Your SlideShare is downloading. ×
0
Toma lá poesia   2009-2010 - 5 sentidos
Toma lá poesia   2009-2010 - 5 sentidos
Toma lá poesia   2009-2010 - 5 sentidos
Toma lá poesia   2009-2010 - 5 sentidos
Toma lá poesia   2009-2010 - 5 sentidos
Toma lá poesia   2009-2010 - 5 sentidos
Toma lá poesia   2009-2010 - 5 sentidos
Toma lá poesia   2009-2010 - 5 sentidos
Toma lá poesia   2009-2010 - 5 sentidos
Toma lá poesia   2009-2010 - 5 sentidos
Toma lá poesia   2009-2010 - 5 sentidos
Toma lá poesia   2009-2010 - 5 sentidos
Toma lá poesia   2009-2010 - 5 sentidos
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Thanks for flagging this SlideShare!

Oops! An error has occurred.

×
Saving this for later? Get the SlideShare app to save on your phone or tablet. Read anywhere, anytime – even offline.
Text the download link to your phone
Standard text messaging rates apply

Toma lá poesia 2009-2010 - 5 sentidos

2,602

Published on

Published in: Education
1 Comment
1 Like
Statistics
Notes
  • Watching your slideshow was such a pleasant experience. Beautiful photos and music. Congratulations and thanks for sharing.
       Reply 
    Are you sure you want to  Yes  No
    Your message goes here
No Downloads
Views
Total Views
2,602
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
1
Actions
Shares
0
Downloads
15
Comments
1
Likes
1
Embeds 0
No embeds

Report content
Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
No notes for slide

Transcript

  • 1. 2009-2010 Teus Olhos  Teus olhos são a pátria do relâmpago e da lágrima, silêncio que fala, tempestades sem vento, mar sem ondas, pássaros presos, douradas feras adormecidas, topázios ímpios como a verdade, Outono numa clareira de bosque onde a luz canta no ombro duma árvore e são pássaros todas as folhas, praia que a manhã encontra constelada de olhos, cesta de frutos de fogo, mentira que alimenta, espelhos deste mundo, portas do além, pulsação tranquila do mar ao meio-dia, universo que estremece, paisagem solitária. Octavio Paz, in Liberdade sob Palavra Fernando Pessoa Tradução de Luis Pignatelli Olhos  Olhos: brilhantes da chuva que caiu quando Deus me mandou beber. George Underwood, Left Eye Olhos: ouro, que a noite me contou nas mãos, quando colhi urtigas e fiz arrepender as sombras dos Provérbios. Olhos: noite, que sobre mim resplandeceu, quando escancarei o portão e atravessado pelo gelo invernoso das minhas fontes Rafal Olbinski saltei pelos lugares da eternidade. Paul Celan, in Papoila e Memória 2009-2010 Tradução de João Barrento e Y. K. Centeno
  • 2. 2009-2010 Imagens que Passais pela Retina De Quem é o Olhar De quem é o olhar Imagens que passais pela retina Que espreita por meus olhos? Dos meus olhos, porque não vos fixais? Quando penso que vejo, Que passais como a água cristalina Quem continua vendo Por uma fonte para nunca mais!... Enquanto estou pensando? Ou para o lago escuro onde termina Por que caminhos seguem, Vosso curso, silente de juncais, Não os meus tristes passos, E o vago medo angustioso domina, Mas a realidade — Porque ides sem mim, não me levais? De eu ter passos comigo? Sem vós o que são os meus olhos abertos? — O espelho inútil, meus olhos pagãos! Às vezes, na penumbra Aridez de sucessivos desertos... René Magritte (1898-1967), Do meu quarto, quando eu Fica sequer, sombra das minhas mãos, O Espelho Falso, 1928 Por mim próprio mesmo Flexão casual de meus dedos incertos, Em alma mal existo, — Estranha sombra em movimentos vãos. Toma um outro sentido Camilo Pessanha, in Clepsidra Em mim o Universo — É uma nódoa esbatida Olhar e Chorar De eu ser consciente sobre