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Caroline Benvenuti DESENVOLVIMENTO HUMANO SUSTENTÁVEL: UM ESTUDO DE CASOSOBRE A COOPERATIVA DE PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA TERRA...
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Aprovação
Á Deus, por ter colocado pessoas tão especiais nomeu caminho durante essa trajetória e por não ter medesamparado em moment...
AGRADECIMENTOS        Tantas foram as pessoas que contribuíram com este trabalho, seja com seusconhecimentos, vivências ou...
“Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundopara confundir as sábias; e Deus escolheu as coisasfracas deste mundo para ...
RESUMOVivemos em um tempo paradoxal, ou seja, o que acontece na nossa sociedade é levado poruma contradição lógica.Essas c...
ABSTRACTWe live in a time paradox, is the case in our society is led by a logical contradiction. Thesecontradictions are c...
LISTA DE FIGURASFigura 1: Imagem aérea da unidade de pesquisa – Cooperativa de Produção AgropecuáriaTerra e Vida – COOPERV...
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLASCOOPERVITA LTDA – Cooperativa de Produção Agropecuária Terra e Vida LtdaPNUD – Programa das ...
SUMÁRIO1 INTRODUÇÃO .........................................................................................................
7.1 Breve Histórico da Economia Solidária ......................................................................... 917.1....
121 INTRODUÇÃO         O sujeito se funda na coletividade, ou seja, só é possível constituir-se sujeito pelooutro. O sujei...
13Dessa forma, Harvey nos faz pensar a dinâmica da cooperativa onde cada membro desenvolvesua biografia nesse espaço-tempo...
14autores com o objetivo de contribuir para o enriquecimento do conceito de DesenvolvimentoHumano Sustentável no âmbito da...
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161.2 Objetivos        Esse trabalho tem como objetivos complementares:       Verificar se os princípios do conceito de De...
172 O PERCURSO METODOLÓGICO2.1 Metodologia do Trabalho         Este capítulo vai ressaltar a metodologia que foi utilizada...
18        A amostra da coleta de dados foi definida por 6 entrevistados, escolhidos de acordocom as áreas especificas de t...
192.3.1 Contexto         A pesquisa se iniciou com as primeiras visitas à cooperativa, mesmo quedespretenciosas com relaçã...
20       A cooperativa é formada por 18 famílias, totalizando 29 sócios. Sua estrutura fica naComunidade de Vila Campos, d...
21cooperativas e demais pessoas da região. Este, já entrou no calendário de eventos do mês decomemoração do aniversário do...
22produtos, optaram pela industrialização de doces e conservas e pela produção baseada naagroecologia.         A COOPERVIT...
23fiscalização dos seus atos é feita através de um Conselho Fiscal, composto por três membrosefetivos e três suplentes, el...
24   Qualificação profissional para o trabalho dos associados e membros;   Seleção rigorosa para a admissão de novos assoc...
25acréscimo de quinze por cento ao valor básico da hora de trabalho. Quando existe anecessidade de contratar mais pessoas,...
26Figura 3: Produção na Agroindústria, mão-de-obra predominantemente feminina.Fonte: EMATER/RS-ASCAR (2004).         Atual...
273 A CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE         Rey (2003) define subjetividade como um processo complexo de construçãosimbólica...
28                         expressivos da cultura popular e em que busca eliminar a heterogeneidade e impor               ...
29         Nesses casos, a mãe é o ponto fixo. Essa primeira interação é, portanto, fonte detoda subjetividade. A estrutur...
30que valoriza o “ter” e não o “ser” faz com que a construção da subjetividade se torne umgrande desafio.        Quanto ma...
31ser na forma de manifestação da capacidade autônoma dos indivíduos e grupos na construçãoda sua história” (FOLLMANN, 200...
322001, p. 50). Assim, a identidade inclui o passado e o presente, o vivido e o que está por vir, oque já foi conquistado ...
33         Dentre os entrevistados, vemos que todos foram pessoas dispostas a participar dasociedade, da própria comunidad...
34Follmann considera que corremos sim o risco de perder a referência para o futuro e que essas“costuras, do individual e d...
35formas de resistência coletivas, comunas ou comunidades, estando fundamentada por umaopressão sofrida.         As cooper...
36         A herança cultural é algo que chama a atenção na cooperativa em foco. A maioriasão mantenedores da sua tradição...
37perseverança é algo que não pode ser esquecido. Caso isso aconteça, não “tocarão” da mesmaforma a cooperativa, isso deve...
38lugar do espaço onde o sujeito se referencia”. A casa aqui, reflete a simplicidade na qualviviam e a união da família.  ...
39apresenta uma imagem ou significação pronta. Isso não gera a apropriação, no sentido de quenão instiga a pessoa a fazer ...
40caso, por exemplo, da ciência jurídica que baseia-se em suprir as necessidades deregulamentação social, e que não é está...
414 SOCIEDADE, DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE: DA PERFEIÇÃO DACRIAÇÃO AOS DESAFIOS DA CONTEMPORANEIDADE        Refletir s...
424.1 Criou Deus os Céus e a Terra (Gênesis 1.1)         Muito se fala sobre as raízes da nossa oposição à natureza. O pon...
43        Estas considerações, de que o contexto bíblico foi grande influenciador na posturaanti-ecológica da Humanidade, ...
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  1. 1. Universidade do Extremo Sul Catarinense Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais DESENVOLVIMENTO HUMANO SUSTENTÁVEL: UM ESTUDO DE CASOSOBRE A COOPERATIVA DE PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA TERRA E VIDA – COOPERVITA LTDA- TAPEJARA-RS. Caroline Benvenuti Criciúma, SC 2009
  2. 2. Caroline Benvenuti DESENVOLVIMENTO HUMANO SUSTENTÁVEL: UM ESTUDO DE CASOSOBRE A COOPERATIVA DE PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA TERRA E VIDA – COOPERVITA LTDA-TAPEJARA-RS. Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Ciências Ambientais da Universidade do Extremo Sul Catarinense para obtenção do Título de Mestre em Ciências Ambientais. Área de Concentração: Sociedade, Desenvolvimento e Meio Ambiente. Orientadora: Prof. Dra. Teresinha Maria Gonçalves. Criciúma, SC 2009
  3. 3. Caroline Benvenuti DESENVOLVIMENTO HUMANO SUSTENTÁVEL: UM ESTUDO DE CASOSOBRE A COOPERATIVA DE PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA TERRA E VIDA – COOPERVITA LTDA-TAPEJARA-RS. Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Ciências Ambientais da Universidade do Extremo Sul Catarinense para obtenção do Título de Mestre em Ciências Ambientais. Área de Concentração: Sociedade, Desenvolvimento e Meio Ambiente. BANCA EXAMINADORA Dra. Teresinha Maria Gonçalves (Orientadora) Doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento – UNESC Dr. Geraldo Milioli Doutor em Engenharia de Produção e Sistemas- UNESC Dr. José Ivo Follmann Doutor em Sociologia - Universite Catholique de Louvain.
  4. 4. Aprovação
  5. 5. Á Deus, por ter colocado pessoas tão especiais nomeu caminho durante essa trajetória e por não ter medesamparado em momento algum.
  6. 6. AGRADECIMENTOS Tantas foram as pessoas que contribuíram com este trabalho, seja com seusconhecimentos, vivências ou até mesmo aquele apoio em um momento difícil. Os meus sinceros agradecimentos à minha família que não mediu esforços e sonhoujunto comigo. Aos meus amigos pelo incentivo, especialmente à Micheli e Milena por terem meacolhido nesta cidade (Criciúma). Ao Tiago, pelo companheirismo e carinho. Não somente aos participantes da pesquisa, mas estendo minha gratidão a todos osmembros da COOPERVITA LTDA, pela colaboração, pelo calor humano e pelo grandeexemplo que vou levar para minha vida. A todos os colegas e professores deste curso. Entendo agora o que é trabalhar deforma multidisciplinar. Este trabalho tem, com certeza, um pouco de cada um de vocês: seuscomentários em sala de aula, suas experiências de vida, seus sonhos...as nossas esperanças. Por fim, agradeço à minha professora orientadora Maria Teresinha Gonçalves. Porter me apresentado a Psicologia Ambiental, tema tão fascinante. Pela preocupação, peladedicação e apoio.
  7. 7. “Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundopara confundir as sábias; e Deus escolheu as coisasfracas deste mundo para confundir as fortes” (1 Co1:27).
  8. 8. RESUMOVivemos em um tempo paradoxal, ou seja, o que acontece na nossa sociedade é levado poruma contradição lógica.Essas contradições são decorrentes de um modelo de desenvolvimentoque tem como sinônimo apenas o crescimento econômico. Assim, diz-se que determinadopais é desenvolvido quando o mesmo possui um elevado PIB (Produto Interno Bruto). Paraesse modelo, o que está em jogo é o capital, sem levar em consideração de onde eleprovém.As pessoas foram consideradas como máquinas, visando a mão-de-obra barata e não aindividualidade.Temos constantemente ouvido falar em qualidade de vida. E pergunto: comovamos alcançá-la através de um modelo de desenvolvimento tão reducionista, que tem apenasa riqueza material como foco? Sabemos que nossas necessidades vão muito além disso,precisamos ter acesso a saúde, educação, resguardar nossa cultura, ter um meio ambienteequilibrado, viver em comunidade sem medo da violência. Uma nova tendência acredita queas pessoas devam ser o centro do desenvolvimento. Essa teoria desenvolvimentista é chamadade Desenvolvimento Humano Sustentável. Em síntese, o novo modo de ver odesenvolvimento afirma que ele deve ser: das pessoas, pelas pessoas e para as pessoas.Embora se trate de um tema recente, acredita-se que essa noção possa ser utilizada naformulação de políticas públicas, que buscam uma forma mais justa e eqüitativa de ver odesenvolvimento. Tratamos essa nova visão aplicada ao cooperativismo, tendo como objetode pesquisa a experiência da Cooperativa de Produção Agropecuária Terra e Vida-COOPERVITA LTDA, localizada em Tapejara, Rio Grande do Sul. A economia solidáriasurgiu como uma forma de resistência das minorias, a um sistema de padronização e exclusãosocial. Em meio a isso valores e princípios são empregados, como é o caso da solidariedade.Através do cooperativismo, a competição dá espaço à cooperação, a construção dasubjetividade, ao respeito à diversidade humana e cultural. A abordagem de Amartya Sen, falasobre um desenvolvimento como liberdade, como reflexo da expansão das liberdadessubstantivas. Enfocamos como resultante do processo do Desenvolvimento HumanoSustentável um agente de mudanças, um sujeito autônomo, capaz de influenciar a sociedade,fazer suas próprias escolhas, de acordo com aquilo que ele julga ser importante no seu modode vida. Um cidadão que visa não somente uma cidadania referente ao exercício de direitos edeveres, mas uma cidadania planetária, que se preocupa a conseqüência das suas ações.Palavras-chave: Desenvolvimento Humano Sustentável; Cooperativismo; Subjetividade.
