Che Guevara Vida em Vermelho

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Che Guevara Vida em Vermelho

  1. 1. Che Guevara A VIDA EM VERMELHO ÍNDICEEste livro.....................................................................................1 Morro porque não morro.............................................................2. Anos de amor e indiferença: Buenos Aires, Perón e Chichina....3. Os primeiros passos: navegar é preciso, viver não é preciso.........4. No fogo com Fidel .......................................................................5. Nosso homem em Havana ..........................................................6. “Cérebro da Revolução”, cria da URSS .........................................7. A bela morte não compensa........................................................8. Com Fidel, nem casamento, nem divórcio..................................9. O coração nas trevas de Che Guevara......................................... 710. Traído por quem .........................................................................11. Morte e ressurreição....................................................................Notas ..........................................................................................Agradecimentos .........................................................................índice onomástico......................................................................Para Jorge Andrés, que não conheceu os anos 60mas que algum dia viverá tempos melhoresESTE LIVROUma pesquisa desta natureza requer uma grande multiplicidade defontes. Nenhuma delas é perfeita nem suficiente em si mesma; todas encerram enigmas, defeitos elacunas. Até aquelas aparentemente incontestáveis cartas, anotações ou diários do sujeito mesmo dabiografia apresentam contradições e exigem reserva. Afinal, quem é transparente consigo mesmo? Eacima de tudo, por se tratar de um tema eminentemente político, nenhuma fonte é neutra: todascarregam a marca de seu posicionamento ideológico. O trabalho do historiador, biógrafo ou meroescritor imbuído de curiosidade consiste em agrupá-las, cotejá-las, separar o joio do trigo e buscarconclusões que se baseiem na soma do material, não no material preferidoou mais acessível. Nos últimos anos, diversos estudiosos da vida de Che Guevara vêm desenterrandomaterial inédito, ou publicado em edições restritas de algumas de suas obras. Trata-se de fontes degrande valor, mas não definitivas.Neste texto, materiais de tal natureza desempenharam um papel importante— refiro-me principalmente a suas cartas a Chichina Ferreyra, às chamadasActos dei Ministério de Industrias e a Pasajes de Ia guerra revolucionaria (el Con-go) —, ao lado de outras fontes que confirmam os ditos e escritos do próprioChe. Constituem um acervo novo e crucial para toda pesquisa contem-porânea sobre Che Guevara.Um segundo acervo encontra-se nos arquivos de Estado dos paísesenvolvidos, direta ou indiretamentè, na vida e morte do Che. Os cubanosnão têm arquivos disponíveis: ou porque não existem, ou porque não osabrem. A única consequência disso é que a versão cubana documentada dosfatos não se reflete em nenhum trabalho sério. Talvez algum dia Havana decida contar sua versão dahistória valendo-se de seus arquivos, e não só das lembranças mais ou menos fiéis, mais ou menosgeniais, de Fidel Castro. Enquanto isso não ocorre, dispomos de outros arquivos, mais acessíveis, que
