Your SlideShare is downloading. ×
Texto descritivo
Texto descritivo
Texto descritivo
Texto descritivo
Texto descritivo
Texto descritivo
Texto descritivo
Texto descritivo
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Thanks for flagging this SlideShare!

Oops! An error has occurred.

×
Saving this for later? Get the SlideShare app to save on your phone or tablet. Read anywhere, anytime – even offline.
Text the download link to your phone
Standard text messaging rates apply

Texto descritivo

754

Published on

0 Comments
0 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

No Downloads
Views
Total Views
754
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
1
Actions
Shares
0
Downloads
6
Comments
0
Likes
0
Embeds 0
No embeds

Report content
Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
No notes for slide

Transcript

  • 1. Texto Descritivo - Vamos abordar o texto descritivo, sob o ponto de vista da sua produção e funcionamento discursivo, com base na ideia de que um texto se define pela sua finalidade situacional - todo o acto de linguagem tem uma intencionalidade e submete-se a condições particulares de produção, o que exige do falante da língua determinadas estratégias de construção textual. Em cada texto, portanto, podem combinar-se diferentes recursos (narrativos, descritivos, dissertativos), em função do tipo de interacção que se estabelece entre os interlocutores. Nesse contexto teórico, o texto descritivo identifica-se por ter a descrição como estratégia predominante. Inserindo-se numa abordagem mais geral sobre os mecanismos de elaboração textual, com base nos conceitos de coesão e coerência, o trabalho pedagógico de leitura e produção do texto de base descritiva deve partir dos seguintes pontos: a) O texto de base descritiva tem como objectivo oferecer ao leitor /ouvinte a oportunidade de visualizar o cenário onde uma acção se desenvolve e as personagens que dela participam; b) A descrição está presente no nosso dia-a-dia, tanto na ficção (nos romances, nas novelas, nos contos, nos poemas) como em outros tipos de textos (nas obras técnico-científicas, nas enciclopédias, nas propagandas, nos textos de jornais e revistas); c) A descrição pode ter uma finalidade subsidiária na construção de outros tipos de texto, funcionando como um plano de fundo, o que explica e situa a acção (na narração) ou que comenta e justifica a argumentação; d) Existem características linguísticas próprias do texto de base descritiva, que o diferenciam de outros tipos de textos; e) Os advérbiosde lugar são elementos essenciais para a coesão e a coerência do texto de base descritiva, permitindo a localização espacial dos cenários e personagens descritos; f) Otexto descritivo detém-se sobre objetos e seres considerados na sua simultaneidade, e os tempos verbais mais frequentes são o presente do indicativo no comentário e o pretérito imperfeito do indicativo no relato. O que é um texto descritivo - Segundo Othon M. Garcia (1973), "Descrição é a representação verbalde um objecto sensível(ser, coisa, paisagem), através da indicação dos seus aspectos mais característicos, dos pormenores que o individualizam, que o distinguem." Descrever não é enumerar o maior número possível de detalhes, mas assinalar os traços mais singulares, mais salientes; é fazer ressaltar do conjunto uma impressão dominante e singular. Dependendo da intenção do autor, varia o grau de exactidão e minúcia na descrição. Diferentemente da narração, que faz uma história progredir,a descrição fazinterrupções na história, para apresentar melhor um personagem, um lugar, um objecto, enfim, o que o autor julgar necessário para dar mais consistência ao texto. Pode também ter a finalidade de ambientar a história, mostrando primeiro o cenário, como acontece no texto abaixo: "Ao lado do meu prédio construíram um enorme edifício de apartamentos. Onde antes eram cinco românticas casinhas geminadas, hoje instalaram-se mais de 20 andares. Da minha sala vejo a varandas (estilo mediterrâneo) do novo monstro. Devem distar uns 30 metros, não mais. E foi numa dessas varandas que o facto se deu." (Mário Prata. 100 Crónicas. São Paulo, Cartaz Editorial, 1997) A descrição tem sido normalmente considerada como uma expansão da narrativa. Sob esse ponto de vista, uma descrição resulta frequentemente da combinação de um ou vários personagens com um cenário, um meio, uma paisagem, uma colecção de objectos. Esse cenário desencadeia o aparecimento de uma série de subtemas, de unidades constitutivas que estão em relação metonímica de inclusão: a descrição de um jardim (tema principal introdutor) pode desencadear a enumeração das diversas flores, canteiros, árvores, utensílios, etc., que constituem esse jardim. Cada subtema pode igualmente dar lugar a um maior detalhe (os diferentes tipos de flor, as suas cores, a sua beleza, o seu perfume...). Em trabalho recente, Hamon (1981) mostra que o descritivo tem características próprias e não apenas a função de auxiliar a narrativa, chegando a apontar aspectos linguísticos da descrição: frequência de imagens, de analogias, adjectivos, formas adjectivasdo verbo, termos técnicos... Além disso, o autor ressalta a função utilitária desempenhada pela descrição face a qualquer tipo de texto do qual faz parte: "descrever para completar, descrever para ensinar, descrever para significar, descrever para arquivar, descrever para classificar, descrever para prestar contas, descrever para explicar." No texto dissertativo, por exemplo, a descrição funciona como uma maneira de comentar ou detalhar os argumentos contra ou a favor de determinada tese defendida pelo autor. Assim, para analisar o problema da evasão escolar, podemos utilizar como estratégia argumentativa a descrição detalhada de salas vazias, corredores vazios, estudantes desmotivados, repetência. Numa descrição, quer literária, quer técnica, o ponto de vista do autor interfere na produção do texto. O ponto de vista consiste não apenas na posição física do observador, mas também na sua atitude, na sua predisposição afectiva em face do objecto a ser descrito. Desta forma, existe o ponto de vista físico e o ponto de vista mental.
