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  • 1. Anais XII Jornada Médico-Literária Paulista VII Jornada Nacional da Sobrames Organização: Sociedade Brasileira de Médicos Escritores SOBRAMES - Regional do Estado de São Paulo Botucatu - São Paulo - Brasil 26 a 29 de setembro de 2013
  • 2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE MÉDICOS ESCRITORES Regional do Estado de São Paulo SOBRAMES - SP Diretoria Gestão 2013/2014 Cargos Eletivos Presidente: Josyanne Rita de Arruda Franco Vice-presidente: Carlos Augusto Ferreira Galvão Primeiro secretário: Márcia Etelli Coelho Segundo secretário: Maria do Céu Coutinho Louzã Primeiro tesoureiro: Jorge Alberto Vieira Segundo tesoureiro: Aída Lúcia Pullin Del Sasso Begliomini Conselho Fiscal Efetivos: Helio Begliomini Luiz Jorge Ferreira Marcos Gimenes Salun Suplentes: José Jucovsky Rodolpho Civile José Rodrigues Louzã A XII Jornada Médico-Literária Paulista é uma realização da SOBRAMES - SP Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional do Estado de São Paulo Endereço para correspondência (SOBRAMES-SP): Rua Francisco Pereira Coutinho 290, 121 A Vila Municipal Jundiaí, SP. - CEP 13201-100 josyannerita@gmail.com Copyright 2013 © dos Autores Comissão Organizadora da XII Jornada Médico-Literária Paulista Os integrantes da Diretoria da Regional São Paulo Os conceitos emitidos nos textos literários deste evento representam exclusivamente a opinião de seus autores, não sendo de responsabilidade da SOBRAMES-SP. Projeto Gráfico e Diagramação: Marcos Gimenes Salun Produção: Rumo Editorial Produções e Edições Ltda. E-mail: rumoeditorial@uol.com.br (11) 2331-1351 / 99182-4815 II
  • 3. Apresentação III A XII Jornada Médico-Literária Paulista está mais rica e fresca com os ares interioranos de Botucatu. Em pleno início de primavera, não somente desabrocham flores, mas também exultam e se regozijam os sons e as palavras, polinizados pelo cálido vento que traz verso e prosa talentosos dos vários cantos da amada terra brasileira. O acontecimento bienal mais aguardado da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores Regional São Paulo (Sobrames SP), nesta edição oferece o abraço que acolhe a arte de escrever que vem de outras paragens, trazida na bagagem de médicos escritores de variados estados do nosso imenso país, irmanados em uma jornada de abrangência nacional. Um paraíso particular que por alguns dias se descola do mundo globalizado de conversas e encontros virtuais, onde não existe o calor do contato, o aperto de mãos, o abraço fraterno. Confraternização, amizade e talento literário, eis o convite! Ouçamos a voz e o eco das tantas belas palavras que reverberam -cordiais e indeléveis- em coletânea de extraordinárias e memoráveis composições nas páginas que se descortinam a seguir: uma aventura para compartilhar e nunca mais esquecer! Dra. Josyanne Rita de Arruda Franco Presidente da SOBRAMES-SP (2013-2014)
  • 4. Queridas amigas e amigos, confrades e confreiras da SOBRAMES e ABRAMES, Sempre vivemos intensamente a poesia de todos os momentos que passamos juntos. E essa nova oportunidade não será diferente. Todos nós estamos empenhados em manter viva a chama que nos une, o amor à palavra e o amor ao caminho rumo à sabedoria. Atualmente experimentamos um período totalmente inacreditável como médicos. Há uma inversão de valores nos quais sempre acreditamos. Servir, atender, curar, aliviar com o melhor de nosso conhecimento. Estes preceitos tem sido motivo de “ajustes” políticos, contrários ao que temos proferido desde os nossos bancos frios do anfiteatro de anatomia, no começo de nosso curso de Medicina. É uma “nova ordem” que infelizmente nivela por níveis muito baixos os padrões de excelência que buscamos no dia-a-dia de nossa profissão. De fato, perseveramos com aquele ideal inato de “ser”. Poetas, cronistas, contistas, ensaístas e outros artistas que compõem estas nossas egrégoras são uma força necessária, porém, às vezes, ausentes na construção de um pensamento consistente para o país. Divergências há e são necessárias para que se possa encontrar um Norte, uma solução e um bem comum. Nestes dias do começo da Primavera, florescerão momentos de renovação das amizades e de aprendizado e reflexão. Botucatu nos receberá com carinho nos dias 26 à 29 de Setembro. Foram meses de dedicação e empenho, junto à Diretoria da Regional SP, sob a batuta da Presidente Josyanne Rita de Arruda Franco. Hoje temos certeza que a decisão durante o XXIV Congresso Nacional em Curitiba foi acertada. Realizar a XII Jornada Médico-Literária Paulista em conjunto com a VII Jornada Nacional da SOBRAMES e com a participação da Academia Brasileira de Médicos Escritores. Somamos. Multiplicamos. Este é o caminho. Dr.Sérgio Augusto de Munhoz Pitaki Presidente Nacional SOBRAMES Acadêmico Titular da Cadeira no. 21 - ABRAMES Mensagem do Presidente V
  • 5. VII Índice Geral Programa Sessões Literárias Autores Participantes Textos Literários Letra de Estudante A cidade de Botucatu Conheça a Sobrames I II III IV V VI VII 9 13 17 21 95 105 109
  • 6. 9 I Programa XII Jornada Médico Literária Paulista VII Jornada Nacional Sobrames Os organizadores reservam-se o direito de efetuar eventuais alterações nesta programação, sempre visando o bom andamento do evento, e desde que estas sejam absolutamente necessárias ou convinientes aos participantes. Qualquer alteração será informada a todos com a devida antecedência. Botucatu - São Paulo 25 a 29 de setembro de 2013 Primar Plaza Hotel
  • 7. Dia 26/09/2013 (Quinta-Feira) 14h00 – Check-in no Primar Plaza Hotel (à partir de 14h00) 19h00 - Recepção aos participantes e convidados 19h30 – Abertura oficial (Teatro Municipal de Botucatu) Presidente da Sobrames - Dr.Sérgio Augusto de Munhoz Pitaki Presidente Sobrames São Paulo - Dra.Josyanne Rita de Arruda Franco Apresentação de Autoridades 20h15 – Apresentação do Coral da Prefeitura 21h00 - Coquetel no hall do Teatro Dia 27/09/2013 (Sexta-Feira) 06h30 – Café da Manhã 08h15 – Primeira Sessão literária - Sala de Eventos do Hotel – Prosa e Verso de autores da Sobrames 10h15 – Coffe-Break Lançamento da IX Antologia Paulista 11h00 – Segunda Sessão Literária - Sala de Eventos do Hotel - – Prosa e Verso de autores da Sobrames 12h30 – Almoço no Restaurante do Primar Plaza Hotel 13h45 – Terceira Sessão Literária - Sala de Eventos do Hotel – Prosa e Verso de autores da Sobrames 15h15 - Coffee Break 16h00 - Quarta Sessão Literária - Sala de Eventos do Hotel - Prosa e Verso de autores da Sobrames 17h30 - Encerramento das sessões literárias 19h15 - Saída para o Teatro Municipal de Botucatu 20h00 - Apresentação de Camerata de Botucatu 21h15 - Saída para o Restaurante Celeiro 21h30 - Jantar no Restaurante Celeiro 23h00 - Retorno para Primar Plaza Hotel 10
  • 8. Dia 28/09/2013 (Sábado) 06h30 – Café da Manhã 08h15 – Fórum da Academia Brasileira de Médicos Escritores (ABRAMES) – Prosa e Verso de autores da ABRAMES - Homenagem ao Acadêmico Emérito Dr.Evanil Pires de Campos 10h00 – Coffe-Break 10h30 – Saída para Barra Bonita - Passeio no Navio Ciudad de Cuesta até eclusa de Barra Bonita no Rio Tietê - Almoço a bordo do navio 17h00 - Retorno ao Primar Plaza Hotel 19h45 - Saída para o restaurante Sinhô Sinhá 20h15 - Apresentação de Grupo Folclórico Regional - Premiação dos concursos literários com entrega do “Troféu O Bandeirante” 21h00 - Jantar de confraternização e Encerramento 23h00 - Retorno ao Primar Plaza Hotel Dia 29/09/2013 (Domingo) 06h15 - Café da manhã – Manhã Livre para os que viajaram de automóvel - Check-out e translado de Botucatu para aeroporto Viracopos (Campinas) após o café da manhã para aqueles que tiverem interesse. 11
  • 9. 13 II Sessões Literárias XII Jornada Médico-Literária Paulista VII Jornada Nacional da Sobrames Para o bom andamento dos trabalhos recomenda-se que os autores cumpram rigorosamente os horários de apresentação de seus textos nas sessões literárias programadas. Solicita-se que não haja explicações preliminares sobre o texto a ser apresentado, visando um melhor aproveitamento do tempo para a leitura do texto. Se houver manifestações da plateia após a apresentação dos textos caberá ao presidente da mesa determinar a quantidade de intervenções e sua duração, visando manter os horários previstos na programação. Botucatu - São Paulo 25 a 29 de setembro de 2013 Primar Plaza Hotel
  • 10. Primeira Sessão Literária Dia 27/09/2013 (Sexta-feira) 8h15 às 10h00 1- Alcione Alcântara Gonçalves / Poesia: “Ode a Botucatu” 2- Josemar Otaviano Alvarenga / Prosa: “Significados da palavra” 3- Aida Lucia Pullin Dal Sasso Begliomini / Prosa: “Vida interrompida” 4- Sérgio Augusto de Munhoz Pitaki / Poesia: “Azul” 5- José Warmuth Teixeira / Poesia: “Amando e poetando” 6- Jacyra da Costa Funfas / Prosa: “Balada no Céu” 7- Marcos Gimenes Salun / Prosa: “Viver é fazer opções” 8- Carlos Augusto Ferreira Galvão / Poesia: “Companhia” 9- Sônia Andruskevicius de Castro / Poesia: “Crianças” 10- Rodolpho Civile / Prosa: “A presença daquele homem” 11- Arquimedes Viegas Vale / Prosa: “A vingança dos inocentes” 12- Helena Natalícia Rocha de Alvarenga / Prosa: “Esperança” 13- Evanil Pires de Campos / Prosa: “A medicina e a educação” Segunda Sessão Literária Dia 27/09/2011 (Sexta-feira) 10h30 às 12h00 1- Nelson Jacintho / Prosa: “Noite de inverno” 2- Celina Corte Pinheiro de Sousa / Prosa: “Renascimento” 3- Luiz Jorge Ferreira / Poesia: “My name” 4- José Arlindo Gomes de Sá / Poesia: Amargo regresso” 5- Josyanne Rita de Arruda Franco / Prosa: “Plano de voo” 6- José Maria Chaves / Prosa: “O aviso do vento” 7- Ligia Terezinha Pezzuto / Poesia: “Sublime amor” 8- Márcia Etelli Coelho / Poesia: “Começar de novo” 9- Helio Moreira / Prosa: “Caminhar pelas ruas de Paris no verão” 10- Roberto Antonio Aniche / Prosa: “Meu marido foi para a guerra” 11- Juçara Regina Viegas Valverde / Poesia: “Apelo” 12- José Carlos Serufo / Poesia: “Perla fina” 13- Helio Begliomini / Prosa: “Ciranda da vida” 14
  • 11. Terceira Sessão Literária Dia 27/09/2013 (Sábado) 13h45 às 15h15 1- Marcos Gimenes Salun / Poesia: “Aldravias improvisadas” 2- Josemar Otaviano Alvarenga / Poesia: “Despedère” 3- Márcia Etelli Coelho / Prosa: “A moça de cinza” 4- Carlos Augusto Ferreira Galvão / Prosa: “Momento delicado” 5- Jacyra da Costa Funfas / Poesia: “Brasil” 6- Sérgio Augusto de Munhoz Pitaki / Poesia: “Conselho” 7- Rodolpho Civile / Prosa: “O Papai-noel ladrão” 8- José Maria Chaves / Prosa: “Lauro Maia, um poeta que também é rua” 9- Aida Lúcia Pulin Dal Sasso Begliomini / Poesia: “Andanças” 10- José Arlindo Gomes de Sá / Poesia: “Inventário sertanejo” 11- José Warmuth Teixeira / Prosa: “A mitologia greco-romana e a obstetrícia” 12- Celina Corte Pinheiro de Sousa / Prosa: “Solidão” 13- José Jucovsky / Poesia: “Tropicalismo-concretismo” Quarta Sessão Literária Dia 27/09/2013 (Sexta-feira) 16h00 às 17h30 1- Luiz Jorge Ferreira / Prosa: “Pintassilgo Mariadocarmo” 2- Helio Moreira / Prosa: “Ver não é o mesmo que enxergar” 3- Juçara Regina Viegas Valverde / Poesia: “Demarcações” 4- Nelson Jacintho / Poesia: “Se não é verdade” 5- Ligia Terezinha Pezzuto / Prosa: “Bodas de Diamente - uma história real” 6- Roberto Antonio Aniche / Poesia: “Feche a porta” 7- Arquimedes Viegas Vale / Poesia: “Eu e você” 8- Sônia Andruskevicius de Castro / Poesia: “Pescador” 9- Helio Begliomini / Prosa: “Se não fosse a minha fé” 10- José Carlos Serufo / Prosa: “Por quê” 11- Josyanne Rita de Arruda Franco / Poesia “Fogueira celestial” 12- Alcione Alcântara Gonçalves / Poesia “Gratidão, o que é?” 15
  • 12. 17 III Autores Participantes XII Jornada Médico Literária Paulista VII Jornada Nacional da Sobrames Botucatu - São Paulo 25 a 29 de setembro de 2013 Primar Plaza Hotel Os organizadores dão as boas vindas aos autores das várias regionais da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e agradecem a participação nestes eventos.
  • 13. CEARÁ Celina Corte Pinheiro de Sousa José Maria Chaves GOIÁS Hélio Moreira MARANHÃO Arquimedes Viegas Vale MINAS GERAIS Helena Natalícia Rocha de Alvarenga José Carlos Serufo Josemar Otaviano de Alvarenga PARANÁ Sérgio Augusto de Munhoz Pitaki 18
  • 14. SÃO PAULO Aída Lúcia Pullin Dal Sasso Begliomini Alcione Alcântara Gonçalves Carlos Augusto Ferreira Galvão Evanil Pires de Campos Helio Begliomini Jacyra da Costa Funfas José Jucovsky Josyanne Rita de Arruda Franco Ligia Terezinha Pezzuto Luiz Jorge Ferreira Márcia Etelli Coelho Marcos Gimenes Salun Nelson Jacintho Roberto Antonio Aniche Rodolpho Civile Sônia Regina Andruskevicius de Castro PERNAMBUCO José Arlindo Gomes de Sá RIO DE JANEIRO Juçara ReginaViegas Valverde SANTA CATARINA José Warmuth Teixeira 19
  • 15. 21 IV Textos Literários XII Jornada Médico Literária Paulista VII Jornada Nacional da Sobrames Botucatu - São Paulo 25 a 29 de setembro de 2013 Primar Plaza Hotel A autoria dos textos a seguir publicados e apresentados durante as sessões literárias deste evento, bem como as opiniões emanadas são de exclusiva responsabilidade dos autores, não representando a opinião dos organizadores.
  • 16. Arquimedes Viegas Vale A vingança dos inocentes / Eu e você 32 Alcione Alcântara Gonçalves Gratidão, o que é? / Ode a Botucatu 28 Celina Corte Pinheiro de Sousa Solidão / Renascimento 38 Carlos Augusto Ferreira Galvão Companhia / Delicado momento 35 Aida Lucia Pullin Dal Sasso Begliomini Andanças / A vida interrompida 25 Helena Natalícia Rocha de Alvarenga Esperança 42 Helio Begliomini Ciranda da vida / Se não fosse a minha fé 43 Hélio Moreira Caminhar pelas ruas de Paris no verão / Ver não é o mesmo que enxergar 47 Evanil Pires de Campos A medicina e a educação 40 Jacyra da Costa Funfas Balada no céu / Brasil 51 José Carlos Serufo Perla fina / Por quê 54 José Arlindo Gomes de Sá Inventário sertanejo / Amargo regresso 52 56José Jucovsky Tropocalismo - Concretismo / Centenário do nascimento de Jorge Amado - Nó górdio brasileiro José Maria Chaves O aviso do vento / Lauro Maia - um poeta que também é rua 61 22
  • 17. José Warmuth Teixeira A mitologia greco-romana e a obstetrícia / Amando e poetando 65 Josemar Otaviano de Alvarenga Significados da palavra / Despedere 67 Josyanne Rita de Arruda Franco Plano de voo / Fogueira celestial 68 Juçara Regina Viegas Valverde Demarcações / Apelo 71 Ligia Terezinha Pezzuto Bodas de Diamante - uma história real / Sublime amor 73 Luiz Jorge Ferreira Pintassilgo Mariadocarmo / My name 75 Márcia Etelli Coelho A moça de cinza / Começar de novo 78 Marcos Gimenes Salun Aldravias improvisadas / Viver é fazer opções 81 Nelson Jacintho Noite de inverno / Se não é verdade 85 Roberto Antonio Aniche Feche a porta / Meu marido foi para a guerra 87 Rodolpho Civile O Papai-Noel ladrão / A presença daquele homem 89 Sérgio Augusto de Munhoz Pitaki Azul / Conselho 92 Sônia Regina Andruskevicius de Castro Crianças / Pescador 93 23
  • 18. 25 VIDA INTERROMPIDA Minha alma de tão pequenina quase desapareceu nesse imenso mundo em que fui conduzida. Tudo é tão grande, luminoso, cheio de sons e cores. Nada vejo, mas tudo sinto como se visse e ouvisse. Como estou feliz, alias nunca estive tão feliz como hoje. Um imenso amor transborda e inunda totalmente o meu ser. Eu faço parte de tudo isso, dessa grandeza toda. Sou tão leve, flutuo no plasma. Integro-me a ele de forma continua. Sei que não estou sozinha, mas ao mesmo tempo tudo é muito confuso, isso me deixa completamente perdida. Estou sem referencias, não sei o que fazer, nem para onde ir. Deixo-me levar novamente. Quando me formaram e pela primeira vez tive consciência de minha existência a minha forma era diferente, solida, apesar de infinitamente menor do que agora. Estava em um local diferente deste, mas muito grande também. Puxa, era grande demais. Rapidamente eu fui aumentando de tamanho e adquirindo formas distintas. Que divertido. La eu estava quentinha e protegida. Nadava, virava cambalhotas, dava piruetas e escutava uns ruídos estranhos, que a principio não me incomodavam, pois tudo era novo e eu estava impressionada com o que estava acontecendo comigo. Conforme eu fui crescendo, meu espaço e minha mobilidade começaram a diminuir. De vez em quando sentia sensações diferentes, não sei o que eram. De repente tudo estremecia, eu me sentia jogada de um lado para outro de forma muito agressiva. Sentia baques cada vez mais fortes. Já não era tão feliz e não me divertia tanto, como no inicio. Alguma coisa muito seria estava acontecendo e eu não sabia o que era. Estava muito assustada. Comecei a me sentir culpada sem saber o por que. Eu estava com muito medo e muito triste. Cada vez mais eu percebia que tudo estava se transformando e ficando bem difícil. Ao mesmo tempo eu já podia brincar com meus dedinhos das mãos e dos pés, minhas orelhinhas, narizinho, boquinha e olhinhos. Corpo perfeito, maravilhoso e eu adorava tudo isso. De repente fui sugada e brutalmente arrancada através de um túnel grande e muito escuro. Meu corpinho nu foi molestado, rasgado, mutilado e a dor que senti foi extremamente cruel. Fui arrebatada daquele mundo quentinho, agradável e atirada sem piedade em uma lata de lixo imunda e gelada. Tossi, esperneei, tentei respirar, gritar, chorar, mas ninguém me viu ou escutou. Eu estava só, definitivamente só e abandonada. Completamente indefesa. Assim permaneci por um curto espaço de tempo ate chegar aqui. Estou começando a entender o que aconteceu comigo e isso me deixou extremamente magoada e ofendida. Ao meu redor já começo a observar outros serezinhos que compartilham comigo iguais emoções. A minha vida material foi interrompida, mas ela esta viva no plano infinito e isso será para sempre. Compartilho com meus novos amiguinhos novas emoções, brincadeiras e neste paraíso sentimos o amor incondicional a que teríamos direito caso tivessem nos permitido o direito a vida. *** Aida Lucia Pullin Dal Sasso Begliomini São Paulo - SP
  • 19. 26 ANDANÇAS Nasci no topo do Maranhão, Na pequena Atins, beirando o mar. Quando criança lá vivi, Vagando solitária pelas dunas áridas Do alto observando sonhadora, o vasto oceano. Pensando, ate aonde vai? Em tenra idade para o Delta me mudei meus pais passivamente segui. Vaguei ate não mais poder. Cresci ao sabor do vento e do mar. Das dunas e dos rios me fartei Já adolescente me transferi. Em Jericoacoara por um tempo me fixei. Nas areias brancas, descalça caminhei, Encantei-me com belos pôr de sois. A cada dia, mais alto eu pensava Nada mais me satisfazia. Queria a grande cidade alcançar, Perto do mar, mas com outros encantos. Já adulta e sozinha fui então para Fortaleza. Nela conheci os prazeres e os desprazeres, O anonimato e o desconhecido. Gostei e me deixei seduzir E por outros caminhos quis seguir. Outra vez mais pelo mar, enfeitiçada fiquei. Um dia, um mapa enorme encontrei. Nele maravilhada, percebi O real tamanho da minha terra. Convencida resolvi, Que tinha muito que conhecer. Meu objetivo então seria, Para o Rio me dirigir. Conhecer o Cristo e o Pão de açúcar, Copacabana e Ipanema. Quando cheguei Por tudo me encantei. Nas areias do Arpoador me estiquei Lá me abandonei. Ao anoitecer dormi com as estrelas, Embalada pelas ondas do mar. Aida Lucia Pullin Dal Sasso Begliomini
  • 20. 27 De repente percebi que o mar que via Era exatamente o mesmo que la de cima eu enxergara. Descobri que precisava a São Paulo chegar. Sem praia, com rios poluídos e transito ruim, Mas com uma pujante vitalidade. Uma vez mais, me mudei. Vivi por algum tempo E a tudo me acostumei. Apaixonei-me e uma família formei. Por anos a fio me apascentei, Deixando adormecidos antigos sonhos. Um dia percebi que deveria, Para as minhas origens retornar. Descalça caminhar nas areias quentes E as altas dunas escalar. E o que fiz? Juntei o pouco que conseguira, Nas malas empilhei também alguns sonhos, Ainda não realizados E para minha Atins voltei. *** Aida Lucia Pullin Dal Sasso Begliomini
  • 21. 28 GRATIDÃO, O QUE É? Gratidão é virtude, que precisa ser cultivada, E desenvolvida diariamente, num eterno agradecer. É mudança de atitude, substituindo as reclamações, Por agradecimentos; os lamentos por ungüentos, Olhando com o coração e superando a vitimização, Buscando o atendimento e descobrindo as bênçãos, Disponíveis, para o seu uso no dia a dia. Perceba, as graças invisíveis que não tinhas notado. Sinta a proteção, o amparo e ajuda que lhe foi dado. Acalme e liberte-se da preocupação através da gratidão. Relaxe-se, descanse seu coração, aquiete sua mente. Sinta-se livre das tensões diuturnas e durma melhor. A gratidão serve como terapia, Para nossas doenças psicossomáticas; E cura depressão, tristeza, solidão E ansiedade: nossas dores da alma. Seja grato e demonstre sua gratidão aos que lhe ajudam. A gratidão é atributo da mente, Força poderosa voltada para a prosperidade. Habituando-se em agradecer, Estará mobilizando o fluido curativo, Esta energia cósmica, que muda o ambiente E circunstâncias em sua volta. As graças recebidas, deverão serem lembradas, Com sincero agradecimento. Purifique sua mente, limpe seu coração, Com a prática da meditação, Eliminando sentimentos e emoções negativas Que lhe impedem de sentir gratidão. Agradeça à natureza por toda sua beleza, Esplendor e maravilhas. Não polua o nosso planeta e agradeça pela morada Que ele nos dá, sem nada exigir de nós. Agradeça a vida, dádiva divina, Que permite a nossa evolução espiritual. Agradeça até as dores, doenças e maledicências Que nos atingem e fustiga, Como lições e remédios amargos, Para nos purificar e desenvolver nossas virtudes. Alcione Alcântara Gonçalves Tupã - SP
  • 22. 29 Faça o bem! e a luz emanada deste bem, Atinge o teu coração, como gratidão Daquele que foi beneficiado. As energias boas e positivas devem ser usadas E distribuídas a quem necessita. A prece, a oração, pode ser feita Para ajudar os necessitados, Os doentes do corpo e, ou da alma. Ajudando ao próximo, é você, o maior beneficiado. Não o faça, contudo, esperando recompensas. Porque assim agindo, a recompensa já é o seu pagamento. No entanto, se o faz desinteressadamente, Sem visar recompensa para você, Ai sim, você será merecedor da gratidão de Deus. Servir desinteressadamente é um ato perfeito, Porque ajuda a quem necessita e, O reconhecimento espiritual, você receberá. A boa vontade e o amor, deverá prevalecer, Quando você tiver oportunidade de servir. Há uma frase usada pelo Rotary Internacional que diz: “ Mais se beneficia quem melhor serve”. Isto é o espelho do que acabamos de falar. O Lema Rotário: “ Dar de si sem pensar em si”, Mostra muito bem o exercício da bondade desinteressada. Complementa São Francisco de Assis dizendo: “ É dando que se recebe”. Vejam, portanto, que a Gratidão, É o reconhecimento por aquilo que fazes desinteressadamente. Gratidão é isto! ... Gratidão é virtude, que precisa ser cultivada! *** AlcioneAlcântara Gonçalves
