Anais VIII Jornada - 2005

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Anais VIII Jornada - 2005

  1. 1. VIII Jornada Médico-literária Paulista Serra Negra - São Paulo - Brasil 22 a 25 de setembro de 2005 Anais Sociedade Brasileira de Médicos Escritores Regional do Estado de São Paulo SOBRAMES - SP
  2. 2. Anais VIII Jornada Médico-literária Paulista Sociedade Brasileira de Médicos Escritores Regional do Estado de São Paulo SOBRAMES-SP Serra Negra - São Paulo - Brasil 22 a 25 de setembro de 2005
  3. 3. SOCIEDADE BRASILEIRA DE MÉDICOS ESCRITORES Regional do Estado de São Paulo SOBRAMES - SP Diretoria Gestão 2005/2006 Cargos Eletivos Presidente: Karin Schmidt Rodrigues Massaro Vice-presidente: Flerts Nebó Primeiro secretário: Marcos Gimenes Salun Segundo secretário: Maria do Céu Coutinho Louzã Primeiro tesoureiro: Rubens Massaro Segundo tesoureiro: Milton Maretti Conselho Fiscal Efetivos: Luiz Giovani José Rodrigues Louzã Madalena J. G. M. Nebó Suplentes: Sérgio Perazzo José Jucovsky Arlete M.M.Giovani A VIII Jornada Médico-literária Paulista é uma realização da SOBRAMES - SP - Sociedade Brasileira de Médicos Escritores Regional do Estado de São Paulo Sede: Rua Alves Guimarães, 251 - CEP 05410-000 - São Paulo - SP Telefax: (0xx11) 3062.9887 - E-mail: sobrames@uol.com.br Copyright 2005 © dos Autores A Comissão Organizadora da VIII Jornada Médico-literária Paulista foi composta pelos integrantes da atual diretoria Projeto Gráfico e Diagramação: Rumo Editorial Produções e Edições Ltda. E-mail: rumoeditorial@uol.com.br
  4. 4. Apresentação Com muita honra convido-os a conhecer nas próximas páginas a inspirada produção literária dos escritores que participam desta VIII Jornada Médico-literária Paulista, realizada pela SOBRAMES de São Paulo. Em cada texto, seja ele em prosa ou verso, vai a alma do escritor e todo o seu talento criativo. Ao ler e ouvir na voz de seus autores estes contos, estas crônicas e estas poesias durante o nosso encontro, teremos a rara oportunidade de nos transportar mentalmente para um outro mundo: o da fantasia, do sonho e especialmente o do poder das palavras. Boa leitura a todos! Serra Negra, setembro de 2005 Karin Schmidt Rodrigues Massaro Presidente da SOBRAMES-SP Sociedade Brasileira de Médicos Escritores Regional do Estado de São Paulo
  5. 5. Sociedade Brasileira de Médicos Escritores SOBRAMES-SP QUEM SOMOS A Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, Regional do Estado de São Paulo, foi fundada em 16 de setembro de 1988 e congrega mais de cem membros titulares, acadêmicos, colaboradores, eméritos, honorários e beneméritos. Basicamente a sociedade é constituída por médicos escritores de literatura NÃO-CIENTÍFICA, além de escritores de outras formações profissionais (advogados, engenheiros, jornalistas, dentistas, arquitetos, etc..). PIZZA LITERÁRIA Em 1989 surgiu a idéia de se reunir os colegas ao redor de uma mesa de pizza, como acontecera por ocasião da fundação da entidade. A reunião mensal tornou-se uma tradição e foi intitulada “Pizza Literária”. Desde então é realizada em uma pizzaria de São Paulo, com uma freqüência que costuma beirar quarenta pessoas. Nesta, além de se saborear uma deliciosa pizza, tomar um chope e bater papo com os amigos, tem-se a oportunidade de ouvir os trabalhos dos colegas e também apresentar os seus, se quiser. Tem-se, também, a possibilidade de encontrar colegas de outras especialidades e formados nas mais diversas faculdades, além de sócios não médicos das mais variadas profissões. Todos com uma paixão em comum: a literatura. As reuniões de 2005 acontecerão na terceira quinta- feira de cada mês, na pizzaria BONDE PAULISTA, na Rua Oscar Freire, 1597 – à partir de 19h00. JORNADAS E CONGRESSOS A cada dois anos a Regional de São Paulo promove uma Jornada Médico-literária. Estas se realizaram em cidades do interior paulista: Jundiaí, Bragança Paulista, Santos, Campos do Jordão, Águas de São Pedro, Botucatu e novamente Campos do Jordão, em setembro de 2003. A VIII Jornada Médico- literária Paulista acontece na cidade de Serra Negra, de 22 a 25 de setembro de 2005. Como existem regionais da SOBRAMES em muitos estados brasileiros, nos anos pares é realizado um Congresso Nacional da SOBRAMES. Em 1994 e 1998, este ocorreu em São Paulo, organizado por nossa regional. O último Congresso Nacional se realizou de 26 a 30 de maio de 2004 em Bento Gonçalves / RS, com expressiva participação da delegação da SOBRAMES-SP. O próximo Congresso Nacional acontecerá em abril de 2006, na cidade de Maceió – AL. EVENTOS INTERNACIONAIS Além da existência de regionais da SOBRAMES na maioria dos estados brasileiros, os médicos escritores desta sociedade têm também participação em algumas associações em outros países, como é o caso da LISAME - Liga Sul Americana de Médicos Escritores, com sede em Buenos Aires – Argentina; UMEM – União Mundial de Escritores Médicos, com sede em Lisboa – Portugal, cujo último congresso se realizou em Viana de Castelo - Portugal, de 27 de setembro a 3 de outubro de 2004, contando com representação da SOBRAMES paulista; UMEAL – União de Médicos Escritores e Artistas de Língua Lusófona, com sede em Lisboa – Portugal, dentre outras. PUBLICAÇÕES Desde 1992 a SOBRAMES-SP publica um informativo mensal chamado “O Bandeirante” que é distribuído aos membros. Por vários anos publicou o suplemento literário, as “Páginas Sobrâmicas”, trazendo trabalhos dos sócios da Regional de São Paulo. À partir de 2001 a publicação ganhou o título de “Suplemento Literário”, e continua sendo publicado mensalmente. Além disso, a Sociedade já editou oito coletâneas com trabalhos dos membros, a primeira publicada em 1990, com o título de “Por um Lugar ao Sol”. Seguiram-se “A Pizza Literária” (1993), “A Pizza Literária - segunda fornada” (1995), “Criação” (1996), “A Pizza Literária - quinta fornada” (1998), “A Pizza Literária - sexta fornada” (2000), “A Pizza Literária – sétima fornada” (2002) e “A Pizza Literária – oitava fornada” (2004). Em 1999, editou-se a “I Antologia Paulista”, contendo todos os trabalhos das “Páginas Sobrâmicas” nos seus dois primeiros anos de publicação (abril 1997 a março de 1999). Em 2000 foi publicada a II Antologia Paulista, desta vez com trabalhos inéditos dos membros. Em 2001 publicou-se
  6. 6. a III Antologia Paulista, com trabalhos literários publicados de abril de 1999 a março de 2001 no Suplemento Literário. Por ocasião da Jornada Literária de Campos do Jordão, a SOBRAMES-SP lançou o quarto volume dessa série de antologias. Está previsto para setembro de 2005, em Serra Negra, o lançamento da quinta Antologia Paulista, que reúne todos os textos publicados entre abril de 2003 e março de 2005, no Suplemento Literário do jornal “O Bandeirante”. Por seu caráter amador, e por não ser uma editora de livros, a sociedade deixa a critério de cada um de seus membros a escolha das editoras de sua conveniência para publicação de suas obras. A grande maioria dos membros da SOBRAMES-SP tem obras individuais publicadas, nos mais variados gêneros. De agosto de 2004 a maio de 2005 a SOBRAMES-SP editou um informativo virtual denominado “São Paulo Informa” transmitido semanalmente por e-mail, contendo as notícias do período. CONCURSOS LITERÁRIOS Em 1997, foi instituído o Concurso para A Melhor Poesia do Ano, Prêmio “Bernardo de Oliveira Martins” e, a partir de 1999, o Concurso para A Melhor Prosa do Ano, Prêmio “Flerts Nebó”, dos quais participam todos os membros da SOBRAMES-SP que apresentam seus trabalhos nas Pizzas Literárias. Estes certames visam antes de tudo um estímulo à criatividade dos autores membros da SOBRAMES, tendo em vista a característica meramente diletante de seus participantes. Antes de tudo, visa um estímulo á literatura. Trimestralmente acontece um desafio intitulado SUPERPIZZA, onde os escritores são convidados a produzir um texto em prosa ou verso sobre um tema sugerido. DIRETORIA A cada dois anos a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, regional do Estado de São Paulo elege em assembléia uma nova diretoria. Na atual gestão (biênio 2005/2006) a diretoria está assim composta: Presidente: Karin Schmidt Rodrigues Massaro; Vice-presidente: Flerts Nebó; Primeiro- secretário: Marcos Gimenes Salun; Segundo-secretário: Maria do Céu Coutinho Louzã; Primeiro- tesoureiro: Rubens Massaro; Segundo-tesoureiro: Milton Maretti; Conselho Fiscal Efetivos: Luiz Giovani, Madalena J.G.M.Nebó, José Rodrigues Louzã; Conselho Fiscal Suplentes: Sérgio Perazzo, José Jucovsky, Arlete M.M.Giovani. COMO PARTICIPAR Podem tornar-se membros da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores todos os médicos, de qualquer especialidade, e todos os acadêmicos de medicina, em qualquer ano do curso, mediante simples solicitação de sua inscrição, e bastando que sejam também escritores de literatura NÃO- CIENTÍFICA, em qualquer gênero literário (romance, crônica, conto, poesia, ensaios, etc.). Também podem tornar-se membros da SOBRAMES-SP os ESCRITORES de qualquer outra formação profissional, apresentados por outros membros da sociedade. A solicitação será aprovada mediante análise da diretoria e existência de quórum na forma de seu estatuto. Os membros contribuem financeiramente com uma anuidade que em 2005 é de R$ 120,00. Os custos de algumas atividades da SOBRAMES-SP são pagos pelos participantes, como por exemplo, despesas de hospedagem em congressos e jornadas e despesas de consumo nas reuniões denominadas Pizzas Literárias. INFORMAÇÕES Para obter maiores detalhes sobre a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, regional do estado de São Paulo, envie um e-mail para SOBRAMES@UOL.COM.BR.
