O Bandeirante - n.205 - Dezembro de 2009
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O Bandeirante - n.205 - Dezembro de 2009

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  • 1. Jornal O Bandeirante Ano XVIII - no 205 - Dezembro de 2009 Publicação Mensal da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional do Estado de São Paulo - SOBRAMES-SP A Parábola do Lápis e a Sobrames “Os progressos obtidos por meio do ensino são lentos; já os obtidos por meio de exemplos são mais imediatos e eficazes”. Lucius Annaeus Seneca (4 a.C-65 d.C), filósofo e escritor da antiga Roma.Helio BegliominiMédico urologistaPresidente da SOBRAMES-SP (2009-2010). Não faz muito tempo queMark W. Baker publicou um livrointitulado “Jesus, o Maior Psi-cólogo que já Existiu” (2005),que se tornou muito conhecidoe comentado. Por incrível quepareça, não se trata de mais umaobra de autoajuda, mas sim umaabordagem entre ciência e reli-gião, aduzindo os preceitos ensi-nados por Jesus Cristo às recen-tes descobertas da psicologia.Mark W. Baker alia sua experi-ência como terapeuta ao seu co-nhecimento da Bíblia, demons-trando compatibilidade entre oensinamento do Nazareno e asbases da psicologia, pois nele também o maior pedagogo que contar parábolas torna ilustra-encerram a saúde emocional, o já existiu, pois seus preceitos têm tivo – pela força de sua própriabem-estar e o crescimento pesso- ecoado da Galiléia para o mun- alegoria –, um conceito a seral. Evidencia que independente- do, ao largo de dois mil anos, compreendido e assimilado. Pormente da crença religiosa ou da através do ensino de simples pa- oportuno que seja, segue abaixofilosofia de vida, todos podemos rábolas. A propósito, a pessoa de A Parábola do Lápis, de autorianos beneficiar da sabedoria Da- Cristo, dentre tantos predicados desconhecida, mas muito sig-quele que foi, segundo seu pare- que possui, confunde-se também nificativa para todos e, particu-cer, o maior psicólogo de todos como o maior contador de pará- larmente para nós, membros daos tempos! bolas. Aliás, quando pensamos Sociedade Brasileira de Médicos No bojo desse livro e fazendo em parábolas, necessariamente Escritores do Estado de São Pau-paráfrase de seu título, podemos pensamos Nele, Jesus Cristo. lo (Sobrames – SP).dizer, outrossim, que Jesus foi Assim, não resta dúvida que * * * (continua na última página)
  • 2. 2 O BANDEIRANTE - Dezembro de 2009 Acertando os Ponteiros “A vida já é curta, mas nós tornamo-la ainda mais curta, desperdiçando tempo”. Victor Marie Hugo (1802-1885) – poeta, escritor, dramaturgo e político francês. EXPEDIENTE Neste exórdio veio-nos à mente, à guisa de reflexão, a expressão latinaJornal O BandeiranteANO XVIII - no 205 - Dezembro 2009 “Sic transit gloria mundi”, normalmente traduzida por “Assim passa a glória do mundo” ou também as “coisas mundanas são passageiras”, provavelmente oriunda da frase “O quam cito trânsito gloria mundi” – “o quão rapidamentePublicação mensal da Sociedade Brasileira de Médicos passa a glória do mundo” – do livro “Imitação de Cristo” (1418) do mongeEscritores - Regional do Estado de São Paulo SOBRAMES-SP .Sede: Rua Alves Guimarães, 251 - CEP 05410-000 - Pinheiros agostiniano Tomás de Kempis (1379-1471).- São Paulo - SP Telefax: (11) 3062-9887 / 3062-3604 Editor: Em dezembro de 2009, em virtude do atraso insólito de oitos meses(!)Helio Begliomini. Jornalista Responsável e revisora: na periodicidade de O Bandeirante, após ampla e longa discussão naLigia Terezinha Pezzuto (MTb 17.671 - SP). Colaboradoresdesta edição: Aida Lucia Pullin Dal Sasso Begliomini, Helio diretoria da Sobrames – SP sobre esse indesejado percalço, prevaleceuBegliomini, José Jucovsky, Sergio Perazzo, Walter W. Harris. o consenso de que o tradicional órgão literário-informativo da entidadeTiragem desta edição: 300 exemplares (papel) e mais de deveria continuar existindo e, correndo contra o tempo, recuperar todas as1.000 exemplares PDF enviados por e-mail. edições faltantes com o número usual de 8 páginas em cada fascículo.Diretoria - Gestão 2009/2010 - Presidente: Helio Nosso nome foi ratificado para a acerba tarefa de editorar os oito números faltantes (maioBegliomini. Vice-Presidente: Josyanne Rita de ArrudaFranco. Primeiro-Secretário: Ligia Terezinha Pezzuto. a dezembro de 2009) e, até o final desta gestão (janeiro a dezembro de 2010) foram escolhidosSegundo-Secretário: Maria do Céu Coutinho Louzã. como editores Roberto Antonio Aniche e Carlos Augusto Ferreira Galvão.Primeiro-Tesoureiro: Marcos Gimenes Salun. Segundo- A empreitada não foi fácil, pois foram editorados e publicados oito boletins em cerca de 2,5Tesoureiro: Roberto Antonio Aniche. Conselho FiscalEfetivos: Flerts Nebó, Carlos Augusto Ferreira Galvão, Luiz meses(!), com o agravante de que não tínhamos a mesma expertise do confrade Marcos GimenesJorge Ferreira. Conselho Fiscal Suplentes: Geovah Paulo Salun, coeditor anterior que deu ao longo de nove anos a O Bandeirante