Not ável criatura são os olhos! Admirável instrumento da Minha ideia das coisas. natureza; prodigioso artifício da Providência! Eles são a primeira Rafal Olbinski origem da culpa; eles a primeira fonte da Graça. São os olhos duas Se acenderem as velas víboras, metidas em duas covas, e que a tentação pôs o veneno, e E não houver apenas a contrição a triaga. São duas setas com que o Demónio se arma A vaga luz de fora — para nos ferir e perder; e são dois escudos com que Deus depois Não sei que candeeiro de feridos nos repara para nos salvar. Todos os sentidos do homem Aceso onde na rua — têm um só ofício; só os olhos têm dois. O Ouvido ouve, o Gosto gosta, o Olfacto Terei foscos desejos cheira, o Tacto apalpa, só os olhos têm dois ofícios: Ver e Chorar. Estes serão os De nunca haver mais nada dois pólos do nosso discurso. No Universo e na Vida Ninguém haverá (se tem entendimento) que não deseje saber por que ajuntou De que o obscuro momento a Natureza no mesmo instrumento as lágrimas e a vista; e por que uniu a mesma Que é minha vida agora! potência o ofício de chorar, e o de ver? O ver é a acção mais alegre; o chorar a mais triste. Sem ver, como dizia Tobias, não há gosto, porque o sabor de todos Um momento afluente os gostos é o ver; pelo contrário, o chorar é o estilado da dor, o sangue da alma, Dum rio sempre a ir a tinta do coração, o fel da vida, o líquido do sentimento. Por que ajuntou logo Esquecer-se de ser, a natureza nos mesmos olhos dois efeitos tão contrários, ver e chorar? A razão Espaço misterioso e a experiência é esta. Ajuntou a Natureza a vista e as lágrimas, porque as Entre espaços desertos lágrimas são consequência da vista; ajuntou a Providência o chorar com o ver, Cujo sentido é nulo porque o ver é a causa do chorar. Sabeis porque choram os olhos? Porque vêem. E sem ser nada a nada. 2009-2010 Padre António Vieira, in Sermões E assim a hora passa Metafisicamente. Rafal Olbinski Fernando Pessoa, in Cancioneiro
  • 3. Fuga 2009-2010 O músico procura Fixar em cada verso O cântico disperso Na luz, na água e no vento. Porém, luz, vento e água Variam riso e mágoa, De momento a momento. E em vão a área dos dedos Se eleva! Não traduz Os súbitos segredos Escondidos no vento, Nas águas e na luz... Pedro Homem de Mello, in Segredo Rafal Olbinski Pobre Velha Música! Pobre velha música! Não sei por que agrado, Enche-se de lágrimas Fernando Pessoa Meu olhar parado. Recordo outro ouvir-te, Não sei se te ouvi Nessa minha infância Que me lembra em ti. Com que ânsia tão raiva Quero aquele outrora! E eu era feliz? Não sei: Rafal Olbinski Fui-o outrora agora. Fernando Pessoa, in Cancioneiro 2009-2010 Rafal Olbinski
  • 4. 2009-2010 Uma Gargalhada de Raparigas DIÁLOGOS E ANALECTOS Uma gargalhada de raparigas soa do ar da estrada. Riu do que disse quem não vejo. Lembro-me já que ouvi. Antelóquio Mas se me falarem agora de uma gargalhada de rapariga da estrada, Direi: não, os montes, as terras ao sol, o Sol, a casa aqui, Aprendiz – Como posso ouvir-te? Como posso entender-te? E eu que só oiço o ruído calado do sangue que há na minha vida dos dois Como soa a tua voz quando me falas? lados da cabeça. Jacek Yerka Alberto Caeiro (heterónimo de Fernando Pessoa), in Poemas Inconjuntos Silêncio – Soa tal como a tua quando me pronuncias. E, se me pronuncias, como podes tu não me escutar? Não há música ou palavra que não me contenha; O Suporte da Música Desenho contornos, preencho vazios Dou tempo ao tempo para que o sentido flua. o suporte da música pode ser a relação entre um homem e uma mulher, a pauta Aprendiz – Talvez seja por isso que