ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICASHISTÓRIA DA NORMALIZAÇÃO BRASILEIRA                     São Paulo                 ...
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José Luciano Dias1
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Introdução	        Como é possível produzir um objeto?                	      A manufatura moderna difere do artesanatoComo...
Onde o Estado comandava as relações econômicas               aspectos gerais da cultura material humana e doe sociais, dir...
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George	Agricola.	De	Re	Metallica.	Livro	IX.	Especificações	para	a	construção	de	foles.                                    ...
grandes contingentes de forças armadas e oferecer um        materiais, guarda e manutenção dos navios.desempenho confiável...
construiu cem galeras no espaço de apenas dois              não escondia o fato de que cada navio continuavameses. Em 1573...
Esse esforço de normalização esteve                     competição econômica e militar entre os Estadosassociado, inclusiv...
Jean-Baptiste Vaquette de Gribeauval                 15
João	Francisco	Muzzi.	Da	feliz	e	pronta	reedificação	da	igreja	do	antigo	recolhimento	de	Nossa	Senhora	do	Porto.	         ...
Capítulo 2                        Brasil: das técnicas coloniais                           à sociedade industrial	        ...
Embora voltadas para as necessidades domésticas,              bibliotecas inventariadas entre os séculos XVII e	      algu...
Stradanus,	Nova	reperta	(1580).	Engenho	de	açúcar.                                                 19
Desde logo se deve notar a proximidade              produção de açúcar foi publicado na Bahia, emde origem entre o grande ...
bastavam para induzir uma lenta uniformização de                                      realizadas para a administração just...
“Parecer	sobre	carrinhos	de	mão”.	Revista	do	Clube	de	Engenharia.	1887.                                                  22
materiais era de tal ordem que toda a cantaria de                          uma boa explicação para a emergência de um arti...
Apenas na década de 1850, em outraconjuntura técnica, a metalurgia seria realmenteincorporada à economia brasileira. Tão l...
Carros	de	aluguel	com	quatro	rodas,	em	1887.Acervo:	BMMA/SMC,	SAN/DIM/DPH/SMC                             Aspecto	do	Largo...
um exame técnico de diferentes tipos de carrinhos                                       Mesquita Barros, Frederico Augusto...
NB-1	–	Cálculo	e	Execução	de	Obras	de	Concreto	Armado,publicada em 1940                              27
incluindo a marquise da tribuna de sócios do Jockey                contrário das pontes de aço, podiam ser construídasClub...
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Capítulo 3                                           A ideia de normalização	        O	 avanço	 da	 ciência	 e	 a	 expansã...
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  1. 1. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICASHISTÓRIA DA NORMALIZAÇÃO BRASILEIRA São Paulo 2011
  2. 2. A849h Associação Brasileira de Normas Técnicas História da normalização brasileira / Associação Brasileira de Normas Técnicas. – Rio de Janeiro: ABNT, 2011. 112 p. : il.color. ; 29,7cm. ISBN 978-85-07-02528-3 1. História da normalização - Brasil. 2. Normalização técnica I. Título CDU:006.91(81) Impresso no Brasil / Printed in Brazil Proibida a reprodução total ou parcial. Todos os direitos reservados Copyright© 2011. Associação Brasileira de Normas Técnicas Depósito Legal na Biblioteca Nacional, conforme Decreto n. 1825 de 20 de dezembro de 1907 Associação Brasileira de Normas Técnicas Rua Minas Gerais, 190 CEP 01244-010 - São Paulo - SP Te.: (11) 3017-3600 Fax (11) 301703650
  3. 3. José Luciano Dias1
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  5. 5. A normalização é tecnologia consolidada, que nos permite confiar e reproduzir infinitas vezes determinado procedimento, seja na área industrial, seja no campo de serviços, ou em programas de gestão, com mínimas possibilidades de errar, entre outros aspectos altamente positivos. Justamente por isso, a normalização é fascinante. Elaborar uma norma técnica é compartilhar conhecimento, promover a competitividade, projetar a excelência e suas melhores consequências nos planos econômico, social e ambiental. Como Foro Nacional de Normalização, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT)dedica-se, desde 1940, a disseminar metodologias consagradas e processos inovadores, estabelecendo uma espécie de ponte para o desenvolvimento tecnológico de organizações de todos os perfis. Desafios, crises e, principalmente, grandes conquistas pontuam a trajetória da ABNT e constituem, fundamentalmente, a história da normalização em nosso país. Com certeza, essa história merece ser contada.Pedro Buzatto CostaPresidente do Conselho Deliberativo da ABNT 3
  6. 6. Introdução Como é possível produzir um objeto? A manufatura moderna difere do artesanatoComo sabemos fazer algo, seja um machado ou individual primeiramente pelas diferenças nasuma faca de sílex, um avião ou um tecido, um técnicas de mensuração. Na manufatura, as partes são construídas em conformidade com dimensõestijolo ou um circuito para um computador? Seja ou outras características físicas como definidaspara uso pessoal, seja para uma troca econômica, em um desenho ou especificação. Instrumentosnão basta, para começar, que apenas um homem de medida calibrados segundo padrões desaiba produzir tais objetos. Também não adianta referência são necessários para assegurar oque ele seja capaz de fazê-lo apenas uma vez. cumprimento dos requisitos necessários. Um artesão individual pode construir seu produtoO produto do trabalho humano é o produto da por ajuste ou adequação com uma partesociedade humana, e saber fazer alguma coisa correspondente ou segundo o desejo de seusignifica que muitos homens, no presente e no consumidor. Normas não são necessárias efuturo, em qualquer lugar, em qualquer tempo, frequentemente nenhum instrumento de medição étambém precisam ser capazes de fazer. preciso, uma vez que as características podem ser Na realidade, o conhecimento teórico ou determinadas por ajustes e não por medidas. Um fabricante pode operar um conjunto de normasprático, desprovido dos meios para sua conservação satisfatórias apenas para ele, mas se ele comprae transmissão, pouco significa em si mesmo. O componentes de outros ou distribui seus produtos emtrabalho humano se torna material por meio de competição com outros, ou para ser usado emprocedimentos, regras, instruções, modelos, que conjunção com outros ou com garantia de quepodem ser repetidos, ensinados e aprendidos. cumprirá certos requisitos de desempenho, entãoSem essa condição fundamental – a expressão normas de uso geral são necessárias. (ASTIN, A.V., “Significance of the National Bureau of Standards fordo conhecimento em regras compreensíveis pelo Industrial Progress”. In RECK, 1956, p. 50).outro – a civilização material não tem condiçõesde se reproduzir. Ensinar e aprender a criar são A partir desta transformação, a normaatos que requerem uma linguagem comum. técnica, em seu sentido moderno, começava a As s ociedades humanas sempre dispuseram nascer. Primeiro, naturalmente, por estímulo diretode instrumentos e instituições capazes de atender do Estado; depois, pelas exigências crescentes daa essa exigência. Tão naturais e corriqueiros manufatura industrial. Permitindo a construção deeram, contudo, os veículos da transmissão desse marinhas de guerra e de armamentos em série,conhecimento, que raramente seus registros foram ou oferecendo simplesmente maior confiançasalvos da passagem do tempo. Outras vezes, eles na aquisição e no uso de produtos industriais, oeram tão preciosos que pereceram, silenciosamente, “como fazer”, no sentido técnico da expressão,cercados pelo segredo da profissão, guardados nos começava a ser publicado, divulgado e preservadoarquivos do Rei. de forma sistemática. Em determinado momento, contudo, Assim, imposta pelos governos aos seusna história do Ocidente, certos procedimentos fornecedores ou resultado do mero entendimentoprodutivos, antes rotineiros ou triviais, limitados a de engenheiros, cientistas e empreendedores, auma atividade econômica ou a uma determinada normalização técnica avançará por séculos, graçasregião geográfica, alcançaram um novo patamar. aos impulsos sucessivos da internacionalização doA escala social dos empreendimentos humanos, no comércio e da produção e das vagas de inovaçãocampo da batalha e na economia, tornou evidentes tecnológica. Mais tarde, terão seu peso próprio asos ganhos em eficiência oferecidos pela melhor novas exigências da proteção ao consumidor, àorganização do “saber fazer”. O que antes era saúde humana e ao meio ambiente.regulado pelo hábito ou costume começou a ser Nesse sentido, a norma técnica traz aimpresso em livros e transmitido a outro anônimo. marca da cultura e da economia capaz de criá-la. 4