  • 2. a) Ponto de vista físico É a perspectiva que o observador tem do objecto; pode determinar a ordem na enumeração dos pormenores significativos. Enquanto uma fotografia ou uma tela apresentam o objecto de uma só vez, a descrição apresenta-o progressivamente, detalhe por detalhe, levando o leitor a combinar impressões isoladas para formar uma imagem unificada. Por esse motivo, os detalhes não são todos apresentados num único período, mas pouco a pouco, para que o leitor, associando-os, interligando-os, possa compor a imagem que faz do objecto da descrição. Observamos e percebemos com todos os sentidos, não apenas com os olhos. Por isso, informações a respeito de ruídos, cheiros, sensações tácteis são importantes num texto descritivo, dependendo da intenção comunicativa. Outro factor importante diz respeito à ordem de apresentação dos detalhes. Texto - Trecho de conversa informal (entrevista) "Vamos ver. Bom, a sala tem forma de ele, apesar de não ser grande, né, dá dois ambientes perfeitamente separados. O primeiro ambiente da sala de estar tem um sofá forrado de couro, uma forração verde, as almofadas verdes, ladeado com duas mesinhas de mármore, abajur, um quadro, reprodução de Van Gogh. Em frente tem uma mesinha de mármore e em frente a esta mesa e portanto defronte do sofá tem um estrado com almofadas areia, o aparelho de som, um baú preto. À esquerda desse estrado há uma televisão enorme, horrorosa, depois há em frente à televisão duas poltroninhas vermelhas de jacarandá e aí termina o primeiro ambiente. Depois então no outro, no alongamento da sala há uma mesa grande com seis cadeiras com um abajur em cima, um abajur vermelho. A sala é toda pintadinha de branco ..." Comentário sobre o texto Neste trecho da entrevista, a informante descreve a sala, nomeando as peças que compõem os dois ambientes, reproduzidos numa sequência bem organizada. A localização da mobília é fornecida por meio de diversas expressões de lugar, como em frente, defronte, à esquerda, em cima, que ajudam a imaginar com clareza a distribuição espacial. Há uma preocupação da informante em fazer o nosso olhar percorrer a sala, dando os detalhes por meio das cores (verde, areia, preto, vermelhas), do tamanho ( televisão enorme, poltroninhas, mesinhas, sala pintadinha). É também interessante observar que essa informante deixa transparecer as suas impressões pessoais, como por exemplo ao usar o adjectivo horrorosa, para falar da televisão e pintadinha, no diminutivo, referindo-se com carinho à sua sala de estar e de jantar. b) ponto de vista mental ou psicológico A descrição pode ser apresentada de modo a manifestar uma impressão pessoal, uma interpretação do objecto. A simpatia ou antipatia do observador pode resultar em imagens bastante diferenciadas do mesmo objecto. Deste ponto de vista, dois tipos de descrição podem ocorrer: a objectiva e a subjectiva. A descrição objectiva, também chamada realista, é a descrição exacta, dimensional. Os detalhes não se diluem, pelo contrário, destacam-se nítidos em forma, cor, peso, tamanho, cheiro, etc. Este tipo de descrição pode ser encontrado em textos literários de intenção realista (por exemplo, em Euclides da Cunha, Eça de Queiroz, Flaubert, Zola), enquanto em textos não- literários (técnicos e científicos), a descrição subjectiva reflecte o estado de espírito do observador, assuaspreferências. Isto faz com que veja apenas o que quer ou pensa ver e não o que está para ser visto. O resultado dessa descrição é uma imagem vaga, diluída, nebulosa, como os quadros impressionistas do fim do século passado. É uma descrição em que predomina a conotação. "Ao descrever um determinado ser, tendemos sempre a acentuar alguns aspectos, de acordo com a reacção que esse ser provoca em nós. Ao enfatizar tais aspectos, corremos o risco de acentuar qualidades negativas ou positivas. Mesmo usando a linguagem científica, que é imparcial, a tarefa de descrever objectivamente é bastante difícil. Apesar dessa dificuldade, podemos atingir um grau satisfatório de imparcialidade se nos tornarmos conscientes dos sentimentos favoráveis ou desfavoráveis que as coisas podem provocar em nós. A consciência disso habilitar-nos-á a confrontar e equilibrar os julgamentos favoráveisou desfavoráveis. Um bom exercício consiste em fazer dois levantamentos sobre a coisa que queremos descrever: o primeiro, contendo características tendentes a enfatizar aspectos positivos; o segundo, a enfatizar aspectos negativos. Características linguísticas da descrição O enunciado narrativo, por ter a representação de um acontecimento, fazer-transformador, é marcado pela temporalidade, na relação situação inicial e situação final, enquanto que o enunciado descritivo, não tendo transformação, é atemporal. Na dimensão linguística, destacam-se marcas sintático-semânticas encontradas no texto que vão facilitar a compreensão: Predominância de verbos de estado, situação ou indicadoresde propriedades, atitudes, qualidades, usadosprincipalmente no presente e no imperfeito do indicativo (ser, estar, haver, situar-se, existir, ficar). Enfâse na adjectivaçãopara melhor caracterizar o que é descrito; Exemplo: "Era alto , magro, vestido todo de preto, com o pescoço entalado num colarinho direito. O rosto aguçado no queixo ia-se alargando até à calva, vasta e polida, um pouco amolgado no alto; tingia os cabelos que de uma orelha à outra lhe faziam colar por trás da nuca - e aquele preto lustroso dava, pelo contraste, mais brilho à calva; mas não tingia o bigode; tinha-o grisalho, farto, caído aos cantos da boca. Era muito pálido; nunca tirava as lunetas escuras. Tinha uma covinha no queixo, e as orelhas grandes muito despegadas do crânio. "(Eça de Queiroz - O Primo Basílio) Emprego de figuras (metáforas, metonímias, comparações, sinestesias). Exemplos: "Era o Sr. Lemos um velho de pequena estatura, não muito gordo, mas rolho e bojudo como um vaso chinês. Apesar de seu corpo rechonchudo, tinha certa vivacidade buliçosa e saltitante que lhe dava petulância de rapaz e casava perfeitamente com os olhinhos de azougue." (José de Alencar - Senhora)
