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Anais VIII Jornada - 2005

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  • 1. VIII Jornada Médico-literária Paulista Serra Negra - São Paulo - Brasil 22 a 25 de setembro de 2005 Anais Sociedade Brasileira de Médicos Escritores Regional do Estado de São Paulo SOBRAMES - SP
  • 2. Anais VIII Jornada Médico-literária Paulista Sociedade Brasileira de Médicos Escritores Regional do Estado de São Paulo SOBRAMES-SP Serra Negra - São Paulo - Brasil 22 a 25 de setembro de 2005
  • 3. SOCIEDADE BRASILEIRA DE MÉDICOS ESCRITORES Regional do Estado de São Paulo SOBRAMES - SP Diretoria Gestão 2005/2006 Cargos Eletivos Presidente: Karin Schmidt Rodrigues Massaro Vice-presidente: Flerts Nebó Primeiro secretário: Marcos Gimenes Salun Segundo secretário: Maria do Céu Coutinho Louzã Primeiro tesoureiro: Rubens Massaro Segundo tesoureiro: Milton Maretti Conselho Fiscal Efetivos: Luiz Giovani José Rodrigues Louzã Madalena J. G. M. Nebó Suplentes: Sérgio Perazzo José Jucovsky Arlete M.M.Giovani A VIII Jornada Médico-literária Paulista é uma realização da SOBRAMES - SP - Sociedade Brasileira de Médicos Escritores Regional do Estado de São Paulo Sede: Rua Alves Guimarães, 251 - CEP 05410-000 - São Paulo - SP Telefax: (0xx11) 3062.9887 - E-mail: sobrames@uol.com.br Copyright 2005 © dos Autores A Comissão Organizadora da VIII Jornada Médico-literária Paulista foi composta pelos integrantes da atual diretoria Projeto Gráfico e Diagramação: Rumo Editorial Produções e Edições Ltda. E-mail: rumoeditorial@uol.com.br
  • 4. Apresentação Com muita honra convido-os a conhecer nas próximas páginas a inspirada produção literária dos escritores que participam desta VIII Jornada Médico-literária Paulista, realizada pela SOBRAMES de São Paulo. Em cada texto, seja ele em prosa ou verso, vai a alma do escritor e todo o seu talento criativo. Ao ler e ouvir na voz de seus autores estes contos, estas crônicas e estas poesias durante o nosso encontro, teremos a rara oportunidade de nos transportar mentalmente para um outro mundo: o da fantasia, do sonho e especialmente o do poder das palavras. Boa leitura a todos! Serra Negra, setembro de 2005 Karin Schmidt Rodrigues Massaro Presidente da SOBRAMES-SP Sociedade Brasileira de Médicos Escritores Regional do Estado de São Paulo
  • 5. Sociedade Brasileira de Médicos Escritores SOBRAMES-SP QUEM SOMOS A Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, Regional do Estado de São Paulo, foi fundada em 16 de setembro de 1988 e congrega mais de cem membros titulares, acadêmicos, colaboradores, eméritos, honorários e beneméritos. Basicamente a sociedade é constituída por médicos escritores de literatura NÃO-CIENTÍFICA, além de escritores de outras formações profissionais (advogados, engenheiros, jornalistas, dentistas, arquitetos, etc..). PIZZA LITERÁRIA Em 1989 surgiu a idéia de se reunir os colegas ao redor de uma mesa de pizza, como acontecera por ocasião da fundação da entidade. A reunião mensal tornou-se uma tradição e foi intitulada “Pizza Literária”. Desde então é realizada em uma pizzaria de São Paulo, com uma freqüência que costuma beirar quarenta pessoas. Nesta, além de se saborear uma deliciosa pizza, tomar um chope e bater papo com os amigos, tem-se a oportunidade de ouvir os trabalhos dos colegas e também apresentar os seus, se quiser. Tem-se, também, a possibilidade de encontrar colegas de outras especialidades e formados nas mais diversas faculdades, além de sócios não médicos das mais variadas profissões. Todos com uma paixão em comum: a literatura. As reuniões de 2005 acontecerão na terceira quinta- feira de cada mês, na pizzaria BONDE PAULISTA, na Rua Oscar Freire, 1597 – à partir de 19h00. JORNADAS E CONGRESSOS A cada dois anos a Regional de São Paulo promove uma Jornada Médico-literária. Estas se realizaram em cidades do interior paulista: Jundiaí, Bragança Paulista, Santos, Campos do Jordão, Águas de São Pedro, Botucatu e novamente Campos do Jordão, em setembro de 2003. A VIII Jornada Médico- literária Paulista acontece na cidade de Serra Negra, de 22 a 25 de setembro de 2005. Como existem regionais da SOBRAMES em muitos estados brasileiros, nos anos pares é realizado um Congresso Nacional da SOBRAMES. Em 1994 e 1998, este ocorreu em São Paulo, organizado por nossa regional. O último Congresso Nacional se realizou de 26 a 30 de maio de 2004 em Bento Gonçalves / RS, com expressiva participação da delegação da SOBRAMES-SP. O próximo Congresso Nacional acontecerá em abril de 2006, na cidade de Maceió – AL. EVENTOS INTERNACIONAIS Além da existência de regionais da SOBRAMES na maioria dos estados brasileiros, os médicos escritores desta sociedade têm também participação em algumas associações em outros países, como é o caso da LISAME - Liga Sul Americana de Médicos Escritores, com sede em Buenos Aires – Argentina; UMEM – União Mundial de Escritores Médicos, com sede em Lisboa – Portugal, cujo último congresso se realizou em Viana de Castelo - Portugal, de 27 de setembro a 3 de outubro de 2004, contando com representação da SOBRAMES paulista; UMEAL – União de Médicos Escritores e Artistas de Língua Lusófona, com sede em Lisboa – Portugal, dentre outras. PUBLICAÇÕES Desde 1992 a SOBRAMES-SP publica um informativo mensal chamado “O Bandeirante” que é distribuído aos membros. Por vários anos publicou o suplemento literário, as “Páginas Sobrâmicas”, trazendo trabalhos dos sócios da Regional de São Paulo. À partir de 2001 a publicação ganhou o título de “Suplemento Literário”, e continua sendo publicado mensalmente. Além disso, a Sociedade já editou oito coletâneas com trabalhos dos membros, a primeira publicada em 1990, com o título de “Por um Lugar ao Sol”. Seguiram-se “A Pizza Literária” (1993), “A Pizza Literária - segunda fornada” (1995), “Criação” (1996), “A Pizza Literária - quinta fornada” (1998), “A Pizza Literária - sexta fornada” (2000), “A Pizza Literária – sétima fornada” (2002) e “A Pizza Literária – oitava fornada” (2004). Em 1999, editou-se a “I Antologia Paulista”, contendo todos os trabalhos das “Páginas Sobrâmicas” nos seus dois primeiros anos de publicação (abril 1997 a março de 1999). Em 2000 foi publicada a II Antologia Paulista, desta vez com trabalhos inéditos dos membros. Em 2001 publicou-se
  • 6. a III Antologia Paulista, com trabalhos literários publicados de abril de 1999 a março de 2001 no Suplemento Literário. Por ocasião da Jornada Literária de Campos do Jordão, a SOBRAMES-SP lançou o quarto volume dessa série de antologias. Está previsto para setembro de 2005, em Serra Negra, o lançamento da quinta Antologia Paulista, que reúne todos os textos publicados entre abril de 2003 e março de 2005, no Suplemento Literário do jornal “O Bandeirante”. Por seu caráter amador, e por não ser uma editora de livros, a sociedade deixa a critério de cada um de seus membros a escolha das editoras de sua conveniência para publicação de suas obras. A grande maioria dos membros da SOBRAMES-SP tem obras individuais publicadas, nos mais variados gêneros. De agosto de 2004 a maio de 2005 a SOBRAMES-SP editou um informativo virtual denominado “São Paulo Informa” transmitido semanalmente por e-mail, contendo as notícias do período. CONCURSOS LITERÁRIOS Em 1997, foi instituído o Concurso para A Melhor Poesia do Ano, Prêmio “Bernardo de Oliveira Martins” e, a partir de 1999, o Concurso para A Melhor Prosa do Ano, Prêmio “Flerts Nebó”, dos quais participam todos os membros da SOBRAMES-SP que apresentam seus trabalhos nas Pizzas Literárias. Estes certames visam antes de tudo um estímulo à criatividade dos autores membros da SOBRAMES, tendo em vista a característica meramente diletante de seus participantes. Antes de tudo, visa um estímulo á literatura. Trimestralmente acontece um desafio intitulado SUPERPIZZA, onde os escritores são convidados a produzir um texto em prosa ou verso sobre um tema sugerido. DIRETORIA A cada dois anos a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, regional do Estado de São Paulo elege em assembléia uma nova diretoria. Na atual gestão (biênio 2005/2006) a diretoria está assim composta: Presidente: Karin Schmidt Rodrigues Massaro; Vice-presidente: Flerts Nebó; Primeiro- secretário: Marcos Gimenes Salun; Segundo-secretário: Maria do Céu Coutinho Louzã; Primeiro- tesoureiro: Rubens Massaro; Segundo-tesoureiro: Milton Maretti; Conselho Fiscal Efetivos: Luiz Giovani, Madalena J.G.M.Nebó, José Rodrigues Louzã; Conselho Fiscal Suplentes: Sérgio Perazzo, José Jucovsky, Arlete M.M.Giovani. COMO PARTICIPAR Podem tornar-se membros da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores todos os médicos, de qualquer especialidade, e todos os acadêmicos de medicina, em qualquer ano do curso, mediante simples solicitação de sua inscrição, e bastando que sejam também escritores de literatura NÃO- CIENTÍFICA, em qualquer gênero literário (romance, crônica, conto, poesia, ensaios, etc.). Também podem tornar-se membros da SOBRAMES-SP os ESCRITORES de qualquer outra formação profissional, apresentados por outros membros da sociedade. A solicitação será aprovada mediante análise da diretoria e existência de quórum na forma de seu estatuto. Os membros contribuem financeiramente com uma anuidade que em 2005 é de R$ 120,00. Os custos de algumas atividades da SOBRAMES-SP são pagos pelos participantes, como por exemplo, despesas de hospedagem em congressos e jornadas e despesas de consumo nas reuniões denominadas Pizzas Literárias. INFORMAÇÕES Para obter maiores detalhes sobre a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, regional do estado de São Paulo, envie um e-mail para SOBRAMES@UOL.COM.BR.
  • 7. INDICE Alcione Alcântara Gonçalves 13 A visita / Palavras ao vento / Mãe / Lição de amor Alitta Guimarães Costa Reis Ribeiro da Silva 15 Janeiro / Sol poente / O presente / Ilusão Arlete Mazzini Miranda Giovani 18 Batalha urbana / Ressurreição Camilo A. Giani 20 Quaestio de nomine / La hoguera / Hasta que se va el dolor / Rigamodo, Malgaigne y la virgindad / Point de lendemain Camilo André Mércio Xavier 24 Perdas e ganhos / Viagem / Mulher / Destino Carlos Augusto Ferreira Galvão 26 Síndrome de Lázaro / Brasil depois do sonho / O pensamento / A ré pública Eduardo Benedetto 30 La hora / Dedos como garras Enrique Félix Visillac 34 El poder de la escritura Evandro Guimarães de Sousa 36 Cocô de cachorro / Ícaro e o ácaro Flerts Nebó 38 A verdadeira fundação de São Paulo / Histórias reais que passaram a ser contos infantis / Pai Helio Begliomini 43 Um paciente muito especial e a SBU / Humildade e reconhecimento / JKO - Patrono da Sociedade Brasileira de Urologia / Convergência Hélio José Déstro 47 Piano dedilhado /O homem Jesus, hoje / Sussurrando para mim mesmo / Tortura e seus instrumentos José Rodrigues Louzã 53 As férias José Warmuth Teixeira 55 Cascatinha / Atração quase fatal Karin Schmidt Rodrigues Massaro 57 Insônia III / O refluxo Karina Lorena Sara Iza 58 Os cedros de Deus / De feridas e solidões
  • 8. Luiz Giovani 60 O soco / Órbitas Luiz Gondim de Araújo Lins 62 Revelações / Solidariedade / Machista / O mundo encantado Luiz Jorge Ferreira 66 Telhados / Meia volta, volver! / Oriente Marcos Gimenes Salun 69 Sobre quixotes, panças, gigantes, moinhos de vento e outras quimeras / Virtualmente / De cima do palanque / Minha cidade Maria Virgínia Bosco 74 Essência versus aparência / Monólogo de maio / Retrato / A malabarista dos sonhos Mélida Francisca Velasco Cassanello 77 Homenagem a Pablo Neruda / Amor eterno / Querida mamãe / Vanessa Milton Maretti 79 Esperança / Uma variante do tema: amor e guerra Nelson Jacintho 82 Os ceguinhos da igreja / À procura da vida ideal / Na enfermaria / Eu quero a felicidade Omar Jorge Marucco 86 Hospital / Niño em la calle Pablo Alejandro Croce 87 Encuentro / Angel / Pálido final Ricardo Horacio de Lellis 91 La garganta del diablo / El rostro de la fe / El enigma Rodolpho Civile 93 A lanterninha e o bichano do Cine Rex / Os óculos da tia Nicoleta Sérgio Martins Pandolfo 96 Nossa raça brasileira / A péla da nação / A corda pro Círio, ou, acorda pro Círio / Língua portuguesa Victor José Fryc 100 Madre Madrid / Una cruenta lucha gremial / Cuando mi sombra / El amor a los animales / Llegaste un dia Zilda Cormack 106 Olhos verdes / Lendo Cabral / Tentativas / Não verás
  • 9. VIII Jornada Médico-literária Paulista Obras Literárias
  • 10. 13 Alcione Alcântara Gonçalves Médico psiquiatra - Tupã - São Paulo A visita A cidade se engalana! Enche-se de esplendor e brilho! Cada índio com sua Zarabatana, Cada mulher com seu espartilho. As danças que foram treinadas, Com a participação das tribos indígenas, Fazem parte da peça que será encenada, Ao som dos tambores e cantilenas. As moçoilas que vão desfilar, Todas irão em trajes antigos, Representando a Europa Milenar, Neste espetáculo para nossos amigos. O dia tão esperado chegou! Para o gáudio do povo que entoou, Um hino de graça e louvor, Para o rabi! O Mestre! O nosso Senhor. Palavras ao vento Palavra, sete letras escritas no momento, Palavra, que corporifica o pensamento, Palavra, que significa um juramento, Palavra, que no texto é um elemento, Pa-la-vra, trissílabo gramatical. Palavra, o conhecimento da lavra divinal, Palavra, que modifica o homem e até o chacal, Palavra, dita e escrita de modo natural. Palavra, que no livro perpetua a idéia, Palavra, que na estrofe compõe a epopéia, Palavra, que no verso forma prosopopéia, Palavra, que o Vesúvio sepultou em Pompéia. Palavra, como som emitido por cordas vocais, Levada aos ouvidos de homens mortais, Através do ar e moléculas em movimento, Para não se perder como as Palavras ao Vento. Palavras ao vento, somem no firmamento, Não firma na mente, em nenhum momento. Palavras ao vento, o vento beberica, Não deixa vestígios e nada vivifica.
  • 11. 14 Alcione Alcântara Gonçalves Mãe MÃE, dizia o pequenino ser, ao abrir os olhos e constatar que a luminosidade do pequeno aposento onde dormia, era suficiente para ver que alguém estava ali, ao seu lado, velando o seu sono. Como é bom! Como é confortante sabermos, que temos uma prodigiosa alma, para nos confortar e acalentar nas nossas horas amargas! A confiança e a segurança que depositamos neste singelo ser, que sempre se faz presente, quando dele necessitamos é que nos anima, a louvar e exaltar o seu nome, como o fazemos, com o nome do nosso misericordioso DEUS. MÃE é singeleza; MÃE é doçura; MÃE é compreensão; MÃE é afeto; MÃE é como o farol que ilumina os navegantes nas noites escuras, alertando-os dos insondáveis perigos da noite e das armadilhas submersas nas águas, como as rochas ou bancos de areia que nos faria soçobrar; MÃE é abnegação; MÃE é amor, mas um sublime e divino amor, que só pode ser comparado ao amor de DEUS, que num gesto de desprendimento, compreensão e desejo de perdoar toda a humanidade, deu o seu único filho, JESUS, para que fosse imolado na Cruz com a finalidade precípua de nos salvar. A todas as MÃES e em especial à minha querida e estimada MÃE, desejo nesta data muita saúde, muita paz, muita sabedoria, para continuares distribuindo esse AMOR de que tanto precisamos e que sabemos verdadeiro, sem mágoas nem rancor! MÃE! Assim como nos dirigimos a DEUS, agradecendo-lhe por tudo que nos proporciona neste planeta, queremos também lhe agradecer, em primeiro lugar, por nos ter proporcionado, utilizando- se do teu ventre, vir ao mundo para constatar a beleza da criação divina: O HOMEM. Somos, MÃE, segundo as escrituras sagradas, feitos a IMAGEM e SEMELHANÇA do nosso Criador: DEUS!. Só isto, já nos basta, para sermos eternamente gratos, pela oportunidade que nos deste, para podermos compartilhar com a realidade terrena. Também queremos lhe agradecer, MÃE, pelo teu infinito AMOR, pela tua dedicação durante os nove meses em que estivemos em simbiose no teu ventre. E, depois, mais outros tantos meses, alimentando-nos no teu seio, sugando o teu leite materno que nos transmite os alimentos necessários para o nosso crescimento, transmite-nos também as defesas orgânicas que lhes são próprias, conferindo-nos o poder de lutarmos contra as bactérias e vírus do meio ambiente. Agradecemos, finalmente, MÃE, pelo fato de sermos o teu FILHO, que sabemos ser AMADO por ti, como nenhum outro deste mundo. Lição de amor “Não semeies vento para não colheres tempestade”! A máxima, agora relembrada, nos faz parar para meditarmos. A indulgência divina é sempre benéfica para quem dela sabe aproveitar. Para isto, é preciso obedecer aos cânones das pregações cristãs, onde deveremos beber a sabedoria e os ensinamentos do MESSIAS. Procure amigo, conhecer melhor a você próprio, retirando a venda que lhe cega, que lhe incomoda e está lhe impedindo de sentir melhor, os defeitos que são próprios do ser humano. Não fiques jogando pedra no seu próximo, sem antes proteger a sua vidraça, pois, estas pedras voltarão contra ti, ferindo-o e ameaçando o seu bem estar. É mais fácil ver e constatar o defeito dos outros que reconhecer os nossos. Buscamos sempre justificar as nossas ações, gestos e atitudes, por mais bizarras e agressivas que sejam. É a defesa do “EU”, mecanismo psicológico que usamos para evitarmos sofrimento. Acontece que, muitas vezes, precisamos sofrer um pouco, ao reconhecer o nosso erro, para não deixar as nossas imperfeições crescerem, agigantarem-se, evitando, deste modo, maiores dificuldades no futuro. Evitemos espalhar a discórdia, o mal estar, a mentira, o opróbrio, a desconfiança, o adultério, as frustrações e o mal e estaremos preparando um ambiente agradável e acolhedor onde reinará o AMOR, a compreensão e o bom relacionamento entre os povos. Preparemos a nossa morada com muito carinho, pois ela é e será o local onde descansaremos, onde encontraremos os nossos familiares, os nossos amigos e onde desfrutaremos de bem-aventurança. Então, prepare-a amigo! Não se esqueça, se queres conforto e bem estar, contribua para isto já, não deixando para amanhã o que podes fazer hoje. Se queres dormir, num leito limpo e perfumado, não dissemine poeira no ar, nem odores desagradáveis, porque você também será uma das vítimas. Como vês, de nada adianta atirarmos pedra no telhado dos outros, sem antes protegermos o nosso; e só o faremos, quando deixarmos de agredir a quem quer que seja, sem justificativa plausível. Vamos doar AMOR sem esperar qualquer recompensa! E, se assim o fizeres, tendes a certeza que colherás mais AMOR!
  • 12. 15 Alitta Guimarães da Costa Reis Ribeiro da Silva Médica psiquiatra - São Lourenço - Minas Gerais Janeiro Em janeiro há sapatinhos pelos corredores, almofadas com pipocas, papéis pelo chão, um neto no sofá com o controle da televisão, outro com insônia, querendo mais histórias, outra dançando, laços de fita nos longos cabelos, outro cantando alegre, outro cheio de sábias perguntas, e ainda outro sorrindo enquanto dorme. São seis notas musicais, ás vezes em harmonia... Em janeiro o cachorro esquece os bons modos, mas aprende a comer melão e sorvete; a gata consegue dormir dentro de casa, mas acorda vestida de boneca; as espadas dos super- heróis dilaceram as plantas, declamamos versinhos, compramos mil bobagens a pedido das carinhas cheirosas de sabonete. Em janeiro tem nana-neném e tem dodói curado, pesquisas de estranhos bichos nas enciclopédias, piadas e choros, broncas e birras, sorrisos, ternuras, beijos estalados e abraços apertados, a angústia da dor e a certeza do amor. Pois em janeiro os netos vêm e vão embora, os olhinhos cintilando em meio às lágrimas e às gargalhadas. Sol poente Ao envelhecermos, um saber mais profundo nasce da fria análise das experiências, faz reflexões, medita, busca essências: e é quando nos damos de verdade ao mundo. Então, somos um pouco como o sol poente, com brilho mais suave e calor mais contido, que aquece corpo e alma naturalmente. Só os raros nos vêem, na constante corrida, outros não sabem que estamos cheios de vida, que estamos prontos para o amor e para o amar. O corpo, é claro, baqueia, muito viveu. Mas o espírito, esse não tem idade, o peso dos anos não o entorpeceu. Quando se tem pouco mais que o aqui e o agora, na hora em que parece que tudo se finda, é que tudo, inexplicavelmente, melhora, nosso sol poente se verte em aurora, e é quando a nossa vida pode ser mais linda.
  • 13. 16 Alitta Guimarães Costa Reis Ribeiro da Silva O presente Veio de Pietrasanta, norte da Itália, para o Brasil, ainda criança. Casou-se com um jovem calabrês e a família cresceu no sul das Minas Gerais. Seu nome, Ana Ferreira Cagnoni, nascida em vinte e sete de janeiro de 1887. Tinha mais de setenta anos quando a conheci. Eu era uma garotinha, com ainda todos os dentes de leite, a caçula de meus pais que, aposentados, haviam resolvido mudar-se para uma cidade pequena e sossegada, onde eram raríssimos os carros. O sino de Igreja, tocado com perícia, comandava a vida da cidadezinha, avisava sobre tudo. No fundo da casa havia um riacho, um lago e um morro. O carro de bois era ouvido de longe, para alegria da criançada, que pegava carona. Trazia leite, lenha, carregava coisas. Sabíamos o nome dos bois, que nos olhavam austeros, lá de cima, e não nos davam confiança. A cidadezinha era cheia de lendas. Tinha a do padre que criava peixes, macacos e cobras, e colecionava ouro e pedras preciosas nas gavetinhas rasas forradas de algodão de um grande móvel escuro. Haviam outras lendas envolvendo seres misteriosos e fantasmas, úteis para que as mães mantivessem a criançada quieta. Havia um programa de rádio (“Incrível Fantástico, Extraordinário”) que consolidava nosso medo. Tia Anucha, como todos a chamavam, morava numa casa azul e branca de esquina, com um jardim florido e bem cuidado na frente, um banco de madeira pintada no piso antigo da varanda. Entrando-se na casa dava para ver o filho dela, Totó, sempre solteiro, consertando relógios antigos. Quantas pessoas daquela época recordo com carinho, Angelina, Cida... Passando-se pela sala e dois quartos chegava-se à cozinha , ao corredor que dava para o banheiro, ao pátio onde ficava o papagaio comilão, o quintal que era um pomar, muitas pereiras e parreiras. Ao fundo, o rio, do qual o riacho lá de casa era um afluente, margens lisas de tabatinga e bambuais, local de cobras, pesadelo das mães. Na casa de Tia Anucha tudo era limpo, organizado, cheiroso, gostoso. Ela foi a minha primeira amiga, a primeira pessoa adulta que me tratou como igual, que conversava comigo naturalmente, contando casos e histórias antigas, com trechos em italiano, enquanto fazia pão e massas. Após fazer a massa, ela abria, cortava o talharim, cozia, escorria, punha no meu prato, com almôndegas, salsa e molho de tomates, cobria com queijo ralado grosso, era assim que eu gostava. Depois eu subia para o banquinho verde em cima do fogão a lenha, aquecida e contente, e ela arrumava a cozinha. Eu a ouvia com atenção e a olhava fascinada, porque era ágil, criativa, atenciosa, inteligente. São cenas que não esqueço. Os olhos azuis que olhavam profundamente, o cabelo sempre preto, preso num chinó no alto da cabeça, as roupas antigas acompanhando todos os movimentos. A vida fremia naquela mulher. Um dia meu pai precisou viajar para mais um tratamento cirúrgico. Ele era piloto, havia sofrido um acidente anos atrás. Minha mãe viajou com ele, minhas irmãs estudavam, e, pela primeira vez, eu tive que dormir longe de minha mãe, de minha casa. Fiquei com Tia Anucha, que pareceu não se impressionar com minha tristeza, minha recusa em comer, meu mutismo. Ela adivinhava as coisas. Fez uma sopa diferente, da qual comi um pouco, trocou a camisola, feita por minha mãe, de flanela rosa com babados e rendinhas, e saiu do quarto dela para que eu pudesse dormir à vontade. O travesseiro e o colchão eram de penas de pato, os lençóis brancos, lisos de tanto serem lavados, antigos, macios, cheirosos. O abajour tinha uma luz fraquinha. Do fogão a lenha ela pegou um tijolo quente, enrolou num cobertor velho e o colocou para aquecer meus pés. Fazia muito frio e chovia. Conversou e riu comigo até que me viu relaxada, e então saiu na chuva. Posicionou uma lata emborcada sob a goteira da calha, para que eu pudesse dormir ouvindo o som dos pingos d’água. Foi um adormecer encantado! Quando eu acordei, bem ao amanhecer, Tia Anucha já estava animada na cozinha, preparando um delicioso café à moda dela.
  • 14. 17 Não pude conviver com ela tanto quanto gostaria, mas pude vê-la muitas vezes. Faleceu com mais de cem anos, suavemente, como se fecham as pétalas de uma flor. Mas o seu perfume me acompanha até hoje. Sinto-me, de certa forma, em dívida para com ela. Não sei se pude retribuir todo o profundo carinho que dela recebi, carinho verdadeiro, atenção verdadeira, amizade verdadeira. Em minha infância e em minha vida, ela foi um bem-vindo, enorme e abençoado presente. Anucha dos Cem Anos Não pude lhe dar presença, nem mesmo um último abraço. Não sei agora o que faço; por mais que eu me convença de que é fato acontecido, de mim tiraram pedaço. Mesmo o pranto mais sentido se torna, por fim, escasso. Porque a saudade é imensa, tanta dor nos traz cansaço. Quem sabe agora aonde está? Em que tempo, em que espaço? Ela foi e nós ficamos. A morte consiste nisto, morrer é só não ser visto pelos limites humanos... pois Anucha dos Cem Anos abriu para a Grande Luz eternos olhos azuis. Ilusão Anoitecia, e a rua, de mais pessoas carente, acolhia a luz da lua num silêncio ainda quente. Então eu vi a coelha. Branquinha, longas orelhas, grande ventre, saliente, e, talvez, quase parindo. De onde teria vindo? Estranho, nem se mexia... Mas, de repente, o que eu via? Não era bicho nenhum! Era só lixo, arrumado num saco branco, comum, desses de supermercado, as pontas dadas em nó! Como se diz, “Freud explique” as ilusões da psique... Resolvi ser realista, Marquei exame de vista! Alitta Guimarães Costa Reis Ribeiro da Silva
  • 15. 18 Batalha urbana É um domingo quente e abafado. A UTI está extremamente calma: há apenas dois pacientes internados e ausentes em seus comas induzidos. Aline não sabe o que fazer para que os ponteiros do relógio andem ao ritmo do monitor cardíaco, rápidos. Está de plantão o dia todo e aquela monotonia! Dirige-se à sacada do primeiro andar e olha lá embaixo para a entrada do hospital. “Humm, horário de visitas, quanta gente! Preciso me distrair um pouco”. Observa a extensa fila dos que esperam a sua a sua vez para entrar. Muitos comem e despejam no chão restos de alimentos. De repente, desvia o olhar em direção ao ruído de papel se arrastando. Num canto do gramado, observa estarrecida duas enormes ratazanas disputando uma embalagem de biscoitos. Fica atônita, paralisada, imaginando aqueles bichos invadindo o hospital. Chama histericamente o sempre prestativo Gerson. E lá vai ele munido de uma trave de cama de tração, na tentativa de eliminar as nojentas intrusas. Gerson, decidido, levanta a trave sob os gritos da torcida dos funcionários da UTI, que naquele momento já se acotovelam para assistir a batalha. Os bichos pressentem o perigo, erguem-se em posição de ataque e mostram suas armas arreganhando despudoradamente os dentes. Ante tal reação o pobre Gerson deserta da missão, sentindo-se incapaz de enfrentar e vencer a batalha. Mas Aline logo pensa em uma nova estratégia. A situação deve ser monitorada com muito cuidado. “Ah, já sei, tem que dar certo!” Vasculha o armário dos medicamentos controlados e apanha “alguns remedinhos especiais” que agem no aparelho circulatório e respiratório. Embebe pedaços de pão e atira a bomba mortal. Naquele momento, o hall da UTI parece uma trincheira organizada e preparada. Todos assumem papéis distintos e compenetrados nos resultados da ação. Então, alguns minutos depois, os primeiros sinais da vitória: os bichos começam a apresentar movimentos estranhos e desordenados. E enquanto a tarde começa a cair, eis que finalmente tombam derrotados em sinal da morte iminente. Aline olha o relógio e se surpreende com as horas. Corre orgulhosa para organizar a passagem do plantão. No dia seguinte, logo ao assinar o seu ponto, estranha a convocação presente e fica apreensiva por não saber o motivo. “Reunião da Diretoria”, pensa alto. Trabalha angustiada até às 10h, horário da convocação. Agarra firmemente sua agenda e entra no gabinete, tímida, cumprimentando os colegas com um simples aceno. Todos olham insistentemente para ela e, de repente, abrem um largo sorriso, parabenizando-a pela estratégia do dia anterior: doravante, a batalha passa a fazer parte das atividades rotineiras da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar, a desratização planejada! Arlete Mazzini Miranda Giovani Enfermeira - São Paulo - SP
  • 16. 19 Ressurreição Naquele dia, Campina Verde anoiteceu inquieta. Por todos os lados, ruídos de gralhas e bater de asas dos pardais ecoam prenunciando a morte em qualquer canto. Pouco a pouco, janelas, portas e comércio começam a tagarelar em ritmo lento, progressivo, sinalizando o final de mais um dia. Os raios de sol, agora, são substituídos pelas sombras dos lampiões e velas de cera. Pai Inácio lá está no mesmo lugar de sempre, enrolando o último cigarro de palha, farejando algo de incomum naquelas horas finais. De repente, assusta-se com os gritos abelhudos de Jacinto que, atropelando as palavras e sem ao menos acreditar no que estava dizendo, anuncia a morte de Chico, marido de dona Zefa: “Tão moço o coitado, não tinha mais de 40 anos! Como pôde morrer assim...”. Pelas ruas da pequenina cidade, choros, soluços e uma enorme corrente de solidariedade. O povo, estremecido, inicia o culto ao corpo e rapidamente lá está o Chico deitado sobre a mesa, com um terço na mão e coberto por um lençol muito alvo de algodão. Como de hábito, as mulheres na cozinha preparam bules de café, separam a caninha forte e se esmeram em preparar algo para se comer. Chico, muito quieto sobre a mesa, é um bom ouvinte: aprecia todos os elogios, comentários e lembranças de sua vida, estórias de como chegou a conhecer Zefa, que era respeitoso, bom marido, fiel amigo, amante do trabalho, pagador de suas dívidas, enfim, um imenso rosário de adulações. Até os menos exaltados consideram-no um santo. E assim a noite invade o casebre, enquanto a madrugada já se faz alta. Alguns cochilam, outros rezam, muitos continuam a desfilar bajulações repetidas ao defunto e ainda há aqueles que, não agüentando o pesado dia de trabalho, insistem em manter um ronco ritmado. Pai Inácio se mantém firme, afinal é o representante mais antigo do vilarejo. Então, sem mais ninguém para conversar, passa a observar o defunto. Olha bem e acha Chico um pouco maior, agora deitado. “Deve ser impressão minha!” pensa. “A mesa é que deve ser pequena!” De repente, nota o lençol se mexendo: “Impossível, eu mesmo ajudei a colocar o homem na mesa, já estava até duro!” Olha fixamente e sente um gelo no estômago. “Ele está respirando! Não, não e não!” nega veementemente. “Deve ser a sombra das velas...” Aproxima-se um pouco mais e, assim bem pertinho, não tem mais dúvidas. Abre o peito com um uivo cheio de pavor: “O Chico está vivo!” A debandada é geral. Como em um atropelo de estouro de boiada, todos se arremessam para fora do casebre sem olhar para trás. Calmamente, sem nenhuma timidez e com grande esforço, um enorme besouro “vira bosta” consegue desvencilhar-se do lençol e cair na sala vazia, rumo à liberdade. E, sozinho outra vez, lá fica Chico sem ao menos a mulher para celebrar seu falso retorno, gelado, apenas com a certeza de que muito do que foi falado foram apenas palavras jogadas ao vento... Arlete Mazzini Miranda Giovani
  • 17. 20 Camilo A. Giani Médico - Buenos Aires - Argentina Quaestio de Nomine Podría decir que no me interesa saber si Lilith existió o si es nada más que una colectiva creación mental a lo Jung, del mismo tipo que el Cuco o que cualquier otra bruja. Preferiría ignorar si el sincretismo entre Jah y Havah originó aquel Yaveh siempre presente en las páginas más antiguas de la Biblia. No se trata de Fe, sino de identidad. ¿Me importa acaso si Shekinah retornó o no al Templo restaurado de Jerusalem? ¿Era Antipas amigo del Bautista y esclavo de sus palabras pasionales ofrecidas a Salomé, prefirió tener más orgullo que piedad? Por eso me niego a usar eufemismos que pretendan suavizar lo irreparable. Una Decapitación, una Crucifixión, la quema de personas vivas, hayan ellas sido Juana, Bruno o Servet, son meros crímenes, puro sadismo de la imperfecta especie que somos, error de un Dios sin experiencia, que debió reparar arrojándonos del Paraíso.