  • 23. 30 ODE A BOTUCATU Em Botucatu, pela segunda vez, Os médicos Escritores vieram se reunir, Na décima segunda Jornada Médico-Literária, Da Sobrames de São Paulo. Botucatu significa: bons ares, bom clima, Ou bom vento; de origem Tupi-Guarani, Ybitu-Katu indica terra em ponta, montanha, Vento bom, saudável e clima agradável. Frei Fidélis Maria de Primiero, Frade Capuchinho, Afirmava: Botucatu em Sumério significa: “Templo da Serpente entre as Pedras”, E as Tres Pedras: o Gigante deitado, Era antigo Templo de Adoração à Satã. Região Mística e lendária é Botucatu, Rota de passagem para os Incas, Conhecido como caminho do Peabiru, Lugar de Rituais e Retiros Espirituais. O Saci: Lenda Clássica do Folclore brasileiro, Em Botucatu encontrou o seu Lar; Sede Da Associação Nacional de Criadores de Saci, E conhecida como: Capital Nacional do Saci. Para valorizar mais o folclore nacional, O “Dia do Saci” foi criado, Em caráter nacional, no ano 2005, E “31 de outubro” lhe foi consagrado. O Saci-Pererê surgiu no sul do país, Como menino indígena, com rabo e travesso; Transformou-se num negrinho, no norte do país, Com uma perna, cachimbo e gorro vermelho. AlcioneAlcântara Gonçalves
  • 24. 31 Seu comportamento divertido, brincalhão e profundo conhecedor Das ervas: medicamentos da Floresta que é o controlador. Retratado brilhantemente por Lobato em dois livros Da literatura infantil e Histórias em Quadrinhos, Saltou para a televisão, espalhando-se pelo Brasil. Fato curioso em Botucatu, é a passagem por aqui, Do maior manancial de água doce subterrânea do mundo, Estendendo-se pelo Brasil, Uruguai, Paraguai e Argentina, Este gigantesco reservatório: O Aquífero Guarani; Protegido na sua superfície pela Rocha Sedimentar, O Arenito Botucatu, onde aflora, serve para sua água o recarregar. Na educação, Botucatu se destaca no ensino superior, Com excelente Faculdade de Medicina da UNESP; Do Instituto de Biociências; Veterinária; Zootecnia e Agronomia; Com ênfase também, no ensino tecnológico, pela FATEC. Botucatu da lenda do Saci, Tu és servida pelo Aquífero Guarani, E pelo caminho do Peabiru Passagem dos incas do Peru Oh! Cidade dos bons ares, Tu tens um gigante deitado, Símbolo místico da tua proteção, Contra Satã e seu Templo de Adoração. *** AlcioneAlcântara Gonçalves
  • 25. 32 A VINGANÇA DOS INOCENTES Ali, na porta da quitanda, dois frondosos pés de azeitona preta faziam a amenidade de uma sombra ventilada, que acolhia toscos bancos feitos com um tronco fino, de madeira ordinária, enganchado por suas extremidades, sobre duas forquilhas fincadas no chão. Rodeavam as azeitoneiras gêmeas e estavam sempre ocupados por vizinhos que convergiam para trocas sociais. Acontecia tudo, sabia-se tudo, planejava-se tudo. Era o passado, o presente e o futuro daquele povo periférico. Era o ponto luminoso na escuridão material daquele povoado perdido no meio do mundo dos matagais, onde o lombo das montarias ainda era a condução obrigatória. Havia promessa de estrada vicinal que era o mote de todo candidato que dali queria votos, mas os igapós das invernadas tornavam essa ligação com a sede muito difícil. Martinha fazia poeira varrendo o terreiro com um cacho seco de juçara e espantava as galinhas que comiam o catarro despregado da bronquite dos fumadores de cigarro de maço ou dos charutos intoleráveis. Na lucidez da manhã as palavras eram escassas e comedidas, contando um caso, quase sempre sobre roça invadida por porco ou gado, moça solteira, assombração ou homem traído pela mulher. Mais tarde quando a cachaça escorria pela língua e cortava a censura da consciência, corria solto um palavreado chulo, dissensões de ideias e cobranças de atos e ocorrências. Mas, tudo terminava sempre ali mesmo. Se tinha alguma alteração, Dona Silvéria, que era a dona da quitanda, falava grosso e punha tudo de novo no caminho do entendimento. Só que uma vez não conseguiu controlar dois brigões que terminaram no Posto de Saúde, riscados de faca. — Ela foi na Vila e vai demorar. Martinha respondia para Joca Pé de Galho que veio decretado para falar com a comerciante. — Mas hoje? Domingo? — É seu Joca, Veveca foi ver o filho que se furou num espinho de tucum e não pode nem encostar o pé no chão. O Doutor de lá fez de tudo pra tirar o espinho mas não conseguiu . Deixou um buraco na sola do pé dele. Ela me deixou tomando conta da quitanda, mas eu não gosto porque eu não sei fazer conta assim direitinho. As vezes sai tudo errado e dou troco demais. Ela briga comigo com toda razão. Gosto de estar é lá na cozinha que é onde eu sei fazer de tudo. Desolação marcou aquele rosto já marcado por tantas dificuldades que, como campônio, vivia delas. Saiu de casa logo cedo para ultimar com D. Silvéria o negócio de uns porcos que queria vender-lhe para com o dinheiro preparar um pedaço de terra para plantar a sua roça, pois já estava atrasado. Já estavam aparecendo nuvens pesadas e já tinha dado uns chuviscos. Pé de Galho com o dedo indicador da mão direita apontando para o céu empurrou a aba do chapéu pra cima, franziu o cenho na claridade do meio dia e decidiu esperar. — Me dá uma cachaça aí! Arquimedes Viegas Vale São Luiz - MA
  • 26. 33 Do jeito que jogou a cachaça na garganta parecia que estava lavando suas contrariedades. Entrou no papo coletivo falando baixo com a sensação de fracasso. Vivia de roça. Mulher, filhos, mãe, tudo comia no calo das suas mãos. Já estava atrasado! Bateu forte com o fundo do copo no balcão e pediu: — Me dá outra! — Mais outra! A ameaça de falhar lhe assustava e nesses momentos procurava refúgio na cachaça que o tirava da seriedade das responsabilidades. Considerava-se injustiçado pois mesmo com seus defeitos nunca deixara a família em falta. — Mais uma! Seu Joca, o senhor já bebeu muito e ainda vai esperar um bocado. O senhor não quer comer um sarrabulho, que sobrou de ontem? Forrou-se de sarrabulho vencido, com farinha seca. Estava até na tampa de comida e de bebida e nada de Dona Silvéria. — Lá vem sua mulher! Escutou ainda no cochilo, recostado no tronco da azeitoneira. — Valha-me Deus! Tatinha vai me esganar. Ajeitou-se , limpou a boca, abotoou a camisa, e encomendou um sorriso logo que percebeu o seu humor desagradável. — Tatinha do meu coração estou só esperando a comadre para ir pra casa. A mulher, com a ira em borbotões tirava os adjetivos de todos os malandros, infiéis, estelionatário, ladrões, assassinos, traficantes, psicopatas, e tudo que ela se lembrou, jogou sobre ele num discurso lança-chamas que o queimou por uns dez minutos. Enquanto ele se contraia para tornar-se surdo, veio-lhe a repulsa na forma de náuseas. cólicas e vômitos. Ali mesmo, na frondosidade sombria daquele terreiro, lançou um jato de sarrabulho mastigado misturado na farinha seca inchada, embalado pelo azedume das secreções estomacais, seguido de um repugnante bolo de lombrigas, que desorientadas, faziam uma dança nojenta naquele palco de terra. Tatinha reforçou a sua munição dialética, destacando a vergonha diante daquele insólito espetáculo. Para municiar-se de argumento em futuras contendas maritais pegou um graveto e começou a contar as lombrigas: — Meu Deus, esse homem me mata de vergonha! Uma, duas, três,.......... nove.......... treze......... quinze! Quinze lombrigas! Que criação sebosa para quem só quer ser o que não marca na folhinha. Enquanto Tatinha remexia o bolo de lombrigas com o graveto começou a sentir nojo que se manifestou em engulhos e por fim em um vômito franco de pouco conteúdo alimentar mas também com um respeitável bolo de lombrigas. Joca Pé de Galho, até então cabisbaixo pelo massacre em curso, levantou-se meio cambaleante, pega o mesmo graveto e começa a contagem: — Um, dois, três, ........nove,........treze,.........quinze,.........dezenove.........vinte e cinco.... *** Arquimedes Viegas Vale
  • 27. 34 Arquimedes Viegas Vale EU E VOCÊ Eu sou feliz a ponto de ser tão feliz. Tudo o que eu vejo está sorrindo. Tudo o que eu ouço está cantando. Tudo o que eu toco está vibrando. Tudo o que eu abraço aconchega-se. Tudo o que eu beijo são teus lábios. Tudo o que eu amo meu coração decide: Você. ***
  • 28. 35 COMPANHIA Sigo minha vida bem acompanhado Às vezes tento trocar, saio, me revolto Procuro outro alguém, um outro lado, Mas sempre muito me arrependo e volto. Ela é assim, em nada me atormenta, Fica ao meu lado silente e quieta; Monotonia ninguém quer nem aguenta. Mas o que fazer se não há mais meta? Ela sempre inspira o pensamento, Agonia que estimula meu coração; Tão forte que repito todo momento: Não vivo senti, minha amada solidão. *** Carlos Augusto Ferreira Galvão São Paulo - SP
  • 29. 36 Carlos Augusto Ferreira Galvão MOMENTO DELICADO O Brasil enfrenta, talvez, o mais delicado momento de sua história. Há pelo menos três décadas, o povo brasileiro vem demonstrando insatisfação, enchendo ruas, derrubando ditaduras, derrubando presidentes, mas de maneira comportada, sempre dirigido por partidos políticos e grupos sociais distintos: igrejas, sindicatos e por aí. Acontece, que de uma forma irritante, embora tenha aprendido a gritar nas ruas, a nação não consegue sentir progressos naquilo que a ONU chama de Índice de Desenvolvimento Humano, em escala suficiente para ser notado. Em todos estes movimentos, os líderes que assumiam o poder, decepcionavam o cidadão; logo praticavam exatamente o que propunham combater. Foi uma constante. Após as “Diretas Já”, o governo, então “democrático”, decepcionou bastante e levou o país ao caos financeiro com hiperinflação e estagnação econômica, então surgiu um salvador, o primeiro presidente eleito após a ditadura militar. Collor de Mello, um político jovem e desconhecido, apresentava-se como caçador de marajás (termo na moda da época, que designava funcionários públicos com altíssimos salários) e prometia combater a corrupção e a inflação; não conseguiu coisa alguma. Dois anos depois, manipulado por vários partidos, e no bojo de uma profunda briga familiar presidencial, o povo apontou a porta da rua para ele e, vencendo o poder, o pôs para fora. O novo governo teve o mérito de extinguir a inflação, mas não se moveu (pelo menos na percepção do povo) em direção a melhorias na saúde, na educação; surfando na esteira do combate a inflação conseguiu se manter durante oito anos, mas no final, os cidadãos não percebendo as melhoras prometidas e ouvindo insistentes rumores de corrupção, mandou-o embora , dessa vez pelas urnas, elegendo o Partido dos Trabalhadores. O PT, o único partido criado “de baixo para cima” durante a agonia final da ditadura, tinha a fama de honestíssimo, popular, e apresentou para o jogo político um homem do povo; um humilde operário. Este governo pegou o Brasil estabilizado economicamente, sem dúvida que procurou diminuir a miséria com amplos problemas sociais, beneficiando muitas famílias e trazendo-as para a linha de consumo. Desde cedo porém, viu-se que os antigos humildes dirigentes tornaram-se milionários, pipocaram denuncias de corrupção, e um deputado que também fazia parte do esquema,denunciou à nação um sistema político no congresso em que o governo comprava apoio dos parlamentares com dinheiro público e privado, conseguindo assim uma coalizão de partidos dispares e antagônicos, mas se engrandecia sua bancada parlamentar, apequenava tanto os partidos quanto o próprio parlamento.. Mas por ineficiência política da oposição e anestesia da nação promovida pelos inúmeros programas sociais, este partido consegue segurar-se até hoje no poder, mas o cenário político vem mudando rapidamente nos últimos dois anos. Esgarçaram demais a paciência da população e, com uma insignificante gota d’água promovido pelo governo estadual de São Paulo (agredir um pequeno grupo de pessoas que clamava por transportes mais baratos) a coisa explodiu. O povo foi em massa para as ruas numa intensidade nunca dantes vista. Parece que o PT foi a última dose de decepção que o povo brasileiro aturou. O povo nas ruas, e sem nenhuma liderança política ou partido que tivesse coordenado tal fenômeno. Entrou em cena na política brasileira as redes sociais, onde a população se autoconvocou de maneira maciça. O povo foi para as ruas sem nenhuma organização, mas portando em seus cartazes exigências profundas, pertinentes e altamente perturbadoras para o poder. Há uma diferença dos eventos similares: não há bandeiras de partidos, e os que tentaram tirar uma “casquinha” das manifestações foram vigorosamente expulsos dela, demonstrando-se assim o vácuo existente entre a vida política nacional e o povo brasileiro, que já não se sentia representado pelos políticos. O movimento pegou de surpresa o PT, partido que se julgava dono das ruas e de manifestações de massas, e viu que perdeu este domínio ao se acostumar em viver em palácios que ainda
  • 30. 37 Carlos Augusto Ferreira Galvão exalam odores odiados pelo povo. O que se vê são autoridades atônitas e temerosas, porque, diferentemente de outrora, não há clima de paz e amor nas ruas e sim paz e raiva. A reação do governo não tardou. A presidente veio à televisão, disparou promessas requentadas, e pouco acrescentou além das promessas de acabar com a baderna ( que minorias praticavam, solidarizou-se com os movimentos... Falou quase nada, mas nada tinha mesmo a falar. A militância deste partido, com a insuficiência psíquica que lhe é peculiar, e irritadíssima pela saia justa que passou quando foi expulsa das ruas, tratou de procurar quem estava por trás do “golpe de direita” numa visão arcaica e extemporânea nunca abandonada pela turma da mente curta. Então acusaram a Rede Globo, a revista Veja, jornais, coincidentemente os que mais revelaram falcatruas petistas. Um ministro chegou até a dizer que a culpa da convulsão social é da imprensa por ser “moralista” demais, mostrando que alguns tentam fazer a nação conformar-se com imoralidades. O governo, sob pressão, tratou de anunciar o desmonte de vários projetos desde os feitos para perpetuarem-se no poder até à irresponsabilidade de projetos de leis visando proibir investigações na cúpula da república; logo logo veremos também o abandono dos corruptos que, condenados, estão ameaçando a nação, junto com o governo, de desmoralizar a já nossa pouca acreditada justiça. O povo brasileiro jogou a primeira carta; que o estado “pise em ovos” porque o jogo é muito delicado. Sem partido, dizem todos, o país cairá na anarquia e gerará nova ditadura. O termo é este. Aos beócios recomendo prestarem muita atenção no momento político e parem de ver o Brasil e o mundo como no tempo da guerra fria. Se houver outra ditadura, enganam-se os que acham que será ditadura de direita, de generais. O mundo, neste aspecto, depois da guerra fria, involuiu de novo para a equação povo/governo, sem ideologias. Se houver outra revolução, o povo não vai querer ditadura de generais; já experimentou e não gostou. Não há líderes, mas eles podem surgir sim. Procuremos na história da humanidade como se saíram as revoluções humanas antes da guerra fria, vejamos a revolução do México e nos acautelemos... Lá quem venceu a revolução, foram quadrilhas de malfeitores. Aqui temos quadrilhas organizadas que o estado não dá conta de desarticular (CV no Rio e PCC em São Paulo, como exemplos); o surgimento de um Zapata ou de um Pancho Vila nestas organizações poderia nos jogar no mais sinistro dos pesadelos. Que o estado procure crescer em decência e dignidade e se adaptar ao povo brasileiro que é muito maior que ele, e abandone a visão rasteira de querer que este gigantesco povo se adapte a um estado doente desde sua criação há 500 anos. ***
  • 31. 38 SOLIDÃO Vida solitária, inundada por lembranças do passado. Depressão. Quem sabe devesse se casar novamente... Celeste, a esposa, morrera jovem. Em seu lugar, apenas um enorme vazio. Não haviam tido filhos e não fosse a velha empregada que permanecera na casa, Afrânio estaria completamente só. Nenhum vizinho ou amigo, sequer um animal de estimação... Naquela noite, foi impelido a se arrumar um pouco. Vestiu o terno mofado pelo tempo de guardado, escolheu uma entre as poucas gravatas, retirou o chapéu de massa da caixa e se encaminhou até o pequeno espelho do banheiro. Penteou-se, perfumou o rosto e o pescoço com colônia de aroma já despedido, ajeitou o chapéu na cabeça e saiu. A empregada estranhou que o patrão partisse sem jantar. “Deixa pra lá... Coisa de velho! Mais tarde, ele come...” – pensou. Era discreta. Não se intrometia na vida de patrão. Na rua, Afrânio olhou para o céu e viu a lua muito redonda, brilhante. Pensando bem, há tanto tempo não olhava para outra direção. Nem para dentro de si mesmo... Encantou-se com a esplendorosa lua parecendo solta no espaço. Sentiu-se seduzido pelo brilho e a liberdade. Tentou aproximar-se dela e caminhou em sua direção, desatento ao resto do mundo. Por mais que tentasse, a distância entre os dois parecia não mudar. Mas ele insistia, insistia... Subiu ruas, desceu ladeiras, atravessou montanhas e rios. Interrompeu sua busca apenas no dia seguinte quando a lua desapareceu. Mas já se apaixonara e ali permaneceu até a noite quando ela voltou para brincar com ele. Brincaram tanto que ele, cansado, virou estrela... *** Celina Corte Pinheiro de Sousa Fortaleza - CE
  • 32. 39 Celina Corte Pinheiro de Sousa RENASCIMENTO Cansada por dentro e por fora. A alma padecia de uma terrível solidão e o corpo revelava seu desconforto diante da vida. Olhar opaco, unhas quebradiças, sem viço, passos pesados, ombros arreados para frente. Vida em branco e preto, sem sonho, nem fantasia. Real demais para satisfazer. Sob a percepção dos demais, considerada uma pessoa de sucesso. Mas não se sentia assim, face à agrura íntima que a devorava. Pregado na face, um eterno sorriso, embora o olhar fugidio denunciasse o que ela não verbalizava. Em seu espírito, habitava uma vontade de acabar com tudo de vez. Há anos acompanhava o companheiro em sua saga. Paralisado, não deixava o leito e não via o sol nascer todas as manhãs, pois o paredão de um prédio, construído ao lado da casa, impedia até a visão do céu. Mas tanto fazia, pois ele se ausentara do mundo há bastante tempo. A tez alva e fina se assemelhava a um papel de seda enrugado pelas mãos. Um molambo humano, sem graça, sem ternura. Apenas um vivente. “Meu Deus, por que a vida não o leva à morte?” – pensava e se arrependia. Não queria ter remorso quando ele morresse. Mas, sinceramente desejava ver o sofrimento de ambos chegar ao fim. Sentiria falta daquela presença após tantos anos de convívio. Quase quarenta... Quase uma vida! Mas não suportava mais a ausência de compartilhamento. O amor se perdera. Em seu lugar, a compaixão... Às vezes, nem isso! A raiva, a desesperança e a frustração tomavam conta dela e a afogavam. Ele não percebeu. Impossível! Mas os amigos perceberam que o sorriso de sempre mudara. Agora, Artemísia parecia sorrir de verdade. Não era mais uma máscara de cera. O olhar se tornara menos enrijecido. Além do sorriso diferente, brincadeiras com o cachorro, coisa que não fazia há muito tempo. O animal se sentia igualmente depressivo, pois era apenas mais um elemento dentro da casa tão desiluminada. Artemísia teve a impressão de que quando se olhava no espelho, ele sorria para ela. Sentia-se bonita, atraente e o espelho concordava. A vida sempre solicitara dela um dispêndio de energia muito grande e o tempo se encarregara do resto. Mente brilhante, capaz de comandar o império construído pela família, secara por dentro de si. Os filhos não conseguiam vê-la frágil, pois ela mantinha seu jeito forte mesmo nas situações em que suas emoções eram mais exigidas. Mas, dentro de si, desmoronara pouco a pouco, sem que percebessem... Seu renascimento se dera de uma maneira estranha, meio por acaso. Por força de sua profissão, tivera contatos com ele através da internet. Uma única vez por telefone. Nem se recordava da voz... A princípio, contatos nada agradáveis. Melhor defini-los como hostis, mas ela, habituada a lidar com diferentes humores, conseguira contornar tão bem a situação que ele se tornara menos agressivo, demonstrando progressiva admiração e simpatia por Artemísia. Ela, por sua vez, apreciou os galanteios que ele lhe fazia através da internet. Sentiu-se desejada fêmea no cio. Trocaram fotos e mensagens, restauradoras de um desejo incontido, que seu corpo pensara já ter esquecido. Tudo aquilo superava o corriqueiro e mexia com ela. Uma nova energia percorria seu corpo provocando uma excitação inaudita. Voltou à sua juventude, quando sentia aquela pulsação agradável e inconfessável... Ele também sentia os arroubos de uma paixão desenfreada e virtual. Homem maduro, experiente, delineava o imaginário através das fotos virtuais trocadas entre si... Dirigia palavras meigas e doces à Artemísia que, se as ouvira algum dia, há muito esquecera. Ela leu diversas vezes a mensagem em que ele confessava sua paixão: “Você me encanta, me inebria, agita minha mente e me dá forças para continuar a viver...”. Sentiu um leve arrepio. Sorriu sensual. Amaram-se profundamente. E sem qualquer culpa! Eram ambos profundamente solitários e sonhavam com o dia do encontro. Trocaram beijos e mais beijos na rigidez da tela. Amaram- se e repetiram orgasmos imaginários nunca pensados. O amor mais bonito de toda uma vida. Estendiam as mãos e, na virtualidade, chegavam a sentir o toque na pele, um do outro. Um maravilhoso jogo de faz de conta que valia à pena... Até que um dia... Até que um dia, ambos mergulharam na rede e sonharam o sonho mais lindo, em outra dimensão... ***
  • 33. 40 A MEDICINA E A EDUCAÇÃO Na antiguidade, a lenda trata de Apolo que se apaixonou, doentio, por Dafne e era conhecido como deus da medicina e das plantas medicinais. No entanto Dafne, cautelosa, não desejava se entregar de chofre ao impetuoso perseguidor e apela ofegante ao seu pai. Dessa maneira um torpor envolveu seu corpo e de imediato ganha uma delicada casca, seus cabelos transformam-se em folhas, os braços em galhos e os pés cravam-se no chão como raízes. Apolo abraçou e beijou os ramos da árvore, mas estes afastaram os seus lábios.O poeta assim se referiu: “O sofrimento a música alenta. Os priscos sábios adoravam, assim, A medicina, o canto e a melodia.” No entanto Platão e Aristóteles propuseram uma educação sistemática e gradual às crianças desde o início do nascimento, inclusive com amas de leite para que pudessem desenvolver num hedonismo peculiar, ginástica dentro de um ginásio apropriado aos ginastas infantis com gineceu e androceu. Outras atividades como a música, literatura, equitação etc. seriam gradualmente ensinadas e implantadas em seu benefício até a juventude. O melhor exemplo são Atenas e os espartanos; Leônidas e a batalha de Termópilas e o discípulo Alexandre Magno, de Aristóteles que discorreu sobre os regimes políticos e a vera democracia floriu e se consolidou. A educação flutuou ora denigrida pelos bárbaros ora pela falta de formação moral nas cidades. A medicina hipocrática enlevou e enobreceu digna carreira que se consolidou nas nações. As escolas médicas se expandiram e se espalharam pelos países europeus a partir do ano mil de nossa era. Anterior a elas, a de Alexandria era a mais respeitada e venerada. No Brasil a pioneira foi a da Bahia, seguida pelo Rio de Janeiro e, assim sucessivamente até as atuais existentes no nosso amável solo. Portanto o número de formandos anuais seria ou é suficiente para atender de modo adequado e ético profissional a toda população presente. No entanto citarei a fim de esclarecer que nossa imprópria distribuição de médico pelo nosso extenso e belo país recai ou repousa na falta de educação e saneamento básico, mínimos desejáveis às cidades de uma nação. J.J. Rousseau em o Emilio ou da Educação sugeriu de maneira inteligente e perspicaz que o aluno, o professor e a natureza constituem a tríade indissolúvel do aprendizado, a saber: o professor interage com o aluno no ensino e no seio da natureza de tal sorte que o reino animal e o vegetal sejam, dignamente, cultuados e estudados. Desse modo o aluno se diferencia na percepção cognitiva enquanto o professor se aprimora e se aprofunda em sua formação. A educação diferencia uma nação visto que o povo saberá escolher e saberá separar o joio do trigo. Evanil Pires de Campos Botucatu - SP
