tenda após a feira. Por isso, estava alihoje, ajoelhada aos pés da Senhora da Conceição. Para pedir por eles, pela família que lhecabia velar. Os filhos dela e de Manuel Custódio. A raça dos Flores. A continuação dalinhagem. Tudo isso era mais importante do que ela própria. Guardava para eles a fé quetivesse. Para rezar por eles, para que fossem felizes, para que nada de mal lhes acontecesse.Porque havia no ar um sopro de tristeza, talvez mesmo um prenúncio de desgraça, que elasentia e que a arrepiava, quando atravessava os corredores silenciosos da casa, e não, nãoera o frio que a fazia chegar o xaile mais aos ombros e pisar o soalho mais devagar para não
  • 160. perturbar essa frágil textura dos dias felizes que, como tudo o que é feliz, podia ruir aqualquer momento.Benzeu-se e rezou em voz alta:- Senhora da Conceição, guarda esta casa e os seus filhos e netos. Guarda as suasmulheres e os filhos das suas mulheres. Guarda os meus filhos, os meus netos, todos osque aqui trabalham e vivem. Afasta os perigos e as mortes. As secas, as geadas e astrovoadas. As doenças e os desgostos, os desentendimentos e as tristezas. Senhora daConceição, fica connosco, nesta casa que é tua. Ámen.Levantou-se e apagou a lamparina. Ajoelhou-se em frente ao altar, fazendo o sinal dacruz na testa, e saiu, fechando a porta da capela atrás de si.Durante três tardes a fio, Pedro lá foi posando nu para o retrato de Angelina,precariamente aquecido pelo fogão a petróleo e embalado pelo som das últimas canções deCole Porter que saíam do gira-discos dela: AU through the night, How could we be wrong?e a sua favorita entre todas, Anything goes. Tal como prometera, ela pintava-o de costas eem pé, olhando em direcção à luz, para uma janela alta na antiga cocheira, o braço apoiadono parapeito. Jogara com a luz e as sombras, para lhe deixar a cara na sombra e o dorso naluz. Ninguém, senão eles, poderia identificar o modelo.Ao fim da terceira sessão, ela declarou-o liberto, explicando que, a partir dali, já nãoprecisava dele para acabar o quadro. Arrastou-o para o sofá, sem o deixar vestir a roupa, efez amor com ele de uma forma apaixonada e quase violenta, como nunca antes. Quandose recompuseram, ela deixou escapar, pensativa:- Aprendeste muito comigo, sobre isto...Ele riu-se.- Quem diria!- Quem diria, não é? - suspirou ela.Angelina levantou-se e começou a vestir-se lentamente, deixando-o apreciar bem oseu corpo esguio e proporcionado que, aos poucos, ia tapando. Sabia bem quanto, desde aprimeira vez, ele gostava de a ver despir-se e vestir-se. Caminhou até à janela, agora elavoltada de costas para ele, porque não tinha coragem de o olhar no momento em quesoltasse as palavras que há muito lhe estrangulavam a garganta.- Pedro: eu não te disse a verdade toda. Quis que posasses para mim, porque tequeria levar comigo para sempre. - Fez um esforço tremendo e virou-se para o enfrentar. -Vou-me embora, Pedro.
  • 161. Assim de repente, ele nem percebeu bem o sentido do que ela tinha dito. Foi comose uma bomba tivesse acabado de rebentar dentro da cabeça dele. Começou a vestir-setambém, à toa, um ligeiro tremor nas mãos, que o deixou assustado.- Embora? Embora para onde?- Embora daqui, embora de Estremoz, embora da tua vida. Vou-me embora, Pedro...- As lágrimas vieram-lhe aos olhos e ela voltou a virar-se de costas para não o ver. - É sóisso...Pedro alcançou-a junto à janela, virou-a pelos ombros e obrigou-a a olhá-lo de frente.- Diz-me isso na cara! Vais-te embora?- Vou, Pedro. - Tentou em vão libertar-se do aperto das mãos dele nos seus ombros.- Vais para Lisboa? Tens outro, é isso? - A voz dele subira de tom e era agoraameaçadora.- Senta-te, Pedro, e ouve-me. Por favor, não tornes tudo mais difícil!A custo, conseguiu empurrá-lo para o sofá e puxou para si o banco do cavalete,sentando-se à sua frente.- Quem é ele? - insistiu Pedro, o rosto fechado, uma expressão dura no olhar, que elanão lhe conhecia.- Não é ninguém. Não há ninguém, juro-te por tudo o que me é mais querido. Não tetroco por ninguém, nem é a ti que eu deixo. Eu amo-te, Pedro!- Vais-te embora porquê, então?- Quero seguir o meu sonho: quero ser pintora.- E tens de te ir embora para ser pintora?-Tenho sim, Pedro. Tenho de estudar, de aprender com os outros, de viver nummeio onde as pessoas se interessem por pintura, onde haja mercado, agentes, galerias,exposições, vida cultural, tudo isso...- E onde é isso, então? Em Lisboa? Ela sorriu, triste.- Não, não é em Lisboa...- Aonde, então?- Paris.Ele largou a cabeça para trás e soltou um profundo suspiro.- Paris... vais para Paris? -Vou.- Portugal não te chega?- Não.- É o tudo ou nada?
  • 162. - Isso mesmo. Tenho 23 anos, esta é a altura de tentar. Se ficar aqui, nunca passareide uma pintora de província, a pintar quadros de paisagens alentejanas ou ruas da Mouraria.Pode ser que eu falhe, que não tenha êxito nenhum - é mesmo o mais provável. Mas nuncame perdoaria se não o tivesse tentado e se não tivesse querido saber se valho ou nãoalguma coisa. Pensei muito nisto, Pedro. Muito, mesmo. Acredita que pensei noites a fioem tudo o que teria de deixar, a começar por ti, e nas dificuldades terríveis que meesperam, nas saudades que vou ter dos dias em que nada era mais importante e mais felizdo que ir até ao ribeiro em Valmonte e ficar a pintar enquanto tu conversavas comigo.Acredita que o que eu mais gostaria era de poder guardar as duas coisas e não ter deescolher nunca. Mas sei que é impossível.- Nunca te ocorreu pensar em propor-me que fosse contigo para Paris?Ela sorriu. Um sorriso doce e triste. “Não, não é bonita”, pensou Pedro, olhando-a.“Arranjo melhor, não é nenhum drama!”- Ocorreu, claro que ocorreu. Mas tu sabes tão bem como eu que isso nem sequer fazsentido. Que farias tu em Paris? Não há vacas em Montmartre, meu querido! Em três dias,estavas a desesperar por espaço, campo, tudo aquilo que te faz ser como és e como eugosto que sejas. Tu pertences aqui - da mesma forma que eu não pertenço, e tu sabes isso!Ficaram calados. “Que mais poderei dizer?”, pensava ele. “Que mais haverá adizer?”, pensava ela. Depois,Pedro levantou-se vagarosamente, sentindo-se pesado e gasto. Foi andando até àporta e contou os passos que o separavam dela: cinco. “Caramba, temos vivido fechadosnum buraco!”, foi o que lhe ocorreu. Parou, com a mão na maçaneta, e virou-se para aolhar. Uma névoa toldava o olhar de Angelina, o seu rosto estava estendido em frente,como se esperasse alguma coisa dele. Uma súplica? Não, não devia ser isso, de certeza. Umbeijo de boa-noite?- Quando partes?Ela encheu o peito de ar, consciente de que para sempre iria escutar no mais remotodo seu corpo a sua própria resposta naquele instante.- Amanhã - disse, muito baixinho, como se quisesse que ele não ouvisse.- Quando?- Amanhã.Ele assentiu com a cabeça.- Ah, é melhor assim!
  • 163. - Foi o que eu pensei... - começou ela a dizer, mas o resto já não chegou a dizer,porque Pedro tinha aberto a porta e saíra para a rua, sem virar a cabeça nem pronunciarmais palavra.Doía-lhe tudo, desde que ela partira. Doía-lhe fisicamente - até o orgulho, que elesituava algures entre o coração e a garganta. Por ele, nunca mais teria pronunciado o nomede Angelina perante os outros, nunca teria confessado que a perdera, nunca, sequer, teriareconhecido que a amara. Mas, dois dias depois, à mesa do jantar, a mãe perguntara por ela.Ele hesitou antes de responder, mas depois, como lhe ensinara o pai (“pega o touro peloscornos!”), levantou a cara do prato de sopa e enfrentou-os a todos - a sua família, o que lherestava de mais certo, de imutável.- A Angelina foi-se embora. Foi para Paris para ser pintora.Fez-se um silêncio tremendo à mesa. Maria da Glória sentiu aquela declaração dofilho como uma facada nela própria: num repente, abarcou toda a dimensão da dor do seufilho, percebeu que alguma coisa tinha morrido para sempre nele e teve medo, por ele, doque seria a sua vida daí em diante. “O destino”, pensou ela, “pôs-lhe uma oportunidade àfrente para ser feliz e depois roubou-lha. Deus tenha misericórdia dele! Deus não permitaque aquele coração se transforme numa pedra!” Diogo olhava o irmão, que tinha voltado amergulhar a cara na sopa e comia sem levantar os olhos do prato. Do outro lado da mesa,encontrou o olhar de Amparo, que parecia dizer-lhe: “Vês, eu não te disse?” Mas tambémela acusava o golpe, também ela antecipava o que seriam todos os jantares daí em diante,com o peso da dor de Pedro sempre presente entre eles.Acabaram o jantar em silêncio, sem que ninguém se sentisse disposto a fingir quenada acontecera e a puxar outro assunto à conversa. Maria da Glória lembrou-se de umafrase que Manuel Custódio tinha dito numa ocasião, sentado naquela mesma mesa e no diaem que tinha enterrado a sua mãe, quando um amigo da família que havia ficado para jantardepois do enterro tinha achado por bem falar da defunta: “Nós, os Ribera Flores, vivemosos nossos desgostos em silêncio: nem falamos, em tom natural, como se nada tivesseacontecido, nem choramos.” Levantou-se no final do jantar e encaminhou-se para a suasalinha. Amparo foi atrás dela. Pedro cumpriu o ritual do final dos jantares, beijando a mãoda mãe e pedindo-lhe a bênção, e murmurou entre dentes:- Vou ver a égua que está para parir.Diogo foi encontrá-lo no estábulo. Ainda não havia luz eléctrica ali, e Pedro tinhatrazido um petromax, que espalhava a sua luz e o seu cheiro pela estrebaria. Uns oitocavalos estavam ali arrumados nas suas divisórias, comendo feno e batendo os cascos nochão de pedra. Pedro estava sentado no banco de madeira em frente às boxes, o candeeiro
  • 164. pousado aos pés e fumando uma cigarrilha. Não levantou a cabeça quando Diogo entrou eveio sentar-se ao seu lado. Os dois irmãos ficaram calados, lado a lado, em silêncio, a luzdo candeeiro a petróleo alumiando a cena como num quadro flamengo. Diogo não sabiamuito bem o que dizer, mas sabia que tinha de dizer alguma coisa.- Pedro, tenho muita pena. Gostava muito da Angelina e sei que tu também gostavas,gostas, muito dela e ela de ti.Pedro não disse nada. Diogo tossiu, incomodado. Meteu a mão ao bolso do casaco,tirou o maço e sacou um cigarro.- Tens lume?Pedro passou-lhe o isqueiro para a mão, sem sequer virar a cabeça.- Sabes, estas coisas, às vezes, são mais complicadas do que estamos à espera. AAngelina não é uma pessoa vulgar, normal. Talvez este não fosse o vosso tempo. Ela quermesmo ser pintora e isso não tem nada a ver com os sentimentos em relação a ti...- E tu achas que isso me consola?Falara sem sequer levantar a cabeça. E Diogo não sabia o que lhe dizer. Nuncaesperara que o irmão se apaixonasse por uma mulher como Angelina, nem que uma mulhercomo ela, tão diferente em tudo de Pedro, se apaixonasse por ele. E agora, que ele seapaixonara por ela, ao ponto de quase mudar a sua personalidade e a sua abordagem atantas coisas, ela ia-se embora, dei-xando-o assim, devastado, sem chão, pensando que tudoo que lhe tinha dado e tinha para dar não era suficiente para ela. E o mais terrível de tudo,pensava Diogo, é que não era mesmo: por mais que Pedro estivesse disposto a dar-lhe, pormais que ele fizesse, como tinha feito, um longo caminho para a encontrar, haveria sempre,no final, outras coisas que ele não poderia dar-lhe e que ela procurava. Poderia Pedrocompreender isso? Poderia alguém, que tivesse amado como ele, compreender isso? E,como ele tinha dito, de que serviria compreender? Que consolo haveria nisso?- Não sei que te dizer, Pedro. Realmente, não há consolo algum nisto, nem sequerem tu saberes que ela te ama e que não foi por não te amar que se foi.Diogo calou-se, sem saber mais o que dizer. E, ao contrário do que seria normal, foiPedro quem lhe passou um braço pelos ombros, vindo em seu auxílio.- Diogo, agradeço o teu esforço. Dou graças a Deus Por ter um irmão como tu, coma tua sensibilidade. Mas nao precisas de dizer nada: eu sei que posso contar contigo e isso étudo o que me basta, agora. O resto, tudo o que eu sinto... ninguém, nem mesmo tu, mepode ajudar.- Mas não podes entregar-te à tristeza, à depressão, Pedro! Tens de tentar verlucidamente as razões e...
  • 165. - Vá, Diogo, deixa lá! Tu conheces-me: eu arrumo a tristeza no coração, mas a cabeçareage. O que eu penso é que levei uma lição e tenho de aprender com ela: amei uma mulherque também dizia amar-me. Mas, na hora de escolher, ela preferiu seguir a sua vocação doque seguir o coração. Nunca mais me vou esquecer desta lição, Diogo, nunca mais.Diogo olhou-o, preocupado.- Pedro, tens 29 anos: a vida não acaba aqui. Falhou uma oportunidade, mas terásoutras para ser feliz.Pedro levantou-se e agarrou no candeeiro, querendo indicar que a conversaterminara.- Uma parte de mim morreu para sempre com a partida da Angelina. E uma parteimportante, acredita.Em finais de 1934, a rádio pública Emissora Nacional dotara-se de uma OrquestraSinfónica e começara a emitir os seus concertos em onda média. Maria da Glória tinhaficado imediatamente cativada com a novidade e agora, a seguir aos jantares, instalava-se nasua salinha, ligava o rádio, ouvia o noticiário das nove e seguia noite adentro a ouvir os seusconcertos. Gostava particularmente de piano: Schubert, Chopin, Mozart, Beethoven. Empequena, costumava também ficar longas horas a ouvir a sua mãe ao piano e lembrava-sede pensar que a mãe falava através do piano e que só ela a conseguia compreender.Quando a mãe morreu, o piano foi para casa da sua irmã mais velha, que, ao contrário deMaria da Glória, tinha herdado algum do talento da mãe. Os concertos da EmissoraNacional tinham vindo como que retomar o fio à meada das suas noites de infância: o somnão era tão envolvente como o do verdadeiro piano da mãe, mas a magia dos Nocturnosde Chopin ou da Viagem Fantástica de Schubert mantinha-se, intacta, e ela quase queconseguia ver os dedos percorrendo as teclas e as notas subirem pelas paredes ecomeçarem a envolver a sala toda, enchendo a solidão da noite. Amparo e os filhoslevantavam-se com ela da mesa e vinham habitualmente até à salinha ouvir o noticiário.Depois, retiravam-se: Diogo ia até à biblioteca ler ou então ficava à conversa com Amparona pequena salinha de que dispunham também lá em cima, junto ao quarto deles e ao dosfilhos. Pedro retirava-se cedo para a cama, ultimamente. Raras vezes ia à vila, excepto paraas suas actividades políticas na sede local da União Nacional, as quais nunca abandonara,apenas abrandara, durante os meses de namoro com Angelina. Acordava antes de todos,ainda noite fechada, e saía a dar uma volta pelo campo com os cães, levando sempre atiracolo a sua caçadeira Gree-ner, herdada do pai, não fosse surpreender alguma peça decaça no caminho. Quando voltava a casa para tomar o pequeno-almoço com os outros,
  • 166. levava já duas horas de campo nas pernas e já tinha tratado com o maioral e o feitor ostrabalhos que havia para fazer durante o dia.Uma quinta-feira, a seguir ao jantar, estavam todos reunidos na salinha de Maria daGlória, Amparo com a bebé Assunção ao colo, que a empregada lhe trouxera depois de tertentado em vão adormecê-la. Na rádio soou o sinal horário das 9 da noite e a voz nasalada,cheia de maneirismos, do locutor anunciou:- Emissora Nacional. Acabam de escutar o sinal horário das 21 horas. (Pausa).Noticiário. (Nova pausa). Em Berlim, foi hoje anunciado que o chanceler Hitler denunciouunilateralmente o Tratado de Paz de Versalhes e assinou um decreto reintroduzindo oserviço militar obrigatório em todos os territórios da Alemanha. Em Roma, o DuceMussolini rejeitou a proposta de concessões para a paz apresentada pelo secretário doForeign Office, Anthony Éden, e declarou que a guerra na Abissínia iria prosseguir até àvitória completa do Corpo Expedicionário Italiano. (Pausa). Noticiário nacional: oPresidente do Conselho, Professor Oliveira Salazar, pronunciou hoje um importantediscurso sobre a Ordem Pública, que a Emissora Nacional transmitiu na íntegra e de queagora recordamos algumas passagens mais significativas. (Pausa e escutou-se a voz fina,quase esganiçada, de Salazar lendo um texto): “Não se sabe se por inconsciência oufrivolidade, espírito doentio de crítica ou cálculo de futuras posições, pessoas de certacategoria, e parece que entre estas alguns funcionários públicos, se esquecem comfrequência da responsabilidade que assumem em arrastar atrás dos seus devaneios ousimplesmente dos seus ódios pobre gente inculta que nos momentos decisivos nos vemosobrigados a prender ou a metralhar. Deve ficar bem entendido que, perante a consciênciado Governo, os primeiros são mais responsáveis que os últimos. Havendo de facto genteque não agradece nem quer gozar os benefícios que lhe garante o trabalho na ordem e napaz...”Diogo levantou-se de um salto, atirando ao chão com fúria o jornal que tinha entremãos.- Basta, mãe, basta! Desligue-me isso, por favor! Não aguento mais esta gente! Estepaís!- Mas o que foi, filho? Sê razoável! - Maria da Glória tinha-se levantado também,tentando detê-lo a caminho da porta.- E, já agora, respeita também as opiniões dos outros - soltou Pedro.Diogo parou e voltou-se para o irmão. -Pensei que tivesses aprendido alguma coisa,ultimamente...- Com quê? - A voz de Pedro era de raiva.
  • 167. - Com quê? Com a Angelina. Porque achas que ela se foi embora daqui? Por nãoaguentar mais este país e esta gentinha do Estado Novo!- Que sabes tu disso. Vamos, que sabes tu disso? Maria da Glória interpôs-se entre osdois.- Vá, não se zanguem por causa da política!- Vá lá, Diogo, diz-me! - insistiu Pedro, desafiador. Diogo olhou o irmão e abanou acabeça.- Digo-te que o pior cego é o que não quer ver.Antes que Pedro respondesse de novo, Maria da Glória estendeu um braço nadirecção dele e, coisa tão rara nela, levantou a voz para ambos.- Eu disse-vos para pararem, não disse?Caíram ambos em silêncio, onde estavam. Em fundo, continuava a ouvir-se a voz deSalazar a falar da “defesa da civilização do Ocidente”. Assunção rabujou, no colo deAmparo. E Diogo inclinou-se e beijou a mão da mãe.- A bênção, minha mãe. Desculpe-me.E retirou-se da sala, deixando atrás de si um prenúncio de tempestade.