  2. 2. contêm um enorme volume de informação extremamente útil no presente trabalho. Esses arquivos pertencem a três governos: o dos Estados Unidos, o da ex-URSS e o do Reino Unido. Cada um deles merece um breve comentário. Os Estados Unidos atravessam um período de grandes mudanças quanto às regras em relação a sua própria história. Muitos arquivos foram abertos; muitos outros permanecem fechados. Graças ao sistema de bibliotecas presidenciais e universitárias, é relativamente fácil o acesso às informações já liberadas. Com base nos princípios legais de liberdade de informação e de revisão obrigatória (Freedom of information e Mandatory review), pode- se pleitear o acesso à informação restrita. Todos os arquivos e documentos do governo dos Estados Unidos aqui citados encontram-se à disposição de qualquer pesquisador; basta saber onde procurá- los e dispor dos recursos (modestos, diga-se de passagem) para obtê-los. Seja nas bibliotecas presidenciais (especialmente a de Kennedy, em Cambridge, Massachusetts, e a de Johnson, em Austin, Texas), seja nos documentos do Departamento de Estado depositados nos Arquivos Nacionais em College Park, Maryland, e em sua publicação mais ou menos regular intitulada Foreign Relations ofthe United States (FRUS), seja, por último, em publicações como o índex ofrecendy declassified documents da imprensa universitária, qualquer um pode ter acesso aos documentos consultados. Em alguns deles há trechos rasurados (sanitized), mas pode-se pedir uma revisão, que em certos casos é atendida, em outros não. Quem supõe que para a elaboração deste livro contou-se com acesso privilegiado aos arquivos da CIA, ou de quem quer que seja fora dos Estados Unidos, simplesmente carece de experiência em pesquisa historiográfica. Os arquivos do Reino Unido foram particularmente úteis neste trabalho por vários motivos muito simples. Em primeiro lugar, o Foreign Office mantém uma merecida reputação de seriedade e perícia na confecção e conservação de seus telegramas e notas. Continua sendo um dos serviços diplomáticos e de informação mais competentes do mundo. Em segundo lugar, a partir da ruptura de relações diplomáticas entre os Estados Unidos e Cuba, em janeiro de 1961, a embaixada do Reino Unido passou a ser, de fato, os olhos e ouvidos de Washington em Havana. Enquanto a Suíça garantia representação oficial dos interesses norte-americanos junto a Cuba, cabia a Londres escutar, observar e analisar os acontecimentos na ilha, repassando todas as informações a Washington. Em terceiro lugar, embora as notas do MI5 só sejam liberadas ao público depois de meio século, as do Foreign Office de Kew Gardens, em Londres, podem ser consultadas já ao completar trinta anos. Como em muitos casos, e particularmente em Cuba durante os anos 60, umas e outras costumavam ser redigidas pela mesma pessoa, os informes remetidos ao serviço exterior de Sua Majestade devem guardar grande semelhança com os que foram enviados ao serviço secreto de Sua Majestade. Por último, convém acrescentar um comentário sobre os arquivos deMoscou. Como se sabe, a partir da Perestroika e, sobretudo, do fim do regime soviético, os arquivos da ex-URSS foramabertos e leiloados de maneira sele-tiva e nem sempre racional. Os arquivos do Ministério de Relações Exteriores (MID, porsuas iniciais em russo) estão bem organizados e contêm verdadeiras jóias para o historiador. Neste caso, são de extremointeresse as anotações das conversas entre Che Guevara e vários enviados da URSS a Havana, em especial o embaixadorAlexander Alexeiev e o encarregado de Assuntos Políticos Oleg Daroussenkov. Em 1995, esses arquivos se encontravam àdisposição de qualquer pesquisador de boa-fé, desde que contasse com o mínimo respaldo institucional e com os recursospara cobrir as despesas — não totalmente justificadas — que seu acesso requer. A consulta aos arquivos do PartidoComunista da URSS é um tanto mais difícil: as despesas são maiores, o acesso é mais restrito e arbitrário. Por outro lado,muitos dos documentos ali conservados são cópias dos que se encontram no MID: a confusão entre Partido e Estado naex-URSS não deve ser surpresa para ninguém. A