O Bandeirante - 256 - MAR 2014
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O Bandeirante - 256 - MAR 2014 O Bandeirante - 256 - MAR 2014 Document Transcript

  • O Bandeirante 256 MARÇO 2014 Publicação mensal da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional S.Paulo A guerrilheira “De repente, o que se ouve de sua voz não é um hino revolucionário, como, a princípio, se esperava, mas, sim, um cântico de exaltação da natureza, uma esperança silvestre resgatando o amor desgarrado, quase perdido, quase sequestrado, compondo um coro de ternura, à primeira vista incompatível com o matraquear cracracante e seco da luta armada, por uma liberdade apenas divisada, ceifando cabeças e membros ao redor e a esmo. Um cântico de entrega e desprendimento que transforma em causa a justiça social, muito além da própria morte” Leia a crônica de SÉRGIO PERAZZO na p. 3 Naufrágio “O povo yorubá era protegido e abençoado, Xangô era o único que tinha todos os poderes para protegê-los e às crianças que cresceriam fortes e guerreiras como ele. Só ele tinha trânsito livre pelos dois mundos que faziam a terra e que separavam-se entre mortos e vivos.” O conto de ROBERTO ANTONIO ANICHE está na p. 5 O papai noel ladrão “- Sou médico aposentado, já com os pés na eternidade. Por força da minha profissão, fiz da minha vida um rosário, um cordão de contas, alegrias e sofrimentos mesclados, sem explicação. Enquanto isso, ela, a morte, sempre à espreita... Você entende bem isso: é coveiro. Afinal, por que está desempregado?” O conto de RODOLPHO CIVILE na p. 4 5 6 6 DIA DE SOL CAFÉ DIVAGAÇÃO Anienne Nascimento Hildette Rangel Enger Josef Tock Visite nosso BLOG: http://sobramespaulista.blogspot.com.br
  • 2 O Bandeirante - Março 2014 Jornal O Bandeirante ANO XXIII - nº. 256 Março 2014 Publicação mensal da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores Regional do Estado de São Paulo SOBRAMES-SP. Sede: Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 278 - 7º. Andar - Sala 1 (Prédio da Associação Paulista de Medicin a) - São Paulo - SP Editores: Josyanne Rita de Arruda Franco e Marcos Gimenes Salun (MTb 20.405-SP) Jornalista Responsável e Revisora: Ligia Terezinha Pezzuto (MTb 17.671-SP). Redação e Correspondência: Rua Francisco Pereira Coutinho, 290, ap. 121 A – V. Municipal – CEP 13201-100 – Jundiaí – SP E-mail: josyannerita@gmail.com Tels.: (11) 4521-6484 Celular (11) 99937-6342. Colaboradores desta edição: (Textos literários): Anienne Nascimento, Hildette Rangel Enger, Josef Tock, Roberto Antonio Aniche, Rodolpho Civile e Sérgio Perazzo. (Fatos & Olhares): Márcia Etelli Coelho. Tiragem desta edição: 300 exemplares (papel) e mais de 1.000 exemplares PDF enviados por e-mail. Diretoria - Gestão 2013/2014 - Presidente: Josyanne Rita de Arruda Franco. Vice-Presidente: Carlos Augusto Ferreira Galvão. Primeiro-Secretário: Márcia Etelli Coelho. SegundoSecretário: Maria do Céu Coutinho Louzã. PrimeiroTesoureiro: José Alberto Vieira. Segundo-Tesoureiro: Aida Lúcia Pullin Dal Sasso Begliomini. Conselho Fiscal Efetivos:Hélio Begliomini, Luiz Jorge Ferreira e Marcos Gimenes Salun. Conselho Fiscal Suplentes: José Jucovsky, Rodolpho Civile e José Rodrigues Louzã. . Matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores e não representam, necessariamente, a opinião da Sobrames-SP Editores de O Bandeirante Flerts Nebó - novembro a dezembro de 1992 Flerts Nebó e Walter Whitton Harris - 1993-1994 Carlos Luis Campana e Hélio Celso Ferraz Najar - 1995-1996 Flerts Nebó e Walter Whitton Harris - 1996-2000 Flerts Nebó e Marcos Gimenes Salun - 2001 a abril de 2009 Helio Begliomini - maio a dezembro de 2009 Roberto A.Aniche e Carlos