Miguel Sousa TavaresRio das flores
http://groups.google.com/group/digitalsourceTítulo: Rio das floresAutor: Miguel Sousa TavaresGénero: Romance
Badana da capa:Sevilha, 1915 - Vale do Paraíba, 1945: trinta anos da história doséculo XX correm ao longo das páginas dest...
Badana da contracapa:Miguel Sousa Tavares nasceu no Porto. Licenciado em Direito,abandonou a advocacia para se dedicar em ...
Miguel Sousa Tavareswww.oficinadolivro.pt© 2007, Miguel Sousa Tavarese. Oficina do Livro — Sociedade Editorial, Lda.Rua Be...
“A loucura é viver na solidão dos outros, numa ordem que ninguém partilha.Durante muito tempo achei que escrever podia res...
Mãe
IDiogo Ascêncio Cortes Ribera Flores - conforme constava do seu registo debaptismo - tinha quinze anos de idade quando o p...
onde ele gostava de passar longas horas à conversa com o pastor, o Virgolino, quedistinguia ao longe todos os pássaros, es...
velhos ou crianças de colo, ou até mesmo abandonados de toda a gente. Os poucos quecruzavam olhavam-nos com curiosidade ma...
aí desconhecida, às perguntas insistentes do irmão, olhando-o de cima a baixo, muito paraalém dos escassos cinco anos de i...
pessoas acotovelavam-se nas ruas estreitas, senhoras e cavalheiros cruzavam-se comolhares noutras circunstâncias tidos com...
jovens senhoras de cabelos, chapéus e olhos negros como carvão montando à amazona, aolado de uma silenciosa escolta de cav...
até ao infinito. E, no meio, havia ele, sentado numa ponta de um sofá, de pernas cruzadas,estarrecido de pavor, fingindo n...
Mas, apesar do empenho aparente dela e da sua própria falta de conhecimento namatéria, não se deixou enganar pelos seus su...
suave e íntimo. À uma hora, passaram pelo hotel, onde os esperavam o dr. Sacramento e oJoaquim da Vila e todos juntos saír...
direcção à Maestranza, como os adoradores do Sol caminham em direcção ao poente. Umacorrente surda, crescente, de conversa...
o despedir, dessa sorte mandando na lide desde o seu início - ni te quitas tú, ni te quita eltoro. A sua técnica era de ta...
investindo sobre o touro já sem força e estocando firme e profundo, até que o animalajoelhou na areia e caiu de lado, mort...
- Caramba! Isto é ou não é um toureiro? - gritava o Joaquim da Vila, possesso,agarrado ao colete de Manuel Custódio e aban...
depois, em Talavera de la Reina, colhido pelo touro Bailador, da viúva Ortega - um touroaparentemente inofensivo mas que v...
de cortiça, de tal modo que, quando voltava a passar pelo mesmo local, ele já conhecia asárvores não pelo seu aspecto ou p...
essa janela e eu fico com esta. Cuidado para não acertares no teu pai ou no Joaquim. Atudo o resto que mexa, atira.” Então...
Mas nunca tinha pensado seriamente que o desfecho final do seu tiro pudesse ter sido amorte de homem.Não, Pedro. Eu acho q...
IIO tempo agora voava, parecia fugir-lhe debaixo dos pés. Maria da Glória tinhaquarenta anos, menos oito que o marido, Man...
uma infância desafogada e feliz no campo, muito embora fossem sete irmãos - dos quaisela era a mais nova - e as terras que...
Não, não era o príncipe encantado dos sonhos de adolescente. Era arrogante,autoritário, rude por vezes, fazendo-a sentir-s...
condescendentes ou simples curiosos atraídos pelos seus discursos inflamados, ele montavabanca e exercia política, entre u...
panfletários, os intelectuais auto-designados. O Estado, que confiscara os bens da Igreja eos dos aristocratas exilados, a...
desembargador mantinha-se ainda solteiro, demasiado habituado às espanholas” oudemasiado treinado na linguagem dos códigos...
necessário não desperdiçar a hospitalidade de casas como as da D. Maria da Glória e deManuel Custódio, e necessário também...
a “infame” Lei da Separação do Estado das Igrejas, redigida pelo radical anticatólicoAfonso Costa, ministro da Justiça. Se...
enquanto enchiam a barriga do bom e do melhor e fingiam seguir os mandamentos doEvangelho.- Credo, Deus me valha, que o se...
que ele tem para dizer. E é claro que o Diogo tem razão: é perfeitamente retrógrado e atépouco cristão defender que a inst...
- Pois vai ganhar quem eu disser ou quem disser aquele pateta do Joaquim Gomes, ocabo eleitoral dos republicanos em Estrem...
deste o exemplo. Mas se, porventura, esqueceres tudo o que a tua mãe e eu te ensinámos, ese só quiseres ser um desses filh...
IIIManuel Custódio viria a morrer quatro anos depois, em 1925, exactamente um anoantes de ter podido assistir ao triunfo d...
Ali os encontrou Pedro, passados uns minutos, quando assomou por sua vez ao altodo cabeço: Diogo estava sentado sobre o re...
Maria da Glória respirou fundo. Nunca estaria preparada para a morte de um filho.Nunca. Sabia de certeza que não seria cap...
morto e que enfim, quem sabe, talvez pudesse escutar-lhe os pensamentos, bem mais ebem melhor do que alguma vez escutara e...
em fundo, distraindo-se a observar discretamente os restantes hóspedes, em particular osestrangeiros, e a imaginar o que s...
dinheiro que lhe coubera em herança, Diogo sentia, pela primeira vez na vida, que esta lhepertencia. Havia um novo espaço,...
Rio das Flores
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Rio das Flores

  1. 1. Miguel Sousa TavaresRio das flores
  2. 2. http://groups.google.com/group/digitalsourceTítulo: Rio das floresAutor: Miguel Sousa TavaresGénero: Romance
  3. 3. Badana da capa:Sevilha, 1915 - Vale do Paraíba, 1945: trinta anos da história doséculo XX correm ao longo das páginas deste romance, com cenário noAlentejo, Espanha e Brasil.Através da saga dos Ribera Flores, proprietários rurais alentejanos,somos transportados para os anos tumultuosos da primeira metade deum século marcado por ditaduras e confrontos sangrentos, onde ocaminho que conduz à liberdade parece demasiado estreito e o preço apagar demasiado alto. Entre o amor comum à terra que os viu nascer e oapelo pelo novo e desconhecido, entre os amores e desamores de umavida e o confronto de ideias que os separam, dois irmãos seguempercursos diferentes, cada um deles buscando à sua maneira o lugar dacoerência e da felicidade.Rio das Flores resulta de um minucioso e exaustivo trabalho depesquisa histórica, que serve de pano de fundo a um enredo de amores,paixões, apego à terra e às suas tradições e, simultaneamente, à vontadede mudar a ordem estabelecida das coisas.Três gerações sucedem-se na mesma casa de família, tentandomanter imutável o que a terra uniu, no meio da turbulência causada pordécadas de paixões e ódios como o mundo nunca havia visto. No final,sobrevivem os que não se desviaram do seu caminho.
  4. 4. Badana da contracapa:Miguel Sousa Tavares nasceu no Porto. Licenciado em Direito,abandonou a advocacia para se dedicar em exclusivo ao jornalismo.Ganhou os principais prémios de jornalismo em Portugal, tendo vencido,em 1987, o 1º Prémio de Reportagem em Televisão no FestRio (Festivalde Cinema e Televisão do Rio de Janeiro), com uma reportagem sobre aIlha do Corvo, nos Açores.Estreou-se na edição com Sahara, A República da Areia, publicandodepois os livros de crónicas políticas Um Nómada no Deserto e AnosPerdidos. Eterno viajante, relata em Sul algumas das histórias das viagensque fez durante anos à volta do mundo. Escreveu ainda um contoinfantil, O Segredo do Rio, um juvenil, O Planeta Branco, e publicou um livrode pequenos textos e contos, Não te Deixarei Morrer, David Crockett,editado no Brasil.Em 2003 publica o seu primeiro romance, Equador, querapidamente se transformou num dos maiores best-sellers da literaturaportuguesa, tendo vendido mais de 300.000 exemplares em Portugal.Com edições na Holanda, Brasil, Espanha (espanhol e catalão), França,Alemanha, Grécia, República Checa, Sérvia, Bósnia-Herzegovina e Itália(onde venceu a 25aedição do Prémio Literário Grinzane Cavour para omelhor romance estrangeiro), tem ainda direitos vendidos para Inglaterrae Estados Unidos.Rio das Flores é o seu segundo romance.
  5. 5. Miguel Sousa Tavareswww.oficinadolivro.pt© 2007, Miguel Sousa Tavarese. Oficina do Livro — Sociedade Editorial, Lda.Rua Bento de Jesus Caraça, 171495-686 Cruz QuebradaTel: 21 005 23 50, Fax: 21 005 23 40E-mail: info@oficinadolivro.ptTítulo: Rio das FloresAutoria: Miguel Sousa TavaresRevisão: Oficina do LivroComposição: Informaster, Lda.em caracteres Sabon, corpo 12Capa: Oficina do LivroFotografia da capa: Augusto BrázioImpressão e acabamento:Rolo & Filhos II, S.A. e Offset Mais, Artes Gráficas, Lda.1ª edição: Outubro, 2007 — 100 000 exemplaresISBN 978-989-555-318-1Depósito Legal nº 265780/07
  6. 6. “A loucura é viver na solidão dos outros, numa ordem que ninguém partilha.Durante muito tempo achei que escrever podia resgatar-me da dissolução e daescuridão, porque implica uma sólida ponte de comunicação com os ouros eanula, por isso, a solidão mortal.... Depois, compreendi que aqueles aquémchamamos loucos estão, muitas vezes, para além de qualquer resgate.”Rosa Montero, A Louca da Casa.