  • 168. XISe alguém lhe tivesse dito que tudo aquilo que via era um sonho ou uma mentira, eleteria acreditado. Afinal de contas, olhando pela grande janela inclinada do lounge doHindenburg, ele via nascer sobre o mar a manhã do dia 1 de Abril, o dia das mentiras.Duas horas antes, cerca das cinco da manhã, o grande dirigível alemão tinhasobrevoado Lisboa à sua altitude de cruzeiro: 650 pés, cerca de 220 metros. Diogo tinhaposto o despertador para acordar àquela hora, vestira-se rapidamente, saíra da cabine,passara os olhos por água e barbeara-se à navalha na casa de banho, antes de vir para olounge, onde era o único passageiro acordado àquela hora. Queria ver Lisboa na manhãnascente. Parecia-lhe inacreditável estar a sobrevoar Lisboa, quase duas semanas depois deter partido exactamente dali, rumo ao Brasil, rumo aos seus sonhos. Mas Lisboa estavaainda meio escondida pela noite e por uma espuma branca que subia do Tejo, havia apenasumas escassas luzes que se divisavam lá de cima, e ele esforçou-se por acreditar que mesmoassim conseguia ver a Torre de Belém, o Castelo, a colina do Chiado e de Santa Catarina.Se abrisse a janela e saltasse, logo estaria de volta a casa, estaria de volta à cama de Amparo,ao riso dos filhos, às manhãs orvalhadas de Valmonte. Mas, agora, já não havia nada afazer: agora, a sua vida ficara lá em baixo e ele estava cá em cima, numa viagem com saídade Friedrichshafen, no Sul da Alemanha, direito ao Rio de Janeiro, no Brasil. Agora,precisamente às sete da manhã, o dirigível virara a oeste, deixando a costa de Portugal e ovoo sobre terra, e apontara rumo ao Atlântico Sul, para baixo e para a direita.Na noite anterior, antes de embarcar, enviara de Friedrichshafen um últimotelegrama a Amparo, em Valmonte:“EMBARCO ESTA MADRUGADA SOBREVOANDO LISBOA DIA 1NASCER DIA STOP INCRÍVEL PENSAR QUE VOU PASSAR TÃOPERTO DE TI E TODOS STOP TELEGRAFO CHEGADA STOPPENSO EM VOCÊS E SEI QUE FIZ BEM STOP BOA NOITE DIOGOSTOP”
  • 169. Nessa noite, ele e todos os passageiros do voo inaugural do Hindenburg directo parao Rio haviam-se concentrado, tal como indicado, no Kurgarten Hotel, em Friedrichshafen,por volta das sete da tarde. Tinham feito o registo e entregue a bagagem, assim como ospassaportes e os bilhetes. Depois, serviram-lhes um maravilhoso jantar no hotel, o maisafamado do Sul da Alemanha e que fornecia ao Hindenburg o serviço do seu cbefàtcozinha, durante a viagem. Para os preparar bem para a longa travessia aérea através doAtlântico, tinham-lhes servido caviar Beluga, salmão fumado da Noruega, truta doReno com presunto, capão estufado com trufas e assado de veado. O champagnecorrera sem cessar e ele decidiu beber sem contenção, de modo a ficar com aquela ligeiraembriaguez alegre e leve do champagne, que deixa as pessoas a flutuar - tal como ia serdentro em breve o seu destino. Por volta das onze da noite, conduziram-nos do hotel -que, em tempos, fora a própria residência do conde Zeppelin, o inventor dos dirigíveis depassageiros - até ao hangar onde o imponente Hindenburg, com os seus setenta metros decomprido, os aguardava, silencioso e esmagador. O Hindenburg sucedera ao célebre GrafZeppelin e representava um passo em frente na história da aviação: com os seus dois deckssobrepostos, podia levar mais passageiros e, podia também levar mais carga e maiscombustível - o que permitia, ao contrário do Graf Zeppelin, fazer a viagem deFriedrichshafen ao Rio sem escala no Recife. Pelo menos, era isso que se esperava dos seusquatro motores, naquela viagem inaugural, para a qual cada passageiro havia pago duzentosmarcos, o equivalente a quinhentos dólares - o mesmo que custava um camarote de 1ªclasse num dos grandes paquetes transatlânticos que faziam a rota do Brasil. Só que oHindenburg estava previsto que conseguisse fazer a viagem em cem horas, o quesignificava cinco a seis dias a menos que o mais rápido dos transatlânticos. E isto, apesar dacontrariedade de última hora que fora a proibição de sobrevoo do território francês,determinada pelo governo de Paris, convencido de que os voos tinham uma componentede espionagem militar aérea. A interdição do espaço aéreo francês obrigava-os a sair paranorte, em vez de sair para sul, como seria lógico, tendo de sobrevoar toda a Alemanha econtornar a França pelo Canal da Mancha, descendo depois em direcção a Lisboa e daíentão entrar oceano adentro. Mas, naquela noite gélida do Sul da Alemanha, sentia-se aeuforia no hangar, e todos, incluindo os passageiros, tinham consciência de estar a viver ummomento histórico: estava ali o futuro das viagens intercontinentais. E Diogo estava abordo, para a viagem inaugural.Trinta e sete passageiros, entre os quais alguns jornalistas, e cinquenta e quatrotripulantes, incluindo dez comissários de cabine, embarcaram no Hindenburg à meia-noite.
  • 170. Os passageiros foram conduzidos às suas cabines, onde já encontraram a suabagagem arrumada e as camas feitas, bem como o aquecimento ligado (mais uma novidadeem relação ao Graf Zeppelin). Alguns, que decerto tinham bebido ainda mais champagneque Diogo ao jantar, caíram a dormir à vista das camas. Mas foram raros: quase todosestavam demasiado excitados para dormir e preferiram ir conhecer as partes comunsreservadas aos passageiros: a sala de jantar e de pequenos-almoços, a “sala de escrita”, olounge e a promenade, uma espécie de grande corredor com uma das paredes inteiramenteformada por janelas quase de alto a baixo. Foram também apresentados aos oficiais datripulação, que era chefiada pelo capitão Lehmann, um nazi convicto que não escondia asua militância, bem como o célebre dr. Eckener, o principal engenheiro responsável pelodesenvolvimento do programa dos grandes dirigíveis alemães. Sete anos antes, numamanhã no Terreiro do Paço, em Lisboa, Diogo vira o espectáculo inesquecível do GrafZeppelin sobrevoando a cidade, levando a bordo justamente o dr. Eckener, o seuconstrutor. Ele, porém, ao contrário do capitão Lehman, era suspeito de pouca ounenhuma simpatia pelos nazis e, por isso, viajava com o estranho estatuto de passageiroconvidado - além do mais, proibido de falar com jornalistas, quer a bordo, quer em terra.Felizmente, pensou para consigo Diogo, a ostentação nazi tinha-se quedado pelas duasimensas cruzes suásticas desenhadas na cauda do Hindenburg, poupando a decoraçãointerior, a qual contemplava, sim, um imenso mapa-múndi na parede do lounge.Aparentemente, tudo parecia a postos para a descolagem, mas, por quaisquermotivos que não foram revelados aos passageiros, nunca mais se iniciavam as manobras.Até que, finalmente, as escadas foram recolhidas e a escotilha fechada. A “tripulação deterra”, que andava à volta de duzentas e cinquenta pessoas, procedeu à amarração do narizda grande nave ao mastro de amarragem e, depois, deslizando silenciosamente sobre ostrolleys, o Hindenburg começou a emergir lentamente do hangar lá para fora. Estava noitecerrada e, espreitando por uma das grandes janelas inclinadas do lounge, onde tomaraposição a tempo, para não perder nada da manobra, Diogo podia apenas ver as luzes nosolo e a multidão de tripulantes de terra que se afadigavam em roda do dirigível. Daí apouco soou uma ordem gritada por um megafone e o Hindenburg começou a serdesamarrado simultaneamente do mastro e dos trolleys. Quinhentos braços de homemmantinham-no agora preso por cordas, precariamente suspenso sobre o chão, vinte metrosabaixo.“É agora!”, pensou Diogo e instintivamente benzeu-se. A grande azáfama, os gritos eordens que ainda há pouco se ouviam no solo tinham subitamente dado lugar a umimpressionante silêncio, tanto no exterior como no interior da nave. Ficaram assim por
  • 171. breves segundos como se ainda hesitassem em desprender-se definitivamente da terra.Depois, no silêncio reinante, ouviu-se a ordem decisiva: “Los Schiff!”. Liberto peloshomens, o Hindenburg elevou-se lentamente até aos cinquenta metros, sempre em silêncio.Logo a seguir, Diogo escutou um motor a arrancar, depois outro, outro ainda e mais outro:os quatro motores Daimler estavam a trabalhar. Graciosamente, como se não pesasse 214toneladas, entre a estrutura e a carga a bordo, o Hindenburg rodou sobre a cauda eapontou a norte, iniciando a sua longa viagem de 11 000 quilómetros até ao Rio de Janeiro.Diogo olhou para o relógio de parede no lounge: eram exactamente 4h32 do dia 31 deMarço de 1936, quando o voo nº 9 do LZ-129 começou a percorrer a Alemanha. Pensouque, acontecesse o que acontecesse, a sua vida acabara também de rodar 180° naqueleexacto instante.- O quê, Diogo, tu vais para o Brasil? Decidiste tudo sozinho e dizes-me isso assim,sem mais nem menos?Amparo parecia fora de si, como Diogo raras vezes a vira. Estava de pé, naantecâmara do quarto deles em Val-monte, e encarava-o, sentado tranquilamente napoltrona onde costumava ler à noite. Sem que nunca lho tivesse dito, Amparo detestavaaquela poltrona e o que ela significava na vida deles: era sentado ali, longas horas antes dese ir deitar, enquanto ela dormia exausta pelas noites brancas que os filhos lhe davam, queele lia as suas queridas revistas inglesas ou os seus livros sobre o Brasil, a maioria dos quaisescritos em francês. Línguas que ela não percebia, assuntos que não a interessavam, horasperdidas cuja utilidade não compreendia. Quando se sentava ali enquanto ela fazia poradormecer no quarto contíguo, era como se Diogo lhe estivesse a mandar uma mensagemsilenciosa: o seu mundo era mais vasto que o dela, e, nesse mundo, ela não cabia. Nuncafora convidada a entrar, nunca tinha querido forçar a entrada.- Eu não vou para o Brasil, Amparo: vou ao Brasil, o que é uma coisa diferente. Nãovou mudar de terra nem de vida, vou numa viagem de negócios, que é uma coisaque acontece às vezes na vida das pessoas.- Meses...- Sim, dois, três, talvez quatro meses. Vou o tempo suficiente para tratar do quetenho a tratar e volto logo. Não se vai ao Brasil como quem vai ao Porto...- Mas posso saber ao certo, finalmente, que assuntos tão importantes são esses, noBrasil?- Claro que podes, sempre pudeste, mas nunca te interessou saber.
  • 172. - Porque achei que esses tais negócios com o Brasil eram uma coisa que só teocupava parte do tempo e em Lisboa. Nunca imaginei que pudesse ser assim tãoimportante que te levasse a viajar para lá durante meses...Amparo, é assim: eu e o Francisco Menezes temos uma sociedade juntamente comum sócio alemão sediado no Rio de Janeiro, a Atlântica C.a, como tu sabes. Um terço édele, o resto é nosso, em partes iguais. É uma firma de import-export, que funciona comele instalado lá e nós cá, importando produtos brasileiros para toda a Europa, via Lisboa, evice-versa, de cá para lá. Já investimos muito dinheiro, já conquistámos mercados fiéis, játemos fornecedores e clientes fixos, enfim, já fizemos o mais difícil e o suficiente para quetudo não vá agora por água abaixo.- E porque haveria de ir por água abaixo?- Porque, entretanto, surgiu um problema de que não estávamos à espera: o GabrielMattháus, o nosso sócio alemão, viajou até à Alemanha no Natal, como semprefaz todos os anos - porque tem a família, a mulher e os filhos, a viver na Alemanha - e,quando estava planeado que voltasse para o Rio, por qualquer razão que não nos quisexplicar exactamente, não o pôde fazer. Mandou-nos uma carta a dizer que tão cedo nãoconseguiria voltar ao Brasil e que, portanto, a menos que um de nós lá fosse, o negócioficaria sem direcção. Decidimos assim que eu iria ao Brasil, para ver como estão as coisaspor lá e assegurar que alguém possa ficar a substituir o Gabriel enquanto elenão puder voltar. E já agora, de caminho, passo na Alemanha, para ver se percebo qual é oproblema do Gabriel que ele não nos quer contar e se tem ou não solução a prazo. É isto.- Porque não vai o Francisco?- Porque decidimos que era melhor ir eu.- E porquê, porque és tu que queres ir? Diogo suspirou.- Essa não é a única razão, mas sim, é verdade: eu quero ir. Sempre sonhei conhecero Brasil, como tu sabes, e, além disso, Amparo, sinto que me faz bem afastar-me daqui poruns tempos, ver outras coisas, conhecer um novo país, outro continente, um novo mundo.- Um novo mundo? - O tom era de ironia, mas a voz dela denunciava mais raiva efrustração. - Este velho mundo não te chega? A tua mulher, os teus filhos, a tua casa, o teutrabalho aqui, para que a herdade não se afunde?- Amparo, peço-te, não vás por aí. Não tem nada a ver contigo e com os nossosfilhos: eu amo-vos e tu sabes isso muito bem. Quanto à herdade, tenho a certeza de queela fica muito bem entregue nas mãos do Pedro.- Então, porquê esse desejo de te afastares?
  • 173. - Não é um desejo, caramba, já te expliquei: é uma necessidade, uma necessidade detrabalho. Ou um de nós, eu ou o Francisco, vai agora ao Brasil e rapidamente, ou todo onosso investimento, em dinheiro e trabalho, está perdido. Combinámos que ia eu, porquefaço menos falta para o negócio cá do que o Francisco, porque sempre tive mais vontadede conhecer o Brasil do que ele e porque, é verdade, estou a precisar de respirar outrosares, afastar-me daqui um tempo para ver se consigo gostar mais deste país que me sufocado que agora gosto. Será que podes compreender tudo isto?Amparo calou-se. Sim, poder compreender, ela podia, claro. Até podia concordarcom as razões dele, até podia, pensando friamente, achar também que só lhe faria bem umtempo afastado de Estremoz e de Portugal. O problema é que qualquer coisa dentro delalhe dizia que esta viagem do marido era também uma forma de afastamento, de criar umadistância entre eles a que não estava habituada e para que não estava preparada. Era maisdo que as noites dele sentado a ler na poltrona, enquanto ela adormecia sozinha ou acorriaao choro dos filhos. Agora, ele preparava-se para a deixar durante meses, entregue à famíliadele e à sua ausência, na casa onde afinal ela só entrara por casamento. Anteviu asincontáveis noites a sós com Maria da Glória e Pedro, as notícias dele que chegariam velhase espaçadas, e a sua imaginação à solta pelo sem-fim do Brasil. O seu ouvido, tornadoapuradíssimo pelas noites de vigília maternal, escutou o princípio de choro da filha queacordava no quarto ao lado. Era necessário ir rapidamente dar a chupeta a Assunção antesque ela despertasse completamente. “Coisas que não te preocupam!”, pensou, olhando-osempre sentado na sua poltrona voltada para o mundo. E assim o deixou, virando costas,sem dizer nada.Pedro ofereceu-se para o levar de carro até Lisboa e Diogo nem tentou dissuadi-lo.Partiram de manhã, muito cedo, uma dessas manhãs de neblina, tão frequentes no Alentejonaquela altura do ano. O nevoeiro estava pousado, denso, sobre o lago em frente da casa eespalhava-se à roda, em espessos tufos brancos suspensos sobre a terra e por onde, aespaços, se divisavam vacas ou ovelhas, emergindo daquela nuvem translúcida como seviessem de parte alguma. Enquanto Pedro arrumava as malas no porta-bagagem do carro,Diogo despediu-se da mãe, parada na soleira da porta, beijando-lhe a mão e estendendo-lhea testa para que ela lhe fizesse o sinal da cruz. Não tivera coragem nem inspiração paratentar explicar à mãe convincentemente as razões da sua viagem e, de qualquer maneira,sabia que ela nunca lho exigiria. Por isso, agora, limitava-se a pedir-lhe a bênção e a escutar,com ternura, o adeus dela:- Volta depressa, meu filho!
  • 174. Amparo tinha Assunção ao colo e olhava em frente, como se não quisesse ver nadaem concreto. Abraçou-as a ambas, mulher e filha ao mesmo tempo, e estreitou o corpodela contra o seu, mesmo com Assunção entre ambos.- Por favor, não fiques triste nem em cuidados. Eu tenho mesmo de ir e verás que vaiser bom também para nós.- Agora não vamos falar disso, Diogo. Vai, faz boa viagem e manda notícias quandopuderes.Gostaria que ela tivesse ao menos forçado um sorriso, mas ela não o fez. Gostariaque tivesse querido fazer amor com ele nessa noite de despedida, mas ela não quis.Gostaria de partir sem a ver triste, mas não conseguiu. Depositou-lhe um beijo ao de levena boca e ela limitou-se a fazer-lhe uma breve festa nos cabelos. Ao menos, Manuel saltou-lhe para o colo e abraçou-o com tanta força que ele pensou que o filho estava já bemcriado. Beijaram-se, pai e filho, com uma intensidade tão grande que Amparo teve dedesviar os olhos para não chorar e estendeu a mão ao filho para que ele deixasse o paipartir.- Pai, promete-me que me trazes um papagaio, como disseste!- Prometo, sim, meu querido. Mas tu tens de te portar bem com a tua mãe, comocombinámos.O miúdo fez que sim com a cabeça, deixou escorregar uma lágrima pela cara abaixo eDiogo entrou no carro e sentou-se ao volante, sem dizer mais nada. A mão esquerdaacenou pela janela aberta, os faróis acesos perfuraram a fraca luminosidade da manhã eValmonte, sem se descobrir para um adeus ao seu morgado, ficou para trás lentamente.Não parou em Lisboa nem um dia inteiro. Mal chegaram, deixou as malas noAvenida Palace e foi almoçar ao Aviz com Pedro. Havia dois ministros na sala e umconhecido jornalista da “situação”, mas ele decidiu que não iria deixar que lhe estragassema sua refeição de despedida em Portugal. Fora a excelência da comida e do vinho, o almoçofoi um bocado sorumbático. A disposição de Pedro não tinha melhorado nos últimostempos e as suas relações tinham esfriado um pouco desde que Diogo cometera acrueldade de trazer a recordação de Angelina à discussão entre eles. Ele sabia que tambémPedro não compreendia ao certo as razões desta sua viagem ao Brasil e não perdera muitotempo a explicar-lhe. Ninguém compreendia, aliás, e, não estivesse ele tão obcecado com aviagem e tão indisfarçadamente feliz com a perspectiva dela, teria percebido que os quemenos a compreendiam eram todos os que mais o amavam - incluindo o irmão. Falarampouco, pois que pouco havia para falarem, mesmo sobre os assuntos da herdade, confiadosa Pedro e que em nada preocupavam Diogo, nesta altura.
  • 175. Depois do almoço, Pedro deixou-o na Baixa, no escritório da Atlântica, onde passouo resto da tarde a rever com Francisco todos os assuntos que teria de tratar na Alemanha eno Brasil. Às sete, recolheu as malas no hotel e Pedro deixou-o na Estação de SantaApolónia, onde apanhou o Sud-Express da noite, para Paris. Jantou sozinho, no vagão-restaurante, entretido a observar os outros hóspedes e indiferente à comida indiferente quelhe serviram. Tinha saudades de Amparo, dos filhos, da casa, da manhã seguinte em quenão iria acordar em Val-monte. Mas estava imensamente feliz. Feliz por estar a viajar, felizpor estar sozinho, feliz por ir ao encontro da Europa, feliz por ir à descoberta do Brasil.Bebeu vinho branco a mais ao jantar, acrescentou-lhe ainda um Cour-voisier em copo debalão que o criado aqueceu, e quando se levantou e se dirigiu para o seu vagão-cama, nãopercebeu se era o balanço do comboio, o álcool bebido ou a euforia que o tomara, o que ofazia caminhar aos tropeções pelo corredor oscilante do Sud-Express. Despiu-se a rir-separa si próprio, excepcionalmente vestiu um pijama e, com uma volúpia de solteirão,enfiou-se na cama, a fumar um cigarro e a ler o livro que comprara nessa tarde em Lisboa:Voyage au Bout de la Nuit, de Céline. Meia hora depois, apagou a luz e mergulhou dentrodos lençóis para dormir sozinho e sem choros de crianças a primeira de muitas noitesdiferentes das dos últimos tempos.Acordou a meio de Espanha, almoçou à passagem da fronteira com a França e,depois de uma tarde inteira a acabar o livro e a ler os jornais espanhóis, angustiando-se coma onda de loucura extremista que varria a Espanha, dividindo-a ao meio entre esquerda edireita, chegou a Paris ao final do dia e apanhou um táxi na Gare dAusterlitz, mandandoseguir para o Hotel Lancaster na Rue de Berry, junto aos Campos Elísios, onde reservaraum quarto. Às nove da noite, estava sentado a jantar no ambiente fantástico e luxuoso doGrand Café des Capucines, decorado em estilo art déco. Esmerou-se no menu: primeiro,um foie gras de ganso, acompanhado com meia garrafa de Sauterne; depois, uns escargotsbourguignone, seguidos de rognon de veau flambé au Porto, terminando com uma saladaverde e queijos, tudo acompanhado por um Bordeaux. No fim, acendeu um Cohiba erefaste-lou-se para trás na cadeira, saboreando um cognac Rémy Martin, dentro do qual iamolhando a ponta do charuto, conforme era seu hábito nas grandes ocasiões. Pariscontinuava sempre agitada, fervente de ideias, de discussões, exposições, jornais, filmes, degente em constante movimento e agitação, emigrantes de todo o lado - judeus fugidos daAlemanha de Hitler, aristocratas russos emigrados após a Revolução Bolchevique,anarquistas argentinos, pintores espanhóis e brasileiros e até republicanos portuguesesexilados após Salazar. Só a timidez o impedia de dar um salto ao célebre café Les DeuxMagots, na Rive Gaúche, onde intelectuais e artistas de esquerda, como Picasso,
  • 176. Hemingway, Sartre e Simone de Beauvoir, rivalizavam com os habitues do Café de Flore,situado do outro lado da rua e cuja frequência era tida como de direita. Um microcosmo daprópria França de 1936, dividida entre os fascistas emergentes e o embrião da FrentePopular de esquerda, que se começava a formar para as eleições iminentes.Ninguém, muito menos um português da sua cultura e da sua geração, podia passarpor Paris como quem passa por uma cidade qualquer. Diogo tinha reservado três dias dehotel em Paris e passou o primeiro no Lou-vre e a visitar as galerias de Montmartre.Alimentara o secreto desejo de encontrar Angelina, de a convidar para almoçar e deconversar com ela, tentando perceber exactamente o que a levara a sair de Portugal e aabandonar Pedro à sua solidão e à sua amargura. Mas só havia uma forma de o conseguir,que era pedir a morada dela a Pedro ou um número de telefone.- Não tenho o telefone, nem sei a morada - respondera Pedro, de maus modos,quando ele, cheio de cautelas, tentara abordar o assunto, de forma forçadamentedesprendida.- Pedro, hás-de ter uma morada, de certeza que ela te mandou a morada ou que teescreveu...- Sim, escreveu-me para aí uma carta, mas eu deitei-a fora. Queimei-a.- E não ficaste com a morada?- Para quê?Diogo tinha olhado para o irmão e percebera que não valia a pena dizer-lhe maisnada. Mas a vida, às vezes, é feita de impossíveis coincidências. Nesse primeiro dia emParis, depois de ter vagueado horas pelo Louvre e pelas galerias de pintura da margemesquerda - onde, absurdamente, pensara poder encontrar Angelina ou topar com algumquadro dela já à venda -, ele resolvera enfiar-se no cinema, aproveitando para ver umdaqueles filmes que a Portugal chegavam muito mais tarde, e quando a censura deixava quechegassem: Anna Karenina, com Greta Garbo. No dia seguinte, repetiu quase a mesmadose: galerias, Rive Gaúche, Campos Elísios e cinema à noite: Revolta na Bounty, comClark Gable e Charles Lau-ghton. À saída, no vestiário, esperando que lhe devolvessem asua gabardina, ouviu de repente uma voz tranquila nas suas costas:- O mundo é pequeno, Diogo!Virou-se e a força do hábito fê-lo reagir de repente, de sorriso rasgado:- Cunhadita!Ela riu-se também e caíram nos braços um do outro. Angelina tinha cortado o cabelocurto, usava uns estranhos brincos que pareciam um amuleto maia e a sua expressão, umpouco rude, tinha ganho alguma suavidade.
