Evágrio Pôntico - Sobre os Oito Vícios CapitaisTradução: Carlos Martins NabetoFonte: VE MultimediosA GulaI. A Gula (1)Capí...
Um espelho sujo não reflete claramente a imagem daquele que se põe diante dele e ointelecto, tonto pela saciez, não acolhe...
lamenta pela carestia e não te agrades com comidas suntuosas; com efeito, se te reforças,encontrareis uma guerra sem trégu...
O olhar para uma mulher é semelhante a um dardo venenoso: fere a alma, nos injeta venenoe, quanto mais perdura, tanto mais...
Um belo rosto de mulher afunda mais que um maremoto; mesmo assim, este último teoferece a possibilidade de nadar, para que...
A avareza é a raiz de todos os males e nutre, como arbustos malignos, as demais paixões,não permitindo que estas se sequem...
O monge rico se regozija nas muitas rendas, enquanto que o que nada tem se regozija comos prêmios que vêm das coisas bem o...
O monge magnânimo é uma fonte tranqüila, uma bebida agradável oferecida a todos,enquanto que a mente do irado se vê contin...
A tristeza é um glutão de coração e se alimenta da mãe que o gerou.Sofre a mãe quando dá à luz um filho; porém, esta, tend...
Aquele que se entristece facilmente e simula uma ausência de paixões é como o doente quefinge não estar enfermo; assim com...
A nuvem pobre de água é afastada pelo vento tal como a mente que não persevera noespírito do aborrecimento.O orvalho da pr...
aborrecido seguramente não se ocupa diligentemente dos deveres para com Deus: primeiro,porque lhe falta efetivamente a for...
A vanglória é um obstáculo submerso: se chocas contra ele, corres o risco de perder acarga.O homem prudente esconde seu te...
Como aquele que cai numa teia de aranha [e aí fica preso], assim cai aquele que se apóianas suas próprias capacidades.A ab...
Capítulo 19Humilde e moderado é aquele que reconhece este parentesco; porém, o Criador (16) feztanto a Ele como o soberbo....
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Evágrio pôntico - sobre os oito vícios capitais

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  • A mente adormecida pelas paixões do corpo, seduzida e conduzida pelas formas sensíveis para fora de si esqueceu-se do que era, e nada mais se lembrando ter sido, julga também não ser nada mais do que aquilo que vê. Ela pode, porém, ser reparada pela doutrina que ensina a conhecer a nossa natureza e a não buscar nas coisas exteriores aquilo que em nós mesmos podemos encontrar.


    Quando nos dispomos a estudar os textos sagrados descobrimos que estamos na presença de algo que o nosso pensamento não consegue alcançar. Muitos passaram pela mesma experiência e nos deixaram obras que podem auxiliar nossa compreensão, dentre eles destacam-se Santo Tomás de Aquino, Santo Agostinho, Evagrio Pontico e Hugo de San Vitor. Empreendendo um estudo metódico e profundo embasado no patrimônio histórico filosófico desenvolvido por eles e outros autores do gênero com certeza poderemos acender um luzeiro que permita um vislumbre da verdade.