  7. 7. Mãe
  8. 8. IDiogo Ascêncio Cortes Ribera Flores - conforme constava do seu registo debaptismo - tinha quinze anos de idade quando o pai o levou pela primeira vez a ver umatourada. Foram a Sevilha, na abertura da Feria de San Miguel, a feira de Setembro de 1915,touros de Santa Coloma, cartaz com José Gómez Ortega, dito Joselito “El Gallo”, e JuanBelmonte. A sua avó paterna, Gloria Ribera, era sevilhana, filha de pai e mãe sevilhanos.Fora em Sevilha que o pai de Diogo, Manuel Custódio Ribera Flores, vivera parte da suainfância e juventude, vinte anos atrás. Aí se habituara a regressar, em vida de sua mãe e nacompanhia dela, para visitar os avós, ano sim, ano não. Mas, desta vez, muitos anos depoise já nem os seus avós nem a sua mãe eram vivos, tratava-se de uma excursão de homens,para os touros e para a farra de San Miguel. Manuel Custódio escolhera viajar apenas com ofilho mais velho, dois amigos de sempre, companheiros do campo, da mesa e das tertúliasno café Central de Estremoz, um moço de estrebaria que guiava a carruagem e tratava dascavalgaduras, mais o seu criado pessoal, para se ocupar das roupas e do expedienteocasional.A mãe ficara na quinta, a vê-los partir da entrada da casa, às primeiras horas damanhã daquela quinta-feira do final de Setembro, ainda o sol mal dispersara a névoasuspensa sobre a charca em frente ao terreiro da casa, onde o primeiro restolhar das asasdos patos afastava os gritos nocturnos das corujas e das rãs. Diogo não estava feliz porabandonar tudo aquilo que lhe era tão familiar, o seu território de intimidade e de refúgio,abandonar a mãe, que adorava, e o irmão mais novo, Pedro, que deixara ainda adormecidono quarto que ambos partilhavam, com um sentimento de inveja e de tristeza. Custava-lhepensar que não iria passar o final daquelas férias de Verão no monte, a armadilhar a rede depássaros para caçar tordos no olival, a explorar a ribeira que atravessava a herdade,caminhando pelo meio da água de calças arregaçadas assustando as rãs e os pequenospeixes, que não iria visitar o velho moinho de água abandonado onde uma vez matara umacobra à pedrada, que não iria passear-se até onde o rebanho pastava, no limite dapropriedade, num terreno de arribas escarpadas sobre a ribeira e de pedregulhos enormesque pareciam ter caído do céu e terem ficado para sempre enterrados na terra, onde o paigostava de caçar perdizes rápidas como um sopro e silenciosas como um pensamento, e
  9. 9. onde ele gostava de passar longas horas à conversa com o pastor, o Virgolino, quedistinguia ao longe todos os pássaros, escutava todos os sons num raio de quilómetros,sabia as histórias de toda a gente, desde os “antigos” até aos vivos, e, enquanto falava, iadesenrolando um lenço sujo que sacava do bolso do colete e lá de dentro tirava um pedaçode queijo duro e seco de ovelha ou um resto de chouriço que cortava minuciosamente como seu canivete sempre à mão e dividia com ele.A mãe fizera-lhe um sinal da cruz na testa, apertara-o contra o seu xaile de lã grossa,dissera-lhe “deixa-me olhar para ti, outra vez, meu filho”, e ele pousara-lhe um beijo namão fria daquela manhã, hoje tão distante na sua memória.Em boa verdade, nem o pai nem a mãe lhe tinham pedido a sua opinião para aquelaviagem. Ninguém lhe perguntara se ele queria ir ou se preferia ficar. Um dia, estavam àmesa a jantar e o pai anunciou simplesmente que iria à Feria de Sevilha com o Joaquim daVila, comerciante em Estremoz, e o dr. António Sacramento, latifundiário nos arredores ejuiz na comarca. E, então, fixara-o como se há muito não o visse e perguntara:- E tu, Diogo, que idade tens agora?- Fiz quinze em Junho, meu pai.- Hum, já tens idade para te fazeres homem. Vens connosco também.Ele olhara para a mãe em busca de auxílio, mas ela baixara os olhos, como se o paitivesse dito alguma coisa que a envergonhasse. E assim a sua partida fora decidida, semmais conversa.Partiram ainda antes das oito da manhã, numa longa estirada que os levou, quasenoite, até à fronteira de Ficalho, ficando hospedados numa estalagem onde o pai reservaraantecipadamente cama e comida para todos e mudas para os animais. Levavam quatrocavalos de sela e dois de tiro atrelados no landau coberto do pai, além do novo cão de caçade Manuel Custódio, um cachorro braque chamado Campeão, e o Estremoz, perdigueirodo Joaquim da Vila. Alternavam os cavalos com a carruagem, mas Diogo passou a maiorparte do tempo sentado à frente, junto ao Azevinho, o condutor. A certa altura, o pai, o dr.Sacramento e o Joaquim da Vila apearam-se dos cavalos e seguiram à frente da caravana,com os cães e as espingardas, a caçar de salto pelas bordas do caminho. Duas horas depois,tinham caçado quatro perdizes, uma lebre e uma codorniz, que ficaram penduradas de forada carruagem, a faisander, para serem comidas daí a dois dias, ao jantar.A partir do segundo dia de viagem, passada a fronteira, embrenharam-se na difícilsubida da serra de Aracena, mata espessa de sobreiros, azinheiras e ocasionais eucaliptais,com esteva e silvados cobrindo o solo até quase à altura de um homem. Esparsas casas eminúsculos povoados eram atravessados por vezes, mas pareciam habitados apenas por
  10. 10. velhos ou crianças de colo, ou até mesmo abandonados de toda a gente. Os poucos quecruzavam olhavam-nos com curiosidade mas desconfiança, que só se desfazia um poucoquando eles se aproximavam e os habitantes podiam ver, pelas suas roupas, pelos cavalos epela carruagem, que se tratava de fidalgos portugueses de posses, em viagem para Sevilha.Dizia-se, por fé de alguns, que aquele era território de bandidos fugidos à justiça e deassaltos, e a maior parte do tempo o pai obrigou Diogo a viajar dentro da carruagem, ondesempre estava algum dos adultos, de arma pousada no banco e carregada com os cartuchos.Ao alto da mais íngreme das encostas, chegaram, ao cair da tarde, à aldeia deAracena, povoado de umas duzentas casas e encavalitado no topo da serra, onde sealbergaram numa estalagem já de qualidade superior. Tiveram direito, à vez, a um banhoquente, com a água trazida em grandes bacias e despejada numa banheira de zinco, com umbom naco de sabão azul e branco pousado na borda para desentranhar a poeira e sujidadedo caminho. Os criados jantaram na cozinha e eles numa mesa junto ao grande fogão desala, aquecendo-se num lume forte de sobro e entretendo-se, enquanto esperavam pelojantar, com umas lascas de excelente presunto da serra curado à lareira e vinho do planaltoandaluz. Sevilha estava agora só a um dia de marcha e a disposição dos homens erafrancamente alegre, contando histórias e anedotas e antecipando os quatro dias de festa queos esperavam na capital da Andaluzia. Veio a sopa de legumes com grão e batatas, asperdizes caçadas de antevéspera, estufadas com enchidos, azeitonas e toucinho, e umassado de perna de porco com salada de alface. Vários jarros de vinho vieram e regressaramvazios e Diogo também teve direito a um copo cerimonial, que definitivamente lheamoleceu o corpo e o espírito e o fez daí a pouco cair adormecido em cima do própriotampo da mesa. E foi assim, numa modorra reconfortante, entre o consciente e oinconsciente, que foi ouvindo, como se à distância, as vozes dos homens à conversa e osom da lenha estralejando na lareira, até que, meio adormecido, sentiu que o pai lhe pegavaao colo, subia com ele as escadas até ao quarto e, mesmo sem o despir, o enfiava entre oslençóis da cama. Essa foi a última, a primeira, a única vez que mais tarde se lembraria de opai lhe ter pegado ao colo.Partira com o pai para Sevilha com quinze anos e três meses de idade e regressara,treze dias depois, feito um homem. A mãe notou-o logo, assim que o viu descer do cavalo,ambos ensopados em suor e requebrados de cansaço, mas o rosto do filho com um brilhonovo, um brilho de descoberta no mais fundo do castanho escuro dos seus olhos. Notouaté como ele lhe falava agora de forma diferente, como se qualquer coisa de intransponívelse tivesse vindo interpor entre eles, e como respondia com uma sobranceria ridícula, e até
  11. 11. aí desconhecida, às perguntas insistentes do irmão, olhando-o de cima a baixo, muito paraalém dos escassos cinco anos de idade que os separavam.Sevilha deslumbrara-o, assim que passara a ponte sobre o Guadalquivir e avistara aolonge a cúpula da Giralda elevando-se acima dos telhados da cidade. Tinha atravessadocomo num sonho a Calle de Alcalá, a avenida fronteira ao palácio real de Afonso XIII, acatedral, a Plaza Mayor e o extenso Parque de Maria Luisa, sob cujas árvores frondosas,algumas trazidas das Américas, os sevilhanos vinham abrigar-se do calor assassino dosmeses de Verão, os namorados vinham ajustar casamentos e os amantes traições a cumprir.Tivera direito a um quarto só para si, no Hotel de Inglaterra, onde se hospedaram.Ele nunca tinha estado num hotel, só ouvira falar aos adultos, e passou um tempo infinito aexplorar as gavetas da mesa-de-cabeceira, da cómoda e do armário do quarto em busca desegredos esquecidos por algum hóspede anterior, uma eternidade a experimentar a cama, acheirar os lençóis, a abrir e fechar as torneiras da casa de banho e a escutar a animaçãocrescente que vinha das ruas estreitas do centro e que ele espiava, de janela aberta. Desceuaté ao piso térreo para esperar pelo pai e o seu séquito e, enquanto esperava, perdeu-sepelos extensos salões do hotel, espreitando em todas as salas e através de todas as portas,passando a mão pelos azulejos árabes das paredes para se certificar de que eram reais, tãoexcessiva lhe parecia a sua beleza, atordoou-se de olhar os tectos altíssimos de caixotões demadeira escura trabalhados em arabescos, frisos e flores, deliciou-se ao contacto do veludogasto e suave dos sofás da sala grande e caminhou como um sonâmbulo sobre os espessostapetes orientais dos corredores. Parecia-lhe flutuar dentro de um sonho, como nos livrosde fadas que lera na infância: princesas deslizantes, lindas de morrer, desembarcavam doselevadores ou atravessavam o átrio e os salões parecendo não pisar o chão, apenas o afagar,um leve roçar dos seus vestidos de seda interrompendo as conversas à sua passagem,suspensas e etéreas nos braços de cavalheiros que ele diria reis ou senhores do mundo.Esmagado por tanta grandeza, tanto esplendor, afundara-se num canto de uma poltrona,sem ousar olhar a direito para coisa nenhuma, ouvindo o som das rolhas de garrafas dechampagne saltarem no bar, vozes alegres que riam e falavam altíssimo, às vezes até nofrancês que a mãe lhe ensinava, fósforos riscados na penumbra ambiente dos candeeiros depetróleo que acendiam longos charutos de cintas douradas, e um cheiro a tabaco dehomem e a perfume de senhoras que aos poucos tomava conta do salão e o deixavaprostrado, inebriado de um prazer novo que não sabia identificar.O pai e os amigos desceram dos quartos e todos eles saíram para jantar. Parecia queSevilha inteira flutuava como ele dentro de um carrossel de sensações, de excitação, rumo aum ponto qualquer onde tudo aquilo teria forçosamente de explodir num apocalipse. As
  12. 12. pessoas acotovelavam-se nas ruas estreitas, senhoras e cavalheiros cruzavam-se comolhares noutras circunstâncias tidos como indiscretos, casais passeavam filhosabsurdamente vestidos de marujos, amas passeavam berços de crianças sobre rodas,mendigos estendiam a mão aos passantes, ciganas rolavam os olhos negros nos olhosassustados dos que cruzavam, agarrando-lhes a mão e prometendo-lhes uma sina semsombras, angariadores de clientes dos hotéis e restaurantes interpelavam todos os bem-postos, e jovens moços, vestidos pobremente de toureiros sem quadrilha, caminhavam emgrupos de dois ou três, com um olhar que suplicava a glória de uma tarde ou mesmo aglória de uma morte numa tarde de arena.A custo, abriram caminho até ao restaurante que procuravam, na Plaza de América.Instalaram-nos numa mesa ao fundo da sala, uma sala que parecia uma antevisão do caos,com um barulho ensurdecedor das conversas misturado com o lamento de um cânticoflamenco que uma cigana entoava do outro extremo do restaurante, acompanhada àguitarra por dois facínoras de cicatrizes talhadas à navalha na cara escura, uma nuvem defumo pairando como nevoeiro acima da luz trémula dos candeeiros a petróleo, as correriasafogueadas de um batalhão de criados de casaco branco, levantando bem ao alto emisteriosamente em equilíbrio bandejas de copos de cerveja e de vinho, tapas e pratosfumegantes de comidas estranhas, e uma espécie de sussurro geral, que era o sopro dosleques agitados pelas senhoras, sorrindo, como se nada fosse, a cavalheiros encharcados emsuor escorrendo pelos colarinhos de goma das camisas e pelas lapelas dos casacos.Em toda a sua curta vida, nunca Diogo tinha imaginado um tal ambiente de orgia, defesta a tresandar a vinho, a fumo, a excesso, a tentação de mulher e a perdição de homem.Era como um catálogo vivo de todos os vícios possíveis de um homem, não faltandosequer, junto ao corredor de passagem para a cozinha, uma mesa onde quatro fregueses, derosto silencioso e fechado, jogavam cartas, alheios ao ruído ensurdecedor e à confusãoreinantes. Pela primeira vez na vida, Diogo entreabria a porta de um mundo onde oshomens deitavam as cartas e se perdiam, como crianças, numa licenciosidade irresponsável.E soube, então, que pertencia a esse mundo, soube por que razão o pai o trouxera naquelaviagem.Saíram do restaurante duas horas depois, o dr. Sacramento de colarinho jádesabotoado e rosto afogueado, o Joaquim da Vila trocando o passo e insistindo em contarhistórias sem nexo, e apenas o pai, aparentemente imperturbável, composto como sempre,alto, de passo firme e o olhar, que pareceu a Diogo perpassado por uma indizível tristezaou desprendimento, fixo num ponto longínquo, para além da algarraza das ruas, agorapercorridas por caleches com os cavalos de crinas e caudas enfeitadas de papéis coloridos e
  13. 13. jovens senhoras de cabelos, chapéus e olhos negros como carvão montando à amazona, aolado de uma silenciosa escolta de cavaleiros andaluzes de mortífero olhar de nobresbandidos, apertados nos seus coletes de botões de madrepérola. E, sobre tudo isso quepassava, num desfile agora ornamentado e ensaiado, uma poeira fina suspensa no ar, quetudo parecia cobrir com um púdico manto de apagamento.Uma cigana, belíssima nos seus já vinte e muitos anos, um filho ao colo que mamavade um peito perfeito e descoberto sem pudor, saltou-lhes de repente ao caminho e agarroua mão de Diogo, antes que este a pudesse retirar ou que algum dos outros conseguissefazer um gesto para o proteger. Ajoelhou-se aos seus pés, o peito completamente fora dovestido e exposto ao olhar extasiado de Diogo, e lançou-se numa lengalenga indecifrável deque ele não alcançou uma só palavra. Então, o pai sorriu, estendeu uma moeda à cigana eela agarrou mais firmemente na mão de Diogo e começou:- Nino, amor mio, dulzura mia, jcómo eres guapo! Vas a vivir dos vidas, no una sola. Te vas acasar, harás hijos... pêro distintos. Vas a viajar... muy lejos. Vas a amar, muchísimo, vas a sufrir y harássufrir. Al final, te perderás, te encontrarás, no sabría decirlo, pêro la decisión será tuya. El camino lo harástú.Levantou-se, fez uma espécie de vénia de despedida, sempre com a criança presa aobico do peito, e desapareceu entre a poeira e a semiescuridão da rua. Todos se riram, masDiogo ficou sem jeito, sem estar seguro de ter percebido bem a leitura da cigana, sem saberse aquilo era importante ou não. O pai passou-lhe um braço pelos ombros, um gesto tãoraro nele, e sorriu-lhe:- Bem, Diogo, meu filho. O teu destino parece que está traçado, pelo menos a parteamorosa. Chegou a altura de começarmos a tratar de transformar as profecias emrealidades. Estás pronto para começar a ser um homenzinho e a guardar segredos dehomem?O Joaquim da Vila e o dr. Sacramento riram-se, com ar de entendidos, mas ele nãoestava igualmente certo de ter percebido o que o pai lhe queria dizer. Tudo lhe estava aacontecer demasiado depressa e atordoadamente, como num sonho que não conseguiadecifrar. Como quer que fosse, já tinha decidido, assim que entrara por Sevilha adentro,que estava pronto para o que quer que viesse.- Estou, pai. Estou pronto.A casa de meninas era toda em veludos, cor de pêssego, vermelhos, negros, alcatifasespessas onde elas andavam descalças, luz ténue de castiçais de velas em todos os cantos emesinhas de apoio, de novo o fumo e o cheiro dos charutos dos homens e agora operfume barato de mulheres da vida. Elas iam dos quinze até aos trinta anos, eles dos trinta
  14. 14. até ao infinito. E, no meio, havia ele, sentado numa ponta de um sofá, de pernas cruzadas,estarrecido de pavor, fingindo não ver coisa alguma, nem sequer o pai, que passava as suaslongas mãos com que outrora o castigava pelas coxas de uma jovem ninfa que lhesegredava ao ouvido coisas que o faziam sorrir, de um sorriso que Diogo nunca vira antes eque não sabia interpretar. Uma senhora mais velha, arrastando um longo vestido bordadoaté ao chão e um majestoso passo de imperatriz do lugar, entrou no salão e o pai levantou-se para lhe beijar a mão e manter com ela um diálogo sussurrado, entremeado por olhareslançados a ele. Ela assentiu com a cabeça ao que o pai lhe dizia e veio buscá-lo,estendendo-lhe a mão, que ele beijou também, fazendo-a soltar uma gargalhadasurpreendentemente jovem para a idade madura que aparentava. Foi falando com elebaixinho, dizendo qualquer coisa que ele nem escutou, atordoado que estava, conduzindo-opela mão através de um corredor até um quarto no fundo, onde o introduziu, fazendo-lhesinal para que esperasse ali. E ele assim fez: viu um quarto iluminado por dois castiçais develas, uma única janela fechada, uma larga cama de lençóis postos como se fosse ali que eleia dormir, e uma cómoda com uma bacia, um jarro de água e duas toalhas cor-de-rosapousadas. A alcatifa do chão era azul-celeste e havia um inesperado quadro do SagradoCoração de Jesus na parede por cima da cómoda.Diogo tinha feito rapidamente toda a inspecção do quarto, jurando a si próprionunca mais esquecer cada pormenor daquela noite em que, pela primeira vez, iria conhecero corpo inteiro de uma mulher, vê-la nua sem ter de se esconder, poder mexer nela àvontade, sentir o que era penetrá-la, como tinha ouvido ao Virgolino contar nas lonjuras domonte, ou como ouvira uma vez contar a uma criada da cozinha, sem que ela percebesseque ele estava à escuta. E deu por si a rezar para que a primeira mulher que lhe estavadestinada na sua vida de homem não fosse aquela intimidante senhora que o conduzira atéao quarto.E não foi. Foi uma rapariga dos seus vinte anos, que se fazia tratar por Jolie, quetinha um sorriso rasgado e ainda de menina, um corpo magro, onde as ancas e as costelaseram bem marcadas, um peito pequenino mas de bicos grandes e escuros, uma teia dearanha entre as pernas e umas pernas compridas, como uma centopeia. Pousou-lhe umbeijo ao de leve na boca e começou calmamente a despi-lo, enquanto lhe fazia a tão temidapergunta:- Então, é a tua primeira vez?Ele viu-a descer-lhe as calças pelas pernas abaixo e espreitou também, a medo, parase certificar de que estava à altura das circunstâncias.- Não... é a segunda - respondeu, sem grande ânimo.