um patamar editorialda Cruz; Rodolpho Civile; Helmut Adolf Mataré. jamais atingido. Assim, a fim de que pudéssemos cumprir mais esta missão nesta gestão, os trabalhos foram ininterruptos mesmo durante as festas de final de ano, época em que o convívio familiar e o apelo Matérias assinadas são de responsabilidade de seus religioso são mais candentes. autores e não representam, necessariamente, a opinião da Sobrames-SP Já na Pizza Literária de janeiro de 2010, foram lançados os fascículos de maio, junho e julho de 2009, ficando para serem lançados os cinco fascículos restantes em fevereiro ou no máximo até março de 2010. Nessa tarefa não poderíamos deixar de registrar nossos efusivos agradecimentos a Maria do Céu Coutinho Louzã, que gentilmente coletou os trabalhos apresentados nas Pizzas Literárias; a Editores de O Bandeirante Ligia Terezinha Pezzuto, jornalista e esmerada revisora dos textos publicados; e a Mateus Marins,Flerts Nebó – novembro a dezembro de 1992 entusiasta diagramador. Confessamos que sem a prestimosa ajuda deles – unidos e imbuídos emFlerts Nebó e Walter Whitton Harris – 1993-1994 espírito de equipe em prol da querida Sobrames – SP –, essa tarefa poderia ter sido tristementeCarlos Luiz Campana e Hélio Celso Ferraz Najar – 1995-1996 fadada ao fracasso.Flerts Nebó e Walter Whitton Harris – 1996-2000 Erros, falhas e omissões involuntários certamente serão encontrados para os quais pedimosFlerts Nebó e Marcos Gimenes Salun – 2001 a abril de 2009Helio Begliomini – maio a dezembro de 2009 a devida compreensão e vênia. Entretanto, nossa obsessão foi tentar colocar O Bandeirante em dia, atenuando seu atraso, fato único e triste em sua história. Não esquecemos também de agradecer a Deus pela empreitada realizada. Em alusão às palavras Presidentes da Sobrames – SP de reflexão colocadas na introdução deste texto e com a plena ciência da efemeridade da função a nós confiada, desejamos aos próximos editores maior sucesso(!), e que O Bandeirante continue1 Flerts Nebó (1988-1990;1990-1992 e out/2005 a dez/2006) o2o Helio Begliomini (1992-1994; 2007-2008 e 2009-2010) sendo um dentre tantos motivos de orgulho da querida Sobrames paulista.3o Carlos Luiz Campana (1994-1996)4o Paulo Adolpho Leierer (1996-1998) Helio Begliomini5o Walter Whitton Harris (1999-2000)6o Carlos Augusto Ferreira Galvão (2001-2002) Médico urologista em São Paulo7o Luiz Giovani (2003-2004) Walter Whitton Harris8o Karin Schmidt Rodrigues Massaro (jan a out de 2005) Cirurgia do Pé e Tornozelo Ortopedia e Traumatologia Geral Editor: Helio Begliomini CRM 18317 Revisão: Ligia Terezinha Pezzuto Av. República do Líbano, 344 Rua Luverci Pereira de Souza, 1797 - Sala 3 Diagramação: Mateus Marins Cardoso 04502-000 - São Paulo - SP Cidade Universitária - Campinas (19) 3579-3833 Impressão e Acabamento: Expressão e Arte Gráfica Tel. 3885 8535 www.veridistec.com.br Cel. 9932 5098 CUPOM DE ASSINATURAS* longevità Preço de 12 exemplares impressos: R$ 36,00 (11) 3531-6675 Nome:___________________________________________________________ Estética facial, corporal e odontológica * Massagem * Drenagem * Bronze Spray * End.completo: (Rua/Av./etc.) _______________________________________ Nutricionista * RPG Rua Maria Amélia L. de Azevedo, 147 - 1o. andar ________________________________ nº. _______ complemento _________ Cidade:_____________ Estado:_____ E-mail:___________________________ Clínica Benatti Grátis: Além da edição impressa que será enviada por correio, o assinante Ginecologia receberá por e-mail 12 edições coloridas em arquivo digital (PDF) Obstetrícia *Disponível para o público em geral e para não-sócios da SOBRAMES-SP Preencha este cupom, recorte e envie juntamente com cheque nominal a SOBRAMES-SP para REDAÇÃO Mastologia “O Bandeirante” R. Bias, 234 - Tremembé - CEP 02371-020 - São Paulo - SP Dê uma assinatura de “O BANDEIRANTE” de presente para um colega (11) 2215-2951
  • 3. SUPLEMENTO LITERÁRIO O BANDEIRANTE - Dezembro de 2009 3 A VelhinhaWalter W. HarrisMédico ortopedista em São Paulo Essa zona rural mais parecia uma fotografia de calen- para que eu seguisse adiante, dando a entender que não sedário. A estrada pela qual eu guiava meu carro era de terra importava com a poeira.e acompanhava o caudaloso rio que serpenteava vagaro- Cerca de meia hora depois, eu entrava na pacata vilasamente em direção ao vilarejo onde planejava passar a e, após me informar a respeito de acomodações, dirigi-menoite. Pelo espelho retrovisor, observei que minha passagem ao único hotel existente. O calor estava incrível e fui diretolevantava uma vasta cortina de poeira. Ainda bem que não tomar um banho para me refrescar. Desci ao saguão para ocruzara com ninguém, senão o coitado sofreria de um mal restaurante do hotel, que mais servia aos moradores da vilasúbito de tanto comer pó! Mas, apesar da intensa seca, o rio que aos hóspedes. Travei uma conversa com o gerente queapresentava uma exuberante mata ciliar e, do lado oposto me orientou