Revista OPINIAS - nº 03 - Agosto 2014
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Uma revista de ideias, opinião e pontos de vista

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Revista OPINIAS - nº 03 - Agosto 2014 Revista OPINIAS - nº 03 - Agosto 2014 Document Transcript

  • OpiniasUMAREVISTA DE IDEIAS, PENSAMENTOS E PONTOS DE VISTA CONHEÇA O PSICODRAMA O BAILE Muitos não são convidados NEPAL Surpresa em cada esquina SENTIDOS O valor da audição Ano I - nº. 3 Agosto - 2014 OS FUNDAMENTOS DO TEATRO DE IMPROVISO USADOS COMO TERAPIA
  • Opinias - Agosto 2014 22222 Editorial Sumário Expediente Vivemosnumaconstantetentativadedarànossavida algum equilíbrio para seguir na busca de nossos anseios e objetivos. Talvez o que mais se busque, na verdade, seja “essa tal felicidade”, algo que nem sempre conseguimos definir exatamente o que seja. Martin Seligman, o pai da psicologia positiva, teoriza que, apesar de 60% da felicidade ser determinada pela genética e pelo ambiente, os 40% restantes cabem a nós. Segundo ele, existem três tiposdevidasfelizes:avidadeprazeres,naqualvocêenche sua vida com quantos prazeres puder, a vida do envolvimento, em que você encontra a vida no trabalho, em ser pai, no amor e no lazer, e a vida que tem sentido, aquelaque“consisteemsaberquaissãosuasmaioresforças e, também, em saber usá-las para servir e fazer parte de algo maior que você mesmo”. Concordando ou não com esse enfoque, o importante é não desistirmos da busca. Mas é preciso estar atentos, pois enquanto percorremos nossa trajetória, vamos nos deparando constantementecomsituações,lugares,fatosepessoasque semprenospermitemacrescentarumelementonovoànossa bagagemvivencial.Ouseja:oprópriopercurso,naverdade, nos mostra pequenos insights da felicidade que buscamos com muita constância. Nem sempre nos damos conta, é bem verdade, e com isso podemos estar deixando passar uma parte muito importante do processo. Na busca pela felicidade, tudo serve ao engrandecimentoeàconstruçãodenossavida.Assim,esta edição de OPINIAS traz um pouco da percepção de diversosautoressobreosmaisvariadosassuntosevivências, como umaformadecontribuiçãoparaquecadaleitorpossa ter as suas próprias convicções e traga para seu cabedal aquilo que entenda ser mais útil e apropriado para a construção de seu templo interior. OPINIAS - ANO I - nº. 3 - Agosto 2014 - Publicação virtual mensal da Rumo Editorial Produções e Edições Ltda. * Diretores: Marcos Gimenes Salun, Luciana Gomes Gimenes e Naira Gomes Gimenes * Editor e Jornalista Responsável:: Marcos Gimenes Salun (MTb 20.405-SP) * Revisão: Ligia Terezinha Pezzuto (MTb 17.671-SP). *Redação e Correspondência: Av. Prof. Sylla Mattos, 652 - cj.12 - Jardim Santa Cruz - São Paulo - SP - CEP 04182-010 E-mail: rumoeditorial@uol.com.br - Tels.: (11) 2331-1351 Celular (11) 99182-4815. BLOG: http:/ /opinias2014.blogspot.com.br/ * Colaboradores desta edição: Carlos Augusto Ferreira Galvão (SP), Sérgio Perazzo (SP), Cleusa Badanai (SP), Luciana Gomes Gimenes (SP), João Baptista Alencastro (GO), Hélio Moreira (GO), Carlos Eduardo de Oliveira (SP), Heraldo Paarmann (SP), Alessandra Leles Rocha (MG), Roberto Antonio Aniche (SP), Luiz Khashoggi (RJ), Victor Eustáquio (Portugal) e Aline de Melo Brandão (PA). Matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores a quem pertencem todos os direitos autorais. PERMITIDA a reprodução dos artigos desde que citada a fonte e mencionada a autoria. MARCOS GIMENES SALUN Jornalista São Paulo - SP msalun@uol.com.br Sobre felicidade Participe! Envie seu artigo ou comentários e embarque nesta aventura: rumoeditorial@uol.com.br 03 Alccolismo Carlos Augusto Galvão aborda causas, consequências e indica caminhos para esse problema 04Psicodrama Sérgio Perazzo mostra um painel histórico dessa terapia no Brasil e uma abordagem da morte sob o olhar psicodramatista. 08 Cores Cleusa Badanai 09 Internet Luciana Gomes Gimenes 10 João Baptista Alencastro esteve nos frios rincões do Nepal e mostra um pouco de sua aventura Nepal 12Bailes da vida Muitos acabam ficando do lado de fora dos bailes mais suntuosos..É o que Helio Moreira aborda nesta análise social. 14 Carlos Eduardo de Oliveira Vinhos 16 Audição Heraldo Paarmann 18O melhor da festa Todo mundo gosta de festas. Mas quando ela termina, os resultados podem ser decepcionantes. É do que trata Alessandra Leles Rocha. 20O extinto Dodô O médico e filatelista Roberto Antonio Aniche mostra um estudo sobre um dos temos de suas coleções: o pássaro Dodô 23 Crônica Victor Eustáquio 22 Arquitetura Luiz Khashoggi 24Lendas da Amazônia Aline de Melo Brandão
  • Opinias - Agosto 2014 33333 Por CARLOS AUGUSTO GALVÃO Psiquiatra São Paulo - SP carlosafgalvao@terra.com.br Desde há muito tempo o homem convive com o álcool;escriturasreligiosasantigasjácitamesta substância:Areligiãojudaicacitaumasjovensque, preocupadas com a falta de varões na comunidade ondeviviam,resolveramembriagaropai,para deitarem com ele e dele conceberem. No Cristianismo observamos que Jesus, na Santa Ceia, elegeu o vinho como representante de seu sangue e orientou seus seguidores que o bebessem em sua memória. Nos dias de hoje o álcool, apesar de ser complemento lúdico, representa uma das maiores preocupações universais devido à doença que ele gera: o alcoolismo, que destrói organismos, famílias e sociedades. O alcoolismo acontece devido a duas grandes vertentes humanas: a genética e o conteúdo cultural dos indivíduos. Existemfamíliasemqueaincidênciadoalcoolismo mostraclaramenteocomponentegenético,umavez que esta doença se espalha pelas gerações, mas não pode ser subestimado o fator cultural, visto que tal doençatambémapareceemindivíduosdefamíliassem evidênciadofatorgenético. Criançascostumamimitaradultos,esempreouvem: “Isto é coisa de gente grande”. Para elas (as crianças) se beber é coisa de gente grande, isto serve de estímuloaoconsumodoálcool,principalmenteno caso dos adolescentes, já que passam a consumir cerveja, por exemplo, para se mostrarem mais adultos. Podemos dizer que hoje pelo menos a metade dos leitos hospitalares do Brasil estão ocupados por doenças relacionadas com o álcool.Apartir daí imaginemos o impacto do álcool nas sociedades em geral. O álcool pode levar um indivíduo ao ridículo, a acidentes ou ao crime. Ao rebaixar a cautela, o senso crítico e a cognição do indivíduo, pode levar este a atitudes impensadas, intempestivaseimpulsivas.Aorebaixaro discernimento, leva o indivíduo a colocar a sua e a vida dos outros em risco, como observamos, por exemplo,nosindivíduosembriagadosquedirigem veículos. Há relatos de um padre católico que, estando em estado de embriaguês numa missa de corpo presente, chegou perto do defunto e falou em altos brados: - “Levanta e anda!”. Imaginem o constrangimento. Como se deve combater o alcoolismo?Amaneira mais simples seria proibir a fabricação e comercializaçãoalémdecriminalizaroconsumo.Jáfoi tentado nos EUA e de nada adiantou; o consumo não caiueacriminalidadeaumentou,poisestasubstância ficounasmãosdefacínoraseorganizaçõescriminosas. Além do que não se pode perder de vista que bebidas alcoólicas são pautas importantes na economia de alguns países, como a França, por exemplo, onde o vinho se apresenta com um de seus principais produtos de exportação. Campanhas sanitárias de esclarecimentoteriammuitaimportânciaparadebelar, ouaomenosdiminuiraincidênciadestamoléstia. O alvo principal destas campanhas deveria ser os que estão mais expostos ao alcoolismo: as crianças e jovensoriundosdefamíliasemqueaincidênciado alcoolismo se mostra mais acentuada, esclarecendo e mostrando o mal que esta substância causa na vida dosindivíduos,inclusiveascrisesqueseguramente enfrentamdentrodesuasprópriasfamíliase responsabilizando o abuso do consumo nestas crises. Alcoolismo