  9. 9. ABSTRACTWe live in a time paradox, is the case in our society is led by a logical contradiction. Thesecontradictions are caused by a type of development that has as a synonym only economicgrowth. Thus, it says that a parent is developed when it has a high PIB. For this model, whichis in game is the capital,without taking account of where come. As people were seen asmachines, to the labor-cheap and not individuality. We have constantly heard about thequality of life. And I ask: how do we achieve it through a development model as reductionist,it is only the material wealth as a focus? We know that our needs go much further, we haveaccess to health, education, protecting our culture, have a balanced environment, living in thecommunity without fear of violence. A trend that people believe to be the center ofdevelopment. This theory is called the developmental Sustainable Human Development. Insummary, the new way of seeing development states that it should be: the people, by peoplefor people. Although this is a recent issue, it is believed that this concept can be used in theformulation of public policies that seek a more just and equitable to see the development. Weapplied this new vision of cooperation, with the object of the search experience of theCooperativa de Produção Agropecuária Terra e Vida- COOPERVITA LTDA, located inTapejara, Rio Grande do Sul. The social economy has emerged as a strength of minorities, asystem of standardization and social exclusion. Among the values and principles that areemployed, such as solidarity. Through cooperation, the competition gives room forcooperation, the construction of subjectivity, respect for human diversity and culture. Theapproach of Amartya Sen, talks about a development as freedom, reflecting the expansion ofsubstantive freedoms. Focus as a result of the process of Sustainable Human Development anagent of change, an autonomous subject, capable of influencing the society, make their ownchoices according to what he thinks is important in its way of life. A citizen who seeks notonly referring to an exercise of citizenship rights and duties, but a global citizenship, whichconcerns the consequences of their actions.Keywords: Sustainable Human Development; Cooperatives; Subjectivity.
  10. 10. LISTA DE FIGURASFigura 1: Imagem aérea da unidade de pesquisa – Cooperativa de Produção AgropecuáriaTerra e Vida – COOPERVITA LTDA. .................................................................................... 19Figura 2: Colheita de morangos por associados, no início das atividades da COOPERVITALTDA. ...................................................................................................................................... 22Figura 3: Produção na Agroindústria, mão-de-obra predominantemente feminina. ................ 26Figura 4: Bandeira do Brasil ..................................................................................................... 52Figura 5: Diagrama Desenvolvimento Humano Sustentável....................................................66Figura 6: Igreja católica da Comunidade de Vila Campos. ...................................................... 74Figura 7: Onça capturada nos anos 70. ..................................................................................... 79
  11. 11. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLASCOOPERVITA LTDA – Cooperativa de Produção Agropecuária Terra e Vida LtdaPNUD – Programa das Nações Unidas para o DesenvolvimentoPNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio AmbienteONU – Organização das Nações UnidasUNESC – Universidade do Extremo Sul CatarinenseMST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-TerraUPF – Universidade de Passo FundoPIB – Produto Interno BrutoONGs – Organizações Não GovernamentaisCMMAD – Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e DesenvolvimentoRS – Rio Grande do SulSC – Santa CatarinaDDT – DiclorodifeniltricloretanoPRONAF – Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura FamiliarCPAs – Cooperativas de Produção AgropecuáriaEMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa AgropecuáriaSIES – Sistema Nacional de Economia SolidáriaOCB – Organização das Cooperativas BrasileirasACI – Aliança Cooperativa InternacionalIDH – Índice de Desenvolvimento Humano
  12. 12. SUMÁRIO1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 121.1 Justificativa ....................................................................................................................... 141.2 Objetivos ............................................................................................................................ 162 O PERCURSO METODOLÓGICO ................................................................................. 172.1 Metodologia do Trabalho................................................................................................. 172.2 Características da Pesquisa ............................................................................................. 172.3 Sobre a Unidade de Pesquisa ........................................................................................... 182.3.1 Contexto .......................................................................................................................... 192.3.2 Primórdios e Construção da Identidade Cooperativa ...................................................... 212.3.3 Áreas de atuação .............................................................................................................. 253 A CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE....................................................................... 273.1 Identidade: o Individual e o Social.................................................................................. 303.2 Atores Sociais e Identidade de Papéis ............................................................................. 343.3 O Lugar e seu Conteúdo Simbólico ................................................................................ 374 SOCIEDADE, DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE: DA PERFEIÇÃO DACRIAÇÃO AOS DESAFIOS DA CONTEMPORANEIDADE ......................................... 414.1 Criou Deus os Céus e a Terra (Gênesis 1.1) ................................................................... 424.2 A Natureza que Chora com Dores de Parto ................................................................... 454.2.1 A Policrise Planetária ...................................................................................................... 504.3 Correndo atrás do Vento: Desenvolvimento, Sustentável para Quem? ...................... 545 O NOVO PARADIGMA DO DESENVOLVIMENTO HUMANO SUSTENTÁVEL . 605.1 Conceito, Abrangência e Finalidades ............................................................................. 605.2 As Fomes Coletivas ........................................................................................................... 665.3 Tirando a Casca da Semente: Algumas Premissas para o Desenvolvimento HumanoSustentável............................................................................................................................... 696 AGRICULTURA E SUSTENTABILIDADE ................................................................... 766.1 A Agricultura Familiar: as Mãos no Arado. .................................................................. 766.2 A Crise no Campo ............................................................................................................ 796.2.1 As Revoluções Tecnológicas ........................................................................................... 826.3 (Re) Construção: O Ecológico na Agricultura ............................................................... 867 O COOPERATIVISMO: TECENDO NOVOS CAMINHOS ........................................ 90
  13. 13. 7.1 Breve Histórico da Economia Solidária ......................................................................... 917.1.1 No Brasil .......................................................................................................................... 937.2 A Identidade Cooperativa ................................................................................................ 957.2.1 Princípios ......................................................................................................................... 977.3 O Humano no Cooperativismo ...................................................................................... 1007.3.1 A Solidariedade ............................................................................................................. 1027.3.2 A Emancipação Social ................................................................................................... 1037.3.3 A Educação Cooperativa ............................................................................................... 106CONCLUSÃO....................................................................................................................... 108REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 116APÊNDICE ........................................................................................................................... 123ANEXOS ............................................................................................................................... 147
  14. 14. 121 INTRODUÇÃO O sujeito se funda na coletividade, ou seja, só é possível constituir-se sujeito pelooutro. O sujeito é individual no sentido de que é um ser singular, único, com sua história, suapersonalidade, seus desejos e sua visão de mundo. A Humanidade impressa no sujeito é dadapela coletividade, pelo ato de relacionar-se com seus semelhantes. Está implícito no humanovalores que se agregam à vida no sentido de torná-la possível de forma pacífica, saudável ecriativa, portanto, sustentável. O conceito de sustentabilidade está de certo ponto contaminado pelo conceito desustentabilidade econômica. Este trabalho apresentará o esforço para construí-lo de umaforma mais abrangente que encontramos na literatura. O Programa das Nações Unidas para oDesenvolvimento, por exemplo, aborda o conceito do Desenvolvimento Humano Sustentávelmencionando as dimensões da erradicação da pobreza, a promoção da equidade e inclusãosociais, da igualdade de gênero e raça, da sustentabilidade ambiental, da participação políticados direitos humanos. Segundo Gonçalves (2009) esses são princípios morais e sociais ligados a teoria doEstado de Direito e da cidadania. Válidos, deverão ser perseguidos sempre. Porém, ressalta aautora que esses princípios de cidadania serão efetivados por uma coletividade formada deseres humanos de subjetividade integrada, amorosos, criativos, solidários. Habermas fala da razão e agir comunicativos em oposição a razão e agirinstrumentais. Da mesma forma, Moscovici fala de universos reificados e consensuais. Essesautores nos dão instrumentos para pensar nos tipos diversos de sociedade, a razão e o agircomunicativo de Habermas se opõe a razão e agir instrumentais da atual sociedadecontemporânea regidas pelos princípios do capitalismo. Da mesma forma, os universosconsensuais de Moscovici se opõem ao universo reificado do capitalismo. Assim sendo, acooperação torna-se mais exeqüível nesses tipos de pensar e agir. Uma cooperativa, seja paraqual finalidade for, só alcançará os objetivos coletivos quando formada por sujeitos singularescuja personalidade se desenvolveu em um coletivo saudável, ou seja, em uma sociedade justae igualitária. Ou então, na reflexão sobre essa possibilidade de sociedade. Harvey (1998) fala dos tempos individuais na vida social. As práticas materiais deque os nossos conceitos de espaço e de tempo são tão variadas e estão envolvidas em umagama de experiências coletivas. Nas práticas cotidianas os sujeitos são movidos por umpropósito de engajamento em projetos que absorvem tempo através do movimento no espaço.
