UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE        CENTRO DE CIÊNCIAS E HUMANIDADES              CURSO DE PEDAGOGIA              ...
FLÁVIA SAVOIA DIAS DA SILVA  CONTOS DE FADAS... SONHOS... UM UNIVERSO DE APRENDIZAGEM?                               Traba...
FLÁVIA SAVOIA DIAS DA SILVA    CONTOS DE FADAS... SONHOS... UM UNIVERSO DE APRENDIZAGEM?                                  ...
A todas as pessoas que contribuíram naminha        formação,      não        somenteprofissional,    mas      em      todo...
AGRADECIMENTOS       Aos meus pais, por terem me acompanhado e apoiado todas minhas decisões pessoaise profissionais.     ...
“Um dia me disseram que as nuvens não eram de algodão...”                                  (Engenheiros do Havaí)         ...
RESUMO          Este trabalho discute o papel dos contos de fadas no decorrer da história e faz mençãoàs concepções atuais...
ABSTRACT       This work discusses the fairytales roll throughout the history and refers to the currentconceptions of the ...
SUMÁRIO1. INTRODUÇÃO ........................................................................................................
1. INTRODUÇÃO     Depois de ter cursado um ano do curso de Psicologia e estar concluindo o curso de  Pedagogia, sinto que ...
Durante a execução desse trabalho de conclusão de curso, fui apresentada à obra deGambini (2000) e pude compreender o trab...
Apesar de haver contos de fadas apropriados para cada conflito enfrentado em umadeterminada faixa etária, cada pessoa tem ...
de fadas, que também usam a oralidade, pois cabe à professora contá-los, uma vez que osalunos da Educação Infantil ainda n...
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA    2.1 SOBRE CONTOS DE FADAS    Os Contos de Fadas são a expressão da psique coletiva, que encant...
“mythoi”. Desde então, os contos de fada estão vinculados à educação das crianças.”(FRANZ, 1990, p.11). De acordo com Urba...
Bettelheim (1980) explica que “Os mitos projetam uma personalidade ideal agindo nabase das exigências do superego, enquant...
forma animal, isso pôde ser visto na novela O Asno de Ouro, um conto de fada chamadoAmor e Psyche, escrito por um filósofo...
foram precursores da ciência do folclore.” (OBERG, 2002, p.7 e 8. apud GRIMM,                       Irmãos. Contos de Fada...
amadurecimento. Exploram questões fundamentais para a humanidade. Talvez por essa razãotenham se universalizado.   Segundo...
Lúcia não tornou a ler aquele livro. Não o reconheceria mais. O livro cresceu                       tanto dentro dela que ...
Bettelheim (1980) nos ensina que há duas crises no desenvolvimento - a primeira consistena personalidade, na descoberta do...
desejos raivosos quanto a ela – uma culpa que interferiria seriamente na boa relação com amãe.” (BETTELHEIM, 1980, p.84 e ...
O cósmico supera as polaridades, vê tudo como um todo. Tende a ser mais próprio daspessoas da terceira idade ou que se enc...
2.2 SONHOS: SUA RELEVÂNCIA PARA O DESENVOLVIMENTO COGNITIVO   Nesse capítulo buscamos mostrar a importância do sonhar e de...
Português. Ora, logo vemos que, o que se sonha, o dia-a-dia das crianças e a educação sãotemas relacionados, e que podem s...
momento da rotina escolar, devemos parar apenas nessa etapa, pois de acordo com JUNG(1996), “ao trazer-se para a consciênc...
“Apesar de reconhecermos o sonho como um texto, sua mensagem não é direta:                       seus elementos não têm co...
É na medida em que a criança pode manipular e representar essa presença/ausência                         que ela pode mant...
2.3 INTER-RELAÇÃO ENTRE SONHOS E CONTOS DE FADA   Como foi citado no primeiro capítulo deste trabalho, de acordo com FRANZ...
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segundo ele, é mais uma forma do professor conhecer seus alunos, não somente pelo relato dosonho, mas porque ao relatá-los...
10. Emoções   11. Anjos   12. Deus   Cada um desses temas pode ser visto nos relatos das crianças, e podem abordar diferen...
Assim como já foi dito anteriormente, os contos de fadas carregam a fantasia2, e oComplexo de Édipo nada mais é do que a f...
obviamente, se o adulto intermediador, no caso, uma professora que leia o conto sem mostrarilustrações, estará presenteand...
2.4 COLETA DE DADOS   A coleta de dados se faz necessário para evidenciar o levantamento teórico e pararesponder a hipótes...
os contos de fadas. (...) A maioria dos contos de fadas se originou em períodos em que areligião era parte muito important...
de cera algum sonho que recordavam. Tal prática foi baseada na autora Canepa (2000), quedefende um “clima” para o relato d...
ficam de cabeça para baixo, como se fossem segredos, como sendo extremamente válido, poistrabalha o respeito pelo segredo ...
de que mais gostaram da história. Aconteceram coisas interessantes, como por exemplo, umaluno virar sua produção de cabeça...
Cabe dizer que ele não estava doente, nem havia ficado resfriado por esses dias. Masmostrou uma forma de dizer que estava ...
O mesmo aluno mostra características semelhantes ao relatar outro sonho. Para umaprofessora que está atenta à realidade de...
Essa criança pode usufruir dos benefícios do projeto em questão porque se sentiu ouvidapor todos. Além disso, as crianças ...
(Figura 5 – Desenho de Simone, 4 anos, em 01/06/2007 – durante separação dos pais)    Outra experiência interessante acont...
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  1. 1. UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE CENTRO DE CIÊNCIAS E HUMANIDADES CURSO DE PEDAGOGIA FLÁVIA SAVOIA DIAS DA SILVACONTOS DE FADAS... SONHOS... UM UNIVERSO DE APRENDIZAGEM? São Paulo 2007
  2. 2. FLÁVIA SAVOIA DIAS DA SILVA CONTOS DE FADAS... SONHOS... UM UNIVERSO DE APRENDIZAGEM? Trabalho de graduação interdisciplinar apresentado à Universidade Presbiteriana Mackenzie, Centro de Ciências e Humanidades, como requisito parcial à obtenção do título de licenciatura em Pedagogia.ORIENTADORA: Profª. Ms. Mônica Hoehne Mendes São Paulo 2007 2
  3. 3. FLÁVIA SAVOIA DIAS DA SILVA CONTOS DE FADAS... SONHOS... UM UNIVERSO DE APRENDIZAGEM? Trabalho de graduação interdisciplinar apresentado à Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial para a obtenção do título de Licenciatura em Pedagogia.Aprovada em BANCA EXAMINADORA___________________________________________________________________________ Profa. Ms. Mônica Hoehne Mendes – Orientadora Universidade Presbiteriana Mackenzie___________________________________________________________________________ Prof. Ms. Ronê Paiano Universidade Presbiteriana Mackenzie___________________________________________________________________________ Profa. Dra. Ingrid Hotte Ambrogi Universidade Presbiteriana Mackenzie 3
  4. 4. A todas as pessoas que contribuíram naminha formação, não somenteprofissional, mas em todo meudesenvolvimento. Aos meus pais pelaconfiança, à minha avó Helena pelocarinho, ao meu namorado Leandro, peloincentivo, aos professores pelacredibilidade e ao meu irmão e amigospela compreensão. 4
  5. 5. AGRADECIMENTOS Aos meus pais, por terem me acompanhado e apoiado todas minhas decisões pessoaise profissionais. À Profª. Ms. Mônica Hoehne Mendes, minha gratidão por ter sido uma orientadorapresente, compreensiva e ter compartilhado comigo a ousadia de realizar esse trabalho. À Profª. Ms. Adriana Aroma da Silva Camejo, eu agradeço pela confiança e auxílio naminha formação enquanto pesquisadora. Aos demais professores do curso de Pedagogia da Universidade PresbiterianaMackenzie, que por meio de muitos elogios, auxiliaram meu bom desempenho acadêmico eem alguns casos, superaram as barreiras professor / aluno, criando um forte laço de amizade. À Marlise Rodembush, diretora da escola Villacor, por permitir a coleta de dados e ainserção do projeto idealizado nesse trabalho em sua proposta pedagógica. À Nayara Vicari de Paiva Baracho e Renata Shenkman Podgaec pela revisão textualdesse trabalho. Agradeço a Deus, pois sem Ele nada seria feito. 5
  6. 6. “Um dia me disseram que as nuvens não eram de algodão...” (Engenheiros do Havaí) 6
  7. 7. RESUMO Este trabalho discute o papel dos contos de fadas no decorrer da história e faz mençãoàs concepções atuais do desenvolvimento infantil com implicações na área da psicanálise e dapsicologia analítica. Para tal, traz Bruno Bettelheim e Marie Von Franz como principaisreferências. Além disto, com base na obra de Roberto Gambini aborda os sonhos no contextoescolar tomando como grupo de estudo algumas crianças que estão na fase edípica, propostapor Freud. Procura verificar as semelhanças e diferenças entre sonhos e contos de fadas visandomaximizar o desenvolvimento integral dos alunos dentro da instituição educacional aotrabalhar com o potencial do imaginário infantil.Palavras-chave: Contos de Fadas. Sonhos. Psicopedagogia. Aprendizagem. Desenvolvimento.Escola. 7
  8. 8. ABSTRACT This work discusses the fairytales roll throughout the history and refers to the currentconceptions of the children’s development with implications in the psychoanalysis andanalytical psychology. For that purpose, it brings Bruno Bettelheim and Marie Von Franz asthe main references. Besides, based on the work written by Roberto Gambini, it approaches the dreams inthe scholar context, using some children who are in the Edipic phase proposed by Freud as astudy group. It tries to examine the similarities and differences between dreams and fairytalesaiming to maximize the integral development of students within the educational institutionwhen working with the childhood imagination potential.Key words: Fairytales. Dreams. Psycho-pedagogy. Learning. Development. School. 8
  9. 9. SUMÁRIO1. INTRODUÇÃO ............................................................................................................. 102. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ............................................................................... 142.1 SOBRE CONTOS DE FADAS .................................................................................... 142.2 SONHOS: SUA RELEVÂNCIA PARA O DESENVOLVIMENTO COGNITIVO ... 242.3 INTER-RELAÇÃO ENTRE SONHOS E CONTOS DE FADA ................................. 292.4 COLETA DE DADOS .................................................................................................. 353. CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................................... 464. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................................ 555. REFERÊNCIAS ELETRÔNICAS .............................................................................. 576. ANEXOS ........................................................................................................................ 58 9