  • Opinias - Agosto 2014 44444 Por SÉRGIO PERAZZO Psicodramatista e escritor São Paulo - SP serzzo@terra.com.br O psicodrama foi trazido para o Brasil no fim da década de sessenta por alguns pioneiros, encantando profissionais da área de psiquiatria, psicologia e, consequentemente, psicoterapia e educação. Não só a força da sua técnica, como a possibilidade de sua aplicação menos elitizada em trabalhos com grupos, tanto em sua vertente clínica, quanto educacional e comunitária, acenavam com promissoras possibilidades num país que vivia sob forte repressão de uma ditadura militar que subjugou o país por mais de 20 anos. Foi nesse terreno, a partir dos pioneiros já mencionados e contatos feitos em congressos, que um grupo de profissionais contratou Rojas-Bermudez, um psicodramatista colombiano radicado na Argentina, para iniciar, regularmente, a formação psicodramática de profissionais brasileiros em São Paulo. Assim se constituíram os primeiros grupos de psicodrama no Brasil, que formaram os primeiros professores brasileiros de psicodrama. Entre estes primeiros psicodramatistas brasileiros, era possível encontrar vários profissionais destacados e já muito conhecidos, como alguns psicoterapeutas reconhecidos por seu trabalho clínico, chefes de serviços de psiquiatria e de psicologia, alguns professores universitários etc, o que, desde o início, deu peso e credibilidade ao psicodrama no Brasil. Em 1970, este grupo de psicodramatistas organizou no Museu de Arte de São Paulo (MASP) um congresso internacional de psicodrama, em que foram realizados diversos psicodramas públicos, ao ar livre, num Breve história do PSICODRAMAPSICODRAMAPSICODRAMAPSICODRAMAPSICODRAMA no Brasil espaço arquitetônico do MASP diretamente aberto para a Avenida Paulista, à vista de todos. Esse congresso mereceu ampla divulgação pela mídia e ampla pressão dos órgãos de governo, incluindo uma tentativa de censura oficial. O próprio Moreno foi convidado e era esperado, mas, acabou desistindo de comparecer, em parte também por não concordar com a orientação geral de Rojas-Bermudez, fato que só passou a ser confirmado com mais clareza muitos anos depois (1978). Esse congresso marcou uma dissidência do movimento psicodramático brasileiro, que deu origem às duas primeiras instituições de formação de psicodrama, ambas em São Paulo: a Sociedade de Psicodrama de São Paulo (SOPSP) e a Associação Brasileira de Psicodrama e Sociodrama (ABPS), ambas existentes e ativas até hoje. AABPS seguiu em frente fiel à linha bermudiana durante muitos anos. A SOPSP trouxe Dalmiro Bustos, argentino, no início dos anos 70, refazendo suas diretrizes teóricas e técnicas. Durante vários anos, as duas sociedades se comportavam como compartimentos estanques e seus alunos acabavam construindo preconceitos contra os membros da outra sociedade, mesmo sem conhecê-los, só pelo que ouviam falar, uma etapa sofrida no desenvolvimento do psicodrama brasileiro. Em 1977, foi realizado em Curitiba um congresso de psiquiatria e higiene mental. Nessa época, alguns profissionais da SOPSP davam formação psicodramática em fins de semana para profissionais do Paraná, Bahia, Um ponto de vista Opinias - Agosto 2014 44444
  • Opinias - Agosto 2014 55555 Santa Catarina e Rio Grande do Sul, enquanto psicodramatistas daABPS faziam o mesmo no interior de São Paulo e Ceará. Vários destss alunos de psicodrama de Curitiba- PR integravam a Comissão Organizadora deste congresso de psiquiatria e por isso tiveram peso e influência para incluir no programa diversos trabalhos teóricos e mesas- redondas de psicodrama e, principalmente, várias vivências (workshops) de psicodrama dirigidas por professores- supervisores tanto da SOPSP quanto da ABPS, além de dois professores estrangeiros, Dalmiro Bustos e Carlos Calvente. O resultado desta forma de organização foi a reunião de alunos da ABPS e da SOPSP e de alunos de psicodrama de cidades diferentes, compartilhando as mesmas atividades psicodramáticas prático-vivenciais e teóricas, além das atividades sociais em que todos cantavam e dançavam juntos. Este foi o marco que deflagrou a convivência pacífica entre todos e iniciou um movimento de respeito das diferenças existentes entre as diversas correntes. O resultado disto tudo foi a fundação no ano seguinte (1978) da Federação Brasileira de Psicodrama (FEBRAP), a realização do 1.º Congresso Brasileiro de Psicodrama (1978) e a fundação da Revista da FEBRAP, 1978 (hoje Revista Brasileira de Psicodrama). Os primeiros congressos brasileiros de psicodrama, realizados a cada 2 anos, foram fechados apenas para psicodramatistas brasileiros. Neles vivemos muitos confrontos duros tanto no plano pessoal como no das divergências teóricas e técnicas. No entanto, vivemos esse tempo de tempestades juntos. Quando tudo isso passou e os psicodramatistas brasileiros já conseguiam uma convivência de consideração e respeito entre eles, apesar das diferenças, os congressos brasileiros passaram a ser abertos para os psicodramatistas estrangeiros e até para um público de universitários. O que resultou disso tudo? Hoje o Brasil tem, aproximadamente, 3.000 psicodramatistas espalhados de norte a sul do país, distribuídos em mais de 40 instituições que dão formação de psicodrama, algumas em parceria com universidades.Algumas universidades brasileiras, em suas faculdades de psicologia, incluem no seu programa de graduação a matéria psicodrama. Até hoje foram realizados no Brasil 13 congressos brasileiros e 3 internacionais de psicodrama, incluindo o IIº Ibero- Americano, além de incontáveis encontros, jornadas e outros eventos psicodramáticos.Amédia de participantes nestes congressos é de 700 pessoas. Nos últimos 25 anos, os psicodramatistas brasileiros publicaram aproxi- madamente 100 livros e 1.000 artigos de psicodrama, além de inúmeras teses de mestrado e de doutorado em universidades com temas de psicodrama. Toda esta produção científica possibilitou a edição de uma coleção de livros de psicodrama por uma editora brasileira. São muitas as contribuições teóricas brasileiras originais e grande a expansão do movimento psicodramático, de que são exemplos o grande crescimento do psicodrama não clínico e educacional, do movimento cada vez mais forte do teatro espontâneo e da aplicação comunitária e em empresas do psicodrama, como o psicodrama público realizado em vários pontos da cidade de São Paulo e dirigido por muitos psicodramatistas simultaneamente, patrocinado pela própria prefeitura, quando da sua instalação em começo de governo. Aliás, a abertura do congresso ibero- americano realizado no Brasil foi feita pelo próprio ministro da saúde da ocasião. Sem sombra de dúvidas o Brasil se constitui hoje como um país em que o psicodrama veio para ficar e permanecer para o futuro. Se há uma lição a tirar de tudo isso é o processo que os brasileiros se dispuseram a viver, que foi o de aceitar o desafio dos confrontos como caminho do compartilhamento possível, da perseverança e do encontro, apesar das diferenças, o único que resulta em construção, espírito que o Brasil procura levar para as mãos e os corações dos irmãos ibero-americanos. Entendendo o Psicodrama O Psicodrama é uma linha da Psicologia que usa fundamentos do Teatro do Improviso como método de terapia. Jacob Levi Moreno, seu criador, o define como a ciência que explora a verdade por meios dramáticos. Ao contrário das linhas mais comuns, aqui as informações e sentimentos são obtidos através do desempenho de papéis, agindo livremente e comunicando, inclusive, através da expressão corporal. Nas sessões, o paciente liberta sua espontaneidade e expõe seus diálogos de forma leve e orgânica. Jacob acreditava que para um paciente, ”seria mais eficiente e mais produtivo se representasse seus sintomas, como um ator numa peça, em vez de reprimi-los ou resolvê-los.” Uma abordagem A narrativa nas páginas seguintes é uma abordagem da morte sob o ponto de vista do psicodrama. Como resgatar a vida através do luto? Opinias - Agosto 2014 55555 Jacob Levi Moreno
  • Opinias - Agosto 2014 66666 GELADA 66666 Tinha quase dois metros de altura. E naquela altura da vida que excede os dois metros, resolveu comprarumjazigodefamílianumcemitério-jardim,dos muitosqueexistememSãoPaulo.Umjazigoperpétuo. Com o corretor, à beira do túmulo aberto, três andaresparabaixo,três nichosdecadalado,duvidou, numgolpedevista: — Não dá para o meu tamanho. Dá, não dá, dá, não dá, até que o corretor se impacientou: — Por que não experimenta, então? Ele não teve dúvidas. De paletó e gravata, desceu e não se fez de rogado. Deitou-se muito à vontade dentro de uma das sepulturas como quem provaumternonoalfaiate: — Não é que você tem razão? Cabe direitinho. Ealimesmofechounegócio. Fora o colorido que tento dar a este relato, a cenadescritaaconteceudefatoerevelaumladoprático de lidar com a morte e, mais especificamente, com a própria morte.Aliás, sempre me surpreendo com um arrepio de horror ao imaginar o que sente um ator quandoéobrigadoasedeitarnumcaixão,fingindo-se de morto, por imposição hiper-realista da peça, filme, novela de TV ou personagem. Umpacientedesessentaanosmecontavaque nosúltimosdoisanosfoisubmetidoaumacirurgiade próstata para retirar um tumor maligno, mais duas de catarata, bilateral, uma outra de um câncer de pele, três biópsias e, de quebra, ainda teve duas crises de gota, uma outra decorrente de um cálculo renal, uma dermatite,umagastriteeumaextrassistoliaperiódica. Fora o resmungo diário da 2.