Anais X Jornada 2009

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Anais X Jornada 2009

  1. 1. Anais ANAISdaXJornadaMédico-LiteráriaPaulista-SÃOPAULO-SP-2009 APOIO INSTITUCIONAL REALIZAÇÃO Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - SOBRAMES Nacional - Regional São Paulo - Regional Ceará X Jornada Médico-Literária Paulista V Jornada Nacional da Sobrames VI Sobramíada - CE 17 a 19 de Setembro de 2009 Green Place Hotel São Paulo - SP - Brasil MUSEUPAULISTA-IPIRANGA-SP Movimento Poético Nacional - Academia Paulista de História - Academia Paulista de Medicina - Green Place Flat - Associação Médica Brasileira - Rumo Editorial Produções e Edições - Academia Paulista de Letras - Academia Ribeirãopretana de Letras Sociedade Brasileira de Médicos Escritores- SOBRAMES Nacional - Regional São Paulo - Regional Ceará capa_x jornada - anais - FINAL.indd 1capa_x jornada - anais - FINAL.indd 1 10/9/2009 16:23:5010/9/2009 16:23:50
  2. 2. Anais X Jornada Médico-Literária Paulista V Jornada da Sobrames Nacional VI Sobramíada Sociedade Brasileira de Médicos Escritores SOBRAMES Nacional - Regional São Paulo - Regional Ceará São Paulo - SP - Brasil 17 a 19 de setembro de 2009 x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:081
  3. 3. SOCIEDADE BRASILEIRA DE MÉDICOS ESCRITORES Regional do Estado de São Paulo SOBRAMES - SP Diretoria Gestão 2009/2010 Cargos Eletivos Presidente:HelioBegliomini Vice-presidente: Josyanne Rita deArruda Franco Primeiro secretário: LigiaTerezinhaPezzuto Segundo secretário: Maria do Céu Coutinho Louzã Primeiro tesoureiro: Marcos Gimenes Salun Segundo tesoureiro: RobertoAntonioAniche Conselho Fiscal Efetivos: Flerts Nebó CarlosAugustoFerreiraGalvão LuizJorgeFerreira Suplentes: Geovah Paulo da Cruz HelmutAdolfMataré RodolphoCivile A X Jornada Médico-Literária Paulista é uma realização da SOBRAMES - SP Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional do Estado de São Paulo A V Jornada da Sobrames Nacional é uma realização da Presidência da SOBRAMES - Nacional - Presidente: Dr. José Maria Chaves (CE) A VI Sobramíada é uma realização da SOBRAMES - CE Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional do Estado do Ceará Presidente da Regional Cearense: Dr. José Maria Chaves Endereço para correspondência (SOBRAMES-SP): Av.Prof. Sylla Mattos, 652 - apto.12 - Jardim Santa Cruz - São Paulo - SP - CEP 04182-010 sobrames@uol.com.br Copyright 2009 © dosAutores Comissão Organizadora da X Jornada Médico-Literária Paulista Presidente: Manlio Mario Marco Napoli Membros: Os integrantes da Diretoria da Regional São Paulo Projeto Gráfico e Diagramação: Rumo Editorial Produções e Edições Ltda. E-mail: rumoeditorial@uol.com.br x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:082
  4. 4. “O trabalho poupa-nos de três grandes males: tédio, vício e necessidade”. François-Marie Arouet, mais conhecido por Voltaire (1694-1778). Filósofo, escritor, poeta, dramaturgo e historiador francês. As Jornadas Médico-Literárias Paulistas tiveram origem em setembro de 1991, quando a entidade contava com apenas três anos de existência. Foram organizadas na segunda gestão de Flerts Nebó (1990-1992) e objetivaram não somente divulgá-la, mas, e principalmente naquela ocasião, adquirir experiência nesses eventos, uma vez que a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores do Estado de São Paulo (Sobrames – SP) tinha-se comprometido na cidade de Recife (PE), em 1992, por ocasião do XIII Congresso Nacional da Sobrames, de realizar sua edição XIV, em São Paulo, em 1994. Assim, desde o início, almejávamos que as Jornadas Médico-Literárias Paulistas fossem realizadas nos anos ímpares, ou seja, alternadamente com os Congressos Nacionais da Sobrames, uma vez que, desde suas origens, são efetuados tradicionalmente nos anos pares. Outra curiosidade é que já se tinha em mente, em 1991, escolher uma cidade do interior e preferencialmente que albergasse uma escola de medicina. Essas ideias não somente almejavam o lazer, a descontração e a mudança de rotina, uma vez que as Pizzas Literárias – tertúlias mensais da Sobrames – SP –, sempre foram e têm sido realizadas na capital, mas também, objetivavam introduzir a entidade no interior e fazê-la conhecida entre os acadêmicos de medicina. Assim, a Sobrames – SP já realizou as Jornadas Médico-Literárias nas seguintes cidades: Jundiaí (1991 e 2007), Bragança Paulista (1993), Santos (1995), Campos do Jordão (1997 e 2003), Águas de São Pedro (1999), Botucatu (2001) e Serra Negra (2005). A ideia paulista vingou e frutificou, sendo levada em âmbito nacional. Assim, começaram a ser organizadas em 2001, na Sobrames nacional, na gestão de Luiz Alberto Fernandes Soares (2000-2002), jornadas nacionais com o objetivo de congregar ainda mais os sobramistas, uma vez que a grande maioria das regionais não realizava eventos estaduais, e esperar dois anos para participar dos congressos era, para esses membros, um tempo longo demais. A fim de não competirem com os Congressos nacionais, as Jornadas Nacionais da Sobrames também, a exemplo da Sobrames – SP, vieram a lume nos anos ímpares, sendo já realizadas quatro versões: Salvador (2001), Belém (2003), Fortaleza (2005) e Curitiba (2007). Esta é uma jornada sui generis não somente na história da Sobrames paulista, mas também na história da Sobrames nacional e na história da Sobrames cearense, uma vez que é a primeira vez, entre nós, que a Jornada Médico-Literária Paulista é organizada na capital. Ademais, é igualmente a primeira vez que se reúnem num só evento a força e a tradição de três: X Jornada Médico-Literária Paulista, V Jornada Nacional da Sobrames e VI Sobramíada. É com grande satisfação que aqui se encontram não somente sobramistas paulistanos e paulistas, mas também cearenses, pernambucanos, alagoanos, baianos, mineiros, fluminenses e catarinenses, além de hermanos da Argentina e da longínqua Angola (África), o que confere aos eventos um singular colorido cultural, além de conotação internacional. Apresentação x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:083
  5. 5. Estão consignados nestes Anais excelentes trabalhos em versos e em diversas modalidades de prosa. A comissão julgadora que os analisou, recebeu-os sem os nomes dos seus respectivos autores, avaliando-os nas modalidades de poesias, contos e prosa. Ela foi composta por membros do Movimento Poético Nacional, a quem a Sobrames paulista muito agradece na pessoa de seu presidente, Walter Argento. Ao seu lado compuseram a comissão julgadora os ilustres escritores: Frances de Azevedo, advogada; Rosa Maria Custódio, jornalista; e Carlos Moreira da Silva, advogado. Os três primeiros colocados farão jus a um belo troféu na forma de pena de caneta tinteiro antiga, gentilmente ofertado pela Sobrames Ceará na pessoa do confrade José Maria Chaves, seu presidente e presidente da Sobrames nacional (2008-2010). Por fim, faz-se mister assinalar que a Antologia Paulista, ultimamente lançada por ocasião de nossas tradicionais Jornadas Médico-Literárias, também bienais, vem a lume nesta ocasião histórica toda especial. A VII Antologia Paulista mostra que a entidade tem cumprido seu papel na compilação, divulgação e custódia não somente dos trabalhos de seus associados, mas igualmente na preservação da memória de seus diletos membros. A estes propósitos também se prestam os Anais destes conjugados eventos. A coordenação, diagramação e execução da VII Antologia Paulista e destes Anais se deveram ao paciencioso e esmerado trabalho do confrade Marcos Gimenes Salun. A ele nossos mais sinceros agradecimentos. Que a força da ideia catalisadora, ora experimentada, sirva para congregar ainda mais os confrades da Sobrames nacional! Helio Begliomini Presidente da Sobrames – SP (2009-2010). x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:084
  6. 6. 5 A Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, Regional do Estado de São Paulo, foi fundada em 16 de setembro de 1988 e congrega mais de cem membros titulares, acadêmicos, colaboradores, eméritos, honorários e beneméritos. Basicamente a sociedade é constituída por médicos escritores de literatura NÃO-CIENTÍFICA, além de escritores de outras formações profissionais (advogados, engenheiros, jornalistas, dentistas, arquitetos, etc..). Pizzas Literárias Em 1989 surgiu a idéia de se reunir os colegas ao redor de uma mesa de pizza, como acontecera por ocasião da fundação da entidade. A reunião mensal tornou-se uma tradição e foi intitulada “Pizza Literária”. Desde então é realizada em uma pizzaria de São Paulo, com uma freqüência que costuma beirar trinta pessoas. Nesta, além de se saborear uma deliciosa pizza, tomar um chope e bater papo com os amigos, tem-se a oportunidade de ouvir os trabalhos dos colegas e também apresentar os seus. Tem-se, também, a possibilidade de encontrar colegas de outras especialidades e formados nas mais diversas faculdades, além de sócios não médicos das mais variadas profissões. Todos com uma paixão em comum: a literatura. As reuniões de 2007 têm acontecido na terceira quinta-feira de cada mês, na pizzaria BONDE PAULISTA, na Rua Oscar Freire, 1597 – à partir de 19h30. Jornadas e Congressos A cada dois anos a Regional de São Paulo promove uma Jornada Médico-literária. Estas já se realizaram em diversas cidades do interior paulista: Jundiaí – de 27 a 29 de setembro de 1991 Bragança Paulista – de 28 a 30 de maio de 1993 Santos – de 24 a 26 de novembro de 1995 Campos do Jordão – de 28 a 30 de agosto de 1997 Águas de São Pedro – de 16 a 19 de setembro de 1999 Botucatu – de 27 a 30 de setembro de 2001 Campos do Jordão – de 25 a 28 de setembro de 2003 Serra Negra - de 22 a 25 de setembro de 2005 Jundiaí – de 27 a 30 de setembro de 2007 Nos anos pares é realizado um Congresso Nacional da SOBRAMES. Em 1994 e 1998, este ocorreu em São Paulo, organizado por nossa regional. O XXII Congresso Brasileiro aconteceu em junho de 2008 na cidade de Fortaleza – CE. O próximo congresso será realizado no Estado de Minas Gerais, em 2010. Sociedade Brasileira de Médicos Escritores Regional do Estado de São Paulo x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:085
  7. 7. 6 Eventos internacionais Além da existência de regionais da SOBRAMES na maioria dos estados brasileiros, seus membros também participam em algumas associações em outros países, como é o caso da LISAME - Liga Sul Americana de Médicos Escritores, com sede em Buenos Aires – Argentina; UMEM – União Mundial de Escritores Médicos, com sede em Lisboa – Portugal, cujo congresso se realizou em Viana de Castelo - Portugal, de 27 de setembro a 3 de outubro de 2004, contando com representação da SOBRAMES paulista; UMEAL – União de Médicos Escritores e Artistas de Língua Lusófona, com sede em Lisboa – Portugal, dentre outras. Publicações Jornal - Desde 1992 a SOBRAMES-SP publica o informativo mensal “O Bandeirante” que é distribuído aos membros da regional paulista, diversos confrades de outras regionais, além de entidades culturais no Brasil e no exterior. Por vários anos publicou o suplemento literário, as “Páginas Sobrâmicas”, trazendo textos literários dos membros da Regional de São Paulo. À partir de 2001 a publicação ganhou o título de “Suplemento Literário”, e continua sendo publicado mensalmente, como encarte do jornal “O Bandeirante”. Desde janeiro de 2007 o jornal “O Bandeirante” passou a ser distribuído pela internet, para mais de 1000 destinatários no Brasil e no Exterior. Coletâneas - A Sociedade já editou nove coletâneas com trabalhos dos membros: “Por um Lugar ao Sol” (1990) “A Pizza Literária” (1993) “A Pizza Literária - segunda fornada” (1995) “Criação” (1996) “A Pizza Literária - quinta fornada” (1998) “A Pizza Literária - sexta fornada” (2000) “A Pizza Literária – sétima fornada” (2002) “A Pizza Literária – oitava fornada” (2004) “A Pizza Literária – nona fornada” (2006) “A Pizza Literária - décima fornada” (2008). Antologias - Em 1999, editou-se a “I Antologia Paulista”, contendo todos os trabalhos das “Páginas Sobrâmicas” nos seus dois primeiros anos de publicação (abril 1997 a março de 1999). Em 2000 foi publicada a II Antologia Paulista, desta vez com trabalhos inéditos dos sócios. A série de antologias continuou e já conta com cinco volumes, tendo os demais sido publicados em 2001, 2003, 2005 e 2007. Em setembro de 2009 está sendo lançada a VII Antologia Paulista. Concursos literários Em 1997, foi instituído o concurso para A Melhor Poesia do Ano, Prêmio “Bernardo de Oliveira Martins” e, a partir de 1999, o concurso para A Melhor Prosa do Ano, Prêmio “Flerts Nebó”, dos quais participam todos os membros da SOBRAMES-SP que apresentam seu textos nas Pizzas Literárias. Estes certames visam dar estímulo à criatividade dos autores membros da SOBRAMES, tendo em vista a característica meramente diletante de seus participantes. Trimestralmente acontece um desafio literário intitulado SUPERPIZZA, onde os escritores são convidados a produzir um texto em prosa ou verso sobre um tema sugerido. Em janeiro de 2007 foram introduzidos dois novos concursos que têm como objetivo incentivar os integrantes da sociedade a participar de suas atividades. Trata-se do “Prêmio Rodolpho Civile”, de Assiduidade e o “Prêmio Aldo Mileto” de Melhor Desempenho. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:086
