• Share
  • Email
  • Embed
  • Like
  • Save
  • Private Content
A Comuna de Paris e a actualidade
 

A Comuna de Paris e a actualidade

on

  • 901 views

Aurélio Santos ...

Aurélio Santos

No âmbito de um debate sobre a actualidade da Comuna de Paris vale a pena arriscar algumas reflexões, como forma de contribuição para o necessário debate colectivo, acerca de algumas questões fulcrais para a luta pela superação revolucionária do capitalismo e o início da construção de uma sociedade liberta da exploração do homem pelo homem: objectivo primeiro do ideal comunista.

Statistics

Views

Total Views
901
Views on SlideShare
608
Embed Views
293

Actions

Likes
0
Downloads
0
Comments
0

6 Embeds 293

http://soproleve.blogspot.pt 230
http://www.soproleve.blogspot.pt 39
http://soproleve.blogspot.com 7
http://soproleve.blogspot.ae 6
http://soproleve.wordpress.com 6
http://soproleve.blogspot.com.br 5

Accessibility

Categories

Upload Details

Uploaded via as Adobe PDF

Usage Rights

© All Rights Reserved

Report content

Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
  • Full Name Full Name Comment goes here.
    Are you sure you want to
    Your message goes here
    Processing…
Post Comment
Edit your comment

    A Comuna de Paris e a actualidade A Comuna de Paris e a actualidade Document Transcript