  • 3. Uso de advérbiosde localizaçãoespacial. Exemplo: "Até os onze anos, eu morei numa casa, uma casa velha, e essa casa era assim: na frente, uma grade de ferro; depois você entrava tinha um jardinzinho; no final tinha uma escadinha que devia ter uns cinco degraus; aí você entrava na sala da frente; dali tinha um corredor comprido de onde saíam três portas; no final do corredor tinha a cozinha, depois tinha uma escadinha que ia dar no quintal e atrás ainda tinha um galpão, que era o lugar da bagunça ..." (Entrevista gravada para o Projeto NURC/RJ) "A ordem dos detalhes é, pois, muito importante. Não se faz a descrição de uma casa de maneira desordenada; ponha-se o autor na posição de quem dela se aproxima pela primeira vez; comece de fora para dentro à medida que vai caminhando na sua direcção e percebendo pouco a pouco os seus traços mais característicos com um simples correr d'olhos: primeiro, a visão do conjunto, depois a fachada, a cor das paredes, as janelas e portas, anotando alguma singularidade expressiva, algo que dê ao leitor uma ideia do seu estilo, da época da construção. M as não se esqueça de que percebemos ou observamos com todos os sentidos, e não apenas com os olhos. Haverá sons, ruídos, cheiros, sensações de calor, vultos que passam, mil acidentes, enfim, que evitarão que se torne a descrição uma fotografia pálida daquela riqueza de impressões que os sentidos atentos podem colher. Continue o observador: entre na casa, examine a primeira peça, a posição dos móveis, a claridade ou obscuridade do ambiente, destaque o que lhe chame de pronto a atenção (um móvel antigo, uma goteira, um vão de parede, uma massa no reboco, um cão sonolento...). Continue assim gradativamente. Seria absurdo começar pela fachada, passar à cozinha, voltar à sala de visitas, sair para o quintal, regressar a um dos quartos, olhar depois para o telhado, ou notar que as paredes de fora estão descaiadas. Quase sempre a direcção em que se caminha, ou se poderia normalmente caminhar rumo ao objecto serve de roteiro, impõe uma ordem natural para a indicação dos seus pormenores." Fica evidente que esse "passeio" pelo cenário, feito como se tivéssemos nas mãos uma câmara cinematográfica, registando os detalhes e compondo com eles um todo, deve obedecer a um roteiro coerente, evitando idas e vindas desconexas, que certamente perturbam a organização espacial e prejudicam a coerência do texto descritivo. Textos descritivos Conforme o objectivo a alcançar, a descrição pode ser não-literária ou literária. Na descrição não-literária, há maior preocupação com a exactidão dos detalhes e a precisão vocabular. Por ser objectiva, há predominância da denotação. Textos descritivos não-literários - A descrição técnica é um tipo de descrição objectiva: ela recria o objecto usando uma linguagem científica, precisa. Esse tipo de texto é usado para descrever aparelhos, o seu funcionamento, as peças que os compõem, para descrever experiências, processos, etc. Exemplo: a) Folheto de propaganda de carro Conforto interno - É impossível falar de conforto sem incluir o espaço interno. Os seus interiores são amplos, acomodando tranquilamente passageiros e bagagens. O Passat e o Passat Variant possuem direcção hidráulica e ar condicionado de elevada capacidade, proporcionando a climatização perfeita do ambiente. Porta-malas - O compartimento de bagagens possui capacidade de 465 litros, que pode ser ampliada para até 1500 litros, com o encosto do banco traseiro rebaixado. Tanque - O tanque de combustível é confeccionado em plástico reciclável e posicionado entre as rodas traseiras, para evitar a deformação em caso de colisão. Textos descritivosliterários- Na descrição literária predomina o aspecto subjectivo, com ênfase no conjunto de associações conotativas que podem ser exploradas a partir de descrições de pessoas; cenários, paisagens, espaço; ambientes; situações e coisas. Vale lembrar que textos descritivos também podem ocorrer tanto em prosa como em verso. Descrição de pessoas A descrição de personagem pode ser feita na primeira ou terceira pessoa. No primeiro caso, fica claro que o personagem faz parte da história; no segundo, a descrição é feita pelo narrador, que, ele próprio, pode fazer ou não parte da história. Texto - Retrato de Mónica Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da "Liga Internacional das Mulheres Inúteis", ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda gente, toda gente gostar dela, coleccionar colheres do século XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria. Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre do ioga ou da pintura abstracta. Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e contente. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol. De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve de renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade. Texto - Calisto Elói Calisto Elói, naquele tempo, orçava por quarenta e quatro anos. Não era desajeitado de sua pessoa. Tinha poucas carnes e compleição, como dizem, afidalgada. A sensível e dissimétrica saliência do abdómen devia-se ao uso destemperado da carne de porcos e outros alimentos intumescentes. Pés e mãos justificavam a raça que as gerações vieram adelgaçando de carnes. Tinha o nariz algum tanto estragado das invasões do rapé e torceduras do lenço de algodão vermelho. A dilatação das ventas e o escarlate das cartilagens não eram assim mesmo coisa de repulsão. (Camilo Castelo Branco, A queda dum anjo)