ª lombar e um certo excesso de peso. Dizia-me: — Cada vez que vou ao médico, volto sem um pedaço.Nósdoisestamosentrandonaidadedafadiga dos materiais, só para usar um velho termo da engenharia. Emdoisbelíssimosfilmesrelativamenterecentes, podemoscompararduasmaneirasmuitodistintasdelidar com a morte: “Sob a areia” (Sous le sable), de François Ozon e “O quarto do filho” (La stanza del figlio), de Nanni Moretti. A negação insistente e recalcitrante da morte, contra todas as evidências e a elaboração diária, minuciosaedolorosadolutoéoqueseopõenoconfronto de conteúdo destas duas películas. Bergman cria, em “Fany eAlexandre”, um clima demorteimpressionantenumacenacomcâmerafixa,em que apenas a movimentação dos personagens é capaz de nos transmitir a dor, a solenidade do momento de morrer e a desorientação que, em diferentes graus, toma conta de todos.A enfermeira que sai para esvaziar a bacia, o padre que chega com o vidrinho de água-benta, o tio que passa oferecendo o lenço, a mãe que se encurva num prenúnciodechoro,umasucessãodegestoseexpressões que constrói indelevelmente um conceito, como que o salvandonodiscorígidodenossamemória.Eleconsegue nos colocar no papel do menino que se aproxima do pai moribundoequeestruturadentrodesiumacompreensão damorteapartirapenasdestamovimentaçãodaspessoas, gerandoumclimaespecíficoinesquecível,configurando um conjunto de percepções sobre o que define a morte e o morrer. Sendoassim,comessesexemplos,anaturalidade ou a aparente naturalidade no lidar com a morte, cujo entendimento é configurado na história da construção de nossas percepções frente a ela e dos sentimentos que nos provocameenvolvem,équevaipermitirasuaelaboração no período de luto, com maior ou menor ajuda, para superar a nossa tendência natural de negá-la e ocultá-la. Somos todos personagens do mesmo drama. Somos todos protagonistas do mesmo luto. Prova de alfaiate a vida resgatada através do luto A mulher de “Sob a Areia”, diante do desaparecimentodoseumarido,negatodasasevidências de sua morte, inclusive o indiscutível exame de DNA de umcorpoqueéencontradonomar.Refere-seaelesempre no presente e se recusa a conjugar o verbo no passado sempre que ele é o sujeito. O escritório vazio do marido é a sua corporificação ausente. Opinias - Agosto 2014 66666
  • Opinias - Agosto 2014 77777 O casal que perde o filho, também afogado, em“Oquartodofilho”,viveemchagaabertatentando sobreviver no meio de um mar diário de culpas. O quarto do filho é a sua ausentificação presente. São bem conhecidos os estudos de Philippe Ariès sobre o comportamento do homem ocidental diante da morte através da história. Se ao homem antigo era dada a oportunidade de esperar a morte noleito,cercadaderituaisqueatransmutavamnuma cerimôniapúblicaeorganizada,astransformaçõesque esta atitude sofreu no século XX até hoje tem seu peso maior pela velocidade com que ocorreram do que pelo próprio conteúdo destas transformações. É como um homem de oitenta anos tentar absorver em três dias toda a massa de informações, para o bem ou para o mal, veiculada pela internet e suasimplicaçõesnavidahumanadesteplaneta. Desta forma, os 50 milhões de civis e os 15 milhõesdemilitaresmortosna2ªGuerraMundial,se esfumaçam em mero detalhe estatístico, cujo horror personalizadoéimpossíveldeseravaliadoedigerido. Eassim,osdaGuerradosBôers,daRusso-Japonesa, da Nipo-Coreana, da Revolução Chinesa, da Revolução Russa, da 1.ª Guerra Mundial, da Sino- Japonesa, da Guerra Civil Espanhola, da Coreia, do Vietnã, de Biafra, da Bósnia, do Expurgo Soviético deStalin,doExpurgodaRevoluçãoCulturaldeMao Tsé-tung, dos massacres repetidos de vários países famintos africanos, do Laos, do Camboja, das Malvinas, do Iraque, doAfeganistão, da invasão da Hungria e da Checoslováquia, da guerra não declarada no Oriente Médio, da explosão do terrorismointernacionalemsuasmúltiplasformas,dos homens-bombasàstorresgêmeas,dacaricatainvasão deGranadapelosEstadosUnidos,dasbaixasurbanas do narcotráfico etc., etc., etc., tudo ocorrido no espaço de um século. Enfim, um mundo em guerra permanente. Não mais a 1.ª, 2.ª ou 3.ª Mundial com finalizaçõeshiroshimianasounagazakianas.Kafkianas oubrechtianas,talvez? Não é pois de estranhar que, neste cenário violentodefilmeclasseC,nãotenhamostemposequer de enterrar os nossos mortos. O apelo da mídia ao consumo desenfreado a que todos estamos sujeitos, as relações de trabalho cada vez mais perversas e escravizadoras do homem robotizando- -o, contribuem para lançar o amor (que é isso?) numa categoria relacional (?) sem troca e sem consistência, condenandocadaumdenósaumamorteemvida,àsolidão sem retorno, ao embrutecimento de nossa sensibilidade. É neste panorama que, modestamente, somos chamadosaintervirnoplanoindividual,mesmoquegrupal, restando-nos quase a tarefa de recolher os cacos de tal estilhaçamentodavida. Que fazer? É possível resgatar a vida através de um luto que nem mesmo se reconhece? Temosatarefahercúleadeauxiliaronossopróximo- paciente-semelhante a lentificar este processo vertiginoso demundo.Nossotrabalhoéodeajustadordevelocímetro. É o de cocriar um ouvido em que a dor possa ser gritada. Uma almofada em que a raiva possa ser espancada. Uma fonte em que a lágrima possa ser lavada e escoada. Um ninho em que o afeto possa ser de novo trocado e reconstituído,umband-aiddaalmaarrancadoeumacicatriz regenerada a ponto de poder ser exibida sem constrangimento. A morte é o fim de um tempo e por isso mesmo exige um tempo de muitas horas para poder encará-la, encarar-se e examiná-la em todos os seus detalhes. A desorganização que ela traz para o nosso processo de vida, revolucionando o nosso átomo social, nos obriga a uma reconstituição gradativa dos diversos vínculosemqueestamosinseridos. Nãoéoutraarazãoporquetudoissodemandamuito tempo.Nuncasesabeoquesevaitoparpelafrentequando revolvemosotúmulodenossosmortos.Emvezdecomeçar adiscorrersobreumalistadeprocedimentosinfalíveisque todosnósesperamosqueexistaemalgumlugarparacuidar bem dos nossos pacientes enlutados, prefiro abrir um diálogo compartilhado,tendocomoprincípioestaspoucas ideiasgerais. Será que um dia a nossa morte poderá ser tratada apenas como mera prova de alfaiate? Opinias - Agosto 2014 77777 Os textos deste artigo são capítulos do livro “Psicodrama: o forro e o avesso” de Sérgio Perazzo (São Paulo, Ed. Ágora, 2010) Veja este vídeo com Sérgio Perazzo Psicodrama e Qualidade de Vida https://www.youtube.com/watch?v=VoaCXqm_Jyo
  • Opinias - Agosto 2014 88888 A cromoterapia atua com a dinâmica das cores. Sua utilização é milenar, sendo aplicada desde o antigo Egito. Em todas as épocas, as cores têm sido utilizadas com a finalidade de harmonizar ambientes, pessoas e situações,mesmoquedeumaformainconsciente.Basta olharmosanaturezaemseusdiversosmatizeseascores que usamos no nosso vestuário de acordo com nosso temperamento ou estado de espírito. Daí o motivo pelo qual grandes companhias comerciais utilizam a cromoterapia ambiental e a cuidadosa seleção de cores nos uniformes dos seus funcionários e colaboradores a fim de trazer alegria, otimismo,confiançaecredibilidadetantoàquelesquese utilizam desses uniformes, quanto aos clientes que, ao entrarem em contato com tais ambientes e pessoas, sentem traduzidos esses aspectos quando da interação com eles. Para Hipócrates, saúde e doença dependem da harmonia entre o meio ambiente, o corpo e a mente. A tonalidade da cor é a forma pela qual conseguimos identificar a vibração da onda energética luminosa,quenosenvolveeimpulsionaavisão,chamada decorretiniana,queéenergialuminosa ecujos impulsos são classificados e traduzidos pela retina. Sabe-se que os olhos são terminais do cérebro e que desde a antiguidade são considerados as janelas da alma, pois é por meio deles que assimilamos as informações expressas nos ambientes e na interação humana, tanto que mais vale um gesto (que é visto) do quemilpalavras. Acromoterapiaauxilianorestabelecimentofísico, energético e emocional, atuando como uma técnica complementaraotratamentomédicoconvencional.Seu uso não dispensa o uso de medicamentos. A psicodinâmicadascoresestádisponívelparausocomum a todas as pessoas. As CORESCORESCORESCORESCORES em sua vida Opinias - Agosto 2014 Por CLEUSA BADANAI Escritora e cromoterapeuta São Paulo - SP cidadaopolicial@yahoo.com.br Os adeptos da cromoterapia entendem que cada cor possui uma vibração específica e uma capacidade terapêutica. Isaac Newton, no século XVII, conseguiu descobrir as cores do arco-íris fazendo com que um feixe de luz do sol passasse por um prisma. O cientista alemão Johann Wolfgang von Goethe, no século XVIII, pesquisou durante cerca de 40 anos as cores e descobriu que o vermelho tem propriedade estimulante no organismo, o azul acalma, o amarelo provoca sensações de alegria, e o verde é repousante. Esses efeitos são mais ou menos intensos, dependendo da tonalidade usada.