Augusto F. Galvão - 2010 Josyanne R.A.Franco e Carlos Augusto F.Galvão - 2011-2012 Josyanne R.A.Franco e Marcos Gimenes Salun - 2013-2014 Presidentes da Sobrames-SP 1º. Flerts Nebó (1988-1990) 2º. Flerts Nebó (1990-1992) 3º. Helio Begliomini (1992-1994) 4º. Carlos Luiz Campana (1994-1996) 5º. Paulo Adolpho Leierer (1996-1998) 6º. Walter Whitton Harris (1999-2000) 7º. Carlos Augusto Ferreira Galvão (2001-2002) 8º. Luiz Giovani (2003-2004) 9º. Karin Schmidt Rodrigues Massaro (jan a out de 2005) 10º. Flerts Nebó (out/2005 a dez/2006) 11º. Helio Begliomini (2007-2008) 12º. Helio Begliomini (2009-2010) 13º. Josyanne Rita de Arruda Franco (2011-2012) 14º. Josyanne Rita de Arruda Franco (2013-2014) Editores: Josyanne R.A.Franco e Marcos Gimenes Salun Revisão: Ligia Terezinha Pezzuto Diagramação: Marcos Gimenes Salun | Rumo Editorial Produções e Edições Ltda. E-mail: rumoeditorial@uol.com.br Impressão e Acabamento: Expressão e Arte Gráfica Editora - São Paulo A Sobrames-SP tem se destacado com seus talentosos escritores em diversas agremiações e entidades literárias, variadas mídias e nas especiais e acolhedoras noites de festivos saraus que são as Pizzas Literárias. Os visitantes encantam-se com o convívio alegre e fraterno reinante, onde têm oportunidade de ouvir a voz do próprio autor na apresentação do seu trabalho e conhecer bem de perto autores premiados e profissionais destacados em seus ofícios. Uma experiência intimista única que remete aos tempos de uma cidade um pouco mais silenciosa, um pouco menos movimentada, mas sempre pujante e com vocação para se tornar grandiosa, sem perder seu encanto no acolhimento de todos os estilos, todas as vertentes, todas as propostas. Um jeito São Paulo de ser! Um jeito regional paulista de receber! Sejam bem-vindos. Josyanne Rita de Arruda Franco Médica Pediatra Presidente da Sobrames-SP Diretoria recebe anuidades 2014 É de R$ 330,00 o valor da anuidade para 2014, que poderá ser pago em duas parcelas de R$ 165,00, com cheques para março e abril. Para os pagamentos efetuados a partir de maio, o valor será de R$ 360,00. A diretoria espera e agradece a contribuição de todos, pois esta é a única fonte de recursos para manter as atividades da SOBRAMES-SP. O pagamento em dia também garante a publicação de seus textos literários. Contatos com a tesouraria: aidapdsb@terra.com.br Adesões para Coletânea 2014 As regras e condições para mais uma edição da tradicional coletânea bianual da SOBRAMES-SP, “A Pizza Literária décima terceira fornada”, já estão disponíveis. Elas foram publicadas num BLOG exclusivo, que foi ao ar no final de janeiro e que poderá ser acompanhado no endereço abaixo. Foram enviados e-mails a nossos autores e logo mais estará sendo enviada também por correio convencional. No encerramento desta edição, oito autores já haviam feito sua inscrição. As adesões vão até 31 de março e poderão ser inscritos textos em prosa e verso sobre qualquer tema. Cada autor poderá contratar um mínimo de 5 (cinco páginas) da obra, não havendo limite máximo de participação. Para cada página contratada, o autor receberá 5 (cinco) volumes do livro. O custo por página contratada é de R$ 70,00 (setenta reais) e o total da quota do autor poderá ser parcelado em até 7 (sete) vezes. Não perca mais tempo: prepare seus melhores textos e inscreva-se hoje mesmo! http://coletanea2014.blogspot.com.br/ 21/03 – Helio Begliomini 21/03 – Maria da Glória Civile As Pizzas Literárias da SOBRAMES-SP acontecem na terceira quinta-feira de cada mês, a partir das 19h00 na PIZZARIA BONDE PAULISTA Rua Oscar Freire, 1.597 - Pinheiros - S.Paulo