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Evágrio pôntico - sobre os oito vícios capitais

  1. 1. Evágrio Pôntico - Sobre os Oito Vícios CapitaisTradução: Carlos Martins NabetoFonte: VE MultimediosA GulaI. A Gula (1)Capítulo 1A origem do fruto é a flor e a origem da vida ativa (2) é a moderação (3); quem domina opróprio estômago, diminui as paixões; pelo contrário, quem é subjugado pela comida,aumenta os prazeres.Assim como Amalec é a origem dos povos, também a gula é a origem das paixões. Assimcomo a lenha é alimento do fogo, a comida é o alimento do estômago. Muita lenhaproporciona uma grande chama e a abundância da comida nutre a concupiscência. A chamase extingue quando há menos lenha e a miséria de comida apaga a concupiscência.Aquele que domina a boca, confunde os forasteiros e desata facilmente as suas mãos. Daboca bem coordenada brota uma fonte de água e a libertação da gula gera a prática dacontemplação.A estaca da tenda, atacando, matou a boca inimiga e a sabedoria da moderação mata apaixão (4).O desejo de comida gera desobediência e uma deleitosa degustação afasta do Paraíso. Ascomidas saborosas saciam a garganta e nutrem o glutão de uma imoderação que nuncacochila.Um ventre indigente prepara para uma oração vigilante; ao contrário, um ventre bem cheioconvida para um longo sono.Uma mente sóbria se alcança com uma dieta bem pobre, enquanto que uma vida cheia dedelicadezas lança a mente no abismo.A oração daquele que jejua é como um pintinho voando mais alto que uma águia, enquantoque a [oração] do glutão está envolta nas trevas. A nuvem esconde os raios do sol e adigestão pesada dos alimentos ofusca a mente.Capítulo 2
  2. 2. Um espelho sujo não reflete claramente a imagem daquele que se põe diante dele e ointelecto, tonto pela saciez, não acolhe o conhecimento de Deus.Uma terra não cultivada gera espinhos e de uma mente corrompida pela gula germinammaus pensamentos.Como na lama não emana boa cheiro, tampouco no glutão é possível sentir o suave perfumeda contemplação.O olho do glutão explora com curiosidade os banquetes, enquanto que o olhar do moderadoobserva os ensinamentos dos sábios.A alma do glutão enumera a lembrança dos mártires, enquanto que a do moderado imita osseus exemplos.O soldado fraco foge ao som da trombeta que preanuncia a batalha; da mesma forma, oglutão foge dos chamados à moderação.O monge guloso, submetido às exigências do seu ventre, faz questão de sua parte cotidiana.O caminhante, que caminha com afinco, alcançará logo a cidade e o monge glutão nãochegará à casa da paz interior (5).O vapor úmido do incenso perfuma o ar, tal como a oração do moderado deleita o olfatodivino.Se te abandonas ao desejo de comida, já nada te bastará para satisfazer o teu prazer; odesejo de comida, com efeito, é como o fogo que sempre envolve e sempre se inflama.Uma medida suficente enche o prato, mas um ventre mal acostumado jamais dirá: "Basta!".A extensão das mãos pôs em fuga a Amalec e uma vida ativa elevada submete as paixõescarnais.Capítulo 3Extermina tudo o que for inspirado pelos vícios e mortifica fortemente a tua carne. Comefeito, uma vez morto o inimigo, este não mais produz medo; assim, um corpo mortificadonão perturbará a alma. Um cadáver não sente a dor produzida pelo fogo; e, menos ainda, omoderado sente o prazer do desejo extinto.Se matardes o Egípcio (6), esconda-o sob a areia e não engordes o corpo por uma paixãovencida; assim como na terra preparada germina o que está escondido, também no corpogordo revive a paixão.A chama que se reduz é reacendida quando a alimentamos com lenha seca e o prazer queestá se atenuando revive com a saciedade da comida; não te compadeças do corpo que se
  3. 3. lamenta pela carestia e não te agrades com comidas suntuosas; com efeito, se te reforças,encontrareis uma guerra sem trégua, que escravizará tua alma e te fará servo da luxúria.O corpo indigente é como um cavalo dócil que jamais derrubará o cavaleiro; [o cavalo],com efeito, dominado pelas rédeas, se submete e obedece a mão daquele que as detém;assim, o corpo, dominado pela fome e vigília, não reage por um pensamento que o cavalga,nem relincha excitado pelo ímpeto das paixões.-----Notas:1. Ao que hoje chamamos gula, Evágrio chamava gastrimargia, literalmente "loucura doventre".2. "Vida ativa" é a tradução mais próxima para praktiké, a disciplina espiritual que,segundo Evágrio, se encontra no princípio do processo de conformação com o Senhor Jesuse que tem por fim purificar as paixões da alma humana. A isto Evágrio dedica o seu"Tratado Prático".3. Enkráteia é um conceito muito mais rico que o termo "moderação", se por este seentende apenas a virtude contrária à gula. Pela raiz krat, que significa "força" ou "poder",esta virtude implica "domínio de si" ou "senhorio de si".4. Trata-se de uma comparação obscura, mas a mensagem é clara.5. O termo usado por Evágrio é Apátheia, que em sua espiritualidade equivale ao estado deplenitude espiritual, alcançado mediante o domínio das paixões e o silenciamento dointerior.6. O "Egípcio" é o nome dado, pelos Padres do Deserto, a um demônio especialmente vorazna tentação.II. A LuxúriaCapítulo 4A moderação gera a regra, enquanto que a gula é a mãe do desenfreio; o óleo alimenta a luzda lamparina e o freqüentar mulheres atiça a chama do prazer.A violência da onda se desencadeia contra o mercador mal ancorado, assim como opensamento da luxúria [se desencadeia] sobre a mente do imoderado. A luxúria virá aliadaà saciez, lhe concederá licença, se juntará aos adversários e combaterá, finalmente, do ladodos inimigos.Permanece invunerável às flechas inimigas aquele que ama a tranqüilidade (7); aocontrário, aquele que se mistura com a multidão recebe golpes continuamente.