  7. 7. INDICE Alcione Alcântara Gonçalves 13 A visita / Palavras ao vento / Mãe / Lição de amor Alitta Guimarães Costa Reis Ribeiro da Silva 15 Janeiro / Sol poente / O presente / Ilusão Arlete Mazzini Miranda Giovani 18 Batalha urbana / Ressurreição Camilo A. Giani 20 Quaestio de nomine / La hoguera / Hasta que se va el dolor / Rigamodo, Malgaigne y la virgindad / Point de lendemain Camilo André Mércio Xavier 24 Perdas e ganhos / Viagem / Mulher / Destino Carlos Augusto Ferreira Galvão 26 Síndrome de Lázaro / Brasil depois do sonho / O pensamento / A ré pública Eduardo Benedetto 30 La hora / Dedos como garras Enrique Félix Visillac 34 El poder de la escritura Evandro Guimarães de Sousa 36 Cocô de cachorro / Ícaro e o ácaro Flerts Nebó 38 A verdadeira fundação de São Paulo / Histórias reais que passaram a ser contos infantis / Pai Helio Begliomini 43 Um paciente muito especial e a SBU / Humildade e reconhecimento / JKO - Patrono da Sociedade Brasileira de Urologia / Convergência Hélio José Déstro 47 Piano dedilhado /O homem Jesus, hoje / Sussurrando para mim mesmo / Tortura e seus instrumentos José Rodrigues Louzã 53 As férias José Warmuth Teixeira 55 Cascatinha / Atração quase fatal Karin Schmidt Rodrigues Massaro 57 Insônia III / O refluxo Karina Lorena Sara Iza 58 Os cedros de Deus / De feridas e solidões
  8. 8. Luiz Giovani 60 O soco / Órbitas Luiz Gondim de Araújo Lins 62 Revelações / Solidariedade / Machista / O mundo encantado Luiz Jorge Ferreira 66 Telhados / Meia volta, volver! / Oriente Marcos Gimenes Salun 69 Sobre quixotes, panças, gigantes, moinhos de vento e outras quimeras / Virtualmente / De cima do palanque / Minha cidade Maria Virgínia Bosco 74 Essência versus aparência / Monólogo de maio / Retrato / A malabarista dos sonhos Mélida Francisca Velasco Cassanello 77 Homenagem a Pablo Neruda / Amor eterno / Querida mamãe / Vanessa Milton Maretti 79 Esperança / Uma variante do tema: amor e guerra Nelson Jacintho 82 Os ceguinhos da igreja / À procura da vida ideal / Na enfermaria / Eu quero a felicidade Omar Jorge Marucco 86 Hospital / Niño em la calle Pablo Alejandro Croce 87 Encuentro / Angel / Pálido final Ricardo Horacio de Lellis 91 La garganta del diablo / El rostro de la fe / El enigma Rodolpho Civile 93 A lanterninha e o bichano do Cine Rex / Os óculos da tia Nicoleta Sérgio Martins Pandolfo 96 Nossa raça brasileira / A péla da nação / A corda pro Círio, ou, acorda pro Círio / Língua portuguesa Victor José Fryc 100 Madre Madrid / Una cruenta lucha gremial / Cuando mi sombra / El amor a los animales / Llegaste un dia Zilda Cormack 106 Olhos verdes / Lendo Cabral / Tentativas / Não verás
  9. 9. VIII Jornada Médico-literária Paulista Obras Literárias
  10. 10. 13 Alcione Alcântara Gonçalves Médico psiquiatra - Tupã - São Paulo A visita A cidade se engalana! Enche-se de esplendor e brilho! Cada índio com sua Zarabatana, Cada mulher com seu espartilho. As danças que foram treinadas, Com a participação das tribos indígenas, Fazem parte da peça que será encenada, Ao som dos tambores e cantilenas. As moçoilas que vão desfilar, Todas irão em trajes antigos, Representando a Europa Milenar, Neste espetáculo para nossos amigos. O dia tão esperado chegou! Para o gáudio do povo que entoou, Um hino de graça e louvor, Para o rabi! O Mestre! O nosso Senhor. Palavras ao vento Palavra, sete letras escritas no momento, Palavra, que corporifica o pensamento, Palavra, que significa um juramento, Palavra, que no texto é um elemento, Pa-la-vra, trissílabo gramatical. Palavra, o conhecimento da lavra divinal, Palavra, que modifica o homem e até o chacal, Palavra, dita e escrita de modo natural. Palavra, que no livro perpetua a idéia, Palavra, que na estrofe compõe a epopéia, Palavra, que no verso forma prosopopéia, Palavra, que o Vesúvio sepultou em Pompéia. Palavra, como som emitido por cordas vocais, Levada aos ouvidos de homens mortais, Através do ar e moléculas em movimento, Para não se perder como as Palavras ao Vento. Palavras ao vento, somem no firmamento, Não firma na mente, em nenhum momento. Palavras ao vento, o vento beberica, Não deixa vestígios e nada vivifica.
  11. 11. 14 Alcione Alcântara Gonçalves Mãe MÃE, dizia o pequenino ser, ao abrir os olhos e constatar que a luminosidade do pequeno aposento onde dormia, era suficiente para ver que alguém estava ali, ao seu lado, velando o seu sono. Como é bom! Como é confortante sabermos, que temos uma prodigiosa alma, para nos confortar e acalentar nas nossas horas amargas! A confiança e a segurança que depositamos neste singelo ser, que sempre se faz presente, quando dele necessitamos é que nos anima, a louvar e exaltar o seu nome, como o fazemos, com o nome do nosso misericordioso DEUS. MÃE é singeleza; MÃE é doçura; MÃE é compreensão; MÃE é afeto; MÃE é como o farol que ilumina os navegantes nas noites escuras, alertando-os dos insondáveis perigos da noite e das armadilhas submersas nas águas, como as rochas ou bancos de areia que nos faria soçobrar; MÃE é abnegação; MÃE é amor, mas um sublime e divino amor, que só pode ser comparado ao amor de DEUS, que num gesto de desprendimento, compreensão e desejo de perdoar toda a humanidade, deu o seu único filho, JESUS, para que fosse imolado na Cruz com a finalidade precípua de nos salvar. A todas as MÃES e em especial à minha querida e estimada MÃE, desejo nesta data muita saúde, muita paz, muita sabedoria, para continuares distribuindo esse AMOR de que tanto precisamos e que sabemos verdadeiro, sem mágoas nem rancor! MÃE! Assim como nos dirigimos a DEUS, agradecendo-lhe por tudo que nos proporciona neste planeta, queremos também lhe agradecer, em primeiro lugar, por nos ter proporcionado, utilizando- se do teu ventre, vir ao mundo para constatar a beleza da criação divina: O HOMEM. Somos, MÃE, segundo as escrituras sagradas, feitos a IMAGEM e SEMELHANÇA do nosso Criador: DEUS!. Só isto, já nos basta, para sermos eternamente gratos, pela oportunidade que nos deste, para podermos compartilhar com a realidade terrena. Também queremos lhe agradecer, MÃE, pelo teu infinito AMOR, pela tua dedicação durante os nove meses em que estivemos em simbiose no teu ventre. E, depois, mais outros tantos meses, alimentando-nos no teu seio, sugando o teu leite materno que nos transmite os alimentos necessários para o nosso crescimento, transmite-nos também as defesas orgânicas que lhes são próprias, conferindo-nos o poder de lutarmos contra as bactérias e vírus do meio ambiente. Agradecemos, finalmente, MÃE, pelo fato de sermos o teu FILHO, que sabemos ser AMADO por ti, como nenhum outro deste mundo. Lição de amor “Não semeies vento para não colheres tempestade”! A máxima, agora relembrada, nos faz parar para meditarmos. A indulgência divina é sempre benéfica para quem dela sabe aproveitar. Para isto, é preciso obedecer aos cânones das pregações cristãs, onde deveremos beber a sabedoria e os ensinamentos do MESSIAS. Procure amigo, conhecer melhor a você próprio, retirando a venda que lhe cega, que lhe incomoda e está lhe impedindo de sentir melhor, os defeitos que são próprios do ser humano. Não fiques jogando pedra no seu próximo, sem antes proteger a sua vidraça, pois, estas pedras voltarão contra ti, ferindo-o e ameaçando o seu bem estar. É mais fácil ver e constatar o defeito dos outros que reconhecer os nossos. Buscamos sempre justificar as nossas ações, gestos e atitudes, por mais bizarras e agressivas que sejam. É a defesa do “EU”, mecanismo psicológico que usamos para evitarmos sofrimento. Acontece que, muitas vezes, precisamos sofrer um pouco, ao reconhecer o nosso erro, para não deixar as nossas imperfeições crescerem, agigantarem-se, evitando, deste modo, maiores dificuldades no futuro. Evitemos espalhar a discórdia, o mal estar, a mentira, o opróbrio, a desconfiança, o adultério, as frustrações e o mal e estaremos preparando um ambiente agradável e acolhedor onde reinará o AMOR, a compreensão e o bom relacionamento entre os povos. Preparemos a nossa morada com muito carinho, pois ela é e será o local onde descansaremos, onde encontraremos os nossos familiares, os nossos amigos e onde desfrutaremos de bem-aventurança. Então, prepare-a amigo! Não se esqueça, se queres conforto e bem estar, contribua para isto já, não deixando para amanhã o que podes fazer hoje. Se queres dormir, num leito limpo e perfumado, não dissemine poeira no ar, nem odores desagradáveis, porque você também será uma das vítimas. Como vês, de nada adianta atirarmos pedra no telhado dos outros, sem antes protegermos o nosso; e só o faremos, quando deixarmos de agredir a quem quer que seja, sem justificativa plausível. Vamos doar AMOR sem esperar qualquer recompensa! E, se assim o fizeres, tendes a certeza que colherás mais AMOR!
  12. 12. 15 Alitta Guimarães da Costa Reis Ribeiro da Silva Médica psiquiatra - São Lourenço - Minas Gerais Janeiro Em janeiro há sapatinhos pelos corredores, almofadas com pipocas, papéis pelo chão, um neto no sofá com o controle da televisão, outro com insônia, querendo mais histórias, outra dançando, laços de fita nos longos cabelos, outro cantando alegre, outro cheio de sábias perguntas, e ainda outro sorrindo enquanto dorme. São seis notas musicais, ás vezes em harmonia... Em janeiro o cachorro esquece os bons modos, mas aprende a comer melão e sorvete; a gata consegue dormir dentro de casa, mas acorda vestida de boneca; as espadas dos super- heróis dilaceram as plantas, declamamos versinhos, compramos mil bobagens a pedido das carinhas cheirosas de sabonete. Em janeiro tem nana-neném e tem dodói curado, pesquisas de estranhos bichos nas enciclopédias, piadas e choros, broncas e birras, sorrisos, ternuras, beijos estalados e abraços apertados, a angústia da dor e a certeza do amor. Pois em janeiro os netos vêm e vão embora, os olhinhos cintilando em meio às lágrimas e às gargalhadas. Sol poente Ao envelhecermos, um saber mais profundo nasce da fria análise das experiências, faz reflexões, medita, busca essências: e é quando nos damos de verdade ao mundo. Então, somos um pouco como o sol poente, com brilho mais suave e calor mais contido, que aquece corpo e alma naturalmente. Só os raros nos vêem, na constante corrida, outros não sabem que estamos cheios de vida, que estamos prontos para o amor e para o amar. O corpo, é claro, baqueia, muito viveu. Mas o espírito, esse não tem idade, o peso dos anos não o entorpeceu. Quando se tem pouco mais que o aqui e o agora, na hora em que parece que tudo se finda, é que tudo, inexplicavelmente, melhora, nosso sol poente se verte em aurora, e é quando a nossa vida pode ser mais linda.
  13. 13. 16 Alitta Guimarães Costa Reis Ribeiro da Silva O presente Veio de Pietrasanta, norte da Itália, para o Brasil, ainda criança. Casou-se com um jovem calabrês e a família cresceu no sul das Minas Gerais. Seu nome, Ana Ferreira Cagnoni, nascida em vinte e sete de janeiro de 1887. Tinha mais de setenta anos quando a conheci. Eu era uma garotinha, com ainda todos os dentes de leite, a caçula de meus pais que, aposentados, haviam resolvido mudar-se para uma cidade pequena e sossegada, onde eram raríssimos os carros. O sino de Igreja, tocado com perícia, comandava a vida da cidadezinha, avisava sobre tudo. No fundo da casa havia um riacho, um lago e um morro. O carro de bois era ouvido de longe, para alegria da criançada, que pegava carona. Trazia leite, lenha, carregava coisas. Sabíamos o nome dos bois, que nos olhavam austeros, lá de cima, e não nos davam confiança. A cidadezinha era cheia de lendas. Tinha a do padre que criava peixes, macacos e cobras, e colecionava ouro e pedras preciosas nas gavetinhas rasas forradas de algodão de um grande móvel escuro. Haviam outras lendas envolvendo seres misteriosos e fantasmas, úteis para que as mães mantivessem a criançada quieta. Havia um programa de rádio (“Incrível Fantástico, Extraordinário”) que consolidava nosso medo. Tia Anucha, como todos a chamavam, morava numa casa azul e branca de esquina, com um jardim florido e bem cuidado na frente, um banco de madeira pintada no piso antigo da varanda. Entrando-se na casa dava para ver o filho dela, Totó, sempre solteiro, consertando relógios antigos. Quantas pessoas daquela época recordo com carinho, Angelina, Cida... Passando-se pela sala e dois quartos chegava-se à cozinha , ao corredor que dava para o banheiro, ao pátio onde ficava o papagaio comilão, o quintal que era um pomar, muitas pereiras e parreiras. Ao fundo, o rio, do qual o riacho lá de casa era um afluente, margens lisas de tabatinga e bambuais, local de cobras, pesadelo das mães. Na casa de Tia Anucha tudo era limpo, organizado, cheiroso, gostoso. Ela foi a minha primeira amiga, a primeira pessoa adulta que me tratou como igual, que conversava comigo naturalmente, contando casos e histórias antigas, com trechos em italiano, enquanto fazia pão e massas. Após fazer a massa, ela abria, cortava o talharim, cozia, escorria, punha no meu prato, com almôndegas, salsa e molho de tomates, cobria com queijo ralado grosso, era assim que eu gostava. Depois eu subia para o banquinho verde em cima do fogão a lenha, aquecida e contente, e ela arrumava a cozinha. Eu a ouvia com atenção e a olhava fascinada, porque era ágil, criativa, atenciosa, inteligente. São cenas que não esqueço. Os olhos azuis que olhavam profundamente, o cabelo sempre preto, preso num chinó no alto da cabeça, as roupas antigas acompanhando todos os movimentos. A vida fremia naquela mulher. Um dia meu pai precisou viajar para mais um tratamento cirúrgico. Ele era piloto, havia sofrido um acidente anos atrás. Minha mãe viajou com ele, minhas irmãs estudavam, e, pela primeira vez, eu tive que dormir longe de minha mãe, de minha casa. Fiquei com Tia Anucha, que pareceu não se impressionar com minha tristeza, minha recusa em comer, meu mutismo. Ela adivinhava as coisas. Fez uma sopa diferente, da qual comi um pouco, trocou a camisola, feita por minha mãe, de flanela rosa com babados e rendinhas, e saiu do quarto dela para que eu pudesse dormir à vontade. O travesseiro e o colchão eram de penas de pato, os lençóis brancos, lisos de tanto serem lavados, antigos, macios, cheirosos. O abajour tinha uma luz fraquinha. Do fogão a lenha ela pegou um tijolo quente, enrolou num cobertor velho e o colocou para aquecer meus pés. Fazia muito frio e chovia. Conversou e riu comigo até que me viu relaxada, e então saiu na chuva. Posicionou uma lata emborcada sob a goteira da calha, para que eu pudesse dormir ouvindo o som dos pingos d’água. Foi um adormecer encantado! Quando eu acordei, bem ao amanhecer, Tia Anucha já estava animada na cozinha, preparando um delicioso café à moda dela.
