O Bandeirante

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JANEIRO
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Publicação mensal da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional S.Paulo

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Jornal O Bandeirante
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Publicação mensal da Sociedade
Bras...
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O mundo das bengalas
Walter Whitton Harris

Desde que o Homem
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O Bandeirante - Janeiro 2014

Janeiro chegou
Alcione Alcântara Gonçalves

Dezembro tem festas: Natal e Ano-Novo
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Virgínia e Ofélia
Sérgio Perazzo
Quando tiramos os seixos dos bolsos do casaco, o
corpo f...
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Assombração
Geovah Paulo da Cruz

Meu bisavô Giussepe, nascido no Tirol
italiano, era alt...
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Livros em destaque
NELSON JACINTHO
“A Casa de Pedra”
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Ambiente festivo, decoração natalina, premiações e brindes
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O BANDEIRANTE - n.254 - Janeiro 2014

  1. 1. O Bandeirante 254 JANEIRO 2014 Publicação mensal da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional S.Paulo O mundo das bengalas “Na Idade Média as bengalas eram decoradas com crucifixos e outros símbolos da igreja, uma vez que prevalecia o domínio destes prelados. Os reis europeus portavam bengalas como símbolos de autoridade, muito bem observado nas pinturas da época como, por exemplo, de Henrique VIII. Luiz XIV da França portava sempre bengalas ricamente ornamentadas com joias e as restringiu apenas para a aristocracia. Não permitia que seus súditos usassem bengalas em sua presença...” Leia o artigo de WALTER WHITTON HARRIS na p. 3 Assombração “...Era noitinha, o céu estava nublado e sem lua, no pomar era um breu. Tio Pepino esperava, quando apareceu um vulto, vestido com uma roupa comprida. Sem mais delongas, tio Pepino já foi atacando. Em prudente silêncio ele agarrou o vulto por trás, já foi levantando a longa roupa e beijando a nuca. O vulto atacado deu uns berros, desvencilhou-se dele, disparou pelo quintal afora...” O conto de GEOVAH PAULO DA CRUZ está na p. 6 Arte “São tantas cores a descobrir, tantos teores Que não há nada a se dizer, nem embaraços. Apenas muito para sentir, que o tempo e o espaço Admitindo as leis da física, serão abraços....” Poesia de JOSYANNE RITA DE ARRUDA FRANCO na p. 4 5 4 5 JANEIRO CHEGOU VIRGÍNIA e OFÉLIA CANTO DAS SEREIAS Alcione Alcântara Gonçalves Sérgio Perazzo José Jucovsky Visite nosso BLOG: http://sobramespaulista.blogspot.com.br
  2. 2. 2 O Bandeirante - Janeiro 2014 Jornal O Bandeirante ANO XXIII - nº. 254 Janeiro 2014 Publicação mensal da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores Regional do Estado de São Paulo SOBRAMES-SP. Sede: Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 278 - 7º. Andar - Sala 1 (Prédio da Associação Paulista de Medicin a) - São Paulo - SP Editores: Josyanne Rita de Arruda Franco e Marcos Gimenes Salun (MTb 20.405-SP) Jornalista Responsável e Revisora: Ligia Terezinha Pezzuto (MTb 17.671-SP). Redação e Correspondência: Rua Francisco Pereira Coutinho, 290, ap. 121 A – V. Municipal – CEP 13201-100 – Jundiaí – SP E-mail: josyannerita@gmail.com Tels.: (11) 4521-6484 Celular (11) 99937-6342. Um novo ano