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    6994779 rubem-alves-a-alegria-de-ensinar 6994779 rubem-alves-a-alegria-de-ensinar Document Transcript

    • RUBEM ALVESA ALEGRIA DE ENSINARARS POETICA EDITORA LTDA1994_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar2
    • _______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar3
    • Ensinaré um exercíciode imortalidade.De alguma formacontinuamos a vivernaqueles cujos olhosaprenderam a ver o mundopela magia da nossa palavra.O professor, assim, não morrejamais...Rubem Alves_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar4
    • ÍndiceEnsinar a alegria ................................. 5Escola e sofrimento ............................ 8A lei de Charlie Brown ......................... 13Boca de forno ..................................... 17O sapo ................................................ 21Sobre vacas e moedores ..................... 25Eu, Leonardo ....................................... 29Lagartas e borboletas ......................... 34Bolinhas de gude ................................ 38Um corpo com asas ............................ 43Tudo o que é pesado flutua no ar ....... 47As receitas .......................................... 52Ensinar o que não se sabe .................. 56O carrinho ........................................... 60_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar5
    • Ensinar a alegriaMuito se tem falado sobre o sofrimento dosprofessores.Eu, que ando sempre na direção oposta, eacredito que a verdade se encontra no avessodas coisas, quero falar sobre o contrário: aalegria de ser professor, pois o sofrimento de seser um professor é semelhante ao sofrimentodas dores de parto: a mãe o aceita e logo delese esquece, pela alegria de dar à luz um filho.Reli, faz poucos dias, o livro de HermannHesse, O Jogo das Contas de Vidro. Bem ao final,à guisa de conclusão e resumo da estória, estáeste poeminha de Rückert:Nossos dias são preciososmas com alegria os vemos passandose no seu lugar encontramosuma coisa mais preciosa crescendo:uma planta rara e exótica,deleite de um coração jardineiro,uma criança que estamos ensinando,um livrinho que estamos escrevendo._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar6
    • Este poema fala de uma estranha alegria, aalegria que se tem diante da coisa triste que éver os preciosos dias passando... A alegria estáno jardim que se planta, na criança que seensina, no livrinho que se escreve. Senti que eumesmo poderia ter escrito essas palavras, poissou jardineiro, sou professor e escrevo livrinhos.Imagino que o poeta jamais pensaria em seaposentar. Pois quem deseja se aposentardaquilo que lhe traz alegria? Da alegria não seaposenta... Algumas páginas antes o herói daestória havia declarado que, ao final de sualonga caminhada pelas coisas mais altas doespírito, dentre as quais se destacava afamiliaridade com a sublime beleza da música eda literatura, descobria que ensinar era algo quelhe dava prazer igual, e que o prazer era tantomaior quanto mais jovens e mais livres dasdeformações da deseducação fossem osestudantes.Ao ler o texto de Hesse tive a impressão deque ele estava simplesmente repetindo umtema que se encontra em Nietzsche. O que ébem provável. Fui procurar e encontrei o lugaronde o filósofo (escrevo esta palavra com umpedido de perdão aos filósofos acadêmicos, quenunca o considerariam como tal, porque ele époeta demais, “tolo” demais...) diz que “afelicidade mais alta é a felicidade da razão, queencontra sua expressão suprema na obra do_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar7
    • artista. Pois que coisa mais deliciosa haverá quetornar sensível a beleza? Mas “esta felicidadesuprema,” ele acrescenta, “é ultrapassada nafelicidade de gerar um filho ou de educar umapessoa.”Passei então ao prólogo de Zaratustra.Quando Zaratustra tinha 30 anos deidade deixou a sua casa e o lago de suacasa e subiu para as montanhas. Ali elegozou do seu espírito e da sua solidão, epor dez anos não se cansou. Mas, porfim, uma mudança veio ao seu coraçãoe, numa manhã, levantou-se demadrugada, colocou-se diante do sol, eassim lhe falou: Tu, grande estrela, queseria de tua felicidade se não houvesseaqueles para quem brilhas? Por dezanos tu vieste à minha caverna: tu teterias cansado de tua luz e de tuajornada, se eu, minha águia e minhaserpente não estivéssemos à tuaespera. Mas a cada manhã teesperávamos e tomávamos de ti o teutransbordamento, e te bendizíamos porisso.Eis que estou cansado na minhasabedoria, como unia abelha queajuntou muito mel; tenho necessidadede mãos estendidas que a recebam._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar8
    • Mas, para isso, eu tenho de descer àsprofundezas, como tu o fazes na noite emergulhas no mar... Como tu, eutambém devo descer...Abençoa, pois, a taça que desejaesvaziar-se de novo...Assim se inicia a saga de Zaratustra, comuma meditação sobre a felicidade. A felicidadecomeça na solidão: uma taça que se deixaencher com a alegria que transborda do sol. Masvem o tempo quando a taça se enche. Ela nãomais pode conter aquilo que recebe. Desejatransbordar. Acontece assim com a abelha quenão mais consegue segurar em si o mel queajuntou; acontece com o seio, turgido de leite,que precisa da boca da criança que o esvazie. Afelicidade solitária é dolorosa. Zaratustrapercebe então que sua alma passa por umametamorfose. Chegou a hora de uma alegriamaior: a de compartilhar com os homens afelicidade que nele mora. Seus olhos procurammãos estendidas que possam receber a suariqueza. Zaratustra, o sábio, se transforma emmestre. Pois ser mestre e isso: ensinar afelicidade.“Ah!”, retrucarão os professores, “afelicidade não é a disciplina que ensino. Ensinociências, ensino literatura, ensino história,ensino matemática...” Mas será que vocês não_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar9
    • percebem que essas coisas que se chamam“disciplinam’’, e que vocês devem ensinar, nadamais são que taças multiformes coloridas, quedevem estar cheias de alegria?Pois o que vocês ensinam não e um deleitepara a alma? Se não fosse, vocês não deveriamensinar. E se é, então é preciso que aqueles querecebem, os seus alunos, sintam prazer igual aoque vocês sentem. Se isso não acontecer, vocêsterão fracassado na sua missão, como acozinheira que queria oferecer prazer, mas acomida saiu salgada e queimada...O mestre nasce da exuberância dafelicidade. E, por isso mesmo, quandoperguntados sobre a sua profissão, osprofessores deveriam ter coragem para dar aabsurda resposta: “Sou um pastor da alegria...”Mas, e claro, somente os seus alunos poderãoatestar da verdade da sua declaração..._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar10
    • Escola e SofrimentoEstou com medo de que as crianças mechamem de mentiroso. Pois eu disse que onegócio dos professores é ensinar a felicidade.Acontece que eu não conheço nenhuma criançaque concorde com isto. Se elas já tivessemaprendido as lições da política, me acusariam deporta voz da classe dominante. Pois, como todossabem, mas ninguém tem coragem de dizer,toda escola tem uma classe dominante e umaclasse dominada: a primeira, formada porprofessores e administradores, e que detém omonopólio do saber, e a segunda, formada pelosalunos, que detém o monopólio da ignorância, eque deve submeter o seu comportamento e oseu pensamento aos seus superiores, sedesejam passar de ano.Basta contemplar os olhos amedrontadosdas crianças e os seus rostos cheios deansiedade para compreender que a escola lhestraz sofrimento. O meu palpite é que, se se fizeruma pesquisa entre as crianças e osadolescentes sobre as suas experiências dealegria na escola, eles terão muito que falarsobre a amizade e o companheirismo entre eles,_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar11
    • mas pouquíssimas serão as referências à alegriade estudar, compreender e aprender.A classe dominante argumentará que otestemunho dos alunos não deve ser levado emconsideração. Eles não sabem, ainda... Quemsabe são os professores e os administradores.Acontece que as crianças não estãosozinhas neste julgamento. Eu mesmo só melembro com alegria de dois professores dosmeus tempos de grupo, ginásio e científico. Aprimeira, uma gorda e maternal senhora,professora do curso de admissão, tratava-nos atodos como filhos. Com ela era como se todosfôssemos uma grande família. O outro, professorde Literatura, foi a primeira pessoa a meintroduzir nas delícias da leitura. Ele falavasobre os grandes clássicos com tal amor quedeles nunca pude me esquecer. Quanto aosoutros, a minha impressão era a de que nosconsideravam como inimigos a seremconfundidos e torturados por um saber cujasfinalidade e utilidade nunca se deram aotrabalho de nos explicar. Compreende-se,portanto, que entre as nossas maiores alegriasestava a notícia de que o professor estavadoente e não poderia dar a aula. E até mesmouma dor de barriga ou um resfriado era motivode alegria, quando a doença nos dava umadesculpa aceitável para não ir à escola._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar12
    • Não me espanto, portanto, que tenhaaprendido tão pouco na escola. O que aprendifoi fora dela e contra ela. Jorge Luís Borgespassou por experiência semelhante. Declarouque estudou a vida inteira, menos nos anos emque esteve na escola. Era, de fato, difícil amaras disciplinas representadas por rostos e vozesque não queriam ser amados.Esta situação, ao que parece, tem sido anorma, tanto que e assim que aparecefreqüentemente relatada na literatura. RomainRolland conta a experiência de um aluno: “...afinal de contas, não entender nada já é umhábito. Três quartas partes do que se diz e doque me fazem escrever na escola: a gramática,ciências, a moral e mais um terço das palavrasque leio, que me ditam, que eu mesmo emprego– eu não sei o que elas querem dizer. Já observeique em minhas redações as que eu menoscompreendo são as que levam mais chances deser classificadas em primeiro lugar”. Mas nemprecisaríamos ler Romain Rolland: bastaria ler ostextos que os nossos filhos têm de ler eaprender. Concordo com Paul Goodmann na suaafirmação de que a maioria dos estudantes noscolégios e universidades não desejam estar lá.Estão lá porque são obrigados.Os métodos clássicos de tortura escolarcomo a palmatória e a vara já foram abolidos._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar13