terceira e última fonte primária que merece comentário consiste nas entrevistas ou na história oral que foi possível recolher ao longo da pesquisa. Insisto: nem tudo o que reluz é ouro, e nem tudo o que os protagonistas dizem ou escrevem é verdade. Deve-se trabalhar sobre os depoimentos do mesmo modo que se trabalha sobre um documento, uma estatística ou até mesmo uma foto. Para fazer este livro, pôde-se entrevistar um grande número de pessoas: em Cuba, na Argentina, na Bolívia, em Moscou, e em lugares muito mais estranhos. Sempre que possível, as entrevistas foram gravadas, embora a transcrição sintetize ou condense as palavras ditas. Em certos casos, por diferentes motivos, não foi possível gravá-las, mas contou-se com a presença de uma testemunha: as anotações contam com o respaldo de um terceiro. Em pouquíssimos casos não foi possível nem gravar, nem contar com uma testemunha: a veracidade da fonte apoia-se na credibilidade do pesquisador, nas citações^qe terceiros e na verossimilhança do depoimento. Todas as entrevistas obtidas para a elaboração desta obra estão ao alcance de qualquer pesquisador: basta procurá-las e contar com o apoio institucional (editorial, universitário ou político) pertinente. Não houve vias privilegiadas de acesso. Alguns leitores poderão se perguntar: como alguém que não viveu a época aqui resenhada, e não conheceu os personagens aqui descritos, se atreve a contar esta história? Assumo plenamente minha deficiência: eu não tinha nem quinze anos quando o Che morreu, e suas façanhas e desgraças aconteceram antes de eu chegar à idade da razão. Sem dúvida, quem viveu aquele tempo já na idade adulta deve ter muito o que contar; alguns já começam a fazê-lo. Mas a distância também tem suas vantagens. Talvez quem não conheceu de perto aqueles anos de chumbo e glória possa narrá-los com maior objetividade e precisão do que as pessoas que os sofreram na própria carne. Seja como for, o direito de propriedade não vale neste terreno: o passado que povoa estas páginas pertence a todos nós, para o bem e para o mal. A história é feita por seus protagonistas, mas escrita pêlos escritores: truísmo doloroso, mas irrefutável. ‘
  3. 3. lMORRO PORQUE NÃO MORROLimparam seu rosto, já sereno e claro, e descobriram-lhe o peito dizimado por quarenta anos de asma e um de fome noárido Sudeste boliviano. Depois o estenderam no leito do hospital de Nuestra Senora de Malta, alçando sua cabeça paraque todos pudessem contemplar a presa caída. Ao recostá-lo na lápide de concreto, soltaram as cordas que servirampara atar suas mãos durante a viagem de helicóptero desde La Higuera, e pediram à enfermeira que o lavasse,penteasse e inclusive escanhoasse parte da barba rala que tinha. Quando os jornalistas e populares curiosos começarama desfilar, a metamorfose já era completa: o homem abatido, iracundo e esfarrapado até as vésperas da morte seconvertera no Cristo de Vallegrande, refletindo nos límpidos olhos abertos a tranquilidade do sacrifício consentido. Oexército boliviano cometeu o único erro da campanha depois de consumada a captura de seu máximo trofeu de guerra.Transformou o revolucionário resignado e encurralado, o indigente da quebrada dei Yuro, vencido por todos os preceitosda lei, envolto em trapos, com o rosto sombreado pela fúria e a derrota, na imagem de Cristo da vida que sucede à morte.Seus verdugos deram feição, corpo e alma ao mito que percorreria o mundo.Quem examinar cuidadosamente essas fotos há de querer entender como o Guevara da escolinha de La Higuera setransfigurou no ídolo beati-ficado de Vallegrande, captado para a posteridade pela lente magistral de Freddy Alborta. Aexplicação vem do general Gary Prado Salmon, o mais lúcido e profissional dos caçadores do Che:Lavaram-no, vestiram-no, acomodaram-no, sob