alvorece prometendo as bênçãos por todos desejadas. Façamos deste novo período um tempo de crescimento nos diversos aspectos de nossas vidas, e um congraçamento constante em que brindemos, irmanados em ofício e arte, ao grande presente que se oferece como oportunidade: viver cada dia com a gratidão de existir! Bem-vindos a 2014! Josyanne Rita de Arruda Franco Médica Pediatra Presidente da Sobrames-SP Colaboradores desta edição: (Textos literários): Alcione Alcântara Gonçalves, Geovah Paulo da Cruz, José Jucovsky, Josyanne Rita de Arruda Franco, Sérgio Perazzo e Walter Whitton Harris.| (Fatos & Olhares) Márcia Etelli Coelho. Tiragem desta edição: 300 exemplares (papel) e mais de 1.000 exemplares PDF enviados por e-mail. Diretoria - Gestão 2013/2014 - Presidente: Josyanne Rita de Arruda Franco. Vice-Presidente: Carlos Augusto Ferreira Galvão. Primeiro-Secretário: Márcia Etelli Coelho. SegundoSecretário: Maria do Céu Coutinho Louzã. PrimeiroTesoureiro: José Alberto Vieira. Segundo-Tesoureiro: Aida Lúcia Pullin Dal Sasso Begliomini. Conselho Fiscal Efetivos:Hélio Begliomini, Luiz Jorge Ferreira e Marcos Gimenes Salun. Conselho Fiscal Suplentes: José Jucovsky, Rodolpho Civile e José Rodrigues Louzã. . Matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores e não representam, necessariamente, a opinião da Sobrames-SP Editores de O Bandeirante Flerts Nebó - novembro a dezembro de 1992 Flerts Nebó e Walter Whitton Harris - 1993-1994 Carlos Luis Campana e Hélio Celso Ferraz Najar - 1995-1996 Flerts Nebó e Walter Whitton Harris - 1996-2000 Flerts Nebó e Marcos Gimenes Salun - 2001 a abril de 2009 Helio Begliomini - maio a dezembro de 2009 Roberto A.Aniche e Carlos Augusto F. Galvão - 2010 Josyanne R.A.Franco e Carlos Augusto F.Galvão - 2011-2012 Josyanne R.A.Franco e Marcos Gimenes Salun - 2013-2014 Presidentes da Sobrames-SP 1º. Flerts Nebó (1988-1990) 2º. Flerts Nebó (1990-1992) 3º. Helio Begliomini (1992-1994) 4º. Carlos Luiz Campana (1994-1996) 5º. Paulo Adolpho Leierer (1996-1998) 6º. Walter Whitton Harris (1999-2000) 7º. Carlos Augusto Ferreira Galvão (2001-2002) 8º. Luiz Giovani (2003-2004) 9º. Karin Schmidt Rodrigues Massaro (jan a out de 2005) 10º. Flerts Nebó (out/2005 a dez/2006) 11º. Helio Begliomini (2007-2008) 12º. Helio Begliomini (2009-2010) 13º. Josyanne Rita de Arruda Franco (2011-2012) 14º. Josyanne Rita de Arruda Franco (2013-2014) Editores: Josyanne R.A.Franco e Marcos Gimenes Salun Revisão: Ligia Terezinha Pezzuto Diagramação: Marcos Gimenes Salun | Rumo Editorial Produções e Edições Ltda. E-mail: rumoeditorial@uol.com.br Impressão e Acabamento: Expressão e Arte Gráfica Editora - São Paulo 01/01 – José Rodrigues Louzã 06/01 – Evanil Pires de Campos 13/01 - Aída Lucia Pullin Dal Sasso Begliomini 16/01 - José Leopoldo Lopes de Oliveira 24/01 - Suzana Grunspun 25/01 - Rodolpho Civile Anuidade 2014 Será de R$ 330,00 o valor da anuidade para 2014, que poderá ser pago em três parcelas de R$ 110,00, com cheques para fevereiro, março e abril. Para os pagamentos efetuados após esse prazo o valor será de R$ 360,00. A diretoria espera e agradece a contribuição de todos, pois esta é a única fonte de recursos para manter as atividades da SOBRAMESSP . Prêmio Flerts Nebó Na Pizza Literária de 20 de fevereiro será feita a entrega do Prêmio “Flerts Nebó” que, em sua 13ª. edição, será entregue ao melhor texto em prosa apresentado em 2013. Dois outros textos receberão menções honrosas neste concurso. Mais uma fornada Já foram definidas as regras e