    • Mas poderá haver sofrimento maior para umacriança ou um adolescente que ser forçado amover-se numa floresta de informações que elenão consegue compreender, e que nenhumarelação parecem ter com sua vida?Compreende-se que, com o passar do tempoa inteligência se encolha por medo e horrordiante dos desafios intelectuais., e que o alunopasse a se considerar como um burro. Quando averdade é outra: a sua inteligência foiintimidada pelos professores e, por isto, ficouparalisada.Os técnicos em educação desenvolverammétodos de avaliar a aprendizagem e, a partirdos seus resultados, classificam os alunos. Masninguém jamais pensou em avaliar a alegria dosestudantes – mesmo porque não há métodosobjetivos para tal. Porque a alegria é umacondição interior, uma experiência de riqueza ede liberdade de pensamentos e sentimentos. Aeducação, fascinada pelo conhecimento domundo, esqueceu-se de que sua vocação édespertar o potencial único que jaz adormecidoem cada estudante. Daí o paradoxo com quesempre nos defrontamos: quanto maior oconhecimento, menor a sabedoria. T. S. Eliotfazia esta terrível pergunta, que deveria sermotivo de meditação para todos os professores:_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar14
    • “Onde está a sabedoria que perdemos noconhecimento?”Vai aqui este pedido aos professores, pedidode alguém que sofre ao ver o rosto aflito dascrianças, dos adolescentes: lembrem-se de quevocês são pastores da alegria, e que a suaresponsabilidade primeira é definida por umrosto que lhes faz um pedido: “Por favor, meajude a ser feliz...”_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar15
    • A lei de Charlie BrownVoltando das férias resolvi fazer umalimpeza na papelada que se acumulou no anopassado. Um monte de pastas, cheias deanotações, idéias para uso futuro. Fui lendo,vagarosamente. Muitas das idéias já não faziamsentido: não me diziam nada; estavam mortas.Outras tinham sido escritas apressadamente enão consegui decifrar minha própria letra. Acesta de lixo foi se enchendo. Mas sobraramalgumas coisas que guardei. Demorei-me numrecorte de jornal. Era uma daquelas tirinhas doCharlie Brown. Ele está explicando ao seuamiguinho a importância das escolas. “Sabe porque temos que tirar boas notas na escola? Parapassarmos do primário para o ginásio. Setirarmos boas notas no ginásio, passamos parao colégio e se no colégio tirarmos boas notas,passamos para a universidade, e se, nestatirarmos boas notas, conseguimos um bomemprego e podemos casar e ter filhos paramandá-los à escola, onde eles vão estudar ummonte de coisas para tirar boas notas e...”O sorriso é inevitável. A gente sesurpreende com a verdade clara das palavras domenino. Ele diz, de um só fôlego, aquilo que os_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar16
    • filósofos da educação raramente percebem. E,se o percebem, não têm coragem de dizer. E, seo dizem, o fazem de maneira complicada ecomprida. A curta explicação de Charlie Brown,qualquer criança que vá à escola compreendeimediatamente.Charlie Brown enuncia a lei da educação:porque é assim mesmo que as coisasacontecem. E, se o sorriso aparece, e porque agente se dá conta, repentinamente, da máquinaabsurda pela qual nossas crianças e jovens sãoforçados a passar, em nome da educação.É estranho que tal afirmação saia de alguémque se considera um educador. Mas é por istomesmo, por querer ser um professor, que aquilopor que nossas crianças e jovens são forçados apassar, em nome da educação, me horroriza.Hermann Hesse, que dizia que dentre osproblemas da cultura moderna a escola era oúnico que levava a sério, pensava de maneirasemelhante. Dizia que a escola havia matadomuitas coisas nele.Nietzsche, que via a sua missão como a deum educador, também se horrorizava frenteaquilo que as escolas faziam com a juventude:“O que elas realizam”, ele dizia, “e umtreinamento brutal, com o propósito de prepararvastos números de jovens, no menor espaço etempo possível, para se tornarem usáveis e_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar17
    • abusáveis, a serviço do governo”. Se ele vivessehoje certamente faria uma pequena modificaçãona sua última afirmação. Ao invés de “usáveis aserviço do governo”, diria “usáveis e abusáveisa serviço da economia”.À medida que vou envelhecendo tenho cadavez mais dó deles, das crianças e dos jovens.Porque gostaria que a educação fosse diferente.Vejam bem: não estou lamentando a falta derecursos econômicos para a educação. Nãoestou me queixando da indigência quaseabsoluta de nossas escolas.Se tivéssemos abundância de recursos, ébem possível que acabássemos como o Japão, enossas escolas se transformassem em máquinaspara a produção de formigas disciplinadas etrabalhadoras.Não creio que a excelência funcional doformigueiro seja uma utopia desejável. Nãoexiste evidência alguma de que homens-formiga, notáveis pela sua capacidade deproduzir, sejam mais felizes. Parece que oobjetivo de produzir cada vez mais, adequadoaos interesses de crescimento econômico, não esuficiente para dar um sentido à vida humana. Ésignificativo que o Japão seja hoje um dos paísescom a mais alta taxa de suicídios no mundo,inclusive o suicídio de crianças. A miséria dasescolas se encontra precisamente ali onde elas_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar18
    • são classificadas como excelentes. Não critico amáquina educacional por sua ineficiência.Critico a máquina educacional por aquilo em.que ela pretende produzir, por aquilo em queela deseja transformar nossos jovens. Éprecisamente quando a máquina é maiseficiente que a deformação que ela produzaparece de forma mais acabada.Acho que a tirinha do Charlie Brown mecomoveu pela coincidência com este sofrimentoimenso que se chama exames vestibulares. Ficopensando no enorme desperdício de tempo,energias e vida. Como disse o Charlie Brown, osque tirarem boas notas entrarão nauniversidade. Nada mais. Dentro de poucotempo quase tudo aquilo que lhes foiaparentemente ensinado terá sido esquecido.Não por burrice. Mas por inteligência. O corponão suporta carregar o peso de umconhecimento morto que ele não consegueintegrar com a vida.Uma boa forma de se testar a validadedeste sofrimento enorme que se impõe aosjovens seria submeter os professoresuniversitários ao mesmo vestibular por que osadolescentes têm de passar. Estou quase certode que eu – e um número significativo dos meuscolegas – não passaria. O que não nosdesqualificaria como professores, mas que_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar19
    • certamente revelaria o absurdo do nossosistema educacional, como bem o percebeuCharlie Brown.Um amigo, professor universitário dosEstados Unidos, me contou que o seu filho, quesempre teve as piores notas em literatura,voltou um dia triunfante para casa, exibindo umA, nota máxima, numa redação. Surpreso, quislogo ler o trabalho do filho. E só de ler o título daredação compreendeu a razão do milagre. Otítulo da redação era: Porque odeio a minhaescola._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar20
    • Boca e forno!Boca e forno!- Forno!- Furtaram um bolo!- Bolo!- Farão tudo o que o seu mestremandar?- Faremos todos, faremos todos,faremos todos...A gente brincava assim, quando era criança.O mestre cantava o refrão e os outrosrespondiam, repetindo a última palavra, comose fosse um eco. Sempre me perguntei sobre osentido destas palavras. E por mais que meesforçasse, nunca encontrei sentido algum. Épuro non-sense, e imagino que este brinquedobem que poderia figurar entre os absurdos porque Lewis Carroll fez a pobre Alice passar nassuas aventuras pelo País das Maravilhas e NoPaís do Espelho.Mas todo absurdo é apenas o avesso deuma coisa que parece lógica e racional, como olado de trás de uma tapeçaria, escondido contraa parede. O absurdo é o avesso do mundo. Aí_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar21
    • fiquei a me perguntar: “Este absurdo é o avessode quê?”Veio-me, então, uma iluminação repentina:não deve ter sido por acidente que o inventordesta brincadeira, quem quer que tenha sido,deu o nome de mestre ao líder que canta orefrão, pedindo a resposta-eco-repetição dascrianças. Ele deve ter sido um argutoobservador das escolas, e por medo de que oseu filho viesse a ser punido por aquilo que ele,pai, estava dizendo, inventou este brinquedo,como uma parábola. O que é, precisamente, ocaso das loucas histórias de Lewis Carroll.Professor da Universidade de Oxford, via osabsurdos que ali aconteciam. Mas se os dissesseem linguagem clara, certamente ganharia oódio dos colegas e a ira das autoridades, eacabaria por perder o emprego. Por isto, ele osdisse de forma matreira, dissimulada:brincadeira de criança... No mundo das criançastodos os absurdos são permitidos.Acho que esta brincadeira é uma repetiçãodo que acontece nas escolas. As crianças sãoensinadas. Aprendem bem. Tão bem que setornam incapazes de pensar coisas diferentes.Tornam-se ecos das receitas ensinadas eaprendidas. Tornam-se incapazes de dizer odiferente. Se existe uma forma certa de pensaras coisas e de fazer as coisas, por que se dar ao_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar22
    • trabalho de se meter por caminhos não-explorados? Basta repetir aquilo que a tradiçãosedimentou e que a escola ensinou. O sabersedimentado nos poupa dos riscos da aventurade pensar.Não, não sou contrário a que se ensinemreceitas já testadas. Se existe um jeito fácil erápido de amarrar os cordões dos sapatos, nãovejo razão alguma para submeter o aluno àsdores de inventar um jeito diferente. Se existeum jeito já testado e gostado de fazer moqueca,não vejo razões por que cada cozinheiro se sintana obrigação de estar sempre inventandoreceitas novas. O saber já testado tem umafunção econômica: a de poupar trabalho, a deevitar erros, a de tornar desnecessário opensamento. Assim, aprende-se para nãoprecisar pensar. Sabendo-se a receita, bastaaplicá-la quando surge a ocasião.Senti isto muitas vezes, tentando pensarcom minha filha problemas de matemática. Épreciso confessar que isto já faz muito tempo,pois o que me restou de matemática já não mepermite nem mesmo entender os símbolos queela maneja. Claro que minha maneira de pensarera diferente da maneira de pensar hoje. Nomeu tempo ainda se cantava a tabuada... Mas oque me impressionava era a sua recusa de, pelomenos, considerar a possibilidade de que um_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar23
    • mesmo problema pudesse ser resolvido porcaminhos diferentes. Ela havia aprendido que háuma maneira certa de fazer as coisas, e quecaminhos diferentes só podem estar errados. Aconversa era sempre encerrada com aafirmação: “Não é assim que a professoraensina...”É como nos catecismos religiosos: o mestrediz qual e a pergunta e qual é a resposta certa.O aluno é aprovado quando repete a respostaque o professor ensinou.A letra mudou. Mas a música continua amesma.Pois não é isto que são os vestibulares? Aofinal existe o gabarito: o conjunto das respostascertas. Claro que há respostas certas e erradas.O equívoco está em se ensinar ao aluno que édisto que a ciência, o saber, a vida, são feitos. E,com isto, ao aprender as respostas certas, osalunos desaprendem a arte de se aventurar e deerrar, sem saber que, para uma resposta certa,milhares de tentativas erradas devem ser feitas.Espero que haverá um dia em que os alunosserão avaliados também pela ousadia de seusvôos! Teses que serão aprovadas a despeito doseu final insólito: “Assim, ao fim de todas estaspesquisas, concluímos que todas as nossashipóteses estavam erradas!” Pois isto também econhecimento._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar24