  8. 8. 7 Diretoria A cada dois anos a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, regional do Estado de São Paulo elege em assembléia uma nova diretoria. Na atual gestão (biênio 2009/2010) a diretoria está assim composta: Presidente: Helio Begliomini; Vice-presidente: Josyanne Rita de Arruda Franco; Primeiro-secretário: Lígia Terezinha Pezzuto; Segundo-secretário: Maria do Céu Coutinho Louzã; Primeiro-tesoureiro: Marcos Gimenes Salun; Segundo-tesoureiro: Roberto Antonio Aniche; Conselho Fiscal Efetivos: Flerts Nebó, Carlos Augusto Ferreira Galvão e Luiz Jorge Ferreira; Conselho Fiscal Suplentes: Geováh Paulo da Cruz, Helmut Adolf Mataré e Rodolpho Civile. Como participar Podem tornar-se membros da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores todos os médicos, de qualquer especialidade, e todos os acadêmicos de medicina, em qualquer ano do curso, mediante simples solicitação de sua inscrição, e bastando que sejam também escritores de literatura NÃO-CIENTÍFICA, em qualquer gênero literário (romance, crônica, conto, poesia, ensaios, etc.). Também podem tornar-se membros da SOBRAMES-SP os ESCRITORES de qualquer outra formação profissional, apresentados por outros membros da sociedade. A solicitação será aprovada mediante análise da diretoria e existência de quorum na forma de seu estatuto. Os membros contribuem financeiramente com uma anuidade de pequeno valor. Os custos de algumas atividades da SOBRAMES-SP são pagos pelos participantes, como por exemplo, despesas de hospedagem em congressos e jornadas e despesas de consumo nas reuniões denominadas Pizzas Literárias. Associe-se Para obter outras informações sobre a SOBRAMES-SP ou para tornar-se membro, envie correspondência para e-mail SOBRAMES@UOL.COM.BR. Pelo correio você poderá obter ficha de inscrição escrevendo para: Sociedade Brasileira de Médicos Escritores Av.Prof.Sylla Mattos, 652 - apto. 12 Jardim Santa Cruz - São Paulo - SP CEP 04182-010 x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:087
  9. 9. 8 x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:088
  10. 10. 9 X Jornada Médico-Literária Paulista V Jornada da Sobrames Nacional VI Sobramíada Obras Literárias Bem-vindos! São Paulo abre seus braços para acolher os ilustres autores da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - SOBRAMES. A partir de agora estas páginas perpetuam o registro deste encontro histórico. Que os contos, crônicas e poesias aqui apresentados fiquem para sempre na memória de todos aqueles que viveram estes dias e, gravados de forma indelével, possam servir de recordação e de momentos de inspiração para todos que tiverem o privilégio de folhearem estas páginas. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:089
  11. 11. 10 x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0810
  12. 12. 11 Índice Alcione Alcântara Gonçalves Carro de Boi / Inferno na Torre / Talentos 15 Alitta Guimarães Costa Reis O Beijo / Intramuros / Reconhecimento 17 Carlos Augusto Ferreira Galvão Síndrome de Lázaro / A Verdade Sem Dentes / Doce Periferia Paulistana 19 Evanil Pires de Campos Sonho infantil / Lua Enamorada / Memória Pires de Campos 22 Flerts Nebó A Luz Elétrica em São Paulo / Medicina no Antigo Egito / Pinheiros ou Espinheiros 24 Geovah Paulo da Cruz A Água de Piracicaba / O Tatu e a Tanajura / O Culto da Ancianidade 28 Helio Begliomini Ser Candidato / Circuncisões / Eu... Militar 32 Hélio José Déstro O Palhaço - o ABC do Palhaço / Os Revolucinários / Meus inesquecíveis amigos 37 Ildo Simões Ramos Meu Pé de Melão / As Marcas do Tempo / Sob o Signo de Capricórnio 42 João de Deus Pereira da Silva Mulher e Diva / Flor-mulher / Passa e Repassa 45 José Jucovsky Infinitos Sonhos Homéricos / Quem sou eu? Quem somos nós? / Rumo ao desconhecido 47 José Maria Chaves As Águas do Velho Chico Descem Chorando pro Mar / Breve História de Uma Vida Dignificante / Reminiscências 50 x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0811
  13. 13. 12 Índice José Medeiros As Fogueiras Ainda Ardem / Histórias Natalinas / Lembranças da Juventude 54 José Rodrigues Louzã Cinquenta Anos de Formatura 56 José Warmuth Teixeira O Tempo Perdido / Uma Revolta Intestina / A Criação 57 Josef Tock Essências / Recompoesia / Alegria, Alegria 60 Josemar Octaviano Alvarenga 22 de Abril / Voo Para o Nada / Do Coronel aos Coronéis 62 Josyanne Rita de Arruda Franco Ele e Ela / Sonharei Contigo / O Baile Perfumado 66 Ligia Terezinha Pezutto Meu Bem-querer / Saudade / Minha Lancheira, Saudosa Companheira 69 Luiz Jorge Ferreira Ele / Modinha Para Ela / O Quadro 71 Manlio Mario Marco Napoli Reminiscências da Faculdade de Medicina / Uma angioplastia / Foi o Gato! 74 Márcia Etelli Coelho Realizações / Inquietude / O Livro que Me Cativou 77 Marco Aurélio Baggio Discurso Pleno / Inexorável Reconstrução do Capitalismo / Judas, o Mensageiro de Jesus de Nazaré 80 Marcos Gimenes Salun Carpe Diem! / Pequenos Apontamentos Sobre a Solidariedade e a Justiça / Genético e Hereditário 84 Maria de Fátima Barros Calife Batista Abismo dos Teus Olhos / Afetos na Folia / Medo do Escuro 87 Maria do Céu Coutinho Louzã Devaneios em Vermelho / Fogos de Artifício 90 Mário de Mello Faro Direitos e Deveres / O Passaporte / Cronograma de Vida 92 x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0812
  14. 14. 13 Índice Paulo Camelo de Andrade Almeida Ave Celeste / Há Muito Tempo / Portal da Mente 107 Nelson Jacintho A Noite / Quase / A Estrada da Vida 103 Rodolpho Civile Calixto, o Colchoeiro do Bexiga / Pedro e Paulo / O Vendedor de “Machadinho” do Bexiga 111 Ronaldo Vieira de Aguiar Devaneios / Vou Atrás / O Regresso 115 Victor Jose Fryc La Máscara / El Caballo de Felipe III / La Violación 121 Wladimir do Carmo Porto Promessa de Carnaval 130 Zilda Cormack Aloendre / Arestas / O dia em que vovô me enxergou 131 Mercedes Gomes Quando / Cantiga Para Ninar Luanda / Um pouco de ti 95 Miguel Angel Manzi Tango! / Portenho / El Abandono 99 Sebastião Abrão Salim Paz / O Contador de Histórias / A Metamorfose de Kafka - Um Ensaio Literário-Psicanalista 117 Renato Passos O Sonho do Poeta / Distância - Paixão - Inveja / O Foguete 109 Vilma Clóris de Carvalho Lembranças - o Funeral 125 Walter Gomes de Miranda Filho Homem Apaixonado / Intrigas na Caserva / Interior e Capital 127 x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0813
  15. 15. 14 x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0814
  16. 16. 15 Alcione de Alcântara Gonçalves Médico Psiquiatra Tupã - SP CARRO DE BOI Lembro-me do carro de boi, Que na minha infância foi, Um veículo muito especial, No transporte de lenha para a feira E que para o cidadão era de importância vital. Lenha e carro de boi Eram, naquela época, Elementos de valor substancial, Para a vida de todos os cidadãos Que deles necessitavam, Para as transformações Dos alimentos nutricionais, Como também, para a iluminação E o aquecimento do seu habitat natural. Naquela época tudo era muito simples, E os homens eram muito naturais! O homem da roça, era chamado “lapiau” Significando: simplicidade, ingenuidade e naturalidade; Significando também, ignorância das coisas da cidade. O carro de boi também transportava gente! Gente que labutava na dura lida da roça Onde plantava mudas e a semente Para suprir sua necessidade premente E também servir como moeda de troca. O carro de boi também canta O carro de boi também geme O som que se transforma em canto ou gemido No atrito do eixo da roda é produzido E no ar se propaga, chegando ao nosso ouvido. Vilas e cidades, todos os sábados Ficavam cheias de carros de bois Que vinham trazer os produtos Para as feiras das cidades do interior Onde eram vendidos ou trocados. Nas madrugadas dos sábados Acordávamos com aquela cantiga: Hum!...Ham!...Hum!...Ham!...Hum!...Ham!...! E ao longe se ouvia, a voz do caipira: “Êêê...boi!...Vamo mimoso! Vamo itabira!” x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0815
  17. 17. 16 INFERNO NA TORRE Tragédia, dor e sofrimento Nas grandes Torres, naquele momento! Do céu desceu um instrumento, Vindo de encontro, frontalmente; Explodindo e queimando as sementes Do amor dos seres sobreviventes Afogando os anseios da vida emergente. Soluços, gritos e choros Corpos que saltam do alto das Torres Novo impacto! O estrondo e o fogo! De uma segunda Aeronave A se chocar com a outra Torre E o mundo assistindo atônito O verdadeiro inferno na Torre! Parecia um filme de ficção, Sendo rodado na terra do Tio Sam, Nas duas Torres do World Trade Center, Expressivo cenário para uma grande emoção! Mas a verdade, era o Terror em ação! Comandado por vários terroristas Homens frios, insensíveis e sem coração. Milhares de vidas humanas Ceifadas por estes tresloucados atos Praticados por homens fanáticos, Treinados para matar ou morrer, Diante da ansiedade e do mêdo, gerados Por este louco mundo globalizado, Causa primária do ódio generalizado. TALENTOS A aptidão que adquires, é um Talento E disposição natural, para realizar certas coisas. Talento, é a exteriorização de uma inteligência extraordinária E uma prova de grande capacidade. Talento, é vontade de acertar o alvo, É o exercício de sua capacidade mental, É o remexer em todo o seu aprendizado, Para a concretização de um ideal. Talento, é desejo de lutar e lutar! E não desistir, diante de nenhuma adversidade, Vislumbrando sempre, a meta desejada, Com a certeza de que a vitória será alcançada! Talento, usado antigamente, como moeda e peso, Nas transações comerciais, entre Gregos e Romanos; Foi o pagamento feito a Judas, um dos discípulos, Pela sua traição ao Nazareno: O Mestre Jesus! Talento, é intuição, ministrada por Deus, Com o propósito de nos ajudar. É a oportunidade, é a porta que se abre Para o “Lugar ao Sol”, onde deveremos chegar! Talento, é saber administrar a vida com mansidão E, com o domínio próprio dos nossos atos. Talento, é a sabedoria que a vida nos dá, Para seguirmos no bom caminho da evolução. Alcione de Alcântara Gonçalves x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0816