  4. 4. O olhar para uma mulher é semelhante a um dardo venenoso: fere a alma, nos injeta venenoe, quanto mais perdura, tanto mais espalha a infecção. Aquele que busca defender-se destasflechas se mantém alheio das multitudinárias reuniões públicas e não divaga com a bocaaberta nos dias de festa; é muito melhor ficar em casa, passando o tempo orando, do quefazer a obra do inimigo, crendo honrar as festas.Evita a intimidade com as mulheres se realmente desejas ser sábio e não lhes dê liberdadepara falar-te, nem confiança. Com efeito, no início têm ou simulam uma certa cautela;porém, a seguir, ousam fazer tudo descaradamente: na primeira aproximação, mantêm olharbaixo, falam docemente, choram comovidas, tratam seriamente, suspiram com amargura,fazem perguntas sobre a castidade e escutam com atenção; na segunda vez, levantam umpouco mais a cabeça; na terceira vez, aproximam-se sem muito pudor; tu sorris e elas sepõem a rir desaforadamente; a seguir, se embelezam e se te mostram com ostentação; seusolhares passam a anunciar o ardor, levantam as sobrancelhas e os olhos, desnudam opescoço e abandonam todo o corpo à fraqueza, pronunciam frases abrandadas pela paixão ete dirigem uma voz fascinante ao ouvido até apoderarem-se por completo da [tua] alma.Ocorre que estas ciladas te encaminham à morte e estas redes entrelaçadas te arrastam àperdição; portanto, não te deixes enganar sequer por aquelas que se servem de discursosdiscretos; nestas, com efeito, se oculta o maligno veneno das serpentes.Capítulo 5Aproxima-te antes do fogo ardente que de uma mulher jovem, sobretudo se também soisjovem; com efeito, quando te aproximas da chama e sentis um bom calor, te levantasrapidamente, enquanto que, quando sois seduzido pelas conversas femininas, dificilmenteconseguireis fugir.A erva cresce quando está cercada pela água; assim, germina a imoderação freqüentando asmulheres.Aquele que enche o ventre e faz profissão de sabedoria se parece com alguém que afirmaser possível frear a força do fogo usando palha. Assim como efetivamente é impossívelapagar a mutável agitação do fogo com a palha, também é impossível limitar na saciedade oímpeto inflamado da imoderação.Uma coluna se apóia sobre uma base e a paixão da luxúria tem sua base na saciez.O navio, presa da tempestade, se apressa em chegar ao porto e a alma do sábio busca asolidão; um foge das ameaçadoras ondas do mar, e a outra, das formas femininas, quetrazem dor e ruína.