    • Escondidos em meio à vegetação dafloresta, observávamos a anta que bebia à beirada lagoa. Suas costas estavam feridas, fundoscortes onde o sangue ainda se via. O guiaexplicou. “A anta é um animal apetitoso, presafácil das onças. E sem defesas. Contra a onçaela só dispõe de uma arma: estabelece umatrilha pela floresta, e dela não se afasta. Estecaminho passa por baixo de um galho de árvore,rente às suas costas. Quando a onça ataca ecrava dentes e garras no seu lombo, ela sai emdesabalada corrida por sua trilha. Seu corpopassa por baixo do galho. Mas não a onça, querecebe uma paulada. E assim, a anta tem umachance de fugir.”Acho que a educação freqüentemente criaantas: pessoas que não se atrevem a sair dastrilhas aprendidas, por medo da, onça. De suastrilhas sabem tudo, os mínimos detalhes,especialistas. Mas o resto da floresta permanecedesconhecido. Pela vida afora vão brincando de“Boca de forno...”_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar25
    • O SapoEra uma vez um lindo príncipe por quemtodas as CW moças se apaixonavam. Por eletambém se apaixonou uma bruxa horrenda queo pediu em casamento. O príncipe nem ligou e abruxa ficou muito brava. “Se não vai casarcomigo não vai se casar com ninguém mais!”Olhou fundo nos olhos dele e disse: “Você vaivirar um sapo!” Ao ouvir esta palavra o príncipesentiu uma estremeção. Teve medo. Acreditou. Eele virou aquilo que a palavra de feitiço tinhadito. Sapo. Virou um sapo.Bastou que virasse sapo para que seesquecesse de que era príncipe. Viu-se refletidono espelho real e se espantou: “Sou um sapo.Que é que estou fazendo no palácio do príncipe?Casa de sapo é charco.” E com essas palavraspôs-se a pular na direção do charco. Sentiu-sefeliz ao ver lama. Pulou e mergulhou. Finalmentede novo em casa.Como era sapo, entrou na escola de sapospara aprender as coisas próprias de sapo.Aprendeu a coaxar com voz grossa. Aprendeu ajogar a língua pra fora para apanhar moscasdistraídas. Aprendeu a gostar do lodo. Aprendeu_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar26
    • que as sapas eram as mais lindas criaturas douniverso. Foi aluno bom e aplicado. Memóriaexcelente. Não se esquecia de nada. Daí suasnotas boas. Até foi o primeiro colocado nosexames finais, o que provocou a admiração detodos os outros sapos, seus colegas, aparecendoaté nos jornais. Quanto mais aprendia as coisasde sapo, mais sapo ficava. E quanto maisaprendia a ser sapo, mais se esquecia de queum dia fora príncipe. A aprendizagem é assim:para se aprender de um lado há que seesquecer do outro. Toda aprendizagem produz oesquecimento.O príncipe ficou enfeitiçado. Mas feitiço –assim nos ensinaram na escola – é coisa quenão existe. Só acontece nas estórias decarochinha.Engano. Feitiço acontece sim. A estória diz averdade. Feitiço: o que é? Feitiço é quando umapalavra entra no corpo e o transforma. Opríncipe ficou possuído pela palavra que a bruxafalou. Seu corpo ficou igual à palavra.A estória do príncipe que virou sapo e anossa própria estória. Desde que nascemos,continuamente, palavras nos vão sendo ditas.Elas entram no nosso corpo, e ele vai setransformando. Virando uma outra coisa,diferente da que era. Educação é isto: oprocesso pelo qual os nossos corpos vão ficando_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar27
    • iguais às palavras que nos ensinam. Eu não soueu: eu sou as palavras que os outros plantaramem mim. Como o disse Fernando Pessoa: “Sou ointervalo entre o meu desejo e aquilo que osdesejos dos outros fizeram de mim”. Meu corpoé resultado de um enorme feitiço. E osfeiticeiros foram muitos: pais, mães,professores, padres, pastores, gutas, líderespolíticos, livros, TV. Meu corpo e um corpoenfeitiçado: porque o meu corpo aprendeu aspalavras que lhe foram ditas, ele se esqueceude outras que, agora permanecem mal ...ditas...A psicanálise acredita nisso. Ela vê cadacorpo como um sapo dentro do qual está umpríncipe esquecido. Seu objetivo não é ensinarnada. Seu objetivo é o contrário: des-ensinar aosapo sua realidade sapal. Fazê-lo esquecer-se doque aprendeu, para que ele possa lembrar-se doque esqueceu. Quebrar o feitiço. Coisa que atémesmo certos filósofos (poucos) percebem. Amaioria se dedica ao refinamento da realidadesapal. Também os sapos se dedicam à filosofia...Mas Wittgenstein, filósofo para ninguém botardefeito, definia a filosofia como uma “lutacontra o feitiço” que certas palavras exercemsobre nós. Acho que ele acreditava nas estóriasde carochinha..._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar28
    • Tudo isso apenas como introdução àenigmática observação com que Barthesencerra sua descrição das metamorfoses doeducador. Confissão sobre o lugar onde haviachegado, no momento de velhice. “Há umaidade em que se ensina aquilo que se sabe.Vem, em seguida, uma outra, quando se ensinaaquilo que não se sabe. Vem agora, talvez, aidade de uma outra experiência: aquela dedesaprender. Deixo-me, então, ser possuídopela força de toda vida viva: o esquecimento...”Esquecer para lembrar. A psicanálisenenhum interesse tem por aquilo que se sabe. Osabido, lembrado, aprendido, é a realidadesapal, o feitiço que precisa ser quebrado.Imagino que o sapo, vez por outra, se esqueciada letra do coaxar, e no vazio do esquecimento,surgia uma canção. “Desafinou!” berravam osmaestros. “Esqueceu-se da lição”, repreendiamos professores. Mas uma jovem que seassentava à beira da lagoa juntava-se a ele,num dueto... E o sapo, assentado na lama,desconfiava...“Procuro despir-me do que aprendi”, diziaAlberto Caeiro. “Procuro esquecer-me do modode lembrar que me ensinaram, e raspar a tintacom que me pintaram os sentidos,desencaixotar minhas emoções verdadeiras,desembrulhar-me, e ser eu...”_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar29
    • Assim se comportavam os mestres Zen, quenada tinham para ensinar. Apenas ficavam àespreita, esperando o momento de desarticularo aprendido para, através de suas rachaduras,fazer emergir o esquecido. É preciso esquecerpara se lembrar. A sabedoria mora noesquecimento.Acho que o sapo, tão bom aluno, tão bemeducado, passava por períodos de depressão.Uma tristeza inexplicável, pois a vida era tãoboa, tudo tão certo: a água da lagoa, as moscasdistraídas, a sinfonia unânime da saparia, todosde acordo... O sapo não entendia. Não sabia quesua tristeza nada mais era que uma indefinívelsaudade de uma beleza que esquecera.Procurava que procurava, no meio dos sapos, acura para sua dor. Inultimente. Ela estava emoutro lugar.Mas um dia veio o beijo de amor – e ele selembrou. O feitiço foi quebrado.Uma bela imagem para um mestre! Umabela imagem para o educador: fazer esquecerpara fazer lembrar!_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar30
    • Sobre vacas e moedoresUm amigo tinha um sítio. Colocou nele umavaca. A vaca lhe dava uma enorme despesa.Teve de construir um estábulo, além de compraruma picadeira de cana para a ração. As pessoasajuizadas de sua família tentaram trazê-lo devolta à razão.“Com as despesas todas que a vaca lhe dá,o leite dela é o mais caro da cidade! Seria maisbarato e prático comprar o leite nos saquinhosplásticos...”Mas ele me confessava: “Eles nãoentendem... Eu não tenho a vaca por causa doleite. Eu tenho a vaca porque gosto de ficarolhando para ela, aqueles olhos tão mansos,aquele ar tão plácido, tão diferente das pessoascom quem lido... Tenho a vaca porque ela mefaz ficar tranqüilo...”Meu amigo sabia aquilo que os seus práticosfamiliares não sabiam: que uma vaca, além deser um objeto com vantagens práticas eeconômicas, é um objeto onírico. As vacas nosfazem sonhar...Havia, na casa do meu avô, um quadrobucólico. Era um campo, com grandes paineiras_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar31
    • floridas ao fundo e algumas vacas quemansamente pastavam. Eu, menino, gostava deficar ali, olhando o quadro. E me imaginavaassentado à sombra das paineiras gozando afelicidade de ter como companhia apenas asvacas, que nada pediam de mim. Não existenelas nenhuma ética, nenhum comando. Nadaquerem fazer, além de comer o capim verde.Já os cavalos provocam sonhos diferentes:criaturas selvagens, cheias de uma belezaenérgica, relincham num desafio para ascorridas desabaladas e o vigoroso bater daspatas no chão. O relinchar de um cavalo é umgrito de guerra. Mas o mugido de uma vaca,apito rouco de um navio vagaroso, soa comouma oração... “de profundis...”Acho que foi por isso, por esta sabedoriafilosófica, que as vacas nos fazem sonhar, queos hindus as elegeram como seres sagrados. Asvacas parecem estar em paz coma vida – muito embora o seu destino possaser trágico. Trágico não por causa delas, maspor causa dos homens, que pouco se comovemcom seus olhos mansos. Cecília Meireles colocounum verso esta condição bovina, comoparadigma da condição humana:Sede assim – qualquer coisa serena,isenta, fiel, igual ao boi que vai cominocência para a morte”._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar32
    • Pois bois e vacas, esvaziadas de suas belase inúteis funções oníricas pelos homenspráticos, estão destinados ao corte.Passei pelo açougue, lugar onde se realiza odestino das vacas. Um açougue é o lugar onde amansidão bovina é transformada em utilidadecomercial. Para serem úteis elas têm de morrer.Sobre um balcão, um moderníssimo moedor decarne. O açougueiro, afiando sem parar a suafaca, corta as carnes que, um dia, pastaram àsombra das paineiras.Por um buraco à direita entram os pedaçosde carne. Ligada a máquina, giram asengrenagens invisíveis que trituram a carne.Operação necessária para que a vaca se torneútil ao homem. Em sua placidez filosófica, avaca não é útil a ninguém, apenas a ela mesma.É preciso que a máquina a transforme numaoutra coisa para ser útil ao homem. Na outraextremidade do moedor elétrico há um discocheio de orifícios. Por eles esguicha a carnemoída, que vai caindo em uma bandeja.Terminada a operação, o açougueiro toma umpunhado de carne e o coloca sobre um pedaçode plástico e, por meio de uma manipulaçãodestra, enrola-a sob a forma de um rolo, comose fosse um salame. E assim vai repetindo.Sobre o balcão os rolos vão se acumulando,todos iguais, um ao lado do outro._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar33