  • O Bandeirante - Março 2014 P OR EBÓ C E D TS N V E N LER F 3 mio 2 0 1 ê r 3 A guerrilheira Sérgio Perazzo Para as guerrilheiras da América Central, sempre e para sempre guerrilheiras Os ossos não são mais os mesmos. Gemem o passar dos anos. Tempos de rastejar colinas. Desbravar o mato. Comer gafanhotos. Pensar ferimentos das longas marchas. Secar frieiras. Digitais em passaportes falsos, como em filmes de espionagem passados na peneira de suspeitas de oficiais das SS ou de sentinelas imberbes de bochechas rosadas da Europa Central no auge da Guerra Fria. Tempo clandestino. Tempo de fuga. Tempo das redes de informações que cobriam o mapa das fronteiras da Guatemala e que se estendiam pelas estradas de terra de El Salvador, Nicarágua e Costa Rica. No descanso da varanda sombreada de trepadeiras, algo desfiadas, no ângulo certo, num rápido momento, quase imperceptível, o sorriso de pedra de lábios cerrados, como que reconhecendo a reprise do mundo em sua monótona sucessão de atrocidades jamais superadas, em mais uma passeata de protesto e palavras de ordem massacrada pelo implacável poder constituído, algum dia destituído pelo apodrecimento dos anos. No mais, o sorriso sempre se suaviza, sempre é adoçado pela página do reverso da mesma história que transforma tragédia em anedota. Tempos heroicos. Tempos esquecidos. Tempos de alguma forma revividos. Por isso mesmo, é capaz de ser deixada só na periferia de um subúrbio qualquer de uma cidade desconhecida sem se perder, apesar da falta de bússola, guia, sextante ou GPS. Sempre encontra, sem medo e sem pânico, o caminho de volta. Sem senha. Sem codinome. Sem facão de mato abrindo picadas. Sem bandana prendendo o cabelo e contendo o suor da testa. Sem fieira de munição de metralhadora cruzando o peito à sombra de bananeiras. Ninguém diria, sentindo a luz que emana do seu rosto, que apagar qualquer brilho era o segredo de sobrevivência da sombra clandestina. Ninguém diria que a palma rude esculpida de calosidades rompendo as cordas de alpinista, fosse capaz do calor das chacras, da suavidade reparadora e da brisa etérea que emana de seus dedos de lavadeira. De repente, o que se ouve de sua voz não é um hino revolucionário, como, a princípio, se esperava, mas, sim, um cântico de exaltação da natureza, uma esperança silvestre resgatando o amor desgarrado, quase perdido, quase sequestrado, compondo um coro de ternura, à primeira vista incompatível com o matraquear cracracante e seco da luta armada, por uma liberdade apenas divisada, ceifando cabeças e membros ao redor e a esmo. Um cântico de entrega e desprendimento que transforma em causa a justiça social, muito além da própria morte. O impulso muito perto da loucura. Tal entrega muito perto da divindade. O ideal muito perto da determinação, da escolha e do acaso, juntando os retalhos de vida pessoal, de caminhos outros que a pudessem situar, por exemplo, numa faixa de areia à beira do mar ou num pico de neve no alto de uma montanha mais europeia que asiática ou, quem sabe, na folha de uma tamareira na miragem de um deserto. Guerrilhas passam. Outras guerrilhas se fundam e se organizam. Planos de batalha são traçados na mesa mapeada de comandos, bandeirinhas coloridas espetando as posições do inimigo. Um dia vem que, pelo gemido dos ossos, o sorriso se suaviza com a reunião dos filhos deixados para trás e novamente recolhidos, aposentando a guerrilheira que, num vislumbre da claridade, reaparece entre as sombras da varanda. Entre as flores das trepadeiras, numa ciranda sazonal fertilizada pela chuva benfazeja do tempo e da história. Cochilar diante da violência recorrente dos homens? Nunca. Recostar-se entre tréguas do fogo das batalhas sem delas se tornar refém? Talvez. Deixar-se morrer? Jamais.