  10. 10. 1. INTRODUÇÃO Depois de ter cursado um ano do curso de Psicologia e estar concluindo o curso de Pedagogia, sinto que as áreas pedagógicas e psicológicas não estão apenas uma ao lado da outra, mas que elas se complementam. Essa interligação é essencial à formação do sujeito. A educação não pode deixar de lado o caráter psíquico inerente a cada um de seus alunos. Acredito que a Psicopedagogia é um tema que deve ser explorado não apenas por especialistas, como por todos os educadores, inclusive, em sua formação. A Psicologia da Educação não abrange o desenvolvimento integral dos alunos, até mesmo pelo pouco tempo em que ela está presente no curso de Pedagogia. Não basta somente compreender as fases do desenvolvimento psicológico pelas quais todos nós passamos - é necessária uma abordagem que analise as especificidades de cada educando. Durante o curso de Pedagogia fomos estimuladas a pesquisar áreas de nosso interesse. Num primeiro momento, pesquisei sobre a Educação Bilíngüe (português – inglês), afinal, eu estava fazendo estágio em uma escola cuja proposta para alunos do período integral era da imersão na língua inglesa. Depois, pesquisei Neuropedagogia, uma vez que quando cursava Psicologia, tinha muito interesse pelas Neurociências (tendo participado, inclusive, de alguns encontros de iniciação científica), porém, mais uma vez mudei o tema, pois não se tratava de algo novo, e sim de uma junção de temas já explorados na formação de docentes e educadores, como aprendizagem de línguas, neurociências, educação e psicomotricidade, por exemplo. Por mais que um trabalho de graduação não vise explorar o novo, desejo contribuir de alguma forma e não apenas relatar o que os educadores já sabem e praticam (ou deveriam saber e praticar), mas às vezes não usam a terminologia apropriada – como no caso da Neuropedagogia. Por outro lado, o interesse pelos sonhos vem de muito tempo, e ao ingressar na faculdade de Psicologia já tinha o interesse em trabalhar com essa expressão do inconsciente das pessoas. Porém, ao mudar para a faculdade de Pedagogia, não havia pensado num trabalho educacional que usasse esse recurso, até que fiz um curso prático de aperfeiçoamento para professores no Colégio Lourenço Castanho. Nessa escola, eu tive a oportunidade de observar a sala de aula. Encontrei alguns cadernos com desenhos e anotações no verso de cada um. A professora me explicou que era um trabalho feito com sonhos. Busquei mais informações com ela e com a direção, mas me disseram apenas que era um trabalho desenvolvido pela escola. Fiquei instigada... Para que serviriam aqueles registros? 10
  11. 11. Durante a execução desse trabalho de conclusão de curso, fui apresentada à obra deGambini (2000) e pude compreender o trabalho realizado nessa instituição. As professorassentavam-se semanalmente com seus alunos para que eles relatassem seus sonhos. A propostatrazida por Gambini (2000), influenciou na coleta de dados desse trabalho, dando subsídiosteóricos e permitindo uma prática consciente. Essa monografia visa a superar a proposta de ascrianças contarem seus sonhos, uma vez que ao professor cabe contar o conto de fadas. Considerando os arquétipos1 dos sonhos, também presentes nos Contos de Fadas, procureirelacionar essas simbologias, que estão presentes no cotidiano, mas que são pouco exploradas.Um único Conto de Fadas pode trabalhar diversos conflitos humanos. E a criança pode seencontrar pelo simples fato de ouvir essa história, ou de vivenciá-la numa improvisaçãoteatral. O mais interessante é que o educador pode ajudar muito a criança ao ouvir seus sonhos.Agindo assim, ele estará mais próximo de seu aluno, podendo então, propor um determinadoconto para atender os eventuais conflitos. Ao pesquisar sobre os temas “Sonhos” e “Contos de Fadas” não encontrei nenhum autorque tenha discorrido sobre essa junção no âmbito educacional. Os autores que exploram essetema dentro da educação de formas distintas têm uma formação psicológica. Por esse motivo,o objetivo desse trabalho é investigar a possibilidade de os educadores lançarem mão doscontos de fadas e sonhos para mediar a aprendizagem, pois ao considerar o ser humano comosujeito biológico, cognitivo e emocional, esses dois temas pertinentes à infância podemcontribuir na formação do sujeito. Para atingir os objetivos aqui propostos, além da pesquisa bibliográfica foi necessária umaobservação prática do estudo. Após o entendimento da epistemologia inerente aos contos defadas, foi realizada uma pesquisa qualitativa, uma vez que cada pessoa é única e mereceatenção para suas peculiaridades, não podendo ser vista como número ou quantidade. Paraisso, o enfoque nesse trabalho de graduação abrange uma coleta de dados, pois seria difícil,devido ao tempo escasso, estabelecer comparações entre sujeitos focando seudesenvolvimento.1 Arquétipos – “O arquétipo pode ser definido como uma potencialidade inata de comportamento. Sempre quereagirmos será de uma forma humana, sempre que pensarmos será de uma forma humana, e assim por diante. Oconceito de arquétipo aproxima-se do conceito de padrão de comportamento da Biologia e do conceito deinstinto, sendo claras em Jung as influências de Platão (conceito de Idéias Originais que precederiam aexperiência) e de Kant (Categorias à Priori de percepção que seriam inatas) (...)Todos os arquétipos contêm umapolaridade, têm dois pólos, atuam em pares e todos nós , pela própria definição de arquétipos, temos os doislados dentro de nós como potencialidades de comportamento: temos a "mãe", mas temos também o "filho";muitas vezes agimos como o "médico" ( aquele que cura) ou como o "doente". Ambos são aspectos do mesmoarquétipo, um não vem sem o outro.”. (WENTH, 2007) 11
  12. 12. Apesar de haver contos de fadas apropriados para cada conflito enfrentado em umadeterminada faixa etária, cada pessoa tem um ritmo de desenvolvimento diferente. A vontadee a preferência por um determinado conto varia de acordo com a fase de desenvolvimento econflitos que a criança estiver vivenciando, conforme propôs Bettelheim (1980). Isso acontecedevido a diversos fatores, entre eles, primordialmente – de acordo com Vygotsky – o seumeio. O meio em que a criança vive pode ser observado pelos relatos dos sonhos, quer sejamrealmente sonhados, ou apenas fantasias relatadas. Afinal, a criança relata o que sente, e se oinventou, foi porque sentiu necessidade de externalizar tal fato. Em relação a sonhos, a única publicação encontrada na área da educação foi feita porGambini (2000), terapeuta e autor brasileiro. Já com relação aos contos de fadas, não há umnome mais expressivo do que os autores, que são referências internacionais: Franz (1990) eBettelheim (1980), que fazem uma abordagem mais psicológica dos mesmos. Quandodirecionados à educação, os autores e pesquisadores geralmente discorrem acerca daalfabetização ou da fantasia, como é o caso dos mestres citados abaixo, referindo-se à suasdissertações, segundo sites considerados referências em pesquisas científicas: Sa (2003) disserta sobre a literatura fantástica produzida durante os séculos XIX e XX.Apesar de citar Freud, o enfoque primordial é no gênero literário que traz elementos dafantasia. Botelho (1998) propõe oficinas de escrita com elementos dos contos de fada, num estudorealizado com seis crianças, objetivando o interesse pela escrita, considerando a importânciado brincar. Já Lodi (2004) trabalha com Libras como objeto de alfabetização, usando os contos defada como recurso. Por fim, o mais pertinente a esse estudo, Radino (2001), reflete sobre a oralidade daEducação Infantil. Partindo do modo de usar os contos de fadas pelos professores, percebeuque a alfabetização de crianças provenientes de um meio sócio-cultural desfavorecido valorizaa linguagem escrita e “despreza a oralidade, que perde sua função auxiliar na construçãosimbólica da criança, o que facilitaria o próprio processo de alfabetização” (RADINO, 2001).Esse artigo traz um ponto importante para o presente trabalho, afinal, enfoca a EducaçãoInfantil e a importância da linguagem oral. De acordo com Gambini (2000), a oralidade também traz respeito e convivência entre oscolegas, pois com o relato dos sonhos ocorre a “(...) interação subjetiva. O relato de sonhospromove o aprendizado do respeito pela fala do colega narrador, porque depois vai ser aminha vez e depois a sua vez” (GAMBINI, 2000, p.114) – o mesmo acontece com os contos 12
  13. 13. de fadas, que também usam a oralidade, pois cabe à professora contá-los, uma vez que osalunos da Educação Infantil ainda não são capazes de lê-los (e se o fizessem, perderiam parteda vivência emocional em prol da compreensão textual). Não obstante, assim como foi dito, pretendo contribuir com a área educacional ao articularsonhos, contos de fadas e aprendizagem significativa. Ou seja, busco mostrar que os sonhos econtos de fadas são universos semelhantes, que auxiliam na compreensão do universoimaginário do sujeito em seu processo de desenvolvimento emocional e de aprendizagem,colaborando, conseqüentemente, com a nova geração em formação, que poderá ser mais bemresolvida consigo mesma, facilitando a aprendizagem, e também a formação de cidadãoscríticos, possibilitando a tão almejada emancipação e transformação da realidade. Sendo assim, esse trabalho expressa uma relevância social, pois apresenta uma leiturateórica e uma proposta baseada em Gambini (2000), tentando superá-lo e indo além, uma vezque é feita a articulação entre relatos de sonhos, com a possível intervenção da professora aoler contos de fadas – já adotados pelas escolas brasileiras - para seus alunos. Essa ligaçãopropõe um trabalho articulado, mantendo o pedagogo em seu papel de mediador entre o alunoe seu desenvolvimento, sem julgá-lo como psicólogo ou sem atuar como tal. Focando nas crianças que estão vivenciando o conflito edípico, abordaremos acontribuição dos contos de fadas para o desenvolvimento sadio de indivíduos com idadesentre 3 e 6 anos. Para tanto, iremos nos basear nas concepções trazidas por Bettelheim (1980)ao analisar esse gênero literário sob a ótica da psicanálise. Faremos uma incursão em sua obra“A Psicanálise dos Contos de Fadas”, que defende essa literatura por atender à necessidadeque as crianças têm de que lhe sejam dadas sugestões de como enfrentar situações a fim deatingir a maturidade, desenvolvendo um caráter moralmente aceito pela sociedade. Em suma, para o desenvolvimento desse trabalho, apoiamo-nos nas vertentes dapsicanálise, sobretudo considerando a fase edípica, e na psicologia analítica da perspectivajungiana. 13