    • Tentei conversar com os rolos de carnemoída. Perguntei-lhes se sentiam saudades dospastos, dos riachos, das paineiras floridas... Masparece que haviam se esquecido de tudo.“Pastos, riachos, paineiras – o que é isso?”Parece que a máquina de moer carne tem opoder de produzir amnésia. Perguntei-lhes entãosobre os seus sonhos. E me responderam:hambúrgueres, McDonald’s, Bob’s, churrascos...Só sabiam falar de sua utilidade social. E atéfalavam inglês...Meditei sobre o destino das vacas. Fiqueipoeta. A gente fica poeta quando olha para umacoisa e vê outra. É isto que tem o nome demetáfora. Olhei para a carne cortada, o moedor,os rolinhos e vi uma outra: escolas! Assim sãoas escolas... As crianças são seres oníricos, seuspensamentos têm asas. Sonham sonhos dealegria. Querem brincar. Como as vacas deolhos mansos são belas, mas inúteis. E asociedade não tolera a inutilidade. Tudo tem deser transformado em lucro. Como as vacas, elastêm de passar pelo moedor de carne. Pelosdiscos furados, as redes curriculares, seuscorpos e pensamentos vão passando. Todasestão transformadas numa pasta homogênea.Estão preparadas para se tornar socialmenteúteis._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar34
    • E o ritual dos rolos em plástico? Formatura.Pois formatura é isto: quando todos ficam iguais,moldados pela mesma forma.Hoje, quando escrevo, os jovens estão indopara os vestibulares. O moedor foi ligado.Dentro de alguns anos estarão formados. Serãoprofissionais. E o que é um profissional se nãoum corpo que sonhava e que foi transformadoem ferramenta? As ferramentas são úteis.Necessárias. Mas – que pena – não sabemsonhar..._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar35
    • Eu, Leonardo...Minhas habilidades técnicas não são daspiores. Eu mesmo, com serra, furadeiras eparafusos, construí as estantes do meuescritório. E até que elas me agradam, quandovistas de longe. O importante e não examinar osdetalhes, pois aí me falha a fineza artesanal. Devez em quando conserto uma fechaduraenguiçada e consegui mesmo reconstruir umatorradeira elétrica que havia se espatifado nochão. Minha inclinação para lidar com aconstrução e reconstrução de coisas semanifestou pela primeira vez quando eu tinhaapenas sete anos de idade, ocasião em quedesmontei o relógio velho de minha mãe, paraver como ele era feito, evidentemente com aintenção de montá-lo de novo. Infelizmente estasegunda parte da minha experiência emmecânica não pôde ser realizada, pois eu meesqueci da ordem em que as peças deviam serajuntadas. Meus pais, ao invés de ficarembravos, ficaram orgulhosos, pois viram no meuato uma inegável vocação para engenharia.Minha competência para matemática, que serevelou logo no curso primário, confirmou estediagnóstico, e ninguém duvidava, nem mesmo_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar36
    • eu, que o meu futuro era o de ser um brilhanteengenheiro.Mas a vida nos conduz por caminhos nãoprevistos, e ao invés de desenvolver minhacompetência na direção da técnica, acabei porme meter numa área totalmente diferente, ondea coisa mais impossível de se fazer é umartefato técnico. Do ponto de vista da técnicasou totalmente inútil e incompetente – o que mecondenou à posição marginal de alguém incapazde produzir as coisas que fazem a glória e ariqueza do nosso mundo. Minha ignorância dascoisas da tecnologia avançada – como estecomputador em que escrevo esta crônica – éabsoluta e os princípios científicos que tornarampossível sua fabricação me são um mistérioabsoluto. Quero, portanto, deixar manifestaminha admiração – mais do que isto, minhainveja, daqueles que são os magos-construtoresdeste mundo tecnológico em que vivemos.Se eu tivesse entrado pelos caminhos datecnologia, um lugar onde gostaria de trabalharé na IBM. Porque, se não estou equivocado, aIBM e uma das mais altas e perfeitasmanifestações do espírito tecnológico, na suamaior pureza. Tudo o que ela faz é (quase)perfeito. Digo “quase” porque, paradoxalmente,perfeição tecnológica só pode existir no campodo pensamento puro. As coisas produzidas, por_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar37
    • maior que seja o controle de qualidade, têmsempre imperfeições. Os aviões caem, oscomputadores são infestados por vírus, osmetais se rompem de fadiga. Para nós “quase”perfeito já está muito bom.Mas a IBM me surpreendeu quando descobrique ela também está interessada na beleza.Gastou o seu dinheiro para produzir um dosvídeos mais lindos que já vi, comovente einspirador, sobre a vida de Leonardo Da Vinci,um dos maiores gênios da história dahumanidade. Eu, Leonardo... Mente inquieta,incontrolável, indomável, dominada pelofascínio do mundo – seus olhos e seupensamento não conseguiam descansar ante osinfinitos objetos do mundo, existentes e porexistir. Julgava a pintura a suprema das artes,pois através dela se podia captar visualmente aharmonia da natureza, construída segundo osprincípios da matemática. Estudou anatomia,para entender os princípios mecânicos segundoos quais o corpo humano – esta máquinaperfeita – era construída. Músico, fazia seuspróprios instrumentos, compunha, tocava eimprovisava os poemas que cantava. Arquiteto,fez planos para uma cidade ideal, em que ascasas fossem construídas segundo os princípiosda beleza, banhadas de luz, e em que houvessevias especiais para os pedestres e outras paraos veículos. Imaginava máquinas. O seu_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar38
    • pensamento voava tão longe que a tecnologiaexistente não era capaz de produzir aquilo queele imaginava – e por isto elas permaneceramapenas como projetos, no papel. Estudou o vôodos pássaros, a fim de construir uma máquinaque desse aos homens o poder de voar. Sonhoucom navios que navegassem debaixo daságuas, como os peixes. Observava o tempo e osseus sinais, para compreender os princípios dameteorologia. Estudava a água, que acreditavaser o princípio vital do universo. Observava osfósseis, e concluiu que em passados remotos ocume das montanhas havia estado submersonas águas. Fascinava-se com os cavalos, paraele os mais belos animais, depois dos homens, efez estudos sobre a sua estética.O que era Leonardo? Pintor, músico,arquiteto, poeta, engenheiro, geólogo, biólogo?Todas estas coisas. Dentro do seu corpo viviaum universo. Homem universal, ele foi aencarnação, num único corpo, do ideal daUniversidade, como o lugar onde os homens sereúnem para, dando asas à imaginação,encontrar o deleite na visão, compreensão eharmonia com o mundo.Foi então que me veio uma idéia maluca: seo Leonardo Da Vinci tivesse vivido hoje, seráque ele teria conseguido um emprego na IBM?Para começar, o seu curriculum vitae provocaria_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar39
    • suspeitas. Um homem com interesses que vãoda estética dos cavalos à construção demáquinas voadoras não parece regular bem.Mas, suponhamos que ele conseguisse oemprego. Imagino uma situação prática: seuchefe lhe pede um relatório sobre um projeto depesquisa e ele responde que no momento istonão é possível porque está se dedicando a umprojeto estético por que se apaixonou – apintura de um quadro. É. Acho que Leonardo DaVinci não teria vida longa nem como funcionárioda IBM, nem como professor de uma das nossasuniversidades.Espero que meus amigos da IBM meentendam. Que não tomem isto corno nada depessoal. A relação é puramente acidental.Primeiro, porque foi ela que fez o maravilhosovídeo do Leonardo. Segundo, porque eu, de fato,acredito que a IBM representa o que há de maisalto no mundo técnico. Uso a IBM apenas comometáfora e representante da lógica da produçãoorganizacional da tecnologia, que pode assimser resumida: “organizações de produção detecnologia não toleram Leonardos”.Controle de qualidade ficou sendo umaexpressão da moda. O que ela significa é muitosimples: há de haver mecanismos que garantamque o produto final desejado esteja o maispróximo possível da perfeição com que ele foi_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar40
    • idealizado. É isto, por exemplo, que se esperade um bom restaurante: que o prato que éservido corresponda ao prato que é prometido.No campo tecnológico o produto final tem decorresponder às especificações, tais comosaíram das cabeças dos engenheiros que opensaram. É somente assim que se garantequalidade uniforme e confiável aos produtos.Acontece, entretanto, que a parte maisimportante deste processo não é o controle dequalidade dos produtos mas o controle dequalidade do pensamento. É do pensamentoque nascem os produtos. O mundo começa nãona máquina mas na inteligência. Por isto, aolado dos mecanismos de controle técnico, asorganizações, de há muito, aprenderam que épreciso controlar o pensamento. No seufascinante livro O Homem-Organização (TheOrganization Man, New York, Simon & Schuster,1956), William H. Whyte Jr. descreve talprocesso como a domesticação do gênio. Ocientista deve abandonar a sua imaginaçãodivagante que o leva a andar pelos caminhos doseu próprio fascínio (idle imagination) e tornar-se uma função dos objetivos determinados pelosinteresses da instituição que o emprega. Deveser company conscious. Se o que a companhiadeseja é a produção de tomates enlatados, oseu pensamento deve pensar tomatesenlatados, o tempo todo. Gastar tempo_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar41
    • pensando em música, jardinagem, política,ecologia, é uma doença a ser evitada a todocusto, em benefício do controle de qualidade dopensamento. Em outras palavras: controle dequalidade do pensamento e cortar as asas daimaginação a fim de que ele marche ao ritmodos tambores institucionais. O pensamento setornará excelente ao preço de perder a sualiberdade. Isto vale para a IBM e para todas asinstituições de excelência tecnológica. Inclusiveas universidades.Quanto ao Leonardo Da Vinci, deverá secontentar a ficar desempregado._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar42
    • Largatas e BorboletasEscrevi sobre príncipes e sapos, sobre vacase moedores, sobre o Leonardo e a IBM... Tudoaparentemente tão diferente. E no entanto –não sei se vocês perceberam – eu falei o tempotodo sobre uma mesma coisa. Fiz aquilo que osmúsicos gostam de fazer: “Variações” sobre um.único tema. Meu tema? O corpo: o meu corpo, oseu corpo, o corpo do seu filho ou de sua filha, ocorpo do seu aluno.O corpo é o lugar fantástico onde mora,adormecido, um universo inteiro. Como na terramoram adormecidos os campos e suas milformas de beleza, e também as monótonas eprevisíveis monoculturas; como na lagarta moraadormecida uma borboleta, e na borboleta, umalagarta; como nos sapos moram príncipes e nospríncipes moram sapos; como em obedientesfuncionários que fazem o que deles se pedemoram Leonardos que voam pelos espaços semfim dos sonhos...Tudo adormecido... O que vai acordar éaquilo que a Palavra vai chamar. As Palavras sãoentidades mágicas, potências feiticeiras,poderes bruxos que despertam os mundos que_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar43
