SUMÁRIO
Introdução ................................................................................................5
Capít...
4

Novo Rural
Intr odução

A partir de meados dos anos 80, assistimos ao
surgimento de uma nova conformação do meio rural
brasileiro, a ...
integrar verdadeiras cadeias produtivas, envolvendo, na maioria dos casos, não
apenas transformações agro-industriais, mas...
Capítulo 1
A Continuidade da Modernização
Agropecuária

A partir dos anos 60, o Brasil começou a experimentar uma profunda...
Nos anos 90, esse processo não foi diferente. A
modernização brasileira seguiu seu curso, incorporando
tecnologias cada ve...
Porém, as restrições no mercado interno, associ- 7. São os critérios adotados pelo
PRONAF para financiamento
adas aos baix...
representarem 63% dos estabelecimentos do Paraná em
1995/96, respondiam por apenas 18% do valor bruto
da produção. Em outr...
ços dos produtos agropecuários; a elevação dos custos
do trabalho e do crédito rural e a redução do ritmo de
inovação no s...
mais qualquer subsídio na medida em que se tornou pós-fixado com correção
monetária integral, desde meados dos anos 80. Re...
Capítulo 2
A Novidade na Modernização:
A Terceirização

Nos países mais desenvolvidos é visível o crescimento de um novo p...
a oportunidade de uso de tecnologias modernas para
milhares de produtores que não poderiam adquirir
um equipamento mais so...
Tabela 01. Distribuição dos estabelecimentos agropecuários, área total,
eqüivalente-homem (EH) e valor bruto da produção v...
Com o progresso técnico têm-se ampliado os
intervalos de tempo entre as operações agrícolas, ou
os períodos de inatividade...
conceitual, não corrigida plenamente19, e em 1999 tem-se uma suave recuperação
do número de pessoas ocupadas na agricultur...
Mas quanto aos filhos, esse contigente vem sofrendo uma forte redução: quase 700 mil filhos e 200
mil filhas de agricultor...
gem então os estabelecimentos part-time farmer, que pode ser traduzido como
agricultores em tempo parcial.
Essa combinação...
20

Novo Rural
Capítulo 3
Novas Atividades

A modernização não avançou somente no sentido de simplificar a base técnica na produção de
co...
Piscicultura
Essa atividade talvez seja o melhor exemplo da nova ruralidade no Brasil.
Assistimos na última década a uma e...
inverno – entre outros). O maior estímulo dos pesqueiros é a possibilidade de
gerar uma receita para os proprietários, às ...
Não somente os piscicultores de crescimento e engorda de peixes são estimulados. Os produtores de alevinos para os piscicu...
Produção de minhocas para pescaria

No mesma linha está a produção de varas para pescar. Ao chegar ao pesqueiro, o cliente...
Se os encadeamentos ligados à pesca já impressionam, os relativos ao setor de serviços também não ficam
atrás. Refrigerant...
Também pelo lado do processamento industrial, a piscicultura pode converter-se em importante atividade rural e fonte de re...
Vários governos municipais e estaduais, e o próprio governo federal, têm lançado programas específicos de agroindustrializ...
criadouros. As aves de corte são comercializadas em
supermercados e restaurantes, além da agroindústria
– como a Perdigão,...
dores dos mais variados tipos de canários que acontecem por todo o País, nas quais alguns exemplares chegam a valer muito ...
que as principais empresas envolvidas já estão partindo para a produção integrada (ou semi-integrada),
nos mesmos moldes d...
Ainda no Paraná, a carne de coelhos já ocupa espaço importante nas gôndolas
de grandes redes de supermercados. O encadeame...
Produção de ervas aromáticas e medicinais

Produção orgânica para mercado
internacional diferenciado
Procurando conquistar...
diferencial de competitividade desses produtos.
Uma curiosidade é que a certificação de produtos abriu um amplo leque de
a...
grande expansão das redes de fast-food tem um impacto significativo no consumo de produtos da
agroindústria alimentícia (p...
Floricultura e mudas
de plantas ornamentais
Com mercado consumidor em expansão, a floricultura, além de propiciar melhor r...
Fruticultura de mesa e
produção de sucos naturais e
polpa de fruta congelada
A fruticultura no Brasil ainda tem grande pot...
produtiva, estimulado pela empresa M. Chandon,
no cultivo da uva em algumas regiões produtoras
no sul do País, com o uso d...
Paulo, que produzia madeira tratada de eucaliptus,
encontrou na produção de sementes de cogumelos
(os esporos são inoculad...
Leilões e exposições
agropecuárias
As entidades ligadas ao setor estimam que os leilões – especialmente de cavalos e de ga...
tos de rodeio do mundo, movimenta anualmente cerca de US$ 120 milhões, mais do que os US$ 45 milhões movimentados pelo car...
É difícil ainda estimar o peso econômico dessas "novas" atividades agrícolas e não-agrícolas. Mas apenas para dar uma idéi...
Turismo Rural
O turismo é uma das atividades que mais crescem no mundo, e o segmento do turismo rural está
entre elas, com...
nos e as colheitas. As pessoas que procuram esse tipo
de hotel não fazem tanta questão do conforto, mas a
autenticidade de...
gião do segundo planalto paranaense era caminho das tropas que saíam do Rio
Grande do Sul em direção principalmente a São ...
dalidades, como os já conhecidos passeios de barco
nas cidades de Barra Bonita e Pederneiras42.

Estação de Lazer Salto Ba...
Utilizou-se o termo "novas" entre aspas porque
nem todas estas atividades são tão novas assim. Na
verdade, sempre existiu ...
sar no treadmill45 tecnológico da Revolução Verde. A
pluriatividade daí resultante é conseqüência desse esforço de diversi...
plexo sistema de serviços que delimitam nichos específicos. Na maioria das vezes, além das costumeiras transformações agro...
50

Novo Rural
Glossário dos termos utilizados neste volume
Cadeia Produtiva: conjunto das atividades econômicas ligadas a um determinado...
Novo Rural: conjunto das atividades agrícolas, ligadas tanto à produção
em grande escala para a agroindústria como para pe...
garantir a representatividade de toda a população. A única limitação importante
da PNAD é que ela não realiza sua pesquisa...
Upcoming SlideShare
Loading in …5
×

Novo rural vol i

871 views

Published on

0 Comments
0 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

No Downloads
Views
Total views
871
On SlideShare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
1
Actions
Shares
0
Downloads
2
Comments
0
Likes
0
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Novo rural vol i