  • 34. 41 Como consequência a grande maioria optaria pelas atividades primitivas ou as diversas técnicas ou tecnologia sem se preocupar com a universidade a exemplo do que ocorre atualmente nas nações desenvolvidas. Algumas delas abrem ou oferecem a entrada nas cadeiras básicas a quem desejar, no entanto de mil alunos que ingressam restam, apenas 70 a 90 deles nas de aplicação. Outras selecionam, criteriosamente. Claro que a medicina é uma carreira eletiva e, naturalmente seletiva. Logo, não se criam escolas a bel prazer, inclusive os países europeus reduziram-nas. Restam atualmente apenas as melhores. Deve-se querer e amar toda nobre atividade humana desde as rurais, toda a extensa gama das profissionalizantes e inclusive a carreira universitária. No entanto, a distorção visual dos chefes das nações, em desenvolvimento ou não desenvolvidas visa e, vislumbram sonhos, devaneios inerentes a um débil oportunista ou talvez perniciosa visão. Só a educação privilegia, enobrece e engrandece uma nação. Graças a ela o mal definha ou muito reduz; os governos se qualificam para e pela nação, pois o povo aprendeu a selecionar e escolher; o saneamento básico será primoroso, inclusive com a produção nutriente à espécie humana. As prisões tendem a se esvaziar enquanto a escola enraizada se expande, se dignifica visto que ensina, cultua, ao enobrecer o ser humano nas espécies existentes na natureza. *** Evanil Pires de Campos
  • 35. 42 ESPERANÇA “E agora José, a festa acabou...” Dizia Carlos Drummond de Andrade em seu poema. Céu cinzento, fumarento, cerúleo, águas penduradas no firmamento, prenúncio de tempestade. Terras do norte de Minas e do Brasil, natureza pródiga, clima quente e de muita chuva em solo fértil, calcário, onde se escuta o capim crescer, comida farta, reses multiplicando e engordando, abarrotando frigoríficos e exportando produtos de excelência. Foi assim durante décadas, propalada prosperidade correu Brasil afora, homens em busca de fortuna, chegaram aos montes à região, terras ainda baratas. Solo e subsolo de riquezas minerais, em abundância. Homens espoliando o Éden. A avareza, um dos pecados do “capital”, riqueza rápida sem agradecer a terra e aos trabalhadores, sugando do solo a seiva, matando árvores, vidas, exploração sem ética. De terras prósperas, promissoras formando um bioma rico, o que vemos: só desolação. Quase tudo em derrocada... Briga do homem com Deus. A natureza chora convulsivamente... Homem animal, homem Deus... Homem físico, homem metafísico, como conviver? Nesta luta entre o lobo e o cordeiro. Qual ganhará mais recompensa? Eis o desafio, eis a opção. Escolham. Penso, nem tudo estará perdido, pois tenho a esperança do homem fazer as pazes com seu Criador... *** Helena Natalícia Rocha de Alvarenga Belo Horizonte - MG
  • 36. 43 CIRANDA DA VIDA Lembram-se das cantigas de ninar e dos meus cochilos no chão, ao lado do berço, tentando fazê-los dormir? Das roupinhas dos super-heróis ou dos vestidos típicos das nações que a mamãe carinhosamente vestia-os? Das mamadeiras e das musiquinhas feitas sob medida que cantávamos para que pudéssemos chantageá-los a comer, como a do marinheiro Popey? Das noites que passávamos em claro quando a doença vinha ou de nossa ansiedade quando estavam internados nos hospitais se preparando para cirurgias? Recordam-se dos primeiros passos... das primeiras palavras... dos primeiros dias na escola... dos primeiros professores e amiguinhos... da catequese... da primeira eucaristia... da crisma...? Lembram-se quando brincávamos fazendo castelos de areia ou jogávamos futebol? Enriquinho “supregente” faça uma careta de bravo! E você sempre fazia; dificilmente explicável com palavras, mas jamais esquecível na lembrança. Onde está o “Brunichelo papá”? E você, que era um toquinho de gente, uma “batatinha voadora”, vinha sorrateiramente me abraçar nos joelhos, como se eu não soubesse onde estava escondido.E a “madame Jô” dos laçarotes?! Sempre impecavelmente enfeitada pela mamãe. Onde estão nossos anjinhos que vieram do céu que por muito tempo quiseram dividir nossa cama por terem medo da escuridão da noite? Lembram-se da musiquinha!?: “Vou-lhe contar um segredo papai... sou ‘crioncinha’ também... sou ‘crioncinha’ também... “. E do grito de guerra!?: “auah! auah! auah”!? Recordam-se que choravam e disputavam o colo durante o tempo todo que participávamos das missas? E dos xixis que extravasavam as fraldas e molhavam nossas roupas? E dos banhos na banheira... juntos no chuveiro... das fraldas trocadas... das mamadeiras carinhosamente preparadas... !? Lembram-se quando eu tinha energia para erguer vocês três juntos!? Quando medíamos força em cima da cama!? Quando saíam correndo para atender ao telefone!? Recordam-se das nossas orações ao Papai do Céu quando viajávamos... quando deitávamos... quando fazíamos as refeições... quando íamos para a escola ou em algum momento especial!? Lembram-se das manhãs de domingo quando íamos junto aos hospitais... !? Enquanto eu visitava os pacientes, vocês assistiam desenhos animados no conforto médico... Recordam-se dos cachorros que tivemos!?: Task, Taba, Babucha, Tobi, Catita, Budge, dentre outros. Eles fizeram de certa forma parte de nossa família e acompanharam os seus crescimentos, instruindo-os a respeitarem os animais e a natureza. Lembram-se por ocasião do Advento, quando rezávamos em família, contritos, em frente do Presépio montado na lareira, e em seguida, vocês depositavam as cartinhas para o Papai Noel!? Foram tantos e tão diversos os momentos felizes que tivemos juntos, que escapam em plenitude da nossa memória. Entretanto, tornam-se inapagáveis pelo saldo positivo que fizeram em nossas vidas. *** Era tudo como se fosse um sonho que jamais iria terminar. Mas veio subitamente o momento mágico e trágico da adolescência, onde em poucos anos deixaram de ser crianças para se tornarem adultos e, para nossa tristeza, passaram de dependentes para senhores do mundo, conquistando braçalmente a alforria filial. Essa é inexoravelmente a lei da vida. Entretanto, nessa etapa talvez seja mais fácil lembrarem-se dos amigos... dos acampamentos... das viagens que fazíamos juntos... das nossas preocupações com relação às Helio Begliomini São Paulo - SP
  • 37. 44 drogas e das más companhias... do nosso estímulo e torcida pelos esportes que faziam... dos estágios e intercâmbios no exterior... da nossa partilha, não somente pelos insucessos dos vestibulares, mas também pelo ingresso nas universidades... ou dos estágios e empregos conseguidos! Inapagável na lembrança foi a primeira vez que estivemos na paradisíaca cidade de Bariloche. Lá, particularmente no Cerro Otto, nos jogávamos no chão e atirávamos bolas de neve uns nos outros, todos com euforia e irradiante candura infantil! A adolescência foi um momento em que tivemos plena consciência de que eram seres diferentes e com vida própria. Cada vez mais ausentes fisicamente e, paradoxalmente mais presentes em nossos pensamentos e orações. As suas independências se consolidaram e, com ela, experimentamos diversos matizes dos dissabores da rebeldia e do desrespeito, contrariamente à educação fornecida. Achávamos que éramos os mesmos no intelecto e no físico, mas nos decepcionávamos quando não conseguíamos mais competir de igual para igual num jogo de futebol... na subida de uma escada... na compreensão de um pensamento... na agilidade e na vivacidade de um raciocínio. Tivemos a certeza de que tudo começou a acontecer quando começamos a ser chamados educadamente de “tios”, “velhos” ou “coroas”. As rugas emolduradas pelos cabelos grisalhos e os achaques que sofremos depunham contra nós. Paradoxalmente, na nossa juventude, reclamávamos que nossos pais não queriam dialogar conosco, mas com vocês, queridos filhos, era exatamente o contrário. Apesar do nosso empenho em conversar, quantos e quantos segredos esconderam de nós?! *** Aproxima-se uma nova etapa onde constituirão outras famílias e protagonizarão o milagre da multiplicação da vida. Com certeza, vocês continuarão sendo nossa preocupação, mas devotaremos maior atenção aos seus filhos que serão nossa alavanca e motivação na alcunha carinhosa de terceira idade. Com eles seremos possivelmente mais esbanjadores, não porque quereremos compensar possíveis erros cometidos na educação de vocês, mas porque começamos a perder com os anos, a força para puxar o precioso e imprescindível “freio de mão” que tivemos com vocês. Teremos a sensação da plenitude em decorrência da experiência acumulada pelo rio de existência que passou em nossas vidas. Entretanto, ainda aprenderemos e nos alegraremos muito, pois o mundo não parará como tampouco sumirão nossas decepções e temeridades. *** Mas se Deus permitir (!) haverá outro e derradeiro momento quando vierem os filhos de seus filhos, consolidando assim suas famílias e suas descendências. Quando a trajetória da existência cruzar, lá no horizonte, com as ávidas garras do tempo, seremos os mesmos, porém quase que irreconhecivelmente metamorfoseados pelas intempéries vividas. Nessa ocasião, seremos uma vela consumida que se esforçará, agonizando em manter sua chama acesa. Personificaremos o anacronismo e poderemos ser embalados como crianças, com ternura e afago, assim como fazíamos com vocês. *** Quando o tempo implacavelmente passar... seremos simplesmente um marco histórico lembrado apenas por vocês e seus filhos. Deixaremos de existir, pois a ciranda da vida deverá continuar. Certamente seremos tão somente fotografias descoloridas dentro de álbuns embolorados, constituindo-se lembranças cada vez mais fugazes. A nossa ausência será testemunha de um futuro que engoliu o passado e o fez muito vorazmente. Quando eventualmente se recordarem de nós, rendam graças a Deus, pois fomos um diminutíssimo ponto de partida de onde germinou e multiplicou uma linda história de amor. Com muito carinho... seus “eternos” pais. *** Helio Beglionimi
  • 38. 45 SE NÃO FOSSE A MINHA FÉ! Após dois anos de matérias básicas, estava muito ansioso para o curso voltado à prática da medicina, profissão que me apaixonei desde a minha infância. Dentre elas sobressaía o estudo da semiologia, disciplina que ensina como abordar e examinar os pacientes; inquirir-lhes sobre seus sintomas e detectar sinais que, em conjunto, cooperam para a elaboração de hipóteses diagnósticas de suas doenças. As aulas teóricas e práticas eram ministradas no vetusto hospital-escola São Vicente de Paulo, na região central da cidade de Jundiaí. A ala velha continha enfermarias masculina e feminina que albergavam cada qual cerca de vinte pacientes, dispostos em leitos que ficavam lado a lado, em duas fileiras, uma em frente a outra. As camas antigas eram por vezes mais altas e pouco versáteis. As modificações de seu formato eram obtidas através de alavancas e manivelas que se moviam pela força braçal. Não era incomum observar sob cada leito a presença de comadre ou urinol respectivo a cada paciente. Havia também quartos distribuídos em seus corredores sinuosos que acomodavam duas camas. O pé direito era alto e o piso de madeira preenchido por longas tábuas contíguas de brilho opaco, que rangiam ao se caminhar sobre elas, ruído característico e facilmente perceptível, particularmente no silêncio da noite. As dependências velhas, mas bem conservadas, eram emolduradas com janelas e portas enormes, que acompanhavam a grande altura do teto. Foi nesse ambiente aparentemente tétrico para a época atual, mas repleto de humanismo e de amor que iniciei meu conhecimento prático da milenar arte de curar. Era sequioso por conhecimentos e sempre almejava saber mais do que era ministrado nas aulas regulares, quer teóricas quer práticas. Foram incontáveis as horas extracurriculares que me dediquei nesse hospital acompanhando professores e assistentes; bisbilhotando e auxiliando cirurgias; além de frequentar a rotina do pronto-socorro, apenas com a finalidade singela de aprender mais e mais. São inúmeros e inesquecíveis os momentos que guardo desse período mágico de quatro anos em minha formação acadêmica. Dentre eles recordo-me de um episódio que aconteceu no meu terceiro ano, exatamente durante o curso de semiologia. Corria o ano de 1975. A quantidade de matéria para estudar e absorver era imensa, porém mais prazerosa, pois se correlacionava à parte clínica, ou mais à prática da medicina propriamente dita. Era comum entre os assistentes, avisarem os alunos quando havia algum paciente que apresentava sinais específicos para aprendizado através dos quatro pontos cardeais da semiologia: inspeção, palpação, percussão e ausculta. Havia um verdadeiro cruzamento de informações orais entre os alunos para o devido aprendizado. Ademais, nem sempre nas aulas práticas todos os alunos dos subgrupos didaticamente formados tinham condições de examinar os pacientes apresentados. Daí, não ser incomum que os interessados procurassem fora das aulas, licença e oportunidade para avaliar individualmente os doentes. Foi numa dessas trocas de informações que fiquei sabendo haver uma senhora idosa, alojada num determinado quarto, que apresentava um sinal que deveria ser visto. Procurei-a sozinho, num período que não havia estudantes e que a agitada rotina hospitalar encontrava-se aquietada. Bati mansamente na porta de seu quarto e adentrei-me lentamente no recinto que estava ocupado por apenas um único leito, coisa rara num hospital-escola. Tratava-se de uma senhora sexagenária que aparentava ser bem mais idosa. Tinha cabelos encanecidos e fácies sulcada de rugas. Sua aparência era de uma mulher desgastada não somente pela idade, mas também pelas poucas condições financeiras e pela doença. Ela estava deitada – sozinha – olhando dispersivamente o teto e as paredes do quarto. Havia pouca luz no recinto, mas o ambiente era iluminado pelo seu olhar e serenidade. Chamei-a delicadamente pelo nome – como era nosso costume – e perguntei-lhe se poderia examiná-la. Ela assentiu meneando a cabeça e esboçando um leve sorriso. Durante o exame fui- lhe perguntando sobre sua vida e sua doença, ao que ela respondia-me prontamente com seu Helio Beglionimi
  • 39. 46 linguajar modesto, mas repleto de vivência e sabedoria. Minha presença parecia que amainava um pouco sua triste solidão. Era portadora de uma extensa carcinomatose peritoneal que provocava nódulos endurecidos de diversos tamanhos no abdômen, quadro que jamais observaria ao largo de minhas atividades profissionais com a mesma exuberância de tristes detalhes. Devido ao seu emagrecimento, os nódulos eram mais fáceis de serem apalpados. Em nosso diálogo houve uma pergunta que lhe fiz, cuja resposta veio-me de forma indireta – A senhora não tem dor? Ela, um pouco mais descontraída pela minha presença, arfou levemente os pulmões; olhou-me de soslaio, mas de forma penetrante, e num discreto suspiro confidenciou- me: Ah! Meu filho, se não fosse a minha fé! Sua singela resposta desarmou-me e calou fundo em minha mente, pois constatei que sintetizava uma filosofia de vida, toda pautada na coerência dos que amam e buscam a verdade. Naquela singular tarde tive um dos mais eloquentes aprendizados. Estava à busca de sinais clínicos num corpo doente e frágil e encontrei evidências de uma fé inabalável. Foi procurar informações imediatas e encontrei a transcendência. Minhas mãos examinaram uma enferma com prognóstico sombrio, mas meu intelecto sentiu que a vida não pode ter um fim inexorável impingido pela morte. Fui à procura de um paciente condenado e nele encontrei a presença imarcescível de Deus! *** Helio Beglionimi
  • 40. 47 CAMINHAR PELAS RUAS DE PARIS NO VERÃO Em Paris, alguns anos atrás, não me lembro com certeza da data, só sei que era uma época em que eu vivia a procura de ilusões e era verão; caminhava, imitando um “flâneur” (caminhar por diversão) na companhia de Marília pelo Boulevard Saint-Germain; suas ruas largas e cheias de luminosidade nesta época do ano transformam o caminhar em verdadeiro prazer. Normalmente o turista ao caminhar por Paris define com antecedência a rota a ser seguida; o “flâneur” não se submete a esta orientação, sua caminhada não depende de destino, às vezes, durante esta jornada, resolve parar em um café e fica observando o que ocorre na rua à sua frente. Sabíamos que a Rua L’Odeon deveria estar naquelas imediações, dobramos a esquerda e entramos à procura do local onde existiu, até o inicio da segunda guerra mundial, a livraria “Shakespeare and Company” de propriedade da norte-americana Sylvia Beach. Não tínhamos pressa; o compasso das nossas passadas era ditado pela nossa ociosidade, discutíamos os acontecimentos ocorridos naquela livraria nas décadas de 1930 e 1940, principalmente a presença constante de incontável número de escritores e pintores, tais como Hemingway, James Joyce, Gertrude Stein, Sherwood Anderson, Picasso, e muitos outros; ao passarmos em frente ao número 12, ecoou, vinda da eternidade da existência a voz de Hemingway: “Em um frio vento de rua, este era um lugar quente e alegre com um grande fogão no inverno. Mesas e prateleiras de livros, livros novos na janela, e fotografias na parede de famosos escritores mortos e vivos – Paris, Uma Festa móvel”. A temperatura estava começando a diminuir, pois o sol já se escondera por detrás dos prédios; continuamos nossa caminhada e entramos na rue St. Sulpice e, instintivamente, sentamos a uma mesa colocada na calçada de um “café”; sentimos que estávamos em porto seguro, pois o tempo não conta naquelas paragens, desde que o freguês consuma alguma coisa, às vezes um simples café será o suficiente para se ocupar uma mesa por quantas horas se deseje. Pedimos uma garrafa de champanha! Ficamos durante algum tempo em silêncio observando as pessoas que subiam e desciam a rua, do outro lado da calçada, encostados em uma mureta, um casal de namorados trocavam carícias, davam risadas e, de vez em quando se beijavam, indiferentes ao mundo que continuava, para eles, multicolorido; um pouco mais distante, uma pequena praça toda arborizada , onde coseguimos ver várias senhoras idosas que caminhavam a passos lentos em sua direção, o sino da igreja de St. Sulpice começou a badalar chamando-as para as preces das 18 horas. Um homem magro, alto, portando um chapéu de aba estreita, porém, com a copa muito alta, bigode espesso que tentava entrar nas suas narinas, trajando um terno surrado, porém, bem alinhado, sentou-se a uma mesa bem do nosso lado; tenho “quase que certeza” de que foi ele a figura pintada por Paul Cézanne (Os jogadores de Cartas, 1839-1906) que vi ontem no Louvre; ao Helio Moreira Goiânia - GO
  • 41. 48 retirar o chapéu expôs a calvície que tomava conta de todo o topo da sua cabeça; ao acender o cachimbo, inexplicavelmente de cor branca, não tive mais dúvida, era ele, realmente, o modelo pintado por aquele artista. Colocou sobre a mesa sua pasta “démodé” (fora de moda) modelo James Bond, pediu um café, abriu a dita cuja, retirou um livro e começou a lê-lo; o seu título, que consegui ver de onde estávamos “The Greater Journey – David McCullough” traiu-o, se ainda me restava alguma dúvida quanto àquela minha suspeita, esta se dissipou; provavelmente ele procurava naquela leitura, o seu criador, Cézanne, pois o livro conta algumas curiosidades de Paris e de seus moradores nos anos de 1830-1900. Um vento frio, porém suave, varria com delicadeza, como se fosse a vassoura conduzida pelas mãos suaves e bondosas da minha mãe limpando o terreiro de frente a nossa casa em Gaspar Lopes, as folhas da calçada. Ficamos ali por algum tempo, quanto tempo? Não sei! Porém este detalhe não tem importância dentro da circunstância do momento vivido; quando resolvemos ir embora, o personagem de Cézanne continuava “bebendo” a mesma xícara de café, completamente absorto na leitura do seu livro. Será que ele nos viu? A vida, repetindo Hemingway (Paris é uma Festa) “me tinha parecido tão simples naquela tarde! Mas Paris era uma cidade muito antiga, éramos jovens e nada ali era simples”. Só aquele momento foi simples e não mais se repetirá, pois o minuto que passou não volta mais! *** Hélio Moreira
  • 42. 49 VER NÃO É O MESMO QUE ENXERGAR João Severino, apesar de pouco erado na idade, era bem informado: caboclinha igual à Rita da Donana não havia nas redondezas, dizia ele. Acho que ela sabia disso, era só o sol começar a se esconder, surgia a Rita toda enfeitada, andar delicado e até com certo gingado na cintura, semelhante a uma garça vista de longe. O vestido era de chita, cor rosa, com alguns enfeites na barra da saia, o ombro era encoberto pelo modelo fofo das mangas; sapatos rasos, parecendo que os pés, que não eram mostrados, tocavam o chão; usava, costumeiramente, meias cor de rosa que se aproximavam dos joelhos. Não era somente o João Severino que, ao vê-la, suspirava fundo e se punha a imaginar aquela criatura, aquele corpo, sem as vestimentas; toda a rapaziada do lugar tinha o mesmo pensar. João Severino, no entanto, era diferente do restante da turma, ele sabia, certinho, a hora que ela aparecia na rua, justamente quando os sinos davam as primeiras badaladas para iniciar a contagem de seis, ele já estava sentado no costumeiro banco da pracinha; lugar privilegiado, pois, como ele percebera, ela dobrava a esquina e já entrava na rua principal e passava a poucos metros de distância. Seus olhos a acompanhavam até o final da rua, até que ela entrasse na igreja. Depois de algum tempo ela voltava, na mesma toada como foi; não é fácil saber se era mais admirada na ida ou na volta; vista quando ia, parecia à silhueta de um violão a procura de violeiro, quando vinha, bambeava o quadril de tal maneira que dava parecença que ia deslocar do corpo; dava lembrança, na gostosura, de rapadura com queijo; os braços eram sacudidos no mesmo compasso que ela fazia com a cabeça: sereno, porém, transmissor de pensamentos que nem é bom lembrar! João Severino nunca contou isto para ninguém, porém, é quase certo que ele pensou, muitas vezes, na possibilidade de ver aquele corpo do jeito que Deus colocou no mundo, ou melhor, ele daria uma ajuda ao Criador; tiraria primeiro, seus sapatinhos, e depois suas meias e ia subindo no mesmo galeio (no pensamento) até o pescoço. Que ele se lembre, somente uma vez ele teve certeza que ela jogou seus olhos tiranos para cima dele, porém, de um jeito de quem não “tava pondo atenção”; não faz mal, pensava ele, vou persegui-la com os óios, sem parada, um dia ela vai descobrir que João Severino está ansiado, enrabichado que não tem mais conta, prá móde dela. Mais ou menos na metade do caminho que ela percorria, moravam Da. Zina e Sr. Tiburcio, os dois já bem maduros na idade; como tinham pouca ou coisa alguma para fazerem, passavam a maior parte do tempo debruçados na janela, olhando o movimento, se é que se pode chamar de movimento o que viam na rua e, principalmente, matraqueando a vida dos outros. Como estavam ali todos os dias, não poderia passar despercebido o passeio vespertino da Rita da Donana; era só ela apontar lá em baixo, Da. Zina já se manifestava: — Já vem aquela sirigaita regateira e reboladeira, toda embonecada, acho que ela não tem o que fazer; parece-me que ela coloca algum enchimento prá aumentar o peito; a saia quase deixa de fora o joelho, só prá provocar os bestas dos homes. Senhor Tiburcio, escolado pela vida a dois, não se manifestava, apenas consentia com a cabeça; quando falava, não dizia nem tique nem taque, porém, era o primeiro a cumprimentar a sirigaita quando ela passava debaixo da janela, como a lembrar de seu tempo de treme-treme. Quando ela voltava, Da. Zina recomeçava a colocar defeitos na Rita da Donana, agora “por trás” da pobre coitada: — Seio não, mas acho que ela coloca, também, um enchimento no traseiro, pois, não acredito que alguém tenha a poupança deste tamanho e ainda por cima tão bem aprumada; Hélio Moreira