  7. 7. Onde o Estado comandava as relações econômicas aspectos gerais da cultura material humana e doe sociais, direta será sua influência sobre sua registro das técnicas de produção dos objetos.produção e organização. Onde o conhecimento O segundo capítulo trata da cultura material datecnológico foi disseminado por universidades e sociedade brasileira.empresas privadas, ele nascerá de múltiplas fontes. Em seguida, uma perspectiva global éPor fim, quando os países ordenarem suas relações retomada no terceiro capítulo, que trata dasem um cenário de paz, a norma técnica emergirá. relações entre a normalização e o processo Compreender a trajetória da Norma industrial, do conflito entre os diversos “modosBrasileira, portanto, exige o exame de muitos de fazer” em uma sociedade em transformação edetalhes: as práticas sociais que regem a absorção da organização social da norma.e a transmissão do conhecimento, os diferentes O quarto capítulo retorna à industrializaçãoestágios da civilização material, as relações entre a brasileira e ao seu impacto sobre o “saber fazer”. A suasociedade e o Estado, o papel social do cientista e relação com o Estado, com as organizações sociais edo intelectual, do artífice e do engenheiro. com as formas da comunidade científica e profissional. Este exame oferece, com facilidade, Trata do surgimento da consciência da normalizaçãoseus marcos históricos mais importantes, como a entre as profissões técnicas e da Norma Brasileira noconstituição dos sistemas produtivos pré-industriais, contexto do projeto estatal de Vargas – a criação daa adaptação da cultura europeia, a emergência como Associação Brasileira de Normas Técnicas.nação independente, a formação da comunidade O quinto capítulo trata das relações entrecientífica, a industrialização, as várias correntes de a ABNT e a industrialização brasileira. Examinaabsorção de tecnologia e o convencimento das elites os reflexos da modernização do consumo e dagovernantes. Por fim, a criação e a trajetória da substituição de importações e produz uma breveAssociação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). história técnico-científica das primeiras normasNão é difícil documentar cada um desses passos. oficiais. Mais relevante do que o registro histórico, Por fim, o sexto capítulo examina aserá ampliar a compreensão da ideia da evolução da ABNT e os reflexos da normalizaçãonormalização no Brasil. Afinal, a norma técnica internacional no Brasil e seu papel na crisetem a mesma relevância que uma sociedade ou do modelo de industrialização na década decultura atribui ao conhecimento, à sua preservação 1980. Estuda a emergência da democracia, doe à sua transmissão. Um estudo com esse desenho consumidor moderno e das questões ambientais.tem como objeto, na verdade, as lições que podem Trata dos desafios contemporâneos para aser aprendidas, as lições que ficarão para o futuro. comunidade científica e para a organização oficial Este livro conta essa história e busca essa da normalização e da expansão contínua docompreensão. O primeiro capítulo examinará campo da norma técnica. 5
  8. 8. Jean-Baptiste de Gribeauval. Table des constructions des principaux attirails de l’artillerie. Paris, 1792. Modelo de forja de campanha. 6
  9. 9. Capítulo 1 Governo e conhecimento técnico Antes do século XIX, um registro profissionais e corporativos; não é uma condição histórico preciso das tecnologias empregadas necessária. Por conta disso, por vários séculos, pelas sociedades humanas é raro. O mero curso a aquisição de novas técnicas ocorreu por meio do tempo, as guerras e as revoluções políticas da imigração, captura ou contratação, entre asfizeram desaparecer prédios, documentos, objetos pessoas que as dominavam.e bibliotecas. O próprio progresso tecnológico A c o d i f i c a ç ã o d o c o n h e c i m e n t o contribuiu para apagar o passado. O moderno tecnológico, por razões de ordem prática e por triunfa e o obsoleto e atrasado perecem. Quando considerações de lucro e de segurança, sempre os enciclopedistas franceses decidiram, no final do foi a exceção nas sociedades humanas e não a século XVIII, publicar volumes e volumes contendo regra. Não há razão, portanto, para surpresa com descrições detalhadas das técnicas produtivas de a relativa opacidade do passado.seu tempo, a iniciativa foi considerada ousada e Trata-se de uma questão que vai além potencialmente revolucionária. da mera relação entre o progresso da ciência e Na prática, os marcos deixados pela o desenvolvimento das técnicas produtivas. Uma civilização são sobreviventes e, quase sempre, a relação cujo sucesso, aliás, depende de grandecompreensão precisa de como foram produzidos número de fatores, desde a situação social dosexige pesquisa paciente e incerta. O ritmo da cientistas até as modalidades de financiamento mudança social e econômica nos últimos dois das atividades econômicas. No caso presente, séculos tornou o passado ainda menos transparente o foco do interesse está no próprio mecanismo em termos culturais e também materiais. de transmissão do conhecimento tecnológico, na Os avanços no registro do conhecimento língua em que está expresso, no círculo editorial por meio da imprensa e a complexidade crescente que pode alcançar ou nos recursos gráficos que da produção material deveriam, a princípio, alterar pode mobilizar. esse cenário, mas outros fatores entraram, então, Nesse campo específico, não se trata em cena. de saber se um resultado experimental pode Para começar, apenas em períodos ser reproduzido, mas se um determinadoexcepcionais da história o conhecimento foi equipamento, construção ou procedimento podeconsiderado um bem público à disposição de ser repetido de forma correta e eficaz. Os célebres todos. Além disso, o uso do conhecimento exige o desenhos de Leonardo da Vinci, por exemplo, comando da linguagem escrita, outro bem escasso possuem inestimável valor artístico e denotam uma ao longo dos séculos. Por fim, a complexidade da impressionante imaginação mecânica, mas nem produção material, por sua vez, oferece apenas sempre dispunham de materiais ou instrumentos a oportunidade para a guarda de segredos para sua materialização concreta em seu tempo. 7
  10. 10. George Agricola. De Re Metallica. Livro VIII. Especificações para a construção de moinhos de água. 8
  11. 11. O desenho das especificações Por exemplo, Theâtre des Instruments O primeiro exemplo de uma exposição Mathématiques et Mécaniches (1579), de Jacquesdetalhada e coerente de um ramo tecnológico Besson, professor de matemática em Orleans, traziacapaz, pela precisão de suas especificações e dos uma extensa coleção de instrumentos, máquinas,desenhos de equipamentos, de ser reproduzido bombas e equipamentos militares. Boa parte delespor terceiros talvez seja a obra de George Agricola, utilizava o princípio da rosca e do parafuso, emDe Re Metallica (1556). um evidente empréstimo das ideias de Leonardo Humanista e professor de grego aos vinte da Vinci. Traduzido em várias línguas e com váriasanos, Agricola (1494-1555) passou ao estudo da edições, o Theâtre resiste a um exame crítico demedicina, física e química na Universidade de suas máquinas. (Id., Ibid., p.538).Leipzig e obteve, na Itália, seu título de doutor em Por sua vez, o volume Le Diverse et1526. Em seu retorno à Alemanha, residiu nos Artificiose Machine del Capitano Agostinocentros mineiros Joachimstal e Chemnitz, onde Ramelli nem sempre é mecanicamente corretosuas pesquisas e seus conhecimentos o levaram em suas aplicações, mas certamente teve êxitoà posição de burgomestre, mas sua carreira foiinterrompida pelas turbulências da Reforma. como publicação e como modelo. Ramelli,Agricola permaneceu católico, abandonou a vida um engenheiro militar que serviu a Carlos V epública e recolheu-se aos estudos, cujo fruto mais a Henrique III de França, teve seu engenhosobrilhante é a publicação póstuma de seu tratado tratado publicado em Paris, em 1588, trazendosobre mineração e mineralogia. explicações tanto em francês como em italiano Trata-se de uma coletânea sistemática para 195 desenhos das mais variadas máquinas,de informações, mas seu interesse principal está quase sempre usando rodas d’água como geradorna exposição