como chegar ao hospital que viera conhecer,da via, campos plantados com canola enchiam os olhos com motivo principal de minha vinda a essa região.suas brilhantes flores amarelas. Aqui e acolá, uma árvore As distâncias a serem percorridas eram muito curtasse sobrepunha ao mar dourado, destacando-se pela sua naquela minúscula cidade. Entretanto, descobri que o hos-pujante nobreza esverdeada. pital ficava na periferia da vila. Indo a pé naquele calor do Havia reparado que de tempos em tempos os campos de meio da tarde, cheguei todo suado. Carregava meu paletócanola eram recortados por estreitas ruelas que desembo- na mão. Estacionado num local reservado para bicicletascavam na estrada por onde eu andava. Entretanto, estavam — aparentemente todos as usavam — estava a bicicleta quedesertas a esta hora, logo após o meio-dia. Provavelmente eu vira na estrada. Além de ser a única que não dispunhaos lavradores estavam repousando na sombra de alguma de marchas e com a armação tipicamente feminina, apre-daquelas imponentes árvores no meio da plantação. Qual sentava aquela providencial rede traseira. Tinha mais umnão foi minha surpresa ao ver uma nuvem de pó se erguendo acessório que não havia constatado na estrada: um cestoda canola, como a estragar o belo visual do óleo em flor. metálico à frente do guidão, cuja parte inferior apoiava noEra mais uma estradinha vista a distância, tão estreita que para-lama dianteiro. Portanto aquela senhora estava aquiseria impossível receber veículos largos, fossem automó- no hospital. Será que se sentira mal andando de bicicletavel, caminhão ou trator. Era tão somente apropriada para naquele calor e teve de procurar assistência médica? Oupedestres. será que era uma enfermeira ou então fazia parte da ad- Tive de frear abruptamente, mais pela aparição inespe- ministração da instituição?rada do que para evitar um acidente, ao surgir uma bicicleta Deixei minhas conjecturas para lá e me concentrei nodo meio da canola sem me dar a mínima atenção, como objetivo de conhecer o hospital. Mas precisava satisfazerse eu e meu carro não existíssemos, e que virou na mesma minha curiosidade a respeito daquela senhora. Pergunteidireção em que eu ia. O que era inusitado e inesperado foi para um, perguntei para outro, e fiquei sabendo que a tala pessoa que a guiava. De onde eu estava, não conseguia ver senhora se encontrava na ala pediátrica do hospital. Minhaseu rosto, mas pelas vestimentas, era óbvio que se tratava conclusão lógica foi de que pelo menos não estava doente.de uma mulher. E ela dirigia a bicicleta com habilidade. A Pediatria ficava numa área enorme, bem iluminada e comLogo percebi que era antiga, pois não dispunha de mar- inúmeras janelas, com camas postadas uma ao lado das ou-chas e a roda traseira era recoberta por uma tela para não tras, separadas apenas por pequenos armários que tambémdeixar que seu vestido se enroscasse nos aros. Diminuí a serviam de criados-mudos. As cabeceiras das camas eramvelocidade do meu carro, pois não queria envolvê-la com voltadas para as paredes, deixando um espaço grande noa poeira da estrada. Vagarosamente emparelhei-me com centro da enfermaria que servia de local de recreação paraela. Tive vontade de parar e oferecer-lhe uma carona, mas as crianças. Ao entrar no recinto, vi que as camas estavamsabia de antemão que não teria onde pôr a bicicleta, se é vazias. Seus ocupantes, em pijamas de várias cores e tipos,que ela estava realmente indo para a mesma vila que eu. encontravam-se sentados no chão em círculo, absortos eSeu vestido era branco, todo decorado com enormes flores encantados com as palavras da pessoa que, sentada numaazuis, fazendo com que o vestido mais parecesse azul do banqueta, segurava um livro e lia para eles. Embora esti-que branco. Usava um chapeuzinho preso sob o queixo vesse de costas para mim, logo a reconheci como sendocom uma fita também azul. Quando, rapidamente, os raios a mesma que vira na estrada, uma vez que ainda usava osolares iluminaram seu rosto, me surpreendi. A ciclista não mesmo vestido. Silenciosamente fiquei ouvindo e admi-era uma moça e sim, uma senhora. Havia rugas nas suas rando a atuação dela. A seguir, fui me apresentar a meusfaces, daquelas típicas de quem fica muito tempo exposto colegas que me levaram para visitar outras dependênciasao sol e tem de cerrar os olhos devido a seu brilho. O que do hospital. Soube que outrora a casa fora uma antiga resi-impressionou-me foi sua expressão de determinação como dência de ricaços que a doaram para a cidade. A casa forase precisasse chegar a todo custo aonde quer que estivesse transformada no único hospital da região. Suas instalaçõesindo. Mas havia lá outra expressão que pude ver naqueles foram modernizadas. Recebia a todos gratuitamente. Dis-breves instantes de luz sob o chapéu: uma ternura ímpar, punha de subvenções governamentais para seu sustento.uma aura de bondade que me emocionou. Ela olhou mo- Fundamentalmente priorizava o atendimento de crianças ementaneamente para mim, sorriu e acenou, gesticulando se tornara uma instituição famosa por isso. Comentei sobre (continua na próxima página)