  • 18. 21 La hoguera “Allí donde queman libros, acaban quemando hombres” Heinrich HEINE Era una media mañana fría, con vientos que arribaban por rachas desde el sur. Había tomado mi día libre por compensación de labores nocturnas no remuneradas. Recuerdo haber llegado al borde del río de acerado color. Aterido como estaba, no fue insólito que me cruzara hasta donde un grupo de hombres rodeaba un tambor de metal desde el que lenguas de fuego asomaban intermitentemente. Ante mi sorpresa, cuando me arrimé a la fogata, no recibí el necesitado calor sino una sensación indescriptible, decepcionante y gélida. Enseguida, otras personas llegaron con bolsas llenas de objetos pesados. Pronto supe que eran libros. Con disimulo pude otear algunos títulos y autores antes de que el fuego los convirtiera en ilegible humo. Reconocí entre otros un Bertrand Russell, un Rilke, dos tomos de Freud, un ejemplar de una revista con una reproducción de Kandinsky en la tapa... Me habían observado con curiosidad. De pronto necesité dejar muy pronto el lugar, así que restregando mis manos junto al tambor, forcé una sonrisa hacia un tipo de unos cuarenta años que parecía ser el jefe del grupo y me marché con un gesto admirativo y simpático como quien hace la seña del as de espadas en el truco. Unos cientos de metros hacia el otro lado, detuve mi andar y apoyado en el barandal de la ribera del río, vomité hasta la última hiel. Hasta que se va el dolor... Como una letanía reiteraba la frase indiscutible, el texto irrefutable, la atormentada hipótesis que afirmaba que lo que había ocurrido ya no volvería a suceder. Tenía razones naturales para su dolor del alma, algo casi físico, como una traslación de un planeta espiritual a otro espacio semivacío, porque las penas reales no se van nunca, jamás prescriben, a veces sólo se enmascaran, como un mero eclipse de amor. Camilo A. Giani
  • 19. 22 Rigomodo, Malgaigne y la virginidad Los vapores del mal vino son como maldiciones que reberberan en forma de cefaleas que no desaparecen con nada. Rigomodo no podía dormir tras esa noche de yantar en lo de Léntulo, por lo que se levantó y encendió un candil. Ya no veía como antes, cuando en la oscuridad distinguía los objetos con nítida eficiencia, pero igualmente decidió leer para intentar volver a conciliar el sueño esquivo. Rumbo a la biblioteca, pasó delante de la puerta abierta de la habitación de Belsinia, quien ya había cumplido los dieciseis años y dormía como una bendita. Desde hacía un tiempo lo venía asaltando una duda más cruel y enfermante que lo escanciado en lo de Léntulo. ¿Habría consumado Belsinia relaciones sexuales con Flavio, el hijo del Conte Egberto, durante aquellos tres días que estuvieron aislados en el bosque cuando se desbarrancaron varios carruajes en el camino de cornisa tras los festejos de Pascua? Porque él los había visto cuando los rescataron y no tenían angustia ni temores. Es más, hasta pareció que se disgustaran por haberlos salvado. Se habían mirado tan tiernamente que la rara forma de la despedida se convirtió para él en un hecho indescifrable. Esa noche, algo tenía Rigomodo albergado en la falaz y lejana memoria y sabía que la lectura lo podría volver a conducir a toparse con la necesaria información, porque de ser ciertas sus sospechas, el joven noble debería reparar la afrenta, casándose (después de todo él era un caballero y su hija tendría una buena dote) o eventualmente entregándole una fuerte suma compensatoria para aceitar los ejes de un casamiento con otro candidato. De no suceder nada de ello, quedaría siempre la daga como recurso extremo, método que sería de elección si la hubiera embarazado y se negara a esponsales. El recuerdo se vinculaba con algo anatómico que leyera con su amigo Rufus en épocas de disecciones y orgías juveniles. Buscó y buscó hasta tropezar con una publicación de Richet, en la que éste comparaba el cuello de criaturas hambrientas de los barrios miserables con el de los robustos luchadores trashumantes. ¡”Qué diferencia entre el cuello de estos atletas hercúleos que se de- tienen en nuestras ferias públicas y el de estas pobres criaturas demacradas por la miseria y por la inacción”! Rigomodo no se conformó para nada con el hallazgo, pero entonces sí comenzó a orientar sus pensamientos en el sentido correcto. Evidentemente lo que buscaba tenía que ver con la anatomía del cuello. En un libro de Testut, de reciente publicación con Jacob, se decía que el cuello engrosaba tanto en la pubertad cuanto en el embarazo, esto último debido a la tumefacción del cuerpo tiroides. ¿Pero cómo comprobarlo si carecía del conocimiento previo de las dimensiones del cuello de Belsinia? Rigomodo daba vueltas y vueltas en su cabeza tratando de hallar una respuesta. Volvió a hurgar entre los tomos polvorientos y de pronto lanzó una exclamación que despertó a Pietro, el mayordomo, quien acudió presuroso a la biblioteca con una lámpara de aceite en la mano. ¿Cómo no lo pensé antes si estaba ante mis narices? Acá está... Dicho lo cual se sentó, pidiendo a Pietro que le sirviera una taza de leche caliente endulzada con miel. El libro que tenía entonces entre manos era la Anthropometria de Elsholz. Rigomodo agradeció a Dios por haber hecho caso a su tío Giovanni, quien le había aconsejado perseverar en los es-tudios del latín. Buscó hasta hacer coincidir la turbia memoria con la página no del todo olvidada del texto donde se afirmaba que en la Antigüedad se creía que el cuello aumentaba asimismo de tamaño con la primeras relaciones sexuales. Y allí inexorable estaba la lapidaria afirmación: “Virginum collum post primae noctis veneres crassescere vetus fama est, unde, collata utriusque diei mensura, qualem sponsus se gesserit divinare ausint”. Camilo A. Giani
  • 20. 23 La vetusta afirmación dejó a Rigomodo aplastado contra el respaldo de su sillón, los ojos perdidos en la penumbra de la estancia. Tardó en reaccionar, pero ya considerando estar el el rumbo doloroso bien que certero, se encaminó hacia donde guardaba lo escrito por el gran Catulo en un epitalamio. Allí, en las amarillentas páginas, leyó acerca de una joven casada: “Nos illam nutrix, orienti luce revisens, Hesterno poterit collum circumdare filo”. “La nodriza de la desposada del día anterior, al vestirla al amanecer, ya no pudo ceñir su cuello con las mismas cintas de la mañana precedente”, tradujo el preocupado padre.. ¡Pobre Rigomodo! Las dudas le carcomían el pecho. Recostado como estaba, se puso a hojear casi con indiferencia lo que había comentado Joseph Malgaigne medio siglo antes sobre el mismo tema. Aludía el gran cirujano a lo que afirmaban algunas comadronas acerca de saber sobre la virginidad de las doncellas mediante este simple recurso: “Se toma con un hilo la circunferencia del cuello en su parte media y se dobla la longitud de ese hilo; se hacen sujetar los dos extremos entre los incisivos y se abarca el vértice de la cabeza con el asa que así resulta. Si el hilo pasa libremente por encima de la coronilla, mala señal; si, por lo contrario se encuentra el asa demasiado estrecha, se concluye en pro de la virginidad”. Malgaigne decía a continuación que le faltaban datos claros y precisos para poder asegurar que esas afirmaciones de origen popular fueran certeras, por lo que no les asignaba un gran valor, aunque no dejarían de tener cierto fundamento. Sin embargo, enseguida expresaba que en su experiencia, excluyendo los casos de bocio u otras deformidades, “en las jóvenes de quince a veinte años el asa no pasaba en aquellas cuyas costumbres no permitían sospecha”. Por otra parte, también Petrequin corroboró las experiencias de Malgaigne, según se enteró Rigomodo mediante nuevas lecturas en la madrugada. Ya clareaba cuando decidió acostarse en su lecho, cosa que hizo sin desvestirse. Belsinia seguía durmiendo de manera plácida cuando el padre se había asomado a su habitación. En sus sueños la visitaba Flavio, a quien una y otra vez daba su amor. En tanto, Malgaigne volvió a reposar en su estante de la biblioteca de Rigomodo con sus hilos de medir cuellos de doncellas a veces vírgenes, a veces felices. Point de lendemain Me enteré, en forma casual, casi absurda, de que los gatos blancos suelen ser sordos. Al parecer se trata de un problema ligado a los genes. Claro que desearía no haberlo sabido, porque de tal suerte hereditaria y siguiendo a Darwin, los gatos albos tenderán a desaparecer. Eso se explicaría porque teniendo menos defensas ante el peligro, morirían más temprano que el resto de los miembros de su especie; se esténdería asimismo el déficit a su reproducción... Naturalmente, a los que sobrevivieren se les ampliarían las capacidades sensoriales restantes. La vista, el primitivo olfato... Surgiría la diferenciación hacia una variedad alterada, un prototipo de especie nueva en el futuro indeclinable, en una insólita carrera contra el tiempo. Ahora bien, está en nosotros asociado al color, aquello de “gato negro, mala suerte”. Si extrapolamos eso y lo entendemos por el juego de los opuestos, tendencia maniquea a la que nos cuesta tanto escapar a los humanos, deduciremos que los gatos blancos aportan buena fortuna. Empero, dado que estos tienden a desaparecer como consecuencia de la sordera, según expusimos antes, resulta inevitable suponer que del mismo modo que los gatos blancos y de la mano de los mismos, la buena suerte esté encaminada a la extinción en el planeta, salvo que la aludida nueva especie aparezca antes, cosa poco probable dados los tiempos requeridos para las mutaciones y su conversión en estructuras funcionales y estables. Leyendo los diarios, viendo los noticieros de televisión, caminando las calles, hablando con la gente, ha comenzado a asaltarnos la conclusión de que el embozado proceso negativo, en este nuevo siglo en el que nos sentimos ajenos, ya está en firme marcha hacia la irreversible entropía. Camilo A. Giani
  • 21. 24 Camilo André Mércio Xavier Médico - Ribeirão Prêto - SP Perdas e ganhos Os sucessivos depoimentos dos atores envolvidos trouxeram muitas decepções. Desvendado o cenário, a suspeição alastrou-se. A crise anunciada, mas não apurada, faz parte do quadro político vigente, mantido por uma estrutura arcaica. Frente a tudo isto, bom mesmo é refletir. O tema Perdas e Ganhos parece adequado. Perdas Paradoxo do mundo Envelhece as lembranças Implanta a estação da ausência Não aquece o verão Pereniza o frio do inverno Ganhos A marca mais profunda dos ganhos é oriunda de tudo que alimenta nossos espíritos, anima nossas mentes, conforta nossas almas, empolga e envolve nossos corpos. A expressão mais pura e cabal do pleno existir é a de buscar, ao longo do tempo, praticar as exuberantes virtudes de que somos portadores, representados, em boa parte, por aqueles legítimos anseios. Seriam eles, entre outros, os mais fortes motores que nos movem para alcançar os objetivos que almejamos conquistar, como personas. Esse é o clima instalado, é assim que funciona, é assim que sentimos.
  • 22. 25 Viagem A VIDA é uma verdade tão intensa, inserida em nós de uma forma tão profunda, que não há como nela não estar aderido. Forçoso é interpretá-la. Como não há ponto de partida visível, nem de chegada previsível, nosso intimo relacionamento com ela nos estimula a criar ao longo do tempo, um clima de firme interação, renovado pela obrigatória convivência. É assim que funcionamos, ao passar por vários locos e inúmeras polis, tanto fora como dentro de nós. Em tais campos atuamos, seja como autores, seja como espectadores. Tudo faz parte de um complexo processo criativo, mantido e conscientemente sustentado pela nossa inabalável vontade de conservar acesos e ativos nossos liames. O conjunto configura uma viagem ao centro da própria existência, que a cada um oferece o direito de escolha. Frente ao emaranhado de opções, às vezes confundimos mitos com realidades. A necessidade de optar dá um tom muito pessoal à busca, que tanto é exercida com o coração como a razão. Ela pode nos proporcionar inúmeras experiências, que servirão ou não para balizar o caminho a ser percorrido. Possíveis correções de rota também são esperadas, e em geral favorecem o roteiro tornando mais apropriados os futuros passos. Enfim construir nossa própria história nos dará a oportunidade de melhor entendê-la e saboreá-la, uma vez que a missão embutida na viagem deve continuar prazerosa. Mulher Aquela bela mulher Despencada do céu Surgiu no meu pedaço Aconteceu no meu espaço Real – verdadeira Tem o brilho das estrelas E o perfume da flor Estacionada ao meu lado Disse sim a luz E converteu seu amor Nas outras vidas Que gerou Destino Catada aqui e acolá Sumida naquele instante perdido Antes do qual ainda nada aconteceu E depois do qual nada mais pode ocorrer Aquela criatura Iniciada ao mesmo tempo Em que foi concluída Parece inventada Para vagar por aí Mergulhada na incessante busca De ser ou não senhora do próprio Destino Camilo André Mércio Xavier
  • 23. 26 Carlos Augusto Ferreira Galvão Médico psiquiatra - São Paulo - SP Síndrome de Lázaro (Quando a medicina plagia um romance) Em minha atuação no Hospital da Beneficência Portuguesa de São Paulo, tenho observado os espetáculos da tecnologia cardíaca moderna e também o “rastro” psiquiátrico que as acompanha. Notamos, por exemplo, as modificações de personalidade que acomete muitos que se submetem a transplante cardíaco, a ansiedade que acompanham os que se recuperam de paradas cardíacas, portadores de marca-passos e por aí. Uma destas conseqüências psiquiátricas chamou-me a atenção: a que acomete alguns dos que tiveram implantado um desfibrilador portátil cardíaco. A morte súbita de um ser humano é das mais dramáticas manifestações de afecções cardíacas, por não dar tempo sequer do acometido “desarrumar suas gavetas”. Despede-se da vida deixando uma lacuna de desespero, seja no âmbito familiar, seja em seus negócios. Os desfibriladores portáteis são próteses maravilhosas que, implantadas no subcutâneo do paciente e ligadas diretamente ao coração, identificam a fibrilação ventricular e promovem a cardioversão “in loco” salvando assim a vida do indivíduo. A maior parte dos pacientes sofre a descarga elétrica da cardioversão quando em estado já comatoso, mas alguns pacientes que as recebem sem estarem em estado de coma, sentem-na de forma extremamente sofrida. Dá para imaginar o que significa um choque de 400 joules dentro de seu mediastino. Muitos descrevem-na como um coice de mula no peito. Quase todos estes pacientes retornam ao cardiologista solicitando a retirada da prótese, quando então são para mim encaminhados. Estes pacientes apresentam-se extremamente ansiosos, têm medo das descargas e transformam- se em pessoas irritadiças e impacientes. Muitos “sentem” as descargas embora não sejam registradas pelos aparelhos, numa estranha forma de alucinação que não pode ser classificada como sinestesia por não ter como eleição um órgão interno e sim uma prótese implantada. Nos primeiros casos, sempre tinha a impressão de já ter “passado por este caminho”; tinha sempre a sensação de “de ja vu”, o que era impossível, por se tratarem de casos absolutamente pioneiros. Mika Waltari, meu romancista predileto, no romance de nome “O Segredo do Reino”, descreve um personagem que, em busca da verdade, abandona a vida de orgias romanas e parte para Jerusalém, chegando nesta cidade numa tarde em que se encontravam três cruzes no gólgota sendo que em uma estava crucificado Jesus Cristo. Pelos acontecimentos posteriores, entende que quem tinha sido
  • 24. 27 crucificado foi algo mais que um ser humano e começa a pesquisar a vida de Jesus, suas pregações e seus milagres. Em determinado momento passa a entrevistar o Lázaro e, ao contrário do que esperava, defronta-se com um indivíduo amargurado e taciturno. Ao lembrar que ele deveria ser grato por ter tido nova oportunidade de viver, Lázaro respondeu que a humanidade, por todo o sempre, iria se lembrar deste milagre de Cristo mas, esqueceria de refletir que ele seria a única pessoa que morreria duas vezes, já que não tinha recebido a imortalidade. Voltando aos meus pacientes, D.Marta (nome fictício) tentava me convencer que o melhor para ela seria a retirada do cardioversor portátil por não suportar mais os choques - a grande maioria alucinóides - e contava-me situações estapafúrdias como, por exemplo, sofrer uma descarga durante um casamento, quando a igreja toda se assustou com seu grito. Lembrada que cada manifestação da prótese poderia ser uma ressurreição respondeu-me: “E quantas vezes terei que morrer, doutor?” . Então meu pensamento dirigiu-se à obra do grande escritor norueguês e não poderia deixar de batizar esta síndrome como “Síndrome de Lázaro”, a síndrome dos que não querem morrer mais de uma vez. Pátria minha, muito bem amada e varonil, Mereces um melhor destino, mais denodo, Uma elite mais decente e não tão imbecil, O término da enganação e menos engodo. Meu grande Brasil, acorda irmão amigo, Em tuas ruas milhões amargam desespero, Vítimas dos cultores do próprio umbigo, E especialistas do mal feito com esmero. Brasil, minha pátria forte, bela e querida, Quintal da miséria, da doença e da incúria; Pede a Deus que te alivie, te faça guarida, Mandando pro inferno a realidade espúria. Bom Brasil, país do pesadelo e da vida dura. Muito ruim te ver estraçalhado pela política, Dirigida por vestais fantasiados de candura, Sacerdotes da dor e da maldade apocalíptica. Não vês Brasil, o presente mais medonho? Maus te dominando, te fazendo inclemente? As riquezas que fariam da vida belo sonho, Sendo digeridas por este estado indecente? Então vejas Brasil, o teu futuro comprometido: Uma criança chorando só, famélica e angustiada, Sem luz, sem saúde, sem escola, sem sentido, Sem esperança, sem paz, sem norte e mais nada. Brasil depois do sonho Carlos Augusto Ferreira Galvão
  • 25. 28 O pensamento (Tributo a Aníbal Silveira) O pensamento é…, a inteligência, a criatividade, a capacidade de se adaptar usando a imaginação criativa. O pensamento é a interação do homem com o meio…, enfim o pensamento é sentimento. Eu diria que o pensamento é tudo isso e muito mais. Nada mais difícil do que tentar definir o pensamento. Os gregos antigos, que parece terem sido feitos por Deus apenas para pensar, não tiveram nem tempo nem tecnologia para provar e aplicar o que pensavam, como o homem moderno que, com máquinas, se locupleta com tecnologia e com ela prova à exaustão postulados deles, pensamentos quase tão antigos quanto a história. Os sofistas, aproveitando da elasticidade do pensamento, criaram a pérola do sofisma, que muitas vezes lançamos mão para nos apaziguar com a realidade; até uma certa raposa o aproveitou ao criar o sofisma das uvas verdes, para seguir sem remorsos o seu caminho. Pois bem…, mesmo na Grécia antiga, numa era de maior culto ao pensamento, não se chegou a defini-lo. No milênio perdido, iniciado poucos séculos depois do nascimento de Cristo, o pensamento passou a ser proibido, isto é, reprimido profundamente no homem comum pela mesma casta que se achava exclusiva e dona dele. Assim o pensamento virou instrumento de dominação de massas, que tinham estimulados em si um dos mais básicos sentimentos, e que não é exclusivo do homem: o medo, definido por Auguste Comte como “Prudência”, uma função da “Esfera Conativa”em sua teoria positivista (do grego “conatus”, que significa “movimento”). Não é o caso de tentar resgatar tão controvertida figura histórica. Faltam-se meios e estudos para julgar o positivismo enquanto doutrina, e até entendo suas distorções; aqui mesmo no Brasil há monstrengos que ainda hoje se dizem positivistas e se ufanam de terem sido criados sob tal ideologia, mas a distorceram com temperos autoritários para caber na falsidade de seus propósitos. Um dos mais belos dísticos positivistas foi “adaptado”e é exibido como jóia falsa em nosso pendão atual. Mas voltemos ao pensamento e procuremos não cair mais em seus labirintos, pois lá, já diziam os gregos, há minotauros malvados. É necessário que entendamos não ser o pensamento uma exclusividade do homem. Existe o pensamento primitivo dos animais inferiores; no caso do cão, os positivistas relacionam que sua “Esfera Afetiva” possui funções já elevadas como “Apego”, mas lhe falta funções altruísticas, que foi o estímulo antropomórfico para o surgimento do “Córtex 6”, formação anatômica que faz a diferença do corpo do homem em relação aos outros animais. É a sede da consciência, esta sim exclusiva do homem, que no positivismo foi chamada de “Esfera Intelectual”. “Apego”…, “Esfera Afetiva”…, “Esfera Intelectual”…, afinal de contas o que é isso? É uma pergunta extremamente válida. E eu responderia: O “Penso, logo existo…”, há de ser o produto de um mecanismo biológico agindo com a realidade do meio, e Auguste Comte foi o ser humano que mais próximo chegou a definir este mecanismo biológico. Infelizmente, num se seus inevitáveis labirintos, encontrou poderosos monstros que transformaram seu pensamento em fogueiras. Mas um anjo brasileiro imbuído de coragem e sem dúvida iluminismo divino, resistiu à sanha da neoinquisição, que agora se tornava menos explícita, porém mais perigosa: não incendiava mais cérebros…, incendiava livros. Carlos Augusto Ferreira Galvão
  • 26. 29 Aníbal Silveira, esta reserva desconhecida de orgulho brasileiro, foi um psiquiatra que, resgatando o passado da psiquiatria, revolucionou-a, ao estudar e desenvolver para um plano terapêutico a “Teoria das Funções”, transformando-a num importantíssimo instrumento médico. Isto num tempo de saudosismo ígneo clerical e de fortalecimento das duas maiores mentiras do século XX: o comunismo com seu pernicioso simplismo de procurar nivelar o homem, castrando-o em suas funções da ambição, e o delírio freudiano que tenta retirar o efeito do órgão, no caso o pensamento do cérebro, como se pudesse existir o movimento sem a miosina ou a ovulação sem o ovário. É importante dizer que, conforme avança a tecnologia nos segredos do cérebro, mais se confirmam os estudos e teses de Aníbal Silveira, sobretudo os referentes às fibras cerebrais transemisféricas e interemisféricas. Aníbal Silveira, este paulista que trabalhou toda sua vida no Hospital Franco da Rocha, morreu no final dos anos 70, mas, mestre que sempre foi, deixou seguidores. Transformou-se num elo médico psiquiátrico com o passado, uma espécie de ponte sobre um tempo de intenso afastamento entre a medicina e a psiquiatria (ora envolta em obscuros lenços analíticos) que ainda hoje existe, situação que mais e mais se torna anacrônica e insustentável. Um dia este grande médico de São Paulo ainda terá o reconhecimento que merece, posto que teve relevância universal na arte médica. A ré pública Ideal público aqui é redoma do mal; Lavada mentira de todo mundo igual. Anacronia histórica, flagelo nacional Público em ré, pela ausência de moral Executivo, produzindo na contramão; Sujeira, imundice, maldade, carnegão; Brutalidade com a marca da desilusão. Executa executivo; executor da nação Legislativo, sempre surdo a quem clama, Para a revolta que estremece, que inflama Vai tecendo no planalto a torturante trama E legislando eternamente a mais suja lama. Judiação..., lesma lerda o tal judiciário Protetor dos cruéis, funesto relicário, Traidor da decência, mentiroso primário. Muda teu nome maldito, és mais “judasciário”. Carlos Augusto Ferreira Galvão
  • 27. 30 Eduardo Benedetto Médico - Buenos Aires - Argentina La Hora Su padre le había regalado el reloj cuando cumplió los dieciocho. Desde aquel lejano día hasta su también lejana muerte siempre estuvo ceñido a su muñeca. Pocos años pasaron para que el reloj ya no estuviera a la moda, pero él nunca lo cambiaría. Unos años más debieron pasar para que el reloj necesitara la revisión de un relojero; una simple limpieza luego de la cual el reloj nunca volvió a indicar la hora con exactitud. Empezó a adelantar, de modo que cada tres o cuatro días debía retroceder las manecillas diez o quince minutos. Alguna que otra vez debió cambiarle el vidrio protector porque se había rayado. Un puñetazo contra una mesa o una breve caída desde una mesita de luz ajena bastaron para rajar la superficie transparente del ya antiguo marcador de las horas. Cuando alguien le preguntaba por qué nunca lo había cambiado, él no daba muchas vueltas para responder: “Mi padre —decía— hubiera querido que lo usase por siempre”. Menos explícito y claro era a la hora de verificar cómo había cumplido con todos los otros mandatos, con todos los otros cerrojos que diariamente verificaba sin siquiera darse cuenta. Todo estaba en orden: su familia, su profesión, su credo, sus ideas. Todo marchaba al ritmo de su antiguo reloj, a veces a deshora, siempre fuera de época. A veces algo se mellaba superficialmente, nada que una rápida pulida, o, en casos más graves, el cambio de una pieza no pudiera subsanar. Por supuesto que hubo crisis en su vida, tan perturbadoras por momentos que hasta llegó a considerar la posibilidad de cambiar el reloj, cosa que, como se dijo, nunca hizo. Ni siquiera cuando el reloj se detuvo definitivamente, una noche en que el destino dijo su última palabra. Un buen día, él se murió y todas sus pertenencias fueron guardadas celosamente por sus allegados durante unos años; hasta que alguien que apenas recordaba su nombre comenzó a desperdigarlas. Muchas cosas, como la ropa, se deterioraron en poco tiempo. Otras, como algunos papeles garrapateados, se deshicieron con un fuego más o menos lento. Su casa resistió más, pero finalmente fue demolida. Basten estos pocos ejemplos para tener una idea general de la disolución a veces paulatina, a veces acelerada que persiguió a sus bienes materiales y, por supuesto, a su propia memoria en el recuerdo de los demás. Lo único que se salvó de la vorágine disolvente del tiempo fue, como no podía ser de otra manera, su reloj. Alguien lo encontró, décadas después de su muerte, junto a trastos hermanados en el olvido. Aquel alguien lo llevó a un museo de la vida cotidiana, en donde yació entre escupideras, pedazos de botellas, corbatas descoloridas y discos mudos para siempre. Discos que, a pesar de todo, almacenaban voces y sones que habían sido emitidos alguna tarde, también perdida, en la que los músicos y los cantantes soñaron con la Eternidad que, de alguna manera, habían alcanzado. El museo cambió varias veces de sede y también renovó su patrimonio con el paso de los siglos, pero el reloj pulsera que su padre le había regalado cuando él cumplió los dieciocho siempre formó parte de la colección, marcando la hora eterna de su destino.
  • 28. 31 Cuando unos pocos humanos abandonaron la Tierra, el reloj permaneció entre los restos de nuestro planeta. Lo tapó el polvo y la ceniza aun dentro de su vitrina inútil. Miles de años después, una violenta erupción lo cubrió de una especie de lava vítrea que al enfriarse súbitamente le formó un estuche esférico y translúcido, perfecto. Cuando la Tierra se desintegró, la bola de piedra vítrea con el reloj en su interior comenzó a vagar por el espacio durante millones de años. Finalmente, todo el Universo quedó reducido a un polvo frío e inerte, pero el reloj seguía viajando hacia la nada. Ya no había planetas ni estrellas. Ya no había animales, plantas, mares ni montañas. El último ser humano había desaparecido hacía muchísimo. Ya no había más cantores, ni músicos, ni discos, ni tardes. Ya no había corbatas, trozos de botellas, museos, cementerios, ni padres, ni hijos. Sólo había polvo y Eternidad. El tiempo mismo estaba por extinguirse frente al implacable reloj. El Universo se preparaba para volver a empezar y como único testigo estaba aquella máquina encerrada en su envoltorio de piedra. Su reloj, que seguía marcando la misma hora, la hora en que, hacía miles de millones de años ella le había dicho que no. octubre de 2004 Dedos Como Garras Después, esta misma mañana llegué a una conclusión que, por demasiado obvia, nunca había alcanzado antes a tomar forma en mi mente: cuando uno se da cuenta de algo es inútil pretender ignorarlo. La nueva conciencia se aferra a nuestra nuca con dedos como garras. Sin embargo, pese a que íntimamente sabía que no lo iba a lograr, esta misma mañana intenté buscar algo, lo que fuera, algo que pudiera distraerme de lo que acababa de descubrir: que me había quedado solo. Pero, por supuesto, nada sirvió. Somos así, nos atrae lo imposible; sabemos, como el poeta, que nuestra meta es el fracaso, el olvido y aun así intentamos cualquier cosa. Lo primero que siempre perdemos es la esperanza, pero pretendemos ignorar ese hecho y siempre estamos empezando. Yo empecé recorriendo con la mirada todos los objetos de la habitación. Sentado en el sillón de dos cuerpos que está contra el ventanal, escruté las repisas y todas las cosas que en ellas habíamos apoyado. Retratos, piedras, portasahumerios, portalápices, diskettes, CDs, ceniceros. Después di vuelta la cabeza y me detuve en las cortinas, que a pesar de ser lisas me resultaron por primera vez muy sugerentes. Me pregunté: “¿Qué diferencia hay entre una cortina lisa, con sus vueltas y contravueltas, y un telón? Después de todo en ciertos idiomas se usa la misma palabra. ¿Y si fueran lo mismo, de qué lado estaría la representación? ¿Afuera, en la calle, o adentro?” Preguntas peligrosas que me conducían a lo que justamente quería evitar. Entonces dirigí la mirada a través del ventanal y fue cuando vi a un inocente gorrión posado en la rama más alta del árbol que está plantado frente al edificio en que vivimos. Inicié una reflexión acerca de la circunstancia de que Buenos Aires tenía muchos árboles en sus calles, inclusive en algunas calles del centro, como la nuestra. Hay quien ve esto como una desventaja; los alérgicos, por ejemplo, que sufren de toses, estornudos y ojos irritados cuando los plátanos nos cubren con su pelusa incesante. O los barrenderos, que en otoño tienen que trabajar muchísimo más. Pero, sin dudas, los gorriones de Sarmiento resultan beneficiados con esta abundancia de árboles. Pensé esto y mucho más mientras miraba a través del ventanal, hasta que vi cómo el pajarito cambiaba de rama. ¿Cuánto tiempo había pasado? Apenas unos segundos. Es increíble todo lo que se puede pensar en tan breve lapso. De repente me pareció verte de reojo y me levanté del sillón sin mirar a mi alrededor y salí del departamento con apenas las llaves en la mano. En el ascensor me encontré con la portera y ese desagradable olor a mortadela que la envuelve. Me habló de su gato y me preguntó por vos. Le respondí algo que fingió entender. Al salir casi le pateo el gato. Desde la puerta de calle traté de encontrar al gorrión pero fue inútil, ya había volado quién sabe a dónde. Empecé a caminar por la calle rumbo al río. Pensé: “Voy a caminar rumbo al río”. Pensé que yo era muy afecto a decir eso cuando en realidad me refería al este: “rumbo al río” en lugar de “para allá”, o al menos “hacia el este”. Decir “rumbo al río” es equivalente a decir “hacia el naciente”. Y por lo tanto, la ampulosidad de la expresión le revelaría mis ambiciones literarias, o cuando menos mi excentricidad, a cualquiera que fuese lo suficientemente observador. Pensando esto llegué a la esquina en donde me interceptó una vieja con estola atigrada y un sombrerito increíble. Me preguntó si sabía dónde quedaba el restaurante japonés. Me habló detrás de un maquillaje en ruinas que parecía estar Eduardo Benedetto
  • 29. 32 dispuesto sobre su cara desde hacía años, soportando lluvias, sudores y lágrimas y derritiéndose lentamente hacia abajo y hacia los costados. Tardé más de la cuenta en contestarle ocupado en descubrir los mapas de su rostro, pero la vieja no pareció advertirlo. Finalmente le dije: “Dos cuadras rumbo al río”. A pesar de que me lo agradeció, de alguna manera debo haberla desconcertado. En principio, no creo que haya descubierto mis ambiciones literarias y mucho menos el restaurante japonés, porque después de unos segundos de indecisión empezó a caminar hacia el ocaso. Qué figura la de aquella mujer caminando hacia el ocaso en todos los sentidos posibles. Tan decrépita, tan tambaleante, tan hermosa, en definitiva, que no me animé a corregir su error. “Tengo que encontrar más gente así, —pensé— son perfectos, tengo tanto en que pensar con ellos”. Por ejemplo, ¿qué iría a hacer una mujer como aquella a un restaurante japonés? Paseé mi mente por un discreto menú de respuestas posibles mientras enfilaba hacia la Plaza de Mayo. Podía tratarse de una reunión de ex- alumnas; o de un encuentro con alguien con quien tomaron como punto de referencia el restaurante, lugar al que no piensan entrar; o tal vez ella era una experta en comida japonesa ya que había vivido muchos años en Tokio y se dirigía a conocer el lugar para dar su opinión en un artículo periodístico; o quizás el dueño del restaurante fuera su hijo, fruto de una borrascosa relación con un diplomático japonés, un hijo al cual no ve desde hace años, cuando abandonó a la familia. Hoy, después de tanto tiempo se reencontrará con casi un desconocido. O puede ser que ella intuya que está próxima a morir y desee hacer algo que nunca hizo, algo exótico como comer en un restaurante japonés. O simplemente le entendí mal y en realidad me preguntó por una tintorería. No sé en qué momento comencé a cavilar en el hecho de que yo nunca había visitado aquel restaurante japonés. Ya había llegado a Plaza de Mayo y estaba sentado en un banco con un paquete de maíz en la mano, dándole de comer a las palomas. En un momento recordé al gorrioncito de hacía escasa media hora. ¿Dónde estaría? Decidí no dispersarme tanto y volví a pensar en el restaurante. Nunca estuve en él; no sé, siempre me imaginé que estaría incómodo. Si bien tiene mesas comunes, también tiene de las otras, esas que son rectangulares y muy bajas, rodeadas estrechamente por bancos sin respaldo. ¿Para qué ir a ese restaurante si uno no va a sentarse a esas mesas? Para ocupar una mesa ordinaria mejor me quedaba en casa. Aunque no sé si los japoneses tienen delivery... No, definitivamente no ocuparía las mesas especiales. No sólo por lo incómodas sino porque además son para varias personas y yo iría solo. Qué extraño espectáculo daría en el caso de que me permitieran sentarme allí. ¡Cuidado!, muy lentamente había llegado a aquello de lo que me había dado cuenta esta misma mañana... y otra vez los dedos como garras en la nuca... Me levanté del banco bruscamente, como si me sacudiera recuerdos ineludibles que me persiguiesen, incansables. Me dirigí hacia el vallado que separa la plaza de la casa de gobierno. Tampoco sé por qué me encontré pensando en el final que aquellas vallas tendrían. Todo tiene un final, aun aquellos bloques enrejados pero sólidos y macizos de metal oscuro. Algún día las vallas serían recicladas y se convertirían en vigas, carritos para llevar bebés, arandelas, esa especie de resorte que une las dos piezas de madera o plástico de los broches para colgar la ropa lavada, clavos, clips de oficina, cestos de papeles, ventanas, piezas de un televisor, los parantes de la red de una cancha de voley, armas de fuego, llaves, cuchillos de cocina... Los objetos de metal tienen más suerte en esto de los finales y los reciclados, conservan su identidad por más tiempo. Todo lo contrario al material biológico; un animal o un ser humano se descomponen y recomponen en formas irreconocibles a una velocidad pasmosa. Aunque visto desde otro ángulo, uno más oriental, la persistencia del metal es una especie de karma, mientras que la mutabilidad que nos caracteriza nos brinda la oportunidad de dejar de ser más fácilmente. La verdad, yo hoy quería dejar de ser, quiero dejar de ser, y por eso me extraviaba, y me extravío, en los otros y en las cosas. Pero es inútil, siempre vuelvo a aparecer. Y sólo soy yo, yo solo. Atravesé toda la plaza lo más rápido que pude sin correr. Empecé a caminar por Avenida de Mayo, dándole la espalda al río. Encontré una muchedumbre de objetos. Pensé que simplemente con los libros usados podría evadirme hasta el infinito. La Vida de Rock Hudson, El Congreso que Yo He Visto, Cuentos de Guy de Maupassant, Rojo y Negro, Yabrán Está Vivo, Enciclopedia de Aviación, Las 100 Mejores Fotos de 1986, La Bestia en la Jungla, Recetas de Blanca Cotta, Todo lo que Hay que Saber sobre el Gran Danés, Los Caballeros Templarios, Guía Caprichosa de Buenos Aires, Las Venas Abiertas de América Latina, 1000 Aforismos. Pero los libros son parte de mí, son mi biblioteca, mi departamento; sos vos. Frenéticamente me perdí de ida y de vuelta por el pasaje Barolo. Trahit sua quemque voluptas, leí en su interior. Quise descifrar, a sabiendas de que no lo lograría, claves y mensajes que, en realidad, nadie había dejado en los ornatos y cornisas del viejo edificio. Pasé por una comercio de ropa femenina. Debería haber prefigurado la trampa que ahí me esperaba. Tal vez lo hice y decidí de todos modos caer en ella adrede. Lo primero que vi, lo único que vi en la vidriera fue una enorme mancha de raso azul. No pude identificar de qué prenda se trataba Eduardo Benedetto
  • 30. 33 porque retiré la vista de inmediato, como si hubiese visto algo asqueroso, algo criminal. Crucé la avenida por la mitad de la cuadra. Un taxi vacío y lento aceleró un poco para poder alcanzarme y asustarme con su bocina. Me acerqué despacio y puteé al conductor con la cabeza casi adentro del vehículo. Una pelea callejera sería el complemento ideal de ese casi mediodía. Pero nada, el taxista hizo como si no me escuchara y siguió, imperturbable. Entré al Tortoni y pedí un café. El mozo era flaco y alto, algo desgarbado, de tez gris, ojeroso, con una gran nariz que se negaba a una forma definida, cabello corto entrecano y manos huesudas. Imaginé que su familia era griega y que se apellidaba Quiodos, con cu. En Grecia todos los días son soleados y la gente vive mucho porque está siempre sentada cerca del mar, tomando vino y comiendo aceitunas. ¿Qué hacía Quiodos aquí, en esta ciudad tan llena de nubes, tan lejos del río, transitada por viejas desorientadas y al borde de la muerte y taxistas indolentes que ya estaban muertos? Otra vez zona peligrosa. Tenía que salir del café porque aunque sus paredes estaban, como siempre, cubiertas de cuadros, fotos, partituras y poemas que me hubieran servido muy bien para evitar los dedos como garras, ya Quiodos se había encargado de llevarme al encuentro con ellos antes de lo previsto. Dejé sobre la mesa los únicos dos pesos que llevaba en el bolsillo y me fui. La calle estaba húmeda, pero ya no llovía, había sido un breve chaparrón de primavera. Sin pensarlo demasiado volví a entrar al Tortoni. Busqué al mozo y le pregunté si por casualidad se llamaba Quiodos. Me miró serio, se aclaró la garganta con un carraspeo nada helénico y me dijo que no. En su negativa y en la fijeza de su mirada creí entender que me decía que en Grecia también llueve y hasta hay terremotos, que en Grecia también había gente que llevaba una vida miserable, gente que apenas había visto el mar. “En Grecia la gente es mortal, —creí oír que murmuraba de mal humor— igual que acá”. Afuera otra vez, pude ver como un grupo de cuatro pibes limpiaparabrisas había copado una esquina. Uno de los limpiavidrios era muy efectivo (¿o será eficaz?, ¿o eficiente?). Nadie aceptaba que le limpiara el parabrisas, igual que a los otros, pero todos los automovilistas le daban alguna moneda, aunque a los otros no. Me acerqué y encontré que en el borde del limpiavidrios efectivo en lugar de una pestaña de goma se dejaba ver una hilera de clavos oxidados. “¿Por qué soy yo el que tiene que perderse en la multitud? —pensé— ¿Por qué no es él? ¿Por qué no puedo cambiar mi lugar por el suyo?” Salí de la avenida y doblé, y volví a doblar, y caminé cuadras y cuadras. Encontré caras, zapatos, baldosas rotas, obras en construcción, carteles de propaganda sobre carteles de propaganda sobre carteles, inesperadas bocanadas de aire caliente vomitadas por los acondicionadores de aire, edificios, animales, gorras, aromas nauseabundos, risotadas, muñones, mendigos, policías, prostitutas, iglesias, papeles, excrementos, bocinazos, casas de reparación de afeitadoras, libros sobre Lugones, bolsas de plástico negro repletas de residuos. Imaginé historias, leí pensamientos, desvié destinos leve, imperceptible e irrevocablemente, mentí, fui amable, espere colectivos que finalmente nunca tomé, sumé los números de las patentes de los autos, calculé la frecuencia de los subterráneos y la cantidad de pasajeros por vagón. Por fin, a la nochecita, volví a caminar rumbo al río, volví a mi departamento. Se había levantado viento y las hojas de los árboles se frotaban entre sí como excitadas. El gato de la portera estaba sentado en la puerta de calle, plácido y con el hocico lleno de plumas. Lo odié en vano. Abrí la puerta con el mínimo de ruido posible y me di vuelta con la intención de patearlo con toda el alma; pero él ya se había ido haciendo menos ruido que yo. No usé el ascensor; no hubiera tolerado otra conversación con la portera como final del día. Subí los cuatro pisos por la escalera. Qué lúgubres son las escaleras de un edificio antiguo cuando uno vuelve a su soledad. Revolví la cerradura de la puerta del departamento haciendo que las llaves del llavero se entrechocaran como si fueran un alegre cascabel navideño. Hice todo el ruido que pude con los zapatos, con el picaporte, con la hoja de la puerta, con las paredes, con el interruptor de la luz. Te avisé casi gritando que había llegado, como si fuese un marido feliz que retorna al hogar luego de un día de trabajo. Pero vos ni siquiera te moviste. Seguías ahí, adonde te había dejado en la mañana, con tu vestido de raso azul apenas manchado con unas gotas de tu propia sangre. “Es cierto, —me dije— me quedé solo”. Los dedos como garras me llevaron hasta el ventanal. Evité pasar por encima de tu cuerpo. Abrí el ventanal y salí al pequeño balcón. “El viento es como un mar invisible; —pensé— un mar a veces amable, a veces furioso, pero que siempre me arrastra al fondo y me muestra mi verdadero rostro, mi ineludible, irrevocable y leve destino”. Comprobé que aun en estas circunstancias sigo siendo ampuloso. Miré para abajo y creí reconocer a la vieja de la estola atigrada y el sombrero increíble. Ella, tambaleante, levantó la cabeza y me clavó la mirada. Ahora me paro sobre la baranda, mientras ella me sigue mirando sin sorpresa. Respiro hondo y me pierdo en la multitud. Noviembre de 2004 Eduardo Benedetto
  • 31. 34 Enrique Felix Visillac Médico - Buenos Aires - Argentina El poder de la escritura Si bien la vieja Gertrudis de por sí era una mala noticia, mas allá de su propia desgracia, no era portadora de ninguna otra. Cuando desde mi búnker pronuncié su nombre, la voz senil de Gertrudis me respondió con un “¡Yo!” tan inconfundible como su esmirriada silueta. Como parte de su diaria rutina llevo a cabo una serie de movimientos que pude identificar por los sonidos que producían. Le había prohibido que entrara a mi búnker, no verla significaba al menos disminuir en uno los disgustos que me esperaban ese día. Me puse a pensar cuándo había sido la última vez que la había visto a Gertrudis, que era lo mismo que tratar de elucidar cuánto tiempo hacía que había decidido encerrarme en mi búnker. El motivo por el que dejé de lado las cosas mundanas tiene una estrecha relación con Gertrudis. Me es difícil de imaginar y tal vez engorroso de reseñar qué hizo la vieja aquel día, pero fue tan grave que no se lo permitiría hacer otra vez. Además, me di cuenta de que si lo volvía a repetir (prohibírselo no me garantizaba que no lo volviera a hacer) mi reacción podría ser impredecible. Por aquellos años vivir era importante para mí, y el temor a que la vieja Gertrudis me lastimara era justificativo suficiente para no verla más. Quiero aclarar que ella no tenía la culpa. Si bien sus actos podían dañarme, ella los hacía con absoluta inocencia. Cuando escucho sus arrastrados pasos cerca de la puerta, y poco después el ruido de los platos que deposita en el piso, me gana la curiosidad por mirarla. ¿Pero si justo en el momento en que la estoy contemplando se le ocurre hacer lo que hizo aquel día? Esta pregunta es suficiente para contener mis impulsos y alejarme de la puerta como si del otro lado viviese un monstruo capaz de roer mi cerebro. Emma es la única que me visita y me dice, cada vez que nombro a Gertrudis: -Dejala entrar, luego sonríe, me acaricia la cabeza y alguna que otra vez me besa la frente. Hace alrededor de cinco días (120 horas, mi tiempo lo mido en horas.)que tengo la impresión de que Emma no va a regresar, que su última visita fue la última. Si Emma no vuelve a entrar a mi cuarto me quedaré definitivamente solo, lo único que me mantendrá en contacto con el mundo exterior serán los ruidos que hace Gertrudis cuando ejerce su implacable rutina. Está anocheciendo y a través de la pequeña ventana que da al jardín miro como se va extinguiendo un nuevo día. El gomero ha cambiado el color de sus hojas, porque las penumbras las oscurecen. El pequeño banco en donde hace años se sentaba mi madre tampoco se ve por las tinieblas del anochecer. Es la hora que más temo porque es la hora de la nostalgia. Cuando pienso en el significado de la palabra nostalgia me doy cuenta que no siento pena por estar alejado de la patria o de algún amigo, sino dolor por el recuerdo de un bien perdido. Me alejo de la ventana, no tiene sentido seguir mirando cómo se muere el día. Con ver morir uno es suficiente. Yo gozo con el anochecer, que es su agonía, luego me alejo de la ventana con una ilusión que fracasa día a día. Yo anhelo que al día siguiente, cuando me asome a la ventana me encuentre con el día anterior agonizando y no con uno nuevo. Lo que pretendo es cambiar la duración de los días. Tal vez esta sea la causa por la que al tiempo lo mido en horas.
