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O Retorno do filho Prodígio  - Guitar Player (Setembro/1999)
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O Retorno do filho Prodígio - Guitar Player (Setembro/1999)

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  • 1. Matéria feita pela revista Guitar Player para a edição de Setembro de 1999.(por Matt Blackett)A notícia da volta de John Frusciante ao Red Hot Chili Peppers foi recebidacom otimismo pelos fãs da guitarra funk dos discos Mothers Milk e BloodSugar Sex Magik. Frusciante saiu da banda em 1992 para lançar doisestranhos álbuns solo e para lutar contra seus demônios pessoais. Por umtempo, até os defensores mais radicais de Frusciante questionaram suacapacidade de reacender a chama que fez o Chili Peppers vermelho e ardidadurante a sua breve estadia na banda.
  • 2. As dúvidas são deixadas para trás quando a banda vai ensaiar para a turnê depromoção do novo álbum, Californicarion (Warner). Em uma jam deaquecimento, Frusciante toca solto e poderoso - uma mistura psicodélica deritmos limpos de funk, texturas espaciais e distorção rasgante. A comunicaçãotelepática entre os Peppers - particularmente entre Frusciante e o baixista Flea- é incrível. Não são apenas quatro caras tocando. É uma banda.O ensaio aconteceu no Hollywood Swing House. Vestido com um poliésterbarato e com barba e corte de cabelo desleixados, Frusciante causa umadesconcertante primeira impressão. Claramente mais à vontade tocando doque falando, ele é simpático ao comentar sobre a composição, equipamento,técnica e o processo de gravação de Californication. Em sua passagem porSão Paulo, recebeu novamente a reportagem de Guitar Player paracomplementar a entrevista . Frusciante ainda aparece estar dentro do seupróprio mundo, mas consegue manter um pé no nosso.GP - Quanto tempo você passou escrevendo e gravando Californication?John - Nós começamos em junho de 1998, mas tiramos um pouco de fériaspor motivo ou outro. Gastamos cerca de quatro meses ensaiando e compondo,e então entramos no estúdio e gravamos tudo em três semanas.Vamos falar sobre algumas faixas específicas. Qual é a cadeia do sinal emAround the World?É um Fender Jaguar que peguei emprestada do nosso engenheiro degravação, Jim Scott. Gosto das Jaguar - elas tem um som muito legal. Pluguei-a em dois Marshall: um JTM 45 e um SuperBass de 100 watts. O SuperBass éótimo tem um som bem gordo. O timbre muda algumas vezes durante amúsica. A linha de single-notes tem um som distinto porque toco a guitarra deum modo diferente. A maneira como você usa os músculos do seu pulso fazuma grande diferença. Não sei exatemente o que fiz com esses músculos, masnão mudei os captadores até chegar no refrão.O groove de semicolcheias que você e Flea tocam em Parallel Universe ébem encaixado. Você o gravou com um metrômero?Não. Você teria que perguntar ao Chad Smith (baterista do Chili Peppers), masacho que gravamos com metrômero.O que é o som phaser no final daquela música?Peguei emprestado um MXR Phase 100 do pessoal que estava gravando nasala ao lado. Estava procurando uma abordagem para aquele solo, e o Phase100 funcionou muito bem.
  • 3. Como foi gravado o hit Scar Tissue?Foi minha Strato 55 com braço de maple - a maioria das bases foi gravadacom essa guitarra. Creio que liguei-a ao Showman, porque o Marshall não eralimpo o suficiente.Como essa música surgiu?Usei essa técnica - que consiste pegar duas notas que estão distantes e tocá-las num ritmo legal - no meu primeiro disco solo. Scar Tissue é um exemplomuito simples disso, mas é um lance que me identifico.As partes de slide foram gravadas com a Strato também?Não. Usei uma Telecaster 65. Existem dois solos diferentes - apenas liguei opedal fuzz no segundo solo.Qual é o wah-wah na introdução de Get On Top?É o pedal WH-10 da Ibanez. Eles não o fazem mais, mas é o único wah que euuso, pois não gosto de outros.Qual é a diferença?Os outros wah-wahs parecem cortar o volume pela metade e o timbre não é tãogordo - fica menor. Com o pedal da Ibanez, o som permanece grande, e oaparelho tem um alcance bastante amplo. Possui também uma chave parabaixo ou guitarra. Em Get On Top, usei o ajuste para baixo. O solo em I like Dirtfoi tocado com a chave na posição para guitarra.Você usou a Strato em Get On Top?Sim, a de 55. É a que tem o melhor braço para tocar. Para a turnê, esta e umaStrato 62, com braço de jacarandá.A música parece similar em algumas faixas de Blood Sugar Sex Magik. Éuma volta consciente para as músicas daquela época?Não. Eu estava escutando Public Enemy uma manhã, e tive a idéia desseritmo, o pedal de wah do Flea no final da música. É outro solo discreto. Noensaio, fiz muitos solos de guitarra gritantes nessa música, mas acabei tocandoo que está no disco com uma Gibson ES-175 ano 1956, com encordamento .013. Não usei muito essa 175 - somente em Porcelain e neste solo.Em que você estava pensando?No solo de Steve Howe no final de Siberian Khatru, do Yes. O som da banda ébem grande e eles estão tocando rápido - de repente uma guitarra limpaaparece. É bem bonito. Em Get On Top eu queria tocar algo que criasse umcontraste entre o solo e a base.Os timbres de Otherside não parecem com nada do que você fez antes.