  • 4. 4 O BANDEIRANTE - Dezembro de 2009 SUPLEMENTO LITERÁRIO A Velhinha(continuação da página anterior)a grande enfermaria que havia visto e sobre a senhora que Contei para a prima de nosso encontro na estrada e delia para os garotos. Os colegas sorriram, dando a entender minha ida ao hospital e que a vira lendo para os doentinhos.que a velhinha era uma excêntrica e inofensiva senhora da Mais uma vez, vi aquela ternura e determinação estampadasvila. Quanto ao tamanho da ala de pediatria, achavam que em seu rosto. Como o vilarejo era muito pequeno, expli-fora o salão de festas do casarão. Agradeci pela gentileza cou, não dispunha de uma biblioteca. Numa reunião dade me terem recebido e fui embora. comunidade local ela havia sugerido que se providenciasse Voltei ao hotel satisfeito de ter conhecido o hospital a uma biblioteca para todos, em especial para os jovens. Suarespeito do qual se falava tanto no meio médico e que havia sugestão nem foi considerada. Em casa tinha poucos livros,motivado minha visita. Eu ainda tinha mais uma missão para principalmente por falta de espaço, segundo ela. Sabia quecumprir naquele vilarejo: saber de uma prima de minha a cidade vizinha tinha uma biblioteca e se dispôs a pedirmãe que deveria estar beirando os 100 anos de idade. No emprestado livros para as crianças de seu vilarejo, porémfinal da tarde, depois de me refrescar de novo, mais uma vez logo reconheceu seu erro: os pais achavam que ela estavative de recorrer ao gerente do hotel para me informar como se intrometendo em suas vidas. No entanto, queria fazerchegar à residência da prima. Na rua indicada havia meia alguma coisa de útil e descobriu que os menores internadosdúzia de casas, todas idênticas. Mas eu sabia que era a última ficavam à mercê de suas doenças, apenas recebendo visitasantes da esquina. Abri o portãozinho e cheguei na porta de esporádicas dos parentes. Conversou com o diretor doentrada sob uma pequena varanda. Procurei pela campainha hospital e ele concordou que ela lesse para as crianças. Nãoque não achei. Bati palmas, bati na porta, chamei por ela. havia como chegar à cidade vizinha a não ser com trans-Em vão. Aparentemente, ou estava de cama, ou não estava porte coletivo que dava uma volta imensa, ou então cortarem casa. De tanto barulho que fiz, alertei a vizinha que, ao caminho pelas plantações de canola. Optou ir de bicicleta.saber quem eu era, disse-me que minha prima era um pouco Havia dois anos que fazia isso toda semana, buscando li-surda e me mostrou onde estava a campainha, escondida vros e devolvendo-os na semana seguinte. Carregava-os nono meio da hera perto da varandinha. bagageiro dianteiro de sua bicicleta. A porta foi aberta por uma senhora de idade avançada. Acredito que o exercício lhe fazia bem. Apesar das rugasCom certeza era minha prima. Havia um estreito vestíbulo e da idade, parecia ter saúde de ferro. Tinha uma lucidezde frente à escadaria que subia para o andar superior. A invejável. Fiquei muito satisfeito em encontrá-la. Ela deu-mecozinha ficava nos fundos e à direita havia duas salas: uma várias fotografias da família, com minha promessa de quede estar e outra de jantar. Entramos na primeira. Conver- seriam aproveitadas no livro que pretendia escrever. Quandosamos amenidades. Fiquei sabendo que tinha 95 anos de me despedi, jurei manter contato, e foi o que fiz durante osidade. Certamente não aparentava. Quando lhe contei do três anos seguintes. Mandava-me cartas prolixas, relatandofalecimento de meus pais, ficou triste por uns momentos, todos os fatos novos sobre seus parentes próximos. Eu liacomentando que trocara correspondência com minha mãe com avidez e respondia sempre.quando eram adolescentes. Para mim, a prima seria uma Certo dia teve uma queda dentro de casa, sofrendo fra-fonte importante de informações, uma vez que eu me tura de colo de fêmur. Os filhos a levaram para uma cidadeautodenominava o narrador oficial da história da família. grande, onde foi operada. Insistiu em voltar para o vilarejoAo lhe explicar meu intento, sorriu. Eu conhecia aquele após a cirurgia. Na sua última carta para mim, contou quesorriso. Provavelmente me lembrava de parentes nossos ou as crianças, para quem tanto leu no hospital, vinham visitá-vira fotografias dela quando era mais jovem. la e as mais velhas faziam questão de trazer livros a fim de Minha prima era tagarela. Não parava de falar, contan- ler para ela. Pacientemente, em agradecimento, ela ouviado sobre episódios de nossos parentes que eu desconhecia. tudo com lágrimas contidas.Quando ela começou a falar de sua família próxima, dando Quando completou 100 anos de idade, recebeu umaos nomes dos netos e bisnetos, tive de interrompê-la e pedir carta de parabéns assinada de próprio punho pela rainhacaneta e papel para escrever tudo. Mais