das aplicações de força motriz às de força motriz.operações de mineração e ao bombeamento de O sucesso editorial não escondia, contudo,água e ar nas minas. Moinhos de vento e de água o aspecto mais delicado desses experimentosestão devidamente apresentados em gravuras, pioneiros no registro e na transmissão de tecnologias. com as especificações necessárias para sua Nem chegava a ser a sugestão eventual de ideiasconstrução e uso no trabalho de transporte de originais não testadas na prática, mas a inclusãomaterial, na retirada de água, na ventilação dos de componentes que requeriam uma manufaturatúneis etc. (WOLFF, 1968, p. 506). precisa sem que seus desenhos fossem apresentados De Re Metallica é tão precisa na sua com especificações de dimensão e materiais. Eracapacidade de transmitir informações técnicas esse cuidado que tornava a abordagem prática deque, por vários séculos, em regiões mineiras do Agricola, que recolhia e sistematizava equipamentosVelho e do Novo Mundo, seus exemplares fizeram em uso, muito mais útil como registro do queparte do cotidiano de mineradores e autoridades progresso técnico.governamentais, merecendo as mais variadastraduções ao longo de seguidos séculos. Suas De todo modo, é evidente a decadênciacentenas de ilustrações são célebres por sua na descrição de máquinas e engenhos nasqualidade artística e técnica e tiveram um impacto décadas que se seguiram à publicação de Ramelli.duradouro sobre o desenho dos equipamentos de Muitas obras foram publicadas com descrições deexploração mineral. moinhos, pontes suspensas, bombas d’água etc., A ideia de uma exposição publicada mas com uma atenção cada vez menor ao desenhoe precisa de procedimentos tecnológicos teria e à precisão das especificações. Apenas na segundaseguidores, nem sempre isentos, contudo, de um metade do século XVIII, às portas da Revoluçãouso mais livre da imaginação e menos atentos à Industrial, voltariam a ser publicados materiaisnecessidade de reproduzir sua construção. semelhantes às obras de Agricola1.1 Esta é a opinião de Wolff (p. 540-541), que cita uma série de publicações situadas entre 1617 e 1734, quase sempre mera compilação de material antigo. 9
  12. 12. Será necessária uma conjunção muito Duque da Toscana, Ferdinando I (1549-1609), aespecial de dois elementos para alterar esse cenário. organizar um novo ramo de artesanato de luxo.Em primeiro lugar, a estabilidade política oferecida Seria, assim, fundada uma Manufatura Real, nopelas instituições estatais modernas, capazes de início do século XVII, para a produção de objetoscoordenar vários tipos de informação e interesses decorados com pedras semipreciosas entalhadas.por meio de sua legislação. Em segundo lugar, a Em qualquer desses casos, porém, ainfluência gradual do conhecimento científico sobre natureza do produto e as características de suaos processos produtivos. Ao mesmo tempo em que produção faziam do artesão o personagem centralaumentava sua eficácia econômica, reduzia o grau de todo o processo. Sua habilidade, conhecimentode segredo, intencional ou não, quer cercava o e experiência eram a verdadeira substância de“saber fazer”. qualquer esforço de padronização. No fundo, Não é preciso muito esforço, por exemplo, o sucesso do empreendimento econômico, porpara detectar maior interesse pela fixação de maior que fosse o empenho do Estado, continuavaprocedimentos produtivos por meios legais no a depender de fatores imponderáveis como acaso da metalurgia de metais preciosos e sua reprodução da mão de obra ou da qualidadeposterior cunhagem. Afinal, era preciso garantir do processo de aprendizado. Por fim, variáveisa continuidade da produção, o cumprimento econômicas, como a escala da produção e asdas prerrogativas reais e, sempre que possível, flutuações do gosto ou mesmo da renda decentralizar o controle sobre o processo de seus consumidores, selaram seu destino. Com ocunhagem. (MAJER, Jirí, “Development of Quality advento da Revolução Industrial, foram reduzidasControl in Mining, Metallurgy, and Coinage in the à condição de artesanato de luxo, sem qualquerCzech Lands”. In JURAN, 1995, p. 259). influência sobre o progresso técnico. Além dos metais preciosos, vários outrosbens de alto valor unitário despertaram o interesse Navios e armasdo Estado moderno, motivando a criação de Um exemplo muito mais importante demanufaturas de sua propriedade. Tecidos de luxo, conjugação do interesse do Estado com o usoarmas especiais, relógios, instrumentos científicos mais consistente da uniformização de processos ée objetos de arte atraíram, em várias circunstâncias oferecido pela produção de equipamentos militares.nacionais, o interesse estatal, seja pelo rendimento Nesse caso, a utilidade do registro documental definanceiro, seja pela facilidade de controlar um procedimentos compensava os seus riscos e a escalaprocesso produtivo de alta complexidade. Sua da produção tendia a reduzir o peso do artesãocomercialização regular, contudo, exigia qualidade individual. Afinal, se as tecnologias civis podiame, por via de consequência, procedimentos para o ser desenvolvidas por mero interesse econômicotreinamento da mão de obra e para a uniformização privado, as armas de fogo, sua construção,dos processos produtivos. produção e uso na terra e no mar apresentavam Os tapetes Gobelin representam um uma complexidade que apenas a interferênciaexemplo famoso, mas a criação de objetos de arte direta do poder político poderia dar conta.com o uso das pietre dure sob o Grão Ducado É importante ressaltar que o objeto dessada Toscana talvez seja o caso mais emblemático discussão não é a construção de canhões especiaisde uma manufatura complexa e praticamente ou armas pessoais de grande qualidade. Artesãosextinta2. O trabalho de composição com rochas poderiam facilmente cumprir essa tarefa sem mobilizarentalhadas teve início para a construção do mais do que o próprio conhecimento e experiência.Mausoléu dos Médici na Sacristia Nova da igreja O problema era de outra natureza: organizar umade São Lourenço e sua boa recepção levou o Grão produção numerosa e uniforme para abastecer2 Em 1662, os ateliês da família Gobelin, de prestígio secular na produção de tecidos e tapeçaria de alta qualidade, foram adquiridos pelo ministro das Finançasde Luís XIV, Jean Baptiste Colbert, e transformados em uma manufatura real. De operação irregular desde então, a Manufacture Nationale des Gobelins existe atéhoje sob administração do Estado francês. (YOUNG, 1930, p. 639). 10
  13. 13. George Agricola. De Re Metallica. Livro IX. Especificações para a construção de foles. 11
  14. 14. grandes contingentes de forças armadas e oferecer um materiais, guarda e manutenção dos navios.desempenho confiável no campo de batalha, quando Na segunda metade do século XV, contudo, ooperado por simples soldados ou marinheiros. Arsenale assumiu outras funções, encarregando- Na produção tradicional de canhões, se, em nome da República, por todos os aspectospor exemplo, as chapas de metal ganhavam sua da construção de navios, incluindo armas,forma por meio da ação física de martelos, sendo equipamentos de navegação e provisões. Tornou-posteriormente soldadas para formar um tubo. O se rapidamente uma das atividades centrais demetal era aquecido e esfriado por várias vezes, toda a economia de Veneza (LANE, 1978).mas sempre restava o problema da estabilidade Se é difícil datar a origem do Arsenale,da costura do tubo (DUNAUD, Michel, “How é certo que seu apogeu ocorreu nas primeirasthe French Arms Industry Mastered Quality”. In décadas do século XVI, quando no curso daJURAN, 1995, p. 417). A rigor, não era necessário guerra contra o Império Otomano a Repúblicao conhecimento científico da metalurgia para de Veneza podia equipar mais de 100 galeras.produzir uma arma utilizável: bastava o acúmulo Um quarto dessas naus poderia ser abrigado emde experiências bem-sucedidas de um artesão. Por docas secas. A fábrica de cordas do Arsenale eraquase dois séculos, mestres artilheiros dominaram um dos maiores edifícios da cidade e a principalesse ramo, transmitindo seu conhecimento de doca (Darsena Nuovissima, inaugurada emgeração em geração. 