  • 4. É uma Gretsch White Falcon 55 através do Showman e uma caixa Marshall4x12. No overdub, usei uma Gibson SG Custom 61 com um Marshall JCM 800no talo - um humbucker num Marshall, como Eddie Van Halen.Qual é o significado do título Emit Remmus e como faz aquele sustain?O título é "Summer Time" ao contrário. Consegui o sustain à moda antiga - comdois stacks no volume máximo. É só um canal, tocado numa Strato afinada umtom abaixo.Como você fez a nota do feedback mudar?Isso depende do movimento do seu corpo, mas até que não mexi tanto. Temmais a ver com a sua respiração e com o que você está pensando.Seu solo em I like Dirt é a coisa mais próxima de Mothers Milk que vocêfez em um longo tempo - ele quase não combina com o resto do disco.Acho que combina sim. Estou tocando solos mais cheios hoje em dia - issocomeçou a acontecer mais ou menos na metade da gravação do álbum.Enquanto estávamos compondo, o conceito do que a guitarra devia ser nãotinha nada a ver com os solos de "rock star". Eu pensava nas músicas e nãoem solos. Na época que gravamos , no entanto, foi esse o solo que saiu. Minhaidéia do que constitui tocar bem uma guitarra está sempre mudando.Você usa alguns efeitos bem radicais em Savior.Aquele timbre de delay pesado é da minha Strato 55 com um Micro Synth daElectro-Harmonix e um 16 Second Delay. É um som estranho, inspirado emEric Clapton na época do Cream. As notas são como um solo de Clapton - sóque não parecem por causa dos efeitos. Ninguém toca melhor do que Claptonno Cream. Não existe motivo nenhum para que um solista de guitarra tente ir aoutro lugar além daquilo. É o máximo. É possível criar outras cores musicais, éclaro, mas quanto aos solos, acho difícil.Descreva o processo de composição no Chili Peppers.Algumas músicas surgem de jams, e outras de partes que alguém escreveu.No meu caso, escrevo um milhão de coisas que acabo deixando de lado.Certas idéias são boas apenas no momento em que você as compõe. Outrassão legais por certo tempo, e perdem algo. Há ainda aquelas idéias que vãorecebendo mais vibrações mágicas - ficam melhores à medida que todos asescutam. Essa são as que se tornam músicas.Qual seria um exemplo de música que você compôs?Around The World. Pensei naquela parte de guitarra na minha casa e disse atodos: "vocês têm de ouvir isto, mas não consigo tocar sozinho". Pedi paraChad manter o ritmo no chimbau enquanto tocava o lick. Todo mundo gostou,então continuei a tocar várias vezes até que o Flea criou a parte do baixo.