  15. 15. 13Dessa forma, Harvey nos faz pensar a dinâmica da cooperativa onde cada membro desenvolvesua biografia nesse espaço-tempo onde ele constrói o coletivo e a si mesmo. Quais são os universos da cooperativa? Que imaginário se constrói ali? Se acooperativa tenta uma nova forma de produção diferente daquelas ditadas pela lógica domercado poderemos levantar a hipótese de que essa cooperativa estaria imersa em umuniverso consensual que, no dizer de Moscovici (2003) haveria possibilidade de diálogo, deconstrução de regras, de agregação de valores humanos. E no dizer de Habermas seria ouniverso regido pela razão comunicativa que, por meio do diálogo, buscaria o consenso paramanutenção da produção e da vida coletiva. Na fala dos entrevistados aparecem referências a vivências do coletivo, como porexemplo, a divisão de tarefas na manutenção da casa e nos trabalhos da lavoura, a renda erafamiliar e não individual. O universo rural coloca necessariamente o sujeito nainterdependência com outros sujeitos, principalmente se for o universo rural dos pequenosproprietários, da agricultura familiar. Habermas (1987) atenta para a necessidade de construirmos uma linguagemcompetente para que todos possam chegar ao desenvolvimento. Esses proferimentoslinguísticos seriam como atos de fala através dos quais chegaríamos ao entendimento sobrealgo no mundo. Para Habermas (1987) quando eu falo, eu ajo. Nesse sentido, a teoria não estariadespregada da realidade. Ao explicar o fato, estaríamos analisando criticamente um dado derealidade estando implícito aí a perspectiva da mudança. Toda ação é precedida de umaintenção. Nessa intenção está contido um conteúdo pragmático. Esse sentido performativo deuma ação de fala só é captado por um ouvinte potencial que assume um enfoque de umasegunda pessoa, abandonando a perspectiva do observador e adotando a do participante. Habermas (1987) quer dizer que essa é a perspectiva do sujeito ouvinte, porque nalinguagem competente e comunicativa é tão importante ouvir quanto falar. Essa prática éembasada por esses conceitos de razão e ação comunicativa de Habermas e podem seconstituir instrumentos numa dinâmica coletiva como no caso das cooperativas. A eficiência ea eficácia de um sistema de produção cooperativo se dá por meio de sujeitos potencialmentecapazes de uma linguagem competente onde todos falam e decifram os mesmos códigos e só épossível pela razão e ação comunicativa. Esse trabalho pretende analisar a prática da Cooperativa de Produção AgropecuáriaTerra e Vida- COOPERVITA LTDA na perspectiva teórica explicitada por esses e outros
  16. 16. 14autores com o objetivo de contribuir para o enriquecimento do conceito de DesenvolvimentoHumano Sustentável no âmbito das Ciências Ambientais.1.1 Justificativa Tive, desde criança, muitas experiências e grande convívio com famílias de pequenosagricultores no Rio Grande do Sul, região do Planalto Médio. Tamanha a minha admiração erespeito por estes que trabalham com a terra e na sua simplicidade lutam por uma vidamelhor. Sempre percebi suas dificuldades, o que comovia e me fazia refletir sobre adesvalorização de tal trabalho e porque não dizer do ser humano, já que muitas eram asimpossibilidades e poucas as oportunidades de mudanças. Enquanto eu, morava na cidade eacordava meia hora antes do horário da escola, um filho de agricultor que estudava na mesmaclasse e morava no meio rural tinha que acordar ainda de madrugada, caminhar por um longopercurso até chegar ao local onde pegava a condução, e às vezes passar a manhã toda molhadonos dias de chuva. Todos esses fatores me levaram à indagações sobre as liberdades substantivas, deescolhas, sobre as heranças culturais e a atual situação problemática dessas pessoas quedependiam do Estado e muitas vezes não tinham o apoio necessário. São pessoas que“adotaram” uma maneira de viver, baseada num sistema capitalista, e que viviam visandoatingir um padrão, algo mostrado como ideal pela sociedade. Ao analisarmos o padrão de desenvolvimento rural decorrente do modeloprodutivista, fica notório que o mesmo fez surgir uma série de conseqüências prejudiciais nosâmbitos social, econômico, cultural e ambiental. A fragmentação do saber tradicional e do meio ambiente, através do sistemabiotecnológico vigente, vincula os agricultores a uma extremada dependência. A falta deperspectivas no campo, já evidente na época da Revolução Verde, faz com que os mesmospercam seu referencial e deixem de atuar em suas propriedades. Essa migração do campo paraas cidades, traz conseqüências tanto pessoais quanto sociais. Sendo uma das mais graves odesenraizamento das pessoas de sua cultura, de suas origens e de sua história. Asconsequências sociais se expressam na degradação sócioambiental das cidades que não têm
  17. 17. 15estrutura suficiente de se preparar para receber esses contingentes de desempregados eabandonados do campo. Segundo a EMATER (2006), a partir da introdução do modo de Plantio Direto, porvolta de 1990, os agricultores gaúchos se viram obrigados a fazer parte do sistema modernode maquinários. As famílias deixaram de plantar de forma tradicional e passaram a lidar comgraves problemas, determinados pelo endividamento resultante da aquisição de máquinas,implementos, insumos e o surgimento de mão-de-obra ociosa pela substituição do trabalhobraçal pelas máquinas. Ressaltando a inegável importância da agricultura e dos seus impactossocioeconômicos e ambientais, cabe fazer uma reflexão acerca do desenvolvimento humanono meio rural. Esse trabalho visa tratar do Desenvolvimento Humano Sustentável, que deveser analisado sob um olhar interdisciplinar, pois objetiva satisfazer as necessidades humanas,econômicas, sociais, ambientais e culturais da geração atual sem comprometer os direitos dasque estão por vir. Como escreve Morin (1995, p. 109): A noção de desenvolvimento deve tornar-se multidimensional, ultrapassar ou romper os esquemas não apenas econômicos, mas também civilizacionais e culturais ocidentais que pretendem fixar seus sentidos e suas formas. Deve romper com a concepção do progresso como certeza histórica, e deve compreender que nenhum desenvolvimento é adquirido para sempre: como todas as coisas vivas e humanas, ele sofre o ataque do princípio da degradação e precisa incessantemente ser regenerado. Segundo Santos (2002, p. 29), as alternativas ao sistema capitalista criam novosespaços onde imperam três fatores essenciais: igualdade, os frutos do trabalho são distribuídosde maneira eqüitativa pelos seus produtores e o processo de produção implica a participaçãode todos na tomada de decisões, como nas cooperativas de trabalhadores; solidariedade, o queuma pessoa recebe depende das suas necessidades e a contribuição depende da suacapacidade; proteção ambiental, em nome da proteção do meio ambiente, a escala e oprocesso de produção se ajustam a imperativos ecológicos, mesmo quando eles contrariam ocrescimento econômico. Dessa forma, a relevância do trabalho diz respeito à discussão sobre a possibilidadeda melhoria da qualidade de vida no meio rural; maiores oportunidades e capacitação; umaforma solidária de economia; liberdade; equilíbrio ambiental; e acima de tudo, possibilidadede se manter no campo com a dignidade que por direito lhes deve ser atribuída.
  18. 18. 161.2 Objetivos Esse trabalho tem como objetivos complementares: Verificar se os princípios do conceito de Desenvolvimento Humano Sustentável ocorrem no processo de organização e atuação da COOPERVITA LTDA.  Realizar uma reflexão sobre os limites e possibilidades para o Desenvolvimento Humano Sustentável, dentro dos moldes da agricultura atual no Brasil;  Realizar um estudo de história de vida de determinados membros da COOPERVITTA LTDA, enfatizando os aspectos pessoais, sociais, ambientais e econômicos.
  19. 19. 172 O PERCURSO METODOLÓGICO2.1 Metodologia do Trabalho Este capítulo vai ressaltar a metodologia que foi utilizada para a elaboração destetrabalho. Foi uma busca para fazer a melhor reflexão possível sobre o marco teórico, a falados entrevistados e a essência presente em cada visita ao objeto de estudo: a cooperativa.Tamanha foi a dedicação visando o entrosamento com as pessoas, o lugar e cada detalhe quetrazia à tona a identidade ali presente. Assim, tratamos aqui sobre os métodos de pesquisa escolhidos, a explanação sobre aunidade de pesquisa, definição da amostra, métodos de entrada em campo e contato com osentrevistados.2.2 Características da Pesquisa Esta pesquisa se caracteriza como qualitativa. Para Bauer e Gaskell (2002, p. 91)“não há experiência humana que não possa ser expressa na forma de narrativa (transhistórica,transcultural...), [...] está simplesmente ali como a própria vida.” O método adotado para esta pesquisa é o estudo de caso, que consiste no “[...] estudoprofundo e exaustivo de um ou de poucos objetos, de maneira a permitir conhecimento amploe detalhado do mesmo [...]” ( GIL, 1989, p. 78 apud GONÇALVES, 2006). A coleta de dados se deu por meio de entrevistas-narrativas, que segundoJovchelovitch e Bauer (2002, p. 90) “são histórias contadas por pessoas de determinadosgrupos ou comunidades cujas palavras e sentidos são específicos à sua experiência e ao seumodo de vida”. Ainda, acompanharam as entrevistas um diário de campo que narra algumasanálises da pesquisadora obtidas por observação sistemática do lugar, modo de vida eentrosamento com os entrevistados. Por fim, foi feita uma pesquisa documental relativa aohistórico da cooperativa, aspectos relativos a sua identidade e alguns aspectos da comunidadena qual está localizada.
  20. 20. 18 A amostra da coleta de dados foi definida por 6 entrevistados, escolhidos de acordocom as áreas especificas de trabalho na cooperativa, sendo assim selecionados: Administrativo – 1 entrevistado Produção vegetal – 1 entrevistado Produção animal – 1 entrevistado Industrialização – 2 entrevistados. Os dados foram analisados pela técnica de conceitos chave que segundo Gonçalves(2006, p. 39), “é uma técnica onde os conteúdos são analisados por meio de conceitos chaveselencados do marco teórico da pesquisa ou dos discursos dos entrevistados”.2.3 Sobre a Unidade de Pesquisa A escolha da unidade de pesquisa foi feita não somente por questões de metodologiade pesquisa, mas também por um envolvimento pessoal desta autora. Minha curiosidade sobrea atuação da COOPERVITA LTDA teve início com uma relação de mera consumidora. Aoobter produtos de origem ecológica, passei a me questionar sobre quem seriam as pessoas queestavam “atrás” dessa produção e de que forma viviam. Então, fiz minha primeira visita àcooperativa em questão. No curso de Especialização em Direito Ambiental, da Universidade Federal de SantaCatarina, abordei o tema Desenvolvimento Humano Sustentável na Agricultura Atual. Noentanto, não exigia-se uma pesquisa de campo, somente uma análise teórica. Por isso, aindatinha a vontade de voltar a estudar tal tema de forma mais profunda. Ao ingressar no Mestrado em Ciências Ambientais da Universidade do Extremo SulCatarinense – UNESC tive a oportunidade de rever esse assunto, agora incluindo acontribuição da Psicologia Ambiental e de uma unidade de pesquisa. De imediato, remeti-meao trabalho da cooperativa que evidencia uma preocupação sócioambiental.
  21. 21. 192.3.1 Contexto A pesquisa se iniciou com as primeiras visitas à cooperativa, mesmo quedespretenciosas com relação às questões metodológicas visavam uma aproximação com osassociados e a observação da sua rotina, cultura e características peculiares do trabalharcoletivo. Foi meramente uma forma de obter a necessária aproximação, mas semcomprometer a relação de imparcialidade da pesquisadora com seus entrevistados. O inverno rigoroso do Rio Grande do Sul foi o cenário da maioria das entrevistas, asbaixas temperaturas só eram amenizadas com o calor humano daquelas pessoas . No ano de2008, seguiram-se então a série de cinco entrevistas. A COOPERVITA LTDA localiza-se no Município de Tapejara, Rio Grande do Sul.Este, segundo dados de Dallagasperina e Oliveira (2006), apresenta uma população deaproximadamente 15.123 habitantes, sendo 20% moradores do meio rural, com predomínio deagricultores familiares. A etnia dominante é composta por descendentes de italianos, cerca de60% e alemães, 20%. A agropecuária representa 22,61% da sua economia, sendo as principaisculturas: milho, soja, trigo, cevada e as criações de gado de leite, suínos, e aves.Figura 1: Imagem aérea da unidade de pesquisa – Cooperativa de Produção Agropecuária Terra e Vida –COOPERVITA LTDA.Fonte: EMATER/RS-ASCAR (2004).