uma vez sorriu e me Elizabeth II da Inglaterra, costume antigo para todos osconvidou para a cozinha para tomar um chá. Acrescentou seus súditos centenários. Soube do evento porque um deque a mesa de lá seria mais adequada para fazer minhas seus filhos mandou-me um recorte de jornal com umaanotações. Em dado momento, quase deixei cair a xícara entrevista dela. Logo depois, sua mente começou a vagar eno chão. Olhando através da porta dos fundos, vi que havia foi necessário colocá-la numa casa de repouso para receberum barracão onde certamente guardaria velhas quinqui- cuidados apropriados. Não tinha mais condições de morarlharias e implementos de jardinagem. Aliás, à entrada da sozinha. Uma semana após completar 103 anos de idade,casa havia um minúsculo jardim de roseiras, muito bem houve um surto de influenza na casa de repouso, o víruscuidado. No lusco-fusco do fim de tarde, observei que o levado por uma visita de outro paciente. Tanto ela comojardim dos fundos era igualmente cuidado com capricho. mais três ou quatro idosos ficaram gripados, evoluíram paraConsegui salvar a xícara de um desastre e não passar ver- pneumonia e faleceram.gonha diante de minha prima. Recuperei-me. Pois não é Essa simpática velhinha mexera comigo. Pude observar eque, encostado no barracão, estava a bicicleta que vira várias admirar sua altivez e dedicação altruísta às crianças. Ela foivezes no transcorrer do dia? Então era ela a velhinha que um exemplo de vida e, sem dúvida, o orgulho de todos queeu vira na estrada. Era ela que tinha entretido as crianças se sentiram atingidos pela sua alma caridosa e envolvidosno hospital com a leitura. pelo seu calor humano.
  • 5. SUPLEMENTO LITERÁRIO O BANDEIRANTE - Dezembro de 2009 5Coração de MinasSergio PerazzoMédico psiquiatra em São Paulo Um coração não se pede emprestado. Nem na fila do tão delicada? Como protegê-lo de machucados? Guardá-transplante, embora haja quem tente roubar corações lo numa caixa de veludo? Numa redoma de vidro? Levá-inutilmente. Nessa véspera da viagem pra Minas, nessa lo sempre no bolso? Não deixá-lo escondido e asfixiadoespera do trem, porque pra Minas só de trem, mesmo que num estojo fechado à chave sem contemplá-lo? Conversarem lombo de avião bamboleando semovente na corcova com ele como se conversa com as plantas? Regá-lo comde nuvens, despedimo-nos dez vezes pelos dez dias que as lágrimas emocionadas da memória? Colocá-lo no meuleva para você visitar a família entre ambrosias, torresmos, pulso para sentir o seu pulso nos caminhos e montanhascanjicas, doces de caldas, café acabado de fazer no coador de Minas, nos perdidos de Varzelândia?de pano, profetas de pedra-sabão e igrejas barrocas tocan- Inesquecível como num gesto simples, sem reservas,do o sino de domingo. sem hesitações, você me confiou o seu coração e se tornou Alguma coisa eu disse que você se comoveu. Em res- perenemente presente em mim, presente que já estava aposta, estendeu o braço e me mostrou a pulseira num cada dia. E mais, e mais, e mais.gesto tão natural que não podia ser outro, já abrindo o Fui correndo à farmácia e comprei uma touca de ba-trinco: Esta é a pulseira que mais gosto, a pulseira de nho, uma escova de dentes Oral B, um sabonete cremoso,ouro com um coração cheio de pedrinhas brilhantes como uma loção de pele, um frasco de perfume, para vocêpingente: Toma é seu enquanto eu estiver em Minas. E em minha casa, no agora nosso armário do banheiro.foi assim que, de repente, me tornei guardião do seu Seu coração, meu coração. Minha casa, sua casa, porta ecoração e do seu esplendor pulsante. peito escancarados quando você entra sem precisar tocar Você, literalmente, me entregou o seu coração e eu a campainha, carregando sorridente a filha pequenafiquei com ele na mão sem saber direito o que fazer, essa adormecida no seu colo pleno de amor e generosidade.responsabilidade que a gente sente com o coração que não Derramado de doçuras. De mineirices que só você sabeé nosso, mas que passa a ser nosso. Como cuidar desta joia e tem.É NatalAida Lucia Pullin Dal Sasso BegliominiEngenheira em São PauloNa manjedoura nasceu uma criança Sem qualquer ajuda humanaSob um céu repleto de estrelas Só protegidos pela divina providênciaEntre elas cintilava mais forteA que prenunciava a nova vida. Silêncio, profundo momento de solidão Os olhos de marido e mulher enfim se encontramAo lado da criança nua Seriam eles tão pequenos e humildesMulher, ainda adolescente Pai e mãe de tão esperada criança?Ofegante do trabalho de partoDescansava na relva úmida. Vencida pelo cansaço A noite lentamente adormeceDesconsolado, sonolento o homem Desaparecem a lua e o manto de estrelasAgora marido e pai Surgem radiantes os primeiros raios de solOlhava para um e para outroSuplicando ajuda em uma oração silenciosa. Mais intensa que tudo No firmamento brilha uma única estrelaDe muito longe partiram É o sinal de fé e esperançaPor caminhos sinuosos chegaram No anúncio do nascimento do Deus criança.