  14. 14. 17 Não pude conviver com ela tanto quanto gostaria, mas pude vê-la muitas vezes. Faleceu com mais de cem anos, suavemente, como se fecham as pétalas de uma flor. Mas o seu perfume me acompanha até hoje. Sinto-me, de certa forma, em dívida para com ela. Não sei se pude retribuir todo o profundo carinho que dela recebi, carinho verdadeiro, atenção verdadeira, amizade verdadeira. Em minha infância e em minha vida, ela foi um bem-vindo, enorme e abençoado presente. Anucha dos Cem Anos Não pude lhe dar presença, nem mesmo um último abraço. Não sei agora o que faço; por mais que eu me convença de que é fato acontecido, de mim tiraram pedaço. Mesmo o pranto mais sentido se torna, por fim, escasso. Porque a saudade é imensa, tanta dor nos traz cansaço. Quem sabe agora aonde está? Em que tempo, em que espaço? Ela foi e nós ficamos. A morte consiste nisto, morrer é só não ser visto pelos limites humanos... pois Anucha dos Cem Anos abriu para a Grande Luz eternos olhos azuis. Ilusão Anoitecia, e a rua, de mais pessoas carente, acolhia a luz da lua num silêncio ainda quente. Então eu vi a coelha. Branquinha, longas orelhas, grande ventre, saliente, e, talvez, quase parindo. De onde teria vindo? Estranho, nem se mexia... Mas, de repente, o que eu via? Não era bicho nenhum! Era só lixo, arrumado num saco branco, comum, desses de supermercado, as pontas dadas em nó! Como se diz, “Freud explique” as ilusões da psique... Resolvi ser realista, Marquei exame de vista! Alitta Guimarães Costa Reis Ribeiro da Silva
  15. 15. 18 Batalha urbana É um domingo quente e abafado. A UTI está extremamente calma: há apenas dois pacientes internados e ausentes em seus comas induzidos. Aline não sabe o que fazer para que os ponteiros do relógio andem ao ritmo do monitor cardíaco, rápidos. Está de plantão o dia todo e aquela monotonia! Dirige-se à sacada do primeiro andar e olha lá embaixo para a entrada do hospital. “Humm, horário de visitas, quanta gente! Preciso me distrair um pouco”. Observa a extensa fila dos que esperam a sua a sua vez para entrar. Muitos comem e despejam no chão restos de alimentos. De repente, desvia o olhar em direção ao ruído de papel se arrastando. Num canto do gramado, observa estarrecida duas enormes ratazanas disputando uma embalagem de biscoitos. Fica atônita, paralisada, imaginando aqueles bichos invadindo o hospital. Chama histericamente o sempre prestativo Gerson. E lá vai ele munido de uma trave de cama de tração, na tentativa de eliminar as nojentas intrusas. Gerson, decidido, levanta a trave sob os gritos da torcida dos funcionários da UTI, que naquele momento já se acotovelam para assistir a batalha. Os bichos pressentem o perigo, erguem-se em posição de ataque e mostram suas armas arreganhando despudoradamente os dentes. Ante tal reação o pobre Gerson deserta da missão, sentindo-se incapaz de enfrentar e vencer a batalha. Mas Aline logo pensa em uma nova estratégia. A situação deve ser monitorada com muito cuidado. “Ah, já sei, tem que dar certo!” Vasculha o armário dos medicamentos controlados e apanha “alguns remedinhos especiais” que agem no aparelho circulatório e respiratório. Embebe pedaços de pão e atira a bomba mortal. Naquele momento, o hall da UTI parece uma trincheira organizada e preparada. Todos assumem papéis distintos e compenetrados nos resultados da ação. Então, alguns minutos depois, os primeiros sinais da vitória: os bichos começam a apresentar movimentos estranhos e desordenados. E enquanto a tarde começa a cair, eis que finalmente tombam derrotados em sinal da morte iminente. Aline olha o relógio e se surpreende com as horas. Corre orgulhosa para organizar a passagem do plantão. No dia seguinte, logo ao assinar o seu ponto, estranha a convocação presente e fica apreensiva por não saber o motivo. “Reunião da Diretoria”, pensa alto. Trabalha angustiada até às 10h, horário da convocação. Agarra firmemente sua agenda e entra no gabinete, tímida, cumprimentando os colegas com um simples aceno. Todos olham insistentemente para ela e, de repente, abrem um largo sorriso, parabenizando-a pela estratégia do dia anterior: doravante, a batalha passa a fazer parte das atividades rotineiras da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar, a desratização planejada! Arlete Mazzini Miranda Giovani Enfermeira - São Paulo - SP
  16. 16. 19 Ressurreição Naquele dia, Campina Verde anoiteceu inquieta. Por todos os lados, ruídos de gralhas e bater de asas dos pardais ecoam prenunciando a morte em qualquer canto. Pouco a pouco, janelas, portas e comércio começam a tagarelar em ritmo lento, progressivo, sinalizando o final de mais um dia. Os raios de sol, agora, são substituídos pelas sombras dos lampiões e velas de cera. Pai Inácio lá está no mesmo lugar de sempre, enrolando o último cigarro de palha, farejando algo de incomum naquelas horas finais. De repente, assusta-se com os gritos abelhudos de Jacinto que, atropelando as palavras e sem ao menos acreditar no que estava dizendo, anuncia a morte de Chico, marido de dona Zefa: “Tão moço o coitado, não tinha mais de 40 anos! Como pôde morrer assim...”. Pelas ruas da pequenina cidade, choros, soluços e uma enorme corrente de solidariedade. O povo, estremecido, inicia o culto ao corpo e rapidamente lá está o Chico deitado sobre a mesa, com um terço na mão e coberto por um lençol muito alvo de algodão. Como de hábito, as mulheres na cozinha preparam bules de café, separam a caninha forte e se esmeram em preparar algo para se comer. Chico, muito quieto sobre a mesa, é um bom ouvinte: aprecia todos os elogios, comentários e lembranças de sua vida, estórias de como chegou a conhecer Zefa, que era respeitoso, bom marido, fiel amigo, amante do trabalho, pagador de suas dívidas, enfim, um imenso rosário de adulações. Até os menos exaltados consideram-no um santo. E assim a noite invade o casebre, enquanto a madrugada já se faz alta. Alguns cochilam, outros rezam, muitos continuam a desfilar bajulações repetidas ao defunto e ainda há aqueles que, não agüentando o pesado dia de trabalho, insistem em manter um ronco ritmado. Pai Inácio se mantém firme, afinal é o representante mais antigo do vilarejo. Então, sem mais ninguém para conversar, passa a observar o defunto. Olha bem e acha Chico um pouco maior, agora deitado. “Deve ser impressão minha!” pensa. “A mesa é que deve ser pequena!” De repente, nota o lençol se mexendo: “Impossível, eu mesmo ajudei a colocar o homem na mesa, já estava até duro!” Olha fixamente e sente um gelo no estômago. “Ele está respirando! Não, não e não!” nega veementemente. “Deve ser a sombra das velas...” Aproxima-se um pouco mais e, assim bem pertinho, não tem mais dúvidas. Abre o peito com um uivo cheio de pavor: “O Chico está vivo!” A debandada é geral. Como em um atropelo de estouro de boiada, todos se arremessam para fora do casebre sem olhar para trás. Calmamente, sem nenhuma timidez e com grande esforço, um enorme besouro “vira bosta” consegue desvencilhar-se do lençol e cair na sala vazia, rumo à liberdade. E, sozinho outra vez, lá fica Chico sem ao menos a mulher para celebrar seu falso retorno, gelado, apenas com a certeza de que muito do que foi falado foram apenas palavras jogadas ao vento... Arlete Mazzini Miranda Giovani
  17. 17. 20 Camilo A. Giani Médico - Buenos Aires - Argentina Quaestio de Nomine Podría decir que no me interesa saber si Lilith existió o si es nada más que una colectiva creación mental a lo Jung, del mismo tipo que el Cuco o que cualquier otra bruja. Preferiría ignorar si el sincretismo entre Jah y Havah originó aquel Yaveh siempre presente en las páginas más antiguas de la Biblia. No se trata de Fe, sino de identidad. ¿Me importa acaso si Shekinah retornó o no al Templo restaurado de Jerusalem? ¿Era Antipas amigo del Bautista y esclavo de sus palabras pasionales ofrecidas a Salomé, prefirió tener más orgullo que piedad? Por eso me niego a usar eufemismos que pretendan suavizar lo irreparable. Una Decapitación, una Crucifixión, la quema de personas vivas, hayan ellas sido Juana, Bruno o Servet, son meros crímenes, puro sadismo de la imperfecta especie que somos, error de un Dios sin experiencia, que debió reparar arrojándonos del Paraíso.