1473) podia receber, ao final do século XVIII, As necessidades do Estado moderno não 70 galeras, a nave de guerra veneziana porseriam, entretanto, atendidas pelo trabalho de excelência.artesãos dedicados, mas limitados em número. O Não seria exagero afirmar que o Arsenalecontrole sobre a produção de armas e navios de foi a primeira grande empresa estatal moderna,guerra ofereceu, assim, a oportunidade para uma operando de forma contínua e com suas instalaçõesprimeira forma de codificação dos procedimentos distribuídas espacialmente em função tanto doprodutivos e dos materiais empregados. Assim processo de produção como de imperativos deocorreu no estabelecimento dos arsenais de segurança. Procedimentos específicos forammarinha da República de Veneza (CONTERIO, adotados para controlar o desperdício e os naviosAnnalisa e VILLA, Francesco da, “The Arsenale of sem uso eram desmantelados cuidadosamente,the Venetian Republic”. In JURAN, 1995, p. 301). com a recuperação dos materiais empregados É desnecessário se estender sobre a (CONTERIO, Annalisa e VILLA, Francesco da,importância da construção naval para o bem- op. cit., 1995, p. 308).estar econômico e militar da cidade italiana, que A integração das atividades do Arsenale erapassou a controlar boa parte do comércio do completa: além da construção naval propriamenteMediterrâneo a partir do século XII. Mantendo dita, em suas instalações havia uma fábrica delinhas regulares de comércio com centros tão cordas, uma fundição de canhões, docas secas edistantes como Constantinopla, o Cairo e as molhadas, depósitos de armas e munições, áreascidades de Flandres e da Inglaterra, a República de teste para armamento, depósitos de madeirade Veneza encomendava a construção de até e fábricas de remos. Os projetistas dos navios20 navios por ano em meados do século XV, dispunham, inclusive, de escritórios próprios.cuja dimensão podia chegar a 3 mil toneladas O Arsenale também abastecia com material(LUZZATO, 1954). e mão de obra todos os demais estaleiros venezianos, Até então a construção naval era no mar Tirreno e no Egeu. A especialização daconduzida por meio da contratação de estaleiros mão de obra era cuidadosamente administrada,privados, cabendo ao Arsenale di Stato apenas com grandes ganhos em eficiência. Em 1570, paraa responsabilidade pelo armazenamento de uma contraofensiva na ilha de Chipre, o Arsenale 12
  15. 15. construiu cem galeras no espaço de apenas dois não escondia o fato de que cada navio continuavameses. Em 1573, durante uma visita diplomática a ter dimensões próprias e de que não haviado rei Henrique III da França, uma galera teria sido separação entre o desenho e a construção dosmontada em cerca de duas horas. navios. Procedimentos científicos ainda não Nenhuma dessas proezas seria possível sem haviam chegado ao coração do processo produtivouma notável estrutura administrativa, segmentada e Veneza seria inexoravelmente superada pela novapara a produção de armas, navios e insumos, ou abordagem para a construção naval na Inglaterra e,sem procedimentos contábeis detalhados. Também em menor medida, na Holanda.eram necessários controles estritos da qualidade e Outro exemplo importante da relação entreda exploração de matérias-primas estratégicas, as necessidades militares do Estado absolutista e ascomo a madeira, o treinamento constante da mão primeiras experiências de uniformização de processosde obra e o registro da informação associada ao e produtos é a experiência vivida pelas forças armadasprocesso produtivo (Id., Ibid., p. 323). da França. Decretos de Luís XIV reorganizando a Não deve ser motivo de surpresa, portanto, Marinha e seus arsenais, editados em 15 de abril deque as atividades do Arsenale estimulassem 1689, fixavam os procedimentos necessários paraimportantes esforços de normalização. Mesmo garantir a qualidade da fundição dos canhões e dasmantida ainda no quadro tradicional da produção matérias-primas empregadas, regras para rejeitarartesã, a construção naval veneziana registrou peças defeituosas e para assegurar a fabricação dosavanços na uniformização do uso das peças de equipamentos nos pesos e calibres especificadosmadeira e de vários tipos de equipamento. (DUNAUD, Michel, “How the French Arms Industry Se os troncos usados para a definição Mastered Quality”. In JURAN, 1995, p. 419-420).do casco do navio possuíssem dimensões ainda No reinado de Luís XV, a reforma davariáveis, as demais peças, usadas para compor Marinha de Guerra francesa, iniciada em 1765, dariao resto do navio, eram cortadas e armazenadas novos passos para garantir a eficácia da construçãoem tamanhos e formas predefinidas. O maior naval. Foram nomeados engenheiros para aprogresso na normalização foi registrado, supervisão do trabalho dos estaleiros e oficiais dacontudo, na produção de equipamentos e de artilharia para examinar a qualidade da produçãoseus componentes: remos, velas, lemes, mastros, das fábricas de armas. O Duque de Choiseul, entãoarcabuzes, mosquetes, artilharia em geral. Com ministro da Guerra, elaborou um plano completo deo passar dos anos, o Arsenale uniformizou sua equipamento militar, com metas de recrutamento,produção de tal modo que podia ser rapidamente e criou um corpo de engenheiros. A produção detransferida de uma embarcação à outra. navios foi racionalizada e uniformizada. Haveria Essa experiência produziu, naturalmente, modelos predefinidos com 74, 80 ou 110 canhões,um vasto acervo de material técnico, distribuído todos construídos com peças intercambiáveis nosentre publicações, manuscritos e documentos, estaleiros do reino de Brest, Rochefort e Toulon.que hoje constituem parte preciosa do Arquivo de O processo de uniformização foi a seguirEstado de Veneza. estendido a outros ramos das forças militares e o Como vários outros empreendimentos engenheiro Jean-Baptiste Wacquette de Gribeauvalhumanos, a decadência do Arsenale teve suas (1715-1789) foi o primeiro responsável pelo usoraízes no seu próprio sucesso. Seu imenso e dos conceitos de tipo de arma e de intercâmbio deeficiente aparato administrativo foi montado em partes. Tornou-se possível, após 1767, adotar umatorno dos procedimentos tradicionais da produção especificação completa para todo o material de usode navios e sobre a habilidade dos mestres artesãos. militar comprado pelo Estado, das armas de uso naA padronização de componentes e equipamentos artilharia até navios de guerra (Id., Ibid., p. 423). 13
  16. 16. Esse esforço de normalização esteve competição econômica e militar entre os Estadosassociado, inclusive, ao uso de uma metrologia: europeus certamente levou a progressos emtodos os fornecedores deveriam obedecer ao uso do matéria de organização produtiva e os ganhoschamado “pé real”. Gribeauval elaborou também oferecidos pela padronização de procedimentosformas de ensaio de material, como um teste padrão e insumos foram corretamente identificados. Oaplicado aos eixos de ferro utilizados em veículos investimento político e administrativo da Repúblicapara uso militar. Os ensaios podiam ser destrutivos de Veneza em seu Arsenale é o melhor indicador(quando um peso era feito para pender do eixo), de seu impacto sobre a política de segurança doconduzidos por amostragem (dez por vez de cada Estado.lote produzido) e, sempre que possível, realizados de Sua disseminação pelos demais setoresforma pública. produtivos, contudo, foi sempre limitada e não se Gribeauval não chegou a ver o resultado revelava capaz de alterar, por si mesma, o núcleofinal de sua obra, e sua Table des constructions des do processo produtivo. O exercício do poder deprincipaux attirails de l’artillerie foi publicada apenas compra do Estado conseguia obter um fornecimentoem 1792. Em junho de 1794, em plena Revolução de insumos e equipamentos de melhor qualidade,Francesa, uma lei aprovada pelo Comitê de Salvação mas essas atividades sobreviviam como meras ilhasPública criava um laboratório de precisão, núcleo do de maior eficiência. Para mudar esse cenário, erafuturo Laboratório Central do Exército francês. preciso mudar o próprio processo produtivo, e O brilho e a originalidade desses esforços apenas a transformação econômica da Revoluçãonão devem, portanto, ocultar seus limites. A Industrial seria capaz de fazê-lo. Desenho de construção do sistema de canhões de Gribeauval 14
  17. 17. Jean-Baptiste Vaquette de Gribeauval 15
  18. 18. João Francisco Muzzi. Da feliz e pronta reedificação da igreja do antigo recolhimento de Nossa Senhora do Porto. Óleo sobre tela. 1789. 16