    • jazem dentro dos nossos corpos, num estado dehibernação, como sonhos. Nossos corpos sãofeitos de palavras... Assim, podemos serpríncipes ou sapos, borboletas ou lagartas,campos selvagens ou monoculturas, Leonardosou monótonos funcionários.Diferentes dos corpos dos animais, quenascem prontos ao fim de um processobiológico, os nossos corpos, ao nascer, são umcaos grávido de possibilidades, à espera daPalavra que fará emergir, do seu silêncio, aquiloque ela invocou. Um infinito e silencioso tecladoque poderá tocar dissonâncias sem sentido,sambas de uma nota só, ou sonatas e suasincontáveis variações...A este processo mágico pelo qual a Palavradesperta os mundos adormecidos se dá o nomede educação. Educadores são todos aqueles quetêm este poder. Por isto que a educação mefascina. Hoje o que fascina é o poder dostécnicos, que sabem o segredo dastransformações da matéria em artefatos. Poucosse dão conta de que fascínio muito maior seencontra no poder da Palavra para fazer asmetamorfoses do corpo. É no lugar onde aPalavra faz amor com o corpo que começam osmundos... Por isto que compartilho da opiniãode Hermann Hesse, que dizia que entre os_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar44
    • problemas da cultura moderna a escola era oúnico que levava a sério.Mas é preciso não ter ilusões. A Palavratanto pode invocar príncipes quanto sapos,tanto pode acordar borboletas quanto lagartas...A educação pode ser um feitiço que nos fazesquecer o que somos, a fim de nos recriar àimagem e semelhança de um Outro. O que mefaz lembrar um mural de Orozco, pintormexicano que passou anos ensinando sua artenum “college” norte-americano. Foi certamenteinspirado pelo que via acontecendo diariamentecom os moços que freqüentavam as melhores(notem bem, eu disse “melhores” ...) escolas,que pintou “A Formatura”: um professor, alto,magro, cadavérico, verde, entrega ao seudiscípulo, também alto, magro, cadavérico,verde, a prova final do seu saber: o diploma, umfeto morto, dentro de um tubo de ensaio. Se istofor verdade, se o que o processo educativo faznão é despertar e fazer brotar os universosselvagens que moram em nós, mas antesespalhar herbicidas para depois plantar assementes da monocultura (afinal de contas,cada corpo deve ser útil socialmente..) que umOutro ali semeia, então o caminho da verdadeexige um esquecimento: é preciso esquecer-sedo aprendido, a fim de se poder lembrar daquiloque o conhecimento enterrou. Drummond, nopoema que escreveu para o seu neto, dizia-lhe_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar45
    • que muitas leis lhe seriam ensinadas, leis quedeveriam ser esquecidas para que ele pudesseaprender leis mais altas. A cigarra tem deabandonar troncos das árvores a sua cascavelha com que andara nos anos de vidasubterrânea, a fim de se tornar um ser alado.A miséria da educação não aparece onde elaé pior. Sua miséria se revela justamente ondeela é excelente. Pois, quando é que dizemos queela é excelente? Justamente ali onde elaconsegue, com competência, “administrar aqualidade” dos corpos que ela desejatransformar. E que transformação é esta que sedeseja? Quem dá a resposta de maneira maisclara e direta é Clark Kerr, presidente daUniversidade de Berkeley, durante a criseestudantil que a agitou no início da década dosanos 60. Estas são as suas palavras: “Auniversidade é uma fábrica para a produção deconhecimento e de técnicos a serviço dasmuitas burocracias da sociedade.” Coisa queNietzsche havia percebido muito antes, o queindica que esta tendência da educação não écoisa nova. “O que as escolas superiores naAlemanha realmente realizam é um treinamentobrutal, com o objetivo de preparar vastosnúmeros de jovens, com a menor perda possívelde tempo, para se tornarem usáveis e abusáveisa serviço do governo”._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar46
    • Não importa o nome que se dê a este Outro,para quem as crianças e jovens são moldados.Não importa o retorno econômico que se possaobter ao fim deste processo. Permanece um fatofundamental: que ele só se realiza ao preço damorte dos universos que um dia viveram, comopossibilidades adormecidas, no corpo dascrianças: todo Leonardo deve se transformar emfuncionário, toda borboleta deve se transformarnuma lagarta, todo campo selvagem deve setransformar em monocultura... Não é de seadmirar, portanto, que as pessoas passem assuas vidas com a estranha sensação de que nãoera bem aquilo que desejavam. Elas foramtransformadas em alguma coisa diferente dosseus sonhos, e esta traição as condenou àinfelicidade. Só lhes resta então repetir o versode Paulo Leminski:Ai daqueles que não morderam o sonhoe de cuja loucuranem mesmo a morte os redimirá._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar47
    • Bolinhas de GudeNada melhor para se sonhar que contemplaruma criança a brincar. Olho para minha netabrincando com três bolinhas de gude. Meuspensamentos ficam leves como bolhas desabão. Já me advertiram de que é inútil falarsobre netos porque os outros ou não têm netos,ou têm. Se têm netos, depois do que a genteconta eles sempre dizem: Mas isto não é nada...E se eles não têm netos, ficam espantados coma bobeira da gente. Resolvi correr o risco dedesobedecer o conselho, pois não é sobre minhaneta que vou falar. Vou falar sobre minhasbolhas de sabão, os sonhos que eu sonhoquando a vejo brincar.A Mariana me fez pensar pensamentos queeu não havia pensado... Talvez os tivessepensado mas não tivesse tido coragem de dizê-los, por parecerem tolos. Mas agora sou avô eaos avós uma dose de tolice é permitida. JorgeLuís Borges se arrependia de não ter sido maistolo do que fora. Eu não quero morrer com estearrependimento. Pois, o que é um tolo? Éapenas uma pessoa que ousa pensarpensamentos diferentes daqueles que a maioriapensa e repete. Aos tolos se aplica aquele_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar48
    • aforismo de T. S. Eliot: Num país de fugitivosaquele que anda na direção contrária pareceestar fugindo. Os tolos são aqueles que andamna direção contrária.Quando eu era pai jovem eu não via ascoisas do jeito como as vejo agora. Por istomeus pensamentos tratavam de preparar umfuturo para os meus filhos. Claro, era o meufuturo, o futuro que eu sonhava. Nãocompreendia que os sonhos que saem dascrianças não são os sonhos que os adultossonham. Os sonhos que brotam das criançascolocam os nossos de cabeça para baixo. E quepai e que mãe não se horroriza ante estapossibilidade? Assim tratei de proteger-me: aoinvés de sonhar com eles os sonhos deles,cuidei de embrulhá-los nos meus própriossonhos, para poder dormir melhor. Se pudesseviver de novo olharia para meus filhos comolhos de avô. Mas quando pai jovem estafelicidade me foi negada. Eu tinha muitascertezas sobre como a vida deve ser vivida parame permitir este exercício de loucura.Quando se fica avô a gente ganha apermissão para sonhar os sonhos das crianças.Já não nos compete planejar o seu futuro e seganha então a liberdade de se entregar aodelicioso e irresponsável gozo do presente: umamenininha brincando com três bolinhas de gude._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar49
    • E é no momento presente que afloram osnossos sonhos mais verdadeiros.Espero que tenham percebido que não estoulidando com coisas fofas deliciosamente tolinhasque não podem ser levadas a sério. Talvezpareçam tolas. Talvez pareçam vazias dequalquer coisa que mereça a nossa atenção.Afinal de contas, papai e mamãe sabem mais,pois passaram pela escola, e sabem as coisasda vida. Será mesmo? A tolice das crianças,talvez, seja idêntica ao absurdo dos sonhos.Para aqueles que não entendem a sua língua enão possuem a chave que abre as portas de suasabedoria enigmática os sonhos são, de fato,nada mais que loucas e insignificantesperturbações do sono. Mas para aqueles que sedão ao trabalho de decifrá-los, eles contémrevelações de uma sabedoria perdida. Criançassão sonhos. Sob a sua mansa aparência infantilse esconde o segredo de nossa felicidadeperdida. Pois não é verdade que alguma coisase perdeu quando deixamos de ser crianças?Muitos sábios e filósofos estiveramconvencidos de que nas crianças mora um saberque precisa ser recuperado, a firas de sermoscurados da nossa infelicidade. Conta-se queBuber, numa ocasião em que estava sendohomenageado, cansado da fala grave e sériados filósofos, observou: Nunca consigo aprender_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar50
    • coisa alguma dos adultos. Quando queroaprender algo novo tenho de me misturar comas crianças. Nietzsche também se voltava paraas crianças com símbolos do nosso destino. Pois,em suas palavras, a criança e inocência eesquecimento, um novo princípio, umbrinquedo, um moto contínuo, um primeiromovimento, um Sim sagrado à vida. Groddeck,um dos inventores da psicanálise, afirmava queapenas o artista, o poeta e a criança conhecemo segredo da harmonia com a vida. O mundo dainfância é o reino perdido, o universo mítico emtorno do qual gira toda a existência humana.Toda a vida adulta é uma negação da infância.Daí a nossa infelicidade. Se a infância é o lugarda integridade do homem, a vida constitui umaaspiração a esta integridade. O objetivo da vidaé ser criança. E há também o preceitoevangélico que ninguém leva a sério (não épossível que Jesus pensasse aquilo,literalmente: de que se não nos transformarmosradicalmente e não deixarmos de ser adultos,para voltar a ser crianças, não poderemos ver oReino de Deus). Somente as crianças sabem oessencial, sem necessidade de palavras paradizê-lo.O normal é ver as crianças como aquelasque precisam ser ensinadas, seres inacabadosque, à semelhança do Pinóquio, só se tornampessoas de carne e osso depois de serem_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar51
    • submetidas às nossas artimanhas pedagógicas.Como tolo estou sugerindo caminhar na direçãocontrária: que os mestres se transformem emaprendizes, que os adultos se disponham aaprender das crianças. Uma filosofia daeducação às avessas, como naquele poema deAlberto Caeiro, sobre a divina criança.A mim a criança ensinou-me tudo.Ensinou-me a olhar para as coisas.Aponta-me para todas as coisas que hánas flores.Mostra-me como as pedras sãoengraçadasquando a gente as tem na mãoe olha devagar para elas.A Criança Eterna acompanha-mesempre.A direção do meu olhar é o seu dedoapontando.O meu ouvido atento alegremente atodos os sonssão as cócegas que ela me faz,brincando nas orelhas.Ela dorme dentro da minha almae às vezes acorda de noite_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar52