  1. 1. SUMÁRIO Introdução ................................................................................................5 Capítulo 1 ................................................................................................7 A Continuidade da Modernização Agropecuária ......................................... 7 Capítulo 2 ................................................................................................ 13 A Novidade na Modernização: A Terceirização .......................................... 13 Capítulo 3 ..............................................................................................21 Novas Atividades....................................................................................... 21 Glossário dos termos utilizados ................................................................. 51 Uma Abordagem Ilustrada 3
  2. 2. 4 Novo Rural
  3. 3. Intr odução A partir de meados dos anos 80, assistimos ao surgimento de uma nova conformação do meio rural brasileiro, a exemplo do que já ocorre há tempos nos países desenvolvidos1. Esse "Novo Rural" como vem sendo denominado, compõe-se basicamente de três grandes grupos de atividades: 1. Uma agropecuária moderna, baseada em commodities e intimamente ligada às agroindústrias; 2. Um conjunto de atividades não-agrícolas, ligadas à moradia, ao lazer e a várias atividades industriais e de prestação de serviços; 3. Um conjunto de "novas" atividades agropecuárias, localizadas em nichos especiais de mercados. O termo "novas" foi colocado entre aspas porque muitas dessas atividades, na verdade, são seculares no País, mas não tinham, até recentemente, importância econômica. Eram atividades de "fundo de quintal", hobbies pessoais ou pequenos negócios agropecuários intensivos (piscicultura, horticultura, floricultura, fruticultura de mesa, criação de pequenos animais etc.), que foram transformados em importantes alternativas de emprego e renda no meio rural nos anos mais recentes. Muitas dessas atividades, antes pouco valorizadas e dispersas, passaram a Uma Abordagem Ilustrada 1. Texto baseado na palestra eletrônica "O Novo Rural Brasileiro", Graziano da Silva, J. e Del Grossi, M.E. Fundação Lyndolpho Silva/BNAF (www.bnaf.org.br; palestra 11) 5
  4. 4. integrar verdadeiras cadeias produtivas, envolvendo, na maioria dos casos, não apenas transformações agro-industriais, mas também serviços pessoais e produtivos relativamente complexos e sofisticados nos ramos da distribuição, comunicações e embalagens. Tal valorização também ocorre com as atividades rurais não-agrícolas derivadas da crescente urbanização do meio rural (moradia, turismo, lazer e prestação de serviços) e com as atividades decorrentes da preservação do meio ambiente, além de um amplo conjunto de atividades de "nichos de mercado". A figura 1 que apresentamos a seguir procura ilustrar essa situação que acabamos de descrever: um espaço rural penetrado pelo mundo urbano com velhos e novos personagens, como os neo-rurais (profissionais liberais e outros ex-habitantes da cidade que passaram a residir no campo) ao lado dos assentados (ex-sem-terra) e daqueles que temos denominado sem-sem (sem terra e sem emprego e quase sempre também sem casa, sem saúde, sem educação e, principalmente, sem organização). É desse conjunto de transformações que estão ocorrendo no meio rural que trata este livro, o qual procura ilustrar essas transformações. Para isso, dividimo-lo em 7 capítulos. Os capítulos 1 e 2 mostram a continuidade da modernização tecnológica e seus impactos sobre a nova ruralidade. O capítulo 3 apresenta as novas atividades que estão dinamizando o espaço rural. O volume 2 desta coleção tratará das atividades não-agrícolas geradas nesse processo, e as principais conseqüências em torno das políticas de desenvolvimento rural. Não Agrícola Agrícola Urbano Rural Agribusiness Neorural Familiar Sem-Terra Sem Sem Figura 1: Novas relações e atividades no mundo rural. 6 Novo Rural
  5. 5. Capítulo 1 A Continuidade da Modernização Agropecuária A partir dos anos 60, o Brasil começou a experimentar uma profunda modernização em sua agricultura, baseada no modelo então denominado "revolução verde": sementes melhoradas que respondiam rapidamente ao uso de adubos químicos necessitavam de aplicação de agrotóxicos, e com operações geralmente mecanizadas. Na verdade, as bases para essa revolução em nossa agricultura foram lançadas nos anos 50, quando se instalaram no Brasil a maioria das indústrias produtoras de insumos para a agricultura, como as de adubos químicos, de tratores e máquinas ou de agrotóxicos. Para incentivar o uso dessas tecnologias, o Governo montou um impressionante aparato, notadamente o sistema de crédito rural. Inúmeros autores trataram dos aspectos negativos e positivos dessa modernização, sob os mais variados aspectos, que não são objetivo deste trabalho. Mas cabe destacar o êxodo rural sem antecedentes que ocorreu no País nesse período. Com o avanço da mecanização de nossas lavouras, as tarefas antes executadas por "turmas" de trabalho passavam a ser realizadas por apenas poucas pessoas, deixando desempregadas no campo milhões de pessoas, que não tinham outra opção senão as cidades. Nos anos 80, o modelo de apoio estatal começa a perder fôlego, sufocado pelas políticas mais gerais de combate à inflação. Mas, ao contrário do que se poderia se pensar, o progresso tecnológico persistiu graças aos investimentos das décadas anteriores. Nessa década tivemos o início da incorporação dos cerrados do Brasil à produção de grãos, numa base tecnológica avançada e competitiva ao nível do mercado internacional. Uma Abordagem Ilustrada 7
  6. 6. Nos anos 90, esse processo não foi diferente. A modernização brasileira seguiu seu curso, incorporando tecnologias cada vez mais sofisticadas: a prática de inseminação artificial ou mesmo a manipulação de embriões, máquinas equipadas com GPS2 e monitoradas via satélite, produtos transgênicos etc; foram sendo incorporados ao processo produtivo e se tornando peças rotineiras da nossa agricultura mais moderna. É importante observar que essas tecnologias contaram com apoio considerável dos investimentos públicos em pesquisa agropecuária no Brasil, com os investimentos semeados nos anos 70 e cujos frutos tiveram seu período de maturação nos anos 90. Não é demasiado recordar que também nesse período os investimentos públicos na pesquisa agropecuária brasileira foram sistematicamente reduzidos, e os resultados dessa defasagem tecnológica já começam hoje a se fazer sentir, principalmente entre os produtores menos favorecidos, que não conseguem se adaptar à velocidade das inovações internacionais. Essa escalada tecnológica do segmento agrícola mais moderno que ainda ocorreu nos anos 90 se refletiu no grau de competitividade internacional de nossas culturas. A despeito das barreiras tarifárias e não-tarifárias, mantidas nas negociações do GATT3 e depois na sua sucessora, a OMC4, as exportações brasileiras têm conseguido manter um nível de competitividade invejável, a exemplo do suco de laranja ou da carne de frango. Não é por menos que ano após ano o governo brasileiro vem anunciando novas safras recordes de grãos no Brasil. Esse viés exportador de nossa agricultura comercial tem sido a saída para as restrições de demanda do mercado nacional. Estudos5 apontam para uma população de 44 milhões de pessoas pobres no Brasil no ano de 1.999, ou seja, pessoas que vivem com menos de um dólar per capita/dia6 . Com esse grau de pobreza no País, reduzindo o consumo de alimentos, a saída mais fácil tem sido a busca do mercado exterior. 8 2. Equipamento que fornece, via satélite, as referências para localização e mapeamento detalhado (metro a metro) das propriedades. 3. Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio - GATT 4. Organização Mundial do Comércio - OMC 5. Takagi,M.; Graziano da Silva,J. e Del Grossi, M.E. Pobreza e fome: em busca de uma metodologia para quantificação do problema no Brasil. UNICAMP. Texto para Discussão 101 (www.eco.unicamp.br). 6. Linha de pobreza adotada pelo Banco Mundial nos estudos comparativos entre vários países. Novo Rural
  7. 7. Porém, as restrições no mercado interno, associ- 7. São os critérios adotados pelo PRONAF para financiamento adas aos baixos níveis de preços das commodities no da agricultura familiar: mercado internacional nos últimos anos, a redução contratam até 2 empregados dos investimentos em pesquisa e também a elevação permanentes nas tarefas agrícolas, área inferior a quatro do salário mínimo no Plano Real, elevando os custos módulos fiscais e valor bruto da de produção, têm resultado numa baixa remunera- produção menor que R$ ção dos principais produtos agrícolas comerciais. O 27.500,00 em 1995/96. Osde 2 estabelecimentos com mais Gráfico 1 ilustra essa situação de baixa remuneração empregados permanentes ou dos produtos agrícolas a partir do rendimento do tra- com área e renda maiores do que o padrão, são considerados balho principal das pessoas: o rendimento médio das não-familiares. Para detalhes pessoas que trabalhavam na agricultura era pelo me- sobre a tipologia veja "Tipos de nos a metade do rendimento dos que viviam de ativi- Estabelecimentos do Estado do Paraná", CD-Room/IAPAR. dades não-agrícolas. Gráfico 1: evolução do rendimento médio do trabalho principal das pessoas com domicílio rural, durante os meses de setembro, segundo o ramo de atividade. Brasil, 1992-99. 350,00 Renda Média (R$) 300,00 250,00 200,00 Agrícola Não-agrícola 150,00 100,00 50,00 0,00 1992 1993 1995 1996 1997 1998 1999 Mas esse processo não atinge da mesma forma todos os produtores. Analisando o mesmo problema com outras fontes de informações (gráfico 2), a partir do Censo Agropecuário, os dados do Paraná mostram que os estabelecimentos não-familiares7, apesar de representarem apenas 2% dos estabelecimentos, produzem pouco mais de 30% do valor bruto da produção. Já os estabelecimentos familiares8, apesar de Uma Abordagem Ilustrada 8. Os estabelecimentos familiares são os que se enquadram nos critérios do PRONAF, podendo ainda ser subdivididos em: familiar (contratam apenas mão-de-obra temporária nos picos de demanda de trabalho) e os familiares empregadores (contratam até dois empregados permanentes). 9