  18. 18. 21 La hoguera “Allí donde queman libros, acaban quemando hombres” Heinrich HEINE Era una media mañana fría, con vientos que arribaban por rachas desde el sur. Había tomado mi día libre por compensación de labores nocturnas no remuneradas. Recuerdo haber llegado al borde del río de acerado color. Aterido como estaba, no fue insólito que me cruzara hasta donde un grupo de hombres rodeaba un tambor de metal desde el que lenguas de fuego asomaban intermitentemente. Ante mi sorpresa, cuando me arrimé a la fogata, no recibí el necesitado calor sino una sensación indescriptible, decepcionante y gélida. Enseguida, otras personas llegaron con bolsas llenas de objetos pesados. Pronto supe que eran libros. Con disimulo pude otear algunos títulos y autores antes de que el fuego los convirtiera en ilegible humo. Reconocí entre otros un Bertrand Russell, un Rilke, dos tomos de Freud, un ejemplar de una revista con una reproducción de Kandinsky en la tapa... Me habían observado con curiosidad. De pronto necesité dejar muy pronto el lugar, así que restregando mis manos junto al tambor, forcé una sonrisa hacia un tipo de unos cuarenta años que parecía ser el jefe del grupo y me marché con un gesto admirativo y simpático como quien hace la seña del as de espadas en el truco. Unos cientos de metros hacia el otro lado, detuve mi andar y apoyado en el barandal de la ribera del río, vomité hasta la última hiel. Hasta que se va el dolor... Como una letanía reiteraba la frase indiscutible, el texto irrefutable, la atormentada hipótesis que afirmaba que lo que había ocurrido ya no volvería a suceder. Tenía razones naturales para su dolor del alma, algo casi físico, como una traslación de un planeta espiritual a otro espacio semivacío, porque las penas reales no se van nunca, jamás prescriben, a veces sólo se enmascaran, como un mero eclipse de amor. Camilo A. Giani
  19. 19. 22 Rigomodo, Malgaigne y la virginidad Los vapores del mal vino son como maldiciones que reberberan en forma de cefaleas que no desaparecen con nada. Rigomodo no podía dormir tras esa noche de yantar en lo de Léntulo, por lo que se levantó y encendió un candil. Ya no veía como antes, cuando en la oscuridad distinguía los objetos con nítida eficiencia, pero igualmente decidió leer para intentar volver a conciliar el sueño esquivo. Rumbo a la biblioteca, pasó delante de la puerta abierta de la habitación de Belsinia, quien ya había cumplido los dieciseis años y dormía como una bendita. Desde hacía un tiempo lo venía asaltando una duda más cruel y enfermante que lo escanciado en lo de Léntulo. ¿Habría consumado Belsinia relaciones sexuales con Flavio, el hijo del Conte Egberto, durante aquellos tres días que estuvieron aislados en el bosque cuando se desbarrancaron varios carruajes en el camino de cornisa tras los festejos de Pascua? Porque él los había visto cuando los rescataron y no tenían angustia ni temores. Es más, hasta pareció que se disgustaran por haberlos salvado. Se habían mirado tan tiernamente que la rara forma de la despedida se convirtió para él en un hecho indescifrable. Esa noche, algo tenía Rigomodo albergado en la falaz y lejana memoria y sabía que la lectura lo podría volver a conducir a toparse con la necesaria información, porque de ser ciertas sus sospechas, el joven noble debería reparar la afrenta, casándose (después de todo él era un caballero y su hija tendría una buena dote) o eventualmente entregándole una fuerte suma compensatoria para aceitar los ejes de un casamiento con otro candidato. De no suceder nada de ello, quedaría siempre la daga como recurso extremo, método que sería de elección si la hubiera embarazado y se negara a esponsales. El recuerdo se vinculaba con algo anatómico que leyera con su amigo Rufus en épocas de disecciones y orgías juveniles. Buscó y buscó hasta tropezar con una publicación de Richet, en la que éste comparaba el cuello de criaturas hambrientas de los barrios miserables con el de los robustos luchadores trashumantes. ¡”Qué diferencia entre el cuello de estos atletas hercúleos que se de- tienen en nuestras ferias públicas y el de estas pobres criaturas demacradas por la miseria y por la inacción”! Rigomodo no se conformó para nada con el hallazgo, pero entonces sí comenzó a orientar sus pensamientos en el sentido correcto. Evidentemente lo que buscaba tenía que ver con la anatomía del cuello. En un libro de Testut, de reciente publicación con Jacob, se decía que el cuello engrosaba tanto en la pubertad cuanto en el embarazo, esto último debido a la tumefacción del cuerpo tiroides. ¿Pero cómo comprobarlo si carecía del conocimiento previo de las dimensiones del cuello de Belsinia? Rigomodo daba vueltas y vueltas en su cabeza tratando de hallar una respuesta. Volvió a hurgar entre los tomos polvorientos y de pronto lanzó una exclamación que despertó a Pietro, el mayordomo, quien acudió presuroso a la biblioteca con una lámpara de aceite en la mano. ¿Cómo no lo pensé antes si estaba ante mis narices? Acá está... Dicho lo cual se sentó, pidiendo a Pietro que le sirviera una taza de leche caliente endulzada con miel. El libro que tenía entonces entre manos era la Anthropometria de Elsholz. Rigomodo agradeció a Dios por haber hecho caso a su tío Giovanni, quien le había aconsejado perseverar en los es-tudios del latín. Buscó hasta hacer coincidir la turbia memoria con la página no del todo olvidada del texto donde se afirmaba que en la Antigüedad se creía que el cuello aumentaba asimismo de tamaño con la primeras relaciones sexuales. Y allí inexorable estaba la lapidaria afirmación: “Virginum collum post primae noctis veneres crassescere vetus fama est, unde, collata utriusque diei mensura, qualem sponsus se gesserit divinare ausint”. Camilo A. Giani
  20. 20. 23 La vetusta afirmación dejó a Rigomodo aplastado contra el respaldo de su sillón, los ojos perdidos en la penumbra de la estancia. Tardó en reaccionar, pero ya considerando estar el el rumbo doloroso bien que certero, se encaminó hacia donde guardaba lo escrito por el gran Catulo en un epitalamio. Allí, en las amarillentas páginas, leyó acerca de una joven casada: “Nos illam nutrix, orienti luce revisens, Hesterno poterit collum circumdare filo”. “La nodriza de la desposada del día anterior, al vestirla al amanecer, ya no pudo ceñir su cuello con las mismas cintas de la mañana precedente”, tradujo el preocupado padre.. ¡Pobre Rigomodo! Las dudas le carcomían el pecho. Recostado como estaba, se puso a hojear casi con indiferencia lo que había comentado Joseph Malgaigne medio siglo antes sobre el mismo tema. Aludía el gran cirujano a lo que afirmaban algunas comadronas acerca de saber sobre la virginidad de las doncellas mediante este simple recurso: “Se toma con un hilo la circunferencia del cuello en su parte media y se dobla la longitud de ese hilo; se hacen sujetar los dos extremos entre los incisivos y se abarca el vértice de la cabeza con el asa que así resulta. Si el hilo pasa libremente por encima de la coronilla, mala señal; si, por lo contrario se encuentra el asa demasiado estrecha, se concluye en pro de la virginidad”. Malgaigne decía a continuación que le faltaban datos claros y precisos para poder asegurar que esas afirmaciones de origen popular fueran certeras, por lo que no les asignaba un gran valor, aunque no dejarían de tener cierto fundamento. Sin embargo, enseguida expresaba que en su experiencia, excluyendo los casos de bocio u otras deformidades, “en las jóvenes de quince a veinte años el asa no pasaba en aquellas cuyas costumbres no permitían sospecha”. Por otra parte, también Petrequin corroboró las experiencias de Malgaigne, según se enteró Rigomodo mediante nuevas lecturas en la madrugada. Ya clareaba cuando decidió acostarse en su lecho, cosa que hizo sin desvestirse. Belsinia seguía durmiendo de manera plácida cuando el padre se había asomado a su habitación. En sus sueños la visitaba Flavio, a quien una y otra vez daba su amor. En tanto, Malgaigne volvió a reposar en su estante de la biblioteca de Rigomodo con sus hilos de medir cuellos de doncellas a veces vírgenes, a veces felices. Point de lendemain Me enteré, en forma casual, casi absurda, de que los gatos blancos suelen ser sordos. Al parecer se trata de un problema ligado a los genes. Claro que desearía no haberlo sabido, porque de tal suerte hereditaria y siguiendo a Darwin, los gatos albos tenderán a desaparecer. Eso se explicaría porque teniendo menos defensas ante el peligro, morirían más temprano que el resto de los miembros de su especie; se esténdería asimismo el déficit a su reproducción... Naturalmente, a los que sobrevivieren se les ampliarían las capacidades sensoriales restantes. La vista, el primitivo olfato... Surgiría la diferenciación hacia una variedad alterada, un prototipo de especie nueva en el futuro indeclinable, en una insólita carrera contra el tiempo. Ahora bien, está en nosotros asociado al color, aquello de “gato negro, mala suerte”. Si extrapolamos eso y lo entendemos por el juego de los opuestos, tendencia maniquea a la que nos cuesta tanto escapar a los humanos, deduciremos que los gatos blancos aportan buena fortuna. Empero, dado que estos tienden a desaparecer como consecuencia de la sordera, según expusimos antes, resulta inevitable suponer que del mismo modo que los gatos blancos y de la mano de los mismos, la buena suerte esté encaminada a la extinción en el planeta, salvo que la aludida nueva especie aparezca antes, cosa poco probable dados los tiempos requeridos para las mutaciones y su conversión en estructuras funcionales y estables. Leyendo los diarios, viendo los noticieros de televisión, caminando las calles, hablando con la gente, ha comenzado a asaltarnos la conclusión de que el embozado proceso negativo, en este nuevo siglo en el que nos sentimos ajenos, ya está en firme marcha hacia la irreversible entropía. Camilo A. Giani
  21. 21. 24 Camilo André Mércio Xavier Médico - Ribeirão Prêto - SP Perdas e ganhos Os sucessivos depoimentos dos atores envolvidos trouxeram muitas decepções. Desvendado o cenário, a suspeição alastrou-se. A crise anunciada, mas não apurada, faz parte do quadro político vigente, mantido por uma estrutura arcaica. Frente a tudo isto, bom mesmo é refletir. O tema Perdas e Ganhos parece adequado. Perdas Paradoxo do mundo Envelhece as lembranças Implanta a estação da ausência Não aquece o verão Pereniza o frio do inverno Ganhos A marca mais profunda dos ganhos é oriunda de tudo que alimenta nossos espíritos, anima nossas mentes, conforta nossas almas, empolga e envolve nossos corpos. A expressão mais pura e cabal do pleno existir é a de buscar, ao longo do tempo, praticar as exuberantes virtudes de que somos portadores, representados, em boa parte, por aqueles legítimos anseios. Seriam eles, entre outros, os mais fortes motores que nos movem para alcançar os objetivos que almejamos conquistar, como personas. Esse é o clima instalado, é assim que funciona, é assim que sentimos.