  5. 5. Um belo rosto de mulher afunda mais que um maremoto; mesmo assim, este último teoferece a possibilidade de nadar, para que salveis a vida, enquanto que a beleza femininatraz o engano e te persuade a desprezar inclusive a própria vida.A sarça solitária se subtrai intacta à chama e o sábio, que tem consciência que deve manter-se afastado das mulheres, não incinde na imoderação; assim como a lembrança do fogo nãoqueima a mente, também nem sequer a paixão tem êxito se lhe falta a matéria.Capítulo 6Se tens piedade para com o inimigo, esta será sempre tua inimiga; e se facilitas à paixão,esta se te revelará.Ver mulheres excita o imoderado, enquanto empurra o sábio a glorificar a Deus; porém, seno meio das mulheres a paixão é tranqüila, não dês crédito a quem te afirma terdesalcançado a paz interior (8).O cão abana o rabo justamente quando está no meio da multidão, mas quando é espantado,mostra a sua maldade. Apenas quando a recordação da mulher surgir em ti separada dapaixão, então poderás considerar-te próximo dos confins da sabedoria. Ao contrário,quando a imagem dela te levar a vê-la e os seus dardos cercarem a tua alma, então poderásconsiderar-te afastado da virtude.Porém, não deves manter-te assim, nesses pensamentos, nem tua mente deve familiarizar-semuito com as formas femininas, pois a paixão será reincidente, levando perigo junto a si.Efetivamente, assim como uma fundição apropriada purifica a prata, enquanto que, quandoprolongada, a destrói facilmente, assim uma insistente fantasia com mulheres destrói asabedoria adquirida; não tenhas, portanto, familiaridade prolongada com um rostoimaginado, para que não se lhe adiram as chamas do prazer e venham a queimar a auréolaque circunda a tua alma; assim como a faísca próxima da palha desencadeia as chamas,assim a lembrança da mulher, persistindo, acende o desejo.-----Notas:7. Refere-se à paz interior, à tranqüilidade de recolhimento ou solidão, no caso do monge.8. Trata-se, novamente, do termo Apátheia. Ver nota 5.III. A Avareza (9)Capítulo 7
  6. 6. A avareza é a raiz de todos os males e nutre, como arbustos malignos, as demais paixões,não permitindo que estas se sequem, eis que florescidas daquela.Quem deseja exterminar as paixões, que arranque a raiz; se para o bem tu podas os ramos, aavareza, porém, permanece; [esta providência] não te servirá de nada, porque estes [ramos],apesar de terem sido cortados, rapidamente florescem.O monge rico é como um navio extremamente carregado que é atingido pelo ímpeto deuma tempestade; assim como um navio que deixa entrar a água é posto à prova por cadaonda, também o rico se vê submergido pelas preocupações.O monge que não possui nada é, ao contrário, um viajante ágil que encontra refúgio emtodos os lados. É como a águia que voa alto e que desce somente para buscar o seualimento quando necessita; está acima de qualquer prova, ri do presente e se eleva àsalturas, afastando-se das coisas terrenas e juntando-se às celestes; tem, efetivamente, asasligeiras, jamais carregadas pelas preocupações; sobrepassa a opressão e deixa o lugar semdor; a morte chega e ele vai com ânimo sereno; a alma, com efeito, não está amarrada anenhum tipo de atadura.Quem, ao contrário, muito possui, se submete às preocupações e, como o cão, está preso àcorrente e, se é obrigado a ir embora, leva consigo, como um grave peso e inútil aflição, alembrança das suas riquezas, é vencido pela tristeza e, quando pensa nisso, sofre muito emperder as riquezas e se atormenta com o desânimo.E quando lhe chega a morte, abandona miseravelmente suas tendências, entrega a alma,embora o olho não abandone os negócios; de má vontade é arrastado como um escravofugitivo; se separa do corpo, mas não dos seus interesses, porque a paixão o atinge mais doque o arrasta.Capítulo 8O mar jamais se enche, embora receba a grande massa de água dos rios; da mesma maneira,o desejo de riquezas do ávaro jamais se sacia: ele o duplica e, imediatamente, desejaquadruplicá-los e não cessa jamais esta multiplicação, até que a morte venha pôr fim a talinterminável pretensão.O monge sensato terá cuidado das necessidades do corpo e proverá com pão e água oestômago indigente; não adulará os ricos pelo prazer do ventre, nem submeterá sua mentelivre a muitos senhores; com efeito, as mãos são sempre suficientes para satisfazer asnecessidades naturais.O monge que não possui nada é como um lutador que não pode ser golpeado fortemente eum atleta veloz que alcança rapidamente o prêmio do convite celeste.