  15. 15. Mas, apesar do empenho aparente dela e da sua própria falta de conhecimento namatéria, não se deixou enganar pelos seus suspiros e gritinhos de suposto prazer. Soubeque tinha sido um fiasco, mas, não obstante, desfrutou de todo o prazer de a ver nua, umamulher completamente nua ao seu dispor, de mexer nela, de perceber a consistênciagelatinosa de um peito, a sensação quente e húmida de entrar dentro dela e, sobretudo, aforça de saber que tinha possuído uma mulher e que doravante podia falar de igual paraigual com qualquer homem, podia voltar à escola, entrar no café da vila com outra aura,entrar na igreja como um pecador e não apenas como um suplicante. Depois de tudorapidamente acabado, apeteceu-lhe que ela desaparecesse dali, sentiu-se um pouco sujo nasua presença e demasiado inchado de orgulho para partilhar com ela essa sensação. “Cestfini, Jolie”, murmurou para si mesmo.O seu primeiro dia enquanto homem começou cedo, porque ele mal tinhaconseguido dormir, virando-se e revirando-se na cama, passando em revista, ao detalhe, oquarto, a cama e Jolie. O pai tinha marcado encontro na recepção do hotel às dez da manhãe, muito antes disso, já ele deambulava pelas ruas, fazendo horas, enfiando-se, sem rumocerto, pelas estreitas vielas e becos da cidade, vendo os empregados limpar as casas,varrendo para a rua o lixo dos pátios interiores, esses fabulosos pátios árabes das casasandaluzas. Inesperadamente, chuviscava em Sevilha e era como se essa chuva de molhatolos varresse, também ela, os restos da noite passada. Nas ruas, nas avenidas e praças, nospasseios cobertos de detritos, Sevilha registava os sinais da primeira noite de folia do SanMiguel, mas, a par de alguns bêbados e vadios que dormiam ainda nos bancos de jardim ounas esquinas dos becos, já alguns cavalheiros aperaltados, de cabelos sedosos da brilhantinae cheirando a água-de-colónia e banho fresco, circulavam pelas ruas, montando a passo osseus cavalos enfeitados e olhando com um ar de comiseração e desprezo os vestígios damadrugada de festa.Mais tarde, durante a manhã, as nuvens partiram para sul e o sol de Sevilha regressou,prenunciando a tarde de fresta. Saiu sozinho com o pai, que tinha alugado uma caleche, naqual percorreram grande parte da cidade, visitando várias lojas, onde o pai comprou arreiospara cavalos, uma funda para a espingarda, dois chapéus, mantilhas e medalhas para a mãee umas polainas para as botas de Pedro. Visitaram a catedral, onde Manuel Custódio seajoelhou e rezou durante uns minutos e, em todo o tempo, o pai limitou-se a falar dacidade e a chamar-lhe a atenção para as coisas de que mais gostava. Diogo reparou comoele estava feliz e descontraído, falando um espanhol fluente com o cocheiro e osempregados das lojas, recostado para trás no assento da caleche, uma cigarrilha penduradano canto da boca e a sua cara, habitualmente fechada e sisuda, distendida num sorriso
  16. 16. suave e íntimo. À uma hora, passaram pelo hotel, onde os esperavam o dr. Sacramento e oJoaquim da Vila e todos juntos saíram para almoçar, desta vez num restaurante muitocalmo, com uma esplanada ao ar livre, de mesas cobertas por toalhas azuis de quadrados.Almoçaram um combinado de tapas, acompanhadas por um tinto de verano e ao som deum violoncelista cego que tocava árias andaluzas, assistido por um rapaz numa cítaramarroquina. Aproveitando uma breve ausência do pai, o dr. Sacramento encarou Diogo,com o ar pasmacento com que parecia encarar tudo na vida:- Então, meu rapaz, ontem à noite divertiste-te?Diogo fez que sim com a cabeça, corando de imediato.- Tratou-te bem a tua pequena?Diogo sentiu que tinha de estar ao nível daquela conversa de homens, que deveriadizer alguma coisa adequada à situação, mas a verdade é que ele próprio não sabia aresposta. Se ela o tinha tratado bem? Fizera o que tinha a fazer, não era? Respondeu quesim, embaraçado com a conversa. Mas o dr. Sacramento parecia verdadeiramenteinteressado no assunto:- Como é que ela se chamava, a menina que te roubou a virgindade?- Jolie, foi o que ela disse.O dr. Sacramento riu-se e piscou o olho ao Joaquim da Vila, em tom entendido.- Ah, Jolie, Jolie! Assim nunca irás saber o verdadeiro nome da primeira mulher datua vida! Mas também não é importante: o mais provável é esqueceres-te do nome artísticodela, com os anos.E aí, o dr. António Sacramento, juiz titular da comarca de Estremoz, inclinou-se paraa frente, agarran-do-lhe no braço e fixando-o nos olhos, e debitou uma sábia sentença:- Meu rapaz, olha: eu já não me lembro do nome da primeira mulher com quem fuipara a cama, nem se era feia ou bonita, loira ou morena, espanhola ou portuguesa. Maslembro-me das circunstâncias e dos amigos com quem estava. Provavelmente, daqui a unsanos, não te lembras nem do nome da Jolie, mas há uma coisa de que te irás lembrar a vidatoda: que quem te deu pela primeira vez uma mulher a provar foi o senhor teu pai. Deves-lhe isso, e isso um filho não esquece.Quando saíram do restaurante, a cidade parecia tomada por um frenesim emcrescendo, uma massa de gente em movimento, como que atraída por um invisível íman,dirigindo-se toda na mesma direcção. Uma multidão que caminhava compacta, como umrolo compressor, a pé, a cavalo, de carruagem, de charrete, pelas ruas, pelos passeios,através dos jardins. Faltava ainda mais de hora e meia para o início da corrida e, apesardisso e de os bilhetes estarem de há muito esgotados, Sevilha inteira caminhava em
  17. 17. direcção à Maestranza, como os adoradores do Sol caminham em direcção ao poente. Umacorrente surda, crescente, de conversas, de interpelações, de exclamações e gritosdesgarrados dividia a multidão que caminhava para a praça em dois grupos distintos eirreconciliáveis: os fiéis de Joselito e os de Belmonte. Ambos eram filhos dilectos deSevilha, genuínos andaluzes marcados pelos deuses para brilharem na arena. José GómezOrtega, chamado Joselito “El Gallo” ou “Gallito”, tinha apenas vinte anos de idade, mas játomara a alternativa há três, ali mesmo, na Real Maestranza da sua Sevilha natal. Neto, filhoe irmão de matadores, era bonito, elegante na arena e representante de um toureio clássicoque parecia sair-lhe sem esforço, naturalmente, como dom já nascido com ele. Irmão dogrande Rafael “El Gallo”, por muitos considerado o melhor toureiro de sempre de toda ahistória de Espanha, superara o irmão, não na técnica, mas na valentia. Rafael era irregulare medroso, tendo chegado a dizer, após uma chuva de críticas: “As broncas leva-as o vento,mas as cornadas levo-as eu.” Como todos os matadores, Joselito também tinha medo, masenfrentava-o preparando-se escrupulosamente antes das temporadas e aperfeiçoando semcessar o domínio de todas as sortes, de que nenhuma lhe escapava. Aprendera comonenhum outro a ligar os naturais em redondo, levando o grande Guerrita, já então retirado,a exclamar que, com Joselito, nascera o toureio moderno. A sua quadrilha, que incluía oirmão Fernando “El Gallo”, era unanimemente considerada a melhor de toda a Espanha ea sua estrela brilhara sozinha, sem rival, em todas as praças de touros para que eraconstantemente solicitado. Reinou a sós, tão jovem ainda, até ao dia em que apareceu naspraças Juan Belmonte - e isso fora pouco mais de um ano antes. Belmonte nascera noTriana, o mais andaluz de todos os bairros de Sevilha. Era o contrário de Joselito: pequeno,feio, atarracado, de braços e pernas curtas, filho de um modesto lojista da cidade, ninguémo ensinara nem vocacionara para ser matador. Mas desde pequeno que não pensava noutracoisa e, aos treze anos de idade, começou a aprender sozinho, invadindo os campos degado, em noites de lua cheia, e toureando por sua conta e risco, sem “ajudas” nem público,antes de, na manhã seguinte, ir ajudar o pai na loja. Aos dezassete anos, vestiu pela primeiravez um traje de luces, em Portugal; aos dezanove, foi colhido pela primeira vez, emValência, e enfim começaram a reparar nele. O lendário “Lagartijo” havia dito um dia que afórmula para aprender a tourear bem era saber subtrair o corpo subtilmente à passagem dotouro, porque o te quitas tú o te quita el toro. Belmonte, porém, tinha invertido a fórmula de“Lagartijo” e, com isso, revolucionou a arte de tourear: com o seu jogo de ancas, de braçose de muleta, era ele que parava o touro, fazendo-o circular à mão, mandando nele -templando, conforme passou a ser dito daí em diante. Belmonte citava o touro de frente,recebia-o quieto, em terrenos por si escolhidos e jamais pisados antes, e mantinha-o ali, até
  18. 18. o despedir, dessa sorte mandando na lide desde o seu início - ni te quitas tú, ni te quita eltoro. A sua técnica era de tal forma arrojada e nunca antes vista, que El Guerra haviaaconselhado, meses antes, a quem o quisesse ver tourear, que se apressasse porque aquelerapaz não iria durar muito.Manuel Custódio era um devoto do “Gallito”. Exclamava para quem o quisesse ouvirque ali estava reunida toda a ciência e arte da faena, aperfeiçoadas ao longo de séculos ereveladas à luz do dia, em todo o seu esplendor, pelo toureio de Joselito. AntónioSacramento também tendia mais para Joselito, que tinha como um toureiro mais clássico,mais puro, e, sobre essa pureza de estilo, era capaz de dissertar longamente no Café Centralde Estremoz, noites e aguardentes a fio, até fazer cair para o lado, de exaustão, os seusoponentes. Mas também não lhe era indiferente o toureio espectacular e sempre sobre orisco de Juan Belmonte: a sua frase preferida era a de que “cada corrida é uma corrida e sóno final se pode cavar a sentença”. Já o Joaquim da Vila era capaz de matar e de morrer emdefesa de Belmonte - “o toureiro mais louco que a Espanha já viu, o louco mais lúcido daPenínsula, desde a ocupação romana”.Três meses antes, Manuel Custódio tratara de comprar os bilhetes através docorrespondente em Estremoz, e agora ali estavam eles sentados nos seus magníficoslugares à sombra, contemplando a Maestranza a encher-se de uma multidão que, mesmoassim, seria apenas uma terça parte dos que tinham ficado lá fora e que aparentemente seiriam contentar em seguir a corrida através das reacções que vinham lá de dentro e queultrapassavam os muros da velha praça barroca e se derramavam sobre a cidadesubitamente silenciosa, na expectativa das notícias que iam chegando da arena.Naquele 30 de Setembro de 1915, a cada um dos espadas calhavam dois touros deSanta Coloma. A rivalidade entre ambos, que se iniciara nesse mesmo ano, estava então noauge e era objecto de uma autêntica guerra civil entre aficionados, divididos entre a “facçãoJosé” e a “facção Juan”. Entre os próprios, porém, a rivalidade surda das primeiras corridasfora dando lugar, enquanto a época avançava, a um respeito mútuo, que para a crítica semanifestava até na forma como qualquer deles parecia absorver coisas do outro: José, otemple de Juan; e este, o domínio natural de José. Contava-se que, numa dessas corridas emque dividiam o cartaz, tendo surgido um desentendimento entre os “segundos” de ambossobre a ordem dos touros, perguntaram a Belmonte a sua opinião e ele respondera apenas:“Lo que diga José.”Nos dois primeiros touros, ambos estiveram ao nível da sua fama. Belmonte recebeuo seu em verónicas sucessivas e ritmadas, alternando com meias verónicas e chi-cuelinas e,no capote, brilhou nos naturais e nos pases de pecho, matando em volapié, ou seja,