  • 4. Comentário sobre a descrição de pessoas A descrição de pessoas pode ser feita a partir das características físicas, com predomínio da objectividade, ou das característicaspsicológicas, com predomínio da subjectividade. Muitas vezes, o autor, propositadamente, faz uma caricatura do personagem, acentuando os seus traços físicos ou comportamentais. Os personagens podem ser apresentados directamente, isto é, num determinado momento da história, e neste caso a narrativa é momentaneamente interrompida. Podem, por outro lado, ser apresentados indirectamente, por meio de dados, como comportamentos, traços físicos, opiniões, que vão sendo indicados passo a passo, ao longo da narrativa. Texto - Trecho de "A Relíquia" (Eça de Queiroz) "Estávamos sobre a pedra do Calvário. Em torno, a capela que a abriga, resplandecia com um luxo sensual e pagão. No tecto azul-ferrete brilhavam sóis de prata, signos do Zodíaco, estrelas, asas de anjos, flores de púrpura; e, dentre este fausto sideral, pendiam de correntes de pérolas os velhos símbolos da fecundidade, os ovos de avestruz, ovos sacros de Astarté e Baco de ouro. [...] Globos espelhados, pousando sobre peanhas de ébano, reflectiamas jóias dos retábulos, a refulgência das paredes revestidas de jaspe, de nácar e de ágata. E no chão, no meio deste clarão, precioso de pedraria e luz, emergindo dentre as lajes de mármore branco, destacava um bocado de rocha bruta e brava, com uma fenda alargada e polida por longos séculos de beijos e afagos beatos." Definição de Texto Descritivo - "a definição é uma fórmula verbal através da qual se exprime a essência de uma coisa (ser, objecto, ideia)", enquanto "a descrição consiste na enumeração de caracteres próprios dos seres (animados e inanimados), coisas, cenários, ambientes e costumes sociais; de ruídos, odores, sabores e impressões tácteis." Enquanto a definição generaliza, a descrição individualiza, isto porque, quando definimos, estamos a tratar de classes, de espécies e, quando descrevemos, estamos a detalhar indivíduos de uma espécie. A diferença entre descrição, narração e dissertação Géneros Literários - Género Narrativo, Esquema da narração Tipos de redacção ou composição - Tudo o que se escreve recebe o nome genérico de redacção (ou composição). Existem três tipos de redacção: descrição, narração e dissertação. É importante que perceba a diferença entre elas. Leia, primeiramente, as seguintes definições: Descrição - É o tipo de redacção na qual se apontam as características que compõem um determinado objecto, pessoa, ambiente ou paisagem. Exemplo: A sua estatura era alta e seu corpo, esbelto. A pele morena reflectia o sol dos trópicos. Os olhos negros e amendoados espalhavam a luz interior de sua alegria de viver e jovialidade. Os traços bem desenhados compunham uma fisionomia calma, que mais parecia uma pintura. Narração - É a modalidade de redacção na qual contamos um ou mais factos que ocorreram em determinado tempo e lugar, envolvendo certas personagens. Exemplo: Numa noite chuvosa do mês de Agosto, Paulo e o irmão caminhavam pela rua mal- iluminada que conduzia à sua residência. Subitamente foram abordados por um homem estranho. Pararam, atemorizados, e tentaram saber o que o homem queria, receosos de que se tratasse de um assalto. Era, entretanto, somente um bêbado que tentava encontrar, com dificuldade, o caminho de sua casa. Dissertação - É o tipo de composição na qual expomos ideias gerais, seguidas da apresentação de argumentos que as comprovem. Exemplo: Tem havido muitos debates sobre a eficiência do sistema educacional. Argumentam alguns que ele deve ter por objectivo despertar no estudante a capacidade de absorver informações dos mais diferentes tipos e relacioná-las com a realidade circundante. Um sistema de ensino voltado para a compreensão dos problemas socio-económicos e que despertasse no aluno a curiosidade científica seria por demais desejável. Não há como confundir estes três tipos de redacção. Enquanto a descrição aponta os elementos que caracterizam os seres, objectos, ambientes e paisagens, a narração implica uma ideia de acção, movimento empreendido pelos personagens da história. Já a dissertação assume um carácter totalmente diferenciado, na medida em que não fala de pessoas ou factos específicos, mas analisa certos assuntos que são abordados de modo impessoal. A NARRAÇÃO - Tipos de narrador Narrar é contar um ou mais factos que ocorreram com determinadas personagens, em local e tempo definidos. Por outras palavras, é contar uma história, que pode ser real ou imaginária. Quando vai redigir uma história, a primeira decisão que deve tomar é se você vai ou não fazer parte da narrativa. Tanto é possível contar uma história que ocorreu com outras pessoas como narrar factos acontecidosconsigo. Essa decisão determinará o tipo de narrador a ser utilizado na sua composição. Este pode ser, basicamente, de dois tipos: 1. Narrador de 1ª pessoa: é aquele que participa da acção, ou seja, que se inclui na narrativa. Trata-se do narrador-personagem. 1. Narrador de 1ª pessoa: é aquele que participa da acção, ou seja, que se inclui na narrativa. Trata-se do narrador-personagem. Exemplo: Andava pela rua quando de repente tropecei num pacote embrulhado em jornais. Agarrei- o vagarosamente, abri-o e vi, surpreso, que lá havia uma grande quantia em dinheiro. 2. Narrador de 3ª pessoa: é aquele que não participa da acção, ou seja, não se inclui na narrativa. Temos então o narrador- observador. 2. Narrador de 3ª pessoa: é aquele que não participa da acção, ou seja, não se inclui na narrativa. Temos então o narrador-observador. Exemplo: João andava pela rua quando de repente tropeçou num pacote embrulhado em jornais. Agarrou- o vagarosamente, abriu-o e viu, surpreso, que lá havia uma grande quantia em dinheiro. OBSERVAÇÃO: Em textos que apresentam o narrador de 1.ª pessoa, ele não precisa ser necessariamente a personagem principal; pode ser somente alguém que, estando no local dos acontecimentos, os presenciou. Exemplo: Estava parado na paragem do autocarro, quando vi, a meu lado, um rapaz que caminhava lentamente pela rua. Ele tropeçou num pacote embrulhado em jornais. Observeique ele o agarrou comtodo o cuidado, abriu- o e viu, surpreso, que lá havia uma grande quantia em dinheiro. Elementosda narração - Depois de escolher o tipo de narrador que vai utilizar, é necessário ainda conhecer os elementos básicos de qualquer narração.