  7. 7. O monge rico se regozija nas muitas rendas, enquanto que o que nada tem se regozija comos prêmios que vêm das coisas bem obtidas.O monge ávaro trabalha duramente, enquanto que o que nada possui dedica seu tempo paraa oração e a leitura.O monge ávaro enche os buracos de ouro, enquanto que o que nada possui acumulatesouros no céu.Seja maldito aquele que forja o ídolo e o esconde, da mesma forma que aquele que é afeto àavareza; com efeito, o primeiro se prostra diante do falso e inútil, e o outro carrega em si aimagem (10) da riqueza, como um simulacro.-----Notas:9. Philargyria, ou amor ao ouro, ao dinheiro. Evágrio dá especial importância a este vício eapresenta seu demônio como particularmente astuto, pois apresenta ao monge uma série deraciocínios que fazem parecer a acumulação de bens como um ato de sensatez e prudência.10. Para Evágrio, o apaixonado possui no coração a imagem do objeto que o domina.IV. A IraCapítulo 9A ira é uma paixão furiosa que, com freqüência, faz perder o juízo àqueles que têm oconhecimento, embrutece a alma e degrada todo o conjunto humano.Um vento impetuoso não derruba uma torre e a animosidade não arrasta a alma mansa.A água se move pela violência dos ventos e o homem irado se agita pelos pensamentosirracionais. O monge irado vê alguém e range os dentes.A difusão da neblina condensa o ar e o movimento da ira torna nublada a mente do irado.A nuvem que avança ofusca o sol e, assim, o pensamento rancoroso entorpece a mente.O leão na jaula sacode continuamente a porta tal como o violento, em sua cela, quando éacometido pelo pensamento da ira.É deliciosa a vista de um mar tranqüilo, porém, certamente não é mais agradável que oestado de paz; com efeito, os golfinhos nadam no mar calmo e os pensamentos voltadospara Deus emergem um estado de serenidade.
  8. 8. O monge magnânimo é uma fonte tranqüila, uma bebida agradável oferecida a todos,enquanto que a mente do irado se vê continuamente agitada e não dará água a quem temsede e, se a der, será esta turva e nociva; os olhos do irado estão arregalados e cheios desangue, anunciando um coração em conflito. O rosto do magnânino mostra tranqüilidade eos olhos benignos estão voltados para baixo.Capítulo 10A mansidão do homem é lembrada por Deus e a alma pacífica se converte no templo doEspírito Santo.Cristo recosta sua cabeça nos espíritos mansos e apenas a mente pacífica se converte emmorada da Santa Trindade.As raposas montam guarda na alma rancorosa e as feras se agasalham no coração rebelde.O homem honesto se afasta das casas de mal conduta e Deus [se afasta] de um coraçãorancoroso.Uma pedra que cai na água a agita, tal como um discurso maligno no coração do homem.Afasta da tua alma os pensamentos de ira, não permita a animosidade no recinto do teucoração e não te perturbes no momento da oração; efetivamente, como a fumaça da palhaofusca a visão, assim a mente se vê perturbada pelo rancor durante a oração.Os pensamentos do irado são descendentes das víboras e devoram o coração que lhesgerou. Sua oração é um incenso abominável e seus salmos emitem um som desagradável.A oferta do rancoroso é como um doce cheio de formigas que certamente não encontrarálugar nos altares aspergidos pela água benta.O irado terá sonhos perturbadores e se imaginará assaltado pelas feras. O homemmagnânimo, que não guarda rancor, se exercita com discursos espirituais e, durante a noite,recebe a solução dos mistérios.V. A TristezaCapítulo 11O monge atingido pela tristeza não conhece o prazer espiritual; a tristeza abate a alma e seforma a partir dos pensamentos da ira.O desejo de vingança, com efeito, é próprio da ira; o fracasso da vingança gera a tristeza; atristeza é a boca do leão e facilmente devora aquele que se entristece.
  9. 9. A tristeza é um glutão de coração e se alimenta da mãe que o gerou.Sofre a mãe quando dá à luz um filho; porém, esta, tendo dado à luz, se vê livre da dor. Atristeza, ao contrário, enquanto é gerada, provoca fortes dores e, sobrevivendo, após oesforço, não traz sofrimentos menores.O monge triste não conhece a alegria espiritual, como aquele que acometido por forte febrenão reconhece o sabor do mel.O monge triste não saberá como manter a mente na contemplação, nem brota nele umaoração pura: a tristeza impede todo o bem.Ter os pés amarrados impede a corrida; assim é a tristeza: um obstáculo para acontemplação.O prisioneiro dos bárbaros está preso com correntes; a tristeza amarra aquele que éprisioneiro (11) das paixões.Na ausência de outras paixões, a tristeza não tem força, assim como não tem força umacorda se lhe faltar quem amarre.Aquele que está atado pela tristeza é vencido pelas paixões e, como prova de sua derrota,vem acrescentada a atadura.Efetivamente, a tristeza deriva da falta de êxito do desejo carnal, porque o desejo é co-natural a todas as paixões. Quem vence o desejo, vence as paixões; e o vencedor daspaixões não será submetido pela tristeza.O moderado não se entristece pela falta de alimentos, nem o sábio quando é atacado por umlapso de memória, nem o manso que renuncia a vingança, nem o humilde que se vê privadoda honra dos homens, nem o generoso que sofre uma perda financeira; com efeito, elesevitam, com força, o desejo destas coisas, como efetivamente aquele que corajosamenterejeita os golpes. Assim, o homem carente de paixões não é ferido pela tristeza.Capítulo 12O escudo é a segurança do soldado e os muros são a [proteção] da cidade; mais seguro queambos é, para o monge, a paz interior (12).De fato, freqüentemente uma flecha lançada por um braço forte traspassa o escudo e amultidão de inimigos abate os muros, enquanto que a tristeza não pode prevalecer sobre apaz interior.Aquele que domina as paixões se tornará senhor sobre a tristeza, enquanto que quem foivencido pelo prazer não se desatará das suas ataduras.