    • A Comuna de Paris e a actualidadeAurélio SantosNo âmbito de um debate sobre a actualidade da Comuna de Paris1vale a pena arriscar algumasreflexões, como forma de contribuição para o necessário debate colectivo, acerca de algumasquestões fulcrais para a luta pela superação revolucionária do capitalismo e o início da construçãode uma sociedade liberta da exploração do homem pelo homem: objectivo primeiro do idealcomunista.Estado: natureza de classe e regime políticoO marxismo não foi criado de jacto, foi sendo elaborado a partir da experiência historicamentedisponível.Compreende-se assim a importância que Marx deu à Comuna como acontecimento que abriu novasperspectivas à luta pela emancipação do trabalho: "ela era a forma política, finalmente descoberta,com a qual se realiza a emancipação económica do trabalho"2Qual era essa "forma política finalmente descoberta"?Para Marx, a Comuna encontrara a forma prática de pôr fim à dominação política do capital que lhepermitia manter e reforçar a dominação económica sobre os trabalhadores e a sociedade em geral.Essa forma finalmente descoberta era a tomada e exercício do poder político pela classetrabalhadora. Chamou-lhe Marx a "ditadura do proletariado".Dado que este conceito de "ditadura do proletariado" tem servido como argumento para amanipulação anticomunista, vale a pena clarificar o seu significado na concepção do marxismo.Uma das contribuições essenciais de Marx para a compreensão das estruturas sociais e da evoluçãohistórica, foi a sua caracterização da natureza do Estado e da essência das suas funções. Marxassinalou que o Estado nasceu como instrumento de dominação política da sociedade pela classeque detém o poder económico, nas sociedades em que a propriedade privada dos meios de produçãogerou a exploração do homem pelo homem e só se extinguirá quando desaparecerem as classesexploradoras3.É partindo dessa análise objectiva que o marxismo aponta que qualquer forma de Estado, pela suanatureza, constitui o instrumento de uma ditadura de classe para assegurar o regime económico queserve os interesses dessa classe.1Texto feito na base de uma intervenção no debate sobre "Actualidade da Comuna", organizado pela Direcção daOrganização Regional de Lisboa,em 14/3/2001.2Com base na experiência da Comuna, Marx concluía que a destruição do Estado capitalista burguês não significa que anova sociedade, promovida pelo proletariado, possa desenvolver-se sem Estado, como afirmavam os anarquistas, naépoca com grande influência no movimento operário (e na própria Comuna), que recusavam a intervenção doproletariado na luta política e apresentavam a democracia como incompatível com qualquer Estado. A classeoperária não pode simplesmente tomar a máquina do Estado capitalista e governar através dela, mas deve substituí-la por um novo Estado e transformar o seu domínio político num instrumento de reorganização socialista dasociedade.3No quadro de concepções que apresentam o Estado acima das classes e vocacionado para conciliar os diferentesinteresses da sociedade, apresentam-se hoje teorias que consideram ultrapassadas as classes, bem como anecessidade de tomada do poder e, consequentemente, da organização partidária independente da classe operária -deixando-a entregue à subordinação política.
    • É assim também no Estado burguês que tem como função principal servir os interesses da classecapitalista.Já no "Manifesto do Partido Comunista" (1848), primeira apresentação global das ideias docomunismo, Marx e Engels assinalavam que "o governo do Estado burguês não é mais que umacomissão para administrar os negócios colectivos de toda a classe burguesa" e contrapunham aessa forma do domínio de classes dos capitalistas a necessidade de assegurar a "supremacia políticado proletariado".O que Marx viu de novo na Comuna (e o que há de inovador na sua análise) é que ela demonstrouque para pôr fim à ditadura de classe da burguesia não bastava tomar conta do Estado burguês noqual "todas as formas de governo têm sido marcadamente repressivas" e era necessário criar umnovo tipo de Estado, o Estado proletário, "cujo objectivo é transformar os meios de produção, aterra e o trabalho, em instrumentos do trabalho livre e associado".O anticomunismo está evidentemente interessado em falsear o conceito histórico-filosófico deditadura do proletariado, contrapondo-lhe a "democracia burguesa".Essa operação de falseamento finge ignorar que uma coisa é a natureza de classe de um Estado(dependente da classes que exerce o domínio político) e outra coisa é o regime político com o qualesse domínio é exercido, isto é, o conjunto de métodos e meios de execução, pela classe dominante,do poder político desse Estado, nas várias condições históricas concretas.Como já Marx assinalava, no Estado capitalista (como nos anteriores) a ditadura de classe daburguesia exerce-se sob vários regimes políticos: monarquias ou repúblicas, ditaduras (como asfascistas), democracias parlamentares ou presidencialistas, etc..A democracia burguesa, como qualquer forma de governo na sociedade capitalista, constitui umaforma de ditadura da burguesia (sobre o proletariado e as outras camadas dos trabalhadores)exercida através do aparelho de Estado, as estruturas de formação e