  • Opinias - Agosto 2014 99999 474 LIVROS DE ARTE GRÁTIS O Metropolitan Museum ofArt, de NovaYork, um dos maiores e mais importantesmuseusdomundo,disponibilizoupartedesuaspublicações para download gratuito. São 474 livros.As obras disponibilizadas foram publicadas entre 1964 e 2013 e compreendem todo o período da história da arte — ressaltando as características artísticas distintivas einfluentes,classificandoasdiferentesformasdeculturae estabelecendo a sua periodização.Acesse: http://bit.ly/1dOCPm2 Estamos de volta com mais algumas dicas de sites e lugares interessantes para visitar na internet. Desta vez o destaque é para a cultura e o conhecimento, com indicações úteis para quem precisa fazer um trabalho escolar, divertir-se ou simplesmente saber um pouco mais sobre milhares de assuntos. Por LUCIANA GOMES GIMENES Administradora de empresas e Coordenadora de compras São Paulo - SP lucianagg@uol.com.br BOM DE VER OPINIÃO BEM FORMADA Quer conhecer um site de notícias e mídia com interessantesmatérias,informaçõeseopiniõessobre sociedade,mundo,comportamento,entretenimento, política, ciência e tecnologia? Então não deixe de visitar o QGA. Vale a pena dar um demorado passeio pelos muitostemasdisponíveis.Diversãogarantida.Visite: http://qga.com.br/ MUNDO NUM CLIQUE Para quem precisa obter material para trabalhos escolares ou esclarecer dúvidas, este site dá um panorama completo da história do mundo.Você vai encontrar informações desde a pré-história até a idade contemporânea, percorrendo as inúmerascivilizações,suacultura,aspectosgeográficos, políticoseeconômicos.Umaexcelenteenciclopédia!A históriadahumanidadedisponívelnumclique.Pesquise: http://www.historiadomundo.com.br/
  • Opinias - Agosto 2014 1010101010 NEPNEPNEPNEPNEPALALALALAL uma surpresa em cada esquina Por JOÃO BAPTISTA ALENCASTRO Médico, escritor e aventureiro Goiânia - GO jbalencastro@uol.com.br Antes de tudo, este país fica encravado entre oTibet e a Índia. Cheio de gente, gente alegre, amistosa e pequena. Sua capital, Katmandu, é um sonho oriental. Lugar onde pode-se viver tranquilamente com U$ 30 por dia, contando com refeição e habitação. Diz-se que o país é pobre, mas digno, belo. Suas montanhas com mais de 8.000 metros, incluindo o Sagarmata (mais popularmente conhecido como Everest) são a moldura permanente no horizonte. Ir lá é entregar-se ao vento frio dos dias e da majestade de suas cidades e vales. Comer um momo (pastelzinho indescritível de bom) logo cedo e também se deliciar com o mel - colhido após uma incrível perseguição de abelha amarrada com um fiozinho - é só o começo do dia.Afé é patente em todos os cantos. Mongesemaismonges. O bairro doTamel, em Katmandu é uma Babel descolada. Trekers, aventureiros emgeraleescritoresemparticular,láchegame...ficam!Nenhumrisco,nenhum assalto. Somente o sobressalto de encontrar uma edição doTibetan Medical Paintingsnovinhaemfolha,dentrodacaixa,porumpreçoinimaginávelparaos padrões ocidentais. Os contrafortes do Himalaia, emoldurando tudo Sagarmata (Everest) e seus 8.848 metros de beleza http://viajeaqui.abril.com.br/paises/nepal Saiba mais sobre o NEPAL
  • Opinias - Agosto 2014 1111111111 Opinias - Agosto 2014 1111111111 Os templos são um caso à parte. Lindos, ricos em detalhes e curvas.Apraça Durbar é inesquecívelcomseustiposmaisdiferentese até a janela onde a deusinha rainha Kumari pode aparecer e olhar para você. Não deixe de ir ao templo Bodnath, com o inefável estilo “stupa” com os olhos que tudo veem. Garuda é um deus, um nome de hotel e uma históriabelíssimadedeus-ave,amolendas locais.Mergulheumpouconomisticismo nepalês.Aproveite enquanto come o onipresente dhal bath, tem pouca pimenta, se comparar com a Índia... Demoraria páginas e páginas e não posso postar as centenas de fotos que lá saquei. Apenas digo que a trilha até o acampamento base é um programa para fortes e que qualquer trilha ou rumo que você tomar no Nepal vai ser legal. Momo: uma das delícias do Nepal Templos: a fé presente em todos os cantos Vento frio e coloridas paisagens no Campo Base Praça Durbar e seus tipos inesquecíveis O inefável templo Bodnath Trajes têm uma identidade independente
  • Opinias - Agosto 2014 1212121212 Por HELIO MOREIRA Médico e escritor Goiânia - GO drhmoreira@gmail.com Não faz muito tempo a nossa querida Professora, historiadora e acadêmica daAFLAG (Academia Feminina de LetrasArtes de Goiás) e, com muita honraparamim,minhaconfreiranoInstitutoHistórico e Geográfico de Goiás Profa. Lena Castelo Branco brindou, mais uma vez, os leitores do Diário da ManhãcomumabelacrônicaqueintitulouBatons& Brioches. Se ela fosse reescrevê-la, teria muito mais argumentos para comparar a nossa atual situação política com a do tempo de MariaAntonieta, tendo em vista o mais novo escândalo, o das passagens aéreas.Naquela época,MariaAntonietanãoentendiaporqueos famintos,naantevésperadatomadadaBastilha, estavamrodeandoseujardim;elesquerempães, Majestade,ter-lhe-iainformadoacamareira.Senãotem pão,comambrioches,teriaditoadesinformadaRainha. Damesmamaneira,algunspolíticosnãoconseguem enxergar que a maioria da população que eles representamreclamamporsoluçõesdealguns problemas, até pontuais, para não sermos genéricos, que poderiam ser resolvidos com a simples economia de algumas passagens aéreas utilizadas para seus familiareseamigos.Nãoqueremenxergar!Umdiao povo cansa! Não costumo, por índole, entrar na discussão da política, porém, como modesto integrante da elite pensante e, até com algum poder de formar opinião, nãogostariaque,nofuturo,algumcríticoliterário,se é que haveria algum que se preocupasse com minha obraliterária,nominasse-mealienado. Göethe, quase que uma unanimidade pela criação de seus quarenta e cinco volumes de poemas, romances, crítica,filosofia,ciênciasnaturais,enfimdetudooque existe entre o céu e a terra, mereceu do famoso crítico literário Otto Maria Carpeaux, o seguinte comentário, que embora não concorde por inteiro, eu o transcrevo: “Göethe, espírito apolítico, egoísta, não compreendeu o maior acontecimento do seu tempo, a Revolução Francesa. Contra ela, colocou-se ao lado das forças feudais, assim traiu o povo, do qual proviera, traiu a humanidade, cujos sofrimentos absolutamente não o preocupavam”. Parece que o poder embriaga o agente político e, até por uma questão de justiça, há que se dizer que não é de agora esta espécie de torpor das alturas e que, também, não são todos os atingidos.Alguns são incorruptíveis,outros,comoomeuamigoHesseLuiz Pereira,sãoincorruptíveiseexageradamentehonestos eaoassumiremafunçãoquelhesfoiconfiada,imbuem- se de uma missão transcendente ao seu período de mandato e procuram “cavar masmorras ao vicio e construirtemplosàvirtude”. Outro dia, lendo o agradável livro “O baile da despedida” do inesquecível escritor Josué Montelo, lembrei-me que tive acesso, há algum tempo, ao opúsculointitulado“IlhaFiscal”,mandadopublicarpela MarinhaBrasileiraem1963. Muitos não são convidados para o BBBBBAILEAILEAILEAILEAILE