  • 4 O Bandeirante - Março 2014 osa Ó onr NEB H S o T nçã FLER Me o 3 mi 201 Prê O papai noel ladrão Rodolpho Civile Na calada da noite, um vulto, sorrateiramente, pisa na relva ressequida da imponente mansão do Morro dos Ingleses, no Bexiga. Em seguida, o som agudo do estilhaçar de uma janela. A luz bruxuleante de uma lanterna de mão, percorrendo o ambiente. Até que... O encontro com uma cadeira de rodas. Nela, um velhinho de cabelos brancos como a neve. - Opa! O que o senhor está fazendo aqui? - Eu é que pergunto, afinal a casa é minha! Qual o motivo da sua presença, vestido de Papai Noel, quebrando a vidraça e interrompendo o meu sono? Ainda faltam cinco dias para o Natal! - Peço desculpas! Não é minha intenção... - Então, qual é? Entrar na casa dos outros é crime! - O senhor tem razão, mas, eu não sou ladrão. Estou procurando... - Procurando o que? - Uma boneca que vira os olhos e fala “papai e mamãe” e também um trenzinho elétrico para dar aos meus filhos. - Então, por que não foi procurar numa loja de brinquedos? - Aí é que está o problema... Não tenho dinheiro, estou desempregado. - Qual é a sua profissão? - Coveiro. - Puxa que bela profissão! - A minha mulher quer que eu mude... Por falar nela, eu gostaria de presenteá-la com um relógio de pulso, mas, é tudo tão caro... O senhor pode me ajudar, mesmo que seja um empréstimo? Um dia, eu prometo pagar. - Que piada! Como posso acreditar em você? Entra em minha casa, quebra uma vidraça, vestido de Papai Noel... Afinal, por que escolheu esta casa? - Nesta região, só dá gente muito rica. Escolhi a sua casa por ser muito bonita! - Demonstra bom gosto! - Que adianta ter bom gosto sem dinheiro? Desempregado como estou... Não encontro outro emprego... - Isto é verdade... O grande escritor italiano Giovanni Papini disse que “o dinheiro é o estrume do diabo”. Ninguém vive sem ele... - Por favor, o que quer dizer estrume? Eu só tenho o primário. - Ah! Estrume significa bosta, merda. - Agora, sim entendi! O senhor fala muito difícil... - Bem...Vamos pular esta parte. Qual é o seu nome? - Dimas. - Que coincidência! O mesmo nome do bom ladrão que foi crucificado com Jesus Cristo, de acordo com os evangelhos. - Ele deve estar no Paraíso! Enquanto eu estou na Terra, ou melhor, no Bexiga, tentando conseguir uns brinquedos... - De qualquer maneira, é melhor do que ser crucificado. Mudando de assunto: você está com fome? - Muita! - Então vamos até a cozinha. Apague a sua lanterna. Na cozinha. - Olhando o seu rosto ...Você é jovem. Precisa fazer a barba! - Mas, Papai Noel tem barba branca e comprida! - Onde conseguiu esta roupa? - Num brechó. O senhor está sozinho? - A minha filha e o meu genro foram a um baile. São moços. Devem aproveitar a vida, enquanto ela sorri. - Isto é verdade... Velho só fala em doenças, remédios e morte. Não sei se é o seu caso... - Sou médico aposentado, já com os pés na eternidade. Por força da minha profissão, fiz da minha vida um rosário, um cordão de contas, alegrias e sofrimentos mesclados, sem explicação. Enquanto isso, ela, a morte, sempre à espreita... Você entende bem isso: é coveiro. Afinal, porque está desempregado? - Sorte sua que é médico! É duro suportar um coveiro chefe, briguento, implicante e mandão. Um chato! Tão chato, que até os mortos perdem a vontade de serem enterrados! - Nossa! Gostei de sua explicação. Bem original! De qualquer forma, cada Ser tem neste mundo um destino... - É verdade! O meu é de ser um Papai Noel de saco vazio. - O extraordinário, meu amigo, é saber que num