condicionamento ideológico e ocontrolo sobre a economia.A pretensão de opor a democracia burguesa à ditadura do proletariado constitui pois umamanipulação ideológica que falseia o conteúdo dessas expressões. Procura confundir o conceitorigorosamente científico, no plano histórico-filosófico, de ditadura do proletariado que caracteriza asua natureza de classe, com o conceito hoje corrente de ditadura, após os regimes políticos dasditaduras reaccionárias e terroristas que no decorrer do séc. XX marcaram as ofensivas para imporas formas mais brutais de dominação de classe do capital, designadamente com as versõesnazifascistas de ditadura do capital monopolista (incluindo a ditadura salazarista).Democracia burguesa e democracia proletáriaSó com base nas experiências que a prática iria criando, pelo desenvolvimento da luta de classes, sepoderiam definir as formas concretas de organização do Estado em que se concretizaria a ditadurado proletariado: Marx não construía cenários. Com base na experiência disponível na sua época - aComuna de Paris -, Marx apontou-lhe algumas características fundamentais, assinalando-a, porexemplo, como "uma forma política inteiramente expansiva, ao passo que todas as formasanteriores de governo têm sido marcadamente repressivas".Enquanto todos os tipos anteriores de Estado asseguravam o domínio de uma minoria sobre umamaioria, cabia ao Estado proletário assegurar à grande maioria, os trabalhadores, as condições paraa sua emancipação - sendo, por isso, a mais democrática das formas de Estado. E importa referir,
    • quanto a isto, que a democraticidade de um Estado não pode ser avaliada apenas pelas formas, maisou menos participadas, que regem a composição dos seus órgãos de poder político. Define-se eafirma-se (ou nega-se) também pelo conteúdo da política aplicada por esse poder4.Desde as suas primeiras formulações, ao conceito de ditadura do proletariado está ligada a ideia doseu conteúdo profundamente democrático. Mas abrange também as formas democráticas deconstituição dos órgãos de poder.Para Marx, objectivo primordial do Estado proletário seria "amputar os órgãos meramenterepressivos do antigo poder governamental" ao mesmo tempo que "as suas funções legítimasdeveriam ser arrancadas a uma autoridade que usurpa uma proeminência acima da própriasociedade e restauradas nos agentes responsáveis da sociedade".Marx valorizava altamente as formas democráticas de organização do poder que a Comuna, comoEstado proletário, instaurou, nos seus breves três meses de existência: elegibilidade de todos oscargos do poder e da administração, revocabilidade desses cargos, responsabilização de todos osórgãos do poder e dos funcionários perante o povo, implantação de princípios democráticos naestrutura e organização das forças armadas, do novo sistema administrativo e judicial e do sistemade segurança pública.Com a ditadura do proletariado, dizia Marx, a democracia torna-se democracia socialista. Trata-sede um processo de transformação da sociedade que preencherá, como aconteceu nas anteriorestransformações sociais revolucionárias, todo um largo período histórico, com inevitáveis avanços erecuos, como todos os processos históricos, reflectindo, em formas diversas, as correlações deforças que nele se vão registando, numa evolução que não pode ser esquematizadaantecipadamente.Também Lénine chamava a atenção para a ligação directa entre democracia e socialismo: "Tal comonão é possível um socialismo vitorioso não realizando uma democracia completa, assim também oproletariado não se pode preparar para a vitória sobre a burguesia sem conduzir uma lutaconsequente e revolucionária, sob todos os aspectos, pela democracia".5Qual é, na actualidade, o conteúdo destes conceitos?A história do Estado e do seu papel reflecte, no séc. XX, como ao longo da história segundoassinalou Marx, as várias fases e resultados da luta de classes, com os compromissos e as vitóriasque nela se registam.Os grandes movimentos revolucionários que deixaram no séc. XX a marca das ideias docomunismo, das suas realizações e das lutas da classe operária e das outras forças anti-imperialistas,deram a alguns dos conceitos básicos relacionados com a organização do poder político conteúdos eexpressões que, mantendo a sua essência, ganharam novas expressões. É o caso, por exemplo, dademocracia e do Estado.Com a vitória da Revolução de Outubro, iniciou-se a aplicação concreta de alguns princípios da4Temos no nosso País a experiência de governos eleitos em regime democrático que não aplicam uma políticademocrática.5Limitações, deformações e violações da democracia, contrariando esta orientação foram uma das causas da falência doregime soviético: "é inegável que na construção do socialismo se deram transformações democráticas de alcance esignificado histórico (...) e, em alguns aspectos e períodos, também no domínio político. Verificou-se, entretanto,que a democracia política veio a sofrer grandes limitações, não só no que respeita a liberdades e direitos doscidadãos, à democraticidade das eleições, ao respeito pelo valor e intervenção do indivíduo (...)" - ResoluçãoPolítica do XIII Congresso do PCP, Maio de 1990.