  22. 22. 20 A cooperativa é formada por 18 famílias, totalizando 29 sócios. Sua estrutura fica naComunidade de Vila Campos, distante 8 Km da sede do município. As famílias, como amaioria do município, são de descendência italiana. São famílias consideradas tradicionais naregião e muito conhecidas, algumas iniciaram a desbravação do lugar para dar início à práticaagrícola, como é o caso da família Gaiardo vinda de Caxias do Sul. Suas instalações compreendem 13 estabelecimentos rurais, em uma área de 171,5hectares. Neste espaço foram construídas moradias, pomares, hortas, espaços para criação deanimais (frangos e suínos), setor administrativo, fábrica de ração, panificadora eagroindústria. A estrutura das instalações e moradias recebem luz elétrica, ainda possuempoço artesiano para o abastecimento de água e serviço telefônico. Chama atenção aconcentração de tantas atividades em uma área de pequenas dimensões, na qual oito famíliaspossuem o título de proprietários e quatro são arrendatários. De grande importância ressaltarque todas essas edificações estão em uma área cedida em comodato por um dos associados. O trabalho é desenvolvido tanto por mulheres quanto por homens. A maioria doshomens trabalham no cultivo dos pomares, hortas e criação de animais; enquanto as mulheresse dedicam à panificação e agroindústria. Mas, esta divisão varia de acordo com anecessidade, algumas épocas exigem maior empenho em certas áreas. As famílias estão envolvidas em vários núcleos da comunidade que pertencem.Todas são da religião católica, e participam ativamente nas atividades da igreja local. Soma-sea isso o envolvimento com a educação das crianças, já que possuem uma escola de ensinofundamental com nucleação, fazendo parte desta alunos das comunidades próximas. Todas ascrianças em idade escolar estão matriculadas e possuem boa freqüência, contando tambémcom um ônibus municipal para transportá-las. Os jovens freqüentam o ensino médio na rede estadual, na sede do município. Paraisso, também recebem a assistência do transporte público. Alguns cursam ensino superior, emuniversidades da região. Sendo que dois deles já concluíram a faculdade de Engenharia deAlimentos e Engenharia Agrícola, e ambos atuam na própria cooperativa. O entrosamento com a comunidade é muito bom, tendo seus líderes voz ativa nasdecisões e grande influência na realização de melhoramentos no local, como é o caso doasfaltamento feito na entrada da Vila. Ainda, anualmente ocorre um evento tradicional na sededa Comunidade de Vila Campos, entre os meses de agosto e setembro, com o objetivo dedivulgar o consumo da carne suína. Tal evento consiste em um jantar organizado pelaCOOPERVITA LTDA, que reúne autoridades do município, representantes de outras
  23. 23. 21cooperativas e demais pessoas da região. Este, já entrou no calendário de eventos do mês decomemoração do aniversário do município.2.3.2 Primórdios e Construção da Identidade Cooperativa A COOPERVITA LTDA foi criada a partir da iniciativa de seus sócios- fundadorespara um trabalho diferente na região. Inspiraram-se na organização dos assentamentos doMovimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra – MST, que já atuavam na área doassociativismo. A agricultura familiar no Rio Grande do Sul, por volta de 1990, passou por umagrande crise. Foi uma época marcada pela implantação do Plantio Direto, substituindo osistema de plantio utilizado até então, que consistia na grande mobilização do solo e uso deprodutos químicos. Os agricultores tiveram que se adaptar comprando novo maquinário,fizeram dívidas e conviveram com a falta de trabalho decorrente da substituição da mão-de-obra pelas máquinas. Foi assim que o grupo começou a se mobilizar, em busca de sobreviver no campo asprimeiras experiências foram realizadas através de uma produção coletiva: de alho, alfafa eoutras culturas que tinham um custo baixo de produção. Em meio a muitas frustrações, aorganização de trabalho permaneceu e em 1991 foi formada uma associação de agricultores,denominada de “Associação dos Agricultores do Condomínio Rural São Domingos”. Foi justamente nesse contexto que o grupo de agricultores, que hoje formam aCOOPERVITA LTDA, perceberam que era necessário se unir para resistir no campo e buscarnovas alternativas que aliassem a preservação de suas origens com a subsistência familiar. Em 1998, foi fundada a atual Cooperativa de Produção Agropecuária Terra e Vida-COOPERVITA LTDA. Desde sua fundação muitas tentativas foram feitas, no sentido detrabalhar a terra que possuíam utilizando a mão-de-obra dos membros das próprias famíliasassociadas. De início, muitas fracassaram por falta de experiência, atingia-se bons índices deprodutividade e poucas oportunidades no mercado. A associação começou então a investir, além dos produtos básicos para a subsistênciadas famílias, em pomares e na suinocultura. Apesar da crise econômica e das dificuldades,começaram a obter êxito nessas atividades. Ainda, como forma de agregar valor aos seus
  24. 24. 22produtos, optaram pela industrialização de doces e conservas e pela produção baseada naagroecologia. A COOPERVITA LTDA é uma cooperativa de produção agropecuária, caracterizadapor voltar-se à industrialização do produto lavoureiro ou pecuário. Lauschner (1995, p.36)conceitua a agroindústria como uma “unidade produtiva que transforma o produtoagropecuário natural ou manufaturado para utilização intermediária ou final”.Figura 2: Colheita de morangos por associados, no início das atividades da COOPERVITA LTDA.Fonte: EMATER/RS-ASCAR (2004). Através do Estatuto Social é oficialmente constituída. Para efeito de admissão deassociados, abrange os municípios de Ibiaçá, Santa Cecília do Sul, Charrua, Sananduva, VilaLângaro, Água Santa, Passo Fundo e Coxilha. A Assembléia Geral é o órgão máximo da sociedade cooperativa, podendo deliberartodas as questões relativas a mesma, sendo que suas decisões serão consideradas aprovadassempre que obtiverem no mínimo 2/3 dos votos dos associados presentes. Ainda, é formada por um setor administrativo que compreende: Conselho deAdministração, composto por três diretores associados, para um mandato de dois anos,podendo ser reeleito para o mesmo cargo somente por mais um mandato consecutivo. Éformado por um Presidente, um Tesoureiro e um Secretário, eleitos em Assembléia Geral. A
  25. 25. 23fiscalização dos seus atos é feita através de um Conselho Fiscal, composto por três membrosefetivos e três suplentes, eleitos anualmente em Assembléia Geral. Tem como objetivo, segundo o seu Estatuto, promover o desenvolvimentoeconômico, social e cultural de forma integrada das famílias associadas, elevando o nível derenda, a qualidade de vida e garantindo a permanência dos mesmos no meio rural. Em linhasmais especificas, seus objetivos são: Desenvolver atividades produtivas visando o crescimento econômico, o desenvolvimento sócio cultural e a utilização racional da mão-de-obra disponível; Desenvolver um planejamento estratégico de desenvolvimento que leve em conta a autosustentabilidade das propriedades, o incentivo, a criação de práticas alternativas de produção orgânica e diversificada, a racionalização de maquinários e equipamentos agrícolas, a agroindustrialização e a inserção dos produtos no mercado, bem como o bem estar social de todas as famílias; Realizar operações de comercialização em mercados locais, regionais e outras iniciativas que permitem, individualmente ou em forma de parceria, a eliminação de atravessadores no processo comercial; Estimular e desenvolver a agroindustrialização da matéria prima disponível nas propriedades, visando agregar valor aos produtos e viabilizar o desenvolvimento de alternativas de produção primária com diversificação, escalonamento da renda e da ocupação da força de trabalho; Realizar atividades culturais, recreativas e educacionais que motivem ao trabalho coletivo; Promover cursos, treinamentos, seminários e outros eventos, que permitam elevar os conhecimentos técnicos; Estimular e aprimorar as formas de cooperação entre as famílias, desenvolvendo uma pratica de vivência coletiva de grupo e de fortalecimento de valores humanos da solidariedade, partilha e fraternidade. Ainda, segundo o seu Estatuto Social, é alicerçada nos princípios do cooperativismo,ressaltando outras características como: Organização de atividades produtivas onde os meios de produção são coletivos; Assistência técnica e programas alternativos de desenvolvimento das propriedades individuais; Organização cooperativa de trabalho; Desenvolvimento de atividades educacionais e sociais a todos os associados;
  26. 26. 24 Qualificação profissional para o trabalho dos associados e membros; Seleção rigorosa para a admissão de novos associados. A filiação à cooperativa pode ser efetuada, segundo o seu estatuto, por pessoasfísicas ou jurídicas que residam na área de atuação da mesma e comprovem a possibilidade decontribuir com seus objetivos, sendo que a aprovação é realizada pela Assembléia Geral. Emmuitos casos a família é associada, não os agricultores individualmente, mas o casal e seusfilhos. A efetivação das filiações só ocorrerá aos a aprovação na Assembléia Geral e asubscrição do montante das quotas partes desejadas, respeitando o montante mínimo definidono Estatuto. No início, o seu capital era traduzido pelo trabalho de cada membro, ou seja, cadaagricultor deveria contribuir com 150 horas, que posteriormente foi contabilizada no valor deR$ 150, 00. Isso se justifica porque na época da sua formação a mão-de-obra era o maior bemque possuíam, a forma que encontraram para gerar rendas nas terras. Atualmente, segundo aregulamentação, a cota parte social é representada pelo valor mínimo de R$ 2.680,00. Emtermos de horas trabalhadas, o sócio contribui com 10 horas mensais ou o seu equivalentecaso não possa trabalhar. Nota-se que mesmo que alguns sócios desempenham outras atividades, fazemquestão de manter esse vínculo de trabalho com a cooperativa, participando ainda que por umtempo reduzido. Os mesmos fazem questão de se manter informados sobre o desenvolvimentodas atividades e o cotidiano da cooperativa. Além da atuação dos sócios, a Cooperativa ainda emprega trabalhadorespermanentes, integrando sua mão-de-obra à disposição da Cooperativa; trabalhadorestemporários, que supre essa demanda eventualmente; e os contratados, que apenas prestamalguns serviços. O trabalho realizado é recompensado através das sobras e dos lucros. SegundoDallagasperina e Oliveira (2006), isso é dividido em três formas: Remuneração do trabalho: calculada por hora, levando em consideração a projeção da renda necessária para a manutenção da família e a renda prevista da produção coletiva; Fundos de reservas legais; Distribuição complementar, perante a Assembléia Geral Ordinária. Ao tratar da remuneração do trabalho são respeitados os direitos como a hora extracalculada em cinqüenta por cento do valor básico. Quando se refere ao trabalho temporário, ovalor da hora é determinado pela Assembléia. E, quando o trabalho for permanente, existe um
  27. 27. 25acréscimo de quinze por cento ao valor básico da hora de trabalho. Quando existe anecessidade de contratar mais pessoas, o valo básico da hora vai ser estipulado conforme aespecialidade de trabalho. A cooperativa se preocupa muito com a questão da formação e capacitação. Paraisso, conta com Embrapa, EMATER/RS, Iterra, Universidade de Passo Fundo (UPF) e corpotécnico da Perdigão. Assim, são realizados, cursos e treinamentos visando a formação delíderes. Assim como recebe incentivos, também está sempre à disposição para receber alunos,técnicos e professores na sua sede. É um momento de troca de experiências, no qual é relatadodesde o início das atividades, visitas às instalações e degustação dos produtos.2.3.3 Áreas de atuação O trabalho é dividido em duas unidades básicas: a da produção e daagroindustrialização. A primeira consiste na produção vegetal e animal, com criação de suínose frangos. A produção vegetal é o principal abastecimento da agroindústria, seus pomares ehortas fornecem a matéria prima para a fabricação das conservas, colocadas no mercado coma marca Doce Sabor. Além das atividades voltadas para o interesse da Cooperativa, outras são maisreferentes à subsistência dos próprios associados e suas famílias, que cultivam seus própriospomares, hortas e criam animais para abate. As equipes de trabalho se dividem em: Produção Vegetal, Produção Animal eAgroindustrialização. Deve ser ressaltado que, apesar dessa organização devido a grandenecessidade de mão-de-obra, muitos acabam atuando em vários setores diferentes. Isso ficadependendo da época das colheitas e plantios. A agroindustrialização é considerada como o avanço mais importante na história dacooperativa pelos seus membros. Teve por objetivo o aproveitamento da matéria-primaexistente, geração de mão-de-obra permanente, autosustentabilidade, melhoria do nível devida a todas as famílias. A diversificação da renda e a permanência das famílias no camposempre são fatores mencionados como prioridade.