  • 43. 50 deve arrochar a cintura até perder o fôlego, porque não é possível alguém ter o pé da barriga com tanta estreitura. Prá dizer a verdade, num acredito que o empreito diário dela é rezar! Senhor Tibúrcio, por força das circunstâncias, não falava nada por saber das arengas da Dona Zina, porém, utilizava o poder da mente para conversar consigo mesmo: — Estou meio desguaritado, num sei o que é melhor pros óios: as suas duas mangas rosa, coladas por debaixo da blusa, quando ela vem ou a sua poupança quando ela vai. Não vou desdenhar, mesmo porque, não está na minha condição, mas, se acaso tivesse alguma sobra, acho que daria um adjutório para aumentar o rendimento da sua caderneta; tem outro porém, eu tinha vontade de enxergar e apalpar aquelas mangas, prá ver se já estão maduras. Não vou cair no exagero de querer morder, porque meus fiapos de dentes não tem consistência nem para banana ainda mais para manga rosa, tão grandota e desajeitada prá segurar. *** Hélio Moreira
  • 44. 51 BALADA NO CÉU No crepúsculo sonolento o sol recolheu suas madeixas douradas para, gentilmente, dar lugar à lua que já apontava sorridente. Vaidosa, por ser muito admirada, sentiu-se no direito de usar o luar e pratear o que o sol, antes, havia dourado. Amante da noite, convocou as estrelas para abrilhantar sua trajetória entre as nuvens. Musa, inspiradora dos poetas, apartava com frequência o empurra-empurra das estrelas que ficavam ao seu redor. Já não sabia mais o que fazer para colocar harmonia no espaço celestial. Ficou a pensar numa alternativa, quando ouviu bem distante um galo cantar: cocorocó... Assustada pelo adiantado do tempo e com o pouco que lhe restava para imperar, pensou: “Vou me retirar sozinha, saindo à francesa, estou farta dessa balada! E o sol, também, já está ajeitando suas madeixas douradas para entrar. Tenha um bom dia, sol, vou para o outro lado!” *** BRASIL Terra Cosmopolita Gigante na extensão, Tem sua história escrita Sempre em forma de canção. O índio ao som dos tambores, O negro com seus gemidos, Foram as notas de dores, Nos compassos tão sentidos! Vem para cá o imigrante, Tem seu filho brasileiro, Chora sua terra distante Mas, canta o samba fagueiro! No esplendor das suas florestas Os pássaros se unem cantando A sinfonia das festas, E o coro chegam em bando! As folhagens batem palmas Quando o vento leve aparece E a beleza doce das almas, Agradece a Deus numa Prece! *** Jacyra da Costa Funfas São Paulo - SP
  • 45. 52 INVENTÁRIO SERTANEJO Tenho um coro de gestos Que rasgam os ares da caartinga O aboio que viceja os restos Do mandacaru que ainda vinga Tenho um chão sagrado E muitas pedras ocres do rio Cinco gerações do reinado Que ainda vivem do estio Tenho a beleza da gente De caminhada sofrida Com um punhado de semente Um canto de luz, um fio de vida Por isso nunca estou só Conservo plantas do carrascal Um casaca-de-couro e um curió Que cantam no meu quintal *** José Arlindo Gomes de Sá Recife - PE
  • 46. 53 AMARGO REGRESSO Quem me devolve a goiabeira do meu pião Meu banho no poço do rio, minha candeia Meu pífano de ouro, meu jogo de botão Meu galo de campina, minha bola de meia? Hoje em dia, que é do sol da minha Inhotim? Cansado das mágoas de rotas desatinadas, Que é da luz da vida da caatinga carmesim, Que é da canoa do rio que navega calçadas? Amigo, deixa-me contar-te queixas represadas, O canto turvo, quase esquivo, de sangue e dor. Não queiras saber da face magra, alma-danada, Não perguntes pelo fel e o fado de negro estertor. Atravessei a serra verde para rever a branca flor Puxando soluços que o mundo abrasado vai se acabar, O vento norte levando a estrada de amado cultor, Sonhos devastados pelo enigma de cor e de luar. Ainda ontem inquiri seixos miudos do meu andar Como a gente do rio me ensinou o canto melhor, Por entre gestos vestidos de lendas do verdear Limpando a vida do chão de sangue e suor. Quem me devolve a terra de favos castiços, Aquela vida ao léu , sem hora, nunca esquecida, Uma concha de néctar do rio, os rebuliços, O que falha a memória, o estar, a despedida? Antes que a terra dos mares me desfolha a vida Deixo que cante o céu da estrela e da água sonora. A quem me queixarei, ó céus, dessa alma-perdida, Se o rio seco da cantoria leva meu silencio agora? Além das serestas e assustados das musas da aurora Deixo que escorra das mãos o pó da ventania. A quem me queixarei, ó musas, da minha flora, Que povoa o crepúsculo, encanto do fim do dia? Quem me devolve neste regresso o meu pião, Minha carrapateira colorida, minha candeia, Meu violão afinado, meu jogo de botão, Meu canário da terra, minha bola de meia? *** José Arlindo Gomes de Sá
  • 47. 54 PERLA FINA Brama. As carnes fremem. O esqueleto clama. Gládio de amor urde véus de volúpia. Rubra trama. Quero perpetrar-me neste desmame, doce ama, nesta empiria que de tudo, a verve ruge e flama. Meu soluço ardente a moira crica arranha. Bruma um langor sob a fímbria de Vênus... Acenos. Encordoam um naco flexível, Retonho, úmido, e nervoso. Chinchado, volve ao luau dos sonhos, amainado. Perla fina, eu te amo. É chama que chama, Não sei onde começo, onde terminas... Se escuto ou se falo, Falo... entre o regalo de teus seios, entre abraços que prendem o vento no entre-pelos, e aulidos que afloram a nudeza do silêncio. A noite desmaia a raiva dos músculos, o enigma da paixão aflora, mas abranda, e se ainda te amo? E se tanto? Encanto..., no sangue da madrugada, deitei o olhar, lançei desejos e fiz juras que muito aprecio... teu encaixe e tua redoma Fremente. Os primeiros raios da manhã sempre escondem os vampiros! Não, não sou, mas fui... *** José Carlos Serufo Belo Horizonte - MG
  • 48. 55 POR QUÊ... Esta não é uma manifestação político-eleitoreira ou um texto fóbico, é um Voto... Porque a distribuição de dinheiro via bolsas, não é de renda, nem sequer é garantia de comida e não traz dignidade, mas aprofunda o “jeca-tatu” do pouco favorecido. Voto. Porque enquanto o povo recebe 300 para se calar, os “Régios Saltimbancos” embolsam milhões. O enriquecer da canalha... Porque quando alguém recebe sem trabalhar, alguém está trabalhando e sendo expropriado para esse custeio. Outra coisa é a melhor distribuição da renda do trabalho, entre os trabalhadores. Dissimulação. Porque, a cada dia, o trabalhador produtivo sente a mão dos impostos com mais dedos em seus bolsos e os políticos decidindo quanto devem ganhar/ dividir o extorquido do tido poviléu adormecido. O quarto, ex-quinto, já caminhando para terço... Porque a infra-estrutura do país contracena com sua riqueza e impostos extremamente elevados, entre os primeiros do mundo, enquanto portos, aeroportos, transporte, saúde, educação e indústria nativa reluzem no nadir da humanidade, com pedido de vaga na UTI do caos. O caos é o paraíso do esperto. Obra-dinheiro-corrupção. Porque políticos e partidos, amorais e acima dos princípios, se abraçam ou se ombreiam, face ao toma-lá-dá-cá com o nosso patrimônio. Aos amigos tudo, aos demais a lei e o fogo. Anuviar a corrupção. Garantismo! Porque a mídia paga mostra apenas o vídeo mais bem pago, alimentando a ignorância e acobertando os parasitas do Estado. A informação/desinformação como instrumento de Poder e gerador de Voto. Porque os direitos humanos não são pela gente de bem! Porque tudo é usado descaradamente como pretexto para afarfalhar, enquanto enchem as burras, amordaçam/cooptam a concorrência e perpetuam as tetas. Conluiando/violando os Três Poderes. Enfraquecer as atalaias indormidas da democracia. Assim, importam médicos para resolver as graves deficiências da saúde, como se este fosse seu principal componente, ofuscando a intenção de montar células da petralha entre os menos favorecidos/vulneráveis. Voto certo, encabrestado. Assim, criam cotas para entrada no ensino superior, esquivando-se ao problema da qualificação de professores e do ensino fundamental e médio. Voto. Assim, instigam as minorias criando a distensão do nosso povo e aparelham/desmontam as instituições. Dividir para governar. Poder e Voto Porque há muitos porquês... Então, Voto pela inspiração, voto pelo despertar do nosso povo, e que cada vez mais brasileiros captem o espírito das ruas, com febre e indignação, mas também com lucidez e harmonia, tanto quanto com revolução. Então, de fato, Voto e ouço “do Ipiranga as margens plácidas...” *** José Carlos Serufo
  • 49. 56 TROPICALISMO - CONCRETISMO O filme “Tempos Modernos” chapliniano arte e roteiro do operário estressado revela o ambiente do viver cotidiano humor satírico do século passado. Entre simbólicos sonoros devaneios orquestrados ritos em paradoxais tons festivos cortejos em musicais anseios afinam inéditas radicais emoções. Em infinitas expressões estéticas românticas artes pop a desabrochar visões éticas em variações poéticas quem sabe faz a hora transformar. Sintáxicos mitos a dardejar belezas com régua e compasso e aquele abraço ricos trocadilhos sobrepondo proezas desfilam sociais semióticos traços. É a Tropicália caminhando contra o vento porque não, porque não, é José é João no sol de dezembro sem lenço sem documento, é pau é pedra, é o resto do toco fechando o verão. Estilos e símbolos em cognitivas imagens valorizam figuras como forma de expressão, vanguardas culturais em virtuais linguagens incorporam o Concretismo em temática abstração. José Jucovsky São Paulo - SP ***
  • 50. 57 CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE JORGE AMADO NÓ GÓRDIO BRASILEIRO Ao relembrar o panorama da minha juventude na cidade de Salvador na primeira metade do século passado, fico cada vez mais confortavelmente gratificado diante da moderada e simples vida marcada pelas retóricas políticas e poéticas daquela época. Hoje, olhando pela janela do passado sinto-me inquieto como um espectador ansioso por poder relembrar a romântica lírica natureza invadida de sonhos ultrapassados além dos limites do cotidiano viver. Em explicito transcender muito além do significado do verbo, podíamos sempre alcançar agradáveis amenas noites estreladas que nunca serão pelo tempo apagadas. Ver com novos olhos, descobrir a vida aberta com novas ideias entre simbólicas pontes imperativas de vanguardas tentávamos romper os grilhões do conformismo. Ao mesmo tempo a tropical Salvador entre louvações, devoções e ladainhas tocando música e recitando poesia ia se destacando como um grande centro urbano cultural do nordeste. Entre convulsões e guerras tento colocar no papel alguns momentos da vida de personagens revolucionárias que, por fortuitos acasos tive a felicidade de conhecer sem intimidade, de longe, em reuniões acadêmicas e sociais. A grande mobilidade sociocultural com a marca vinculada à rebeldia estudantil, inteligente e talentosa constituiu um fértil caminho para planejar significativa mudança em busca de uma nota só: a liberdade. Apesar de não ter a menor noção do mundo kafkiano, vivia transtornado com o desespero diário de meus pais que deixaram de receber notícias da imensa família durante a segunda guerra mundial. Passei a sentir premente necessidade de buscar entender tudo e de possuir ou inventar outro mundo em que todos pudessem viver em paz sem ser vítimas de qualquer tipo de agressão. Só depois do término da guerra que infelizmente aos poucos ficamos sabendo da morte de todos com exceção de uma irmã de minha mãe que, sendo cega foi retirada para a Sibéria num comboio com inúmeros outros deficientes. No início do ano letivo de 1941 na primeira aula de Física do Ginásio da Bahia o professor Clemente Guimarães procurando angariar a atenção dos alunos contou um fato ocorrido citando o nome do estudante poeta Carlos Marighella que respondeu à pergunta sobre as leis da reflexão da luz, em versos. Os alunos do Ginásio conheciam a história política de Marighella que tinha sido preso em 1932 por ter escrito um poema criticando o interventor Juracy Magalhães e que terminou por abandonar o curso de Engenharia Civil da escola Politécnica da Bahia no terceiro ano, para ingressar no PCB. Ficaram na memória acadêmica ecos proféticos declamados em versos de ousar lutar e ousar vencer, escritos sob o impacto de cotidianos existenciais conflitos simbolicamente mágicos como em: “O Amor é meu companheiro de viagem, junto com a Indignação.” Marighella escreveu muito ao longo de sua vida. Aos 21 anos divertia os professores e colegas durante as aulas na Politécnica fazendo as provas em versos. Essa beleza poética claramente transformou-se em intensa luta pela democracia, registrada em dramáticos versos de uma estrofe: “O país de uma nota só” A passagem subiu, o leite acabou, a criança morreu, o deputado cedeu, a linha dura vetou.
  • 51. 58 “Liberdade” Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma, que não exista força humana alguma que esta paixão embriagadora dome. E que eu por ti, se torturado for, possa feliz, indiferente à dor, morrer sorrindo a murmurar seu nome. Entre o período de 1942 e 1945 eu frequentava as sabatinas do grêmio recreativo da Sociedade Israelita da Bahia, ambiente juvenil com música e danças. Nas reuniões literárias por duas vezes tive a oportunidade de ver e ouvir o jovem escritor Jorge Amado. Apesar da minha tímida presença no salão de conferências hoje me parece ter sido de excepcional importância por vir a ler grande parte de seus livros. Na poeira do passado ligando os fios da memória creio que posso citar outros nomes com vozes tão altas quanto Jorge Amado. Com a aproximação entre Brasil e Estados Unidos, política que foi chamada na época da boa vizinhança resultou nas instalações de bases militares americanas no norte e nordeste do Brasil. A partir do ano de 1942 submarinos alemães começaram a afundar navios de passageiros na costa brasileira, levando o Brasil a declarar guerra aos países do eixo. Os estúpidos ataques aos navios de passageiros desarmados provocaram manifestações da população indignada e revoltada pelo enorme número de vidas inocentes perdidas. Foi em seguida formada a Força Expedicionária Brasileira disparando impressionante movimento estudantil e na mídia em geral. Residindo atualmente em S.P., Jacob Gorender marxista declarado, meu vizinho e amigo foi incorporado na campanha expedicionária na Itália como voluntário. No pós-guerra veemente crítico stalinista sempre focado na trajetória política do Brasil em idealística visão, abandonou a militância PCB. para participar da fundação do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Torturado durante o regime militar após 1964, é atualmente considerado o mais importante historiador “marxista brasileiro”, com imensa e importante produção literária. A pacata provinciana Salvador durante anos serviu de refúgio para militantes do partido comunista envoltos em labirínticas políticas que passaram a viver refugiados nos seguros e invioláveis abrigos nos terreiros de candomblé da cidade. Tentando compreender os desafios da mente, busco homenagear o centenário de nascimento de Jorge Amado falando através minhas nostálgicas lembranças de alguns dos pensamentos reveladores através sua genealogia sertaneja. Complexos conjuntos em variadas linguagens inventivas, interligadas e amarradas em intrigantes “causos”. Essa instigante literatura protagonizada pelos sertanejos e grapiúnas lidas e relidas marcaram de forma perene e indelével a vida real do século XX onde d’um copo de água se fazia um oceano. Na realidade o que seriamos sem a fascinante mistura da memória e da humana história? Quando Jorge Amado tinha apenas dez meses, seu pai sobreviveu a uma tocaia na região de Ferradas. Episódio acidentado e multifacetado no imaginário do “Menino Grapiúna” e que sem dúvida inspirou o livro “Tocaia Grande”. Esse romance escrito de déu em déu revela não só a face obscura dos personagens, como também o paraíso na terra virgem ainda intocada semeando folclórica política contra a ditadura militar. A origem não romanceada dos Amados (Amadeus) coloca o primeiro deles Bernabé Amado no começo do século XIX, proprietário e criador de gado estabelecido na cidade Estância do Estado de Sergipe. Um dos seus bisnetos, João Amado de Faria (1880- 1962), pioneiro no cultivo do cacau no sul da Bahia, aproveitou a nova fronteira de expansão geográfica fixando-se em Ferradas junto com outros sergipanos na região de Itabuna no Estado da Bahia. Fundou a fazenda Auricídia onde se casou com Eulália Leal (1884-1972), neta de uma índia preada(capturada a laço por homem branco) tendo quatro filhos deste casamento: Jorge, Jofre falecido aos três anos de idade, o médico Joelson e James também escritor e pai da historiadora Janaína
  • 52. 59 Amado. Nestas informações genéticas pode-se concluir a existência de uma linhagem de escritores todos empenhados na tentativa entusiasmada para que sejam reconhecidos através seus escritos. Na verdadeira história acadêmica marcante da literatura no percurso visual dos Amados fica possível verificar outros escritores com laços afetivos de ancestralidade onde se inclui com destaque os irmãos Genolino e Gilberto, primos de Jorge, ambos eleitos para a Acadêmia Brasileira de Letras. E ai o fio do destino cria um inédito prelúdio brasileiro, atávica formação cultural de escritas com envolventes vidas em detalhadas linguagens criativas. Moldando minhas memórias durante o período estudantil, posso afirmar que esse foi marcado na quase totalidade pelo “Estado Novo” getulista de 1937 a 1945. Caracterizado por centralizador e autoritário foi criado o Deparamento de Imprensa e Propaganda o famoso “DIP”. Os prefeitos da época eram nomeados pelos interventores e estes, por sua vez, pelo presidente. Na inclinação esquerdista um novo mundo vivo de enfeitiçada identidade nacionalista imperava entre os jovens e intelectuais, correndo solto na cidade os mais indóceis epigramas com seus corrosivos chistes, envolvendo não só os políticos como também personagens e comerciantes corruptos. O interventor Landulfo Alves (1938-1942) determinou que a carne do boi tivesse reajuste de 2.200 reis. Epigrama em forma de folhetim distribuído durante a noite apesar de perigosamente comprometedor o epigrafista escreveu agressivos versos, clara alusão critica ao interventor ditos picantes sem assinatura, que eram sempre reconhecidos pelos intelectuais. Depois de tantas tormentas, Dia e noite, noite e dia, Carne de dois e duzentos Landulfo deu à Bahia. Do Renato Onofre Pinto Aleixo interventor no regime de exceção de 1942 a 1945, completamente desconhecido na cidade ao ser indicado, surgiram versos que fizeram logo grande sucesso: Renato é nome de gente, Onofre nome de santo é Pinto é nome de bicho. E Aleixo, que diabo é? O período da história republicana denominado Estado Novo durou de 1937 a 1945, quando Getúlio foi deposto pelas forças armadas. O salto de identidade no mundo da juventude baiana fez vários caminhos no final da segunda guerra mundial. Todos os fins de ano instalava-se num terreno baldio do Campo da Pólvora um parque de diversões, incluindo um amplo palco de teatro de revista onde imperava a principal atração, o apresentador Zé Coió. Era neste alegre ambiente conhecido como “Festa da Mocidade” ramagem abundante de íntima igualdade onde vagavam ideias e ideais políticos de inclinações esquerdistas claramente antifascista, visível na grande maioria dos estudantes, e entre eles dois personagens que viriam a se destacar na política nacional: Milton Santos e Mário Alves. A trajetória política do Brasil depois da ditadura Vargas, encaminhou-se com certa tranquilidade pelos governos Dutra, Juscelino, Jânio e Jango. Otávio Mangabeira foi o primeiro governador eleito na Bahia após os anos da Era Vargas, tomando posse em abril de 1947, exercendo com plenitude o governo até janeiro de 1951. Durante o seu governo em 1949 comemorou-se o quarto centenário da capital baiana com a inauguração do imponente Fórum Ruy Barbosa. Buscou resgatar as maiores inteligências da Bahia destacando-se o educador Anísio Spinola Teixeira na Secretaria de Educa,cão e Saúde. Época de expressivos movimentos sociais influindo no desenvolvimento brasileiro construía invisível e assustador pesadelo para cair novamente em 1964 num ciclo de violência e autoritarismo, em plena guerra fria mundial. Literalmente o Brasil iria passar a mais longa
  • 53. 60 ditadura da sua história desaguando, entre altos e baixos, numa inventiva situação intermediaria com a eleição indireta do civil Tancredo Neves pelo Congresso Nacional em 1984. A diversidade política religiosa no mundo procura também responder às preocupantes perguntas vinculadas ao futuro da vida humana na Terra. Apesar da linguagem criativa em amplas históricas ambições, a instabilidade universal impõe não deixar para traz sonhos e símbolos na versão de tentar humanizar o mundo, protegendo com clareza a natureza não permitindo que as enormes queimadas continuem devastando a mata na Amazônia brasileira. O desaparecimento de Mário Alves entre outros companheiros e o assassinato de Anísio Espínola Teixeira jogado no poço do elevador do prédio após fazer uma visita ao amigo Aurélio Buarque de Holanda representou a conduta habitual do governo autoritário após 1964. Em 04 de novembro de 1969 Carlos Marighella foi assassinado em plena madrugada, com todo aparato bélico conhecido pelos agentes do DOPS próximo ao apartamento onde eu morava na época na cidade de S. P. Milton Santos sempre presente e criativo atuou intensamente com energia na política estudantil; em 1948 formou-se pela Faculdade de Direito da Bahia. Auto exilado, com o apoio de amigos, levou 13 anos para retornar do exterior, passando a ser considerado um dos maiores pensadores brasileiros na atualidade. Anísio Teixeira propõe e realiza um modelo de educação revolucionário original durante o período em que foi secretário de educação e Saúde na Bahia de 1947 a 1951. Modelo de educação brasileira baseado em ideias que ele reproduz no livro “Em marcha para a democracia”. Inquieto escreve projeta e realiza a inauguração da primeira escola de Educação de Tempo Integral para todas as crianças carentes no bairro da Liberdade em Salvador. Este projeto do Instituto de Educação de Tempo Integral Carneiro Ribeiro, sem dúvida uma das primeiras maiores revoluções vitoriosas da educação no Brasil, vem sendo copiado com sucesso até hoje. Com todo este labiríntico domínio da evolução técnica científica entramos num caminho ambíguo e desafiador da era nuclear. Atualmente em franco ritmo já na segunda década do século XXI vivenciamos um traçado de previsão singular, desenvolvendo além da imaginação íntima relação entre seres humanos e máquinas. Segundo Ray Kurzweil rapidamente as máquinas atingiram a mesma habilidade do cérebro humano adquirindo personalidade e sentimentos passando o seculo XXI a ser denominado de : A ERA DAS MÁQUINAS ESPIRITUAIS. Será possível que este tipo de transferência da mente humana para um suporte matemático optará sempre pelas melhores soluções? Estaríamos mesmo contando para os futuros recém-nascidos que estamos deixando para o futuro uma vida melhor? Historicamente Alexandre, o Grande resolveu desfazer o Nó Górdio cortando-o com a sua afiadíssima espada. Por sua vez Jorge Amado, Carlos Marighella, Jacob Gorender, Anísio Espínola Teixeira, Milton Santos e Mario Alves, entre outros, buscaram desenrolar o Nó Górdio brasileiro utilizando revolucionárias, marcantes, renovadoras linguagens criativas tentando, sob pressão, fazer sobreviver as conquistas democráticas através da intelectualidade política brasileira. S. P. janeiro de 2013. Jacob Gorender faleceu em S.P. em 11/junho/2013 aos 90 anos de idade. Entre seus trabalhos se destacam: Combate nas trevas, O Escravismo Colonial e A burguesia brasileira. ***