  • 5. Todo o texto narrativo conta um FACTO que se passa em determinado TEMPO e LUGAR. A narração só existe na medida em que há acção; esta acção é praticada pelos PERSONAGENS. Um facto, em geral, acontece por uma determinada CAUSA e desenrola- se envolvendo certas circunstâncias que o caracterizam. É necessário, portanto, mencionar o MODO como tudo aconteceu detalhadamente, isto é, de que maneira o facto ocorreu. Um acontecimento pode provocar CONSEQUÊNCIAS, as quais devem ser observadas. Assim, os elementos básicos do texto narrativo são: 1. FACTO (o que se vai narrar); 2. TEMPO (quando o facto ocorreu); 3. LUGAR (onde o facto se deu); 4. PERSONAGENS (quem participou do ocorrido ou o observou); 5. CAUSA (motivo que determinou a ocorrência); 6. MODO (como se deu o facto); 7. CONSEQUÊNCIAS. Uma vez conhecidos esses elementos, resta saber como organizá-los para elaborar uma narração. Dependendo do facto a ser narrado, há inúmeras formas de dispô-los. Todavia, apresentaremos um esquema de narração que pode ser utilizado para contar qualquer facto. Ele propõe-se situar os elementos da narração em diferentes parágrafos, de modo a orientá-lo sobre como organizar adequadamente a sua composição. Esquema de narração OBSERVAÇÕES: 1. É bom lembrar que, embora o elemento Personagens tenha sido citado somente no 2º parágrafo (onde são apresentados com mais detalhes), eles aparecem no decorrer de toda a narração, uma vez que são os desencadeadores da sequência narrativa. 2. O elemento Causa pode ou não existir na sua narração. Há factos que decorrem de causa específica (por exemplo, um atropelamento pode ter como causa o descuido de um peão ao atravessar a rua sem olhar). Existe, em contrapartida, um número ilimitado de factos dos quais não precisamos explicar as causas, por serem evidentes (por exemplo, uma viagem de férias, um assalto a um banco, etc.). 3. três elementos mencionados na Introdução, ou seja, facto, tempo e lugar, não precisam necessariamente aparecer nesta ordem. Podemos especificar, no início, o tempo e o local, para depois enunciar o facto que será narrado. Utilizando esse recurso, pode narrar qualquer facto, desde os incidentes que são noticiados nos jornais com o título de ocorrências policiais (assaltos, atropelamentos, raptos, incêndios, colisões e outros) até factos corriqueiros, como viagens de férias, festas de adeptos de futebol, comemorações de aniversário, quedas e acontecimentos inesperados ou fora do comum, bem como quaisquer outros. É importante ressaltar que o esquema apresentado é apenas uma sugestão de como se pode organizar uma narração. Temos inteira liberdade para nos basearmos nele ou não. Mostra-se apenas uma das várias possibilidades existentes de se estruturarem textos narrativos. Caso se deseje, poderá inverter-se a ordem de todos os elementos e fazer qualquer outra modificação que se ache conveniente, sem prejuízo do entendimento do que se quer transmitir. O fundamental é conseguir-se contar uma história de modo satisfatório. A narração objectiva - Observe-se agora um exemplo de narração sobre um incêndio, criado com o auxílio do esquema estudado. Lembre-se de que, antes de começar a escrever, é preciso escolher o tipo de narrador. Optámos pelo narrador de 3ª pessoa. O incêndio Ocorreu um pequeno incêndio na noite de ontem, num apartamento de propriedade do Sr. António Pedro. No local habitavam o proprietário, a sua esposa e os seus dois filhos. Todos eles, na hora em que o fogo começou, tinham saído de casa e estavam a jantar num restaurante situado em frente ao edifício. A causa do incêndio foi um curto circuito ocorrido no sistema eléctrico do velho apartamento. O fogo começou num dos quartos que, por sorte, ficava na frente do prédio. O porteiro do restaurante, conhecido da família, avistou-o e imediatamente foi chamar o Sr. António. Ele, rapidamente, ligou para os Bombeiros. Embora não tivessem demorado a chegar, os bombeiros não conseguiram impedir que o quarto e a sala ao lado fossem inteiramente destruídos pelas chamas. Não obstante o prejuízo, a família consolou-se com o facto de aquele incidente não ter tomado maiores proporções, atingindo os apartamentos vizinhos. Vamos observar as características desta narração. O narrador está na 3ª pessoa, pois não toma parte na história; não é nem membro da família, nem o porteiro do restaurante, nem um dos bombeiros e muito menos alguém que passava pela rua na qual se situava o prédio. Outra característica que deve ser destacada é o facto de a história ter sido narrada com objectividade: o narrador limitou-se a contar os factos sem deixar que os seus sentimentos, as suas emoções transparecessem no decorrer da narrativa. Este tipo de composição denomina-se narração objectiva. É o que costuma aparecer nas "ocorrências policiais" dos jornais, nas quais os redactores apenas dão conta dos factos, sem se deixar envolver emocionalmente com o que estão a noticiar. Este tipo de narração apresenta um cunho impessoal e directo. A narração subjectiva - Existe também um outro tipo de composição chamado narração subjectiva. Nela os 1º Parágrafo: Explicar que facto será narrado. Determinar o tempo e o lugar INTRODUÇÃO 2º Parágrafo: Causa do facto e apresentação das personagens. DESENVOLVIMENTO 3º Parágrafo: Modo como tudo aconteceu (detalhadamente). 4º Parágrafo: Consequências do facto. CONCLUSÃO