    • democracia proletária. Foi, designadamente, o conceito de Direitos do Homem, lançado pelaRevolução Francesa, mas limitado ao âmbito dos direitos cívicos, alargando-os, com o início daconstrução do socialismo, aos direitos sociais: ao trabalho, à instrução e cultura, à saúde, àsegurança social6.Perante a luta crescente das massas trabalhadoras nos seus países, estimulada por essa novaconcepção, os próprios Estados capitalistas sentiram-se forçados a recuar, principalmente após asgrandes movimentações democráticas e sociais que acompanharam a derrota da versão nazifascistado imperialismo, na II Guerra Mundial.A democracia ganhou assim, na consciência de largas massas, também um conteúdo social e tornou-se, ela própria, uma forma e um terreno da luta de classes.Esta evolução na luta de classes, à escala nacional e internacional, obrigou também o Estadocapitalista a assumir funções sociais que não se enquadram na sua natureza de classe, mas que lheforam impostas pela luta de classes sob a forma de luta política de massas e a realidade do novosistema sócio-económico.A democracia, nos Estados capitalistas, reflecte sempre a luta e resistência das classes exploradas.As democracias burguesas, não deixando de ser uma forma de Estado com que o capitalismoassegura a dominação política para manter a sua dominação económica, reflectem, em todos ospaíses e na história de cada país, a forma momentânea da correlação de forças de classe no país (etambém no plano internacional). Implicam um compromisso nessa luta. Não significam nunca que aclasse dominante (hoje em dia o capital monopolista e financeiro) renuncie voluntariamente à suadominação económica, abandone espontaneamente as posições de que se apoderou, deixedissiparem-se os véus ideológicos com que oculta a sua natureza de classe.A compreensão do significado da essência de classe da democracia burguesa não significa desprezar(ou desvalorizar) que ela possibilita às classes dominadas melhores condições para odesenvolvimento da luta de classes. Reconhecendo as limitações da democracia burguesa importadefender e alargar as conquistas políticas e sociais alcançadas no seu quadro. Não esquecendo que ademocracia burguesa é um regime instável e que a classe dominante espreita todas as eventuaisdeslocações na correlação de forças para recuperar os terrenos que a luta de classes lhe reduziu.Veja-se o que acontece na ofensiva em curso nos Estados capitalistas para aumentar as condições deexploração dos trabalhadores, retirar direitos sociais, reduzir a democracia.O que confirma a necessidade apontada por Marx, apoiando-se na experiência da Comuna, sobre anecessidade do exercício do poder pelos trabalhadores para alcançarem a sua emancipação.Condições da revoluçãoAs revoluções não se podem experimentar em laboratório. A sua experiência é feita ao vivo, notecido social. Com todas as surpresas que a tentativa de levar à prática um projecto detransformação da sociedade comporta. Mas uma revolução não deve também ser uma aventura,lançada sem ter em conta as condições para o seu sucesso7.6Também no plano político a revolução soviética alargou o conteúdo da democracia com a universalidade dos direitoscívicos, incluindo o direito ao voto, reconhecidos a homens e mulheres, independentemente do grau de instrução, daraça ou nacionalidade - numa data em que nos países capitalistas mais desenvolvidos eles ainda eram negados àsmulheres e aos povos dos "impérios coloniais".7As concepções voluntaristas do revolucionarismo negam a importância da análise de uma situação revolucionária,afirmam que tudo depende da decisão dos revolucionários e que as condições para a revolução podem a qualquer
    • A análise das condições para uma revolução constitui uma das principais contribuições domarxismo-leninismo para a luta revolucionária. No caso da Comuna de Paris, Marx receava umaacção prematura dos operários parisienses numa situação desfavorável para uma insurreição. Masquando a revolução proletária de 18 de Março de 1871 levou à proclamação da Comuna de Paris,apoiou-a por todos os meios possíveis.Em princípios de Abril, analisando a correlação de forças, Marx compreendeu que as possibilidadesde uma saída vitoriosa para a Comuna eram cada vez menores. Mas ao mesmo tempo valorizoujustamente a grandeza histórica da luta dos operários de Paris, compreendendo que se tratava deuma manifestação até então nunca vista da iniciativa revolucionária criadora das massas populares,e criticando aqueles que viam na actividade da Comuna apenas os erros e as insuficiências8.Lénine desenvolveu mais tarde as condições de uma situação revolucionária, com base nas novasexperiências da luta no seu tempo, assinalando que, para ter êxito, uma revolução deve apoiar-se nomomento de viragem no desenvolvimento da luta em que seja maior a actividade das massaspopulares e em que sejam mais fortes as vacilações nas fileiras dos inimigos e entre os sectoreshesitantes e indecisos. A esse momento de viragem criado num período revolucionário chamouLénine uma "situação revolucionária", durante a qual a energia das massas se manifesta em acçõesque pareciam impossíveis fora dessa situação revolucionária9.Em Portugal viveu-se uma situação assim em 1974, quando o MFA, numa situação em que seregistava o crescimento da acção das massas populares e das forças