  19. 19. Capítulo 2 Brasil: das técnicas coloniais à sociedade industrial Se os limites das primeiras experiências simples do primeiro século da colonização. Não europeias com a padronização de equipamentos, pode ser outra a explicação, por sinal, para a navios e armamentos são bem reconhecidos, a crescente imigração de artesãos de todo o tipo paramera sugestão de um estudo da normalização no a colônia. Com esses homens, vinham as técnicas Brasil colonial pode soar exagerada. A escala e a e o conhecimento europeu, por mais simples que natureza das atividades econômicas indicariam a fossem.prevalência de técnicas herdadas e transmitidas pelo Além disso, a falta de acesso ao mercado decostume, em um espaço econômico caracterizado produtos manufaturados europeus determinava que pela produção local e artesanal, específica de cada uma boa parte dos objetos em uma residência fosse território geográfico. A prevalência do trabalho produzida ali mesmo. Em certos casos, como no dos escravo, por fim, completaria a condenação de produtos têxteis, tecidos de algodão, roupas de cama e sua tecnologia ao seu nível mais elementar. mesa, tapetes e itens de decoração, era evidentemente Esta avaliação é correta para boa parte necessária a transmissão de certas técnicas, por sinaldos tempos coloniais e para a maior parte do dominadas pelas mulheres e trazidas da metrópole território sob controle português. A vida material (Id., Ibid., p. 121-122). O tear para fazer redes era um de suas vilas e de suas cidades permaneceria, por item comum nos inventários coloniais.um longo tempo, limitada ao mínimo pelo baixo Para um olhar moderno, a produção nível de renda da população, por sua densidade doméstica de têxteis pode ser apenas uma rarefeita e pelas dificuldades de importação de bens curiosidade, quando comparada aos produtosde consumo, materiais e equipamentos. É bem manufaturados. Essa distância, contudo, era conhecido o despojamento das casas brasileiras, menos evidente duzentos ou trezentos anos atrás.tal como descritas pelos relatos dos viajantes. A Por sua vez, é certo que a preservação própria natureza provisória da presença na colônia de “modos de fazer” tradicionais, por conta daseria uma boa razão para o baixo interesse em mera necessidade de produzir domesticamente,acumular mesmo bens como móveis e utensílios manteve vivas, por exemplo, técnicas de produção domésticos (ALGRANTI, Leila Mezan, “Famílias indígena. É o caso da fabricação de cerâmicas e e vida doméstica”. In SOUZA, Laura de Mello e outros utensílios para guardar alimentos, cestarias(org.), 1997, p. 110-111). e trançados, redes, vassouras e esteiras. Entretanto, assim que o nível da atividade Finalmente, tal como na Europa, não econômica permitisse o crescimento da renda demorou muito tempo até que a produção doméstica,disponível, tal panorama seria alterado e a história organizada de acordo com técnicas tradicionais,das técnicas produtivas abandonaria o roteiro alcançasse os circuitos comerciais regionais: 17
  20. 20. Embora voltadas para as necessidades domésticas, bibliotecas inventariadas entre os séculos XVII e algumas regiões se especializaram na tecelagem XVIII, mas nota que não é raro encontrar livros e seu produto passou a ser exportado para outras sobre matemática ou ciências naturais (VILLALTA, localidades, como as cobertas fabricadas pelos Luiz Carlos, op.cit., p. 364-365). habitantes de Minas Novas, no início do século XIX [...]. Já sobre o trabalho com as rendas, foi observado que mulheres de todas as origens Um empreendimento oficial ocupavam-se em fazê-las para adornar redes, lençóis e demais panos caseiros. A fim de tornar Naturalmente, o Brasil colonial, sem os tecidos mais atraentes, usavam-se algumas universidades, vivendo sob vigilância estrita em técnicas de tinturaria caseira, aproveitando-se o matéria de publicações e isolado do comércio pau Brasil e o anil e utilizando-se a urina para fixar mundial, estava longe de ser um ambiente a cor. (Id., Ibid., p. 148). propício para a difusão do conhecimento A ausência de instituições formais de científico, mas, nesse tempo, poucos lugares noensino, como universidades e escolas, também mundo eram. Seu mero crescimento econômico,não deve ser motivo para subestimar a densidade contudo, a partir da descoberta do ouro em Minasdo fluxo de informações, inclusive sobre técnicas Gerais, gerava pressões inevitáveis sobre seusprodutivas, nos tempos coloniais. Tal como a sistemas produtivos. Era preciso construir maisprodução de vários tipos de bens, a instrução era prédios oficiais e igrejas, abastecer mais casasum assunto privado, doméstico e informal, mas que com móveis e utensílios de metal, vestir maisbem podia evoluir, por exemplo, no contexto das pessoas, mesas e camas. Tudo isso empregandorelações artesão-professor-aprendiz (VILLALTA, um repertório limitado de tecnologias, passadoLuiz Carlos, “O que se fala e o que se lê: Língua, de geração em geração, sem poder contar com oinstrução e leitura”. In SOUZA, Laura de Mello e uso generalizado da escrita.(org.), 1997, p. 357). Foi deste modo que parte da Assim, quando se olha a tela de Joãoelite colonial teve acesso à instrução, assim como Francisco Muzzi, A feliz e pronta reedificação dacertamente a grande maioria de seus artistas, Igreja do Antigo Recolhimento de Nossa Senhoraarquitetos, construtores, médicos e boticários. do Parto (1789), hoje uma peça dos Museus CastroSeu funcionamento, seu potencial, suas formas Maya, é possível se encantar com a representação doespecíficas para a conservação e transmissão do Mestre Valentim, um homem negro, apresentandoconhecimento são desconhecidos, mas podem a planta da construção a D. Luís de Vasconcellos.ser contemplados de relance nas biografias de Esse era um dos homens que dominavam opersonagens como Antônio Francisco Lisboa, o conhecimento técnico de engenharia e arquiteturaAleijadinho (VASCONCELLOS, 1979), ou Mestre nos últimos anos e, por sua condição social, não éValentim (CARVALHO, 1999). motivo de surpresa que reste tão pouca informação O que realmente faltava à sociedade sobre tal conhecimento.colonial eram os meios e mesmo as razões materiais Pode-se, ainda, perguntar de onde saíram,para o registro histórico-documental das técnicas antes da introdução da máquina a vapor, asempregadas por conjunto de atividades produtivas pranchas de madeira cuidadosamente cortadas,que foi sendo ampliado ao longo dos anos. Nem empilhadas, apresentadas em poucos tamanhosmesmo o acesso aos livros era completamente definidos, ou quem teria construído as carroçasvedado. Bibliotecas, privadas e públicas, eram rigorosamente iguais que transportavam osraras até o século XIX, mas não havia razão, por materiais de construção.exemplo, para censura eclesiástica ou real sobre Duas considerações ajudam, portanto, alivros que tratavam de ofícios mecânicos. Villalta modificar parcialmente um julgamento rigorosonão entra em detalhes sobre o conteúdo de várias das técnicas em uso na sociedade colonial. 18
  21. 21. Stradanus, Nova reperta (1580). Engenho de açúcar. 19
  22. 22. Desde logo se deve notar a proximidade produção de açúcar foi publicado na Bahia, emde origem entre o grande estaleiro veneziano e o 1816 (GAMA, Ruy, op. cit., p. 58).empreendimento português no Brasil: sua direta Além disso, a padronização de moendas,relação com o Estado moderno. O transplante da das rodas de água e dos tachos revela-se umcivilização europeia para a América, sobretudo no resultado inevitável da intensa divisão de trabalhocaso ibérico, não é o resultado do livre trânsito de na produção de açúcar. As várias etapas, dapessoas e objetos, mas de um processo controlado moagem à cura, exigiam articulação especial epelo Estado, para a obtenção de certos objetivos cada uma delas criava oportunidades específicaseconômicos e políticos. de aperfeiçoamento e uniformização, dos rolos das Além disso, desde a instalação da produção moendas às formas do açúcar. Esse processo dede açúcar no Brasil não se pode classificar sua padronização chegaria gradualmente até mesmoeconomia como elementar do ponto de vista técnico. às plantas de seus prédios, com o desenvolvimentoMesmo deixando de lado a especulação sobre o grau de uma arquitetura funcional característica.de padronização dos equipamentos, construções e Não seria exagero afirmar que o engenhomateriais utilizados nos engenhos (GAMA, Ruy, evoluiu na direção de uma instalação fabril e, assim,“História da técnica no Brasil colonial”. In VARGAS também da padronização de seus equipamentos,(org.), 1994b, p. 61-62). é evidente que aspectos processos e instalações.técnicos cruciais para a atividade, como o uso da O engenho chegou mesmo a tocar naenergia hidráulica, requeriam uma construção fronteira da tecnologia de seu tempo em peloinformada dos equipamentos usados pelos moinhos menos duas áreas relevantes: o uso da energia(GAMA, 1983). mecânica pelas rodas d’água e a gestão da energia A documentação técnica e iconográfica calorífica usada pelos fornos e tachos.examinada pelo professor Ruy Gama oferece Dessa forma, à estagnação técnica da manufaturaperspectivas originais sobre a tecnologia envolvida