  14. 14. 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 2.1 SOBRE CONTOS DE FADAS Os Contos de Fadas são a expressão da psique coletiva, que encanta crianças e adultos detodas as gerações. Isso acontece porque esse gênero literário está carregado de símbolos, e“(...) é através dos símbolos que a consciência pode perceber os liames entre a psiqueindividual e a psique coletiva.” (FURLANETTO, 1989, p.4). Parafraseando Urban, 2001, “os contos de fada podem ser vistos como pequenas obras de arte, capazes que são de nos envolver em seu enredo, de nos instigar a mente e comover-nos com a sorte de seus personagens. Causam impacto em nosso psiquismo, porque tratam das experiências cotidianas, e permitem que nos identifiquemos com as dificuldades ou alegrias de seus heróis, cujos feitos narrados expressam, em suma, a condição humana frente às provações da vida (...) apresentando-nos as situações críticas de escolha que invariavelmente enfrentamos, não despertariam nem sequer o interesse nas crianças que buscam neles, além da diversão, um aprendizado apropriado à sua segurança. Neste processo, cada criança depreende suas próprias lições dos contos de fadas que ouve (...). Oportunamente, pede que seus pais lhes contem de novo esta ou aquela história, quando revive sentimentos que vão sendo trabalhados a cada repetição do drama, ampliando assim os significados aprendidos ou substituindo-os por outros mais eficientes, conforme as necessidades do momento”. (URBAN, 2001) Por meio dessas histórias, as comunidades exprimem seus sentimentos e valores.Atualmente, eles são vistos quase sempre com um final feliz, mas nem sempre foi assim. Aconcepção do “...viveram felizes para sempre...”, vinculado intrinsecamente aos Contos deFadas é errônea. Na sua origem, os contos apresentavam diversos fins, até mesmo os trágicos,pois assim, permitia-se aos ouvintes a lidar com suas frustrações. O “happy end” (final feliz) foi uma maneira de dar esperança para as pessoas ao passar amensagem de que, no final, tudo dará certo, mesmo para aqueles que tenham uma vida sofridae cheia de desgraças. No entanto, essa é uma idéia nova nos Contos de Fadas, e o marco paraessa mudança surgiu com o escritor americano Walt Disney. Ele popularizou mundialmenteesse gênero literário, modificando muitas histórias, e ainda, vendendo imagens e estereótipospara cada personagem - o que não acontecia nos contos originais, que exploravam oimaginário do ouvinte (ou ainda, do leitor, quando alguns foram publicados) apenas pelahistória. A cultura de contar histórias para as crianças não é algo recente. “Pelos escritos de Platãosabemos que as mulheres mais velhas contavam às suas crianças histórias simbólicas – 14
  15. 15. “mythoi”. Desde então, os contos de fada estão vinculados à educação das crianças.”(FRANZ, 1990, p.11). De acordo com Urban, 2001, Platão também propunha que a educaçãoda sua época – séc. V a.C. – se desse por conta de mitos que explicassem aos cidadãos aorigem e função de suas castas. Cabe também notar que a função docente ligada aoemocional já acontecia. Então, por que as professoras atuais – uso o gênero feminino, poiseste ainda é predominante na docência – usam o conto de fada como um gênero literárioapenas na alfabetização? As mulheres perderam a função de passar histórias oralmente para asnovas gerações na sociedade, mas nunca deixaram de educar seus filhos, mesmo que fossempor simples histórias... Não podemos deixar de lado a importância histórica que os contostiveram, e têm, na construção da mente dos indivíduos. Segundo Bettelheim: “Para a criança e para o adulto que, como Sócrates, sabe que aindaexiste uma criança dentro do indivíduo mais sábio os contos de fadas exprimem verdadessobre a humanidade e sobre a própria pessoa” (BETTHELHEIM, 1980, p.83). As sociedades se identificam pelos contos, pois estes utilizam arquétipos e símbolos quemostram o desenvolvimento da personalidade, e com base nas idéias de Byington (1987), osprimeiros são sempre inconscientes, já os outros são representações tanto do inconscientecomo do consciente. Os Contos de Fada têm sua origem nos mitos, que segundo o dicionário Aurélio: “Mito [Do gr. mythos, ‘fábula’ pelo lat. mythu.] S. m. 1. Narrativa dos tempos fabulosos ou heróicos. 2. Narrativa de significação simbólica, geralmente ligada à cosmogonia, e referente a deuses encarnadores das forças da natureza e/ou aspectos da condição humana. 3. Representação de fatos ou personagens reais, exagerada pela imaginação popular, pela tradição, etc. 4. Pessoa ou fato assim representado ou concebido: Para muitos, Rui Barbosa é um mito. [Sin., (relativo a pessoa) nesta acepç.: monstro sagrado (2), (q. v.).] 5. Idéia falsa, sem correspondente na realidade (...) 6. Representação (passada ou futura) de um estágio ideal da humanidade (...) 7. Imagem simplificada de pessoa ou acontecimento, não raro ilusória, elaborada ou aceita pelos grupos humanos, e que representa significativo papel em seu comportamento. 8. Coisa inacreditável, fantasiosa, irreal; utopia (...) 9. Filos. Exposição de uma doutrina ou de uma idéia sob forma imaginativa, em que a fantasia sugere e simboliza a verdade que deve ser transmitida, como, p. ex., no mito da caverna [q. v.] 10. Filos. Forma de pensamento oposta à do pensamento lógico e científico. Mito da caverna. Filos. Aquele com que Platão, no começo do livro sétimo da República, figura o processo pelo qual a alma passa da ignorância à verdade.” Nota-se a estreita relação entre mito e conto pela simples descrição do termo. Sendoassim, podemos dizer que os contos de fada tiveram sua origem há séculos, juntamente comos mitos. 15
  16. 16. Bettelheim (1980) explica que “Os mitos projetam uma personalidade ideal agindo nabase das exigências do superego, enquanto os contos de fadas descrevem uma integração doego que permite uma satisfação apropriada dos desejos do id. Esta diferença responde pelocontraste entre o pessimismo penetrante dos mitos e o otimismo essencial dos contos defadas.” (BETTHELHEIM, 1980, p.52). Podendo inferir que o primeiro ensina pelo trágico,enquanto os contos de fadas auxiliam no desenvolvimento ao dar esperanças de um final feliz. Outra diferença apontada por esse autor é que nos contos usam-se personagens genéricos,como “pai” ou “João”, por exemplo, diferentemente dos mitos. Pelos “(...) mitos, nós compreendemos as nossas razões de viver e isso muda toda a nossadisposição de vida, podendo muitas vezes mudar nossa própria condição psicológica”(FRANZ, 1990, p.75). No entanto, nas palavras de Leonhardt (1994, p.30), ambos trazemrespostas às indagações básicas do homem, mas no mito as respostas são mais diretas do quenos contos de fadas, que tratam os conflitos de forma mais sutil e permitiu o desenvolvimentodos leitores / ouvintes. “Quando se contam histórias de fada para as crianças, elas se identificam ingênua e imediatamente captam toda a atmosfera e sentimento que a história contém. Se a história do pobre patinho é contada, todas as crianças que têm complexo de inferioridade esperam que no fim elas também se tornem princesas. Isso funciona exatamente como deveria ser; o conto oferece um modelo para a vida, um modelo verificador e encorajador que permanece no inconsciente contendo todas as possibilidades positivas da vida”. (FRANZ, 1990, p.74) Segundo Franz (1990), “...os contos de fada também foram encontrados nas colunas epapiros egípcios, sendo um dos mais famosos o dos irmãos, Anubis e Bata” (p.12, 1990), essefato data mais de 3000 anos atrás. “... de acordo com a teoria do padre W. Schimidt: “DerUrsprung Der Gotteisidee”, existem indícios de que alguns temas principais de contos sereportam a 25000 anos a.C., mantendo-se praticamente inalterados.” (FRANZ, p.12, 1990). De acordo com Urban, (2001), a “data histórica mais antiga nos leva diretamente à fonte do popular tema dos ”Dois Irmãos", um dos quais geralmente é bom, o outro nem tanto, encontrado em quase todos os folclores. Ela se acha escrita no papiro egípcio Orbiney (nome de seu antigo possuidor) datado de 1210 a.C., que se encontra completo e preservado no Museu Britânico. Relata as desavenças entre dois irmãos, projetadas na dupla de deuses Anúbis e Bata, que vivem brigando entre si, mas dependem mutuamente um do outro.” (URBAN, 2001) Cada conto descreve apenas um fato psíquico, e a maioria deles permanecem inalterados,os temas básicos são os mesmos. Um exemplo é o caso da mulher redimir seu amado da 16
  17. 17. forma animal, isso pôde ser visto na novela O Asno de Ouro, um conto de fada chamadoAmor e Psyche, escrito por um filósofo do século II, Apuleio. Desde então, os contos de fadas cumprem um importante papel educativo. Eles foram eainda são destinados para crianças e adultos. Na Europa, até os séculos XVII e XVIII,transmitir contos era uma ocupação espiritual essencial. Neles havia algo que faltava nosensinamentos cristãos oficiais. Tendo em vista que naquela época a espiritualidade era umaforma de educar, podemos dizer que eles eram importantes na formação humana. E ainda osão, pois trabalham dilemas existenciais que a sociedade evita apresentar para as crianças,como morte, envelhecimento, desejo de vida eterna, luta entre o bem o mal, entre outros. Com essas descrições, observamos a diferença entre o mito e o conto, uma vez que oprimeiro visa explicar a realidade com dados sobrenaturais, e o segundo, busca dar subsídiospara compreensão da realidade com fatos equivalentes ao cotidiano humano. Segundo Franz (1990), por interesse científico, no século XVIII, Winckelmann, Haman eJ.G.Heder tentaram interpretar os contos. Herder dizia que nos contos havia uma antigacrença neopagã, o que o levou a induzir os “irmãos Jakob e Wilhelm Grimm a colecionarcontos folclóricos. Antes disso, os contos de fada haviam sofrido o mesmo destino do próprioinconsciente, ou seja, eram simplesmente aceitos.” (p.13) Oberg, 2002, na apresentação do livro Contos de Fada (GRIMM, Irmãos), explica que “dois irmãos professores da Universidade de Göttingen, na Alemanha, filólogos eminentes, foram destituídos de suas funções em conseqüência de um fato político: Jacob Ludwig Karl lecionava literatura alemã quando foi abolida a Constituição de Hanover e, por protestar contra tal ato, foi demitido do cargo que ocupava e Wilhelm Karl foi sub-bibliotecário em Göttingem, e mais tarde, professor nessa mesma universidade, abandonando o magistério pelas mesmas razões que afastaram seu irmão Jakob. Em 1849, morando em Berlim, Jakob Ludwig fez parte da Assembléia Geral da Gota, trabalhando em favor da unidade alemã até o momento em que essa Assembléia foi dissolvida e ele decidiu abandonar a política para dedicar-se, juntamente com seu irmão Wilhelm Karl, às publicações e estudos de história, literatura e lingüística (...). Conhecidos mundialmente como “Irmãos Grimm”, realizaram importantes pesquisas no campo da tradição popular, deixando um riquíssimo acervo de histórias, lendas, anedotas, superstições e fábulas das velhas germânicas, preservadas graças à sua iniciativa e hoje conhecidas como “contos de fadas dos Irmãos Grimm”. Os dois irmãos percorreram a Alemanha, registrando as narrativas populares que recolhiam de pessoas humildes, muitas vezes analfabetas: comadres da aldeia, velhos camponeses, pastores, barqueiros, músicos e cantores ambulantes que encontravam pelas estradas ou reunidos em serões em volta do fogo, enquanto a roda das fiandeiras girava com seu ruído monótono... Tudo isso acontecia nos primeiros anos do século XIX, quando os velhos costumes pouco tinham mudado e as antigas tradições conservavam ainda toda sua força. O resultado desse trabalho foi excepcional: os Kinder ünd Haüsmärchen (História da criança e do Lar), apareceram num primeiro volume em 1812 com grande sucesso, seguido de um segundo volume em 1814. A edição completa das histórias recolhidas saiu em 1819, reunida em três volumes (...). Os irmãos Grimm 17