  28. 28. 26Figura 3: Produção na Agroindústria, mão-de-obra predominantemente feminina.Fonte: EMATER/RS-ASCAR (2004). Atualmente, a COOPERVITA LTDA produz quinze produtos na linha daagroindústria, frutas e olerícolas, resultando em vinte e quatro doces em conservas. Ainda,essa industrialização é feita com produtos de origem agroecológica, se afastando do métodotradicional no que diz respeito ao controle químico. O objetivo é buscar mercadosalternativos, o chamado nicho verde, de pessoas que visam uma qualidade nos alimentos queconsomem. Ainda, os mesmo se preocupam com a qualidade dos alimentos consumidos pelaspessoas, respeitando a natureza e pensando na qualidade de vida. Uma das características da sua atuação é a auto-suficiência na produção de matériaprima. Segundo Dallagasperina e Oliveira (2006), a cooperativa produz cerca de 70% damatéria-prima que utiliza, como é o caso da fábrica de ração instalada em sua sede e dosdiversos pomares que fornecem as frutas e vegetais para a agroindústria. A venda dos produtos é feita na própria sede, através de vendedores em toda a regiãoe em órgãos públicos, como é o caso dos pães que são vendidos à Prefeitura Municipal paraabastecer as creches e escolas.
  29. 29. 273 A CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE Rey (2003) define subjetividade como um processo complexo de construçãosimbólica de sentidos, sobre si e o mundo, simultaneamente um fenômeno da pessoa ousujeito singular e de seu lugar sócio-histórico. O sujeito não é um ser social e individual, pois o social está no individual e o individual no social. Assim, existe um ponto de conexão entre o individual e o social, chamado de epistemologia convergente, é somente nele que se pode falar de individualidade do grupo e sociabilidade do sujeito. (GONÇALVES, 2007, p. 33). É “[...] resultante do entrecruzamento de produções coletivas, sociais, culturais,econômicas, tecnológicas, de mídia; que irão produzir efeitos no marco singular daindividualidade e construir formas de ser sujeito no mundo” (VERONESE, 2007, p. 4). No se puede desarrollar um limite claro entre nuestra propia persona y las de los otros: nuestra propia persona existe y participa como tal em nuestra experiência, pero tanbién solo e la medida em que lãs personas de los otros existen y participan como tales en nuestra experiencia (GARAY, 2001, p. 3). Atualmente vivemos numa sociedade paradoxal. Vemos tantos avanços científicos, arevolução na biotecnologia e da informática, ao passo que muitas pessoas ainda morrem porfalta de alimentos, o trabalho escravo e infantil existem em muitas partes do mundo, altosíndices de violência, e tantas mazelas sociais. Como menciona Damergian (2001, p. 113)“preocupamo-nos com a violência que mata, mutila, rouba. E não com a violência psíquica,social, afetiva que nos rodeia, e anula o presente, roubando qualquer esperança de futuro demilhões de criaturas”. Quanto mais a sociedade foi exposta a um sistema mecanicista, se afastando davalorização da vida e de um sistema de auto-organização, as pessoas tiveram seus valores epráticas padronizados. Capra (2002, p. 136) afirma que “[...] quanto mais compreendemos anatureza da vida e tomamos consciência de o quanto uma organização pode ser realmenteviva, tanto maior é a nossa dor ao perceber a natureza mortífera do nosso atual sistemaeconômico”. Esses caminhos passam pela construção (ou desconstrução) da subjetividade, pelas necessidades inerentes ao processo e pelas dificuldades para se manter a identidade do eu em um cenário em que as interações são marcadas por contrastes violentos, em que se promove o desenraizamento cultural de migrantes e segmentos
  30. 30. 28 expressivos da cultura popular e em que busca eliminar a heterogeneidade e impor heteronomia na vontade (DAMERGIAN, 2001, p. 88). Como questiona Gonçalves (2007), em que condições a subjetividade se constrói equais são os fatores necessários para o desenvolvimento das capacidades humanas? A autorasupracitada afirma que é preciso conhecer o psíquico e o social que atuam na interação entreindivíduo e sociedade, tendo em vista que o ponto de partida para a construção dasubjetividade é a primeira experiência de interação do ser humano (GONÇALVES, 2007). Esse primeiro contato do ser humano, essa interação, é feita entre o bebê e sua mãe.A personalidade do ser humano vai sendo moldada na medida em que ele interage com osestímulos trocados com o meio. Sendo a mãe o ponto fixo, ela é valência positiva que ajuda o bebê, nos primeiros anos de vida a construir seu mundo interno e sua personalidade. A mãe suficientemente boa, a mãe capaz de ser continente para as angústias do bebê, capaz, também, diríamos, de oferecer um ponto fixo, um porto seguro que acolha e estimule o crescimento emocional (GONÇALVES, 2007, p. 35). Vemos a descrição de Pedro1 (2008), ao retratar a formação da família e o papeldesempenhado por sua mãe: “E, então a gente era muito apegado à mãe, porque a mãe ficavalá com nós. Só que também ela também surrava, xingava, ela também cobrava de nós porquea gente fazia as coisas, ajudava ela, né, no que pudesse fazer”. Menciona o fato do pai ter quese ausentar por causa do trabalho, e a mãe protetora cuidava dos filhos, mas também lhesimpunha os limites necessários para o seu crescimento. Ester2 (2008) também fala sobre a presença da mãe, como aquela que dá segurança.“Lembro que cada peça de roupa que eu riscava para cortar, daí eu pedia pra mãe: Mãe, possocortar?”. Se emociona ao relembrar o tempo de menina, no qual a mãe lhe passava a“firmeza” para fazer as coisas e contribuir com a família. Na descrição de Silas3 (2008) reaparece a figura da mãe que ampara, que supre afalta de um pai que tem que sair de casa em busca de sustento para a família. “Eu fui criado sóquase pela minha mãe, né”, relata o mesmo. Desde criança, a mãe lhe atribuíaresponsabilidades, tinha que aprender “um pouco de tudo” para ajudá-la, desde as tarefasdomésticas até as práticas agrícolas.1 Pedro – membro da COOPERVITA LTDA e participante da pesquisa. Atua na área administrativa da mesma.2 Ester – membro da COOPERVITA LTDA e participante da pesquisa. É líder da agroindústria.3 Silas – membro da COOPERVITA e participante da pesquisa. Trabalha na agroindústria.
  31. 31. 29 Nesses casos, a mãe é o ponto fixo. Essa primeira interação é, portanto, fonte detoda subjetividade. A estruturação da personalidade é orientada por modelos, como é o casoda mãe para o bebê. Esta é a chamada valência positiva. Ao continuar relatando sobre sua vida, Ester (2008) demonstra ressentimento quandomenciona que na mesma época na qual ajudava a mãe com as costuras teve um sonhofrustrado, o de continuar os estudos. Ressalta que tinha a admiração e incentivo do pai por seruma ótima aluna, ambos sonhavam com uma futura profissão pra ela. No entanto, por falta detransporte para levar os alunos até a escola na sede do Município, teve que interromper talprojeto de vida. Hoje, momento no qual teria as condições, se encontra impossibilitada porfalta de tempo. Mas afirma que ainda pensa em retornar, quando se aposentar. Retratamos aqui um sonho abortado através um direito negado, o da educação, porfalta de atendimento a uma necessidade pública. Apesar do incentivo da família, a falta decondições a impediu de concretizar esse projeto. Damergian (2001) diz que a sociedadetambém pode ser uma boa mãe ou uma madrasta, no sentido de que oferece modelosidentificatórios (família, escola, instituições de saúde, cultura e mídia, etc). A sociedade pode ser, então [...] uma grande mãe, capaz ou incapaz de maternagem, boa ou má, que acolhe e favorece o desenvolvimento de seus filhos membros ou os desampara. Assim o inconsciente social também influi na estrutura da personalidade. Acreditamos que a mãe sociedade também deve funcionar como um ponto fixo para o desenvolvimento de seus filhos membros ou os desamparar (DAMERGIAN, 2001, p. 96). Por isso, para entendermos a personalidade do sujeito também é necessáriocompreender a sua vida social, o modo como se relaciona com o meio, suas frustrações, seuslaços de amor, sua cultura e de que forma supera suas dificuldades. Gonçalves (2007, p. 36) considera que “as instituições influenciam os conteúdosvivenciais do sujeito num processo de mão dupla: projetamos o psíquico no social einternalizamos o social”. Damergian (2001, p. 95) explica que para que haja “[...] a interação bem sucedida, épreciso que a sociedade também ofereça condições favoráveis, uma vez que a díade mãe-bebêestá inserida em um contexto social que afeta sua relação”. A função da sociedade seria de dar o apoio e o desenvolvimento necessário para queo sujeito desenvolva suas capacidades, seja um ser consciente dos seus direitos e deveres,amoroso, solidário com os demais, enfim, um sujeito capaz e autônomo. Hoje, a sociedade