  8. 8. representarem 63% dos estabelecimentos do Paraná em 1995/96, respondiam por apenas 18% do valor bruto da produção. Em outras palavras, esses dados mostram que os estabelecimentos de empregadores (não familiares), possuindo maior quantidade de área e grau de tecnologia, conseguem uma margem de renda bem maior. Já os estabelecimentos familiares, produzindo para o mercado interno, com pouca área e baixa tecnologia, são os que recebem as menores remunerações. Gráfico 2: Principais tipos de estabelecimentos agropecuários do Estado do Paraná, 1995/96. 70 Participação (%) 60 50 Número 40 Área (1.000ha) 30 E.H. 20 VBPV 10 0 Familiar menor menor Familiar empregador menor menor Não Familiar maior maior Outros Fonte: CD-Rom/IAPAR9, reprocessamento do Censo Agropecuário. Ao longo dos anos 90 ampliou-se a distância entre o segmento familiar e o patronal da nossa agricultura10. Ou seja, a distância entre os proprietários familiares e os grandes empregadores da nossa agropecuária é cada vez maior; e, no meio deles, um contingente de pequenas e médias empresas familiares que empregam poucos trabalhadores permanentes, mas muitos temporários, que vinham se fortalecendo nas décadas anteriores, vêm perdendo espaço, especialmente após o Plano Real. A queda da rentabilidade se deve, em nossa opinião, a três elementos fundamentais: a queda dos pre10 9. Doretto, M.; Laurenti, A. e Del Grossi, M.E. Tipos de estabelecimentos agropecuários do Estado do Paraná, 1995-96. CD-Rom. IAPAR, 2001. No CD-Rom são explicados os conceitos “menor menor” e “maior maior” utilizados no gráfico 2. De forma simplificada “menor menor” significa que os estabelecimentos se enquadram nos critérios de definição de agricultura familiar.” 10. Para maiores detalhes veja Graziano da Silva, J. e Del Grossi, M.E. "A evolução da agricultura familiar e do agribusiness nos anos 90". IN: RATTNER, H. Brasil no limiar do século XXI. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. 2000. p.139-157. Novo Rural
  9. 9. ços dos produtos agropecuários; a elevação dos custos do trabalho e do crédito rural e a redução do ritmo de inovação no setor agropecuário. Vejamos rapidamente o papel de cada um desses elementos no processo de diferenciação social dos produtores agropecuários. Como sabemos, o Governo Collor promoveu, em 1990, uma abertura indiscriminada das importações com o objetivo de auxiliar no combate à inflação vigente. Ocorre que os preços das commodities agrícolas estão em queda há 30 anos11. O resultado foi uma internalização dos baixos preços vigentes nos mercados internacionais, os quais refletem fundamentalmente as políticas agrícolas protecionistas dos países desenvolvidos e especialmente os subsídios às exportações de produtos agrícolas praticadas pelos EUA, Canadá e CEE12. Acrescente-se ao desmonte do aparato institucional do Ministério da Agricultura e do Ministério da Indústria e Comércio que se refletiu na perda de eficácia dos principais instrumentos de política agrícola ainda vigentes no final dos anos 80, como a política de preços mínimos e dos mecanismos de regulação estatal de nossos principais produtos, como o do açúcar e álcool, do trigo e da soja, do café etc. O segundo elemento – a elevação dos custos de produção, – se deve em parte à recuperação do valor real do salário mínimo promovida a partir do Governo Itamar Franco (1992-94) que se refletiu no sistema de produção, não apenas dos grandes empregadores, mas também daquelas empresas familiares que empregam poucos trabalhadores permanentes, mas muitos temporários. Vale lembrar que o salário mínimo funciona como uma espécie de farol para os salários rurais, especialmente no caso dos trabalhadores temporários. Também contribuem para o aumento dos custos de produção as elevadas taxas de juros vigentes para o crédito em geral e, de forma específica, para o crédito rural de custeio, o qual já não embutia Uma Abordagem Ilustrada 11. Monteiro, M. J. C. Trinta anos de queda. Agroanalysis, v.18, no 2, pp. 26-31, fev. 1998. 12. É importante que se esclareça que esses subsídios às exportações foram o tema central da Rodada Uruguaia do GATT, que se arrastou pelos anos 90 e que embora esses subsídios sejam amplamente condenados por todos, seguem sendo uma das políticas mais importantes, particularmente dos Estados Unidos, que dependem dos mercados externos para realizar quase 40% de sua produção agrícola. 11
  10. 10. mais qualquer subsídio na medida em que se tornou pós-fixado com correção monetária integral, desde meados dos anos 80. Ressalte-se que o aumento dos custos de produção só não foi maior pela defasagem cambial vigente até a desvalorização do real no início de 1999, que barateava os insumos químicos, grande parte dos quais passaram a ser novamente importados com a abertura da economia em 1990, especialmente fertilizantes e defensivos. O terceiro elemento que responde pela queda da rentabilidade da produção agrícola é o arrefecimento do ritmo de inovação da nossa agropecuária no final do século. Alguns querem ver aí um certo esgotamento do padrão de modernização da agricultura, baseado no cultivo intensivo apoiado na mecanização e no uso de insumos químicos. Mas todos concordam que a queda dos recursos públicos para a pesquisa agropecuária, o desmantelamento das agências estatais de assistência técnica e extensão rural foram fundamentais para a redução do ritmo de inovação, especialmente dos pequenos produtores que não conseguiram ter acesso a novas tecnologias por mecanismos privados. Resumindo, a conjugação desses três elementos – a queda dos preços dos produtos agropecuários; a elevação dos custos do trabalho e do crédito; e a redução do ritmo de inovação no setor agropecuário – resultaram numa sensível queda da renda proveniente das atividades agropecuárias. E isso vem se refletindo de maneira muito diferente entre os vários tipos de produtores, familiares e patronais, grandes e pequenos. 12 Novo Rural
  11. 11. Capítulo 2 A Novidade na Modernização: A Terceirização Nos países mais desenvolvidos é visível o crescimento de um novo paradigma13 técnico-produtivo, também chamado pós-industrial, demarcado pela elevação do conteúdo tecnológico e pela redução no tamanho das plantas industriais, e conseqüente queda relativa dos empregos no setor industrial da economia. Assiste-se ainda à proliferação de empresas prestadoras de serviços técnico-produtivos especializados por toda a economia14. Transformações semelhantes vêm ocorrendo em nossa agropecuária nas últimas décadas. Com a escalada tecnológica das máquinas e equipamentos, comprar a tecnologia de ponta pode ser um investimento muito alto para os produtores. A opção do aluguel de máquinas e equipamentos, ou a contratação temporária de serviços especializados, como a manipulação de embriões, tratos culturais nas lavouras, etc., pode ser mais interessante para o produtor15. Os ônus do equipamento parado após a execução da tarefa, da manutenção, da atualização tecnológica da máquina e da sua utilização ficam por conta da firma contratada. Mais que isso, a possibilidade de terceirização dos serviços agropecuários abre Uma Abordagem Ilustrada 13. Corresponde ao novo modelo de produção, baseado fortemente em tecnologias de informação. 14. Tais mudanças já são sentidas no Brasil, particularmente com a queda do emprego industrial e o crescimento do setor terciário. Porém, apesar de as empresas prestadoras de serviços tecnológicos e produtivos também crescerem, o grande contingente dos trabalhadores do setor terciário está ocupado em serviços pessoais. 15. Baseado em Laurenti: Terceirização na produção agrícola – a dissociação entre a propriedade e o uso dos instrumentos de trabalho na moderna produção agrícola paranaense. IAPAR-IICA/ PROCODER, 2000, 201p. 13
  12. 12. a oportunidade de uso de tecnologias modernas para milhares de produtores que não poderiam adquirir um equipamento mais sofisticado. A terceirização dos trabalhos e serviços agrários também vem dar maior flexibilidade à produção anual, pois o produtor não fica "preso" ao equipamento de sua propriedade, optando pela lavoura que lhe for mais interessante em cada safra. E esse fenômeno já ocorre em nossa agropecuária? Os dados do Censo Agropecuário do Paraná realizado pelo IBGE16 em 1995/96 (Tabela 1), mostram que dos 294.765 estabelecimentos classificados como familiares, 126.180 utilizam força de tração mecânica e/ou equipamentos (FTME) de terceiros. No Brasil o número de estabelecimentos que utilizaram algum serviço de terceiros chega à casa dos 891 mil, especialmente nos estabelecimentos com até 10 ha. A tarefa de terceiros mais contratada é a colheita mecânica das lavouras, justamente porque a colheita exige um equipamento específico para essa atividade. Já os tratores, arados, pulverizadores etc., podem ser adaptados a várias culturas. Essa combinação de máquinas próprias com máquinas de terceiros configura a situação de "terceirização parcial" como designou Laurenti (2000). 16. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (www.ibge.gov.br) Barion Transportes – contratada para serviços de colheita mecânica em vários estados 14 Novo Rural
  13. 13. Tabela 01. Distribuição dos estabelecimentos agropecuários, área total, eqüivalente-homem (EH) e valor bruto da produção vendida (VBPV), segundo a composição do pessoal ocupado, grupo de eqüivalente-homem, uso da força de tração e empreita de máquinas e equipamentos. Estado do Paraná, 1995. TOTAL ITEM Estabelecimentos Área 1.000 (ha) EH (f ) VBPV (g) 1.000 R$ TOTAL Com declaração de receita Sem declaração (a) Coletiva (b) Individual Sem declaração de área total 369.875 354.037 12 26.393 327.632 21 15.947 15.207 3 2.834 12.370 0 1.126.118 1.094.681 42 110.725 983.914 31 5.066.095 5.066.095 454 1.006.650 4.058.990 167 TOTAL FAMILIAR (C) Com uso de FTME (d) próprios Com uso de FTME de terceiros Sem uso de FTME Familiar com até 1 EH Com uso de FTME (d) próprios Com uso de FTME de terceiros Sem uso de FTME Familiar com EH entre 1 e 2 Com uso de FTME (d) próprios Com uso de FTME de terceiros Sem uso de FTME Familiar com 3 ou mais EH Com uso de FTME (d) próprios Com uso de FTME de terceiros Sem uso de FTME 294.765 113.446 126.180 55.139 44.254 11.641 18.231 14.382 89.915 32.248 37.985 19.682 160.596 69.557 69.964 21.075 6.892 3.341 2.535 1.016 745 257 267 221 1.909 842 677 390 4.238 2.241 1.592 405 816.978 344.631 344.528 127.819 44.253 11.641 18.231 14.382 162.888 59.538 67.450 35.900 609.837 273.452 258.848 77.537 2.346.375 1.066.699 1.090.837 188.839 235.562 86.310 115.906 33.345 583.597 246.151 270.653 66.793 1.527.216 734.238 704.278 88.700 32.846 5.478 166.906 1.712.448 Total não familiar (e) Fonte: Tipos de Estabelecimentos Agropecuários do Estado do Paraná de 1995-96, IAPAR/ASE, cd-rom. a) Estabelecimento sem informação da condição de propriedade da terra ou posição ignorada do pessoal ocupado. b) Condomínio ou sociedade de pessoas; cooperativas; sociedade anônima ou por cotas; instituição pia ou religiosa; governo etc. c) Estabelecimento dirigido por produtor e sendo a mão-de-obra familiar igual ou superior à metade do total de pessoal ocupado. d) FTME = Força de Tração animal e ou mecânica e Máquina e ou Equipamento. e) Estabelecimento dirigido por administrador ou com mão-de-obra familiar menor que a metade do total de pessoal ocupado. f ) E.H. = Eqüivalente Homem – Corresponde a uma jornada anual de 300 dias de trabalho de um homem adulto. g) VBPV =Valor Bruto da Produção Vendida menos a receita oriunda da venda de máquinas. Uma Abordagem Ilustrada 15