  • 177. - Angelina, estás viva! Caramba, que coincidência extraordinária! Vê lá que pedi aoPedro a tua morada para tentar ver-te aqui e ele respondeu-me que não a tinha.Uma sombra passou pelo olhar de Angelina e a sua expressão sorridente alterou-se.- Que é feito dele, Diogo?- Está mal, Angelina. Ficou mal, depois de tu partires.- Mal, como?- Triste, calado, bruto, sai para o campo de madrugada e depois fecha-se no quarto esó desce para jantar, sem abrir a boca. A única coisa que parece distraí-lo, infelizmente, é aporcaria daquela União Nacional e os patetas dos fascistas de Estremoz ou os de Espanha,que o vêm visitar às vezes, para conspirar nem quero saber o quê.Ela suspirou profundamente, o peito inchando dentro da sua camisola de lã de golaalta.- Pois, Diogo... Tu também me deves ter em má conta. Eu escrevi-lhe, mas ele nemme respondeu...- Eu sei, ele disse-me. Mas não, eu não te tenho em má conta. Pelo contrário, achoque foste a coisa melhor que aconteceu ao meu irmão e só tenho pena que não tenharesultado com vocês os dois. Mas percebo, ou julgo perceber, as razões que te levaram asair de Portugal.Ela sorriu outra vez, mas agora um sorriso triste.- Fico contente por ouvir isso, mas nem eu sei se fiz bem, Diogo. Só tempo o dirá...E tu, que fazes aqui?- Estou de passagem, uns dias. Para a Alemanha e depois para o Brasil.- O Brasil? Ah, Diogo, sempre conseguiste! Vais lá procurar qualquer coisa e depoisvens buscar a Amparo e os miúdos, não é?- Não, não: não vamos emigrar. Vou só em viagem de negócios. Aconteceram lá unsproblemas e vou ver se endireito as coisas.Angelina olhou-o, trocista:- Hum, Diogo... Se bem te conheço, as coisas não vão ser assim tão simples. EsseBrasil não te vai sair da cabeça facilmente!Ele sorriu, também. Ia dizer qualquer coisa, mas, nessa altura, um homem alto e maisvelho apareceu por trás de Angelina e passou-lhe um braço pelos ombros.- Alors, Angeline, quest-ce qui te retiens? - E lançou um olhar de viés para Diogo. Elarecuperou rapidamente do seu embaraço:- Ah, cest un ami, du Portugal: Diogo... Jean-Paul.Eles apertaram as mãos e ficaram os três calados durante breves segundos.
  • 178. - Bem, Diogo, tenho de ir. Foi tão bom ver-te!- Espera, Angelina! Não poderíamos encontrar-nos para almoçar ou beber um caféamanhã?- Amanhã? Amanhã, é-me completamente impossível. Quando partes?- Depois de amanhã.- Ah, dommage, como dizem os franceses!... Olha, Diogo, fica para a próxima! Há maismarés do que marinheiros, não é?- Pois. Adeus, Angelina, também adorei ver-te. Que tudo te corra bem. - E,avançando, deu-lhe um beijo na cara.- Para ti também Diogo. E tem cuidado com o Brasil!Começou a afastar-se, mas parou dois passos à frente:- Diogo...- Sim?- Estava a pensar... Não digas ao Pedro que me encontraste, está bem?Ele assentiu, com um gesto de cabeça. Ficou a vê-la afastar-se, de braço dado com oseu Jean-Paul. Não, não diria nada ao Pedro.Chegou a Berlim dois dias depois, ao princípio da tarde. O comboio paroulentamente e guinchando os travões no meio do fumo e do cheiro a óleo queimado queenvolvia a Ostbahnhof, fazendo-o sentir-se dentro de um banho de vapor. A estação estavacheia e soavam ordens gritadas e apitos em todas as direcções. Havia soldados por todos oslados, alguns com cães dobermann, negros e com focinhos de assassinos, seguros pela trela.Gigantescas bandeiras com a suástica nazi estavam colocadas em pontos estratégicos dagare e havia numerosos cartazes com palavras de ordem de apoio ao Plano Quadrienal queHitler lançara recentemente, além de vários outros de propaganda aos Jogos Olímpicos,que teriam lugar em Berlim daí a uns meses. Muito embora já tivesse sido objecto de umaminuciosa revista à entrada da fronteira com a França, Diogo teve de se submeter a novoexame meticuloso dos seus documentos e da sua bagagem, acompanhado de uma detalhadaentrevista feita em francês por um simpático e educado oficial, vestindo uma farda que elenão conseguiu identificar. Enfim, puseram-lhe um carimbo no passaporte e ele pôde sair lápara fora, ao encontro dessa gloriosa Alemanha nazi. Apanhou um táxi e mandou-o seguirpara o Hotel Adlon, na Unter den Linden, 77, onde mais uma rigorosa vistoria ao seupassaporte e à sua pessoa foi feita ao registar-se. No luxuoso lobby do Adlon, tambémhavia cartazes de propaganda aos Jogos Olímpicos e uma solene fotografia emoldurada doFuhrer sobre a parede da recepção. Estava cheio de homens de negócios, oficiais daWehrmacht ou das SS fardados, jornalistas e estrangeiros de passagem e lindíssimas
  • 179. mulheres alemãs, de vestidos de noite compridos e estolas de peles. A atmosfera erasofisticada, silenciosa, ordenada. As pessoas sorriam ou falavam em voz baixa, os oficiaiscurvavam-se à passagem das senhoras e estas retribuíam os gestos de cavalheirismo comum leve movimento de ombros. De repente, sentiu-se um pacóvio ali no meio, umdesamparado alentejano perdido no coração do Reich, ali, onde, manifestamente, umaEuropa nova, empolgada e intimidante estava a nascer. Mandou subir as malas para oquarto, enquanto despachava um telegrama para Amparo, lá no fim do mundo alentejano:“CHEGUEI AGORA A BERLIM STOP SAUDADES E AMORSTOP DIOGO STOP”Do quarto, ligou para Gabriel Matthäus, que já tinha sido avisado da sua vinda eestava à espera do telefonema. No seu português arrastado e cantante do Brasil, ele deu-lheas boas-vindas e tratou logo de marcar um encontro. Diogo sugeriu um almoço no próprioAdlon e no dia seguinte, mas o alemão escusou-se com uma desculpa que ele não entendeu.Sugeriu então que Gabriel escolhesse um restaurante, mas ele respondeu que talvez nãofosse boa ideia e que o melhor era jantarem em sua casa, visto que teriam mais tempo parafalar e estariam à vontade. Diogo esperava que Gabriel se oferecesse para vir buscá-lo aohotel, mas, em vez disso, ele deu-lhe a sua morada de casa e marcou o jantar para as oito danoite do dia seguinte.E assim passou mais um dia sozinho, vagueando pelas ruas de Berlim, sem destinocerto. Tinha pensado ir a um museu, mas era segunda-feira e os museus estavam fechados,pelo que não lhe restou outro remédio para ocupar a manhã livre do que alugar um táxi epedir-lhe que desse uma volta turística pelo centro da cidade. Por toda a parte eram visíveisos sinais da intensa mobilização para os Jogos Olímpicos e parecia evidente que os alemãestinham interiorizado e assumido a importância desse acontecimento, com o qual Hitlerpretendia mostrar ao mundo o esplendor renascido da nova Alemanha. Dizia-se que elevigiava diariamente o andamento dos trabalhos do Estádio Olímpico e que impuserasucessivas alterações ao projecto, por nunca lhe parecer que fosse suficientemente grande eesmagador e, nem mesmo depois de Albert Speer, o seu arquitecto favorito, ter ficado como projecto, o Fiihrer sossegou. Fosse por adesão entusiástica ou também por medo, o factoé que, a avaliar pelos seus retratos omnipresentes em todo o lado e pela suástica desfraldadaem quase todos os edifícios, Diogo podia concluir, após um simples dia vivido em Berlim,que a Alemanha inteira estava rendida a Adolf Hitler. Dois anos antes, quando o velhomarechal Hindenburg tinha morrido,
  • 180. Hitler decidira acumular em si os dois cargos, o de presidente e o de chanceler,passando a designar-se por Fiihrer - o Chefe. Conquistado o poder todo, fez-se plebiscitar:recolheu 90% dos votos, oficialmente - ele, que chegara ao poder sem nunca ter ganho umaeleição com maioria absoluta. A primeira coisa que fez, quando o conseguiu, foi suprimirtodos os partidos, excepto o seu, o Nacional-Socialista. O termo “socialista” não era umerro de semântica nem uma ilusão política. Hitler tinha uma sincera admiração pelosmétodos e natureza do marxismo, chegando a declarar numa entrevista: “É mais o que nosune ao bolchevismo do que o que nos separa. Há, acima de tudo, um sentimentogenuinamente revolucionário... Dei ordens para que os ex-comunistas sejam admitidos noPartido (Nazi) imediatamente. A pequena-burguesia social-democrata e os sindicalistasnunca serão nacionalsocialistas. Mas os comunistas serão sempre.”No mês anterior, Hitler anexara a Renânia ao Reich, fazendo tábua rasa dos Acordosde Versalhes, que haviam estabelecido a região como zona desmilitarizada. Passo a passo, aAlemanha ia alargando o seu espaço e a sua zona de influência no centro da Europa. EmSetembro, dando sequência às ideias expostas no Mein Kampf (“o Estado deve colocar aRaça no centro de toda a vida”), Hitler fizera aprovar as Leis de Nuremberga, para “defesado sangue e da honra alemã”: os judeus alemães perdiam a cidadania, ficavam proibidos dese casar com alemães puros, de servir na polícia e nas forças armadas, de exercer medicina eoutras profissões públicas e de adquirirem propriedade. Mas, conforme relatava a imprensainternacional, a necessidade de evitar que os Jogos Olímpicos deBerlim fossem cancelados ou transferidos obrigara Hitler a restringir e suavizar, aomenos publicamente, a sua crescente perseguição aos judeus. E, na sua volta de táxi pelocentro da cidade, Diogo vira duas sinagogas, aparentemente abertas ao culto, e não vira nasruas nenhuns sinais evidentes de discriminação entre a população - toda ela parecendocativada pela mesma força e entusiasmo que a nova Alemanha propagandeava e afectava.Sinal desse entusiasmo empreendedor era, por exemplo, o recentíssimo automóvelVolkswagen - um estranho modelo de carro, curto e arredondado, de que já se viam algunsexemplares, ainda em testes, circulando pelas novas avenidas de Berlim. Diogo não resistiua ir olhar de perto um modelo desses, quando se apeou do táxi em frente a uma bierhausonde decidiu almoçar. O seu dia arrastou-se assim por Berlim, pouco ajudado pelo facto denão falar uma palavra de alemão e nada entender do que escutava ou tentava ler: às quatroda tarde já estava de regresso ao hotel, com um indisfarçável sentimento de alívio.E às oito estava tocar à campainha da casa de Gabriel Mattháus, uma bela casaindependente, de três pisos, situada numa ruazinha sossegada, que partia de uma dasavenidas centrais. Quem lhe veio abrir a porta foi a mulher de Gabriel, Helga, alta e bonita,
  • 181. com uns olhos azuis intensos. Diogo avaliou que ela teria uns dez anos a menos que omarido, talvez trinta e sete, trinta e oito. Pediu desculpa por não falar português, como omarido, e, num inglês hesitante, convidou-o a entrar para a sala. Gabriel apareceu logodepois, acompanhado dos três filhos, cujas apresentações fez: já vinham de pijama e logoforam mandados para a cama. Ficaram só eles os três na sala. Gabriel serviu um Riesling,que Diogo se esforçou por ir fingindo que bebia, disfarçando a sua falta de entusiasmo poraquele vinho doce e enjoativo.Foram falando de banalidades, de Lisboa e do Brasil, enquanto não passaram à mesa,e depois, enquanto era servida a sopa, Diogo reparou que eles evitavam falar da Alemanha,como seria natural, e reparou também que não havia empregada alguma: era Helga quemrecolhia os pratos e trazia as travessas da cozinha. Gabriel serviu então um vinhoportuguês, que trouxera da sua última estada em Lisboa, e começou a falar das actividadesda Atlântica no Brasil.- Tenho um dossier preparado para si, mas aproveito para lhe ir falando de quem équem, nos escritórios do Rio, e como é que as coisas funcionam por lá. Nada que você nãoperceba rapidamente, em especial sendo português, mas sempre lhe poupará algum tempoa entrar naquilo, se puder aproveitar a experiência que eu tenho destes anos no Brasil.Diogo ouviu-o com atenção, fazendo perguntas de vez em quando, enquanto Helgase mantinha calada, embora visivelmente atenta à conversa deles. Diogo fazia algumacerimónia com Gabriel: apenas o tinha visto pessoalmente umas três vezes em Lisboa, paraalém da correspondência de trabalho que haviam trocado ao longo dos últimos anos. E nãose atrevia a fazer-lhe as perguntas que verdadeiramente o interessavam, embora continuasseintrigado com aquela espécie de “convocatória” para vir à Alemanha que Gabriel lhe tinhafeito chegar. E continuava sem saber que determinantes motivos tinham levado Gabriel acomunicar-lhes, a si e a Francisco, que tinha de abandonar “provisoriamente” arepresentação da Atlântica no Brasil.Foi só depois do jantar, depois de Helga se haver desculpado por ter de se deitarcedo, ficando eles a sós na sala, que Gabriel começou a abrir o jogo. E logo sem rodeios.- Diogo, ainda bem que você pôde vir. E ainda bem que pode passar uns tempos noBrasil! De outro modo, receio que tudo isto fosse por água abaixo: a firma não pode passarsem alguém lá, com autoridade, ou que, pelo menos, organize as coisas antes de se virembora. Receio, meu amigo, que você tenha comprado uma tarefa para muitos anos:prepare-se para, ou você ou o Francisco, terem de viajar até ao Brasil todos os anos, apartir de agora. Porque eu... eu estou fora de combate.- Mas porquê, Gabriel, qual é o seu problema?
  • 182. - Espere um pouco, já lhe digo. - E, levantando-se, Gabriel dirigiu-se a umaescrivaninha em frente ao fogão a lenha, de onde regressou trazendo uma pasta quepousou sobre a mesa.- Isto contém uma procuração que fiz há dias no Consulado de Portugal, aqui emBerlim, e que lhes dá, a si e ao Francisco, plenos poderes para gerirem a minha participaçãona Atlântica, podendo fazer tudo com ela - inclusive, vendê-la ou contrair dívidas em nomedela. E está junta uma outra procuração que vos permite abrir uma conta em meu nomenum banco internacional à vossa escolha, onde deverão ser depositados os lucros da firma,se os houver, ou o produto da sua venda. Depois de o terem feito, peço-vos que meindiquem o número da conta. E, assim, vocês ficam com as mãos livres para seguiremavante com este negócio sem se empatarem comigo. Cada vez acho mais que o negócio ébom e que tem futuro. Mas não poderia sobreviver sem se acudir ao Brasil e a ter dearrastar um parceiro adormecido, como eu vou passar a ser.- E porquê, então, Gabriel? Pode dizer-me agora, finalmente?- Posso, Diogo, posso. O porquê é fácil de explicar e de entender. Você sabe o quese passa aqui, desde que os nazis tomaram o poder: não há futuro para gente comoeu, e o presente é cada vez mais difícil e mais perigoso.- Porque você...- Sim, sou judeu, Diogo. Filho de pai e mãe judeus, neto de judeus, seis gerações deAlemanha. E agora dei xei de ser alemão: sou untermenschen, isto é, menos quenada.Diogo ficou siderado, sem resposta. Estupidamente, nunca lhes tinha ocorrido, nema ele nem a Francisco, que aquela pudesse ser a razão para a súbita comunicação de Gabrielde que não poderia voltar a ir ao Brasil. E, todavia, o próprio nome de baptismo deledeveria tê-los alertado para essa hipótese.- Mas, Gabriel, pelo menos, deixam-no trabalhar, pode ir ao Brasil...- Não, confiscaram-me o passaporte.- E não o autorizam a emigrar? Afinal de contas, o Hitler quer é ver-se livre dosjudeus!- Sim, mas temo e desconfio que não seja dessa maneira.- Como? O que está a querer dizer, Gabriel? - Diogo sentira um arrepio percorrê-lo.- Já não me deixam sair, Diogo: pedi e foi-me recusado. Tarde de mais. Devíamos terido no ano passado, mas a Helga não quis, não acreditou que as coisas chegassem a esteponto. - Fez um sorriso triste, e acrescentou: - Agora julgo que já vai acreditando, masagora já não há nada a fazer!