corresponderia um desconhecimento, mesmo ana atividade econômica mais importante nos três nível científico, dos aspectos físicos e químicos das transformações a que se submetia aséculos da colonização. O engenho de açúcar das cana-de-açúcar e seu caldo. Isso pode ser umagravuras históricas está longe de ser, para começar, parte da verdade, mas não serve para explicar ao resultado de um mero acúmulo de experiências estagnação técnica nas colônias, pois foiempíricas locais. Trata-se de um produto direto da exatamente nelas que as máquinas dos moinhosadaptação de tecnologias estabilizadas há séculos, de cereais e de minérios foram adaptadas ecomo os moinhos utilizados na mineração e o uso aperfeiçoadas para seu novo uso. E não apenas máquinas, mas a própria divisão do trabalho, queda força motriz da água. antecedeu o emprego das máquinas A pesquisa científica sobre o melhor desenho especificamente aperfeiçoadas para a produção dopara uma roda d’água data de meados do século açúcar, desceu a níveis pouco comuns para oXVIII e este desenho é decisivo para o melhor século XVI. Da mesma maneira, a arquitetura dosaproveitamento da energia (DAUMAS, 1996, p. 11). engenhos já, pelo menos no século XVII, haviaNa verdade, como mostra Gama, mesmo em um atingido soluções indiscutivelmente adequadas.ambiente colonial, o uso da roda d’água podia (GAMA, 1983, p. 311).ser objeto de estudo e aperfeiçoamento. Trata- Por menos ilustrada que fosse a sociedadese aqui do notável experimento conduzido pelo colonial em termos de difusão do conhecimentoprofessor português e dono de engenho, Manuel científico e por mais dispersa que fosse a própriaJacinto Sampaio de Mello, que pretendia usar um atividade produtiva no território, as exigênciasmecanismo similar a uma turbina para acionar econômicas dos mercados internacionais e a gestãouma roda d’água. Seu livro sobre a reforma da de um processo complexo, para os termos da época, 20
  23. 23. bastavam para induzir uma lenta uniformização de realizadas para a administração justificam maiorequipamentos, plantas e processos. atenção. Nesse caso, a intervenção do poder público As inovações técnicas mais importantes foram a criou as condições e a escala para a uniformização de especialização dos utensílios de manufatura (das prédios e outras instalações, onde devem ser incluídas tachas, por exemplo), o crescimento modular do as igrejas de maior porte e as fortalezas militares. conjunto do engenho (multiplicação das moendas Assim, os conjuntos arquitetônicos coloniais e dos jogos de tachas – já assinalados nas descrições da iconografia do século XVII) e, ainda no Brasil, em seu próprio formato, apontam para a que tardiamente, a adoção dos fornos de tipo uniformização. Compostos pela casa de câmara e inglês e o uso do bagaço como combustível. cadeia, pela igreja ou convento e, eventualmente, (Id., Ibid., p. 315). por um palácio destinado a uma autoridade, eles Um panorama mais complexo também têm suas plantas trazidas de Lisboa ou de Roma, noemerge da análise das técnicas construtivas. caso das igrejas. Suas normas construtivas, por fim,Edificações oficiais como igrejas e prédios públicos, são garantidas pela execução, a cargo dos poucosinstalações militares, grandes estradas, pontes e arquitetos religiosos e militares a serviço da Coroa.mesmo a construção naval, quando construídas Por outro lado, e isso é especialmente significativo,na sociedade colonial, refletiam decisões e técnicas por volta dos anos 1730-40 é emitida pelo rei umaestabelecidas pela metrópole. Antes de existirem no série de cartas de fundação de novas vilas no Brasil.Brasil, eram descritos em decretos e planos oficiais, A importância desses documentos tem sido realçadasendo repetidos em todas as localidades que a por todos os que lidam com a história do urbanismoconveniência política exigisse. A face material da neste período e não é necessário insistir nesse aspecto. No entanto, continuam de certo modosociedade colonial, sua organização urbanística e por esclarecer as circunstâncias precisas de suaseus formatos arquitetônicos parecem semelhantes redação. Questionar a conjuntura de sua elaboraçãoem todas as partes do Brasil e do mundo português obrigaria a rever o papel da intelligentsia ligada a D.não apenas por acaso ou por sua pobreza relativa, João V, incluindo naturalmente Azevedo Fortes emas pelo comando dominante do Estado. outros engenheiros, assim como ao Padre Manuel Esse traço de origem era ainda agravado de Campos e os padres matemáticos. [...] O que está em causa é a criação de cidades cujo desenhopor outro aspecto da sociedade colonial: a virtual é estudado a priori nas várias escalas. Isto é, desdeausência das comunidades responsáveis pelo a concretização formal do núcleo em si, de que são“saber fazer” na metrópole. As corporações de das instruções precisas na carta de fundação, até aofício e o aprendizado tradicional por meio da estruturação do território, para o que sua função derelação entre artesão e aprendiz não eram realidade capital administrativa é pensada. (ARAÚJO, Renata,sociais preexistentes, mas também instaladas por “Com régua e compasso: Lisboa, os engenheiros militares e o desenho do Brasil”. In ARAÚJO, Anauma determinação do Estado. Cristina et alii (org.), 2007, p. 484). Uma primeira área de interesse paraa padronização de técnicas e procedimentos, Uma visão notável do ponto a que chegava aportanto, seria a própria arquitetura colonial, fruto regularidade dos procedimentos construtivos éda interseção de tecnologias construtivas bem oferecida, de relance, por um relatório de Freideterminadas, da adaptação de materiais obtidos Bernardo de São Bento, um dos arquitetoslocalmente e das condições sociais do trabalho. responsáveis pela edificação do mosteiro de SãoAquele conjunto foi definido de forma magistral Bento, no Rio de Janeiro4. Para os elementospor Ruy Gama como as “técnicas do fazer cidades, arquitetônicos mais delicados, que exigissem técnicacasas e coisas”. (Id., Ibid., p. 51). ou material específico, as pedras vinham inteiras, Naturalmente, das três áreas da atividade nas formas necessárias, devidamente produzidasde construção civil na Colônia3, apenas as obras na Metrópole. A padronização das plantas e3 A tipologia é fixada por Júlio Roberto Katinsky, no artigo “Sistemas construtivos coloniais”. (VARGAS (org.), 1994b, p. 68). São analisados os sistemas construtivosdedicados às instalações produtivas, às atividades administrativas e à sociedade em geral.4 A referência oferecida por Katinsky sobre o relatório é a obra de Dom Clemente da Silva Nigra, “Construtores e artistas do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro”.Salvador, Tipografia Beneditina, 1950. (VARGAS (org.), 1994b). 21
  24. 24. “Parecer sobre carrinhos de mão”. Revista do Clube de Engenharia. 1887. 22
  25. 25. materiais era de tal ordem que toda a cantaria de uma boa explicação para a emergência de um artistauma igreja poderia vir de Portugal, sendo montada como Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.no Brasil. Como nota Katinsky, é o caso da Igreja A padronização de plantas e materiaisde Nossa Senhora da Conceição da Praia, em da arquitetura governamental na Colônia, sejaSalvador (KATINSKY, Júlio Roberto, op.cit, p. 80). civil ou religiosa, pode ser mais visível e regulada A razão do procedimento era simples. pelos sistemas oficiais de gestão do conhecimentoOs aspectos construtivos que exigiam um técnico, mas a atividade de construção, mesmo emnível tecnológico e confiabilidade um pouco ambientes não industriais, pede uniformização. Nomaior, como o uso de ferramentas metálicas território brasileiro, a difusão regular de técnicas deou materiais adequados para uma fundação construção de menor custo, mas bem delineadas,ou pilastras, não poderiam ficar a cargo dos como o pau a pique ou a taipa de pilão, justifica seutrabalhadores coloniais, distantes das práticas estudo por meio de conceito de sistema construtivocorporativas de transmissão do conhecimento (KATINSKY, Júlio Roberto, op. cit., p. 81). técnico. O próprio governo metropolitano Os limites do “saber fazer” em umprocurava garantir que essas exigências ambiente colonial são, contudo, bem delimitados,fossem cumpridas. Na própria reconstrução e o caso da metalurgia oferece um contrapontode Lisboa, após o terremoto de 1755, o interessante. Nesse campo, sempre houve interesseprocedimento se tornou explícito e oficial: oficial em conter a expansão da atividade, por razões econômicas e de segurança, e mesmo Mas sabemos também que a construção, que se arrastou em dificuldades econômicas naturais, mas sem jamais, a Metrópole não tinha muito o que oferecer em ao longo de cem anos, perder rumo e responsabilidade matéria tecnológica. em problemas de acertos de terrenos entre proprietários, Seja como for, a criação dos “engenhos de teve uma característica inovada, para satisfazer custos e ferro” torna-se esporádica a partir do século XVII, urgências, que foi de pré-fabricação de elementos e sua primeiro na forma de fundições e, mais tarde, com estandardização. Pedras e madeiramentos, tijolos e ferraria, processos tradicionais de forja, sempre em resposta azulejos também, de rodapés, tudo isso era transportado às necessidades mais prementes de utensílios de ferro para os locais de seu emprego sistematizado [...]