    • e brinca com os meus sonhos.Vira uns de perna para o ar.Põe uns em cima dos outrose bate as palmas sozinhosorrindo para o meu sono...A Criança Nova que habita onde vivodá-me uma mão a mime a outra a tudo que existee assim vamos os três pelo caminho quehouver,saltando e cantando e rindoe gozando o nosso segredo comumque e o de saber por toda a parteque não há mistério no mundoe que tudo vale a pena.Olho para minha neta com os olhos ecoração de avô, como quem olha para o seupróprio sonho. Fecho os meus livros de filosofiada educação (eruditos e complicados) e medisponho àquele exercício aconselhado porBarthes, já na idade de avô: o exercício doesquecimento. É preciso esquecer o aprendidoque nos fez adultos para se ver o mundo comnovos olhos._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar53
    • Um Corpo com AsasCasulos... Vários deles apareceram coladosà parede de minha casa. Lá dentro, eu sabia, seencontravam lagartas que dias antes haviamcomido folhas das plantas do meu jardim.Enquanto dormiam, espantosas transformaçõesaconteciam com os seus corpos. As criaturasaladas que antes moravam nelas apenas comosonhos estavam se tornando realidade.Metamorfoses. Eu os deixei onde estavam,intocados, e vigiei, pois não queria perder oevento mágico. Tive sorte. Pude ver o momentoem que um dos casulos se rompeu. Tímida,fraca e desajeitada, sem saber direito o quefazer com a sua nova forma, uma borboletaapareceu. Suas asas se abriram, mostrandodelicados desenhos coloridos. O tempo não mepermitiu ficar, para ver tudo. Quando voltei, elanão estava mais lá. Seguira seu novo destino devoar à procura de flores. Se o mundo da lagartanão era maior que a folha que comia, o universoda borboleta era o jardim inteiro. Iria, flutuandoao vento, por espaços com que uma lagarta nãopodia sonhar.Pois é: a Mariana também está saindo docasulo. .A cada dia que passa vejo suas asas_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar54
    • crescerem: novos desenhos, novas cores, vôoscada vez mais distantes. Está se transformandoem borboleta. Não! BorboLETRA...Ela aprendeu a falar, e as palavras lhederam asas. Até se esqueceu das bolinhas. Derepente elas ficaram pouco para o muito quecresceu dentro de sua cabeça. Enquantobrincava com as bolinhas ela não era muitodiferente de um gatinho que também gosta debrincar com bolinhas. Seu corpo se moviacolado às coisas, rente ao chão. Mas aoaprender a usar as palavras ela começou a voarpor espaços infinitos, como a borboleta.Palavras, coisas etéreas e fracas, merossons. No entanto, é delas que o nosso corpo éfeito. O corpo e a carne ‘e o sanguemetamorfoseados pelas palavras que aí moram.Os poetas sagrados sabiam disto e disseramque o corpo não é feito só de carne e sangue. Ocorpo e a Palavra que se fez carne: um ser leveque voa por espaços distantes, por vezesmundos que não existem, pelo poder dopensamento. Pensar é voar. Voar com opensamento é sonhar. Lembram-se das palavrasde Valéry? “O pensamento é o trabalho que fazviver em nós aquilo que não existe.” E elepergunta: “Mas, que somos nós sem o socorrodo que não existe?” É o poder de sonhar quenos torna humanos._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar55
    • É nisto que a psicanálise acredita. Somossonhos cobertos de carne. Por isto que,diferente dos médicos, que apalpam, olham,examinam e medem os sintomas físicos docorpo, ela se dedica a ouvir as palavras. Pois énelas que moram as coisas que não existem, ossonhos, os pensamentos que nos fazem voar.Sem prestar muita atenção ao rastejar dalagarta, ela procura ver a forma dosmovimentos que a borboleta desenha no ar pormeio das palavras. Ela sabe que o visível, acarne, é apenas uma fina superfície em cujointerior existe um mundo encantado. Corpo,lagoa... Na superfície, os reflexos do mundo defora: as árvores, as nuvens, as montanhas... Masse, libertados do fascínio dos olhos, pararmospara ouvir as palavras que saem de suasprofundezas, como bolhas, poderemos tervislumbres de criaturas invisíveis, peixescoloridos, catedrais submersas, plantasdesconhecidas, histórias de amor e de terror.A Mariana aprendeu a falar. Ela ganhou opoder de voar pelos mundos que moram naspalavras. Ouve histórias. Aquelas que sempreforam contadas: Chapeuzinho Vermelho,Cinderela, Branca de Neve... O mundo da suafantasia se liberta dos limites do casulo. Poucoimporta que nunca tenham acontecido, ashistórias. “Se descreves o mundo tal qual é”,dizia Tolstoi, “não haverá em tuas palavras_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar56
    • senão muitas mentiras e nenhuma verdade”. Aspalavras nos dizem que estamos destinados avoar, a saltar sobre abismos, a visitar mundosinexistentes: “pontes de arco-íris que ligamcoisas eternamente separadas”.Pelo poder da palavraela pode agora navegar com as nuvens,visitar as estrelas,entrar no corpo dos animais,fluir com a seiva das plantas,investigar a imaginação da matéria,mergulhar no fundo de rios e de mares,andar por mundos que há muitodeixaram de existir,assentar-se dentro de pirâmides e decatedrais góticas,ouvir corais gregorianos,ver os homens trabalhando e amando,ler as canções que escreveram,aprender das loucuras do poder,passear pelos espaços da literatura, daarte, da filosofia, dos números,lugares onde o seu corpo nunca poderiair sozinho...“Corpo espelho do universo! Tudo cabedentro dele!”_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar57
    • Não é à-toa que a Adélia Prado tenha ditoque “erótica é a alma”. Enganam-se aquelesque pensam que erótico e o corpo. O corpo só éerótico pelos mundos que moram nele. A eróticanão caminha segundo as direções da carne. Elavive nos interstícios das palavras. Não existeamor que resista a um corpo vazio de fantasias.Um corpo vazio de fantasias é um instrumentomudo, do qual não sai melodia alguma. Por istoque Nietzsche disse que só existe uma perguntaa ser feita quando se pretende casar:“Continuarei a ter prazer em conversar comesta pessoa, daqui a 30 anos?”O corpo de uma criança e um espaço infinitoonde cabem todos os universos. Quanto maisricos forem estes universos, maiores serão osvôos da borboleta, maior será o fascínio, maiorserá o número de melodias que saberá tocar,maior será a possibilidade de amar, maior seráa felicidade.Por vezes, entretanto, acontece umametamorfose ao contrário: as borboletas voltamao casulo e se transformam em lagartas. Porquevoar é fascinante, mas perigoso. É preciso quenão se tenha medo de flutuar sobre o vazio comasas frágeis. É mais seguro viver agarrado àfolha que se come. E eu me pergunto sobre oque aconteceu conosco. Pois um dia fomoscomo a Mariana, borboletas aladas, em busca_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar58
    • de espaços sem limites. Talvez, por medo,tenhamos abandonado as asas. Talvez, pormedo, já não sejamos capazes de voar e sonhar.Gordas lagartas, que não têm coragem de sedesprender das seguras folhas onde rastejam..._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar59
    • Tudo o que é pesadoflutua no arA mesa onde trabalho tem onze gavetas:cinco de cada lado e uma no meio. Nas gavetaslaterais eu coloco as idéias que me aparecem,rabiscadas em pedaços de papel, cada umadelas no lugar que lhe pertence. Tem a gavetada poesia, da psicanálise, das estórias infantis,da educação. Havendo tempo e desejo a gentevai lá, põe tudo em ordem, e a bagunça vira umlivro. A gaveta do meio é diferente. Nela eu nãoarquivo idéias. Guardo objetos, os maisestranhos e inesperados. Por exemplo, umsaquinho de bolinhas de gude. Para quê? Nãosei. Faz tempo que não jogo gude.Acho que as guardei lá pela mesma razãoque os namorados de outros tempos colocavamuma flor entre as páginas de um livro: parapreservar um momento de felicidade, perdido.Junto com as bolinhas de gude moro eu,menino que só existe como saudade. De todasas gavetas, acho que esta e a que mais separece com a nossa cabeça, baú entulhado commemórias de felicidades que tivemos. No mais_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar60
    • das vezes tudo fica esquecido, na gaveta e nobaú, pois as pressões da realidade deixampouco tempo para o devaneio. Mas, vez poroutra, uma imagem inesperada faz acordar osobjetos adormecidos. Eles se mexem, vem asaudade, e a gente se põe a procurá-los. Não epor isto que temos álbuns de retratos? Arquivosparalisados de felicidades perdidas queretornam quando de novo os vemos.Pois foi o que aconteceu com minhasbolinhas de gude. E a culpada foi a Mariana.Acontece que ela começou a descobrir o mundo,e dentre todas as infinitas formas que anatureza esbanja, foi das bolinhas que ela seenamorou. Via bolinhas em tudo: ervilhas,moedas, brincos, botões, cerejas, lua, estrelas.Com o seu dedinho ia apontando enquanto aboca repetia a palavra mágica. Foi então queme lembrei das minhas bolinhas de gude.Escarafunchei a gaveta da saudade e fiz-lheesta espantosa revelação: também eu brincavacom bolinhas.Uma menininha e três bolinhas de gude. Elabrinca. Seus olhos e seus gestos revelam umaenorme alegria.Pois há tantas coisas divertidas que podemser feitas com bolinhas: podem ser roladas namão, podem ser roladas no chão, podem serjogadas para cima, podem ser batidas umas nas_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar61
    • outras, podem ser escondidas. As bolinhas sãosuas professoras. Estão lhe dizendo: Vê? Omundo é assim, como nós, bolinhas, brinquedos.O mundo é um grande brinquedo.Tantas coisas divertidas se pode fazer comele. O mundo é para ser brincado. Os adultosnão sabem, os professores não percebem: omundinho da menina com as três bolinhas degude resume tudo o de importante a seraprendido: a vida é para ser brincada. Tudo omais que se aprende, geografia, história, física,química, biologia, matemática, são bolinhas degude: brinquedos, objetos de prazer.Brinquedo não serve para nada. Terminado,guardam-se as bolinhas de gude no saquinho eo mundo continua como era. Nada se produziu,nenhuma mercadoria que pudesse ser vendida,não se ganhou dinheiro, não se ficou mais rico.Pelo contrário: perdeu-se. Perdeu-se tempo,perdeu-se energia. Por isto que os adultospráticos e sérios não gostam de brincar. Obrinquedo é uma atividade inútil. E, no entanto,o corpo quer sempre voltar a ele. Por quê?Porque o brinquedo, sem produzir qualquerutilidade, produz alegria. Felicidade é brincar. Esabem por quê? Porque no brinquedo nosencontramos com aquilo que amamos. Nobrinquedo o corpo faz amor com objetos do seudesejo. Pode ser qualquer coisa: ler um poema,_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar62