  • 6. 6 O BANDEIRANTE - Dezembro de 2009 SUPLEMENTO LITERÁRIO Brasil, Membro Permanente do Conselho da ONU?José JucovskyMédico aposentado em São Paulo Podemos nos orgulhar do desempenho e da visão inscreveu como primeiro orador. Este seu desempenhohistórica do Itamaraty, percorrido a partir da Velha impositivo marcou a tradição, até hoje mantida, de ser oRepública, no instável e nebuloso ambiente da política Brasil o primeiro país a discursar nas Assembleias Geraisinternacional. anuais da ONU. Talvez o fato de termos sido uma colônia por cerca de Elegante e galanteador, detonou algumas paixões fe-três séculos tenha despertado o desejo imperativo de vir mininas e seus auxiliares costumavam referir-se ao bilhetea fazer parte integrante dos órgãos criados para zelar por de uma de suas admiradoras inglesas que procurara vê-loum mundo melhor e mais igualitário. Moldado em uma em Londres, sem sucesso. O bilhete dizia:“Ciro gostaria deconduta ética, a vocação do corpo diplomático do Itama- vê-lo mesmo que apenas horizontalmente”.raty, em essência, é desempenhar um papel importante O Brasil, desde a conferência em São Francisco, haviapara tentar manter a paz e ajudar a mudar a desigual- pleiteado ser incluído entre os membros permanentes dodade que existe no mundo. É, e tem sido, uma conduta Conselho de Segurança. Mas o receio de pedidos seme-prioritária e realística desejar fazer parte dos membros lhantes da Índia e outros países fizeram com que a com-permanentes do Conselho de Segurança da ONU. posição fosse reduzida aos cinco grandes: EE.UU, União Fato marcante na diplomacia internacional foi a pre- Soviética, Inglaterra, França e China – cabendo ao Brasil,sença de Rui Barbosa como chefe da delegação brasileira como prêmio de consolação, ter assento no Conselho dena Conferência de Paz em Haia, em 1907. Teve desempe- Segurança nos dois primeiros anos, estabelecendo-se anho extraordinário na arte de negociar, ao defender com partir de então um sistema de rodízio entre os membrosbrilho a tese brasileira da igualdade entre as nações. Al- não permanentes.cançando inegável projeção, passou a ser conhecido inter- O período da segunda guerra mundial constituíranacionalmente por impor e conseguir estabelecer, apesar quadro de ouro da cooperação americano-brasileira,de fortes oposições, medidas pacifistas como a limitação principalmente pela instalação de duas bases navais: umade armamentos. Um dos resultados mais importantes da em Natal e outra em Salvador.sua notável atuação foi a criação da Corte Permanente de Na conferência de Yalta (de 4 a 11 de fevereiro de1945)Justiça Internacional de Haia. Teve, na oportunidade, Roosevelt propôs a Stálin a inclusão permanente doo privilégio de integrar a primeira comissão da Corte, Brasil no Conselho de Segurança da futura ONU. Stálinpassando a ser conhecido como “Águia de Haia”. rejeitou-a, alegando que o Brasil não tinha relações di- Na década de 20, durante sete anos, empenhamo-nos plomáticas com a URSS. A razão verdadeira era a alegadatentando, sem sucesso, pertencer ao conselho das Ligas dependência do Brasil em relação aos EE.UU., comodas Nações. referiu em suas Memórias, o intérprete de Stálin. A Declaração da Carta do Atlântico em agosto de 1941 Ironia da história o que aconteceu nas eleições pararepresentou o prenúncio de outro órgão semelhante à eleger a Comissão de Direitos Humanos da ONU: umLiga. Referendada pelo EE.UU. e a Inglaterra em janei- grupo de nações termina indicando aquelas que nãoro de 1942, renovamos nossas esperanças de ter acesso obedecem aos direitos humanos. Graças aos votos dosao grupo das grandes potências na constituição da nova terceiro-mundistas nas últimas eleições, a Líbia e Sudãoinstituição: Organização das Nações Unidas. vão fazer parte deste seleto grupo. É desanimador saber Roberto Campos em sua autobiografia “A LANTER- que na ONU ainda existe um vasto mar de mordomiasNA NA POPA” nos dá um retrato real de meio século da para delegados nomeados por dirigentes de ditadurashistória do Brasil, vivenciado no ambiente da política corruptas do planeta.internacional após a segunda guerra mundial. Como O Brasil acaba de dar uma demonstração de maturi-notável memorialista, relembra a primeira reunião da dade democrática. Pela primeira vez na história da novaONU (07/01/46) que se realizara em Londres, destacando- República, um presidente eleito recebe a faixa do seuse na delegação brasileira Ciro de Freitas Valle, então antecessor. Nos últimos meses antes da posse, o País vinhaembaixador no Canadá, deslocado para Londres depois sendo dirigido a quatro mãos, com os dois representan-de ter assistido à assinatura da Carta em São Francisco. tes do povo segurando o leme do Brasil em excepcionalCiro era uma vigorosa personalidade, bem apessoado, harmonia, na qual o interesse maior era o bem-estar dobom gourmet e cultor inveterado do whisky. Como nem povo. Neste momento histórico existe no Brasil grandeos Estados Unidos nem a União Soviética quisessem perspectiva de ser incluído como membro permanente dainiciar os debates, Ciro, de uma maneira impetuosa se ONU, junto com as consideradas grandes potências.