. Mais ou aço, em regiões cuja demanda não era atendida seguros, assim, de suas pessoas e bens, os lisboetas deviam afazer-se a uma nova maneira de habitar – em prédios de pelo comércio português. Jamais conseguiram, série, por igualdade de projeto, e circulando em suas ruas entretanto, sustentabilidade econômica, mantendo- retilíneas, com novas utilizações de espaço e tempo, por isso se em níveis mínimos de desenvolvimento técnico. mesmo. (FRANÇA, José Augusto, “Mutações pombalinas Também não se livraram dos ciclos de intervenção ou o pombalismo como mutação”. In ARAÚJO, Ana do governo metropolitano, que nunca se decidiu Cristina et alii (org.), 2007, p. 17). se proibia ou permitia a atividade metalúrgica É curioso notar que enquanto os na colônia (LANDGRAF, F., TSHIPTSCHIN, A.procedimentos de maior custo e alguma e GOLDENSTEIN, H., “Notas sobre a história dacomplexidade ficavam reservados, no Brasil, para os metalurgia no Brasil (1500-1850)”. In VARGASaspectos construtivos fundamentais produzidos na (org.), 1994, p. 107).Metrópole, todo o resto da decoração de uma igreja Com a transferência da Metrópole para oera responsabilidade dos artesãos locais. Liberados Brasil, o problema da intervenção do governo foide maiores obrigações técnicas, podiam então exibir superado e D. João VI patrocinou o modelo dassua criatividade na seleção de materiais encontrados Fábricas Reais, instaladas em São João do Ipanemana colônia, como madeiras ou pedra-sabão, e na (1810) e no Morro do Pilar (1812). Engenheirosdefinição de modelos estéticos. Katinsky observa estrangeiros foram contratados para a gestão dosque o surgimento de uma comunidade crescente empreendimentos, mas a incerteza tecnológica,de artesãos, operando nas margens de um sistema que também não havia sido ainda resolvida naconstrutivo administrado pela Metrópole, constitui Europa, terminou selando o destino de ambos. 23
  26. 26. Apenas na década de 1850, em outraconjuntura técnica, a metalurgia seria realmenteincorporada à economia brasileira. Tão limitada foi adifusão das técnicas e experiências do período colonialque seu registro histórico, em material publicado oudocumental, é escasso, incerto e, por vezes, dependemesmo de um trabalho arqueológico.O trem e a estrada de rodagem Uma conexão realmente moderna entreconhecimento técnico e atividade industrial seriaformada no Brasil apenas com o desenvolvimentodo transporte ferroviário. Surgiram, então, asprimeiras condições para uma maior consciênciada importância da normalização de processos emateriais. Após uma fase de incertezas, marcada porverdadeiros experimentos empresariais, as ferrovias,a partir de meados do século XIX, se apresentavamcomo a solução perfeita para os seculares problemasde comunicação e transporte no interior brasileiro.O marco histórico relevante foi a construção daEstrada de Ferro de Petrópolis (1852-1854), seguida generalizada de pontes de ferro; mais tarde, pelopela iniciativa inglesa de ligar as cidades de Santos uso crescente do concreto armado.e Jundiaí. Não se trata, aqui, de contar novamente Por fim, houve a necessidade de criar aa história do transporte ferroviário no Brasil, objeto infraestrutura para a manutenção das estradas dede uma extensa produção bibliográfica. Do ponto ferro, das vias e de seus equipamentos. Foramde vista que nos interessa, basta registrar que sua estabelecidas no Brasil oficinas metalúrgicasexpansão no Brasil criava três domínios relevantes relativamente sofisticadas, que deveriam serpara a consciência da normalização. capazes de produzir e reparar trilhos, estruturas de O primeiro deles, naturalmente, foi a questão pontes, máquinas, rodas de metal etc. De algumtecnológica tradicional das bitolas (PUFFERT, 2009), modo, os engenheiros brasileiros começavam ao caso clássico de disputa econômica em torno de envolver-se com atividades – a construção civilnormas técnicas. O Brasil não escapou nem das e a metalurgia de material ferroviário – que, naconsequências da diversidade de bitolas – o isolamento Inglaterra, estiveram na origem das primeirasdos sistemas construídos de forma independente - formas institucionais de normalização.nem da observação consciente do problema (SOUZA, Na verdade, a conexão entre o prestígioAntônio Francisco de Paula, 1876). crescente da profissão de engenharia e o O segundo foi o investimento necessário ordenamento da vida econômica social podia seem obras de engenharia – as chamadas “obras estender em direções surpreendentes, mesmo emde arte”- como pontes e túneis. Pela primeira vez, uma sociedade pré-industrial, mesmo em umaengenheiros brasileiros sentiram a necessidade economia ainda escravocrata.prática do conhecimento científico da natureza e Em 8 de outubro de 1887, um parecer dodo comportamento dos materiais de construção Clube de Engenharia respondia à demanda denacionais e estrangeiros. De início, pela importação uma “Empresa Ambulante Doméstica”, que pedia 24
  27. 27. Carros de aluguel com quatro rodas, em 1887.Acervo: BMMA/SMC, SAN/DIM/DPH/SMC Aspecto do Largo da Sé, por volta de 1910. Acervo: SAN/DIM/DPH/SMC 25
  28. 28. um exame técnico de diferentes tipos de carrinhos Mesquita Barros, Frederico Augusto Liberalli ede mão que seriam oferecidos ao serviço do Frederico Augusto de Vasconcellos.mercado ambulante. Nada menos que dez tipos A história da normalização brasileirade carrinhos de mão foram levados à consideração começaria, contudo, a ser contada quando, nasdos engenheiros. primeiras décadas do século XX, o interesse das elites São carrinhos para tração braçal, assentos sobre brasileiras no transporte ferroviário foi substituído um só eixo fixo, que tem em suas extremidades pelo entusiasmo com o automóvel e com a civilização duas rodas móveis de 50 a 70 centímetros de urbana criada pela estrada de rodagem. diâmetro, os dois varais por meio dos quais se dará Não é por acaso, assim, que se vê o o impulso servem de apoio à mesa e ligam-se ao eixo por meio de molas curvas, havendo no centro engenheiro Antônio Francisco de Paula Souza de cada varal um descanso de ferro, destinado a (1843-1927) na origem do que pode ser considerada dar-lhe posição horizontal, quando os carrinhos a primeira instituição de pesquisa tecnológica do estiverem em repouso. (Revista do Clube de Brasil: o Gabinete de Resistência de Materiais da Engenharia, nº 10, outubro de 1887, p. 100-103). Escola Politécnica, formalmente criado em 18995. A partir dessa estrutura básica, as dimensões Em torno dessa instituição, seriam formados osdos vários compartimentos e sua disposição seriam laços entre engenheiros europeus, promotores do usoadaptadas às mercadorias vendidas. Quando do concreto armado na construção civil e da pesquisadestinados à venda de produtos frescos, como tecnológica aplicada no Brasil (VASCONCELLOS,verduras e carnes, eles seriam perfeitamente Augusto Carlos de, “História do concreto armado noventilados, além de contar com depósitos para gelo, Brasil”. In VARGAS (org.), 1994a).sem contato direto com as mercadorias. Quando A participação estrangeira começadestinados à venda de doce, pão, objetos de pela chegada ao Brasil, em 1903, do professorarmarinho e cigarros, teriam portas envidraçadas. Wilhelm Fischer, da Eidgenossische TechnischeOs carrinhos para cigarros teriam também um Hochschule, de Zurique, para dirigir o Gabinete ecompartimento para expor os bilhetes de loteria. acompanhar a instalação de seus equipamentos. Em seu parecer, os engenheiros afirmam que Dois anos depois, o Grêmio Politécnico jáos carrinhos não representavam nenhuma invenção, publicava um Manual de Resistência de Materiais.mas reconhecem que sua construção foi bem estudada Ao final da década, as primeiras construções dee recomendam sua adoção pelo mercado ambulante: prédios e pontes em concreto armado, com o uso Melhor acondicionados os gêneros que tiverem de de cálculos científicos e testes de