  19. 19. investindo sobre o touro já sem força e estocando firme e profundo, até que o animalajoelhou na areia e caiu de lado, morto. Joselito esteve regular e elegante com a capa, masfoi no capote que toda a beleza da sua arte começou a tornar-se evidente, mesmo aos olhosde Diogo, que pouco ou nada percebia do assunto. Toureou sobretudo por derechazos enaturais, pouco a pouco subjugando o touro, até finalmente o ter exausto à sua frente. Aílevantou a sua bela cabeça e olhou a Maestranza em silêncio, como um gladiador esperandoa decisão do povo e de César. Depois, o seu olhar regressou ao touro, quieto na sua frente,apontou-lhe o estoque, esperou uns segundos a ver se ele carregava e finalmente investiuem volapié, juntando-se ao miúra negro num abraço de morte e de despedida.Ao intervalo, a Maestranza estava dividida, como seria de esperar, mas os maisentendidos concordavam que não havia ainda, entre Juan e José, um vencedor da tarde.Diogo bebia uma limonada gelada, enquanto circulava os olhos pela praça. Apesar de serfim de tarde e de se ter já entrado no Outono, Sevilha estava ainda quente e abafada e pelasgalerias e anéis da Maestranza os leques das senhoras abanavam sem cessar. Mulhereslindas, elegantes, os cabelos negros sedosos brilhando mesmo na sombra, uma leveza depromessas imaginadas no olhar, que deixavam Diogo aturdido.O segundo touro, Belmonte recebeu-o estático, a meio da praça, nos médios, depoisde o ter observado a investir sobre as capas dos espadas da sua quadrilha. Vinha forte ecarregado de vida. Vinha desembalado, com uma fúria que nada parecia capaz de travar.Mas ele não se mexeu quando o touro investiu pela primeira vez para a sua verónica. Porcima do ombro, viu-o seguir em frente com o balanço que levava e, então, rodoulentamente sobre os calcanhares, sem sair da mesma posição e voltou a citá-lo. Deixou queele invadisse os seus terrenos, deixou que o seu corno lhe passasse a centímetros do corpo,sempre sem se mexer, e voltou a fazer o mesmo, por largas, meias verónicas e chicuelinas,até que ele percebesse quem mandava ali, no meio da praça. Depois, retirou-se para astábuas, ficando a assistir à sorte de bandarilhas. Quando o touro ficou sozinho no centroda praça, castigado mas altivo, Juan Belmonte afastou-se das tábuas, deu uns passos emfrente e, com um gesto circular da mão, dedicou o terceiro tércio, que se iria seguir, a toda aassistência. A multidão levantou-se para aplaudir e ainda estava de pé quando ele iniciou o“tércio da morte” e do capote, recebendo o touro com um natural sublime de calma juntoàs tábuas. E por aí se quedou longo tempo, alternando naturais com derechazos e depoiscom trin-cheras, da direita para a esquerda. No fim, matou recibiendo, com a mão direitasegurando a espada, encostada ao peito e o touro carregando sobre si. A Maestranzalevantou-se inteira a um só tempo e os gritos estalaram: “Belmonte, Belmonte!”
  20. 20. - Caramba! Isto é ou não é um toureiro? - gritava o Joaquim da Vila, possesso,agarrado ao colete de Manuel Custódio e abanando-o.- Tenho de reconhecer que foi uma grande faena - concordou Manuel Custódio,tentando manter a distância.- Grande? Porra, sr. D. Manuel, isto foi o melhor que o senhor já viu e que há-devoltar a ver!- Espere um pouco, Joaquim. Espere um pouco...De facto, estava escrito que aquela tarde seria de Joselito “El Gallo”. Com a capa, elesegurou o seu touro, chamado Cantinero, a meia praça, com uma elegância que era quasesoberba, os braços volteando a pesada capa com naturalidade e estilo, os pés rodando paravariar a direcção da sorte, mas conseguindo também fixar o touro nos terrenos por siescolhidos, mostrando que observara bem a técnica de templar de Juan Belmonte. Mas,com o capote, ele arrasou o Cantinero. Massacrou-o com naturais e passes de peito, trouxe-o literalmente à mão até onde queria, preparou-o, como num ritual, para uma mortegrandiosa, de tal sorte que, no fim de tudo, parecia ser o próprio touro a suplicar que omatasse. Mas, antes disso, Joselito pousou um joelho no chão e chamou o touro para quepassasse rente à sua cabeça em dois derechazos suaves, primeiro de frente e depois decostas. Por fim, com aquele monstro negro completamente humilhado à sua frente,vencido e atordoado pelos gritos da multidão de pé, ele sacou o estoque da capa e parouhirto a contemplar o adversário, a espada caída ao longo do corpo, com a ponta assente nochão. Fez-se um silêncio impressionante na praça - um silêncio de morte, pensou Diogo.- Virgem da Macarena, que o mate de um só golpe... - murmurou Manuel Custódio,entre dentes.Joselito apontou o estoque ao Cantinero. Falou-lhe qualquer coisa que nem Diogonem ninguém em toda a praça conseguiu ouvir, fez um gesto com a mão esquerda comoque a despedir-se dele e, quando avançou direito ao touro, este avançou também direito àmorte: encontraram-se a meio caminho. Como diziam os aficionados, o Cantinero morreuai encuentro e, nessa tarde memorável de Setembro, Joselito “El Gallo”, filho, neto e irmãode toureiros, filho, neto e bisneto de sevilhanos, andaluz tan claro y rico de ventura,tornou-se o primeiro toureiro de sempre a quem a praça concedeu, em homenagem à suafantástica lide, a orelha do seu adversário. Ele e Juan Belmonte saíram ambos nesse final detarde pela “Porta do Príncipe” da Maestranza, levados em ombros pela gente da rua, quetinha poupado durante meses para poder assistir a esse dia glorioso.Se, ao abandonar a Maestranza, já o Sol ia baixo e a sua imaginação longe, Diogopudesse adivinhar o futuro, saberia que Joselito haveria de morrer menos de cinco anos
  21. 21. depois, em Talavera de la Reina, colhido pelo touro Bailador, da viúva Ortega - um touroaparentemente inofensivo mas que via bem ao longe e que se fixou no vulto e não nocapote. Ao saber da sua morte, Guerrita comentou: “Se acabaron los toros!” “Irmão” daVirgem da Macarena, Joselito teve direito a missa de corpo presente na Catedral de Sevilhae durante muitos anos, no dia da sua morte , 16 de Maio, todas as quadrilhas que entravamna arena se perfilavam e guardavam um minuto de silêncio em sua memória.Quanto a Juan Belmonte, fadado para morrer novo por El Guerra, toureou até 1936,com 42 anos. Conta-se que uma vez o seu grande admirador e amigo, o escritor edramaturgo Valle-Inclán, lhe teria dito que ele era um toureiro tão grande que só lhe faltavamorrer na arena. Ao que Belmonte respondeu: “Se hará lo que se pueda, don Ramón.” Morreriasim, aos setenta anos de idade, suicidando-se com um tiro de pistola, segundo rezou alenda, ferido de morte pelo amor impossível por uma jovem cigana.- Conta-me, Diogo! Conta-me a história do assalto!- Outra vez, Pedro? Já ta contei duas vezes!- Só mais esta vez, Diogo!Diogo olhou com ternura para o irmão, sentado ao seu lado na margem da ribeira,segurando uma cana de pesca feita de bambu, com a qual tentava inutilmente, havia maisde meia hora, pescar o que quer que fosse. Pedro era assim, sempre impaciente por fazeralguma coisa, sempre curioso por saber tudo, incapaz de jamais sossegar e ficarsimplesmente a olhar ou a escutar o silêncio das coisas, como Diogo tanto gostava. Denoite, quando ambos se iam deitar no quarto que partilhavam, Pedro resistia a cair logo nosono, insistindo em falar e em ouvir histórias, por vezes continuando ainda a falar, já Diogoadormecera há muito, com a facilidade com que sempre adormecia em qualquer ocasião,bastando que estivesse com sono. Mas para Pedro, que era ainda uma criança nos seus dezanos, era como se a vida toda à sua frente não pudesse esperar e tivesse urgência em servivida. Diogo guiava-se pelos sentidos: adormecia quando tinha sono, acordava quando jánão tinha; Pedro, não: era como se adormecer fosse um pouco morrer e a ânsia de vivernão consentisse esse intervalo de consciência.Quando passeavam juntos pelo campo, Diogo gostava de caminhar em silêncio,atento à paisagem, aos sons, às plantas e aos bichos, absorto na sua observação e nos seuspensamentos. Pedro caminhava numa permanente inquietação: ora tentava surpreender ospássaros com a sua fisga, ora corria atrás das vacas para as espantar, ora se atar-dava acontar as ovelhas para confirmar que o rebanho estava completo, ora batia com um paunos sobreiros para ver se não estavam secos por dentro, não se esquecendo nunca deverificar o algarismo escrito a cal na casca das árvores, indicando o ano da próxima tirada
  22. 22. de cortiça, de tal modo que, quando voltava a passar pelo mesmo local, ele já conhecia asárvores não pelo seu aspecto ou porte, mas pelo algarismo escrito na sua casca.Mas, mesmo diferentes como eram, Diogo amava profundamente o irmão, como amais ninguém, nem sequer à mãe. Admirava a força e a determinação daquele miúdo aindatão pequeno, a sua pressa em crescer e ser homem, e sentia-se quase com a missão de oproteger de si próprio e dos perigos de que ele não se dava conta, de vigiar a suaimpaciência, o seu destemor. E, muitas vezes, como agora, dava por si a representar umpapel que não era o seu, apenas para saciar a admiração que sentia que Pedro tinha tambémpor ele, o irmão mais velho, com o natural ascendente do primogénito, de vários anos deavanço, em sabedoria e em experiência.- Então, olha, foi assim. Vínhamos, como já te contei, na estrada de Aracena para afronteira, e vínhamos atrasados, porque se tinha partido uma roda da carruagem edemorámos muito tempo a substituí-la pela roda sobresselente. Entretanto, começou a caira noite e rapidamente tudo foi ficando escuro. Acendemos duas lanternas na frente dacarruagem e uma atrás, o pai e o Joaquim vinham a cavalo, eu e o dr. Sacramento dentro dacarruagem, o Azevinho de condutor, e o Hernâni ao lado dele. Reparei que o pai e oJoaquim da Vila tinham tirado as espingardas das fundas e seguiam com elas atravessadasna garupa dos cavalos. Ouvimos, daí a pouco, um ruído nas estevas, como se alguém sedeslocasse agachado, mas, quando o pai parou o cavalo e ficou à escuta, o Azevinho disse:“É javali, patrão”, e continuámos a andar. Daí a uma meia hora, a Lua começou a nasceratrás de nós, em quarto crescente, e já podíamos ver um pouco mais do caminho à nossafrente. Continuámos a andar em silêncio, o pai tinha acendido um cigarro e o Joaquimvinha debruçado sobre o pescoço do cavalo, como se tivesse adormecido. A certa altura,todos ouvimos ao mesmo tempo outro restolhar no mato à nossa esquerda e, logo deseguida, um movimento surdo, que pareceu de passos, correndo, à direita da estrada. Aí, opai parou o cavalo e fez sinal ao Azevinho para parar também a carruagem. Ficámos todosquietos, a escutar, eu sentindo o coração bater com tanta força que não conseguia escutaroutro som que não o dele.- Estavas com medo, Diogo?Estava sim, Pedro, acho que estava borrado de medo.Mas depois pegaste na outra espingarda do pai, não foi?- Foi. Depois o pai disse: “Todos os homens arma dos!” O dr. Sacramento pegounuma das suas espingar das e passou a outra pela janela, com um punhado de cartuchos, aoHernâni, que tremia como se estivesse com febre. Depois, passou-me a segunda espingardado pai e colocou uma caixa de cartuchos no assento, entre nós os dois, e disse-me: “Vigias
  23. 23. essa janela e eu fico com esta. Cuidado para não acertares no teu pai ou no Joaquim. Atudo o resto que mexa, atira.” Então, o pai e o Joaquim colocaram-se um de cada lado dacarruagem e atrás dela, cobrindo a retaguarda. E retomámos o caminho, mais uns dezminutos, muito devagar e atentos a tudo, mas sem ouvir mais nada. E, de repente, quandosaíamos de uma curva, vimos, a uns trinta metros, iluminado pela luz da Lua, um vultobranco a cavalo, parado no meio do caminho. O pai gritou: “Alto! Quem vem lá? Fale ouatiro!” Mas, antes que o outro fizesse qualquer movimento, soou um tiro vindo do mato, ànossa esquerda, e a lanterna da carruagem do lado do dr. Sacramento desfez-se em pedaços. Depois, já te disse que não me lembro muito bem do que se passou a seguir. Lembro-me de ver clarões de tiros que vinham dos dois lados da estrada, de ouvir um grito doHernâni “minha Mãe Santíssima!” e, atrás de mim, os tiros em cadeia do pai e do Joaquimda Vila. Às tantas, apercebo-me de que, ao meu lado, o dr. Sacramento disparava e voltavaa carregar, uma e duas vezes, e então vi os arbustos a mexer à minha direita, a uns dezmetros de nós, e disparei para lá os dois tiros da espingarda. Pareceu-me ter ouvido umgemido e o barulho de um corpo pesado a cair, e logo depois estávamos a galopar quase àsescuras e eu ainda a tentar voltar a carregar a espingarda mas sem conseguir porque asmãos tremiam-me, e só parámos passado muito tempo, não sei dizer quanto, no meio deuma grande clareira, onde não era fácil eles chegarem-se a nós sem serem vistos de longe.O Hernâni tinha uns chumbos num ombro, um dos cavalos da carruagem também tinhasido chumbado, mas não havia marcas de balas em lado nenhum e em menos de uma horajá estávamos em Ficalho, sem mais nenhum alerta.- Mas mataste-o, não mataste? - Os olhos de Pedro brilhavam de ansiedade e eletinha até largado a cana de pesca para agarrar o braço do irmão.- Não, acho que não o matei. Não sei sequer se o chumbei ou se só o assustei...- Mataste-o, mataste-o! Diz que sim, diz que o mataste!- Mas porque é que tu queres tanto que eu o tenha morto?- Porque era um bandido! Temos de matar os bandidos todos: foi o pai que mo disse!Diogo olhou para o irmão, pensativo. Nunca lhe tinha ocorrido que pudesse termorto o assaltante. Recordava-se apenas de se ter sentido seguro quando pegou na armaque o dr. Sacramento lhe estendia, já carregada, e como o medo que o paralisava tinhadesaparecido instantaneamente, assim que fizera fogo em direcção ao que pensara seralguém emboscado no mato. Sim, a segurança incrível que tinha experimentado nesseinstante, a sensação de força, de autodefesa, o prazer no disparo da arma, o recuo dela noseu ombro, o clarão da pólvora na escuridão, o ruído do impacto dos chumbos nas estevas.