  • 54. 61 O AVISO DO VENTO As horas já avançavam galopante noite adentro, num mês de novembro cálido, para um ano de inverno escasso. Indubitavelmente aquele calor obrigava, muitas vezes, dona Nozinha fazer semiaberta, quase de um modo permanente, a janela da frente, em conjugação com a parte superior da porta da cozinha, inteiramente escancarada, com o fito de propiciar uma amena circulação de ar no interior da casa. Seu verdadeiro nome era Leonor, mas, carinhosamente, desde pequena, todos a tratavam por Nozinha, até mesmo para fazer coerência com sua delicadeza de gesto e nobreza de comportamento sempre mantidos. Ainda não chegara aos trinta anos e já carregava o pesado fardo da administração de uma família constituída por seis filhos menores, com o primogênito havendo completado nove anos e a caçula, engatinhante, ensaiando os primeiros passos. Seu marido, fruto de um romance sem a aprovação paterna, resolvera tentar a vida nos seringais da Amazônia, e, há mais de dez meses estava ausente. Dificilmente ela recebia notícias dele, isso acontecendo na maioria das vezes através de retirantes que voltavam, quase sempre, para escapar da malária ou de qualquer outra doença palustre. A última informação, trazida por Abdoral de Sousa, que, com o diagnóstico de filariose tivera que retornar a sua terra a cata de tratamento, não era muito alvissareira, pelo contrário a deixara preocupada, pois soubera que seu marido havia baixado a enfermaria do Seringal com muita febre e a pele bem amarelada. Carta mesmo recebera apenas uma, depois de noventa dias do afastamento, trazendo dentro do envelope a quantia de duzentos mil reis. Simão, quando rapaz, muito bonito é bom que se frize, ficara afamado por seu procedimento rotulado de irresponsável, com a característica de namorador, brincalhão, dado ao jogo de baralho, não se o pretendendo como genro, qualquer patriarca de respeito como era o caso do Coronel Antonio Joaquim. Por isso, se contava a grande decepção do abastado comerciante com Nozinha, sua linda e prezada filha caçula, no próprio instante que a impusera o fim do namoro. Destarte, enfrentando momentos de grande necessidade, guardara para si os problemas, não tendo coragem de levá-los a seu carrancudo pai. Se, ao menos sua mãe estivesse viva, porém uma enfermidade insidiosa causara a sua morte, nem bem passara um ano de seu casamento. Conseguira com o Padre Edgard, caridoso pároco da cidadezinha, o emprego de zeladora da Igreja Matriz. Tal ocupação viera mesmo a calhar, porquanto fora bem alicerçada na educação cristã, fazendo o seu trabalho de limpeza e cuidados outros com a Matriz amenizarem os seus percalços e por vezes os sublimar. As crianças menores eram cuidadas pelos irmãos mais velhos, ou, na ausência destes, quando de suas obrigações escolares, pela velha Maria Pêdra, uma descendente de escravos que se arranchara naquela humilde casa. Claro estava, a não existência de formalidade pecuniária, já que implicitamente tudo se traduzia como troca de favores. Naquela noite, refeita com um salutar banho frio, metida num roupão longo que encobria a surrada camisola, com todos aninhados – como assim chamava os filhos acomodados em suas redes – já dormindo, Nozinha visando conciliar o sono, também porque escrevendo para Simão lhe servia como ataráxico, descarregando as saudades do seu amado na escrita, adjutorizada pela luz da lamparina de pavio longo, acomodou-se na grande mesa da sala de jantar, fez mergulhar ligeiramente a pena no tinteiro, e, em um papel pautado, começou a carta: Querido Simão; no silêncio desta noite de 17 de novembro, quando nossos filhos já adormeceram, volto José Maria Chaves Fortaleza - CE
  • 55. 62 a lhe escrever, pela quarta vez, sem que tenha tido o alento de receber uma segunda cartinha sua. A saudade é infinda e as lágrimas que rolam no meu rosto... Foi obrigada a interromper o seu desabafo escrito, por que uma lufada de vento, sem explicação plausível porquanto o tempo estava parado, apagou a chama que alumiava. Com discreto nervosismo, apalpou o roupão e, sem dificuldade, encontrou a caixa de fósforos. Atritou um palito a caixa, novamente pondo acesa a lamparina. Levantou-se e teve o cuidado de se dirigir a sala, para fechar totalmente a janela, no sentido de evitar qualquer sopro de vento que viesse interrompê-la de novo. No entanto, nem sequer continuou a escrita, uma vez que, até de modo assombroso, a tampa da caixa de sapatos, que estava numa das cadeiras ao redor da mesa, voou e, com o vento produzido, ato contínuo, põe a sala às escuras. Nozinha, em pânico, chorando muito, saiu porta a fora, atravessou a rua, até a casa de seu cunhado, e, freneticamente bateu na sua porta: – Aniceto, Aniceto... O irmão mais velho de Simão imediatamente atendeu, algo surpreso e preocupado, levantando o farol acima de sua cabeças: – Que é isso Nozinha? O que aconteceu? Por que você está chorando? – Simão morreu, Aniceto, recebi um aviso. – Que é isso querida cunhada, você está muito nervosa e tudo a impressiona desfavoravelmente. Após o breve histórico do acontecido, Aniceto procurou acalmá-la, principalmente quando fez a promessa de tomar providências, imediatamente na manhã seguinte, auscultando o Escritório de Alistamento em Fortaleza, acerca de noticias do seu irmão e marido de Leonor. Ah, isso ele faria, com certeza, quando exigiria a mais breve comunicação pelo rádio do Escritório com o Seringal. Com efeito, por volta das dez horas da manhã do dia 18 de novembro, estava sendo atendido pelo gerente de alistamento, mas, de princípio tomou conhecimento que a manutenção estava tentando corrigir uma pane no transmissor do Seringal. e. em sendo assim, aguardasse em casa que, quando houvesse a reintegração, colheria noticias do alistado Simão das Chagas. Finalmente, uma semana depois, Aniceto recebeu uma comunicação telegráfica na qual estava noticiado o falecimento de Simão na noite de 17 de novembro, próximo passado, de impaludismo, e, que devido as dificuldades óbvias de transporte, o sepultamento já se dera na manhã do dia 19, depois da liberação do corpo, obedecidas as exigências de praxe. Estava definitivamente explicado o aviso, na noite do vento fatídico, que Nozinha não precisava mais escrever a Simão. *** José Maria Chaves
  • 56. 63 LAURO MAIA – UM POETA QUE TAMBÉM É RUA Deus reprova os arrogantes Pois, para engano de alguns, Sempre esconde os diamantes Entre as pedras mais comuns. Pois bem, com esta trova desejo retratar LAURO MAIA TELES – COMO POETA E COMPOSITOR – senão a nossa maior expressão literomusical, seguramente, um lapidado e burilado diamante, postado de forma humilde entre grosseiras pedras. Lauro Maia nasceu na casa de nº 1966 do Boulevard Visconde de Cauype, atual Avenida da Universidade, em 06 de setembro (Cartório João de Deus) ou 06 de novembro (Verbum ad Verbum) do ano da Graça de 1913. Filho do odontólogo Antônio Borges Teles e da professora de piano Laura Maia Teles. Seu aprendizado musical certamente se inicia no berço, com sua mãe e, já aos 10 anos de idade, vestindo calças curtas, substituía o pianista oficial do Cine Majestic. Além de exímio ao piano, dedicou-se,outrossim, ao estudo da flauta e do acordeon. Como acordeonista foi o mais jovem integrante da orquestra da PRE-9 regida pelo maestro Euclides Silva Novo. Na pioneira emissora de radiodifusão do Ceará, logo assumiu o cargo de Diretor Artístico e já era umfestejado compositor. Enquanto criança esteve matriculado no Colégio Marista e, adolescente, transferiu- se para o Liceu onde cumpriu todo o resto da programação ginasial e do científico. A essa altura da vida, já era frequentador da roda boêmia de Fortaleza e, pelo menos duas vezes na semana, acompanhado do seu amigo e parceiro – notável violinista – Aleardo de Freitas, fazia serenatas, conquistando amores diferentes pelos desempenhos poéticos e românticos de suas composições. Aos 25 anos, bacharelando em direito, compõe a “Valsa do Rubi” para a cerimônia de formatura que, disseram as línguas ferinas, não compareceu por haver esquecido a hora, enquanto festejava, em um bar, bebendo com alguns amigos. Seu nome, já consagrado como compositor musical, letrista e arranjador, constou da lista negra dos Integralistas de Petrópolis, com vários outros cearenses ilustres, entre os quais o Dr. Bié eo Professor Cláudio Martins. Em 1940, após dois anos de namoro, casou com Djanira, irmã de Humberto Teixeira (que, por residir no Rio de Janeiro, embora cearense de Iguatu, não o conhecia pessoalmente).Em junho de 1942 nasceu sua primogênita, Eva, e em dezembro de 1943 veio ao mundo Lauro Filho, já residindo na antiga Capital da República (Rio de Janeiro). De principio entregava suas composições para a interpretação e gravação pelos Vocalistas Tropicais e/ou 4 Ases e 1 Coringa. Dentre as muitas gravações do início, poderia citar o batuque “Eu vi um leão” e a marcha “ Eu sei o que é”, além dos sambas “Eis o meu samba” e “ Nosso cruzeiro”. Com os “Vocalistas Tropicais” – vitorioso e harmonioso conjunto cearense – lançou um novo ritmo,o balanço,com a música “Balancê” -”oi balancê, balançá/balança pra lá e pra cá/ eu vou até de manhã só nesse balanciá”. Com o sambista Ciro Monteiro, deixou a composição”Deus me perdoe”, que foi gravada -”Deus me perdoe, mas levar esta vida qu’eulevo é melhor morrer...”. Com Orlando Silva, o cantor das multidões, gravou muitos sucessos, tais como”Febre de Amor”, “Poema Imortal” e “Quando dois destinos divergem” – “Acaso poderás dizer qual de nós é o culpado/ e qual a razão de tudo ter desmoronado/ Nossa vida agora é um verdadeiro caos/ semeada de incrível solidão/ e pontilhada só de pensamentos maus...”. José Maria Chaves
  • 57. 64 Em 1942, volta a Fortaleza, conhece e integra a Escola de Samba, que foi batizada com o seu nome. É bom que frise: A Escola de Samba Lauro Maia foi criada pelo músico Canelinha, obviamente para conquistar o compositor que sempre abiscoitava o 1º prémio, disputando pela “Escola de Samba Prova de Fogo”. Em sua criação, a Escola de Samba Lauro Maia contava em suas fileiras com o também pianista e compositor Luiz Assunção. Desde a sua fundaçãoaté 1945 a Escola de Samba Lauro Maia sempre foi vitoriosa. Passada a época carnavalesca, Lauro volta ao Ria de Janeiro onde se emprega na Firma Irmãos Vitale – Editor de Música - e também foi contratado pela Rádio Tupi, como arranjador e orquestrador dos variados temas musicais dos seus programas de estúdio. Além desses dois estafantes encargos, ainda firmou expediente noturno – como pianista – com o Cassino Atlântico. Fumava muito, bebia em demasia e se alimentava pouco e mal. Confessava para seus amigos de boemia, especialmente Chiquinho da Lapa, seu quase irmão, que morria de saudades da sua terra. Com esse sentimento de ufanismo, compôs:”Eu bem sei que é bem nosso/ o orgulho de um gesto que eleva e seduz/ um gesto altaneiro de audaz jangadeiro/ mandando que todo navio negreiro/ passasse bem longe da Terra da Luz”. Em 1947, ano de sua última visita a Fortaleza, já com a saúde gravemente abalada, os dois pulmões invadidos pela tuberculose, teve de retornar ao Rio para um internamento no Hospital Santa Maria em Jacarepaguá, famoso por recuperar pacientes tísicos. Debalde foram os esforços. No dia 05 de janeiro de 1950, por coincidência data do trigésimo quinto aniversário de Humberto Teixeira, às vinte horas e trinta minutos, Lauro Maia faleceu. Em 1952 -e eu estava lá - o samba intitulado “Lauro” foi cantado e chorado por todos nós, no desfile de carnaval da Escola de Samba Luiz Assunção: “Lauro, eu vim lhe homenagear Ah, se você fosse vivo Pra ver sua escola passar, Oh Lauro!’’. *** José Maria Chaves
  • 58. 65 AMANDO E POETANDO Eu sonhava ser poeta. Na vida, uma grande meta. Rimas sabia fazer, e consonância acontecer. Só faltava a inspiração, coisa lá do coração. Seria uma alma gêmea? carinhosa e muito fêmea? Criaria eu tercetos, ou comporia sonetos? Melhor seria uma ode? Ou isto é para quem pode? Então encontrei você e fiquei a sua mercê. Daí, misturei fonemas, logo surgiram poemas. Você é a minha musa, no meu coração reclusa. E quanto mais eu a vejo, mais seu carinho desejo. Hoje escrevo poesia como nunca eu faria sem você em minha vida, meu amor, minha querida. *** José Warmuth Teixeira Tubarão - SC
  • 59. 66 A MITOLOGIA GRECO-ROMANA E A OBSTETRÍCIA A mitologia da Grécia e da Roma antigas nos conta histórias deliciosas que deixariam estupefatos quaisquer obstetras e neonatologistas da atualidade: Zeus, o pai dos deuses, sob a forma de uma chuva de ouro, introduziu-se na torre de bronze onde estava reclusa Dânae e assim engravidou-a! Já pensou se nós homens tivéssemos nosso fluido fertilizante assim? Estaríamos todos milionários.. Diz a lenda que os deuses irmãos gêmeos Acrisio e Preto, filhos de Abante e Aglaia já começaram a brigar ainda no interior do útero de sua mãe e assim se comportaram por toda a vida. Zeus era um tremendo transformista: Engravidou Leda, assumindo a forma de um cisne... Caio Julio Cesar, o primeiro dos doze Césares, conta o mito, nasceu pela abertura feita no ventre de sua mãe. Daí, o nome de cesariana para esta operação. Teria sido um parto post- mortem ou já haveria um anestesista no Monte Olimpo? Zeus, (ele novamente), que deve ter sido um tremendo mulherengo, partilhou o seu leito com Mneumóside, a deusa da memória, por dez noites consecutivas. O prodigioso resultado foi que um ano depois ela deu luz a dez filhas: as nove musas das artes: Calíope, deusa da eloquência), Clio, da história, Erato, da poesia lírica, Euterpe, da música, Melpomene, da tragédia, Polímnia, da música sacra, Tália, da comédia, Terpsícore, da dança, e Urânia, da astronomia. Com toda a certeza, a décima foi natimorta, pois ninguém fala nela. Nem com todos os recursos usados hoje nos casos de infertilidade já se produziu um resultado semelhante! Terpsícore, a musa da dança, segundo alguns autores teria sido a mãe das sereias. Inseminação com sêmen de peixe? Afrodite nasceu quando Cronos cortou os órgãos genitais de Urano e os arremessou no mar; da espuma formada ela nasceu. Cuidado, meninas ao banharem-se no mar! Algum bichinho danado e imortal daqueles, com cauda, ainda pode estar nadando por aí. Afrodite também, segundo a lenda, portava um cinturão onde estariam todos os seus atrativos. Teria ele inspirado a criação do cinto de castidade, na Idade Média? Venus, a Afrodite entre os Romanos, deusa do amor e da beleza foi desposada por Vulcano, deus do fogo, o mais feio dos deuses, que era inclusive coxo. Talvez por isso, manteve relações adúlteras com Marte, Mercúrio e Baco. Ela teve oito filhos! De quem? Aí é que está a encrenca. No Olimpo ainda não havia o exame de DNA. Todos sabemos a história dos irmãos gêmeos Rômulo e Remo, que foram encontrados pela Loba Romana, recém natos, em um cesto boiando no rio Tibre e por ela foram amamentados. Teria sido o leite de uma loba compatível para com o seu desenvolvimento? Mas isto já foge ao nosso tema. Com a palavra os neonatologistas. *** José Warmuth Teixeira
  • 60. 67 SIGNIFICADOS DA PALAVRA Saída da escola; meninas atravancaram feio, engalfinhando-se aos arranca-cabelos, arranhões, sopapos. Multidão assistiu pávida e ninguém apartou. Policial findou a turra. Arranhadas, cortes supercílios e lábios, narizes quebrados, joelhos esfolados, meladas de sangue. Uniformes rotos, sujos de asfalto; do Pronto Socorro à delegacia. Histeria pública convocou e TV reportou a arena. Denunciava bullying contra aluna; um apelido indecente, impróprio!... Não difundido na mídia. Entrevistadas, adolescentes omitiram a alcunha, sob risinhos angelicais nas carinhas de santas; traquinas amigas das lutadoras. Pais e diretora do educandário na delegacia. Contendoras se calaram na causa e bullying; ninguém delatou nem se soube o teor do insulto. No dia seguinte, diretora e vitimada em negaças ao motivo. Oprimida soltou: – As colegas não me chamam de Jesuína, diretora. Principal, a Karina, de iniciar brincadeira sem graça nem respeito. Não dou liberdades!... Nem gosto. Sou evangélica. – Tudo bem! Mas, chamam-na de quê? – Nem digo. É muito forte. Feio!... – Se não me contar, como punir Karina? – Ah!... – Afinal, chamam-na de quê? Sem saber, como vou castigar? – Elas me chamam de metida, Diretora!... Não suporto nem aceito. – Bobagem, menina! Não aceita? Você é bonita, anda bem vestida, elegante, brilhante. Não liga não, boba! Elas têm inveja!... Meus melhores amigos me chamam de metida. Não me importo. O quê tem ser metida? Sou muito metida, sim, senhora! Gosto; adoro ser metida. – É, mas, a senhora é casada. Né, bébé!... *** DESPEDÈRE Na praça dos luxuosos estádios: Fontes luminosas jorram; Água, luz e sangue... À terra, aos ventos, ao céu, e, como abusos ideais se perdem nos ares. Enchem as burras, mas, não molham as nuvens nem sequer os pés... Tampouco abrigam sonhos ou iluminam caminhos... Povo sedento, na escuridão social bebe suor e lágrimas. E se perde na escola... Enquanto cativo às promessas alvíssaras, preso e sob a truculência de bandidos, almeja futuro promissor ao país. Então, ajoelha e reza. *** Josemar Otaviano de Alvarenga Belo Horizonte - MG
  • 61. 68 PLANO DE VÔO Quando eles se encontraram no movimentado aeroporto da grande capital foi como se tudo houvesse mudado em suas vidas e tudo acontecido. A desenvoltura com que conversaram durante o percurso até o aluguel do carro demonstrava uma sintonia sutil, jamais ensaiada, de quem já se conhecia há muito tempo. Os sotaques eram diversos, mas o entendimento perfeito. Ele havia pedido para que ela usasse vestido e até escolheu a cor, tendo sido prontamente atendido. Ela sabia que ele usaria uma camisa florida para destacá-lo na multidão de pessoas e malas que se atropelavam em risos, lágrimas e bilhetes de passagens aéreas. No entanto, pareceu que reinava um silêncio de reverência por todo lado, onde só as vozes deles e os sorrisos de alegria eram capazes de ecoar. Quem seria o condutor do veículo de aluguel não importava, pois ambos dirigiam. O que fazia a diferença era a mão de direção e ela não estava acostumada com o volante à direita; com mútuo consentimento, ele conduziu o carro até o paradisíaco quarto de hotel na região central da cidade. Ora, hotel no centro da cidade não é propriamente um lugar paradisíaco! Para eles foi: entraram como se dali nunca tivessem saído, mexendo-se com desembaraço e familiaridade pelo espaço pequeno e modestamente decorado, encostando as malas em um canto qualquer e metendo-se na chuveirada abundante que despencava todo e qualquer cansaço. E que viagem longa! Cada um deles vindo de um destino, tendo como ponto de encontro o aeroporto. Amaram-se como se conhecessem um ao outro desde que nasceram. Havia assunto para nunca terminar, e uma fadiga que não chegava. Repetiam o amor em todos os cantos, por todos os poros e com três argumentos: saudade, desejo e curiosidade. Saudade? Nem se conheciam muito bem. Desejo? Estavam aprendendo a se saberem. Curiosidade? Um homem e uma mulher... Pouco mistério. Mas havia um querer de urgência, um tempo que se esvaía feito água de banho no ralo: por último vai a espuma. Ele perguntou por que ela tanto olhava a espuma; ela disse ser como aquelas bolhas esbranquiçadas: correria pelo corpo dele perfumando sonhos e luxúria, esvaindo-se ao fim de tudo. Ele não gostou, murchou o riso nas faces que rutilaram prazer. Ela ensaiou um ar de desdém pouco convincente, mas tinha a tristeza estampada na fronte de pele alva. Sentiu a melancolia do que não foi dito: planos de quem sonha o impossível. Feito morcegos, somente no segundo dia saíram do pequeno quarto para a luz que se escancarava para a manhã num bocejo sem fim: a boca do dia mostrava os dentes brancos. Passeavam nas cidades do entorno, mas logo voltavam, pois queriam se aninhar um no abraço do outro, comer pão e queijo, tomar vinho. O tempo corria feito lebre e em breve a distância se faria como o andar da tartaruga. O que se há de fazer? Como um querer acontece assim? Dezenas de vezes ele fez a mesma pergunta e escondeu a cabeça no colo desnudo dela, pedindo amor e afago nos cabelos revoltos. E quando ele dormiu, vencido pelo cansaço de amar, ela ficou a escutar o som da respiração suave, registrando na memória todo o vivido, tudo o que fora sentido. Acordaram de repente, com uma batida vigorosa na porta do quarto. Sobressaltados, mal tiveram tempo de vestir roupas até ele abrir a porta, ainda se recompondo. Josyanne Rita de Arruda Franco Jundiaí - SP
  • 62. 69 Ela não entendeu o que o homem disse a ele, apenas o viu sair do quarto. Ao voltar estava arrasado, desconcertado e trêmulo. Sentou-se à beira do leito e disse que precisava partir, mas que ela poderia ficar e aproveitar o resto da viagem, estava tudo pago, um carro alugado e disponível, muito que visitar, lugares lindos. Um frio polar atravessou o peito dela e secou lágrimas que não chegaram a cair. Nada mais fez sentido: o quarto era horrível, a cidade estranha, o lugar hostil. Pareceu a ela que ele caía no abismo, que voava para longe... E ela só conseguia olhar, inerte. Ele chorou e quis amá-la, possuí-la com a sofreguidão do desespero irremediável e inatingível. Ele muito sofria... Ela um pouco morria. Na mesma manhã, partiram em voos diferentes, voltando aos lugares de origem. Ao retornar, ela alugou um apartamento nas proximidades do aeroporto para ver subir e descer aviões. Passava o fim da tarde a fazer planos de voo, sonhar com o reencontro... e isso durou longo e redivivo tempo. Há mais de trinta anos ela se lembra daqueles momentos de antanho. Sabe que hoje ele não mais existe, pois já era muito mais velho... Vinte e seis anos mais velho! O tempo que passou remediou a dor. Agora o mundo é outro e tudo é mais fácil, até dizer adeus; se eles tivessem e-mail, celular e outras facilidades da vida contemporânea, certamente haveria menos saudade e mais esperança para eles... Quem sabe restaria ao menos um pouco de ilusão a acompanhar a solidão dos dias? *** Josyanne Rita deArruda Franco