  • 6. factos são apresentados levando-se em conta as emoções, os sentimentos envolvidos na história. Nota- se claramente a posição sensível e emocional do narrador ao relatar os acontecimentos. O facto não é narrado de modo frio e impessoal, pelo contrário, são ressaltados os efeitos psicológicos que os acontecimentos desencadeiam nas personagens. É, portanto, o oposto da narração objectiva. Daremos agora um exemplo de narração subjectiva, elaborada também com o auxílio do esquema de narração. Escolhemos o narrador de 1.ª pessoa. Esta escolha é perfeitamente justificável, visto que, participando da acção, ele envolve-se emocionalmente com maior facilidade na história. Isso não significa, porém, que uma narração subjectiva requeira sempre um narrador em 1. Com a fúria de um vendaval, Numa certa manhã acordeientediada. Estava nas minhas férias escolares do mês de Agosto. Não pudera viajar. Fui ao portão e avistei, três quarteirões ao longe, a movimentação de uma feira livre. Não tinha nada para fazer, e isso estava a matar-me de aborrecimento. Embora soubesse que uma feira livre não constitui exactamente o melhor divertimento do qual um ser humano pode dispor, fuiandando, a passos lentos, em direcção daquelas barracas. Não esperava ver nada de original, ou mesmo interessante. Como é triste o tédio! Logo que me aproximei, vi uma senhora alta, extremamente gorda, discutindo com um feirante. O homem, dono da barraca de tomates, tentava em vão acalmar a nervosa senhora. Não sei por que brigavam, mas sei o que vi: a mulher, imensamente gorda, mais do que gorda (monstruosa), erguia os seus enormes braços e, com os punhos cerrados, gritava contra o feirante. Comecei a assustar-me, com medo de que ela destruísse a barraca (e talvez o próprio homem) devido à sua fúria incontrolável. Ela ia gritando empolgando-se com a sua raiva crescente e ficando cada vez mais vermelha, como os tomates, ou até mais. De repente, no auge de sua ira, avançou contra o homem já atemorizado e, tropeçando em alguns tomates podres que estavam no chão, caiu, tombou, mergulhou, esborrachou-se no asfalto, para o divertimento do pequeno público que, assim como eu, assistiu àquela cena incomum. OBSERVAÇÃO: A narração pode ter a extensão que convier. Pode aumentá-la ou diminuí-la, suprimindo detalhes menos importantes. Lembre-se: quando um determinado parágrafo ficar muito extenso, pode dividi-lo em dois. Destacamos, mais uma vez, que o esquema dado é uma orientação geral e não precisa ser necessariamente seguido; ele pode sofrer variações referentes ao número de parágrafos ou à ordem de disposição dos elementos narrativos. O discurso do narrador Comparando os dois modelos de narração apresentados, poderá perceber a diferença entre narrador em 1ª e 3ª pessoas, a maneira como se elabora uma narração utilizando o esquema estudado, a existência da narração objectiva em oposição à narração subjectiva e alguns outros aspectos. É importante também que observe um outro facto sobre o qual ainda não fizemos qualquer comentário. Lendo as narrações O incêndio e Com a fúria de um vendaval, notará com facilidade que o narrador contou cada uma das histórias com as suas próprias palavras. Ele não introduziu diálogos na redacção registando a fala dos 23 personagens. Essas duas narrações foram elaboradas sem que o narrador introduzisse o discurso directo, isto é, o diálogo entre as personagens. Não se esqueça também de que o esquema de narração não precisa ser seguido à risca. Se julgar importante fazer qualquer alteração, nada o impede de fazê-la, desde que a sua composição não perca as características de organização e clareza indispensáveis a todas as narrações. A NARRAÇÃO E OS TIPOS DE DISCURSO Discurso directo e discurso indirecto Agora veremos como introduzir o discurso directo (registo da fala dos personagens) no meio de uma narração, bem como transformá-lo em discurso indirecto. O primeiro passo é conseguir diferenciar o discurso indirecto do discurso directo. Veja estes exemplos: Discurso indirecto - O rapaz, depois de estacionar o seu automóvel num pequeno posto de gasolina daquela estrada, perguntou a um funcionário onde ficava a cidade mais próxima. Ele respondeu que havia um vilarejo a dez quilómetros dali. Discurso directo - O rapaz, depois de estacionar o seu automóvel num pequeno posto de gasolina daquela estrada, perguntou: Onde fica a cidade mais próxima ?, — Há um vilarejo a dez quilómetros daqui - respondeu o funcionário. Observe o exemplo de discurso directo. Antes do registo da fala do personagemexiste um travessão (— ) que inicia um novo parágrafo. No último período desse texto notou que há também um outro travessão, colocado antes da palavra respondeu; ele serve para separar a fala do personagem da explicação do narrador ("respondeu o funcionário"). Quando o narrador quer informar qual a personagem que fala, o texto pode ser organizado de duas maneiras: Primeiro explica-se quem vai falar. A frase termina por dois-pontos (:). Abre-se então um novo parágrafo para nele colocar o travessão, seguido da fala da personagem. Exemplo: O funcionário respondeu: — Há um vilarejo a dez quilómetros daqui. o Em primeiro lugar, regista-se, depois de posto o travessão, a fala da personagem. Na mesma linha coloca-se umoutro travessão e, em seguida, a frase pela qual o narrador explica quem está dizendo aquilo (iniciada por letra minúscula). Exemplo: — Há um vilarejo a dez quilómetros daqui - respondeu o funcionário. OBSERVAÇÃO: Já verbos que se caracterizam por introduzir a fala do personagem, ou mesmo explicar quem está a fazer a afirmação registada depois do travessão. Denominam-se verbos de elocução e alguns exemplos deles são: falar, perguntar, responder, indagar, replicar, argumentar, pedir, implorar, comentar, afirmar e muitos outros. Vejamos agora um exemplo de como podemos introduzir o discurso directo numa narração. Leia o texto abaixo, onde não aparece a fala dos personagens. É o narrador que conta os acontecimentos.