  18. 18. foram precursores da ciência do folclore.” (OBERG, 2002, p.7 e 8. apud GRIMM, Irmãos. Contos de Fadas) Os contos devem ser lidos no original, pois a cada versão, muda-se o enfoque de acordocom o interesse ou simples necessidade subjetiva. “Os irmãos Grimm escreveram os contosde fadas, como eram contados pelas pessoas das redondezas, mas mesmo eles, não resistiramalgumas vezes a misturar um pouco as versões” (FRANZ, 1990, p.14). Parafraseando Urban(2001), “Jacob era o mais intelectualizado dos irmãos, mas Wilhelm era quem detinha a verveda poesia; juntos chegaram a editar 210 histórias” (URBAN, 2001). Junto com Grimm, surgiua escola simbólica, da qual Chr. C. Heyne, F. Creuzer e J. Görres eram os principaisrepresentantes. Outro grande nome para os Contos de Fadas é o de Cristian Andersen (1802-1875). Deacordo com Urban, 2001, esse autor dinamarquês escreveu novelas, peças de teatro, roteirosde viagens, memórias e poesias, mas foi consagrado por seus contos de fada. “Filho de um humilde sapateiro e de uma iletrada mãe, mulher supersticiosa que o influenciou bastante por passar-lhe a tradição oral do campo. Em 1835 publicou Histórias Contadas às Crianças, com seus quatro primeiros contos. Até 1872, produziu 168 histórias, logo traduzidas em diversos países, comumente publicadas em séries de quatro narrativas por livro. Combinando à fantasia infantil sua aguçada sabedoria, encantou igualmente o público adulto, repetindo a mística do fenômeno provocado pelos irmãos Grimm; hoje sua obra acha-se traduzida em mais de 100 línguas”. (Urban, 2001) FRANZ (1990) escreveu que muitos tentaram descobrir a origem dos contos de fadas, masnenhuma conclusão é tida como a única verídica. Finalizo a retrospectiva histórica semnenhuma afirmação sobre datas, apenas concluindo que os contos de fada são de extremaimportância no desenvolvimento humano, sobretudo se considerarmos a fase de formaçãoinfantil. Segundo Nunes (1999), com “a metodologia dos contos de fada é possível integrar asabordagens teóricas de Lingüística, de Psicologia Social, de Psicologia do Desenvolvimento eda Aprendizagem, da Psicanálise (...)” (NUNES, 1999, p.36), assim, trabalha-se com odesenvolvimento integral da criança, permitindo que a interdisciplinaridade seja feita pormeio do próprio indivíduo. Apesar dos Mitos terem uma importante ligação com os contos de fada, de acordo comOberg, apud GRIMM, Irmãos Contos de Fadas (2002), pelo fato de apresentarem enredos esituações aparentemente simples, os contos de fadas, diferentemente dos mitos, cujos heróispossuem essência parcialmente divina, mostram o herói com características humanas,geralmente uma criança ou um jovem deve enfrentar provas que permitirão seu 18
  19. 19. amadurecimento. Exploram questões fundamentais para a humanidade. Talvez por essa razãotenham se universalizado. Segundo Bettelheim (1980), “(...) os contos de fadas têm grande significado psicológicopara as crianças de todas as idades, tanto meninas quanto meninos, independentemente daidade e sexo do herói da estória” (BETTELHEIM, 1980, p.26). De acordo com Leonhardt (1994) “a origem popular dos contos fica visível pelo fato deque os heróis das narrativas estão em situação de inferioridade no meio em que vivem esomente com o auxílio de elementos mágicos conseguem superar essa condição.”(LEONHARDT, 1994, p.30). Esse autor traz a questão do desejo das classes oprimidas selibertarem, mas nesse trabalho, iremos enfocar a abordagem psicológica, muito bem explicadapor Bettelheim (1980), que aborda os contos de fadas como uma libertação do indivíduoconsigo mesmo, em busca da personalidade e da autonomia. Dessa forma, não devemos esconder o lado ruim da vida para as crianças, mesmo porque,a criança não se sente boa o tempo todo e, a polarização auxilia na formação, conformemostra a seguinte passagem: “As figuras nos contos de fadas não são ambivalentes – não sãoboas e más ao mesmo tempo, como somos todos na realidade. Mas dado que a polarizaçãodomina a mente da criança, também domina os contos de fadas.” (BETTELHEIM, 1980,p.17). O desenvolvimento acontece dessa forma, porque “(...) as escolhas das crianças sãobaseadas não tanto pelo certo x errado, mas sobre quem desperta sua simpatia e quemdesperta sua antipatia.” (BETTELHEIM, 1980, p.17). Assim, o fato do mal não compensar édemonstrado por uma bruxa má, que não tem amigos. E nos contos amorais, podemosobservar que mesmo o medíocre pode ter sucesso, como cita Bettelheim (1980), nas trapaçasdo Gato de Botas, por exemplo. Assim, a criança tem o modelo do que é certo e do que éerrado. Como foi muito bem citado por C. Costa (2001), a história O livro dos Abraços, de E.Galeano, nos mostra que uma história pode se desenvolver dentro do indivíduo e colaborarcom sua formação: “Quando Lúcia Peláez era pequena, leu um romance escondida. Leu aos pedaços, noite após noite, ocultando o livro debaixo do travesseiro. Lúcia tinha roubado o romance da biblioteca de cedro onde seu tio guardava os livros preferidos. Muito caminhou Lúcia, enquanto passavam-se os anos. Na busca de fantasmas caminhou pelos rochedos sobre o rio Antióquia, e na busca de gente caminhou pelas ruas das cidades violentas. Muito caminhou Lúcia, e ao longo de seu caminhar ia sempre acompanhada pelos ecos daquelas vozes distantes que ela tinha escutado, com seus olhos na infância. 19
  20. 20. Lúcia não tornou a ler aquele livro. Não o reconheceria mais. O livro cresceu tanto dentro dela que agora é outro, agora é dela.” (C. COSTA, 2001, p.76 e 77) Nesse trabalho iremos enfocar a importância dos sonhos e contos de fadas nodesenvolvimento de crianças que estão vivenciando a fase edípica proposta por Freud, onde o“sonho” (leia desejo) da criança é conquistar o genitor do sexo oposto ao seu (ou mesmo afigura que represente esse sexo). Bettelheim (1980) mostra como os contos de fadas podemcontribuir nesse panorama vivenciado pelas crianças entre 3 e 6 anos de idade: “Os detalhes podem diferir, mas a trama básica é sempre a mesma: o herói improvável se revela matando dragões, resolvendo charadas e vivendo através de sua esperteza e bondade até que finalmente liberta a linda princesa, casa-se com ela e vive feliz para sempre. Um menino sempre se vê nesse papel principal. A estória implica que: não é o pai aquele cujo ciúme impede você de ter mamãe com exclusividade, é um dragão malvado o que você na verdade deve ter em mente é matar o dragão (...) não é a mamãe que a criança deseja para ela, mas uma mulher maravilhosa e magnífica que ainda não encontrou, mas de certo o fará (...) não é por sua livre e espontânea vontade que esta mulher maravilhosa (isto é, mamãe) mora com esta figura malvada. Ao contrário, se pudesse, preferiria estar com um jovem herói (como a criança). O matador do dragão tem sempre de ser jovem, como a criança, e inocente.” (BETTELHEIM, 1980, p.142) Esse autor explica que há contos mais voltados para conflitos edípicos do menino, e outrospara os da menina. Mas nos dois casos, por meio dos contos de fadas, as crianças podemsatisfazer seus desejos na fantasia, enquanto que mantém uma relação equilibrada na vidareal. Como a história acontece em tempos não definidos e lugares muito distantes, a criança nãomistura com a realidade. E nada se sabe sobre a vida depois do enredo, somente que viveramfelizes para sempre, como acontece na maioria das histórias. Isso não prejudica sua vida real,nem seu relacionamento com seus pais, o que seria mortal na cabeça da criança, pois teria quedisputar o amor com alguém muito mais forte. “A integração interna não é algo que seja adquirido de uma vez por todas; é uma tarefaque nos confronta durante toda a vida, embora em formas e graus diferentes. (...) cada contoprojeta no seu final “feliz” a integração de algum conflito interno” (BETTELHEIM, 1980,p.112). 20
  21. 21. Bettelheim (1980) nos ensina que há duas crises no desenvolvimento - a primeira consistena personalidade, na descoberta do “eu”, e a segunda é a crise edípica. E “os contos de fadaspodem até mesmo indicar à criança o caminho através do mais espinhoso dos bosques, operíodo edípico.” (BETTELHEIM, 1980, p.90). Nessa fase de pensamentos contraditórios, ela polariza seus pensamentos em bom ou ruim.O conto permite que a criança trabalhe esse sentimento ao separar uma pessoa em duasfiguras, permitindo assim, trabalhar com seus desejos bons e ruins, e as possíveisconseqüências. Na maioria dos contos de fadas, o fato de o personagem ser expulso do lar significa que éo momento de se tornar independente suportando a dor para alcançar a própria identidade.Deve aprender querer viver mesmo se não for casar com seu genitor do sexo oposto. Com base nas idéias de Bettelheim (1980), defendemos que o conto mostre para criançaque apesar de as bruxas existirem, as fadas também existem, e são muito mais poderosas. Masmostra também, que pode ocorrer uma tragédia quando alguém fica obcecado por algo ouquando é incapaz de esperar até que algo aconteça. “O conto de fada frisa que estes fatosaconteceram uma vez, numa terra distante, e deixa claro que oferece alimento para esperança,e não relatos realistas como é o mundo aqui e agora.” (BETTELHEIM, 1980, p.90) Esse enredo pode ser observado também pelo número três, muito presente nesse gêneroliterário. Na proposta desse autor, “o número três nos contos de fadas parece referir-sefrequentemente ao que é encarado em psicanálise como os três aspectos da mente: id, ego esuperego.” (BETTELHAIM, 1980, p.131) De acordo com ele, o “um” seria a própria pessoa. O “dois”, geralmente simboliza os pais,e o “três” seria a criança em relação a seus pais. O princípio da realidade também é encontrado nas três tentativas dos heróis mostrandoque não se consegue tudo de primeira. Outra característica inerente aos contos de fadas é a floresta, que representa o nosso ladoobscuro, um lugar onde resolvemos nossas questões. No tema do gigante, a criança pode resolver seus conflitos com o adulto, quando estemostra ter poder sobre ela, baseando-se na astúcia. Essa derrota do adulto é muitosignificativa para a criança, porque “embora a mamãe seja com mais freqüência a protetoratoda-dadivosa, pode-se transformar na cruel madrasta se for malvada a ponto de negar a seufilhinho algo que ele deseja. (...) A fantasia da madrasta malvada não só conserva intacta amãe boa, como também impede a pessoa de se sentir culpada a respeito dos pensamentos e 21
  22. 22. desejos raivosos quanto a ela – uma culpa que interferiria seriamente na boa relação com amãe.” (BETTELHEIM, 1980, p.84 e 86) Por fim, dizemos que os sonhos estão intimamente ligados aos Contos de Fadas. Noséculo XIX, segundo Franz (1990), Ludwig Laistner escreveu Das Rätsel der Sphime, Berlim,1889. Sua hipótese era de que os contos de fadas e folclóricos tinham os temas básicosderivados dos sonhos. Karl Von der Steiner, no livro Voyage to Central Brazil, tentou explicarque as crenças vinham de experiências sonhadas, ou seja, que ao contar os sonhos, formavam-se os contos. Ele enfatiza, ainda, os pesadelos. Além disso, de acordo com Furlanetto (1989), Jung, além de afirmar que parte doinconsciente é coletivo, fez estudos com pacientes que traziam no relato de seus sonhosconteúdos pertencentes aos mitos e aos contos de fadas. Esses registros são os arquétipos, queprogressivamente vão construindo a personalidade de cada um. O próximo capítulocompletará esse, uma vez que minha hipótese é a de que os contos de fadas e sonhos estãointimamente ligados e podem auxiliar na construção da personalidade dos indivíduos. Seguindo esse raciocínio, é pertinente ter um breve panorama da Psicologia Analítica.Essa ciência estuda a construção da personalidade com base em quatro estruturas arquetípicasque não acontecem, nem se resolvem de forma linear. São elas: matriarcal, patriarcal,alteridade e cósmica. Serão resumidamente explicadas pelas idéias de Furlanetto (1989). A figura materna simboliza alimento físico e psíquico. É essencial e iniciou a vida emsociedade, mas também está relacionada a afeto, segurança, prazer e vontade de ser desejado. O patriarcado faz polarizações devido a grande separação entre desejo (inconsciente) eregras (Ego). Sendo assim, divide as coisas em certo/errado, bom/mau, assim como podemosperceber na personalidade dos personagens dos contos de fadas. Um exemplo é a escrita, quebusca coerência, estabelecimento de leis e escala de valores. “Surge a importância daresponsabilidade, do respeito. A criança começa a se fascinar pelo mundo do logos, doconhecimento, e para poder adquiri-lo, fazer parte dele, percebe a necessidade de sacrificaralguns prazeres do mundo patriarcal.” (FURLANETTO, 1989, p. 14) Vale saber que a mãepode representar o patriarcado e vice-versa. O padrão da alteridade engloba padrões dos dois anteriores: “Existe na alteridade umarelação livre entre o Ego e o Inconsciente, e essa relação permite à consciência uma reduçãodas polaridades, formando um padrão dialético de relações.” (FURLANETTO, 1989, p. 16).Pode ser exemplificada pela política. É regido pelos arquétipos do Animus e Anima. Na faseda adolescência eles passam a atuar mais fortemente. 22