  • 63. 70 FOGUEIRA CELESTIAL Caminho ao encontro do tempo! Ali na esquina ele acena Imóvel, quieto, sorriso que espera O fim desta cena, da vida exaurida Que um dia foi plena, Braseiro celeste chamado destino... O tempo me espera e corro até ele Sem prece, sem vela e sem lamparina Que mostre o caminho até a clareira, Onde dorme o dia e a culpa descansa Sem reza contrita e sem esperança... Na mata de entorno que oferta guarida! Comigo vão lembranças! Afetos queridos, Diletos amigos, origem, passagem, O viço e a vertigem de tantas viagens, Das muitas andanças por dias felizes, Miragem e oásis de mil ilusões Deitadas na areia de antigas paixões... E chego sozinha! Agora não grassa Aquela criança que se enternece... Só veio a mulher que viu dissabores, O riso e a graça, a dor que envelhece Um dia sofrida e há muito esquecida. Fogueira divina do tempo que passa! Caminho ao encontro do tempo Levando o estudo, o vivido e o luto De amores fincados em anos passados, Por décadas idos, banais e humanos Quase sem altares, frutos ou pomares Enquanto sozinha depressa prossigo... *** Josyanne Rita de Arruda Franco
  • 64. 71 APELO A frustração dos perdidos, excluídos agride a calma da noite que se vai por roubo dos distraídos. Apelo de uma cidade comprimida escambo ativo. Tudo se troca. A pobreza permeia a riqueza neste caldeirão urbano sem limites. Mundo conturbado por valores em desuso que empobrecem o viver. Perturbam o passar das horas. Convivem superando conflitos diários em busca de soluções prontas. Reclamo retorno ao meu caminho. Rebelo-me a indiferença. *** Juçara Regina Viegas Valverde Rio de Janeiro - RJ
  • 65. 72 DEMARCAÇÕES Deixou meu corpo tatuado. No meu horizonte o belo mortal. Na minha face o seu perfume. Na minha boca seu sussurro. Nas minhas mãos seus vestígios. No meu coração sua presença. No meu interior sua vontade. Na minha imaginação meus anseios. No meu futuro seu presente. Na minha imprecisão uma espera. No meu agora romance inesperado. *** Juçara Regina Viegas Valverde
  • 66. 73 BODAS DE DIAMANTE UMA HISTÓRIA REAL Primavera Ela, 11 anos de idade. Ele, 15 e já não se interessava mais em só brincar com o irmão dela. Passou a notar aquela loirinha graciosa e a tentar uma aproximação. Deu certo, era recíproco. Ambos começaram um inocente namorinho, daqueles de só pegar na mão. Tinha dias em que ela ficava observando pela janela de sua casa os meninos voltarem da escola e, no meio deles, o seu menino passar. Trocavam acenos e iam embora, levando cada qual, um pouco de carinho um do outro. Entre sorrisos, olhares e certezas, os dois, um pouco mais crescidos, iam amadurecendo seu relacionamento e conhecimento mútuo. As conversas no portão, as idas ao cinema, os passeios pela cidade. Muito proseavam entre si, interessados em seus gostos, sonhos, desejos. No tom róseo e clima ameno do alvorecer naquela estação, o início de duas vidas que se encontraram, plenas de esperança e encantamento. Verão Após quatro anos de namoro responsável, a decisão pelo noivado. Ele, de terno, na casa dos pais dela. Ela, em outro cômodo com as primas, a esperar. Por fim, a resposta positiva. Festa, alegria, comemoração. Casamento à vista. Preparativos, convites, cerimônia civil e religiosa, vestido de noiva, terno e gravata. Início de uma vida a dois, repleta de alegrias, mas também dificuldades. Ele a trabalhar o dia todo e estudar à noite. Ela a cuidar da casa e mais tarde, do primeiro filho. Dureza, sacrifícios, mas amenizados pelo amor que ia se aprofundando cada vez mais. Mudança de emprego, mais um filho, as responsabilidades aumentando, mas ambos apoiando- se um no outro, com dedicação e diálogo crescentes. Terceiro filho, uma menina. E, após cinco anos, o quarto filho. Mudança para um apartamento, bem maior que a casa onde moravam. Novas oportunidades no trabalho. Dificuldades, sim, mas muita fé também, aliada ao cultivo de atenções e cuidados de um para com o outro. Bodas de Prata. Vinte e cinco anos comemorados com grande entusiasmo, em cerimônia religiosa e festa. Alegria, todos juntos, música e detalhes organizados com desvelo. O calor às vezes forte, outras vezes cálido daqueles dias servira para forjar o relacionamento e amalgamar dois corações em um só, cada um respeitando a individualidade do outro, mistério insondável de bênção celestial. Outono Ele e ela envolvidos em atividades voluntárias, doando seu tempo para quem mais precisava, além do cuidado dos quatro filhos, dos negócios, dividindo atenções e multiplicando o amor, até Ligia Terezinha Pezzuto São Paulo - SP
  • 67. 74 completarem Bodas de Ouro. Cinquenta anos de uma convivência madura e firme. As refeições feitas com toda a família, os diálogos constantes, o cuidado mútuo, a renúncia, a doação foram elementos importantes para chegarem até ali. Quando as folhas começam a amarelar e as árvores se preparam para a grande renovação da natureza, o alimento da fé vem em boa hora solidificar o que já era firme porque construído no terreno sólido da verdade e da abertura ao transcendente. Inverno Dias difíceis. Perda de um filho querido. A morte, entretanto, é vencida pela esperança. É preciso cultivar a alegria, em lugar de revolver a tristeza. Sessenta anos de união, conquistada dia a dia com respeito, cuidado, atenção, carinho. Diálogo sempre presente e o calor dos filhos, noras, netas e bisnetos. O progresso dos filhos e netas é orgulho sadio que os alimenta de renovada confiança em direção ao futuro vivido pelo presente no dia a dia. As decisões com base em discernimento reto e pleno dão a consistência que uma vida inteira construída juntos possibilitou realizar. Ao chegar a estação do frio, em que tudo pareceria cinzento, obscurecido pelas chuvas e neblinas dos dias úmidos, o que fora plantado com esmero trouxe o calor do afeto que muda toda a paisagem graças à fé, ao diálogo, amor, dedicação, renúncia, doação, cuidado, carinho, respeito; ingredientes que, utilizados com sabedoria, fizeram de duas vidas uma só, plena de frutos, sonhos realizados, superação e luz a iluminar outras vidas. Sonho de muitos, sonho possível... *** SUBLIME AMOR Na mansa manhã de moles ondas, cantos de mel encobrem o mar. Sussurar. Qual dom na espuma infinita de pranto sem fim feito manto. A suavizar. Nuvens calmas no horizonte, fino caminho de alma e amor. A se entregar. O ninho entranha compreensão e encanto. Sublimar. *** Ligia Terezinha Pezzuto
  • 68. 75 PINTASSILGO MARIADOCARMO Soprasse o vento a noroeste trazendo consigo o cheiro do sal. Ela esperava que caíssem os primeiros pingos de chuva e os recolhia com as mãos em concha e carinhosamente as depositava dentro da caixa vazia de linhas de cor, ainda muito manchada. De maneira que quando as retirava para matar a sede do casal de pintassilgos que criava lá no pé de Abricó. Algumas gotas vinham encarnadas, outras esverdeadas e outras roxas brilhantes. Eram estas as que mais lhe chamavam atenção. Com estas costumava enfeitar o chale de renda branca que muito raramente usava. O chale ela só usava quando a saudade vinha por detrás dos abacateiros em forma de lua nova e machucava seu coração com uma dorzinha que ela comparava com o espetar de um espinho de laranjeira na parte mais fina do pé. Porém doía muito mais, esfriava. Era então que ela cobria-se com seu chale bordado de cor branca e para quebrar a limpidez, salpicava-o com aquelas gotas de chuva guardadas na caixa de linhas de cor, agora também coloridas. Então ela, embriagada do cheiro de sal trazido pelo vento noroeste, descia por todo o quintal até a queda d’água e se deixava ficar horas, acompanhada do barulho das palhas assoviando “um não sei o que” e adormecia. Soprasse o vento sudeste que trazia consigo um cheiro de queimada, um odor de partida. Ela acabrunhava-se. Despia-se, e desnuda cortava-se com suas unhas ferinas, como se fosse uma malina possuída. Urinava em si. Desesperada. Gritava de Dó a Si. Em tons e semitons. Bastava ameaçar a tarde, menstruava. Espalhava leite pelo quintal satisfazendo, os currupiões, as guaribas e os peixes-boi. Ela plantou centenas de “nãos” e colheu dezenas de “sins” até o derradeiro verão. Naquele janeiro, envolvida pelo chale branco bordado e apaixonada pela saudade dele, partindo para nunca mais, rio mar-abaixo. Tornou-se grávida de mim. De Braz e de Lafaiete. Anos mais tarde fomos para Oriximina pescar tralhotos. Botos e tucunarés. Até que cada um de nós reproduziu e procriou. Nossos filhos pareciam a avó. Quando eu voltei, nestes tempos, os outros haviam morrido. Eu era uma mulher velha. Cuidando de um pintassilgo albino vestido de preto e uma pintassilga cega ordenada freira. Todos os relógios que nós tínhamos marcavam meia-noite. *** Luiz Jorge Ferreira Osasco - SP
  • 69. 76 MY NAME Meu nome é Luiz. Poderia ser ódio, poderia ser ócio. Poderia ser ZYE 2... PRC 5... Rádio Difusora de Macapá. Glostora... Antisardina... Q-Suco de tangerina... Zé Raimundo, Bill, Belizário. Meu nome é latino-americano. Poderia ser Palestina, pele, Pelé, afegão. Poderia ser S.U.S. Yes, Please, Plus. E se Modess, poderia estar Severino... Akai 47. Nitrogringoglicerina. Cancro Mole e Antraz. O outro gole de Whisky. A água d’Água Raz. Meu nome é Luiz. De uis, e ois, e tchaus. Depois dos vocês. Parei paralelo aos ninguéns, nas margens das Marginais. De Belchior e Quintais (Quadrados virtuais, dentro dos apartamentos). Abrasileirei-me. Quase acolá e ali. Sem casa sem horizonte sem “Para donde?”. PS, IML, por fim “Pés Juntos”. Como se fosse qualquer coisa, como se coisa qualquer fosse. Como se fome fosse pão, e pão fosse foice. Meu nome é uivos, e hinos. Poderia ser menino. Boy e Ninõ. Machô, Gay, e E-mail. Mamilo de seios, e labirintos de clitóris. Feto, Zero ou Pi de Pitágoras. Poderia ser agora, momentâneo, indefinido. Silêncio de gritos, e nuncas. Ancas, umbigos, e desejos. Beijos. Meu nome é quase preguiça, carniça, mênstruo, mel, fel, léu, e Zen. Êxtase e soneira. Como se fosse sede. Feita flor de Urtiga, sobre a língua, as ínguas, e as feridas. Meu nome pode ser vida. Luiz Jorge Ferreira
  • 70. 77 Morte, algodão nos orifícios, olhos ausentes e sem alma, Karma fria sem corpo. Moscas em redemoinho. Que das bocas caem, nas bocas e narinas, e nunca mais nunca nada. Nem que o Brasil faça um gol na Copa contra a Argentina. Meu nome pode ser talvez, outrossim. Ou encontro por acaso entre espermatozóides míopes, e óvulos afins. Podem ser caos, universo, e átomo. Atônito ato at ô cônico crônico. Quiçá explodir Bombas de Chocolate saudáveis e ou no avesso espalhar Spray(s) coloridos, e latas de laquê nos pelos do pênis. Japonês... Nordestino... Amapaense por destino de vôo do Loide, ou da Panair. Acne, Asma, ou Impingem. Meu nome é Luiz, e não outro que seja este mesmo, a Leste, ou Norte do Oeste. Poderia querer sim, ser o Não. Cárie, flato, e dor. Pus por fim, psiu sem P. Melodia, berro, grito, uivo, grunhido, se lua no céu... Suor! Se sol... Chuvisco. Ainda que Arisco. Poderia ser o amor. Gritando na mão do alfabetizado mudo. Eu cego. Poderia negar tudo E o meu podre olhar de ateu. Só procurar Deus. Para perguntar. - My Name? *** Luiz Jorge Ferreira
  • 71. 78 A MOÇA DE CINZA Pelas ruas tranquilas da Lapa nos anos 60, uma moça vivia cantarolando a música italiana “Santa Lucia”. De cabelos louros lisos e compridos, pele branca e pálida, quase sempre trajava um vestido cinza cobrindo os joelhos. – Ela é louca – dizia minha mãe. Fiquem longe dela. Pode ser perigoso. A jovem praticamente não saia de casa, mas ia comprar pão pela manhã bem cedo e ao findar da tarde. E, de vez em quando, rondava o quarteirão. Tão grande era o medo que minha mãe só deixava que eu fosse para a escola depois que a jovem regressasse da padaria. Com frequência eu ficava pronta com o uniforme azul marinho impecável, lancheira a tiracolo, sapatos lustrosos e permanecia sentada no banco do jardim da frente, aguardando a liberação da rua. Tudo para evitar que nos cruzássemos pelo caminho. Acontece que aos nove anos de idade eu ainda não entendia o perigo que ela pudesse representar. Seria contagioso? Ninguém me explicava. Apenas sabia que ela era assim devido a uma complicação do sarampo. Mas, assim como? Não exatamente louca como tantos casos psiquiátricos que muitos anos depois presenciei na Faculdade de Medicina com delírios, exageradas desinibições e gritos agressivos. Na verdade ela era simplesmente esquisita e solitária em sua ininterrupta cantoria napolitana. De certo deveria provocar irritabilidade para quem ouvisse o tempo todo a mesma música. Porém, como ela se isolava em sua casa, quem mais sofria provavelmente era sua mãe que, por sinal, também pouco aparecia. Apesar de ser simpática e educada, a matriarca não conversava muito e limitava suas saídas para compras de sobrevivência. Ambas não trabalhavam e... O que será que elas faziam o dia inteiro sozinhas dentro de casa? Não me lembro do nome da jovem. Aliás, pensando bem, eu nunca soube. Sempre a tratávamos como a louca da rua debaixo que saia pela manhã e à tarde para comprar pão cantando “Santa Lucia”. E só. O restante do tempo era como se ela não existisse. Vez ou outra os meninos zombavam dela, se bem que às escondidas. Acho que ela é uma bruxa, supôs um dos garotos. E essa leve hipótese fez com que todos se afastassem com receio de que seus olhos lançassem algum feitiço. Da minha parte, na época, eu só desejava brincar e estudar. Mesmo porque tinha um incentivo extra para ir bem na escola. Todo início de mês, ao ver notas altas no boletim, minha mãe, satisfeita com o meu empenho, me recompensava dando algumas moedas para que eu comprasse doces na padaria, dinheiro suficiente para escolher três guloseimas. Como era agradável ver a vitrine repleta de doce de abóbora em forma de coração, pirulito puxa-puxa, caramelo de leite, cigarrinho de chocolate, maria mole, doces em borracha, dadinho além, é claro, dos atraentes potes rotativos de vidros com diversificadas balas. A dúvida para escolher tornava o prêmio mais atraente. Eis que em uma tarde, na indecisão costumeira, meu coração acelerou ao ouvir uma voz cantando “Santa Lucia”. Sim, era a louca que se aproximava, antecipando seu horário de compra, talvez para fugir de uma chuva que prenunciava desabar a qualquer instante. Pela primeira vez não tive como fugir do encontro. O curioso foi que ela entrou na padaria exalando um perfume suave de jasmim. Ora, na minha concepção, eu sinceramente a imaginava fedida... Se ela usava quase sempre o mesmo vestido cinza, deveria não tomar Márcia Etelli Coelho São Paulo - SP
  • 72. 79 banho, não é mesmo? Qual o quê. Seu cabelo estava limpo, bem penteado, usava um discreto batom rosa e pela aparência eu julguei que ela devia ter menos que 30 anos de idade. Com calma ela entregou para o seu Teixeira, o dono da padaria, um caderninho em que se anotavam as compras para pagar tudo no final do mês. Não disse uma palavra, preferindo continuar com sua canção. Num relance olhou para mim e eu pude perceber seus grandes olhos verdes que pareciam bolas de gude...Bem que eu tentei puxar alguma conversa para satisfazer minha curiosidade infantil. Mas minha voz travou e não foi por hipnotismo ou maldição e, sim, por pura timidez. Apenas consegui sorrir, mas ela permaneceu alheia e saiu com uma bengala de pão debaixo do braço. Raios e trovões alertavam sobre a chuva, e eu resolvi não esperar e também fui para casa. Fiquei atrás da moça que andava devagar, arrastando os pés pela rua deserta, marcando o ritmo da velha canção. Assim que se iniciaram as férias de julho eu e minha família viajamos para o litoral e ao retornar soubemos que a jovem havia se mudado com a mãe. Depois de um ano de vizinhança saíram sem despedidas e sem ter conquistado nenhuma amizade. Nunca mais tivemos notícias. Até hoje quando lá em casa colocamos um CD e ouvimos Pavarotti ou Andrea Bocelli cantar Santa Lucia, minha mãe se inquieta: – Não gosto dessa música. Ela me lembra da louca. Interessante como passados quase cinquenta anos, grande parte morando em outro bairro e com tantos acontecimentos já vivenciados, não conseguimos nos esquecer dela. Uma moça que se isolou da vida e o mundo reforçou esse isolamento. Ao contrário da minha mãe, eu gosto de ouvir aquela canção. Sem dúvida, pela beleza da melodia. No fundo, talvez por querer acreditar que aquela jovem tenha conseguido, a sua maneira, encontrar um jeito de ser feliz. *** Márcia Etelli Coelho
  • 73. 80 Márcia Etelli Coelho COMEÇAR DE NOVO Preparo uma andança e nessa travessia recolho os sonhos, retalhos de cetim. No chão de estrelas, apenas eu e a brisa, coração leviano, caçador de mim. Corsário de Sampa, guerreiro menino que na roda viva aprendi a chorar. Saudade chegando , fiquei tão sozinho na ingênua certeza de sempre te amar. Mas olhos nos olhos, as rosas se calam, o tempo separa, fugaz é o amor. Detalhes, deslizes, nas brigas se exaltam, qual fera ferida ponteando o rancor. Dos bailes da vida restou acalanto. Dos anos dourados, fascinação. No conto de areia rolou esse pranto. Das velas içadas, porto solidão. A banda passou em total disparada. E eu, carinhosa não fiz parte do show. Castigo? Ilusão? Fim de caso? Que nada! Risquei a tristeza... E o mar serenou. Ao ver pastorinhas voltando com flores quis logo enfeitar a noite do meu bem. Brindar primavera que no trem das cores, bem antes das onze, emociona o viver. A minha aquarela dourou asa branca. No baila comigo são só dois pra cá. Que festa de arromba, feitio, força estranha: o mel do aconchego sem mais carcará. A chuva de prata das águas de março seduz a minha alma, só quer um xodó. Tu estavas tão lindo naquele abraço que o meu rancho fundo virou luxo só. Trocando em miúdos: Há séculos te amo! Eu não aprendi a dizer-te adeus. E como eterna onda que ronda o oceano, por ti, começaria tudo outra vez. ***
  • 74. 81 ALDRAVIAS IMPROVISADAS (*) (*)Aldrava é uma peça em bronze ou latão fixada na porta de entrada para se usar como batedor: ao invés de bater com a mão na porta para chamar o morador, utiliza-se a aldrava. Aldravia é um neologismo criado por um grupo de poetas na cidade mineira de Mariana, provavelmente em novembro de 2000, para identificar o movimento poético que iniciaram. Trata-se de uma forma insólita de fazer poesia, essencialmente minimalista, já que as palavras se consideram “palavras-versos”, e que são dispostas com um máximo de seis linhas e de um modo aleatório, sem se submeter a qualquer tipo de rima ou número de sílabas, nem ater- se à tônica. O importante é produzir poemas condensando-lhes o sentido com um mínimo de vocábulos. Meu primeiro contato com o “gênero poético” ALDRAVIA foi durante o XXIV Congresso Nacional da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores realizado de 11 a 13 de outubro de 2012, em Curitiba, Paraná. Como sou fã do minimalismo poético, após ouvir a apresentação de alguns desses versos, ousei rabiscar em meu bloco de anotações algumas tentativas, que a seguir lhes apresento: NOITES INSONES OUÇO SILÊNCIOS PERCORRO INFINITOS QUANDO LEVANTO COM PÉ ESQUERDO RESGUARDO-ME MANHÃS AFUGENTAM PESADELOS TRAZEM OUTRA PREOCUPAÇÃO Aldravias notívagas Aldravias reticentes TUAS PEIAS MEU NÓ CEGO: ATA-ME! RECIDIVAS DORES D’AMOR PRESENÇA SEMPRE EMERGENCIAL MINHA VIDA TRILHA SONORA APENAS INCIDENTAL Marcos Gimenes Salun São Paulo - SP
  • 75. 82 Aldravias contraditórias VERDADE, ACREDITE: HOJE CONTAREI OUTRA MENTIRA SOU FELINO NEGACIANDO DISTANTES PRESAS INTOCÁVEIS INSUPORTÁVEL SER AVESSO DA PRÓPRIA CONTRADIÇÃO Aldravias sem qualquer pudor PERCORRO TEUS CAMINHOS DESCUBRO TRILHAS PARADISÍACAS CONQUISTO TEUS ESPAÇOS SECRETAMENTE, DOCE TRANSGRESSÃO ALDRAVIO TEU CORPO EM SUAVE OUSADIA Aldravias de alcova TUDO CONSPIRA SECRETAMENTE GOZO, ENTREGA, PROIBIÇÃO BOCA LASCIVA DEVORA IGNORA QUALQUER PUDOR TUDO CONVERGE ETERNAMENTE AMOR, LASCIVIA, SOFREGUIDÃO Aldravias metalinguísticas PALAVRAS ALGOZES JULGAMENTOS DISTANTES JUSTIÇA IMPERFEITA DESDE QUANDO SEIS PALAVRAS SERÃO POESIA? PALAVRAS, ETERNO POTENCIAL PARA VIRAR POESIA Marcos Gimenes Salun Aldravias ao pé da lareira DIÁLOGO FEITO POESIA NADA FICA VAZIO AQUEÇO VERSOS CONTIGO MORANGO CHOCOLATE FOUNDUE VINHO TINTO NESTE CÁLICE BRINDANDO VOCÊ ***
  • 76. 83 VIVER É FAZER OPÇÕES Um preâmbulo Desde pequeno fui induzido a pensar na vida de forma bastante intuitiva, senão, quase instintiva. Meus pais, que pouca ou quase nenhuma instrução tiveram para poder me apresentar de forma mais didática o que é a vida, o fizeram pelo método que eles próprios haviam aprendido dela. Talvez pelos mesmos métodos que utilizaram para garantir sua contribuição genética à humanidade: a intuição e o instinto, ao me concederem a vida. Hoje, após mais de meio século de ter vindo ao mundo, pelo conhecimento inocente, mas extremamente sábio do instinto e da intuição de meus pais, me pego a refletir o que significa a vida que eles me deram e o que devo, afinal, fazer com ela. É claro que o tempo me fez conhecer muitas coisas que talvez meus pais jamais pensariam existir. É claro que os cenários que a vida me apresentou me possibilitaram ter contato com muita coisa que a meus pais seriam inconcebíveis, inimagináveis, despropositadas e, na maioria das vezes, ininteligíveis para dois simplórios semialfabetizados como eles foram. Saudosos, muito saudosos! Quanto eles me ensinaram... Recordo-me que logo no início de minha vida, ali pelos meus oito anos, talvez pouco mais ou pouco menos, eu já me julgava um sábio em potencial. Certamente foi nessa época que achei que o conhecimento que meus pais intuitivamente tentavam me transmitir era uma verdadeira porcaria. Ao lidar com o mundo e seus múltiplos ambientes que foram se apresentando diante de mim a partir desse momento de irreverência e rebeldia, fui entendendo que eu poderia muito bem me livrar do jugo do ensinamento que me queriam dar João e Eunice. Afinal, eu já sabia ler e escrever meu nome, e eles, ainda não! Foi uma pena, vejo hoje, não ter-lhes dado maior atenção em certas coisas que eles tentaram me ensinar desde sempre. Não sabiam, por exemplo, corrigir meus deveres de casa e isso me deixava constrangido. Naquela época eu não sabia exatamente o que era aquele nó na garganta e aquele aperto no peito quando a professora pedia para apresentar um trabalho com a opinião da mãe ou do pai, e o meu vinha só com um rabisco imitando uma assinatura. Hoje acho que era uma coisa boba: era só constrangimento. Vergonha não, pois eu tinha era um orgulho danado de meu pai e de minha mãe! Só porque não sabiam ler direito? Ora, ora... Eram meus heróis e nem fazia diferença que fossem semianalfabetos. Com o tempo eu fui entendendo cada vez mais a “falta de ignorância” de meus pais. Eles eram sábios, sim senhor, no seu jeito de me fazer entender que não se deve fazer “certas coisas”; eram sábios, sim senhor, no seu jeito de me punir pelo que eu já fiz de errado, ou quando fiz as tais “certas coisas”. Eles tinham um código de ética instintivo e também um código moral intuitivo e sábio para equilibrar esses ensinamentos. E por estes códigos secretos e íntimos eles foram me conduzindo. Uma necessidade Muito antes de meus pais morrerem, fato, aliás, não tão distante, eu já havia traçado um rumo para a minha vida, tal era a minha convicção de que já sabia de tudo o que esta me reservava. Sem as regalias proporcionadas por uma condição econômica privilegiada em minha infância ou juventude, sem quaisquer incentivos familiares diante da condição socioeconômica de meus pais, parti para a luta. Constituí família, tive filhos e conquistei muitas coisas. Outras ainda não. Sou feliz! Tenho uma família e muito do que nem sequer imaginava conseguir. Sinto falta de algumas coisas. Sinto falta de meus pais. Sinto falta da presença deles para continuarem a me ensinar os caminhos de hoje em dia. Marcos Gimenes Salun