  • 7. O primeiro dia no curso Maria Helena acabava de matricular-se num famoso curso, desses que preparam os alunos para os exames. Logo no primeiro dia de aulas, depois de subir os seis lances de escadas que a conduziam à sua turma de duzentos e quarenta alunos, entrou na sala espantada coma quantidade de colegas. Assistiu às três primeiras aulas (ou conferências) que os professores deram com o auxílio de microfones. Quando deu o sinal do intervalo, tentou encontrar o bar que ficava no piso térreo. Maria Helena então começou a descer os seis lances de escadas, acompanhada por uma quantidade incontável de pessoas, ou seja, os colegas das outras quinze salas de aula existentes em cada andar. Após algum tempo, chegou ao piso térreo. Olhou para todos os lados e não viu bar nenhum. Pouco tempo depois, descobriu que o bar era ali mesmo, mas não dava para ver a caixa registadora, situada a alguns metros dela, de tanta gente que havia. Ela já estava na fila da caixa e não sabia. Leia agora a mesma redacção, depois de introduzidosalguns trechos de discurso directo. O primeiro dia no curso Maria Helena acabava de matricular-se num famoso curso, desses que preparam os alunos para os exames. Logo no primeiro dia de aulas, depois de subir os seis lances de escadas que a conduziam à sua turma de duzentos e quarenta alunos, entrou na sala, espantada com a quantidade de colegas. Assistiu às três primeiras aulas (ou conferências) que os professores deram com o auxílio de microfones. Quando deu o sinal do intervalo, Maria Helena perguntou a um colega de classe: — Você, por acaso, sabe onde fica a lanchonete? — Fica no piso térreo — respondeu-lhe o colega gentilmente. Ela então começou a descer os seis lances de escadas, acompanhada por uma quantidade incontávelde pessoas, ou seja, os colegas das outras quinze salas de aula existentes em cada andar. Após algum tempo chegou ao piso térreo. — Por favor, você sabe onde fica o bar? Disseram que ficava no piso térreo — perguntou Maria Helena a uma moça que estava a seu lado. — Mas você já está no bar! Descobriu então que estava no lugar procurado, mas não dava para ver a caixa registadora, situada a alguns metros dela, de tanta gente que havia. Ela já estava na fila da caixa e não sabia. A transformação do discurso directo em indirecto e vice-versa Já aprendeu a identificar os dois tipos de discurso; notou que eles não são registados do mesmo modo. Vamos agora sistematizar as diferenças que pudemos perceber entre eles. Portanto, o primeiro passo para se transformar um tipo de discurso em outro consiste em efectuar as modificações mencionadas, ou seja, alterar o tempo dos verbos e utilizar a pontuação adequada. Entretanto, restam ainda alguns detalhes. Tempos Verbais No exemplo apresentado de discurso directo, as personagens utilizavam o verbo no presente do indicativo. E se eles se estivessem a expressar no pretérito ou noutro tempo verbal? Siga, na tabela seguinte, as correlações entre alguns tempos verbais e os tipos de discurso. Discurso Directo Discurso Indirecto imperativo: — Cala-te — ordenou o senhor ao seu vassalo. pretérito imperfeito do subjuntivo: O senhor ordenou ao seu vassalo que ele se calasse. futuro do presente do indicativo: — Farei o possível — disse o rapaz. futuro do pretérito do indicativo: O rapaz disse que faria o possível. Não vamos relacionar todos os tempos de verbos e as suas modificações. Acreditamos que basta uma observação de carácter geral: ao transformar o discurso directo emindirecto, estará a transcrever algo que alguém já disse; portanto, no discurso indirecto, o tempo será sempre passado em relação ao discurso directo. O mecanismo é basicamente o mesmo para todos os casos. Veja-se este último exemplo: Discurso directo— Quero que você me siga — disse Pedro. (presente do indicativo, presente do conjuntivo) — Se estiver disposta, eu fá-lo-ei — replicou Paula. (futuro do conjuntivo, futuro do presente do indicativo) Discurso indirecto - Pedro disse à Paula que queria que ela o seguisse. (pretérito imperfeito do indicativo, pretérito imperfeito do conjuntivo) Paula replicou que, se estivesse disposta, ela fá-lo-ia. (pretérito imperfeito do conjuntivo, futuro do pretérito do indicativo) Pronomese advérbios- Outras classes de palavras, como os pronomes e alguns advérbios, podem igualmente requerer alterações. Observe o exemplo: Discurso Directo Discurso Indirecto verbos no presente do indicativo (fica, há) Pontuação característica (travessão, dois pontos) Verbos no pretérito imperfeito do indicativo (ficava, havia) Ausência de pontuação característica presente do indicativo: — Tenho pressa — disse o rapaz. pretérito imperfeito do indicativo: O rapaz disse que tinha pressa. pretérito perfeito do indicativo: — Presenciei toda a cena — declarou o jovem. pretérito mais-que-perfeito simples ou composto: O jovem declarou que presenciara (tinha presenciado) toda a cena.