  23. 23. O cósmico supera as polaridades, vê tudo como um todo. Tende a ser mais próprio daspessoas da terceira idade ou que se encontram com a saúde em fase terminal. O matriarcal e patriarcal estão presentes desde a fase infantil, por esse motivo, têm paranós um peso maior - sobretudo se formos considerar os contos de fadas. Ao mesmo tempo emque o herói busca realizar um desejo, encontrar afeto e alimento físico e psíquico para suavida, se depara com as polaridades durante o enredo. Na realidade, não há uma pessoacompletamente boa, ou completamente má, mas descrito dessa forma, torna mais fácil aoindivíduo desenvolver a personalidade para atingir a maturação proposta pela alteridade. 23
  24. 24. 2.2 SONHOS: SUA RELEVÂNCIA PARA O DESENVOLVIMENTO COGNITIVO Nesse capítulo buscamos mostrar a importância do sonhar e de relatar os sonhos comocolaboração para o desenvolvimento dos indivíduos. Sendo assim, ao estudarmos o fenômenodo sonho, será possível compreendermos melhor os seres humanos, e conseqüentemente,encontrar uma via para facilitar a aprendizagem. De acordo com A. Costa (2006), os sonhos sempre estiveram no imaginário de todas asculturas. Que o dormir é importante, todos sabem. Há muitos estudos e até mesmo o senso comumafirma, assim como Maragon (2007) diz em uma revista de grande circulação entre osprofissionais da educação que as crianças precisam dormir para poder voltar às suasatividades. Ela ainda afirma que durante esse momento são “liberados hormônios essenciaisao desenvolvimento”, e que cabe à escola organizar um tempo para aquelas crianças quepermanecem grande parte do seu dia na escola ou na creche. Ela também cita a educadoraKátia Chedid, que atribui a poucas horas de sono ou noites mal dormidas uma série deconseqüências, como alteração de humor, dificuldade de socialização, atraso na fala e nocrescimento. De acordo com essa reportagem, cada faixa etária tem necessidade de um tempode sono por dia, como mostra o quadro abaixo:Recém-nascido Entre 16 e 17 horasDe 1 mês a 6 meses Entre 14 e 15 horasDe 7 meses a 1 ano Entre 13 e 14 horasDe 2 a 5 anos Entre 11 e 13 horas (MARAGON, 2007, p. 83) Com base nisso, podemos afirmar que: o que se passa em nossa mente durante o sono éalgo presente para todos, e esses pensamentos, sonhos, ou simples descargas energéticascerebrais correspondem a aproximadamente um terço de nossas vidas, e metade do dia de umacriança! Às vezes não percebemos que as crianças sonham, e que o sonhar também faz partedo cotidiano delas, assim como o brincar, comer, dormir... e sonhar! Santos (2007) escreveu um artigo destinado ao público infantil, em anexo, o qual mechamou a atenção. O título da reportagem era “Lindinha, Docinho e Florzinha têmpesadelos”. Foi inventado um jogo para computador em que, por meio de um sonho mau, aspersonagens do desenho animado Meninas Superpoderosas ensinam Inglês, Matemática e 24
  25. 25. Português. Ora, logo vemos que, o que se sonha, o dia-a-dia das crianças e a educação sãotemas relacionados, e que podem ser proveitosos, desde que explorados de uma maneiraadequada. A exploração de sonhos tal como conhecemos atualmente teve seu início com SigmundFreud. Segundo A. Costa (2006), “com seu clássico livro A Interpretação dos Sonhos,publicado em 1900, Freud inaugura um campo que permanece único: a abordagem dos sonhoscomo uma formação do inconsciente.” (A. COSTA, 2006, p.8). De acordo com a mesmaautora, Freud trata o inconsciente como algo atemporal, o qual não se modifica com o passardo tempo. E afirma: “Freud propõe a indestrutibilidade do desejo infantil (...) O que seregistra uma vez, permanece sempre em condições de ser reativado (...) seus representantesmais diretos: além dos sonhos, os atos falhos e chistes.” (A. COSTA, 2006, p.9)Complementa ainda dizendo que “(...) Freud liga a construção do sonho à culpa – algo quesurge ligado à censura-, e o desejo em causa no sonho seria o de desculpabilizar-se (...)” (A.COSTA, 2006, p.43) Apesar de a idéia de que o sonho e o inconsciente estarem muito relacionados, já ter sidomuito divulgado. Jung (1996), um ícone para a psicologia moderna afirmou que o sonho é“não apenas uma fonte valiosa de informações, mas também um meio muito eficaz deeducação e de tratamento” (JUNG, 1996, p. 165). Ele também diz que há três espécies de educação: Educação pelo exemplo: ocorre espontaneamente, de modo inconsciente, pelos pais oupelo ambiente; Educação coletiva consciente: há regras, princípios e métodos. Não se produz nada,apenas se ensina, visando o coletivo, e não o indivíduo; Educação individual: pretende-se desenvolver a índole do indivíduo. Com isso, notamos que psicologia e educação podem sim (e devem) caminhar juntas, parade fato, formar pessoas por completo, e a escola deve educar levando em conta essas trêsmodalidades. Ao utilizar os sonhos em sala de aula, o professor ficará muito próximo da realidade doaluno, pois de acordo com A. Costa (2006), “o que conhecemos por realidade resulta dosmesmos elementos com os quais construímos os sonhos” (A. COSTA, 2006, p.19) por maisque “(...) o que lembramos do sonho não é o próprio sonho – já significa o despertar.” (A.COSTA, 2006, p.22). Ele não deverá fazer interferências, a não ser que tenha preparo para isso (ser psicólogo oupsicopedagogo). Dessa maneira, ao propor que as crianças relatem seus sonhos em algum 25
  26. 26. momento da rotina escolar, devemos parar apenas nessa etapa, pois de acordo com JUNG(1996), “ao trazer-se para a consciência conteúdos inconscientes, provoca-se artificialmenteum estado muito semelhante ao de uma doença mental (...) Deve-se, pois, saber quandopoderá arriscar tal intervenção sem causar dano.” (JUNG, 1996, p. 159). Para fazer isso, o“melhor método, e também o mais difícil, é o da análise e interpretação dos sonhos”, já queeles são produzidos pela atividade psíquica do inconsciente. Como o professor não tem estudopara explorar esse conteúdo, bastaria à escola um momento para que o aluno reflita sua vida...Esse momento seria tão importante quanto à auto-avaliações, tão defendidas nos métodospedagógicos atuais. O próprio Jung (1996) escreveu que “talvez até fosse melhorconcebermos os sonhos como uma espécie de obra de arte, em lugar de ver neles material deobservação científica (...)” (JUNG, 1996, p.169). E uma vez que a escola lida com arte,porque não incorporar uma obra de arte proveniente de cada aluno como artista? Afinal, comomuito bem A. Costa (2006) lembra, “a corrente do surrealismo, que ganhou relevância eabrangência na literatura e nas artes plásticas, teve seu modelo na produção onírica.” (A.COSTA, 2006, p.23) Bettelheim (1980) também disserta sobre a comparação de contos de fadas e obra de arte,conforme podemos observar no trecho a seguir. “Como sucede com toda grande arte, osignificado mais profundo do conto de fadas será diferente para cada pessoa, e diferente paraa mesma pessoa em vários momentos de sua vida.” (BETTELHEIM, 1980, p.20 e 21) A. Costa (2006) apresenta a necessidade de Freud relatar seus sonhos ao seu amigo Fliess,para elaboração de sua tese, e ainda, para sua auto-análise. Ora, não pretendemos compararcom a mesma intensidade, mas notamos que ao relatar o que foi sonhado, a pessoa em questãopode revelar o que se passa em seu interior, para que possa enxergar coisas que oesquecimento do sonho não traz à tona. Ao relatar um sonho, a pessoa se abre mais do queimagina, não para os outros, mas para si mesma. Muitas são as explicações dadas ao motivo dos nossos sonhos. Misticamente, eles podematé ser considerados previsíveis ou caminho para mensagens divinas, mas psicologicamente,sabe-se que o sonho é composto por vivências reais, mostradas de outras maneiras, e aindaque o que acontece no meio ambiente concreto enquanto dormimos, pode influenciar o sonho. De acordo com A. Costa (2006), Freud propõe que o sonho usa a linguagem textual, eassim como os hieróglifos, eles devem ser interpretados ao serem lidos. Ao narrar o sonho, afala representa a leitura do sonho feita pelo próprio sonhador. 26
  27. 27. “Apesar de reconhecermos o sonho como um texto, sua mensagem não é direta: seus elementos não têm correspondência imediata com aqueles da vida desperta. Assim, os personagens não correspondem exatamente aos mesmos de quando estamos acordados.” (A. COSTA, 2006, p.24). “Todos os elementos do sonho, em alguma medida, representam o sonhador.” (A.COSTA, 2006, p.25). Essa autora também lembra que os sonhos são próximos dos desenhos,pois trazem imagens e signos. Dessa forma, uma criança desenhar o que sonhou é tãosignificativo quanto seu relato. Essa autora também traz a opinião lacaniana de que háaproximação entre sonho e uma escrita pictográfica. E Byington (1987) afirma que “Osímbolo e a função simbólica são manifestações da energia psíquica através das coisas e dosacontecimentos.” (BYINGTON, 1987, p.19) Os símbolos podem ser encontrados nos contosde fadas, mas também são muito significativos nos sonhos. A partir dessas considerações, apropriamo-nos do trabalho de Gambini (2000), que mostraum projeto realizado com crianças da Educação Infantil, as quais relatam seus sonhos aoscolegas e à professora de sala de aula por meio de desenhos e da linguagem oral, e que teránossa maior atenção a partir do próximo capítulo. Por ora, basta refletirmos sobre algunstrechos propostos por A. Costa (2006) para compreendermos a interligação entre realidade,sonho e fantasia, sendo aqui explorado sob a ótica dos contos de fadas: “(...) sem realidadepsíquica não há realidade material (...) Para que haja “realidade” (...) é preciso que hajafantasia (...), para que representemos uma realidade é preciso antes sonhar (...) Ou seja, paraviver é preciso sonhar.” (A. COSTA, 2006, p.13 e 14) E o desenvolvimento acontece também durante o sonho, pois segundo A. Costa (2006)“aquilo que ficou sem resolução retorna, como elaboração onírica” - dessa forma, a criançamostra seu crescimento por meio dos seus sonhos. E ainda sob as falas de A. Costa (2006), o trabalho do sonho é tão importante quanto otrabalho de luto. Ora, se o último é explorado na instituição escolar, devemos questionarporque o primeiro não o é. E ainda, devemos observar sua importância para odesenvolvimento proposto pela escola. Para essa reflexão, explico o trabalho de luto com aspalavras da autora que cita objetos de transição, tão importantes para a criança na fase daEducação Infantil: “o trabalho de luto requer (...) um traço de memória que contenha, de alguma maneira, o suporte da antiga relação. Pensemos, por exemplo, na função do objeto transicional – o cobertorzinho, o paninho etc. – para a criança pequena. Esse objeto é, ao mesmo tempo presença e ausência. Mantém a memória não somente na sua constância visual, mas também nos restos de secreção do corpo, cheiros que a criança não deixa lavar. No entanto, é uma presença que contém a ausência da mãe. 27