  32. 32. 30que valoriza o “ter” e não o “ser” faz com que a construção da subjetividade se torne umgrande desafio. Quanto mais automatizadas estão as coisas e os serviços, mais nos afastamos uns dosoutros, e da essência de interação social que nos conecta ao mundo real. Estamos vivendouma era de virtualidade, na qual ao mesmo tempo são criadas falsas necessidades para manterum sistema de mercado e são negligenciadas as necessidades básicas de muitos. O desejo, o plano simbólico, o projeto de vida, os sonhos ficam fora da esfera de alcance de grande parte da população. Como sonhar, se o excluídos, os desamparados, os destituídos tem de lutar contra a dura realidade do cotidiano, do aqui-agora para sobreviver a cada dia? Desejo é expressão de subjetividade, do que se é, do que se tem (como realização), do que se quer ser, do que se quer ter? Porque só alguns podem ter? (DAMERGIAN, 2001, p. 99) Nas palavras de Gonçalves (2007), a sociedade moderna deixa fraturas nasubjetividade, deixando lacunas nas vontades, desejos e humanidade. A “[...] nossa civilizaçãocontinua reduzindo a subjetividade ao cognitivo, à racionalidade, à técnica, ao culto das leisde mercado e desprezando o mundo dos sentimentos” (DAMERGIAN, 2001, p. 104).3.1 Identidade: o Individual e o Social Follman trabalha a identidade na perspectiva de que o “ser humano é um ser deprojeto”. Considera que a identidade do ser humano não faz parte de uma construção estática,mas que está relacionada com a construção de um projeto vinculado à complexidade dasrelações sociais que o envolvem (FOLLMANN, 2001). [...] é o processo resultante de uma construção social, de uma construção pessoal e de uma construção na interação do nível pessoal com o social, sendo assim, ao mesmo tempo, algo proposto socialmente e reivindicado pessoalmente... Ela é, na nossa concepção, uma construção realizada tanto para outrem como para si mesmo, tendo por resultado sempre uma “costura”, de uma parte, entre o que é “herdado” e o que é “almejado” e, de outra parte, entre o que é “atribuído” e o que é “assumido”. Trata-se de uma costura feita com as agulhas do tempo e espaço. (FOLLMANN, 2001, p. 59) Assim, ele vincula a identidade à existência de um cenário político no qual todas asvozes possam ser escutadas, afirmando que a identidade do sujeito se manifesta a partir dosseus valores, o concebendo como “dono de uma voz”. “Para nós a identidade não existe a não
  33. 33. 31ser na forma de manifestação da capacidade autônoma dos indivíduos e grupos na construçãoda sua história” (FOLLMANN, 2001, p. 49). O autor destaca sua posição contrária à heteronomia, para ele deve se buscar umaautonomia como forma de manifestar a capacidade dos indivíduos e grupos na construção dasua própria história. Tal manisfestações relacionam-se com os processos de identidadeexplícitos pelos sujeitos em diferentes contextos, nos ambientes onde vivem (grupos,movimentos, entidades...). Uñiguez (2001), considera que a identidade é acima de tudo um dilema. Acrescentaque é uma construção relativa ao processo sócio histórico, considerando o contexto social enossas trocas com os demais. Assim, é Un dilema entre la singularidad de uno/a mismo/a y la similitud com nuestros congêneres, entre la especificidad de la propia persona y la semejanza com los/as otros, entre lãs peculiaridades de nuestra forma de ser o sentir y la homogeneidad Del comportamiento, entre lo uno y lo múltiple. (UÑIGUEZ, 2001, p. 209) Ainda, aliadas à idéia de identidade estão as noções de “tempo” e “espaço”. SegundoHarvey (1998, p.195), os indivíduos são movidos por seus projetos que requerem tempo emovimento no espaço. Dessa forma, “as biografias individuais podem ser tomadas como“trilhas da vida no tempo e espaço”, começando com rotinas cotidianas de movimento (dacasa para a fábrica, as lojas, a escola, e de volta para casa) e estendendo-se a movimentosmigratórios que alcançam a duração de uma vida [...]”. Bachelard (1964), por sua vez, dirige a nossa atenção para o espaço da imaginação- “o espaço poético”. Um espaço que foi “apropriado pela imaginação não pode permanecer como um espaço indiferente, sujeito às medidas e estimativas do pesquisador”, assim como não pode ser representado de modo exclusivo como o “espaço afetivo” dos psicólogos. “Pensamos que nos conhecemos no tempo, escreve ele, “quando tudo o que conhecemos é uma sequência de fixações nos espaços das estabilidades do ser”. As lembranças são imóveis e quanto mais seguramente fixadas no espaço, tanto mais sólidas são”. Os ecos de Heidegger são fortes aqui. “O espaço contem tempo comprimido. É para isso que serve o espaço. E o espaço fundamental para a memória é a casa- “uma das maiores forças de integração dos pensamentos, lembranças e sonhos da humanidade”. Porque é dentro desse espaço que aprendemos a sonhar e imaginar (HARVEY, 1998, p. 200). É errôneo considerar a identidade apenas como um processo histórico,é também amaneira com que lidamos com os eventos atuais e planejamos o tempo vindouro. “É namaneira com que um indivíduo ou um grupo (uma coletividade) estabelece a relação entre seufuturo e seu passado ou, ainda, entre seus projetos e sua trajetória, que temos, de formaparticular, as indicações principais para desvendar qual é a sua identidade” (FOLLMANN,
  34. 34. 322001, p. 50). Assim, a identidade inclui o passado e o presente, o vivido e o que está por vir, oque já foi conquistado e o almejado. Nas práticas espaciais e temporais de toda a sociedade são abundantes as sutilezas e as complexidades. Como elas estão estreitamente implicadas em processos de reprodução e transformação das relações sociais, é preciso encontrar alguma maneira de descrevê-las e de fazer uma generalização sobre seu uso. A história de mudança social é em parte apreendida pela história das concepções de espaço e de tempo, bem como dos usos ideológicos que podem ser dadas a essas concepções. Além disso, todo projeto de transformação da sociedade deve aprendeer a complexa estrutura da transformação das concepções e práticas espaciais e temporais (HARVEY, 1998, p. 201). Follman afirma que existe uma alienação decorrente da falta de oportunidades paraque as pessoas realizem seus projetos pessoais, passando a viver de acordo com projetos quenão foram construídos por si, sonhados por outros e/ou impostos pelo sistema dominante. “Eu quero nem que seja sair para a estrada, mas eu não vou mais ficar dentro decasa”, fala Ester (2008). Hoje, muito atuante e com uma capacidade de liderançasurpreendente, é responsável pela coordenação da agroindústria da COOPERVITA LTDA.Conta sobre sua superação após uma crise, naquele momento decidiu mudar e não costurarmais. A função que lhe foi atribuída desde criança, para ajudar na renda da família, já não asatisfazia mais. A estrada representava a liberdade, sentia-se sufocada, necessitava de novoshorizontes. Follmann (2001) reporta-se a Tourine (1993), especificamente falando sobre aquestão da identidade e dos movimentos sociais. Para o mencionado autor, esses movimentossão a expressão de uma busca da identidade e de resguardar suas tradições e experiênciascoletivas. “A consciência popular pode ser dominada pela alienação; ela o é quando não seforma um movimento social”, considera o mesmo (FOLLMANN, 2001, p. 47). Seriam assimpontos centrais dos movimentos sociais a identidade e a alienação, no sentido de que aprimeira se opõe a segunda. O objetivo seria vencer a crise de identidade, possibilitando que todos possam serescutados. Follmann (2001, p. 48) diz que “os atores sociais populares são marcados por umafraqueza estrutural bastante acentuada, mas, em certos casos, essa fraqueza se encontramisturada a uma grande força”. A força que o autor faz referência diz respeito aos vários envolvimentos que umapessoa pode ter na sociedade, como é o caso do cenário político, religioso e do próprioengajamento em movimentos populares, que dão maior possibilidade de que a mesma sejaescutada.
  35. 35. 33 Dentre os entrevistados, vemos que todos foram pessoas dispostas a participar dasociedade, da própria comunidade, das atividades da paróquia, dos grupos de jovens,movimentos estudantis e sociais. Isso resultou em uma capacidade de liderança, articulação, ede não acomodação frente às dificuldades. Como afirma Emanuel 4 (2008), “quando acomunidade tava em crise né, com algumas coisa, algum conflito, me colocavam pra... eu eraconsiderado como um conciliador, um cara né, que tinha jogo de cintura pra... pra dar a voltapor cima, né”. Aos setenta e dois anos e uma grande bagagem, acha até graça ao relembrartodos os cargos que ocupou na comunidade: “quando eu não era tesoureiro, era secretário, erapresidente,e era não sei o que, né!” Se orgulha pelas participações em congressos nacionais,época em que era dirigente do Sindicato de Trabalhadores Rurais. Seu filho, Pedro, conseguiu realizar seus estudos graças a rede de relacionamentos dopai. A oportunidade de fazer um curso de nível médio, técnico em cooperativismo, surgiu noano de 1993. Foi então estudar na FUNEP, em Braga/RS. Esta porta se abriu na mesma épocaem que começavam os trabalhos na COOPERVITA LTDA, ele afirma que foi um passomuito importante: “... era aquilo que a gente sonhava!”. Sentindo-se mais capacitado, deutodo o apoio técnico para a formação da cooperativa e até hoje é responsável por toda a parteadministrativa. Dessa forma, essa identidade resulta “[...] da articulação de uma singularidade no seuentorno de pluralidade, ou seja, uma pessoa ou um sujeito tendo vários engajamentosdiferentes e tendo experimentado situações variadas” (FOLLMANN, 2001, p. 52). Muitasvezes, nos projetos coletivos, se encontra espaço para dar vazão aos projetos individuais,como é o caso da cooperativa pesquisada. Follmann (2001) ainda fala sobre um núcleo de identidade, que sintetiza essapluralidade de referências e experiências que o sujeito teve ao longo da sua história. Assim, seos projetos que construímos não levam em consideração o modo de executá-los, como vamoscolocar em prática aquilo que almejamos os mesmos correm o risco de não passarem demeros sonhos. É necessário que, através de elos entre o individual e o coletivo, haja umaestratégia referente aos projetos, abarcando essas duas esferas isoladamente e seusentrecruzamentos. O ser humano é um ser de projetos. A sociedade atual traz consigo uma culturareducionista, fragmentada e individualista. Como podemos colocar em prática nossosprojetos, sendo que precisamos englobar o coletivo, a solidariedade, a interação social?4 Emanuel – membro da COOPERVITA LTDA e participante da entrevista. Atua na área de produção vegetal,entre outras. É um dos fundadores.