  • 7. SUPLEMENTO LITERÁRIO O BANDEIRANTE - Dezembro de 2009 7Sobrames – SP na AbramesA Sobrames – SP esteve representada por 6 paulistas na Semana da Academia Brasileira PUBLICIDADEde Médicos Escritores (Abrames), ocorrida nos dias 26 e 27 de novembro, na cidade do TABELA DE PREÇOS 2009Rio de Janeiro: Helio Begliomini (presidente), Aida Lúcia Pullin Dal Sasso Begliomini (valor do anúncio por edição)(esposa). Josyanne Rita de Arruda Franco (vice-presidente), Nelson Jacintho (presidente 1 módulo horizontal R$ 30,00da Academia Ribeirão-Pretana de Letras) e Dumara Piantino Jacintho (esposa). 2 módulos horizontais R$ 60,00Houve três participantes da Sobrames – SP que receberam prêmios nos concursos 3 módulos horizontais R$ 90,00literários que a Abrames anualmente organiza. 2 módulos verticais R$ 60,00 4 módulos R$ 120,00 Acadêmicos 6 módulos R$ 180,00 Outros tamanhos sob consultaCrônica heomini.ops@terra.com.br2o Lugar – Nelson Jacintho – Trabalho: “Não Empurro Mais o Burro”. ligiapezzuto@terra.com.br3o Lugar – Helio Begliomini – Trabalho: “Hablaremos Portunhol”.Ensaio3o Lugar – Helio Begliomini – Trabalho: “O Discreto Notável – Cem Anos Depoisde seu Desaparecimento”. REVISÃO de textos em geralPoesia1o Lugar – Helio Begliomini – Trabalho: “Fráguas do Tempo”. Ligia Pezzuto Especialista em Língua Portuguesa Não Acadêmicos (11) 3864-4494 ou 8546-1725Crônica2o Lugar – Dumara Piantino Jacintho – Trabalho: “Saudade”.Conto ROBERTO CAETANO MIRAGLIA3o Lugar – Dumara Piantino Jacintho – Trabalho “Tarde no Futebol”. ADVOGADO - OAB-SP 51.532 ADVOCACIA – ADMINISTRAÇÃO DE BENS NEGÓCIOS IMOBILIÁRIOS – LOCAÇÃO COMPRA E VENDA DE IMÓVEIS ASSESSORIA E CONSULTORIA JURÍDICA TELEFONES: (11) 3277-1192 – 3207-9224 Terminou de Da esquerda para a direita: Josyanne Rita de Arruda Franco, Nelson Jacintho, escrever seu Dumara Piantino Jacintho, Helio Begliomini, Aida Lúcia Pullin Dal Sasso Be- gliomini, Abilio Kac (RJ) e Maria da Gloria Starling de Aguiar (MG). livro? EntãoLivros do Ano de 2009 publique! A Academia de Estudos e Pesquisas Literárias, com sede na cidade do Rio deJaneiro, selecionou, através de uma Comissão de Críticos Literários, como Livros Nesta hora importante, não deixe dedo Ano de 2009, obras de dois sobramistas paulistas: consultar a RUMO EDITORIAL. 1. Analogias e Reflexão sobre a Obra Machadiana de autoria de Evanil Pires Publicações com qualidade impecável,de Campos (Botucatu). dedicação, cuidado artesanal e preço 2. Asclepíades da Academia Paulista de Letras de autoria de Helio Begliomini justo. Você não tem mais desculpas(São Paulo), presidente em exercício da Sobrames – SP. para deixar seu talento na gaveta. rumoeditorial@uol.com.brLançamento de Livro (11) 9182-4815 Parabenizamos a confreira Lêda Rezende pelo lançamento de mais um livro desua autoria intitulado Vitral – Compondo a Vida. Lêda Rezende é pediatra com formação em psicanálise na linha Freud-Lacan e pós-graduada em nutrologia. http://blogs.abril.com.br/leda/2010/01/publicando.htmlXXIII Congresso Nacional da Sobrames3 a 6 de junho de 2010 – Ouro Preto – Minas Geraiswww.sobramesmg.org.br/congressCongresso da Umeal – União de Médicos e Artistas Lusófonos15 a 19 de setembro de 2010 – Lisboa – Portugal54o Congresso da Umem – Union Mondiale des Écrivains MédecinsPlock (a 100 Km de Varsóvia), de 22 a 26 de Setembro de 2010www.umem.net/pt