  • Opinias - Agosto 2014 1313131313 O livro de Josué é um romance onde o autor coloca uma personagem de nome Catarina para contar sobre a sua presença naquele baile, o baile mais famoso da História do Brasil e que teve, como cenário, justamenteacitadaIlhaFiscal. Como o livro “O baile da despedida” não entra em detalhes sobre a festa propriamente dita, gostaria de passaraosmeusleitoresalgumascuriosidades, colhidasdaqueleopúsculo. Antes de dar algumas bisbilhotadas na festa e ferir comoaguilhãodacuriosidadealgunsinteressados, gostaria de aproveitar a oportunidade para evidenciar, mais uma vez, a falta de sensatez de alguns governantes. OBaile,umahomenagemàoficialidadedeumnavio Chileno, em visita ao Brasil, ocorreu no dia 9 de novembro de 1889, portanto menos de uma semana antes do acontecimento que iria mudar, para sempre, a históriadoBrasil. Segundo os historiadores, por aquela época, a tensão políticaemilitarhaviaatingidoomaisaltograude efervescência,avolumavam-seatosdeindisciplina militar,RuyBarbosaeQuintinoBocaiúvapregavam, abertamente na imprensa, a instauração da república; no entanto o governo se preocupava, como de resto toda a elite política e social da Corte, exclusivamente, com a organização do baile. Era um sábado de calor sufocante, nos lares e nos salões, a modista e o cabeleireiro vestiam e penteavam as damas; alguns vestidos precisavam ser apertados, outros, alargados; alguns cabelos precisavam ser reformados porque haviam sido arranjados muito cedo (haviamaiorprocuraqueofertadeprofissionais). Miravam-se no espelho à procura da silhueta que não lhes pertencia; o ruge remoça a fisionomia, o pó de arroz perfuma o olfato, desviando o olhar das possíveisrugas. Ao anoitecer, carros e mais carros, puxados por garbosos cavalos, começam a chegar ao embarcadouro Pharoux, descarregando as senhoras vistosas, cobertas por capas riquíssimas e respirando esnobismo em cada movimento e sempre observadas por uma multidão de gente que se aglomerou nas imediações para ver o desfile claudicante de sapatos no tapete das ilusões, formado pelos paralelepípedos desnivelados. DocaisseavistavaaIlha,todailuminadaeiluminando todo o litoral à custa de um foco elétrico localizado na torre principal do edifício do baile, as embarcações iam e voltavam, sempre apinhadas de convidados. AfamíliaImperial,tendoàfrenteoImperadorDom Pedro II, embarcou às nove horas; na ilha foram recebidos pelos Membros do Ministério, capitaneados peloVisconde de Ouro Preto, com direito ao hino nacional tocado pela banda de música. Houve dança nos seis salões que foram adrede preparados, inclusive,atapetadosdevermelho. O Jantar, Oh, o jantar! Não poderei, por falta de espaço, descrevê-lo em detalhes, porém, passo-lhes umresumodoinformedaConfeitariaPascoal, encarregada do serviço: Havia 150 copeiros, 60 trinchadores; passaram pela copa 12 mil garrafas de vinho, licores, champanhe, cerveja, águas gasosas, 12 mil sorvetes, 12 mil taças de punch, 500 pratos de doces variados. Na cozinha havia 40 cozinheiros e 50 ajudantes e foram servidos 18 pavões, 80 perus, 300 galinhas, 350 frangos, 10 milsanduíches,18milfrituras,milcaças,50peixes, 100 línguas, 50 mayonnaises e 25 cabeças de porco recheadas. A história sempre repete os fatos e os homens não queremver! 1313131313
  • Opinias - Agosto 2014 1414141414 Por CARLOS EDUARDO DE OLIVEIRA Engenheiro Santo André - SP carlos@sabbahi.com.br Tintos novos, suculentos, frutados (merlot do novo mundo,malbecebonardaargentino,zinfandelameri- cano).Demaneirageral,diz-sequenenhumvinho mantém suas boas características acima dos 20ºC. Entre os tintos, a faixa de temperatura deve se manter entre os 12 e 18 graus, e acima disso apenas os tintos fortificados e doces. Esta categoria, portanto, engloba os vinhos tintos que podem ser bebidos mais frescos, desde o simples beaujolais nouveau, que pode ser bebido quase gelado, até os merlot e bonarda feitos para serem bebidos jovens, sem madeira e com taninos quase imperceptíveis, em torno dos 15 ou 16ºC. Tintos sedosos e elegantes, com sabor de frutas vermelhas (pinot noir da Borgonha, Oregon e Chile, tempranillo de Rioja e Navarra). Estes vinhos já devem ser tomados um pouco mais quentes, entre 16 e 18ºC, dependendo da estrutura (acidez, álcool e taninos) - quanto mais corpo, maior deve ser a tempe- ratura de serviço. Tintos intensos, com sabor de groselha e madeira (Bordeaux,varietaisdecabernetsauvignondoChile, Argentina,EUA,tempranillodeRiberadelDuero). Beber na faixa dos 17 aos 20ºC. Só é correta a afirmação “deve-se beber vinho tinto na temperatura ambiente” para quem mora além dos trópicos. No Brasil, onde a temperatura ambiente média dentro de casa poucas vezes desce dos 20ºC, é conveniente dar umaresfriadinhamesmonestesvinhosmaispotentes, caso não sejam armazenados em ambiente climatizado. Salut les amis! Volto a falar um pouco mais especificamente sobre este assunto, relacionando as temperaturas “ideais” de degustação, obedecendo uma classificação dos vinhos proposta por diversos autores e por mim adaptada, a qual acredito ser bem sintética, porém abrangente - seguindo alguns exemplos após a descrição de cada “categoria”. Sempre lembrando que estas são minhas impressões pessoais e o que interessa mesmo no mundo do vinho é o gosto e preferência de cada um! Tintos temperados, calorosos e apimentados (syrah doVale do Rhône, daAustrália, vinhos do Languedoc-Roussillon,vinhostranquilosdoDouro, malbec reserva daArgentina e carmenères “reserva” chilenos). Idem à categoria acima, em torno dos 18, 19ºC. Tintos agridoces e especiados (genericamente italianos de dolcetto, barbera e sangiovese, desde os Chianti até o Barolo, dosValpolicella aosAmarones). De acordo com a estrutura - vinhos mais potentes e concentrados como os Barolo ou Brunello di Montalcino em uma temperatura mais alta, 18 a 20ºC; os mais simples e ligeiros podem ser bebidos mais resfriados, em torno de 16ºC. Se o tinto passou tempo demais no balde e se resfriou demais, um pouquinho de tempo na taça ou com a taça entre as mãos já é suficienteparaqueeleatinjaumatemperaturamais elevada e libere o que tem de melhor. 15 dicas de temperde temperde temperde temperde temperaaaaaturturturturturaaaaa VINHO:
  • Opinias - Agosto 2014 1515151515 http://www.conservadonovinho.blogspot.com.br/ VISITE O BLOG e DESFRUTE MAIS Rosés (da Provence, de Navarra ou cabernet d’Anjou). Um rosé geladinho é tudo de bom! Mas não se pode exagerar no gelo, o que amortece o paladar e impede de usufruir a delicadeza destes vinhos na boca. Novamente, depende do corpo - os mais delicados e ligeiros podem ser degustados mais frescos, em torno de 8 ou 10ºC.Alguns rosés do Novo Mundo, mais encorpados, produzidos pelo método de “sangria”, de variedades mais tânicas, podem acompanhar até pratos mais pesados quando servidos em uma temperatura mais alta, de 12 a 14ºC. Brancos leves e neutros (muscadet de Sèvre-et- Maine, Chablis genérico - sem carvalho - Frascati, Pinot Griggio e chardonnay frescos do norte da Itália). Eu costumo tomar estes bem gelados, em torno de 8ºC, nunca acima de uns 10ºC, como aperitivo, na companhia de frutos do mar... Brancos verdes, pungentes, “crocantes” (sauvignonblanc-Sancerre,Pouilly-Fumé, Martinbourough, Chile, chenin blanc seco do Loire - Savennières - riesling secos alemães, austríacos ou alsacianos): na faixa dos 8 aos 12ºC. Os mais simplesmaisfrios,osmaisconcentradosumpouco menosresfriados. Brancos intensos, com sabor amanteigado e de frutas secas (chardonnay criado no carvalho) - Borgonha, EUA, Nova Zelândia,Austrália - Bordeaux com sémillon - Graves, Pessac-Léognan - Rioja branco). Eu aconselharia de 10 a 14ºC, pois é uma gama muito abrangente - os mais secos, de sauvignonesémillondevemserservidosmaisfrios enquantoquealgunschardonnaymaisestruturados podem chegar aos 14ºC liberando o melhor de suas características. Brancos maduros, com sabor de torrada e madeira (chardonnay concentrado, criado em barricas novas, basicamente Novo Mundo - EUA, Austrália e Riojas brancos reserva ou gran reserva). Devido ao corpo pesado, estes são os brancos que devem ser tomados a uma temperatura mais alta, em torno de 16ºC. Brancos aromáticos(gewurztramineremuscat alsacianos,viognierdoRhôneetorrontésargentino). Muito fragrantes e frescos, devem ser degustados também na faixa dos 8 aos 12ºC. Brancos espumantes (champagne, crémants de Bourgogne, do Loire e d’Alsace, blanquette de Limoux, cava espanhol, prosecco e franciacorta italianos, espumantes nacionais). De 6 a 8ºC, sendo quealgunschampagnesmaiscomplexospodemser bebidos um pouco menos gelados. Nunca abaixo dos 6ºC, o que amorteceria as papilas. Brancos doces (Sauternes, Barsac e Monbazillac na França, chenin blanc doces do Loire, vinhos botritizados daAlsace, colheitas tardias alsacianos e alemães,eisweinalemães,tokajihúngaro,moscatéis espanhóis e portugueses). Controverso - muitos autores recomendam uma temperatura na faixa dos 14ºC, o que acho alta. Já tomei muito vinho doce geladinhocomsobremesaeestavaumadelícia!A baixa temperatura ressalta a acidez destes vinhos, o que harmoniza melhor com o doce do próprio vinho e das sobremesas. Vinhos fortificados e calorosos (Porto, Madeira, XerezPedroXimenes,Marsala,vinsanto,Banyuls, Maury). O Porto eu deixo na temperatura ambiente mesmo, enquanto se recomenda tomar os outros em torno de 18ºC. Mas também já bebi o Pedro Ximenes, que é bem doce - com gosto de figo seco e melado - gelado, acompanhando a sobremesa - e é muitobom. Vinhos fortificados e pungentes (xerez fino, manzanilla,madeiraemarsalasecos,vinjaunedo Jura). Eu também gosto de degustar estes vinhos bem gelados,comoaperitivo,acompanhandoalgumacoisa bemsalgadinha. Santé! Au revoir! Opinias - Agosto 2014