  • 183. - Ela... não é judia? - Instintivamente, Diogo apercebeu-se do tom em que perguntaraaquilo e teve vergonha de si.- Não, ela é alemã, ariana pura.- Mas, Gabriel, se você já temia isto, porque não ficou por lá, no Brasil, da última vezque lá esteve, mandando depois a família ir ter consigo?- Porque eu vim de lá em Dezembro, como você se lembrará, e as Leis deNuremberga saíram em Setembro. De acordo com a lei, os meus filhos são judeus: tambémnão estão autorizados a sair.Fez-se um silêncio. Gabriel remexeu as brasas do lume e colocou mais uma acha aarder.- Vai uma aguardente alemã, Diogo?- Pode ser.Serviu dois copos, enquanto Diogo olhava o lume, pensando o que dizer.- E agora, Gabriel, o que vai você fazer aqui?- Bem, vou tentando sobreviver. Neste momento estou a dar aulas de português,numa escola particular. Sou mal pago, mas, pelo menos, ainda me deixam trabalhar. Aminha mulher arranjou um trabalho de enfermeira no Hospital Inglês. É provável que a elanão a despeçam, mas tenho medo que venham aí leis que a obriguem a divorciar-se demim, que nos separem à força: eu e os miúdos para um lado, ela para outro.- Não é possível, Gabriel, não chegariam a esse ponto!Ele sorriu.- Não? Vão chegar muito mais longe. Você não conhece os nazis: não têm nada a vercom o vosso fascismo brando. Estes têm o ódio aos judeus como o centro da suaideologia. Convenceram os alemães de que os judeus são os responsáveis por tudo, até portermos perdido a Guerra de 14-18. Versalhes foi uma conspiração judaica. A crise de 29 foiuma conspiração judaica. Hitler odeia os judeus e o capitalismo por igual.- Sim, acredito que sim. Mas o que pode ele fazer: ou deixa os judeus irem-se emboraou tem de os aceitar, porque, bem vistas as coisas, mesmo os nazis hão-de achar que osjudeus fazem falta à economia. Olhe, nós vivemos uma situação semelhante quando onosso Rei D. Manuel, a pedido dos sogros dele, que eram os Reis Católicos de Espanha,quis expulsar os judeus... Gabriel voltou a sorrir.- Quando foi isso?- Por volta de 1500.- Meu amigo, você não está a perceber. Não estamos a falar dos tempos dos cristãos-novos, nem sequer dos da Inquisição. Estamos a falar do nazismo, que é uma coisa
  • 184. diferente, uma gente diferente, obcecados com a superioridade da raça alemã e outrosdisparates, tão absurdos para o século XX que só podemos estar perante fanáticosde uma natureza como o mundo nunca viu.Diogo inclinou-se para a frente, sentindo-se desconfortável na poltrona.- Mas o que está você a querer concluir, afinal?Gabriel não respondeu logo. Levantou-se, olhando por cima do ombro para a portada sala como que a certificar-se de que não havia ninguém a escutá-los. Depois, caminhouaté à lareira e segurou por breves instantes uma fotografia emoldurada que o mostravasorridente numa praia do Rio de Janeiro. Pousou a moldura no seu sítio e virou-se,encarando Diogo.- O que eu estou a querer dizer, Diogo, é que hoje estou convencido de que o planode Hitler e dos nazis é exterminar, fisicamente, todos os judeus da Alemanha. E que, se odeixarem, talvez não fique por aí.Valmonte, 1 de Abril de 1936DiogoEscrevo-te para a direcção que me deste do hotel no Rio de Janeiro, ondeirás ficar. Recebi o postal de Paris e o telegrama que mandaste da Alemanha,antes de embarcares. Achei Paris uma cidade linda, a julgar pelo teu postal, ebem que gostaria de um dia, como prometeste, poder conhecê-la contigo. O teutelegrama fez-me mais confusão, sobretudo por imaginar que sobrevoasteLisboa na madrugada de hoje, quando a nossa filha tinha acordado e eu lhetinha acudido para a adormecer e me lembro de ter ficado depois a pensarexactamente onde estarias tu àquela hora. Afinal, estavas aqui, tão próximo denós, mesmo por cima das nossas cabeças! Agora, quando escrevo, da parte datarde, imagino-te já a sobrevoar o mar, sem sinais de terra, baloiçando nessacoisa inacreditável onde a tua maluqueira te levou a embarcar - como se nãofosse mais simples e, sobretudo, bem mais seguro viajares para o Brasil denavio, como fazem as pessoas normais! Ah, Diogo, mas tu tens de ser semprediferente dos outros, não é?Imagino também (e com todas as minhas forças o peço à Senhora dosViajantes!) que, quando receberes esta carta, já estejas a salvo no Brasil, hávários dias. Espero bem que as primeiras impressões não desmereçam de tantasideias e tantas ilusões que te foste fazendo sobre o Brasil! Ou, se calhar, bem láno fundo do meu íntimo, o que desejo é que te desiludas tão depressa que as
  • 185. saudades de nós e de Valmonte te tragam de volta assim que puderes. Que dêspor ti a não querer outra coisa senão apressar aí os assuntos e marcar logo umbarco para vires a correr para casa, onde te esperam a tua mulher, os teus filhos,a tua mãe e o teu irmão, todas as coisas que sempre foram a tua vida e queagora são também a minha e a dos nossos filhos. Não leves isto à conta deegoísmo, mas do pensamento normal de uma mulher que lamenta a ausência domarido e que - tu sabe-lo bem - nunca conseguiu compreender nem aceitar atua partida. Torturo-me para não te fazer a ti a pergunta que me assalta todosos dias e a todas as horas: quanto tempo ficarás ausente? Tu disseste meses -três, quatro meses -, mas alguma coisa dentro de mim (ou dentro de ti) me dizque, felizmente, há-de ser mais do que isso. Sei que ainda agora partiste, queainda agora, há umas horas atrás, passaste aqui, por cima das nossas cabeças, eque é desesperadamente cedo para me fazer esta pergunta. Mas não consigoevitá-la, porque, vês tu, mesmo quando te ausentavas durante dias ou semanasem Lisboa, o facto de te saber tão perto fazia-me sentir de uma formacompletamente diferente de agora. Agora, Diogo, sinto-me à toa, como seestivesse sem chão e sem poiso, nesta casa onde te sinto a cada momento eonde a cada momento sinto a tua ausência.Enfim, não te quero deixar preocupado com a minha tristeza. Talvez elavá abrandando com o tempo, e tu conheces-me: sabes que o que sinto pordentro não mostro por fora. Não dou parte de fraca, nem com os miúdos nemcom a tua mãe. E, por aqui, está tudo relativamente bem: o Manuel teve umavaricela, mas foi muito bem tratado pelo dr. Suggia e já está a recuperar, com omesmo apetite de sempre. A Assunção cresce todos os dias, como se tivessepressa de ser grande, e tem o sorriso mais bonito do mundo. A tua mãe ficouum bocado abalada com a tua partida e parece-me que também andapreocupada com qualquer outra coisa, de que não fala: escreve-lhe logo quepossas. Enfim, o teu irmão continua, infelizmente, ensimesmado e desatinado:meteu-se numa briga qualquer em Montemor, por causa de umas vacas, diz ele,e apareceu em casa todo amassado. Muito gostaria de saber o que vai naquelacabeça para o poder ajudar, mas ele, como sabes, não se abre com ninguém, ecuriosamente a única pessoa com quem fala é com a Assunção, que ainda nãolhe pode responder como um adulto!De resto, está tudo bem. Tem feito um frio imenso, mas a chuva não hámeio de aparecer, e bem que calhava agora para as sementeiras!
  • 186. Escuso de dizer que espero uma carta tua todos os dias (estou a exagerar,mas não muito...). Que te amo e te espero, como sempre.A tua mulher,Amparo.
  • 187. XII“A minha vida está suspensa a sessenta metros de altura sobre as águas escuras domar. A minha vida está suspensa há dois dias e duas noites, sem referências nem horizonte,desde que perdemos de vista a costa da ilha de Santiago, em Cabo Verde, e entrámos pelooceano adentro. Agora sei o que é navegar, sei o que é procurar terra sem saber se aencontraremos, sei o que é olhar em frente, pelas janelas basculantes do lounge destemonstro deslizante - que são abertas quando faz bom tempo, para respirarmos o ar do mar- e procurar, o mais longe que a vista alcança, sinais de aproximação da terra Brasil,destroços vegetais à tona de água, gaivotas voando em nossa volta, águas mais clarasdebaixo da nossa sombra, uma pressão no peito, do lado de onde bate a esperança.“Voamos a 120 km/hora e raramente ultrapassando os duzentos metros acima dalinha de água, excepto quando, ao terceiro dia de viagem, uma frente de nuvens baixas,escuras e ameaçadoras, nos fez subir até aos 1600 metros, cavalgando e oscilando por cimada tempestade, de súbito recordados de quão frágil é o nosso voo, quão frágil é a viagemneste mundo. Tratam-nos com todas as comodidades possíveis e imagináveis: camas quedariam para um casal, lençóis de seda natural, duche quente, peque-no-almoço luxuoso,almoço e jantar de chef internacional, mesa de bridge durante a tarde (onde me entretenhocom um americano, um alemão e um brasileiro) e bebidas servidas a toda a hora, de tarde ede noite, no lounge de onde vemos o Atlântico ficar para trás, milha após milha, sempreigual e sempre intimidante.“Eu, Diogo Ribera Flores, filho do campo e do sequeiro, herdeiro de sobreiros,azinheiras e oliveiras, alentejano por berço e condenação perpétua, deixei mulher e filhos,deixei mãe e irmão, deixei terra e Pátria, deixei esse ar espesso e opressivo de um Portugalamordaçado, para flutuar neste balão gigante sobre o mar e sobre a vida, esperando que nofim da viagem haja um Novo Mundo à minha espera. Não podendo vir de caravela, vim deZeppelin, e, fosse eu dado aos relatos, como Pêro Vaz de Caminha, também escreveria àminha Rainha - porque Rei não tenho - o diário desta viagem e das minhas descobertas.Ah, mas eu não tenho essa consistência e perseverança dos descobridores! Eu sou leviano eligeiro, sou mais dado às sensações do que às realizações, mais depressa me sirvo a mim doque à Pátria. Graças a Deus, não nasci em 1500: nasci tarde de mais para o desconhecido,
  • 188. cedo de mais para a lucidez. Não sei o que procuro, mas sei do que fujo. Não sei o queencontro, mas sei que vou, que flutuo - como este grande balão, devagar e em frente,suspenso sobre tudo o que são as certezas, a terra firme onde os outros são felizes erealizados e eu não. Chego à janela entreaberta do Hindenburg e olho para o mar, lá embaixo: aspiro a sua humidade e o seu sal a plenos pulmões, peixes-voadores sobrevoam acrista das ondas vadias, golfinhos desenham a sua sombra logo abaixo da linha de água, emvão procuro o perfume a clorofila que anunciará a costa do Brasil, vejo o retrato deAmparo, e do Manuel e da Assunção, reflectido na superfície do mar e não sei que lhesdiga. Não tenho razão alguma explicável para estar aqui. Um capricho, disseste tu. Umaobsessão, um egoísmo, uma infantilidade, sentenciou o Pedro. E tudo verdade, que possoeu dizer? E, todavia, flutuo. Estou entre mar e terra, entre a Europa, cansada e demente, eo Novo Mundo, onde tudo só pode ser diferente. Flutuo, estou feliz, bebi de mais aojantar, o luar de prata dançando sobre a água aqui debaixo faz-me sentir eufórico e alheio,aproveito este intervalo, estes dias em que não sou de lado algum, em que não tenho pé emterra nem no mar, para pensar no concreto da vida. E, quanto mais penso, mais me apeteceque esta viagem nunca mais acabe.”Às primeiras horas da manhã de 4 de Abril, o Hindenburg, vindo do norte depois deter entrado no Brasil passando por cima da ilha de Fernando de Noronha, Recife eSalvador, sobrevoava o Rio de Janeiro, dirigin-do-se para o seu novo hangar, em SantaCruz, cerca de 60 quilómetros a sul da cidade. Chovia copiosamente sobre o Rio e Diogoapenas conseguiu colher uma primeira impressão de uma cidade entalada entre morros eraar, com uma ampla e sinuosa linha de costa, contornando baías e enseadas, e ao longodas quais as construções pareciam dispor-se de forma anárquica. Passaram ao lado domorro chamado Pão de Açúcar, já conhecido dos passageiros por uma fotografia que haviaa bordo do Hin-denburg, e situado na entrada da extensa baía de Guanabara, semeada depequenas ilhas, entre as quais a ilha das Flores, ponto de desembarque obrigatório dosemigrantes europeus que chegavam ao Rio de Janeiro.Não era o caso deles, visitantes de luxo - aliás, como os passageiros de 1ª classe dosnavios de linha, que não eram considerados emigrantes, mas sim turistas, dispensados detodas as formalidades de emigração. Em contrapartida, o seu desembarque foi certamentemais acidentado. O hangar estava inundado de água da chuva, que não parava de cair, esopravam ventos fortíssimos que não permitiam a aproximação em condições para amarraro dirigível ao seu mastro. Além disso, a maior parte dos 240 membros da “tripulação deterra” não sabia bem o que fazer na ocasião, segurando distraidamente as cordas descidasdo Hindenburg, na esperança de que alguém se dispusesse a coordenar a manobra.
  • 189. Finalmente, acabou por se desistir de amarrar ao mastro e foi à força de braços em terra emotores a bordo que o pesado e imenso balão foi descido até terra e enfiado a muito custodentro do hangar - de onde, pelo menos, já não podia levantar. Toda a operação demoroucerca de uma hora e, quando enfim foram descidas as escadas e o primeiro membro datripulação do Hindenburg pôs pé em terra, pararam-se os cronómetros e registou-se para ahistória do primeiro voo aéreo non-stop Europa-Rio de Janeiro: quatro dias e quatro noitesde viagem, exactamente 100 horas e 40 minutos, para os 11 000 quilómetros percorridos.Diogo acabara de conquistar o seu quinhão na história da aviação. Parte do seusonho estava cumprida: chegar de balão ao Brasil. No hangar cheirava a combustível ereinava uma confusão totalmente irremediável A custo, abrindo caminho por entre apequena multidão que se agitava sem nexo aparente, respondendo a ordens gritadas emtodas as direcções, dirigiu-se para a saída do hangar, sentindo o chão a balouçar debaixodos pés, como se ainda estivesse no ar. Cá fora, a chuva tinha abrandado e parecia que iamesmo cessar por completo. Ele não se importou com a chuva: caminhou uns passos parafora, acendendo um cigarro e aspirando o ar a plenos pulmões. O cheiro asfixiante aclorofila entrou por ele adentro como um sopro e deixou-o quase entontecido. Depois,veio-lhe também um discreto cheiro a maresia, seguramente da baía de Sepetiba, ali ao lado- mas, para quem tinha acabado de chegar das praias de iodo do lado de lá do Atlântico,aquele sinal de mar próximo era tragado, de um só golpe, pelo cheiro inebriante do verdeda floresta.Afastou-se ainda mais em direcção à mata logo em frente e aí começou a escutar agritaria dos pássaros que vinha lá de dentro. Um raio de sol rompeu timidamente as nuvense os primeiros pássaros, de todas as cores, começaram a levantar voo das árvores. Dohangar veio uma ordem, através de um megafone e num português cantado e alegre, a queele não estava habituado:- Pede-se aos passageiros do voo Hindenburg, acabados de desembarcar no Rio, quese queiram dirigir por gentileza ao salão de desembarque para cumprimento dasformalidades legais de ingresso no Brasil.Diogo sorriu para si mesmo. Abriu a boca de par em par, como se fosse gritar, eengoliu nova golfada de clorofila. Abaixou-se sobre a terra molhada a seus pés e colheu umpedaço, que levou à boca e beijou ao de leve: terra brasil.Do hangar de Santa Cruz, Diogo seguiu no comboio construído pelos alemães até àEstação D. Pedro II, já em plena cidade. Aí, apanhou um dos carros com motorista queaguardavam os inesperados viajantes do ar e mandou seguir para o Copacabana Palace.Pelo caminho, o chauf-feur foi-lhe dando uma primeira abordagem geográfica da capital do
  • 190. Brasil: a Avenida do Mangue, o centro, cruzado sem grandes detenças, e a Avenida BeiraMar. De janela aberta, aspirando aquele ar quente e húmido que se colava à roupa comouma segunda pele, ele foi aprendendo também os nomes daquilo que extasiadamente iavendo: a baía da Urca, com a sua forma de concha exposta às batidas do mar, o morrosobranceiro do Pão de Açúcar, a larga e elegante baía de Botafogo, que parecia imaginadapor um lápis negligente deslizando ao acaso sobre o mapa. Caramba, Deus não se pouparaao desenhar o Rio de Janeiro!Quando, após uma meia hora de viagem, o motorista o depositou com as bagagens àporta do Hotel Copacabana Palace, no extremo do imenso areal da praia de Copacabana,ele já estava perdido de paixão por aquela cidade. Homem do campo, da terra e da secura,estava esmagado pela textura líquida daquela cidade, rodeada de mar, baías, lagoas emontanhas, sob um manto de humidade quente que o fazia sentir-se como que dentro deum casulo. Uma mão invisível, vinda das montanhas por trás da cidade, tinha pegado nelecomo um náufrago à deriva e tinha-o feito seu refém, cativo para sempre da luz quemagoava, do calor que entorpecia, da humidade que o prostrava de exaustão feliz. Numápice, o Rio tomara conta dele e de cada um dos seus sentidos.Entrou pela porta envidraçada do hotel e sentiu-se pairar sobre o chão de mármore,reparando nas madeiras escuras e exóticas, os trabalhos de estuque no tecto da recepção,um som de vozes alegres no ar, um cheiro indefinido a madeiras e flores. Confirmou a suareserva para um mês, preencheu os papéis e subiu ao quarto onde o aguardavam as suasmalas e um cesto de frutas. Experimentou uma banana, que achou deliciosa, e uma fatia deabacaxi, muito mais doce que o ananás dos Açores que se comia em Lisboa. Abriu a portado terraço do quarto e recuou instintivamente com a intensidade da luz reflectida nas águasdo Atlântico, logo ali à sua frente. Sem pensar mais, foi a uma das malas, retirou o seumaillot de banho que vestiu por baixo das calças mais leves que tinha trazido, enfiou umacamisa branca e saiu, levando uma toalha do “banheiro”. Caminhou até à praia em frente edespiu-se na areia, abandonando tudo e entrando pelo mar adentro. A água eratransparente e morna, como ele nunca tinha imaginado que fosse possível, e havia restos decocos boiando à superfície. Nadou umas braçadas e mergulhou para ir buscar a areia nofundo e ficar a vê-la na palma da sua mão. Então, emergiu da água e voltou-se para trás, deonde tinha vindo: à sua frente, o longo e elegante edifício branco do hotel recortava-senum espaço ainda semivazio. À direita estava o Leme, onde a praia acabava num morro,para lá do qual ele sabia que ficava Botafogo, o Flamengo e outras baías ou enseadas.À esquerda, no enfiamento do hotel, cbalets recém-construídos e outros emconstrução alinhavam-se ao longo da suave curvatura da praia ao lado dos primeiros
  • 191. edifícios em altura, os “arranha-céus”, que começavam a erguer-se, prometendo povoarCopacabana rapidamente. E, ao fundo, o Forte de Copacabana, onde, catorze anos antes,estava o hotel a ser acabado, acontecera o episódio que ficou conhecido como “os dezoitodo Forte”: um grupo de jovens tenentes que haviam jurado derrubar o regime doPresidente Artur Bernardes, ao serviço dos grandes fazendeiros de S. Paulo, entrincheiram-se dentro do forte, esperando em vão pelos reforços que haveriam de chegar dolevantamento de outras unidades. Sozinhos então, acossados pelo Exército leal aoPresidente, a maioria acabou por se render, mas não 29 deles, que optaram por rasgar empedaços uma bandeira do Brasil e jurar lutar por ela até à morte. Dos 29 juramentados, 18honraram a sua palavra e, quando já não havia mais esperança, abandonaram o forte esaíram, marchando pela calçada de Copacabana em direcção ao inimigo e à morte. Doisdeles, apenas, sobreviveram.Diogo sabia tudo isso, que aprendera ao longo dos anos em que, desterrado emValmonte e sem razão plausível para tal, desatara a ler tudo o que arranjava acerca doBrasil, até que o seu sonho de um dia lá chegar se tornara uma obsessão sem cura. E agoraali estava, acabado de chegar e já deslumbrado. Parecia impossível imaginar que ainda hápoucas horas atrás viajava suspenso de um frágil balão que o trouxera de uma Europa fria ecinzenta, onde só parecia haver lugar para o ódio e para os extremismos, onde se afiavamespadas e se contavam exércitos, onde tudo parecia gasto e cansado, onde “os amanhãs quecantam” nada mais tinham para oferecer do que ditaduras, perseguições, guerras e o gritouniversal de “morte à liberdade!” Agora, não: agora, vinha-lhe o cheiro a selva damontanha em frente, o bafo quente do ar onde os pássaros evoluíam nas correntes semesforço algum, cascas de cocos deslizavam ao sabor das ondas em direcção à areia, a águaera cristalina e envolvente e o Rio estava aos seus pés, à espera de ser colhido. Ou era eleque estava aos pés do Rio.Almoçou no hotel, no restaurante do terraço onde estava a ser construída a piscinado Palace. A conselho do maitre, experimentou coisas absolutamente desconhecidas e queo encantaram, desde a “batidinha de cana” com limão verde, pequeno, que ele nunca tinhavisto, até à “casquinha de siri”, feita com um caranguejo mole, de areia, que não havia naEuropa, passando pela própria salada com uma espécie de espargo grosso chamado“palmito”. Mas, acima de tudo, ele estava deslumbrado com o hotel em si mesmo. E nãoera caso para menos.A arquitectura do Copacabana Palace, desenhada pelo arquitecto francês JosephGire, inspirara-se nas do Negresco e do Carlton, de Nice, e, tal como eles, pretendia ser umhotel de praia, luxuoso e imponente. E, na verdade, quando ficou pronto, em 1922, foi o