condições para mais uma edição da tradicional coletânea bianual da SOBRAMES-SP, que inclusive já tem data marcada para lançamento: 07.11.2014. Nos próximos dias, serão divulgadas por e-mail e correio convencional as informações detalhadas para a participação na “A Pizza Literária - décima terceira fornada”. Prepare seus melhores textos e não deixe de participar. Fim de festa Este é o mote para quem quiser participar do desafio da próxima Superpizza. Os textos em prosa ou verso com o tema “fim de festa” deverão ser apresentados na Pizza Literária de 20.02.2014. O que for escolhido por um jurado convidado, receberá uma garrafa de vinho. Nosso blog pelo mundo Perto de chegar ao marco de 20.000 visitas, nosso Blog agora tem um mecanismo para aferir de onde são os visitantes. Clicando no mapa da página inicial (no alto, à direita), aparecerá a listagem dos países visitantes. Clicando na linha correspondente ao país, aparecerão as cidades de onde se originaram os acessos. É muito gratificante saber que somos vistos na Costa do Marfim, EUA, Italia, Austrália, Senegal, Rússia, UK, Portugal, Angola, etc. Confira: http://sobramespaulista.blogspot.com.br As Pizzas Literárias da SOBRAMES-SP acontecem na terceira quinta-feira de cada mês, a partir das 19h00 na PIZZARIA BONDE PAULISTA Rua Oscar Freire, 1.597 - Pinheiros - S.Paulo
  3. 3. O Bandeirante - Janeiro 2014 3 O mundo das bengalas Walter Whitton Harris Desde que o Homem habita a Terra, encontrou no galho de uma árvore um objeto para auxiliá-lo em sua marcha, seja apenas para apoiá-lo em terrenos acidentados, como no caso do cajado, seja para ajudálo para ficar em pé por qualquer lesão dos membros inferiores, traumática ou neurológica. É óbvio pressupor-se que, com o avançar da Humanidade, o homem primitivo foi se aprimorando, escolhendo galhos cada vez mais retos, ou então, recorrendo à pedra lascada, polida e aos metais para também trabalhar os galhos retorcidos. Imaginase que, acidentalmente, algum primitivo descobriu que uma pequena bolota ou uma pequena curvatura numa das pontas melhorava muito para segurá-la pela mão. Com o passar do tempo, bengalas tornaramse símbolos de autoridade. No antigo Egito elas variavam de acordo com a profissão do dono, fosse ele um faraó, um tecelão ou um marinheiro. Era de suma importância que o acompanhasse até a morte e no além, tendo sido encontrada junto às múmias. Na Idade Média, as bengalas eram decoradas com crucifixos e outros símbolos da Igreja, uma vez que prevalecia o domínio destes prelados. Os reis europeus portavam bengalas como símbolos de autoridade, muito bem observado nas pinturas da época como, por exemplo, de Henrique VIII. Luiz XIV da França portava sempre bengalas ricamente ornamentadas com joias e as restringiu apenas para a aristocracia. Não permitia que seus súditos usassem bengalas em sua presença. Basicamente, uma bengala é dividida em quatro partes: o cabo, a haste, o colarinho (que une o cabo à haste, especialmente se forem de materiais diferentes) e a ponteira. O século XIX, com a Revolução Industrial, presenciou a fabricação em massa de bengalas para todos os gostos. Continuaram representando o poder, fundamentalmente monetário, pois quanto mais rico o proprietário, mais elaborada era sua bengala. Tiffany as fazia, como todas as outras firmas de porcelana. Faberge usava jade e quartzo. Do oriente chegavam bengalas com ornamentos em marfim. Artesãos desenhavam colarinhos, encrustando-os com diamantes. Marinheiros as preparavam de osso de