  • 8. 8 O BANDEIRANTE - Dezembro de 2009 SUPLEMENTO LITERÁRIO A Parábola do Lápis e a Sobrames(continuação da primeira página) O menino olhava a avó escreven- a grafite que está dentro. Portanto, feito, é digno de ser benfeito”.do uma carta. A certa altura pergun- sempre cuide daquilo que acontece 4. Quarta: Ser e não Ter. O quetou: dentro de você. vale no ser humano não é aquilo – Você está escrevendo uma his- Finalmente, a quinta qualidade que aparenta ou que ostenta, mastória que aconteceu conosco? E, por do lápis: ele sempre deixa uma mar- o que reside em seu íntimo, emacaso, é uma história sobre mim? ca. Da mesma maneira, saiba que que se desenvolvem e se manifes- – A avó parou a carta, sorriu e tudo que você fizer na vida irá dei- tam virtudes inerentes à sua es-comentou com o neto: xar traços e procure ser consciente de pécie como amor, solidariedade, – Estou escrevendo sobre você, é cada ação. afeto, caridade, compaixão, ho-verdade. Entretanto, mais importante * * * nestidade, fidelidade... mas, ondedo que as palavras é o lápis que estou “Para um bom entendedor meia também pode ser impregnado deusando. Gostaria que você fosse como palavra basta”, diz o ditado popu- desvirtudes como ódio, egoísmo,ele quando crescesse. lar. Mas, procurando explicitar raiva, cobiça, inveja, desonestida- O menino olhou para o lápis, in- tais ensinamentos, poderíamos de, infidelidade... O verdadeirotrigado, e não viu nada de especial. dizer que entendemos esta pará- valor do ser humano é imaterial, – Mas ele é igual a todos os lápis bola como ensinamento das se- imensurável, pois não se atrela aque vi em minha vida! guintes virtudes: penduricalhos, cifras, marcas, tí- – Tudo depende do modo como 1. Primeira: Humildade. Por tulos, graduação, condecoraçõesvocê olha as coisas. Há cinco qua- maiores e melhores obras que fa- e grifes...lidades nele que, se você conseguir çamos, sempre haverá subjacente 5. Quinta: Edificar. Deixarmantê-las, será sempre uma pessoa a nós a mão de Deus – ainda que uma marca é deixar um sinal,em paz com o mundo. Note bem: sejamos incrédulos –, e a Ele todo uma mensagem, um legado, uma Primeira qualidade: você pode o nosso esforço deve se confor- obra que poderá ser boa ou má,fazer grandes coisas, mas nunca deve mar e se dirigir. Somos frágeis, passageira ou perene, exclusi-esquecer que existe uma Mão que guia inexpressivos e mui efêmeros pe- vista ou altruísta, construtiva ouseus passos. Esta mão nós chamamos rante o Criador e a criação. destrutiva, lembrada ou ignora-de Deus, e Ele deve sempre conduzi-lo 2. Segunda: Resignação. Acei- da. Compete a cada um deixarem direção à Sua vontade. tar as limitações, os desafetos, os o mundo e o seu mundinho (lar, Segunda qualidade: de vez em dissabores, as ofensas, as indife- trabalho, familiares, amigos, en-quando eu preciso parar o que estou renças e os achaques que a vida tidades a que pertence...) melhorescrevendo e usar o apontador. Isso nos impõe. Esta atitude poderá do que recebeu.faz com que o lápis sofra um pouco, nos preparar e nos alavancar para Esta singela parábola deve sermas, no final, ele está mais afiado. superar novos desafios e embates relida quantas vezes forem neces-Portanto, saiba suportar algumas do- que certamente virão ao longo da sárias, pois poderemos desvendarres, porque elas o farão ser uma pes- existência. outras mensagens construtivas.soa melhor. 3. Terceira: Perfeição. Como Embora A Parábola do Lápis Terceira qualidade: o lápis sem- seres falíveis e imperfeitos po- não tenha sido contada por Jesuspre permite que usemos uma borracha dem almejar a perfeição? Buscar Cristo, ela enseja os mais lídimospara apagar aquilo que estava erra- a perfeição é se aprimorar cons- ensinamentos cristãos, que desdedo. Entenda que corrigir uma coisa tantemente; é procurar superar- priscas eras se colocaram a favorque fizemos não é necessariamente se continuamente; é dar de si e da dignidade do ser humano e dealgo mau, mas algo importante para do melhor de si em ações saluta- seu aprimoramento.nos manter no caminho da justiça. res e edificantes. Relembrando o Que ela possa inspirar e enle- Quarta qualidade: o que re- doutor angélico, o condestável var a todos nós na Sobrames – SP,almente importa no lápis não é a teólogo são Tomás de Aquino independentemente do credo oumadeira ou sua forma exterior, mas (1225-1274): “o que é digno de ser da descrença que temos!