  14. 14. Com o progresso técnico têm-se ampliado os intervalos de tempo entre as operações agrícolas, ou os períodos de inatividade entre uma tarefa e outra na produção agropecuária. Porém, isso significa que os sistemas de produção tendem para um menor número de tratos culturais, reduzindo assim a necessidade de mão-de-obra na agricultura. A colheitadeira automotriz, por exemplo, tornou contínua a seqüência dos trabalhos ceifa - amontoa trilha - transporte, isto é, eliminou os intervalos de nãotrabalho entre essas operações. Da mesma forma, o sistema de cultivo baseado na semeadura direta, não realizando assim o preparo do solo e as capinas mecânicas, também diminui o tempo de trabalho nas lavouras e reduz o número de tarefas a serem executadas. Em resumo, no plano estritamente técnico ou agronômico, o uso das inovações tecnológicas tem promovido o aumento da produtividade física do trabalho e o desengajamento de pessoas do processo de produção agrícola, tanto pelo uso de maquinaria, reduzindo o número de operações agrícolas, quanto pela simplificação17 das tarefas agrícolas. E essa redução de pessoas em nossa agropecuária já acontece? A resposta a essa pergunta é afirmativa e pode ser comprovada. Uma das formas é utilizando os dados das Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílios PNADs, do IBGE. Essa pesquisa de abrangência nacional, com exceção das áreas rurais da antiga região Norte do país (Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima), pergunta às pessoas qual o ramo da economia em que elas estavam ocupadas18. As pessoas ocupadas na agricultura podem ser observadas no Gráfico 3. A população ocupada na agricultura cresceu até 1985/86, período do Plano Cruzado, e depois vem se reduzindo gradativamente. A diferença entre os anos de 1990 e 1992 se deve a uma mudança 16 17. Termo originalmente utilizado por Green, R. e Santos, R.R. Uma reflexão teórico-metodológica sobre o processo de reestruturação do setor agro-alimentar na América Latina. Seminário "Inovações tecnológicas e reestruturação do sistema alimentar". UFPR - Curitiba, 26 a 28/6/1991. 18. Essa questão e a maioria das outras perguntas sobre trabalho nas PNADs são referentes ao mês de setembro. 19. Para maiores detalhes veja em Del Grossi: Evolução das ocupações rurais não-agrícolas no meio rural brasileiro. UNICAMP 1999. (Tese de , Doutorado) Novo Rural
  15. 15. conceitual, não corrigida plenamente19, e em 1999 tem-se uma suave recuperação do número de pessoas ocupadas na agricultura. A expansão da modernização, e principalmente da terceirização das tarefas agrícolas, conduz a uma individualização da atividade agrícola, com reflexos importantes na organização do trabalho familiar. O que era atividade de toda a família, hoje pode ser feita por apenas uma pessoa. A Tabela 2 mostra as pessoas que se ocupam da agricultura segundo a sua condição na família e gênero. É possível observar que os homens adultos referência da pesquisa, estão estáveis em torno de 6,4 milhões de pessoas. Em menor número, mas também estáveis, estão a mulher cônjuge, em torno de 1,9 milhões. Pessoas (milhões) Gráfico 3: Evolução da população ocupada na agricultura no Brasil. 16 15 14 13 12 11 10 9 8 7 6 5 4 3 2 1 0 | | | | | | | | | | | | | | | | | | 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 Tabela 2: Evolução das pessoas ocupadas na agricultura, segundo a condição na família e gênero. Brasil, 1992-99 *** indica 5% de confiança, estimado pelo coeficiente de regressão log-linear contra o tempo. Fonte: ASE/IAPAR, projeto RURBANO Uma Abordagem Ilustrada Condição na Família Pessoa de referência Masculino Feminino Cônjuge Masculino Feminino Filhos Masculino Feminino Outros Masculino Feminino 1992 (1.000) 1999 (1.000) taxa 92/99 %ªa 6.456 336 6.330 327 -0,5 -0,9 14 1.939 30 1.918 17,6 *** -1,0 4.274 1.085 3.531 871 -3,2 *** -4,7 *** 581 168 519 133 | -2,6 *** -4,3 *** 17
  16. 16. Mas quanto aos filhos, esse contigente vem sofrendo uma forte redução: quase 700 mil filhos e 200 mil filhas de agricultores deixaram as atividades agrícolas ao longo dos anos 90. O número de mulheres cônjuges bem inferior ao de homens de referência da pesquisa, mostra que as cônjuges mulheres se dedicam parcialmente à atividade agrícola. Em outras palavras, quem cuida da agricultura no Brasil são os pais homens, contando com a ajuda parcial e decrescente dos filhos homens e da esposa. É nesse sentido a tendência de individualização, masculinização e envelhecimento dos trabalhadores que se dedicam às atividades agrícolas. Para um futuro próximo já é possível vislumbrar20 a possibilidade da "agricultura de gestão", na qual o produtor exerce principalmente a função de gerência das atividades agrícolas, contratando os serviços necessários para sua atividade via telefone. Esse tipo de agricultura poderá não representar a maioria no futuro, mas poderá ser uma possibilidade viável para muitos produtores. Os serviços que poderão ser contratados são os mais diversos como: implantação de lavoura; produção e aplicação de inimigos naturais dos agentes causais de pragas e doenças na produção agropecuária; planificação e aplicação de fertilizantes e outros insumos; colheita; inseminação artificial; empresas coletoras de detritos agropecuários (caminhão pipa para esgotamento de fossa coletora de dejetos oriundos da pecuária de galpão e transporte para centrais de beneficiamento); gestão econômico-financeira etc. Essa contínua simplificação de tarefas agrícolas, tendendo a individualizar o trabalho agrícola, libera os membros da família para outras atividades, agrícolas ou não-agrícolas, dentro ou fora do estabelecimento agropecuário. Mesmo as pessoas que ficam incumbidas diretamente das atividades agrícolas não têm o tempo todo tomado pelas atividades agrícolas: sur18 20. Baseado em Laurenti, A.C. Terceirização dos trabalhos agrários e o "novo rural". IN: Anais da Oficina de Atualização Temática sobre Ocupações Rurais Não-Agrícolas. IAPAR, 2000. Novo Rural
  17. 17. gem então os estabelecimentos part-time farmer, que pode ser traduzido como agricultores em tempo parcial. Essa combinação de atividades agrícolas e não-agrícolas, se observada pela ótica da família, ficou conhecida por pluriatividade. A diferença do conceito anterior, é que o conceito de part-time está ligado aos estabelecimentos agropecuários, ou seja, com uma unidade econômica, enquanto que a pluriatividade está ligada às famílias, ou seja, com uma unidade social e demográfica. Em síntese, a modernização da base técnica da agricultura brasileira continuou avançando nos anos 90, simplificando o número de tarefas agropecuárias. A terceirização das tarefas agrícolas potencializou esse processo. De certa forma ocorre um "desmonte" das tarefas produtivas do interior do estabelecimento em favor de terceiros, liberando as pessoas das famílias para outras atividades, agrícolas ou não-agrícolas, no interior do estabelecimento agropecuário ou fora de seus limites. Uma Abordagem Ilustrada 19
  18. 18. 20 Novo Rural
  19. 19. Capítulo 3 Novas Atividades A modernização não avançou somente no sentido de simplificar a base técnica na produção de commodities, mas também na exploração de "novas" oportunidades de negócios. O termo "novas" foi colocado entre aspas porque muitas dessas atividades, na verdade, são seculares no País, mas não tinham até recentemente importância como atividades econômicas. Eram atividades "de fundo de quintal" ou hobbies pessoais que foram transformados em importantes alternativas de emprego e renda no meio rural nos anos mais recentes. Um aspecto que deve ser destacado refere-se ao fato de que várias dessas atividades, antes pouco valorizadas e dispersas, passaram a integrar verdadeiras cadeias produtivas, envolvendo, na maioria dos casos, não apenas transformações agroindustriais, mas também serviços pessoais e produtivos relativamente complexos e sofisticados nos ramos da distribuição, comunicações e embalagens. Em outras palavras, muitos desses novos negócios nascem com a cadeia praticamente completa, desde os fornecedores, a própria atividade, a agroindustrialização e distribuição ou os serviços derivados dessas atividades. Nos exemplos a seguir a complexidade dessas novas atividades ficará mais clara. Uma Abordagem Ilustrada 21
  20. 20. Piscicultura Essa atividade talvez seja o melhor exemplo da nova ruralidade no Brasil. Assistimos na última década a uma explosão do número de pesque-pagues por todo o País, notadamente nos estados das regiões Sudeste e Sul. O crescimento do número de pesqueiros, mais a demanda para o processamento industrial, foram as bases da expansão da piscicultura. Pesqueiro Ishikawa em Londrina: opção de lazer rural Os pesque-pagues, destinados ao lazer da classe média urbana, normalmente localizados em chácaras e sítios de fácil acesso pelas principais rodovias, oferecem aos clientes bons e diversificados serviços – estacionamento, lanchonete, material para pesca etc. Muitas dessas chácaras trocaram a agricultura por esta atividade, que responde por mais de 90% do destino dos peixes criados em cativeiro (tilápia, pacu, piaucú, matrinxã, pintado, cat fish, truta – durante o 22 Novo Rural
  21. 21. inverno – entre outros). O maior estímulo dos pesqueiros é a possibilidade de gerar uma receita para os proprietários, às vezes, bem superior a muitas commodities. É interessante observar que muitas áreas destinadas aos pesqueiros inicialmente eram marginais à produção de grãos. Com os pesqueiros tornaram-se as áreas mais valorizadas da propriedade. Tanques de engorda de peixes para fornecimento aos Pesque-Pagues. Essas novas atividades chamam a atenção para a quantidade de fornecedores e serviços que surgem, derivados da expansão de pesqueiros. O primeiro deles, evidentemente, é a engorda de peixes para fornecer aos pesqueiros. Seria perda de espaço e tempo se os pesque-pagues também utilizassem seus tanques para crescimento e engorda de seus peixes, já que sua remuneração está baseada na circulação rápida do capital investido, além de criar um mal-estar entre os seus freqüentadores se em alguns tanques for proibida a pesca. Tanques de reprodução de alevinos para piscicultura. Uma Abordagem Ilustrada 23