baleia. São várias as categorias de bengalas. Sempre vem à mente o seu importante uso médico, desde bengalas de madeira, às de metal, onde se pode regular sua altura, àquelas de extremidade com quatro ponteiras para garantir maior estabilidade. As bengalas decorativas são principalmente do século XIX e até 1920. Os cabos podiam ser esmaltados, de prata, bronze, madeira, vidro, etc. As de cabo de prata eram bastante trabalhadas com cabeças de índios e outras figuras humanas, animais e flores. Os temas eram por demais variados. Há também bengalas com várias funções. Podem camuflar uma arma branca ou de fogo, podem apresentar um esconderijo para portar documentos ou drogas, ou então ter no seu cabo uma bússola ou um relógio. Eram inúmeras as aplicações. O famoso violinista Jascha Heifitz frequentemente portava um arco de violino dentro de uma bengala que retirava ao se apresentar no palco para um concerto. No entanto, talvez o uso mais comum foi de ser, no século XIX e XX, um símbolo de elegância para as damas e cavalheiros da época. Não se pode esquecer, contudo, seu uso em plena Segunda Guerra Mundial, onde os comandantes das forças armadas carregavam bengalas finas e curtas debaixo do braço, como símbolo de seu indiscutível poder. Não poderia deixar de mencionar que existem miniaturas de escudos representando cidades ou locais que podem ser afixadas em uma bengala de madeira. Deixa de ser uma simples bengala para ser uma bem viajada com histórias para contar. Gosto sempre de lembrar que me foi ensinado que a bengala é um instrumento médico para dar apoio, no entanto, apenas “apoio moral”. Isto não é verdade. Já tive de usar uma bengala em diversas ocasiões e dou graças ao Homem Primitivo pela sua descoberta, pois muito ajuda no apoio aos transtornos físicos também.
  4. 4. 4 O Bandeirante - Janeiro 2014 Janeiro chegou Alcione Alcântara Gonçalves Dezembro tem festas: Natal e Ano-Novo Tradicionalmente festejadas pelo povo Com muita alegria, esperança e amor, Encerrando um ano de trabalho e fervor. Um ano termina e outro começa, Com fogos de artifício e muita festa, Com presentes para Iemanjá, Rainha do Mar; E todos de branco na praia, para festejar. Espelhos, rosas, perfume, colocadas num barco, Como oferenda e agradecimento ao orixá; Bilhetes, cartas e rituais, fazendo os pedidos De emprego, casamento, realizações, são jogadas ao mar Assim o “Réveillon” é festa do despertar, Comemorando a entrada do ano novo, Após velório festivo do ano que acabou, Anunciando ao povo que janeiro chegou! O canto das Sereias Orfeu e os iniciados Órficos José Jucovsky MITO DE ORFEU Para matar Orfeu não basta a Morte Tudo morre que nasce e que viveu Só não morre no mundo a voz de Orfeu. Vinícius de Morais (1913 – 1980). Orfeu com sua viva voz angelical Pelas Musas e Bacantes amado Orquestrava em ritmo sem igual As naus para o destino almejado! O canto das sereias a enfeitiçar Não competia com a Orfeu ternura Pois não podiam mais atrair para o mar Argonautas à fatal desventura! Orfeu ao saber da morte de sua ninfa amada Explode em poética plangente melodia Cenário trágico da Eurídice invocada Proclamando seu querido nome noite e dia. Solitário eco e canto n’alma, amargurado A revelar a dor que não se cala, violenta Com a lira em desventura no céu estrelado Apaixonado, imerso em dramática tormenta! Palavras sob palavras dos cantos flutuantes Rouba secretos segredos da grega cultura Trazendo iniciados libertos órficos bacantes Opondo-se à cólera de Zeus na Olímpica altura.