  • 32. 35 Cierro los ojos y preparo el “arsenal” del que dispongo para combatir el insomnio con el que mantengo una cotidiana y férrea lucha, de la que salgo airoso pocas veces. Esta noche he estrenado un método de lucha, que si bien no ha logrado vencerlo, me ha otorgado felicidad, sentimiento que me es casi desconocido. Me he levantado a las dos de la mañana, y me he puesto a escribir. He escrito libremente, he dejado que mi mano se desplazase al mismo tiempo que mis pensamientos. Comprobé extasiado que por mas ridículos o pobres que fuesen, adquirían relevancia al verlos “impresos” en la pantalla de mi vetusta computadora. Escribir me ha permitido comunicarme conmigo mismo. Tengo la certeza de haber roto la barrera que me impedía conectarme con los demás. Acabo de leer lo que mis pensamientos me han dictado. Sin vanidad pienso que son valiosos y esclarecen muchas de mis conductas. He decidido transcribirlos para honrar a esa bella tarea que es escribir: “El Silencio me penetra profundamente y me permite hurgar las zonas más intimas de mi cerebro. Son tan profundas que es lógico que Emma no las vea y cuando me visita me diga: -Lo que te falta a vos es cerebro Es maravilloso cómo puedo aclarar las cosas que durante tantos años me han atormentado. A Gertrudis la odio porque nunca se esforzó para poder comunicarse con un hombre callado y triste, como era yo. No soy misógino, ni racista (Gertrudis es de piel oscura) sí soy sensible a la indiferencia. El día que decidí encerrarme en mi bunker y aislarme de un mundo ruinoso y hostil fue porque Gertrudis se burlo de mis silencios. Desde que me aislé la única palabra que he pronunciado ha sido Gertrudis. Me he esforzado por conocer porque mi cerebro me dictaba esa palabra y no otra. Ahora comprendo que escribir fue siempre mi pasión, por eso la palabra Gertrudis está sobre las paredes. Cuando Emma me visite le voy a mostrar lo que he escrito. Espero que me diga que ya no me falta cerebro. Mis pensamientos no me dejan descansar, ahora me dictan que he dejado de ser autista, que la escritura es una forma tan valida como la comunicación oral. Ahora podrán saber los que me rodean que tengo sentimientos, que sufro y que además puedo amar y ser feliz. Estoy agotado y mis pensamientos no lo están a la par de su dueño. Ellos siempre han existido pero hoy pueden salir de esa caja rígida que los contenía y esa libertad los excita y me excita.” Siento pasos que no son los de Gertrudis, entonces deben ser los de Emma. Que ansiedad tengo de ver su cara cuando le señale que lea lo que he escrito. No lo va a poder creer. Se lo que me va a decir “Me gustaría que mi madre te viera, y de inmediato agregaría: “Ahora que podes expresarte ha llegado el momento de dejarla entrar. Asustado voy a escribir en un papel: “¿A quien?” Y ella acariciándome la cabeza me responderá “! A quien va a ser! A Gertrudis. El dilema que se me plantea es saber si comunicarme con los demás me dará también el don de perdonar. Tengo que sentarme a escribir todo lo que sentí durante tantos años de silencio exterior, que se contraponía a ese torbellino de voces interiores que me sacudía sin descanso. Sé que el hombre bueno debe perdonar y el malo ser perdonado. Cómo hacerlo, cómo expresarme, eso es lo que debo aprender y seguro que no me va a ser fácil. Los pasos han llegado a mi puerta, en instantes voy a sentir los nudillos de la mano de mi hija golpeándola. Su madre, la vieja Gertrudis (así llamamos los viejos a los que tienen nuestra edad) tratará por todos los medios de asomarse detrás de su hija para verme. Si lo hace, le voy a sonreír, mientras le digo a Emma que el anencéfalo de su padre, ha recuperado el cerebro. Enrique Felix Visillac
  • 33. 36 Evandro Guimarães de Sousa Médico - Uberlândia - MG Cocô de cachorro Durante toda minha vida, eu já pisei em cocô de outros animais, como cavalos e vacas, e devo confessar que nada é pior do que pisar em merda de cachorro. Parece uma atração fatal, sempre que saio para caminhar e cruzo com um cão, ele late e tenta me morder, ou então, piso em algo que ele deixou para traz. Na minha última caminhada à noite, subitamente pisei em um corpo estranho, mole, de odor característico e deixado sem aviso sobre a calçada, provavelmente durante um inocente passeio de um cãozinho puxando o dono, ou vice-versa. Quando você pisa em cocô de cachorro, imediatamente, são iniciadas quatro fases: 1a fase- A negação: - Acho que eu pisei numa fruta. Mas está fedendo tanto? Será que está podre? - Meu Deus, porque eu, sempre eu? Não poderia ter acontecido com aquele simpático casal à minha frente? - Porque eu não passei do outro lado? Porque não olhei para o chão? Essas coisas só acontecem comigo! 2a fase - A indignação: - O governo deveria ter uma lei que impedisse o acontecimento desses fatos desagradáveis, tais como: obrigar o uso de fraldas, tapar o orifício localizado abaixo do rabo. É claro que estou me referindo ao cão e não ao dono! - Se encontrar a dupla, chuto o traseiro do cachorro, ou melhor, o do proprietário! - Multas para o dono que permitir a realização dessas necessidades fisiológicas em público. - Cadê a carrocinha para recolher esse meliante peludo? 3a fase - A limpeza: Depois de ocorrido o fato, inevitavelmente, alguém diz: - Você pisou em alguma coisa. O que você responde, incontinenti: - Claro que eu pisei em merda de cachorro, não sentiu o cheiro? Não tendo mais jeito, vamos limpar a sujeira. Nessa fase você começa a arrastar e a esfregar a sola do sapato no solo, sempre o pé direito. Porém, a coisa não desprega tão fácil, torna-se necessário esfregar muito mais, usar um palito de picolé, ou instrumento semelhante, para retirar os detritos. O pior que essa é uma atividade solitária, pois todos afirmam: -Vai limpar isso lá longe! Depois, lavar a sola com detergente e deixar secar ao sol. Ah! Que vontade de jogar fora o sapato ou o tênis. Você só não concretiza a idéia, por não saber o que fazer com o outro pé que escapou ileso!
  • 34. 37 Ícaro e o ácaro. Ícaro, um conhecido personagem da Mitologia Grega, construiu asas com penas de pássaros e cera. Conta a lenda que, entusiasmado com a aventura de voar, aproximou-se demais do Sol, com o calor a cera derreteu desprendendo as penas e provocando sua queda no mar. Já o ácaro é uma criatura microscópica existente na poeira de casa, habitando vários locais do domicílio, onde permanece por muito tempo. É responsável por desencadear episódios de crises de alergia no aparelho respiratório dos moradores. Aparentemente não existe nenhuma relação entre o Ícaro e o ácaro; porém, de acordo com extensa pesquisa, encontrou-se uma outra interpretação dos fatos ocorridos há muitos anos atrás, que vale a pena relatar. A história começa quando Dédalo, famoso artesão, construi um labirinto na ilha de Creta para aprisionar o Minotauro, metade homem e metade touro, que se alimentava de carne humana. Dédalo era considerado um dos mais hábeis artistas da Grécia, pois as estátuas que fazia pareciam ter vida própria. O seu azar foi ter atendido a um pedido da esposa do Rei Minos que, apaixonada pelo Minotauro, mandou o artífice construir uma vaca de madeira para que ela pudesse se esconder dentro, e assim, ser possuída pelo touro, objeto de sua louca paixão bovina. Minos ficou indignado com a nova situação. A dos chifres dele, é claro, pois o Minotauro sempre esteve acostumado com os seus! Foi depois deste episódio, que os maridos passaram a usar a expressão “sua vaca.” para demonstrar irritação quando suas esposas os contrariam por algum motivo! Como castigo Dédalo ficou preso no labirinto, junto com seu filho Ícaro. Não sei por que o Ícaro foi junto, ele não tinha feito nada! Inconformado com a situação, Dédalo resolveu preparar o plano de fuga. Passou a recolher penas de pássaros e armazenar cera, guardando-as num cantinho escuro e empoeirado do labirinto. Depois construiu dois pares de asas, adaptou-as nas costas e junto com Ícaro alçou vôo para fugir da ira de Minos. Acontece que Ícaro era portador de rinite alérgica. Uma vez em contato com as penas, passou a espirrar sem controle. A cada episódio de espirros, era pena que voava para todo lado, e deu no que deu, ele despencou e morreu afogado no Mar Egeu. Dédalo que não era alérgico, conseguiu chegar são e salvo na Sicília. E foi assim que tudo aconteceu. O ácaro selou, definitivamente, o destino de Ícaro. Moral da história: se algum dia você sentir um irresistível desejo de voar, é mais seguro procurar uma conceituada companhia aérea e se, estiver com algum problema respiratório, recomendo consultar um especialista. Assim, você irá incomodar bem menos os seus companheiros de viagem. 4a fase- A Prevenção: - Daqui para frente vou olhar sempre para o chão. Pode passar qualquer popuzada, que eu não olho! - Se enxergar qualquer cachorro, mudo o trajeto. - Vou envolver o tênis com sacolas plásticas. Vai ficar um pouco esquisito, mas vai funcionar! - Vou usar uma bengala. Saio espetando o que eu achar estranho no chão. Antes a ponta da bengala do que a sola do meu tênis! Mas nada disso adianta; mais dia ou menos dia, quando menos se espera, um descuido e novamente, você pisa em cheio na merda e aí começa tudo de novo. Porém, ainda resta uma esperança. É só você contrariar o ditado popular e começar todos os dias e todas suas atividades com o pé esquerdo. Já foi comprovado, por pesquisas científicas, que canhoto não pisa em cocô de cachorro!. Evandro Guimarães de Sousa
  • 35. 38 Flerts Nebó Médico reumatologista - São Paulo - SP A verdadeira fundação de São Paulo Todos comemoram a fundação dessa cidade como sendo em 25 de janeiro, e este ano comemoramos 450 anos desse início. Entretanto, devemos pensar de um modo diferente, pois da mesma forma como se comemora a fundação de Brasília, a Capital do Brasil em 21 de abril, porque o Presidente Juscelino assim o quis, também São Paulo comemora o 25 de janeiro, sem ser essa a data verdadeira. Vários interesses existiam em 1500, por parte do Reino de Portugal e, rapidamente, exporei só alguns, mas sobretudo o “porque” da Fundação de São Paulo. Em 1492, terminara a Reconquista da Espanha, com a derrota dos mouros, em Córdoba, e nesse mesmo ano um navegador, supostamente nascido em Genova chamado Cristóvão Colombo, “descobriu” a América. Os Reinos de Portugal e da Espanha, em 7 de junho 1494 concluíram um tratado na cidade de Tordesilhas, onde se estabeleceu um Meridiano de conformidade com o Papa Alexandre VI, que situava a 100 léguas a oeste dos Açores e das ilhas do Cabo Verde; dando a Portugal o direito de conquista da banda oriental dele e á Espanha, igual direito do lado ocidental. A convenção de Tordesilhas re-estabeleceu esta demarcação, oito anos mais tarde para um meridiano sito 370 léguas a oeste das ilhas do Cabo Verde, confirmada pelo Papa Julio II na bula de 3 de maio de 1502. A situação desse meridiano NUNCA FOI definitivamente fixada. A costa brasileira “descoberta” pouco depois estava manifestamente a leste da linha estabelecida, contudo ficou, como posse para os “descobridores” portugueses. Entretanto só o povoamento das regiões descobertas é que garantiam a posse das terras. Compreendemos assim o interesse que tinha Portugal em estabelecer seus domínios para o lado das terras da América. Portugal, entretanto, estava muito mais interessado nas ESPECIARIAS que vinham da Índia, pois não existiam as geladeiras nem os”freezer”, e a conservação dos alimentos era dependente dessas especiarias, e assim não se interessou muito pela posse das terras brasílicas. Outros paises como a Holanda e a França, mandavam seus navios vir em busca do conhecido “pau- brasil” para tingir seus tecidos. Naturalmente muitos dos piratas ou dos chamados “aventureiros” ou mesmo náufragos, vieram para as terras do Brasil, e ficaram por aqui. Dentre eles podemos relembrar as figuras de Diogo Álvares Correia, o “Caramuru”; em Cananéia viviam Francisco Chaves e o chamado “O Bacharel em Cananéia”, a Aleixo Garcia, Henrique Montes e Melchior Ramires, que pertenciam ao grupo de náufragos habitantes de Santa Catarina, e havia ainda um lusitano de nome João Ramalho. Este último é que nos interessa, pois ele conseguiu uma firme amizade com um cacique chamado Tibiriçá da tribo indígena, a dos Guaianazes, e com um irmão dele Cai-Ubi que tinha a tribo Tupiniquim e Piquerobi também Tupiniquim. Este, entretanto, não gostava dos brancos.
  • 36. 39 Flerts Nebó O Ramalho conseguiu aprender o idioma Tupi com Tibiriçá e os de sua tribo, e depois, até mesmo se casar com uma de suas filhas, que se chamava M’BOI (flor da árvore) e ele a apelidou de “Partira”, mais tarde passando para Bartira. Um amigo do Rei de Portugal, D. João III, chamado Martin Afonso de Souza, veio ao Brasil, para ver se conseguia, — inspirado no que se sabia da expedição pioneira de Aleixo Garcia — garantir se seria possível indo por terra a dentro, alcançar as terras privilegiadas com ouro e prata. Martin Afonso dirigiu-se ao Rio da Prata para ver se, indo pelos rios se alcançaria a região aurífera; cabia-lhe além dessa missão, afugentar os piratas de roubavam nossa madeira. Com a autorização real, resolveu que a posse da Terra seria absoluta, se se fundasse uma Vila. Ele sabia que todos os dias, no período da tarde, os homens se reuniram ao redor de uma “Bica de água”, para conversar sobre suas pescas, os produtos de suas hortas e mesmo para o jogo de dados. Essa “Bica” é hoje a conhecida Biquinha de São Vicente, e Martin Afonso, resolveu então fundar a Vila de São Vicente, dando-lhe esse nome por ser esse o Santo do Dia. Martin Afonso conheceu, na ocasião a João Ramalho e este, como já vivia no chamado “Planalto”, conseguiu que o nobre luso subisse a Serra do Mar e chegasse até a borda do SERTÃO, e ali se fundasse mais uma Vila e sendo o dia de Santo André passou a ser conhecida por Santo André da Borda do Campo. Essa primitiva Santo André não corresponde a atual cidade com esse nome. Ela se situava mais para o lado da atual cidade de São Bernardo Segundo determinação da coroa lusa dever-se-ia fundar Vilas distantes uma da outra cerca de Seis léguas. Uma légua corresponde a 6 Km, portanto de uma Vila ou Aldeia a outra permeavam 36 Km. Foi, nas margens de uma região denominada Piratininga, que fundou a Vila seguinte e que tomou, por isso o nome - PIRATININGA. Essa primitiva Vila foi invadida pelos índios carijós, inimigos dos Guaianazes e dos Tupiniquins e foi arrasada, e seus habitantes fugiram para a vila de Santo André. O Rei de Portugal desejava que os colonos, que se encontravam no chamado “além-mar”, tivessem uma Assistência Cristã e então mandou que os padres da “Companhia de Jesus” viessem para o Brasil, a fim de dar a Assistência aos lusos e, ao mesmo tempo, catequizar os nativos. Havia interesse em que, cada vez mais, os povoados fossem “entrando em terras”, que até mesmo poderiam ser espanholas, mas o que interessava era a permanência dos lusitanos nos sertões brasílicos, mesmo porque havia uma curiosidade em se conhecer o caminho para AS TERRAS do Rei branco que gerenciava as Chamadas “Minas de Prata de Potosi”. Vieram os inacianos, tendo como chefe o Padre Manoel da Nóbrega, o qual não conseguira o cargo máximo, em Portugal, por ser gago. Nóbrega entrou em contato com o João Ramalho, e este o “apresentou” a Tibiriçá a Cai-Ubi e a Piquerobi. Com uma boa conversa do jesuíta com João Ramalho, procurou estabelecer um “Posto de apoio” aos padres que iriam para o interior. Ramalho falou com o sogro- Tibiriçá - e este permitiu que Nóbrega construísse uma Oca, numa colina que ficava perto de sua Taba. A Taba do Guainás ficava no atual Largo de São Bento, e ele permitiu que na colina de Inhapambuçu, se fizesse a Oca do jesuíta, que “por acaso”situava- se onde hoje é o Pátio do Colégio. Com o padre Manuel da Nóbrega também vieram outros dois padres Manuel de Paiva e Manuel de Chaves. Que coisa interessante eram os três Manuéis - da Nóbrega, de Paiva e o de Chaves. Nóbrega era o que tinha Interesse em poder avançar para o interior. Assim, pouco a pouco foi aumentando o tamanho da “Oca” e chegaram mais padres além de mais dois “irmãos”, um deles, depois ficou, sobejamente, conhecido, que a seguir recebeu a ordenação e sabemos que foi José de Anchieta. Acontece que em 1553, na Oca, os três Manoeis todos os dias rezavam missas e tinham até mesmo batizado, mais de 50 catecúmenos (índios e mesmo seus filhos) que viviam na Taba de Tibiriçá. Havia necessidade de uma privacidade para os sacerdotes, visto estarem expostos a tentações, pois as índias solteiras, andavam todos os dias, por todas as partes, completamente nuas. Então construíram mais um “canto”; reservados para suas meditações e rezas, buscando assim, fugir das “tentações”. Pelas cartas enviadas por Manoel da Nóbrega e José de Anchieta, foi que o Geral dos Jesuítas -— Inácio de Loyola — tomou conhecimento do trabalho desses catequistas, em terras da América. Não seria que essa “Nova Piratininga” que já não existiria antes do dia 25 de Janeiro de 1554?
  • 37. 40 Ela não tinha o nome de São Paulo. Este foi dito quando da reza da Primeira missa “oficial” embora desde 1553 todos os dias os inacianos rezassem suas missas. . Não deveríamos, também, levar em consideração a existência da Taba de Tibiriçá, com o João Ramalho, como o “verdadeiro” inicio da “futura” São Paulo dos Campos do Piratininga? Lembremos que Brasília não existiu “oficialmente” até 21 de abril de 1960, mas que durante 5 anos ali habitaram muitos dos que a construíram, mas não foram considerados como “fundadores” de Brasília. O Anchieta tinha só 18 anos, e ensinava os pequenos índios a ler, ele falava e escrevia em latim, espanhol e português e ao mesmo tempo aprendia com eles o tupi, tendo, até mesmo elaborando uma gramática do tupi. Desnecessário dizer que os Jesuítas necessitavam de mais espaço para guardar as suas coisas que vinham de Portugal. E numa miserável casinha, construída de pau-a-pique, que segundo Ramalho havia ensinado aos índios como as construir, pois as de pau-a-pique eram mais resistentes que as ocas dos nativos. Foi que resolveram que seria a Igreja da Companhia de Jesus no Planalto, então tomaram a decisão de “Consagrar” a casinha, que media 14 passos de comprimento, por 10 de largura e era coberta com palha, como sendo a primeira Igreja da Companhia de Jesus e isso foi feito no dia 25 de janeiro de 1554. A “Vila” (diríamos melhor a taba), com cerca de quase 100 pessoas assistiram essa chamada de Primeira Missa, poderíamos dizer “oficial”, que foi rezada pelo PADRE MANOEL DE PAIVA, sendo que fora acolitado pelo jovem Anchieta e na presença de outros 12 ou 13 sacerdotes, esse número não se sabe ao certo. No dia 25 de janeiro, considerado como o dia da conversão de São Paulo e por esse motivo, declararam os jesuítas que “A ele dedicamos nossa casa”. Na realidade há 4 anos antes (1550 + ou -) o Pe. Leonardo Nunes vinha visitando a região e, naturalmente, como fazem todos os padres, já teria rezado suas missas na colina de Inhapambuçu. Há uma coisa que ocorre na fixação das datas históricas: vale tanto o papel passado, quanto as razões emocionais, os simbolismos ou as puras e simples arbitrariedades. Devemos levar em consideração que o irmão Anchieta, faltando ainda 53 dias para completar 20 anos, e só com seis meses e 12 dias depois de sua chegada ao Brasil, e um mês e um dia decorrido de sua chegada a S. Vicente, participava naquele dia, sem ter a menor noção disso, de um evento ao qual teria o nome ligado pelos séculos vindouros. Existem em vários lugares do mundo muitas cidades com o nome de São Paulo, mas a Paulista com 450 anos é a única que leva o sobrenome de PIRATININGA ! Dos descendentes desses portugueses, que se mudaram para a região e dos filhos de João Ramalho foram que surgiram os Bandeirantes, que arrastaram para o interior do continente sul americano as fronteiras do Brasil, tendo os mesmos chegado até os Andes, e ao Rio da Prata. Como literatura, a leitura dos feitos bandeireiros é um atrativo que nos empolga e nos faz reviver todo o passado de nossa terra. Meus livros publicados sobre esses episódios são os seguintes: 1º O Médico que descobriu a América 2º A primeira volta ao Mundo 3º No tempo de João Ramalho 4º Médico e Bandeirante 5º O Governador das Esmeraldas 6º A lenda de Catalão 7º Brasil o Eldorado do mundo Flerts Nebó
  • 38. 41 Histórias reais que passaram a ser contos infantis Hoje já ninguém mais conta Contos, para as crianças, pois a Televisão tomou conta, com seus desenhos – nem sempre de bom gosto – mas que prende os olhos e atenção dos pequenos que ficam, por vezes horas diante dos aparelhos e que os pais, em sua grande maioria, não se dão conta do que está sendo “ensinado” aos pequenos. A grande maioria desses “desenhos animados”, sempre estão apresentando lutas, brigas, ataque contra outras figuras imaginárias ou “vindas de outros planetas” ou ainda saindo de cavernas e de becos em que a maldade e o desrespeito pela vida é considerado como “divertimento”. Como nos poderemos queixar se nossos filhos ou netos, não sabem quase ler mas assistem a esses filmes que só focalizam a maldade e a raiva? Automaticamente estamos preparando uma geração de futuros agressores, de raivosos ou de vingativos, que crêem em poderes vindo sabe lá Deus de onde. Naturalmente que quando éramos crianças, não havia a televisão e nossos pais, muitas vezes nos contavam histórias ou nos brindavam com livros “de histórias”, muitas vezes fantasiosas, mas que sempre nos ensinavam que o bem vencia o mal e procuravam imbuírnos de um bem-querer para com o próximo, embora pudessem existir “bruxas” ou até mesmos fantasmas, mas eles sempre perdiam. Baseados nesse principio o BEM sempre acabava triunfando, do mesmo modo como os filmes americanos em que o “mocinho” sempre acaba vencendo o bandido e tem o que eles denominam de “Final Feliz”. Mesmo nos filmes ou nos livros denominados de “infantis”, havia um bom gosto, por parte dos autores e dos ilustradores, elaborando figuras e textos agradáveis de serem vistos ou lidos, o que hoje não mais acontece, infelizmente, para nossos menores. Eu li muitos livros infantis e conhecia muitas “histórias de fadas”, e as haviam boas e mesmo as más, que também sempre perdiam as partidas. Recordo de uma em que havia um Rei que tinha a Barba Azul, e que se casava um uma mulher e depois a matava. Era um homem malvado que jamais deveria ser imitado. Um dia meu pai me presenteou com dois grossos volumes que se intitulavam : “Las mil y una noches”, todo escrito em castelhano e que ele, com paciência os lia e os ia traduzindo, para que eu entendesse o enredo do livro. Claro que não eram todos os dias que isso acontecia, mas eu sabia que meu pai estava a meu lado e vendo e ensinando as coisas que podiam e não podiam serem feitas, o que hoje não vemos. Ligam a televisão e as crianças apertam os botões e vão mudando em busca de coisas que nem sempre são de bom caráter ou ensinam o bem. Os anos passaram e naturalmente outras atividades nos tomavam o tempo e tínhamos coisas importantes para aprender do que estar ouvido ou lendo histórias do “faz de conta”. Esta semana, estava pensando nessas coisas e fazendo umas pesquisas para um dos livros que pretendia escrever, quando me ocorreu que “aquela história” do Barba Azul, nada mais era que como um decalque da vida de Henrique VIII, que foi rei da Inglaterra e que casou-se seis vezees e mandava decapitar suas esposas, salvando-se uma ou outra, não sei agora, ou melhor não estou bem lembrado dos motivos que ele apresentava para seus pares, para ir de uma para a outra. Raciocinando sobre esse “encontro”, o rei aqui não tinha Barba Azul, mas provavelmente o autor teria mudado a cor da mesma pois ela era rubra ou avermelhada, mas no fundo era isso o que a história para criança contava no livro, sem que ficássemos sabendo de quem se tratava, e tampouco iríamos melindrar o povo do qual ele havia sido rei. Naqueles dois volumes, escritos em castelhando, que meu pai lia para me entreter, consegui descobrir, por mera coincidencia que se tratava do Rei Salomão, tão falado em muitos capítulos da Biblia. Realmente esse rei de Israel, teve não sei dizer quantas esposas e muitas concubinas, mas no livro das Mil e uma noites, ele encontra uma, que consegue que lhe permita contar uma história, e ambos passam a noite conversando, mas ela deixava sempre o final em suspenso e que teria continuação numa noite seguinte e assim foi levando ou melhor protelando sua morte até que o rei acabou por se Flerts Nebó
  • 39. 42 enamorar da mesma e não matou mais nenhuma, pois toda a noite ele tinha uma mulher nova em seu leito segundo narrava o começo do livro que meu pai, com paciência lia para mim. Creio que realmente Salomão deva ter ouvido muitas histórias, visto que tendo uma quantidade diferente de esposas e de concubinas, e se cada uma delas lhe contasse, um pequeno pedaço de suas vidas, seguramente ele teria passado mais de Mil noites ouvindo as hitórias que lhe contavam, agora não uma única mulher, mas sim cada uma que ocupava aquele seu leito real. Essas são na realidade as historias Reais que serviam de base para os contistas infantis encontrarem os “motivos” para contar para nós, crianças, fatos verdadeiros, porém muito bem disfarçados e que nos prendiam a atenção, sem irmos atráz de super-homens ou de guerreiros do bem contra o mal. Era gostoso ouvir um pai falando e contando muitas outras histórias, que agora de momento as recordo com alegria e ao mesmo tempo com tristeza, pois eu não as contei para meus filhos, porque tinha de “ganhar o pão nosso de cada dia”. Recordo que meu pai, como avô inventava histórias para contar para os meus filhos, um dos quais eles sempre se referem e cujo o título era “O Borboleto preto”. Poderia encerrar esta minha crônica, colocando uma frase de um poeta que diz: “ Oh! Que saudades que tenho da aurora de minha vida. Da minha infância querida, que os anos não trazem mais”. Lembranças é voltar a viver e eu escrevendo estou revivendo aqueles anos felizes que passei ao lado de meu Pai, do qual nunca esqueço embora longos anos nos separam desde sua morte. Que Deus o tenha em um bom lugar! Pai Três letras Um único significado! Uma Vida ! Um coração Um trabalho danado! Uma Geração! Três letras! Uma satisfação! Uma eterna lembrança Uma grande gratidão! Pai – Um exemplo de vida! Uma emoção! Uma figura querida! Um exemplo de retidão Ter Pai – Ser Pai Uma grande continuação! Inicio de uma Geração! Principio de grande emoção! Meu Pai! Com todo amor Guardo-te, em meu coração ! Flerts Nebó
  • 40. 43 Helio Begliomini Médico urologista - São Paulo - SP Um paciente muito especial e a SBU Tenho pela Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) um carinho especial. A ela, há anos, tenho dedicado muito tempo e trabalho. Como simples urologista e como dirigente já vivi em seu seio momentos alegres, descontraídos, instrutivos, sérios, delicados e espinhosos. Nela conheci especialistas de elevado gabarito, pesquisadores sisudos, grandes administradores, trabalhadores abnegados, idealistas, intelectuais, amigos inesquecíveis e vários jovens, outrora ávidos pelo conhecimento se transformarem em importantes profissionais. Tenho sempre apoiado a causa da SBU tanto em eventos científicos, sociais, quanto noutros projetos -, quer seja em âmbito nacional, quer estadual, independentemente da seccional e da linha ideológica dos dirigentes no poder. A SBU – seccional de São Paulo, dentre outras, é pródiga, há anos, em boas realizações. Dentre suas atuais linhas de atuação, vejo como significativos projetos o “Urologista Cidadão” e o “Estudo Epidemiológico sobre Câncer de Próstata” no Estado de São Paulo, nos quais participo. Desse último, tenho tido a oportunidade de enviar algumas fichas de pacientes recém- diagnosticados de neoplasia prostática. O protocolo é simples e objetivo. Por vezes, o preenchimento torna-se quase automático, dadas as facilidades oferecidas. Ocorreu-me situação diversa com um determinado paciente. Parecia que minha capacidade de raciocínio patinava a cada campo que se me apresentava. E em cada parada, meu pensamento divagava e divagava preguiçosamente. Refletia perplexa e demoradamente mais do que o usual sobre o nível do PSA (Prostatic Specific Antigen)... o volume do órgão... o escalonamento da graduação tumoral de Gleason... o número e os locais de fragmentos comprometidos... a extensão locorregional ou extraprostática... o estadiamento... as opções terapêuticas... o prognóstico... enfim, o provável tempo de vida. O preenchimento daquela ficha parecia durar uma eternidade. Entre as elucubrações científicas de moroso retorno, mesclavam-se igualmente pensamentos repletos de afeto, de ternura e de gratidão que remontavam tão-somente cinco décadas! A sofreguidão experimentada com o desenrolar de outras fichas transformava-se em sofrimento com esse paciente. A parcimônia com que eu registrava seus dados parecia que almejava parar o tempo, que por sinal, tinha passado muito rapidamente. Seria eu a pessoa mais indicada para desempenhar tal tarefa? Essa foi uma angustiante questão, dentre tantas outras, que se passaram com a velocidade de um foguete, cuja resposta não tinha claro na minha mente. Com certeza, conhecia vários colegas que teriam melhor suporte técnico para aquele risonho e descontraído senhor. Por outro lado, sabia que diante dum passado comum, onde nossas vidas entrecruzaram-se, dificilmente alguém lhe poderia retribuir tanto carinho e gratidão quanto merecia, e que eu julgava lhe poder oferecer.