  • 192. hotel que, por assim dizer, inaugurou a praia de Copacabana - até aí cortada da cidade eapenas povoada por algumas cabanas dispersas.Aliás, até ao início dos anos vinte, tanto os prédios como as pessoas viviam de costasvoltadas para o mar. Fora a necessidade de combater as constantes epidemias que provara aurgência de abrir avenidas e espaços por onde o ar do mar penetrasse na cidade, e só em1886, segundo rezava a lenda, é que a praia de Copacabana recebeu o seu primeiro ecélebre banhista: a actriz Sarah Bernhardt, que, desprezando a vergonha pública e as regrassobre a decência dos banhistas (que, trinta anos depois, ainda haveriam de ser afixadas peloprefeito do Rio), entrou pela água adentro vestida como a ocasião recomendava. OCopacabana Palace tinha vindo mudar tudo isso: era um hotel de praia e era suposto oshóspedes irem à praia. Mas, nesse mesmo ano de 1936, fora ainda mais longe e estava àbeira de inaugurar a primeira piscina com dimensões olímpicas no Brasil, logo destinada atornar-se ponto de encontro obrigatório da beautiful peo-ple carioca: de manhã na piscinado Palace, à noite nos seus salões, no casino ou no restaurante, onde pontificava umafamado chef francês e o caviar tinha de ser “grand grain, gris, sans sei”.O proprietário, fundador e director do Palace era Octávio Guinle, herdeiro da maiorfortuna brasileira. O Palace tinha-se tornado na sua vida, ao ponto de habitar empermanência uma das duas suites presidenciais, de forma a melhor vigiar tudo o queacontecia no hotel. E tudo acontecia no hotel: desde a sua inauguração, o Palace tornara-selogo o centro da vida social, cultural e política do Rio e o Rio era a capital do Brasil. Nãohavia estrela de cinema, cantor internacional, bailarina de renome, maestro célebre, príncipeou presidente que visitasse o Brasil, que viesse ao Rio, e não ficasse hospedado no Palace.E o mesmo fazia a sociedade carioca e todos os políticos do país, da República Velha ou daRepública Nova, de todos os regimes e de todos os governos. Oficialmente, a política doPalace era não ter política, dar-se bem com todos; na prática e actualmente, vivendo sobum regime autoritário, isso significava que a família Guinle estava de muito boas relaçõescom o regime de Getúlio Vargas. O irmão do Presidente, Benjamim Vargas, conhecido por“Bejo”, era um frequentador habitual das mesas de jogo do casino do Copacabana, ondegozava de privilégios que só a sua relação familiar justificava. Tinha, por exemplo, o mauhábito de ir para a sala de jogo munido do seu revólver, que não hesitava em utilizar, emtiros para o ar, de cada vez que a sorte lhe virava costas. Numa célebre noite, farto deperder, “Bejo” pousou teatralmente o revólver em cima do pano verde da roleta eproclamou em voz bem alta a sua aposta final: “Dezassete, preto, ímpar!” A roleta girou e ocroupier anunciou em voz baixinha: “Oito, encarnado, par...” Fez-se um silêncio detragédia na sala toda, enquanto “Bejo” já ia estendendo a mão para o revólver. Mas,
  • 193. antecipando-se-lhe, numa jogada de inspiração, o croupier anunciou: “Perdão: preto, ímpar,dezassete!” Benjamin Vargas recolheu revólver e fichas e a noite acabou em alívio geral.Culto, requintado, de gostos apurados e exigentes, Octávio Guinle não desprezavaum pormenor para fazer do Palace, mais do que um hotel, um estilo de vida, que pudessecriar fama além-fronteiras, como de facto já sucedia, e ser uma espécie de cartão-de-visitado Rio de Janeiro. Mais de mil empregados serviam os 230 quartos do hotel e a exigênciade Guinle com a qualidade do serviço era de tal forma cuidada que ele redigira um “Códigodos Empregados do Palace” onde, entre outras sábias determinações, se prescrevia amáxima de “não dar opiniões, e, quando solicitadas, evitar o prolongamento da conversa eos comentários”. Ou, mais avisado ainda e atendendo à notoriedade de alguns hóspedes, oCódigo estabelecia: “Não demonstrar conhecimento das excentricidades dos clientes, quedeverão passar despercebidas, sem manifestações de gestos, palavras ou actos.” Uma regraque demonstrou a sua utilidade quando Marlene Dietrich, enfiada num vestido demasiadojusto e que, segundo ela, não lhe permitia abaixar-se, pediu ao camareiro um balde comareia e gelo para poder satisfazer as suas necessidades de pé e foi atendida. Ou quando oentão Presidente Washington Luís forçou a entrada no quarto da sua clandestina amantefrancesa e foi recebido por ela a tiro de revólver, tendo sido discretamente retirado pelosfundos com uma bala alojada no abdómen, mas oficialmente com uma crise de apendiciteaguda da qual sobreviveria.Mas Diogo não ignorava que o Copacabana Palace representava apenas um dos ladosdo Rio, uma das faces, terrivelmente contrastantes, do Brasil todo. E se, nos dois primeirosdias, por ali se deixou ficar saboreando as mordomias e luxos do hotel, sem pressa de seapresentar no escritório da Atlântica, no centro, não foi com medo de sofrer uma imensadesilusão, depois do Palace, mas sim porque sentia necessidade de descer consistentementeà terra, e também ao mar, após aqueles quatro dias e quatro noites voando a meio céu,nessa espécie de limbo que era o Zeppelin.O Brasil - ele sabia-o - vivia também uma efervescente situação política. Na Europa,comentava-se muito a ditadura fascizante de Getúlio Vargas, o Presidente. Mas, para quem,como ele, tinha saído de uma verdadeira ditadura fascista, aquela, além de não lhe dizerdirectamente respeito, tinha grandes e substanciais diferenças: Getúlio também chegara aopoder por golpe de Estado ou insurreição militar, mas depois disso fora eleito, de formalegítima, pelo Congresso e, embora a contragosto, governava no âmbito dos poderes quelhe dava a Constituição democrática de 1934. Era verdade que, fosse por convicção ou porconveniência, tinha quase toda a imprensa de referência a seus pés, mas não havia censuraoficial e mesmo o Partido Comunista publicava livremente os seus jornais. Mais importante
  • 194. ainda, Getúlio era popular, tinha oposição consentida, partidos formados livremente, eoficialmente não havia presos por delito de opinião. Dentro de dois anos, em 1938, haverianovas eleições para a Presidência e ele iria retirar-se do poder, pois que a Constituição nãoconsentia a reeleição. Nada disto tinha comparação com o que se passava no Portugal deSalazar.Isso fora assim exactamente até há umas semanas atrás, quando Diogo tomara adecisão de vir até ao Brasil. Ultimamente, porém, o ambiente político estava a mudar nopaís e, mesmo à distância, seguindo os eventos pela imprensa internacional ou brasileira,Diogo dera-se conta dessa mudança, que, no seu íntimo, se recusava a encarar de frente,tamanho era o seu sonho longamente alimentado de ver no Brasil a pátria dosdescamisados da liberdade. Mas as coisas estavam mesmo a mudar: em finais de Novembrodo ano anterior, a imprensa afecta ao regime, em Lisboa, dava conta, com grandeentusiasmo e grandes parangonas, do falhanço da “intentona comunista, organizada porMoscovo no Brasil” e dirigida pelo célebre capitão Luís Carlos Prestes - agora um quadrosuperior do Komintern e outrora o líder da lendária Coluna Prestes, onde ganhara o epítetode “Cavaleiro da Esperança”. Durante dois anos e meio, entre 1924 e 1927, o capitão doExército Luís Carlos Prestes encabeçara uma coluna de 1500 homens, civis e militares, que,partindo do Rio Grande do Sul e juntando-se às forças revoltosas do major Miguel Costa,estas saídas de S. Paulo, havia percorrido o Brasil inteiro, de Foz do Iguaçu ao Amazonas,do Sul ao Nordeste, a pé ou a cavalo, em lombo de burro ou de boi, para provocar umlevantamento nacional contra o regime político ao serviço dos oligarcas de S. Paulo. Semideologia política definida, Prestes era movido por um genuíno sentimento de justiça sociale dignidade política servidas igualmente, como logo se veria, pelo seu génio militar. Ele e osseus camaradas de armas representavam o que de mais generoso sobrara do “tenentismo”,que mais tarde iria levar ao poder Getúlio Vargas, na chamada “Revolução de 30”, mas que,aos olhos de Prestes e muitos outros, falhara na sua missão primordial de libertar o Brasilde um sistema político e social ainda semi-feudal. Getúlio e os seus preparavam-se para irocupar o Palácio do Catete; Prestes e os outros tinham escolhido embrenhar-se no sertão,nos mangues, nos espinheiros, na selva, nessas terras do sem-fim do Brasil, que elespróprios não conheciam, numa desvairada aventura militar que o Brasil não entendia, massecretamente admirava. De facto, do ponto de vista militar, ele inauguraria o que ficariaconhecido como a “guerra de guerrilha” - com um exército “popular” e heterogéneo,permanentemente em movimento, atacando de emboscada e jogando na surpresa e noapoio popular encontrado ao longo da marcha. Na verdade, a Coluna Prestes passaria àhistória com o título de “invencível”, mas jamais conseguiria, ao longo desses dois anos e
  • 195. meio e 25 000 quilómetros percorridos (e minuciosamente anotados pelo “escrivão” daColuna), levantar as populações por onde passava. E, na Primavera de 1927, ele e os seus620 homens sobrantes atravessavam a fronteira para a Bolívia e depunham as armas. Fora,talvez, o maior feito militar da história do Brasil, a mais fecunda fonte de lendas e deilusões acerca do nobre “Cavaleiro da Esperança”, mas, para efeitos práticos, um longo earrastado fiasco político. A partir daí, aos trinta anos de idade, o capitão Prestes percebeuque a revolução só chegaria através de uma organização muito mais consistente, maispensada, com mais meios e uma ideologia de massas. Isso requeria tempo, preparação e umcampo de treino adequado: a União Soviética, de José Estaline. Em 1931, Prestes chega àURSS, na companhia da mãe e das quatro irmãs - ela viúva, os filhos todos solteiros erecém-comunistas. Em Moscovo, ele, que fora rejeitado pelo Partido Comunista do Brasil,rapidamente vai subindo na hierarquia dos dirigentes comunistas internacionais, impondo-se aos olhos do Politburo do PCUS como a grande esperança para o triunfo da revoluçãobolchevique - no Brasil, primeiro; na América Latina toda, de seguida.Mérito seu, acaba por conseguir convencer os russos de que o Brasil estava maduropara ser colhido: bastaria ele desembarcar lá e primeiro cairiam os quartéis, depois o povoacompanharia. Estava no poder, então, Getúlio Vargas, que, em 1930, enquanto Prestespartia para o exílio soviético, chefiara um levante militar saído também do Rio Grande doSul e depusera a, a partir daí, chamada República Velha. Muitos dos que tinham apoiadoGetúlio e o levaram à chefia do Estado, após o sucesso do levantamento, tinham estadotambém na Coluna Prestes e guardavam admiração e lealdade ao seu antigo chefe. MasPrestes fora para outras paragens, seguira outro chamamento e agora era comunista -enquanto que eles queriam apenas repor as liberdades políticas, pôr fim aos privilégios dosdescendentes dos antigos proprietários das fazendas de escravos do Vale do Paraíba eterminar com as fraudes eleitorais e políticas de toda a ordem. Para eles, a deposição daRepública Velha e a instituição da República Nova era o bastante; para ele, tudo isso era jáum programa político do passado. Só lhe interessava agora o futuro e o futuro era o triunfodo comunismo no Brasil.Tendo decidido apadrinhar os planos de Luís Carlos Prestes, o Politburo escolheu adedo uma equipa de dez profissionais da revolução, comunistas de várias nacionalidades,testados e treinados para missões daquelas, e que foram enviados clandestinamente para oBrasil para ajudarem a montar o levantamento comunista. Para escoltar Prestes, na sualonga e secretíssima viagem até ao Brasil, para lhe servir de correio privilegiado, guarda-costas e assistente em todo o tipo de tarefas, o PCUS escolheu a jovem e bonita alemã OlgaBenário, dirigente das Juventudes Comunistas Internacionais e judia, apaixonada por
  • 196. estratégia militar, corajosa até ao extremo, culta e dotada para línguas. Sem se conhecerem,embarcaram os dois em Moscovo, na véspera do Ano Novo de 1934 e, trocandoconstantemente de identidades, passaportes, países de escala e meios de transporte,chegaram finalmente ao Brasil em 15 de Abril do ano seguinte, voando a bordo de umhidroavião baptizado com o nome do grande herói da aeronáutica brasileira, SantosDumont, em voo nocturno de Montevideu para Florianópolis. Luís Carlos Prestes tinhaentão 37 anos de idade e, porque gastara toda a sua juventude com a causa revolucionária,embarcou virgem: nunca tinha conhecido mulher. Ela, não. E ela, que tinha mais uns dezcentímetros de altura que os escassos 1,60 metros de Prestes, podia proclamar ao mundo,no final da longa viagem a dois, que eram, de facto, tal como os passaportes falsosrezavam, marido e mulher, por direito de paixão mútua e fulgurante.Chegados ao Rio, eles e os membros de elite da restante equipa de apoio enviada porMoscovo foram tomados a cargo pelo aparelho clandestino do Partido ComunistaBrasileiro. E começaram imediatamente a fazer planos para a revolução bolchevique naspraias de Copacabana e Ipanema - que Olga Benário, entretanto, frequentava nas horasvagas, completamente deslumbrada. O secretá-no-geral do PCB, com o nome de guerra de“Miranda” - que tanto Olga como Prestes tinham em pouca conta -, garantia que, num dia,conseguiria paralisar o país como uma greve geral de apoio ao levantamento militar quecongeminavam. Por seu lado, Prestes assegurava o apoio incondicional de uma infinidadede aquartelamentos na capital, em S. Paulo e nas principais capitais dos estados. No final deNovembro de 1935, rebentou uma revolta espontânea e totalmente anárquica numaquartelamento em Natal, no Rio Grande do Norte. O “comité de crise” comunista,reunido de urgência, concluiu que aquele era o sinal de que o país inteiro estava prontopara o levantamento. Alguns dos enviados de Moscovo - e também “Miranda”, segundoalgumas fontes - ainda colocaram dúvidas, mas Prestes sossegou-os de vez ao garantir quetinha o apoio confirmado da Marinha de Guerra, estacionada na baía de Guanabara. E, nanoite de 26 para 27 de Novembro, sete homens e três mulheres, longamente industriadospara uma hora daquelas, decidiram que tinha começado a Revolução Bolchevique no Brasil.A revolução começou às três dessa madrugada e acabou à uma da tarde do mesmodia. Na verdade, viria a registar não mais do que uma centena de mortos e um único herói:o tenente Agildo Barata, que, contra todas as expectativas, conseguiu, apenas com unstrinta homens, tomar conta do 3.° Regimento de Infantaria, na zona sul do Rio, ondeestava como preso, e resistir durante dez horas, recusando render-se perante obombardeamento de forças infinitamente superiores e esperando em vão pelos reforçosque haveriam de chegar das restantes unidades sublevadas... e que acabaram por nunca
  • 197. chegar. Ao final da manhã, com o quartel do 3.° RI semidestruído pelas bombas, AgildoBarata rendeu-se finalmente, mas sem perder a boa disposição. Segundo o relato dopróprio e de outras testemunhas presenciais, quando um dos oficiais que tomaram oregimento sublevado perguntou alto e em tom provocador: “Quem é o filho da puta doAgildo Barata?”, ele deu dois passos em frente e respondeu:- O Agildo Barata sou eu. O filho da puta deves ser tu.A revolução, longamente congeminada em Moscovo e preparada nas casasclandestinas do PCB no Rio e S. Paulo, tinha sido pulverizada ao fim de meia dúzia dehoras. Nem a tropa se sublevou, nem os operários entraram em greve, nem o povo sejuntou. Mas o pior estava para vir.Pelo que Diogo deduzira da leitura dos jornais, o Presidente Getúlio Vargas vira nafrustrada intentona um pretexto à medida das suas crescentes inclinações ditatoriais e dassuas nascentes simpatias com o fascismo europeu. Decretou o “estado de sítio” por trintadias, que depois substituiu pelo “estado de guerra”, prorrogado sucessivamente, e investiuo chefe da Polícia Federal do Rio, capitão Filinto Múller, de plenos poderes para investigar,prender e interrogar por qualquer meio todos os implicados no golpe falhado. Overdadeiro objectivo, porém, não era apenas o de prender os conspiradores e desmantelar oaparelho clandestino do PCB, mas também o de aproveitar para defenestrar todos osdirigentes da Aliança Nacional Libertadora - uma vasta coligação reunindo quase toda aoposição a Getúlio e que, meses antes, fora extinta por decreto presidencial. Filinto Múllernão se limitava a ter um nome alemão: tinha também inclinações nazis e, mais importantedo que isso, a colaboração no terreno de oficiais da Gestapo enviados ao Rio, e até, ironiadas coisas, a colaboração dos serviços secretos ingleses, também eles empenhados nocombate global à “conspiração comunista internacional”. O capitão Múller desempenhou asua missão com zelo patriótico inexcedí-vel: prendeu livremente aos milhares, mandouespancar, torturar, seviciar, caminhando de confissão em confissão, até deitar mão a todosos cabecilhas do golpe mais os dirigentes da ANL, não comunistas, que vieram por arrasto.Mas, para conseguir chegar ao núcleo duro que planeara a intentona e, sobretudo, paraconseguir chegar ao seu grande objectivo - Luís Carlos Prestes -, Filinto Múller viria acontar com a generosa colaboração do secre-tário-geral do PCB, “Miranda”. Nem foipreciso dar-lhe uma bofetada sequer: assim que se viu preso, “Miranda” tornou-seimediatamente no mais prolixo colaborador da polícia, a quem forneceu nomes, moradas,cargos e funções, revelando esconderijos do partido, nomes de código dos militantes eestratégias de fuga montadas. Foi graças a ele que Filinto Múller conseguiu chegar aPrestes, escondido com Olga numa casa dos arredores do Rio. Foi um momento de júbilo
  • 198. pessoal para Filinto Múller, cuja capacidade investigatória, manda a verdade que se diga,não residiu apenas no uso indiscriminado dos mais fáceis métodos de investigação como osão a tortura e as sevícias, mas também num talento inegável para a dedução e o instintopolicial, a par de uma insaciável obstinação. E havia razões para essa obstinação: dez anosatrás, Filinto Múller integrara também a Coluna Prestes, da qual acabaria por desertar comos seus homens e uma grossa quantia em dinheiro dos fundos do exército rebelde. Emordem de serviço distribuída por toda a coluna, Prestes tratou-o de “traidor” e “indigno”.Agora, chegara o momento da vingança. Ele, porém, não conseguiu encarar de frente como seu antigo comandante: espreitou-o apenas por uma fresta de uma porta, quando otrouxeram preso, e nunca mais lhe quis pôr a vista em cima.Mas ninguém na polícia sabia quem era Olga, nem sequer que nacionalidade tinha: aúnica coisa que ela afirmava era ser Maria Prestes, mulher do “Cavaleiro da Esperança”. Efoi mais uma vez a Gestapo, na Alemanha, e a pedido do grande simpatizante nazi que erao então embaixador brasileiro em Berlim, que forneceu a Filinto Múller a verdadeiraidentidade da prisioneira: Olga Bená-rio, judia e militante comunista, referenciada naAlemanha desde os seus dezassete anos.Duas semanas antes, quando passara em Paris, Diogo havia reparado nuns cartazesafixados em algumas esquinas, que alertavam para a prisão de Prestes e Olga no Brasil, pelo“governo fascista de Getúlio Vargas”, sugerindo que eles estariam a ser torturados às mãosda polícia brasileira (na verdade, fosse por respeito, por temor das repercussões públicas ouporque já nada mais havia para apurar, nenhum dos dois seria torturado). Por curiosidadecom tudo o que respeitava ao Brasil - e agora ainda mais, visto que para lá se dirigia -Diogo seguiu a sugestão de um dos cartazes e deu consigo, uma noite, numa sessão desolidariedade com os dois ilustres presos, num pequeno auditório de Montmartre. Quandochegou, a sala já estava repleta de gente atraída pela anunciada participação dos escritoresRomain Rolland e André Malraux, e a pequena multidão acotovelava-se à porta, tentandover lá para dentro, através da espessa nuvem de fumo e de calor que vinha da sala. Eleacabou por desistir ao fim de um tempo, limitando-se a levar consigo para ler no hotel unspanfletos que davam conta da repressão que se abatera sobre a insurreição “democrática,popular e patriótica” que eclodira no Rio e logo morrera à nascença. Era difícil ver claro àdistância o que realmente se teria passado, tanto mais que naqueles dias a própria Françaestava partida ao meio, entre a direita católica e fascista e a Frente Popular, reunindonominalmente todos os antifascistas, mas que os seus adversários juravam ser inteiramentecontrolada pelos comunistas - uns a descoberto, outros na sombra, fazendo-se passar por“democratas”. Também em França, a propaganda tornara impossível a informação credível