  18. 18. 17 Alitta Guimarães Costa Reis Médica psiquiatra São Lourenço - MG O BEIJO Formada ainda adolescente como professora no antigo Distrito Federal, no Rio de Janeiro, minha mãe permaneceu, como outras mulheres da família, muitos anos no magistério, até aposentar-se. Seu diferencial foi ter permanecidomaisdetrintaecincoanosnafunção,etambémtersidodiretoradeescolaalgumasvezes.Minhamãe amava sua profissão. Fazia milagres; tanto que a ela eram sempre entregues as piores turmas, os alunos mais difíceis,parafinsderecuperaçãoindividual.Minhamãe,commeiguiceepersistência,encaminhavaosmeninosna vida. Lecionou por algum tempo perto das primeiras grandes favelas, destinando quase todo o seu salário para aquisição de material escolar e de bananas para a merenda da meninada. Muitos iam só por causa desta merenda, se apaixonando pela minha mãe e permanecendo na escola. Muitos deles se formaram e “deram gente” na vida. Depoisdaaposentadoria,meuspaismudaram-separaMinasGerais,maselanuncadeixouderecebervisitas das colegas e diretoras de escola de sua época, amigas para sempre, e uma gorda correspondência de funcionários e ex-alunos, eternamente cativos, a quem sempre minha mãe respondia. Um dia cheguei em casa e vi um homem grande, de cabeça branca, de joelhos em frente diante de minha mãe.Elanoscontariadepoisqueeleeraumdosmeninosmaispobresparaquemelahavialecionado,“massempre muito limpinho, roupas bem cerzidas” e que se tornara um dos estudantes mais aplicados. Ele viajara de muito longe, por pura e simples gratidão. Os dois, com os olhos muito brilhantes, permaneciam em um longo silêncio, testemunhadoporminhafamília,nagrandesalademóveisescuros.Omenino,salvopeloamordesuaprofessorinha, agora general de divisão, depositava com reverência um beijo na mão de minha mãe. INTRAMUROS Sei que espera por mim. Sei da frágil esperança que emerge dos olhos sofridos e puros, iluminandoafacepálidaemansa. Passo por lá, sigo em frente, com passos duros. Não entro.Apenas rezo, choro por dentro. Sinto abalados motivos fortes, seguros. É tola a ilusão de que nada me alcança. A dor me atinge, cruel, torno-me criança, sabendo que o que me impede não são os muros. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0817
  19. 19. 18 Alitta Guimarães Costa Reis RECONHECIMENTO Primeiro, reexaminar-te. Centímetro por centímetro. Procurar marcas que o tempo deixou. Depois, bem devagar, de olhos fechados, respirando fundo, recuperar imagens, sons, cheiros, sabores. Mais tarde, sem pressa nenhuma, entender mais de tua mente. O que te faz mais alegre? O que te faz gozar mais? E então, finalmente, olhar bem fundo em teus olhos. Sentir o fascínio do tempo que se desloca lentamente. Ver onde as feras rugem, guardam sua toca, olhos em brasas. Ver onde os anjos sorriem e refulgem, expandem suas asas. Esse é um olhar perigoso, que devassa. É o melhor que se pode dar, uma certa eternidade onde tudo passa. É sobre o amor e o amar. Reconhecer-te sob esse olhar é tornar tudo novo, mas como outrora, assim como diferente é o sol a cada aurora. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0818
  20. 20. 19 Carlos Augusto Ferreira Galvão Médico Psiquiatra São Paulo - SP SÍNDROME DE LÁZARO (Quando a medicina plagia um romance) Em minha atuação no Hospital da Beneficência Portuguesa de São Paulo, tenho observado os espetáculos da tecnologia cardíaca moderna e também o “rastro” psiquiátrico que as acompanha. Notamos, por exemplo, as modificações de personalidade que acomete muitos que se submetem a transplante cardíaco, a ansiedade que acompanham os que se recuperam de paradas cardíacas, portadores de marca-passos e por aí. Uma destas conseqüênciaspsiquiátricaschamou-meaatenção:aqueacometealgunsdosquetiveramimplantadoumdesfibrilador portátilcardíaco. A morte súbita de um ser humano é das mais dramáticas manifestações de afecções cardíacas, por não dar tempo sequer do acometido “desarrumar suas gavetas”. Despede-se da vida deixando uma lacuna de desespero, seja no âmbito familiar, seja em seus negócios. Os desfibriladores portáteis são próteses maravilhosas que, implantadas no subcutâneo do paciente e ligadas diretamente ao coração, identificam a fibrilação ventricular e promovemacardioversão“inloco”salvandoassimavidadoindivíduo. A maior parte dos pacientes sofre a descarga elétrica da cardioversão quando em estado já comatoso, mas alguns pacientes que as recebem sem estarem em estado de coma, sentem-na de forma extremamente sofrida. Dá para imaginar o que significa um choque de 400 joules dentro de seu mediastino. Muitos descrevem-na como um coice de mula no peito. Quase todos estes pacientes retornam ao cardiologista solicitando a retirada da prótese, quando então são para mim encaminhados. Estespacientesapresentam-seextremamenteansiosos,têmmedodasdescargasetransformam-seempessoas irritadiçaseimpacientes.Muitos“sentem”asdescargasemboranãosejamregistradaspelosaparelhos,numaestranha formadealucinaçãoquenãopodeserclassificadacomosinestesiapornãotercomoeleiçãoumórgãointernoesim uma prótese implantada. Nos primeiros casos, sempre tinha a impressão de já ter “passado por este caminho”; tinha sempre a sensação de “de ja vu”, o que era impossível, por se tratarem de casos absolutamente pioneiros. MikaWaltari,meuromancistapredileto,noromancedenome“OSegredodoReino”,descreveumpersonagem que, em busca da verdade, abandona a vida de orgias romanas e parte para Jerusalém, chegando nesta cidade numatardeemqueseencontravamtrêscruzesnogólgotasendoqueemumaestavacrucificadoJesusCristo.Pelos acontecimentosposteriores,entendequequemtinhasidocrucificadofoialgomaisqueumserhumanoecomeçaa pesquisar a vida de Jesus, suas pregações e seus milagres. Em determinado momento passa a entrevistar o Lázaro e,aocontráriodoqueesperava,defronta-secomumindivíduoamarguradoetaciturno.Aolembrarqueeledeveria ser grato por ter tido nova oportunidade de viver, Lázaro respondeu que a humanidade, por todo o sempre, iria se lembrar deste milagre de Cristo mas, esqueceria de refletir que ele seria a única pessoa que morreria duas vezes, já que não tinha recebido a imortalidade. Voltando aos meus pacientes, D.Marta (nome fictício) tentava me convencer que o melhor para ela seria a retirada do cardioversor portátil por não suportar mais os choques - a grande maioria alucinóides - e contava-me situações estapafúrdias como, por exemplo, sofrer uma descarga durante um casamento, quando a igreja toda se assustou com seu grito. Lembrada que cada manifestação da prótese poderia ser uma ressurreição respondeu-me: “Equantasvezestereiquemorrer,doutor?”.Entãomeupensamentodirigiu-seàobradograndeescritornorueguês enãopoderiadeixardebatizarestasíndromecomo“SíndromedeLázaro”,asíndromedosquenãoqueremmorrer maisdeumavez. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0819
  21. 21. 20 Carlos Augusto Ferreira Galvão A VERDADE SEM DENTES Semprequeseaproximaumferiado“esticado”,estabrasileiríssimainvenção,observa-senosambulatórios psiquiátricos, de forma mais gritante, o abandono a que são submetidas as pessoas da terceira idade. As famílias programam-se para viagens, e o parente ancião geralmente se torna um estorvo; então é muito comum,nestasocasiões,asfamíliasprocuraremoshospitaispsiquiátricosafimdeinternaremosvelhinhos,liberando- as assim para viajarem sossegados. A manhã daquela sexta feira prenunciava um excelente carnaval. O calor forte acompanhava o sol que estourava nos telhados, e a cidade já sentia o clima da festa: em cada esquina se ouvia batuques e outros sons do folguedo. Mas o ambulatório do hospital encontrava-se cheio. Dona Gertrudes entrou acompanhada de duas netas, pessoas na casa dos trinta anos, e acomodaram-se perante minha mesa. Uma das netas logo iniciou um longo discurso, relatando o quanto estava mal sua avó; dizia que era agressiva, quebrava coisas em casa, xingava os vizinhos... Durante o relato, D. Gertrudes, as vezes, demonstrava impulso de contestar as informações, mas a outra neta a fazia ficar quieta com olhares ameaçadores e glaciais, que não me passaram despercebidos. Então restava à pobrevelhinhaficarquietinhaeresignadanasuacadeira. Oqueouviaeraincompatívelcomafrágiledelicadafiguraqueestavaemminhafrente,elogopercebique asnetas“forçavamabarra”,paraquemedecidissepelainternaçãodavelhasenhora.Entãocontinuavamaladainha de horrores, sempre a intimidando com olhares. Emdeterminadomomento,umadasnetasempolgando-secomaprópriaficção,disse,deformaestridente: -”O senhor precisa ver... Ela morde as pessoas até tirar sangue”. Neste momento, vislumbrei no rosto da paciente um irônico sorriso, então perguntei por que ela mordia as pessoas. Denotandoestarperfeitamentesãeproduzindopensamentosdeformaadequada,donaGertrudesampliou o sorriso irônico, apontou o indicador direito para suas gengivas e sua resposta embasou minha decisão de não interná-la:-“Doutor,eunemtenhodentes” x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0820
  22. 22. 21 Carlos Augusto Ferreira Galvão DOCE PERIFERIA PAULISTANA Uma das coisas que custei a entender em minha cidade adotiva é a discriminação que sofre a sua periferia e a forma mais cruel é exatamente a que acontece dentro da saúde, no atendimento à população. Écomumdizer-sequenosbairrosafastadosdeSãoPaulonãoseencontrammédicoseoutrosprofissionais da saúde, pois estes temem os subúrbios por serem agredidos pelos moradores de lá, por serem ofendidos e não terem condições de trabalho. Nada mais falso, excetuando as péssimas condições de trabalho que são oferecidas. Há mais de 13 anos engajei-me num programa da prefeitura de nome “PAS” (Plano de Atendimento à Saúde), e fui destacado para um posto de saúde num paupérrimo subúrbio paulistano. Rendia-me um bom salário econdiçõesrazoáveis,entãodeiomelhordemimparaaquelapopulaçãoelogofuireconhecidopelacomunidade. Não que me ache melhor médico do que quem quer que seja, mas procurei tratar aquele povo “na palma da mão”: ouvia-oscomrespeito,procuravasempresorrirduranteosatendimentose,enfim,prescreveramedicaçãoadequada; sabe-se que pessoas assim atendidas respondem melhor ao tratamento e era isso que acontecia. Inicialmente,enfrenteicertadesconfiança,poissãocidadãosqueseacostumaramaidentificarosprofissionais da saúde como pessoas estressadas e irritadiças; de fato, muitas vezes recebem estupidez, securas e nenhum engajamento afetivo por parte destes profissionais, como se fossem os grandes culpados pelo descaso em que é jogada a saúde pública brasileira. Normal que um indivíduo desses estranhe ao entrar no consultório e encontrar o médicosorrindo. Depois,comomalogrodo“PAS”,pressentiqueapopulaçãodaquelebairrogostavademim,entãoresolvi abrir um consultório lá e conviver com eles e assim conhecê-los melhor. Na grande maioria, são pessoas honestas e de bons sentimentos, mas de baixa educação, exatamente como deseja o Estado brasileiro para facilitar as indecências e a incúria que lhes são características. Pessoas sofridas, mas altivas, que respondem com grosserias e agressões sim, mas apenas de forma reativa, quando são maltratados. Já faz 11 anos que todas as tardes atendo neste consultório, vivo dele e nunca fui maltratado por paciente algum,muitopelocontrário,sinto-meamadopelopovo,quesabequepodecontarcomigonosmomentosdifíceis. E faço de tudo, desde conversar com um casal prestes a se separar até ajudar o padre do lugar em suas festas e suasmovimentaçõessociais.Muitosdramasdaquelagenteterminamemmeuconsultório. O povo da periferia paulistana é belo, sincero e honesto. Soa ofensiva e simplista a explicação, para a falta de profissionais, que denigre os cidadãos suburbanos. O povo não agride, apenas se defende. Éláminha“Pasárgada”.AcreditoqueterminareiminhavidanaVilaLiviero. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0821
  23. 23. 22 Evanil Pires de Campos Médico Infectologista Botucatu - SP LUA ENAMORADA Reluzente e enamorada a lua acordou Abriu os olhos e, neles, o amor brotou. Encantando sua leveza em meiga visão Muito feliz fremente em linda sensação. Versos fluíram livres no céu estrelado Dançaram e valsaram no seio regente Devota e a sonhada imagem celestial Adormecida no reflexo d´ilusão silente Dormiu e saciou no peito eterna paixão Seduzida na afeição amorosa de cordial Alma sublime muito terna e tão isolada, Depositou no clarão lunar, aí emanada. À vontade, que na ferina pena contida. Reacendeu o ardor da vida percorrida. SONHO INFANTIL Ai que saudades que em mim tenho Dos sonhos que no coração retenho Minha alma num recanto flutuava Sonhando ardoroso sonho infantil O doce canto dos pássaros adorava Que nutria alegre e a terna infância Que deitada na mata tênue recitava O anseio de minha alma toda pueril Vivia pra brincar despido da malícia Pelejava na dócil e na pulcra puerícia A dádiva de ter e livre correr na selva Amando a beleza do caminho na relva Na aventura diária, mero prazer contido. No peito o vigor desse momento vivido x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0822