  • 41. 44 Compreendia como ninguém que era necessário correr contra o tempo e, se me fosse possível, pará-lo ou retrocedê-lo. Como esse sempre foi o anelo insatisfeito da maior parte da humanidade, em todos os tempos e em todos os lugares, restava-me curtir, saborear, fruir de seu convívio o mais intensamente quanto fosse possível. Tive uma súbita sensação de tristeza e esquisitice... a de que o relógio do tempo começava a caminhar em sentido anti-horário... em contagem regressiva, tal qual o acionamento de uma bomba- relógio. Ao final de uma saraivada de pensamentos, interrogações, suposições, repletos de uma indescritível revolta de emoções, uma réstia de luz invadia o imo de minh’alma, aclarando minha mente e dando-me uma serenidade inimaginável há curtíssimos minutos atrás. Não me restava mais dúvidas de que seria eu mesmo, o mais adequado profissional, a realizar a indigesta tarefa de preencher aquele protocolo e orientar aquele senhor. Aquele simples paciente, trabalhador indefeso, sempre muito confiante, reunia em seu nome apenas duas singelas letras do alfabeto, e estava na juventude dos seus bem-vividos 78 anos. Ele não somente tinha contribuído pela minha formação pessoal e profissional, mas havia sempre me dado inesquecíveis exemplos em sua simples e profícua existência. Proporcionou-me também muito carinho, compreensão, respeito, fidelidade e amor. Mais do que tudo isso, deu-me o privilégio de poder herdar seu patrimônio genético, sua educação, seus sonhos, seus ideais e sua fé. Participar desse projeto da seccional paulista da SBU tornar-se-ia uma experiência insólita em meu exercício profissional e indelével em minha memória. Preencher aquela ficha, umedecida com meu desavergonhado pranto, mais do que uma penitência que estava cumprindo, era também uma maneira de mitigar um pouco, os dissabores que tinha causado ao meu estimadíssimo pai. Humildade e reconhecimento No memorável dia 19 de abril de 2005, apareceu na fachada de Michelangelo, na Basílica de São Pedro, após o anúncio “Habemus Papam” do camerlengo do sacro colégio cardinalício, o cardeal Joseph Ratzinger, um dos maiores intelectuais dentre os maiores de nossa contemporaneidade. Eleito para suceder ao santo e magno papa João Paulo II, adotou o nome de Bento XVI, e se apresentou singelamente a uma miríade de crentes do planeta como “um simples e humilde servo da vinha do Senhor”. Em seguida aditou: “Consola-me o fato de que o Senhor sabe trabalhar e agir também com instrumentos insuficientes. E, sobretudo, recomendo-me às vossas orações. Na alegria do Senhor ressuscitado, confiantes na sua ajuda permanente, vamos em frente. O Senhor nos ajudará. E Maria, sua Mãe Santíssima, estará conosco. Obrigado.” Senhor! Reconheço que diante de tão vultuosos homens nem servo de vossa vinha sou digno de ser. Tampouco almejaria colocar-me no lugar Da água... imprescindível para a vida. Da terra... onde a semente germina. Do sol... necessário para a sua fotossíntese. Do ar... pulmão ambiental do planeta. Contudo, Senhor! Peço-vos a condição de ser um bom esterco pois, só assim poderia parcamente colaborar na fertilização de vossa seara Helio Begliomini
  • 42. 45 Juscelino Kubitschek de Oliveira Patrono da Sociedade Brasileira de Urologia Juscelino Kubitschek de Oliveira nasceu de família humilde, na cidade de Diamantina, interior de Minas Gerais – Brasil, em 12 de setembro de 1902. Órfão de pai aos três anos, foi educado por sua mãe, professora primária, que não esqueceu de nutri-lo com os princípios da fé católica. Alimentou sonho de ser médico desde a infância. Para tal, transferiu-se, com 19 anos, para Belo Horizonte, capital do estado, onde se mantinha como telegrafista, cargo obtido por concurso público. Além do trabalho e do estudo, não deixava de participar das missas dominicais pela manhã. Entrou na Faculdade de Medicina em 1922 e concluiu o curso em 1927. Durante esse período, conheceu acadêmicos que se tornariam grandes intelectuais. Teve tendência pela área cirúrgica. Três anos após sua formatura, partiu para a Europa para especializar-se em urologia com o famoso professor Maurice Chevassu. De regresso ao Brasil, desposou Sara Luiza Gomes de Lemos. Ingressou, em 1931, na Força Pública como capitão-médico. Galgou até o posto de tenente-coronel, assumindo a chefia do Serviço de Urologia do Hospital Militar. Durante a Revolução Constitucionalista de 1932 militou nos então denominados “Hospitais de Sangue”. Nesse ambiente de guerra conheceu o futuro presidente da república, Gaspar Dutra, assim como outros políticos e personalidades importantes da época, como o delegado federal, Benedito Valadares Ribeiro. A versão médica para a entrada de Juscelino na política é de que ele ficou conhecido de Benedito Valadares, por ter-lhe tratado, com sucesso, de uma uretrite. Valadares, posteriormente interventor de Minas Gerais, convidou Juscelino para ser o chefe da Casa Civil de seu governo. Juscelino teve carreira política meteórica, sendo duas vezes deputado federal, prefeito de Belo Horizonte, governador do estado de Minas Gerais, presidente da república e senador, quando a ditadura militar cassou-lhe o mandato, tendo que se exilar na Europa. Como executivo, teve sempre grande atuação. Como presidente do Brasil, desenvolveu um extenso programa centrando suas atividades em comunicação, transporte e geração de energia, além de construir Brasília – nova capital do Brasil – no tempo exíguo de apenas três anos e seis meses. Juscelino era dotado de grande inteligência e farta cultura humanística. Conquistou a imortalidade como literato ao ser eleito, em junho de 1974, a uma vaga na Academia Mineira de Letras. Juscelino Kubitschek de Oliveira foi um dos mais importantes, mais populares e mais lembrados presidentes que o Brasil já teve. Este trabalho visa resgatar, homenagear e divulgar a memória deste singular médico, uma vez que não se conhece no mundo um outro urologista que tenha tido tamanha projeção como cidadão! Helio Begliomini
  • 43. 46 Convergência A existência dá ao homem dois grandes momentos de convergência que os igualam entre si: a vida e a morte. O primeiro é o ponto de partida: inconsciente e involuntário donde se recebe o direito de passar do não ser... ao existir do nada... ao é do ausente... ao presente. O segundo é o ponto de encontro ou de chegada, quaisquer que sejam os caminhos percorridos: curto ou longo áspero ou liso inconsciente ou racional alegre ou triste doloroso ou sadio belicoso ou pacífico insólito ou frívolo nobre ou vulgar. - Vida e Morte - Momentos antagônicos e inelutavelmente certeiros. Inexoravelmente seqüenciais. O primeiro é imprescindível para o segundo. Este, jamais existiria sem aquele. - Vida e Morte - Dilema do homem desde seus primórdios. Não somente pontos de partida e de chegada, mas, também, um meio coercitivo de colocá-lo no umbral do denominador comum da humilde igualdade, onde o gênero humano se ufana na procura interminável de conhecer-se. Helio Begliomini
  • 44. 47 Hélio José Déstro Cirurgião dentista - São Paulo - SP Piano dedilhado “Nada é mais triste que um piano dedilhado” A dimensão da vida, não é o que se vive e sim o que deixou para trás. (dedilhar algumas notas ao piano) A gente só é jovem por dois minutos e pouco. Acha que a terceira idade... É futuro... De repente... É a bela idade. Se não viveu a vida... Pensa na mocidade. Preso em convenções... Tabus... Não ter o poder. Tal qual um rio que é preso pelas margens e não soube se revoltar... Girou gota a gota no rolar. Correu-se mansamente... Só pode se lembrar... Dos dois minutos e pouco que talvez é pouco... é muito pouco. (dedilhar algumas notas ao piano) Quando a gente tem saudade... Querer lembrar do tempo pouco. Deste tempo pequeno. Nada... Nada mais será... Doravante. Nada... Nada mais será... Como antes. Foi um instante... Só um instante. Amigo... Viva a vida. Jovem... Brinque mais... Dance mais. Jogue tempo fora... Ser mais você... Viva mais. Para ter mais tempo a se lembrar além dos dois minutos e pouco. Ficar gravado em horas... E que não jogou a vida fora. (dançando) Eu vi a um anjo dançando... eu vi um anjo dançando. Dançando eu vi um anjo. Um anjo dançando eu vi. Um anjo dança... Eu vi... O anjo é a dança. Dança anjo... Anjo... Anjo... Anjo... Dançando Ao som de um piano. (No piano fazer escalas)
  • 45. 48 O Homem Jesus, hoje - 2005 (antes do apocalipse) 2005 anos do nascimento de JESUS CRISTO. 33 ANOS de vida e a morte com padecimentos. A BÍBLIA, A IGREJA e os fiéis conhecem seus ensinamentos. Pense bem hoje... Sim hoje se vivesse hoje 1 – Seus milagres seriam televisados, irradiados, sairiam em jornais seria criticado. 2 – Vestimentas de Hipie ou Punk: jeans, tênis, seria um marginal. 3 – A sociedade, a mídia, e as leis não o aceitaria. 4 – Sem residência fixa, não compraria nas lojas. 5 – Sem identidade, sem documentação. 6 – Sem diplomas, padrinhos ou profissão. 7 – Moraria na periferia ou debaixo de viadutos, numa batida policial sem documentos seria preso, amargaria cadeia. 8 - Num banco onde exibem sua imagem jamais conseguiria um empréstimo, nem poderia ser avalista. 9 – Suas idéias, pregações: um revolucionário, agitador do povo, perseguido, fichado e preso ficaria entre os maus elementos. Teria que pagar um advogado de porta de cadeia. 10 – Criança na escola sendo um super dotado, não conseguiria vaga necessitando de cartucho para pagar escolas de nível e ter que freqüentar escolas públicas. 11 – Falar em praças só com autorização pra não atrapalhar o trânsito, necessitaria que tivesse instalação de som porque com o barulho ninguém o ouviria. 12 – Em filas de empregos não tendo qualificação seria difícil consegui-lo e quando o encontrasse só pra trabalhos braçais. 13- Tendo facilidade de se expressar necessitaria de empresário e patrocinador. 14 – Se conseguisse atingir a TV. os longos cabelos seria o normal, poderiam fazer um especial como curiosidade, e tantos querendo aparecer em cima de seu nome. 15 – Usado, mastigado, tal como máquina descartado nesta civilização moderna. 16 – Venderia nas suas pregações; camisetas, discos, adesivos para tentar sobreviver. 17- Numa rua ou estrada jamais conseguiria carona, o medo que todos têm de assaltos. 18- Com toda a pressa das pessoas e as dificuldades não seria ouvido. 19- Em qualquer país do Mundo do modo de vida atual jamais chegaria a 33 anos seria eliminado antes. JESUS CRISTO – VOLTE - ANTES DO APOCALIPSE. Modifique os homens... O ser. Faça com que o coração domine a Razão Traga à TERRA um novo alvorecer. Falei de JESUS CRISTO – O FILHO DE DEUS Hélio José Déstro -14-1-2003 filosofando. Escrita em 9-9-1983 Hélio José Déstro
  • 46. 49 Jesus como homem Num estudo da divindade, porém como homem, a tradição diz que JESUS nasceu no dia 25 de dezembro, PRIMEIRO ANO de NOSSA ERA, o ANO, o DIA, e MÊS não são exatos. JESUS nasceu seis meses após João Batista, de quem era primo. Que segundo o evangelho de São Lucas, 1º, 5, anunciado pelo anjo, quando Zacarias estava de serviço no templo. Zacarias pertencia a oitava turma sacerdotal (chamada de abias, 1 Cron - 24º, 10) estando a serviço pela segunda vez, esta anunciação teve no mês de Novembro, seis meses depois chegamos a maio. As turmas sacerdotais eram 24 e cada uma servia uma semana no templo. O mês judaico começa em adil ou ninã, que corresponde ao nosso abril. Então Zacarias servia pela segunda vez naquele ano no mês de marchesvam que é o mês de novembro. Por tal motivo JESUS nasceu em dia desconhecido do Mês de maio. Também não nasceu em Nazaré. Os profetas e os Evangelhos, dizem que JESUS nasceu na pequena cidade de Belém (em hebraico Beth-Lehem) = casa de pão. Não é devido à fartura do alimento, mas onde nascera David que fundou a única dinastia que governou Judá por mais de 500 anos. Dos 12 aos 30 anos há uma lacuna que ninguém explica. (Valdemar de Matos em Pesquisa de vidas célebres) A família de Jesus (pesquisa genealógica). Maria ficou grávida muito jovem de 13 a 17 anos do século I. Nos evangelhos de Marcos diz que JESUS tinha 2 irmãs. Maria ao dar a luz estava presente Salomé. Quem era e porque estava lá? Talvez seja a irmã de JESUS, filha de José antes de casar- se com Maria (que teve outra esposa, viúvo a 1ª esposa era Melca ou Eska). JESUS teve uma segunda irmã Maria ou Miriam também do casamento anterior. Marcos mencionou quatro irmãos: Thiago, José, Simão e Judas. Receberam nomes de heróis militares. Os filhos de José (do primeiro casamento) estavam com ele em Belém. O catolicismo diz que Maria continuou virgem por toda a vida. Era lei da época que se a mulher não tivesse filho poderia se divorciar de José. Thiago, o primogênito era tratado de forma diferente porque levava o nome da família, teria direito a maior parte. Outro parente de JESUS é DEUS. Maria foi visitada por um anjo, JESUS teve um pai celestial, isto apareceu no catolicismo muitas décadas depois. Lucas fala de Izabel que é parente ou prima, porém é estéril.As duas tiveram filhos, João Batista é seu primo em 2º grau. A Bíblia nada fala de parentes. José parece ter tido um irmão Cleofas. JESUS teria vivido entre tios, primos e primas. José desapareceu misteriosamente. Sendo velho morreu de velhice. Maria ficou dependente dos filhos. Com a morte de José o protetor de JESUS. Thiago assumiu o papel de chefe da família. A vida de JESUS fica obscura por 18 anos. A cor da pele. Nas pinturas JESUS tem olhos azuis e pele clara, as famílias judaicas tinham pele mais escura. Seus irmãos foram seus discípulos e as irmãs estavam na Santa Ceia. No evangelho pregando na multidão diz: - O povo é minha família. João Batista batizou JESUS aos 30 anos estavam ligados pela paixão. Tinham os mesmos genes. (Nas escrituras estudadas por religiosos e cientistas a procura da verdade) (DISCOVERY CHANNEL em 23/3/05 das 21- 22 horas). Hélio José Déstro
  • 47. 50 Sussurrando para mim mesmo Manual para viver só Não... Não... Não... Não e Não. Não quero cancelar aquele encontro marcado comigo mesmo. Depois de muito refletir. Pesar conseqüências. Acho ser a melhor solução... E plausível. Vou reviver sonhos sonhados. Vou chorar e rir. Vou citar meus acertos e erros. Vou gargalhar até as lágrimas. Vou voltar a ser eu mesmo. A vida... Os momentos, o tempo. Modificaram-me. Já não penso como pensava. Já não caminho por certos caminhos caminhados. Até... Até já cansei de esperar milagres. Sutilmente. Não, não, não e não. Não vou cancelar aquele encontro marcado comigo mesmo. A idade pesando nos ombros e o desmanchar de sonhos. Eu que achava que iria fazer e desfazer. Mudar o mundo. Cheguei onde deu pra chegar. SONHEI EM VOAR... Correr. Só pude caminhar. Reflito atualmente de corpo presente... Se eu não fosse ao encontro de mim mesmo. - Eu que desculpa daria? Diga-me. - Que desculpa eu daria? Eu sempre fui de dizer verdades. Positivo(+). Sei que sou individualista. Sei gostar de mim. Sei ser criativo. Livre, de peito aberto sem medo para comigo. No encontro marcado comigo mesmo. Revendo o passado. Desfolho saudades. Há concordância da cabeça e meu coração. Entro em êxtase. Flutuando em nuvens. De corpo e alma em felicidade. Jamais fui um imitador. Sou um criador. Sou o maior amigo de mim mesmo. Sou um HOMEM correndo atrás do sonho. Hélio José Déstro
  • 48. 51 Torturas e seus instrumentos TORTURA – Suplício, tormento, angústia, lance, difícil, do latim (tortura) afligir. Angustiar. Usada há mais de 3.000 anos para: criminosos, escravos fujões e inimigos. O KONK – a mordida dilacerante, placa com um buraco que se colocava no pescoço por um tempo variável. O individuo só podia ser alimentado por outros, senão morria à mingua. Ficavam em praças públicas e tais pessoas eram execradas. No Egito os faraós mandavam castigar com tiras de couros de animais com ganchos nas pontas aos inimigos políticos e de guerras. Os assírios usavam contra seus inimigos e dissidentes serem esfolados vivos, queriam com isto que soubessem ao perigo que se expunham se tentassem invadir o país. Na Grécia o TOURO DE BRONZE, uma estátua oca, a vitima era colocada dentro e, por falta de oxigênio morria. O FLAGELO - açoites de couro com pontas e chumbo, dilacerando tecidos. Na época de JESUS, a crucificação e colocavam a coroa de espinhos na pessoa que morria com dores atrozes e exaurindo sangue. Nos quadros e esculturas representando JESUS, os pregos são colocados nas palmas das mãos, porém não é o certo porque o peso do corpo faz com que as mãos se rasguem, o local certo é nos pulsos. Na inquisição o poder do estado e da Igreja a quem era considerado herege. A Rainha Elisabeth mandava e castigava para purificar seus súditos, isto é escravisá-los, os cidadãos teriam três opções: aceitarem, serem presos por tempo indeterminados ou expulsos. A tortura quase sempre era assistida para mostrar os poderes e querer obediência irrestrita. Instrumentos usados A RODA - pessoas eram amarradas nuas numa esteira e o carrasco girava a manivela que ia esticando e causando na vitima dores atrozes, com ruptura de tecidos, causando desmaios. Quebrava lentamente os membros estourando articulações. A morte sempre acontecia. O carrasco sempre usava capuz para não ser identificado. No século XIX, A CADEIRA INQUISITORIAL, a vitima era colocada na cadeira com os pés. As mãos amarradas às costas, a confissão era certa mesmo sendo inocentes. Usados também ferros quentes nas pontas e cauterizavam tecidos até profundamente. O QUEBRA NOZES - instrumento para esmagar os dedos das mãos e dos pés, eram apertados lentamente causando dores atrozes no ato e mesmo depois. A PERA, bronze fundido multifuncional colocado na boca da vitima e manipulado abria-se ao máximo estourando mandíbula, maxilar com todos os tecidos e dentes. Haviam instrumentos que nas mulheres eram penetrados nos órgãos femininos para punir e intimidar. Foi muito usada a fogueira onde eram queimadas vivas. Joana D’arc, a virgem de Orleans, condenada e queimada viva em 30 de maio de1431. Canonizada em1920. OS GARFOS – cruéis e violentos prendiam dedos ou trituravam órgãos genitais. OS ALICATES – para prensar dedos, arrancar unhas das mãos e dos pés. O ATIÇADOR – O queimar tecidos, causando dores violentas, ficando marcados. Tortura e seus instrumentos NAS GUERRAS de 1919 e 1945. Na Alemanha Mengele mandou matar milhares de pessoas, os judeus em câmaras de gás, além de torturá-los com apetrechos usados em cirurgias tais como bisturis, tesouras, aparelhos cirúrgicos. Mengele fugiu para o Brasil. Os japoneses usaram de crueldades com varas de bambu e chibatas açoitando prisioneiros de guerra. Também se colocava a pessoa de cabeça para baixo jogando no corpo água quente, iodo, urina e fezes. Nas masmorras enfiavam ramos de bambus debaixo das unhas, davam surras com cassetete na barriga das pernas, nas costas e também na cabeça deixando a pessoa louca. Em certas guerras quando invadiam as cidades pegavam os bebês jogando-os para cima e espetando-os com baionetas. Hélio José Déstro
  • 49. 52 No Camboja contra a população choques com fios elétricos, faziam tomar urina e comer cocô, muitos foram sufocados com sacos plásticos. Foi usado também para terem confissões enfiar a cabeça dentro de uma tina com água, segurando um tempo e retirando assim sufocado o torturado confessava. Dando todas as torturas danos mentais e morais. O BASTÃO quando tocado na pessoa dá descargas elétricas com dores atrozes. Principalmente nos órgãos genitais e com varias intensidades. . O CINTO DE CHOQUE, resistente e ajustado a cintura do individuo dando choques atingindo estomago e rins. O prisioneiro fica paralisado por vários minutos.Quase sempre é acionado à distância, o prisioneiro defeca, urina, sua e desmaia. BATERIAS COM ALTAS VOLTAGENS cujos cabos e fios amarrados nos órgãos genitais, mãos, pés e ligados ao gerador, a corrente percorre o corpo que chega a queimar cabelos e pêlos, para aterrorizar, dar informações, confissões. Além destes espancamentos, abusos psicológicos, a tortura sexual, penetração vaginal, sodomia. A GARRAFA DE COCA COLA é penetrada no ânus, a pessoa fica marcada para eternidade porque está em todas as propagandas. Na perseguição religiosa, nas guerras, nas prisões. Apanhar com pancadas nas mãos e pés, usar barras de ferros aquecidas. Queimar com cigarros, radiadores quentes, mantém a vitima viva mais arruínam a moral. A TV monstrou uma doméstica que batia no bebê com tapas violentos nas mãos. Há cárceres e seqüestros onde a pessoa fica amarrada e às vezes são seviciadas. No Brasil e no mundo “Tortura nunca mais”. A tortura Em Genebra no ano de 1964 a tortura foi proibida, porém foi levada para os subterrâneos das prisões. Arruínam moralmente, fazem-na para obter confissões. No século XXI com guerras nos paises ainda há o perigo mesmo sendo condenada. Pelas leis dos homens. Na BÍBLIA há uma frase que diz “o que é, foi e será”. Pesquisa: documentário de TV a cabo. Jornais. Enciclopédias. Hélio José Déstro 6-4-05 com tristeza no coração, narrando para que não aconteça tal monstruosidade. Hélio José Déstro
  • 50. 53 José Rodrigues Louzã Médico - São Paulo - SP As férias O carro parou à sombra do grande pinheiro que fica em frente à casa de vovó, no interior de São Paulo. Desci correndo, como qualquer garoto com doze anos de idade. Toquei a campainha... Duas, três vezes... e abriram a porta. -”Ora viva! Vocês chegaram cedo hoje...vieram depressa...vamos entrando. Fizeram boa viagem? O José veio para ficar conosco durante as férias? -”Vou ficar sim titia... As férias começaram e eu vou poder passar uma semana aqui com o Roberto.” Assim fomos entrando na casa de vovó, recebidos por minha tia e depois por toda a família, na sala de jantar, o ponto central da casa, o mais utilizado para as refeições e também para se ficar conversando. A casa é grande e antiga. Ao entrar, de um lado fica uma sala sempre bem arrumada, com mobília mais fina e bonita e que se usa raramente – a sala de visitas. Do outro lado os dois quartos de vovó. Continua-se por um corredor até a sala de jantar, de onde se faz a distribuição para as outras acomodações - quartos para hóspedes, os quartos da família e a porta que separa a casa, da saída para o quintal e para os lugares de serviço - a copa e a cozinha. Há também, é claro, as instalações sanitárias e mais um grande terraço que dá para o chácara e onde se pode ficar sossegado, quando o sol está muito quente, lendo, brincando ou jogando. Por uma escada desce-se para o porão, cheio de ferramentas e para o quintal, ou melhor, para a chácara, que é o lugar onde podemos dar espaço à nossa imaginação, para brincar. Colocamos as minhas malas no quarto onde vou ficar, entregamos algumas lembranças que tínhamos trazido de São Paulo e fomos tomar um delicioso café com leite, com bolo de fubá e biscoitos. Mais tarde, descemos para a chácara. A família toda foi para ver as árvores frutíferas, as velhas jabuticabeiras que nos deliciavam com suas jabuticabas doces, as flores, a criação, o riacho que passava lá na divisa e o Rex – que era o cão de guarda que sempre fazia muita festa para todos nós. Eu e meu primo depois de darmos uma espiada na chácara começamos a nos organizar, dando início aos nossos brinquedos que seriam usados durante a semana de minha estadia.Esta é a melhor parte das férias – o preparo da festa é sempre o melhor. A imaginação ia trabalhar. Íamos começar a construir os nossos brinquedos e as nossas armas. Bem, na idade em que nós estávamos, ao redor dos doze anos, os jogos eram sempre belicosos. Brincávamos, ou de piratas e eram feitas por nós as espadas, escudos e punhais, ou de caubóis, os heróis do cinema – mocinho e bandido, mas para estes nós tínhamos bonitos cinturões com coldres e revólveres e também munição de espoleta, que fazia bastante barulho. A outra alternativa era brincar de G-Man e gansgsters, influência dos filmes policiais a que tínhamos assistido e então íamos ter que
  • 51. 54 fazer imitações de pistolas Colt 45 e de metralhadoras portáteis Thompson. Finalmente a novidade, inspirada em novas histórias em quadrinhos, e que, de uma delas havíamos lido o livro, recentemente recebido de presente – Flash Gordon no Planeta Mongo. Este álbum, de histórias em quadrinhos com maravilhosas ilustrações, trazia modelos os mais sofisticados de armas do futuro, que aguçam a nossa curiosidade e nos obrigavam então a caprichar no nosso trabalho. O material utilizado para a confecção - quando os brinquedos prontos não nos satisfaziam – eram velhas tábuas de caixote para fazer coronhas e os pentes das metralhadoras e pistolas, cujos canos eram feitos de bambu. De bambu também eram feitas as espadas e punhais, cujas copas se confeccionava com papelão grosso.Os escudos e as armaduras também fabricados com velhas caixas de papelão e enfeites recortados de revistas velhas. Estávamos nós na fase de preparação, isto é, na escolha e separação do material básico: primeiro as ferramentas - e o porão da casa nos parecia inextinguível na variedade de pregos martelos e serras. Precisávamos de um bom facão para cortar os bambus. Procuramos caixotes vazios, ainda com tábuas em bom estado e que sejam fáceis de serrar. Papéis ou preferentemente papelões ainda inteiros, talvez uma caixa velha de sapatos e algumas revistas coloridas que tenham gravuras para enfeitar os escudos, armaduras, flâmulas e bandeiras. Enfim, as primeiras horas, talvez o primeiro dia será todo destinado a preparar tudo o que vamos precisar para uma gostosa semana de férias. Estamos assim, meu primo e eu, muito entretidos, separando umas tábuas velhas, enquanto esperávamos que nos chamassem para o almoçar, quando ouvi: - “José... José..!” A voz que não me era estranha insistiu: “José! José...Acorde ! Você vai perder a hora...” Levei um susto e de fato acordei! Não era o chamado para o almoço, mas o aviso de que estava começando um novo dia de trabalho.Eu tinha dormido tão profundamente que me sentira outra vez criança, brincando na chácara de vovó.. que hoje já nem existe mais!... O meu sonho e as minhas férias tinham acabado! José Rodrigues Louzã
  • 52. 55 José Warmuth Teixeira Médico anestesista - Tubarão - SC A cascatinha Uma das maravilhas que podemos ver e desfrutar na natureza que nos cerca, são as cachoeiras. Como que esculpidas nos rios que percorrem as vertentes ainda agrestes, são elas um encanto para a sensibilidade do homem e um lugar encantado para os animais silvestres. Não aquelas enormes como Iguaçu, Niágara ou Vitória Falls, mas aquelas pequenas e anônimas que podemos ver nos riachos de pequeno caudal que, pela sua singeleza e por suas águas cristalinas, nos arrebatam e até nos inspiram poetar. Rodeadas pela mata ciliar cujas árvores lhes dão abrigo, elas estão semi-ocultas e sombreadas, tal como templos secretos para a poderosa deusa Mãe Natura. Elas não rugem, elas murmuram aos nossos ouvidos como se fossem ninfas sussurrando cantigas de ninar. Suas águas cristalinas por vezes se derramam na forma de um diáfano véu como o de uma nubente de algum misterioso espírito da floresta. A névoa que se levanta do seu respingar nas pedras roliças, são a tênue tela iluminada pelos raios de sol que permeiam as copas das árvores, para pequenos arco-íris, efêmeros visitantes que dão ainda mais graça e beleza a este cenário sem par. A umidade do ar acaricia nossa pele e penetra nos nossos pulmões, levando ao nosso sensório o frescor e o perfume da água, portador daqueles de bromélias e de flores silvestres. Aos pés de todas assim existe um lugar onde podemos banhar-nos em suas águas sempre frias, mas que renovam e estimulam as energias do corpo e da alma. Por vezes, neste lugar, podemos receber sobre o nosso corpo a carícia das águas que despencam de pouca altura. Assim são as cascatinhas que conhecemos já na infância, cuja lembrança tornamos sublime e guardamos por toda nossa vida.
  • 53. 56 Atração quase fatal O centauro Quirão, cansado de sua atividade docente na Tessalia, com enfaro de ver sempre as mesmas paisagens montanhosas da região e também movido pela sua curiosidade em conhecer o mar, resolveu descer do altiplano em busca do oceano que jamais vira. E, enquanto descia as vertentes verdejantes e sinuosas, pensava: - Que aberração eu ter nascido metade homem, metade cavalo. Sinto falta de uma companheira, mas o que ela seria? Uma bela mulher ou uma fogosa eguinha? Nenhuma delas iria me aceitar como sou. Foi quando, ao galgar a última colina, deparou-se com a extasiante visão do verde oceano sem fim, para onde quer que ele olhasse. Assombrado, atentou para os detalhes daquela maravilha sem par: a sua fluidez, a sua cor verde esmeralda, o seu suave odor, as imponentes vagas desfazendo-se em alvas e delicadas espumas. Ao se aproximar da praia, encantou-se com matizadas flores e arbustos que nunca houvera visto na montanha. A areia morna foi um convite para que ele se ajoelhasse sobre ela enquanto, extasiado, escutava o murmúrio do mar. Então, como que por encanto, surgiu das águas a figura de uma linda mulher: olhos verdes da cor do mar, longos e sedosos cabelos negros, torso nu exibindo um belo par de seios. Cantava uma canção que, misteriosamente, o atraía em direção ao mar. Foi quando, ao refluir uma vaga, ele pôde ver que ela também era um pouco como ele: seu corpo, da cintura para baixo, era o prateado corpo de um peixe. Ela era uma sereia! Fascinado por aquele ser encantado, esteve a ponto de não resistir ao insistente e melodioso convite que ela lhe fazia para ser o seu amor, para ir viver a ventura de uma vida a dois nas profundezas do oceano. Lembrou-se, no entanto, do que poderia resultar de tal união: qual seria a aparência dos seus prováveis descendentes? Um pouco ser humano, um pouco um eqüino, um pouco um peixe? Assim, tal como Ulisses fizera colocando cera de abelha nos ouvidos e se fazendo amarrar ao mastro do seu navio para não sucumbir àquela atração fatal, Quirão resistiu ao mavioso canto daquela formosa sereia. José Warmuth Teixeira
  • 54. 57 Karin Schmidt Rodrigues Massaro Médica hematologista - São Paulo - SP Insônia III A noite me assalta com suas asas imperceptíveis e abduções plausíveis. Eu indefesa e lépida, sigo de forma intrépida nos deleites suavizados de deuses, todos irados. Sigo e vou, meio assustada. Noite adentro, inusitada, cheia de indignação e pormenores sem razão. A noite me arrebata com suas formas esguias e aparições fugidias. Eu indefesa imploro, plangente, eu oro para o dia me sorrir, me resgatar, me reunir. Preciso me acordar. Preciso me determinar. Preciso dizer:eu inflamo! Preciso dizer: eu o amo! O refluxo Seguro o verso de amor. Aperto-lhe a jugular. Desfaço esse “eu te amo” na folha de rabiscar. Esses versos, eu odeio. Meu excesso, eu repudio. Sangue é de permeio. Seu amor é fugidio, Sempre ao além, mas em rumo certeiro ao que lhe convém. E ao ego por inteiro. Seguro esse pranto esse remédio pesado. Meu amor é tanto que é regurgitado.