antifascistas, criou no país umanova correlação de forças, derrubando o governo marcelista e abrindo assim uma brecha que asmassas populares aproveitaram para iniciar o processo revolucionário de 1974-75.Mas não basta que as massas estejam em movimento. É necessário que actuem coerentemente ecom objectivos por elas assumidos. Sem isso pode haver revoltas, mas não revoluções. Umarevolução exige também que haja forças políticas capazes de dar continuidade e tradução política àluta das classes revolucionárias e das massas populares.A falta dessa força política foi uma das razões da derrota da Comuna. Foi tirando essa lição queapós a Comuna se criaram os partidos operários socialistas de massas, organizados à escalanacional. E foi o Partido Operário Social Democrata da Rússia (bolchevique) que, em 1917,conduziu a primeira revolução socialista vitoriosa.Alianças e forças sociais de apoioAs revoluções são feitas por seres humanos. As forças motrizes são as classes, grupos e camadassociais que nela participam e o seu sucesso depende, em larga medida, das alianças que possamcriar-lhe uma base social de apoio para o desencadeamento e sustentação do processorevolucionário.Além do amadurecimento das condições objectivas, a revolução necessita também daquilo a quemomento ser criadas por uma minoria, através de um "foco" funcionando como motor de arranque das massas.Esquecem que esse motor, para funcionar regularmente, exige combustível e oxigénio: apoio organizado das massas.8"A história mundial seria muito fácil de fazer se a luta fosse empreendida apenas sob condição de probabilidadesinfinitamente favoráveis" (K. Marx, Carta a Kugelmann, de 12/4/1871).9O nosso cronista Fernão Lopes, ao descrever a Revolução de 1383, dá uma magnífica descrição da energia das massasnuma situação revolucionária: "dava Deus tal coragem neles e tanta cobardice nos outros, que os castelos que osantigos reis não conseguiam tomar jazendo sobre eles com os seus exércitos, eles os filhavam em uma manhã, debarriga ao sol e sem capitão" (F. Lopes, Crónica de D. João I). Esse mesmo entusiasmo e combatividade das massasnuma situação revolucionária, se registaram na nossa Revolução de Abril.
    • chamamos factores subjectivos, isto é, duma organização das massas populares e classes sociaisinteressadas na revolução que as tornem capazes de manter a coesão e continuidade na luta.Na Comuna de Paris a aliança social de apoio foi constituída, como se dizia nos seus documentos,pelos "trabalhadores da mente e do braço" - operários, artesãos, artistas, intelectuais. Faltou-lhe oapoio doutra força social, em princípio também interessada nos objectivos libertadores da revoluçãoproletária: o campesinato, então largamente maioritário na população.A aliança da classe operária e do campesinato tornou-se, após a Comuna, preocupação fundamentaldo movimento comunista e foi, na revolução socialista russa de 1917, um factor decisivo da suavitória, tendo-se tornado com os seus símbolos, a foice e o martelo, uma imagem emblemática docomunismo10.Hoje o quadro social é mais complexo, não só nos países capitalistas desenvolvidos como em todo omundo. E à volta da sua caracterização trava-se também uma luta ideológica intensa.Um dos temas dessa luta é o anunciado "desaparecimento da classe operária".É certo que o enorme aumento da produtividade com a aplicação da revolução científica etecnológica permitiu um enorme aumento da produção com um menor número de trabalhadores.Modificou também as condições do trabalho, aumentando as exigências do trabalho qualificado eintegrando crescentemente o trabalho intelectual no próprio processo da produção.Mas significará isso o fim da classe operária? O próprio alargamento da produção capitalista aospaíses da Ásia, África e América Latina continua criando milhões de assalariados, proletários.Por outro lado: nos países e sectores de mais alto nível tecnológico, deixarão de ter a condiçãooperária os que asseguram a produção?A identificação da classe operária com o trabalho braçal, físico, é uma evidente redução primária.Foi precisamente a substituição do trabalho manual pela máquina e do esforço muscular pelosmotores que criou, na revolução industrial, a classe operária. A complexificação dos equipamentos,a redução do esforço físico, não altera a função produtiva dos seus operadores e o seu papel noprocesso produtivo.O aumento de produtividade tornou possível libertar do trabalho directamente produtivo uma massacrescente de pessoas, que ficam disponíveis para outras actividades socialmente úteis: serviços,comércio, saúde, etc.. A essas pessoas juntam-se os grupos sociais que ficaram expropriados dosseus meios de produção pela concorrência da produção capitalista (industrial e agrícola) e pelausura bancária.Mas qual é a condição social dessas pessoas?Sendo desprovidos de meios de produção próprios, os seus meios de subsistência, os seusrendimentos dependem da venda da sua capacidade de trabalho, do seu salário (quer se lhe chamevencimento ou ordenado). Em idêntica situação se encontram hoje a grande maioria dos querealizam trabalho intelectual. Por isso, e pelo peso numérico que hoje têm no conjunto dapopulação, a aliança entre essas camadas sociais e a classe operária desempenha actualmente umaimportância decisiva na luta política e social contra a dominação do capital e é indispensável paragarantir a base de apoio social a uma transformação da sociedade.10A Revolução de Outubro alargou também o conceito das alianças revolucionárias, lançando o lema: "Proletários detodos os países e povos oprimidos, uni-vos!".