  24. 24. 23 Evanil Pires de Campos MEMÓRIA PIRES DE CAMPOS No final do século XVII, Pirão, o intrépido Antonio Pires de Campos foi designado, comandante das Bandeiras graça ao seu caráter pela sua colossal estatura que irradiava cordial expressão facial. Desbravou e coordenou as Bandeiras que partiram do interior de São Paulo, a saber: Itu, Porto Feliz e uma vila próxima de Sorocaba para o Mato Grosso, Goiás, Tocantins e se dirigiram até as proximidades do Oceano Pacífico. Suas aventuras, intrépidas tribulações: índios, pedras preciosas, ouro etc. merecem, ao lado de fiéis companheiros, uma apropriada narrativa dos acertos, descobertas e dos erros cometidos e assimilados. No meado do século XVIII, os irmãos João e José Pires de Campos se dirigiram para uma região fértil, rústica de rica flora e fauna a fim de implantar e iniciar nova vida na nascente Laranjal Paulista. A posteriori, em Tatuí, num núcleo desenvolvido por Bento Pires de Campos, nasceu Ovídio Pires de Campos, Médico Professor Universitário, membro da Academia de Medicina de São Paulo. João, pela semelhança pondero estatural, foi cognominado “PIRÃO”, em homenagem a seu antecedente Antonio Pires de Campos. E seu irmão, José, houve por bem, após algum tempo mudar-se para a florescente cidade Jaú, onde constituiu um grande núcleo familiar. O Pirão resolveu construir um nicho de fé católica no centro da Vila em homenagem a São João que ainda se encontra presente no seio da Igreja homônima, Matriz da cidade. Seu filho, também João, nos primórdios do século XIX teve vários filhos, dos quais citarei dois: Matias e Joaquim. Este (Joaquim) se casou com uma prima de Jaú, neta de José. Antonio Pires de Campos, seu filho, Médico, Membro da Academia Botucatuense de Letras cultuou a leitura e presidiu, por vários anos, o Centro Cultural de Botucatu. Matias se casou com Ana Pires de Camargo, formada na Escola Caetano de Campos, foi responsável pela Escola Luterana do Bairro do Bicame de Laranjal Paulista. Ensinava e educava os alunos e os filhos nessa Escola Primária. A leitura dos textos e dos Capítulos da Bíblia eram dissecados e degustados. Os netos se dirigiam à sua casa, nas férias escolares postados à sua frente, eram avaliados e analisados na forma e no conteúdo da leitura. Pedro Pires de Campos, filho de Matias se educou e se formou à saia dessa mãe diferenciada moral e intelectual. Aprimorou-se e tornou-se Farmacêutico, homem de olhar singelo, bondoso e digno. Inteligente, o rico, nele se enobrecia, enquanto que o pobre, nele se debruçava docilmente. Ao falecer a cidade emudeceu e a ele devotou amável oração ao conduzi-lo ao eterno repouso. Pai afável, dádiva legada ao ser humano e à família. Nair, minha mãe, Professora, educou- me no amor e na leitura. A Medicina depurou minha razão e o senso humano aguçado, revigorou no seio da natureza o meu ser: Evanil Pires de Campos. Nil, médico veterinário, muito lutou após a residência e pos graduado, mas a fortuna e a sorte semearam sua senda: trabalhos com formandos permitiram desenvolver com a Universidade pesquisa inédita sobre sexagem de esperma masculino ou feminino. Pedro Pires de Campos Neto, Médico, atualmente, enobrece sua senda ancestral em honrosa e digna ação humana, ética e profissional. Carolina, advogada e enfermeira luta valorosamente na conquista seu justo e merecido esforço de diferenciação educacional e profissional. Sua mãe, Claudia soube nutrir o amor fraterno. Forjou, também, os preceitos da moral em seus três filhos. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0823
  25. 25. 24 Flerts Nebó Médico Reumatologista São Paulo - SP A LUZ ELÉTRICA EM SÃO PAULO Considerações Históricas Nointeressedefixarconhecimentosdealgunsproblemasquedizemrespeitoávidacitadina,divulgamosjá, por estas colunas o histórico da Companhia “Viação Paulistana”, que durante longos anos serviu a coletividades paulistana. No mesmo propósito contamos como a Light and Power que se introduziu nesta capital. Agora,paramelhorilustraçãodenossosprezadosleitores,vamosrelatarohistóricodafundaçãodaprimeira usina elétrica, instalada num quarteirão da Vila Buarque entre as ruasAraujo, Bento Freitas e Major Sertório, no mesmo local onde ainda hoje se encontra uma das muitas secções da Canadense. As informações que agora fornecemos aos leitores ser-vem de introdução ao trabalho que a seguir publicaremos sobre a história da expansão do império elétrico de Tio Sam, naAmérica Latina o qual é o ultimo e por diversas formas o mais palpitante capitulo da conquista econômica americana. Para esse interessante estudo desde já chamamos a atenção de nossos leitores. Há mais de meio século Deve-se ao saudoso jornalista português, Sr.AbílioAurélio da Silva Marques a iniciativa da instalação em nossaterradailuminaçãoelétrica. De fato há mais de meio século ou precisamente em 1888, esse prestante cidadão, auxiliado por diversos capitalistas e negociantes incorporou a Companhia Paulista de Eletricidade, que tinha por fim dotar as ruas do Triangulo, assim como a rua BoaVista e do Rosário desse útil e importante melhoramento. Realizada a assembléia geral de constituição da Companhia e, satisfeitas as formalidades legais, deu a Diretoria da Companhia mãos as obras e como foi efficiente que em 5 de dezembro do ano supra mencionado, inaugurava-sealuzelétricanestacapital. Apropósitodesseauspiciosoacontecimentoescreveuumjornaldaepocha:“ÁsruasdeSãoBento,Imperatriz eBoaVista,affluiuumacompactamultidãodecidadãosesenhoras,attrahidosparacontemplaremodeslumbrante effeitodailuminação.” “Os convidados que puderam penetrar nas usinas da Companhia, tiveram o ensejo de verificar, como de curiososagglomeradosnasvias,queestáanossaCapitaldotadadeummelhoramentoextraordinário.Aluzelétrica é óptima, fixa e brilhantíssima e muito mais barata do que a do gaz. “AinstalaçãodaUsinaCentralcomportatrezmotoresavaporaccionandocadaumumamachinadynamo- eletrica e está calculada que pode fornecer cerca de quinhentas lâmpadas incandescentes.” “As machinas elétricas e as lâmpadas de arco voltaico são fornecidos pela Casa Ganz de Budapest. e o systema empregado é de corrente continua. “As lâmpadas incandescentes são de Edison e é este o systema que a empreza virá explorar de preferência nas casas particulares. “Aslâmpadasdearcovoltaicasprópriasparaailuminaçãodegrandesespaços,dãoumaintensidadedemil áduasmilvelas. “As incandecentes variam conforme o tamanho de oito a trinta e duas velas (um a quatro bicos de gaz). x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0824
  26. 26. 25 Companhia de Água e Luz de São Paulo Em substituição da Companhia Paulista de Eletricidade, veio a Companhia de Água e Luz do Estado de SãoPaulo,tambémsobacompetentedireçãodeAbilioMarquesequedispondodemaiorcapitaleoutrasfacilidades financeiras poude melhor desenvolver os fins a que se destinava, que eram de prover as cidades do interior dos melhoramentoshygienicoscomoseusexgottoeluz. Assim logo depois de iniciadas as suas actividade nesta Capital, adquiriu nas proximidades da Praça da Republica uma vasta quadra de terreno entre as ruas Major Setorio,Araujo,Ypiranga e Bento Freitas, e ahi sem perda de tempo montou as novas usinas com capacidade pa-ra mais de 5.000 lâmpadas incandescentes.. Esta Companhia apesar de seu estado de prosperidade sempre crescente e demonstrado em balanços teve uma curta duração e veio inesperadamente a ser liquidada, indo todo seu activo, constante de propriedades, usinas e privilégios para a iluminação pública e particular do Primeiro Setor da Capital que abrangerá a zona central do distrito da Consolação e Santa Ephigenia, vindo a cahir nas mãos da The São Paulo Tramway, Light and Power Company Limited, como pouco antes tinha acontecido a CiaViação Paulista. AindahojefuncionanolocalemqueaCompanhiaÁguaeLuztinhasuasusinasemaisdependênciasàRua Major Sertório uma de suas secções mais importantes da Companhia Canadense. NOTAS: 1. Procuramos manter a maneira de escrever tal como era usual naqueles annos. 2. Esta pesquisa foi feita por Flerts Nebó em abril de 2009, nos jornais da época. Trabalho publicado no Diário Popular 25 de abril de 1939. Flerts Nebó MEDICINA NO ANTIGO EGITO A origem da Medicina, segundo conta no Livro de Paul Hermann remonta ao período da pré-história. É quasetãovelhaquantoaprópriahumanidade;suaevoluçãotemsido,maisoumenosparalelaàdeoutrasatividades humanas. Não raro, o curso da civilização tem sido profundamente modificado pela qualidade dos serviços médicos prestadosaosenfermos.Naalvoradadahistória,amedicinaachava-seintimamenteligadacomáspráticasmágicas e religiosas dos diversos povos empenhados na busca de conhecimentos e de um modo de vida melhor, O Egito, no contesto aparece como uma nação organizada, isto cerca de 3.000 a.C. O interesse médico gira em torno de um período da Terceira Dinastia – 1980-1900 – quando o país era governado por um faraó ambicioso de nome Zoser. Este por sua vez, tinha como principal conselheiro um nobre brilhante ministro de nome Imhotep ; o qual consta ter construído a famosa pirâmide de degraus de Sacará, perto da cidade de Menfis. Ele representava para o faraó o melhor médico da época tendo-lhe até sido atribuído o papel como o deus da medicina no Egito do momento. Existiaumaestreitaassociação,damedicinaegípcia,comareligiãoeamagia;sendoosmédicosdoantigo Egito, provavelmente, que eram treinados nos templos, da mesma forma como o eram os sacerdotes-magos. Entretantoelesformavamumaclasseinteiramentedistinta,organizadaemumahierarquiarígida,comoos médicos da corte faraônica ocupando, certamente, uma posição mais elevada. Amedicinaencontrava-sesubdivididaemmuitasespecialidades.Todavia,aespecialização,parecetersido maisumaconseqüênciadascondiçõesprimitivasdoqueumprenúnciodaespecializaçãoemnossaépoca.Entretanto amedicinaquesepraticavanoEgitonãoeratotalmenteprimitiva. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0825
  27. 27. 26 Assim como desenvolveram as políticas, a agricultura, a tecnologia e, particularmente a arquitetura, além das artes, os egípcios também tiveram grandes progresso na medicina. Alguns papiros médicos que são, predominantemente, de caráter religioso, há outros, entretanto, que são de caráter empírico-racional, O médico, normalmente vestia uma roupa branca e limpa e usava uma cabeleira, que era característica, de suaprofissão. O paciente, normalmente, ficava repousando em uma cadeira, construída com tijolos especiais. Otratamentoprogrediasobadireçãosábiaecompreensivadomédico,istoconformeasindicaçõescontidas em um rolo de papiro, que era seguro por um de seus assistentes.Ao mesmo tempo, os sacerdotes executavam ritos mágico-religiosos, para o bem do paciente. O enfermo recebia a melhor atenção, que a ciência da época lhe podia oferecer. Os médicos egípcios foram altamente respeitados, por todo o mundo antigo, e isto por milhares de anos. Homero – o poeta grego – os considerava como os melhores de sua época e eles eram convidados á comparecerem nas cortes dos imperadores persas e de outros potentados orientais; e somente no século VI a.C. foramsendosubstituídospelosmédicosgregos. Além do valor psicoterápico da magia e da religião os médicos egípcios fizeram sólidos progressos nas observações e nos tratamentos racionais das diferentes enfermidades. Suas contribuições são dignas de permanecer em um lugar, ao lado das outras realizações dessa antiga grandecivilização. A posição de relevo, obtida pela medicina egípcia da época faraônica, durante 2500 anos, se justifica plenamente,peloquefoiencontradonosantigosdocumentosquesedescobriramemdiferentessítios,noterritório egípcio. Hoje a medicina no Egito é equivalente a Medicina mundial, nos países desenvolvidos; contando com hospitais modernos e bem equipados. NOTA- Se alguém desejar ler o livro de Paul Hermann, ele foi intitulado - A CONQUISTA DO MUNDO - é uma edição da Melhoramentos e seu código é: 0-03-062 Flerts Nebó PINHEIROS ou “ESPINHEIROS” A origem do nome do bairro já chegou a provocar polêmicas entre os historiadores e curiosos, sustentando alguns que “Espinheiros” seria a denominação mais acertada, dado a grande quantidade de árvores de espinhos aqui existentes `a época do primeiros povoadores. Segundoelesnestaregiãonuncahouvepinheiros,pelomenosemquantidadequejustificasseadenominação. Estudiosos atentos, porém, perceberam que as tais árvores de espinho, como eram chamadas na época, nadamaiseramqueospinheirosnativos(araucariabrasiliensis)queocupavamgrandesextensõesnestalocalidade. Sobre as referidas árvores, aliás, há numerosas referências em inventários e testamentos dos possuidores de terras nesta região, datadas de séculos atrás. Em artigo publicado já há alguns anos, o historiador pinheirense José Simão Filho, comentou a propósito: “Pinheirosdeoutrorapossuíaabundantespinheiras,cujosexemplaresmagníficosatraiamaatençãoeaeacuriosidade dos forasteiros. E foi, devida à impiedosa derrubada dessas árvores, que surgiu um decreto encontrado nas atas da vereança do ano de 1584: “...lançaram um pregão que ninguém cortasse pinheiro sem licença da Câmara com pena de pagar quinhentos réis para o Conselho...” José Simão Filho conservava ainda uma carta que recebera do escritor e historiador Afonso E. Taunay, datada de 15 de abril de 1829, na qual este assim se refere sobre o nome do bairro: x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0826