  • 55. 58 Karina Lorena Sara Iza Médica - Buenos Aires - Argentina Os cedros de Deus Ali estava, à sombra dos que lhe faziam sombra, tentando crescer para atingir o sol. Como não iam secar-se seus ramos, se estava tão longe de sua amada terra? Tudo era tão diferente aqui. Ruído. Contaminação. Até os pássaros que pousavam em seus ramos eram estranhos e acima se obstinavam em construir os ninhos em seus braços. Havendo tantas outras árvores aonde ir pousar, porque tinham que escolhê-lo justo a ele? Não se davam conta de que estava morrendo? Morrendo de pena. Talvez a forma perfeita de seus ramos despertasse o desejo de cobrir-se ali, à sombra. Eles estavam localizados em capas alternadas, partindo todos de um guia central que lhes dava suporte, o magnífico tronco. Em realidade eram perfeitos para cobrir-se de neve, mas onde, se em Buenos Aires nunca neva! Certamente na distante terra de onde ele provinha, longos meses de sua vida os passaria cobertos da branca manta que nem o sol conseguia derreter apesar do seu esmero. Como não ia estranhar tudo aquilo? Era tão jovem então… Mas sem nenhuma dúvida, o que mais o torturava e dali a razão de sua morte interior traduzida em seus ramos secos e sua folhagem sem brilho, era a saudade da brisa do mar. Sim, o cheiro do sal misturado com as algas era como o oxigênio para ele, imprescindível para viver. Sua distante presença havia se tornado insuportável. E verdade que de vez em quando, sobretudo os dias de grandes tormentas quando os ventos sopram do sudeste, podia consolar-se com uma rajada símil marítima que provinha do rio. Mas não era o mesmo. Só intensificava mais e mais seu desejo de voltar a sua terra, de poder absorver junto ao sol do Meio Oriente o cheiro do Mediterrâneo. Enquanto… seguia morrendo, desarraigado embora suas raízes estivessem firmemente aferradas a esta terra, que não era a sua terra. A cidade o havia acolhido, exibindo-o numa das praças mais bonitas. No entanto ele se sentia tão longe… Faziam-lhe falta suas montanhas, seus vales, seus cheiros, seu entardecer no mar. Cada vez que o vejo ali, rodeado de estranhos, tentando sobreviver, lutando por alcançar um sol que é o mesmo, mas é tão diferente ao sol de sua amada pátria, lembro-me do meu avô. Porque esse majestoso cedro do Líbano lembra-me dele. Ali, digno em meio da selva urbana que em nada se assemelhava ao seu lar. Desejando poder estar em seu querido país, com o som das suas ruas, o calor de sua gente, o cheiro de suas comidas e seu entardecer marinho. Não posso outra coisa mais que derramar lágrimas. Lágrimas de tristeza, porque agora eu posso compartilhar sua dor. A dor de estar longe. A dor de haver sido arrancado da sua própria terra. A dor de não poder estar ali, nas majestosas montanhas do Monte Líbano, tão alto como os cumes o permitam, tão perto do céu e junto a eles: os Cedros de Deus.
  • 56. 59 De feridas e solidões Anoitecia. O sol se estava escondendo sobre a linha do horizonte, quando decidi descer à praia. Era primavera é, no entanto uma bruma densa começava a flutuar no ar, vinha do mar. Lentamente ia apoderando-se de tudo. Sentei-me sobre a areia em um lugar seguro ao abrigo do vento, que já começava soprar com um pouco mais de intensidade. Estava tão agradável. O cheiro ao sal, o som do mar, as gaivotas... Percebi de repente: estava só nessa imensidão. Os pescadores haviam-se ido deixando o cais vazio, em mãos da bruma que cada vez o envolvia mais e mais. Um estranho sentimento começou a invadir-me. Não era medo. No entanto, nunca antes o havia experimentado. Fiquei sentada. Por alguma estranha razão, não tinha vontade de abandonar meu lugar. Esperava... A bruma seguia avançando, agora já cobria até a metade do cais de pescadores. Estava absorta nos meus pensamentos, quando algo chamou minha atenção lá ao longe, no oceano. Era surpreendente poder visualizar algo com essa espessa manta branca. O pequeno ponto preto estava ali, sem forma, sem vida, na linha do horizonte. Novamente invadiu-me esse estranho sentimento, uma mistura de inquietude e angústia, mas desconhecia sua origem. O ponto no horizonte crescia, fazia-se cada vez maior. Seria que estivesse acercando-se? Olhei aos meus arredores e dei-me conta que já havia anoitecido. O vento parecia haver-se aplacado. Era uma bela noite. A figura estava agora mais perto, embora ainda não a podia distinguir com claridade. Não sei com exatidão quanto tempo transcorreu, foram-se minutos ou horas, mas de repente ali estava em frente de mim. Majestosa. Digna. Imponente. Uma enorme baleia branca. Fiquei paralisada desde minha poltrona na areia. Nunca havia visto um animal de semelhante beleza e magnitude. Agora estava ali, em frente de mim. Só nós duas, na praia de Pinamar. Em Pinamar? Como era possível que uma baleia pudesse chegar até a costa de Pinamar? A temperatura da água não é tão fria quanto elas necessitam. Além disso, onde ela estava não era tão profundo. Cheguei a pensar que estava alucinando, ou que havia me adormecido e só era um estranho sonho. Mas não. Um doce e desgarrado lamento trouxe-me novamente à realidade. Parecia como se ela quisesse me dizer algo, algo que eu não chegava a compreender. Uma triste olhada apenas assomando pela superfície da água, refletia minha imagem estática na areia. Era estranho como apesar da bruma, eu a podia ver com tanta nitidez. Parecia uma paisagem mágica, como saída de um conto. Voltou a emitir esse som, que chegou até mim com uma força tal que me paralisou. Uma mistura de piedade e angústia apoderou-se de mim. Esse estranho ser que me olhava desde o oceano estava sofrendo e eu o podia sentir dentro de mim. Um vínculo profundo havia se estabelecido entre as duas. Esqueci a noção do tempo. Uma luz começou a avançar pela areia. Um pescador noctâmbulo vinha tentar sorte na noite. Quando voltei minha vista ao mar, ela moveu-se apenas para poder submergir-se, sigilosa, imperceptível. E de repente o vi. Rígido sobressaia desde seu lombo, cortando a superfície da água. Um arpão. Meu coração desgarrou-se e já não a voltei a ver. No dia seguinte decidi acordar bem cedo para fazer a denúncia na prefeitura naval. Talvez a poderiam rastejar desde a costa com helicóptero ou com uma lancha. Se estivesse ferida, não poderia chegar muito longe. Ainda estavam tão vivas as imagens da noite anterior. Preparava meu café da manhã, enquanto lia o jornal local para saber as notícias regionais. Algo chamou minha atenção. A manchete dizia: “Pesqueiro japonês é detido pela Prefeitura Naval Argentina pescando fora da área permitida ao sul de Mar del Plata”. Uma foto ilustrava a nota. Nela via-se exposto, como um estandarte já sem vida, o pequeno corpo de um baleato. Karina Lorena Sara Iza
  • 57. 60 Luiz Giovani Médico pediatra - São Paulo - SP O soco Aquela manhã de verão bem que prometia. Nosso personagem principal é médico otorrinolaringologista e segue com a esposa e o filho em direção ao clube de campo. Subida de serra, curva daqui, curva dali, até que aconteceu: um maluco vem pela contramão, em ziguezague, pneus cantando no asfalto e, então, a batida. Nada muito grave, pequenos amassados na frente, um farol quebrado, nenhuma vítima. Nervos à flor da pele, xingamentos pelos ares, ambos descem dos carros. Nosso doutor, branco como cera, caminha com passos firmes em direção do maluco. O choque é inevitável: um belo soco bem no nariz quase põe o homem nocaute. As pernas bambeiam, ele cai de joelhos e o sangue escorre pelo queixo já manchando a pista de vermelho. — Droga, você quebrou meu nariz, filho da mãe... Nosso médico, de imediato, se arrepende da agressão: afinal o maluco está alcoolizado. — Venha cá, senta aqui no barranco, me deixe ver o estrago... Constatada a fratura do nasal, o tratamento se impõe. — Agüenta firme que não vai doer nada... Dedos ágeis, acostumados aos plantões de pronto-socorro, num só estalo logo colocam o osso em seu devido lugar. — Pronto, a redução está ótima. Mais tarde, na delegacia, cumpridas as apresentações, o delegado insiste com o nosso maluco: — Moço, pare de reclamar e agradeça aqui o doutor que consertou o seu nariz... que sorte a sua bater no carro de um otorrino...
  • 58. 61 Órbitas Posso entrever duas pequeninas estrelas que me aquecem. Cintilam no céu dos teus olhos e são fagulhas a incendiar meus pecados capitais. Impuros desejos se agitam em meu peito, mansos, insaciáveis, silenciosos. O que mais importa, se o universo está na imensidão do quarto? Todos os astros ali se aninham em reverência aos corpos unidos, celestialmente. Silêncio abissal no vazio íntimo do cosmos. Queima- nos o calor da explosão primordial na pele úmida e, aos poucos, apaixonadamente, se dissipa sem pressa nem pudor. Ninguém nos afeta em nossa intimidade, nada tem começo ou tudo tem fim. Longínquos passados estão presentes em futuras galáxias que nascerão de nossos demorados beijos e carícias. Braços e mãos indolentes, satélites, circundam a terra fértil dos abraços enquanto a luxúria, em brasa, exorbita-nos. Indagas com teus dedos onde gravitarão meus pensamentos, perdidos noite afora. Por um momento sou astro-rei e desfruto a vida eterna dos deuses, nascendo e renascendo a cada instante. Nossos mundos docemente se contraem, num só universo em expansão. E, no firmamento das paredes, somos duas sombras contorcidas de fantasmas estelares, levianos, impudicos. Mil e uma noites, nebulosas, se condensam na poeira de estrelas anãs. Então, até a luz, em feixes, se aquieta como a réstia descuidada da manhã, a nos espiar pela fenda da janela. Esquivam-se as horas lá fora, enquanto nós dois, enredados no amor, preguiçosamente permanecemos. O tempo não existe. Luiz Giovani
  • 59. 62 Luiz Gondim de Araújo Lins Médico psiquiatra - Rio de Janeiro - RJ Revelações Se queres o purgatório, busca o céu; se procuras a verdade, rompe o véu; se sabes a resposta , a pergunta evita. Assim como o inverno não perdura, amor verdadeiro dispensa jura, nos desperta e ainda nos agita. Amor existe no pranto da criança, no movimento frenético da dança, no sol quando levanta e quando deita. Na ansiedade que nos percorre, abraço que socorre, emoção que nos estreita. Amor, a qualquer instante explode; chega sem perguntar se pode e muda tudo num repente. Termina a acomodação, começa a loucura, relâmpago e trovão em noite escura. Comigo, contigo, com tanta gente.
  • 60. 63 Solidariedade Foi um estudante aplicado, não perdia aula, passava tudo a limpo, relia, enfim, estava sempre preparado para as sabatinas que, por vezes, eram de surpresa. Usava óculos de lentes grossas, gostava de ler à noite, não praticava nenhum esporte, estatura baixa, magro e feio. Perfil típico do CDF, apelido que o acompanhou ao longo da vida universitária. Tinha bom caráter, altruísta, tímido e muito carente. Os pais eram rígidos, pouco afetivos, cobradores; de certa feita levou uma bronca por ter tirado 8 numa prova de matemática. Não mamou no peito e passou alguns anos em colégio interno. Religioso, fora batizado, crismado e fizera a primeira comunhão. Rezava diariamente e pedia pelos pais, parentes e amigos, jamais para si mesmo. Ainda no curso primário começou a se interessar por aranhas, procurando ler e saber tudo sobre elas. Anotou e jamais esqueceu que são animais articulados da ordem dos Araneides, classe dos Aracnídeos, grande abdômen, quatro pares de patas ambulatórias no cefalotórax, geralmente com oito olhos e providos de fiandeiras. Passava horas observando a locomoção, hábitos, elaboração das teias, em suma, tudo referente a elas. Admirava a paciência e a determinação, como se alimentavam, os períodos de repouso e de grande atividade, a astúcia da fêmea ao atrair o macho para a cópula e, não raro, eliminá-lo em seguida. Aliás, na escala animal superior, tal fato se reproduz com incrível regularidade. Após a satisfação da fêmea e garantida a reprodução, o macho que se dane. CDF, não por coincidência, tinha o nome de batismo de Cornélio Delgado Ferreira. Amadureceu a idéia e se preparou, com afinco, para o vestibular de Biologia. Passou em primeiro lugar, com retrato publicado nos jornais, em oportuna e proveitosa propaganda de seu curso pré-vestibular. Já na faculdade dedicou-se, acima de tudo, à zoologia, especialmente aos aracnídeos. Tornou-se amigo das aranhas, íntimo, com elas até conversava. Formou-se e se tornou uma das maiores autoridades em aranhas no Brasil e nas Américas, sempre ampliando e aperfeiçoando conhecimentos pertinentes ao assunto. Em uma de suas conferências foi procurado por uma jovem universitária, impressionada e atraída pelo saber do mestre. CDF se interessou, deu-lhe aulas, aperfeiçoou-a, passou a pensar muito nela, esperava com ansiedade sua chegada. Em pouco tempo ela se declarou apaixonada, entregue. CDF vibrou em doces arpejos. Alguns dias depois foi convidado para um jantar na casa de Virgínia. Namoro, noivado e casamento decorreram em menos de 6 meses. A vida conjugal, no entanto, foi se deteriorando rapidamente; ela adorava sair, ele sempre absorvido pelo trabalho. A paixão da mulher começou a se diluir qual fumaça, desencantou-se com as ausências do marido, que passava os dias entre a faculdade e o laboratório, onde procedia a inúmeras experiências, fazendo anotações, elaborando teorias. Em verdade, as aranhas ocupavam quase todo o seu mundo; sem elas a vida não tinha graça. Virgínia ainda tentava conversar, trazer o marido para a realidade, lembrava as obrigações conjugais, tudo em vão. CDF ouvia em silêncio, concordava com um ligeiro movimento de cabeça e nada mudava. O tédio, o cotidiano, as carências, o inconformismo foram ingredientes poderosos e perigosos na cabeça e no corpo daquela jovem e saudável mulher.Até que aconteceu o inevitável: conheceu outro homem e buscou sobreviver mergulhando no adultério. Tudo fora uma questão de tempo. Luiz Gondim de Araújo Lins
  • 61. 64 A vida do casal até melhorou, pois a mulher não mais questionava, afinal, canalizara a libido em outra direção. Há adultérios que beneficiam o casamento, promovem a paz, cessam as cobranças. Embora as aranhas absorvessem quase tudo da atenção de CDF, ele não ficara cego por inteiro. Começou a notar que a mulher passou a se vestir melhor do que nunca, perfumes franceses, meias pretas, horários irregulares; nos raros momentos em que faziam sexo, ela demonstrava pressa e desinteresse. Na cabeça do homem a dúvida se fez certeza com a chegada de uma carta anônima endereçada a CDF, plena em detalhes da vida de uma adúltera, a sua mulher. Apesar de tudo, CDF tinha boa fé, acreditava nas pessoas, jamais traíra a alguém. O sabor amargo foi ganhando corpo, exigindo espaços, corroendo os pensamentos do professor, faziam-no sofrer (mesmo quando não se ama, a traição é cruel). Por esta época fora convidado para um congresso pan-americano de biólogos, na Venezuela, onde apresentaria tese erudita e revolucionária sobre “conduta das aranhas quando submetidas a stress prolongado.” Outra, ainda, versava sobre “solidariedade e submissão das aranhas às pessoas que delas se ocupam”. Seria a consagração do mestre brasileiro. Ao saber da viagem, Virgínia ligou para o amante, convidando-o a ir dormir na casa dela, naquela noite, quando o marido estaria viajando. O amante chegou, eufórico, pronto para uma noite de libidinagens. Beberam e riram muito, CDF foi motivo de piadas e gozações bem grosseiras. Virgínia foi tomar banho, um banho prolongado de banheira, com leite de cabra e essências afrodisíacas. O homem, cansado de esperar, foi ao banheiro, tomou um baque: a mulher agonizava, sem salvação. Ele olhou em torno e viu, horrorizado, deslizando e passando do basculante do banheiro para a cozinha, uma Viúva Negra tranqüila, na certeza do dever cumprido com o amigo ausente e tão querido... Machista Filho de um rico fazendeiro do interior habituara-se, desde cedo, a presenciar a ascendência do pai e a submissão da mãe. Assim, possuía pela herança e também pela convivência social, a firme convicção da superioridade do homem sobre a mulher. Além do mais, fora o único filho e suas três irmãs sempre exerceram papel secundário naquela família. Ele cresceu e se desenvolveu esnobando as mulheres, usando frases de efeito, que não eram suas, mas que ele adotara e incorporara ao seu vocabulário, tais como: “uma mulher é como um charuto: é preciso acendê-lo várias vezes” ou então: “se você tem medo da solidão, não se case”. Mas o fato é que ele se casou com uma jovem da cidade, muito bonita e também muito pobre. Ele possuía dinheiro a rodo, mas tinha um defeito: uma perna mais fina, seqüela de paralisia infantil, não tomara vacina, pois o pai não autorizara por achar uma bobagem. Coisas da vida, os contrastes se buscam: o rico e a pobre, a bela e o feio. Desde que se conheceram, ele impôs e ela aceitou seu acendrado machismo, inclusive com dois pensamentos emoldurados, um no quarto do casal e outro na sala de visitas, com os seguintes dizeres: “as mulheres são como a sopa, não se deve deixá-las esfriar” e “o amor é um esforço que o homem faz para se contentar com apenas uma mulher!”. Ele decidia sobre tudo dentro de casa, só ele falava alto, nem conta bancária a mulher possuía. Luiz Gondim de Araújo Lins
  • 62. 65 Numa das reuniões que deu em sua bela mansão, para a qual só convidara amigos machistas, já tocado pelo álcool, proferiu um pequeno discurso, arrematando com as seguintes palavras: “Não há nada no mundo pior que uma mulher, a não ser uma outra mulher”. Os aplausos foram delirantes em meio aos gritos e urros dos amigos; sua pobre esposa só fez baixar a cabeça. Após mais algumas doses de whisky, deu a última mensagem daquela noite: “as mulhers são mais castas nas orelhas do que no resto do corpo”. Sucesso retumbante! Foi carregado em triunfo e lhe foi concedido o título, por unanimidade, de “O REI DOS MACHOS”. A esposa passou a noite em claro, remoendo-se de ódio, seu limite fora atingido e ultrapassado, sentiu-se tomada por um novo, irresistível e temível sentimento: o ressentimento. Ele pulsou em suas veias, revolveu as entranhas, conturbou o cérebro. Amadureceu sua vingança e a pôs em prática: teve relações sexuais com diversos homens que estiveram em sua casa naquela maldita noite. A cada um deles ela dizia e repetia: “certas mulheres amam tanto seus maridos que, para não os gastar, elas usam os de suas amigas”. Certa noite, ao chegar em casa, o machista estranhou o silêncio reinante, chamou pela mulher, gritou, nenhuma resposta. Em cima da mesa da sala de jantar achou um bilhete com uma letra que logo reconheceu. Assim dizia: “Você é uma droga como homem e o mesmo não pode dizer de mim, pergunte aos seus amigos. Vocês não são de nada, não passam de pobres objetos descartáveis”. Assinado A VINGADORA. Mundo encantado Percorrendo o perímetro da solidão, não mais com ela se assustou, segurou o velho violão, soltou a voz, exorcizou. Junto à letra brotou a melodia, em ré maior bem tangido, evocou a hora, o dia, libertou o eu sofrido. Foi quando o galo cantou, ao seu canto se juntou num dueto tão afinado, que a lua se debruçou, uma lágrima derramou, o mundo tornou-se encantado. Foram chegando outras solidões, entoando belas canções em quadro jamais pintado. Surgiu novo caminho, ele deixou de ser sozinho em sonho nunca sonhado. Luiz Gondim de Araújo Lins
  • 63. 66 Luiz Jorge Ferreira Médico clínico - Osasco - SP Telhados O gato é que se assusta quando eu o assusto com meus miados eu também arranho o vidro da janela eu também adoro afiar minhas garras perder meu olhar em direção a lua enterrar minhas saudades em buracos escuros e uivar comigo e em mim de um jeito estúpido e azul. A rua é que se cala quando eu calo meu grito qualquer assovio polui minha retina com traços curtos e tortos não ligo para os sussurros, doces amargos, que mancham os retratos de riscos meus espasmos amorosos e que amolecem os postes e sobem nos muros adiante das casas, adiante das caras e defronte dos espelhos. Eu volto para os telhados agora molhados da língua de Deus e escrevo palavras roucas e rotas sobre nós sobre nossos filhos, sobre nossos pêssegos podres, sobre nossas frestas abertas sobre o eco dos abismos e gozos. Quando ouço o barulho da noite pulo e uivo. É o gato que se assusta quando vomito quase lilás e me aquieto a lamber minhas feridas até que a alma sare. Aí, ele furioso me arranha, e eu o arranho do avesso ao contrário. Sangram os miados, que eu escondo entre os nós do cajado, com que açoito a solidão.
  • 64. 67 Meia volta, volver! Por mim a gente tocava fogo e queimava todos os barracos. O tenente olhou-me como se me visse pela primeira vez. Não estamos mais na guerra da Alemanha. Em seguida cuspiu mais uma vez no chão, um cuspe cheio de saliva e tabaco. E Fulminou-me com o olhar. Os homens continuam lá dentro, esbravejou. Mas tocar fogo nos barracos vai matar muita gente inocente. Eu tirei o boné e bati na palma da mão levantando a poeira acumulada desde a segunda-feira, quando saímos de Lagoa dos Índios. Maldita hora que não aproveitei minha folga e sumi das proximidades do Quartel. Fora aquele maldito alerta e estávamos agora deitados cercando uns malditos aglomerados de matutos, que teimavam em se acharem donos daquelas terras secas e amaldiçoadas. Os urubus caminhavam saltitantes pela terra cercando os corpos das montarias mortas há três dias, quando do primeiro tiroteio. O tenente rastejando era cômico, manchara a calça num monte de esterco e hoje aquela laca parecia uma tatuagem seca no fundo azul de sua farda. Por mim tocávamos fogo, ergui a mão soltando um punhado de capim seco que voou rumo ao povoado levado pelo vento que soprava forte. Com um pouco de sorte e um palito de fósforo estes cabras vão ter que se entregarem ou assam como cabritos. Um rosto assomou pelo vão da janela. Estava com o rifle em mira, avistei os olhos encovados, abertos, assustados, em cada lado da mira, fiz pressão no dedo e tum... tum. O rosto saiu da nossa visão como atingido por um soco. Bom tiro, cabo! Este não come mais feijão. Olhei para o soldado ao lado, mostrava todos os dentes manchados de cárie e um pedaço de palito dançando entre eles. O cartucho saltou no meio de umas pedras e peguei-o com a mão para cheirar seu perfume de pólvora queimada. Daí então caiu a tarde e ninguém viu mais ninguém. A ordem da capital era não avançar, eles estavam sitiados, a água que tinham não podia durar muito e a cacimba que ficava a meio quilômetro distante do povoado, fora dinamitada e coberta com pedras. Um sargento mais desalmado trotou com nossos animais sobre a plantação de milho e feijão destruindo tudo e colocou veneno na carne que atirou para os cães, espantou as aves. Morreriam de fome ou de sede. Levantei as mãos. Aproximei do rosto o palito de fósforo aceso e acendi o cigarro, traguei a fumaça. Éramos uns cinqüenta homens armados até os dentes, até mesmo um pequeno canhão que permanecia adormecido na praça do quartel fora amarrado em dois burros velhos e trazidos, a muito custo. Notei que a barba crescera e que aquela paisagem hostil parecia agora minha velha conhecida. No dia anterior viera o coronel dono das terras e nos oferecera um bom almoço, distribuíra pinga, carne de sol, rapadura e uns rolos de tabaco. Um homem fino, disse o tenente, muito à vontade entre a cachaça e o tabaco. E entre uma cuspidela e outra o abraçava como se faz a um velho conhecido. Depois de tanta festa hoje parecia triste nosso acamamento. Furei uma joaninha que corria pelo chão com a ponta da faca. Lancei o resto do cigarro longe com um movimento de catapulta nos dedos médio e polegar. À noite o fogo tomou conta do cerrado e os homens morreram abraçados com suas mulheres e filhos. De manhã cedo o burro da direita que puxava o canhão, caiu num buraco e tivemos que sacrifica-lo. Voltamos os dois, revezando sobre o único cavalo sobrevivente. Chegamos exaustos. O tenente morreu. Em agosto fui promovido. Luiz Jorge Ferreira
  • 65. 68 Oriente Deus acabou de criar-me e cuspiu. Eu saí manco, correndo, tropeçando, desdentado, anão. Por sorte duas mulheres nuas Jogando pedras na lua Deitaram-me entre elas e eu mamei. Elas, cataram meus piolhos, teceram fios com os meus pêlos, E com meus olhos fizeram dois candeeiros Que acenderam entre o sul e o sol. Primeira manhã. Minha irmã catava manhãs frias Colhia sobras de outros dias E mastigava avelãs Fazia um barulho azedo Preparava-se para menstruar quando morreu. Primeira tarde. Primeiro passaram os cavalos Magros, cheios de carrapatos, As patas sujas de quilômetros Os dentes sujos da fome O dorso manchado de chicotes Vinham do norte, como eu. Primeira noite. Bêbado de orgasmo Tatuado de abraços Mudo de palavras Cego de ver Quis dormir. As duas mulheres faziam chá Cobri-me com minhas mãos agora já tatuadas da tua Apanhei um pirilampo azul Olhei para o horizonte desenhado a mão Havia um torto Equador Era minha irmã que paria de cócoras para o oeste Uma noite escura cheia de latidos de cães Gemidos e demorados uis. Fingi que morria e dormi. Epílogo Nunca mais acordei. Quando Deus me procurou Eu me escondi dentro de mim E nunca mais me achei. Luiz Jorge Ferreira
  • 66. 69 Marcos Gimenes Salun Jornalista - São Paulo - SP Sobre quixotes, panças, gigantes, moinhos de vento e outras quimeras... No ano de 2005, em que se comemora quatro séculos do lançamento desta que é uma das maiores obras ficcionais de toda a literatura universal, me ocorreu dar uns “pitacos” na magistral criação do “colega” Saavedra, com perdão pela ousadia e pelo mal entendimento das coisas. Mas faço isso somente por ter me certificado, mais uma vez, de que a vida imita a arte. E esta àquela, tanto faz... Cada vez mais me convenço que Miguel de Cervantes de Saavedra foi humilíssimo quando, dirigindo-se em carta ao Duque de Bêjar, Marquês de Gibraleão, Conde de Benalcázar y Banhares, Visconde da Puebla de Alcocer, Senhor das Vilas de Capilha, Curiel e Burguilhos, apresentou e pediu proteção à obra que estava disposto a trazer à luz, qual fosse: “As aventuras do engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha”. Mal sabia o “colega” escritor Miguel de Cervantes Saavedra, nascido em Alcalá de Henares em 1547 e morto em 1616 em Madrid, Espanha, o que resultaria de sua respeitosa missiva, embora esta já viesse com um ar um tanto arrogante quando pretendia que seu livro fosse “...o mais formoso, o mais galhardo e discreto que se pudesse imaginar...” De formoso e galhardo o livro teve tudo, isto é verdade. De discreto, porém, Dom Miguel não teve nada, pois se intrometeu em tanta coisa íntima dos leitores dos quatro séculos que o sucederam, que valeria escrever um tratado a respeito. Semelhantemente aos personagens de Cervantes, há hoje em dia um número cada vez maior de seguidores de sua obra, o que a perpetua e a conduz a esse patamar inigualável de quatro séculos na lista dos 10 mais lidos. Não falo somente de leitores, nem do livro, mas de pessoas que, influenciadas por sua narrativa, tenham assumido as “personalidades” de suas personagens. Há aqui uma sutileza psicológica ímpar que decerto não será decifrada por um leigo como eu. Portanto, me abstenho de qualquer julgamento nesse sentido. Citar exemplos dessas “condutas quixotescas” seria algo muito interessante, mas bastante temerário. As verdades não costumam ser aceitas pacificamente pelos que se investem dessas personagens, devido às cômicas enrascadas em que acabam se metendo. Por outro lado, poderíamos ter perigosas recidivas, o que por si só desaconselha qualquer citação contemporânea. Obrigado, mas não precisamos mais das sandices do cavaleiro da triste figura e de seu fiel escudeiro, exceto nas imortais páginas escritas por Miguel de Cervantes. Na sua tresloucada paixão pela defesa dos valores morais, Dom Quixote se eriçou contra uns tantos moinhos de vento que encontrou em seu caminho, supondo-os terríveis monstros. Talvez seja esta a parte mais lembrada de toda a sua epopéia. Quem sabe a mais significativa. Endoidecido pelas leituras dos intermináveis feitos dos cavaleiros andantes da literatura medieval, aquele pobre e provinciano cinqüentão também decidiu-se por se tornar um errante, afim de “endireitar os tortos e
  • 67. 70 desfazer agravos e sem-razões”. Para isso constituiu um séqüito formado por um campônio, seu vizinho, a quem deu status de fiel escudeiro e de um pangaré, a quem garbosamente denominou Rocinante. Uma bacia de barbeiro serviu-lhe de elmo e toda sua epopéia foi dedicada a uma simples camponesa de sua região, transformada na donzela Dulcinéia de Tomboso, por quem lutaria até a morte. Creio que a história de Dom Quixote e de seu fiel escudeiro não se perpetuou somente pelo seu mágico e utópico enredo, mas também pelas mensagens que pretendia transmitir, embora Saavedra nem suspeitasse delas naquele momento. Vejam que sábia é a arte! E vejam quão susceptível ela é a imitações pela vida e pelos viventes ao longo do tempo. Talvez pudessem ser contadas aqui, a título de ilustração, algumas histórias de uns tantos quixotes e panças contemporâneos que, como cavaleiros andantes, se lançam contra monstros irreais e imaginários, querendo parti-los ao meio com um só golpe de espada, ou lutando sem esmorecimento contra cem ou duzentos outros deles de uma só vez. Talvez pudesse se falar um pouco de inatingíveis donzelas, sempre recolhidas em seus claustros e vendo o mundo atrás dos frestados de suas janelas, mas permanentemente em perigo e sempre ameaçadas por vilões perversos. Mas seria perda de tempo e uma inútil deturpação de aventuras semelhantes, tão bem contadas pelo soldado Miguel de Cervantes que, na infernal batalha de Lepanto, em 1571, quando a Cristandade recuperou o controle sobre o Mediterrâneo, portou-se valentemente. Só que foi atingido por um tiro do arcabuz de um turco que lhe secou a mão esquerda, frustrando-lhe assim o grande desejo de brilhar como soldado. Sorte nossa, pois a partir de então Cervantes dedicou-se a enfeitiçar milhões de leitores pelo mundo todo, com suas proezas desastradas e hilariantes, fazendo de sua obra o maior legado do humanismo espanhol em todos os tempos. Sou avesso a um grande número de vídeo-games violentos e sem sentido, que só instigam uma parte muito superficial e completamente dispensável de nossa suprema inteligência, embora tentem acirrar nosso raciocínio lógico. Da mesma forma sou avesso aos cavaleiros andantes modernos que vêem em qualquer moinho de vento um monstro terrível e maléfico, e quando pensam que o divisam, atiram a esmo, sem receio de qualquer conseqüência que possam causar aos que nada têm a ver com sua fúria injustificada... São inúteis, tanto uns quanto outros! Para não precisar pensar neles como um perigo, há que deixá-los guerrear para que não percam a armadura e mantenham algo da dignidade que julgam ter e defender, embora esta se desvaneça em cada vão embate que empreendam. É preciso esperar com paciência que recuperem a lucidez. Foi assim com o legítimo Dom Quixote, que, estando no leito de morte ditando seu testamento, readquiriu a identidade prosaica de Alonso Quijano, o Bom, e passou a distribuir com bondade e benevolência os seus bens entre aqueles que o amaram com lealdade, a começar, naturalmente com seu querido Sancho Pança, a quem prometera dar uma ilha para que pudesse governar. E lá se vão quatro séculos da criação desta magnífica história... Aliás, agendei mais uma re- leitura de Dom Quixote de La Mancha assim que pensei em escrever esta crônica. Estou apenas no começo de minha nova aventura pelos cenários desse cavaleiro andante, quatrocentos anos depois. Marcos Gimenes Salun
  • 68. 71 Marcos Gimenes Salun Virtualmente Há lapsos de tempo em que nos distanciamos sem a menor cerimônia ou satisfação, partimos. Sempre numa hora incerta e rumo desconhecido. Como a sombra que foge em dias sem sol. Mesmo que todos tenham consciência da sombra. E depois, quando por acaso nos reencontramos, colocamos culpa em tudo, menos em nós, pela nossa virtual incapacidade de manter os elos, que com muito tato e zelo um dia conquistamos. Mesmo que saibamos ser tudo uma grande mentira. Nossa cumplicidade foi só momentânea, escondida por trás de nossa diuturna tela fria. E todas as confidências quedaram perdidas em infinitesimais medidas de cabos óticos. Mesmo que tudo parecesse tão modernamente puro. Nos olvidamos dos dedos a buscar palavras e das horas incertas sobre os inertes teclados, na vã ilusão de traduzir medos e anseios, dores e culpas. E simplesmente nos afastarmos do nosso nada real. Mesmo acreditando em algo pretensamente concreto. ...e ainda por cima, fomos reféns do tédio modorrento daquela campainha que anuncia nossa entrada no mundo! Tivemos paciência quando a porta não se abriu de pronto e ficamos aguardando mansamente o mundo começar. Mesmo sabendo que desmoronaria a qualquer instante E hoje, quando nos trombamos novamente nesse limbo, quando podemos nos reconhecer, pois somos secretos, nem parece que temos remorso do que já fizemos, ou que já tivemos tantas confidências a compartilhar. Mesmo que a consciência nos indique desculpas Aí, parece que nem estivemos um dia na mesma trilha, e nem dividimos nossos anseios, glórias e pecados. Nos olvidamos, simplesmente, que fomos todos inquilinos do tempo em que éramos somente distantes promessas, e ausentes. Mesmo que tudo se repita novamente. Só então, seremos tão iguais como antes.