  22. 22. 25 Viagem A VIDA é uma verdade tão intensa, inserida em nós de uma forma tão profunda, que não há como nela não estar aderido. Forçoso é interpretá-la. Como não há ponto de partida visível, nem de chegada previsível, nosso intimo relacionamento com ela nos estimula a criar ao longo do tempo, um clima de firme interação, renovado pela obrigatória convivência. É assim que funcionamos, ao passar por vários locos e inúmeras polis, tanto fora como dentro de nós. Em tais campos atuamos, seja como autores, seja como espectadores. Tudo faz parte de um complexo processo criativo, mantido e conscientemente sustentado pela nossa inabalável vontade de conservar acesos e ativos nossos liames. O conjunto configura uma viagem ao centro da própria existência, que a cada um oferece o direito de escolha. Frente ao emaranhado de opções, às vezes confundimos mitos com realidades. A necessidade de optar dá um tom muito pessoal à busca, que tanto é exercida com o coração como a razão. Ela pode nos proporcionar inúmeras experiências, que servirão ou não para balizar o caminho a ser percorrido. Possíveis correções de rota também são esperadas, e em geral favorecem o roteiro tornando mais apropriados os futuros passos. Enfim construir nossa própria história nos dará a oportunidade de melhor entendê-la e saboreá-la, uma vez que a missão embutida na viagem deve continuar prazerosa. Mulher Aquela bela mulher Despencada do céu Surgiu no meu pedaço Aconteceu no meu espaço Real – verdadeira Tem o brilho das estrelas E o perfume da flor Estacionada ao meu lado Disse sim a luz E converteu seu amor Nas outras vidas Que gerou Destino Catada aqui e acolá Sumida naquele instante perdido Antes do qual ainda nada aconteceu E depois do qual nada mais pode ocorrer Aquela criatura Iniciada ao mesmo tempo Em que foi concluída Parece inventada Para vagar por aí Mergulhada na incessante busca De ser ou não senhora do próprio Destino Camilo André Mércio Xavier
  23. 23. 26 Carlos Augusto Ferreira Galvão Médico psiquiatra - São Paulo - SP Síndrome de Lázaro (Quando a medicina plagia um romance) Em minha atuação no Hospital da Beneficência Portuguesa de São Paulo, tenho observado os espetáculos da tecnologia cardíaca moderna e também o “rastro” psiquiátrico que as acompanha. Notamos, por exemplo, as modificações de personalidade que acomete muitos que se submetem a transplante cardíaco, a ansiedade que acompanham os que se recuperam de paradas cardíacas, portadores de marca-passos e por aí. Uma destas conseqüências psiquiátricas chamou-me a atenção: a que acomete alguns dos que tiveram implantado um desfibrilador portátil cardíaco. A morte súbita de um ser humano é das mais dramáticas manifestações de afecções cardíacas, por não dar tempo sequer do acometido “desarrumar suas gavetas”. Despede-se da vida deixando uma lacuna de desespero, seja no âmbito familiar, seja em seus negócios. Os desfibriladores portáteis são próteses maravilhosas que, implantadas no subcutâneo do paciente e ligadas diretamente ao coração, identificam a fibrilação ventricular e promovem a cardioversão “in loco” salvando assim a vida do indivíduo. A maior parte dos pacientes sofre a descarga elétrica da cardioversão quando em estado já comatoso, mas alguns pacientes que as recebem sem estarem em estado de coma, sentem-na de forma extremamente sofrida. Dá para imaginar o que significa um choque de 400 joules dentro de seu mediastino. Muitos descrevem-na como um coice de mula no peito. Quase todos estes pacientes retornam ao cardiologista solicitando a retirada da prótese, quando então são para mim encaminhados. Estes pacientes apresentam-se extremamente ansiosos, têm medo das descargas e transformam- se em pessoas irritadiças e impacientes. Muitos “sentem” as descargas embora não sejam registradas pelos aparelhos, numa estranha forma de alucinação que não pode ser classificada como sinestesia por não ter como eleição um órgão interno e sim uma prótese implantada. Nos primeiros casos, sempre tinha a impressão de já ter “passado por este caminho”; tinha sempre a sensação de “de ja vu”, o que era impossível, por se tratarem de casos absolutamente pioneiros. Mika Waltari, meu romancista predileto, no romance de nome “O Segredo do Reino”, descreve um personagem que, em busca da verdade, abandona a vida de orgias romanas e parte para Jerusalém, chegando nesta cidade numa tarde em que se encontravam três cruzes no gólgota sendo que em uma estava crucificado Jesus Cristo. Pelos acontecimentos posteriores, entende que quem tinha sido
  24. 24. 27 crucificado foi algo mais que um ser humano e começa a pesquisar a vida de Jesus, suas pregações e seus milagres. Em determinado momento passa a entrevistar o Lázaro e, ao contrário do que esperava, defronta-se com um indivíduo amargurado e taciturno. Ao lembrar que ele deveria ser grato por ter tido nova oportunidade de viver, Lázaro respondeu que a humanidade, por todo o sempre, iria se lembrar deste milagre de Cristo mas, esqueceria de refletir que ele seria a única pessoa que morreria duas vezes, já que não tinha recebido a imortalidade. Voltando aos meus pacientes, D.Marta (nome fictício) tentava me convencer que o melhor para ela seria a retirada do cardioversor portátil por não suportar mais os choques - a grande maioria alucinóides - e contava-me situações estapafúrdias como, por exemplo, sofrer uma descarga durante um casamento, quando a igreja toda se assustou com seu grito. Lembrada que cada manifestação da prótese poderia ser uma ressurreição respondeu-me: “E quantas vezes terei que morrer, doutor?” . Então meu pensamento dirigiu-se à obra do grande escritor norueguês e não poderia deixar de batizar esta síndrome como “Síndrome de Lázaro”, a síndrome dos que não querem morrer mais de uma vez. Pátria minha, muito bem amada e varonil, Mereces um melhor destino, mais denodo, Uma elite mais decente e não tão imbecil, O término da enganação e menos engodo. Meu grande Brasil, acorda irmão amigo, Em tuas ruas milhões amargam desespero, Vítimas dos cultores do próprio umbigo, E especialistas do mal feito com esmero. Brasil, minha pátria forte, bela e querida, Quintal da miséria, da doença e da incúria; Pede a Deus que te alivie, te faça guarida, Mandando pro inferno a realidade espúria. Bom Brasil, país do pesadelo e da vida dura. Muito ruim te ver estraçalhado pela política, Dirigida por vestais fantasiados de candura, Sacerdotes da dor e da maldade apocalíptica. Não vês Brasil, o presente mais medonho? Maus te dominando, te fazendo inclemente? As riquezas que fariam da vida belo sonho, Sendo digeridas por este estado indecente? Então vejas Brasil, o teu futuro comprometido: Uma criança chorando só, famélica e angustiada, Sem luz, sem saúde, sem escola, sem sentido, Sem esperança, sem paz, sem norte e mais nada. Brasil depois do sonho Carlos Augusto Ferreira Galvão
  25. 25. 28 O pensamento (Tributo a Aníbal Silveira) O pensamento é…, a inteligência, a criatividade, a capacidade de se adaptar usando a imaginação criativa. O pensamento é a interação do homem com o meio…, enfim o pensamento é sentimento. Eu diria que o pensamento é tudo isso e muito mais. Nada mais difícil do que tentar definir o pensamento. Os gregos antigos, que parece terem sido feitos por Deus apenas para pensar, não tiveram nem tempo nem tecnologia para provar e aplicar o que pensavam, como o homem moderno que, com máquinas, se locupleta com tecnologia e com ela prova à exaustão postulados deles, pensamentos quase tão antigos quanto a história. Os sofistas, aproveitando da elasticidade do pensamento, criaram a pérola do sofisma, que muitas vezes lançamos mão para nos apaziguar com a realidade; até uma certa raposa o aproveitou ao criar o sofisma das uvas verdes, para seguir sem remorsos o seu caminho. Pois bem…, mesmo na Grécia antiga, numa era de maior culto ao pensamento, não se chegou a defini-lo. No milênio perdido, iniciado poucos séculos depois do nascimento de Cristo, o pensamento passou a ser proibido, isto é, reprimido profundamente no homem comum pela mesma casta que se achava exclusiva e dona dele. Assim o pensamento virou instrumento de dominação de massas, que tinham estimulados em si um dos mais básicos sentimentos, e que não é exclusivo do homem: o medo, definido por Auguste Comte como “Prudência”, uma função da “Esfera Conativa”em sua teoria positivista (do grego “conatus”, que significa “movimento”). Não é o caso de tentar resgatar tão controvertida figura histórica. Faltam-se meios e estudos para julgar o positivismo enquanto doutrina, e até entendo suas distorções; aqui mesmo no Brasil há monstrengos que ainda hoje se dizem positivistas e se ufanam de terem sido criados sob tal ideologia, mas a distorceram com temperos autoritários para caber na falsidade de seus propósitos. Um dos mais belos dísticos positivistas foi “adaptado”e é exibido como jóia falsa em nosso pendão atual. Mas voltemos ao pensamento e procuremos não cair mais em seus labirintos, pois lá, já diziam os gregos, há minotauros malvados. É necessário que entendamos não ser o pensamento uma exclusividade do homem. Existe o pensamento primitivo dos animais inferiores; no caso do cão, os positivistas relacionam que sua “Esfera Afetiva” possui funções já elevadas como “Apego”, mas lhe falta funções altruísticas, que foi o estímulo antropomórfico para o surgimento do “Córtex 6”, formação anatômica que faz a diferença do corpo do homem em relação aos outros animais. É a sede da consciência, esta sim exclusiva do homem, que no positivismo foi chamada de “Esfera Intelectual”. “Apego”…, “Esfera Afetiva”…, “Esfera Intelectual”…, afinal de contas o que é isso? É uma pergunta extremamente válida. E eu responderia: O “Penso, logo existo…”, há de ser o produto de um mecanismo biológico agindo com a realidade do meio, e Auguste Comte foi o ser humano que mais próximo chegou a definir este mecanismo biológico. Infelizmente, num se seus inevitáveis labirintos, encontrou poderosos monstros que transformaram seu pensamento em fogueiras. Mas um anjo brasileiro imbuído de coragem e sem dúvida iluminismo divino, resistiu à sanha da neoinquisição, que agora se tornava menos explícita, porém mais perigosa: não incendiava mais cérebros…, incendiava livros. Carlos Augusto Ferreira Galvão
  26. 26. 29 Aníbal Silveira, esta reserva desconhecida de orgulho brasileiro, foi um psiquiatra que, resgatando o passado da psiquiatria, revolucionou-a, ao estudar e desenvolver para um plano terapêutico a “Teoria das Funções”, transformando-a num importantíssimo instrumento médico. Isto num tempo de saudosismo ígneo clerical e de fortalecimento das duas maiores mentiras do século XX: o comunismo com seu pernicioso simplismo de procurar nivelar o homem, castrando-o em suas funções da ambição, e o delírio freudiano que tenta retirar o efeito do órgão, no caso o pensamento do cérebro, como se pudesse existir o movimento sem a miosina ou a ovulação sem o ovário. É importante dizer que, conforme avança a tecnologia nos segredos do cérebro, mais se confirmam os estudos e teses de Aníbal Silveira, sobretudo os referentes às fibras cerebrais transemisféricas e interemisféricas. Aníbal Silveira, este paulista que trabalhou toda sua vida no Hospital Franco da Rocha, morreu no final dos anos 70, mas, mestre que sempre foi, deixou seguidores. Transformou-se num elo médico psiquiátrico com o passado, uma espécie de ponte sobre um tempo de intenso afastamento entre a medicina e a psiquiatria (ora envolta em obscuros lenços analíticos) que ainda hoje existe, situação que mais e mais se torna anacrônica e insustentável. Um dia este grande médico de São Paulo ainda terá o reconhecimento que merece, posto que teve relevância universal na arte médica. A ré pública Ideal público aqui é redoma do mal; Lavada mentira de todo mundo igual. Anacronia histórica, flagelo nacional Público em ré, pela ausência de moral Executivo, produzindo na contramão; Sujeira, imundice, maldade, carnegão; Brutalidade com a marca da desilusão. Executa executivo; executor da nação Legislativo, sempre surdo a quem clama, Para a revolta que estremece, que inflama Vai tecendo no planalto a torturante trama E legislando eternamente a mais suja lama. Judiação..., lesma lerda o tal judiciário Protetor dos cruéis, funesto relicário, Traidor da decência, mentiroso primário. Muda teu nome maldito, és mais “judasciário”. Carlos Augusto Ferreira Galvão
  27. 27. 30 Eduardo Benedetto Médico - Buenos Aires - Argentina La Hora Su padre le había regalado el reloj cuando cumplió los dieciocho. Desde aquel lejano día hasta su también lejana muerte siempre estuvo ceñido a su muñeca. Pocos años pasaron para que el reloj ya no estuviera a la moda, pero él nunca lo cambiaría. Unos años más debieron pasar para que el reloj necesitara la revisión de un relojero; una simple limpieza luego de la cual el reloj nunca volvió a indicar la hora con exactitud. Empezó a adelantar, de modo que cada tres o cuatro días debía retroceder las manecillas diez o quince minutos. Alguna que otra vez debió cambiarle el vidrio protector porque se había rayado. Un puñetazo contra una mesa o una breve caída desde una mesita de luz ajena bastaron para rajar la superficie transparente del ya antiguo marcador de las horas. Cuando alguien le preguntaba por qué nunca lo había cambiado, él no daba muchas vueltas para responder: “Mi padre —decía— hubiera querido que lo usase por siempre”. Menos explícito y claro era a la hora de verificar cómo había cumplido con todos los otros mandatos, con todos los otros cerrojos que diariamente verificaba sin siquiera darse cuenta. Todo estaba en orden: su familia, su profesión, su credo, sus ideas. Todo marchaba al ritmo de su antiguo reloj, a veces a deshora, siempre fuera de época. A veces algo se mellaba superficialmente, nada que una rápida pulida, o, en casos más graves, el cambio de una pieza no pudiera subsanar. Por supuesto que hubo crisis en su vida, tan perturbadoras por momentos que hasta llegó a considerar la posibilidad de cambiar el reloj, cosa que, como se dijo, nunca hizo. Ni siquiera cuando el reloj se detuvo definitivamente, una noche en que el destino dijo su última palabra. Un buen día, él se murió y todas sus pertenencias fueron guardadas celosamente por sus allegados durante unos años; hasta que alguien que apenas recordaba su nombre comenzó a desperdigarlas. Muchas cosas, como la ropa, se deterioraron en poco tiempo. Otras, como algunos papeles garrapateados, se deshicieron con un fuego más o menos lento. Su casa resistió más, pero finalmente fue demolida. Basten estos pocos ejemplos para tener una idea general de la disolución a veces paulatina, a veces acelerada que persiguió a sus bienes materiales y, por supuesto, a su propia memoria en el recuerdo de los demás. Lo único que se salvó de la vorágine disolvente del tiempo fue, como no podía ser de otra manera, su reloj. Alguien lo encontró, décadas después de su muerte, junto a trastos hermanados en el olvido. Aquel alguien lo llevó a un museo de la vida cotidiana, en donde yació entre escupideras, pedazos de botellas, corbatas descoloridas y discos mudos para siempre. Discos que, a pesar de todo, almacenaban voces y sones que habían sido emitidos alguna tarde, también perdida, en la que los músicos y los cantantes soñaron con la Eternidad que, de alguna manera, habían alcanzado. El museo cambió varias veces de sede y también renovó su patrimonio con el paso de los siglos, pero el reloj pulsera que su padre le había regalado cuando él cumplió los dieciocho siempre formó parte de la colección, marcando la hora eterna de su destino.