saco pequeno e vazio podem morar os sonhos, as ilusões, a felicidade... - Principalmente para os meus filhos! Por este motivo, não posso decepcioná-los e estou aqui, conversando com o doutor. - Não é necessário o título, só o nome: Jorge. A partir de hoje, somos amigos. Você conseguiu afastar de mim a minha inimiga, a solidão. Velho só vive assoprando as cinzas do passado. E elas só trazem sofrimento. - Mas isto não leva a nada... Tudo acaba na terra... Nisto tenho bastante experiência. - Você tem medo da morte? - Não! Ela me ajuda a ganhar o pão. - Bem, visto deste ângulo, você tem razão! Você é um verdadeiro sábio! - Que exagero! Eu sou um simples coveiro, atualmente desempregado, com o firme propósito de levar sonhos, naturalmente, dependendo de sua colaboração! Não vai lhe fazer falta alguns brinquedos... - Um dia, no futuro bem distante, sem pressa, quando eu bater os “borzeguins” e, por acaso, você for o coveiro... - Ah, eu o enterrarei, com muito prazer! Considerando a nossa amizade... - Gostei da sua franqueza e solidariedade! Estou profundamente impressionado! - E disposto a me ajudar? - Sim! O que lhe falta, eu tenho aqui encaixotado, sem uso, mofando. - Então, eu vou lhe fazer um favor... - Exatamente! Que faça proveito! E, para completar, darei um relógio de pulso que pertenceu à minha falecida esposa. Estará melhor no pulso de sua amada. Por favor saia pela porta da frente, para não quebrar outra vidraça. Apareça sempre! Só não quero vê-lo no cemitério! Lá fora, uma intensa neblina cobria o Morro dos Ingleses. O passo cadenciado do guarda da rua... Ao vê-lo - Boa noite, Papai Noel! - Boa noite! Feliz Natal para você sua família! Com um ligeiro aceno, Papai Noel sumiu na densa bruma.
  • O Bandeirante - Março 2014 sa nro NEBÓ Ho S ção LERT Men o F 3 mi 201 Prê Naufrágio Roberto Antonio Aniche As crianças corriam nuas pelas matas, pelas praias e rios espalhando o riso alegre como borboletas voando entre plantas. Cada criança, cada par de mãos eram como uma nova esperança de alegria, fartura e progresso para todo o reino de Oyo (hoje Nigéria). Xangô, grande guerreiro se tornava bondoso e não conseguia impedir um sorriso largo que se derramava em cada criança, parava os trovões, descansava seu machado, tornava-se no coração irmão daquelas crianças que corriam, brincavam. O olhar de Xangô era o sol escaldante, mas a pele negra já era íntima do calor extremo, e mesmo assim, era a luz protetora daquelas crianças que se multiplicavam como pássaros para tornar a nação cada vez mais forte. A pele era o orgulho, resistia ao sol e se banhava na água morna dos rios embaixo da proteção do seu olhar. Somente elas conseguiam dominar a valentia e a violência de que Xangô era detentor, o destemido governante que se enternecia com o riso e as brincadeiras dos filhos de sua nação. O povo yorubá era protegido e abençoado, Xangô era o único que tinha todos os poderes para protegê-los e às crianças que cresceriam fortes e guerreiras como ele. Só ele tinha trânsito livre pelos dois mundos que faziam a terra e que separavam-se entre mortos e vivos. Numa tarde quente, Xangô foi traído. A nação foi pega desprevenida, seus guerreiros foram emboscados, mortos, capturados, mutilados. As mulheres, amarradas às crianças, violentadas, agredidas. Capturados como animais. Tratados Café Hildette Rangel Enger O cheiro de café Pelas manhãs Me leva a viajar Pelos caminhos Da infância... Caboré de barro, Coador de pano Fogão de lenha, abano de palha E o pai abanando rápido pro fogo ficar