a supervisão de um médico forense. Era preciso mostrar a identidade,mostrar ao mundo que o Che fora der- rotado, que nós o tínhamos vencido. Não seria o caso de mostrá-lo como semprese mostravam guerrilheiros, por terra, cadáveres, mas com expressões que a mim chocavam muitíssimo, uns rostos comoque retorcidos. Essa foi uma das razões que me levou a colocar o lenço na mandíbula do Che: para que não sedeformasse. Instintivamente, todos só queriam mostrar que aquele era o Che, poder dizer: “Aqui está ele, vencemos”.Esse era o sentimento que existia nas forças armadas da Bolívia: que tínhamos vencido a guerra; e que não restassemdúvidas quanto à sua identidade, pois se o apresentássemos como estava, sujo, andrajoso, despenteado e tudo o mais, adúvida teria permanecido.’O que seus perseguidores evidentemente não previram foi que a mesma lógica haveria de se impor tanto aos quearquejavam de medo como aos que portariam durante anos o seu luto. O impacto emblemático de Ernesto Gue-vara éinseparável da noção do sacrifício: um homem que tinha tudo — glória, poder, família e conforto — e tudo entrega emtroca de uma ideia, e o faz sem ira nem dúvidas. A disposição para a morte não é confirmada pêlos discursos emensagens do próprio Che, ou pelas orações fúnebres de Fidel Castro, nem pela exaltação póstuma e imprópria domartírio, mas por uma visão: a de Gaevara morto, vendo seus algozes e perdoando-os, porque não sabiam o que faziam,e ao mundo, asseverando que não há sofrimento quando se morre por ideias.O outro Guevara, cuja fúria não cabia na expressão ou no gesto, dificilmente teria se convertido no emblema do heroísmoe da abnegação. O Che aniquilado, com os cabelos sujos, a roupa rasgada e os pés envoltos em abarcas* bolivianas,irreconhecível por seus amigos e adversários, jamais teria despertado a simpatia e admiração que a vítima deVallegrande despertou.** As três fotos existentes de Guevara preso só circularam vinte anos após sua execução; nemFelix Rodríguez, o agente da CIA que bateu uma delas, nem o general Arnaldo Saucedo Parada, que tirou as outras, asdivulgaram. O motivo mais uma vez era perverso. Embora se tenha admitido, poucos dias após a emboscada do Yuro,que o Che não morrera em combate, era preferível dissimular as provas evidenciando sua execução a sangue-frio, osinstantâneos do Che vivo e prisioneiro. As imagens só foram levadas à telinha nos anos 90, pelas mesmas razões. O Chemorto convencia e não acusava ninguém, mas engendrava um mito inesgotável; o Che vivo, na melhor das hipóteses, despertava piedade, porém suscitava ceticismo quanto à sua identidade, ou provava o assassinato inconfessável, embora conhecido de todos. Prevaleceu a imagem do Cristo; desvaneceu-se a outra, sombria e destroçada. Ernesto Guevara conquistou seu direito de cidadania no imaginário social de toda uma geração por muitos motivos mas antes de mais nada pelo encontro místico de um homem com a própria época. Nos anos 60, repletos de cólera e doçura, outra pessoa teria deixado um leve rastro; o mesmo Che,
  4. 4. em outra época menos turbulenta, idealista e paradigmática, teria passado em branco. Apermanência de Guevara enquanto figura digna de interesse, investigação e leitura não derivadiretamente da geração à qual pertence. Não brota da obra nem sequer do ideário guevarista; vemda identificação quase perfeita de um lapso da história com um indivíduo. Outra vida jamais teriacaptado o espírito da época; outro momento histórico nunca se reconheceria em uma vida como adele.A convergência existencial se deu por vários caminhos. Um fio condutor da vida de Ernesto Guevarafoi a exaltação da vontade, lidando com o voluntarismo, ou, diriam alguns, a onipotência. Naenigmática e depurada carta em que se despede dos pais, ele próprio se refere a ela: “Uma