materiais, são ser levados ao consumidor, facilitando-se ao mesmo registradas no Brasil6. tempo o serviço de transporte, está claro que A expansão do uso do concreto armado considerado do ponto de vista higiênico lucrará a população. (Revista do Clube de Engenharia, também contou com o direto interesse de escritórios nº 10, outubro de 1887). estrangeiros no mercado de construção brasileiro. Os engenheiros advertem ainda que uma O engenheiro francês François Hennbique émunicipalidade interessada em uma boa situação ativo desde a primeira década do século XX, esanitária deve se preocupar com a solução oferecida a famosa firma alemã do pioneiro dos estudospelos carrinhos. No mínimo, eles serviriam para científicos sobre concreto, Gustav Adolph Wayss,“acabar com os repugnantes balaios e tabuleiros” operava no Brasil, de forma indireta, desde 1913(Revista do Clube de Engenharia, nº 10, outubro e, oficialmente, desde 1924.de 1887), pouco próprios a uma cidade como A importância e o pioneirismo do uso doo Rio de Janeiro, como “foros de civilizada”. concreto armado no Brasil proporcionaram umaO parecer é assinado por Feliciano Mendes de extensa lista de recorde na construção de estruturas,5 Antônio Francisco de Paula Sousa (1843-1917), filho do senador Francisco de Paula Sousa e Melo, primeiro-ministro durante o Império, teve uma brilhante carreiratécnica e política. Estudou engenharia na Suíça e na Alemanha e voltou ao Brasil em 1871 para se tornar um dos maiores especialistas em transporte ferroviário. Republicano,foi eleito deputado estadual em 1892 e presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo. Foi criador da Escola Politécnica de São Paulo. Foi também ministro dosTransportes do governo Floriano Peixoto, em 1893.6 Há uma longa disputa por primazia nesse campo, mas é certa a notícia da construção de uma ponte em concreto armado sobre o rio Maracanã, no Rio de Janeiro, em1908, e de um prédio com a mesma técnica na Rua Direita, em São Paulo, em 1909. (VASCONCELLOS, Augusto Carlos de, op.cit., p. 93). 26
  29. 29. NB-1 – Cálculo e Execução de Obras de Concreto Armado,publicada em 1940 27
  30. 30. incluindo a marquise da tribuna de sócios do Jockey contrário das pontes de aço, podiam ser construídasClube do Rio de Janeiro (1926); o edifício Martinelli, em qualquer ordem e o transporte dos materiaisem São Paulo (construído entre 1925 e 1929), à época podia ser feito de forma bem mais simples. Os perfiso maior prédio em concreto armado do mundo em metálicos também não podiam ser uniformizados,área; e o célebre edifício “A Noite”, no Rio de Janeiro, porque precisavam ser adequados ao traçado, construído entre 1928 e 1931 como o mais alto enquanto as pontes de concreto podiam ser feitas naedifício de concreto no mundo (VASCONCELLOS, forma de módulos.Augusto Carlos de, “História do concreto armado no O pioneirismo do esforço no mundo eBrasil”. In VARGAS (org.), 1994a, p. 81-82.) sua escala no Brasil dependeram, naturalmente, Nenhuma obra, contudo, representa mais de pesquisa realizada no próprio país, sobre oo momento vivido pela engenharia brasileira nesse uso do cimento e sobre a resistência dos materiaismomento do que a ferrovia Mairinque-Santos, cuja empregados. Não admira, portanto, que aconstrução foi dirigida pelo engenheiro Humberto intensidade das atividades do Gabinete levasse àFonseca a partir de 1927. sua transformação no Laboratório de Ensaios de [Fonseca] lutou durante anos até conseguir impor Materiais, em 1926, sob a direção do engenheiro Ary o uso do concreto armado, considerado por Torres. Em seu Boletim nº 1, o Laboratório publicaria muitos engenheiros do Brasil e da Europa como material inadequado para ferrovias por causa da justamente um trabalho de Torres, Dosagem de fissuração e do carregamento repetitivo. Concretos, como registra Vasconcellos: A dificuldade de justificativa era enorme por falta Constitui uma obra histórica, servindo de base de experiência estrangeira, por falta de para tudo o mais que se fizesse no Brasil e até hoje conhecimento tecnológico e principalmente pelo ainda é utilizada para ministrar aos alunos as interesse dos ingleses de venderem seus perfis de primeiras noções de dosagem (Id., Ibid., p. 93). aço. (VASCONCELLOS, Augusto Carlos de “História do concreto armado no Brasil”. Como será visto à frente, a combinação In VARGAS (org.), 1994a, p. 106). entre as atividades de Ary Torres e o triunfo da As vantagens econômicas eram bem tecnologia do concreto armado no Brasil está naparticulares. Todo o material de construção seria raiz da criação da Associação Brasileira de Normasnacional; as pontes de concreto de uma estrada, ao Técnicas (ABNT). 28
  31. 31. 29
  32. 32. Capítulo 3 A ideia de normalização O avanço da ciência e a expansão do imposta, de forma voluntária ou compulsória, aos comércio mundial são condições necessárias para processos produtivos.a institucionalização da elaboração de normas Em condições ideais, é fácil sugerir que o técnicas, mas não bastam, por si mesmos, para Estado seria o melhor instrumento para superar iniciar esse processo. Foi necessário que as este problema de ação coletiva. Ao final do século relações econômicas entre as nações envolvessem XIX, contudo, a intervenção dos governos no produtos de maior sofisticação e conteúdo técnico domínio da economia estava longe de ser objeto de para que emergisse a necessidade de compatibilizar consenso entre líderes políticos e empresariais. Não diversas estruturas tecnológicas e sociais. No parecia simples imaginar com que procedimentossentido próprio do termo, não há norma técnica legais poderiam ser contidas as pressões da antes da revolução industrial e da formação dos competição econômica. Sob certa perspectiva, um mercados mundiais desses novos produtos. O empreendimento dessa natureza assumia os traçosdesenvolvimento dessas novas tecnologias data de mais uma utopia social de fim de século. das últimas décadas do século XIX7. Além disso, sempre havia faltado poder Em vários setores da economia, havia e interesse aos Estados para impor normas pressões para a harmonização de processos e compulsórias. “O processo é custoso e complexo produtos, canalizadas pelo comércio e pelo consumo, demais para estar ao alcance de legislaturas oumas o elemento decisivo seria o desenvolvimento da burocracias” (MURPHY e YATES, 2009, p. 9). siderurgia e do uso da energia elétrica na Europa Em contrapartida, muitos atores sociais privados, e nos Estados Unidos. Estes setores tornaram como associações, técnicos, consumidores, indispensável a normalização. Na prática, mesmo empresas etc., têm grande interesse na fixação de quando as normas técnicas não são essenciais para normas e poderiam se dispor a sustentar os custosa conexão entre os processos tecnológicos, elas da ação coletiva necessária para queimar etapas definem os termos da competição econômica e, por que o mercado levaria muito tempo para cumprir consequência, a própria natureza da inovação8. por si mesmo. A normalização, em escala mundial, de Mesmo que engenheiros e empresas produtos ou processos representava, contudo, resolvessem o problema de ação coletiva, havia outro um problema de ação coletiva. As empresas dilema igualmente sério. A normalização internacional precisavam estar convencidas de que colheriam teria de se manter alinhada com o processo de ganhos econômicos concretos para dedicar recursos mudança tecnológica. No ritmo intenso com que o humanos, tempo e dinheiro à elaboração de conhecimento científico transformava a produção normas. Tais ganhos deveriam superar, inclusive, industrial ao final do século XIX, era evidente a os custos de uma maior regulamentação que seria possibilidade de que normas envelhecessem com 7 Normalização, tal como definida pelo Vocabulário Geral da ABNT, é uma atividade que estabelece, em relação a problemas existentes ou potenciais, prescriçõesdestinadas à utilização comum e repetitiva com vistas à obtenção do grau ótimo de ordem, em um dado contexto. Em particular, a atividade consiste nos processos deelaboração, difusão e implementação de normas. A normalização proporciona importantes benefícios, melhorando a adequação dos produtos, processos e serviços àsfinalidades para as quais foram concebidos, contribuindo para evitar barreiras comerciais e facilitando a cooperação tecnológica.8 Murphy e Yates retiram o conceito de um artigo de Jean-Daniel Merlet, “Normalisation, réglementation, innovation dans la construction: opposition ou complémentarité”?.Annales des Ponts et Chaussées, 95(2000), p. 20-27. 30

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