mais forte E ferver depressa a água do café... 5 como animais. Presos, colocados aos montes em porões de navios. Crianças chorando, mulheres gemendo. Os mutilados foram deixados para trás, muitos se jogaram ao mar preferindo morrer a viver em cativeiro. Não havia mais a luz do olhar de Xangô para iluminar suas existências reduzidas a simples destroços humanos amontoados, misturados a fezes e excrementos, a cadáveres que jamais seriam enterrados. Xangô encontrou a Nação queimada, filhos e irmãos mortos, e gritou. Gritou muito com a força do trovão que ecoou pela terra e pelo mar. Chorou com as lágrimas furiosas da tempestade. Toda a sua valentia converteu-se em ódio vingativo. Xangô nunca suportou a traição e foi buscar a justiça para quem traiçoeiramente desafiara sua força. A tempestade fustigava o navio negreiro com uma fúria sem igual. O capitão e os marinheiros jamais haviam visto situação tão violenta, um mar tão revolto que balançava o barco como um brinquedo na lagoa. O medo se apossara de todos. Xangô se aproximou e com seu machado rompeu o navio ao meio, enquanto todos imploravam pela proteção divina. O terror se estampava em cada tripulante com a certeza da morte certa. A carga do porão, apinhada, amontoada, ferida de morte em sua alma sorriu com a presença de Xangô, que de um só golpe libertou todos os seus filhos e irmãos, enquanto Yemanjá recolhia a todos embaixo de seu manto de luz e bondade. Estavam todos novamente livres para correr pelas matas do outro mundo... Barulho de panelas a mãe sonolenta fazendo cuscuz Eu acordando contente Com sons e cheiros da cozinha Anunciando um novo dia Para descobertas. Agora basta apertar um botão Para o cheiro aparecer... Silenciosamente... Não mais o pai Nem a mãe na labuta Não mais alegrias Ao amanhecer Restaram lembranças Que saltitantes chegam Para me salvar... De entristecer
  • 6 O Bandeirante - Março 2014 Dia de sol, dia de tempestade Anienne Nascimento Experimente ler este texto assim: primeiro leia-o completo; depois leia apenas as frases em negrito; finalmente, leia apenas as frases em itálico. Lindo domingo de sol. Chove torrencialmente em mim. O dia está brilhante e vivo. Os relâmpagos e trovões de minh’alma parecem querer acordar a mulher morta. Abro a janela do quarto e o intenso azul do céu me deixa tonta. Por dentro noite e ventos fortes. Um céu sem nuvens entremeado pelo colorido das pipas a sorrir para mim, a zombar de mim? O que fazer? Minha casa fica a poucos metros da praia, por que não sair para olhar o mar? Olhar para fora de mim. Quem olhar através das janelas de meus olhos chamuscados de chuva verá escuridão e medo, desolação e choro. Visto o maiô, o vestido de praia, coloco os óculos escuros, as sandálias e o chapéu de palha. A ventania interna continua intensa. Vou caminhando e olho ao redor. A chuva de granizo começa a cair e machucar o espírito. Caras sorridentes passam por mim. Turbulência na mente. Cangas esvoaçantes parecem andar sozinhas. Desequilíbrio no peito. Ao chegar à praia aprecio a paisagem, minha velha conhecida. O mar de um belo azul esverdeado tira meu fôlego. O fôlego escasso pela desordem que me habita. Na praia de areias brancas e finas, baldinhos com cores vibrantes falam por si. Perturbação me domina. Crianças brincando. Instabilidade do eu. Famílias felizes. Dirijo-me ao mar. De perto a água é tão clara que é transparente. Peixes pequeninos vêm beijar meus pés. A tempestade devastadora arranca árvores sem deixar raízes, mas destruição em mim. A minha pele sente a