  • 5. Por quanto tempo você ficou tocando o lick até o Flea compor a linha dobaixo?Talvez uns 15 minutos. Flea é o melhor baixista do mundo. O senso de ritmo ea maneira como ele pensa são muito loucos. A linha de baixo se encaixa deforma impressionante com a minha guitarra. Quando tocamos sem a bateria,não faz sentido. Com a bateria, os instumentos se fundem. Nossos estilos secomplementam, e gostamos muito de tocar juntos.Quais músicas surgiram de jams?Parallel Universe, Scar Tissue, I like Dirt e This Velvet Glove. Nósimprovisamos todos os dias. Temos a mesma liberdade e interação que aspessoas tinham nos anos 60, quando tocavam solos longos, mas nós nãoenfocamos ninguém como solista. É um tabalho de partes e ritmos que seequilibram e tornam algo especial.Como o produtor Rick Rubin contribui nesse processo?Ele não se envolve com a composição, mas tem um papel importante naconstrução das músicas. Ele nos fala se uma música precisa de mais umaparte e nos ajuda a equilibrar as músicas de modo que não tenhamos sessõeslongas ou curtas demais. Ele é o produtor perfeito para nós.O novo disco tem dinâmicas extremas. Isso é influência de Rubin?É o resultado natural de tentar abordar cada música de forma diferente. Flea eeu tocamos nossos instrumentos de maneiras distintas em cada sessão degravação, e isso cria dinâmicas variadas.Uma vez você disse: "a técnica não é importante, mas sim a expressão dasua vida através da música". Mas você tem técnica - onde ela se encaixa?Parei de pensar na guitarra como um objeto no qual faço pequenos exercícios,e comecei a enxergá-la como alo que faz sons que atravessam o ar e que criaalgo do nada. Isso é música. Agora sei disso, posso trabalhar duro na técnica,e isso não faz diferença quando entro no estúdio ou em um ensaio.. Oimportante é refletir o que você é. O problema com a técnica é que ela nãodeixa espaço para pessoa em si. Preenche-se tudo com escalas rápidas, e oespaço é talvez o elemento mais importante na música. Mas admito que estoutocando solos mais rápidos hoje em dia.Então o solo de guitarra não está morto?Não. Mas a abordagem que muitas pessoas têm está morta. O máximo que jáse chegou, em matéria de herói da guitarra, foi Jimmy Page, Eric Clapton, JeffBeck e Jimi Hendrix fizeram nos anos 60. Não dá para ficar melhor do que isso.Gostei do que Eddie Van Halen fez nos primeiros discos, mas não curto o queos outros fizeram inspirados por ele. Os guitarristas de new wave e punk
  • 6. faziam, no começo dos anos 80, as coisas mais legais que surgiram depois dosanos 60. Todo guitarrista punk tinha o seu próprio som, e eles estavam tirandocores pessoais da guitarra.Qual a importância do equipamento para você? Você toca de maneiradiferente numa Les Paul e numa Jaguar?Sim. Tenho um estilo distinto para cada modelo, e prefiro guitarras que fazemvocê olhar para música de maneira diferente. Gosto da idéia de usar a GretschWhite Falcon em algumas músicas porque não consigo tocar como umguitarrista rock star com uma guitarra com encordoamento .012. Preciso aplicarum sentido musical diferente para o lance dar certo. É engraçado - Jeff Beckpode fazer qualquer guitarra ficar com o som dele só com os seus dedos. Souo oposto - toco de acordo com a guitarra. Sou do mesmo jeito com efeitos. Porexemplo, no Blood Sugar Sex Magik, fui direto para a mesa e coloqueioverdrive no solo de Suck My Kiss. Agora, não consigo um som como aquele.Existe alguma música que resume John Frusciante?Talvez Usually Just a T-shirt #2, do meu primeiro disco solo. Não poderiaescolher uma música do Chili Peppers porque elas são da banda toda.Conosco, não é o caso de expor John Frusciante, trata-se da parte de guitarraque faço para expor todos da banda.Fale do período em que esteve afastado do Red Hot Chili Peppers e sobreseus discos solo, Niandra Lades e Smile From The Streets You Hold.Meu primeiro disco solo foi gravado todo enquanto ainda estava no ChiliPeppers. O estilo de composição do disco representa o meu lado que nãocabia na banda. Foi gravado quando estávamos fazendo o Blood sugar SexMagik. O segundo álbum foi feito porque estava precisando de dinheiro paracomprar drogas. É preciso um pouco de imaginação para entender meusdiscos solo. No período em que estive fora da banda, não produzia muito e nãoestudava guitarra. Hoje, de volta ao Chili Peppers, tenho novas idéias paraálbuns.Estou explorando lances eletrônicos, como sintetizadores, para criartexturas. Gravo o tempo todo. Quando componho para os Chili Peppers,aproveito para fazer algo para meu trabalho solo.Se não tocava guitarra, o que fazia quando deixou a banda?Apenas pintava. Não queria nem sequer ouvir música. Algum tempo depois,escutava só David Bowie, Bauhaus, The Germs, Genesis com Pepter Gabriel eJanes Addiction, que não me lembravam coisas ruins. Hoje, escuto de tudo esempre toco guitarra, mas gosto também de desenhar e pintar.Como modulou um estilo próprio vivendo em Los Angeles, uma cidadeque fabrica guitarra aos montes e que abriga escolas como o GIT, porexemplo?