  10. 10. Aquele que se entristece facilmente e simula uma ausência de paixões é como o doente quefinge não estar enfermo; assim como a enfermidade se revela pela vermelhidão, a presençade uma paixão se demonstra pela tristeza.Aquele que ama o mundo se verá muito afligido, enquanto que aqueles que desprezam oque há nele serão felizes para sempre.O ávaro, ao receber algo ruim, se verá extremamente entristecido, enquanto que aquele quedespreza as riquezas estará sempre livre da tristeza.Quem busca a glória, ao chegar a desonra, se verá em dores, enquanto que o humilde aacolherá como que a um companheiro.O forno purifica a prata impura e a tristeza perante Deus livra o coração do erro; a fusãocontínua empobrece o chumbo e a tristeza em razão das coisas do mundo diminui ointelecto.A névoa diminui o poder dos olhos e a tristeza embrutece a mente dedicada àcontemplação; a luz do sol não chega aos abismos marinhos e a visão da luz não ilumina ocoração entristecido; doce é para todos os homens o nascer do sol, porém também istodesagrada a alma entristecida; a coceira elimina o sentido do gosto tal como a tristezasubtrai da alma a capacidade de percepção. Porém, aquele que despreza os prazeres domundo não se verá perturbado pelos maus pensamentos da tristeza.-----Notas:11. Evágrio utiliza o termo Aikhmálotos, que significa "prisioneiro de guerra", porém, aomesmo tempo, faz referência à aikhmálosia que, em sua teoria espiritual, é o estágio finalde escravidão da alma aos demônios, que chega como conseqüência de deixar-se vencersistematicamente por eles.12. Outra vez, a Apátheia.VI. O AborrecimentoCapítulo 13O aborrecimento é a debilidade da alma que irrompe quando não se vive segundo anatureza, nem se enfrenta nobremente a tentação. Com efeito, a tentação é para uma almanobre o que o alimento é para um corpo vigoroso.O vento do norte nutre os brotos e as tentações consolidam a firmeza da alma.
  11. 11. A nuvem pobre de água é afastada pelo vento tal como a mente que não persevera noespírito do aborrecimento.O orvalho da primavera aumenta o fruto do campo e a palavra espiritual exalta a firmeza daalma.O fluxo do aborrecimento expulsa o monge de sua morada, enquanto que aquele que éperseverante está sempre tranqüilo.O aborrecido aduz como pretexto a visita aos doentes (13), coisa que garante seu próprioobjetivo.O monge aborrecido é rápido em terminar suas tarefas e considera um preceito sua própriasatisfação; a planta doente é dobrada por uma brisa leve e imaginar uma saída[justificadora] distrai o aborrecido.Uma árvore bem plantada não é sacudida pela violência dos ventos e o aborrecimento nãosubmete a alma bem sustentada.O monge que anda em círculos, como uma solitária fibra seca, está pouco tranqüilo e, semquerer, é interrompido aqui e acolá a todo tempo.Uma árvore transplantada não frutifica e o monge vagabundo não produz fruto de virtude.O doente não se satisfaz com um só tipo de alimento e o monge aborrecido não se satisfazcom uma só ocupação.Não basta uma só mulher para satisfazer ao voluptuoso e não basta uma só cela para oaborrecido.Capítulo 14O olho do aborrecido se fixa continuamente nas janelas e sua mente imagina que chegamvisitas; a porta gira e ele sai, escuta uma voz e olha pela a janela e dali não se afasta atéque, sentado, se canse.Quando lê, o aborrecido boceja muito, se deixa levar facilmente pelo sono, pesam-lhe osolhos, deita-se e, tirando o olhar do livro, o fixa na parede e, voltando a ler mais um pouco,fatiga-se inutilmente ao final de cada palavra; passa, então, a contar as páginas, calcular osparágrafos, desprezar as letras e belezas de estilo; finalmente, fechando o livro, o põedebaixo da cabeça e cai em sono não muito profundo. Pouco depois, a fome desperta naalma e, com ela, todas as suas preocupações.O monge aborrecido é frouxo para a oração e certamente jamais pronunciará as palavras daoração; como efetivamente o doente jamais carrega peso excessivo, assim também o