  • 199. e os jornais estavam cheios, não de jornalistas, mas de funcionários e militantes políticos,de caneta em riste.Muito mais percebeu ele a bordo do Zeppelin, quando, após uma soirée de bridge emque fez parceria com o sr. Wilson Camargo, industrial de aço de S. Paulo, retornando a casadepois de uma viagem de negócios à Inglaterra e à Alemanha, os dois se tinham sentado abeber um whisky no lounge do Hindenburg, olhando o luar que se reflectia sobre as águasdo Atlântico lá em baixo, e quando já quase todos os passageiros se tinham retirado paradormir.- Diga-me, Wilson, esta revolta do Prestes que agora abortou no Rio, você acha queera capaz de ter o apoio do povo ou foi uma aventura dele?Wilson Camargo recostou-se na cadeira de verga, antes de responder. A bordo de umdirigível alemão e a caminho do Rio, em tempos como aqueles, qualquer conversa sinceracom um estrangeiro desconhecido poderia trazer perigo. Mas também é verdade que obridge aproxima os parceiros. Que, depois de se ter visto o parceiro cumprir com sucessoquatro espadas dobradas ou vir em nosso apoio nos oiros quando tudo já parecia perdido,há um elo de cumplicidade que se estabelece e que perdura, pelo menos, durante umanoite. Em especial, se se jogou a bordo de uma coisa tão frágil e imprevista como umdirigível carregado de gás que flutua sobre a noite oceânica.- Sabe, Diogo, o Luís Carlos Prestes é talvez o homem mais respeitado e admiradodo Brasil. E não só pelos eventos da Coluna Prestes, que para sempre ficaram no arquivodas nossas lendas. Mas porque ele sempre deu a sensação de não querer nada para ele, aocontrário de quase todos os políticos que o Brasil consegue produzir. Tem muitos lugares,por esse país fora, onde a simples alusão ao nome de Prestes faz as pessoas sonharem ebaixarem a voz, com admiração. Mas a forma como ele surgiu no Brasil agora, pelaclandestinidade e de emboscada, visando a um levantamento militar feito com oscomunistas, me parece um completo despropósito.- E porquê?- Ora, por várias razões. Primeiro, porque o Exército mudou muito desde o tempodo “tenentismo” e da Coluna Prestes. Hoje, a maioria do Exército está com Getúlio e apoiaa Constituição em vigor. Depois, porque o Brasil não é comunista. Comunismo é negóciodos intelectuais do Rio e de S. Paulo - gente como o Jorge Amado, o Graciliano Ramos,arquitectos como o Niemeyer e o Lúcio Costa, ou pintores como o Portinari e o DiCavalcanti. Mas o Brasil é muito grande, meu amigo, é imenso. E, na imensidão desseBrasil, lá para cima, no Norte ou no Nordeste, não deve haver um único comunista ou que,pelo menos, se atreva a afirmar-se como tal. O povo é pobre, iletrado e obediente. Troca
  • 200. de bom grado uma botina ou uma panela de feijão por todas as utopias marxistas eobedece a quem está próximo e manda e não a quem de longe prega a desobediência. Temmuitos lugares ainda, por esse interior, onde o voto é no cabresto, com o fazendeiromarcando a cédula para o seu agregado. O Brasil não é a Europa, meu amigo, e, se algumavez, no Rio ou em S. Paulo, lhe parecer reconhecer qualquer coisa de semelhante com aEuropa, desiluda-se: isso não é o Brasil. Se o Prestes tem desembarcado e se engajado naluta política pela via legal, por maiores que fossem os obstáculos que o governo colocasseno seu caminho, ele poderia ter uma hipótese de arrastar o país com ele. Mas a prazo e àvista de todos. Agora assim, desembarcado de anos em Moscovo e ficar entocado no Rio, àespera de um levante nos quartéis, para então aparecer e dizer “aqui estou, sigam-me!”,isso, francamente, não sei como é que ele embarcou nessa ilusão. Alguém, talvez um dessescomunistas avoados, o deve ter informado muito mal.Após dois dias passados na praia e nas mordomias do Copacabana Palace, Diogocomeçou enfim a ocupar-se do que o tinha trazido até ali. Foi dar com o escritório daAtlântica no centro - duas salas habitadas por dez funcionários, mais um gabinete dedirector mergulhado numa suave quietude, acentuada pela penumbra que dava à sala ajanela de estores corridos.Nada de importante parecia poder acontecer ali, como se a própria existência daempresa fosse uma ficção sem sentido. A ausência e falta de notícias de Gabriel Matthãusdeixara os empregados como órfãos, sem saber o que fazer para além de dar caminho aoexpediente corrente. Novas compras de produtos para exportação estavam suspensas, osfornecedores sem encomendas, os clientes sem respostas. A continuar assim, a Atlânticanão demoraria mais do que escassos meses a afundar-se. Mandava ali, na ausência deGabriel, um encarregado geral, de nome Aguinaldo Baptista, um sujeito dos seus quarenta epoucos anos, de cabelo acamado em brilhantina reluzente e bigode fino acentuando-lhe asexpressões da boca quando falava. “Seu” Aguinaldo recebeu Diogo como se recebesse opróprio Cristo Redentor, que abraçava o Rio lá do alto do morro do Corcovado.Rapidamente, Aguinaldo tratou de instalar o “doutor” Diogo no gabinete vazio quefora de Gabriel Matthãus, mandou trazer um cafezinho e uma limonada fresca, montouuma ventoinha para que o recém-chegado suportasse melhor o calor a que não devia estarhabituado, e, isso feito, logo desembarcou ele próprio no gabinete, carregando um montede pastas e arquivos que Diogo não tinha sequer solicitado, mas que, manifestamente, eletinha prontos para uma ocasião tão esperada como aquela. Sem saber bem porquê, mastambém lembrando-se das informações constantes do dossier que Gabriel lhe tinha dado
  • 201. em Berlim, Diogo resolveu confiar de imediato nos bons serviços de Aguinaldo Baptista.Assim, sempre era um problema a menos entre mãos.- Então, sr. Aguinaldo, como vão as coisas por aqui?- Ah, muito mal, doutor, muito mal mesmo! - E Aguinaldo sorriu, feliz, com obigodinho a contornar-lhe os cantos da boca.- Muito mal, o quê, a situação económica?- Ah, não, essa vai bem: as coisas, por esse lado, vão bem, aqui no Brasil! O que vaimal é a Atlântica.- Então...?- Falta de perspectivas, de directrizes, está a ver, doutor?Onde quer que a tivesse aprendido, parecia que Aguinaldo Baptista tinha ensaiadoesta frase muito tempo.- Hum, perspectivas, directrizes... Vamos já tratar disso, sr. Aguinaldo.- Vamos?- Vamos, sim. E para isso que eu cá estou.O encarregado sorriu abertamente, agora o bigodinho chegando quase às orelhas.- Pois, eu já tomei a liberdade de lhe trazer aqui umas pastas para o senhor começar atomar pé em toda a situação.Diogo fez um gesto largo com a mão, que Aguinaldo Baptista acompanhouembevecido.- Deixe isso por agora. Eu estou mais ou menos ao corrente da situação: antes deembarcar para cá estive em Berlim com o senhor Gabriel e ele deu-me as informaçõesnecessárias que me faltavam.Aguinaldo assentiu com a cabeça e a sua expressão passou adequadamente de feliz atriste.- Pois, estou a ver. E como está o sr. Matthäus, se ouso perguntar?- Está mal, está numa situação complicada. Ele é judeu, não sei se sabe, e ser judeu naAlemanha, hoje em dia, é pior do que ser cão. Confiscaram-lhe o passaporte, não pode sair,não pode emigrar, não pode trabalhar. Por isso, passou-me uma procuração com plenospoderes para gerir a firma, que vamos ter de validar aí, no cartório, nos bancos, onde fornecessário.- A gente sabia que ele é judeu, mas ninguém esperava que as coisas chegassem a esteponto. Pobre doutor Gabriel, aqui todos gostávamos muito dele! - Aguinaldo falava emtom de enterro, como se se referisse já a um morto.
  • 202. Diogo levantou-se e foi até à janela do escritório, situado num segundo andar, na Ruado Ouvidor, uma rua antiga e com um charme muito próprio, junto à grande AvenidaCentral, centro nevrálgico de comércio e escritórios do Rio. Visto dali, sob um céucinzento, sem se enxergar o mar nem os morros, sem escutar os gritos dos papagaios nemo restolhar das palmeiras, naquela ruazinha de comércio calcetada a pedra, o Rio pareciaoutra cidade: talvez o Porto, com o seu ar de urbe burguesa, antiga e sólida. Voltou-se.“Seu” Aguinaldo esperava, sentado e em silêncio, as palavras que iriam encher deperspectivas e de directrizes a vida da moribunda Atlântica C.a.- Bom, Aguinaldo. Eu vou levar as suas pastas comigo para ver no hotel e ficar comum panorama completo da situação da empresa. Mas o principal agora é pensarmospara a frente.Aguinaldo Baptista fez que sim com a cabeça.- E pensar para a frente é pensar onde poderá estar a Atlântica daqui a três, a cinco, adez anos.Aguinaldo fez que sim com a cabeça.- E onde poderá estar? - Diogo falava agora consigo mesmo, em voz alta, masAguinaldo Baptista sobressaltou-se.- Onde... onde poderá estar? Aqui, no Rio...?Diogo riu-se.- Sim, aqui no Rio, parece-me que sim. Mas... a fazer o quê? O que vamos nósexportar para a Europa, daqui em diante?- Café, como até aqui? -Não...- Açúcar?- Não.- Bananas, cocos, fruta tropical, cachaça?- Não, nada disso, sr. Aguinaldo. Isso é em tempo de paz. Mas a Europa vai entrarem guerra, arrastada pelo Hitler. Dentro de dois ou três anos, a Europa está emguerra.Aguinaldo fez uma expressão compungida, as curvaturas da boca e do bigodedescaíram-lhe, acompanhando o estado do mundo. Diogo prosseguiu:- O que temos de pensar é de que precisa um continente em guerra, que a gente lhepossa mandar daqui.- Bem, o Hitler vai precisar de aço, de petróleo...Diogo parou-o com um gesto, deixando-o embaraçado.
  • 203. - Nós não vamos fazer negócios com o Hitler. Acabaram-se as exportações para aAlemanha. Vamos fazer negócio com as nações que entrarem em guerra contra aAlemanha e com as que ficarem de fora. Com a Inglaterra e a França, seguramente.- Com Portugal...- Não sei onde é que Portugal ficará: se com a Inglaterra, se com o Hitler, se em ladonenhum. Mas se ficar com os nazis, também não faremos negócios com Portugal.Aguinaldo olhou-o, impressionado: as coisas iam mudar. Será que para melhor?- Bem, então, doutor, temos mesmo que pensar, não é?- O que precisará uma Europa em guerra, Aguinaldo?- Armas...- Sim, armas, claro. Mas nem o Brasil as produz nem nós somos traficantes de armas.Esqueça tudo o que não é produzido aqui ou que não é essencial. O café, o açúcar, asfrutas tropicais, nada disso é essencial. Se, de facto, houver guerra, como eu creio, adevastação na Europa vai ser tamanha, que as pessoas vão lutar desesperadamenteapenas para viver com o essencial. E o que será então o essencial? Remédios e aparelhosclínicos para tratar dos feridos, mas isso o Brasil também não produz. Navios, comboios,etc, é igual. O que resta?Aguinaldo coçou a cabeça preocupado: alguma coisa tinha de restar ou a Atlânticadesapareceria nos escombros da anunciada guerra europeia.- Resta a comida, sr. Aguinaldo!- A comida, doutor?- Sim, a comida. Imagine a Alemanha, a França, a Inglaterra, todos envolvidos naguerra, com todos os homens mobilizados e, se calhar, também as mulheres.Quem vai tratar da agricultura?Aguinaldo assentiu, impressionado com a inteligência do patrão.- Comida, é claro! Como não pensei nisso!- O Brasil não produz cereais como o trigo, o arroz, o milho, em quantidadessuficientes e preços concorrenciais para podermos exportar. Mas produz outras coisas.- Produz outras coisas... - Aguinaldo esforçava-se para se lembrar de alguma, antesque Diogo o dissesse, mas não conseguiu.- Feijão e carne, sr. Aguinaldo! Feijão e carne.- Feijão e carne! Caramba, feijão e carne!O rosto de Aguinaldo Baptista brilhava agora de felicidade. Feijão e carne, quemdiria? Bendita guerra europeia que aí vinha.
  • 204. XIIIRio de Janeiro, 22 de Junho de 1936Querida AmparoRecebi a tua última carta no dia 10 e só agora te respondo, não porque assaudades sejam poucas, mas porque pouco tem sido o tempo sobrante domuito trabalho que tenho tido por estes dias. As fotografias da Assunção e doManuel, e de ti com eles, deixaram-me feliz e roído de desejo de poder estar aí,abraçar-vos a todos, pegar ao colo na Assunção, sair a brincar com o Manuel...e guardar para ti o melhor de tudo. Hoje, agora, acredita que daria muito parapoder estar aí, ver a casa e a herdade, ir até ao ribeiro, beijar a minha mãe eabraçar o Pedro.Mas, já que vim até cá, é para deixar as coisas resolvidas e em andamento,de modo a não ter que voltar passados uns meses. Temo, por isso, que, e aocontrário do que te dizia há tempos noutra carta, não consiga ir passar aí oVerão. Tu, que sabes como eu gosto dos dias e noites de Verão em Valmonte,podes imaginar o quanto me custa estar ausente. Mas espero ao menos poderestar de volta no fim do Verão, para a abertura da caça, pois não seria capaz deficar um ano inteiro sem caçar.Não digo que os assuntos se tenham complicado por aqui, mas é um paísdiferente e, embora a gente fale a mesma língua e haja por aqui muitosportugueses com quem falar e me aconselhar, a maneira como as coisas sefazem tem pouco a ver com o que se passa aí. E não é só saber como as coisasse fazem: é preciso conhecer as pessoas, estabelecer relações, criar uma rede defornecedores fixos e de confiança, até criar amizades que, mesmo depois àdistância, nos possam ser úteis. A acrescentar a isto e como já te referi, vimencontrar o Brasil numa situação política turbulenta e instável (será que há, nomundo inteiro, um país onde hoje se possa viver com tranquilidade e sem serem ditadura?). Houve a intentona comunista que abortou em Novembropassado, seguida da repressão aos implicados e muitos outros que não estavamimplicados, mas que eram simplesmente oposicionistas. E a repressão tem sido,
  • 205. tanto quanto me consigo aperceber, cruel e extensa. Luís Carlos Prestes, o líderda rebelião, está preso e preso deverá ficar por muitos anos. A sua “mulher”,uma alemã chamada Olga Benário, consta que vai ser entregue pelasautoridades à Gestapo e despachada para a Alemanha. O caso está a causar aquigrande escândalo nos meios políticos, não só porque, sendo judia e comunista,a espera a pior sorte nas mãos da Gestapo, como também porque ela estágrávida de quatro meses de Prestes - o que quer dizer que, junto com ela, ogoverno de Getúlio entregará aos alemães um brasileiro que vai nascer embreve no cativeiro da Alemanha nazi. Dentro de um ano e meio, conforme estáprevisto na Constituição, deverá haver novas eleições para a Presidência eGetúlio não pode concorrer. Mas diz-se por aí, à boca pequena, que ele não vaientregar o poder com essa facilidade. Ele tem o apoio da classe empresarial, quelhe credita as melhorias económicas e o controle da dívida orçamental, tem oExército, tem grande parte do mundo rural e mesmo do sindical. Enfim, comesta situação confusa por aqui e a guerra que infelizmente julgo que se está apreparar na Europa, o clima não está muito favorável aos negócios de umafirma exportadora entre o Brasil e a Europa. Mas é o que vim encontrar e écom isso que tenho tido de trabalhar.No tempo livre que me resta, aos fins-de-semana, tenho ido até à praia,que, como te disse, fica mesmo em frente do hotel: é só atravessar a AvenidaAtlântica, que está sempre ameaçada ou em obras, devido às marés que ainundam. O tempo agora está mais fresco e mais suave e hoje é o primeiro diado que eles chamam Inverno: um Inverno surpreendente, que até dá para ir àpraia e tomar banho em águas que, para nós, são quentes. Outras vezes tenhopasseado de carro, na companhia de amigos, portugueses ou brasileiros, que jávou fazendo. Ainda não fui muito longe - só aos arredores do Rio e aPetrópolis, na serra, a antiga vila imperial (assim uma espécie de Sintra) paraonde o Senhor D. Pedro II se retirava para apanhar fresco e escapar ao Verãodo Rio, que dizem ser inclemente. O meu hotel fica na chamada “zona sul”, anova área em expansão na cidade, junto às praias mais conhecidas: Copacabana(onde eu estou), Ipanema e Leblon. Mas os escritórios da companhia, ondetrabalho, ficam no centro e é aí que se conservam as memórias dos trezentosanos de presença portuguesa. Não sei se sabes, mas, no início da colonização,nós fomos ajudados pelos índios a expulsar os franceses, que também tinhamapoio de outra tribo índia e se tinham instalado em Niterói, do outro lado da
  • 206. baía de Guanabara, em frente do Rio, e que aí queriam fundar a “FrançaAntárctica”. Hoje, o Rio é a capital do Brasil, mas, estranhamente, Niterói é acapital do Estado do Rio de Janeiro! E também não deixa de ser uma ironia daHistória que, mais tarde, tenha sido para fugir dos franceses que a corte de D.João VI e família se vieram instalar no Rio. O antigo Paço Imperial, ondeviveram no início do desterro, está agora lamentavelmente em ruínas, mas, emcontrapartida, ainda existe a Quinta da Boa Vista, no bairro imperial de S.Cristóvão, onde a família de D. João viveu os últimos anos antes do regresso aPortugal, e que tem uns jardins magníficos. Aliás, os jardins parece terem sido oúnico dom desse rei pateta, que doou ao Rio um magnífico Jardim Botânico, aque consagrava o melhor do seu tempo e do seu desvelo e onde ainda hoje estáviva a “palma mater”, a primeira palmeira-imperial trazida das Antilhas para oBrasil e que ele plantou com as suas próprias mãos. Também visitei, junto àQuinta da Boa Vista, o solar da Marquesa de Santos, a amante negra do SenhorD. Pedro I do Brasil, que ele mantinha à vista de todos, para grande escândaloda pobre Imperatriz Leopoldina - que já de si, a somar aos desgostos que lhecausavam as saudades da sua Áustria natal e a vida de estróina que o maridofazia no Rio, nunca se conseguiu habituar ao clima do Brasil e à vida da corteportuguesa, onde pontificava a sinistra rainha Carlota Joaquina, essa espanholatão feia quanto devassa. E visitei também, é claro, as duas mais renoma-dasigrejas do Rio, a Igreja da Glória e a do Carmo. Esta última é o que hoje resultadas sucessivas remodelações da primitiva capela, que foi mandada erguer por D.João VI, assim que desembarcou, e para comemorar o sucesso da travessia e ofinal da praga de piolhos que assolava a rainha e as suas damas da corte. Enfim,como deves imaginar, não me faltam histórias com que me entreter nem coisaspara ver. E nem sei se prefiro a parte histórica da cidade, que lembra tantoPortugal, ou a parte nova, das praias, onde tudo é diferente e exuberante.Tudo o que vejo, Amparo, tudo o que conheço, só aumenta o meuextasiamento com este país fabuloso. Havemos de vir cá os dois e tu vaisconfirmar que eu tenho razão e que tinha razão durante todos esses anos quesonhava conhecer o Brasil. Acima de tudo, para além da beleza da paisagem, daalegria das pessoas, da língua e da música extraordinárias, o que mais me fascinaé a sensação de país novo, onde tudo pode ser ainda sonhado e concretizado.Mas falar-te-ei disso depois e com mais tempo. Pessoalmente e em breve, assimo espero.
  • 207. E, por agora, é tudo. São onze horas da noite, aqui. Imagino-vos já adormir em Valmonte há um bom par de horas e só gostava de me poder aomenos materializar em espírito e ir aí pousar-vos um beijo de boas-noites, semsequer vos acordar.Até amanhã, meu amor.DiogoAmparo pousou a carta do marido de lado, sobre a mesa. Estava sentada na varandado monte, era fim de tarde, o Sol recolhia-se a poente, uma luz coada, alaranjada, desciasobre o horizonte a perder de vista. Ela semi-cerrou os olhos, tentando ver mais nítido oque já aparecia difuso. No jardim em frente da varanda, os filhos dela e de Diogo - sim, osfilhos dela e de Diogo! - brincavam com um cão rafeiro que tinha aparecido em Valmonte,ainda cachorro, e que eles tinham adoptado. E onde estava ele agora, Diogo? Sim, ondeestava ele? Nas areias de Copacabana, no seu hotel de luxo com varanda sobre a praia, nosseus jantares e almoços de discussão política, como ele tanto gostava, exibindo o brilho dasua inteligência sobre os homens, o fascínio do seu corpo moreno e dos olhos verdes sobreas mulheres. Onde estava ele agora, enquanto ela vigiava as brincadeiras dos seus filhos e ànoite, antes de eles adormecerem, lhes falava do pai ausente, que tinha voado para o Brasilnum imenso balão e que todas as noites, antes de adormecer lá longe, lhes mandava umbeijo em pensamento? E onde estava ele, quando a sua juventude se gastava na espera deum marido que partira porque “sentia falta de espaço”, deixando-a em sua representaçãoperante a sogra, o cunhado, o mundo que era, ou devia ser, o dele e aonde ela só chegarapela sua mão?“Espero voltar - escrevera ele - no fim do Verão, para a abertura da época de caça.”Não para passar o Verão com ela, com os filhos, para se ocupar do que era seu, deValmonte, da solidão da sua mãe, do desvario do seu irmão. Não: para a abertura da épocade caça. Porque “não seria capaz de ficar um ano inteiro sem caçar”. Num súbito acesso deraiva, Amparo agarrou na carta que tinha deixado sobre a mesa, amarfanhou-a até atransformar numa bola disforme e atirou-a para longe.- O que foi, Amparo?Sem que ela tivesse reparado, Maria da Glória tinha aparecido, vinda da casa, e tinhaobservado o seu gesto de fúria. Amparo rodou a cabeça e encarou com a sogra. Era a maisinteligente de todos os Ribera Flores: não valia a pena tentar enganá-la.- Uma carta do Diogo...- E o que diz ele que te deixou assim tão furiosa?