  24. 24. Mas nunca tinha pensado seriamente que o desfecho final do seu tiro pudesse ter sido amorte de homem.Não, Pedro. Eu acho que não o matei. Nem sequer sei ao certo se ali havia alguém.E o pai, achas que o pai matou algum dos bandidos?Não faço ideia, Pedro.Ele não disse se tinha morto algum?Diogo riu-se, lembrando-se do comentário que o pai havia feito à noite, na estalagemde Ficalho, já todos lavados, jantados e sossegados, em roda da lareira da sala:- Pensar que meia Europa se anda a matar na Flandres, com tanques, canhões,metralhadoras, granadas e aviões, e nós aqui, de regresso da Feira de Sevilha, pacatamente acavalo, a defendermo-nos a tiros de caçadeira de um assalto de bandidos do mato! Estamosmesmo com um século de atraso! O que me dizes tu a isto, António?- E soltou uma palmada nas costas do dr. Sacramento, que fumava placidamente oseu charuto cubano com prado em Sevilha.- Antes assim, compadre! E descansa, que não perdes pela demora. Aposto que, dapróxima vez que viermos à Feira de Sevilha, já vai ser de automóvel e em estrada comodeve ser. E Deus nos conserve os nossos bandidos de caçadeira e nos guarde dos outros,de metralhadoras e aviões!Essa é que é essa! - rematou filosoficamente o Joaquim da Vila.
  25. 25. IIO tempo agora voava, parecia fugir-lhe debaixo dos pés. Maria da Glória tinhaquarenta anos, menos oito que o marido, Manuel Custódio. E tinha feito vinte e dois anosde casada, pouco mais do que a idade de Diogo, o mais velho dos dois filhos. Diogocontinuava em Lisboa, havia já dois anos, a frequentar sem grande entusiasmo o curso deAgronomia que o pai lhe mandara tirar à capital, como morgado que era, destinado aadministrar no futuro a Herdade de Valmonte. Vinha a casa apenas nas férias de Natal e dePáscoa e nas férias grandes, que duravam de finais de Julho a princípios de Outubro. Erapouco para ela, que o vira partir para Lisboa tão novo ainda, tão tímido, tão companheiroque era da mãe e do irmão.Maria da Glória sentia muito a ausência do filho. Dos dois, era o único parecido comela: reservado, senhor da sua solidão e do seu silêncio, reflexivo e quase tão sensível comouma rapariga. Pedro, o filho mais novo, pelo contrário, era o retrato do pai: impetuoso,destemido, irascível muitas vezes, sempre atento aos trabalhos da herdade e sempre prontoa dar ordens ou a descompor os trabalhadores, alguns deles homens que tinham idade paraser seus pais. Diogo era amado e respeitado por quase toda a gente de Valmonte; Pedro erasobretudo respeitado. Diogo era quem estava a estudar Agronomia para mais tarde sabercomo gerir a herdade, enquanto que Pedro já se tinha percebido que nunca acabarianenhum curso superior. Já reprovara dois anos e a escola era coisa que não lhe dizia nada.Em contrapartida, os trabalhos da herdade, tratar dos cavalos, recolher o gado, fazer ocorte da cortiça, limpar as oliveiras, sair para caçar sempre que podia, com o pai, com ofeitor, com os amigos, ou sozinho com os cães, isso era o que verdadeiramente lhe davaprazer e consumia o melhor do seu tempo e do seu talento. Não precisava de estudar oofício: já sabia tudo por experiência, apesar da sua imaturidade, e era esperto o suficientepara continuar a aprender por si o que lhe interessava e que escola alguma lhe ensinaria.Maria da Glória sabia como era profundo e inato aquele apego dos filhos à herdade,cada um à sua maneira. Vinha-lhes lá do fundo dos tempos, passado de geração emgeração. Ela percebia-o e sabia ainda como isso era importante para a continuidade dascoisas que, afinal, representavam igualmente toda a história da sua vida. Nascida tambémnuma tradicional família de agricultores de Estremoz, os Cortes, Maria da Glória vivera
  26. 26. uma infância desafogada e feliz no campo, muito embora fossem sete irmãos - dos quaisela era a mais nova - e as terras que a sua família possuía não se equivalessem, em extensãoe em qualidade, às dos Flores. Mas cedo aprendera o valor da terra e o que a sua possepodia significar ali de diferença entre uma vida desafogada e uma vida de miséria ou deprivações. E melhor o percebera ainda quando, tinha apenas quinze anos de idade, os paislhe morreram, numa viagem de regresso de Lisboa, no naufrágio da barca que os trazia deVila Real de Santo António, no Algarve, para Mértola e que foi apanhada num pego do rio,junto à confluência do Guadiana com o Vascão. Aí, entre os altos penhascos solitários dorio, onde apenas o moleiro, lá em baixo junto à água, e as águias planando lá no alto embusca de caça habitavam, e aonde ela se deslocara na companhia dos irmãos para depositarflores na sepultura líquida dos pais, Maria da Glória percebera que, daí em diante, a suavida e sua fortuna iriam depender apenas da sorte. E ela deu-se quando o jovem ManuelCustódio Ribera Flores, proprietário da imensa Herdade de Valmonte, se tomou de amorespor ela e, alheio a todos os conselhos em contrário dos seus - que o queriam ver casadocom uma rapariga que tivesse por dote mais do que uma promessa afundada no Guadiana -, só esperou pelos seus dezoito anos para a fazer sua mulher e a levar como troféu de caçapara casa. E assim se vira - órfã de pais, de dote e de terras - senhora dona por casamentoda casa e dos dois mil hectares de terra dos Flores, de Estremoz. Sim, ela sabia bem o valorda terra! Sabia o que lhe tinha custado a si: a sua juventude e a sua beleza, gastas pelosexcessos e pelas traições do marido, e pelo filho mais velho, que tão depressa viera e parasempre lhe desfizera aquela cintura de bailarina e a altivez daquele peito ainda adolescente,a sua solidão de coração e de espírito, que em tão pouco tempo a transformara de meninaem mulher madura, ali encerrada na solidez daquelas paredes senhoriais e no horizontedemarcado dos dois mil hectares de terra. Mas, pelo casamento com Manuel Custódio,havia saído daquele futuro que, aos quinze anos, lhe parecia sem esperança, e os seus filhosestariam para sempre ao abrigo de um golpe da fortuna ou de uma volta do rio.Uma vez, uma amiga de infância e de escola, com quem partilhara antes os segredose os sonhos de adolescentes, os livros da Condessa de Ségur da Biblioteca Popular deEstremoz e o projecto insensato de um príncipe encantado encontrado ao virar da esquina,em plena vila, perguntara-lhe, de visita a casa:- Tu amas o teu marido, Maria da Glória?Ela olhara a amiga, como se a pergunta não fizesse sequer sentido e respondera, semuma hesitação para pensar na resposta:- Claro, é o meu homem.