carícia dos peixinhos tingidos de cor e brilho colossais. Sinto os carros revirados, as casas derrubadas, as barreiras desabadas... Retiro o vestido. Deixo os óculos, as sandálias e o chapéu na areia. Mereço um mergulho. E esse mar de possibilidades? Infinito mar... Infinitas possibilidades... Braçadas enérgicas na vastidão da água me levam em direção ao horizonte. Tornados e tufões agitam minha essência e a natação transforma meus sentimentos em atos vigorosos. Repentinamente o temporal torna-se longínquo, distante, fantasioso, como numa tela pintada a óleo. A água salgada lambe meu corpo. As trevas me invadem bruscamente. O oceano me envolve e me abraça. Eu estou em trevas. Um abraço morno e aconchegante no corpo inteiro. Eu sou trevas e incompetência para suportar a borrasca em seu clímax. O organismo canta com um desmedido prazer. Sou trevas e incompetência para sentir a tormenta em seu auge. Meu corpo sente o júbilo e o bem-estar de “estar”. Trevas e incompetência de “ser” um sofrer infinito. Mulher em gozo e o clamor por misericórdia. Paro cansada e me ponho a flutuar. Corpo em regozijo. Nasce em mim a luz dourada da aurora. Permito-me ficar assim por alguns minutos. Deságua em mim calmaria. Longos e infinitos minutos a boiar. Interior em ruínas. Volto a nadar em completa devastação. Olhos no céu sem nuvens. Sou escombros. Estou de volta à beira do mar com o olhar no horizonte e o amanhecer renasce com um arco-íris de sonhos em mim. O mundo continua igual. Eu, em (re)construção. Divagação Eu queria ter quatro braços, para poder te abraçar. Eu queria ter duas bocas para poder te beijar. Tua alma artista, gostaria de pintar num quadro bem grande, para com quatro mãos segurar. Josef Tock Tua bondade infinita gostaria de proclamar, e teria duas bocas para mais poder falar. O meu amor infinito gostaria de perpetuar e queria ter dois corações para um poder te doar.
  • O Bandeirante - Março 2014 7 Livros em destaque ANIENNE NASCIMENTO “Memórias de uma cortesã” Edição da autora - AL Romance que conta as aventuras e desventuras de uma prostituta francesa que viveu no período de transição do século XIX para o século XX. Com maestria, a autora conduz sua personagem pelos meandros da Bele Èpoque, numa narrativa plena de erotismo que mantém a atenção do leitor desde a primeira página. Saiba mais sobre a obra e a autora na página do facebook https:// www.facebook.com/ MemoriasDeUmaCortesa. Aquisições e contatos: SÉRGIO PERAZZO “Psicodrama - o forro e o avesso” Editora Ágora - SP Com ideias originais e inovadoras, Perazzo subverte os conceitos já consagrados do psicodrama e os renova. O resultado dessa "costura" de teoria e prática é um rico mosaico do psicodrama brasileiro contemporâneo. A leitura permite que o psicodramatista se atualize, sistematize sua prática e entre em contato com um novo olhar sobre o pensamento moreniano e pósmoreniano. Maiores informações com o autor: serzzo@uol.com.br. Aquisições: anienne.petrus@gmail.com www.livrariasaraiva.com.br Relendo O trecho abaixo é parte de uma poesia de um dos autores da SOBRAMES-SP, já publicado anteriormente numa de nossas COLETÂNEAS. Você consegue identificar o autor? Resposta na próxima edição. O trecho da edição anterior pertence ao conto “PERFUME DE ESTREBARIA”, de Carlos José Benatti, que foi publicado na página 49 da coletânea “A Pizza Literária – nona fornada”. Que tal reler esse conto na íntegra, além de outros textos de Benatti e dos talentosos autores da SOBRAMES daquela edição? ...Tu ...Tu eras a joia viva