  28. 28. 27 “SeháalgumlugarnoBrasilcujonomenãopossaserpostoemduvidaéPinheiros;ameuversódetalpode duvidarquemignoraosdocumentos,poisestebairrodeSãoPauloconservaessenomedesdeoséculoXVIeasua designação ocorre em centenas de documentos. Para lhe dar uma rápida confirmação do que digo a ata da Câmara de São Paulo de 7 de dezembro de 1580, trata do conserto das pontes e caminhos.do Ipiranga, Pinheiros etc.. No dia 23 de maio de 1583 há uma referencia ao bairro de Pinheiros, onde estavam afazendadosAfonso Sardinha,Antonio Bicudo Francisco da Gama etc, etc. Na“informaçãodaProvínciadoBrasilparaonossoPadre”,pág.45,autoriadovenerávelJosédeAnchieta, lê-sequeospadresdaCompanhiaadministravamaAldeiadePinheiros,aumaléguadeSãoPaulo.Enfim,seriaum nunca acabar de referências de todas as épocas. NOTA: Quase toda a região do “Bairro de Pinheiros” era de propriedade do bandeirante FERNÃO DIAS que também possuía terrenos para o lado da região leste da Capital, chamada de ITAIM BIBI, onde tinha guardas para seus materiais usados nas “Entradas” ou “Bandeiras” da época” 60 Anos de Bonde. Dosmeiosdetransporteutilizadospelapopulaçãopinheirense,nenhumdeixoumarcastãoindeléveiscomo os bondes. Integrados à paisagem urbana desde o começo do século XX, esses veículos serviram a região durante 60anos,contribuindoparaoseudesenvolvimentopopulacionalefacilitandooacessodeseusmoradoresaocentro da cidade. Além da finalidade a que se destinavam, os bondes (e suas paradas como se dizia então) eram utilizados como pontos de encontros e serviam como elementos de aproximação dos membros da pacata comunidade pinheirense de outrora. Seus condutores e cobradores eram figuras populares no bairro e, nos carnavais esses veículos viajavam abarrotados de foliões que com os pedestres trocavam jatos de lança-perfumes e arremessos de confetes e serpentinas. Os bondes começaram a servir aos pinheirenses em 1904, quando a Light & Power inaugurou a linhaAraçá, que tinha seu ponto inicial no largo de São Bento e o final na Avenida Municipal ( atual avenida Dr.Arnaldo). Serviamdemodoinsatisfatório,poisparaalcançá-lososmoradoreseramobrigadosapercorrerumagrande distância a pé. Posteriormente o ponto final foi mudado para a Rua Capote Valente, onde então terminava a rua Teodoro Sampaio. Aindaassimeraenormeadistanciaapercorrereosmoradoresdobairroiniciaramummovimentopleiteando aextensãodalinhaatéoLargodePinheiros.AreivindicaçãoteveoapoiodovereadorCelsoGarciaeobteveêxito, apesar das dificuldades existentes. Para que os trilhos chegassem ao Largo de Pinheiros procedeu-se ao prolongamento da Teodoro Sampaio, através de uma área quase toda de brejos, sendo necessária a execução de três aterros, para os quais foram utilizados os próprios bondes. Superados os obstáculos, em março de 1909 chegava o primeiro bonde ao Largo de Pinheiros, onde foi recebido com banda de música e foguetes em meio à grande festa popular. AovereadorCelsoGarcia,quetantolutouporessemelhoramento,foioferecidoumbanquetenaresidência do Dr. José Guilherme Eiras, um dos lideres da comunidade na época. O progresso acabou com os bondes. Com o advento da era dos automóveis e principalmente depois da instalaçãodaindústriaautomobilísticanacional,aquelesveículoscomeçaramaservistoscomoobstáculosaotrânsito cada vez mais rápido. A imprensa e o povo a eles se referiam como “trambolhos”, “mostrengos”, “obsoletos” e outros adjetivos e apoio dos pejorativos. Por fim, na gestão do prefeito Faria Lima, foram extintos de São Paulo. OúltimodelesquechegouaPinheirosfoinumanoitede1969,trouxeopróprioprefeitoesuacomitiva,para umasingelacerimôniadedespedidaqueserealizounolargodePinheiros.Findaasolenidade,melancolicamenteo bonde subiu a Teodoro Sampaio pela ultima vez, deixando atrás de si o eco de um passado que não mais voltará. Flerts Nebó x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0827
  29. 29. 28 Geovah Paulo da Cruz Médico Oftalmologista - Biólogo São Paulo - SP AÁGUADEPIRACICABA Nas bandas do rio Piracicaba Tem garapa, açúcar e pinga Que tonteia em Jaboticabal Escorrega em Itapetininga Cambaleia em Palmital Tomba em Taquaritinga Vomita em Taquaral Se mija em Ibitinga. E junto com a camarilha Caga em Brasília. Começa por São Bernardo Descendo o rio Pardo Navegando os rios paulistas Com a corja de sindicalistas. Chegando em Bertioga Pega uma piroga Até a beira do Juqueri. Cuidado com o hospício Não faça ali comício Senão eles te jogam Na barra do Sapucaí. Rema no Tamanduateí Cai no Anhembi No sentido de Igaratá Até Guaratinguetá Sobe rio arriba Pelo Vale do Paraiba Desce pelo Tietê Na direção do Perequê Na altura de Pedregulho Vai de mergulho Até a barra do Mogi Guaçu Passando por Bauru Entra à direita para Iporanga Na entrada de Votuporanga, E vai indo prá Boiçucanga Sobe para Paranapiacaba Aí ganha o rio Piracicaba Então para de “mergulhá” Já está em Urubupungá. Muito compricado esse roteiro Pr´eu e os companheiro Eu queria apenas Que a viage fosse menas. Anhangüera e Itanhaem Pindamonhangaba e Icém Araraquara e Avanhandava Pirassununga e Igarapava Araçariguama e Cabreuva Paranapanema e Boituva Taubaté e Pariqüera-Açu Itaquaquecetuba e Botucatu Para com essa dureza! Nem sei nadar em represa... E eu tô com a língua presa, A boca mole e cheia de baba Com essa água de Piracicaba. È, mas aprende que o rio Piracicaba Não passa em Araçatuba Não nasce em Sorocaba Nem corre prá Indaiatuba Não cresce em Itu Nem lava em Jau Não serve prá Poá Não molha em Guará Chega de geografia E de tanta água fria Prefiro uma água quente Uma gostosa aguardente Lá em Presidente Prudente. Vossa Excelência toma birita Lá em Barra Bonita Pega uma “boa idéia” No canal de Cananeia Uma dose da branca Num boteco de Franca Manda brasa num mel Num quiosque em São Manuel Pensa que tá no metrô de Jabaquara Acaba num pau de arara Vai tomando umas e uns... Que vassuncê vai parar em Garanhuns! Manda aí uma água de Piracicaba... Porra!!! Essa é da braba!!! x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0828
  30. 30. 29 Geovah Paulo da Cruz O TATU E A TANAJURA Hoje não existem mais generalistas, aqueles que sabem muitas coisas e suas correlações.Atualmente todos são especialistasemalgumacoisa,eignoramoresto.Eumesmosouespecialistaemolho.Vejamsóqueseqüência incrível de conhecimentos são necessários para este artigo. EunasciemecrieinaroçaelogodepoistiveorestodainfâncianumvilarejodoTriânguloMineiro.Aculturado, desde cedo aprendi que tatu se come, mas que há restrições. O mais comestível é da espécie chamada tatu galinha,muitoapreciadopeloexcelentesabor.Entretanto,naminhacidadenãosecomiao tatupeba pelaseguinte razão: o cemitério ficava fora da cidade, limitando-se por um muro com um pasto de cavalos. Uma pessoa era enterrada e já no dia seguinte se encontravam pedaços de seu corpo espalhados pelo pasto, passados por túneis debaixodomuro,trazidospelostatus.Ocampoeracoalhadodeossos.Emoutroslocaisondenãoháesteproblema, este tatu é também apreciado, assim como o tatu bola. Na minha região se comia muito a tanajura, também chamada de içá em outros locais. Os índios a comiam crua,masentrenóseratostadanachapa,comosefosseumapipoca.Gostosíssima.Fazia-sefarofabemtemperadinha. Como pescador, das que sobravam, usava-as como isca de pesca. MaistardemegradueiemBiologiaeaprendiqueotatuapresentapoliembrionia,maisparticularmente,tetra- embrionia,istoé,nascemquatrodecadagestação.Tambémaprendiqueatanajuraéaformigarainha,quefecundada em pleno vôo pelo macho, pousa no chão, perde as asas, fura o solo e se aprofunda nele, formando aí um novo formigueiro.Daípordiantesuaúnicafunçãoéporovos,dosquaisnascerãooutrasformigasestéreis,quenãofazem sexo, nem se reproduzem, operárias, soldados, babás. Pertence à formiga saúva, aquela da cabeça de vidro, voraz cortadeira,quedizimatudoemvoltadeseuhabitat.Antesdosmodernosvenenosformicidaseraquaseimpossível controlá-la. Havia até um ditado que dizia: ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil. Esta formiga é agricultora, planta e cultiva um fungo do qual se alimenta.As folhas cortadas não são comidas, apenas servem de adubação, alimento para o fungo. Depois,comoagropecuaristaaprendiquehojeseusamiscasformicidas,grãospeletizadosmuitocheirosos, contendo casca de laranja e outros vegetais, que elas levam para o interior do formigueiro e envenenam os fungos, quecomememorrem,principalmentearainha. Comomédico,fizcursonoantigoServiçoNacionaldeLepra,hojechamadaeufemisticamentedehanseníase. Como hansenista aprendi que o tatu é um hospedeiro natural do bacilo de Hansen e que não desenvolve a doença. Por este motivo é muito usado na pesquisa sobre este mal bíblico. Como gastrônomo, inferi que o enorme abdome da tanajura nada mais é do que um grande depósito de ovos. Ora, ovo é comestível, não importa qual. Sempre apreciei ova de galinha, ovos em formação e em vários estágios de desenvolvimento. Em casa, nós brigávamos por ela. Depois que vim para São Paulo, conheci o mar e passei a apreciar frutos marinhos, conheci a ova de tainha, coisa apreciadíssima em gastronomia. Melhorando de vida,comicaviarmuitasvezes.Caviaréconservadeovosdeesturjão,umpeixedaEuropaOriental.Nãofoidifícil concluir que bunda de tanajura nada mais é do que caviar terrestre, e dos melhores, já que os peixes e os insetos aindasãoanimaisinferioresemuitopróximosentresinaescalazoológica. Entendido de embriologia, sei que o ovo, qualquer deles, é um ser em potencial, que deriva de um óvulo fecundado. O óvulo é sempre grande porque contém um lanche, uma matula chamada vitelo, para alimentar o embrião a ser desenvolvido. Nos peixes e insetos este bornal cheio de lipídios e albumina é muito nutritivo, o suficiente para fornecer matéria prima para a formação do embrião, porque a incubação é externa, fora do corpo da mãe. Eu estava desmatando o cerrado de uma das minhas fazendas para plantar soja e os peões diariamente matavam tatus para comer e penduravam os cascos nas árvores residuais. Elas ficavam parecendo árvore de natal. Não gostei daquilo, mas não tinha como controlar a ação deles. Eu tinha arado e preparado um pedaço de terra de cor clara, era noite de lua cheia e o chão ficou iluminado, atraindo por fototropismo centenas de tanajuras que lá aterrizaram. De manhã eu passei por aquela quadra, do tamanho de uns dois campos de futebol e observei muitos x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0829