    • escutar uma música, cozinhar, jogar xadrez,cultivar uma flor, conversa fiada, tocar flauta,empinar papagaio, nadar, ficar de barriga para oar olhando as nuvens que navegam, acariciar ocorpo da pessoa amada – coisas que não levama nada. Amar é brincar. Não leva a nada. Porquenão é para levar a nada. Quem brinca jáchegou. Coisas que levam a outras, úteis,rebelam que ainda estamos a caminho: aindanão abraçamos o objeto amado. Mas nobrinquedo temos uma amostra do Paraíso.Dizem que o trabalho enobrece. Poucos se dãoconta de que ele embota, cansa e emburrece. Écerto que Deus, todo-poderoso, trabalhou seisdias para criar o mundo. Foi o mesmo que levoupara tirar de dentro da gaveta dos seus sonhosas bolinhas de gude para a brincadeira da vida.Trabalhou para criar um lugar de deleite onde avida atingisse sua expressão suprema: purainutilidade, puro gozo, puro brinquedo. A únicafinalidade do saber adulto é permitir que acriança que mora em nós continue a brincar.O mundinho da Mariana é muito pequeno.Não vai muito além dos seus braços e das suasperninhas que mal aprenderam a andar. Elabrinca com coisas: bolinhas de gude, bonecas,panelinhas. Nisto ela se parece muito com osgatinhos, cães, potros, que também gostam debrincar. Mas ela já tem uma coisa que eles nãotêm – uma varinha mágica de condão que fará_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar63
    • toda a diferença: ela está aprendendo a falar. Aalegria não está só quando ela tem as bolinhasem suas mãos. Ela ri ao falar o nome, mesmoque não haja bolinha alguma por perto: elabrinca com as palavras.Bolinha, bolinha, bolinha, ela diz. E seu rostose ilumina. Pelo poder da palavra ela é capaz debrincar com coisas ausentes. Já aprendeu osegredo da poesia. Pois o que e um poema? Éclaro que não é a coisa. Se o poema fosse acoisa ele seria supérfluo, desnecessário, puratautologia. O poema é um objeto impossível queconstruímos pela magia do jogo das palavras.Isso mesmo: jogo das palavras: palavras sãobrinquedos. O silêncio verde dos campos...Onde já se viu isto? Silêncio verde não existe.Mas o poeta brinca com as palavras e o silêncioverde aparece. Quando a Mariana chama aservilhas e as estrelas pelo mesmo nome,bolinha, ela revela já haver aprendido atransformação básica da fala poética, ametáfora. Pois tanto poderá ver o seu pratocheio de estrelas como poderá ver o céu comoum prato divino cheio de ervilhas. E não digamque estou indo longe demais, pois foi assimmesmo que surgiu o nome Via Láctea – asinfinitas gotas do leite espirrado do seio de umamãe divina sobre o firmamento._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar64
    • Pois é: ela aprendeu a falar. E ao falaraprendeu a brincar com as palavras. E aoaprender a brincar com as palavras, elaaprendeu a brincar com coisas que não existem.E ao aprender a brincar com coisas que nãoexistem aprendeu a pensar! Lembre-se do quedisse Valéry: O pensamento é, em resumo, otrabalho que faz viver aquilo que não existe!Pense sobre isto: um chato é uma pessoaque não sabe brincar com o inexistente. Éaquela pessoa que, depois de ouvir a piada quefaz todo mundo rir, faz a pergunta: Mas istoaconteceu mesmo? Coitado. Só sabe brincarcom bolinhas de vidro. Não sabe brincar combolhas de sabão. O que me leva a enunciar oresumo de minha filosofia da educação, que sóme ficou clara quando vi a Mariana brincandocom as palavras: o professor é aquele queensina a criança a fazer flutuar suas bolinhas devidro dentro das bolhas de sabão. Tudo o que épesado flutua no ar._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar65
    • As receitasQuando eu era menino, na escola, asprofessoras me ensinaram que o Brasil estavadestinado a um futuro grandioso porque as suasterras estavam cheias de riquezas: ferro, ouro,diamantes, florestas e coisas semelhantes.Ensinaram errado. O que me disseram equivalea predizer que um homem será um grandepintor por ser dono de uma loja de tintas. Mas oque faz um quadro não é a tinta: são as idéiasque moram na cabeça do pintor. São as idéiasdançantes na cabeça que fazem as tintasdançar sobre a tela.Por isso, sendo um país tão rico, somos umpovo tão pobre. Somos pobres em idéias. Nãosabemos pensar. Nisto nos parecemos com osdinossauros, que tinham excesso de massamuscular e cérebros de galinha. Hoje, nasrelações de troca entre os países, o bem maiscaro, o bem mais cuidadosamente guardado, obem que não se vende, são as idéias. É com asidéias que o mundo é feito. Prova disso são ostigres asiáticos, Japão, Coréia, Formosa que,pobres de recursos naturais, se enriquecerampor ter se especializado na arte de pensar._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar66
    • Minha filha me fez uma pergunta: “O que épensar?” Disse-me que ‘esta era uma perguntaque o professor de filosofia havia proposto àclasse. Pelo que lhe dou os parabéns. Primeiropor ter ido diretamente à questão essencial.Segundo, por ter tido a sabedoria de fazer apergunta, sem dar a resposta. Porque, se tivessedado a resposta, teria com ela cortado as asasdo pensamento. O pensamento é como a águiaque só alça vôo nos espaços vazios dodesconhecido. Pensar é voar sobre o que não sesabe. Não existe nada mais fatal para opensamento que o ensino das respostas certas.Para isso existem as escolas: não para ensinaras respostas, mas para ensinar as perguntas. Asrespostas nos permitem andar sobre a terrafirme. Mas somente as perguntas nos permitementrar pelo mar desconhecido.E, no entanto, não podemos viver sem asrespostas. As asas, para o impulso inicial dovôo, dependem de pés apoiados na terra firme.Os pássaros, antes de saber voar, aprendem ase apoiar sobre os seus pés. Também ascrianças, antes de aprender a voar, têm queaprender a caminhar sobre a terra firme.Terra firme: as milhares de perguntas paraas quais as gerações passadas já descobriramas respostas. O primeiro momento da educaçãoé a transmissão deste saber._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar67
    • Nas palavras de Roland Barthes: “Há ummomento em que se ensina o que se sabe...” Eo curioso é que este aprendizado é justamentepara nos poupar da necessidade de pensar.As gerações mais velhas ensinam às maisnovas as receitas que funcionam. Sei amarrar osmeus sapatos automaticamente, sei dar o nó naminha gravata automaticamente: as mãosfazem o seu trabalho com destreza enquanto asidéias andam por outros lugares.Aquilo que um dia eu não sabia me foiensinado; eu aprendi com o corpo e esquecicom a cabeça. E a condição para que minhasmãos saibam bem é que a cabeça não pensesobre o que elas estão fazendo. Um pianistaque, na hora da execução, pensa sobre oscaminhos que seus dedos deverão seguir,tropeçará fatalmente. Há a estória de umacentopéia que andava feliz pelo jardim, quandofoi interpelada por um grilo: “Dona Centopéia,sempre tive curiosidade sobre uma coisa:quando a senhora anda, qual, dentre as suascem pernas, é aquela que a senhora movimentaprimeiro?” “Curioso”, ela respondeu. “Sempreandei, mas nunca me propus esta questão. Dapróxima vez, prestarei atenção.” Termina aestória dizendo que a centopéia nunca maisconseguiu andar.Todo mundo fala, e fala bem._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar68
    • Ninguém sabe como a linguagem foiensinada e nem como ela foi aprendida. Adespeito disto, o ensino foi tão eficiente que nãopreciso pensar para falar. Ao falar não sei seestou usando um substantivo, um verbo ou umadjetivo, e nem me lembro das regras dagramática. Quem, para falar, tem de se lembrardestas coisas, não sabe falar. Há um nível deaprendizado em que o pensamento é umestorvo. Só se sabe bem com o corpo aquilo quea cabeça esqueceu. E assim escrevemos, lemos,andamos de bicicleta, nadamos, pregamospregos, guiamos carros: sem saber com acabeça, porque o corpo sabe melhor. É umconhecimento que se tornou parte inconscientede mim mesmo. E isso me poupa do trabalho depensar o já sabido. Ensinar aqui, éinconscientizar.O sabido é o não-pensado, que ficaguardado, pronto para ser usado como receita,na memória desse computador que se chamacérebro. Basta apertar a tecla adequada paraque a receita apareça no vídeo da consciência.Aperto a tecla moqueca. A receita aparece nomeu vídeo cerebral: panela de barro, azeite,peixe, tomate, cebola, coentro, cheiro verde,urucum, sal, pimenta, seguidos de uma se sériede instruções sobre o que fazer._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar69
    • Não é coisa que eu tenha inventado. Me foiensinado. Não precisei pensar. Gostei. Foi para amemória. Esta é a regra fundamental dessecomputador que vive no corpo humano: só vaipara a memória aquilo que e objeto do desejo. Atarefa primordial do professor: seduzir o alunopara que ele deseje e, desejando, aprenda.E o saber fica memorizado de cor –etimologicamente, no coração -, à espera deque a tecla do desejo de novo o chame do seulugar de esquecimento.Memória: um saber que o passadosedimentou. Indispensável para se repetir asreceitas que os mortos nos legaram. E elas sãoboas. Tão boas que elas nos fazem esquecer queé preciso voar. Permitem que andemos pelastrilhas batidas. Mas nada têm a dizer sobremares desconhecidos.Muitas pessoas, de tanto repetir as receitas,metamorfosearam-se de águias em tartarugas.E não são poucas as tartarugas que possuemdiplomas universitários.Aqui se encontra o perigo das escolas: detanto ensinar o que o passado legou – e ensinarbem – fazem os alunos se esquecer de que oseu destino não é o passado cristalizado emsaber, mas um futuro que se abre como vazio,um não-saber que somente pode ser exploradocom as asas do pensamento. Compreende-se_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar70
    • então que Barthes tenha dito que, seguindo-seao tempo em que se ensina o que se sabe, devechegar o tempo quando se ensina o que não sesabe._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar71
    • Ensinar o que não se sabeE chega o momento quando o Mestre tomao discípulo pela mão, e o leva até o alto damontanha. Atrás, na direção do nascente, sevêem vales, caminhos, florestas, riachos,planícies ermas, aldeias e cidades. Tudo brilhasob a luz clara do sol que acaba de surgir nohorizonte. E o Mestre fala:Por todos estes caminhos já andamos.Ensinei-lhe aquilo que sei. já não hásurpresas. Nestes cenários conhecidosmoram os homens. Também eles forammeus discípulos! Dei-lhes o meu saber eeles aprenderam as minhas lições.Constroem casas, abrem estradas,plantam campos, geram filhos... Vivema boa vida cotidiana, com suas alegriase tristezas. Veja estes mapas!Com estas palavras ele toma rolos de papelque trazia debaixo do braço e os abre diante dodiscípulo.Aqui se encontra o retrato deste mundo.Se você prestar bem atenção, verá quehá mapas dos céus, mapas das terras,_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar72