  5. 5. O Bandeirante - Janeiro 2014 5 Virgínia e Ofélia Sérgio Perazzo Quando tiramos os seixos dos bolsos do casaco, o corpo flutuou na superfície do rio. Não se sabe se Ofélia ou Virgínia, separadas que estavam por séculos e fronteiras, por um fio de cabelo, o teatro da vida no fundo das águas. Ofélia encerrada num castelo de Elsinore no reino gelado da Dinamarca, Virgínia afogada no Rio Ouse, na paisagem campestre do Sussex, quase uma pastoral de Beethoven revisitada. Um colapso nervoso, disseram depois, confirmado por seus biógrafos. Ofélia, repaginada na loucura, seu lastro também a afogá-la no fundo de outro rio. Sempre as águas. Farol e Waves de Virgínia, Mrs. Dalloway tomando conta de tudo, desenterrando Ofélia da areia de um riacho, leito do leito de uma corrente revolta. Um lapso no tempo. Ofélia sucumbindo na loucura a falsa loucura de Hamlet. A bengala e o chapéu de Virgínia deixados na margem, não dando margem a qualquer dúvida, a qualquer desvio neste estranho, úmido, exílio, exílio para dentro de si mesma. Estranha viagem essa, sem trem e sem barcos, arcos, arcobotantes das ramagens ribeirinhas, sem remos, velas infladas de uma nau de ficção apagando velas noturnas com um sopro, deixando tudo no escuro neste último percurso no curso das águas sem fim, cabrestantes içando âncoras, labirintos, colmeias, caracóis, em que se perde de vista as asas da imaginação, sopradas por um vento de quase inverno. Duas suicidas, produto e fonte de literatura, da criação, resultado da vivência do desalento. Uma, personagem, outra, palco e ação da tragédia. Shakespeareanas ambas, cada uma em sua própria dimensão, quer ficcional, quer na vida concreta do correr dos dias, que teimamos chamar de vida real, no turbilhão da correnteza, afluentes uma da outra, boiando, enfim, no remanso de um braço de rio. Como Marília e Marina, as duas mocinhas de Botafogo, da balada de Vinicius que, de mãos dadas se atiraram nos trilhos do bonde num desesperado abraço de solidão e desesperança sem saída. As duas mocinhas que davam que nem galinhas na perspectiva implacável do poeta, na falta de perspectiva do isolamento irreversível. Heroínas trágicas destinadas a viver para sempre nas páginas de um livro e de habitar estantes envidraçadas de uma biblioteca e a quem, hoje, apenas, se oferecesse o sacrifício da beberragem de alguma classe e de alguma dose de prozacs. Diante do afogamento de Ofélia, de Hamlet ou de Virgínia Woolf com seu chapéu e bengala no fundo do rio ou do sangue nos trilhos das mocinhas de Botafogo, a redenção de transformar a morte, com seu paralisante horror, numa obra de arte, tirando as pedras do bolso do casaco e devolvendo ao rio as flores recém-despetaladas de nossos anseios mais secretos. Ser ou não ser, viver ou deixar morrer. Conflito eterno e recorrente entre autor e personagem. Arte Josyanne Rita de Arruda Franco Sem te dizer por que nem quando, Deixo-me levar em teus mistérios. Que me dirás quando chegarem os planos, O que farás se te disser que quero? Há a distância nos evitando danos... Desconhecidos querem perder-se tanto! Inebriados de sedução e apelos, Nós nos amamos entre versos-novelos. São tantas cores a descobrir, tantos teores Que não há nada a se dizer, nem embaraços. Apenas muito para sentir, que o tempo e o espaço Admitindo as leis da física, serão abraços. Só felizardos conseguem amar sem pranto. Desatinados nutrem obsessiva ideia. Resta aos poetas querer amar nos cantos, Nas tênues trincas que a prisão empresta. Pois no prenúncio do misturar textura e tinta, E no silêncio das coisas que não serão ditas, Há um desejo de perdição sem ter castigo... E a vontade de se achar noutro destino. O frio convida ao crespo fogo da lareira Criando um quadro de expressivo movimento: Se realista ou abstrato, se aquarela, Tudo comporta o ir e vir... Pincel e tela! Enquanto espero abrir no tempo a brecha Que me desloque rumo do inevitável encontro, Vou me entregando ao sonho que banqueteia a festa: De chama ardente... libido acesa... cair do pano.