  28. 28. 31 Cuando unos pocos humanos abandonaron la Tierra, el reloj permaneció entre los restos de nuestro planeta. Lo tapó el polvo y la ceniza aun dentro de su vitrina inútil. Miles de años después, una violenta erupción lo cubrió de una especie de lava vítrea que al enfriarse súbitamente le formó un estuche esférico y translúcido, perfecto. Cuando la Tierra se desintegró, la bola de piedra vítrea con el reloj en su interior comenzó a vagar por el espacio durante millones de años. Finalmente, todo el Universo quedó reducido a un polvo frío e inerte, pero el reloj seguía viajando hacia la nada. Ya no había planetas ni estrellas. Ya no había animales, plantas, mares ni montañas. El último ser humano había desaparecido hacía muchísimo. Ya no había más cantores, ni músicos, ni discos, ni tardes. Ya no había corbatas, trozos de botellas, museos, cementerios, ni padres, ni hijos. Sólo había polvo y Eternidad. El tiempo mismo estaba por extinguirse frente al implacable reloj. El Universo se preparaba para volver a empezar y como único testigo estaba aquella máquina encerrada en su envoltorio de piedra. Su reloj, que seguía marcando la misma hora, la hora en que, hacía miles de millones de años ella le había dicho que no. octubre de 2004 Dedos Como Garras Después, esta misma mañana llegué a una conclusión que, por demasiado obvia, nunca había alcanzado antes a tomar forma en mi mente: cuando uno se da cuenta de algo es inútil pretender ignorarlo. La nueva conciencia se aferra a nuestra nuca con dedos como garras. Sin embargo, pese a que íntimamente sabía que no lo iba a lograr, esta misma mañana intenté buscar algo, lo que fuera, algo que pudiera distraerme de lo que acababa de descubrir: que me había quedado solo. Pero, por supuesto, nada sirvió. Somos así, nos atrae lo imposible; sabemos, como el poeta, que nuestra meta es el fracaso, el olvido y aun así intentamos cualquier cosa. Lo primero que siempre perdemos es la esperanza, pero pretendemos ignorar ese hecho y siempre estamos empezando. Yo empecé recorriendo con la mirada todos los objetos de la habitación. Sentado en el sillón de dos cuerpos que está contra el ventanal, escruté las repisas y todas las cosas que en ellas habíamos apoyado. Retratos, piedras, portasahumerios, portalápices, diskettes, CDs, ceniceros. Después di vuelta la cabeza y me detuve en las cortinas, que a pesar de ser lisas me resultaron por primera vez muy sugerentes. Me pregunté: “¿Qué diferencia hay entre una cortina lisa, con sus vueltas y contravueltas, y un telón? Después de todo en ciertos idiomas se usa la misma palabra. ¿Y si fueran lo mismo, de qué lado estaría la representación? ¿Afuera, en la calle, o adentro?” Preguntas peligrosas que me conducían a lo que justamente quería evitar. Entonces dirigí la mirada a través del ventanal y fue cuando vi a un inocente gorrión posado en la rama más alta del árbol que está plantado frente al edificio en que vivimos. Inicié una reflexión acerca de la circunstancia de que Buenos Aires tenía muchos árboles en sus calles, inclusive en algunas calles del centro, como la nuestra. Hay quien ve esto como una desventaja; los alérgicos, por ejemplo, que sufren de toses, estornudos y ojos irritados cuando los plátanos nos cubren con su pelusa incesante. O los barrenderos, que en otoño tienen que trabajar muchísimo más. Pero, sin dudas, los gorriones de Sarmiento resultan beneficiados con esta abundancia de árboles. Pensé esto y mucho más mientras miraba a través del ventanal, hasta que vi cómo el pajarito cambiaba de rama. ¿Cuánto tiempo había pasado? Apenas unos segundos. Es increíble todo lo que se puede pensar en tan breve lapso. De repente me pareció verte de reojo y me levanté del sillón sin mirar a mi alrededor y salí del departamento con apenas las llaves en la mano. En el ascensor me encontré con la portera y ese desagradable olor a mortadela que la envuelve. Me habló de su gato y me preguntó por vos. Le respondí algo que fingió entender. Al salir casi le pateo el gato. Desde la puerta de calle traté de encontrar al gorrión pero fue inútil, ya había volado quién sabe a dónde. Empecé a caminar por la calle rumbo al río. Pensé: “Voy a caminar rumbo al río”. Pensé que yo era muy afecto a decir eso cuando en realidad me refería al este: “rumbo al río” en lugar de “para allá”, o al menos “hacia el este”. Decir “rumbo al río” es equivalente a decir “hacia el naciente”. Y por lo tanto, la ampulosidad de la expresión le revelaría mis ambiciones literarias, o cuando menos mi excentricidad, a cualquiera que fuese lo suficientemente observador. Pensando esto llegué a la esquina en donde me interceptó una vieja con estola atigrada y un sombrerito increíble. Me preguntó si sabía dónde quedaba el restaurante japonés. Me habló detrás de un maquillaje en ruinas que parecía estar Eduardo Benedetto
  29. 29. 32 dispuesto sobre su cara desde hacía años, soportando lluvias, sudores y lágrimas y derritiéndose lentamente hacia abajo y hacia los costados. Tardé más de la cuenta en contestarle ocupado en descubrir los mapas de su rostro, pero la vieja no pareció advertirlo. Finalmente le dije: “Dos cuadras rumbo al río”. A pesar de que me lo agradeció, de alguna manera debo haberla desconcertado. En principio, no creo que haya descubierto mis ambiciones literarias y mucho menos el restaurante japonés, porque después de unos segundos de indecisión empezó a caminar hacia el ocaso. Qué figura la de aquella mujer caminando hacia el ocaso en todos los sentidos posibles. Tan decrépita, tan tambaleante, tan hermosa, en definitiva, que no me animé a corregir su error. “Tengo que encontrar más gente así, —pensé— son perfectos, tengo tanto en que pensar con ellos”. Por ejemplo, ¿qué iría a hacer una mujer como aquella a un restaurante japonés? Paseé mi mente por un discreto menú de respuestas posibles mientras enfilaba hacia la Plaza de Mayo. Podía tratarse de una reunión de ex- alumnas; o de un encuentro con alguien con quien tomaron como punto de referencia el restaurante, lugar al que no piensan entrar; o tal vez ella era una experta en comida japonesa ya que había vivido muchos años en Tokio y se dirigía a conocer el lugar para dar su opinión en un artículo periodístico; o quizás el dueño del restaurante fuera su hijo, fruto de una borrascosa relación con un diplomático japonés, un hijo al cual no ve desde hace años, cuando abandonó a la familia. Hoy, después de tanto tiempo se reencontrará con casi un desconocido. O puede ser que ella intuya que está próxima a morir y desee hacer algo que nunca hizo, algo exótico como comer en un restaurante japonés. O simplemente le entendí mal y en realidad me preguntó por una tintorería. No sé en qué momento comencé a cavilar en el hecho de que yo nunca había visitado aquel restaurante japonés. Ya había llegado a Plaza de Mayo y estaba sentado en un banco con un paquete de maíz en la mano, dándole de comer a las palomas. En un momento recordé al gorrioncito de hacía escasa media hora. ¿Dónde estaría? Decidí no dispersarme tanto y volví a pensar en el restaurante. Nunca estuve en él; no sé, siempre me imaginé que estaría incómodo. Si bien tiene mesas comunes, también tiene de las otras, esas que son rectangulares y muy bajas, rodeadas estrechamente por bancos sin respaldo. ¿Para qué ir a ese restaurante si uno no va a sentarse a esas mesas? Para ocupar una mesa ordinaria mejor me quedaba en casa. Aunque no sé si los japoneses tienen delivery... No, definitivamente no ocuparía las mesas especiales. No sólo por lo incómodas sino porque además son para varias personas y yo iría solo. Qué extraño espectáculo daría en el caso de que me permitieran sentarme allí. ¡Cuidado!, muy lentamente había llegado a aquello de lo que me había dado cuenta esta misma mañana... y otra vez los dedos como garras en la nuca... Me levanté del banco bruscamente, como si me sacudiera recuerdos ineludibles que me persiguiesen, incansables. Me dirigí hacia el vallado que separa la plaza de la casa de gobierno. Tampoco sé por qué me encontré pensando en el final que aquellas vallas tendrían. Todo tiene un final, aun aquellos bloques enrejados pero sólidos y macizos de metal oscuro. Algún día las vallas serían recicladas y se convertirían en vigas, carritos para llevar bebés, arandelas, esa especie de resorte que une las dos piezas de madera o plástico de los broches para colgar la ropa lavada, clavos, clips de oficina, cestos de papeles, ventanas, piezas de un televisor, los parantes de la red de una cancha de voley, armas de fuego, llaves, cuchillos de cocina... Los objetos de metal tienen más suerte en esto de los finales y los reciclados, conservan su identidad por más tiempo. Todo lo contrario al material biológico; un animal o un ser humano se descomponen y recomponen en formas irreconocibles a una velocidad pasmosa. Aunque visto desde otro ángulo, uno más oriental, la persistencia del metal es una especie de karma, mientras que la mutabilidad que nos caracteriza nos brinda la oportunidad de dejar de ser más fácilmente. La verdad, yo hoy quería dejar de ser, quiero dejar de ser, y por eso me extraviaba, y me extravío, en los otros y en las cosas. Pero es inútil, siempre vuelvo a aparecer. Y sólo soy yo, yo solo. Atravesé toda la plaza lo más rápido que pude sin correr. Empecé a caminar por Avenida de Mayo, dándole la espalda al río. Encontré una muchedumbre de objetos. Pensé que simplemente con los libros usados podría evadirme hasta el infinito. La Vida de Rock Hudson, El Congreso que Yo He Visto, Cuentos de Guy de Maupassant, Rojo y Negro, Yabrán Está Vivo, Enciclopedia de Aviación, Las 100 Mejores Fotos de 1986, La Bestia en la Jungla, Recetas de Blanca Cotta, Todo lo que Hay que Saber sobre el Gran Danés, Los Caballeros Templarios, Guía Caprichosa de Buenos Aires, Las Venas Abiertas de América Latina, 1000 Aforismos. Pero los libros son parte de mí, son mi biblioteca, mi departamento; sos vos. Frenéticamente me perdí de ida y de vuelta por el pasaje Barolo. Trahit sua quemque voluptas, leí en su interior. Quise descifrar, a sabiendas de que no lo lograría, claves y mensajes que, en realidad, nadie había dejado en los ornatos y cornisas del viejo edificio. Pasé por una comercio de ropa femenina. Debería haber prefigurado la trampa que ahí me esperaba. Tal vez lo hice y decidí de todos modos caer en ella adrede. Lo primero que vi, lo único que vi en la vidriera fue una enorme mancha de raso azul. No pude identificar de qué prenda se trataba Eduardo Benedetto
  30. 30. 33 porque retiré la vista de inmediato, como si hubiese visto algo asqueroso, algo criminal. Crucé la avenida por la mitad de la cuadra. Un taxi vacío y lento aceleró un poco para poder alcanzarme y asustarme con su bocina. Me acerqué despacio y puteé al conductor con la cabeza casi adentro del vehículo. Una pelea callejera sería el complemento ideal de ese casi mediodía. Pero nada, el taxista hizo como si no me escuchara y siguió, imperturbable. Entré al Tortoni y pedí un café. El mozo era flaco y alto, algo desgarbado, de tez gris, ojeroso, con una gran nariz que se negaba a una forma definida, cabello corto entrecano y manos huesudas. Imaginé que su familia era griega y que se apellidaba Quiodos, con cu. En Grecia todos los días son soleados y la gente vive mucho porque está siempre sentada cerca del mar, tomando vino y comiendo aceitunas. ¿Qué hacía Quiodos aquí, en esta ciudad tan llena de nubes, tan lejos del río, transitada por viejas desorientadas y al borde de la muerte y taxistas indolentes que ya estaban muertos? Otra vez zona peligrosa. Tenía que salir del café porque aunque sus paredes estaban, como siempre, cubiertas de cuadros, fotos, partituras y poemas que me hubieran servido muy bien para evitar los dedos como garras, ya Quiodos se había encargado de llevarme al encuentro con ellos antes de lo previsto. Dejé sobre la mesa los únicos dos pesos que llevaba en el bolsillo y me fui. La calle estaba húmeda, pero ya no llovía, había sido un breve chaparrón de primavera. Sin pensarlo demasiado volví a entrar al Tortoni. Busqué al mozo y le pregunté si por casualidad se llamaba Quiodos. Me miró serio, se aclaró la garganta con un carraspeo nada helénico y me dijo que no. En su negativa y en la fijeza de su mirada creí entender que me decía que en Grecia también llueve y hasta hay terremotos, que en Grecia también había gente que llevaba una vida miserable, gente que apenas había visto el mar. “En Grecia la gente es mortal, —creí oír que murmuraba de mal humor— igual que acá”. Afuera otra vez, pude ver como un grupo de cuatro pibes limpiaparabrisas había copado una esquina. Uno de los