  • 69. 72 De cima do palanque (uma história escrita em outubro de 1981) Se eu fosse o rei, acabaria com a subvenção de políticos desonestos e incompetentes, de empresas desonestas e de seus presidentes. Deixaria apenas a do alimento, especialmente a do pão. Mas somente se eu fosse o rei. Se eu fosse o rei, decretaria a felicidade aos pobres em geral, aos desprovidos da sorte, aos humildes em especial. E permitiria aos descontentes, agirem com liberdade. Mas somente se eu fosse o rei. Se eu fosse o rei, extirparia a propina, tão comum nas repartições públicas e privadas, desta e de outras nações. Só abriria mão à recompensa, honesta, mas pequenina. Mas, veja bem: somente se eu fosse o rei. Se eu fosse o rei, minhas senhoras e meus senhores, eu prenderia todo desonesto em cela bem vigiada, e o ensinaria a recuperar-se, de forma humana e moderada, sem pau-de-arara, choque elétrico ou outro castigo funesto. Mas, digo e repito, somente se eu fosse o rei. E digo mais: se eu fosse o rei, publicaria diariamente somente as estatísticas verdadeiras, notícias exatas e fatos concretos. Não as mentiras costumeiras que são passadas ao povo tão descaradamente. Mas somente se eu fosse o rei. Outra coisa que eu faria se fosse o rei: decretaria extinto o dinheiro, os juros, a correção, os índices nacionais de preço e a dívida externa. E, principalmente, a inflação. Acabaria assim com a bandalheira do sistema financeiro. Mas, peraí! Não acabei de acabar com o dinheiro? Ah, se eu fosse o rei... E se eu fosse o rei, minha gente, obrigaria o povo à democracia, dava-lhe direito de votar no candidato que bem quisesse, e depois de destroná-lo, caso não fosse bom e só usasse demagogia e fizesse bandalheira. Mas, somente se eu fosse o rei. Se eu fosse o rei, seria minha prioridade a habitação, dando a todos onde morar. Ricos, pobres, classe média, e qualquer outra classe que vier a se inventar. E, vejam bem: sem com isto lhes causar a tortura do fantasma da prestação! Mas somente se eu fosse o rei. Se eu fosse o rei, faria coisas maravilhosas, por este povo sofrido, enganado em seu dia a dia. Pobre triste e desnutrido, esperançoso, entretanto, de que um dia aconteçam essas mudanças prodigiosas. Contudo, aquietai-vos! Tudo isto eu faria, somente se fosse o rei. Se eu fosse o rei, faria coisas que nem sei. Para que houvesse uma mudança que o povo gostasse, aplaudisse, e voltasse a ter esperança. Pena que eu sou súdito, não sou rei. E tenho dito! 5555! Julinho para vereador! Esse é o nome que você vai escolher no próximo dia 15! Vote em mim para mudar! Vote em mim para acabar com a pouca vergonha que assola a nossa cidade e o nosso país! ... Julinho ouviu alguns aplausos no fundo da platéia que se comprimia na praça da matriz. Coisa de cento e poucas pessoas, não mais. Esperavam o show da dupla sertaneja que viria a seguir. Ouviam com impaciência a série interminável de discursos em busca de voto. Julinho sabia que era perda de tempo ficar falando coisas, prometendo, ainda mais pr’aquela gente. Seu partido era pequeno, sem dinheiro. No entanto, cumpria o seu papel. Como é que podia convencer aquele povo sem dinheiro pra gastar? Não podia nem prometer condução no dia da eleição. Os outros, com dinheiro na mão, davam dentadura nova, arrumavam empregos, distribuíam pentes, calendários com fotografia colorida... Os alto-falantes atacaram o último sucesso da dupla. O locutor oficial anunciou a presença dos artistas. Julinho desceu os três degraus do palanque, misturou-se ao povo. Um abraço do primo e cabo eleitoral. Foram ao bar do Mané e pediram uma cerveja. Esperaram pelo show. Julinho não era rei. Marcos Gimenes Salun
  • 70. 73 Marcos Gimenes Salun Minha cidade A poesia de minha cidade não requer compassos Pois tudo nela é cacofonia: Cada canto obscuro, cada sombra de viaduto, Cada placa de contra-mão, cada indigente, Cada acidente, cada homem vestido de terno, Cada mulher e cada árvore moribunda, Todas as suas mazelas, todos os seus problemas, Toda sua volúpia, todo seu encanto, Toda sua grandeza, toda sua miséria, Todas as suas cores e todos os seus segredos. É poesia que não acaba mais. A poesia de minha cidade não tem rimas Pois simplesmente não precisa delas. Desenfreada, desvairada, tresloucada, Às vezes louca, outras vezes pouca, Indiferente, indecente, cheia de preguiça, Muitas vezes solidária, noutras tantas omissa. Pra que serve a rima nessa cidade? Ela é tudo, rima com o que precisar e com quase nada. A poesia de minha cidade fica na intenção. Que métrica há nesta cidade sem eira nem beira? Como marcar qualquer ritmo para este lugar? Meninos n’algumas esquinas tampam retrovisores com flanelas Vendendo balas e chicletes; n’outras, há assaltos e assassinatos. Mulheres guardam lugar na fila para por os filhos na escola, E nem sabem o que esperam de seus filhos nem de si mesmas, Mas guardam lugar na fila. Motoqueiros alucinados chutam veículos nas avenidas Abrindo caminho para seu recado urgente, seu ganha-pão. Alguns morrem. Outros não. Tudo é muito desigual. Não há como metrificar esta cidade que precisa respirar. Talvez minha cidade nem precise de poesia ou não queira nenhum verso para si. Quiçá espere apenas um epitáfio.
  • 71. 74 Maria Virgínia Bosco Médica cardiologista - São Paulo - SP Essência versus aparência Há muito venho questionando a atual inversão de valores desta nossa sociedade. É muito triste quando, neste cruel modelo de sociedade de consumo, regida pela ditadura de padrões sociais pré- estabelecidos ao acaso, vemos pessoas escravas dos falsos valores, numa disputa desenfreada por uma posição nas vitrines sociais, muitas vezes empilhadas nas prateleiras, a serviço da lei da oferta e da procura, como se fossemos produtos de grifes, coroados pela demanda dos modismos efêmeros e vazios. Ilustrando com o velho ditado: “Por fora bela viola, por dentro pão bolorento!”. E como são lastimáveis os pré-requisitos que nos levam às prateleiras! Sem eles, na sua maioria frutos da mediocridade material e do demérito pessoal, não podemos sequer observar a referida vitrine. Estou aqui falando da embalagem fraudulenta e compulsória na qual a sociedade tenta nos empacotar, apoiada pela força imensurável da mídia e do interesse econômico, e sustentada pela cegueira quase geral daqueles que acreditam que são melhores só porque jazem nas prateleiras! Será que estamos tão longe de conseguirmos um lugar ao sol, simplesmente por aquilo que realmente somos, pela nobre condição de sermos seres biologicamente dotados de compreensão e sentimentos? Obrigam-nos a representar o papel de “caricaturas de gente”, pessoas-produtos, eternamente jovens, sedutores, lindos, ricos, poderosos, eternos “senhores manipulados”de tudo e de todos!Eis então, o ridículo império da vaidade sobrepujando a aparente fraqueza da humanidade. Não, não podemos nos curvar ao jogo!Como seres humanos que somos, temos o dever do repúdio ao fluirmos nossa essência genuína na direção de um mundo melhor. Sim, temos que rasgar as embalagens que nos sufocam e descer das prateleiras, nem que tenhamos que ficar esquecidos num cesto de “saldão”, na esperança de que um dia o mundo se encante com esta grande liquidação de “gente de verdade”.
  • 72. 75 Retrato Tu tens a pele alva, são negros teus cabelos lisos Tens os olhos enigmáticos, um olhar indescritível... Tu tens sorte, tu tens dono - tu jamais serás sozinha! Tens a eterna juventude... tu tens porte de rainha. Tu não és só um retrato, tu és um raro presente... És tu a pura saudade aos que já te são ausentes! Tu és arte, és relíquia, tu carregas a tua história... Tens redoma, tens moldura, é eterna a tua glória! Tens mistério, tens magia, tu inquietas a sedução! Tu és bela, imaculada, tu remexes a emoção... Tens contigo as virtudes, tens o mundo aos teus pés, Tu tens alma, tu tens peito, tens a força da mulher! Não és tu o meu retrato, pois tu tens tudo o que queres... Mas do muito que tu tens... é tão pouco o que preciso! Quem me dera – Monalisa - se um dia tu me desses... Só o esboço indecifrável deste teu tênue sorriso. Monólogo de maio I A cismar...tarde de maio Sob um sol a me acenar, Te pergunto de soslaio: Por quê estás a me angustiar? II Teu silêncio é insuportável! Tu pões tudo a repousar... Mas o canto dos teus pássaros Faz minha emoção despertar. III Tu fulguras no crepúsculo... Pões o mar a bocejar... Tua flor...tarde de maio... Presenteia Iemanjá! IV Eu te sinto pela brisa... Cheiras pura solidão... Se tens flor, tarde de maio... Por quê não cheiras verão? V Ainda que teu perfume Lembrasse uma quimera... Poderias...tarde maio, Também cheirar primavera. VI No remanso dos teus braços Até tento descansar... Mas meu coração apertado Tu não deixas sossegar! VII Eu te canto...tarde de maio... Qual a voz de um sabiá, De tão triste... lá no campo Resolveu seu mal espantar. VIII Foste embora...tarde de maio... Mas ao relento hás de lembrar! Que à luz do teu poente, Tu me fizeste chorar. Maria Virgínia Bosco
  • 73. 76 A malabarista de sonhos Tarde de inverno. O crepúsculo refletia a névoa fria que pairava sobre a avenida de esquinas e faróis congelados. O movimento de carros era intenso, e a noite da cidade grande já se preparava para abrigar os profissionais da rua, que disputavam o espaço para ganhar a vida. - Vida dura! Pessoas anônimas amontoadas nas esquinas e nos faróis das ruas da vida ,uma vida de guerra, aonde cada um só vale pelo que tem. E o que se tem? Apenas um corpo, tão efêmero quanto o próprio tempo, momentaneamente desprendido da alma, para suportar um destino que nunca fora sonhado. Um farol... um gesto de sedução... um preço fechado. Estava garantida a noite nossa de cada dia! O que levaria àquela escolha? - pensei. Semáforo vermelho. Subitamente à minha frente, uma pequena menina de pés descalços, tentava rapidamente chamar minha atenção. Tinha nas maõzinhas desnutridas dois bastonetes que incoordenados, esboçavam uma acrobacia improvisada e dificultada pela tenra idade. Deixara no meio-fio, sua boneca despida, expectadora assídua de todo seu abandono! Não tinha tempo... antes que o farol se abrisse, carregava a missão de me mostrar sua arte, e obter a justa recompensa por tamanho esforço. Na verdade, não tinha tempo, não tinha infância, não tinha frio... não tinha absolutamente nada, apenas tinha aquela profissão de farol-malabarista da noite - brotada do sonho de ser alguém...e de um dia, enfim, ser “gente”. Sonho que jaz no asfalto da avenida, atropelado pelos carros, toda vez que o farol se abre. Seu precioso tempo de infância, interrompido pelos semáforos das esquinas... -Vida dura! Crianças anônimas amontoadas nas esquinas e nos faróis da vida, uma vida de guerra, aonde cada um só vale pelo que tem. E quando não se tem nada? Semáforo verde. Rapidamente veio ter comigo. Um triste sorriso... e dois olhos brilhantes agradeceram por uma moeda.Estava garantida a noite nossa de cada dia! Bendito sinal fechado! Toda vez que um farol se fecha, lembro-me daquele par de mãozinhas guerreiras, daquela pequenina malabarista da emoção alheia, que me ensinou que muitas vezes não há escolhas, há apenas caminhos. Difícil arte... a de ser malabarista de sonhos, e dos caminhos da infância repletos de faróis fechados... para a vida! Maria Virgínia Bosco
  • 74. 77 Mélida Francisca Velasco Cassanello Médica - São Paulo - SP Homenagem a Pablo Neruda Pablo Neruda nasceu em 1904 e faleceu em 1973, autor de muitos livros, de vinte poemas de amor e uma canção desesperada entre outros. Homem de grandes amores, poeta comprometido com seu povo, com todos os povos do mundo, conheceu as honras diplomáticas e a glória literária: em 1971 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Pablo Neruda, eu sou uma admiradora mesmo pós-morte tanto como pessoa, como por seus poemas, seus livros, suas frases entre elas permita me referir a alguma delas. Fica decretando por definição que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã. Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor, mas, sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura. Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na pluma do povo, decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela. Só uma coisa fica proibida amar sem amor. Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do Pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, ou como a semente do trigo e a sua mora da será sempre o coração do homem. Poeta Pablo Neruda, desde minha adolescência comecei a ler teus poemas, teus livros penso que eles são imortais para humanidade. Por isso hoje nas jornadas literárias da sociedade dos médicos escritores, venho a prestar homenagem a um de meus escritores favoritos. Amor Eterno Amo-te tanto, meu amor e cada instante Meu amor é sincero e verdadeiro Amo-te sem poder esconder a realidade Nosso amor nasceu um dia e tornou-se duradouro Amo-te no silêncio de uma noite Em tua ausência aparece a saudade Amo-te com paixão e liberdade A cada minuto a cada instante Amo-te com orgulho simplesmente De um amor que nasceu do nada, cheio de virtude. Com um desejo profundo e permanente Amo-te como a mim mesmo e eternamente
  • 75. 78 Querida mamãe Mamãe fonte de Vida Desde o primeiro dia de vida Alimentaste com seus peitos Protegeste do calor do frio Mamãe, acompanhaste meus primeiros passos Caminhaste do meu lado Com amor e ternura. Mamãe quando esteve na escola Ajudaste nas tarefas do dia a dia Você minha mamãe com seu coração Para ajudar. Com seu intelecto, com seus sentidos Sempre do meu lado. Mamãe quando teve 15 anos Você foi minha melhor amiga Com amor e naturalidade Mostraste o caminho da felicidade de vida Mamãe, hoje sou uma mulher de verdade Ensinaste a arte de vencer nas derrotas Teve liberdade, amor. Acompanhaste em minhas tristezas e alegrias Mamãe, ajudaste a encontrar A resposta dentro de mim Ensinaste a arriscar Alcançar triunfos e glórias Por isso hoje, venho a homenagear A melhor das mulheres, minha mamãe. Vanessa Vanessa, nasceu em 2 de agosto de 1990, em East Haven, Connecticut, Estados Unidos da América, filha de Marcelo Hermandez De La Crue e Lorena Velasco Cassanello, equatorianos naturalizados estadounidenses, a segunda filha do casal, Cristina seu irmã têm 16 anos. No momento Vanessa mora em Coral Springs na Flórida, são uma família feliz. Hoje terça-feira, 02 de agosto de 2005, Vanessa esta fazendo aniversário, 15 anos, seus primeiros 15 anos. Vanessa, cabelos cacheados e cumpridos, loiros como o sol, olhos cor de mel, rosto angelical, é uma adolescente como tantas outras, cheia de ilusões e esperanças. Gosta muito de estudar, porém ainda não decidiu o que vai estudar na universidade. Com 7 ou 8 anos de idade falava que gostaria de ser médica veterinária, gostava de tartaruga, cachorro, gato, cavalo, hoje se limita a falar que ainda não decidiu o que vai estudar na universidade. Vanessa é uma adolescente feliz, como uma flor que esta se abrindo, como uma semente que no futuro vai produzir frutos. Vanessa encontra-se em uma das melhores fases da vida. Por isso hoje novamente seus familiares mais próximos pais, avôs, irmã, tios, tias, primos, primas e amigos, amigas, nos unirmos para desejar feliz aniversario, e uma vida cheia de realizações. Mélida Francisca Velasco Cassanello
  • 76. 79 Milton Maretti Médico - São Paulo - SP Esperança Esperança palavra mágica que nos faz sonhar e existe na mente de todos nos, desde o mais pobre que quer sair dessa, até o milionário que espera ser mais poderoso, desde o profissional liberal, do vendedor ou caixeiro viajante, até os governantes bem intencionados que esperam proporcionar ao povo, governo honesto com visão progressista em beneficio dos governados. Diz o filósofo REALI “que todo inicio de governo, após as vicissitudes do ocorrido debate eleitoral, é tempo de esperança, uma das primordiais emoções do ser humano, ensejado o estado critico dos acontecimentos vividos. Somente as mulheres e os homens podem alimentar a esperança com todas as perspectivas a que ela dá lugar. Os outros animais não compartilham desse precioso estado de consciência, pois não lhes é dado ir alem da espera ou da espreita. “A esperança abre-se para o futuro com um valor existencial, tornando presentes os passados, a partir dos quais nossa razão se eleva a um quadro variegado de perspectivas, conforme a natureza daquilo que nos parece deva acontecer. “É o que acontece ao povo brasileiro na fase de transição do novo governo, com historia prodigiosa motivando confiança e preocupação”. Diz mais que “a esperança nunca ´e uma emoção certa e tranqüila, desacompanhada de qualquer apreensão, pois com ela se põe o cenário conjectural do provável e do plausível. Alimentar esperança é sinal de crermos em algum sentido da história e que esta não é mero resultado da sorte ou do acaso, mas depende de uma serie de fatores positivos ou negativos para a conquista dos valores que almejamos, a esperança se desdobra num aspecto de perspectivas, numa escala espiritual que vai desde o medo ou o simples receio até ingente preocupação. Vejamos o que dizem os psicólogos. GOLEMAN adepto da INTELIGENCIA EMOCIONAL escreveu: “A esperança faz mais que oferecer um pouco de conforto na aflição; desempenha um papel surpreendentemente poderoso na vida, oferecendo uma vantagem em domínios tão diversos como no desempenho acadêmico e em agüentar empregos opressivos. A esperança no sentido técnico, é mais do que uma visão otimista de que tudo vai dar certo. A esperança é a capacidade de acreditar que se tem vontade e os meios de atingir as próprias metas quaisquer que sejam. Da perspectiva de inteligência emocional, ser esperançoso significa que não vamos sucumbir numa sociedade arrasadora, atitude derrotista ou de depressão diante dos desafios ou reveses. Na verdade as pessoas esperançosas mostram menos depressão ao conduzirem suas vidas em busca de suas metas, são em geral menos ansiosas e tem menos distúrbios emocionais.” O psicólogo ALMIR ANDRADE é mais poético e refere que “a continuidade da vida sofre permanentemente a divisão do tempo. Esperar, esperar sempre, esperar até o fim, até a morte - é a eterna missão do homem pensante. Tudo, dentro de nos, tem o seu tempo de realizar-se. Tudo precisa aguardar o momento, a sua hora. Não há precipitação capaz de vencer a ordem natural do tempo. O tempo divide, retarda, retalha. As idéias, as convicção, a fé, não há buscá-las. Elas virão a
  • 77. 80 seu tempo. Virão quando tiverem que vir. Inútil querer incutir na criança o pensamento amadurecido do adulto. Inútil querer adquirir agora o grau de evolução mental que só poderá alcançar no fim dos anos, de décadas. A vitória do homem sobre si mesmo depende do tempo. O dia de hoje é sempre cedo para que vinguem as idéias de amanhã. Cada momento é uma passagem para o momento subseqüente. Cada instante é uma fase de transição entre o nosso passado e o nosso porvir. É uma saudade sem fim. Assim também na vida das sociedades; cada momento histórico é um presente que se transforma, é a tangente de dois círculos – do passado e do porvir. A vida é por isso uma ansiedade perpétua de renovação. Uma renovação no sentido total, de uma continuidade incessante através do tempo. Cada momento é uma ânsia pelo que há de vir. A esperança do melhor, do mais perfeito. A esperança das coisas eternas , imortais, das coisas que não se dividem, das coisas que perduram. Uma negação perene da morte”. Uma variante do tema: amor e guerra Do desejo à morte por paixão, tal é a via do romantismo e nela todos nós estamos engajados, na medida que somos tributários de um conjunto de hábitos e cujos símbolos foram criados pela mística cortês. Ora, paixão significa sofrimento. Nossa noção de amor, compreendendo em si a noção que temos da mulher está ligada ao sofrimento fecundo que favorece no âmago da consciência ocidental, o gosto pela guerra. Essa ligação entre certa idéia da mulher e idéia correspondente da guerra, tem profundas conseqüências para a moral. a educação e a política. Não é necessário recorrer as teorias de Freud para constatar que o instinto da guerra e o erotismo estão fundamentalmente ligados: as figuras correntes da linguagem demonstram isso com evidencia ainda maior. Linguagem guerreira do amor Desde a antigüidade os poetas se utilizam de metáforas guerreiras para descrever os efeitos do amor natural. O deus do amor é um arqueiro que dispara flechas mortais. A mulher se rende ao homem que a conquista porque ele é o melhor guerreiro. O intento da guerra de Tróia é a posse de uma mulher. Plutarco mostra que a moral sexual dos espartanos era pautada pela eficiência militar desse povo. Tudo confirma a ligação natural fisiológica entre o instinto sexual e o instinto combativo. A partir dos séculos XII e XIII a linguagem amorosa se enriquece de expressões que já não designam os gestos do guerreiro mas que são retiradas da arte das batalhas militares da época. O amante faz o cerco á sua dama. Trava assaltos amorosos á sua virtude, ele a ataca frontalmente, a persegue, procura vencer as últimas defesas do seu pudor e rompe-las de surpresa; enfim a dama capitula. A cavalaria, lei do amor e da guerra “Dar um estilo ao amor” segundo Huizinga aspiração suprema da sociedade medieval no plano ético. Uma necessidade social imperiosa pois os hábitos se tornam mais ferozes. È preciso elevar o amor á altura de um rito porque a violência transbordante da paixão o exige. Coube á Igreja reprimir a brutalidade e a licenciosidade do povo. Milton Maretti
  • 78. 81 Os torneios ou o mito em ação Existe um domínio onde se opera uma síntese quase perfeita dos instintos eróticos e guerreiros e da regra cortês ideal: é o terreno nitidamente circunscrito da lisa onde se disputam os torneios. Os furores do sangue correm livres. È o equivalente esportivo da função mítica de Tristão: exprimir a paixão em toda a sua força de maneira a torna-la aceitável ao julgamento da sociedade. O amor e a morte se casam numa paisagem artificial e simbólica de muita melancolia. “O heroísmo por amor” eis o motivo romanesco que sempre aparecerá por toda parte. È a transformação imediata do desejo sensual no sacrifício de si mesmo. A guerra total O objetivo concreto da guerra sempre foi o de forçar a resistência inimiga destruindo seu exercito. Forçar a resistência da mulher pela sedução, é a paz; pela violação, é a guerra. A partir do momento em que a guerra se torna total e não mais militar a destruição das resistências armadas significa o aniquilamento das forças vivas do inimigo. A guerra não é mais uma violação, mas um assassinato do objeto cobiçado e hostil. A técnica da morte a grande distancia não encontra equivalente em nenhuma ética imaginável do amor. De 1914 a 1918 a explosão habitual da sexualidade que acompanhava os grandes conflitos só aconteceu na retaguarda, entre as populações civis. A despeito dos esforços do lirismo oficial de certa literatura e do imaginário popular, a licença dos soldados é comparável á corrida do macho após uma longa abstinência. Inúmeros testemunhos de médicos e soldados provam que a guerra do material se traduziu na realidade por uma catástrofe sexual. A impotência generalizada, ou ao menos, seus pródromos, tais como o onanismo crônico e a homossexualidade, foram o resultado estatístico de quatro anos passados nas trincheiras. Daí o fato de se assistir pela primeira vez a uma revolta generalizada dos soldados contra a guerra que deixou de representar o exutório das paixões para se tornar uma espécie de imensa castração da Europa. Milton Maretti
  • 79. 82 Nelson Jacintho Médico ortopedista - Ribeirão Prêto - SP Os ceguinhos da igreja Pedrinho, menino pobre de cidade pequena, perdeu o pai num acidente de caminhões aos dez anos de idade. Ganhou um padrasto aos doze, quando sua mãe, querendo “reconstruir” a família, destruiu-a. Pedrinho acabou por sair de casa aos quatorze e a irmã mais nova, de doze, foi morar com a tia. Pedrinho, menino inteligente e de boa índole, tentou arrumar emprego, mas com quatorze anos de idade, e morando no Brasil, não o conseguiu. Arrumou alguns amigos na rua, mas quando percebeu que para sobreviver precisaria roubar, tentou mudar de amigos. Não os encontrou na rua. A criação dele era boa e ele não queria roubar. O seu estômago, entretanto, não mudou de hábitos e gritava a altos brados, que queria alimentos. Poucos dias após ter saído de casa, Pedrinho passando pela porta da igreja matriz da cidade, viu um ceguinho sentado na escadaria da igreja, com um chapéu cheio de moedas. Como o estômago a cada momento tornava-se mais exigente, foi até ao cego e lhe pediu algumas moedas para comprar algo para comer. O ceguinho gentilmente lhe deu algumas moedas, mas logo o recomendou que esta era a primeira e a última vez que lhe dava as moedas, porque ele vivia de esmolas e não poderia estar mexendo no seu patrimônio a todo instante. Pedrinho agradeceu ao bom ceguinho, comprou o lanche e calou o estômago, que proclamava uma guerra. Pedrinho, não tendo o que fazer, sentou-se na praça. Alguns meninos assaltavam velhinhas, arrancando-lhes as bolsas e saindo correndo. Ele tinha boas pernas e até poderia fazer o mesmo, mas o seu íntimo não o apoiava. Observava o amigo ceguinho e via quantas moedas lhe eram atiradas no chapéu, pelos transeuntes. Nesse momento, quando o estômago já se revoltava novamente, teve uma idéia maravilhosa: iria fantasiar-se de ceguinho e sentaria do outro lado da escadaria. Com isto, não precisaria assaltar as velhinhas e teria uma vida mansa, por muito tempo. Ficou por algum tempo observando o ceguinho e verificou que ele não levantava os olhos de maneira nenhuma. Quando andava, ia tateando com a bengala e quando chegava na calçada da rua, ou na escadaria da igreja, batia duas ou três vezes com a bengala, para certificar-se de onde estava. Eram as primeiras lições para se tornar um cego, de verdade. Conseguiu uns óculos escuros, velhos, no lixo de uma óptica, um chapéu velho e um pedaço de pau, que usaria como bengala, e passou a treinar a tática de ser cego, com os olhos fechados. Treinado, pé ante pé, para que o ceguinho não percebesse, sentou-se na outra extremidade da escadaria, longe dele. Cabeça baixa, óculos encravados na face, movimentos lentos, tateando o chapéu e a bengala para colocá-los mais perto, ou mais longe, enfim, tentando ser o segundo cego bem sucedido da cidade. O primeiro ceguinho, que de ceguinho não tinha nada, percebeu que Pedrinho estava usando a mesma malandragem, que há muitos anos, ele vinha praticando. Percebendo que naquele momento não passava ninguém, levantou-se, pegou a bengala e caminhou em direção ao concorrente, que de cabeça baixa, bem ao estilo que aprendera, não percebeu a chegada do outro. Somente percebeu, quando uma bordoada lhe atingiu a orelha, não a decepando por pouco. Depois da bordoada, um
  • 80. 83 chute na canela e um soco no nariz. Pedrinho, meio atordoado, e agora não enxergando direito, agarrou-se ao agressor. Todo o pátio na frente da igreja não foi suficiente para que eles rolassem e acabassem a briga. Os óculos escuros foram os primeiros a desaparecerem. Como a briga continuasse não demorou que o camburão da polícia ali chegasse e os transportasse para a Delegacia. O delegado levou um susto enorme, ao ver o primeiro ceguinho, sem óculos tentando fechar os olhos, para não mostrá-los. Quanta vez tinha-lhe atirado algumas moedas às saídas das missas e até feito campanha, juntamente com a igreja, para arrecadar fundos, para comprar-lhe uma casa. Não ficou menos surpreso ao ver Pedrinho. Ele já o conhecia das querelas que ele havia tido com o padrasto e que mais de uma vez o tinha levado à Delegacia. Estranhou apenas, que tal como o outro, tentava esconder os olhos. O delegado chateado e frustrado, por ter passado por bobo, resolveu continuar fingindo que não tinha visto que os dois não eram cegos: “Vocês sabem ler em braile?” Os dois abanaram a cabeça negativamente. “Eu vou fazer um teste com vocês, para ver qual deve ficar na escadaria da igreja. O melhor, lá ficará”. Retirou três bolas de sinuca da gaveta, uma branca, uma azul, uma verde e disse-lhes: “Cada um vai ter três oportunidades. Aqui tem uma bola branca, uma azul e uma verde. Quero que cada um de vocês pegue a bola que eu pedir. Quem mais acertar, ficará na escadaria da igreja”. Colocou as bolas na frente do primeiro ceguinho e pediu para que ele pegasse a bola verde. Ele passou a mão por elas e pegou a verde. “O senhor tem olhos nas mãos, senhor ceguinho. Vou misturá-las de novo e o senhor agora vai pegar a azul. Estou achando que o senhor teve sorte em demasia”. O ceguinho passou as mãos sobre as bolas e pegou a azul. O delegado queria ver até onde iria a safadeza do ceguinho e mandou que pegasse a bola branca, depois de embaralhá-las. O ceguinho não titubeou e pegou a bola branca. A seguir, fez o mesmo teste com Pedrinho e ele tal qual o companheiro, não errou nem uma vez. “Muito bem, meus ceguinhos sabidos, vou dizer qual vai ser o destino de vocês”: o senhor, maior de idade, com casa própria doada pela comunidade, vai ser meu hóspede e ficará nas grades por trinta dias. O senhor, aprendiz de ceguinho, não vai ser preso, porque é menor, e eu não o quero mandar para a Febem. Vai trabalhar comigo aqui na Delegacia, por trinta dias. Vencido esse prazo, o cego velho somente poderá usar óculos escuros sob receita médica, e bengala, somente daqui a trinta anos. O mais novo, nenhuma das coisas, enquanto eu for delegado nesta Delegacia. O ceguinho mais velho pulou da cadeira com os olhos arregalados e quis sair da Delegacia correndo, desviando-se de todas as cadeiras. Os guardas o detiveram e o trouxeram de volta. Pedrinho permaneceu quieto. O delegado, tentando manter a calma, perguntou ao mais velho: “O senhor não tem nada a me dizer? Por que durante anos e anos recebeu calado, de cabeça baixa, de óculos escuros, as moedas que eu e outros bobos da cidade jogamos em seu chapéu? O que tem a dizer?” “Nada, uai, vocês davam porque queriam...” O delegado coçou a cabeça, realmente o povo dava, porque queria. A vontade dele era dar-lhe umas boas chibatadas no lombo, mas sempre ouvira falar que bater em mulher, em criança e em cego, era pecado. Cego...!? Que cego...!? Cego era ele e o povo, que tinham prazer em manter as suas cegueiras a troco de algumas moedas. Cumprido o castigo, o mais velho desapareceu da cidade; provavelmente foi à procura de uma velha cidade, com uma velha igreja e um delegado novo. Pedrinho ficou amigo do delegado. Gostou tanto do seu trabalho na Delegacia, que ficou lá trabalhando e por fim formou-se em direito, para ser um futuro delegado. Uma lição ele já aprendera, ceguinho nenhum lhe passaria a perna, por mais cego que fosse. Nelson Jacintho
  • 81. 84 À procura da vida ideal... Saí na rua à procura De uma vida ideal, Vi o amor, vi a candura, Vi todo bem, todo mal... Vi o sorriso da criança, Vi o abraço do amigo, Vi o nascer da esperança Nos olhos de um mendigo... Vi a pujança do forte, E vi do velho a fraqueza, Dinheiro comprando a sorte, Ganância dando a pobreza... Na enfermaria A chuva caía torrencialmente, naquele fim de tarde, sobre o minúsculo ponto de ônibus, na periferia da cidade. Pessoas se acotovelavam para não se molharem. Com estas pessoas estava Benedita, vestida de calça, blusa e sapatos brancos. Ela era enfermeira noturna de um grande hospital da cidade grande. Entrava às sete da noite e saía às sete da manhã. Fazia o conhecido horário doze por trinta e seis, muito usado no Brasil. Estava molhada até aos joelhos. Como chovia naquela tarde de outono! Ela e Silvinha, sua companheira de noturno, passavam a noite em uma enfermaria de doentes graves, alguns em estado terminal. A enfermaria tinha dez leitos, que viviam ocupados o mês inteiro, e às vezes mais um era ali colocado, porque não havia outro lugar para ficar. No fundo da enfermaria havia uma prateleira repleta de remédios. Havia anti-hipertensivos, anti- diabéticos, antiinflamatórios, anti-álgicos, etc., etc. Havia tantos antis, que às vezes, deixavam Benedita nervosa. Havia anti, para quase tudo, somente não havia para anti-cansaço, anti-falta de dinheiro, anti-falta de afeto, etc., etc. Benedita tinha cinqüenta anos, um marido alcoólatra, duas filhas solteiras, com um filho cada uma e muito trabalho para sustentar os cincos, que não trabalhavam. Levava uma pequena vantagem, não tinha genros em casa. Sete horas da noite e lá estava Benedita assumindo a enfermaria, esperando pela companheira Silvinha. A enfermaria, como sempre, estava com os dez leitos ocupados. A maior parte dos doentes, ela já conhecia. Havia a Belarmina. Ah...! que bela arma ela tinha na língua. Falava o tempo todo sem parar. Tinha oitenta anos de idade, tinha sido atropelada na rua, fraturara os dois fêmures e tinha um problema crônico: a bexiga não segurava a urina. Havia o Clarindo, que de claro não tinha nada, suas idéias estavam muito escuras, porque sofria de doença de Alzheimer e hora ficava mudo, ora falava sem saber, mais do que papagaio ensinado.Tinha sido operado do estômago, estava com soro na veia e ainda se alimentava com sonda nasogástrica. A alimentação era líquida. Tinha também problema de urina solta. Havia a Florisbela, que nada tinha de flores, nem de bela, porque sofrera queda, fraturava o fêmur esquerdo e o braço direito e não podia locomover-se. Além disso, era muito mal educada. Benedita começou a separar a medicação das oito horas, enquanto aguardava a chegada de Silvinha. Olhou para o relógio: sete e dez, e Silvinha não aparecera. Tocou na portaria. Disseram-lhe que ela deveria estar atrasada por causa da chuva. O tempo passava: oito horas. A portaria ignorava o paradeiro de Silvinha, mas disse que estava procurando uma substituta. Benedita deu a medicação das oito. Nove horas: nem Silvinha, nem substituta. Benedita estava nervosa, mas não tinha como Vi a alegria na chegada, Tristeza, na despedida, O carinho da amada, O desprezo da perdida... Vi a vida maculada, O sofrimento, a agonia, Vi a lágrima atrasada No palhaço, que sorria... Ao me olhar no espelho À procura do meu eu, Recebi grande conselho: “Quem não plantou, não colheu...” Nelson Jacintho
  • 82. 85 Eu quero a felicidade... Eu quero a felicidade, Eu quero amar de verdade, Eu quero a luz das estrelas, Eu quero os raios do sol. Eu quero ter-te em meus braços, Quero sentir teus abraços, Sentir teu beijo molhado, Dormir contigo ao meu lado, Contigo estar no arrebol... E como seria bom Sairmos de braços dados, Contando-te mil segredos, Que ainda estavam guardados. As roseiras dos jardins, Que nos veriam passar, Certamente invejariam O teu perfume sem par. reagir a esse problema. Dez horas: horário de dar a medicação para os que não dormiam à noite, trocar as fraldas dos que faziam xixi na cama, tirar as sondas nasogástricas, para que a noite fosse tranqüila. Até aquele momento, tudo parecia correr bem. Benedita olhava para o crucifixo, no fim da enfermaria, pedia-lhe ajuda e continuava nervosa, mas confiante. Meia noite, Cristo ajudava e Benedita confiante, agradecia. Duas horas da manhã: Clarindo acorda e começa a falar coisas desconexas. Belarmina acorda e começa a xingar Clarindo. Florisbela não ficou atrás e destampou o seu repertório de palavras bonitas e jogou-o sobre os dois. Em poucos minutos a enfermaria parecia o inferno, onde cada um estava sendo queimado e vociferava contra os outros e contra o diabo. Todos gritavam e xingavam. Benedita tentou acalmá-los, já tinha recebido instruções, para saber agir nessas circunstâncias. As instruções não deram certo, as palavras mais duras, não deram certo e os palavrões desapareceram no meio dos palavrões dos outros. Benedita fechou a porta e correu para o fundo da enfermaria. Cristo estava quieto e parecia não ouvir a balbúrdia. Ela olhou para Ele, mas entendeu que ela deveria fazer a parte dela. Ela mais uma vez tentou fazer a turba parar de falar e xingar. O resultado foi nulo. Ela olhou para a prateleira de medicamentos: dois vidros de Dormonid cheios. Ela não teve dúvidas: faria se calarem aplicando-lhes o medicamento na veia, dos que estavam com soro. Os demais deveriam se calar pelo medo. Pegou duas seringas e encheu-as. Levantou-as e ficou olhando para cada um deles. Tinha ganas de aplicar uma seringa inteira, na veia de cada um. Naquele momento queria que dormissem para sempre. Francisquinha, uma velhinha do fundo da enfermaria, que estava com pneumonia e mal podia falar, mas que fora enfermeira na sua juventude, olhou para Benedita e perguntou: “Qual de nós, você vai matar primeiro?” O barulho parou como por encanto. Todos ficaram quietos, como o Cristo, no fundo da enfermaria. Benedita acordou do seu delírio e verificou que todos a olhavam de modo diferente. Ela entendeu que todos dependiam dela e contavam com a sua ajuda. Ela devolveu o Dormonid aos vidros, entrou no banheiro, sentou-se sobre a tampa da privada e chorou. De olhos ainda úmidos, voltou à enfermaria. Os doentes que puderam, bateram palmas, outros riram, outros choraram. Ela tentou sorrir um sorriso nervoso, que acabou em prantos. As lágrimas lavaram-lhe a face e a alma. Ela não entendeu nada do que acontecera, nem com os pacientes, nem com ela. Começou a passar de leito em leito, com todo o carinho, como sempre o fizera. Todos que puderam lhe sorriram, apenas o velho Francisquinho não pode lhe sorrir, ele acabara de parar de respirar... E os passarinhos cantando, Ao nosso lado voando, O nosso amor contemplando, Querendo nos imitar... E a fresca brisa da tarde, Que a Ave Maria traz, Certamente nos daria Um grande beijo de paz. Beijo de paz e de amor Pra nos unir sempre mais, Pra nos levar sempre juntos, Não separarmos jamais. Não separar nossos passos, Não separar nossos braços, Não separar os abraços, Não separarmos jamais... Nelson Jacintho
  • 83. 86 Omar Jorge Marucco Médico - Buenos Aires - Argentina Niño en la calle Como nacido de alguna baldosa llora como luna con agua como risa reída lejos de la cruz emparchado de soles zurcido de sombras. Oigo su sangre en la cornisa en los cantos ajenos. Apura manija es tuya espera la moneda. Ríe Olvida el hambre el juego de reír. Vamos niño de vidrio de grasa y de betún. Ya pasan ellos nosotros iguales quedas vos a crecer como la espuma. Hospital Atemperado de emociones como una ameba traslúcida nunca quieto dolor y chanzas. A su alma la moldea el imprevisto la angustia el grito que se posa en la orilla izquierda de uno mismo. Y después a veces el alivio que tajeó al miedo. En la calle la urgencia zigzaguea y en las salas Jesús con el sudario el ladrón sin esposas un dolor mordiendo cuerpos. más allá la prostituta cubre su sexo y sufre y un pobre espera tan con nada. Se empecina en la vida sin preguntas. La guardia duerme los cansancios e imagina otra vez los mismos sueños. Te sigo queriendo hospital ahora no sé como serás si sé que eras una antigua y bella historia que perdura
  • 84. 87 Pablo Alejandro Croce Médico - Buenos Aires - Argentina Encuentro -¡Vamos pal norte! - atronó el vozarrón de Frick. Lo miré sobresaltado. Tomó nuevo impulso para ordenar:- ¡es una obligación! Nos esperan los de la Liga en Serra Negra, explicó apenas. - Me pareció adivinar en un destello de su mirada, de reojo, sobre la arena fina y blanquísima a una pulposa mulata broceándose en la media sombra que bajaba de una palmera, frente al mar de azul transparente, cuyas olas se mecían al ritmo de un samba. Callado quise explicar que Serra Negra debe estar lejos Océano Atlántico y que para mí Brasil es sobretodo, la tierra de mi suegra y su abundante familia. Recordé mis primeras penosas confusiones entre nuestras dos lenguas, engañosamente parecidas, generosas en resbaladizas trampas, inocentemente tendidas por palabras, tan similares en sonido o escritura y tan diferentes en significado. ¡Cuántas contradicciones entre las contracciones! No parece una negación, pero es: en el; da suena a obsequio pero además es: de la; pela, aparte de quita la piel es por la; pelo, recuerda a cabello, pero también es: por el. Apellido se dice sobrenome: en compensación sobrenombre se dice apelido. Si una dama, alrededor de una mesa le ofrece una cadeira, no se entusiasme: es una silla; cadeira de braços promete algo más íntimo, pero es un sillón. Si le hablan de ponerle una toalha en la mesa, no es para que se seque, es un mantel. Si le ofrecen un refrigerante, no es para el motor, es una gaseosa. Si hablan de una garrafa, no se caliente, es una botella. Para beber pida usted un copo, que es un vaso; o una taça, que es una copa; si va a tomar infusiones, una xícara, que es una taza. No beba en un vaso, que es nombre de varios recipientes, macetas, floreros o ¡inodoros! Si le preguntan si quiere comer un perú, no se sobresalte, no están por deglutir países vecinos, apenas un pavo. Si ofrecen polvo, no sople, que es un pulpo. Ragú no se ayuna, se come, porque es guiso. El que no se come es el estofado, que es tapizado. Sobremesa no es la conversación después de comer, es el postre. Ricas sobremesas son el dôce, que no es un número sino dulce, y el bolo que es una torta; además, empanada se dice pastel y lógicamente, pastel se dice empadão. Si al mediodía lo invitan a una lanchonete, no es a pasear en lanchita, es a comer en un negocio de comida rápida. Ahí mixto quente no es un homosexual excitado, es un tostado de jamón y queso; cachorro quente no es un perro enojado, es un pancho; batata es ¡papa! Batata doce entonces, no son doce batatas es una sola. Vitamina, además de un medicamento, es un licuado de frutas con leche. A la comida xadrez, no le haga jaque mate, es la servida cortada en cubitos. Si dicen churrasco, quieren decir asado; choriço se ve oscuro, porque es morcilla; osso no es un animalote, apenas un hueso. Si la comida es grelhada, no es ensuciada, es a la parrilla. De graça, no es con muchos lípidos, es gratis. Si quieren avisarle que algo es muy desagradable, le dirán que es exquisito. Si necesita cubiertos pida talheres; el más inocente de los cuchillos se llama faca. No se asuste de un cartucho de balas, es un cucurucho de caramelos.