  31. 31. 30 rastos de tatu e centenas de buracos com terra removida. Eles tinham trabalhado a noite inteira a meu favor, comendo as içás, evitando que cada uma delas criasse um novo formigueiro. Isto me poupou um enorme trabalho de combater as formigas com um grande custo financeiro, além de envenenar também a terra e outros predadores que as comessem envenenadas. Souumferrenhoambientalista,defensordanatureza.Deixeidecomertatunãosóporconsciênciaecológica, mas também por um certo nojo pelo fato de ele ser portador-reservatório do micróbio da lepra. Não coma tatu, deixe ele trabalhar pelo equilíbrio natural. Mas pode comer tanajura, estou certo de que vai gostar. Tenhotambémomeuladohumorista:achoaquelasdonasdecinturafinae“derrière”avantajado,apelidadas detanajuras,tambémmuitoapetecíveis... Como culinarista (tenho um livro para editar), aqui vai uma receita. Ponha manteiga de leite (existem outras manteigas), azeite, temperos secos (pimenta do reino, cominho, curry), cebola ralada, ervas frescas (salsinha, cebolinha, hortelã) alho, sal, e refogue as bundas (retire as cabeças) mexendo sempre, em fogo brando. Quando estiverem refogadas, derrame queijo captupiry ou outro requeijão cremoso, ou creme de leite, apenas o tempo de misturar e aquecer. Coma com arroz branco. É caviar de caipira, sô! Não chego a ser um enólogo, mas posso recomendar um vinho branco, tipo riesling alemão, ou nacional, mais baratinho. -Vai ser chique assim lá no Chapadão doTatu Canastra, onde a égua quebrou a perna num buraco dele, ôh “seu” passa fome desgraçado! E como escritor, redigi este pequeno ensaio. Como datilógrafo o digitei e como um modesto usuário de informática,imprimi-oeocopieiemdisquete. Geovah Paulo da Cruz O CULTO DA ANCIANIDADE Anaturezatemritosqueestãoligadosaumdeterminismogenéticodesenvolvidoaolongodemilhõesdeanos, segundoaevoluçãoseletivadasespécies.Doisdestesdeterminismossãoclausulaspétreas,imutáveis:aperecibilidade doorganismoindividualeaimortalidadedesuaprogramaçãobiológica.Osindivíduosmorrem,massuaorganização não:elaétransmitidaintra-específicamente.Assemelha-seaocultivodofogo:umpedaçodelenhaacesotransmite fogoaoutropedaço,maschegaummomentoemquecadatoroseextingueou seconsome,eofogoésucessivamente ateado a novos lenhos. Háumoutroritotambéminexoravelmenterígido:cadaindivíduoéresponsávelpelamanutençãodeseuciclo individual de vida, respirando e se alimentando. Respirar é de graça, mas alimentar-se tem um custo. Na natureza não há solidariedade alimentar. Com exceção da fase infantil do animal, depois de adulto é o cada um por si. Nenhumanimalrepartecomoutrooseualimento.Elenãotemnenhumcomprometimentomoralcomaalimentação do outro. Cada qual vive a sua vida. Nestas circunstâncias, o animal velho que perdeu sua agilidade, sua força, sua destreza, acaba se alimentando mal, e cada vez menos.Amaioria deles morre por inanição, definhamento. Ele começaporseautoconsumir,gastandosuasgorduras,oemagrecimento,depoisseusmúsculoseossos,aemaciação. E morre de caquexia, caso não haja morrido por infecções e infestações. Outros organismos oportunistas se aproveitam de sua fragilidade e o agridem e atacam, incluindo ai os predadores.Anatureza o defenestra da vida. Prá que ocupar um lugar, se já não tem mais utilidade?Anatureza é uma entidade não-moral. Os animais velhos em geral passam a viver solitários, são deixados para trás, não tem forças para sobreviver àsuaprópriacustaeesforço.Osherbívorosgastamseusdentes,suasunhas,seuscascos,nãoconseguemcaminhar e pastar. O homem, como qualquer outro animal, sempre cumpriu estes ritos de maneira natural. Nos bandos primitivos os velhos eram escorraçados, deixados para trás na vida nômade. Mais tarde, depois que o homo sapiens se socializou, no máximo comiam restos, sobras. Cada elemento do grupo era utilizado como forma de economia ergonômica, fornecendo sua potência para o proveito coletivo: caça, cultivo, defesa, ataque, vigilância, ajuda, regulação, e os velhos eram um peso morto, incômodo, fraco e frágil. Um passivo na dinâmica social. Um deficitário, aquele que dava pouco ou nada. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0830
  32. 32. 31 Com o estacionamento do humano em cavernas, povoações, aldeamentos, juntavam-se as mulheres e as crianças num só local, com um baixo custo operacional. Isto começou a ocorrer depois que os bandos ficaram sedentários. Cuidar também dos velhos agora representava apenas um pequeno adicional de ônus. E não seria totalmentedegraça.Haviaumlucropotencialinteressante;inferiu-sequealimentandoecuidandodoseuascendente, o descendente ganhava um crédito “moral” para quando também se tornasse velho. E assim de forma egoística, como soe ser na natureza, quebrou-se o rito da não repartição alimentar. Comprou-se, de forma artificial, uma quota de sobrevida.Aos poucos se descobriu que nem era tão caro assim entesourar este crédito, porque já havia outrainstituiçãovantajosa,acooperativafamiliar.Termuitosfilhossignificavamaiorsegurança,proteção,defesa, divisão do esforço, e também partilha do ônus de amparar os longevos. Com a evolução da inteligência, da linguagem, das habilidades, os idosos cuidaram de se armar de um cabedal de troca, a experiência. Se já não tinham força nem potência física, então compraram sua sobrevivência comumanovamoedaprópria,oseupatrimôniointelectual.Durantemilhõesdeanosaculturaoralfoiaúnicaforma intelectual de que se valia para guardar as descobertas, o aprendizado, a técnica, a ciência. E os anciões se especializaram neste mister, deixando para os sôfregos jovens e adultos a atividade física. Destemodo,nobalançocontábildeinteresses,osvelhospagaramsuacotaatuarialesegarantiramcomuma fraçãoamaisdevida,asenilidade.Daíavirarcultonãofoimaisdoqueumapolitizaçãodofenômeno,osdoislados dojogosegabandodeseusfeitos.Osmoçosapregoandosuabeneficênciaparacomosvelhos,eestessecreditando por um capital que os jovens não tinham, o conhecimento adquirido e experimentado. Hoje tudo mudou, e se cultua a juventude. O culto da ancianidade está em franca decadência. Os filhos são poucos, a vida é competitiva e se os mais moços conseguirem cumprir os mandamentos da natureza, cuidar de si mesmos e zelar pela prole, já estará bom. Com a nova dinâmica do conhecimento são poucas as chances de um jovemchegaraserumvenerávelanciãodetentordasabedoria,oudafortuna.Omundoéaaldeiaglobalquejátem os seus consagrados mestres em todas as áreas, laureados detentores do prêmio Nobel, acadêmicos, especialistas. Assim, é bom pensar em economizar e amealhar para o futuro. O fator de maior sobrevida, a longevidade, está pesando muito nos orçamentos. No Japão já se vive em média mais que 80 anos. Até mesmo os governos estão se queixando do excesso de velhos, que já não mais contribuem monetariamente e retiram do caixa por tempo prolongado. O que os da nova geração devem fazer é pensar na sua previdência programada, para que quando chegarem à velhice não se vejam como aqueles velhos da pré-história da humanidade, escorraçados para as migalhas das sobras e restos dos institutos de aposentadoria oficiais de todos os lugares do mundo, como o nosso INSS. Ou dependam da caridade, que não consegue assistir a todos e é humilhante para o idoso.Asilo é o terror psicológico da senectude.Aantecâmara da morte anunciada. No metrô uma senhora pediu que um garoto desocupasse o lugar reservado aos idosos. De má vontade, ele resmungou: - Que velha chata. Sem se perturbar ela retorquiu: - Se você não morrer antes, um dia ficará velho. Geovah Paulo da Cruz x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0831
  33. 33. 32 Helio Begliomini Médico Urologista São Paulo - SP CIRCUNCISÕES Confessoquenãogostodetratare,particularmente,operarparentes,poisaafetividadeeaproximidadeno relacionamentopodeminterferirsentimentalmentenoraciocínioclínico,atrapalharnoordenamentodashipóteses diagnósticas, quando não, contribuir negativamente na condução e evolução do caso. Entretanto,emminhaatividadeprofissionalhouvepoucas,masbemespecíficasocasiõesemquefizquestão de operar três entes mui queridos, cuja experiência inaudita pode ser classificada como trágico-cômico-filosófica. ... Há muitos anos, quando meus dois primeiros filhos tinham por volta de sete e cinco anos, e com indicação derealizaracircuncisão,decidiqueeumesmoosoperaria,poisalémdeserumdosmaissimplesprocedimentosem minha especialidade, gostaria que minha arte cirúrgica os moldasse perenemente, transcendendo neles a minha própria existência. Dessa forma, pensava que poderiam se lembrar do pai toda vez que se recordassem que tinham sidopostectomizados. Mas, apesar da simplicidade do ato, fui questionado pela minha esposa se eu seria o profissional ideal para oato,vistoqueseriapossívelmeinfluenciarafetivamenteenãoalcançaroresultadoesperado.Ademais,indagou- me se não poderia passar mal durante o procedimento, uma vez que estaria “cortando” meus próprios filhos. Nada me demoveu de meu intento, pois estas e outras colocações já tinham sido anteriormente muito ruminadasemminhamente. Assim, duas cirurgias idênticas foram marcadas sequencialmente no antigo Hospital e Maternidade Voluntários,naZonaNortedapauliceia,umdoshospitaisquerotineiramentelevavameuspacientesdoconsultório para operar. Curiosamente, na internação, apesar da autorização do convênio e de ser conhecido da instituição, pediram-me um cheque caução cujo valor, elevadíssimo – cerca de vinte vezes o custo dos procedimentos – não dispunha, e que deveria trabalhar alguns meses para reunir tal soma caso necessitasse pagá-lo. O anestesista foi o colega Lee e o cirurgião auxiliar meu velho amigo Carlos, igualmente urologista, com quem havia feito muitas e maiores cirurgias. Estive sempre confiante, mas pensava que, na pior das hipóteses, se ocorressealgumachaquesúbitocomigo,meusfilhosteriamalguémdeconfiançaparaconcluiroato. O primeiro a ser operado foi meu filho Bruno, o mais novo e o mais corajoso, outrora carinhosamente apelidado de “batatinha voadora” pelas suas peraltices, hoje, também médico. O ato transcorreu sem nenhuma intercorrência, como outros pacientes sem parentesco que houvera operado.Atranquilidade dele deu bravura ao meufilhomaisvelho,Enrico,outroraigualmentetraquina,hoje,administrador.Diferentementedoquehaviaimaginado, sem maior temor, comportou-se serenamente no centro cirúrgico. Entretanto, quando já havia sido cumprido cerca da metade do ato operatório, eis que subitamente meu auxiliar, o Carlos, disse-me que não estava se sentindo bem. Em poucos segundos tornou-se lívido, levemente sudorético, e ameaçando desmaiar teve que se sentar no chão do da sala, quando foi socorrido pelo anestesista e enfermeira. E eu que houvera cogitado que poderia ter experimentado o que ele estava passando, encontrei-me operandosozinhomeufilhoporváriosminutos. Felizmente, o infausto acabou bem e dele sobraram boas gargalhadas. ... Um raciocínio inverso ocorreu recentemente quando meu pai, com quadro de balanopostite crônica, desenvolveu fimose secundária. Na ocasião ele contava com seus 81 anos; eu com 53 de idade e 29 de formado. Tendoqueoperá-lodecidiconscienteetranquilamentefazê-locomminhasprópriasmãos,poissendopartedesua carne, almejaria com meu gesto retribuir a quem muito devia uma singela gratidão, particularmente por ter-me x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0832