  • 77. 84 Uma constatação Como sempre dizem, vivendo e aprendendo! Aprender é bom demais! Melhor que ganhar! Aprendendo se conquista, e conquistar, eu acho, é mais que ganhar. Conquistar é fincar uma bandeira de posse! È dominar! Ao pesquisar algo sobre este tema que me propus a escrever, (coisa que jamais João e Eunice, meus pais, fariam com tal consciência) eu me deparei com uma frase atribuída ao ator Woody Allen, dita por um de seus personagens em algum de seus filmes que não sei precisar: “Nós somos a soma de nossas decisões”. Fiquei pensando no que essa frase contribuiria para o meu momento de aprendizado. Achei que seria oportuno salientar alguma coisa sobre a frase achada ao acaso. De minha reflexão destaquei algumas coisas que talvez possam ser apropriadas ao tema. Dentre elas, entendi que o rumo de nossas vidas está intrinsecamente relacionado às nossas opções e decisões ao longo dela. Por exemplo: quando optei pela faculdade de jornalismo, em 1974, abdiquei da engenharia, medicina, direito, astronomia e dezenas de outras opções disponíveis naquela ocasião. No entanto, não excluí tais alternativas definitivamente, enquanto possibilidades de aprendizado e conhecimento. Apenas decidi por um caminho naquele momento que me pareceu mais oportuno ou interessante. Só que dessa escolha, por mais que fosse algo do momento, fui levado a elaborar cenários, possibilidades e alternativas de uma vida como jornalista, e não como engenheiro, médico, advogado, astrônomo, ou quantas mais carreiras “desprezei” naquele momento, em detrimento do jornalismo. Foi uma opção. Somei a esta, a decisão de me casar. Poderia ter escolhido ficar solteiro e ser um bon- vivant, o que jamais me propiciaria conhecer e aprender coisas da “vida de casado”. Se assim fosse, não teria minhas amáveis filhas, minha vida regrada (eu acho), o aconchego de meu lar (tenho certeza). Quem sabe eu nem tivesse meu aquário cheio de segredos, nem os meus gatos cheios de mequetrefes, carinhos e frescuras para cuidar e fazer parte de minha vida. E assim com tantas outras coisas. Uma coisa, a meu ver, quase sempre anula a outra: ser casado anula as possibilidades da vida de solteiro; ser honesto anula largamente a hipótese de não o ser; o mal anula o bem. E vice-versa. Quase sempre é assim. Descobri o mais importante: aprender e tomar decisões são coisas que devem ser feitas a todo o momento, desde o início, até o fim de nossa vida. Por isso neste instante ocorreu de lembrar-me da sabedoria que meus pais, João e Eunice, sempre me transmitiram sem qualquer técnica ou filosofia, mas a todo o momento, desde o início da minha vida, e até o fim da vida deles. E mais uma vez, preciso enaltecê-los extremamente, e agradecer eternamente por toda sua inocente “ignorância”. *** Marcos Gimenes Salun
  • 78. 85 NOITE DE INVERNO O inverno passa nervoso e célere sobre o telhado enrugado pelo frio e pela janela trêmula de medo dos fantasmas da noite de azeviche. Estamos em pleno inverno! A tarde me pareceu triste e sonolenta na fazenda onde fui passar o fim de semana! Até as vacas leiteiras passavam lentamente tentando apertar suas tetas túrgidas entre os quadris, por causa do frio. O sol, talvez com medo do frio, escondeu-se mais cedo, puxando o cobertor da noite sobre seus compridos pés que ainda mostravam os calcanhares na linha do horizonte. Um relâmpago ao longe, demonstrou a inquietação de uma nuvem carregada, que não respeitando o trânsito, bateu em uma colega que passou à sua frente. Foram duas grandes jamantas que se trombaram na estrada mais límpida do universo. Outras nuvens, não menos pesadas, começaram a se aproximar trazidas pelo vento, curiosas para verem o que estava acontecendo. Curiosas e assustadas foram chegando. Era inverno! Nos estados da região sudeste não é tempo de brigas entre nuvens, de formação de relâmpagos e de trovões. Alguma coisa deveria estar acontecendo nas alturas do céu. As nuvens mais leves foram se aproximando rapidamente. A natureza parecia ter pressa. O som dos trovões não demorou a chegar, pelas pequenas trombadas das nuvens apressadas. Assustados, os pássaros que não acreditavam em tempestades nessa época do ano, ainda brincavam de voar de árvore em árvore, como se brincassem de pique de esconder. Os galhos que começavam a ficar endoidecidos dificultavam o pouso desses mestres do voo ao entardecer. Os sabiás e os bem-te-vis que estavam prontos para o desafio do por do sol, tiveram que poupar a garganta sequiosa para saudar a despedida da tarde. O silêncio da terra permaneceu mudo, enquanto o barulho do céu tomou conta do universo. A terra ficou entrincheirada enquanto as bombas caíam sobre ela na forma de chuva e vento. Dois ou três raios que atingiram a terra destrincharam as árvores mais altas que enfeitavam o vasto capinzal que, por sortilégio do fazendeiro, não tinha gado. Foram duas horas de ataque aéreo sobre uma infantaria que não tinha forças para revidar. As luzes da terra se apagaram, talvez uma artimanha da própria terra para não ser vista pelo inimigo, mas, o ataque aéreo tinha holofotes que a todo instante iluminavam a terra com grande intensidade. Duas horas de combate onde apenas um litigante atacava, enquanto o outro resignado suportava tudo com grande paciência. A grande tempestade passou, algumas estrelas apareceram nas quinas das nuvens para bisbilhotar a terra. Durante a madrugada alguns relâmpagos atrasados, ainda se despediam nos confins do universo. Ao amanhecer, o sol nasceu renovado, de olhos límpidos, com a alegria de um recém- nascido que admira a mãe ao seu primeiro olhar da manhã, após acordar. A terra não se considerou ofendida ou derrotada, mas, agradecida porque tinha no ventre milhares de sementes que estavam ansiosas para mostrar a vida. Assim aconteceu. Uma semana depois, o sorriso das pequenas sementes se abriu para receber o batismo de uma bela manhã de sol, que fez esquecer todo o tormento daquela noite nervosa que parecia querer destruir tudo o que havia sobre a terra. *** Nelson Jacintho Ribeirão Preto - SP
  • 79. 86 SE NÃO É VERDADE Se não é verdade que vejo as estrelas Piscando e brincando à luz do luar! Se não é verdade que a lua me escuta E me conta segredos que me fazem sonhar! Se não é verdade que o murmúrio das águas Despertam as ninfas e as fazem sonhar! Se não é verdade que o canto que encanta É da linda sereia que habita no mar! Se não é verdade que as musas nos dizem, Enquanto dormimos, segredos de amor! Se não é verdade que os anjos nos levam À grandeza do Olimpo, num céu multicor...! A vida é uma farsa, não há no que crer, Mas, eu acredito que nada é falso, Por que, se assim for, na vida terrena, Não sou mais poeta, prefiro morrer...! *** Nelson Jacintho
  • 80. 87 MEU MARIDO FOI PARA A GUERRA Faz muito tempo que ele partiu. Colocou seu melhor uniforme, botas lustradas e novas, capacete, cinturão, e eu fiquei ali, na porta, orgulhosa e medrosa. Meu Deus, como eu amo este homem que vai salvar a Pátria de uma guerra suja! Ele está lindo indo para o quartel, tenho certeza de que logo ele será general, tamanha a coragem que tem. Sabe, meu marido foi para a guerra e eu sinto falta de ficar em seus braços à noite, quando o vente gemo de frio nas janelas e eu ficava ali, apertada bem junto dele. Às vezes eu acordo à noite abraçando o travesseiro que ainda conserva a sua loção de barba, que saudades, meu Deus, que saudades que tenho do meu marido... Faz tempo, os jornais dizem que a guerra vai demorar, que invadiram Paris, não sei como conseguiram com meu marido defendendo as pessoas fracas e as crianças, não sei, ele é um guerreiro bravo e valente, não tem medo de nada. Uma noite, faz também muito tempo, ouvi barulho na cozinha à noite. Ele, heroicamente levantou-se e, de arma em punho descobriu que era apenas o vento batendo na vidraça. Não recebo cartas, faz muito tempo. Ele não deve ter tempo de escrever, a guerra está cada vez pior, deu no rádio, as bombas caem o tempo todo em cima das casas, das escolas, das estradas de ferro, dos soldados. As pessoas me perguntam sobre ele. Eu respondo que hoje ele deve ser general, faz tanto tempo que foi para a guerra e ele sempre foi muito corajoso, deve estar comandando batalhões de homens para defender o mundo do comunismo, isso mesmo, do comunismo! Hoje lavei e passei todas as suas camisas, engomei os colarinhos e punhos, coloquei seu terno de missa no sol, não sei, alguma coisa me diz que ele irá voltar hoje com seu sorriso largo entrando pelo portão. Tenho certeza, as flores abriram, o verde do jardim está mais verde, brilhando. Tinha até um passarinho cantando na goiabeira que até me lembrou o seu assovio chegando em casa... Já me troquei também, coloquei meu melhor perfume, coloquei a água do café e um maço de cigarros Kent com o cinzeiro no seu lugar à cabeceira da mesa. Meu coração está explodindo de alegria. Batem palmas na minha porta. Tem um carro do exército e dois soldados muito elegantes. Devem ser da guarda de honra, afinal, depois de tanto tempo na guerra meu marido deve ser general. Corro alegre de encontro aos bravos soldados, mas meu marido não está no carro, o que será que houve? Aonde está meu marido? Recebo um envelope lacrado e ouço apenas alguma coisa tipo “sinto muito” enquanto minhas lágrimas caem. Meu Deus, como eu amo esse homem... *** Roberto Antonio Aniche São Paulo - SP
  • 81. 88 FECHE A PORTA Feche a porta... Antes que eu me arrependa e peça para você ficar. O tecido de nossa vida já está esgarçado, o vaso quebrado, a pele arranhada, a casca grossa de tanto apanhar, e o coração endurecido de tanto bater. Feche a porta... Antes que o teu perfume transborde pelo espaço e eu tenha que respirá-lo, antes que o meu coração batendo rápido se antecipe ao golpe e se quebre espalhando pedaços envenenados para atingir o seu. Feche a porta... Antes que o eco de nossa última conversa faça com que nossos pensamentos alimentem o ódio que nos cerca e que nos fere, antes que a nossa voz se faça ouvir novamente em gritos roucos de paixão e raiva. Feche a porta... Porque se eu ouvir sua voz de novo posso esquecer tudo, Porque minhas palavras de cafajeste se tornarão a poesia de sua vida e você vai se entregar de novo aos mesmos vícios e amores, falando palavras de prazer sem nexo em meu ouvido. Feche a porta... Antes que as palavras, o perfume, o coração se entreguem totalmente despindo a alma de todos os pudores, antes que o breve esquecimento de nossas vidas traga-nos de volta à paixão desenfreada, desiludida, impura, sensual. Feche a porta... não, primeiro saia sem olhar para trás, sem arrependimentos de tanta discórdia, sem alimentar mais esse amor impossível de existir e que deveria ter sido morto no passado distante. Só depois feche a porta. Não quero ver suas lágrimas misturando-se com as minhas. *** RobertoAntonioAniche
  • 82. 89 O PAPAI-NOEL LADRÃO Na calada da noite, um vulto, sorrateiramente, pisa na relva ressequida da imponente mansão do Morro dos Ingleses, no Bexiga. Em seguida, o som agudo do estilhaçar de uma janela. A luz bruxuleante de uma lanterna de mão, percorrendo o ambiente. Até que... O encontro com uma cadeira de rodas. Nela, um velhinho de cabelos brancos como a neve. — Opa! O que o senhor está fazendo aqui? — Eu é que pergunto, afinal esta casa é minha! Qual é o motivo da sua presença, vestido de Papai Noel, quebrando a vidraça e interrompendo o meu sono? Ainda faltam cinco dias para o Natal! — Peço desculpas! Não é a minha intenção... — Então, qual é? Entrar na casa dos outros é crime! — O senhor tem razão, mas, eu não sou ladrão. Estou procurando... — Procurando o que? — Uma boneca que vira os olhos e fala “papai e mamãe” e também um trenzinho elétrico para dar aos meus filhos. — Então, por que não foi procurar numa loja de brinquedos? — Aí é que está o problema... Não tenho dinheiro, estou desempregado. — Qual é a sua profissão? — Coveiro. — Puxa! Bela profissão! — A minha mulher quer que eu mude... Por falar nela, eu gostaria de presenteá-la com um relógio de pulso, mas, é tudo tão caro... O senhor pode me ajudar, mesmo que seja um empréstimo? Um dia, eu prometo pagar. — Que piada! Como posso acreditar em você? Entra na minha casa, quebra uma vidraça, vestido de Papai Noel... Afinal, por que escolheu esta casa? — Nesta região, só dá gente muito rica. Escolhi a sua casa por ser muito bonita! — Demonstra bom gosto! — Que adianta ter bom gosto sem dinheiro? Desempregado como estou... Não encontro outro emprego... — Isto é verdade... O grande escritor italiano Giovanni Papini disse que “o dinheiro é o estrume do diabo”. Ninguém vive sem ele... — Por favor, o que quer dizer estrume? Eu só tenho o primário. — Ah! Estrume significa bosta, merda. — Agora, sim, entendi! O senhor fala muito difícil... — Bem... Vamos pular esta parte. Qual é o seu nome? — Dimas. — Que coincidência! O mesmo nome do bom ladrão que foi crucificado com Jesus Cristo, de acordo com os evangelhos. — Ele deve estar no Paraíso! Enquanto isso, eu estou na Terra, ou melhor, no Bexiga, tentando conseguir uns brinquedos... — De qualquer maneira, é melhor do que ser crucificado. Mudando de assunto: você está com fome? Rodolpho Civile São José dos Campos - SP
  • 83. 90 — Muita! — Então, vamos até a cozinha. Apague a sua lanterna. Na cozinha. — Olhando o seu rosto... Você é jovem. Precisa fazer a barba! — Mas, Papai Noel tem barba branca e comprida! — Onde conseguiu esta roupa? — Num brechó. O senhor está sozinho? — A minha filha e o meu genro foram a um baile. São moços. Devem aproveitar a vida, enquanto ela sorri. — Isto é verdade... Velho só fala em doenças, remédios e morte. Não sei se é o seu caso... — Sou médico aposentado, já com os pés na eternidade. Por força da minha profissão, fiz da minha vida um rosário, um cordão de contas, alegrias e sofrimentos mesclados, sem explicação. Enquanto isso, ela, a morte, sempre a espreita... Você entende bem disso: é coveiro. Afinal, por que está desempregado? — Sorte sua que é médico! É duro suportar um coveiro chefe, briguento, implicante e mandão. Um chato! Tão chato, que até os mortos perdem a vontade de serem enterrados! — Nossa! Gostei de sua explicação. Bem original! De qualquer forma, cada Ser tem neste mundo um destino... — É verdade! O meu é de ser um Papai Noel de saco vazio. — O extraordinário, meu amigo, é saber que num saco pequeno e vazio podem morar os sonhos, as ilusões, a felicidade... — Principalmente para os meus filhos! Por este motivo, não posso decepcioná-los e estou aqui, conversando com o doutor. — Não é necessário o título, só o nome: Jorge. A partir de hoje, somos amigos. Você conseguiu afastar de mim a minha inimiga: a solidão. Velho só vive assoprando as cinzas do passado. E elas só trazem sofrimento... — Mas, isto não leva a nada... Tudo acaba na terra... Nisto tenho bastante experiência. — Você tem medo da morte? — Não! Ela me ajuda a ganhar o pão. — Bem, visto deste ângulo, você tem razão! Você é um verdadeiro sábio! — Que exagero! Eu sou um simples coveiro, atualmente desempregado, com o firme propósito de levar sonhos, naturalmente, dependendo de sua colaboração! Não vai lhe fazer falta alguns brinquedos... — Um dia, num futuro bem distante, sem pressa, quando eu bater os “borzeguins” e, por acaso, você for o coveiro... — Ah, eu o enterrarei, com muito prazer! Considerando a nossa amizade... — Gostei da sua franqueza e solidariedade! Estou profundamente impressionado! — E disposto a me ajudar? — Sim! O que lhe falta, eu tenho aqui encaixotado, sem uso, mofando. — Então, eu vou lhe fazer um favor... — Exatamente! Que faça bom proveito! E, para completar, darei um relógio de pulso que pertenceu à minha falecida esposa. Estará melhor no pulso de sua amada. Por favor, saia pela porta da frente, para não quebrar outra vidraça. Apareça sempre! Só não quero vê-lo no cemitério! Lá fora, uma intensa neblina cobria o Morro dos Ingleses. O passo cadenciado do guarda da rua... Ao vê-lo: — Boa noite, Papai Noel! — Boa noite! Feliz Natal para você e sua família! Com um ligeiro aceno, Papai-Noel sumiu na densa bruma. *** Rodolpho Civile
  • 84. 91 Rodolpho Civile A PRESENÇA DAQUELE HOMEM Dois de novembro, Finados. O dia que se homenageia os mortos. A ida aos cemitérios. Por tradição religiosa, a visita aos túmulos, as flores, as velas, as orações, a lembrança daqueles que partiram para a eternidade. Dia para reflexão: “Tu és pó e ao pó voltarás” – diz a Bíblia. “Nascemos para morrer e morremos para viver” – acreditam os hindus. Cemitério: lugar onde se enterram os mortos. Crematório: lugar onde se reduzem em cinzas os cadáveres. Duas opções a escolher, de acordo com a vontade, a crença e a sensibilidade da mente humana... É obrigatório o uso, quer queira ou não... Nesta data, eu fico constrangido, tristonho, sempre desejoso de saber alguma coisa. Pretensão minha, querer conhecer e decifrar os mistérios do imponderável, da essência das coisas, do início e do fim, da vida e da morte. Pensar... Pensar... Para que? A razão não explica, mas a religião conforta, ilude, dá forças para prosseguir no sinuoso nevoeiro e inexplicável caminho da vida. Viver! Viver! Sem perguntar! Levando flores, encaminhei-me ao cemitério. Túmulos abandonados, sujos, abertos, roubados... Tenebroso... Esquecidos pelas autoridades... Também... Nem cuidam dos vivos, por que iriam se preocupar com os mortos? Esquecem o homem, que cedo ou tarde, estará lá. No “Livro dos Mortos” dos antigos egípcios consta: “O que restou das poderosas mansões e palácios? Abateram-se suas fortes muralhas, ruíram as casas no pó. E ninguém volta do reino escuro para dizer-nos como está, até que também nós chegamos lá onde todos desaparecem... Olhe, ninguém levou consigo as suas coisas. Olhe, ninguém que foi até hoje voltou.” Cheguei ao túmulo da família. Espoliado... A lápide suja. Das fotos incrustadas nos latões de bronze, só as marcas. Foram roubadas.Até a portinhola de entrada tinha sumido. Que tristeza... Encontrei somente a fotografia de um homem. Um verdadeiro milagre! Olhei para ele... Meu pai! Roubaram tudo, só a foto dele ficou! Muito emocionado, caí de joelhos. Chorei, chorei, chorei muito! Até que senti no meu ombro a mão calosa e carinhosa de um ser que muito amei. — Não chore meu filho, não chore! Eu não estou só: a sua querida mãe está ao meu lado! Você foi e sempre será muito amado por nós. — Trouxe flores, querido pai. — Obrigado! Elas enfeitam a vida e a morte. — Tenho muitas saudades... Sinto muito a falta de vocês... — Nós também sentimos a falta de você! Mas, querido filho, é a Vontade Divina! Levante, levante, meu filho! Que o anjo da guarda o proteja sempre! — A bênção, meu pai! Ele estendeu a mão e eu a beijei com respeito e amor. ***
  • 85. 92 AZUL Confirmaram-me o conflito de um certo vazio Outros, um excesso de essência e não de flores De ambos, no mundo, somam-se todas as dores Sobrando aos poetas as rimas por um fio Enfim, faça-se o amor, não a guerra Dêem um fim aos enigmas e mistérios Com ardentes cantos em saltérios Que engalanam todo o azul da terra De peito aberto com muita dor Os pássaros ainda cantam à alma E assim encantam a flor As flores, os pássaros, doces seres Dizem com muita calma: Ressonância em paz é só quereres *** CONSELHO Antes pulávamos de galho em galho. Daí andamos nas matas e pradarias. Hoje, vamos de carro às padarias! Amigo, busque a vida saudável, Com muito amor, sol e ar. Troque o abrir por descascar! *** Sérgio Augusto de Munhoz Pitaki Curitiba - PR
  • 86. 93 CRIANÇAS Empoeiradas crianças nos faróis Esfarrapado viver de esquinas Mergulhadas em metálicos ruídos Sinistras criaturas de sedução selvagem Cambaleiam argumentos Deglutindo a própria fome. Na latitude de seu mundo Extensível a poucos metros Rogam o pão de cada dia Suplicam a infância perdida Amaldiçoam o verde do semáforo. *** PESCADOR Com os olhos do corpo eu vi Vindo do mar o pescador Num barco antigo, incolor. E na areia a mulher que ri Com os pés descalços no chão Agitando, em aceno, a mão. Com os olhos do espirito eu vi Humildade no corpo sem jeito A fé na medalha do peito. No riso redondo alegria A saudade no abraço apertado E um amor descabelado. *** Sônia Regina Andruskevicius de Castro São Paulo - SP
  • 87. 95 V Letra de Estudante XII Jornada Médico Literária Paulista VII Jornada Nacional da Sobrames Botucatu - São Paulo 25 a 29 de setembro de 2013 Primar Plaza Hotel ARIANE GARCIA | 97 BRUNO GUERRETA BELMONTE | 99 GABRIEL BERG DE ALMEIDA | 100 NATANAEL S.ADIWARDANA | 102 Textos de estudantes da Faculdade de Medicina de Botucatu selecionados pelos membros da Academia Botucatuense de Letras
  • 88. 97 AO QUE EU DARIA O NOME DE AMOR quis você por inteiro, o dia todo, todo dia uma vontade louca, arritmias quis relatos, fatos, nada exatos, olhares quis sorrisos, risos, idéias loucas, trocas, roucas roupas azuis quis você que me confunde a alma que derrubou meu ser , sem calma quis por horas, bolas quem desviou minhas sinapses e criou lapsos em minha memória quis, procurei, me perdi em cores e dores amores? que jamais vivi que mal conheci loucura? que é cura de minha sanidade infeliz que é cura de uma vida sem raiz de dias sufocados e atados quis, quero você dia, noite inteiro quero tocar, sentir você só. basta-me *** (sem titulo 1) Decidi por afastar-me Tentar olhar de longe De outros ângulos De fora de mim Assim Sem tentar ultrapassar Os edifícios construídos entre nós Muros, barreiras, edifícios É difícil São nós Dúvidas Vidas Ávidas (de amor) *** Ariane Garcia (Aluna do 4º ano de Medicina)
  • 89. 98 Ariane Garcia MÚSICA A música liberta, a música intensifica emoções, une e reúne pessoas, a música é a arte de representar, de sentir, de exprimir. Música é forma de linguagem, é comunicação, é sensação, é identificação. A música inspira, e também nasce da inspiração. A música não permite conceitos e significados fechados, a música é... MÚSICA! Quem sabe música seja a própria vida e se confunda com ela. A música de nossos próprios sons, dos sons que nos circundam, e também daqueles que nem sempre nos permitimos escutar - aquela melodia diária dos lugares em que passamos usualmente e que já deixamos há muito de ouvir. Muitos dizem inclusive que a história da música confunde-se com a própria história do desenvolvimento da inteligência e da cultura humana. Enfim, a música é um fenômeno social, certamente é um pouco, ou melhor, é “um muito” de nós. *** (sem título 2) olhar baixo ombros cansados coração infartado pensamentos preocupados caminhos fechados cabeças prontas afrontam-me perguntas sem resposta fugas sem coragem paradas sem vontade vontades inibidas boicotadas pelo espaço pelo tempo tempo presente que tão pouco me dá de presente que não o pânico, o surto, o cansaço e o descaso o que fazer? como viver enquanto há apenas a sobrevida? como lutar quando os ombros cansados paralisam a pernas? como abrir caminhos quando os olhos não enxergam o horizonte? então, revolto-me rebelde e o coração já infartado insiste em bater por um longo caminho aberto: a revolução para este tempo presente. ***