  • 8. Discurso directo - — Venha cá, minha filha — disse a mãe, impaciente. — Estarei aí daqui a cinco minutos. Discurso indirecto - A mãe, impaciente, pediu a sua filha que fosse até lá. Ela respondeu que estaria lá dali a cinco minutos. Discurso directo — Onde estão os meus bilhetes para o espectáculo de patinagem? — perguntou Pedro. — Estavam aqui ainda neste instante! — replicou Maria. Discurso indirecto- Pedro perguntou a Maria onde estavam os seus ingressos para o espectáculo de patinagem. Ela replicou que eles estavam ali ainda naquele instante. Um acto involuntário, Após assistir às aulas do curso, no seu primeiro dia de aulas, Maria Helena dirigiu-se à paragem do autocarro. Na paragem havia dezenas de pessoas, alunos com o seu material escolar na mão, à espera dos transportes colectivos que passavam por aquela imensa avenida. Aproximava-se o seu autocarro. Ao avistá-lo, notou que vinha superlotado e decidiu esperar por um outro veículo da mesma linha. Ele certamente passaria cinco minutos depois. Ela estava na paragem, cercada por inúmeras pessoas, e não sabia que a maioria delas iria entrar nesse autocarro. De repente, quando o veículo parou, todos correram em direcção à porta, empurrando Maria Helena. Ela, sem querer, impulsionada pelos outros que a circundavam, subiu a escadinha do autocarro, contra a sua vontade, tal o número de pessoas que a comprimiam. Já dentro do veículo, ouviu a inútil solicitação do cobrador para que as pessoas dessem um passo à frente. Não havia para onde ir, nem mesmo como se mexer, devido à superlotação. OBSERVAÇÃO: Sugerimos a introdução, após o primeiro parágrafo, de uma conversa entre Maria Helena e uma outra pessoa que também estivesse na paragem do autocarro. Também é possível criar um diálogo entre um dos passageiros e o cobrador. Além dessas sugestões, pode imaginar qualquer outro diálogo relacionado com a história narrada. Níveis de linguagem - Vamos falar agora sobre os tipos de linguagem que pode utilizar nas suas narrações. Como já deve ter ouvido dizer, existem basicamente dois níveis de linguagem: a linguagem formal e a linguagem coloquial. Entendemos por linguagem formal a língua culta, que se caracteriza pela correcção gramatical, ausência de gírias ou termos regionais, riqueza de vocabulário e frases bem elaboradas. A linguagem coloquial, por sua vez, é aquela que as pessoas utilizam no dia-a-dia, conversando informalmente com amigos, parentes e colegas. É a linguagem descontraída, que dispensa formalidades e aceita gírias, diminutivos afectivos e palavras de cunho regional. A narração, pode comportar os dois níveis de linguagem. Recomendamos que utilize a linguagem formal nas frases do narrador e a linguagem coloquial no registo da fala de algumas personagens. Expliquemos melhor: se registar, no discurso directo, a fala de um alentejano, poderá utilizar palavras ou expressões típicasdo linguajar da sua região, para dar um cunho de veracidade à composição; se a conversa estiver a ser travada entre dois adolescentes, cabe a introdução de algumas gírias. Dessa forma, a redacção torna-se mais convincente, na medida em que cada personagemé apresentada como registo de fala que normalmente o caracteriza. Isso não significa, porém, que o discurso directo deva sempre estar relacionado com a linguagem coloquial. Pelo contrário, tratando-se de personagens cultos (ou mesmo razoavelmente instruídos), deve utilizar a linguagem formal no registo das suas falas.OBSERVAÇÃO: Esteja atento às solicitações que possam ser feitas nas redacções que vier a realizar. Caso se peça para elaborar uma narração utilizando a linguagem formal, este tipo de linguagem deverá aparecer em toda a composição, independentemente de quem sejam as personagens envolvidas nos trechos do discurso directo. Veja, nestes pequenos trechos a seguir, como os dois tipos de linguagem podem aparecer no discurso directo. Lembre-se de que o narrador vale-se sempre da linguagem formal. Linguagem coloquial - Os dois amigos encontraram- se no pátio do colégio, na hora do intervalo, e Marcos perguntou: — Como é que é, Zé ? Tás a fim de dar uns giros por aí depois da aula ? — Normal ! A gente pode chamar o Nandinho e ir pra uma esplanada - respondeu José bastante animado. — É isso. Deixa- me ir, que já tocou — disse Marcos apertando o passo. Linguagem formal - No corredor de uma universidade, um eminente professor de Direito Penal encontra um ex-aluno, agora seu colega. O professor diz-lhe: — Que prazer encontrá-lo depois de tanto tempo! — Como está, professor? É bom revê-lo — sorriu o ex-aluno emocionado. — O senhor nem pode imaginar o quanto me foram úteis os conhecimentos que adquiri nas suas aulas.— Você sempre foi um bom aluno. Tinha a certeza de que se tornaria um advogado notável.

×