  34. 34. 33 proporcionado,juntamentecomminhamãe,realizaromaiorsonhodeminhavida:sermédico.Assim,nadamelhor do que transformar minha arte num gesto de agradecimento a quem com muito sacrifício a concedeu-me. Desta vez a cirurgia foi marcada no Hospital São Camilo Santana na sequência de um procedimento endoscópico.OanestesistaeraoRenato,velhoconhecido,comquemigualmentetenhopartilhadomuitashorasem centros cirúrgicos. Também havia contatado um auxiliar e uma instrumentadora que me ajudariam. Infeliz e curiosamente ambos tiveram contratempos e notificaram-me em cima da hora que não poderiam estar presentes. Considerando serem os procedimentos de pequena monta e inadiáveis em decorrência das patologias, afastamentodotrabalho,agendamentoprévio,jejumemuitaburocracianostrâmitesparaaobtençãodeautorização dosconvênios...decidiencará-lossozinho.Rezei,comodepraxe,paraquetudosedesenvolvessedamelhorforma possível,ecomféfuiavante. Terminado a contento o primeiro procedimento, iniciei, solitário, à mercê da assistência anestésica, a circuncisãodemeupai.Felizmente,nadadecômicooutrágicohouveraparacontar,anãoserofatoúnicoemminha vidaprofissionaldeterquerealizarsozinho,emmeuprópriopai,umprocedimentosimples,masquesemprefizera e que faço com a ajuda de um auxiliar. Porestarsó,demorei-mecircunstancialmentemaisdoqueousualnoatooperatório,temposuficientepara que meu pensamento voasse celeremente às recordações dos felicíssimos momentos que tive com meus pais e irmãosnaminhainfância...prolongadosnaadolescência...esedetivesse,particularmente,àépocademinhajuventude. Derepente–semjamaistersequerimaginadoemminhatrajetóriapessoalouprofissionaloperarmeupai(!) – dentre tantos flashes que a memória aprazível e graciosamente me concedia, refleti que estava inusitadamente restaurando nele um órgão que, através de inúmeras incursões de amor, possibilitou-me ter acesso a vida. Eessefoimaisummomentoinolvidávelemminhaexistênciaqueele–meupai–paradoxalmente,através damedicinamehaviapossibilitado! Helio Begliomini EU... MILITAR O meu relacionamento com os militares daria para fazer uma pequena novela. Como sói acontecer com todo os varões que estão para completar 18 anos, participei do processo de alistamento militar no quadro do Exército Brasileiro. Madrugadas na fila, gozações de soldados em exercício, ameaças de cabos e sargentos e desdém por parte de oficiais eram rotinas esperadas nesse processo. Felizmente,nessaocasião,fuidispensadoporexcessodecontingente.Participei,felicíssimoecomorgulho, dacerimôniaejuramentoàBandeiraocorridanoEstádioMunicipaldoPacaembú,otradicionalPauloMachadode Carvalho. Entretanto, novamente cruzei com os desígnios do Exército Brasileiro por ocasião do término do curso de medicina, em 1978, quando a minha faculdade desfortunadamente foi uma das sorteadas e seus varões, como consequência, obrigados a servir as ForçasArmadas durante um ano. Tínhamos que servir no Mato Grosso do Sul, pois naquela época, esse estado pertencia à mesma região militar de São Paulo.Após treinamento em Campo Grande seríamos designados, de acordo com a classificação, para cidades interioranas e fronteiriças, como por exemplo Porto Murtinho, cujo acesso só era possível por ar ou rios. Esse não era o maior problema, mais sim o fato de estar com casamento marcado há meses para o dia 24 de janeiro de 1979. Assim, a cerimônia já estava acertada com o querido padre Bruno Carra da Igreja de São PedroApostolo,alémdocantor,instrumentistas,floriculturaeClubeMacabi,ondeseriaarecepção.Játinhamsido entregues quase todos os convites. Deveria me apresentar em Campo Grande três dias antes do meu casamento. O coronel responsável pelo processo estava irredutível, não admitindo minha ausência, sob pena de ser preso. Commuitocustoegraçasaaçãodivina,conseguicasarcomapropostadepartirnodiaseguinteparaMato Grosso do Sul. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0833
  35. 35. 34 Nessa ocasião, havia conseguido entrar na Residência Médica em urologia no concorrido Hospital do Servidor Público do Estado de São Paulo. Tive que pedir adiamento do meu programa por um ano, o que foi concedido. Desmontamos o apartamento já organizado e não inaugurado e, estávamos convictos de que teríamos de trocar, às pressas, nossa lua de mel, anteriormente almejada nalguma praia do nordeste, para o desconhecido oeste brasileiro. Ahomiliadacerimôniareligiosaeacomemoraçãosocialforammarcanteseemocionantes,poisestávamos de mudança para terras desconhecidas e lá permaneceríamos por pelo menos um ano. Passamos a primeira noite no Hotel Hilton e seguimos rumo a Campo Grande com pernoite emAssis e Presidente Epitácio. Nesta cidade dormimos, sem querer num hotel de meretrício. Foi uma experiência inesquecivelmente repugnante no início do casamento e não combinava com nossos ideais. Para mim que tinha moradoemrepúblicadeestudantesduranteseisanoserafacilmenteabsorvível,masnãoparaminharecém-esposa que jamais se desgarrara de sua bela casa e unida família. ChegamosemCampoGrandenosábadoejánosmobilizamosparaalugaralgumaquitinete,poisnãodava para morar no hotel devido ao elevado custo. Encontramos, no domingo, meu colega de turma, oAriovaldo, que encontrava-se aflito e desesperançado, Estava em prantos, junto com seu pai, pois também jamais tinha morado fora de casa.Apesar de sua idade, não se conformava com essa idéia de serviço militar no Mato Grosso do Sul. Na segunda-feira seguinte, apresentei-me ao comandante da unidade militar e este, para minha surpresa, disse-me que o quadro de aspirantes estava completo. Caso quisesse, poderia desistir, com a condição de servir após o término da residência. Essa foi outra surpresa. Naquela altura tudo já estava direcionado para morar no Mato Grosso do Sul durante um ano: apartamento em São Paulo desmontado; prorrogação da Residência Médica; familiares e amigos conscientes; cancelamento de plantões, adiamento da Faculdade de Engenharia daAida, minha esposa... enfim, já tínhamosnosacostumadocomaidéiadequemorarumanoforaseriaumaexperiênciamuitoboaparaanossavida a dois. Entretanto,apósconfabularmos,prevaleceuàidéiadevoltar.Felizmente,portelefone,conseguiretornarao meu lugar na Residência Médica e, partimos no dia seguinte, numa terça-feira. Apesar das retas intermináveis da estrada, pegamos um temporal intenso e deslizamos na pista, batendo partedocarronalateraldarodovia.Felizmenteomalnãofoipior.EraumcarroBrasília,excessivamentecarregado pelamudança. Paramos em Presidente Prudente para reparos.Afortunadamente tínhamos o endereço do irmão da Sra Terezinha, vizinha amiga dos pais daAida e sem nos conhecer, ele e sua esposa foram excessivamente gentis, pois além de nos orientar quanto a um mecânico de confiança, nos proporcionaram alimentação e pernoite. Eles foram bons amigos que carinhosamente nos socorreram e jamais serão esquecidos. No dia seguinte partimos para São Paulo pernoitando na cidade de Ourinhos.Tanto na ida quanto na volta fizemosaviagemfracionada,poisalémdopercursosermuitolongo,tínhamosaintençãodeconhecerascidadese paisagens que se iam apresentando, com belos rios e represas. Findaaluademelqueduroucercadeoitodias,nossavidavoltouaoesperado.AAidacontinuouseucurso deengenhariaeeuinicieiaResidênciaMédica. * * * Três anos após concluía minha especialização em urologia. Era fevereiro de 1982. Já tínhamos o Enrico, nosso primeiro filho, com 1 ano e 4 meses e estávamos no início de gravidez do segundo filho, o Bruno.Ambos nasceram no Hospital do Servidor Público do Estado de São Paulo, com imensas e gratificantes recordações para mim. Masaindaminhaexperiênciamilitarestariaporvir.Devidoaobomsalário,àspoucasopçõesempregatícias e à minha pendência com as ForçasArmadas, decidi me alistar como médico no Exército. Naquele ano, a maior parte dos convocados era composta de médicos com três ou quatro anos de especialização e eu estava entre eles. Helio Begliomini x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0834
  36. 36. 35 Fizemos um treinamento militar de 45 dias no tradicional CPOR – Centro Preparatório de Oficiais de Reserva, na rua Dr.Alfredo Pujol em Santana, onde aprendemos as normas e disciplinas militares. Lembro-me, certa vez, que perdi o horário. Saí em disparada ao quartel. No trajeto bati o carro e nem parei para ver o que tinha acontecido, tamanho era o medo de ser repreendido ou de ficar preso... Aprendiamarchar,fazercontinência,conhecernomes,siglas,regraseconceitosmilitares.Asliçõesensinadas eram permeadas pelo impecável jeito de se vestir e recheadas de rigorosa disciplina. Uma das recordações que trago dessa época era quando, logo pela manhã, o tenente perguntava quem iria almoçarnoquartel,poisacomidaseriafeitasobmedidaenãoseadmitiadesperdício.Quemdesseonomedeveria comerobrigatoriamente,mesmoqueposteriormentedecidisseemcontrário.Equemnãodesseonome,nãocomeria. Umaexperiênciainesquecívelfoiaotérminodocursoquandofizemosumacampamentomilitar,queseriaa conclusão prática do aprendizado. Numfinaldesemanaestivemosnumcampodetreinamentoondehaviamuitomato.Caminhamosfardados porquilômetros;sentimosaaçãodogáslacrimogêneo;aprendemosliçõesdecamuflagem;demostiroscomfuzile vimos o poder da explosão de granadas. Um estilhaço de uma delas que se desintegrara a dezenas de metros de distância,atingiuacidentalmenteoolhodeumcolegadaturma,lesando-oeafastando-odefinitivamentedogrupo. Ànoite,embaixodefortechuva,colocaram-nosnomeiodomatoetínhamosquesairguiadosapenascom lanternas e cálculos de azimutes. Não havia banho.Afarda suja e molhada amoldava ao corpo. Lembro-me que nem havia lugar para dormir dentro das barracas ou caçambas.Asolução que encontrei foi ficar deitado embaixo docaminhãoemcimadagramamolhada,poisaomenosestavaumpoucomaisprotegidodachuvaquenãoparava. Cumpri o treinamento militar e como tinha Residência Médica fui convocado para trabalhar no Hospital Geral do Exército, localizado no bairro de Cambuci. Naquela ocasião, o hospital era ainda formado de velhos pavilhões da época da II Grande Guerra Mundial e, só no segundo semestre daquele ano (1982) seria inaugurado o prédio novo dos ambulatórios. Meu turno de trabalho era das 7 às 13 hs e alguns dias das 13 às 19 hs. Almoçava no hospital e depois trabalhava noutros lugares.Tinha plantões aos sábados e domingos à cada seis semanas aproximadamente. Além dos militares e alguns familiares, atendíamos os ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Suas indeléveis experiências e o sentimento de irmandade que nutriam entre si eram emocionantes e inesquecíveis. Durante esse ano pude também desenvolver muito a parte escrita da tese de mestrado que estava, paralelamente realizando na Escola Paulista de Medicina – Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A minha experiência militar proporcionou-me maior amadurecimento como cidadão e conhecimento de realidadesinimagináveis.Elafoitãoamplaericaquedariaparaescreverumlivro! Helio Begliomini x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0835
  37. 37. 36 SER CANDIDATO Ser candidato é ter um sonho é ser idealista é acreditar no poder da transformação nodinamismodavida nummundomelhor. Ser candidato é ser desprendido despretensioso no trato solidárionasdificuldades afávelnorelacionamento. É catalisar o poder a outrem trabalhar sem medo ser impávido no embate. Ser candidato é almejar a vitória poder amargurar uma derrota é ganhar ou perder. Ser candidato é surpreender-se com adesões desencantar-se com deserções é angariar apoios e traições. Ser candidato é deixar afazeres relegarfamiliares abdicar de si mesmo conviver com multidões e estar só. Ser candidato é competir entre verdades e mentiras consistênciaesuperficialidade adulaçõesecalúnias realidade e falsidade. Ser candidato é ter nobre conteúdo inesvaecido pela derrota tampoucopelavitória. Helio Begliomini x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0836
  38. 38. 37 Hélio José Déstro Cirurgião Dentista São Paulo - SP O PALHAÇO (Declaração especial de amor a um ser fenomenal) Adorávelemaravilhosopalhaço... Com o seu coração de ouro a cara e o traseiro de aço. Adorávelefenomenalpalhaço... Comaquelaingenuidadeinfantil, O bolso vazio em bagaço. Adorável e inocente palhaço. Aalegriaésuaformademensagem. A vestimenta é toda coragem. Adorável e querido palhaço. Que faz vibrar as crianças Encrostadas em todos os corpos. Que faz vir à tona nossos sentimentos. Apureza e a certeza...Avida é linda... E que a inocência, tem por base primordial a decência. Meulindo, fenomenal,inocenteequerido. PALHAÇO O ABC DO PALHAÇO 10 de dezembro – Dia Internacional do Palhaço QUÁ... QUÁ... QUÁ Sorrir faz bem ao fígado. AAAAAAAAAAAA Rir faz bem ao coração QUÉ... QUÉ... QUÉ Gargalharfazbemaalma. x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0837