  • 208. - Que já não vem no Verão. Mas espera poder vir para a abertura da caça...Maria da Glória puxou uma cadeira para ao pé da nora e ficou também a contemplarpor momentos as brincadeiras dos netos, no terreno em frente.- Ah, sim, a caça! O sangue dos Flores! O ópio dos alentejanos! Tens de te habituar,Amparo, não há nada que uma mulher possa contra a caça, e, bem vistas as coisas, antesisso, antes essa caça às perdizes, aos coelhos e às lebres, do que outras coisas que oshomens também costumam fazer.- Mas é assim tão importante a abertura da caça, ao ponto de se poder tornar a razãodecisiva para ele apressar o regresso?- Podes crer que sim, Amparo. Lembro-me bem do que era essa obsessão com aabertura da caça: as noites perdidas a encher cartuchos, a limpar as armas, a ir ao armeirode Elvas para, como dizia o meu marido, “rectificar a coronha”, o treino dos cães, as longassaídas pelo campo só para verificar como é que tinha sido a criação das perdizes, se haviasearas para comerem, bebedouros com água para beberem, se os coelhos não tinhamdoença, se iria haver sementeiras para as rolas e bolotas para os pombos... E as longasnoites com os amigos da caça, aqui em Valmonte, a discutirem até de madrugada que cargaé que deveriam pôr nos cartuchos, que abertura é que deveriam dar aos canos, se ocachorro braque já estava pronto para caçar nesse ano ou se deveria esperar mais um, se opointer dava para as perdizes ou só para as galinholas, se o perdigueiro tinha nariz ou não -uma conversa completamente parva onde eu fazia figura de corpo presente e só servia parair buscar mais café ou mais uma garrafa de aguardente. Não vale a pena, Amparo: a caça éinvencível com estes homens. Podemos pôr o vestido mais bonito, servir o melhor jantardo mundo, desfazer-mo-nos em atenções com os amigos ou até em insinuações com eles,tudo é inútil. Antes da “abertura” - como eles dizem em tom solene, como se falassem deuma solenidade impartilhável - gastam-se em conversas e preparativos, em que nós nemcontamos. E depois da “abertura”, nos dias de caça, deitam-se cedo porque têm de selevantar ainda de noite, saem de madrugada como se fossem para a guerra e voltam ao fimdo dia, bêbados e exaustos, mais preocupados com o estado dos cães do que com o dafamília, atiram umas perdizes e uns coelhos para a bancada da cozinha, assim comoguerreiros entregando-nos os despojos de guerra para que a gente se ocupe deles, comemuma sopa à lareira com um ar ausente e vão-se deitar logo de seguida porque estão muitocansados. E o mais engraçado de tudo é que dormem com a consciência do devercumprido e ressonam como bem-aventurados. E sabes que mais, Amparo? É preciso terpassado por isso, como eu, para conseguir ter saudades desse tempo! Desse tempo em que
  • 209. eu tinha um homem que voltava da caça, mal olhava para mim, e deitava-se a meu lado aressonar a noite inteira, esperando que eu o reconhecesse como um herói!Amparo ficou calada, olhando a sogra de viés.- Não é disso que me queixo, D. Maria da Glória. Não me queixo de que o meumarido esteja aqui para ir caçar. Do que me queixo é que ele não esteja aqui e que a únicarazão verdadeiramente forte que tem para voltar seja a abertura da caça. A senhora tinhaum homem que estava em casa e que, quando podia, ia à caça. Eu tenho um homem quenão está cá e que só promete estar para ir à caça. Há uma diferença...- Tens razão, há uma diferença. Mas o teu marido está em trabalho, não está a viajarpor viajar. Não tenho dúvida alguma de que ele tem saudades tuas e dos miúdos.- E de si, e do Pedro, também. Mas nada disso o faz apressar o regresso: só a caça.Foi o que ele escreveu e acredite que é o que ele pensa. Conheço-o bem.Maria da Glória olhou a nora: gostava dela, mas gostava ainda mais do filho.- Eu também o conheço bem, Amparo. Sei que é difícil para ti habituares-te a certascoisas no temperamento do Diogo. Mas acredita que nada do que ele faz, esta viagem aoBrasil e tudo o mais, é sinal de que gosta menos de ti- Ele gosta muito de ti. O Diogo é umhomem de família, sai a mim. Mas é também um homem que precisa do seu espaço, da suasolidão, de resolver as suas dúvidas e as suas angústias a sós para poder estar bem com osque ama. É demasiado impaciente para conseguir habituar-se a situações desconfortáveis.Quando se sente apertado, precisa quase de fugir, como se fosse à procura de ar. O Brasilvai-lhe fazer bem, vais ver.- E eu, D. Maria da Glória?- Tu?- Sim, eu! Eu não conto? Não tenho também o direito de me sentir desconfortável,de precisar de mudar de ares? Será que também tenho o direito de fugir e voltar para aabertura da caça?Maria da Glória olhou-a, assustada.- É diferente, Amparo. Eu sei o que tu queres dizer. Também o senti muitas vezes,ao lado do teu falecido sogro, que não chegaste a conhecer. E acredita que ele era bem maisdifícil de aceitar e de compreender do que o Diogo. De geração para geração, as coisas vãomudando, Amparo. Lentamente, mas vão mudando. Até hoje não sei se o meu marido meamava. Nem sequer sei se eu própria o amava. Estávamos ali, um para o outro - ou eu paraele, quase sempre - até que a morte nos separasse, como aconteceu. Tu, pelo menos, sabesque o teu marido te ama. Não queiras tudo de uma vez. Tens muito mais do que eu algumavez tive.
  • 210. - E isso deve bastar-me? Diga-me, D. Maria da Glória! Sabe, eu confio muito nasenhora, admiro-a por muitas razões, e confio no seu juízo. Diga-me, sinceramente: achaque isso me deve bastar? Saber que ele gosta de mim e dos filhos, mesmo que me deixesozinha com eles até que o seu desconforto com a vida se sossegue?- Isso é contigo, minha filha, tu é que sabes o que queres da vida.- Mas, no meu lugar, isso bastar-lhe-ia?Maria da Glória voltou-se na cadeira para a olhar nos olhos:- Sim, a mim bastar-me-ia.Sim, a ela bastar-lhe-ia. Ter o seu homem de volta, ter um homem a seu lado nacama, na mesa, na vida. Nem que fosse apenas de quando em vez, mesmo que a ele lheapetecesse passar longas temporadas ausente em Lisboa, no Brasil ou na América. Semdúvida que Amparo era bem mais nova - ia fazer vinte e nove anos em Setembro - e as suasnecessidades vitais eram outras. Mas também ela sabia o que isso era e sofrera isso nocorpo - viúva aos quarenta e quatro anos e longe ainda de sentir que a sua função demulher, o seu corpo estivessem saciados. Manuel Custódio faltara-lhe cedo de mais nacama, e, se onze anos de viuvez obrigatoriamente recatada a haviam de há muitoconformado com a eternidade do lugar vazio na cama, o seu homem continuava a faltar-lheà mesa, no terraço à noite para conversar, junto à lareira nas noites de Inverno, apenas parao ver adormecer quieto enquanto ela tricotava camisolas de lã, primeiro para os filhos edepois para os netos. Faltava-lhe tudo isso e o resto, aqueles hábitos que fazem a vida adois e a que só se dá importância tarde de mais: a voz dele trovoando pela casa sem seimportar se alguém estava a dormir, as suas passadas largas ecoando no chão de madeira ousubindo pesadamente as escadas, o cheiro a água-de-colónia de homem que ficava à suapassagem depois do banho, a baforada do fumo do seu charuto que lhe chegava à cara decada vez que ele o acendia e que ela gostava de sentir, embora protestasse sempre, e sim,claro, o seu alvoroço nas manhãs de caça e a agitação dele, dos companheiros de jornada edos cães à chegada, o seu ar profundamente ausente assistindo à missa das onze, aosdomingos, em Estremoz.A vida ensinara-lhe que nenhum homem é perfeito, que perfeita é apenas a suaimpudente imperfeição. Mas as raparigas de agora pareciam não o saber ou não o querersaber. Tal como ela via as coisas, Diogo fora um excelente filho, era um excelente pai e umexcelente marido - sendo certo que homem algum jamais seria o excelente marido com quetodas as mulheres ousaram sonhar um dia. Não maltratava a mulher ou os filhos, comotantos outros; era educado, delicado e cortês; não fazia dívidas, nem de jogo nem outras;não era, ao menos na vila, onde essas coisas se sabiam sempre, frequentador de
  • 211. “espanholas” - ao contrário do que fora o seu pai e era o seu irmão; não era marido quetrouxesse para casa nem humilhação pública para a mulher, nem doenças vergonhosas oucartas de amantes escondidas nos bolsos do casaco. Amava a casa, a terra e a família, maisdo que a própria Amparo podia adivinhar: era uma coisa antiga, que lhe vinha do sangue eque se fortalecera na infância e na juventude vividas ali, em Valmonte. E, se issoaparentemente não lhe chegava, não era porque ele não amasse o suficiente aquela terra, asua mulher e a sua família, mas porque havia outras coisas na cabeça de um homem, porvezes, que uma rapariga simples como Amparo não podia entender. Mas ela, Maria daGlória, entendia-o bem: entendia-o, não só como mãe, mas também como mulher.Amparo dera-lhe a sua juventude, a misteriosa beleza morena dos descendentes dosmouros, transmitida de geração em geração ao longo dos séculos por aqueles que por cá setinham quedado depois que o último rei mouro da Península, Boabdil, abandonaraGranada, “chorando como uma mulher o que não soubera defender como um homem”. Etinha também essa sensualidade cigana, de mulheres de ancas estreitas e pernas altas, depeito empinado em desafio permanente à luxúria dos olhares masculinos, esses cabelosnegros e sedosos como crinas de cavalo de troféu. Aos olhos de qualquer homem, ela eraum troféu que muito poucos ousariam abandonar por meses de ausência em terrasdistantes e desígnios mal explicados. Sim, isso era verdade: o que restava da juventudeexuberante de Amparo estava ali a consumir-se na espera de um homem ausente quedeveria antes estar a bebê-la todos os dias. E também era verdade que ela dera a Diogo doisfilhos saudáveis e perfeitos que educava e cuidava com talento e dedicação, que se revelarauma dona de casa como os homens gostam e precisam, e que tinha sido sempre umacunhada amiga de Pedro e uma nora atenta e delicada. E era verdade ainda que, por seumérito e inteligência, soubera aprender em Valmonte o que tinha de aprender para que asua condição social de origem desse lugar, aos olhos de todos ou quase todos, à da suafamília de casamento.Mas Maria da Glória também via que, por mais que Amparo se quisesse esforçar,certas coisas ela não conseguiria nunca dar a Diogo. Diogo era dominado por umacuriosidade e interesse intelectual e cultural que ela não podia acompanhar, nemsocialmente nem a sós com ele. O mundo, tal como estava delimitado, chegava-lhe a elaperfeitamente. E, não o podendo acompanhar, também não o podia compreender. A seusolhos, a sede de leitura de jornais e revistas do marido, as suas eternas discussões políticascom toda a gente, as suas conversas sobre os pintores existencialistas, os progressos daaviação ou dos motores ou os avanços do nazismo na Alemanha eram tudo assuntos que
  • 212. ela tendia a classificar como devaneios ou mesmo luxos de homem mal habituado e que,aliás, na situação política actual, só podiam prenunciar problemas e sarilhos inúteis.Mas também Maria da Glória se afastava da nora neste ponto da política, cada vezmais nos últimos tempos. Fosse por influência de Diogo e por perceber o quanto a políticatinha contribuído para a sua decisão de ir “apanhar ar” ao Brasil, fosse por pressão do cadavez maior envolvimento de Pedro na política - e no campo oposto ao de Diogo -, fosseainda reminiscência do apego às discussões políticas que Manuel Custódio sempre tivera,ela dera por si ultimamente a ler cada vez mais jornais e com mais atenção e a fazer umesforço para conseguir ler as revistas que continuavam a vir do estrangeiro, enviadas aDiogo. E o que lia, o que ouvia, o que sentia traziam-na crescentemente apreensiva.Primeiro que tudo, havia Hitler, cujo ódio anti-semita chocava a sua costela de nobresangue judeu de gerações de cristãos-novos alentejanos. Não conseguia perceber essesentimento nem o ódio que igualmente destilava dos discursos de Hitler, de queocasionalmente escutava excertos na rádio, embora não entendesse nada da língua. Depois,havia a Espanha, ali a uns escassos cinquenta quilómetros de distância, onde os ódiospolíticos se tinham extremado depois da vitória da esquerda nas eleições de Fevereiro desseano. Espanha era tema de conversas constantes em todos os cafés e tertúlias de Estremoz,alimentadas pelos relatos cada vez mais alarmantes dos que lá iam e contavam que toda agente estava à espera de um putsch militar da direita ou mesmo de uma guerra civil. Dizia-se que o golpe seria comandado pelo general Sanjurjo, um militar baixo e atarracado comcara de sapo maldisposto, que vivia exilado em Portugal, depois de ter também comandadoum anterior golpe falhado, e que teria o apoio político do antigo Rei Afonso XIII, quetambém vivia no exílio desde a proclamação da República, em 1931 - acontecimento paraque contribuíra decisivamente a imensa estupidez política do próprio Afonso XIII, semprepronto a apoiar qualquer ditadura de direita que lhe propusessem.E, depois, havia a situação portuguesa, onde o Estado Novo se impunha dia após dia,espalhando pelo país os três mandamentos nacionais, “Deus, Pátria, Família”, em nomedos quais qualquer veleidade de oposição ou era silenciada à nascença - através da censura àimprensa, da propaganda, do saneamento político dos funcionários, do partido único e daseleições falseadas - ou era reprimida a posteriori, através da polícia política, dos julgamentosem tribunal especial, das prisões e deportações. E havia um quarto mandamento não dito,mas que andava na boca de todos e cada dia era mais evidente ser o único queverdadeiramente contava: a vontade de Salazar.Como tanta gente da sua geração, Maria da Glória não ficara com saudades algumasdo tempo da 1ª República, os levantamentos militares constantes, a sucessão de governos
  • 213. sem fim, a corrupção das instituições, a insegurança, o oportunismo à solta, aincompetência e a leviandade dos demagogos republicanos. Também ela ansiara porordem, estabilidade, governos que durassem e governassem, militares nos quartéis, padresnas igrejas, professores nas escolas e operários nos campos e fábricas. Mas, ao contrário demuitos outros que assim haviam pensado e a quem o Estado Novo tinha vindo acudir eparecia satisfazer, ela não estava rendida aos méritos do novo regime. Não sabia, talvez, osuficiente acerca da política para explicar porquê, mas o seu instinto não a deixava gostardo que via, do que ouvia, do que sentia. Talvez fosse o homem, mais do que o regime: elanão gostava de Salazar. Não gostava da sua voz de falsete que soava a manha em cadafrase, não gostava da sua cara de merceeiro beirão, mais esperto que a freguesia, nãogostava da sua pequena estatura (lembrava-se de Manuel Custódio ter dito um dia:“Desconfiem sempre dos homens baixinhos na política.”). Mas, acima de tudo, não gostavade alguns traços tão louvados da sua personalidade: a de homem sem mulher, sem amantes,“casado com a Pátria”, sem filhos, sem amigos, sem irmãos próximos, sem vícios, semluxos nem fraquezas, que nunca ninguém vira comprar um livro, um quadro, um disco,fumar um charuto ou até um cigarro, ver uma tourada, ir à praia ou ao cinema, gostar defutebol ou de jazz ou mesmo de fado, que nunca viajara fora de Portugal nem sequer aBadajoz, que nunca aceitara deixar-se confrontar numa discussão política ou num artigo dejornal. Esse tipo de homem inspirava-lhe rejeição e não admiração.Desconfiança e não confiança. “O mundo - dizia Diogo e ela dava-lhe razão - édemasiado humano para ser governado por homens que não são completamente humanos.Dêem-nos homens normais, que os providenciais raramente trazem felicidade.”Mas Salazar era também uma sombra suspensa sobre a sua felicidade enquanto mãe:fora ele que levara Diogo a afastar-se até ao Brasil, era ele que lhe roubava o entusiasmo doregresso, a vontade de vir a correr para casa, a simples alegria de estar ali, despreocupado efeliz, com os seus. Diogo - ela sabia-o bem - jamais se adaptaria, jamais se renderia àsvirtudes “patrióticas” de Salazar. Porque tudo era demasiado mesquinho a seus olhos eporque ele saía ao pai num orgulho que se confundia com teimosia: se gostava de alguém,gostava para a vida; se embirrava, não tinha cura.Mas as preocupações com Salazar podiam agora esperar. As preocupações políticas,com a situação em Portugal e no mundo, também. Mesmo Diogo, apesar das saudades quesentia dele, não ocupava o centro dos seus pensamentos. O que verdadeiramente a ocupavae preocupava, nestes últimos tempos, era o seu outro filho, Pedro.Depois que Angelina se fora, e passados os primeiros tempos em que vivia fechadono quarto ou embrenhado nos trabalhos do campo, como um forçado, Pedro parecia ter
  • 214. voltado à sua vida anterior, a única que conhecera e que parecera apreciar, até ao dia emque tropeçou em Angelina. Voltara a frequentar as farras de amigos e as casas deprostituição nos arredores, voltara a empenhar-se nos trabalhos políticos da secção local daUnião Nacional, voltara a ir a todas as feiras e mercados de gado e continuava a dirigir ostrabalhos da herdade sem uma falha, sem uma hesitação, como uma rotina. Mas fazia tudoisso agora de rosto fechado, palavras raras e um mau humor permanente que arrostavam ostrabalhadores da herdade e as empregadas da casa. Entrava na sala de jantar à noite, beijavaa mão da mãe, cumprimentava Amparo com um “boa noite” seco, sentava-se em frente doprato de sopa e comia em silêncio, respondendo por monossílabos, quando interpelado. Osraros sorrisos que Maria da Glória lhe surpreendia era quando lhe acontecia brincar com ossobrinhos, em especial com a pequena Assunção, que estranhamente parecia atrair muitomais a sua atenção e o seu afecto do que o irmão mais velho. Fazia agora com algumafrequência umas misteriosas viagens de três, quatro dias a Espanha, sem nunca dizer aocerto onde tinha estado e o que tinha ido fazer. Também os seus inquietantes amigosfascistas espanhóis continuavam a aparecer ocasionalmente por Valmonte, às vezes ficandopara jantar e dormir e, tal como ele, falando pouco, delicados de maneiras mas comqualquer coisa de perturbador nos seus olhares, nos seus silêncios, no seu aparentedesinteresse por qualquer assunto que não os que eram falados entre eles e Pedro, nabiblioteca de portas fechadas. Maria da Glória tinha achado avisado não fazer perguntas,mas não tinha ilusões de que o que quer que se estivesse a preparar em Espanha, Pedro eaqueles rapazes sorumbáticos, de cabelos penteados para trás com brilhantina, tinham quever com isso. Eles não eram agradáveis à vista, mas também era verdade que Pedro nuncativera amigos particularmente agradáveis: ou eram boçais e mal-educados, ou eram bem-educados e calados, como se tivessem segredos inconfessáveis.No meio disso, ela perguntava-se que marcas é que o primeiro amor verdadeiro dofilho lhe teria deixado. Aparentemente, poucas: Angelina viera e fora, e Pedro voltara a sero mesmo de sempre, como se a sua passagem pela vida dele não tivesse deixado rastroalgum, para além de acentuar os silêncios e o mau humor com que andava. Isso era o quemais a intrigava: Angelina era uma mulher para marcar um homem - muito mais, porexemplo, do que Amparo. Seria possível que Pedro não tivesse aprendido nada com aquelamulher tão diferente de tudo aquilo a que estava habituado? Seria possível que, depois dapartida dela, ele tivesse resolvido passar uma esponja sobre tudo o que havia vivido econhecido, como se nunca se tivessem cruzado? Teria sido essa a forma que encontrarapara se defender do seu desgosto? E tinha-o conseguido? Às vezes vinha-lhe umpensamento estouvado à cabeça: que Angelina é que teria sido a mulher certa para Diogo e
  • 215. Amparo a mulher ideal para Pedro. Mas logo se arrepiava e penitenciava por uma ideia tãoestúpida e tão desprovida de realidade. Apesar de tudo, não tinha dúvidas de que, pormaior que tivesse sido e ainda estivesse a ser o sofrimento do filho - e ela sentia que sim,sofrendo também por ele -, Angelina só tinha feito bem a Pedro. Tinha-lhe revelado ummundo de informações, de inconformismo e de certezas transformadas em dúvidas, que eledesconhecia por completo e onde nunca teria entrado sozinho. Fatalmente, tinha-o feitopensar, duvidar, reflectir, deixar de ver tudo a preto e branco. Ou não? Será que o efeitofora justamente o contrário - o de o devolver ao seu antigo mundo de certezas e valoresrígidos, mais fechado, mais intransigente ainda, mais egoísta e cínico?A caminho do Brasil, Diogo enviara de Paris uma carta à mãe na qual contava o seuencontro com Angelina, no cinema, e como ela estava acompanhada de um homem, que seportara como seu novo namorado e senhor. E escrevera: “Mãe, peço-lhe que não contenada disto ao Pedro. Mas que, se algum dia o vir mostrar desejo de ir à procura da Angelinaa Paris, ou mesmo - o que duvido -for ela a escrever-lhe nesse sentido, não o deixe ir. Sóiria sofrer mais: eles não foram feitos um para o outro. Poderiam viver ambos uma vidainteira, aqui em Paris, por exemplo, cruzar-se todos os dias, e nunca se encontrariam umcom o outro. Se se encontraram foi só por ser no despovoamento do Alentejo.”Quando Diogo anunciara a sua decisão de ir ao Brasil, para o que se previa ser umaestada de meses, Pedro não fizera comentário algum e ficara-se, sem interrogações, com aexplicação que o irmão dera sobre a necessidade de ir ver pessoalmente o estado dos seusnegócios no Brasil. Assim que ele partira, a sós com Maria da Glória, tinha deixado escaparo seu único comentário sobre o assunto:- Mãe, agora e durante uns tempos, para o bem e para o mal, só me tem a mim.Espero que o fardo não lhe seja muito pesado.Ela rira-se. Conhecia-o bem.- Não, meu filho: esse fardo é o meu consolo. Os dois filhos longe, isso é que seriaum fardo para carregar.Uma noite, a seguir ao jantar, quando os sobrinhos tinham vindo à sala de jantar daras boas-noites, Pedro decidiu de repente que era ele que os ia deitar e carregou ambos aocolo até ao quarto. Cá em baixo, ela e Amparo ficaram durante um bocado a escutar asgargalhadas dos miúdos e um som de passos, que imitava um cavalo, no andar de cima.Olharam uma para a outra e sorriram, pensando o mesmo, certamente. Mais tarde, quandose levantaram da mesa e Amparo foi até ao andar de cima para tentar adormecer os filhos,que Pedro, obviamente, se limitara a fazer ficar despertos e excitados com as suasbrincadeiras, Pedro e a mãe foram até à salinha beber o café. Como sempre fazia, Pedro
  • 216. foi-se encostar à lareira, remexendo as brasas com a ponta da bota. Era mais alto eespigado que Diogo e o seu cabelo castanho-escuro em permanente desalinho dava-lhe umar de rapaz crescido que se acentuava quando - o que não era frequente - abria a boca numsorriso rasgado que lhe iluminava todo o rosto. Mas, à luz do fogo, ela reparou que o filhojá tinha algumas rugas a marcar-lhe a testa e os cantos da boca, que o brilho nos seus olhoscastanhos já não era tão luminoso quanto dantes e que havia mesmo uma curva de cansaçona sombra das suas costas desenhada na parede. O seu “bebé” tinha trinta e um anos,quem diria!- Pedro, não quero ficar só com os netos do Diogo...- Não, mãe? O que quer dizer com isso?- Sabes muito bem o que quero dizer. E uma maneira desastrada de uma mãe dizerque acha que estás na idade de te casares e de teres filhos, também. Acho que ias ser um paifantástico...- Talvez. Mas, para fazer filhos, é preciso um pai e uma mãe.- Pois... - Maria da Glória remexeu-se na cadeira, desconfortável. - Talvez estejaentão na altura de pensares nisso, de encontrares uma mulher para ti e uma mãe para osteus filhos. Fazia-te bem...- Fazia-me bem a quê?Pedro tinha-se virado de costas, voltando a mexer nas brasas com a bota. Assim, semo ver de frente, isso tornava mais fácil para ela prosseguir com a conversa.- Fazia-te bem à tua solidão, à tua vida, à maneira de veres as coisas, ao teu humor.Fazia-te bem, Pedro, não teres de te ocupar só de ti, teres uma mulher e filhos para cuidar,para proteger, para te acompanhar...- Como o Diogo: eles aqui e ele no Brasil, onde se sente melhor?Ela fingiu não ter percebido que ele a desafiava a defender o irmão.- Fazia-te bem partilhar, Pedro. Partilhar as coisas importantes da vida, as pequenas eas grandes. Viver sem amor não faz sentido. É esse o destino das pessoas normais, quequerem ser felizes. Já fizeste isso uma vez e nunca te vi tão feliz: tinhas finalmente umobjectivo de vida a sério. Podias tentá-lo outra vez.- Mãe, não quero falar desse assunto.- Mas porquê, Pedro? Sou tua mãe: só te fazia bem falar comigo.- Não quero falar desse assunto, mãe.Ela suspirou. De desânimo, de impotência. Como explicar-lhe que sofrer assim,como ele sofria, era um desperdício do coração?