vontade 2que aperfeiçoei com deleite de artista me sustentará as pernas frouxas e os pulmões cansados”.Desde o rúgbi de sua mocidade em Córdoba até o calvário nas selvas da Bolívia, partiu sempre deum critério: bastava desejar alguma coisa para que ela acontecesse. Não existia limite irremovívelnem obstáculo insuperável para a vontade: a sua e a dos distintos atores sociais e individuais queencontraria pelo caminho. Seus amores e suas viagens, a visão política e a conduta militar eeconómica se impregnaram de um voluntarismo a toda prova, que autorizaria façanhasextraordinárias, arrebataria vitórias maravilhosas e o conduziria a repetidas e por fim fatais derrotas.As origens desse voluntarismo quase narcisista são múltiplas: seu próprio empenho, a luta perenedo Che contra a asma e um onipresente olhar materno, de adoração e culpa inesgotáveis. Sealguém chegou a acreditar que bastava querer o mundo para tê-lo num átimo, esse alguém foi CheGuevara. Se algo caracterizou seus arautos nos anos 60, esse algo foi a bandeira: “We want theworid, and we want it now”. Nós Queremos o mundo. e nós queremos ele agora.outro princípio que governou a vida do Che — a eterna recusa em conviver com a ambivalência, aqual o perseguiria como uma sombra desde a asma infantil até Nancahuazú — também seentrelaçaria com as características comportamentais de uma geração. Os anos 60 significaram, emgrande medida, a negativa a coexistir com as contradições da vida; assistiram a uma perpétua fugapara a frente da primeira geração do pós-guerra, que considerava intolerável a coexistência comsentimentos, desejos e objetivos políticos contraditórios. Quem melhor que o Che para encarnar aincompatibilidade individual e generacional com a ambivalência, para simbolizar a incapacidade deconviver com pulsões dadas de antemão?As ideias, a vida, a obra, até o exemplo do Che pertencem a uma etapa da história moderna, motivopor que será difícil recuperarem no futuro sua atualidade. As principais teses teóricas e políticasvinculadas ao Che — a luta armada e o foco guerrilheiro, a criação do homem novo e o primado dosincentivos morais, o internacionalismo combatente e solidário — virtualmente deixaram de existir. ARevolução Cubana — seu maior êxito, seu verdadeiro triunfo — agoniza ou sobrevive graças aoabandono de boa parte da herança ideológica de Guevara. Porém, a nostalgia persiste: osubcoman-dante Marcos, dirigente aguerrido e acossado das hostes zapatistas nos fundos vales deChiapas, costuma invocar, gráfica ou explicitamente, as imagens e analogias do Che, sobretudoaquelas que evocam traições ou derrotas. Respondeu à ofensiva das forças armadas mexicanas em9 de fevereiro de 1995 com dois ícones: Emiliano Zapata em Chinameca e o Che em vado dei Yesoe na quebrada dei Yuro.*Em compensação, o intervalo em que o Che se movimentou e alcançou a glória ainda não seencerrou. Continua a provocar saudade como a última convocação das utopias modernas, o últimoencontro com as grandes e generosas ideias de nosso tempo — a igualdade, a solidariedade, alibertação individual e coletiva —, com as mulheres e homens que as encarnaram. A importância deChe Guevara para o mundo e a vida de hoje se verificam por osmose ou por controle remoto.Reside na atualidade dos valores de sua era, jaz na relevância das esperanças e sonhos dos anos60 para um fim de século órfão de utopias, carente de projeto coletivo e dilacerado pêlos ódios etensões próprias de uma homogeneidade ideológica sem jaca. Seu instante de fama sobrevive aoChe, e ele, por seu turno, confere luz e sentido a esse momento cuja memória empalidece masainda perdura. Em sua infância ejuventude, em sua maturidade e morte, jaiem as chaves para decifrar o encontro do homem comseu mundo. Comecemos.A Argentina às vésperas da Grande Depressão