  28. 28. É na medida em que a criança pode manipular e representar essa presença/ausência que ela pode manter uma constância de si. Se não conseguir lidar com a presença/ausência, ela também desaparecerá quando a mãe se ausentar.” (A. COSTA, 2006, p.54 e 55) Esse afastamento do real, ligado ao material para um real de si próprio é difícil e acontecetambém no sonho, ou seja, o enfoque do indivíduo consigo mesmo é um trabalho que podetambém ser exercido na escola, até mesmo para facilitar as adaptações, acolhidas e vivênciasaudável do dia-a-dia. Concordando com Jung (1996), o sonho é “não apenas uma fonte valiosa de informações,mas também um meio muito eficaz de educação e de tratamento” (JUNG, 2006, p. 165) Eainda podemos verificar a importância de conhecer os sonhos dos educandos por meio daseguinte passagem do mesmo autor: “(...) os sonhos dão um apoio eficiente ao esforçoeducativo, ao mesmo tempo em que possibilitam penetrar a fundo na vida íntima da fantasia, apartir da qual se forma mais compreensível o comportamento consciente, abrindo-se com issouma passagem de acesso no sentido da aceitação da influência exterior.” (JUNG, 2006, p.168). Afinal, o sonho pode não se opor à consciência, mas acompanhá-la colaborando muitopara educação.Assim como diz Bettelheim (1980): “(...) uma pessoa impedida de sonhar, mesmo que não seja privada de dormir, fica prejudicada na habilidade de lidar com a realidade (...) as crianças vão mal de vida quando são privadas do que as estórias podem lhe oferecer, dado que os contos ajudam-na a elaborar, na fantasia, as pressões inconscientes.” (BETTELHEIM, 1980, p.79 e 80) 28
  29. 29. 2.3 INTER-RELAÇÃO ENTRE SONHOS E CONTOS DE FADA Como foi citado no primeiro capítulo deste trabalho, de acordo com FRANZ, 1990, háuma estreita ligação entre sonhos e contos de fadas. Há a hipótese de que os contos surgiram apartir de relatos de sonhos. Apesar de alguns autores mostrarem essa relação, poucos a exploram. Numa passagem daobra Sonhos, A. Costa (2006) cita a análise que Freud fez de um sonho de um de seuspacientes, o qual colaborou muito para sua tese, onde relata “(...) o sonho mostra-se comoproduto da condensação de dois contos infantis: “Chapeuzinho Vermelho” e “O lobo e os setecabritinhos” (...)” (A. COSTA, 2006, p. 48). Por essa passagem, podemos notar que tanto osonho como os contos trabalham com elementos que são comuns entre si, econseqüentemente, são cabíveis a qualquer pessoa. Apesar de cada pessoa escolher um contopara seus conflitos num determinado momento, o próprio sonho aponta para o indivíduoquestões e conflitos que merecem reflexão. De acordo com A. Costa (2006), “(...) a fantasia não é algo a desconsiderar como uma simples ilusão a ser desfeita. A realidade psíquica-motor de tudo o que diz respeito às formações do inconsciente – tem efeitos reais, que produzem modificações no organismo e interferem na percepção que temos da realidade do mundo e das coisas.” (A. COSTA, 2006, p.11) Logo, notamos que fantasia, quer seja sonhada, quer seja explorada num conto de fadas,pode colaborar com a educação rumo à transformação da realidade. A explicação mais elaborada nessa intersecção foi lida na obra de Bettelheim (1980): “Há de certo, diferenças bem significativas entre os contos de fadas e os sonhos. Por exemplo, nos sonhos, com maior freqüência a satisfação de desejos é disfarçada, enquanto nos contos de fadas é expressamente aberta. Em um grau considerável, os sonhos são o resultado de pressões internas que não encontraram alívio, de problemas que bloqueiam uma pessoa, para os quais ela não conhece nenhuma solução e para os quais os sonhos não encontraram nenhuma. O conto de fada faz o oposto: ele projeta o alívio de todas as pressões e não só oferece formas de resolver os problemas, mas promete uma solução “feliz” para eles. Nós não podemos controlar o que se passa em nossos sonhos. Embora nossa censura interna influencie o que podemos sonhar, este controle ocorre num nível inconsciente. O conto de fadas, por outro lado, em grande parte resulta do conteúdo comum consciente e inconsciente tendo sido moldado pela mente consciente, não de uma pessoa em especial, mas do consenso de várias a respeito do que consideram problemas humanos universais, e o que aceitam como soluções desejáveis. Se todos 29
  30. 30. estes elementos não estivessem presentes num conto de fadas, ele não seria encontrado por gerações e gerações. Só quando um conto de fadas satisfazia as exigências conscientes e inconscientes de muitas pessoas ele era recontado repetidamente e ouvido com grande interesse. Nenhum sonho poderia despertar tal interesse persistente, a menos que fosse forjado em mito...” (BETTELHEIM, 1980, p.46) Assim como já foi dito anteriormente, contos de fadas e sonhos trabalham com símbolos,e ambos são importantes para o desenvolvimento do indivíduo. Parafraseando Byington(1987), “(...) a psique (...) é um organismo que está sempre em desenvolvimento, a fim derealizar seu potencial genético ou arquetípico”, usando tudo que for bom ou mal(BYINGTON, 1987, p.20) – há aí, a bipolaridade dos símbolos. Assim como nos contos defadas há o bom ou mau, nos sonhos há os pesadelos e os sonhos dos quais a gente desejarianunca acordar. “Enquanto um conto de fadas pode conter vários traços semelhantes ao sonho, sua grandevantagem sobre o sonho é que tem estrutura consciente, com um começo definido e umatrama que se movimenta na direção de uma solução satisfatória. Esta é alcançada no final.”(BETTELHEIM, 1980, p.73) É na obra de Gambini (2000) que o objetivo desse trabalho, explorado nesse capítulo, ésintetizado. De acordo com esse autor “(...) sonho e educação sempre estiveram separados, porque inconsciente e aprendizado sempre foram províncias estrangeiras (...) começarmos a refletir sobre uma possível articulação entre a educação e os processos que ocorrem no inconsciente. (...) O ponto básico desta idéia é que o inconsciente cria a predisposição para aprender. (...) deveríamos questionar se realmente não aprendemos só e quando aquilo que é novo e desconhecido corresponde a um conteúdo ativado no inconsciente” (GAMBINI, 2000, p. 105 e 106). Segundo ele, é no inconsciente que a matriz do conhecimento está localizada, por isso, étão útil a inserção de sonhos na escola. Esse autor cita Jung ao concordar que o inconscientetambém ensina. Ora, dessa forma notamos que ao relatar sonhos e ativar conteúdosinconscientes, a escola estaria se favorecendo de mais um elemento no processo de ensino emais ainda, no processo de aprendizagem, facilitando-a. Gambini (2000) cita seu trabalho feito na Escola Lourenço Castanho. Sua proposta foi queuma vez por semana, na sala de aula, as crianças de 3 a 6 anos de idade relatassem seussonhos em grupo diante da professora. A professora deveria anotar o sonho, e depois, pedir àcriança que o representasse através de desenhos. E essa prática deveria ser semanal, que 30
  31. 31. segundo ele, é mais uma forma do professor conhecer seus alunos, não somente pelo relato dosonho, mas porque ao relatá-los chega-se a diversos assuntos. Além de ser uma porta deentrada para várias questões, o aluno abre sua intimidade e “dita” seu sonho para a professora,e nessa troca, a criança se sente ouvida. Essa é a “(...) interação subjetiva. O relato de sonhos promove o aprendizado do respeitopela fala do colega narrador, porque depois vai ser a minha vez e depois vai ser a sua vez.”(GAMBINI, 2000, p.114). Notamos que essa proposta traz consigo a educação de um valorquase perdido nas escolas atuais: o respeito pelo outro, o saber ouvir sendo equiparado aosaber falar. Além disso, a sociabilidade permite a imaginação conjunta e também auxilia ascrianças tímidas. O autor ressalta que crianças menores, ou seja, com aproximadamente 3 anos de idade,confundem sonho com imaginação e também, muitas vezes se contaminam pelo relato dosonho do outro. Já com 5 ou 6 anos, nota-se facilmente quando é um sonho ou uma históriainventada, nesses casos, o autor sugere pedir o sonho. Ele enfatiza também a importância de estimular o imaginário das crianças, pois casocontrário, ele se torna restrito, e devido à falta de uso, esses indivíduos sofrerão de privaçãode imaginário. O autor complementa dizendo que o imaginário é importante para futurosaprendizados, como, por exemplo, imaginar os contextos históricos, aprender números e para,posteriormente, se transformar em pensamento. Para ele, relatar sonhos é o “nascimento dopensamento organizado”. Por esse motivo, é errônea a posição da escola que separapensamento da imaginação, uma vez que eles têm origem comum. Gambini (2000), muito sabiamente, diz que a adesão a essa proposta tem custo zero! E quetraz benefícios psicológicos e pedagógicos. Dessa maneira, sugere esta ação para as escolas.Além disso, esse autor dividiu todos os sonhos coletados em sua pesquisa em doze tipos,assim sintetizados: 1. Família e Casa 2. Escola 3. Crescimento 4. Ladrão e Bruxa 5. Animais 6. Heróis 7. Fantasmas e Esqueletos 8. Morte e Renascimento 9. Robôs 31
  32. 32. 10. Emoções 11. Anjos 12. Deus Cada um desses temas pode ser visto nos relatos das crianças, e podem abordar diferentesaspectos do indivíduo, tanto para a vertente emocional, como enfocando o aprendizadocognitivo, a que está tão ligado. Os pesadelos, ou sonhos de angústia, são incômodos para todos que despertam após essaexperiência, mas como cita A. Costa (2006), referindo-se a Freud, o sonho representa umdesejo e “(...) o desejo em questão poderia situar o sujeito como masoquista, onde o desprazerseria desejado” (A. COSTA, 2006, p.31). É exatamente isso que faz alguns sonhos serepetirem com tanta freqüência. Mas não por um masoquismo pervertido e sim pelo “masoquismo originário – quando o bebê não se sustenta sozinho, sendo objeto de cuidados e suposições da mãe (...) Freud denomina essa posição de masoquismo erógeno (...) marca erogenamente o corpo do bebê. Essa marca será suporte de repetições tardias.” (A. COSTA, 2006, p.34). Por isso, mais uma vez, enfocamos o benefício que traz fazer esse trabalho de sonhos comcrianças pequenas para que elas tenham um bom desempenho em todas as fases do seudesenvolvimento psíquico. Já para Lacan, como aponta essa autora, esses sonhos são provenientes da... “(...) experiência da falta – que ele denominou de castração simbólica, dando- lhe abrangência maior que uma referência exclusivamente edípica – é suporte da construção do psiquismo, entendido este como formações simbólicas que sustentam o sujeito em sua vida. A proposta lacaniana supõe duas coisas: primeiro, é necessária a experiência da falta para que o sujeito possa livrar-se de um atrelamento muito alienante, resultante de suas relações primárias. Segundo, a angústia é sinal de que essa experiência de falta pode não acontecer. Logo, de certa maneira, a angústia é promotora de movimentos de separação, de simbolização.” (A. COSTA, 2006, p.32 e 33) Nessa última passagem, observamos que o Complexo de Édipo - fundamentado por Freud- está presente, assim como também é explorado nos contos de fadas quando a princesa (oufilha) tem problemas de relacionamento com a madrasta (que seria a mãe). 32