  27. 27. Não, não era o príncipe encantado dos sonhos de adolescente. Era arrogante,autoritário, rude por vezes, fazendo-a sentir-se eternamente em dívida, eternamenteobrigada a mostrar-se grata e obediente. Raramente lhe dirigia um elogio; apenas, em certasocasiões, um olhar de macho com cio - o que nele era uma forma de cumprimento e deaprovação. E, todavia, havia nessa relação, sem romance nem paixão, uma segurança deque ela gostava: quando se referia a ele, em conversa com uma amiga, como “o meuhomem”, ou quando se dirigia aos criados, falando dele como “o meu marido”. E haviatambém outra qualificação, que apenas usava para si própria e que se forçava a repetirbaixinho até à exaustão, quando, noites adentro, esperava, fingindo-se adormecida, que eleregressasse das suas excursões de amigos às casas de meninas de Estremoz, de Elvas, deBadajoz, rezando para que, pelo menos, voltasse vivo, inteiro e sem doenças: “o pai dosmeus filhos”.Nestes últimos tempos, o pai dos seus filhos dava-lhe mais preocupações do que ospróprios filhos. Ultimamente, de facto, Manuel Custódio andava cada vez mais envolvidona política. Na verdade, ele nunca deixara de vociferar, em público ou em privado, à mesade casa, entre amigos, ou no café da vila, entre todos, contra o “crime sem castigo” doassassinato do Senhor D. Carlos e do Príncipe herdeiro D. Luís Filipe, já lá iam treze anospassados. E nunca se conformara com a instauração da República, dois anos depois, e que,no seu julgamento, não fora mais do que o aproveitamento da cobardia da soldadesca e dosoficiais de Lisboa, recuando, sem pudor, perante a arruaça popular. Tal como ele via ascoisas, o 5 de Outubro de 1910 não passara de uma “revolta de maçons e merceeiroslisboetas”, que derrubara um regime que era querido e popular entre o povo e os homens-bons do país inteiro.- Tememos a Deus, servimos o país e obedecemos ao nosso Rei. Qualquer portuguêsde orgulho sabe isto! - era a sua frase preferida, que repetia em casa, no café, nas tertúliasde amigos ou nas discussões políticas em que cada vez mais frequentemente se envolvia.Nascera monárquico e haveria de morrer monárquico e viesse quem viesse para o fazermudar de ideias ou tentar calá-lo.A medida que a jovem República se ia degradando na instabilidade, no caciquismo,na intriga e na incompetência governativa, acumulando a dívida do Estado e expondo aseus olhos e em sua opinião a vacuidade insuportável dos seus próceres bem-falantes, assima raiva de Manuel Custódio se ia acumulando e a sua fama de feroz anti-republicanoespalhando-se como rastilho de fogo na planície. Adquirira o hábito de ir todos os fins detarde ao Café Central de Estremoz, onde, entre prosélitos, discípulos, amigos
  28. 28. condescendentes ou simples curiosos atraídos pelos seus discursos inflamados, ele montavabanca e exercia política, entre uns copos de abafado e uns torresmos de porco salgados.Numa dessas ocasiões, estava ele sentado na sua habitual mesa do fundo, dissertandono meio da sua corte de ouvintes, quando entra no café o grande republicano e presidenteda Câmara, bacharel Joaquim Gomes, trinta anos antes seu colega de escola. Vinha tambémrodeado do seu próprio grupo de apaniguados e, pelo canto do olho, pareceu a ManuelCustódio, treinado que estava pela vida do campo a tudo ver ao derredor, que tinha vindoexpressamente para se pegar com ele. Mas continuou como se o não tivesse visto entrar,aliás falando ainda mais alto e concluindo o que estava a dizer, acerca das despesas da corteno tempo da Monarquia, então violentamente criticadas pelos republicanos e que hojepareciam ridículas, quando comparadas com o desperdício de dinheiros públicos dogoverno do dr. António José de Almeida - “o rei dos demagogos, o maior vendedor defeira que este país já conheceu”.A sala fez um silêncio sobre esta frase. Ele próprio se calou, deixando o efeito dassuas palavras pairar sobre a audiência. E, tal como tinha antecipado, o presidente daCâmara, o mui respeitado Joaquim Gomes, encostado ao balcão entre a sua gente, rodou ocorpo na direcção da mesa onde perorava Manuel Custódio e disse, em atitude de serenodesafio:- A diferença, senhor Manuel Custódio, entre a Monarquia que o senhor defende e aRepública que eu represento, é que hoje qualquer um pode estar aí a fazer propagandacontra o regime e no tempo do Senhor D. Carlos era comer e calar.A resposta de Manuel Custódio, passados uns momentos de silêncio de duelo,haveria de correr célere no dia seguinte, pelas boticas e cafés de Estremoz, daí chegando aoutros lugares do Alentejo. Contou-se, então, que ele se levantou, muito hirto, deu-sevagares a pegar na bengala e a largar uns cobres sobre a mesa para pagar a despesa, a fazerum gesto circular de despedida para os seus, antes de avançar em direcção à saída e parardois passos à frente do presidente da Câmara e calmamente encarar com ele:- Não. A diferença é que dantes os burros não falavam e muito menos governavam.E o país agradecia.A República parecia, de facto, perdida e à deriva. O poder autocrático e distante dosúltimos tempos da Monarquia fora substituído por um poder dissoluto, deli-quescente, queparecia sem rumo. A aristocracia caduca e inculta dera lugar a uma pequena-burguesia ávidade acreditação social e de importância pública. Aos marqueses de berço e aos condes deocasião dos saldos finais da Monarquia, tinham-se sucedido os maçons, os comercianteslisboetas, os banqueiros em ascensão, os funcionários da província, os jornalistas
  29. 29. panfletários, os intelectuais auto-designados. O Estado, que confiscara os bens da Igreja eos dos aristocratas exilados, abandonara à sua sorte as colónias de África por absolutaincapacidade de gestão e arruinara-se na aventura militar da Flandres, onde o CorpoExpedicionário Português fora dizimado em dois dias de Abril de 1918, sacrificado à maisimbecil estratégia militar de todos os tempos - a chamada “guerra das trincheiras” - e ànecessidade diplomática de restabelecer boas relações com a antiquíssima e “fiel aliada”Inglaterra, de modo a que o Império Português de África pudesse continuar eternamente -adormecido e abandonado, decerto, mas português de jure.A República falhara rotundamente na sua tentativa de levar a instrução e o“progresso” a todas as freguesias do país. Um Portugal profundo e obscuro, fechado sobresi mesmo e desconfiado de tudo o que lhe parecia estranho ou alheio, resistia a cadatentativa de reforma, a cada apelo cívico à “cidadania”, e ignorava por completo asvantagens da “civilização das luzes” sobre as antiquíssimas trevas em que se habituara aviver. Pelo contrário, desde há uns anos que não parava de crescer o número dos que,todos os meses de Maio, seguiam em romaria até à aldeia estremenha de Fátima, onde umaabsurda crença popular pretendia que Nossa Senhora tinha aparecido a três jovensmiseráveis pastores, flutuando sobre uma azinheira e prometendo “a salvação de Portugal”e “a conversão” da nascente Rússia bolchevique.Fora alguns restritos círculos político-intelectuais da capital ou do Porto, ignotastertúlias de cidades do interior e alguma oficialidade dos destacamentos militares aísediados, nenhuns outros portugueses seguiam com atenção ou sequer entendiam osfloreados absurdos dos discursos dos deputados que supostamente os representavam noParlamento de Lisboa ou a grandiosidade oca dos debates que aí ocorriam. Nessa derivasem sentido em que o regime se consumia, homens-bons da província, como ManuelCustódio, homens anti-regime, capazes de argumentar com uma linguagem chã e em nomede valores tão retrógrados quanto familiares, não apenas mantinham o seu espaço deinfluência, como crescentemente eram ouvidos como se deles viesse a única e segurasabedoria: a da continuidade das coisas, a da imutabilidade das verdades de sempre.Todas as sextas-feiras, Manuel Custódio instituíra o ritual de receber alguns amigospara jantar em Valmonte e discutirem política. O grupo permanente incluía sempre o juizAntónio Sacramento, vizinho de propriedades e companheiro de caça ou de excursões aSevilha, que agora era já desembargador na Relação de Évora. Vinha no seu Ford T (preto,obviamente, como o próprio Ford determnnara: “podem escolher qualquer cor desde queseja o preto”) passar o fim-de-semana à sua herdade de Estremoz, começando as folgaspelo jantar habitual das sextas-feiras em Valmonte. Aos cinquenta anos de idade, o
  30. 30. desembargador mantinha-se ainda solteiro, demasiado habituado às espanholas” oudemasiado treinado na linguagem dos códigos jurídicos para ser já capaz de algumaconversa de aproximação com uma senhora disponível e que para aí estivesse virada. Paragrande desgosto e alguma irritação de Manuel Custódio, o dr. Sacramento, que nunca fora,a bem dizer, um monárquico muito convicto, fora-se tornando aos poucos um republicanoinspirado nas ideias da “igualdade”, das “luzes”, da “cidadania”, e outras coisas que, para oseu amigo, não passavam de perigosas utopias de “bem pensantes”. Todavia, ManuelCustódio admirava o juiz, a sua vontade de não ter querido limi-tar-se a ser mais umlatifundiário alentejano, por berço e herança - antes arranjando profissão e vocação própria.Admirava a sua cultura e o seu jeito natural para a caça e outros desportos masculinos. Egostava, claro, do confronto político com ele, do prazer daquelas discussões de sexta-feira ànoite.Os outros parceiros fixos dessas tertúlias gastronómico-políticas incluíamnormalmente o Joaquim da Vila, abastado comerciante local e também companheiro decaça, o proprietário da farmácia da vila, Filinto Paz, um proto-imbecil sentencioso, se bemque sempre simpático e prestável, espécie de fiel da balança das discussões, por vezesacompanhado da sua horrenda e idiotíssima mulher, D. Conceição, e o padre JúlioBenfeitor, prior da igreja e paróquia de S. Sebastião, autêntica caricatura viva do padre deprovíncia demonizado pelos republicanos: gordo, suado e acomodado, capaz de venderuma indulgência plenária em troca de um bom convite para jantar e fatalmente subservienteperante o senhor D. Manuel Custódio e as suas, por vezes, vulcânicas opiniões. Mas nãoera estúpido, o padre Júlio: tratava apenas de sobreviver, num tempo difícil para apadragem, quando, poucos anos atrás ainda, os maçons procuravam padres, comoratazanas, nos esgotos de Lisboa, os perseguiam, prendiam, arrastavam pelas ruas e, àsvezes até, permitiam que a populaça os açoitasse ou matasse de pancada.O padre Júlio não esquecia que mesmo um homem culto e católico, como RaulBrandão, dividira os padres em duas categorias: o “ateu” e o “devasso”. O primeiro era “opadre banal e charro”, que despachava, com a fé de um amanuense, confissões e missas,casamentos, baptizados e extrema-unções; o segundo era “o padre eleiçoeiro, o padrejanota, mamando charutos à porta das tabacarias, o padre intriguista, fazendo cerco àsviúvas ricas, por vezes amigado, criando mulheres e filhos, jogadores correndo as feiras,bêbados e devassos”. A custo, Raul Brandão reconhecia ainda a existência de uma terceira eexcepcional categoria de padres que não se integrava nas duas anteriores, e, a custo, o padreJúlio tentava passar aos olhos da sua freguesia por uma raridade pertencente a essa terceiracategoria. Mas os tempos não estavam fáceis, não, para os servidores do Senhor: era
  31. 31. necessário não desperdiçar a hospitalidade de casas como as da D. Maria da Glória e deManuel Custódio, e necessário também que o comum povo e os ódios anticlericais soltos ealimentados pelos republicanos e pela maçonaria não o denunciassem publicamente comoserventuário dos senhores do antigamente.- Sabe uma coisa, padre Júlio? - Manuel Custódio recostara-se para trás na cadeira, àcabeceira da mesa, visivelmente satisfeito com a cena que contemplava: os amigos estavamali reunidos, convocados pela sua hospitalidade, pelo seu gosto da discussão e da boa mesa;Maria da Glória, a sua mulher, olhava-o da outra cabeceira, a sua beleza moura impondo-seao redor, os olhos levemente esverdeados e ainda com a luz de outrora, e um sorrisoesquivo mas familiar prolongando-lhe o desenho da boca, enquanto vigiava pelo canto doolho o serviço - impecável como sempre e como só ela sabia organizar; Diogo e Pedro, osseus filhos, homens feitos ou quase feitos, cada um à sua maneira, esperavam que o paiabrisse a discussão política que antecedia invariavelmente a sobremesa, o café, o brandy eos charutos, com a atenção e o respeito de sempre; o sabor do ensopado de borrego, combatatas novas e grão, demorando-se-lhe na boca, antecedendo o pato assado com azeitonas,que era apenas um ritual para quem porventura ainda tivesse apetite ou gula; e o seu olhar,passeando-se pela magnífica sala de jantar do monte e detendo-se nos reflexos que a luz dolume vivo de azinho acendia nos azulejos moçárabes das paredes, verdes e brancos, e nodourado das panelas de cobre areado, alinhadas nas prateleiras. Cada coisa no seu sítio,tudo familiar, tudo antigo, certo, seguro, imutável.- Quer ouvir uma opinião que o vai, talvez, escandalizar, padre Júlio? Eu acho que aúnica coisa de jeito que os republicanos fizeram foi expulsar daqui os Jesuítas, tal como oMarquês de Pombal, há cento e cinquenta anos. Não fazem cá falta nenhuma!Ao padre Júlio não custava muito, também, concordar com o seu anfitrião. OsJesuítas sempre tinham adoptado uma atitude de superioridade e desdém para com o clerosecular, a que o padre Júlio pertencia. Tal como se viam a si próprios, os Jesuítas não sedeixavam confundir com o clero ignaro e boçal da província: eles consideravam-se umaelite dentro da Igreja e olhavam os padres de paróquia como uma casta acomodada eretrógrada. Não admira que, desde a sua instalação, a República tivesse feito do cleroregular, e em especial dos Jesuítas, o seu principal inimigo, procurando separá-los dorestante clero, a quem insinuava tréguas, em troca de apoio. E muitos desses pobres padresde província, como o padre Túlio, haviam visto aí uma tábua de salvação a que se tinhamagarrado com mãos ambas. Mas os republicanos não se tinham quedado por aí: depois deexpulsos os Jesuítas e praticamente proibidas as ordens, seis escassos meses após chegaremao poder, e sem sequer esperarem por uma Assembleia Constituinte, haviam feito publicar