o mundo me parece cheio de música dos seus gestos tocando-se, ou dos seus Sobretudo quando o encontro dentro de um livro olhares encontrando-se, ou das suas Ou penso estar a criá-lo quando escrevo. Talvez seja por isso que as palavras parecem brotar vogais adivinhando-se abertas e recíprocas, De todas as coisas que existem ou penso. ou dos seus obscuros sinais de entendimento, Ora cantam, ora voam, ora se calam… crescendo como trepadeiras entre eles. E, no entanto, continuo sempre a ouvi-las… o suporte da música pode ser uma apetência Será apenas a ti que ouço? dos seus ouvidos e do olfacto, de tudo o que se Palavra – O que farás agora comigo? ramifica entre os timbres, os perfumes, Não te menosprezes. mas é também um ritmo interior, uma parcela O que seria o mundo sem os aprendizes? do cosmos, e eles sabem-no, perpassando Rafal Olbinski Escuta todos os silêncios. É na minúscula centelha do teu ser que eu sou eterna. por uns frágeis momentos, concentrado O que serias tu sem a minha eternidade num ponto minúsculo, intensamente luminoso, Para interrogar e criar permanentemente? que a música, desvendando-se, desdobra, entre conhecimento e cúmplice harmonia. Silêncio – Por que insistes em chamar-me silêncio, Se não paras de me escutar, de me falar, de me dizer. Vasco Graça Moura, in Antologia dos Sessenta Anos Bem sabes que não sou mais do que as palavras que nascem de ti. Suy, Diálogos e Analectos 2009-2010 «A música é o barulho que pensa.» Victor Hugo
  • 5. Os Cinco Sentidos 2009-2010 Os nossos sentidos Já tos vou distinguir Com palavras excelentes, - Escuta, amor, se queres ouvir. O primeiro era ver Tua boquinha a falar. Que linda cara para beijos, Se os quisesses aceitar. Segundo era ouvir, Gosto de ouvir novas tuas, Trago-te no pensamento Muito mais do que tu cuidas. Terceiro era cheirar, Tu cheiras mesmo a rosa Oh que lindos olhos tens! Oh que cara tão formosa! O quarto era gostar, Que gostos posso eu ter, Ausente do teu amor Mais me valia morrer. Charles West Cope, 1811-1890, The Thorn, 1866 O quinto apertar As tuas mãos com as minhas. AFORISMOS Havemos de ir à igreja «A rosa tem espinhos que o olfacto ignora.» Trocar nossas palavrinhas. Rui de Morais, in Do Riso das Insónias, 2007 (poema tradicional da Beira Baixa, «O instinto é o olfacto da mente.» Rochas de Baixo), Jaime Lopes Dias, D. Gay de Girardin Etnografia da Beira, 2ª edição, vol. V, Lisboa, 1966. «A memória é o perfume da alma.» George Sand Robert Mapplethorpe «Aquilo a que a terminologia «De todos os sentidos, a vista é o mais romântica chama génio ou superficial, o ouvido o mais orgulhoso, o olfacto inspiração não é mais do que o mais voluptuoso, o gosto o mais supersticioso 2009-2010 encontrar empiricamente o e inconstante, o tacto o mais profundo.» caminho, seguir o próprio olfacto, Denis Diderot tomar atalhos.» Italo Calvino
  • 6. 2009-2010 As Rosas Amo dos Jardins de Adónis Quando Olho para Mim não Me Percebo Quando olho para mim não me percebo. As Rosas amo dos jardins de Adónis, Tenho tanto a mania de sentir Essas volucres amo, Lídia, rosas, Que me extravio às vezes ao sair Que em o dia em que nascem, Das próprias sensações que eu recebo. Em esse dia morrem. A luz para elas é eterna, porque O ar que respiro, este licor que bebo, Nascem nascido já o sol, e acabam Pertencem ao meu modo de existir, Antes que Apolo deixe E eu nunca sei como hei de concluir O seu curso visível. As sensações que a meu pesar concebo. Assim façamos nossa vida um dia, Inscientes, Lídia, voluntariamente Nem nunca, propriamente reparei, Que há noite antes e após Se na verdade sinto o que sinto. Eu O pouco que duramos. Walter Pfisterer, Serei tal qual pareço em mim? Serei Ricardo Reis (heterónimo de Fernando Pessoa), in Odes Physalis Tal qual me julgo verdadeiramente? Antes o Voo da Ave Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu, Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto, Nem sei bem se sou eu quem em mim sente. Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão. Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa), in Poemas A ave passa e esquece, e assim deve ser. O animal, onde já não está e por isso de nada serve, Mostra que já esteve, o que não serve para nada. Ditosa Ave A recordação é uma traição à Natureza, Quem fosse acompanhando juntamente Porque a Natureza de ontem não é Natureza. Por esses verdes campos a avezinha, O que foi não é nada, e lembrar é não ver. Que despois de perder um bem que tinha, Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!in O Guardador de Rebanhos - Poema XLIII Alberto Caeiro (heterónimo de Fernando Pessoa), Não sabe mais que cousa é ser contente! E quem fosse apartando-se da gente, Passa uma Borboleta por Diante de Mim Ela por companheira e por vizinha, Passa uma borboleta por diante de mim Me ajudasse a chorar a pena minha, E pela primeira vez no Universo eu reparo E eu a ela também a que ela sente! Que as borboletas não têm cor nem movimento, Assim como as flores não têm perfume nem cor. Ditosa ave! que ao menos, se a natura A cor é que tem cor nas asas da borboleta, A seu primeiro bem não dá segundo, No movimento da borboleta o movimento é que se move, Dá-lhe o ser triste a seu contentamento. O perfume é que tem perfume no perfume da flor. 2009-2010 A borboleta é apenas borboleta Mas triste quem de longe quis ventura E a flor é apenas flor. Que para respirar lhe falte o vento, Fonte: Dover E para tudo, enfim, lhe falte o mundo!
  • 7. As Mãos 2009-2010 Brandamente escrevem dos espasmos do sol. Envelhecem do pulso ao cérebro, ao calor baço de um revérbero no eixo dos ventos, usura das máscaras que, sucessivamente, as transformam de consciência em cal ou metal obscuro. E já não é por si que a presença existe ou subsiste o que separa. Destroem as sementes, apodrecem como um sopro e não são remanso na areia ou domadoras de chamas. Igualam-se à água, para serem raiz do que se cala e insinuam-se, para sempre, no pó da noite. Um castelo de pele tomba. Deixam de ser nomeadas ou nome. Escrevem, brandamente, do termo da música o luto do silêncio. Orlando Neves, in Decomposição - o Corpo Rafal Olbinski 2009-2010 Robert Mapplethorpe
  • 8. CACIDA DA MÃO IMPOSSÍVEL 2009-2010 Não quero mais que uma mão, mão ferida, se possível. Não quero mais que uma mão, inda que passe noites mil sem cama. Seria um lírio pálido de cal, uma pomba atada ao meu coração, o guarda que na noite do meu trânsito de todo vetaria o acesso à lua. Não quero mais que essa mão para os diários óleos e a mortalha de minha agonia. Não quero mais que essa mão para de minha morte ter uma asa. Tudo mais passa. Rubor sem nome mais, astro perpétuo. O demais é o outro; vento triste enquanto as folhas fogem debandadas. Federico García Lorca, in Divã do Tamarit As Tuas Mãos Terminam em Segredo Tradução de Óscar Mendes As tuas mãos terminam em segredo. Em Todas as Ruas te Encontro Os teus olhos são negros e macios Em todas as ruas te encontro Cristo na cruz os teus seios (?) esguios em todas as ruas te perco E o teu perfil princesas no degredo... conheço tão bem o teu corpo sonhei tanto a tua figura Entre buxos e ao pé de bancos frios que é de olhos fechados que eu ando Nas entrevistas