  • 85. 88 Si su auto no anda bien y lo mandan a la oficina, no es para que haga trámites burocráticos, oficina es un taller. Le harán un consêrto, que no es música, sino arreglo. Si le cambian velas no se lo lleva el viento, velas son bujías. La borracharia no es para alegrarse, es para cambiar el neumático, porque es gomería. Cuide la ropa: estar pelado es desnudo. La cueca no se baila, se pone, porque es el calzoncillo. Calça es el pantalón, pero calcinha es la bombacha. Camisa es camisa, no más, pero camisinha es condón. Sobre la camisa se viste un casaco, nunca un saco, que es escroto. La ropa tiene bolsos, que son bolsillos. En la mano se llevan sacolas, que son bolsos, o mejor una pasta, que es portafolio. El veludo no es peludo, sino terciopelo. El batón no cubre el cuerpo, apenas los labios, porque es el lápiz labial. La bengala no sólo ilumina, también ayuda a caminar, porque es el bastón. Valija se dice mala, por más buena que sea. Tênis, además del deporte de Guga Kuerten y Gabi Sabatini, son las zapatillas. Las costas no se pagan ni se bordean, costas es espalda y el guardacostas no navega es el guardaespaldas. Placar no es donde se guarda la ropa, sino los resultados porque placar es tabla de posiciones. Acordar, no es tener memoria, es despertarse. En la cama, travesseiro no es muchacho de Godoy Cruz, es una almohada. Ligar no es tener suerte, es enchufar, encender, conectar. Tomada, no es la que bebió demasiado, es enchufe. El Lustre no se mira en el piso, es la araña de techo. Hablando de bichos, barata es cucaracha, pernilongo es mosquito, borrachudo es jején, traça es polilla, chato es ladilla, y por extensión todo lo molesto (incluso este escrito); louro es rubio, papagaio es loro y arara es papagayo. Banheiro no es el atlético salvavidas, es el cuarto de baño. Torneira no es la que vuelve, es la canilla; pía no sólo es la piadosa, es la pileta. Si le indican escovar os dentes, no señalan que sus dientes son como baldosas, es que escova es cepillo. Sobrado no es el burlado, es la casa de dos pisos; sacada no es la fuera de sí, es el balcón; balcão en cambio es mostrador. Andar es cada piso de un edificio alto. En los antiguos aún el primer nivel se llama terreo, el segundo sobreloja y el tercero ¡primeiro andar! Suelo se dice sólo. Si un inmueble dice vende-se, no indica que hay que curarlo, sólo que esta en venta. En teatro y cine el boleto de entrada se llama ingresso, el escenario se llama palco, y el palco camarote. En cine y TV, pantalla se dice tela. El diario se llama jornal, pero el jornalero se llama diarista. El desocupado espera una vaga, no como pareja sino para laburar, porque vaga es vacante. Pegada no es ni acierto ni golpe, es la huella del pie. Papelão no es solo pasar vergüenza en público, también es cartón. Cartão en cambio, es tarjeta, desde las pequeñas con nombre y dirección, hasta las de crédito. Cigarrillo se dice cigarro y cigarro charuto. Machado no es el más viril, es el hacha. Queda no es la que permanece, es caída. Meados, no son los orinados, son los que están en el medio. Sombrero, no es el que tapa la calvicie, es un árbol de la familia de las higueras. Tirar férias, no es pasar la topadora a los mercados móviles, es tomarse vacaciones. Los días de semana, salvo sábado y domingo, se numeran en ferias, empezando por el lunes, que no es la primera, sino la ¡segunda! Terça, entonces, no es la superficie suave, sino el día martes. Si lo invitan a una palestra, no se va a divertir en un combate, se va a aburrir en una conferencia. Pluma se dice pena; violeta se dice roxo; rojo se dice vermelho. Si alguien vende por atacado, no se defienda, es que vende al por mayor. Roça es una pequeña quinta de verdura. El ano, ni se ensucia, ni se limpia, se vive, se aprovecha o se desperdicia, porque es el año. Piadas no sólo entonan los pájaros, también los humoristas, porque piada es chiste. Ginasio fue la escuela secundaria; aula es el dictado de la clase, no el salón donde se dicta. Borracha de apagar, no es una ebria que corta la luz, es la goma de borrar. Brincar es jugar, aun sin saltos, pero brinco es el aro, que puede hacer juego con una corrente, que es cadena; cadeia es la cárcel. Sujo no es lo de él, es sucio. Recanto no es hacer bis en la música, es un lugar placentero. Puxar no es pujar, es tirar o traccionar hacia uno mismo. Caçula, no es ropa ritual, es la benjamina, la hija menor. Verba es dinero reservado a algún fin. Recaudación se dice receita. Aceitar no es lubricar ni agregar aceite, es aceptar. Enfermaría es la sala de internación. La hinchada se dice torcida, especialmente si es derecha y fiel. No es erótico ni delictivo ir a una chapada, porque chapada es un campo con vegetación baja y escasa. No se rape el cabello si lo invitan a una pelada, mejor póngase las zapatillas de golear, porque pelada es un picado. No compre, como si fuera elogiado un inmueble alagado, porque quieren decir inundado. Pablo Alejandro Croce
  • 86. 89 Trança no es tan emocionante, es trenza. Violão no tiene arco, es guitarra. Campana se dice sino; destino, se dice sina. Tesoura no provoca codicia, es tijera. Demo no muestra cómo funciona algo, es demonio. Los Juros se cumplen estrictamente porque son Cuotas, apanhar, lejos de ser proteger, es golpear. La pintura se dice tinta; ancho se dice largo y lo más importante, Maradona se dice Pelé y Fangio se dice Senna. Ante esta brevísima muestra de los tantos homónimos y parónimos al acecho, para desconcertar al más avisado ¿para qué ir a Serra Negra? ¿Qué nos une a ellos? Apenas si la misma lucha, desigual, agotadora, casi frustrante contra el dolor y la muerte evitable, la escasez de recursos, la ignorancia, el poco compromiso de muchos gobernantes y la indiferencia de los poderosos; el entusiasmo por reflexionar sobre la realidad y entretener contando; la búsqueda del buen decir, del giro preciso y el estilo agradable; el placer de intercambiar experiencias y reunirse con amigos. Entonces sí, por encima de la distancia y de las dificultades idiomáticas, tendiendo la mano, agrandando la sonrisa, abriendo el corazón ¡todos juntos a Serra Negra! Angel (*) Marijú é um anjo. Olha que ela não só aceitou que eu não fosse com ela a esses encontros chatíssimos com as primas insuportáveis do bairro de Belgrano, mas também ela me trouxe do bar os pastéis que eu mais gosto, considerando que ela dispõe de um excelente disk-pizza. Pena que o de cebola e queijo está um pouco úmido e amargo. Às vezes os pastéis se abrem quando o forno está muito quente. Eu me lembro dos que fazia Dona Rosario, que nunca aprendeu a fechá-los bem; o queijo sempre escapava na fôrma e o pastel ficava bem alto, porém meio vazio. Ela se zangava quando, depois de experimentá-lo, eu perguntava: - Rosario, esses aqui são os de vento? Vou reclamar já mesmo! Sinto-me cansado, portanto vou ligar pra eles. Onde merda está o imã da pizzaria? Não o encontro em lugar nenhum. Já sei, vou procurá-lo na agenda que, aliás, faz tempo que não está na mesinha do telefone. Agora lembro, acho que está guardada debaixo das calcinhas da Marijú, que eu vi sem querer quando abri a sua gaveta da cômoda. Esta Marijú está ficando cada dia mais relaxada. Mesmo assim, ela e tão bondosa, me atende tão bem, gosta tanto de mim, é tão simpática, que eu nem vou reclamar por essas bobagens. Ah, está aqui. Quero ver se acho o número. Opa! O quê é que caiu da agenda? Que papel tão gasto! O que é que está escrito? A letra parece do Narciso, o cara do mercadinho daqui em frente. É a mesma que usa para escrever os cartazes das ofertas, quando a mercadoria está por perder o prazo de validade. Cara chato o Narciso. Até nome de velho ele tem! Não posso nem sair na sacada sem que ele me examine de baixo pra cima. Será que ele é veado? Estou me sentindo cada vez mais cansado. Que estranho, se hoje eu não fiz nada! Com esse assunto da reunião das primas, Marijú não teve tempo nem pra me fazer um chamego. Fazem mais ou menos quinze dias, e nada!... Tenho um gosto esquisito na boca. Acho que são esses pastéis de porcaria. Quero só ver o que é que o Narciso vai dizer. Que cara mais bocó! Como se abre para a Marijú! Será que não percebe o quanto ela gosta de mim? Isso que todos achavam que a nossa paixão não duraria muito tempo, que eu era velho demais para ela! O que sabe esse povo sobre o amor? Que marcadas estão as dobras da correspondência! Será porque a Marijú a deve ter lido milhares de vezes! Coitada, acho que ela deve ter ficado indignada. Seguramente não quis me contar nada, para não me chatear por esse assunto. Na verdade me causa mais graça que raiva. Que pena, se ela me tivesse contado, a gente ia morrer de rir juntos. Não sei o que é que essa gente pensa! Sabem que ela está firme comigo! Estou tão tonto que não sei que tecla eu apertei. Será o redial ou o telefone estragou? Por que discou sozinho! – Alô! Como com o mercadinho? Eu não quero falar com mercadinho nenhum, e muito menos se for o do Narciso! – O quê, o Narciso saiu faz tempo? Nessa hora ele sempre está ali, com a sua cara de cordeiro degolado. Você também está achando estranho? Desculpe, eu me enganei, quero falar com o bar. Como, que não dá pra entender o que eu falo? Eu estou falando mal? Deve ser a minha língua que se trava, na verdade eu não me sinto bem. Não fique zangada, eu já desligo! Porra, o telefone caiu! Não tem jeito, não consigo juntá-lo. Vou deixar assim mesmo, total eu já vou pra cama. A minha barriga está tão pesada! Ah, está escorrendo baba da minha boca! Essa enxaqueca está partindo a minha cabeça. De repente eu estou parecendo um velho grogue. Eu vou... ¡PLUM! Pablo Alexandro Croce
  • 87. 90 Pálido final (*) Desde que enviuvou, Jorge passava longas temporadas na sua chácara; apenas de vez em quando, dava uma chegada na cidade para visitar aos quatro ou cinco amigos de toda a vida, conseguidos na escola ou no bar. Cada vez parecia mais chateado. Não tinha interesse por nada. A rapaziada já estava preocupada com ele. Assim que foi tarefa difícil para Daniel convencê-lo para conhecer essa belezoca que apareceu na cidade e que todos logo pensaram que seria ideal para ele. Achavam que ela poderia ajudá-lo a frear o espiral depressivo, no qual viam Jorge cair fatalmente. À primeira vista, lhe resultou ridiculamente pintada para seu gosto, moderna demais em seu aspecto externo e aparentemente frágil para acompanhá-lo no rude trem de vida, que estava adotando no campo. Não lembra bem, como de repente todos saíram para dar uma voltinha. Taciturno, baratinado com as suas lembranças, não reparou quando os seus amigos desapareceram. Como ficando a sós ele se sentia a vontade, foram até o parque. Ali ele percebeu que seu cheiro lhe agradava. Logo a trouxe de volta até o centro, mecanicamente, sem dizer palavra. Vários sábados ele a procurou para fazer o mesmo trajeto, cada vez com maior interesse. Encontrar-se com ela e sair a passear passou a ser o seu programa preferido. Quando ele já a conhecia melhor, começou a sentir-se atraído pelas suas curvas. Até parecia recobrar o entusiasmo pelas mínimas coisas. Arrumava-se melhor, vivia sorrindo, mais ajeitado, mais contente. Titubeou em dar o passo, porém, antes dos dois meses de conhecê-la a levou até a chácara, quase sem documentos. Acostumaram-se um ao outro rapidamente e intimamente formaram uma sólida relação. Submissa, dócil, silenciosa, ela nunca lhe falhou. Sempre correspondeu bem a tudo o que ele queria. Jorge, por sua parte, confiava completamente nela e nunca lhe fazia faltar nada do necessário e até mais. Ele a tratava com delicadeza, não duvidava em colmá-la de afeto, e até lhe proporcionava pequenos luxos. Nem imaginou em lhe exigir nada do que fosse inconveniente para ela. Nunca saia da chácara sem ela. Pretendia mostrar-se insensível aos seus encantos, diante da rapaziada, mas dava pra perceber o carinho que ele sentia por ela. Em confidencia, um dia ele disse ao Daniel que ela parecia “um relógio”. Discreto, apenas a acariciava um pouco, bem longe dos olhos de estranhos. Desde que passaram a estar juntos, ele voltou a ter o gosto de passear todos os finais de semana pela cidade. Ele a levava especialmente ao parque, lembrando o momento em que aprendeu a gostar dela. Até o cara da banca, vendo-o cruzar por baixo do arco de entrada, contente, tão perto dela, disse, irônico: - Quê ataque de paixão, tem esse caipira! Quase morreu de ciúmes na noite do desfile do centenário da cidade. Foram precisos cinco homens para conte-lo, quando um distraído, sem intenção, passou a mão atrás dela. O correr dos anos foi consolidando a relação. Talvez o afeto impediu ao Jorge perceber que algo estava mudando sutilmente com o passo do tempo. Conhecendo como ele ficava quando alguém a criticava, os seus amigos não tiveram coragem de lhe advertir. Acharam que ele perceberia sozinho, sem a intervenção de estranhos. Essa prudência inadequada fez mais penoso aquele dramático entardecer, quando ela lhe falhou. Alguém ainda diz que os problemas econômicos tiveram parte da culpa. Inesperadamente sozinho, imóvel no caminho de sempre, apenas consegui pedir ajuda. Sem considerar os seus sentimentos, um vizinho que se achegou até ele desembuchou num golpe só toda a amargura que o transcurso dos anos juntos havia preparado para ele e que os seus amigos lhe escondiam: -O que é que você quer, seu Jorge? Procure outra; já não dá mais pra conseguir peças para estas camionetes importadas. Com carros é sempre assim... (*) Os textos “Angel” e “Pálido final” foram traduzidos para o português pelo seu autor, que solicitou a publicação da versão traduzida e informou que os apresentará em seu idioma original durante as sessões literárias. Pablo Alejandro Croce
  • 88. 91 Ricardo Horacio de Lellis Médico - Buenos Aires - Argentina “La poesía es un pájaro que vuela más rápido que la mirada.” Martín Heidegger. La Garganta del Diablo Sonoridad atrapante. Con magnificencia. Una sinfonía polifónica. Un fondo musical, uno intermedio y tres o cuatro en primer plano. La espuma empieza arriba. Aumenta al caer vertiginosamente. Concluye en una niebla atomizada de partículas líquidas. Transversalmente se mueven golondrinas que cruzan raudamente el área de caída líquida y emergen intangibles, volando con la misma velocidad que ingresaron en la niebla. Cae el agua rota, Se canta el canto eterno. La vida en un instante, Somos y no somos. Heráclito y su reino. Nada vuelve. El tiempo y su caída El fin y la niebla. El volver a la vida. El agua rota es una metáfora que trata de calificar la compleja estructura de la vida, que es alterada por el fenómeno gravitatorio, rompiéndose en la caída. El canto eterno, es el sonido del movimiento líquido. El de la vida de la naturaleza. Heráclito sostiene que nada permanece eternamente inmutable. Todas las cosas fluyen sin cesar. Uno no se sumerge dos veces en el mismo río. Nuevas aguas fluyen junto a uno. Somos y no somos, los contrarios dominan la existencia. Nada retorna. El agua que cae, lo hace como el tiempo. Nada vuelve. Pero el fin, como destino, no como final y la atomización del fluido es el retorno cíclico a la vida. Iguazú. Octubre 2004 VI Encuentro de Médicos Jubilados. POSADAS, MISIONES.
  • 89. 92 El poema está ambientado dentro de un marco sacro tradicional: el agua bendita, la persignación, los altares y ojivas, el final del Ave María rezado en latín. Se retrata la gestualidad del creyente, llevando consigo rencores que necesita absolver y dolores que busca mitigar .El perdón es el tácito clamor del penitente condenado por el pecado original El leit motiv es la necesidad de creer y la libertad de hacerlo, propuesta divina e independiente del sacrificio del Nazareno en la cruz y su resurrección. Necesidad espontánea, natural, que surge en cualquier credo, .Ansiedad que aparece por la contradictoria estructura de la naturaleza humana, Oscilante entre el bien y el mal . Felices los que creen sin haber visto (Tomás). La fe parecería emerger altiva en las fronteras de la razón, la intuición, el inconsciente y la emoción. Estaría alojada en esa zona de conflicto existencial en la cual se contactan en un punto tangencial la ciencia, la filosofía y la religión traccionadas por la flecha del tiempo. En algún recodo de tu encierro/puede haber una luz, una hendidura/El camino es fatal como la flecha, / pero en las grietas está Dios que acecha . (Jorge Luis Borges). Con sentido estético y evocando la solemnidad de la liturgia se apela a las palabras finales del Ave María escrito en latín.. Estas cierran el mensaje del poema que plantea la necesidad de la fe ante el misterio de la muerte . Pascua 2005 - (durante la agonía de Juan Pablo II) El enigma Ya vuelvo. El espejo quedo esperando. En mis silencios interiores Lo andaré buscando. Un trayecto neuronal salpicado de sangre, linfa y humores, Hacia la corteza como un calco. Un engendro ignorado de certeza. El rostro de la fe Ingreso en silencio. La frente en el centro humedecida. Labios musitantes. Altares y ojivas. Ceño plegado. Voces en sordina. Dolor y rencor. Perdón. Creer en libertad, propuesta divina. Anacreonte, el poeta, el hombre. La uva atragantada. Vivías con tu muerte. Al regresar, La imagen detenida Que me esperaba, Tiene ahora más vida revelada. Nos fuimos juntos. Por el espejo. Lejos. Rodilla y baldosa, trazando un trayecto. Con rodillas repetidas hasta el altar. Dando y pidiendo. Buscando a Cristo no crucificado, pisando la tierra. Adoramus te. Nunc et in ora Mortis nostra. Amén. Ricardo Horacio de Lellis
  • 90. 93 Rodolpho Civile Médico - São José dos Campos - SP A lanterninha e o bichano do Cine Rex Por acaso, como sempre acontece comigo, estava folheando o Dicionário Aurélio, quando me deparei com a palavra pirilampo: “inseto coleóptero, que apresenta órgãos fosforescentes localizados na parte inferior dos segmentos abdominais. Encontram-se na família dos lamperídios e na dos elaterídeos, onde os focos luminosos são os dois olhos. São, por via de regra de cores pouco vistosas, alguns amarelados ou pardo-claros, com faixas negras, de cabeça grande, arredondada na frente; dão grandes saltos quando colocados de costas. As larvas são predadoras, alimentando-se de madeira em decomposição ou de raízes e base dos caules das plantas. A fosforescência decorre-lhes de uma reação entre um fermento e outras substâncias químicas. (Sinônimos: vaga-lume, caga-lume, caga- fogo, luze-luze, lampíride, lampírio, lumeeiro, salta-martim. Destes sinônimos, vários são brasileiros e alguns lusitanos). Curioso, continuei com a pesquisa. Achei a palavra vaga-lume: “empregado que munido de uma pequena lanterna, acompanha o espectador até a poltrona, na sala de projeção dos cinemas, em teatros, etc; lanterninha”. Lanterninha! A palavra mágica... Como por encanto, os neurônios da minha velha carcaça se acenderam como pirilampos endiabrados, o que não é muito freqüente, e em uma regressão psíquica, só explicada pelos analistas, apareceram imagens, recordações de outros tempos, tempos idos e vividos que não voltarão mais... Saudade... Saudade... Eu me lembro... Eu me lembro... Era garoto... Morava no Bexiga... O bairro que é um mundo dentro de São Paulo... Não perdia as matinês do Cine Espéria, hoje Teatro Sérgio Cardoso, onde passavam os seriados do Flash Gordon e o Imperador Ming. Os filmes de cow-boy de Buck Jones e Tom Mix. Nos intervalos, o barulho infernal da criançada. Dos moleques atirando dos balcões saquinhos de pipocas e amendoins. Tudo era alegria. Tudo era farra. O tempo foi passando e eu me transformei em adolescente, um mocinho... Saudade...Saudade...
  • 91. 94 Eu me lembro... Eu me lembro... Passei a freqüentar o Cine Rex. Cinema moderno, mais luxuoso, com mais classe. O Espéria era para criança, moleque... Logo na entrada o guarda-civil com uma espada reluzente dourada na cintura, impunha ordem e respeito. No “hall” a venda de doces e balas de hortelã muito utilizadas pelos namorados para dar um hálito delicioso por ocasião de um suave e atrevido beijo... Às vezes uma admoestação mais severa da lanterninha... Coisas da mocidade... Laurinda era uma funcionária muito eficiente. Pau-mandado, como se dizia, fazia tudo quanto lhe mandavam: ajudava na bilheteria, na faxina, e como lanterninha, a sua principal função. Pouco se sabia de sua vida. Morava em um quartinho nos fundos do cinema. De idade indefinida, sempre sorridente, tinha uma paixão: um bichano de cor cinzenta com manchas brancas. Cuidava-o como um filho. Muito leite e pipoca. O gatinho era um grande e devotado apreciador de pipoca. Estranho apetite... Uma verdadeira obsessão. Caso para um psiquiatra “gatal” (peço perdão pelo neologismo). Um dia aconteceu... O bichano viu um ratinho se apoderar de uma pipoca jogada no chão. Mansinho que era se transformou em um voraz tigre. Saiu em desabalada carreira perseguindo o ratinho que por sua vez entrou esbaforido na sala de projeção do cinema. Assustado entrou e subiu pela perna até a coxa de uma moçoila.Esta, achando que o namorado estava se excedendo, sapecou- lhe um sonoro bofetão. O ratinho, meio perdido, saiu do seu abrigo e procurou outros. Enquanto isso, o bichano atrás... Em cada investida, bofetões e mais bofetões... Laurinda, com a lanterna acesa, desesperada, correndo atrás do bichano e este atrás do ratinho. Até que, alguém apavorado gritou: fogo, fogo, fogo... Correria geral... Tumulto... Confusão... Os bombeiros foram chamados... Quando tudo se apaziguou e os fatos foram esclarecidos, os namorados se entenderam e o bichano recebeu uma dose dupla de leite e pipocas de Laurinda. O ratinho nunca mais foi visto. Uma terrível experiência para ele. A primeira e a última. Naturalmente foi repreendido pela mamãe ratazana... Esta lembrança me faz rir muito agora... apesar do bofetão que recebi na cara... Dizem as “entendidas” que bofetão de amor não dói... Conversa... Doeu e doeu muito para um pecador sem pecado... Rodolpho Civile
  • 92. 95 Os óculos da tia Nicoleta Nicoleta, viúva do maior beberrão do Bexiga, vivia costurando para as vizinhas e com isso conseguia sobreviver num quartinho com cozinha e banheiro de um cortiço da rua 13 de Maio, rua hoje famosa pelas cantinas e pizzarias. Não tinha filhos, mas criava um sobrinho, um menino robusto e cheio de vida - vida até demais - useiro e vezeiro na “arte” de traquinar. Pregava “peças” na escola, na rua e principalmente em casa. A tia, pacientemente, sorria e sempre alegava: “é criança”, “isto passa”. Recebia constantemente as mais diversas queixas do sobrinho vindas das pessoas que o conheciam. Não se afligia, sabia que eram verdadeiras, mas, o que fazer? Era o seu querido sobrinho, tudo o que de bom tinha restado da sua vida. Do marido,- não gostava nem de se recordar- mulherengo e beberrão, não trabalhava e vivia a sua custa. Um dia foi encontrado morto numa sarjeta. Para ela foi um alívio... Passou a se dedicar de corpo e alma aquele menino. Já na meia idade, Nicoleta usava óculos para costurar, tinha dificuldade para enxergar de perto. Um belo dia notou a ausência deles. Onde estariam? Procurou, procurou e não achou... E agora: tinha urgência de entregar um vestido encomendado para um casamento. A cliente era exigente... E com razão... Desesperada foi até a Igreja de Nossa Senhora da Achiropita pedir o auxílio da Santa. Rezou 10 Ave-Marias, 10 Padre-Nossos e 5 Salve-Raínhas. Conversou com o sacristão e o padre Carmelo. Ouviu várias explicações e conselhos. A comunidade resolveu fazer uma “vaquinha” para ela comprar uns novos óculos e ir ao oculista renovar o exame. Tudo feito com o espírito de solidariedade, pois, Nicoleta, era muito estimada por todos. No mesmo dia, fez a consulta com o oftalmologista e comprou os óculos com aro de tartaruga, muito mais bonitos do que aqueles que ela usava. Ficou bem no seu rosto. Daí, partiu para o trabalho e para compensar as horas perdidas, o trabalho à noite. O resultado foi bom. Deu certo. E ela conseguiu entregar o vestido no dia e hora aprazados, graças à boa vontade do sacristão, do padre e dos fiéis. Um dia, a rua ficou em polvorosa: a molecada chefiada pelo sobrinho de Nicoleta estava correndo atrás de um macaquinho. Este, atemorizado, entrou no botequim do português Manoel e começou a fazer estripulias nas garrafas e tudo que encontrava. Depois de muitas dificuldades e mordidas o animal foi preso com grande prejuízo do comerciante que ficou uma “vara”. Quem iria pagar? Os moleques? O macaquinho? Na dúvida, xingou a todos, inclusive a Nossa Senhora da Achiropita. O xingatório chegou aos ouvidos do padre Carmelo que também era de pavio curto e chamou o português às falas. Este negou as acusações dizendo que era um fiel cristão e que de sua boca nunca poderia sair tal disparate e que sempre nas procissões colocava uma “bela nota” no vestido da Madona. Este argumento foi o suficiente para o padre perdoá-lo e abençoá-lo... O que faz o dinheiro... Ambiente amenizado, foi chamado o Serviço de Proteção aos Animais. Dois funcionários aprisionaram o macaquinho com uma rede e, rindo, retiraram os óculos do animal presos no nariz com esparadrapo. Não é necessário dizer que o sobrinho da tia Nicoleta foi “amaciado” na bundinha com várias palmadas, independente do amor que a tia lhe tinha... Apesar dos pesares, a tia Nicoleta não ficou totalmente desgostosa com o sobrinho. Graças ao “anjinho” ela conseguiu obter mais uns óculos bem mais bonitos daqueles que possuía. Chegou à conclusão que há males que vêm para bens. Rodolpho Civile
  • 93. 96 Sérgio Martins Pandolfo Médico tocoginecologista - Belém - PA Nossa raça brasileira “E entre gente remota edificaram, Novo Reino, que tanto sublimaram”. Camões, Os Lusíadas, canto I. Como tão bem cantou Wilson Simonal, somos “um país tropical/abençoado por Deus/e bonito por natureza”. E todo este imenso território, com nada menos que 8.547.403 km², que recebe insolação intensa e ininterrupta o ano inteiro conta, por isso, com um potencial agricultável e de energia solar, imponderável. Riquezas minerais são fartas e multiformes e nosso manancial hídrico, coisa preciosa hoje, é o mais avolumado do mundo. Temos o maior e mais caudaloso rio – água doce, bebível! – do planeta, com reserva piscosa insuperável. Mas o que temos de melhor, de mais precioso, o acervo mais valioso deste prodigioso País, é o nosso povo. Os médicos sabemos bem, das leis da genética, que quando se deseja melhorar as qualidades de uma determinada espécie (animal ou vegetal) há mister introduzir um ou mais elementos rácicos compatíveis, a fim de vigorizar aquela que, restrita a cruzamentos subsecutivos homorraciais por longo tempo, se vai gradativamente enfraquecendo, degradando, estiolando. Tais conhecimentos científicos têm sido utilizados, por exemplo, na melhoria ou aprimoramento de rebanhos bovinos, plantel cavalar, produtos agrícolas (frutíferas, leguminosas, gramíneas) e até na obtenção de raças animais planejadas para este ou aquele fim, como é exemplar a canina Dobermann. Nosso povo já foi original e naturalmente privilegiado e vem sendo progressivamente aprimorado há, ao menos, 500 anos, pelo caldeamento de três raças excepcionalmente bem dotadas, com características próprias salientes, que se aglutinaram e consolidaram. A raça branca, representada pelos europeus - portugueses, mormente, que para cá vieram à época do descobrimento e da colonização, mas também franceses, holandeses, ingleses, italianos, alemães - e que era, na oportunidade, o que havia de mais avançado em termos de civilização. A negra que, bem o sabemos, apresenta nítida superioridade na estruturação físico-corpórea e energética, com maior resistência às inclemências naturais e a muitas enfermidades, sendo mesmo imune a alguma delas. Superior resistência física e aptidão para tarefas mais árduas que nos têm garantido sucesso e até mesmo hegemonia em várias modalidades desportivas. Demais disso, a dor do negro desterrado, a gerar o banzo e a espicaçar a “malemolência” - de que nos fala o grande Ari Barroso, em sua “Aquarela do Brasil” -, explica a musicalidade que impregna nossas canções e o decantado “jogo de cintura” do povo brasileiro. Muitos dos negros escravos que para aqui vieram já constituíam, é bom de ver, produto de miscigenação com os árabes do norte da África, como os Fulas e os Hauças. A amarela, ou mongólica, representada pelos aborígines ameríndios que habitavam todas as latitudes das Américas, sendo, assim, da mesma origem dos japoneses, chineses e outros povos asiáticos, por isso que intelectualmente a eles equiparáveis, constituída pelas diversas tribos indígenas que aqui existiam. Bravura, altivez e resolutividade, rusticidade e destemor, mesclados, paradoxalmente, à acessibilidade natural e grande habilidade manual, são características reconhecidas em nossos ancestrais silvícolas. O caldeamento com o branco processou-se farto e consentido, diria melhor, amparado, incentivado, induzido, fazendo-a integrar a raça nacional.