não era um mau lugar para se nascer e crescer,sobretudo para quem, como no caso do primeiro filho de Ernesto Guevara Lynch e Célia de Ia Sernay Liosa, provinha de uma aristocracia de origem e sangue, quando não pecuniária. Ernesto Guevarade Ia Serna nasce em 14 de junho de 1928 em Rosário, terceira cidade de um país de 12,5 milhõesde habitantes, muitos deles oriundos de outras regiões. Pelo lado paterno, os Guevara Lynch játinham doze gerações na terra austral: mais que suficiente para merecerem o título de avoengos emum país de imigrantes, em sua imensa maioria recém-chegados. Na genealogia de sua mãetambém luzem as raízes e a distinção; além disso que a família De Ia Ser-na possuía terras e,portanto, dinheiro.Por parte do pai, Ernesto tinha sangue espanhol, irlandês (o bisavô, Patrick Lynch, fugiu daInglaterra para a Espanha e dali para a Gobemación do Rio da Prata, na segunda metade do séculoXVIII) e até mexicano-ameri-cano, já que a avó paterna do Che nasceu na Califórnia, em 1868. Opai de Guevara Lynch, Roberto Guevara, também era originário dos Estados Unidos: seus paishaviam participado da corrida do ouro californiana de 1848, embora tivessem retornado poucos anosdepois à terra natal com os filhos. Mas para além de seu lugar de nascimento, os Guevara eramargentinos de cepa. O ramo Guevara Lynch da família se confundia com a história da aristocracialocal; Gaspar Lynch foi um dos fundadores da Sociedade Rural Argentina — verdadeiro Conselhode Administração da oligarquia latifundiária do país — e Enrique Lynch erigiu-se em um de seus
  5. 5. baluartes durante as crises económicas que fustigaram a agricultura local em fins do século XIX.Ana Lynch, liberal e iconoclasta, seria a única avó que o Che conheceria, e a relação com ela omarcaria em profundidade. A decisão do neto de estudar medicina em vez de engenharia derivaparcialmente do falecimento de Ana, a quem ele assistiu no leito de morte.Do lado materno, o vínculo com o torrão natal remontava ao general José de Ia Serna e Hinojosa,último vice-rei do Peru, cujas tropas foram derrotadas por Sucre na batalha de Ayacucho.’ Filha deJuan Martín de Ia Serna e Edelmira Liosa, Célia não havia completado 21 anos quando se casou,em 1927, com o jovem ex-estudante de arquitetura. Seus pais faleceram anos antes: don Juan,assim que Célia nasceu, segundo uma de suas netas, suicidou-se em alto-mar ao saber que sofria 4de sífilis; Edelmira,algum tempo depois. Na realidade, Célia foi criada por uma irmã mais ve-lha, Carmen de Ia Sema, que se casou em 1928 com o poeta comunistaCayetano Córdova Itúrburu; antes fora noiva do poeta mexicano AmadoNervo. Tanto Carmen como Córdova permaneceram nas fileiras do Par-tido Comunista Argentino durante catorze anos, ela talvez com mais fer- 5vor que o marido.A família de Célia era “endinheirada”, como reconhecia sem rubor oseu marido; o pai, “herdeiro de uma grande fortuna [...] possuía várias estân-cias. Homem culto, muito inteligente, militou nas fileiras do radicalismo”, 6participando na “revolução de 1890”. Embora a fortuna familiar devesse serrepartida por sete, dava para todos. Os Guevara de Ia Serna viveriam muitomais das diversas rendas e heranças de Célia que dos disparatados e siste-maticamente falidos projetos empresariais do chefe da família. Ainda que ama’i tivesse dado a Célia uma educação católica clássica na escola do Sagra-do Coração, logo o ambiente livre-pensador, radical ou francamente deesquerda do lar de sua irmã a transformaria numa personagem à parte: femi-nista, socialista, anticlerical.