  36. 36. 34Follmann considera que corremos sim o risco de perder a referência para o futuro e que essas“costuras, do individual e do social, são necessárias e até urgentes” (FOLLMANN, 2001, p.53).3.2 Atores Sociais e Identidade de Papéis Castells (1999, p. 22) diz que “[...] entende por identidade o processo de construçãode significado com base em um atributo cultural, ou ainda um conjunto de atributos culturaisinter-relacionados o(s) qual (is) prevalece (m) sobre outros significados”. Assim, para ele, existem múltiplas identidades. Estas, no entanto, devem sediferenciar dos papéis, que “[...] são definidos por normas estruturadas pelas instituições eorganizações da sociedade” (CASTELLS, 1999, p. 23). São, por exemplo, os papeis de sermãe, esposa, agricultora, vizinha, participante da comunidade, etc. São considerados por Castells como menos importantes do que identidades, porqueelas envolvem a autoconstrução e a individuação. “Em termos mais genéricos, pode-se dizerque identidades organizam significados, enquanto papeis organizam funções” (CASTELLS,1999, p. 23). A identidade é um processo de construção, que se vale de “[...] matéria–primahistória, geografia, biologia, instituições produtivas e reprodutivas, pela memória coletiva epor fantasias pessoais, pelos aparatos de poder e revelações de cunho religioso” (CASTELLS,1999, p.23). No entanto, tudo isso vai ser processado pelo indivíduo e pelos grupos sociais,reorganizando seus significados a partir das tendências sociais e projetos culturais enraizadosem sua estrutura social, bem como uma sua visão de tempo/espaço. Castells (1999) distingue três formas de construção da identidade, levando emconsideração as relações de poder. Refere-se primeiramente à identidade legitimadora,introduzida pelas instituições dominantes da sociedade para expandir e racionalizar suadominação em relação sociais; é a que dá origem à sociedade civil, como um conjunto deinstituições, organizações e atores sociais. Já a identidade de resistência é aquela gerada por atores que se encontram emposições/condições desvalorizadas e/ou estigmatizadas pela lógica de dominação, construindoassim, trincheiras de resistência e sobrevivência com base em princípios diferentes dos quepermeiam as instituições da sociedade, ou mesmo opostos a estes últimos; dá origem a
  37. 37. 35formas de resistência coletivas, comunas ou comunidades, estando fundamentada por umaopressão sofrida. As cooperativas surgiram num processo de resistência contra o sistema capitalista,foram iniciativas geradas por pessoas que tinham em mente que sozinhas não obteriam êxito.“Organizam-se então em contextos de lutas, de resistências, mas de forma pró-ativa, positiva,não permanecendo numa mera postura de contestação” (SCHNEIDER; HENDGES, 2006, p.45). Muitos planos econômicos fracassados, levaram a agricultura para uma situaçãomuito difícil. Era cada vez mais difícil para os pequenos agricultores se manter no campo, amaioria adquiria muitas dívidas e acabavam migrando para as cidades. Esses são relatos deEmanuel (2008), que também afirmou: [...] o pequeno agricultor então pra não ficar inadimplente nos banco ou no comércio acabava vendendo as terras, né, e indo morar na cidade. E a gente vendo essa situação, começamos, né, pensar uma forma de... tá na hora da gente pensar alguma coisa que se possa dar a volta por cima sem precisar de ir buscar emprego na cidade. Os agricultores encontraram então no cooperativismo uma forma de se manter nocampo, de resistir. A união entre famílias, possibilitaria nesse caso a manutenção dos seusmembros bem como a expectativa de uma vida melhor. Castells (1999) fala ainda sobre as identidades de projeto. Afirma que ocorremquando os atores sociais, utilizando-se de qualquer tipo de material cultural ao seu alcance,constroem uma nova identidade capaz de redefinir sua posição na sociedade e, ao fazê-lo, debuscar a transformação de toda a estrutura social. Cabe também ressaltar a importância do atributo cultural, como fator para aformação da identidade. Morin (2005, p. 35) a descreve, ao abordar a Humanidade daHumanidade, como “[...] o conjunto de hábitos, costumes, práticas, savoir-faire, saberes,normas, interditos, estratégias, crenças, idéias, valores, mitos, que se perpetua de geração emgeração, reproduz-se em cada indivíduo, gera e regenera a complexidade social”. Para Claval (1997, p. 63), “a cultura é a soma dos comportamentos, dos saberes, dastécnicas, dos conhecimentos e dos valores acumulados pelos indivíduos durante as suas vidase, em uma outra escala, pelo conjunto de grupos de que fazem parte”. Assim, a compreendecomo uma herança, sendo transmitida por etapas e tendo como componentes códigos decomunicação próprios.
  38. 38. 36 A herança cultural é algo que chama a atenção na cooperativa em foco. A maioriasão mantenedores da sua tradição, da sua descendência, guardam as características dos seusantepassados, a sua simplicidade, e se orgulham da sua história. Isso se torna evidente da falade Pedro (2008), “[...] a gente já vem de uma família que tem um certo costume, uma certatradição, né. Tem os pais que são de origem italiana, os dois os dois eram aqui dacomunidade”. Afirma que foi nesse meio, de origem simples e de tradições preservadas queeles se criaram. Cada cultura estabeleceu códigos que lhe são próprios, atitudes e gestos. Ela implicaem: o que fazer, como fazer? “No campo e na fazenda, convém saber como e quando laborar,esterroar, semear, tirar a erva, colher, e aprender onde guardar os animais, o que lhes dar paracomer, como os ordenhar e os atrelar” (CLAVAL, 1997, p. 80). A identidade cultural se traduz em gestos e práticas, evidenciados na vida cotidiana.Claval (1997) exemplifica com a vida familiar, certos rituais como o das refeições onde todosestão sentados ao redor de uma mesa. Para ele, a cultura faz passar de uns aos outros asrepresentações coletivas. A leitura que fizemos do mundo é aquilo que aprendemos a ver eessa apreensão do real tem uma dimensão social, que a partir da coletividade pode ajudar oshomens a dar um sentido ao seu meio ou os impedir de ver alguns traços. Leff (2000) fala sobre o meio rural do Terceiro Mundo, a relação intima entre aestrutura social desses povos e os valores e processos de significações que originam a culturae regularizam a forma como se relacionam com o entorno natural. Enfatiza que a organizaçãocultural de cada lugar é que regula o modo como as pessoas utilizam os recursos naturaisdisponíveis. Por isso, é tão importante manter as identidades étnicas, baseadas em valorestradicionais, de manutenção dos ecossistemas, com a visão da complexidade socioambiental. A cultura, entendida como as formas de organização simbólica do gênero humano, remete a um conjunto de valores, formações ideológicas e sistemas de significação, que orientam o desenvolvimento técnico e as praticas produtivas, e que definem os diversos estilos de vida das populações humanas ao processo e assimilação e transformação da natureza (LEFF, 2000. p. 123). Como afirma Morin (2005, p. 35), “a cultura acumula o que é conservado,transmitido, apreendido e comporta vários princípios de aquisição e programas de ação. Oprimeiro capital humano é a cultura. O ser humano, sem ela, seria um primata do mais baixoescalão”. Ester (2008) fala sobre a preocupação com as futuras gerações, com as crianças, osfilhos dos associados. Toda a história das famílias, suas origens humildes, seu trabalho e
  39. 39. 37perseverança é algo que não pode ser esquecido. Caso isso aconteça, não “tocarão” da mesmaforma a cooperativa, isso deve ser passado aos futuros líderes. O saber o quão difícil foi prachegar até ali, pode ser o incentivo para manter os princípios e valores dos mais velhos. Notamos então que o ser humano nunca é um ser acabado, ele é a junção de toda asua existência e do que está por vir, do individual e do social, do meio, da sua cultura. Comoafirma Boff (2002, p. 161), “o ser humano na verdade, nunca termina de construir-se. Cadafim é um novo começo. Vive distendido entre a galinha que permanentemente quer aconcreção e a águia que sempre busca a superação”.3.3 O Lugar e seu Conteúdo Simbólico O ambiente é a vivência concreta do sujeito, no qual ele trabalha, constrói sua casa,faz sua poética, constrói laços, apega-se, sente-se pertencente àquele lugar (GONÇALVES,2007). Segundo a autora, a relação entre a pessoa e o meio no qual ela vive é inevitável, pois éo local onde o sujeito constrói a sua subjetividade. A relação das pessoas com o meio tem uma dimensão simbólica. Para Gonçalves(2007, p. 28), o espaço, entorno e lugar aqui são entendidos como “[...] o meio ambiente quetrata da vida cotidiana do sujeito e do grupo social.” Porque o atravessam permanentemente códigos sociais e culturais, todo espaço é um lugar onde se constroem socialmente significados que condicionam a nossa vida e, ao mesmo tempo, são condicionados por ela; entre eles podemos destacar uma constante: o valor do lugar vivido simultaneamente como ponto de amarragem e matriz relacional (FISCHER, 1994, p. 195). A subjetividade é construída também pelo local onde o sujeito vive, trabalha,interage com as demais pessoas, sente-se como parte daquele meio. O agir do sujeito, sejaindividual ou coletivamente, vai ser orientado por signos, objetos, símbolos, quecontextualizam o meio no qual eles vivem, sua cultura. Pedro (2008) relembra a casa da sua infância, com nostalgia a descreve como “umacasinha de madeira” e “bem simples”. O modo de vida da família grande, constituída pelospais e pelos oito irmãos, é contextualizado pela sua maneira de habitar. Para Gonçalves (2007,p. 44), a casa não representa somente o abrigo, mas também os nossos sonhos. “A casa é o
  40. 40. 38lugar do espaço onde o sujeito se referencia”. A casa aqui, reflete a simplicidade na qualviviam e a união da família. “[...] O simbolismo do espaço aparece ligado ao sentimento de pertença, (termopróprio da psicologia) (ALTMAN, 1975), à apropriação do espaço (KOROSEC-SERFATY,1986; PROSHANSKY, 1976) e à construção da identidade social” (GONÇALVES, 2007, p.28). Fischer (1994, p. 196) afirma que não existe espaço vazio ou neutro, do ponto devista psicológico. “Mas o significado dos lugares resulta também dos valores criados pelasociedade, o que nos leva a sublinhar a importância da carga cultural presente nasorganizações sociais”. A construção social de uma identidade comunitária surge das interações que osmembros de um território local estabelecem com “os de fora”, servindo para definir suacomunidade. Gonçalves (2007, p. 33) afirma que “as relações entre comunidades sãopermeadas de significados socialmente elaborados que configuram identidades sociais a umentorno ”. “Una persona lo es porque pertenece a una comunidad, en la medida que ésta Leproporciona lo que son sus princípios, las actitudes reconocidas de todos los miembros de lacomunidad hacia lo que son los valores de esa comunidad” (GARAY, 2001, p. 3). Dessa forma, quando fala-se de identidade de lugar, Gonçalves (2007, p. 27) aborda-a como “[...] um componente específico do “eu” do sujeito, forjado por meio de umcomplexo processo de idéias conscientes e inconscientes, sentimentos, valores, objetivos,preferências, habilidades e tendências”. Sobre a apropriação do espaço, Gonçalves (2007, p. 28) afirma que tem sido definidapor Korosec-Serfaty “[...] como o sentimento de possuir e gestionar um espaço,independentemente de propriedade legal, por uso habitual ou por identificação.” O espaçoonde se encontram as instalações da COOPERVITA LTDA não é de propriedade dos seusassociados, e sim cedido por comodato por um dos seus membros. João (2008) fala quequando a cooperativa foi fundada, sua família já possuía uma situação mais estável. Dessaforma, preocupados com o êxodo rural, resolveram ajudar às outras famílias. Mesmo nãosendo de propriedade da cooperativa, tal local é gestionado de forma coletiva, zelado portodos, apropriado como sede da COOPERVITA LTDA. Para que haja apropriação é preciso que o sujeito deixe sua marca, de forma quetanto ele quanto o lugar sejam influenciados. Atualmente, a sociedade de consumo nos