  32. 32. a “infame” Lei da Separação do Estado das Igrejas, redigida pelo radical anticatólicoAfonso Costa, ministro da Justiça. Se, por um lado e em nome da separação, a leiexpropriava a favor do Estado quase todos os bens da Igreja Católica, incluindo asresidências dos bispos, por outro lado e em nome do princípio de dividir para reinar,prometia uma pensão do Estado aos padres que não afrontassem a República e a próprialei e que, pelo contrário, se mostrassem dispostos a não obedecer aos seus bispos. Outrasdisposições incluíam o direito de intervenção do Estado na nomeação dos membros doclero e na regulação das actividades de culto, a obrigação de os seminaristas fazerem o liceunas escolas públicas, a limitação dos actos de culto na via pública e, mesmo dentro dostemplos, só entre o nascer e o pôr do Sol, a proibição de os padres andarem vestidos comotal nas ruas e o inacreditável direito de fiscalizar as missas e demais actos de culto, atravésda presença de um “fiscal” da República. Tamanho era o intuito persecutório da lei contrauma religião que, teoricamente, era professada pela quase totalidade da populaçãoportuguesa, que o próprio Papa Pio X se apressou a publicar uma encíclica contra ela e adar instruções secretas aos bispos portugueses com vista a uma resistência clandestina,como no tempo dos primeiros cristãos de Roma. Claro que a inesperada descida da VirgemSenhora sobre a azinheira de Fátima fora, literalmente, uma bênção caída dos céus para umclero que, desde a implantação da República, em 1910, vivia acossado nos seus bens, nassuas pessoas e nos seus seculares direitos. Mas o acontecimento fora recente, as própriasexcursões anuais de fiéis a Fátima eram semiclandestinas e não havia ainda condições paracomeçar a tirar livremente partido do sinal enviado pelos céus, nos púlpitos das igrejas dopaís.E era neste quadro, de desabamento de um mundo até aí seguro e tranquilo, quegente como o padre Júlio se esforçava por sobreviver, servindo a Deus sem dar nas vistas,obediente ao novo regime na igreja e nos cafés de Estremoz, nostálgico do antigamente namesa de confiança de Manuel Custódio.- Sim, os Jesuítas não despertam muitas simpatias em ninguém... - começou a ele aconcordar, antes de se ver interrompido pelo juiz António Sacramento:- Pois eu acho exactamente o contrário: a expulsão dos Jesuítas foi um erro gratuitodos republicanos. Com o devido respeito por si, padre Júlio, o senhor pode ser tido comouma excepção. A maior parte do clero dependente dos bispos seculares representa, defacto, o ultra-montanismo católico: são reaccionários sem emenda. Os Jesuítas, ao menos,dedicavam-se ao ensino, à instrução pública, às missões nas colónias. Não ficavam aí, pelasaldeias, a fornicar e a fazer filhos sem pai às beatas de sacristia, pregando virtudes vãs,
  33. 33. enquanto enchiam a barriga do bom e do melhor e fingiam seguir os mandamentos doEvangelho.- Credo, Deus me valha, que o senhor doutor, quando solta a língua, vai mesmo dearraso! - E o padre Júlio benzeu-se, por dever de ofício, olhando o tecto de madeira da salade jantar, como se nele vislumbrasse o Céu.- Já lhe disse, padre Júlio: tome-se pela excepção e não pela regra. Mas nem DeusNosso Senhor me pode desmentir quando afirmo e sustento que, nesta terra, Ele estámuito mal servido de servidores.Credo, Deus me valha! - repetiu o padre, aproveitando para encher novo copodaquele excelente tinto da colheita do ano anterior, extraído às vinhas de xisto deValmonte.- Ó padre, não se amofine. - Manuel Custódio entrava, com verdadeiro deleite nadiscussão que iniciara, como o caçador que vê enfim ao alcance de tiro a presa que vinhaperseguindo. - O que o nosso doutor Sacramento quer, com esta absurda defesa dosJesuítas, é fazer-nos outra vez a pregação das virtudes da instrução republicana, das “luzes”,como eles dizem.- E, então, tu, porventura, és contra um país instruído?- Não, eu sou é contra um país estúpido. Contra um país que desperdiça recursos adar instrução à força a quem a não pediu, não a quer, não a entende e não sabe o que fazercom ela. Vai dar ali instrução ao meu moço de estrebaria, a ver se ele a quer para algumacoisa: vai largar o emprego que tem e onde ajuda os pais a serem menos pobres, a troco dequê - de voltar da escola para ordenhar vacas, outra vez, só que agora, em lugar de teraprendido melhor o seu ofício, aprendeu a recitar a tabuada e o abecedário enquantoordenha uma vaca?- Ó pai, francamente! - Diogo juntava-se agora à discussão, incapaz de se manteralheio. - O que está a dizer é de um reaccionarismo tão aberrante que até lhe fica mal.- Ah sim, filho, e então porquê: não temos todos o direito de ter opinião, não é issoque proclamam hoje em dia?- Sim, ninguém diz o contrário, mas não é isso que torna todas as opiniões válidas eaceitáveis...- Ouve lá! - Manuel Custódio estava a começar a irritar-se. - E quem és tu para medizeres se a minha opinião é ou não válida e aceitável? Só porque andas a estudar emLisboa já te imaginas superior intelectualmente?- Não é isso que o rapaz te está a dizer. - O dr. Sacramento acudia, em auxílio deDiogo. - E, se o mandaste estudar para Lisboa, farias bem em ouvir, de vez em quando, o
  34. 34. que ele tem para dizer. E é claro que o Diogo tem razão: é perfeitamente retrógrado e atépouco cristão defender que a instrução para todos é uma coisa inútil. O que faz a riquezadas nações não é apenas a agricultura ou o comércio que têm e as minas que possuem. Étambém a instrução do seu povo. Olha a França, a Inglaterra, a Alemanha: as nações ricassão sempre nações instruídas.- E o que fazes tu com essa instrução?, foi o que eu perguntei. Depois de saberemler, escrever e fazer contas, se calhar, até, depois de aprenderem história, geografia efrancês, os camponeses vão querer voltar para os campos e os mineiros para as minas?Quem os substitui, então?- Vão passar a fazer melhor o seu ofício, certamente. Serão também melhorescidadãos, sem dúvida. E não te preocupes porque, mesmo que eles queiram largar osempregos que tinham e subir na vida - o que é um direito seu que não podes negar-lhes -,outros haverá sempre para ocupar os seus antigos postos. Não é obrigatório ser-seanalfabeto para trabalhar a terra ou descer à mina.- Pois eu, António Sacramento, nota bem o que te vou dizer... Foi essa fé nainstrução do povo, nos direitos civis e políticos com que vocês enchem a boca, queconduziu à Rússia dos bolcheviques e há-de conduzir à desgraça da nossa terra. Nota bemo que te digo.- Não, pai! - Diogo voltava à carga, encorajado pela intervenção do juiz. - Não é aeducação nem a justiça social que conduzem à revolta, é justamente o contrário: aignorância e os abusos. Se há coisa que devemos à República é exactamente a instruçãoobrigatória para todos.- Ah, sim? E que mais lhe devemos, já agora?- A separação entre o Estado e a Igreja, apesar dos exageros e dos abusos cometidos.O registo civil, o divórcio civil para quem não é católico, o sufrágio universal, o...- Disparates! Fantasias de jacobinos ignorantes! O nosso povo é católico e há-depermanecê-lo para sempre. Em Portugal ninguém se regista sem ser baptizado, ninguém secasa para se divorciar depois, ninguém compreende que se tenha chegado ao cúmulo dequerer proibir os padres de andarem vestidos de padres nas ruas. Afinal, que liberdade éessa.- O sufrágio universal...- O sufrágio universal? Ó filho, não me venhas com o sufrágio universal, que essa atédá vontade de rir! Sabes quem é que vai ganhar as eleições parlamentares, aqui, emEstremoz? Sabes quem vai ser o próximo presidente da Câmara?- Não, não sei! - respondeu Diogo, verdadeiramente espantado com a pergunta.
  35. 35. - Pois vai ganhar quem eu disser ou quem disser aquele pateta do Joaquim Gomes, ocabo eleitoral dos republicanos em Estremoz. E só esperar para ver qual de nós os doisestá disposto a gastar mais dinheiro com a eleição e depois contam-se os votos - se nãohouver chapelada deles. Aí tens o teu sufrágio universal: o povo vota em quem lhemandarem os que ele respeita ou teme. E é assim no país inteiro!- Bem, compadre, essa não lhe fica muito bem...- Não me fica muito bem, compadre António? E não me fica muito bem, porquê?Acaso estou a dizer alguma mentira, alguma coisa que vossemecê não saiba? E assim que ascoisas acontecem e não é por acaso: porque o povo, apesar da vossa instrução para todos,direitos políticos e civis e tudo isso, não está preparado para escolher de livre vontade. E,por isso, segue aqueles que toma como uma elite: seja a velha elite, de berço e deantiguidade e respeito, seja a nova elite, autopromovida como tal, mas bem-falante e capazde enganar os tolos. Porque, por mais proclamações que façam da igualdade para todos,haverá sempre uma elite que governa e que guia e conduz os outros. E a desgraça dospovos é quando essa elite não existe ou não se assume.Pai - volveu Diogo -, não há elite alguma se o povo não a respeitar.Não, Diogo, é exactamente ao contrário: não há elite digna desse nome que não sefaça respeitar pelo povo.- E como é que se faz respeitar, pai, pelo chicote?Manuel Custódio olhou-o quase com raiva:- Olha, Diogo: dá graças a Deus por teres um pai que te está a educar para quepertenças à tal elite que, ao que parece, queres negar. À elite pertence-se, naturalmente, peloberço e, a seguir, pelo mérito e pelo exemplo. Espero bem que tu, que és tão igualitário, ovenhas a perceber por ti, porque, se o não perceberes, não vais pertencer a mundonenhum: os iguais a ti desprezar-te-ão como um renegado e os de baixo não tereconhecerão como um dos seus.Fez-se um silêncio pesado. Diogo percebeu que tinha chegado a altura de se calar. Ojuiz olhava, como que distraído, uma gravura inglesa na parede. Maria da Glória suspiroubaixinho: “Está a ficar frio.” Mas Manuel Custódio ainda não tinha acabado:- E, já agora, se queres saber, o chicote - que aqui não se usa, como bem sabes - sótem cabimento e justificação quando aquele que o usa o faz por autoridade natural, mastambém pelo mérito e pelo exemplo dados. Se, quando terminares o teu curso, mostraresaqui que aprendeste qualquer coisa que eles não sabem e que pode melhorar a exploraçãoda herdade; se deres o exemplo trabalhando e usando a favor de todos o que aprendeste,terás o respeito que te é devido e, se o não tiveres, até tens o direito ao chicote. Porque
  36. 36. deste o exemplo. Mas se, porventura, esqueceres tudo o que a tua mãe e eu te ensinámos, ese só quiseres ser um desses filhos-família que vivem a derreter o dinheiro e as terras queherdaram de gerações de gente honesta, nesse caso, não terás o respeito de ninguém, acomeçar por mim. Diz-me, diz-me tu, António Sacramento, que és homem de leis e dejustiça: o que tem isto de errado? Qual é a alternativa a uma sociedade sem uma elite demérito?- É isso mesmo, pai! - E todos se viraram para de onde vinham estas palavras: paraPedro, que olhava o pai com os olhos brilhantes de admiração.
  37. 37. IIIManuel Custódio viria a morrer quatro anos depois, em 1925, exactamente um anoantes de ter podido assistir ao triunfo de um golpe militar que instauraria em Portugal umaditadura retrógrada e tradicionalista, ao gosto daquilo que pregava e com queaparentemente sonhava. Ou talvez não: porque, daí em diante, os que pensavam como eleviriam a reduzir todos os outros ao silêncio e nunca lhe teria sido possível continuar asdiscussões políticas com os adversários, tão do seu agrado.Mas morreu tal como secretamente sempre desejara - se é que alguma vez desejoumesmo encarar de frente a ideia da morte, coisa de que Maria da Glória nunca o ouviu falare nunca suspeitou que sequer lhe ocorresse. Teve morte de caçador, num dia em que saírapara caçar galinholas, a sua caça favorita, acompanhado pelo seu braque, o Campeão, pelosdois filhos e pelo feitor da herdade, o Tomé da Amieira. Caçavam num terreno “sujo” edifícil, um entranhado de silvados e arbustos altos, onde a custo ele se embrenhava,arranhado nos braços e na cara e mantendo a espingarda ao alto, por cima da vegetação.Extenuado, tinha acabado de chegar ao cimo de um cerro íngreme, quando ouviu o ligeirosilvo da galinhola, levantando do chão onde estava oculta e partindo disparada, no seucaracterístico voo aos ziguezagues por entre as árvores, tornando quase impossível um tirocerteiro. Mas, apesar do cansaço, ele reagiu rápido e por instinto: apontou, meteu-a emmira, calculou numa fracção de segundo a sua trajectória, “correu a mão” para diante edisparou para um ponto à frente dela. Fulminada, a ave caiu “seca” e, no mesmo instante, oCampeão lançou-se para a cobrança.E foi aí, no alto desse cabeço, que Diogo foi o primeiro a dar com o pai, minutosdecorridos. Manuel Custódio jazia de joelhos, com a espingarda caída à sua frente e acabeça apoiada na terra, em estranho equilíbrio. Junto a ele, o Campeão gania baixinho, agalinhola morta a seus pés, e com a língua lambendo suavemente a nuca do dono. Diogogritou “pai!”, sabendo de antemão que nenhuma resposta teria. Ajoelhou-se também ao seulado e levantou-lhe a cabeça com ternura, vendo que da boca aberta lhe escorria umaespuma que se misturava com a terra que ele engolira ao ajoelhar, ferido de morte: morreraa comer a terra de Valmonte, fulminado no coração, ajoelhado num gesto de humildadeperante a morte que ninguém jamais lhe vira em vida.