  22. 22. Não somente os piscicultores de crescimento e engorda de peixes são estimulados. Os produtores de alevinos para os piscicultores também o são, criando um mercado importante de reprodução não somente de nossas espécies nativas (como os pintados, dourados, piaparas, entre tantos outros), mas também de peixes exóticos (como o bagre africano ou americano, entre outros). Na região Norte do Paraná, por exemplo, a Aquabel é considerada a maior produtora de alevinos de tilápia do Brasil, chegando a entregar até 4 milhões de alevinos/mês. O encadeamento não termina por aí. As indústrias de rações especializadas também são estimuladas, com a produção de rações específicas para alevinos, rações de crescimento, engorda e manutenção. Isso sem falar na indústria veterinária na fabricação de hormônios de crescimento, reprodução ou reversão sexual, controle de doenças, entre tantos outros produtos que são utilizados ao longo da cadeia produtiva dos pesque-pagues. Indústria de produção de ração para peixes E as minhocas para fisgar os peixes? Também a criação de minhocas em geral é desenvolvida por outros produtores, que se especializam nessa técnica. Como as demais, quase todas essas "novas" atividades são complexas e exigem estudo e dedicação por parte dos produtores. A produção de minhocas no próprio pesqueiro dificilmente seria eficiente, pois seria mais uma tarefa relativamente complexa para cuidar, criando o risco de não se dar a devida atenção aos clientes do pesqueiro. O produtor de minhocas, por outro lado, tem a possibilidade de utilizar os dejetos da pecuária como fonte de matéria orgânica compostada, para a criação de minhocas, além de ter a opção da venda de adubo orgânico. 24 Novo Rural
  23. 23. Produção de minhocas para pescaria No mesma linha está a produção de varas para pescar. Ao chegar ao pesqueiro, o cliente menos equipado precisará de varas preparadas, com linha e anzol adequados, para o lazer nos tanques. Também aqui há um estímulo aos produtores de varas para pescar que, com freqüência, farão a reposição das varas danificadas nas pescarias. Não podemos esquecer do encadeamento em torno de um pesqueiro, da enorme quantidade de lojas especializadas ou não, que vendem os mais variados artigos de pesca aos "pirangueiros" de final de semana. Loja de artigos de pesca Uma Abordagem Ilustrada 25
  24. 24. Se os encadeamentos ligados à pesca já impressionam, os relativos ao setor de serviços também não ficam atrás. Refrigerantes, cervejas ou sucos, servidos à beira dos tanques ou na sede do pesqueiro, geram uma importante fonte de receita, às vezes tão importante quanto o peixe fisgado nos tanques. Há ainda outro grande atrativo nos pesqueiros: o restaurante ou lanchonete. Depois de horas na pesca, é natural que as pessoas queiram apreciar o peixe fresco, nos mais variados cardápios de nossa culinária. Também pode ser a opção de lazer daqueles que não gostam de pescar, mas gostam de saborear a culinária rural. Mais uma vez o encadeamento: os restaurantes nos pesqueiros não precisam se limitar aos peixes fisgados em seus tanques, mas também podem oferecer ao cliente pratos com peixes exóticos ou nativos, comprados de outros piscicultores. Uma nova possibilidade de encadeamento é o aproveitamento das carcaças. Após a pesca, dificilmente os clientes levarão os peixes sem limpá-los e cortá-los adequadamente, existindo vários cortes de acordo com a opção do cliente na hora da limpeza. Talvez a filetagem do peixe seja a atividade que gera maior resíduo no pesque-pague, já que além das vísceras, cabeça e nadadeiras, também o couro do peixe é retirado. Como já existe tecnologia disponível para tratamento do resíduo dos peixes para fabricação de adubos, e também para aproveitamento do couro para fabricação de peças de vestuário, essas duas atividades irão gerar importantes encadeamentos para frente no negócio da piscicultura. Ainda sobre a piscicultura, não somente a pesca em tanques tem crescido. Há uma outra oportunidade relacionada à pesca esportiva: muitos turistas, nacionais e estrangeiros, são atraídos para esta modalidade de turismo nas principais bacias hidrográficas brasileiras – Pantanal, Amazonas e Paraná –, além da pesca litorânea na Bahia, Espírito Santo, Santa Catarina e outros estados. Essas regiões possuem boa infra-estrutura e oferecem uma rede de serviços de qualidade, fatos que tornam esta atividade uma importante fonte de divisas21. 26 21. Paul, G. Pesca milagrosa. Revista Veja. São Paulo, 29/11/95. p.76-78. Novo Rural
  25. 25. Também pelo lado do processamento industrial, a piscicultura pode converter-se em importante atividade rural e fonte de renda para os agricultores. Cooperativas já adentram nesse ramo, instalando frigoríficos com grande capacidade diária para processar peixe. Em geral a criação dá-se pelo sistema de semiintegração, em que a cooperativa fornece os alevinos, a assistência técnica e a ração. Dessa forma, o abastecimento da indústria fica garantido, uma vez que ela compete com os pesque-pagues pelo fornecimento da matéria-prima e estes, geralmente, pagam um preço melhor pelo quilo do peixe. Todas essas novas atividades giram em torno da piscicultura e cresceram orientadas para atender novos segmentos de mercado. A partir da procura urbana pelo consumo ou lazer na forma de pesca, surge uma série de novos produtores dos mais diferentes itens da piscicultura, formando assim uma cadeia completa e complexa. Muitas dessas atividades geraram ocupações tradicionais do ramo da agricultura, como a engorda de peixes ou criação de minhocas, mas também geraram várias ocupações que têm pouco a ver com a atividade agrícola propriamente dita, como os garçons, caixas, cozinheiros, faxineiros, entre outras, nos pesqueiros. Além da piscicultura, já existe uma grande quantidade de novas atividades com encadeamentos produtivos importantes. Listamos algumas abaixo. Agroindústrias Rurais Uma série de agroindústrias processadoras estão se desenvolvendo por todo o País, explorando pequenos nichos de mercado. Muitas são atividades artesanais, ou quase, explorando os mais variados mercados: doces, bebidas, vinhos, salgados, carnes e derivados, lácteos e derivados etc. A cultura brasileira tem uma culinária muito rica e as possibilidades de explorar comercialmente esses diferentes "sabores" regionais, principalmente se tiver alguma origem étnica, tem potencial crescente em todo o mundo. Frigoríficos rurais estão proliferando por todo meio rural, atendendo os mais variados mercados. Em Rolândia, por exemplo, um frigorífico, além de produzir apresuntado, bacon, salames e lingüiças, iniciou também a produção de kits para feijoada, aproveitando melhor partes dos suínos como orelhas, pés, caudas, couro etc. Inúmeras outras atividades agroindustriais estão se disseminando pelo campo: fábricas de balas, doces, embutidos, lácteos, salgados, refeições industriais, etc. Uma Abordagem Ilustrada 27
  26. 26. Vários governos municipais e estaduais, e o próprio governo federal, têm lançado programas específicos de agroindustrialização, com os mais diferentes nomes. O programa Fábrica do Agricultor do Paraná22, por exemplo, já oficializou e incentivou quase 1000 fábricas pelo interior do estado, melhorando os aspectos de sanidade e de apresentação mercadológica dos produtos. Aperitivos e balas Agroindústria de queijos Embutidos e defumados Criação de "Aves Nobres" O Brasil tem uma fauna riquíssima, com enorme potencial para vários tipos de cadeias produtivas. Uma delas é a criação de aves nobres, e mesmo exóticas ao nosso território. São comuns notícias de fazendas acrescentando à produção nova atividade, ou mesmo trocando a produção agrícola tradicional pela criação de aves nobres e exóticas (matrizes importadas da Europa, África e Ásia). Faisões, perdizes e codornas gigantes francesas para corte já são comuns em nossos 28 22. Para maiores informações veja em www.pr.gov.br/seab. Novo Rural
  27. 27. criadouros. As aves de corte são comercializadas em supermercados e restaurantes, além da agroindústria – como a Perdigão, que desde 1989 comercializa essa linha de aves raras23. A avestruz é uma das aves típicas desses negócios. Importado da África, já tem seus criadouros disseminados pelo País, visando à produção de carne (com baixo teor de gordura), couro ou para fins ornamentais. Em três anos o plantel brasileiro saltou de 50 mil aves para 150 mil aves em 2001, movimentando aproximadamente U$300 milhões24. O grau de sofisticação chega a ser tão elevado que a identificação dos animais é feita pela introdução de "chip" para leitura eletrônica, logo após a eclosão dos ovos.Também nesse caso o público alvo é o consumidor urbano, quer em restaurantes típicos que servem carnes exóticas, quer para redes de supermercados que ensaiam entrar nesse segmento de mercado. 23. Folha de S. Paulo, 24/04/96 24. Dados da Associação de Criadores de Avestruzes do Brasil. Gazeta Mercantil, 06/11/01. 25. Globo Rural, Maio/2001. 26. Globo Rural: "Ganso: nas águas da tradição". Jan/1996; "Pato com sotaque francês", Ago/1996; "Javali: o porco de sangue azul", Out/1996; "Jataí: doce selvagem", Mar/1997. Criação de avestruzes Situações similares repetem-se com a criação de gansos, patos, galinhas de angola, pavões, marrecos25, pássaros de canto e de porte, que, de simples hobbies de seus criadores, passaram a representar negócios lucrativos26. Vejam-se por exemplo as feiras de criaUma Abordagem Ilustrada Casaco de couro de avestruz 29
  28. 28. dores dos mais variados tipos de canários que acontecem por todo o País, nas quais alguns exemplares chegam a valer muito mais que várias cabeças de boi. Até mesmo a nossa galinha caipira voltou à moda. Os criatórios de galinhas soltas no terreiro têm proliferado em todo País, buscando servir o consumidor urbano sedento de alimentos naturais. Mesmo grandes frigoríficos têm adicionado à pauta a produção de galinhas caipiras, de olho nesse mercado ascendente. Frango caipira preparado para consumo. Criação de frangos caipiras Rãs Entre 1988 e 1996, a produção brasileira de carne de rã cresceu mais de 150%, atingindo 200 toneladas nesse último ano. Como a tendência de criação em cativeiro tem sido forte, dentro de um processo de produção industrial e de profissionalização da atividade27, nesse período houve uma substancial redução do número de ranários, principalmente daqueles que se baseavam na caça. Apesar dessa redução, o Brasil é o líder mundial na produção em cativeiro. Para se ter algumas noções das transformações que estão ocorrendo nessa atividade, é interessante citar 30 27. Globo Rural, Maio/2001 Novo Rural