  • 217. - Pedro, filho, olha para mim e diz-me uma coisa: nunca mais encaras a possibilidadede voltar a amar uma mulher, de casar com ela, de teres filhos, fazeres uma família, tentaresser feliz ao lado de alguém que te ame e que tu ames?Ele virou-se e, como ela tinha pedido, olhou-a primeiro, fez um silêncio meditado erespondeu:- Não digo que não possa acontecer, mãe. Mas não vai ser fácil. Estou mentalizado epreparado para ficar sozinho o resto da minha vida e, por estranho que lhe possa parecer,isso não me mete medo nenhum. Antes pelo contrário: talvez seja menos feliz ou a minhavida faça menos sentido, como a mãe diz, mas aprendi que assim tenho de certeza muitomenos angústias e estou garantido contra sofrimentos e decepções que, a meu ver, tambémnão fazem sentido. A verdade, mãe - e desculpe que lhe diga, mas a mãe é de outra geração-... acho que não percebo as mulheres de agora. E não sei se quero ou se tenho interesseem tentar perceber.Maria da Glória olhou o filho, angustiada com as palavras dele.- O que queres tu dizer com isso, Pedro, meu querido?- Quero dizer, mãe, que para mim as coisas são sim ples: gosto ou não gosto, amo ounão amo. Se amo uma mulher, amo-a mesmo. Não tenho dúvidas, nem contradições, nemestados de espírito, nem outra vida para viver onde ela não caiba. Para mim, que poucopercebo do assunto, o amor é sobretudo a ausência de perguntas, de dúvidas, de incertezas.É paz, segurança, eternidade. O meu pai nunca teve dúvidas se a amava ou não. Amou-asempre, à maneira dele, que era a única que sabia. Amou-a uma vez, amou-a para sempre.Podia pôr tudo em causa, mas isso a mãe sabe que ele nunca pôs. E eu não percebo que asmulheres não pensem assim. Não percebo!- Pedro, eram outros tempos! As coisas, hoje, não são assim tão simples. Vivemostempos muito complicados, difíceis de entender, parece que o tempo foge sempre, tudo émais rápido, nada é eterno, nada é adquirido e igual todos os dias.- Não é verdade, mãe: o meu cavalo gosta de mim todos os dias. Compreende-metodos os dias, sabe o que eu quero e o mesmo se passa comigo em relação a ele. Se há umdia que eu não o monto, ele sente saudades de mim e todos os dias olha para mim como oseu melhor amigo. Esse amor é eterno e não o questionamos.- Pedro! Uma mulher não é um cavalo!- Pois, mãe. Mas, daquilo que eu sei, prefiro o amor de um cavalo. É mais fiável.Ela olhou-o, estarrecida, enquanto ele se despedia, beijando-lhe a mão edesaparecendo para a sua solidão nocturna.
  • 218. XIVEra sexta-feira ao fim da tarde, no Rio de Janeiro. O Sol punha-se cedo, nesta épocado ano a que os brasileiros chamavam Inverno e que, para qualquer europeu, era um suaveVerão. Diogo preguiçava, sentado numa cadeira de verga da varanda do quarto, bebendouma cachaça com gelo moído e lima, a que se chamava “caipirinha”, e escutando o barulhoritmado das ondas rebentando nas areias da praia de Copacabana, do outro lado da rua.Havia uma espuma de mar suspensa sobre a praia e a rua, raros banhistas que mergulhavamnas ondas de água transparente, casais de namorados andando ao longo da praia ousentados na areia, um vendedor de cocos estacionado na rua, em frente ao hotel, um grupode homens que jogavam cartas numa tosca mesa de madeira, sob a copa de umaamendoeira.Mas não apenas a espuma: havia uma indolência no ar daquela tarde, um vagar nosgestos de quem caminhava, cavalheiros de fato completo com colete que tiravam o chapéurespeitosamente à passagem das senhoras, negros que andavam como bailarinos escutandouma música que vinha de lado algum, mulatas de dentes impossivelmente brancos rodandocomo piões sobre as ancas, e polícias que se queriam de ar feroz mas que viravam a cabeçaà passagem das mulatas.Diogo sorriu, olhando a cena. Convencera-se de que, no mundo inteiro, não havialugar algum para onde um homem pudesse fugir em busca de liberdade. Tornado territóriode ódios, extremismos, guerras ou preparativos de guerras, o mundo parecia entregue auma casta de visionários dementes ou desumanos - Hitlers, Mus-solinis, Francos, Estalines,Salazares, Getúlios - cuja ambição era pisar, mandar, humilhar, e cuja identidade comumera o desprezo pela liberdade. Deleitavam-se em discursos, berros, ameaças, comícios,paradas militares, fardas, condecorações, e no terror que inspiravam a um séquito deseguidores obsequiosos e tementes ou a resistentes anónimos, arrastados pelas prisões epelos campos de extermínio, silenciados, torturados, reduzidos a imitações humanas. Porcada tiranete auto-instituído salvador da Pátria ou do género humano, havia milhares,milhões, de vítimas. Inúmeras Olgas Benários e muitos outros e outras cujos nomes jáninguém lembrava, fechados em celas mínimas, alimentados com comida de cão,despojados do espaço, da luz, da paz, reduzidos ao mais miserável da condição humana,
  • 219. para expiarem o mais intolerável dos crimes: terem ousado pensar diferente, teremduvidado da sabedoria, da justeza, da magnificência desses chefes semidivinos. Sim, oBrasil não era diferente. Havia um militar em cada esquina, vigiando tudo e mais algumacoisa, como se o simples gesto de caminhar na rua, de estar vivo, já fosse suspeito. Osjornais estavam cheios de notícias que não prenunciavam nada de bom, os generaismultiplicavam as ameaças, julgando que a farda era sinal de razão e de direito, símbolo daPátria e dos valores, e o enviado do Destino, Getúlio Vargas, meditava todos os dias nainevitabilidade de um golpe constitucional ou militar que poupasse o Brasil à tragédia deficar órfão da sua protecção. Sim, o Brasil era afinal igual, todos os grandes tiranos outiranetes se equivaliam na substância das suas justificações, na cobardia das suas defesas.Mas havia uma diferença, contudo, como se as ditaduras se tornassem ridículas nostrópicos: o povo era demasiado alegre, o mar era demasiado envolvente, a comida não erasuave, a cachaça não era inocente, nenhum militar conseguia calar a música, nenhumaordem apagaria o cheiro a verde da mata e os gritos dos papagaios, os polícias continuariamsempre a virar a cabeça à passagem das mulatas e, por mais que gritassem, que mandassem,que ameaçassem, ninguém, jamais, conseguiria calar para sempre aquela absurda alegria,aquela devastadora liberdade que ele sentia ali.Esticou as pernas e suspirou profundamente, feliz. O Sol descera já no horizonte,demasiado cedo, como acontece no Inverno dos trópicos. A luz tremeluzia, indecisa, noscandeeiros da Avenida Atlântica, hesitando ainda em vencer a escuridão que rapidamente iadescendo. O sol, que era natural, era brasileiro; a luz, que era artificial, era estrangeira,como tudo o resto no Brasil, fornecida pela companhia inglesa Light. Lá fora, a coberto doescuro, os sons tornavam-se mais nítidos, os risos dos namorados, mais ousados, e o ruídodas ondas, vindas da Europa e morrendo nas areias do Brasil, mais próximo. Entrou para oquarto e foi tomar um duche. Com o cabelo a escorrer água, começou a vestir-se para ojantar: vestiu as calças pretas, as meias de seda, os sapatos de verniz preto que tinhadeixado para limpar, a camisa de folhos, o laço preto, a faixa de cetim preto e o seuelegante smoking branco de linho, que tinha mandado fazer num alfaiate do centro.Depois, foi à jarra em cima da mesa e retirou uma flor vermelha, cujo nome desconhecia, ecolocou-a cuidadosamente sobre a botoeira do casaco. Então, reparou na carta pousada emcima da mesa, uma carta de Amparo, que lhe tinham entregue na recepção à chegada e queele decidira abrir mais tarde.Valmonte, 7 de Julho de 36Meu Querido Marido
  • 220. Li a tua última carta três vezes ao Manuel e à Assunção. Ela, claro, aindanão percebe nada, mas ele começa a perceber tudo, não se cansa de perguntarpor ti e pelo papagaio que lhe hás-de trazer (por favor, não te esqueças de otrazer, acho que a vida dele está suspensa disso!). Todos os dias me perguntaquando é que tu chegas e se o papagaio vai saber dizer o nome dele. Entretanto,já pôs um nome ao papagaio: chama-se “Brasil”, que, para ele, significa tudo oque tem a ver contigo e com a tua ausência.Agora, como podes imaginar, chegou o Verão, que é quando eu maisgosto desta casa e desta terra. Inaugurámos os jantares lá fora, no terraço, à luzde velas e de candeeiros a petróleo, como tu tanto gostas! Os dias são maiscompridos, acorda-se mais cedo e deitamo-nos mais tarde, quase que faz penair dormir e não ficar toda a noite no terraço, a ouvir as rãs e os grilos, aimaginar-te aqui, com o teu charuto e o teu conhaque, a escutar as tuasconversas, os teus planos loucos de ires conhecer o Brasil!E, agora, atestas tu no Brasil e, pelo que percebo das tuas cartas, estásfeliz e entusiasmado! Ainda bem que assim é! Mas confesso-te que, se por umlado me sinto contente por saber que não tiveste nenhuma desilusão por essesonho em que tanto pensaste, por outro lado, tenho muito medo, Diogo, que teapaixones pelo Brasil tanto que seja sem cura. Sabes, tenho medo daquilo a quea gente se habitua. Quando te foste embora, pensei que não iria ser capaz dedormir mais nenhuma noite inteira, sentindo o vazio ao meu lado, na cama.Pensei que iria andar os dias todos como que perdida e ausente, sem meconseguir concentrar em coisa nenhuma, hora a hora imaginando-te aí, tãolonge, tão distraído com outras coisas, tão distante de nós. E, depois, dei-meconta de que me conseguia ir habituando. A dormir sem ti, a acordar de manhãe não te ver, a começar o dia sabendo que tu não irias estar presente, a ir-medeitar sem saber nada de ti. Habituei-me a criar outras rotinas, outra maneira defazer as coisas, outros pensamentos com que ocupar a cabeça, outrasdistracções para me esquecer da tua ausência. Descobri que a distância criadistância - e não sei se isso é bom ou mau. Se é uma forma de defesa passageiraou se é uma habituação para sempre. Percebes o que quero dizer? Desculpa sepenso isto, vê se entendes que não me é fácil, todos os dias, este papel de“viúva de brasileiro” em que me consumo.E por aqui vamos, meu querido. Fizeram-se as sementeiras de Verão e,pelo que diz o pessoal, não vai haver problemas com as forragens para o gado,
  • 221. este Verão. A parreira por cima do terraço está carregada e acho que este ano,em Setembro, finalmente vamos ter uva de mesa, graças aos cuidados da tuamãe - que, tu sabes, onde toca, faz magia e a parreira é obra dela. Quanto à tuamulher, por incrível que te pareça, tem andado a ler tudo o que encontra: osteus livros e os do teu pai na biblioteca, as tuas revistas e os jornais daqui.Gostava muito de poder falar de tudo isso contigo, de ouvir as tuas opiniões, deescutar as tuas explicações para coisas que não entendo bem. Mas guardo para atua volta, como tudo o resto. O teu irmão está ainda mais macambúzio que decostume - agora passa horas a treinar tiro à bala e, na noite de lua cheia, que foiquinta-feira passada, saiu para espera aos javalis e voltou com um porco de 110quilos, mais outro de 70.Desculpa esta carta tão desenxabida. Já é tarde, os nossos filhos estão adormir, sossegados, e eu atardei-me no terraço a olhar para as estrelas, talvezesperando que tu desembarcasses de repente, numa delas. Se foste de balão,podias voltar de estrela! Ao menos, sempre tenho a consolação de saber quevoltas a tempo da abertura da caça...Querido, volta depressa, então! Não me habituo às saudades!Um beijo da tua mulher,AmparoPS: Não vais acreditar, mas, além de leitora viciada, agora comecei afumar! Fumo “Antoninos” e estou a gostar!Diogo tinha um jantar de negócios marcado para o restaurante do casino, com oinfluente empresário português sr. Joaquim João da Trindade, um dos principais líderes dacolónia lusa do Rio. Ele viria acompanhado do sr. Florentino Ashiff, um brasileiro deprimeira geração, filho de libaneses, e ambos viriam acompanhados das respectivassenhoras. Os dois interessavam sobremaneira ao seu negócio: Florentino Ashiff era figuraimportante e influente na Alfândega marítima do Rio, e Joaquim Trindade controlavagrande parte da distribuição e comércio de carnes oriundas das cerca de mil fazendas degado e café que os portugueses emigrados possuíam nos Estados do Rio, São Paulo eMinas Gerais - algumas apenas rudimentares, em dimensões e produção, e outras bastanterazoáveis ou mesmo grandes.Trindade - um grosso personagem de tardios cinquenta anos, que já levava quasequarenta de Brasil sem nunca perder o seu sotaque e a sua vozinha suave de beirão - era um
  • 222. adequado representante dessa impressionante leva, calculada em um milhão e duzentos milportugueses, que tinha emigrado para o Brasil nas últimas sete décadas (sem contar com osclandestinos ou com os que haviam chegado com bilhetes de 1ª ou 2ª classe, e que, porrazões de pura presunção social, se determinava serem apenas visitantes). Haviamcomeçado a chegar em massa após a abolição da escravatura, em 1888, que, de um dia parao outro, despovoara as fazendas de café da sua mão-de-obra negra escrava e as remeterapara a falência. Arrebanhados pelos engajadores nas vinhas do Douro, nos povoados deMinho e Beira ou nos campos de fome de Trás-os-Montes, sucessivas gerações dedespojados embarcavam vestidos com saias minhotas e tamancos de madeira, homens naflor da vida, jovens casais com filhos de colo, para desembarcarem no porto de Santos, deonde eram directamente despachados para as fazendas no S. Paulo Railway, ouacantonados à espera de distribuição na Hospedaria dos Imigrantes, em S. Paulo, ou na Ilhadas Flores, na baía de Guanabara, no Rio. Qualquer das duas instalações tinha capacidadepara acolher provisoriamente até 3000 atarantados descendentes dos marinheiros daesquadra de Pedro Álvares Cabral ou da patética corte do Senhor D. João VI, que agoraprocuravam na antiga colónia um futuro negado na pátria exangue que haviam deixadopara trás.Em Portugal, o êxodo maciço desta multidão deixara, por sua vez, os campos aoabandono e a antiga fidalguia fundiária do Norte e Centro arruinada. Poupado à emigração,por razões difíceis de entender, o Alentejo não assistiu ao mesmo fenómeno ocorrido noNorte e Centro, onde os grandes proprietários, sem ninguém para trabalhar as terras, seviram forçados a vendê-las aos pedaços, dando origem a sucessivos minifúndios. Com ovirar do século, a mãe pátria começou a assistir ao regresso dos primeiros emigrantes deterras do Brasil. Os que voltavam vinham ricos e ansiosos por o mostrar: construíamimensos e horrendos palacetes virados bem para o centro das vilas ou estradas, para quetodos pudessem contemplar a sua opulência, e enchiam-nos de palmeiras - que tinhamaprendido no Brasil ser o sinal distintivo das casas e propriedades que se tinham por ricas.Aspiravam depois a ver-se socialmente reconhecidos, contribuindo generosamente para asobras locais de beneficência e mendigando à Monarquia decadente alguns viscondados deocasião ou, mais tarde, à República recém-instalada, títulos de comendador de algummérito acabado de descobrir. Mas os vizinhos que não tinham partido, os fidalgos semterra que lhes vendiam as filhas como noras e os intelectuais do seu tempo - como Eça,Ramalho, Camilo, Oliveira Martins - tratavam-nos depreciativamente de “brasileiros” efaziam deles um alvo fácil de chacota e desprezo, símbolo universal do mau gosto, donovo-riquismo, da boçalidade e ignorância. Com razão em alguns aspectos, Portugal