  • 90. 99 PALAVRAS Palavra imunda suja intensa. Palavra que não sai de mim. Palavra que entra com a fumaça do meu cigarro, me invade, corrói, me destrói. Palavra que me muda que expõe, que me torna frágil. Palavra do rubor, da dor, do caos. Palavra da redenção, do amor, do tesão. Palavra que mata, que me vive. Palavra que traz à superfície o raso onde me afoguei. Palavra sua, que me lava, enxágua o meu e a alma minha. *** Bruno Guerreta Belmonte (Aluno do 4º ano de Medicina)
  • 91. 100 Gabriel Berg de Almeida (Aluno do 4º ano de Medicina) CRÔNICA DE AGUDOS Não tenho muitas claras lembranças da minha infância, mas tem imagens nítidas que não me saem da cabeça.Aquele vai e vem do interior do Mato Grosso do Sul deixou cenas inconfundíveis na memória daquela criança desajeitada. Pessoas vestindo vermelho, morando em barracos muito pobres na beira da estrada, sempre carregando bandeiras no mesmo tom de vermelho do vestuário. Crianças correndo no acostamento. Panelas por cima de tábuas e fogueiras. Barracos, muitos barracos. Mas aquela criança que eu era nunca se perguntou o que tudo aquilo significava. Aliás, nunca ninguém havia perguntado a ela o que ela pensava daquilo tudo. Só se ouvia o senso comum, o preconceito. Aquilo é o MST. Aquilo rouba terra. Aquilo não quer trabalhar. Quando cheguei à universidade, pude olhar melhor ao meu redor. Fui presenteado com colegas dos mais diversos pensamentos e atitudes e, ainda, tive a oportunidade de ver o diferente, aquilo que eu não estava acostumado, que fugia do meu padrão. Quando o meu centro acadêmico me propôs que fôssemos ao acampamento do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, confesso que hesitei. Senti certa insegurança de ir atrás de algo tão diferente e que, falo sem vergonha, eu estava completamente tomado pelo preconceito. Meio a contragosto, mas indo na onda dos meus amigos, topei. Vamos ver o que a gente encontra nesse lugar. Bom, de começo, já adianto que não encontramos, não, gente que rouba terra e gente que não quer trabalhar. Fui surpreendido por um grupo sério de pessoas que lutam por um ideal. O ideal da reforma agrária e mais, o ideal de uma sociedade diferente. Fui surpreendido por uma receptividade sem tamanho. Fui surpreendido por pessoas inteligentes e que pensam além do nosso cotidiano. Fui surpreendido por pessoas que querem um projeto maior que o individualismo sem limites ao qual estamos submetidos hoje em dia. O assentamento Rosa Luxemburgo abriga um total de 66 famílias, distribuídas por lotes previamente sorteados entre os integrantes do movimento. Uns geram bons frutos, outros ainda vivem o estigma dos longos anos de empobrecimento do solo pelas florestas de eucalipto. Mas o mais interessante foi ver a relação daquelas famílias com a terra. Eles plantam, eles colhem, eles respeitam o pedaço de chão que têm. As famílias que a gente visitou tem muita dificuldade financeira, sofrem com falta de saúde e dificuldade para educação, mas eles têm algo de valor inestimável: consciência. O nível de entendimento de mundo e de como ele funciona é sem igual. Eu vi, eu conversei, eu visitei, eu fui até a casa deles e posso afirmar sem medo que tudo aquilo que eu pensava ou tudo aquilo que me falavam estava errado. O movimento não é homogêneo? O movimento não é homogêneo. Mas assim como tem gente errada no MST, tem gente errada na polícia, tem gente errada na universidade, tem gente errada no comércio, tem gente errada no legislativo, no executivo e no judiciário. Tem gente errada por todo Brasil. E se a luta desse povo não tiver seus objetivos concretos alcançados, tenho a plena certeza de que todo o esforço já valeu para, pelo menos, manter viva a ideia de uma sociedade mais justa, igualitária e humana para todos nós. ***
  • 92. 101 CONFISSÃO Não sei se já o fiz, Mas confesso minha problemática poética. Faço poesia torta, sem rima, sem musicalidade, sem simetria, sem métrica. E não é que de repente, como em um surto prosaico, meus dedos se deslizam para a prosa? Os versos, lentamente, viram frases completas. As estrofes? Transformam-se em parágrafos descomportados. Tenho prazer em escrever assim: de maneira livre, sem proporcionalidade, despreocupado em rebuscar a linguagem. Tenho prazer em escrever o que querem ler: cotidiano, sentimentos, filosofias... Tenho prazer em escrever o que sai da minha cabeça, verdadeiras gaivotas migrando para o papel. E a poesia... Ah, a poesia foi-se tarde! Devo admitir que sou eternamente entregue à minha querida prosa nada romântica! *** Gabriel Berg de Almeida
  • 93. 102 Natanael S.Adiwardana (Aluno do 5º ano de Medicina) ÁGUA DE SONHOS Quero mil anos num lapso Cem histórias num brilho Ser história Sem demora Mas a vida não passa Se arrasta. Não me aguento, preciso ser Tenho pressa. Conta as horas Não aguento Pois os segundos são água rica de sonhos Se demorar Temo me afogar. *** A VIDA COMO ELA NÃO É (aos soberbos) Deixa o mato secar, Deixa o rio morrer, Deixa o boi pastar, Deixa o dinheiro crescer. Vê o mato secar, Vê o rio morrer, Vê o homem suar, Vê o dinheiro crescer. Sente o mato secar, Sente o rio morrer, Sente o boi engordar, Sente o dinheiro crescer. Morre com o mato a secar, Morre com o rio a morrer, Morre com o homem a chorar, Morre com o dinheiro a crescer... Veja o mato a expirar, Sinta o rio fenecer, Mate o homem a pastar, Cadê o dinheiro? *** CONFISSÃO Desejo de falar com a boca fechada, o peito aberto, Pelas janelas da alma. ***
  • 94. 103 O MEDO DOS PÁSSAROS Dentro, Abaixo de tua pele Sente e sabe que sente. No olhar de cada dor Visão de todo ódio Prisão de cada medo Treme nas pontas de teus dedos. Fundo, nas entranhas, escuta O arrepio da alma Por cada sofrer. Abismo a revolta contida, Volta a mão estendida Sangra o choro a pedir. Lembra que só saindo de dentro, indo ao redor, subindo do fundo e voando do abismo É que verás o sorrir. Sai do penhasco Resgata tuas lágrimas Traga tuas forças Descubra-se não invencível Mas inabalável sobre as derrotas. Pois valerá uma vida profunda? Adiantará não conhecer o céu e os ventos sob suas asas? Liberta-te pássaro jovem! Voa sobre o medo da queda Joga-te de cabeça nos teus sonhos de ventos. Ensina também teus amigos Para que juntos sigam mais leves Trocando frentes e brisas Sem jamais desistir do caminho. Você nasceu para muito além da superfície. *** CONCLUI Toma tua bandeira contra o senso comum. Pois tu tens, mais que ninguém, a juventude do corpo, o conhecimento do saber, a paixão pelo que virá. Anseia o que sonhas Crês nos teus desejos Liberta tua pele para o toque da vida. Não tenha pressa de conhecer ou passar por sua história Gasta teus dias com experiências de alegria Da justiça e da dificuldade. Sente intensas as maravilhas de querer Estudar Amar Tu próprio Eu, Outrem. A liberdade de amar e viver onde quer que pense e vá. *** Natanael S.Adiwardana
  • 95. 105 VI A Cidade de Botucatu XII Jornada Médico Literária Paulista VII Jornada Nacional da Sobrames Botucatu - São Paulo 25 a 29 de setembro de 2013 Primar Plaza Hotel Algumas informações sobre a cidade-sede do evento
  • 96. 107 A CIDADE DOS BONS ARES O nome da cidade vem de Ibytu-katu, que em tupi significa “bons ares”. Em 1720 era a designação dada às terras atribuídas em sesmarias no interior paulista. Os mistérios e lendas que ainda envolvem Botucatu datam do período pré-cabralino, quando teria sido ponto de passagem no caminho para o Peabirú, trilha lendária que ligava o litoral atlântico à terras peruanas. O povoamento, de fato, teve inicio entre o Ribeirão Lavapés e a Praça Coronel Moura, onde se concentrava parte da tribo dos índios caiuás. Os primeiros sinais do crescimento vieram em 1830, quando fazendeiros decidiram subir a cuesta e povoar as terras ainda desabitadas. Em 23 de dezembro de 1843 – doação de terras para a criação do Patrimônio da Freguesia de SantAnna de Botucatu, pelo Capitão José Gomes Pinheiro Vellozo, considerada, para efeitos históricos, a data de Fundação de Botucatu. Em 19 de fevereiro de 1846 – criação da Freguesia do Distrito do Cimo da Serra de Botucatu. Em 14 de abril de 1855 – elevação da freguesia à categoria de vila e emancipação político-administrativa. Em 20 de abril de 1866 – criação da comarca de Botucatu. Em 16 de março de 1876 – elevação da vila à categoria de cidade. (Lei nº 4.370 de 07 de abril de 2003). Botucatu, que no passado chegou a representar ¼ da extensão territorial do Estado de São Paulo, está localizada na região centro sul do Estado, ocupando hoje uma área de 1.486,4 km2. Faz limites com os municípios de Anhembi, Bofete, Pardinho, Itatinga, Avaré, Pratânia, São Manuel, Dois Córregos e Santa Maria da Serra. Localizada a 224,8 Km da capital, a ligação é feita pelas rodovias Marechal Rondon e Castelo Branco. O Marco Zero está localizado na Praça Emílio Pedutti (Bosque). A cidade possui clima ameno (temperaturas médias de 22º C) e altitude relativamente elevada, que varia de 756 m na baixada (antigo matadouro) a 920 m no Morro de Rubião Júnior (ponto mais alto). Conhecida como “A Cidade dos Bons Ares, das Boas Escolas e das Boas Indústrias”, a cidade conta com um sistema de ensino reconhecido internacionalmente. O destaque é o Campus da Unesp, que oferece vários cursos de graduação e pós-graduação nas áreas de Biomédicas, Veterinária, Zootécnica e Agrárias. O Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina é um dos mais conceituados do país e atende pacientes de todas as regiões brasileiras. Botucatu é uma ótima cidade para quem pretende investir. O perfil industrial é bastante diversificado, oferecendo oportunidades em todos os setores. Algumas das principais empresas brasileiras estão situadas em Botucatu: Duratex S/A, IndústriaAeronáutica Neiva/Embraer, Induscar/ Caio, Hidroplás, Bras-Hidro, Staroup, Café Tesouro, Eucatex S/A, e Centro Flora/Anidro do Brasil, entre outras. O comércio também tem crescido bastante nos últimos anos. Além de empresas locais de tradição, as principais lojas de rede também estão instaladas na cidade. Na área agrícola, a atividade que está em pleno desenvolvimento é a citricultura. Como diz o slogan “Bons Ares”, Botucatu possui temperatura agradável (média 22ºC). A brisa constante é uma característica, pois a cidade localiza-se no alto da serra (Cuesta de Botucatu). Quem vem a Botucatu não pode deixar de conhecer suas belezas naturais: o Rio Tietê, em cujas margens formam-se bairros pitorescos (Rio Bonito, Mina, etc.); a Fazenda Lageado (UNESP), a Igreja de Rubião Júnior; as dezenas de Cascatas e Cachoeiras, entre elas a “Véu da Noiva”; as formações geográficas que geram lendas como as Três Pedras, Gigante Adormecido e Cuesta e o Morro do Peru. (Fonte: Site oficial da Prefeitura de Botucatu: http://www.botucatu.sp.gov.br/)
  • 97. 109 VII Conheça a Sobrames XII Jornada Médico Literária Paulista VII Jornada Nacional da Sobrames Botucatu - São Paulo 25 a 29 de setembro de 2013 Primar Plaza Hotel Algumas informações sobre a sociedade promotora do evento
  • 98. 111 REGIONAIS E SEUS PRESIDENTES SOBRAMES NACIONAL (Sede atual no Estado do Paraná) Presidente: Dr.Sérgio Augusto de Munhoz Pitaki (PR) REGIONAIS PRESIDENTES Alagoas Dr.José Medeiros Amapá Dra.Ana Higina Pereira Agra Amazonas *** Dr.Simão Arão Pecher Bahia Dr.Bruno da Costa Rocha Ceará Dr.Celina Corte Pinheiro de Sousa Distrito Federal *** Dr.Cláudio Luiz Viegas Espírito Santo *** Dr.José P.Di Cavalcanti Junior Goiás Dr.Fausto Gomes Maranhão Dr.Arquimedes Viegas Vale Mato Grosso *** Dr.Odoni Gröhs Mato Grosso do Sul Dr.Hugo Costa Filho Minas Gerais Dr.Ernesto Lentz de Carvalho Monteiro Pará Dr.Alfredo Pereira da Costa Paraíba *** Dr.José Ribeiro Faria Sobrinho Paraná Dr.Sérgio Augusto de Munhoz Pitaki Pernambuco Dr.Cláudio Renato Pina Moreira Piauí Dra.Kátia Marabuco Souza Rio Grande do Norte *** Dr.Francisco Edilson Leite Pinto Junior Rio Grande do Sul Dr.Luiz Alberto Fernandes Soares Rio de Janeiro Dra.Rosicléia Matuk Rondônia *** Dr.Viriato Moura Santa Catarina Dr.José Warmuth Teixeira São Paulo Dra.Josyanne Rita de Arruda Franco Sergipe Dr.Lúcio Antonio Dias Prado Tocantins *** Dr.Odir Rocha *** Nestas regionais não foi possível identificar e/ou confirmar os atuais presidentes. Os nomes indicados acima foram obtidos no site Wikepédia em 05 agosto de 2013 e podem se referir às pessoas de contato ou que já exerceram a presidência, mas que no momento não respondam pela regional. (http://pt.wikipedia.org/wiki/ Sociedade_Brasileira_de_M%C3%A9dicos_Escritores) PRESIDENTE DA ABRAMES (Academia Brasileira de Médicos Escritores) Dra.Juçara Regina Viegas Valverde (RJ)
  • 99. 113 REGIONAL DO ESTADO DE SÃO PAULO A Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, Regional do Estado de São Paulo, foi fundada em 16 de setembro de 1988 e congrega mais de cem membros titulares, acadêmicos, colaboradores, eméritos, honorários e beneméritos. Basicamente a sociedade é constituída por médicos escritores de literatura NÃO- CIENTÍFICA, além de escritores de outras formações profissionais (advogados, engenheiros, jornalistas, dentistas, arquitetos, etc..). PIZZAS LITERÁRIAS Em 1989 surgiu a idéia de se reunir os colegas ao redor de uma mesa de pizza, como acontecera por ocasião da fundação da entidade. A reunião mensal tornou-se uma tradição e foi intitulada “Pizza Literária”. Desde então é realizada em uma pizzaria de São Paulo, com uma freqüência que costuma beirar trinta pessoas. Nesta, além de se saborear uma deliciosa pizza, tomar um chope e bater papo com os amigos, tem-se a oportunidade de ouvir os trabalhos dos colegas e também apresentar os seus. Tem-se, também, a possibilidade de encontrar colegas de outras especialidades e formados nas mais diversas faculdades, além de sócios não médicos das mais variadas profissões. Todos com uma paixão em comum: a literatura. As reuniões de 2013 têm acontecido na terceira quinta-feira de cada mês, na pizzaria BONDE PAULISTA, na Rua Oscar Freire, 1597 – à partir de 19h30. JORNADAS E CONGRESSOS A cada dois anos a Regional de São Paulo promove uma Jornada Médico-literária. Estas já se realizaram em diversas cidades do interior paulista, e em 2009 na própria capital do Estado: Jundiaí – de 27 a 29 de setembro de 1991 Bragança Paulista – de 28 a 30 de maio de 1993 Santos – de 24 a 26 de novembro de 1995 Campos do Jordão – de 28 a 30 de agosto de 1997 Águas de São Pedro – de 16 a 19 de setembro de 1999 Botucatu – de 27 a 30 de setembro de 2001 Campos do Jordão – de 25 a 28 de setembro de 2003 Serra Negra - de 22 a 25 de setembro de 2005 Jundiaí – de 27 a 29 de setembro de 2007 São Paulo - de 17 a 19 de setembro de 2009 Itu - de 22 a 25 de setembro de 2011 Em 2013 a XII Jornada Médico Literária Paulista está sendo realizada em Botucatu-SP. Nos anos pares é realizado um Congresso Nacional da SOBRAMES. Em 1994 e 1998, este ocorreu em São Paulo, organizado por nossa regional. O XXIII Congresso Brasileiro aconteceu em junho de 2012 na cidade Curitiba – PR. O próximo congresso será realizado no Estado de Pernambuco, em 2014. EVENTOS INTERNACIONAIS Além da existência de regionais da SOBRAMES na maioria dos estados brasileiros, seus membros também participam em algumas associações em outros países, como é o caso da LISAME - Liga Sul Americana de Médicos Escritores, com sede em Buenos Aires – Argentina; UMEM – União
  • 100. 114 Mundial de Escritores Médicos, com sede em Lisboa – Portugal, cujo congresso se realizou em Viana de Castelo - Portugal, de 27 de setembro a 3 de outubro de 2004, contando com representação da SOBRAMES paulista; UMEAL – União de Médicos Escritores e Artistas de Língua Lusófona, com sede em Lisboa – Portugal, dentre outras. PUBLICAÇÕES Jornal - Desde 1992 a SOBRAMES-SP publica o informativo mensal “O Bandeirante” que é distribuído aos membros da regional paulista, diversos confrades de outras regionais, além de entidades culturais no Brasil e no exterior. Por vários anos publicou o suplemento literário, as “Páginas Sobrâmicas”, trazendo textos literários dos membros da Regional de São Paulo. À partir de 2001 a publicação ganhou o título de “Suplemento Literário”, e continua sendo publicado mensalmente, como encarte do jornal “O Bandeirante”. Desde janeiro de 2007 o jornal “O Bandeirante” passou a ser distribuído pela internet, para mais de 1000 destinatários no Brasil e no Exterior. As edições virtuais são publicadas no BLOG da Sobrames-SP. Coletâneas - A Sociedade já editou doze coletâneas com trabalhos dos membros: “Por um Lugar ao Sol” (1990) “A Pizza Literária” (1993) “A Pizza Literária - segunda fornada” (1995) “Criação” (1996) “A Pizza Literária - quinta fornada” (1998) “A Pizza Literária - sexta fornada” (2000) “A Pizza Literária – sétima fornada” (2002) “A Pizza Literária – oitava fornada” (2004) “A Pizza Literária – nona fornada” (2006) “A Pizza Literária - décima fornada” (2008) “A Pizza Literária - décima primeira fornada” (2010) “A Pizza Literária - décima segunda fornada” (2012) Antologias - Em 1999, editou-se a “I Antologia Paulista”, contendo todos os trabalhos das “Páginas Sobrâmicas” nos seus dois primeiros anos de publicação (abril 1997 a março de 1999). Em 2000 foi publicada a II Antologia Paulista, desta vez com trabalhos inéditos dos sócios. A série de antologias continuou e já conta com oito volumes, tendo os demais sido publicados em 2001, 2003, 2005, 2007, 2009 e 2011. Em setembro de 2013 está sendo lançada a IX Antologia Paulista. CONCURSOS LITERÁRIOS Em 1997, foi instituído o concurso para A Melhor Poesia do Ano, Prêmio “Bernardo de Oliveira Martins” e, a partir de 1999, o concurso para A Melhor Prosa do Ano, Prêmio “Flerts Nebó”, dos quais participam todos os membros da SOBRAMES-SP que apresentam seu textos nas Pizzas Literárias. Estes certames visam dar estímulo à criatividade dos autores membros da SOBRAMES, tendo em vista a característica meramente diletante de seus participantes. Trimestralmente acontece um desafio literário intitulado SUPERPIZZA, onde os escritores são convidados a produzir um texto em prosa ou verso sobre um tema sugerido. Em janeiro de 2007 foram introduzidos dois novos concursos que têm como objetivo incentivar os integrantes da sociedade a participar de suas atividades. Trata-se do “Prêmio Rodolpho Civile”, de Assiduidade e o “Prêmio Aldo Mileto” de Melhor Desempenho. INTERNET - BLOG A Sociedade Brasileira de Médicos Escritores tem um Blog onde publica informações, notícias e textos literários de seus autores.Visite e participe: http:/sobramespaulista.blogspot.com
  • 101. 115 DIRETORIA A cada dois anos a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, regional do Estado de São Paulo elege em assembléia uma nova diretoria. Na atual gestão (biênio 2013/2014) a diretoria está assim composta: Presidente: Josyanne Rita de Arruda Franco; Vice-presidente: Carlos Augusto Ferreira Galvão; Primeiro-secretário: Márcia Etelli Coelho; Segundo-secretário: Maria do Céu Coutinho Louzã; Primeiro-tesoureiro: José Alberto Vieira; Segundo-tesoureiro: Aída Lúcia Pullin Del Sasso Begliomini; Conselho Fiscal Efetivos: Helio Begliomini, Luiz Jorge Ferreira e Marcos Gimenes Salun; Conselho Fiscal Suplentes: José Kucovsky, Rodolpho Civile e José Rodrigues Louzã. COMO PARTICIPAR Podem tornar-se membros da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores todos os médicos, de qualquer especialidade, e todos os acadêmicos de medicina, em qualquer ano do curso, mediante simples solicitação de sua inscrição, e bastando que sejam também escritores de literatura NÃO-CIENTÍFICA, em qualquer gênero literário (romance, crônica, conto, poesia, ensaios, etc.). Também podem tornar-se membros da SOBRAMES-SP os ESCRITORES de qualquer outra formação profissional, apresentados por outros membros da sociedade. Asolicitação será aprovada mediante análise da diretoria e existência de quorum na forma de seu estatuto. Os membros contribuem financeiramente com uma anuidade de pequeno valor. Os custos de algumas atividades da SOBRAMES-SP são pagos pelos participantes, como por exemplo, despesas de hospedagem em congressos e jornadas e despesas de consumo nas reuniões denominadas Pizzas Literárias. ASSOCIE-SE Para obter outras informações sobre a SOBRAMES-SP ou para tornar-se membro envie correspondência para o e-mail josyannerita@gmail.com. (Josyanne) ou ainda para o e-mail marciaetelli@uol.com.br (Márcia). Pelo correio você poderá obter ficha de inscrição escrevendo para: Sociedade Brasileira de Médicos Escritores Rua Francisco Pereira Coutinho 290, 121 A Vila Municipal - Jundiaí, SP. CEP 13201-100
  • 102. 117 XII Jornada Médico-Literária Paulista VII Jornada Nacional da Sobrames 26 a 29 de setembro de 2013 - Botucatu - São Paulo PRESIDENTES: Sérgio Augusto de Munhoz Pitaki (Jornada Nacional) Josyanne Rita de Arruda Franco (Jornada Paulista) COMISSÃO ORGANIZADORA: Josyanne Rita de Arruda Franco / Márcia Etelli Coelho Aida Lucia Pullin Dal Sasso Begliomini / Helio Begliomini Evanil Pires de Campos / Cláudia Esteves Oliveira Pires de Campos AVALIADORES DOS CONCURSOS LITERÁRIOS: (Membros da Academia Botucatuense de Letras) Prof.Dr.Antonio Evaldo Klar (Cad.nº 11) Carmem Silvia Martins Guimarães (Cad.nº 09) Maria Amélia Blasi de Toledo Pisa (Cad.nº 06) Sebastião Pires Mendes (Cad.nº 22) Evanil Pires de Campos (Cad.nº 19) FÓRUM ABRAMES: Presidente: Juçara Regina Viegas Valverde (Cad.nº 06) Acadêmicos participantes: Alcione Alcântara Gonçalves (Cad.nº 02) / Arquimedes Vale (Cad.nº 18) / Carlos Augusto Ferreira Galvão (Cad.nº 37) / Helio Begliomini (Cad.nº 33) / José Carlos Serufo (Cad.nº 10) / José Maria Chaves (Cad.nº 03) / Josemar Otaviano de Alvarenga (Cad.nº 44) / Josyanne Rita de Arruda Franco (Cad.nº 41) / Márcia Etelli Coelho (Cad.nº 34) / Nelson Jacintho (Cad.nº 16) e Sérgio Augusto Munhoz Pitaki (Cad.nº 21). Homenageado: Evanil Pires de Campos (Membro Emérito - Cad.nº 47) AGRADECIMENTO A AUTORIDADES: Prefeito de Botucatu: João Cury Neto Secretário Municipal de Cultura: Osni de Pontes Ribeiro Junior Diretora da Faculdade de Medicina de Botucatu: Profª. Drª. Silvana Artiori Schelline Vice diretor da Faculdade de Medicina de Botucatu: Prof. Dr. José Carlos Peraçoli TROFÉU “O BANDEIRANTE”: Artista plástica: Eleonora Yoshino PRODUÇÃO DOS ANAIS: Projeto gráfico e diagramação: Marcos Gimenes Salun (Rumo Editorial) Impressão e acabamento: Gráfica UNESP (Botucatu)
  • 103. 119 XII Jornada Médico-Literária Paulista VII Jornada Nacional da Sobrames 26 a 29 de setembro de 2013 - Botucatu - São Paulo Realização: Sociedade Brasileira de Medicos Escritores- SOBRAMES Regional do Estado de São Paulo Apoio Institucional: Prefeitura Municipal de Botucatu UNESP - Universidade Estadual Paulista - Botucatu FMB - Faculdade de Medicina de Botucatu. ABL - Academia Botucatuense de Letras Primar Plaza Hotel ABRAMES - Academia Brasileira de Médicos Escritores Sociedade Brasileira de Médicos Escritores Construtora Resiplan Ltda. Caixa Econômica Federal Rumo Editorial Produções e Edições Ltda.

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