alamedas, quedo a limitar a tua altura O vendo põe o seu arrastado medo e bebo a água e sorvo o ar Saudoso o longes velas de navios. que te atravessou a cintura tanto tão perto tão real Mas quando o mar subir na praia e for que o meu corpo se transfigura Arrasar os castelos que na areia e toca o seu próprio elemento As crianças deixaram, meu amor, num corpo que já não é seu num rio que desapareceu Será o haver cais num mar distante... onde um braço teu me procura. Pobre do rei pai das princesas feias 2009-2010 Em todas as ruas te encontro No seu castelo à rosa do Levante! em todas as ruas te perco. Fernando Pessoa, in Cancioneiro Mário Cesariny, in Pena Capital
  • 9. Dobrada à Moda do Porto 2009-2010 Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo, Serviram-me o amor como dobrada fria. Disse delicadamente ao missionário da cozinha Que a preferia quente, Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria. Impacientaram-se comigo. Nunca se pode ter razão, nem num restaurante. Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta, E vim passear para toda a rua. Quem sabe o que isto quer dizer? Eu não sei, e foi comigo... (Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim, Particular ou público, ou do vizinho. Sei muito bem que brincarmos era o dono dele. E que a tristeza é de hoje). Sei isso muitas vezes, Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram Dobrada à moda do Porto fria? Não é prato que se possa comer frio, Mas trouxeram-mo frio. Não me queixei, mas estava frio, Anton Arkhipov, Coffee Break Nunca se pode comer frio, mas veio frio. Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa), in Poemas «A fome só se satisfaz com a comida e a fome de imortalidade da alma com a própria imortalidade. Ambas são verdadeiros instintos.» 2009-2010 Ayd, Bulgária, 2009 Fernando Pessoa
  • 10. 2009-2010 «Um homem com fome não é um homem livre.» Miguel de Unamuno «A fome de cultura sentem-na muito poucos, muito menos do que os que crêem senti-la.» Robert Stevenson, Discursos Christopher Gilbert Gostava de Gostar de Gostar Gostava de gostar de gostar. Um momento... Dá-me de ali um cigarro, Do maço em cima da mesa-de-cabeceira. Continua... Dizias Que no desenvolvimento da metafísica Fred Wessel, Anticipating Bacchus De Kant a Hegel Não só Vinho, mas nele o Olvido Alguma coisa se perdeu. Concordo em absoluto. Não só vinho, mas nele o olvido, deito Estive realmente a ouvir. Na taça: serei ledo, porque a dita Nondum amabam et amare amabam (Santo Agostinho). É ignara. Quem, lembrando Ou prevendo, sorrira? Que coisa curiosa estas associações de ideias! Dos brutos, não a vida, senão a alma, Estou fatigado de estar pensando em sentir outra coisa. Consigamos, pensando; recolhidos Obrigado. Deixa-me acender. Continua. Hegel... No impalpável destino Que não 'spera nem lembra. Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa), in Poemas Com mão mortal elevo à mortal boca 2009-2010 Em frágil taça o passageiro vinho, «Hoje, setenta por cento da humanidade Baços os olhos feitos Para deixar de ver. ainda morre de fome... e trinta por cento faz dieta.» Ricardo Reis (heterónimo de Fernando Pessoa), in Odes