* Participava das infinitas reuniões celebradasem sua casa, d ,s diversas lutas travadas pelas mulheres argentinas ao longodos anos 20;** tanto antes como depois do casamento conservou um perfilpróprio, que dura.ia até sua morte, em 1965.Essa mulher excepcional foi sem dúvida a figura afetiva e intelectualmais importante na vida do filho mais velho, pelo menos até o encontrodeste com Fidel Castro no México, em 1955. Ninguém desempenhou navida do Che um papel equivalente ao de Célia, sua mãe, nem o pai, nem asesposas ou os filhos. A mulher que conviveu durante vinte anos com o peri-go e o estigma do câncer; a militante que pouco antes da morte passou sema-nas no cárcere em razão do sobrenome que partilhava com o filho; a mãe queeducou e manteve cinco crias quase por conta própria impôs uma marca àvida de Che Guevara a que só Castro pôde se igualar, durante um breveinteriúdio na vida dos dois. Nada ilustra melhor a glória e a tragédia da sagade Guevara que seu lamento dilacerado no coração das trevas ao receber noCongo a notícia da morte da mãe:Pessoalmente, no entanto, [Machado Ventura] trouxe-me a notícia maistriste da guerra: em comunicação telefónica de Buenos Aires, informavam queminha mãe estava muito enferma, em um tom que deixava presumir que eraapenas um anúncio preparatório... Tive de passar um mês nessa tristeincerteza, aguardando os resultados de algo que esperava mas com a esperançade que houvesse um equívoco, até que chegou a confirmação do falecimentode minha mãe. Ela quisera ver-me pouco antes de minha partida, possivel-mente sentindo-se doente, mas não fora possível, pois minha viagem já esta-va bastante adiantada. Não chegou a tomar conhecimento da carta de despe-dida deixada em Havana para meus pais; só a entregariam em outubro, quandominha partida tornou-se pública.*Não pôde despedir-se dela, nem guardar o luto que sua dor impunha. Arevolução africana, as enfermidades tropicais ferozes e as eternas divisõestribais dos descendentes políticos de Patrice Lumumba o impediam. Céliafalece em Buenos Aires, expulsa do hospital onde jazia no leito de morte; osdonos da clínica se recusaram a albergar a mãe que parira Che’Guevara 37anos antes. Che carrega seu pesar nas colinas da África, desterrado de suapátria adotiva pêlos próprios demónios internos e pelo fervor idealista queherdou da mãe. Morrerá poucos anos mais tarde: duas mortes demasiadopróximas.A Argentina onde o menino Ernesto vem à luz era ainda em 1928 umpaís dinâmico, em plena ebulição, abençoado por um aparente idílioeconómico e inclusive político que rápido se dissiparia. Durante os anos 20
  6. 6. ela é tão legitimamente comparável aos ex-domínios ingleses brancos comoaos demais países latino-americanos. As vésperas da Primeira GuerraMundial, seus principais indicadores sociodemográficos se assemelhavammais aos da Austrália, Canadá e Nova Zelândia que aos da Colômbia, Peru, Venezuela ou México.*Recebera um volume de investimentos diretos estrangeiros três vezes superior ao do México ou doBrasil; em número de vias férreas por mil habitantes, embora inferior em 50% ao da Austrália e ao 7do Canadá, superava amplamente os seus vizinhos de hemisfério. Em 1913, a renda per capitaargentina era a décima terceira do mundo, um pouco superior à da França. A conflagração europeiae a expansão desenfreada dos anos 20 não alterariam essa classificação. Ainda que as dificuldadesargentinas — industrialização raquítica, superendividamento externo, setor de exportação altamentevulnerável — logo fossem arruinar as pretensões moder-nizantes das elites locais, o país ondenasce Che Guevara transpira uma afortunada e merecida autoconfiança. Aspira — com razão — asua inclusão em um Primeiro Mundo avant Ia lettre, despreocupado dos vergonhosos sinaiseconómicos e sociais que já se perfilavam no horizonte.