  12. 12. aborrecido seguramente não se ocupa diligentemente dos deveres para com Deus: primeiro,porque lhe falta efetivamente a força física; segundo, porque estranha o vigor da alma.A paciência, o fazer tudo com muita constância e o temor de Deus curam o aborrecimento.Dispõe para ti mesmo uma justa medida em cada atividade e não desistas antes de tê-laconcluído; reza prudentemente e com força, e o espírito de aborrecimento se afastará de ti.-----Nota:13. Na tradição dos monges do deserto, o abandonar a cela era uma das principais tentaçõesdo aborrecimento. Visitar doentes era, portanto, a maneira de encobrir sob o manto dacaridade o desejo de sair da solidão.VII. A Vanglória (14)Capítulo 15A vanglória é uma paixão irracional que facilmente se enraíza em todas as obras virtuosas.Um desenho traçado na água desaparece tal como a fadiga da virtude na alma vangloriosa.A mão escondida no bolso apresenta-se inocente e a ação que permanece ocultaresplandece com uma luz mais brilhante.A hera adere à árvore e, quando chega ao ponto mais alto, seca-lhe a raiz; assim, avanglória se origina nas virtudes e não se afasta enquanto não lhes tiver consumido asforças.O cacho de uvas caído sobre a terra murcha facilmente e a virtude, se apoiada na vanglória,perece.O monge vanglorioso é um trabalhador sem salário: esforça-se no trabalho, porém, nãorecebe qualquer pagamento; o bolso furado não guarda com segurança o que nele écolocado e a vanglória destrói a recompensa das virtudes.A moderação do vanglorioso é como a fumaça na estrada: ambas desaparecem no ar.O vento apaga a pegada do homem tal como a esmola do vanglorioso. A pedra lançada aoar não atinge o céu e a oração de quem deseja comprazer aos homens não chega a Deus.Capítulo 16
  13. 13. A vanglória é um obstáculo submerso: se chocas contra ele, corres o risco de perder acarga.O homem prudente esconde seu tesouro tanto como o monge sábio [esconde] as fadigas dasua virtude.A vanglória aconselha rezar nas praças, enquanto que quem a combate reza em sua pequenahabitação.O homem pouco prudente torna evidente a sua riqueza e faz com que muitos a queiramtomar para si. Tu, ao contrário, esconde as tuas coisas: durante o caminho, encontrarásassaltantes, mas, ao chegardes à cidade da paz, poderás usar dos teus bens tranqüilamente.A virtude do vanglorioso é um sacrifício extenuante, que não é oferecido no altar de Deus.O aborrecimento consome o vigor da alma, enquanto que a vanglória fortalece a mentedaquele que se esquece de Deus, torna robusto o fraco e torna o velho mais forte que ojovem, mas somente enquanto sejam muitas as testemunhas que os assistem. Então serãoinúteis o jejum, a vigília, ou a oração, porque é apenas a aprovação pública que excita o seuzêlo.Não mostres tuas fadigas para colher a fama, nem renuncies a glória futura para seresaclamado. Com efeito, a glória humana habita na terra e na terra extingue-se a tua fama,enquanto que a glória das virtudes permanecem para sempre.-----Nota:14. O termo Kenodoxía deriva de kenós "vazio, vão" e dóxa, "opinião": uma imagem de sique se projeta aos demais com base em valores inexistentes ou insignificantes por suatrivialidade.VIII. A Soberba (15)Capítulo 17A soberba é um tumor da alma, cheio de pus. Se maduro, explodirá, emanando terrívelfedor.O resplandor do relâmpago anuncia o estrondo do trovão e a presença da vanglória anunciaa soberba.A alma do soberbo alcança grandes altitudes e, daí, cai no abismo.Sofre de soberba o apóstata de Deus, quando atribui às suas próprias capacidades as coisasbem sucedidas.