  6. 6. 6 O Bandeirante - Janeiro 2014 Assombração Geovah Paulo da Cruz Meu bisavô Giussepe, nascido no Tirol italiano, era alto, alourado, bonitão. Aqui no Brasil pôs o pinto a juros e “fez América”, casando-se sucessivamente duas vezes com filhas de ricos fazendeiros. Como era instruído, letrado num meio de analfabetos, esperto e trabalhador, multiplicou o patrimônio e se tornou quase um milionário. Chegou a ser tão importante que a missa não começava antes de ele e sua família chegarem. Deixou fazenda para cada um dos numerosos filhos, e alguns cumpriram o ditado: pai rico, filho nobre, neto pobre. O que o inteligente carcamano amealhou, os filhos aproveitaram. Vários deles eram boas-vidas. Um deles, irmão de minha avó, meu tio-avô Pepino, diminutivo do diminutivo Giuseppino (Giuseppe=José), era renomado mulherengo. Era bonitão como o pai, bem apessoado como então se dizia. Folgazão e malandro vivia para a alcova. Na sua fazenda não havia mulher e filha de empregado que ele não assediasse, e em geral não conquistasse. Tinha filhos bastardos por toda a região. Quando uma criança não se parecia com o pai, dizia-se que era filho do Pepino. Muitos usavam um trocadilho, dizendo que ele vivia de pepino duro. Por aquelas paragens ninguém gostava de comer pepino, tal a má fama que o vegetal alcançou. A palavra pepino ficou demonizada. Logo após a imigração italiana, chegaram os japoneses. Foram todos para a lavoura. Um deles foi parar na fazenda do tio Pepino. Lá morava com sua jovem esposa e alguns filhos pequenos. Não se sabe como, algo completamente fora dos padrões nipônicos, mas o fato é que tio Pepino seduziu a mulher do japonês. Tinha com ela encontros frequentes no retiro afastado onde ela residia. Certa vez o Don Juan veio para mais uma rapidinha. Ele tinha um código para avisá-la de que estaria no quintal, à espera dela. Relinchava igual a um burro, depois assobiava como um pássaro preto, e novamente relinchava. Nunca havia engano. Fosse qual fosse a hora, a japonesa ia para o quintal, para a moita de bananeiras. As antigas casas de fazenda não tinham banheiro, e as de empregados, nem ao menos latrinas. Usavam-se moitas mesmo. Era um costume trivial que dava um álibi perfeito. A japonesa costumava usar um longo quimono, muito prático para a ocasião. Era noitinha, o céu estava nublado e sem lua, no pomar era um breu. Tio Pepino esperava, quando apareceu um vulto, vestido com uma roupa comprida. Sem mais delongas, tio Pepino já foi atacando. Em prudente silêncio ele agarrou o vulto por trás, já foi levantando a longa roupa e beijando a nuca. O vulto atacado deu uns berros, desvencilhou-se dele, disparou pelo quintal afora. Era o marido, que chegou em casa esbaforido, gritando: -Chombraçom! Chombraçom! Chombraçom memo non?!! Dizem que o japonês nunca mais foi ao quintal à noite, até que se mudou para bem longe. Velho e falido, já sem terras após uma vida de esbórnia, meu tio-avô Pepino foi morar na cidade, e para sobreviver tornou-se vendedor ambulante de bilhetes de loteria. Agora pobre e menos respeitável, era alvo do pessoal gozador: - “Seu” Pepino, é verdade que o japonês “tava de caganeira” e borrou o senhor todinho? Tio Pepino dava um risinho sardônico e saía de fininho.