    • Mas a condição social não determina automaticamente a consciência social dessa condição.Preconceitos sociais, uma longa tradição cultural que identificava classe operária com trabalhofísico e falta de qualificação profissional, privilegiando no apreço social o trabalho "de mãoslimpas" e "colarinho branco", criaram fossos sociais e barreiras que dificultam a sua tomada deconsciência da identidade de condição com a classe operária e a sua inserção na luta política deacordo com essa identidade. Só a própria prática social vai superando essas barreiras, pelaexperiência que a defesa dos seus interesses na luta social vai dando.Significará isso que a aliança da classe operária com o campesinato deixou de ter a importânciafundamental que o movimento comunista lhe atribui, desde a Comuna de Paris e da Revolução deOutubro?Do ponto de vista numérico, o campesinato, os agricultores, não têm hoje o peso decisivo quetinham na primeira metade do séc. XX. Isso não retira porém o valor estratégico que essa classetem, como produtora, ao lado da classe operária, da base material em que se apoia toda amanutenção e desenvolvimento da sociedade.Vias da revoluçãoQuanto às vias de realização da revolução11, desde os tempos do "Manifesto" de Marx e Engels quese pretende identificar os comunistas como cegos partidários da violência.Marx, é certo, considerou a violência como sendo "a parteira da História" - mas referia-se àviolência das classes exploradoras e à luta contra essa violência por parte das classes oprimidas.Mas Marx apontava já, no rescaldo da Comuna, o absurdo dessa versão anticomunista da posiçãocomunista: "nunca afirmámos que este objectivo deve ser alcançado em toda a parte por meiosiguais". "Sabemos que é necessário ter em conta as instituições, os costumes e tradições dosdiferentes países".Marx considerava que em alguns países capitalistas do seu tempo havia condições para que osobjectivos revolucionários fossem alcançados pela luta política e social. Mas alertava que, namaioria dos países, a violência do poder exigia a violência das massas, incluindo a acção armada.O desenvolvimento da luta revolucionária no séc. XX comprovou que, tal como não há "modelos"para a construção do socialismo também não há para a revolução e, em cada país, as formas darevolução dependem das condições concretas em que ela se realiza.Na própria experiência portuguesa o PCP teve isso em conta: não seguiu modelos, analisou ascondições concretas do país.Nas condições da ditadura fascista, considerou que, tratando-se de um regime terrorista apoiado naforça armada, o seu derrubamento exigia a força, com um levantamento nacional apoiado por umaparte das Forças Armadas12.11"A passagem do poder político das mãos de uma para outra classe - escreveu Lénine - é o primeiro, o mais importante,o sinal fundamental da revolução, tanto no sentido científico rigoroso como no sentido político desse conceito". Masno seu sentido lato de revolução social, isto é, de mudança das estruturas económico-sociais, o conceito derevolução abrange todo um extenso processo histórico, com avanços e recuos de acordo com a correlação de forçasem cada país e à escala internacional. Assim foi também com a revolução burguesa, que pôs fim à sociedade feudal.12Programa do PCP para a Revolução Democrática e Nacional - VI Congresso, 1965.
    • Já nas condições de uma democracia avançada, exercida não só no plano político como no planosocial, económico e cultural, no quadro da soberania nacional - objectivo actual da luta do PCP,conjugando a luta eleitoral e institucional com a luta de massas - o caminho do socialismo é o doaprofundamento da democracia13.Valor da memória históricaO grito percursor da Comuna de Paris não foi bem sucedido na sua época. Antecipou-se-lhe comintensa generosidade revolucionária e uma audácia incomum: a de ser a primeira a fazer odescobrimento de um Estado radicalmente diferente. Outros milhões de gritos se lhe seguiram, quese ouviram - e ouvem - no mundo inteiro, ecoando aos quatro-ventos a vontade de um ideal, aqueleque nos diz que isto vai mal enquanto seres humanos se aclimatarem anomalamente à exploraçãopor outros seres humanos.Julgar hoje a Comuna, analisá-la no seu heroísmo e nas causas da sua efemeridade, talvez seja paramíopes leitores da História desnecessário e obsoleto. O certo é que, embora derrotados, oscommunards queriam e viam longe.A História não se faz em linha recta. Balança, segundo as condições que se lhe impõem.A Comuna perdeu por não ter força de vencer. Das razões sabemos nós as causas.Mas a derrota da Comuna é a de uma mãe que morre, pagando o tributo de dar à luz um filho forte,que lhe vai suceder na luta. A Comuna não teve morte vã. Não é por acaso que ainda hoje, 130 anosdepois, a burguesia tem medo dos communards."O Militante" - N.º 252 - Maio/Junho 200113Programa do PCP para uma democracia avançada no limiar do século XXI, XII Congresso, 1988.