  29. 29. que as principais empresas envolvidas já estão partindo para a produção integrada (ou semi-integrada), nos mesmos moldes da criação de aves e suínos no sul do País. Também há investimentos na construção de laboratórios de melhoramento genético de rãs28. Criação de outros animais para corte Embora seja muito difícil a quantificação dessas atividades no Brasil, também devem ser citadas as criações de camarão de água doce, capivaras, jacaréde-papo-amarelo, javalis e scargot. Elas se destinam à produção de carnes para restaurantes de luxo dos grandes centros urbanos do País e do exterior, além de vários outros produtos de origem animal. Uma atividade relacionada a esse ramo é a fazenda de caça que, no entanto, ainda é incipiente no País, mas que já integra o roteiro de turismo rural no Paraná. 28. Gazeta Mercantil, 10/10/96 Criação de javalis Uma Abordagem Ilustrada 31
  30. 30. Ainda no Paraná, a carne de coelhos já ocupa espaço importante nas gôndolas de grandes redes de supermercados. O encadeamento gerado por essa atividade envolve a produção de matrizes, gaiolas, rações, produtores, frigorífico, distribuição e comercialização. Carne de coelho pronta para consumo Criação de coelhos Produção orgânica de ervas aromáticas e medicinais Essa atividade é impulsionada por grandes grupos da indústria farmacêutica (como Rhodia Farm, Merck e Weleda), mas também pela produção de espécies destinadas à fabricação de temperos e condimentos dos mais diversos sabores. Geralmente produzidos em pequenas propriedades, ligadas tanto a grandes quanto a pequenas agroindústrias, muitas dessas pertencentes aos próprios agricultores, o setor de ervas medicinais e condimentos (naturais ou desidratados e embalados) está em franca expansão no Brasil. Na região amazônica, por exemplo, o conhecimento das ervas medicinais dos pajés já está sendo catalogado. 32 Novo Rural
  31. 31. Produção de ervas aromáticas e medicinais Produção orgânica para mercado internacional diferenciado Procurando conquistar mercados nacionais e internacionais diferenciados, com um valor mais elevado para o produto, a produção de orgânicos em grande escala tem compensando o maior custo de produção. A produção de óleo de dendê no Pará é um exemplo. Outro é o café ecológico dos cerrados mineiro e paulista, exportado para o Japão a um preço 30% superior à média do mercado interno, que já está sendo industrializado com uma marca específica29. Também podem ser citadas as produções de óleo de babaçu, no Rio Grande do Norte, do açúcar no Estado de São Paulo e da soja, no Estado do Paraná, cujos produtos, isentos de agrotóxicos, são destinados ao mercado externo. Nesse sentido a presença de "selos" certificando a origem orgânica dos produtos, tem-se tornado comum em nossos mercados, fornecendo um enorme Uma Abordagem Ilustrada 29. Soares, P. "Os lucros do café ecologicamente correto". Gazeta Mercantil, 20/10/1995. 33
  32. 32. diferencial de competitividade desses produtos. Uma curiosidade é que a certificação de produtos abriu um amplo leque de atuação de garantia de qualidade, tanto para instituições governamentais como não governamentais, seguindo normas nacionais e até internacionais. Os certificados vão desde os orgânicos, naturais, não transgênicos, de origem regional, ou mesmo com maior apelo social, como a ausência de trabalho infantil. Produção orgânica de hortaliças Produção de verduras e legumes Tem-se tornado comum o cultivo de verduras e legumes em estufas (plasticultura) e ou pelo método de hidroponia, sendo essas atividades altamente intensivas em mão-de-obra. No Estado de São Paulo por exemplo, apesar de terem participação de apenas 1% na área total cultivada com as principais culturas, as olerícolas respondem por cerca de 9% do total da demanda da força de trabalho agrícola. Seu expressivo crescimento é resposta à grande expansão e diferenciação do mercado consumidor, puxado, em grande medida, pelas redes de fastfood e por alguns grandes supermercados que, embora possam se auto-abastecer por meio de produção integrada, geralmente estabelecem parcerias com os agricultores. É importante lembrar que, além do estímulo à produção agrícola, a 34 Novo Rural
  33. 33. grande expansão das redes de fast-food tem um impacto significativo no consumo de produtos da agroindústria alimentícia (pão, carnes, queijo, sucos, temperos, etc.), o que torna esse setor um importante dinamizador do mercado. Essa relação dos agricultores com as redes de supermercado e de fast-food, além do fornecimento para sofisticados hotéis e restaurantes, acaba por determinar mudanças na forma de produzir e comercializar esses produtos. Primeiramente, há uma maior diversificação da produção de olerícolas para garantir um melhor abastecimento e uma maior receita. Também ocorrem mudanças nos sistemas de produção, com a introdução da hidroponia e do cultivo orgânico, por exemplo. Outra mudança importante diz respeito ao processamento das olerícolas e sua comercialização na forma de saladas ou produtos individuais prontos para o consumo, cujos preços chegam a ser 30% maiores que o produto in natura, constituindo-se num meio de agregação de valor para os agricultores, bem como de criação de empregos. Não somente olerícolas estão sendo processadas, mas também a mandioca já está sendo vendida descascada e embalada (a vácuo em alguns casos para maior longevidade do produto). Produção de verduras em estufa Alimentos embalados e prontos para venda Produção de tomates em estufa Uma Abordagem Ilustrada 35
  34. 34. Floricultura e mudas de plantas ornamentais Com mercado consumidor em expansão, a floricultura, além de propiciar melhor rendimento para os agricultores e seus familiares, por ser uma atividade intensiva, exige o emprego de muita mãode-obra – familiar e contratada. Cada hectare cultivado pode ocupar até 50 pessoas, o que dá a esta atividade um importante potencial de geração de empregos. Segundo a Holambra, 170 dos seus cooperados respondem por 40% a 45% do mercado brasileiro de flores e plantas ornamentais. A busca de maior produtividade e de outras espécies para a floricultura comercial tem contribuído para a expansão do cultivo para regiões mais distantes da cooperativa. Isto tem sido feito tanto pelos cooperados da Holambra quanto por novos grupos que estão se dedicando à floricultura em outros estados brasileiros. Especificamente com relação à produção da Holambra, esta vem crescendo com a incorporação dos filhos de agricultores já filiados à cooperativa. Esses "filhos de pequenos sitiantes da região de Holambra, no interior paulista, descontentes com os resultados do cultivo de grãos e criação de gado, estão arrendando terras ou fazendo parcerias com seus pais para iniciar produções de flores e plantas ornamentais 30". Também como decorrência do crescimento dessa atividade, deve-se destacar o aumento das criações de minhocas para a produção de húmus31. Deve-se destacar ainda que a floricultura tem grande possibilidade de expansão, tendo em vista a riqueza da flora brasileira, com muitas espécies com potencial para ingressar em novos cultivos comerciais. 36 30. Gazeta Mercantil, 10/06/97 31. Globo Rural: "Minhocultura: jogo limpo", Out/1996. Novo Rural
  35. 35. Fruticultura de mesa e produção de sucos naturais e polpa de fruta congelada A fruticultura no Brasil ainda tem grande potencial a ser explorado, não somente para exportação, mas também para o mercado interno. A produção de polpas congeladas de frutas regionais, como graviola, fruta-do-conde32, umbu, cajá e cupuaçu (nativas do Norte e Nordeste), tem impulsionado o consumo de sucos naturais e de sorvetes produzidos artesanalmente. Também merece registro a importância que tem o suco de laranja natural nesse segmento. Em 1996, segundo a Associação Brasileira de Exportadores de Citrus (Abecitrus), o consumo de suco de laranja caseiro no País foi de 2,4 bilhões de litros, com um faturamento de R$1,9 bilhão, enquanto os industrializados (concentrado, fresco, integral e reconstituído) responderam por apenas 170 milhões de litros e por um faturamento de R$ 250 milhões33. 32. Globo Rural: "A hora da estrela". Abril/2001. 33. Ferrero, A. "Cresce a concorrência ao suco de laranja". Gazeta Mercantil, 20/06/1997. Frutas: mercado com potencial de expansão Merecem também destaque o crescimento da fruticultura na região Centro-Oeste, em especial no cultivo da banana-maçã; o processo de reconversão Uma Abordagem Ilustrada 37
  36. 36. produtiva, estimulado pela empresa M. Chandon, no cultivo da uva em algumas regiões produtoras no sul do País, com o uso de variedades destinadas à produção de espumantes finos; e o desenvolvimento da fruticultura irrigada na região Nordeste, principalmente nos estados da Bahia, Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Sergipe. Reprodução de Plantas Extrativas O palmito, o melhor exemplo desse tipo de produção, está sendo obtido a partir de palmeiras que antes eram consideradas apenas plantas ornamentais, como é o caso da palmeira real34. A pupunha, uma palmeira amazônica mais produtiva e resistente que o Palmito Jussara da Serra do Mar, já está sendo cultivada por grandes grupos empresariais, como o Grupo Capixaba Coser, a construtora Grafisa, a Frunorte (segunda maior exportadora de melões do país), além de cooperativas e produtores independentes. Segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Palmito Cultivado, os investimentos já realizados para a produção de pupunha no País somam cerca de US$ 18 milhões num mercado que movimenta em torno de US$ 500 milhões anuais com os diversos tipos de palmito35. Cultivo de cogumelos O aumento do consumo de cogumelos nos grandes centros urbanos tem estimulado o cultivo de novas espécies, além do tradicional champignon, como é o caso do Shiitake. Uma fazenda do Vale do Paraíba, região altamente industrializada do Estado de São 38 34. Globo Rural: "Palmito: do jardim ao campo". Nº .138, Abr/ 1997, p.46-48. 35. Branco, A. "A pupunha toma o lugar do palmito". Gazeta Mercantil, 18/06/1997. Novo Rural