  33. 33. Assim como já foi dito anteriormente, os contos de fadas carregam a fantasia2, e oComplexo de Édipo nada mais é do que a fantasia que a criança na fase fálica tem de serelacionar com seu genitor do sexo oposto para satisfazer os desejos da libido concentrada naregião genital. Dessa forma, o papai é o herói para menina, e a mamãe é a melhor mulher domundo para o menino. Mas isso seria proibido, ainda mais se os pais forem casados outiverem outra pessoa (namorados, por exemplo), pois todos têm horror ao incesto (e esse é umdos tabus mais antigos da humanidade) 3. Como bem exemplifica Pimenta (1993) ao tratar doComplexo de Édipo, “As fantasias que dizem respeito a desejos proibidos e por isso recalcados no inconsciente são patrocinadoras do sonhar, do criar e do brincar. (...) Elas não podem ser livremente expressas, porque estão inibidas pela censura pessoal, mas também não podem ficar sem expressão, pois isso gera grande tensão e angústia. Portanto, têm de chegar a um acordo com o sistema consciente. Fazem, por assim dizer, um compromisso: podem ser expressas, mas de forma despistada, camuflada.” (PIMENTA, 1993, p.25) Segundo essa autora, esse desejo só acontece nos sonhos e no lúdico, mas assim comovimos, os contos de fadas também mostram soluções para esses desejos. No entanto, Pimenta(1993) traz na mesma obra uma definição pertinente: “O sonho não é apenas uma reação aleatória do organismo, mas tem sua razão de ser: ele é a expressão de uma linguagem específica fundamental (...) Freud o considera a estrada real para chegar ao inconsciente (...) Os desejos inconscientes não dormem (...) aproveitam-se, então, do afrouxamento da consciência moral, durante o sono, para sua realização alucinatória.” (PIMENTA, 1993, p.28) Assim, ela explica que o “Brincar é um recurso importante de que se valemprincipalmente as crianças para lidar com o mundo fantasmático.” (PIMENTA, 1993, p.41), eque “Quanto à fantasia, poderíamos pensar numa equivalência masturbatória, enquanto acriação e a brincadeira já contêm alguma coisa de relação com o objeto” (PIMENTA, 1993,p.43). Mostra assim que os momentos de sonhos ou de vivência de contos realizam, ou aomenos supre às necessidades libidinais intrínsecas à fase edípica. Tanto quanto os sonhos, os Contos de Fadas também têm um papel fundamental naconstrução do imaginário do indivíduo pelo simples fato de ouvir uma história desse tipo. E2 Fantasia, de acordo com PIMENTA (1993): “este conceito é encontrado freqüentemente nos textospsicanalíticos com o nome de fantasmas. Trata-se de encenações, histórias imaginárias, as quais o indivíduosempre está presente e que geralmente dramatizam, de forma visual, a encenação do desejo. Nos fantasmas sãopermitidas permutas de papéis e operações defensivas diversas (projeções, reversões etc.). Os fantasmas podemser inconscientes, subliminares e conscientes (...) se interelacionam nas várias formações do inconsciente e suasexpressões, como na brincadeira e nas obras-de-arte”. (PIMENTA, 1993, p.72)3 FREUD, Sigmund. O Horror ao Incesto. In Totem e Tabu e Outros Trabalhos (p.21-35) 33
  34. 34. obviamente, se o adulto intermediador, no caso, uma professora que leia o conto sem mostrarilustrações, estará presenteando seus alunos com potencial de criatividade e imaginação – tãorequeridos no mercado de trabalho atual. A crença mágica é importante e necessária paraformação das pessoas. Quem não teve isso explorado na infância de forma saudável, peloscontos de fadas, por exemplo, busca soluções para vida na astrologia, ou até mesmo nasdrogas, como alertou Bettelheim (1980). Ele diz também que só na puberdade a pessoa reconhece a emoção por ela mesma, antesdisso, são manifestações. As crianças só entendem por imagens... E os contos fornecem essasimagens. Assim, notamos que os contos de fadas podem contribuir na construção da magiainerente a cada pessoa, e que seus sonhos seriam então reflexos de uma vida mais bemresolvida... Enfim, parafraseamos o mesmo autor: “(...) perigos horríveis que são análogos aospesadelos (...)” (BETTELHEIM, 1980, p.106). 34
  35. 35. 2.4 COLETA DE DADOS A coleta de dados se faz necessário para evidenciar o levantamento teórico e pararesponder a hipótese inicial, de que sonhos e contos de fadas estão muito ligados um ao outro,e ainda, que ao serem utilizados com finalidades educativas, inclusive em ambientesinstitucionais e de educação formal, podem contribuir positivamente para o desenvolvimentodas crianças. Concordando com Furlanetto (2005), “(...) desenvolvimento e aprendizagem não sãoprocessos distintos nem lineares, mas são tecidos simultaneamente em uma rede relacional daqual fazem parte, também, além das funções da consciência, dimensões arquetípicas que sereferem ao mundo do inconsciente coletivo.” (FURLANETTO, 2005, p.82). Ora, essapassagem nos mostra que os ícones trazidos pelos contos de fadas que atendem àsnecessidades do inconsciente coletivo – como já foi dito anteriormente – podem ser úteis naformação do indivíduo. Completando essa idéia, parafraseamos Corso (2005), ao dizer que“(...) a capacidade simbólica está na raiz dos processos de aprendizagem mais essenciais àefetivação da humanidade de cada um, sendo, sem dúvida pré-requisito para todas asaprendizagens escolares.” (CORSO, 2005, p.51) Tomando como base as crianças da Educação Infantil, esse trabalho se mostra ainda maispertinente, pois elas mostram em suas falas muito interesse por assuntos como magia, outrasépocas, fantasmas e a dualidade entre o bem e o mal. Isso reflete o que eles já sabem, ou aomenos, buscam comprovar que há um mundo interno ou fantasmático. Como diria Pimenta(1993), “as fantasias ou fantasmas são histórias semelhantes aos mitos (...) celebram apassagem da natureza para a cultura. Nossos ancestrais, não sabendo explicar esse fenômeno,criaram histórias de deuses, ninfas e gênios, que se relacionavam, amavam e odiavam.”(PIMENTA, 1993, p.24). Dessa forma, eles mostram que já sabem que estão inseridos numacultura onde pessoas mantêm relações boas e ruins. Da mesma forma que trazem expressões transmitidas pelos seus pais como “papai docéu”, que simboliza a crença em um Deus, em algo fantástico, não concreto e como um pontode equilíbrio para que seus desejos sejam realizados – assim o fazem com os contos de fadas.Inclusive, se nos aprofundarmos essa questão, notaríamos que as histórias bíblicas têm omesmo modelo dos contos de fadas, e que servem igualmente para confortar os fiéis eoferecer subsídios para que os crentes superem fases de suas vidas tomando atitudesmoralmente aceitas pela sociedade. “(...) muitas histórias bíblicas são da mesma natureza que 35
  36. 36. os contos de fadas. (...) A maioria dos contos de fadas se originou em períodos em que areligião era parte muito importante da vida.” (BETTELHEIM, 1980, p.22) Para verificarmos como acontecem essas relações entre sonhos e contos de fadas no dia-a-dia, baseamos esse trabalho na proposta de Gambini (2000), com algumas modificações.Concordamos que toda escola deveria fazer isso, e implantamos o projeto em uma turma deuma escola da rede particular de ensino da cidade de São Paulo. Devido a disponibilidade, fácil acesso e boa aceitação da idéia por parte da direção daescola, realizamos o estudo de caso no meu local de trabalho. A escola Villacor abriu espaçopara o desenvolvimento desse projeto e foi um ótimo lugar para esse estudo, por ser uma“pequena grande escola”, que conta com atendimento em três unidades. Nesse trabalho,iremos nos referir à Unidade II, situada a Rua Jataituba, 171, no bairro do Brooklin da capitaldo estado de São Paulo. É um local residencial que abriga famílias de classe social média, euma escola que atende não somente ao público local, como também aos filhos de pais quetrabalham pela redondeza. Essa unidade educa crianças durante a etapa da Educação Infantil,depois que os alunos aprenderam a andar, ou seja, por volta de 1 ano e 6 meses até 6 anos deidade (alguns, provindos da outra unidade que atende berçário). Antes de relatar o estudo feito, gostaríamos de ressaltar algumas observações. Gambini(2000) disse, conforme citamos no capítulo anterior, que crianças entre 3 e 4 anos tendem aconfundir sonho com imaginação, por esse motivo, seria mais adequado fazer esse estudo comcrianças mais velhas. No entanto, o trabalho foi feito exatamente em uma turma heterogêneacom crianças entre três e seis anos, sendo, a grande maioria, alunos do G4, ou seja, quecompletam (ou completaram) quatro anos de idade nesse ano de 2007. Outro dado que foipossível observar na prática, foi a contaminação de sonhos, conforme ressaltado por esseautor. E diferentemente desse autor, não pedi o relato prévio do sonho para ser anotado emuma página em branco do caderno, e sim anotei no verso da própria folha que elas utilizarampara fazer o desenho, registrei, portanto, a real interpretação do que eles fizeram por meio dalinguagem oral. Uma vez por semana ou a cada quinzena, devido à falta de tempo, as crianças foramconvidadas a fazer um relaxamento deitando no chão ou sentadas com a cabeça sobre asmesinhas, sempre em grupo (roda ou disposição das mesas agrupando todas as crianças). Nosilêncio ou com uma suave melodia de fundo musical, eu ia incentivando-as a fingir queestavam dormindo para se lembrarem de um sonho. E ao despertarem (com direito a seespreguiçarem, bocejarem e tudo), eles poderiam desenhar com canetinhas, lápis de cor ou giz 36