  • 7. Isso é até uma vantagem, porque pude perceber qual é o meu caminho. Amaioria das pessoas que estudam no GIT não vêem a música com um ângulocorreto. Coisas de natureza técnica não tem valor musical, a não ser para criarcores diferentes. É apenas uma ferramenta. Tocar guitarra é se relacionar comos outros instrumentos da banda. É preciso saber onde tocar no compasso,quanto tempo a nota deve durar, encaixar-se com o baixo, bateria... Isso émúsica. Tocar uma escala de ponta à outra, em alta velocidade, não éimportante.Quais mudanças em seu estilo ocorreram de Blood Sugar Sex Magik aCalifornication?Na época de Blood Sugar, meus dedos estavam muito mais fortes, porquetoquei sem parar desde os 12 anos de idade. Antes de Californication, passeipor uma fase de uns sete anos na qual quase não peguei na guitarra. Mastrabalhei duro em ambos. Em Blood Sugar, concentrei-me em Jimi Hendrix eEddie Hazel (Funkadelic). Em Californication, fui para o lado de BernardSummer (Joy Division) ou Mathew Ashman (Bow Wow Wow), pessoas comestilos coloridos que não utilizavam notas com um significado blues. Um b3,uma 4 ou uma 5, se tocadas em determinado ritmo e de certa maneira, nãocaem no blues. Nos anos 70, muita música boa foi criada sem o blues comoponto de partida. Quero que meu estilo seja assim. Não comecei a tocarguitarra por causa do blues ou seus derivados.Então o que o inspirou a tocar?Os estilos que me levaram à guitarra foram o new wave, de bandas como Devoe B-52s, e o punk, como The Germs e Black Flag. Esses estilos não vieram doblues, foram criados a partir de uma energia que havia no ar em meados dosanos 70. Quero capturar o que há de melhor desse feeling, pois creio que umestilo de guitarra, vindo do punk e do new wave é tão brilhante quanto o blues,pode ser criado. É o que estou tentando fazer hoje em dia. Passo muito tempocom minha guitarra tocando junto com trechos de sintetizadores do Kraftwerk,por exemplo, com lances que não se originaram no blues e buscam novossignificados para as notas. Para muitos guitarristas, a b3 é sempre a de bluesb3, e eu quero fazer a new wave b3.Seu trabalho de mão direita é excelente. Como desenvolveu essa técnica?Muitos guitarristas que se dizem bons tecnicamente não chegam nem perto darapidez da mão direita de Johnny Ramone. Esses guitarristas acham queJohnny está em um nível técnico mais baixo em relação a eles. Porém, é ocontrário, em se tratando dos músculos da mão direita. Quando estavacompondo para Californication, procurava tocar sempre com discos dosRamones, Black Flag ou The Germs. É importante desenvolver os diferentestipos de músculos da mão. No punk, o ideal é fazer palhetadas para baixo.Esses estilo soa menos autêntico com palhetadas para cima.
  • 8. Não é possível tocar punk com palhetadas para cima e ter autencidade?É possível, mas primeiro é preciso saber tocar apenas com palhetadas parabaixo. Há um ano, eu não tinha força nos dedos que tinha antigamente. Hoje, jáconsigo usar os músculos corretamente para criar diferentes texturas. Um bomconselho para mão direita é praticar palhetadas para baixo com velocidade emanter-se relaxado. O Ramones é um exemplo de diferentes ritmos que pode-se fazer só com palhetadas para baixo. Perguntei a Johnny de onde ele tirouisso e ele disse que era de Jimmy Page em Communication Breakdown.Seu estilo tem um quê de funk. De onde vem isso?Na música de James Brown, você estuda como tocar acordes de formapercussiva, o que envolve levantar a mão esquerda imediatamente depois deatacar a nota. É tocar leve e forte ao mesmo tempo. Não sei direito comofunciona, é difícil explicar.Como pensa na guitarra em relação ao Red Hot Chili Peppers?Procuro pensar em termos de texturas, formas e cores. O mais importante étocar guitarra e fazer com que Flea, Chad Smith e Anthony Kiedis soem omelhor possível. Desenvolvi um estilo específico para tocar com eles. É bomestar de volta ao Chili Peppers. Para mim, tocar com eles é muito natural.Por que então deixou a banda?Não achava que estávamos crescendo musicalmente. Não fazíamos com que amúsica cumprisse seu papel. Parecia que havia a responsabilidade de tocarapenas por sermos bem sucedidos. Além disso, eu e o Anthony brigamos e nãonos falávamos durante um ano. Não adianta tocar pelo dinheiro. Hoje estoufeliz na banda e não tomo mais drogas - minha vida é 100% dedicada ao meudesenvolvimento como músico.O instrumento precisa expressar o que o ar estádizendo. Há muitos ritmos e energias positivas no universo, com as quais vocêdeve estar sintonizado. Depois que você morre, o que vale é a energia boa eos bons sentimentos que você criou.
  • 9. Universo Fruciante.com

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