  37. 37. Paulo, que produzia madeira tratada de eucaliptus, encontrou na produção de sementes de cogumelos (os esporos são inoculados em moirões de eucaliptus) a saída para a crise decorrente da redução das encomendas36. Shitake Complexos hípicos Os negócios ligados ao hipismo movimentaram R$ 2,8 bilhões no período 1993-97 no Brasil37. Um deles está sendo construído em Boituva, interior de São Paulo, com investimentos da ordem de R$ 5,5 milhões. Além de todas as instalações e atividades relacionadas ao hipismo (centro hípico com arena coberta, provas, rodeios, shows), o empreendimento conta com toda a infra-estrutura de um grande hotel (piscinas, quadras de futebol, tênis, etc.), onde o cardápio deverá incluir cabrito, javali, perdiz e outros animais exóticos, o que indica a sua inter-relação com a atividade de criação desses animais que foi mostrada anteriormente. Uma Abordagem Ilustrada 36. Gazeta Mercantil: "Fazenda Guirra produz alternativa ao champignon", 18/06/1997. 37. Nascimento, S. "Os empresários investem na área country". Folha de São Paulo, 01/071997. 39
  38. 38. Leilões e exposições agropecuárias As entidades ligadas ao setor estimam que os leilões – especialmente de cavalos e de gado de corte e leite – movimentaram cerca de US$ 700 milhões em 1996. Apesar de os leilões terem crescido em número de pregões, observa-se uma redução na oferta de animais devido aos altos custos envolvidos. Há empresas especializadas que se encarregam da realização dos eventos, atuando desde a seleção e pré-avaliação dos animais até a contratação de financiamentos para dar suporte aos negócios realizados. As exposições agropecuárias são as que mais têm crescido: movimentam cerca de US$ 2,1 bilhões em aproximadamente 2 mil eventos por ano no País38. Embora não existam mais linhas de financiamento específicas para as exposições agropecuárias, há um aumento do prazo de recolhimento do ICMS sobre os produtos vendidos nas feiras de modo geral, além de financiamentos diretos feitos pelos bancos, geralmente presentes nos eventos mais importantes. Festas de rodeio Essas atividades movimentaram cerca de US$ 500 milhões em 1996. Para se ter uma idéia da sua popularidade hoje no País, basta dizer que o seu público ultrapassou o total de torcedores presentes nos campeonatos de futebol: estima-se que 26 milhões de pessoas assistiram aos 1.238 rodeios em 1997. É uma atividade de muito dinamismo, que dá suporte para o crescimento econômico de muitas cidades pequenas e médias do interior. A Festa de Peão de Boiadeiro de Barretos, considerado o maior dos even40 38. Franco, L. Leilões e rodeios giram US$ 3,3 bi. Gazeta Mercantil, 20/06/1997. Novo Rural
  39. 39. tos de rodeio do mundo, movimenta anualmente cerca de US$ 120 milhões, mais do que os US$ 45 milhões movimentados pelo carnaval carioca. Durante a festa, que dura uma semana, a população da cidade, de 110 mil habitantes, salta para 1,2 milhão. Na cidade de Americana, no interior de São Paulo, a festa do Peão de Boiadeiro faz a população saltar de 220 mil para 470 mil pessoas. Com um movimento de US$15 milhões numa semana, essa atividade já representa cerca de 10% da receita da cidade e vem sendo uma das saídas para a crise do comércio local, causada pela decadência da indústria têxtil, responsável por cerca de 60% da economia do município39. Essas atividades do "negócio country" têm estimulado, também, a proliferação de outros negócios associados, como as grandes casas de espetáculo no interior do País. Um exemplo é a Red Eventos, construída em Jaguariúna – região de Campinas, a um custo de US$ 2 milhões, onde ocorrem promoções de shows musicais, exposições, leilões, etc., tendo reflexos importantes na economia local. 39. Cordeiro, E. "Americana investe na festa de peão". Gazeta Mercantil, 03/06/1997. Festas de Peão de Rodeio Uma Abordagem Ilustrada 41
  40. 40. É difícil ainda estimar o peso econômico dessas "novas" atividades agrícolas e não-agrícolas. Mas apenas para dar uma idéia da sua importância, basta dizer que os novos "mercados internos emergentes" constituídos pelas festas de rodeio, leilões e exposições agropecuárias movimentaram juntos cerca de US$ 3,3 bilhões em 1996, o que significa metade do valor das exportações brasileiras de soja (farelo e grão), café (cru em grão) e suco de laranja (congelado e concentrado) no mesmo ano. Educação e lazer rural O espaço rural tem sido procurado também como local de estudo e conhecimento da Natureza, ou simplesmente para passar algumas horas no campo. O uso do espaço rural para aulas sobre ecologia, conhecimento e observação da fauna e da flora, não somente dos parques nacionais, mas também de reservas particulares, ou de espaços preparados para atividades pedagógicas, tem grande potencial de exploração comercial em todo o País. Restaurante rural 42 Novo Rural
  41. 41. Turismo Rural O turismo é uma das atividades que mais crescem no mundo, e o segmento do turismo rural está entre elas, com uma gama enorme de opções. Além dos já conhecidos pesque-pagues e hotéis-fazenda, comuns em nossos municípios do interior, um novo e bem-sucedido serviço começa a ganhar força: a fazenda-hotel. A diferença básica é que, na fazendahotel, a fazenda continua com suas atividades e rotinas originais. Como explicam Silva e Baldan40, "a fazenda hotel está voltada para uma clientela urbana cada vez mais carente de contato com o cotidiano da terra, com a rotina de um modo de vida que, pelo menos no imaginário urbano, remete a uma reconciliação com a natureza. (...) aqui as atrações não são ornamentais e isso é decisivo para o seu sucesso junto a um público saturado de simulações e banalizações impostas pelo mercado de consumo". Além de andar a cavalo, contemplar paisagens e praticar esportes, os hóspedes podem vivenciar rotinas que vão desde a ordenha até a alimentação do gado, o trato dos suí- 40. Silva, G. e Baldan, J.C. "Férias no campo". Globo Rural, Fev/1997. Circuito Italiano de Turismo Rural em Curitiba-PR Uma Abordagem Ilustrada 43
  42. 42. nos e as colheitas. As pessoas que procuram esse tipo de hotel não fazem tanta questão do conforto, mas a autenticidade de uma velha sede colonial é muitas vezes decisiva. E abrir o hotel é, muitas vezes, a forma de preservar a própria sede. É comum com o passar do tempo que a renda gerada pelos hóspedes acabe se tornando mais importante que aquela proveniente da atividade agropecuária. Outra proposta semelhante é a de agriturismo praticada por pequenos agricultores familiares da AGRECO41, que além da produção orgânica acolhem visitantes em sua propriedade. A recepção aos turistas é parte integrante de suas atividades, porém sem abandonar as atividades agrícolas. Hotel Lagoa das Pedras – Apucarana – PR O potencial do turismo rural pode crescer com a conjugação de lazer, história e cultura. Já há alguns anos, o turismo rural vem sendo explorado na região de Ponta Grossa, no Paraná, aproveitando o ciclo histórico do tropeirismo vivido pela região. Toda a re44 41. Associação dos Agricultores Ecológicos das Encostas da Serra Geral. Para maiores detalhes veja www.cepagro.org.br. Novo Rural
  43. 43. gião do segundo planalto paranaense era caminho das tropas que saíam do Rio Grande do Sul em direção principalmente a São Paulo ou Minas Gerais. Hoje, percorrer o mesmo caminho dos tropeiros, comer a mesma comida, preparada na fogueira no chão, acordar no mesmo horário das tropas, observar a natureza enquanto se caminha, são atividades que atraem um número crescente de turistas. Mas aqui entra um detalhe importante no turismo: a preparação e treinamento do pessoal destinado a atender os turistas. Conhecer a cultura dos tropeiros, as histórias, a culinária, e prestar o melhor atendimento aos turistas exigem muita preparação e treinamento do pessoal ocupado. Capela de Nossa Senhora da Conceição do Tamanduá: no caminho dos tropeiros em São Luiz do Purunã - PR Outro importante fator de indução do crescimento de atividades nãoagrícolas no meio rural tem sido o aproveitamento para lazer das represas formadas para geração de energia elétrica. Para fins de ilustração, pode-se destacar a hidrovia Tietê-Paraná: nos seus atuais 1,1 mil quilômetros navegáveis entre o porto de Anhembi (SP) e o município de São Simão (GO), que movimentou, em 1996, cerca de US$ 300 milhões no transporte de grãos (1,2 milhão de toneladas dentre os 5 milhões transportados, principalmente de milho e soja), de cinco estados envolvidos: São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul. Isso abre a possibilidade de grande desenvolvimento nos 206 municípios abrangidos pela hidrovia, devido à perspectiva de geração de novos empregos nesses municípios, ligados ao turismo rural e ecológico, com a construção de pólos turísticos, objetivando aproveitar os recursos naturais do rio Tietê, além de outras moUma Abordagem Ilustrada 45
  44. 44. dalidades, como os já conhecidos passeios de barco nas cidades de Barra Bonita e Pederneiras42. Estação de Lazer Salto Bandeirantes - Santa Fé - PR A lista seria quase infindável se fôssemos enumerar aqui todas essas novas atividades, tal a diversidade brasileira. Mas vale a pena lembrar a crescente importância que vem assumindo a revitalização de atividades tradicionais, como o artesanato (produção de tapetes, redes, chapéus, flores secas, rapaduras e outros doces típicos, etc.), as feiras e as festas populares. Tais atividades, primordialmente apenas de caráter religioso, de lazer e geradoras de valores de uso, tendem a ser cada vez mais organizadas comercialmente e estão se tornando importantes fontes de trabalho e de renda nos pequenos municípios do interior do País43. 46 42. Isto É: Rota das Águas. São Paulo, 10/09/1996. 43. Cerri, C. "O baú do Brasil", Globo Rural, Out/1995; e "Nordeste: sertão fabril", Globo Rural, Mar/1997. Novo Rural
  45. 45. Utilizou-se o termo "novas" entre aspas porque nem todas estas atividades são tão novas assim. Na verdade, sempre existiu a produção de flores e plantas ornamentais, de hortaliças, de cogumelos, etc. Entretanto, essas atividades foram praticamente recriadas a partir de demandas diferenciadas de nichos ou de uma diferenciação dos mercados tradicionais dessas mesmas atividades. E foram recriadas não apenas com uma roupagem nova, mas também com um conteúdo novo: são, no fundo, serviços pessoais e auxiliares da produção que foram agregados às tradicionais cadeias produtivas agroindustriais, criando um novo espaço para a emergência de pequenos e grandes empreendimentos nesse longo caminho que hoje vai do produtor rural ao consumidor final. A produção de hortaliças é um caso exemplar dessa mudança de forma e de conteúdo. Primeiro surgem novas formas de produzir que decorrem de mudanças na base técnica (estufas, hidroponia, produção orgânica) e de novas formas de integração ao circuito das mercadorias (produção sob encomenda, integração vertical com supermercados). Segundo, uma redivisão do trabalho que implica o aparecimento de novos ramos de produção, como é o caso dos produtores de mudas de hortaliças. Terceiro, o surgimento de novos produtos, o que significa não apenas novas variedades de legumes e verduras, mas também a agregação de valor aos produtos existentes, por meio da embalagem, do pré-processamento, da entrega em domicílio, entre outros. É como se houvesse uma busca incessante dos capitais no sentido de converter em mercadorias todas as atividades com valores de uso, o que leva à criação de novos mercados e de novas necessidades, explica Marsden44. Ao analisar transformações semelhantes que estão ocorrendo na Inglaterra, esse autor afirma que muitas famílias optaram por diversificar a sua prestação de serviços, e não a produção agrícola, como parte de uma estratégia de resistência a ingresUma Abordagem Ilustrada 44. Marsden, T. Towards the political economy of pluriactivity. Journal of Peasents studies. Great Britains, v.6, n.4, 1990, p.319. 47