  14. 14. Como aquele que cai numa teia de aranha [e aí fica preso], assim cai aquele que se apóianas suas próprias capacidades.A abundância de frutos dobra os ramos da árvore; a abundância de virtudes humilha amente do homem.O fruto caído na terra é inútil para o lavrador e a virtude do soberbo não é aceita por Deus.A cana sustenta o ramo carregado de frutos e o temor de Deus [sustenta] a alma virtuosa.Como o peso dos frutos quebra o ramo, também a soberba abate a alma virtuosa.Não entregues tua alma à soberba e não terás fantasias terríveis. A alma do soberbo éabandonada por Deus e se converte em objeto de maligna alegria dos demônios. À noite,imagina manadas de bestas que o assaltam e, durante o dia, vê-se alterado por pensamentosvis. Quando dorme, facilmente se sobressalta e, quando vela, se assusta com a sombra deum pássaro. O sussurar das copas das árvores aterroriza o soberbo e o som da água destroçaa sua alma. Aquele que efetivamente tem se oposto a Deus, rejeitando sua ajuda, vê-sedepois assustado por vulgares fantasmas.Capítulo 18A soberba precipitou o arcanjo do céu (=Lúcifer) e, como um raio, o fez espatifar-se [juntocom outros] sobre a terra.A humildade, ao contrário, conduz o homem para o céu e o prepara para fazer parte do côrodos anjos."De que te orgulhas, ó homem, quando por natureza sois barro e pó e por que te elevassobre as nuvens?Contempla tua natureza, porque sois terra e cinza, e em breve voltarás ao pó, agora soberboe, dentro de pouco, verme.Para que elevas a cabeça que daqui a pouco cairá por terra?"Grande é o homem socorrido por Deus; uma vez abandonado, reconheceu a debilidade danatureza. Não possuís nada que não tenhas recebido de Deus; não desprezes, portanto, oCriador.Deus te socorre; não rejeites ao Benfeitor. Chegaste ao topo da tua condição, porém, Ele tetem guiado; tens agido retamente, segundo a virtude, e Ele te tem conduzido. Glorifica aquem te elevou, para permanecerdes seguro nas alturas; reconhece Aquele que tem amesma origem que a tua, porque a substância é a mesma e não rejeites, por jactância, esteparentesco.
  15. 15. Capítulo 19Humilde e moderado é aquele que reconhece este parentesco; porém, o Criador (16) feztanto a Ele como o soberbo.Não desprezes o humilde: efetivamente ele está mais seguro que tu, caminha sobre a terra enão se precipita; porém, aquele que se eleva mais para o alto, quando cai se espatifa.O monge soberbo é como uma árvore sem raízes e não suporta o ímpeto do vento.Uma mente sem jactância é como uma cidade bem fortificada e quem a habita seráincapturável.Um sopro arrasta a pena e o insulto leva o soberbo à loucura.Uma bolha [de sabão] levada pelo vento desaparece e a memória do soberbo perece.A palavra do humilde adoça a alma, enquanto que a do soberbo está cheia de jactância.Deus acolhe a oração do humilde; ao contrário, se exaspera com a súplica do soberbo.A humildade é a coroa da casa e mantém seguro quem ali entra.Quando te elevares ao topo da virtude, precisarás de muita segurança. Aquele queefetivamente cai, rapidamente se recupera; porém, aquele que se atira de grandes alturas,corre risco de morte.A pedra preciosa brilha no bracelete de ouro e a humildade humana resplandece nas muitasvirtudes.-----Notas:15. O termo Hyperephanía provém do superlativo hypér e phaíno, "o que aparece": aqueleque aparece como mais do que é, arrogância, orgulho.16. Evágrio emprega o termo Demioyrgós que, na tradução grega, equivale ao trabalhadormanual ou a divindade que criava o mundo a partir de uma matéria pré-existente. Pareceque aqui é usado no sentido de "Deus Criador", embora esta acepção não seja totalmenteclara.

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