  • Opinias - Agosto 2014 1616161616 Acabei de assistir a um vídeo em que uma mulher tem suaprimeiraexperiênciaauditiva.Automaticamenteme vi em reflexão total, pois eu sei o que é ter a capacidade auditiva, mas não faço a menor ideia do que é não tê-la. Na minha profissão - Músico - qual a importância dessa capacidade? Pergunta óbvia? Infelizmentenão. Nós músicos precisamos tanto da nossa capacidade auditiva, que é tão óbvia, que quase cometemos a crueldade de não valorizar essa condição. Precisamos desenvolvercapacidadesmecânicas,precisamos possuir bons instrumentos, mas antes de tudo isso precisamosdacapacidadeauditiva.Talvezmuitomais do que o ato de tocar. Na medida em que vamos amadurecendo musicalmente,percebemosquenãoadianta absolutamente nada ficar horas e horas estudando mecânicas se a nossa capacidade de ouvir e escutar não for usada antes de qualquer ato musical. Não entrarei no mérito das pessoas que desenvolveram uma singularcapacidadedeseexpressaremmusicalmente sem a capacidade auditiva. Obviamente são pessoas absolutamenteadmiráveiseímpares. Retomando o assunto, aprendemos também que ao longo da vida precisamos ouvir e escutar mais e falar menos. Na verdade o problema não é o quanto falamos, mas sim sobre o quê e como falamos. Pensar sobre isso já faria com que falássemos bem menos. Venho pensando muito sobre essas duas palavras que parecemsinônimos:ouvireescutar.Jáfizalgumas investigaçõesemuitosestudiososentendemqueambas - obviamente - fazem parte da capacidade auditiva, porémnãofuncionamdamesmamaneira. Ouviréumaaudiçãosuperficial,oumaisgeral,sem muita seleção. Escutar é uma seleção, ou seja, selecionamoseanalisamoscommaisprofundidade. A importância da AAAAAUDIÇÃOUDIÇÃOUDIÇÃOUDIÇÃOUDIÇÃO Por HERALDO PAARMANN Músico e professor de música São Paulo - SP heraldoguitar@hotmail.com
  • Opinias - Agosto 2014 1717171717 Esta nota é apenas para que tenhamos mais atenção a nossa capacidade auditiva. Da mesma forma que os olhos são as janelas da alma, os ouvidos são as janelas do espírito. Em outras palavras, somos atingidos com mais profundidade pelos sons e não conseguimos ter tanto controle sobre o que e não ouvir. Não conseguimosimpedirtotalmenteoquenãoqueremos ouvir e escutar, porém quanto aos olhos bastam ser fechados, Já tentou impedir a sua audição com esta mesmafacilidade? Portanto, gostaria de convidá-los a assistir a dois vídeos:oprimeiroésobreumCirurgião OtorrinolarigologistaCharlesLimb,quetambémé músico,etrabalhacomreabilitaçãoauditivafazendo implantesdecóclea(ouvidointerno). Ex-guitarrista do ULTRAJE A RIGOR (1991/2012), Heraldo dedica-se à música, lecionando teoria musical e ensinando diversos instrumentos, além de tocar em algumas bandas. Conheça um de seus trabalhos: QUARTETO KROMA https://www.facebook.com/quartetokroma?fref=ts O segundo vídeo é sobre o momento em que Joe Milne, a mulher que eu citei no início desta nota - ouviupelaprimeiravezemsuavida,apósoimplante de cóclea. Os dois vídeos se relacionam mas não são da mesma equipe médica. Tenho certeza que esta experiência de assistir a esses vídeos fará com que pensemos mais sobre a nossa fantástica capacidade de ouvir e escutar. Fica aqui a minha contribuição para as pessoas que achamqueescutarmúsicaruimsejustifiqueapenas para diversão e alegria desenfreada; até entendo, mas nem tudo que “reluz” aos ouvidos é ouro! LINKS PARA OS VÍDEOS Charles Limbrealiza implantes cocleares, uma cirurgia que trata a perda auditiva e pode restaurar a capacidade de ouvir o discurso. Mas como músico também, ele fala sobre o que os implantes ainda não podem:elesnãodeixamexperimentaramúsica ainda. (Há um exemplo de arrepiar os cabelos). Nesta palestra no TEDMED, ele analisa o estado da arte e perspectivas. Você poderá ajustar o idioma das legendas na tela do vídeo. A primeira audição - Joe Milne que sofre de síndrome de Usher era surda desde o nascimento. Elatinhaimplantescoclearesbilateraisequipados quepermitiramqueelaouvissepelaprimeiravez. Estevídeomostraomomentoemocionante emqueelesforamligados! http://www.ted.com/talks/charles_limb_building_the_musical_muscle https://www.youtube.com/watch?v=IyDdVJ81Ixs#t=82
  • Opinias - Agosto 2014 1818181818 O melhorO melhorO melhorO melhorO melhor da fda fda fda fda festaestaestaestaesta Por ALESSANDRA LELES ROCHA Professora, Bióloga e Escritora Uberlândia - MG alessandralelesrocha@hotmail.com Quem não gosta de festa?! Imagino que todo ser humano em seu juízo perfeito gosta de se divertir, de comemorar, de extravasar a sua alegria entre amigosefamiliares;afinal,ninguémconseguemesmo viver sob o jugo do trabalho, das obrigações, dos afazeresemtempointegral.Amáquinahumana precisademodoimprescindíveldosseusmomentos de ócio para não enlouquecer. Entretanto,enquanto“fazemosfesta”omundo não para de girar e a vida não deixa de seguir seu fluxo, repleto de alegrias e tristezas, esperanças e decepções, virtudes e defeitos. É aí que se encontra o grande paradoxo: equilibrar o bom senso e a euforia para não se perder nas garras de uma “ingenuidade crédula” que tenta, tão somente, afastar o ser humano da realidade e deixá-lo pertencer, ainda que por pouco tempo, ao berço de uma verdade idealizada. Ora, ora! Mas, sonhos e fantasias não têm sustentação! São como nuvens que se desenham e se apagam ao movimento dos ventos. E como diziam os antigos, no alto de sua sabedoria, “o melhor da festa é esperar por ela”, porque depois nada mais resta do quelembrançasdeumtempofugaz. Terminada a Copa do Mundo de Futebol, a sociedade brasileira reflete bem essa situação. De conhecimento público, esse grande evento nos colocoudiantedeumaimensalinhadivisóriaentrea razão e a emoção: como anfitriões, o encantamento despertado pelo futebol desporto – paixão nacional – e pelas disputas históricas entre as seleções; mas, que agora vê o seu brilho maculado por tudo aquilo que envolveu a preparação para a festa. De repente descobrimos o custo financeiro, ético e moral que se esconde por detrás das ufanistas bandeirolas dependuradas pelas ruas e janelas. Longe de um evento de poucos tostões, a Copa mostrou as cifras de bilhões em investimentos para ser realizada.Algunsatétentaramjustificarqueoretorno financeiroseriaexpressivoe“ofimjustificavaos meios”. Mas sabemos que não é bem assim! Na verdade, diante das crônicas mazelas sociais que se arrastam pelos séculos aqui na Terra Brasilis, bom mesmo seria aplicar esse dinheiro na construção de uma sociedade mais digna, verdadeiramente capaz de exibir a sua força cidadã.Ao contrário disso, mantemos a prática de oferecer do bom e do melhor para as visitas, enquanto escondemos o ronco do estômago vazio, a inabilidade com o próprio idioma, o descascado das “mobílias”, a ausência de bons modos,… enfim. Enquanto o “ópio da Pátria de Chuteiras” nos entorpece os sentidos, a base da pirâmidesocialbrasileirasobreviveaoinfortúnioda inflação,daausênciadeatendimentomédico- hospitalar nos serviços públicos de saúde, as escolas “desabam” de diversas formas sobre a cabeça de alunosefuncionários,os“arrastões”deviolência fazem suas vítimas e engrossam as estatísticas,… etc. etc. etc. Do ponto de vista ético e moral, a situação não foimelhor.Primeiro,porquenãohá“verniz”que consigaextirparonosso“rançocolonialista”.Ao primeirogritodeuma“metrópole”,ouinstituiçãoaela ligada, nossa obediência bovina se aflora e passamos a cumprir ordens sem questioná-las. É verdade! Foi assim que a Federação Internacional de Futebol – FIFA“aceitou” nossa proposta de sediar a Copa do Mundo de 2014; mas, nos impôs a subserviência, inclusive, ferindo a nossa liberdade de expressão e proibindoquaisquertiposdemanifestaçãopopularem relação aos problemas sociais do país, até mesmo