  37. 37. de cera algum sonho que recordavam. Tal prática foi baseada na autora Canepa (2000), quedefende um “clima” para o relato dos sonhos. Cada um recebeu uma folha de papel sulfite branco A4, para registrar o sonho querecordaram. Cabe dizer que os nomes aqui citados foram modificados para preservar aidentidade das crianças, apesar de seus pais terem autorizado o uso de suas produções. Ao fazerem o desenho, pedimos para que ficassem em silêncio. E uma justificativa muitopertinente foi explicada a partir de uma roda de conversa inicial, na qual constatamos que, oque um amigo sonha, é uma coisa que só ele sabe que não adianta ficar conversando ouperguntando durante o desenho. No início foi complicado para alguns alunos, mas aos poucosesse momento mostrou-se eficaz para disciplina, autocontrole, respeito e principalmente, umtempo de reflexão através do exercício de resgate de memória. Seguindo essa mesma linha de raciocínio, constatada por mim junto às crianças,associamos o sonho a um segredo: cada um tem o seu, e não é possível adivinhar o que oamigo sonhou... Para isso, conforme cada um terminava, era incentivado a virar sua produçãode cabeça para baixo, deixando o lado em branco para cima. Cabe dizer que nas instruçõesdessa atividade alguns alunos perguntaram se poderiam desenhar dos dois lados, e a respostafoi que poderiam fazer como quisessem. Ao verificarem a importância e a mágica do segredo,eles mesmos desenhavam apenas de um lado para virarem seus desenhos para baixo. Nesses momentos, verifiquei falas interessantíssimas, como por exemplo, o diálogo entreBruno e Leonardo, ambos com quatro anos: Bruno – Eu sonhei que estava ... Leonardo o interrompeu rapidamente – “Não, Bru! Depois você conta, agora põe a suafolha assim ó! (apontando para a dele como exemplo). Ou ainda, quando Marcela, 4 anos, uma aluna que não freqüentava regularmente o períodointegral durante o primeiro semestre e não havia participado de outras situações de relato desonhos, perguntou ao Vinícius, 4 anos, o que ele estava desenhando, e ele respondeu “-Ésegredo! Depois você vai ver!”, tapando o que estava desenhando com muita concentração. A partir desses exemplos e após a vivência dessas atividades, constatamos que o segredo éimportante para as crianças... Sobretudo na Educação Infantil. É como se eles estivessemfazendo o papel da professora na tão esperada caixa surpresa, isto é, trazer algo pessoal paracompartilhar com seus amigos. Bettelheim (1980) exemplifica sua teoria com o conto “A guardadora de Gansos”, quecontém em seu enredo a sabedoria de guardar um segredo. A partir dessa linha depensamento, podemos pensar também na proposta de compartilhar sonhos pelos desenhos que 37
  38. 38. ficam de cabeça para baixo, como se fossem segredos, como sendo extremamente válido, poistrabalha o respeito pelo segredo do amigo, e também, deve-se saber que há um momento paracompartilhá-lo. Essa prática também contribuiu para desenvolver a confiança na professora enos colegas de classe. Dessa forma, concordando com Gambini (2000), desenvolve-se e treina-se o respeito pelafala dos colegas, além de colaborar na desenvoltura ao falar – o que se nota que é necessáriopara muitos adultos, que não possuem esta fluência, pela falta de incentivo. Durante os relatos, houve desenhos e falas interessantes, mas é importante relatar também,que o fato de a professora saber um pouco sobre o contexto no qual a criança vive, torna aobservação dos desenhos e dos relatos mais significativos, da mesma forma que também aauxilia a conhecer um pouco mais, ou ainda mais, seus alunos. A experiência foi extremamente satisfatória, pois nela pudemos observar os dados trazidospelos autores abordados ao longo desse trabalho, ressaltando ainda que pelo fato de aprofessora lidar diariamente com as crianças, ela já tem muitos dados que podem auxiliar nacompreensão dos sonhos, não para fazer intervenções psicológicas, mas para compreendermelhor seu aluno e colaborar com sua aprendizagem. Para compreender o sonho, segundo Jung (1996), é interessante saber sobre o dia anterior,“estado de ânimo, dos planos e propósitos da pessoa nos dias ou semanas precedentes aosonho.” (JUNG, 1996, p.161) – o que não foi difícil, considerando que a classe na qual oprojeto foi aplicado é justamente a de período integral, onde as crianças passam de 8 a 13horas. Outro dado a ser relatado, que difere da proposta de Gambini (2000), é o fato de que nofinal do ano, ou da Educação Infantil, os cadernos devem ser entregues para as crianças comoum material muito valioso. Mas para a conclusão desse trabalho, os relatos colhidos durante aaplicação desse projeto ficaram arquivados. Pretendo sugerir que esse trabalho seja feito como um presente para as crianças, uma vezque é para elas que a escola trabalha. De qualquer forma, diferentemente de Gambini (2000), continuo defendendo a idéia deque folhas avulsas são mais adequadas para esse tipo de trabalho, uma vez que o cadernopermite que a criança retome um sonho anterior - o que não é a proposta. Na escola devemossimplesmente deixá-las se expressarem - além do que, o aluno pode encarar cada relato deuma forma diferente, inclusive, utilizando a posição da folha como preferir. Certa vez, contei o conto da Snow White (Branca de Neve em inglês, já que a proposta daescola para essas crianças é de imersão na língua inglesa), e pedi para eles desenharem a parte 38
  39. 39. de que mais gostaram da história. Aconteceram coisas interessantes, como por exemplo, umaluno virar sua produção de cabeça para baixo, como se fosse o segredo explorado no sonho.Então, expliquei que não era, uma vez que todos haviam escutado a mesma história. E aorelatar a parte de que mais gostou, iniciou sua fala com “-Eu sonhei...”. Então, perguntei: “-Você sonhou?”. E ele então respondeu que sim. A partir disso, comprovamos a estreitarelação entre sonhos e contos de fadas... Não por grandes autores ou pela nossa audácia, maspela fala de uma criança de 4 anos de idade. Num outro momento, contei o conto “Pinocchio” em dois dias diferentes, com intervalode uma semana. No primeiro, apenas contei a história, e deixei que as crianças explorassemseu imaginário. No segundo dia, solicitei que eles desenhassem a parte que mais gostaram dahistória. Foi aí que Bruno, 4 anos, já citado anteriormente, relatou sobre seu desenho (Fig. 1):“Eu sonhei que os amigos do Pinocchio tava jogando futebol e ele não foi porque estavaresfriado. Ele ficava só assistindo com Gepetto na casa dele. Cada amigo jogava sozinho. Eutambém era amigo do Pinocchio, eu era bem grande!” Bruno Pinocchio Fig. 1 – Desenho sobre Pinnochio, de Bruno, 4 anos, em 24/05/2007 39
  40. 40. Cabe dizer que ele não estava doente, nem havia ficado resfriado por esses dias. Masmostrou uma forma de dizer que estava sozinho, assim como o Pinocchio, na parte da históriaem que se encontra perdido, ao relatar que se o personagem principal não está bem, ninguémpode brincar. Esse relato do conto de fadas, ou melhor, de um possível sonho usando novoselementos faz sentido, e ainda, funciona como colaborador para assimilação da realidade. Assim como os sonhos, os contos de fadas podem ser explorados de diferentes maneiraspara colaborar no desenvolvimento do imaginário do indivíduo e de seu todo. Bettelheim(1980) afirma que não se deve explicar para a criança porque o conto é importante, ao contá-lo a criança já será capaz de elaborar seus problemas. Quando Matheus – único nome verídico usado, pelo fato dele o ter registrado em seudesenho - descreve “Eu sonhei um sonho pesado. Eu tava num buraco”, conforme mostra afigura 2, ele pode mostrar que talvez se sinta incapaz de realizar algo, como se não visse umasaída. A partir daí, é interessante que o educador conte um conto que envolva superação deobstáculos com uma imagem semelhante. Foi então que lhe contei a história de João e o Pé deFeijão, na qual o personagem teve que escalar um enorme pé de feijão – o que representa umdesafio - para superar seus medos e atingir uma nova etapa de sua vida. Fig. 2 – Desenho de Matheus, 6 anos, em 13/04/2007. 40
  41. 41. O mesmo aluno mostra características semelhantes ao relatar outro sonho. Para umaprofessora que está atenta à realidade dessa criança, não fica difícil deduzir que ele está com aauto-estima muito baixa. Para isso, não bastaria o relato desse sonho isoladamente, e sim,acompanhar alguns deles, juntamente com sua história de vida. Matheus tem 6 anos de idade,é filho de uma funcionária da escola e tem bolsa de estudos. No período da manhã – momentoem que essas atividades foram desenvolvidas, ele é o mais velho do grupo... No entanto, é oúnico que ainda usa fraldas. O fato se dá devido ao casamento de seus pais, que são primos, epor conta de inadequações genéticas, geraram essa criança que não possui contração doesfíncter anal, sendo incapaz de controlar a liberação das fezes. Tendo em vista que ele jápassou da fase anal prevista por Freud, ele se encontra incapaz de algumas coisas. Além domais, ele não tem a mão esquerda. Logo abaixo do cotovelo, tem um único dedo. Esses dadosmostram como se justifica seu modo retraído de ser. “Eu sonhei que fui num parque, achei um ovo que quebrou na minha cabeça. O avião láem cima. Tinha uma porta. Porta de castelo, eu entrei e cai no barco e tinha um meninomachucado. Ele tava com o irmãozinho e com a mãe dele. E eu tava com meu pai, minha mãetava lá em casa. Depois, soltou um monte de raio”, como mostra a figura 3. Fig. 3 – Desenho feito por Matheus, 6 anos, em 22/08/2007. 41
  42. 42. Essa criança pode usufruir dos benefícios do projeto em questão porque se sentiu ouvidapor todos. Além disso, as crianças passaram a elogiar os desenhos do colega. E foi num dessesmomentos que ele mostrou extrema satisfação com um lindo sorriso, quando sua amiga falouque era o desenho mais bonito de todos. A partir desse dia, ele passou a preferir desenhar abrincar de massinha, como usualmente optava. Cabe dizer que manipular massinha é umestado anterior ao de segurar no lápis com destreza, e ainda, que modelar está ligada a faseanal. Também devemos nos atentar para o fato de o castelo (símbolo dos contos de fadas)fazer parte de seu sonho, uma vez que ele nunca esteve em um. Já o simples relato de Simone, quatro anos “Fiquei em casa” (Fig.4), mostra a umeducador atento que tudo que ela queria era estar em casa, uma vez que seus pais estavam sereconciliando após uma segunda separação. Ela se mostra madura o suficiente para vivenciarsua casa, sabendo que o papai sofre sem a mamãe. Por mais que ela tivesse sido cuidada pelafigura paterna durante a separação, ela não foi dominada pelo Complexo de Édipo, analisandoque a mamãe faz “meu papai” mais feliz, então, prefere todos juntos (Fig. 5) “Minha mãe,meu pai e eu” – sendo que esse desenho foi elaborado durante um dos momentos deseparação. (Figura 4 – Desenho de Simone, 4 anos, em 22/08/2007 – após reconciliação dos pais) 42
  43. 43. (Figura 5 – Desenho de Simone, 4 anos, em 01/06/2007 – durante separação dos pais) Outra experiência interessante aconteceu quando fizemos uma experiência utilizandovela. Nessa escola, escolho um tema para realizar projetos semanais ou quinzenais. Estávamostrabalhando o tema Castelo, para depois entrarmos em Contos de Fadas. A experiênciaconsistia em grudar uma vela usando fogo. Depois disso, conversamos sobre o perigo que ofogo pode causar. E eles ficaram curiosos, se a vela/fogo queimava e como era. Perguntei aeles o que poderíamos queimar para fazer essa experiência... A grande maioria da classerespondeu “a bruxa!”. Somente o Leonardo disse que deveria ser o “cavaleiro do mal”. Abroum espaço na descrição dos fatos para relacionar tais falas com a fase edípica vivenciada poressas crianças, assim como já foi citado anteriormente. Enfim, cortei um bonequinho de papelpara jogarmos no fogo. Eles adoraram! Realizaram-se, e até sorriram! As cinzas mal voaram eeles pediram para queimarmos mais! Eu disse que não seria possível, pois não quis passar aidéia de queimar pessoas, e também, que na verdade, não podemos por fogo naqueles que nósacreditamos que nos prejudicam. Perguntei por que eles queriam queimar mais um... E umdeles respondeu: “Porque eles são maus!”. Dessa forma, ainda não sei se minha postura foi amais adequada, mas sugeri que rabiscassem bem forte num papel, colocando nele todosnossos maus sentimentos, tudo de ruim... Para que a gente queimasse e ficasse somente com 43

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