  • 94. 97 Do entrecruzamento intenso e continuado resultou esta que é uma gente excepcionalmente bem conformada, privilegiadamente dotada em todos os aspectos: intelectual, físico-corpóreo e psicológico, potencialidades que deram por resultado um povo trabalhador, criativo, pacifista, amistoso, solidário, produtivo, ufano de seus valores e de seu porvir, sobremaneira irmanado, sem os laivos de preconceitos e racismos polimorfos, como observável na maioria dos países, em que as etnias que lá convivem quando muito se aturam, mas não se misturam – às vezes trituram-se. Provavelmente somos o único país do mundo em que o cruzamento do branco com o negro e o índio foi intenso, consentido e permanente, resultando na formação de uma verdadeira raça, que dia a dia evolui, aprimora-se, consolida-se. Daí porque já se disse - e é fato incontestável: “O mestiço brasileiro é o puro-sangue nacional”. A péla da nação “Isto não é uma república; isto é uma re-privada”. Rui Barbosa, 190 Todos querem teres da nação Mas, da nação, nem todos têm. Prebendas só conferem danação Quando, da nação, corrutelas vêm. Se negaças da nação o põem danado, Danem-se os credores da nação. A nação dá benesses ao quadrado Se os ratos da nação ficam na mão. Da nação todos se têm ufanos, E se põem da nação a tecer loas. Se as “burras” da nação se mantêm boas, Danação das ratazanas tem reclamos. A nação dá, de pronto, à gente boa, Privação de receita à coisa pública; E o povão, na privada, à muita súplica, Se consegue atenção, ri, abençoa. Se, porém, da nação de tetas fartas, A seiva que se esvai minguada fica Por muito chuparem as mamas hartas, Da nação, a saúde, aí complica. Sérgio Martins Pandolfo
  • 95. 98 A corda, pro Círio, ou, acorda pro Círio Um dos espetáculos mais pungentes, na romaria do Círio de Nazaré, é o do sacrifício dos romeiros na Corda. Chega a ser dramaticamente emocionante para o peregrino que o presencia pela prima vez e mesmo para muitos que, veteranos, têm sensibilidade exalçada. A procissão do Círio, em si, já é uma lídima explosão de fé, que suscita sentimentos díspares de empolgação e de espanto por parte dos que a testemunham ou dela ativamente participam, e é, sem qualquer vislumbre de exagero ou “patriotada”, a maior procissão religiosa do mundo. O movimento da massa humana, em uníssono caminhando, contrita, em uma só direção, com raros e conflituosos filões de gente em contrafluxo, mais poderia ser regionalmente configurada como uma “pororoca humana”. Certa feita recepcionamos aqui um grande e famoso cirurgião do Rio de Janeiro, acostumado, assim, a emoções fortes, que, ao assistir como espectador estreante tal demonstração inequívoca de fé, chorou copiosa e convulsivamente, ao nosso lado, sem se poder conter, dizendo, em boa voz, nunca ter vivido sensação parecida, a ponto de abalá-lo emocionalmente. O Círio era a princípio vespertino (algumas vezes até noturno). Passou a ter curso matutino em razão da nossa conhecida e até folclórica “chuva da tarde” que se abate sobre Belém e produzia alagamentos nas ruas que naqueles recuados tempos compunham o trajeto do préstito. O primeiro Círio, rememore-se, saiu em 1793, a 8 de setembro. Diz-nos o historiador Ernesto Cruz que, em 1868, forte aguaceiro, associado ao transbordamento da Baía de Guajará, provocaram imenso atoleiro na região do Ver-o-Peso, então uma doca inexpressiva e nua (sem pavimentação), provocando o atolamento do carro, puxado a boi, que conduzia a Berlinda com a imagem da venerada Santa. Após inúmeras tentativas, os diretores do evento tiveram a idéia de passar uma grande e grossa corda em volta da carroça, pedindo aos fiéis que a puxassem, o que foi cumprido com êxito, fazendo avançar o coche até o Largo das Mercês.O gesto repetiu-se nos anos subsecutivos e subsiste até nossos dias como a mais forte tradição do Círio. Várias tentativas foram feitas, ao longo dos tempos, pelos organizadores do cortejo, para abolir a Corda que, em seus entendimentos, causa mais atropelos e conturbação que ajuda, saneados os caminhos a percorrer. Só que o povo, verdadeiro compositor e ator principal do espetáculo, nunca aceitou isso, e todas as investidas nessa direção foram taxativa e até violentamente rechaçadas pelos fiéis e romeiros. Ao revés, a Corda fica, a cada ano, com maior extensão e resistência, tendo que ser confeccionada em cordoarias de alta tecnologia e sob especificações especiais, que são, precedendo sua utilização, checadas por peritos do Corpo de Bombeiros. “É o cordão umbilical que liga a Santa ao seu povo”, na feliz imagem do jornalista Raymundo Mário Sobral. Esse “santo cordão” é disputado, milímetro a milímetro, pelas mãos calejadas dos romeiros que, nem por isso, muitas vezes as têm, ao término do séqüito, escalavradas (às vezes sangrantes), o que, e paradoxalmente, apesar da dor que certamente lhe causa, proporciona-lhes enorme satisfação interior pelo “sacrifício”, que purga os pecados ou traduz o “pagamento” que fazem por alguma graça alcançada ou por qualquer outra nobre causa. Para conseguir um lugar na Corda os promesseiros têm que madrugar para chegar bem cedo, do contrário lá não terão vez. É tradição, também, quase imposição, que os “cordeiros” se apresentem e permaneçam descalços durante o percurso, o que já faz por indicar sofrimento correspondente para os pés. Por assaz expressiva cabe aqui reproduzir, do poema “O Sentimento do Círio”, que compusemos sobre o tema, a estrofe seguinte: O Círio é penitência na Corda, o Círio é devoção na Berlinda; nas mãos que esfoladas da horda, puxam o nicho da Mãe, tão linda! “O Círio de Nazaré não é, para o paraense de nascimento ou de adoção, apenas uma procissão religiosa (....). É o dia máximo, o dia em que se esquece de todos os problemas e vai à rua saudar a Berlinda que passa; é o dia em que se esquecem as rixas, as intrigas, e até perdoa os inimigos. È o dia da confraternização paraense. È o Natal do Pará”, a redizer o historiógrafo parauara Carlos Rocque. Sérgio Martins Pandolfo
  • 96. 99 Língua portuguesa Língua que nascida de latino berço, último rebento do românico falar, de Viriato1 , a Lusitânia2 , o chão bruto fecundaste, e, semente prolífera, tenra árvore viraste. Bravia, rude, nas primícias te mostraste, como toda criança que bom trato necessita; menina-moça te foste a passo edificando, cos burilos do cultor, bem polida rebrotaste. Ganhaste viço, graça, encantos, refulgência, sob lampejos dum Mestre de saber, engenho e arte3 e, fina flor dos falares dantanho em evidência, de cultas letras primas-obras engendraste. Das exíguas terras lusas, que agrandaram, te foste para tantas outras novas aportando, que aqueles bravos navegantes carregaram, vencendo as lonjuras dos mares, de perigos tantos! Nos quatro cantos do Universo vicejaste, eis que, língua erudita, a mor parte dominaste; mas na “quarta parte nova”4 , especialmente, em um nunca acabar de opimas terras5 te espraiaste. Solos ubérrimos, gentios bravos mas incultos6 , gente que de pronto, esperta, não se fez ambígua, já de infindos amores por ti se houveram e sábio te elegeram, com fervores, brasileira língua. Glossário: 1 caudilho e pastor lusitano que, por longo período, resistiu heroicamente ao domínio romano. 2 Província romana a oeste da Península Ibérica, correspondente, aproximadamente, ao Portugal de hoje. 3 Luís de Camões, o consolidador e modernizador da Língua Portuguesa. 4 a América, nos versos camonianos. 5 o Brasil, com sua imensidão terrena. 6 os naturais e os habitantes do país Sérgio Martins Pandolfo
  • 97. 100 Víctor Jose Fryc Médico - Buenos Aires - Argentina Madre Madrid (Sefarad) Madrid ensueño de sueños. Plasmaste en mis ojos el dulce sabor De fruta mordida. El molde de tus calles Cobija mis ancestros Que siglos vagan por las noches Entre tus tabernas. “Lejaim” clama la alegría De eternos vinos Con transparencias y risas. Lamentan los ecos de la Plaza Mayor El destierro de tus hijos Con el alma amputada Y las llaves del llanto Cada una de las uvas del festejo Son las lágrimas derramadas Por mi vuelta. Mírame madre soy tu hijo Que retorna para escuchar Tu canto de cuna interrumpido. Úngeme la frente con aceite Para no olvidarte Y guíame de la mano por tus calles Para recordarte y encontrar La casa de aquellos mis abuelos Porque a la seis de la tarde Saldrá la primera estrella Y se reza … y ellos me esperan.
  • 98. 101 Una cruenta lucha gremial Herodoto nunca pensó que la historia como ciencia podría desembocar en un prosenio de grandes ficciones y pequeñas miserias para figurar en el apéndice anónimo de otras grotescas que no tuvieron difusión periodística por sus códigos sectarios. Era la época en donde los “macrosindicatos” deglutían a los sindicatos pequeños, fenómeno que se denominó “globalización” como proceso de síntesis de la semántica hipócrita. En el Sindicato de Espectáculos se iniciaba el proceso eleccionario y a tal efecto se presentaron dos listas con sendos candidatos en disputa. Por un lado, uno de los candidatos, Hugo, representaba al sector de perfil más ético y honesto, socio tradicional, gran cantante internacional de herencia gardeliana de la “lista verde”. Por el otro, un payaso de un circo (Pepone) un pillastre representante de los intereses del “Gran Sindicato” que representaba la “lista marrón”. Para la mayoría de los afiliados el seguro triunfador no podía discutirse: El gran cantor aseguraba honestidad y moral. Las encuestas no dejaban dudas. El setenta por ciento apoyaba al “gran cantor” y el diez al “payaso”; el resto, “no sabe no contesta”. Era inevitable la caída del candidato mafioso y la democracia por fin iba a triunfar. Ante el peligro de perder el control del sindicato, el sector mafioso reunió sus cuerpos orgánicos para tratar la situación desfavorable; un delegado del “gran sindicato” hizo un reconocimiento “in situ” y después de muchas horas pergeñaron una estrategia digna del General Patton o de los Macabeos. En el interior del cuarto oscuro había sólo una mesa para la urna y un gran armario que ocupaba toda una pared y que poseía numerosos estantes con objetos de arte y dos bauleras en su extremo superior. Se examinaron las urnas que quedaron selladas y aseguradas para el día siguiente. Durante la madrugada, los complotados se introdujeron en el edificio para la primera parte del operativo “fraude” (cerrajero de por medio y traidor de turno) El día del comicio por fin llegó después de una campaña preelectoral ríspida, contestataria y, en algunas oportunidades, violenta. El más perjudicado fue el candidato de mejor perfil ético. No fue difícil adivinar el origen de las agresiones. En una de las oportunidades en que debió actuar en el Club “Olor y Fuerza”, cuya pista de baile, cancha de básquet y de bochas ocupaba un cuarto de manzana, le desapareció el micrófono; para solucionarlo improvisaron un megáfono con una lata de aceite Petrobras. En una segunda oportunidad, un pillo aprovechando el intervalo, colocó un sapo en el fuelle de un bandoneón de la orquesta. Ya en el arranque del primer tema, el bandoneón corcoveaba como un potro y el bandoneonista huía aterrorizado saltando del escenario. A pesar de todo esto, la fe no decayó; el triunfo era seguro. En la sede central, a la hora señalada, una larga fila se había formado. Las autoridades controlaban los documentos en orden y tildaban las planillas prolijamente. Un veedor del Ministerio asustado observaba a los custodios vestidos con camiseta cuyo relieve hacía adivinar brazos como columnas de alumbrado tatuadas con filigranas y distintas dedicatorias (“madre hay una sola”) (“un caballo lerdo toma agua turbia”) Pasaron las horas y, al caer la tarde, en horario legal, se cerró el comicio y los representantes de ambas listas procedieron a abrir las urnas. Fue una votación ejemplar pero sorprendente pues ocurrió un altercado inesperado: El gran armario había sido saqueado totalmente de sus pertenencias por los votantes Víctor Jose Fryc
  • 99. 102 intrusos que aprovecharon la ocasión. Como consecuencia se procedió a cerrarlo herméticamente con las llaves y realizar una denuncia formal. Luego se procedió al conteo de los votos y oh!! amarga sorpresa, las encuestas y pálpitos habían fallado. El ganador resultó ser el payaso Pepone y por muerte, con un aplastante 70% de los votos. Consternación y fracaso en las filas del favorito; la democracia estaba derrotada. Nadie podía explicar un resultado tan absurdo; ni los del comando central del “Sindicato Único”, tanto más que no hubo ninguna denuncia de soborno, falsos documentos o afiliados muertos. Sólo la voluntad de la mayoría. Sin embargo, hubo un sólo detalle significativo: En la planilla de votantes faltaban los nombres de los dos enanos (Figurita y Pan Casero) que debieron ser rescatados de las partes altas del gran armario y que quedaron encerrados después de haber cambiado las urnas. Lección de la historia: La democracia perdió un gran dirigente con un futuro brillante pero Buenos Aires recuperó un gran cantor. Colorín, colorao, .... Cuando mi sombra Cuando mi sombra n o alcance la tuya Aunque se alargue en la luz del ocaso No te detengas a esperar mi paso Elige una calle que alumbre la luna. Cuando mis manos sean pergaminos Y mis caricias el temblor del miedo Perfuma tu piel así no habrá invierno Y apura presto mi copa de vino. Cuando mis ojos relean borrosos Los versos que con timidez leía Aléjate de mi melancolía. Cuando me observes horas en silencio Es que pienso en el perro del vecino… No creas que es por el amor perdido. Víctor Jose Fryc
  • 100. 103 El amor a los animales (lex dura lex) Es tanto el amor que tenemos por los animales que, en primer lugar, tratamos de domesticarlos, es decir, los utilizamos para varios fines sobre todo utilitarios. El caballo, el perro, el buey, la vaca y ciertos seres humanos forman parte de una explotación que aún nadie reparó en ella. Podemos citar como ejemplo al caballo ¿Para qué sirve? Efectivamente. Sirve como caballo de tiro, de paseo, para las carreras, para arrastrar la calesita, apartar la hacienda, desfilar y hasta para bailar. En particular, ha sido utilizado para el espectáculo teatral, cinematográfico y televisivo. Ejemplo: Mr Ed, Silver, el Juan Moreira, etc. En cierta obra teatral que se exhibió en el teatro Nacional de la Avenida Corrientes (en aquel entonces con mano hacia Chacarita) debieron alquilar sendos animales, (Petisos Criollos), “mala cara” uno y “alazán” el otro. El proveedor era Juan Batilana del Barrio de Mataderos; conspicuo vecino y personaje del barrio. Juan Batilana procedió como fue pactado a entregarlos, puntualmente, en el lugar de destino. Ensilló a ambos con los mejores aperos, la mejor silla, la mejor montura y los enjaezó con cabestros y riendas tachonadas de plata. Partió a las 6 horas de la mañana del galpón de la caballeriza cuando la neblina que brotaba de los pastos, seccionaba los cuerpos construyendo fantasmas. En lugar de seguir el itinerario lógico (Avenida Campana, Directorio, San Juan, Bernardo de Irigoyen, Carlos Pellegrini y unos treinta metros de la Calle Corrientes) lo exaltó el orgullo de ser protagonista de Buenos Aires y enfiló montado en uno de ellos por el Arroyo Maldonado (Avenida Juan B. Justo) hasta Corrientes y de ahí de contramano derechito por Corrientes hasta el Teatro Nacional. Desde cada bar lo saludaban con gritos y aplausos; tal era su popularidad. Al llegar al teatro se apeó y procedió a sujetar los caballos criollos en la columna de alumbrado y arrojar sendos fardos de pasto en la vereda. Como era muy temprano se dirigió despacito hasta el Bar de Uruguay y Corrientes para tomar “un copetín” acompañado de abogados, jueces, fiscales y bohemios. Mientras, los equinos se entretenían rumiando y bostezando en la vereda de la calle Corrientes, ante la ironía de algunos transeúntes y el asco de otros. No faltó el distraído de retorno de la madrugada que pagaría cara su resaca nocturna. El único entretenimiento de los caballos era bostear, cosa que fue interpretado por un señor de barba y sobacos ilustrados como una ofrenda a la ecología. Cada bosteada, calculada en dos kilos y medio correspondían a la modesta suma de cinco kilos cada media hora y por ende, al mediodía, cincuenta kilos tapizaban la vereda y la calle y que los coches y transportes colectivos desparramaban hasta la esquina de Lima. A través de las horas, se produjo la lógica reacción de los argentinos. Primero, el público lanzó entre sus voces aquello de “El pueblo quiere saber de que se trata” y también lo tan trillado de “Quién habrá sido el pelotudo que dejó allí los caballos”, hasta llegar a la histeria de “Quién me paga la tintorería”. Los lustrabotas se negaron a trabajar en esas condiciones desfavorables, insalubres y contaminantes. Una fina lluvia se agregó al drama. Para aquellos extranjeros que suelen leer mis “relatos, cuentos y otras expresiones literarias”, debo aclarar que en Buenos Aires las baldosas en su gran mayoría están flojas y por ello cuando llueve, se produce un fenómeno hidráulico en sentido ascendente cuando son pisadas. Durante todo ese intervalo se produjo la siguiente reacción oficial, diríamos del sentido común, sin reparar en el buen sentido. Por ejemplo, el sentido común sería en este caso “oler mierda”, en cambio el buen sentido sería “¿Qué hace esta mierda aquí? Hasta que un turista (escocés u holandés) preguntó si los dos caballos eran una muestra de nacionalismo o una publicidad del teatro. Un operario del mismo aseguró: El productor gasta lo que sea para la publicidad – y prosiguió – esta es una raza extinguida de equinos y si usted quiere se la podemos vender ya. Como el cuento del tío en Europa no se conoce, los turistas le solicitaron el pedigrée y el “piola” le contestó “ovejero belga”. Y ahí fracasó el negocio. Se recurrió primero al barrendero municipal quién dijo: - A mi no me corresponde, hay que llamar a la Dirección del corralón municipal. Víctor Jose Fryc
  • 101. 104 Allí contestaron que el tema le correspondía a la Dirección de Limpieza, encargados de levantar la basura y que se hicieron presentes pero se negaron a cargar con la bosta, primero porque no tenían pala y segundo porque ellos levantan la basura en bolsas y no a granel. La desorientación era muy grande y los periodistas comenzaron a levantar las quejas, especialmente de los chicos de la calle, por la imposibilidad de abrir las puertas de los coches para que bajaran los pasajeros. Asimismo lo hicieron los que pedían limosna, pues en esas condiciones era antieconómico el gasto de tintorería de los trajes de mendigos que debían devolver al sindicato “ad hoc”. Asimismo, intervinieron en una gran protesta contra el gobierno La Asociación Protectora de Animales, El Club Hípico Argentino, El Centro Ecológico, Greenpeace, La Asociación de Derechos Humanos, La Rural, La Corporación de Criadores de “Petisos”, El Defensor del Pueblo y la Colectividad Boliviana (esto último se desconoce el porqué) En la Municipalidad se recurrió al Departamento General de Catástrofes para por fin encontrar una salida a la “mierda” derramada pero el expediente fue derivado al Fuero Penal Federal y de ahí en más se perdió el rastro y nadie trató de averiguar. Sólo se supo que el Ministerio del Interior mandó una decena de patrulleros, un carro hidrante y la policía montada por lo que se produjo más bosta en el lugar la cual, junto con el agua, se dispersó hasta Leandro Alem (nueve cuadras) Después de transcurrida esta escena escatológica y a través de un canillita, un oficial pudo diagnosticar la etiología de este desastre. - El que dejó los caballos frente al teatro venía montado de contramano; recién lo vi en el Bar de Uruguay y Corrientes tomando ginebra con unos amigos…. Y sirena de por medio, partió raudamente el joven oficial con un coche patrullero hacia el bar. Allí ubicaron a Batilana al que interrogó: - ¿Usted es el dueño de los caballos que están en la puerta del Teatro Nacional? - Si señor oficial. - A quién se le ocurre tamaño desatino… esa locura. - No le permito. Soy hombre respetuoso de la ley y de quien la representa. - Sus caballos, mejor dicho usted, ha provocado un caos total. - No puede ser, soy muy respetuoso de los representantes del orden y las normas. - Puede ser, pero la bosta derramada por la Avenida Corrientes dice todo lo contrario. - No pretenderá que los caballos dejen de bostear. - Sí, en ese lugar. Está prohibido arrojar excrementos en la vía pública. - ¿Cuál es la norma que prohíbe bostear a los caballos? ¿Y como se podría lograr que no lo hicieran? - Eso a mí no me incumbe; yo soy representante del orden y aquí hay un gran desorden; y de este desorden hay un responsable. - ¿Usted insinúa que yo soy el responsable? - Sí. Usted es el responsable intelectual. - ¿Por darle la “manutención” a los caballos? Es inconcebible! No voy a permitir que los animales sufran ayuno. - Tendrá que acompañarme a la Comisaría Tercera. - ¿Cuáles son los cargos? - Ya se los dije. - Tendrá que hacerse responsable por privación ilegítima de la libertad ¡Soy un gaucho libre, viva la patria! - Me importa un bledo. - ¡Que paradoja! Aquí hay jueces, fiscales y jurisconsultos y nadie opina ¡Qué alguien diga algo! Un juez - Bien, debiéramos actuar de oficio. Un fiscal - Efectivamente, pero por un poco de bosta me parece un despropósito. Oficial - Me tiene que acompañar a la comisaría. Y hacía allá fue Batilana conducido en el patrullero a la seccional tercera donde fue interrogado por el comisario. - Señor Batilana; me vi en la obligación de hacerlo detener. Tomar de contramano la Avenida Corrientes podría ser perdonable pero atar los caballos a las columnas de alumbrado público es algo que me compromete ante las autoridades, sobre todo en la vidriera de Buenos Aires a pocos metros Víctor Jose Fryc
  • 102. 105 del obelisco ¿Se imagina cuando la noticia dé la vuelta por el mundo: “Buenos Aires bajo la bosta”, donde iré a parar? Tendré que aplicarle una multa y detenerlo por lo menos veinticuatro horas por estacionar los caballos en lugar prohibido. Batilana se sonrió y contestó con inocencia e ironía. - Deberá multar al Teatro Nacional por no cumplir con lo que manda la Ordenanza de 1901: “Todo Teatro o lugar de espectáculo deberá poseer palenque en su acceso con carácter obligatorio. - ¡Pero esto fue hace más de medio siglo!... - Lamento, la Ordenanza no ha sido derogada aún y yo soy muy obediente de las normas. Batilana se fue silbando bajito después que el comisario lo despidió un tanto confundido: - A propósito ¿Me consigue un par de entradas para el teatro?... Juan Batilana, parado en Uruguay y Corrientes, entre pensativo y nostálgico recordó aquellos versos de Baldomero Fernández Moreno: “Setenta balcones hay en esta casa Setenta balcones y ninguna flor A sus habitantes señor ¿Qué les pasa?...” Llegaste un dia Llegaste un día con tus trenzas Ingenuidad de mujer crédula. Largas noches fabricabas con tus sedas Aquella bufanda blanca De un trozo de novela Lágrimas de nueve lunas Que no te visitaron Para tener la excusa de cebar El mate de la madrugada. Porqué no te amé tanto madre Tanto como tú me amaste. La vela se apaga lenta Como una llama parpadeante Como tus ojos dulces. Qué bellas eran tus trenzas Al cenit corona de un reino perdido. Tus trenzas se han oculto Detrás del crepúsculo Como la luna Cuando enmudece su plata En las noches mágicas. Pero sus tientos están ahí presentes Atándome a tu imagen Que me ceba el mate De la madrugada. Mientras, mis manos Castillos de arena Hacen en silencio Y las sombras danzan Con el temblor De un farol a querosén. Víctor Jose Fryc
  • 103. 106 Zilda Cormack Médica - Rio de Janeiro - RJ Olhos verdes Era o presente mais importante que recebera durante a trajetória de seus sete anos. Olhos verdes, assim o apelidara a tia, porque a par da masculinidade vibrante e já bem marcada no seu todo infantil, o que mais chamava a atenção na sua pessoa era a expressão, a limpidez translúcida verde-azul de seus olhos. A enigmática força que deles flui parece um misto dessa mesma força oriunda do verde dos oceanos mesclado com o misterioso azul descortinado no horizonte. E que beleza no seu porte ainda tão criança, virtude do futuro homem que já se faz sentir no todo em sedução. Olhos Verdes foi correndo receber as tias quando elas chegaram de visita á casa de campo onde ele residia com a família. Braços estendidos, acolheu-as numa alegria esfuziante. Corria para todos os lados, atropelava as notícias que dava. Sentia-se nele a necessidade urgente que tinha de lhes comunicar algo muito importante que ele tinha ganho, um presente, guardando o sigilo do que era para a surpresa maior. Mal se continha ante as efusões de praxe com os outros familiares da casa. Agarrado a volta das tias, insistia em lhes mostrar o tal presente, para ele tão valioso. O pai advertiu-o meigamente dizendo-lhe que não as molestassem pois elas deveriam estar muito cansadas da viagem empreendida até ali. Olhos Verdes fazia-se de surdo, demostrando grande aflição para mostrar o misterioso presente. Isso era patente, ante a possibilidade de algum familiar menos avisado quebrar o sigilo do regalo. Frente a tanta insistência, atenderam aos apelos da criança seguindo-lhe os passos. Olhos Verdes corria célere a frente de todos, parando vez por outra e olhando para traz para certificar-se de que estava sendo seguido. Dirigiu-se para os fundos do quintal da bela propriedade, gritando insistentemente: SERAFINA... SERAFINA... Não vislumbraram qualquer pessoa naquelas imediações que o atendesse e ele insistindo: SERAFINA... SERAFINA... O menino senta-se ao chão e ainda chamando por Serafina, já baixando o tom da voz e um tanto acanhado frente às tias e as outras pessoas da casa que o acompanhavam e que se quedaram perplexas sem nada dizerem. Olhos Verdes ainda no chão, já externando mímica de choro, baixa a cabeça escondendo-a sob os bracinhos cruzados sobre os joelhos, continua a chamar: - SERAFINA... onde é que você está que não me atende ? SERAFINA... SERAFINA... e já chorava baixinho. Ficaram todos estarrecidos ante tal conduta e mais ainda quando, de súbito, viram se aproximar de Olhos Verdes um pequeno galináceo que mais parecia um pinto em formação. Chegou mansinho emitindo um leve piado bem perto da criança que, nesse momento
  • 104. 107 levanta a cabeça, estende a mão e logo o animalzinho se achega a ele que o abraça, festejando- lhe a chegada. Com palavras ininteligíveis para todos que observavam a cena, monologava com a ave e essa se queda quieta ao seu lado, parecendo compreender o que lhe estava sendo transmitido. Falava baixo, mas algumas palavras puderam ser apercebidas quando ele dizia: - Onde você estava Serafina, onde você estava? Ato contínuo, triunfante, volta-se sorridente dizendo: - Eis o presente que ganhei! Não é bonito? Foi o meu amigo que me deu. Levanta-se do chão e aproxima-se do grupo carregando o magro galináceo nos braços. Ela se chama SERAFINA. Olhos Verdes, expressando felicidade no rosto estende a sua alegria a todos. Insistia com as tias para que também elas o acariciacem, dizendo: - É um animal muito manso, gosta de todos, era essa a surpresa que eu queria fazer, mostrava orgulhoso. Após alguns momentos , todos ficaram envolvidos pela docilidade daquele animalzinho ao qual o menino tanto se afeiçoara. Era incrível observar todo o poder de comunicação que se estabelecera entre os dois No final de alguns minutos e após sucessivos afagos ao galináceo, Olhos Verdes solta-o ao chão. O animal livre, sai a correr iniciando um cacarejo aparentemente compreensível para a criança que reinicía os seus apelos dizendo: -SERAFINA...vem cá, tenho que lhe dizer uma coisa..... vem aqui... se..ra..fi..na...se..ra..fi..na.. Mais perplexos ficaram todos ante a atitude da ave que parou, olhou para um lado e outro, reiniciando um caminho de volta para o lado de Olhos Verdes que a afaga docemente tocando-lhe o dorso. Toma-a ao colo novamente, ignorando agora a presença das pessoas, pois já caminhava no seu mundo infantil, prosseguiu no monólogo com a ave: - Serafina, eu te amo, sabe? Eu te amo. Todos compreenderam afinal que essa franguinha magricela e feia, aparentemente tão desprotegida, merecia de Olhos Verdes toda a sua atenção, carinho e amor. Essa criança meiga e linda, de apenas sete anos de idade estava dando a todos uma bela lição de pureza e sensibilidade, conseguindo fazer-se compreender por um simples galináceo, tornando-o dócil e cativo para alguém que soube lhe dispensar afeto e proteção sem nada lhe cobrar. Decorridos dez meses, as tias novamente frente a Olhos Verdes que vem visitá-las em companhia da mãe, já agora no Rio de Janeiro. O mesmo entusiasmo, a mesma alegria esfuziante, dando todas as notícias aos atropelos. Precedendo a progenitora e após os cumprimentos de praxe, uma das tias indagou-lhe de imediato: - Olhos Verdes, como vai a Serafina ? Nesse momento o menino para, seu olhar adquire uma expressão dúbia, projetando no ar um tom de mistério. Isso nos despertou que aguardavam a sua resposta certo grau de curiosidade natural. Ciente do efeito que produzira, Olhos Verdes baixando o tom de voz fala importante: Ah! a Serafina... ah! ah!.. eu a dei a um amigo... fala rápido e logo em seguida, voz mansa e lenta extravasa em tom profético a grande sentença :- Mas não era Serafina e sim era um... Serafim. Ficou a olhar para as tias vendo a reação que causara com tal assertiva. Após alguns minutos de risos e comentários a propósito dessa revelação, insistiram com. Olhos Verdes: - Mas esse foi o real motivo de você ter dado o Serafim para outra pessoa ? Ele meio sem jeito não respondia e quando o fazia era de modo escorregadio, usando vários subterfúgios, fugindo do assunto. A mãe que o observava insistia com ele: - Conta a verdade... direito ...diz o motivo verdadeiro pelo qual você deu o Serafim . Olhos Verdes olhou para as tias e um sorriso maroto transformou- lhe a fisionomia. Num ímpeto pronunciou a sentença: - Eu dei o Serafim porque ele sujava muito... e ...a toda hora e eu ... é que tinha que limpar porque era o seu dono. Isso ficou estabelecido quando... quando o ganhei. E... é só isso. Olhou-as de um modo muito especial e concluiu, enfático: É... fiquei cansado de limpar... COCÔ DE GALINHA... Riram a valer e Olhos Verdes mais feliz ainda corria à frente de todos satisfeito com o impacto que causara com a revelação pura e simples de sua verdade infantil. Zilda Cormack
  • 105. 108 Lendo Cabral Lendo Cabral eu sei que não sei nada! E sendo assim, melhor quem sabe ? ao le-lo aprenderia melhor que toda a escada só serve para quem subir com zelo ! É desmazelo ler sem se dar conta, que é professor, Cabral, no fazer verso. Bem mais ensina que nem tanto aponta erros de quem não sabe ler no anverso! E cada vez que o leio, me esparramo nesse lirismo em cores, tão barroco, que se projeta, que não diz “eu amo”, amando à terra, de um país que é pouco, tão ôco em vozes que por tais distâncias, tão separados vivem nas ribeiras, nas palafitas onde jogam ânsias multiplicando gente nas esteiras ! É nosso povo sim, que retratado, abandonado, nem sabendo ler, foi pelo mestre João Cabral, letrado, mostrado ao mundo a dor de não se ter ! Lendo Cabral, eu sei que não sei nada ! Lendo Cabral, sinta o Brasil inteiro, de norte à sul, e voando como fada aprenderás a ser... mais brasileiro “ Tentativas Tentei apaziguar os meus desejos que do nirvana vinham pelo espaço, povoar meus sonhos com seus beijos e carícias infindas de um abraço !.. Tentei organizar meu pensamento jogando no amor...nesse sentimento que povoa a vida... tem seu momento, explode e acaricía... traz tormento à alma cansada de tanto buscar ! Tentei mais entender-te... foi em vão. Sorvi o fel vertido na inconstância constante de teu ser.... descubro então tanta fraqueza... fruto da arrogância !. Tentei bem esquecer o teu abraço... Que faço pra entender-te ? Se nem sei a mim mesmo entender-me, nesse espaço de tempo sem medida... que eu te dei ? Tentei ... em fim tentei no mesmo paço sair do poço...e consegui. Na mente persiste uma pergunta a que eu me faço : Por que não te esqueci... completamente ? Zilda Cormack
  • 106. 109 Não verás... E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará . João Cap.8 ver.12. Estava lendo os Evangelhos quando me deparei com o versículo acima. Fiquei refletindo nesses ensinos. O pensamento tomou rumo, dirigindo-se para os últimos acontecimentos divulgados pela mídia (jornais e televisão), pelos quais o povo vai tomando conhecimento dos desmandos de uma parte dos governantes de nosso país com enriquecimentos ilícitos, mentiras deslavadas, acusações recíprocas, expressões fisionômicas de candura indecente mescladas de um palavrório sutil próprio, desenvolto com grande habilidade pelos políticos governantes. Essa linguagem, compreensível apenas por uma pequena parte (elite), ininteligível porém para a grande maioria votante, simples, confiante, pessoas humildes (mais da metade da população do Brasil), ignorantes nas letras mas não de espírito e alma. Esse mar de lama no qual o país está vivendo nesse período, graças aos avanços tecnológicos da informática, estão sendo checados, a bola de neve continua rolando, bem como a meada, cujo fio ainda não foi encontrado. Os Lalaus, Fernandos Henriques, Dirceus, Lulas, Jeffersons, Valérios e outros tantos da vida, existentes nas elites do Brasil e de todos os paises do mundo, estarão sempre, de uma maneira ou outra, sujeitos a vexames quando as CPIs são instaladas. Esses indivíduos são massacrados, descobertos em suas mentiras e tramóias, roubando o povo desavergonhadamente, num enriquecimento ilícito, capaz de vexar o próprio capeta. Nunca leram os Evangelhos e se o fizeram esqueceram-se dos primórdios da doutrina cristã. Com esses despropósitos pelos quais estamos atravessando, um sentimento de tristeza e desânimo vem toldar a imaginação pronunciando-se : “Tenho vergonha de ser brasileiro”. Sempre há os entretanto e logo, o amor ao torrão natal se interpõe na consciência, lembrando- me de outros brasileiros, tão mais sofridos do que eu, repetindo sem temor e com muita coragem, a beleza dos versos do nosso poeta Bilac quando diz: “Ama criança, a terra em que nasceste Não verás no mundo nenhum país como este...!” Zilda Cormack
  • 107. 110 Expressão & Arte Gráfica Rua Waldemar Martins, 926 - Casa Verde - CEP 02535-001 - São Paulo - SP Telefone (11) 3951-5188