  7. 7. O Bandeirante - Janeiro 2014 7 Livros em destaque NELSON JACINTHO “A Casa de Pedra” Funpec Editora - Ribeirão Preto Romance de aventuras onde o mistério, o mundo real e o imaginário vão se mesclando e sendo descobertos por dois meninos curiosos durante uma excursão do colégio em que estudam pelo interior de Minas Gerais. Ao encontrarem um velho índio, os dois meninos fazem descobertas e desvendam mistérios que prendem o leitor do começo ao fim. Voltado ao público infanto-juvenil, este é o décimo livro de Nelson Jacintho e contém ilustrações de Dumara Piantino Jacintho. Contatos: HELIO BEGLIOMINI “Esculápios da Casa de Machado de Assis” Expressão & Arte Editora - SP A obra de pesquisa histórica permite conhecer um pouco da vida e obra de 24 médicos que ligaram sua própria história literária não apenas às ciências médicas e da saúde, mas também à literatura no seu sentido mais amplo, e que desfrutaram ou ainda desfrutam da casa de Machado de Assis, a circunspecta Academia Brasileira de Letras. É o 25º. livro de Helio Begliomini e mais uma importante contribuição à cultura. Contatos com o autor e aquisições: njacintho@convex.com.br heomini.ops@terra.com.br ELEIÇÕES PIZZAS LITERÁRIAS Realizadas na terceira quinta-feira de cada mês JAN - 16 FEV - 20 MAR - 2O ABR - 24* MAI - 15 JUN - 26* JUL - 17 AGO - 21 SET - 18 OUT - 16 NOV - 13* DEZ - 18 *ATENÇÃO Em virtude de feriados as datas das reuniões de Abril, Junho e Novembro foram modificadas Endereços e horários JUL - 17 - Prazo final para a inscrição de chapas concorrentes SET - 18 - Eleição BALADA LITERÁRIA MAI - 30 NOV - 07 COLETÂNEA 2014 FEV Divulgação das regras e início das adesões de autores NOV - 07 Lançamento CONGRESSO NACIONAL REUNIÕES DE DIRETORIA OUT - 08 a 12 Recife - PE Primeira quinta-feira do mês “QUEM é QUEM” ROBERTO CAETANO MIRAGLIA era o garoto da foto da edição de DEZEMBRO Pizzas Literárias: Pizzaria Bonde Paulista. Rua Oscar Freire, 1.507 - a partir de 19h00. Balada Literária: APM - Espaço Maracá - Av. Brigadeiro Luís Antônio, 278 - 11º. andar das 18h30 às 22h00 Reuniões de Diretoria: Sede da SOBRAMES-SP na APM Av. Brigadeiro Luís Antônio, 278 7º. andar - às 19h00 Esta agenda está sujeita a alterações em decorrência de fatores não previstos quando de sua elaboração O verso abaixo é parte de uma poesia de um dos autores da SOBRAMES-SP, já publicado anteriormente numa de nossas coletâneas. Você consegue identificar o autor? Resposta na próxima edição. Esqueço problemas Obrigações e rotinas Apenas caminho sem me importar se me vigiam se me envenenam.
  8. 8. FESTA DE FIM DE ANO I Ambiente festivo, decoração natalina, premiações e brindes marcaram a Pizza Literária de 19 de dezembro de 2013. Destaque para o descerramento simbólico da placa em homenagem aos membros beneméritos Dr. Manlio Mario Marco Napoli e Dr. José Jucovsky. A placa será afixada na sede da Sobrames-SP na APM, perpetuando a nossa gratidão pela contribuição patrimonial de ambos. FESTA DE FIM DE ANO II Rever amigos, alguns distantes, consiste em uma das tônicas dessa época de confraternização. Indescritível, porém, foi a emoção com que acolhemos o Dr. Flerts Nebó, nosso decano, aplaudindo-o de pé, demonstrando a honra e o contentamento por sua presença. Foi mais um encontro inesquecível desta grande família. PRÊMIO COLABORADOR 2013 Devido ao excelente trabalho na revitalização do jornal “O Bandeirante”, a Sobrames-SP concedeu o Certificado de Colaborador 2013 a Marcos Gimenes Salun que também se dedica à organização do Blog da entidade: sobramespaulista.blogspot.com.br CONDECORAÇÕES Depois de fundar a ATLECA – Academia Tupanense de Letras, Ciências e Artes de Tupã, o sobramista Alcione Alcântara Gonçalves recebeu o Diploma e a Medalha “Mérito Presidente Juscelino Kubistchek” conferido pela ABRAMMIL (Academia Brasileira de Medalhística Militar) e a “Moção de Congratulação” outorgada pela Câmara Municipal da Estância Turística de Tupã. Homenagens mais que merecidas. CONCURSO AFLAJ Hildette Rangel Enger foi uma das 50 classificadas no Concurso de Poesias da Academia Feminina de Letras e Artes de Jundiaí - AFLAJ, que resultou em um belíssimo livro, lançado em 17 de dezembro na cidade de Jundiaí. Parabéns.

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