limpiavidrios era muy efectivo (¿o será eficaz?, ¿o eficiente?). Nadie aceptaba que le limpiara el parabrisas, igual que a los otros, pero todos los automovilistas le daban alguna moneda, aunque a los otros no. Me acerqué y encontré que en el borde del limpiavidrios efectivo en lugar de una pestaña de goma se dejaba ver una hilera de clavos oxidados. “¿Por qué soy yo el que tiene que perderse en la multitud? —pensé— ¿Por qué no es él? ¿Por qué no puedo cambiar mi lugar por el suyo?” Salí de la avenida y doblé, y volví a doblar, y caminé cuadras y cuadras. Encontré caras, zapatos, baldosas rotas, obras en construcción, carteles de propaganda sobre carteles de propaganda sobre carteles, inesperadas bocanadas de aire caliente vomitadas por los acondicionadores de aire, edificios, animales, gorras, aromas nauseabundos, risotadas, muñones, mendigos, policías, prostitutas, iglesias, papeles, excrementos, bocinazos, casas de reparación de afeitadoras, libros sobre Lugones, bolsas de plástico negro repletas de residuos. Imaginé historias, leí pensamientos, desvié destinos leve, imperceptible e irrevocablemente, mentí, fui amable, espere colectivos que finalmente nunca tomé, sumé los números de las patentes de los autos, calculé la frecuencia de los subterráneos y la cantidad de pasajeros por vagón. Por fin, a la nochecita, volví a caminar rumbo al río, volví a mi departamento. Se había levantado viento y las hojas de los árboles se frotaban entre sí como excitadas. El gato de la portera estaba sentado en la puerta de calle, plácido y con el hocico lleno de plumas. Lo odié en vano. Abrí la puerta con el mínimo de ruido posible y me di vuelta con la intención de patearlo con toda el alma; pero él ya se había ido haciendo menos ruido que yo. No usé el ascensor; no hubiera tolerado otra conversación con la portera como final del día. Subí los cuatro pisos por la escalera. Qué lúgubres son las escaleras de un edificio antiguo cuando uno vuelve a su soledad. Revolví la cerradura de la puerta del departamento haciendo que las llaves del llavero se entrechocaran como si fueran un alegre cascabel navideño. Hice todo el ruido que pude con los zapatos, con el picaporte, con la hoja de la puerta, con las paredes, con el interruptor de la luz. Te avisé casi gritando que había llegado, como si fuese un marido feliz que retorna al hogar luego de un día de trabajo. Pero vos ni siquiera te moviste. Seguías ahí, adonde te había dejado en la mañana, con tu vestido de raso azul apenas manchado con unas gotas de tu propia sangre. “Es cierto, —me dije— me quedé solo”. Los dedos como garras me llevaron hasta el ventanal. Evité pasar por encima de tu cuerpo. Abrí el ventanal y salí al pequeño balcón. “El viento es como un mar invisible; —pensé— un mar a veces amable, a veces furioso, pero que siempre me arrastra al fondo y me muestra mi verdadero rostro, mi ineludible, irrevocable y leve destino”. Comprobé que aun en estas circunstancias sigo siendo ampuloso. Miré para abajo y creí reconocer a la vieja de la estola atigrada y el sombrero increíble. Ella, tambaleante, levantó la cabeza y me clavó la mirada. Ahora me paro sobre la baranda, mientras ella me sigue mirando sin sorpresa. Respiro hondo y me pierdo en la multitud. Noviembre de 2004 Eduardo Benedetto
  31. 31. 34 Enrique Felix Visillac Médico - Buenos Aires - Argentina El poder de la escritura Si bien la vieja Gertrudis de por sí era una mala noticia, mas allá de su propia desgracia, no era portadora de ninguna otra. Cuando desde mi búnker pronuncié su nombre, la voz senil de Gertrudis me respondió con un “¡Yo!” tan inconfundible como su esmirriada silueta. Como parte de su diaria rutina llevo a cabo una serie de movimientos que pude identificar por los sonidos que producían. Le había prohibido que entrara a mi búnker, no verla significaba al menos disminuir en uno los disgustos que me esperaban ese día. Me puse a pensar cuándo había sido la última vez que la había visto a Gertrudis, que era lo mismo que tratar de elucidar cuánto tiempo hacía que había decidido encerrarme en mi búnker. El motivo por el que dejé de lado las cosas mundanas tiene una estrecha relación con Gertrudis. Me es difícil de imaginar y tal vez engorroso de reseñar qué hizo la vieja aquel día, pero fue tan grave que no se lo permitiría hacer otra vez. Además, me di cuenta de que si lo volvía a repetir (prohibírselo no me garantizaba que no lo volviera a hacer) mi reacción podría ser impredecible. Por aquellos años vivir era importante para mí, y el temor a que la vieja Gertrudis me lastimara era justificativo suficiente para no verla más. Quiero aclarar que ella no tenía la culpa. Si bien sus actos podían dañarme, ella los hacía con absoluta inocencia. Cuando escucho sus arrastrados pasos cerca de la puerta, y poco después el ruido de los platos que deposita en el piso, me gana la curiosidad por mirarla. ¿Pero si justo en el momento en que la estoy contemplando se le ocurre hacer lo que hizo aquel día? Esta pregunta es suficiente para contener mis impulsos y alejarme de la puerta como si del otro lado viviese un monstruo capaz de roer mi cerebro. Emma es la única que me visita y me dice, cada vez que nombro a Gertrudis: -Dejala entrar, luego sonríe, me acaricia la cabeza y alguna que otra vez me besa la frente. Hace alrededor de cinco días (120 horas, mi tiempo lo mido en horas.)que tengo la impresión de que Emma no va a regresar, que su última visita fue la última. Si Emma no vuelve a entrar a mi cuarto me quedaré definitivamente solo, lo único que me mantendrá en contacto con el mundo exterior serán los ruidos que hace Gertrudis cuando ejerce su implacable rutina. Está anocheciendo y a través de la pequeña ventana que da al jardín miro como se va extinguiendo un nuevo día. El gomero ha cambiado el color de sus hojas, porque las penumbras las oscurecen. El pequeño banco en donde hace años se sentaba mi madre tampoco se ve por las tinieblas del anochecer. Es la hora que más temo porque es la hora de la nostalgia. Cuando pienso en el significado de la palabra nostalgia me doy cuenta que no siento pena por estar alejado de la patria o de algún amigo, sino dolor por el recuerdo de un bien perdido. Me alejo de la ventana, no tiene sentido seguir mirando cómo se muere el día. Con ver morir uno es suficiente. Yo gozo con el anochecer, que es su agonía, luego me alejo de la ventana con una ilusión que fracasa día a día. Yo anhelo que al día siguiente, cuando me asome a la ventana me encuentre con el día anterior agonizando y no con uno nuevo. Lo que pretendo es cambiar la duración de los días. Tal vez esta sea la causa por la que al tiempo lo mido en horas.
  32. 32. 35 Cierro los ojos y preparo el “arsenal” del que dispongo para combatir el insomnio con el que mantengo una cotidiana y férrea lucha, de la que salgo airoso pocas veces. Esta noche he estrenado un método de lucha, que si bien no ha logrado vencerlo, me ha otorgado felicidad, sentimiento que me es casi desconocido. Me he levantado a las dos de la mañana, y me he puesto a escribir. He escrito libremente, he dejado que mi mano se desplazase al mismo tiempo que mis pensamientos. Comprobé extasiado que por mas ridículos o pobres que fuesen, adquirían relevancia al verlos “impresos” en la pantalla de mi vetusta computadora. Escribir me ha permitido comunicarme conmigo mismo. Tengo la certeza de haber roto la barrera que me impedía conectarme con los demás. Acabo de leer lo que mis pensamientos me han dictado. Sin vanidad pienso que son valiosos y esclarecen muchas de mis conductas. He decidido transcribirlos para honrar a esa bella tarea que es escribir: “El Silencio me penetra profundamente y me permite hurgar las zonas más intimas de mi cerebro. Son tan profundas que es lógico que Emma no las vea y cuando me visita me diga: -Lo que te falta a vos es cerebro Es maravilloso cómo puedo aclarar las cosas que durante tantos años me han atormentado. A Gertrudis la odio porque nunca se esforzó para poder comunicarse con un hombre callado y triste, como era yo. No soy misógino, ni racista (Gertrudis es de piel oscura) sí soy sensible a la indiferencia. El día que decidí encerrarme en mi bunker y aislarme de un mundo ruinoso y hostil fue porque Gertrudis se burlo de mis silencios. Desde que me aislé la única palabra que he pronunciado ha sido Gertrudis. Me he esforzado por conocer porque mi cerebro me dictaba esa palabra y no otra. Ahora comprendo que escribir fue siempre mi pasión, por eso la palabra Gertrudis está sobre las paredes. Cuando Emma me visite le voy a mostrar lo que he escrito. Espero que me diga que ya no me falta cerebro. Mis pensamientos no me dejan descansar, ahora me dictan que he dejado de ser autista, que la escritura es una forma tan valida como la comunicación oral. Ahora podrán saber los que me rodean que tengo sentimientos, que sufro y que además puedo amar y ser feliz. Estoy agotado y mis pensamientos no lo están a la par de su dueño. Ellos siempre han existido pero hoy pueden salir de esa caja rígida que los contenía y esa libertad los excita y me excita.” Siento pasos que no son los de Gertrudis, entonces deben ser los de Emma. Que ansiedad tengo de ver su cara cuando le señale que lea lo que he escrito. No lo va a poder creer. Se lo que me va a decir “Me gustaría que mi madre te viera, y de inmediato agregaría: “Ahora que podes expresarte ha llegado el momento de dejarla entrar. Asustado voy a escribir en un papel: “¿A quien?” Y ella acariciándome la cabeza me responderá “! A quien va a ser! A Gertrudis. El dilema que se me plantea es saber si comunicarme con los demás me dará también el don de perdonar. Tengo que sentarme a escribir todo lo que sentí durante tantos años de silencio exterior, que se contraponía a ese torbellino de voces interiores que me sacudía sin descanso. Sé que el hombre bueno debe perdonar y el malo ser perdonado. Cómo hacerlo, cómo expresarme, eso es lo que debo aprender y seguro que no me va a ser fácil. Los pasos han llegado a mi puerta, en instantes voy a sentir los nudillos de la mano de mi hija golpeándola. Su madre, la vieja Gertrudis (así llamamos los viejos a los que tienen nuestra edad) tratará por todos los medios de asomarse detrás de su hija para verme. Si lo hace, le voy a sonreír, mientras le digo a Emma que el anencéfalo de su padre, ha recuperado el cerebro. Enrique Felix Visillac
  33. 33. 36 Evandro Guimarães de Sousa Médico - Uberlândia - MG Cocô de cachorro Durante toda minha vida, eu já pisei em cocô de outros animais, como cavalos e vacas, e devo confessar que nada é pior do que pisar em merda de cachorro. Parece uma atração fatal, sempre que saio para caminhar e cruzo com um cão, ele late e tenta me morder, ou então, piso em algo que ele deixou para traz. Na minha última caminhada à noite, subitamente pisei em um corpo estranho, mole, de odor característico e deixado sem aviso sobre a calçada, provavelmente durante um inocente passeio de um cãozinho puxando o dono, ou vice-versa. Quando você pisa em cocô de cachorro, imediatamente, são iniciadas quatro fases: 1a fase- A negação: - Acho que eu pisei numa fruta. Mas está fedendo tanto? Será que está podre? - Meu Deus, porque eu, sempre eu? Não poderia ter acontecido com aquele simpático casal à minha frente? - Porque eu não passei do outro lado? Porque não olhei para o chão? Essas coisas só acontecem comigo! 2a fase - A indignação: - O governo deveria ter uma lei que impedisse o acontecimento desses fatos desagradáveis, tais como: obrigar o uso de fraldas, tapar o orifício localizado abaixo do rabo. É claro que estou me referindo ao cão e não ao dono! - Se encontrar a dupla, chuto o traseiro do cachorro, ou melhor, o do proprietário! - Multas para o dono que permitir a realização dessas necessidades fisiológicas em público. - Cadê a carrocinha para recolher esse meliante peludo? 3a fase - A limpeza: Depois de ocorrido o fato, inevitavelmente, alguém diz: - Você pisou em alguma coisa. O que você responde, incontinenti: - Claro que eu pisei em merda de cachorro, não sentiu o cheiro? Não tendo mais jeito, vamos limpar a sujeira. Nessa fase você começa a arrastar e a esfregar a sola do sapato no solo, sempre o pé direito. Porém, a coisa não desprega tão fácil, torna-se necessário esfregar muito mais, usar um palito de picolé, ou instrumento semelhante, para retirar os detritos. O pior que essa é uma atividade solitária, pois todos afirmam: -Vai limpar isso lá longe! Depois, lavar a sola com detergente e deixar secar ao sol. Ah! Que vontade de jogar fora o sapato ou o tênis. Você só não concretiza a idéia, por não saber o que fazer com o outro pé que escapou ileso!