  • 11. Os Cinco Sentidos 2009-2010 Os nossos sentidos Já tos vou distinguir Com palavras excelentes, - Escuta, amor, se queres ouvir. O primeiro era ver Tua boquinha a falar. Que linda cara para beijos, Se os quisesses aceitar. Segundo era ouvir, Gosto de ouvir novas tuas, Trago-te no pensamento Muito mais do que tu cuidas. Terceiro era cheirar, Tu cheiras mesmo a rosa Oh que lindos olhos tens! Oh que cara tão formosa! O quarto era gostar, Que gostos posso eu ter, Ausente do teu amor Mais me valia morrer. Charles West Cope, 1811-1890, The Thorn, 1866 O quinto apertar AFORISMOS As tuas mãos com as minhas. Giuseppe Guadagno, A tight couple, 2007 «A rosa tem espinhos que o olfacto ignora.» Havemos de ir à igreja Rui de Morais, in Do Riso das Insónias, 2007 Trocar nossas palavrinhas. (poema tradicional da Beira Baixa, «O instinto é o olfacto da mente.» Rochas de Baixo), Jaime Lopes Dias, D. Gay de Girardin Etnografia da Beira, 2ª edição, vol. V, Lisboa, 1966. «A memória é o perfume da alma.» George Sand «Aquilo a que a terminologia «De todos os sentidos, a vista é o mais romântica chama génio ou superficial, o ouvido o mais orgulhoso, o olfacto inspiração não é mais do que o mais voluptuoso, o gosto o mais supersticioso 2009-2010 encontrar empiricamente o e inconstante, o tacto o mais profundo.» caminho, seguir o próprio olfacto, Denis Diderot tomar atalhos.» Italo Calvino
  • 12. 2009-2010 As Rosas Amo dos Jardins de Adónis Quando Olho para Mim não Me Percebo Quando olho para mim não me percebo. As Rosas amo dos jardins de Adónis, Tenho tanto a mania de sentir Essas volucres amo, Lídia, rosas, Que me extravio às vezes ao sair Que em o dia em que nascem, Das próprias sensações que eu recebo. Em esse dia morrem. A luz para elas é eterna, porque O ar que respiro, este licor que bebo, Nascem nascido já o sol, e acabam Pertencem ao meu modo de existir, Antes que Apolo deixe E eu nunca sei como hei de concluir O seu curso visível. As sensações que a meu pesar concebo. Assim façamos nossa vida um dia, Inscientes, Lídia, voluntariamente Nem nunca, propriamente reparei, Que há noite antes e após Se na verdade sinto o que sinto. Eu O pouco que duramos. Walter Pfisterer, Serei tal qual pareço em mim? Serei Ricardo Reis (heterónimo de Fernando Pessoa), in Odes Physalis Tal qual me julgo verdadeiramente? Antes o Voo da Ave Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu, Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto, Nem sei bem se sou eu quem em mim sente. Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão. Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa), in Poemas A ave passa e esquece, e assim deve ser. O animal, onde já não está e por isso de nada serve, Mostra que já esteve, o que não serve para nada. Ditosa Ave A recordação é uma traição à Natureza, Quem fosse acompanhando juntamente Porque a Natureza de ontem não é Natureza. Por esses verdes campos a avezinha, O que foi não é nada, e lembrar é não ver. Que despois de perder um bem que tinha, Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!in O Guardador de Rebanhos - Poema XLIII Alberto Caeiro (heterónimo de Fernando Pessoa), Não sabe mais que cousa é ser contente! E quem fosse apartando-se da gente, Passa uma Borboleta por Diante de Mim Ela por companheira e por vizinha, Passa uma borboleta por diante de mim Me ajudasse a chorar a pena minha, E pela primeira vez no Universo eu reparo E eu a ela também a que ela sente! Que as borboletas não têm cor nem movimento, Assim como as flores não têm perfume nem cor. Ditosa ave! que ao menos, se a natura A cor é que tem cor nas asas da borboleta, A seu primeiro bem não dá segundo, No movimento da borboleta o movimento é que se move, Dá-lhe o ser triste a seu contentamento. O perfume é que tem perfume no perfume da flor. 2009-2010 A borboleta é apenas borboleta Mas triste quem de longe quis ventura E a flor é apenas flor. Que para respirar lhe falte o vento, Fonte: Dover E para tudo, enfim, lhe falte o mundo!
  • 13. Fernando Pessoa

×