    • mapas do corpo, mapas da alma. Andeipor estes cenários. Naveguei, pensei,aprendi. Aquilo que aprendi e que sei,está aqui. E estes mapas eu lhe dou,como minha herança. Com eles vocêpoderá andar por estes cenários semmedo e sem sustos, pisando sempre aterra firme. Dou-lhe o meu saber.Aí o Mestre fica silencioso, olhando dentrodos olhos do discípulo. Ele quer adivinhar o quese esconde naquele olhar. Examina os seus pés.Nos pés sólidos se revela a vocação para andarpelas trilhas conhecidas. Quem sabe isto é tudoaquilo de que aquele corpo jovem é capaz!Quem sabe isto é tudo o que aquele corpojovem deseja! Se assim for, talvez que o melhorseria encerrar aqui a lição e nada mais dizer.Mas o Mestre não se contém e procura, nascostas do seu discípulo, prenúncios de asas –asas que ele imaginara haver visto como sonho,dentro dos seus olhos. O Mestre sabe que todosos homens são seres alados por nascimento, eque só se esquecem da vocação pelas alturasquando enfeitiçados pelo conhecimento dascoisas já sabidas.Ensinou o que sabia. Agora chegou a horade ensinar o que não sabe: o desconhecido._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar73
    • Volta-se então na direção oposta, o marimenso e escuro, onde a luz do sol ainda nãochegou.É este o seu destino. Os poetas o têmsabido desde sempre: A solidez, daterra, monótona, parece-nos fracailusão. Queremos a ilusão do grandemar, multiplicada em suas malhas deperigo (Cecília Meireles).É preciso navegar. Deixando atrás asterras e os portos dos nossos pais eavós, nossos navios têm de buscar aterra dos nossos filhos e netos, aindanão vista, desconhecida. (Nietzsche).Mas, para esta aventura meus mapas nãolhe bastam. Todos os diplomas são inúteis. Einútil todo o saber aprendido. Você terá denavegar dispondo de uma coisa apenas: os seussonhos. Os sonhos são os mapas dosnavegantes que procuram novos mundos. Nabusca dos seus sonhos você terá de construirum novo saber, que eu mesmo não sei... E osseus pensamentos terão de ser outros,diferentes daqueles que você agora tem.O seu saber é um pássaro engaiolado, quepula de poleiro a poleiro, e que você leva paraonde quer. Mas dos sonhos saem pássarosselvagens, que nenhuma educação podedomesticar._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar74
    • Meu saber o ensinou a andar por caminhossólidos. Indiquei-lhe as pedras firmes, onde vocêpoderá colocar os seus pés, sem medo. Mas oque fazer quando se tem de caminhar por umrio saltando de pedra em pedra, cada pedrauma incógnita? Ah! Como são diferentes o corpomovido pelo sonho, do corpo movido pelascertezas.Sobre leves esteios o primeiro salta paradiante. a esperança e o pressentimentopõem asas em seus pés. Pesadamente osegundo arqueja em seu encalço ebusca esteios melhores para tambémalcançar aquele alvo sedutor, ao qualseu companheiro mais divino já chegou.Dir-se-ia ver dois andarilhos diante deum regato selvagem, que correrodopiando pedras. o primeiro, com pésligeiros, salta por sobre ele, usando aspedras e apoiando-se nelas para lançar-se mais adiante, ainda que, atrás dele,afundem bruscamente nas profundezas.O outro, a todo instante, detém-sedesamparado, precisa antes construirfundamentos que sustentem seu passopesado e cauteloso; por vezes isso nãodá resultado e, então, não há deus quepossa auxiliá-lo a transpor o regato.(Nietzsche)_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar75
    • Até agora eu o ensinei a marchar. É isto quese ensina nas escolas. Caminhar com passosfirmes. Não saltar nunca sobre o vazio. Nadadizer que não esteja construído sobre sólidosfundamentos. Mas, com o aprendizado do rigor,você desaprendeu o fascínio do ousar. E atédesaprendeu mesmo a arte de falar. Na IdadeMédia (e como a criticamos!) os pensadores sóse atreviam a falar se solidamente apoiados nasautoridades. Continuamos a fazer o mesmo,embora os textos sagrados sejam outros.Também as escolas e universidades têm os seupapas, seus dogmas, suas ortodoxias. O segredodo sucesso na carreira acadêmica? Jogar bem oboca de forno, a aprender a fazer tudo o queseu mestre mandar...Agora o que desejo é que você aprenda adançar. Lição de Zaratustra, que dizia que parase aprender a pensar é preciso primeiroaprender a dançar. Quem dança com as idéiasdescobre que pensar é alegria. Se pensar lhedá’ tristeza e porque você so sabe marchar,como soldados em ordem unida. Saltar sobre ovazio, pular de pico em pico. Não ter medo daqueda. Foi assim que se construiu a ciência: nãopela prudência dos que marcham, mas pelaousadia dos que sonham. Todo conhecimentocomeça com o sonho. O conhecimento nadamais é que a aventura pelo mar desconhecido,em busca da terra sonhada. Mas sonhar é coisa_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar76
    • que não se ensina. Brota das profundezas docorpo, como a água brota das profundezas daterra. Como Mestre só posso então lhe dizeruma coisa: “Conte-me os seus sonhos, para quesonhemos juntos!”_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar77
    • O CarrinhoGanhei um carrinho de presente. Coloquei-osobre minha mesa de trabalho. Olho para elequando escrevo e escrevo os pensamentos queele me faz pensar. Não são todos os objetos quetêm este poder de fazer pensar. A caneta, ogrampeador, a lâmpada, a cadeira, objetos àminha volta: eu os uso automaticamente; elesnão me fazem pensar. É que eles só estãoligados ao meu corpo, mas não à minha alma.Mas o carrinho é diferente. Bastou que eu vissea primeira vez para sentir uma emoção, ummovimento na alma. Eu o reconheci comomorador do mundo das minhas memórias. Eleme fez lembrar e sonhar. Fez cócegas no meupensamento. Meu pensamento começou a voar.O que eu vejo nele não é nada comparadoàquilo que ele me faz imaginar. Sonho. Osteólogos medievais diziam que o sacramento éum sinal visível de uma graça invisível. Ocarrinho é um sacramento: sinal visível de umafelicidade adormecida, esquecida. Volto aomundo da minha infância.Uma lata de sardinha. A tampa foi dobradainteligentemente, e assim se produziu a capota.As rodas foram feitas de uma sandália havaiana_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar78
    • que não se prestava mais a ser usada. Os eixos,dois galhinhos de arbusto. E ei-lo pronto! Umcarrinho, construído com imaginação e objetosimprestáveis.Fosse um carrinho comprado em loja, e eunada pensaria. Seria como meu lápis, o meugrampeador, a minha lâmpada, a minhacadeira. Mas basta olhar para o carrinho para euver o menino que o fez, menino que nunca vi,menino que sempre morou em mim. Fico atépoeta: faço um hai-kai:uma lata vazia de sardinha,uma sandália havaiana abandonada:um menino guia seu automóvel...Os entendidos dirão que o hai-kai estáerrado. De fato, não sei fazer hai-kais. Sou igualao menino que não sabia fazer automóveis, masa despeito disto os fazia. Meu hai-kai se parececom o carrinho de lata de sardinha e rodas desandália havaiana.Sei que o menino é pobre. Se fosse rico teriapedido ao pai, que lhe teria comprado umbrinquedo importado. Dinheiro é um objeto quesó dá pensamentos de comprar. A riqueza, comfreqüência, não faz bem ao pensamento. Mas apobreza faz sonhar e inventar. Carrinho depobre tem de ser parido. A professora – se é queele vai à escola – deve ter notado que ele_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar79
    • estava distraído, ausente, olhando o vazio forada janela. Falou alto para chamar sua atenção.Inutilmente. Ela não percebeu que distração éatração por um outro mundo. Se os professoresentrassem nos mundos que existem nadistração dos seus alunos eles ensinariammelhor. Tornar-se-iam companheiros de sonho einvenção.Penso que o menino devia andar lá pelafavela, olhos atentos, procurando algo, semsaber direito o quê. Até que deram com a latade sardinha jogada no lixo. Foi um momento deiluminação. A lata de sardinha virou uma outracoisa. O menino virou poeta, entrou no mundodas metáforas: isto é aquilo. Ele disse: “Esta latade sardinha é o meu carro...” Fez aquilo que umfundador de religiões fez, ao tomar o pão e dizerque o pão era seu corpo. E a lata de sardinhaganhou um outro nome, virou outra coisa. Omenino, sem saber, executou umatransformação mágica. Todo ato de criação emagia. O menino dobrou a tampa e se sentouao volante.Faltavam as rodas. Pensei que muitas vezesme defrontei com problema semelhante,quando menino. Mas’ na minha infância asolução já estava dada. O leite vinha emgarrafas bojudas de boca larga, que eramfechadas com tampas metálicas semelhantes às_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar80
    • tampinhas de cervejas, só que muito maiores.Era só pegar as tampas, e o problema estavaresolvido. Mas os tempos são outros. O meninoteria de fazer suas rodas, se quisesse andar deautomóvel. Se tivesse uma serra tico-ticopoderia fazer rodinhas de um pedaço decompensado abandonado. Mas é certo que talferramenta ele não tinha. Pois se tivesse, teriafeito. Suas ferramentas: uma faca, subtraída dacozinha, um prego para fazer os buracos, e umapedra, à guisa de martelo. O material deveriaser dócil às ferramentas que possuía. Seria fácilfazer rodas de papelão. Mas as rodas sedesfariam, depois de passar pela primeira poçade água. Seus olhos e pensamento procuram. Eaquilo que calçara pés se transformou emcalçado de automóvel. Quatro buracos na latade sardinha, dois galhinhos de árvores e ei-lopronto: o carrinho!O menino sabia pensar. Pensava bem,concentrado. É sempre assim. Quando o sonho éforte, o pensamento vem. O amor e o pai dainteligência. Mas sem amor todo oconhecimento permanece adormecido, inerte,impotente. O menino e o seu carrinho resumemtudo o que penso sobre a educação. As escolas:imensas oficinas, ferramentas de todos os tipos,capazes dos maiores milagres. Mas de nadavalem para aqueles que não sabem sonhar. Osprofissionais da educação pensam que o_______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar81
    • problema da educação se resolverá com amelhoria das oficinas: mais verbas, maisartefatos técnicos, mais computadores. (ah! ofascínio dos computadores!). Não percebem quenão é aí que o pensamento nasce. O nascimentodo pensamento é igual ao nascimento de umacriança: tudo começa com um ato de amor. Umasemente há de ser depositada no ventre vazio. Ea semente do pensamento é o sonho. Por isto oseducadores, antes de serem especialistas emferramentas do saber, deveriam serespecialistas em amor: intérpretes de sonhos.O menininho sonhava. Como Deus, que donada criou tudo, ele tomou o nada em suasmãos, e com ele fez o seu carrinho. Imaginoque, também como Deus, ele deve ter sorridode felicidade ao contemplar a obra de suasmãos..._______________________________Rubem Alves – A Alegria de Ensinar82