  46. 46. sar no treadmill45 tecnológico da Revolução Verde. A pluriatividade daí resultante é conseqüência desse esforço de diversificação dos pequenos produtores para se inserirem nos novos mercados locais que se abrem. Não se pode considerar a pluriatividade como parte de um processo de proletarização que resulta da decadência da propriedade familiar, mas sim como uma etapa da diferenciação social e econômica das famílias agrícolas. Os produtores estão encontrando novas oportunidades a partir da valorização de bens não tangíveis antes ignorados, como a paisagem, o lazer e os ritos dos cotidianos agrícola e pecuário. A explicação mais geral para essas mudanças pode ser buscada no que Van der Ploeg46 denominou de mercantilização das atividades agrícolas, tanto no que diz respeito às relações de produção como às relações de trabalho. Essa abordagem permite considerar as famílias rurais crescentemente dependentes dos capitais associados não apenas aos mercados agrícolas, mas a uma matriz de múltiplas atividades (pluriatividade) de seus membros. Esse processo de geração de "novas" atividades no meio rural brasileiro mostra pelo menos duas características comuns. A primeira refere-se ao fato de que elas se originaram ou de "importações" de outros países ou de atividades que antes não eram comerciais, isto é, tinham apenas valores de uso e não valores de troca. É o caso, por exemplo, do produtor rural que procura "cobrir as despesas" através do hobby de criar canários ou plantar cactus, para depois perceber que daí pode surgir uma nova atividade rentável. Em ambos os casos, o importante é que se criam novos espaços de reprodução do capital no meio rural brasileiro, muitas vezes revigorando regiões e ou atividades tradicionais que se mostravam decadentes. A segunda característica comum é que essas "novas" atividades, quando se transformam em atividades comerciais, já nascem como parte de uma cadeia produtiva altamente especializada e integradas a um com48 45. Significa esteira rolante, o que nesse caso, quer dizer que o produtor tem que incorporar cada vez mais tecnologias na sua produção para conseguir manter a mesma margem de lucro; na alegoria da esteira, como as inovações técnicas estão mais rápidas, equivale a uma esteira também cada vez mais rápida sem sair do lugar. 46. Van der Ploeg, J. The agricultural labour process and commoditization. In: Long, N. The commoditization debate: labour process, strategy and social network. Netherlands, Agricultural University Wageningen, 1986. Novo Rural
  47. 47. plexo sistema de serviços que delimitam nichos específicos. Na maioria das vezes, além das costumeiras transformações agroindustriais do produto agropecuário, soma-se uma rede de serviços pessoais e produtivos, que estreitam o caminho entre as preferências (socialmente condicionadas) do consumidor e do produtor rural. A grande diferença em relação ao tradicional processo de agregar valor por meio da industrialização reside no fato de que as "novas" atividades geradas nos anos 90 não decorrem somente de demandas intermediárias no interior das cadeias produtivas. Nos anos 70, as principais atividades agropecuárias brasileiras transformaram-se em insumos da indústria de alimentos. Muitas saíram da produção rural de subsistência para virarem commodities indiferenciadas para atenderem a uma dieta relativamente padronizada de milhões de pessoas no País e no exterior. Agora, as "novas" atividades ganham impulso a partir de uma dinâmica que tem a ver mais com as demandas específicas de grupos de consumidores de média e alta renda dos grandes centros urbanos do País. Uma Abordagem Ilustrada 49
  48. 48. 50 Novo Rural
  49. 49. Glossário dos termos utilizados neste volume Cadeia Produtiva: conjunto das atividades econômicas ligadas a um determinado produto. No caso das atividades agrícolas, a cadeia representa o conjunto das indústrias produtoras de insumos (adubos, sementes, agrotóxicos, máquinas, etc), dos produtores agrícolas e da distribuição e comércio (atacadista e varejista) dos produtos agropecuários ou florestais. Commodities: nome dado aos produtos padronizados comercializados em grande escala no mercado internacional, tais como soja, milho, suco de laranja, açúcar, entre outros. Domicílio: local destinado à habitação de uma ou mais pessoas. No caso das PNADs é a unidade básica da pesquisa. Domicílio particular: é a moradia onde o relacionamento entre os membros é ditado por laços de parentesco, de dependência doméstica ou ainda por normas de convivência. O oposto é o domicílio coletivo onde prevalecem normas administrativas, tais como asilos, orfanatos, casas de detenção etc. Domicílio particular permanente: é o domicílio particular localizado em unidade que se destina a servir de moradia fixa. O oposto é o domicílio particular improvisado, localizado em unidade que não seja destinada exclusivamente à moradia, como lojas, grutas, tendas etc. GATT: Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio que trata das regras do comércio internacional, e inclusive dos produtos agrícolas a partir de 1986. Em 1994 esse acordo foi incorporado à OMC. IBGE: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. (www.ibge.gov.br) Individualização do trabalho agrícola: tendência observada nos trabalhos agrários de permanecer somente uma pessoa encarregada na execução ou gerência das várias atividades. No caso brasileiro, tendem a prevalecer os homens nas atividades agropecuárias, daí o termo "masculinização" do trabalho agrícola. Nichos de mercado: pequeno comércio de produtos diferenciados, atendendo as preferências individuais ou de grupos de consumidores, em geral a um custo mais elevado. Uma Abordagem Ilustrada 51
  50. 50. Novo Rural: conjunto das atividades agrícolas, ligadas tanto à produção em grande escala para a agroindústria como para pequenos mercados diferenciados, e não-agrícolas no espaço rural (indústrias rurais, prestação de serviços, lazer ou moradia). Ocupação: é o trabalho efetivamente exercido por uma pessoa. As ocupações brasileiras são muito variadas, envolvendo desde o agricultor braçal até o executivo de grandes empresas. Ocupação agrícola: ocupação exercida diretamente na produção agrícola, na criação de animais, no cultivo de florestas ou no extrativismo vegetal. Ocupação não-agrícola: ocupação exercida nos ramos da prestação de serviços, indústria de transformação, construção civil, comércio, administração pública etc, derivados ou não das atividades agrícolas. OMC: Organização Mundial do Comércio: sucessora do GATT, que trata das regras do comércio internacional, inclusive dos produtos agrícolas. É na OMC que atualmente são resolvidas as divergências comerciais entre países. Part-time farming: conceito relativo ao estabelecimento agropecuário, quando os responsáveis pelo estabelecimento desenvolvem atividades apenas em tempo parcial nesse estabelecimento. PEA: População Economicamente Ativa, constituída pelo conjunto de pessoas de dez anos ou mais de idade que efetivamente trabalharam ou procuraram emprego no mês de setembro. PEA restrita: conjunto da população economicamente ativa menos os que trabalharam na produção para o próprio consumo, ou construção para o próprio uso, ou ainda, em atividades não remuneradas por menos de 15 horas na semana. Pluriatividade: combinação de atividades agrícolas e não-agrícolas no interior da mesma família extensa. Pode ainda ser pluriatividade a combinação de atividade agrícola no próprio negócio com outra atividade agrícola como assalariado em outros locais. PNAD: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE. Como já diz o nome, é uma pesquisa feita por amostra, isto é, somente algumas famílias são entrevistadas, mas essa amostra é feita com um rigor estatístico de forma a 52 Novo Rural
  51. 51. garantir a representatividade de toda a população. A única limitação importante da PNAD é que ela não realiza sua pesquisa nas áreas rurais da antiga região Norte do País (Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima), sob a alegação de custo de deslocamento na imensa região amazônica. População ocupada: parcela da População Economicamente Ativa que efetivamente trabalhou no mês de setembro. RURBANO: nome utilizado pelo projeto de pesquisa coordenado pelo Instituto de Economia da UNICAMP, inspirado em Gilberto Freire, que procura explorar os novos usos e atividades no meio rural brasileiro. Situação do Domicílio: localização geográfica do domicílio. Esta localização pode ser: Rural: seguindo a mesma orientação do IBGE, são as áreas localizadas fora do perímetro urbano dos municípios brasileiros. Urbana: são as áreas localizadas dentro dos perímetros urbanos de cada município. Dependendo da classificação adotada, elas ainda podem representar apenas o núcleo urbano, sem a periferia das cidades. Periferia: área em transição entre a zona urbana e a rural, com densidade demográfica mas com carência de serviços públicos, tais como rede de água canalizada, esgoto, ruas, energia elétrica, postos de saúde, telefonia, etc. Povoado: concentração de residências no interior dos municípios, podendo ser ou não considerado urbano pela legislação municipal. Rural agropecuário: são as áreas rurais propriamente ditas, pertencentes a um único proprietário, nas quais se processa a produção agropecuária propriamente ou áreas de preservação ambiental. Nessas áreas aceita-se no máximo concentração de núcleo de moradores de fazendas e sítios. Terceirização: contratação de terceiros para a execução de uma tarefa produtiva. Na agropecuária têm proliferado as firmas que prestam os mais variados serviços, como implantação de lavouras, controle de pragas e doenças, colheita, inseminação, gestão financeira etc. Uma Abordagem Ilustrada 53

×