  34. 34. 37 Ícaro e o ácaro. Ícaro, um conhecido personagem da Mitologia Grega, construiu asas com penas de pássaros e cera. Conta a lenda que, entusiasmado com a aventura de voar, aproximou-se demais do Sol, com o calor a cera derreteu desprendendo as penas e provocando sua queda no mar. Já o ácaro é uma criatura microscópica existente na poeira de casa, habitando vários locais do domicílio, onde permanece por muito tempo. É responsável por desencadear episódios de crises de alergia no aparelho respiratório dos moradores. Aparentemente não existe nenhuma relação entre o Ícaro e o ácaro; porém, de acordo com extensa pesquisa, encontrou-se uma outra interpretação dos fatos ocorridos há muitos anos atrás, que vale a pena relatar. A história começa quando Dédalo, famoso artesão, construi um labirinto na ilha de Creta para aprisionar o Minotauro, metade homem e metade touro, que se alimentava de carne humana. Dédalo era considerado um dos mais hábeis artistas da Grécia, pois as estátuas que fazia pareciam ter vida própria. O seu azar foi ter atendido a um pedido da esposa do Rei Minos que, apaixonada pelo Minotauro, mandou o artífice construir uma vaca de madeira para que ela pudesse se esconder dentro, e assim, ser possuída pelo touro, objeto de sua louca paixão bovina. Minos ficou indignado com a nova situação. A dos chifres dele, é claro, pois o Minotauro sempre esteve acostumado com os seus! Foi depois deste episódio, que os maridos passaram a usar a expressão “sua vaca.” para demonstrar irritação quando suas esposas os contrariam por algum motivo! Como castigo Dédalo ficou preso no labirinto, junto com seu filho Ícaro. Não sei por que o Ícaro foi junto, ele não tinha feito nada! Inconformado com a situação, Dédalo resolveu preparar o plano de fuga. Passou a recolher penas de pássaros e armazenar cera, guardando-as num cantinho escuro e empoeirado do labirinto. Depois construiu dois pares de asas, adaptou-as nas costas e junto com Ícaro alçou vôo para fugir da ira de Minos. Acontece que Ícaro era portador de rinite alérgica. Uma vez em contato com as penas, passou a espirrar sem controle. A cada episódio de espirros, era pena que voava para todo lado, e deu no que deu, ele despencou e morreu afogado no Mar Egeu. Dédalo que não era alérgico, conseguiu chegar são e salvo na Sicília. E foi assim que tudo aconteceu. O ácaro selou, definitivamente, o destino de Ícaro. Moral da história: se algum dia você sentir um irresistível desejo de voar, é mais seguro procurar uma conceituada companhia aérea e se, estiver com algum problema respiratório, recomendo consultar um especialista. Assim, você irá incomodar bem menos os seus companheiros de viagem. 4a fase- A Prevenção: - Daqui para frente vou olhar sempre para o chão. Pode passar qualquer popuzada, que eu não olho! - Se enxergar qualquer cachorro, mudo o trajeto. - Vou envolver o tênis com sacolas plásticas. Vai ficar um pouco esquisito, mas vai funcionar! - Vou usar uma bengala. Saio espetando o que eu achar estranho no chão. Antes a ponta da bengala do que a sola do meu tênis! Mas nada disso adianta; mais dia ou menos dia, quando menos se espera, um descuido e novamente, você pisa em cheio na merda e aí começa tudo de novo. Porém, ainda resta uma esperança. É só você contrariar o ditado popular e começar todos os dias e todas suas atividades com o pé esquerdo. Já foi comprovado, por pesquisas científicas, que canhoto não pisa em cocô de cachorro!. Evandro Guimarães de Sousa
  35. 35. 38 Flerts Nebó Médico reumatologista - São Paulo - SP A verdadeira fundação de São Paulo Todos comemoram a fundação dessa cidade como sendo em 25 de janeiro, e este ano comemoramos 450 anos desse início. Entretanto, devemos pensar de um modo diferente, pois da mesma forma como se comemora a fundação de Brasília, a Capital do Brasil em 21 de abril, porque o Presidente Juscelino assim o quis, também São Paulo comemora o 25 de janeiro, sem ser essa a data verdadeira. Vários interesses existiam em 1500, por parte do Reino de Portugal e, rapidamente, exporei só alguns, mas sobretudo o “porque” da Fundação de São Paulo. Em 1492, terminara a Reconquista da Espanha, com a derrota dos mouros, em Córdoba, e nesse mesmo ano um navegador, supostamente nascido em Genova chamado Cristóvão Colombo, “descobriu” a América. Os Reinos de Portugal e da Espanha, em 7 de junho 1494 concluíram um tratado na cidade de Tordesilhas, onde se estabeleceu um Meridiano de conformidade com o Papa Alexandre VI, que situava a 100 léguas a oeste dos Açores e das ilhas do Cabo Verde; dando a Portugal o direito de conquista da banda oriental dele e á Espanha, igual direito do lado ocidental. A convenção de Tordesilhas re-estabeleceu esta demarcação, oito anos mais tarde para um meridiano sito 370 léguas a oeste das ilhas do Cabo Verde, confirmada pelo Papa Julio II na bula de 3 de maio de 1502. A situação desse meridiano NUNCA FOI definitivamente fixada. A costa brasileira “descoberta” pouco depois estava manifestamente a leste da linha estabelecida, contudo ficou, como posse para os “descobridores” portugueses. Entretanto só o povoamento das regiões descobertas é que garantiam a posse das terras. Compreendemos assim o interesse que tinha Portugal em estabelecer seus domínios para o lado das terras da América. Portugal, entretanto, estava muito mais interessado nas ESPECIARIAS que vinham da Índia, pois não existiam as geladeiras nem os”freezer”, e a conservação dos alimentos era dependente dessas especiarias, e assim não se interessou muito pela posse das terras brasílicas. Outros paises como a Holanda e a França, mandavam seus navios vir em busca do conhecido “pau- brasil” para tingir seus tecidos. Naturalmente muitos dos piratas ou dos chamados “aventureiros” ou mesmo náufragos, vieram para as terras do Brasil, e ficaram por aqui. Dentre eles podemos relembrar as figuras de Diogo Álvares Correia, o “Caramuru”; em Cananéia viviam Francisco Chaves e o chamado “O Bacharel em Cananéia”, a Aleixo Garcia, Henrique Montes e Melchior Ramires, que pertenciam ao grupo de náufragos habitantes de Santa Catarina, e havia ainda um lusitano de nome João Ramalho. Este último é que nos interessa, pois ele conseguiu uma firme amizade com um cacique chamado Tibiriçá da tribo indígena, a dos Guaianazes, e com um irmão dele Cai-Ubi que tinha a tribo Tupiniquim e Piquerobi também Tupiniquim. Este, entretanto, não gostava dos brancos.
  36. 36. 39 Flerts Nebó O Ramalho conseguiu aprender o idioma Tupi com Tibiriçá e os de sua tribo, e depois, até mesmo se casar com uma de suas filhas, que se chamava M’BOI (flor da árvore) e ele a apelidou de “Partira”, mais tarde passando para Bartira. Um amigo do Rei de Portugal, D. João III, chamado Martin Afonso de Souza, veio ao Brasil, para ver se conseguia, — inspirado no que se sabia da expedição pioneira de Aleixo Garcia — garantir se seria possível indo por terra a dentro, alcançar as terras privilegiadas com ouro e prata. Martin Afonso dirigiu-se ao Rio da Prata para ver se, indo pelos rios se alcançaria a região aurífera; cabia-lhe além dessa missão, afugentar os piratas de roubavam nossa madeira. Com a autorização real, resolveu que a posse da Terra seria absoluta, se se fundasse uma Vila. Ele sabia que todos os dias, no período da tarde, os homens se reuniram ao redor de uma “Bica de água”, para conversar sobre suas pescas, os produtos de suas hortas e mesmo para o jogo de dados. Essa “Bica” é hoje a conhecida Biquinha de São Vicente, e Martin Afonso, resolveu então fundar a Vila de São Vicente, dando-lhe esse nome por ser esse o Santo do Dia. Martin Afonso conheceu, na ocasião a João Ramalho e este, como já vivia no chamado “Planalto”, conseguiu que o nobre luso subisse a Serra do Mar e chegasse até a borda do SERTÃO, e ali se fundasse mais uma Vila e sendo o dia de Santo André passou a ser conhecida por Santo André da Borda do Campo. Essa primitiva Santo André não corresponde a atual cidade com esse nome. Ela se situava mais para o lado da atual cidade de São Bernardo Segundo determinação da coroa lusa dever-se-ia fundar Vilas distantes uma da outra cerca de Seis léguas. Uma légua corresponde a 6 Km, portanto de uma Vila ou Aldeia a outra permeavam 36 Km. Foi, nas margens de uma região denominada Piratininga, que fundou a Vila seguinte e que tomou, por isso o nome - PIRATININGA. Essa primitiva Vila foi invadida pelos índios carijós, inimigos dos Guaianazes e dos Tupiniquins e foi arrasada, e seus habitantes fugiram para a vila de Santo André. O Rei de Portugal desejava que os colonos, que se encontravam no chamado “além-mar”, tivessem uma Assistência Cristã e então mandou que os padres da “Companhia de Jesus” viessem para o Brasil, a fim de dar a Assistência aos lusos e, ao mesmo tempo, catequizar os nativos. Havia interesse em que, cada vez mais, os povoados fossem “entrando em terras”, que até mesmo poderiam ser espanholas, mas o que interessava era a permanência dos lusitanos nos sertões brasílicos, mesmo porque havia uma curiosidade em se conhecer o caminho para AS TERRAS do Rei branco que gerenciava as Chamadas “Minas de Prata de Potosi”. Vieram os inacianos, tendo como chefe o Padre Manoel da Nóbrega, o qual não conseguira o cargo máximo, em Portugal, por ser gago. Nóbrega entrou em contato com o João Ramalho, e este o “apresentou” a Tibiriçá a Cai-Ubi e a Piquerobi. Com uma boa conversa do jesuíta com João Ramalho, procurou estabelecer um “Posto de apoio” aos padres que iriam para o interior. Ramalho falou com o sogro- Tibiriçá - e este permitiu que Nóbrega construísse uma Oca, numa colina que ficava perto de sua Taba. A Taba do Guainás ficava no atual Largo de São Bento, e ele permitiu que na colina de Inhapambuçu, se fizesse a Oca do jesuíta, que “por acaso”situava- se onde hoje é o Pátio do Colégio. Com o padre Manuel da Nóbrega também vieram outros dois padres Manuel de Paiva e Manuel de Chaves. Que coisa interessante eram os três Manuéis - da Nóbrega, de Paiva e o de Chaves. Nóbrega era o que tinha Interesse em poder avançar para o interior. Assim, pouco a pouco foi aumentando o tamanho da “Oca” e chegaram mais padres além de mais dois “irmãos”, um deles, depois ficou, sobejamente, conhecido, que a seguir recebeu a ordenação e sabemos que foi José de Anchieta. Acontece que em 1553, na Oca, os três Manoeis todos os dias rezavam missas e tinham até mesmo batizado, mais de 50 catecúmenos (índios e mesmo seus filhos) que viviam na Taba de Tibiriçá. Havia necessidade de uma privacidade para os sacerdotes, visto estarem expostos a tentações, pois as índias solteiras, andavam todos os dias, por todas as partes, completamente nuas. Então construíram mais um “canto”; reservados para suas meditações e rezas, buscando assim, fugir das “tentações”. Pelas cartas enviadas por Manoel da Nóbrega e José de Anchieta, foi que o Geral dos Jesuítas -— Inácio de Loyola — tomou conhecimento do trabalho desses catequistas, em terras da América. Não seria que essa “Nova Piratininga” que já não existiria antes do dia 25 de Janeiro de 1554?

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