  39. 39. 38 Hélio José Déstro Cambalhotas... E dá-lhe cambalhotas pra frente, para trás... Muitas cambalhotas. Saltos... Estrelas, quedas e lorotas. Rir... Sorrir... Gargalhar...Alegres anedotas. Na cara levar tortas, o choro mentira é chacota. Estampidos, o bater palmas, levarem bofetões. Conversas sem nexo, só pra fazer confusão. Tem cara de idiota, mas é um lindo ser. Nos circos de lona, nas festas infantis e na TV. A cara pintada, o nariz tão vermelho. Vê-se no espelho e que roupas coloridas. Flores e os jatos d’água quanta palhaçada. CAREQUINHA–Aiaiai... Carrapato não tem pai. PIOLIM – fenomenal fez rir a tantas gerações. ARRELIA – Como vai... Como vai... Como vai? - Eu vou bem, muito bem, bem bem. A meninada – Muito bem... Muito bem, bem bem. ARRELIAEPIMENTINHA - O bom menino não faz pipi na cama. - O bom menino não faz malcriação. O maravilhoso mundo do circo onde o palhaço é rei. Na maior pureza e encantamento. Em tempo de infância de nada fazer. Palhaço – quando rir, sorrir e gargalhar. Até não agüentar e sempre se lembrar. Hélio José Déstro – palhaço da vida x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0838
  40. 40. 39 OS REVOLUCIONÁRIOS No quartel a ordem do Comandante para toda a Corporação. - É pra matar, todos os revolucionários escondidos na favela. - Pra matar, isto foi dito a todo o Batalhão que iria fazer parte desta manobra. - É pra matar, penetrava pelos ouvidos e infiltrava nas cabeças dos soldados. - É pra matar. É pra matar. Maaaaataaaaar. Em caminhões chegamos ao pé da favela, do Batalhão éramos famosos conhecidos como o “Pelotão de Fuzilamento”. O pelotão com cerca de duzentos homens em posição, caminhávamos lado a lado dois, três ou quatro cada qual com um campo de visão, passo a passo subíamos fazendo a varredura do local metro a metro. Crianças se escondiam, mulheres gritavam para as crianças, um escarcéu. Eu com meu fuzilAK-47 arma poderosa e munição de centenas de balas. Casas vasculhadas ficavam para trás, onde mulheres choravam.Aminha esquerda um pipocar de metralhadora, alguém tinha sido encontrado. Um revolucionárioamenos.Euemaistrêssoldadospassoapassosubíamosafavela.Umseafastoupeloladoesquerdo e penetrou em uma casa. Só se ouviam o barulho de nossas botas. O Pelotão da Morte nesta época de Revolução impunha respeito. Onde passava levava pelo caminho a morte, coletes a prova de balas e pra dar respeito às armas potentes:fuzis,metralhadoraserevolveres. Eutinhasidorequisitadoparaomesmoporqueondefaziaplantãoprendiváriosbandidosqueassaltavama região. Eu e todos os outros caminhávamos para matar... Matar. Desta favela por falta de opção sai para ser soldado. Hoje com meus 25 anos sou parte do famoso Batalhão. Nestes tempos de revolução lutávamos com aqueles que são a favor e eram os que queriam a democracia.Afinal nem sei o que é Democracia, mas no quartel aquilo era um mal pro nosso País. E tinham que ser calados. Muitos eram até eram comunistas e comiam crianças. Comunistascomiam,crianças.Ossoldadosnestestemposdifíceissãovalorizadosporqueimpunhamaordem.Eo principaltinhaarmamentospesados,equemtemarmassãoobedecidosoucalados.Pradizerminhaverdadeeufui convocado para fazer parte do pelotão. Nunca fui de matar, mas hoje eu estou com o diabo no corpo, nesta missão sabíamos o que fazer. Matar... Matar. Matar revolucionários. Deixei o pensamento de lado o pensar que naquela favela eu fui criado, mas matar a todos que foram exibidos nos slides no quartel nas projeções e nas fotos espalhadas. Ordem do Comandante é pra ser cumprida pelos oficiais subalternos. Sargento cumpre porque é sargento. Soldado é soldado, sargento é sargento, oficial é oficial. Obedecer. Obedecer. Estávamos em quatro, um logo se afastou e num beco ouvimos o pipocar da metralhadora. O companheiro ao lado penetrou em uma casa juntamente com o quarto homem ouvi um pipocar forte de metralhadora e gemidos. Estava só e a frente a casa mal construída, mal acabada. O ódio e o terror. O coraçãopulavaemeurostoesquentouafaceeosolhosqueseinjetaramdevermelho,namenteoódio.Avarredura caminhavalevandonospeitosumlimparolocal.Foiquandofiqueifrenteafrenteeueaporta. Metiasoladabota, ela escancarou. Sabia por informação que poderia matar, ou poderia morrer. A casa meia água, casa igual a centenas, a casa mal acabada feita aos poucos e com valores suados. Eu só comigo mesmo.Asala vazia, ao lado acozinha...Vazia. Outra porta a do quarto. O silêncio era de morte. Neste momento o ódio tomava conta de mim. Se atrás desta porta houvesse alguém eu acabaria com ele.Asola bateu violentamente na porta que rangeu e cedeu. Frente a frente eu, ele barbudo, um dos que estavam entre os projetados na tela. Havia também crianças. Ele e as crianças a comerem pipocas. Amarelo era a cor de seu rosto a comer pipocas brancas.As crianças tremiam. O dedo no gatilho do fuzilAK 47. E as pipocas.Amão cheia de pipocas é estendida.Aí caiu a ficha. Ele, o Zé filho da Maria pipoqueira. Ali naquela favela quantas vezes com fome comiamos as sobras de pipocas murchas que sobravam no carrinho. Os caruás eram colocados outra vez na panela com óleo usado e nada de estourarem. Em tempos passados de Hélio José Déstro x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0839
  41. 41. 40 meninice sentados eu e ele, lado a lado, a comer com “fome de três dias” pipocas e éramos felizes. Eu e o Zé filho da Maria pipoqueira. Eu, ele a mão estendida com as pipocas. O fuzil, o dedo no gatilho. Ele, o revolucionário?A mãoestendidaseoferecendo,anossaamizade,osnossosmomentosemsaciarafome. Meumundovoltou,euque estava a fim de matar, que estava frente a frente com o revolucionário. Eu e o menino amigo de tantas peraltices, alegrias e sonhos. O dedo no gatilho e a ordem matar... Matar. Sentei-meaoseuladoecomeçamosacomerpipocasnosilêncioqueerademorte.Amortequeseestendia e corria nas casas pela favela.Alembrar nossos sonhos de sermos jogadores de futebol. Ele cantor tinha uma bela voz, bom pra cantar samba e pagode. Hoje na vida um revolucionário e a ordem matar. Matar. Levantei-me o dedo no gatilho e o ódio no coração. “O sargento que vá pra puta que pariu.” A amizade de meu amigo Zé das pipocas vale mais do que matar pra acabar com a revolução e sonhos acalentados. Hélio José Déstro - 7 deAbril de 2009 Amizade é flor que nasce no coração. MEUS INESQUECÍVEIS AMIGOS Estudante que fui, tive muitos amigos e quero biografá-los: O PINTO - Um rapaz bonitão, vermelho e forte, também tinha seus dias de tristeza, ficava mole... Mole, encolhido em seu canto.Adorava mulher, o que se podia chamar de tarado; não podia ver um rabo de saia e seus apetrechos,queoPintoficavaamil.TinhaumgrandedefeitoentreamigosnãogostavadeserchamadoPinto,mas a turma quando o Pinto estava onde havia muita gente, e distante gritavam aos berros: - Pinto, ô Pinto, aqui Pinto. VemcáPinto.OpalavreadocausavaummalestarnoPintoenaspessoas,masestudanteéumaclassedegozadores e adora uma farra. Nesta hora o Pinto não sabia onde enfiar a cabeça ficava louco não havia quem o segurasse. Conheci-odestepequenonaqueletempochamavam-nopelodiminutivoPintinho:eraPintinhopracá,Pintinhopra lá. O Pinto era de família pobre, porém ótimo estudante. Contou-me que uma vez ele e o pai comeram uma perereca rachada ao meio. Naquele tempo perereca era parente de sapo, hoje é rã. Sendo pobre estava sempre duro...Duríssimo,quandojovem,masostemposmudaramformou-sedoutor,oPintonasuaprofissãoeraprocurado. O Pinto teve sua fase áurea foi até cogitado pra Prefeito, porém o Pinto queria levar sua vida escondido e não gostava de aparecer. Mas, quando procurado nunca falhava, isto é quando jovem, soube que falhou, na terceira ou nasegunda.FicoucomplexadoenocorrerdacarruagemoPintoengordou,foiamolecendo,seufísicoqueerabelo transformou-se e vocês sabem que Pinto mole não tem serventia. Ouvi dizer que o famoso Pinto de juventude se perdeu. Ficava a beber em local mal falado. Ser mau elemento era tomar umas e outras, até cheirava mal. Foi visto e estava deitado encolhido perto de um saco com dois ovos podres, ali num lugar da Região da Barra Funda. FREDERICO - Era o dodói da mamãe, filho único, filho de doutor e pianista, sua mãe uma mulher fenomenal, carinhosamente o chamava de ICO era: - ICO meu amor, ICO querido, ICO vem cá, ICO vá estudar. Escolhia seus amigos a dedo. Eu, além de colega de ginásio era de futebol. Numa quinta feira tempo nublado eu passei na casa do ICO para treinarmos, porque no domingo tínhamos um grande jogo.Amãe não queria deixá-lo ir, porém, com o pedido de ICO concordou e lá fomos nós.Aconteceu que uma chuvinha fina nos deixou molhados e treinar Hélio José Déstro x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0840
  42. 42. 41 com chuva ficamos imundos. Na hora do banho não havia água. Morávamos distante cerca de 15 quarteirões do campo e naquele tempo íamos a pé e voltamos do mesmo jeito. Um grande goleiro, eu jogava de zagueiro, suas ponteseramfamosasefazíamospartedomesmoclubeondefomoscampeões;infantisejuvenis.OICOnacidade, entre os goleiros o que mais pênalti pegava e dava cada vôo. Então no retorno as nossas casas, o ICO tocou a campainha. Ao abrir a porta sua mãe ao ver ICO naquele estado deplorável, todo sujo, com o espanto na face, olhos arregalados, gritou: - ICO sujo. (Eu fui pra minha casa rindo as escâncaras de ter ouvido tal cacófato). O PORTUGUÊS - filho do padeiro, conhecido na cidade pelas guloseimas que produzia. Chamavam seu pai de português, a mãe de portuguesa e sua irmã de portuguesinha. Porém o segredo contou-me que seu nome era Manuel Bosta. Saibam, nunca dizia seu nome completo, tinha complexo e para as professoras era só chamado de Manuel. Eu, muito discreto, jamais falei aos colegas sobre o verdadeiro nome porque iriam rir e não queria que isto acontecesse, pois era um ótimo amigo.Antes dos dezoito, antes de fazer o tiro de guerra e juntamente com sua advogada de causa civil... Dra. Mérida da Costa que preparou a documentação apresentaram-se frente ao juiz com testemunhas para que fosse mudado seu nome. O juiz togado, na sua pose parecendo o dono do mundo, depois de verificar e comprovando estar toda selada (naquele tempo tudo levava selos). Deu vários carimbos e passou a secretaria para que preparasse o documento para ser assinado com a mudança de nome. Perguntou a advogada qual o nome que seu cliente queria usar daquela data para frente.Aadvogada Mérida da Costa passou a palavra a Manuel Bosta. O juiz então fez a ele a pergunta: - Senhor Manuel Bosta, qual o nome que quer usar daqui para frente? - Meritíssimo desejo ser chamado de: Joaquim Bosta. FOHDDA - era descendente de poloneses. Seu pai um grande mecânico. Seu nome se escrevia com as letras F o h d d a, porém pronunciado em português era Foda mesmo. Escrita diferente, pronúncia igual. Lá na Polônia erarespeitado,tinhaparentesnogoverno.ImigrouparaBrasilporserdeoutropartido.AquinoBrasilosobrenome causava um risinho amarelo, ou de várias cores, porque aqui o buraco é mais embaixo. No ginásio, na hora da chamada ou quando arguido sobre a matéria e não sabia, era motivo de risos. Os professores tentavam disfarçar, porémo Fohdda era Foda e estamos conversados. Estudioso e tímido. Fizemos todo o curso inclusive o superior. Formados viemos para São Paulo e instalamos consultórios no bairro do Brás. Naquele tempo no Brás freqüentávamos o Clube, e a gozação era terrível. Sempre defendi o Fohdda e até o chamava carinhosamente de Fo. Sua clientela adorava o Fohdda e passou a ser respeitado se alguém ria de seu nome era longe porque perto do Fohdda,ninguémria.Fuiseupadrinhodecasamento.Mudoudebairro,sumiu.Outrodialendoaspáginasamarelas vi em negrito seu nome. Senti saudades de tão boa amizade. Hélio José Déstro - Aventuras de estudante 16-2-2004 Verdades verdadeiras, inverdades com fundo de verdade e o inventado que sonha em ser verdade ( é Lenda) Hélio José Déstro x jornada - anais_21x297_136p.pmd 10/9/2009, 14:0841

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