Em corpo esguio engastada, De imaginação ativa, companheiro Bom companheiro de estrada, Pura alma abençoada!... “...Era mesmo muito hábil essa menina. Como, aliás, toda menina estuprada. E tinha plena consciência de que a manipulação era a semente da desonestidade e da falta de ética...” REALIZADO PIZZAS LITERÁRIAS Realizadas na terceira quinta-feira de cada mês JAN - 16 FEV - 20 MAR - 2O ABR - 24* MAI - 15 JUN - 26* JUL - 17 AGO - 21 SET - 18 OUT - 16 NOV - 13* DEZ - 18 *ATENÇÃO Em virtude de feriados, as datas das reuniões de Abril, Junho e Novembro foram modificadas ELEIÇÕES JUL - 17 - Prazo final para a inscrição de chapas concorrentes SET - 18 - Eleição BALADA LITERÁRIA MAI - 30 NOV - 07 COLETÂNEA 2014 FEV Divulgação das regras e início das adesões de autores NOV - 07 Lançamento CONGRESSO NACIONAL REUNIÕES DE DIRETORIA OUT - 08 a 12 Recife - PE Primeira quinta-feira do mês Endereços e horários Pizzas Literárias: Pizzaria Bonde Paulista. Rua Oscar Freire, 1.597 - a partir de 19h00. Balada Literária: APM - Espaço Maracá - Av. Brigadeiro Luís Antônio, 278 - 11º. andar das 18h30 às 22h00 Reuniões de Diretoria: Sede da SOBRAMES-SP na APM Av. Brigadeiro Luís Antônio, 278 7º. andar - Sala 1 - às 19h00 Esta agenda está sujeita a alterações em decorrência de fatores não previstos quando de sua elaboração
  • PRÊMIO FLERTS NEBÓ 2013 Uma antiga revolucionária, um navio negreiro e um Papai Noel diferente são temas dos textos que conquistaram o Prêmio Flerts Nebó entregue durante a Pizza Literária de fevereiro. Vale conferir: Primeiro Lugar – “A Guerrilheira” (Sérgio Perazzo). Primeira Menção Honrosa – Naufrágio (Roberto Antonio Aniche). Segunda Menção Honrosa – “Papai Noel Ladrão” (Rodolpho Civile). Publicados nesta edição. Comissão julgadora: Gabriel Kwak, Fabiana de Almeida, Nilva Mariani e Rosa Maria de Brito Cosenza. SUPERPIZZA A reunião literária de fevereiro teve uma expressiva presença e foi muito festiva. Dentre as muitas atrações da noite, aconteceu a entrega do mimo pela Superpizza em homenagem a Vinicius de Moraes, cuja vencedora foi Josyanne Rita de Arruda Franco. Em poucas palavras, ela manifesta o amor pelos filhos no embalo dos lindos versos de “Garota de Ipanema”. O texto já foi postado no Blog: sobramespaulista.blogspot.com.br CONGRESSO POSSE Estão abertas as inscrições para o XXV Congresso Brasileiro de Médicos Escritores que acontecerá de 8 a 11 de outubro em Recife-PE, juntamente com o IX Congresso da UMEAL. Informações no site da regional: sobrames-pe.webnode.com Sheila Regina Sarra tomou posse como membro titular da Sobrames-SP na Pizza Literária do dia 20 de fevereiro. Helio Begliomini fez a apresentação da nova confreira, que logo após prestou seu juramento. Seja bem-vinda! NOVOS ASSOCIADOS SHEILA REGINA SARRA Medicina do Trabalho e Arquitetura Reside na capital paulista. Nascida em 9 de novembro de 1958. Graduada pela Faculdade de Medicina da USP em 1981, vem diversificando seus estudos e hoje cursa Arquitetura na Faculdade de Belas Artes. E-mail: sheila_sarra@hotmail.com ANIENNE BARBOSA GUSMÃO DO NASCIMENTO Infectologia Natural de Rondonópolis-MT, (18.05.1971) migrou com a família para Maceió-AL, aos 3 anos, e lá reside até hoje.Graduou-se pela Universidade Federal de Alagoas UFA, em 1995. Autora do romance “Memórias de uma Cortesã”, é também poeta e prosadora. E-mail: anienne.petrus@gmail.com Às novas confreiras as boas-vindas, na certeza de que o talento literário de ambas virá engrandecer e muito a nossa regional e a SOBRAMES de todo o Brasil.