  38. 38. Ali os encontrou Pedro, passados uns minutos, quando assomou por sua vez ao altodo cabeço: Diogo estava sentado sobre o resto de um tronco de árvore, ao rés do chão,segurando o pai nos seus braços, como uma Madona segurando o corpo do Cristo morto.Manuel Custódio jazia de cabeça pendente sobre o ombro do filho, o corpo torcido numaposição absurda e a sua bela cabeleira negra ponteada de fios brancos, que tanto desvelo eorgulho lhe dava, caída em desalinho sobre a cara suja de terra. Pedro estava ainda à beirade fazer vinte anos - menos cinco do que Diogo, que regressara já definitivamente deLisboa e da Universidade, com o título de engenheiro agrónomo no bolso e o destino demorgado de Valmonte à sua espera. Mas, enquanto que Diogo ficou paralisado pela cena àsua frente e pela dimensão da tragédia de que começava a tomar consciência, Pedro reagiu,num tom calmo e de comando que Diogo lhe não conhecia e a que instintivamente sesentiu obrigado a obedecer.- O pai morreu, Diogo. Um ataque de coração fulminante: não deve ter tido tempopara perceber nem para sentir nada. Olha, matou esta galinhola antes de morrer: em cheiono peito! Vai lá abaixo dizer à mãe e manda subir uma carrinha para o transportarmos.Diogo chegou a casa sem fôlego pela corrida, as pernas trementes pelo choque.“Como hei-de dizer à mãe que o pai morreu?”Maria da Glória estava na sua pequena salinha de passagem entre a sala de jantar e osalão, com duas janelas abertas sobre o pomar de limoeiros das traseiras da casa, onde tantogostava de passar os tempos livres da hde doméstica -no Verão de janelas abertas sobre oPomar, no Inverno com a pequena lareira acesa e ela sentada numa pequena mesa emfrente do lume. Mas, nesse momento, estava em pé, a folhear uns papéis pousados sobre acómoda que lhe servia de arquivo. Olhou o filho Pahdo e afogueado e percebeu logo quealguma coisa de grave se tinha passado. Mas não se descontrolou - “o que tiver de vir,virá”, era o seu lema de vida, desde sempre.- Filho, o que foi? Senta-te aí, bebe um copo de água. Lurdes - gritou em direcção àcozinha -, traz-me um copo de água para o menino Diogo! Rápido!Diogo deixou-se cair sobre o sofá junto à lareira, olhando a mãe. Gostaria deconseguir chorar para a ocasião, mas não lhe chegavam lágrimas aos olhos. Só então lheocorreu - talvez pela primeira vez na sua vida de filho - que o pai era também o marido dasua mãe. O homem dela.- Mãe, aconteceu uma desgraça...- O teu irmão...?- Não, mãe. O pai...
  39. 39. Maria da Glória respirou fundo. Nunca estaria preparada para a morte de um filho.Nunca. Sabia de certeza que não seria capaz de sobreviver a uma notícia dessas. E à mortedo marido, seria capaz?- Diz, filho.Lurdes trouxe o copo de água. Diogo agarrou nele com ambas as mãos e bebeu umgole profundo, antes de se voltar de novo para a mãe.- Está morto, mãe. Morreu naquele cerro alto, junto à mata do Evaristo, depois deter morto uma galinhola. Está lá o Pedro com ele...- Morreu como, Diogo?A voz da mãe soou-lhe agora de uma inesperada dureza, quase como se o culpasse aele pela morte do pai. Ele estremeceu e a resposta saiu-lhe murmurada:- De coração, mãe. Deve ter sido: demos com ele já morto, tombado no chão.De facto, Manuel Custódio não morrera tombado no chão, mas sim ajoelhado, e foraapenas ele que dera com o pai morto. Movido por um instinto de auto-protecção absurdo,ele não foi capaz de contar à mãe exactamente como as coisas se tinham passado. Talveztemendo que ela virasse a sua ira contra o mensageiro e não contra a mensagem.Ela tinha assim quarenta e quatro anos quando o marido lhe morreu - sem aviso nemrazão, nem mesmo idade adequada para tal. Vinte e seis anos casada com ele, dia por dia,noite por noite, sempre junto e disponível para aquele homem que agora lhe morrera,sepultando com ele o seu absurdo e inconfessado desejo de ainda vir a ser mãe mais umavez. Ainda tinha regras, ainda (mesmo que olhasse bem para os seus filhos já feitoshomens) se sentia mulher e não viúva. “Eis como as coisas podem ser irónicas!”, pensoupara consigo. A maior parte ou quase todas as mulheres da sua idade que conhecia, hámuito que tinham desistido da sua feminilidade, como se fosse assunto encerrado.Dedicavam-se aos filhos ou aos netos, dormiam em quartos separados dos maridos e atémesmo, quando em conversa entre elas se referiam à sua vida sexual, em tom deconfidência cómico-trágica, não era raro que exclamassem qualquer coisa como“felizmente, ele resolveu dar-me tréguas definitivas já há um tempo!”. Ela, porém, não.Mesmo então, contemplando o corpo frio do seu homem, não conseguiu deixar desentir também uma imensa pena de si própria. Chorou por dentro, enquanto à sua roda asamigas, as tias, as vizinhas ou as simples intrusas choravam alto e bem à vista de todos. Ela,se chorava, era em seco - tal como os seus dois filhos, verdadeiros Ribera Flores,verdadeiros filhos de um pai que lhes ensinara em pequenos, para valer toda a vida, que“um homem não chora”. Mas, por dentro, Maria da Glória chorava. Chorava coisasinconfessáveis talvez, coisas que não confiaria a ninguém, nem sequer ao marido agora
  40. 40. morto e que enfim, quem sabe, talvez pudesse escutar-lhe os pensamentos, bem mais ebem melhor do que alguma vez escutara em vida. Chorava por si própria. Pelo filho que jánão teria, pela mulher casada que já não seria mais, pelo lugar definitivamente ausente dohomem que já não teria mais à mesa, na casa, na cama, na vida - no bem e no mal, na saúdee na doença, na felicidade e na tristeza, tal como se haviam jurado há tanto tempo atrás, nacapela de Valmonte. Junto ao corpo do morto, chorava o seu próprio corpo, que via aoespelho ainda jovem e apetecível, em que as ancas não haviam arredondadodesproporcionadamente com os partos, o peito não descaíra como se fosse velha, as pernasnão tinham perdido a sua rigidez de sempre, o pescoço não ganhara rugas, nem as costasacumulavam cansaços incuráveis. Chorava essa súbita inutilidade das coisas, como essecorpo ainda vivo, os seus vestidos de cores alegres de que tanto gostava para semprearrumados na naftalina dos armários à espera de noras ou netas, o cuidado com que sepreparava para os jantares, para a missa de domingo na vila, para receber os amigos domarido, para o baile anual de Ano Novo do Clube de Estremoz, as festas de família ou dosamigos, esse prazer para sempre perdido que era o de ver como o olhar apreciador deManuel Custódio, todavia tão pouco dado a galanterias, a acolhia quando aparecia arranjadapara jantar ou para sair. E, sim, chorava a sepultura em vida do seu desejo de fêmea aindadesperto e por saciar. “O que vier, virá...”A vida em Valmonte mudou quase da noite para o dia. A casa estava agora maissilenciosa, sem o som da voz poderosa de Manuel Custódio, dando ordens ou chamandopela mulher ou os filhos, e o das suas passadas largas no soalho de madeira dos corredorese salas. A sua ausência viera juntar-se quase logo a de Diogo, que agora passava largastemporadas em Lisboa, parecendo descobrir na cidade um encanto que nunca lhe haviamdespertado os anos de estudante que lá vivera. Mas agora era diferente: já não ficava emcasa dos tios maternos que o haviam acolhido antes, mas sim no Hotel Avenida Palace, naesquina entre a Avenida da Liberdade e a estação de comboios do Rossio. Os empregadostratavam-no por “senhor engenheiro” e ele experimentava um vivo prazer pela vida dehóspede. Gostava do pequeno-almoço no quarto, do primeiro charuto do dia fumadonuma poltrona de couro da sala de espelhos, lendo a imprensa da manhã. Gostava do arsolene com que lhe entregavam a correspondência ou os recados na recepção, quando aofim do dia regressava para se mudar para o jantar. Raramente lá almoçava, mas, emcontrapartida e a menos que tivesse algum convite ou algum jantar de amigos combinado,do que mais gostava era de ficar no restaurante do hotel, de largas janelas rasgadas sobre aAvenida da Liberdade e ainda iluminado a velas por estrita vontade da gerência. Nem seimportava nada de jantar sozinho, se assim calhasse, com o som do pianista do restaurante
  41. 41. em fundo, distraindo-se a observar discretamente os restantes hóspedes, em particular osestrangeiros, e a imaginar o que seriam as suas vidas e que facto relevante os teria trazidoaté ali. Tornou-se um conhecedor e um apreciador do serviço do restaurante, da suaexcelente garrafeira e dos seus pratos de referência - os hors-doeuvres, os ovos mexidoscom espargos verdes, o foie gras trufado, o rodovalho assado no forno com tomate farei, oempadão de lebre ou o pato estufado com azeitonas. E também ele se foi tornandoconhecido dos empregados: os seus gostos, as suas preferências, os seus hábitos, as suasmanias. O café era sempre servido na salinha de leitura e nunca à mesa, o conhaque tinhade vir acompanhado por um copo de água e a caixa de charutos escusava de lhe serapresentada juntamente com um cortador porque ele gostava de os abrir com os dentes,trincando a ponta. E eram essas pequenas coisas, essas atenções, essas comodidades que odinheiro comprava, que lhe tornavam tão agradável a vida de hotel.Outras coisas, também, tinham mudado na vida de Diogo. Comprara um automóvel,um Panbard de 1924, com 72 cavalos de potência, dois lugares e cor azul berrante. Vinhade Estremoz para Lisboa sozinho no Panhard, de janela aberta e atento ao caminho,através de uma estrada que começava por ser de terra e gravilha, depois passava a vestígiosde alcatrão sobre a terra (o “maquedame”, como lhe chamavam os alentejanos), e sópróximo do Tejo, já com Lisboa à vista, se transformava em estrada asfaltada. Adoravaconduzir, adorava a sensação de liberdade e de viagem que o automóvel lhe dava, etambém o fascinava a máquina em si - o seu motor, que estudara ao pormenor, o chassis, acoluna de direcção, os travões de disco dianteiros, a direcção de cremalheira, as molas dasuspensão e todos os acessórios interiores. Tornara-se um especialista em mecânicaautomóvel e, quando em Estremoz, passava horas perdidas na Garage Auto-Estremoz, àconversa com o mecânico Joaquim Manuel, vendo-o mexer nos motores e discutindo comele cambotas, pistões e carburadores. Assinava a revista inglesa do Royal Automobile Club,que depois oferecia ao Joaquim Manuel, e assim se mantinha actualizado sobre asconstantes novidades que a todo o tempo iam aparecendo nesse fascinante mundoemergente dos automóveis.Mas os automóveis e as cada vez mais prolongadas e agradáveis estadas no HotelAvenida Palace não esgotavam os seus novos interesses, que o mantinham tanto tempoafastado de Valmonte. A morte do pai, de certo modo, libertara-o de uma vida que anteslhe parecera programada e sem desvio possível: estava destinado a ser o morgado daherdade, a ali viver e ali pôr em prática, ao serviço da herdade e da família, osconhecimentos de Agronomia para que fora despachado quatro anos para Lisboa a fim deaprender. Agora, liberto da presença tutelar e absorvente do pai, tendo tomado posse do
  42. 42. dinheiro que lhe coubera em herança, Diogo sentia, pela primeira vez na vida, que esta lhepertencia. Havia um novo espaço, um novo horizonte, uma nova liberdade à sua frente eele montava no seu Panbard e fazia-se ao caminho, ao seu encontro.Desgraçadamente, a sua nova liberdade coincidiu com a morte da liberdade no país.Em Maio de 1926, um obscuro general comandando um quartel de Braga, no extremonorte de Portugal, sublevou-se contra o governo da República e veio por aí abaixo,arregimentando à passagem a soldadesca dos quartéis ociosos da província, até instalar assuas tropas no Terreiro do Paço, em Lisboa, inaugurando um novo regime a que viriamdepois a chamar Estado Novo, muito embora a sua difusa filosofia política, baseada numnacionalismo pacóvio e num autoritarismo primário, fosse tão velha quanto os mais velhosvícios do país. E aí, sem que Diogo, então à beira de fazer vinte e seis anos, o pudesseadivinhar, acabou para sempre, no tempo da sua vida, a liberdade em Portugal.A Ditadura Nacional era um movimento militar, ainda sem líderes políticos civis. Oque unira os cabecilhas que haviam derrubado a República democrática era uma confusaideologia que tinha a seu favor um programa político a que grande parte dos portuguesesera perigosamente sensível, após dezasseis anos de desordem instaurada, de caudilhismopartidário e de arrogância larvar dos vates da República: a restauração da “Ordem Pública”.Fosse isso o que fosse ao certo, alguns sectores agarraram de imediato a oportunidade deaderirem, em nome da “salvação da Pátria”: os grandes capitalistas que outrora tinhammantido cativa a Monarquia, trocando créditos à Casa Real por concessões de monopóliose oportunidades de negócio nas colónias de África; a Igreja Católica, que fora despojada degrande parte dos seus privilégios, humilhada e forçada a esconder-se ou exilar-se; e bemassim uma certa pequena-burguesia, provinciana ou citadina, que se habituara a viverparedes meias com a padralhada e que, acima de tudo, preservava a ordem e a continuidadedas coisas e temia a emergência do anticristo e dos bolcheviques - que, embora soubessedistantes, lá nas terras brancas da Rússia, sabia também, por instinto de classe, ser um malescondido e expansivo, como um vírus em incubação; e, finalmente, como não poderiadeixar de ser, os grandes terratenentes - aristocratas semiarruinados das quintas vinhateirasdo Norte, para quem a manutenção do próprio estatuto de nobreza de que se reclamavamse confundia com a viabilidade económica dos seus domínios de sempre, ou oslatifundiários das grandes propriedades do Sul, que pareciam para sempre adormecidospelo calor abrasivo dos estios na planície e pelos rendimentos certos que assegurava umamão-de-obra extensa, dócil e miseravelmente paga. Todos eles confiavam na DitaduraNacional, não apenas para repor a “ordem pública”, mas, antes de mais, a ordem naturaldas coisas. A ordem de sempre. A que fizera “o esplendor de Portugal”, isto é, a que nos

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