  • Opinias - Agosto 2014 1919191919 cartazes nos limites das arenas onde se realizariam os jogos. Nossa tal “concordância” se legitimou através da Lei Geral da Copa (Lei n.º 12.663, de 5 de junho de 2012). De repente, ficou permitido “permitir” e a avalanchedepossíveisviolaçõesaosdireitos humanos, especialmente no que diz respeito às péssimas condições de trabalho dos operários das obras propostas no projeto, à informação e participação pública sobre a realidade dos fatos, às questões ambientais e ao direito do consumidor, ficou escancarada. Não há como negar que, apesar dos oito anos que separaram a escolha do Brasil como sede dos jogos e o evento propriamente dito, prometemos muito,demais;mas,muitasdessaspromessasficaram pelo caminho, apesar dos bilhões gastos. E entre o que foi e não feito, nos deparamos com a má gestão dos recursos e a fragilidade das obras, a qual culminou na morte de vários trabalhadores, o desabamento de elementos de mobilidade urbana (umavigadoMonotrilho,linha17-Ouro,caiunazona sul de São Paulo e matou um operário e feriu em estado grave outros dois e, mais recente, umViaduto em construção sobre aAvenida Pedro I, parte das obras do BRTda capital mineira, desabou, matando duas pessoas e ferindo outras vinte) e tantos outros descasos com o cidadão brasileiro.) Em meio a tudo isso e lendo a obra excepcional de Edson Monteiro – CORRUPÇÃO: uma endemia sem remédio? (Letra Capital, 2013) – mais reafirmo a minha discordância quanto à afirmação de Jean Jacques Rousseau, em seu O Pacto Social (1762), que diz “o homem nasce livre e bom, a sociedade o corrompe”. Não, como na capa do livro a umidade aflora na fragilidade das paredes de uma construção, nós nos permitimos à maldade, à falta de ética e moral, por escolha. Talvez, o quinhão de responsabilidade da sociedade seja o de unir as deformidades éticas e moraisdosindivíduos,potencializandoaforçadessas na desconstrução da própria sociedade. Enquanto nos mantemos inertes e insensíveis às dores do mundo, do qualfazemosparteessencial,masinsistimosemdividi- lo segundo nossos próprios preceitos, e nos permitimosmarejarosolhosdeemoção,numexemplo de civismo superficial e torto já que não possuímos verdadeiramente a pujança da cidadania correndo pelas veias, isso é ou não é uma escolha?! Como bem colocou Simone de Beauvoir, “O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos” e a corrupção, entre tantos outros males que afloram do comportamento humano, só encontraria remédio eficaz se não despertasse no ser humanoopéssimohábitodejustificaroinjustificável, de encontrar sempre um modo de fazer das piores atrocidades um elemento indispensável ao bem-estar e à construção social. Portanto, de que lado queremos estar?Parecemesmohaverumadificuldadeimensade compreensão do ser humano quanto a sua existência coletiva. O mesmo que se queixa da enxurrada de mazelas presentes no seu cotidiano de labutas e clama aos céus a providência divina da transformação; é o queapagainstantaneamentedamemóriatamanha rudeza mediante o agrado envolvido em “pão e circo”. Infelizmente,aindadepositamosanossa “felicidade”nas“chuteiras”alheias,quandodeveríamos tomar as rédeas da vida nas mãos e sorver das próprias experiências o néctar de uma felicidade que pode até ser agridoce; mas, que contenha o alimento sagrado da nossa dignidade, da nossa identidade cidadã.Talvez o dia em que entendermos tudo isso, pensaremos duas vezes antes de despender nosso choro, nossas velas, nosso dinheiro; pois, como já dito anteriormente, o melhor da festa é somente esperar por ela.
  • Opinias - Agosto 2014 2020202020 O Pássaro Dodô, também chamado de Dronte (Raphus cucullatus) foi uma ave não voadora extinta das Ilhas Maurícias, uma das ilhas Mascarenhas na costa leste da África, perto de Madagascar, no Ocea- noÍndico.Aavemaispróximageneticamentefoia também extinta solitário-de-rodrigues, também da subfamíliaRaphidaedafamíliadaspombas;sendo que a mais semelhante ainda viva é o pombo-de- nicobar. O Dodô tinha cerca de um metro de altura e podia pesar entre 10 e 23 quilos.Aaparência externa é conhecida apenas por pinturas e textos escritos no século XVII, e por causa dessa considerável variabilidade a aparência exata é um mistério. Pouco se sabe com exatidão sobre o habitat e o comportamento, pois há poucos e discordantes textos descritivos:plumagemcinzaacastanhado,pata amarela, um tufo de penas na cauda, cabeça cinza sem penas, e o bico de cerca de 23 centímetros, amarelo e verde. Amoelaajudavaaaveadigerirosalimentos,incluindo frutas, e acredita-se que o principal habitat tenha sido as florestas costeiras nas áreas mais secas das Ilhas Maurícias.As pedras da moela do Dodô eram de basalto(segundoalgunstextos)enãoexistiamnolocal onde tinham sido desenterrados os ossos do Dodô, mas a milhas de distância. Essa pedra ia crescendo à medida que crescia a moela, até atingir proporções do tamanho de um ovo de galinha.Apedra da moela dos Dodôs era a preferida para amolar facas! Presume-se que o Dodô tenha deixado de voar devido à facilidade de se obter alimento e à relativa inexistênciadepredadoresnasIlhasMaurícias. A primeira menção ao Dodô que se conhece foi através de marinheiros holandeses em 1598 (os portuguesesvisitaramailhaem1507,masnãofizeram relatos da ave). Nos anos seguintes, o pássaro foi predadopormarinheirosfamintos;seusanimais domésticos e espécies invasoras que foram introduzidasduranteessetempoalimentavam-sedos ovos nos ninhos.Aúltima ocasião aceita em que o O extinto pássaro DODÔDODÔDODÔDODÔDODÔ Por ROBERTO ANTONIO ANICHE Médico, filatelista e escritor São Paulo - SP aniche@uol.com.br
  • Opinias - Agosto 2014 2121212121 Dodô foi visto data de 1662.Aextinção não foi imediatamentenoticiadaealgunsaconsideraramuma criaturamítica.NoséculoXIX,pesquisasconduziram a uma pequena quantidade de vestígios, quatro espécimes trazidos para a Europa no século XVII. Desde então, uma grande quantidade de material subfóssilfoicoletadonasIlhasMaurício,amaioriado pântano Mare aux Songes. A extinção do Dodô em apenas cerca de um século após seu descobrimento chamou a atenção para o problemapreviamentedesconhecidodahumanidade, envolvendo o desaparecimento por completo de diversas espécies. As primeiras descrições conhecidas destas aves foram feitas pelos holandeses, que chamaram o pássaro mauriciano de walghvogel ( “pássaro chafurdador” ou “pássaro repugnante”), em referência ao seu gosto. Embora muitos escritos posteriores digam que a carne era ruim, os primeiros jornais apenas diziam que a carne era dura, mas boa, embora não tão boa como a dos pombos, abundantemente disponíveis. O nome walgvogel foi usado pela primeira vez na revista do vice-almiranteWybrandvanWarwijckquevisitoua ilhaem1598edenominou-aMaurícia. Alguns autores atribuem o nome Dodô à palavra holandesa dodoor para “preguiçoso”, mas ele provavelmente está relacionado à palavra dodaars (“nó-bunda”), referindo-se ao nó de penas sobre o traseiro do animal. O primeiro registro da palavra dodaerse está no relato do capitãoWillem van Westsanen de 1602. Thomas Herbert usou o termo Dodô em 1627, mas não está claro se ele foi o primeiro a vê-lo, pois os portugueses já haviam visitado a ilha em 1507, embora não tenham mencionado a ave. De acordo com o Microsoft Encarta e o Chambers Dictionary of Etymology, Dodo seria derivado do português arcaico doudo (atualmentedoido).Tambémhátextosafirmandoque o nome foi uma aproximação onomatopaica do som que elas produziam, um piado de duas notas, que soava como “doo-doo”. O último Dodô foi morto em 1681, e não foi preservadonenhumespécimecompleto,apenasuma cabeça e um pé. Os restos do último Dodô empalhado conhecido tinham sido mantidos noAshmolean Museum em Oxford, mas em meados do século XVIII, o modelo - salvo as peças ainda existentes hoje - estava completamente estragado e foi jogado fora. Em 1681, menos de 100 anos depois da chegada dos holandesesàilha,oDodôfoideclaradooficialmente extinto. Hoje, tudo o que resta do animal são esqueletos em museus na Europa, nos Estados Unidos e também em Maurício.Aciência garante que três espécies de Dodô se extinguiram nas três ilhas nos três últimosséculos,equesóunstrezeanimaisvivos viajaram das Mascarenhas para outras partes do mundo, entre elas um para o Japão. Por fim, o Pássaro Dodô ficou imortalizado por fazer parte do desenho animadoAlice no País das Maravilhas, deWalt Disney, sendo parte da cultura popular,frequentementecomoumsímbolodaextinção e obsolescência, sendo frequente o seu uso como mascote das Ilhas Maurício. Para saber mais: http://www.sppaulista.com.br/ O autor é membro da Sociedade Philatélica Paulista. Saiba mais sobre filatelia e conheça coleções de selos, exposições e palestras filatélicas de Roberto AntonioAniche:
  • Opinias - Agosto 2014 2222222222 Há uma casa que está em nosso pensamento e que nos perturba durante anos, até que um dia nós resolvemos colocá-la em prática. E é aí que surgem os maiores tormentos.Aescolha do terreno, do bairro ou cidade, a cara da casa, seu formato aberto ou fechado, que amigos vamos receber nesta casa, que móveis, quadros, tapetes vamos colocar...Aangústia deste início é a mesma quando resolvemos melhorá-la,diminuindoseutamanhoouampliando-a. Houve um tempo em que se gastava muita energia na intenção de se resolver pequenos problemas. O pior é que hoje não mudou muito nosso raciocínio quanto à ideia de morar, principalmente no Brasil, onde a casa básica é um quadrado ou retângulo que os malévolos portugueses nos deixaram como herança nefasta. Mas, vamos neste sonho durante muitotempo,colocandoemarmáriosinvisíveisdanossavidaanossa responsabilidade de morarmos em um bloco geométrico que resolvemos chamar de casa. Há ainda a casa indefinida do pensamento, que é aquela que o nosso patamar financeiro não alcança.Acasa fidalga, que nos remete a sonhos distantes, a casa em que desejaríamos morar, a casa que era de um importante homem de negócios da cidade, com seus panos de vidro, seus jardins... Acasa ensolarada da viúva bela e que nos deixava com o desejo de estar lá. Acasa que tinha sempre, à tardinha, um casal de idosos na varanda tomando chá.Acasa dos coqueiros enormes, a de muitas árvores que escondiam a casa, transformando-a num cenário bucólico de saudades da infância.Acasa que gostaríamos de ter construído e não tivemos a coragem de fazê-lo. Como dizia João Cabral de Melo Neto: “O homem é o animal mais bem vestido e calçado, ergue imensas paredes para se proteger do abismo horizontal do espaço, se isolando do ar abraçado.” E nós vamos vida afora nos defendendo de abismos horizontais, nos isolando de ares, porém sem abraços, já que colocamos enormes muros entre nossas vidas.Istosemfalarnosmurosmentais. Somos estranhos. Realmente moramos muito mal, escondendo as nossas casas entre grandes muros. É a prova de que temos vergonha do que somos. Nossa mesquinhez do morar não fica somente aqui.Vai muito mais além do que supomos. Moramos em quadrados ou retângulos de medo e inveja. E com toda certeza ainda não moramos nem na casa e nem na terra dos sonhos. Dito e feito: somos a estranha espécie dos sem tetos com tetos mal e porcamente acabados. a casa dos SONHOSSONHOSSONHOSSONHOSSONHOS Por LUIZ KHASHOGGI Arquiteto e designer Nilópolis - RJ lckhashoggi@ig.com.br
  • Opinias - Agosto 2014 2323232323 Por VICTOR EUSTÁQUIO African Studies PhD fellow - Escritor Torres Vedras - Portugal vic.eustaquio@gmail.com Dizem que com o tempo aprendemos a mitigar a dorquesesenteperanteamortedealguémqueamamos. Mas se a morte nos envelhece e acelera o tempo, faz sentido gastar o tempo que nos resta, cada vez menor, para aprendermos o que inelutavelmente recusaremos sempre a aprender? É que a dor não se extingue, mas o tempo há de acabar. Dizem que há certas coisas que são da esfera privada e que o melhor é calá-las, não se vá contagiar os demais com dores alheias. Mas se a dor é comum, porqueaelaninguémescapa,deumaformaoudeoutra, maistardeoumaiscedo,fazsentidoevocaropundonor para tamanha condenação que a todos toca? Dizemquesãomisteriosososdesígniosdequem, porventura,estaráalguresadecidirestascoisas.Pormim, não vejo mistério nenhum. Apenas dor. Individual e coletiva.A minha dor como a dor de todos os outros. Sobretudo porque não creio que haja paraísos que cheguem para tantos mortos. E tantas dores. Tenho saudades do tempo em que não pensava nisto porque, em boa verdade, começo a suspeitar de que, com o tempo, o que aprendemos não é a mitigar a dor; mas a ampliá-la. Pela simples razão de que, na entrega ao combate em busca de paliativos, estamos apenas a aproximar-nos cada vez mais da percepção atroz da nossa condição de finitude. A minha moral não é uma lição. Nem um apelo. Nem um desabafo. Nem um grito de pânico. É tão somente uma moral, a minha, que não serve para nada. Nem para os que dela comungam. Se concordarias com isto? Claro que não! Porias asmãosàcabeçaportantaincredulidade.Pelodesânimo de descobrires que nada aprendi do que me quiseste ensinar. Contudo, deixaste de cá estar para mo dizer. E eu cá continuo, sem igualmente poder dizer-te que lamento imenso. O quê ao certo, não sei. Mas lamento. Às vezes, no longo solilóquio em que descubro estar sem saber quando começou, julgo que não decidistepartirporvontadeprópria.Outrasvezes,penso o contrário. Às vezes, conto os dias desde que vi o teu último olhar já embaciado. Sim, porque eu estava lá, embora provavelmente não soubesses. Ou preferisses não saber. Outras vezes, recuso-me a fazer contas. Porquetentoafastardamemóriaaqueledia,aquelahora, aqueleminuto,aqueleexatosegundo.Éumpensamento intrusivo, recorrente, mas também ambíguo.Tanto me corrói como me sustenta. É que, pelo menos naquele momento, não estive ausente. Não me demiti de estar presente no princípio deste silêncio que se prolongará até à eternidade.Apesar de ser enorme a vontade de o calar. Dizemquecomotempoaprendemosasilenciara dor. Que acabamos por aceitar que não há tempo para tanto desperdício de tempo. Mas como se silencia uma coisa que já é silenciosa? Quanto tempo é necessário, do tempo que não temos? E por que é que dizem o que dizem, do tanto que dizem, quando não há nada para dizer?Secalhar,épelamesmarazãoqueeufalo.Efalo. Embora nada diga. De todos os silêncios que queremos CALARCALARCALARCALARCALAR Conheça o novo romance do autor: A CIDADE DOS SETE MARES Editora Edições Esgotadas Lisboa - Portugal http://www.edicoesesgotadas.com/ livro?i=87 Opinias - Agosto 2014 2323232323
  • Lendas AMAZÔNICASAMAZÔNICASAMAZÔNICASAMAZÔNICASAMAZÔNICAS Por ALINE DE MELO BRANDÃO Médica e escritora Belém - PA alinefmb@yahoo.com.br Esta é a lenda contada de um amuleto da sorte, lenda de mata fechada daAmazônia, bem ao norte. Dizemquehámuitosanos os deuses urdiam planos nas fontes do Nhamundá, lagoYaci - Oaruá lago que espelha a lua onde ela nada e flutua sua face prateada naquelaáguaencantada. Lá se banhavam, faceiras, Amazonas,índiasbelas, jovensvalentes,guerreiras, plumasazuiseamarelas. Mergulhavamprabuscar das profundezas do rio umantigotalismã, amuletoarredondado bem pequeno, esverdeado, chamadomuyraquitã que doavam aos guerreiros Guaçarís, belos e fortes, seus vigorosos parceiros, para aumentar suas sortes, ajudá-los na floresta, mãe do verde e encantarias, onde Uyara dorme a sesta eoCurupiravigia. Seu Menino, a Cobra-D´Água naquelelugarnascera, Uirapurú canta a mágoa no (en) canto que acontecera. Dizem, sem tirar - nem pôr, que boto conquistador em noite de lua cheia comasvirgens,fazamor, deixandonagravidez dessas meninas - donzelas uma saudade sem vez pra sempre a morar com elas. Imagem:http://joseronaldodiascampos.blogspot.com.br/