  41. 41. 39apresenta uma imagem ou significação pronta. Isso não gera a apropriação, no sentido de quenão instiga a pessoa a fazer parte de alguma forma da significação daquele lugar ou objeto. Os processos psicossociais da apropriação, segundo Pol (s.d.), compreendem os processo cognitivos, afetivos, simbólicos e estéticos que dependem da relação com outros sujeitos, grupos e de situações objetivas ligadas ao modo de viver, de morar. A partir das cores, das formas, dos odores, das sensações e do prazer, o sujeito vão modificando as paisagens concretas do lugar, deixando sua marca, e, ao mesmo tempo, vai transformando sua paisagem interna, ou seja, as paisagens de seu mundo interno (GONÇALVES, 2007, p. 29). O enraizamento é outro fator da identidade, que atribui ao espaço um valor ligado aoindivíduo. O jovem Silas (2008) se criou em um meio rural, envolvido com muitas atividadesna comunidade, com relacionamentos típicos de tal meio, onde as pessoas se conhecem commais facilidade. Enfrentou as dificuldades de uma mudança de ambiente ao iniciar auniversidade. Conta que de repente se viu sem chão, em um lugar diferente, onde nãoconhecia as pessoas e existia uma outra cultura. “Eu saia pra rua, sei lá, me sentia realizado odia que alguém me cumprimentava só na rua, pra mim já tava bom”, afirma o mesmo. Assim são as ligações psicológicas que o sujeito tem a determinado lugar. Fischer(1994, p. 198) fala sobre um porto de atracagem, “[...] o homem não só tem necessidade deum espaço mínimo para aí viver e trabalhar, como precisa também de “estar num sítio”, denele exercer um domínio físico e psicológico através de atividades que indicam a suainfluência pessoal”. Decorrente disso vai ser a identificação comunitária, que ocorre a partir daconstrução do social dos significados e das comunidades. A exclusão social é manifestaatravés de várias formas na sociedade. Para Frantz e Schönardie não se refere apenas àslimitações materiais, sendo um processo de rompimento de identidades e laços sociais depertença. Está enraizada, segundo os autores, na “[...] perda de poder nas relações econômicase políticas, destruição das identidades e laços sociais, a ruptura de estruturas socioculturais e aperda de valores e tradições de referência” (FRANTZ; SCHÖNARDIE, 2006, p. 7). Moscovici (2003) fala que entre os vários conceitos pertinentes à representaçãosocial está o senso comum, uma forma de conhecimento cuja finalidade é atender àsnecessidades do dia-a-dia. Existe “uma necessidade contínua de re-construir o “sensocomum” ou a forma de compreensão que cria o substrato das imagens e sentidos, sem a qualnenhuma coletividade pode operar” (MOSCOVICI, 2003, p. 48). Assim, cada grupo socialtem suas próprias características, sua cultura, seu modo de agir, de interagir, que constituem asua identidade. Esse senso comum pode, na visão do autor, alimentar a diversas ciências. É o
  42. 42. 40caso, por exemplo, da ciência jurídica que baseia-se em suprir as necessidades deregulamentação social, e que não é estática e muda de acordo com as próprias alterações dasociedade. Em meio a tantas teorias, cabe questionar: a sociedade pós-moderna tem formadoque tipo de sujeito, de quem especificamente estamos falando como resultado do modelocapitalista? Levando em consideração tantos antagonismos, a perda de um vínculo criativo dotrabalho, a aculturação, pode-se afirmar que estamos diante de um sujeito não crítico, queaceita padrões estabelecidos por um sistema dominante; sem motivação para o trabalhovisando muitas vezes apenas o capital; competitivo para responder as expectativas da “lei daselva” e para suprir suas necessidades instigadas pela mídia; que prioriza o cognitivo, oracional, e não desenvolve outras capacidades como o afetivo e o simbólico. Neste trabalho enfocamos que a subjetividade não pode ser reduzida às exigências domercado, à racionalidade. O Homem não pode ser considerado como uma máquina,renegando toda sua formação histórica-cultural, suas raízes, seus lugares. Ao resgatar asolidariedade, o cooperativismo pode envolver um vínculo de afetividade, de interaçãohumana em prol de um objetivo comum. É oportuna a noção de sujeito de Damergian (2001, p. 88), que ressalta umaconcepção humanista “[...] subjacente à construção da subjetividade e que seja capaz de nosconduzir a uma sociedade mais solidária, mais amorosa, mais humana”. Quer-se esse sujeitoreflexivo, mas pautado na viabilidade de experiências concretas, mais especificamente umagente de mudanças.
  43. 43. 414 SOCIEDADE, DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE: DA PERFEIÇÃO DACRIAÇÃO AOS DESAFIOS DA CONTEMPORANEIDADE Refletir sobre os conflitos da sociedade se faz urgente, tanto mais sobre a inter-relação entre os aspectos humanos e ambientais que permeiam tais implicações. Areflexividade é umas das características da chamada sociedade de risco. Etimologicamente, desenvolver é tirar a casca da semente. Todo desenvolvimentosignifica des-envolver algo que está envolvido, ou seja, abrir, desfazer, destruir, parareorganizar e reenvolver o que foi des-envolvido em um novo padrão, em uma nova estrutura,com outras propriedades e funções (MELLO, 2006). Mendes (1995, p. 54) define desenvolvimento como a “[...] criação de condiçõestendentes à produção do ser humano em sua integridade”. É dessa forma, um processo e umresultado, um meio e um fim. Como envolvimento defino as articulações do ser humano com o ambiente que o cerca: seu comprometimento e os cometimentos correspondentes. E, ao falar em ambiente, não falo só do natural, que precede, condiciona, e afinal sucede ao homem. Falo também do ambiente que procede do homem, fruto das relações que ele entretece com o entorno e consigo mesmo (MENDES, 1995, p. 55). Segundo critérios econômicos, quanto mais riqueza material a sociedade possui maisela será desenvolvida. No entanto, os conflitos sócioambientais demonstram que esse conceitode desenvolvimento não condiz com o bem-estar social, deixando uma grande lacuna naforma de progresso implantada pela visão capitalista. Como afirma Aristóteles, “a riqueza não é, evidentemente, o bem que procuramos,pois ela é útil apenas para obter outra coisa qualquer” (ARISTÓTELES). É justamente essaconcepção que instiga a propor teorias desenvolvimentistas que levem em consideração acomplexidade humana e ambiental. Existe uma riqueza que não é evidenciada com a mera acumulação de capital, como éo caso das diferentes culturas espalhadas pelo mundo e da biodiversidade que abarca tantostesouros compondo esse todo, a Terra, nossa casa maior. Para entender a problemática sócioambiental é necessário, a princípio, compreenderas origens da relação conflituosa entre o Homem e a natureza, quais são os pensamentosdominantes na sociedade, para posteriormente embasar novas teorias.
  44. 44. 424.1 Criou Deus os Céus e a Terra (Gênesis 1.1) Muito se fala sobre as raízes da nossa oposição à natureza. O ponto de partidabastante mencionado é a narrativa da Criação, fonte bíblica da construção do Universo.Mendes (1995), fala que a discussão sobre a crise planetária e suas raízes não se limita noplano técnico, mas avança nos âmbitos teológico e religioso, apelando às “EscriturasSagradas”. Salatino tem uma visão muito peculiar sobre tal tema e merece ser aqui exposto.Considera o autor que o início da nossa atitude anti-natural é antiga e funda-se na tradiçãojudaico-cristã. Ao basear-se num Deus único, diferentemente das culturas orientais politeístas,perdeu-se o sagrado mítico da natureza. Para ele, “[...] a natureza perde todo o significadoespiritual e retém ainda alguma conexão sagrada apenas como o exemplo do esplendor divinoda criação” (SALATINO, 2001, p. 485). O autor se refere à questão da mitologia, que implicava na presença de deusescorrespondentes aos fenômenos e elementos naturais. Dessa forma, os Homens teriam umrespeito maior devido à associação do natural com o sobrenatural. Trevisol (2003) também fala sobre as fases da história da relação Homem- natureza aprimeira seria a de dependência e temor à mesma. Este foi, segundo o autor, o maior períododa história, englobando desde a visão geocêntrica do universo até a organização socialbaseada na agricultura. Eram as civilizações do chamado mundo pré-moderno, queexploravam a natureza apenas para o seu sustento e dela dependiam diretamente. Havia umadualidade nesta relação, o Homem experimentava tanto os fatores provedores e bondosos danatureza quanto as adversidades e os seus mistérios. A religião gerava no Homem tanto o temor quanto a benignidade da natureza. Delaera explorado com limites, apenas o necessário para a subsistência desses povos que usavam acaça, pesca e agricultura de forma orgânica. Essa visão, consequentemente, levava a umapostura ecológica, pois o Homem se integrava à natureza de tal forma que respeitava seusciclos e interferia o menos possível nela. Ele não era um ser superior, nem melhor, era umparticipante. A argumentação sugerida indica que a transposição do politeísmo para uma culturade um único Deus teria estabelecido, como posiciona-se Mendes (1995, p. 65), uma “[...]relação unilateral de domínio”. O Homem, à semelhança do Deus Pai, teria como subordinadatoda a restante criação, tendo a capacidade de domínio sobre todas as coisas.
  45. 45. 43 Estas considerações, de que o contexto bíblico foi grande influenciador na posturaanti-ecológica da Humanidade, recebe aqui algumas contestações. Adotamos a visão da eco-teologia para embasar que a Bíblia pode ser interpretada também a partir de uma perspectivaecológica. A eco-teologia é considerada recente, tendo surgido nos últimos trinta anos, a partirda preocupação de alguns teólogos com a questão ambiental. Ela demonstra o caráter deurgência de um novo paradigma, conciliando uma obra das mais antigas vista sob um novomodelo, lembrando que Deus está também na natureza. Reportamo-nos ao início, à criação. “E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que eramuito bom.” A passagem bíblica de Gênesis 1:31, descreve o ato da criação, tendo Deuscomo o grande escultor de todo o Universo. O Homem foi criado, segundo as escrituras, comoa última grande obra que faria parte do todo. Para Deus, tudo o que Ele havia criado era muito bom, “[...] esse tudo compreendiaAdão e Eva, e “os peixes do mar”, “as aves do céu”, “os animais que rastejam sobre a terra”,“as ervas que dão semente” e “todas as árvores que dão fruto”, bem como, para arrematar, “océu e seu exército” (de seres)” (MENDES, 1995, p. 61). A Bíblia nos mostra a necessidade de olhar para o cosmos como uma obra divina e que tudo o que Deus fez é bom (Gênesis 1:31). A criação, o universo, a natureza são obras de um Ser maior e não me cabe o direito de propriedade. O livro de Jó faz uma afirmação de extrema valia: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei a ele” (Jó, 1,21). Se olharmos a realidade, não conseguiremos fugir dessa constatação simples: por mais luxuoso que seja o mausoléu, a realidade é comum a todos depois da morte. Viemos ao mundo sem nada e tudo o que fazemos deixamos aqui. Portanto, se compararmos o ventre da mãe ao ventre da terra, viemos e voltamos a ela nas mesma condições (MAZZAROLO, 2008, p. 09). Alguns autores ainda mencionam o seguinte texto, afirmando daí ter decorrido opoder de domínio do Homem: “[...] sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a;dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pelaterra” (GÊNESIS, 1:28). No entanto, a sua seqüência deixa bem claro qual seria o intuito deDeus ao colocar nas mãos do Homem tal poder, transcorre o texto enfatizando que Deusconcedeu todas as coisas para o seu sustento: “E a todos os animais da terra, e a todas as avesdos céus, e a todos os répteis da terra, em que há fôlego de vida, toda erva verde lhes serápara mantimento” (GÊNESIS, 1:30). A poética inserida na descrição do Jardim do Éden mostra o equilíbrio que noprincípio existia entre o Homem e a natureza. Descreve o mesmo com diversos rios, flores,

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