**A introdução do sufrágio universal secreto (para homens e cidadãos argentinos) em 1912 deu lugar,quatro anos mais tarde, ao triunfo eleitoral da União Cívica Radical e seu legendário paladino,Hipólito Yrigoyen. Este logrou sua eleição meses antes do nascimento do Che, em 1928, ao fim dointerregno de Marcelo T. de Alvear. Porém, o yrigoyenismo não pôde satisfazer às enormesesperanças que despertou nas camadas médias emergentes do país e no seio da nova classetrabalhadora portenha — uma eclética e instável mescla de argentinos de segunda geração,interioranos e imigrantes.*** A pressão da direita, o desencanto das classes médias e os estragoscausados pela Grande Depressão puseram termo ao fugaz lapso democrático: em 1930 o exércitoconsumou o primeiro golpe de Estado do século que destituiu um governo latino-americanodemocraticamente eleito. Em(*) A taxa de mortalidade infantil da Argentina, por exemplo, era nessa época de 121 por mil, a daColômbia de 177, a do México de 228, a do Chile de 261, e a da Austrália de 72. A porcentagem dehabitantes do país que viviam em grandes cidades chegava a 31 %, ao passo que a cifracorrespondente no Brasil era de 10,7% e no Peru de 5% (Victor Bulmer-Thomas, Economic historyofLatin América, Nova York, Cambridge University Press 1994, p. 86).(**) “A Argentina conseguiu um sólido crescimento industrial em quase todos os anos da década de20 [...] expandindo rapidamente a produção de hens de consumo duráveis e não duráveis(sobretudo têxteis) à custa das importações. As indústrias intermediárias, como a refinação depetróleo, a indústria química e a metalurgia, também floresceram; apenas a construção civilpermaneceu abaixo dos níveis à guerra” (ibidem, p. 189).(***)0paido voto não foi um dosdesiludidos; deu seu primeiro voto, em 1919, ao Partido SocialistaArgentino.seu lugar as forças armadas puseram o general José Felix Uriburu; depois do fracasso de seuprojeto filofascista, suceder-se-ão governos fraudulentos, até que em 1943 o ciclo se encerrará comum novo golpe de Estado. A alternância de governos civis com governos militares caracterizará avida política argentina até 1983.O nascimento de Ernesto filho aconteceu em Rosário por razões circunstanciais. Seus pais, depoisdo casamento em Buenos Aires um ano antes, partiram para Puerto Caraguatay, no alto Paraná,território de Misiones. Ali Ernesto pai se propusera cultivar e explorar uns duzentos hectaressemeados de erva-mate, o chamado ouro verde, que proliferava nessa região da Argentina.* Já comCélia grávida de sete meses, dirigiram-se a Rosário, o centro urbano de certa dimensão maispróximo, tanto para que o parto se consumasse ali como para estudar a possibilidade de comprarum moinho ervateiro. O projeto agrícola do erval naufragou rapidamente enquanto iniciativaempresarial, o que ocorreria com frequência nos anos vindouros. O pequeno Ernesto nasce de oitomeses, fraquinho e sujeito a deslocamentos constantes que o acompanharão por toda a vida; afamília logo abandonará a zona de Misiones. Guevara Lynch também era sócio de um estaleiro emSan Isidro, perto de Buenos Aires.Aí ocorre o primeiro ataque de asma de Ernestinho, semanas antes de ele completar dois anos, em2 de maio de 1930. Segundo relata o pai do Che, sua esposa, nadadora competente e tenaz,costumava levar o filho ao Clube Náutico de San Isidro, às margens do rio da Prata. O pai da vítimanão deixa muitas dúvidas sobre sua interpretação da responsabilidade pela desgraça:“Numa fria manhã do mês de maio, quando ainda por cima ventava muito, minha mulher foi banhar-se no rio com nosso filho Ernesto. Cheguei ao clube à sua procura com a intenção de levá-los paraalmoçar e encontrei o pequeno em trajes de banho, já fora da água e tiritando. Célia não tinhaexperiência e não percebeu que a mudança de tempo era perigosa naquela época do ano”.**(*) O próprio Ernesto Guevara Lynch fornece as versões sobre a origem dos recursos que lhepermitiram adquirir o erval de Puerto Caraguatay. Em seu livro Mi fujo el Che, diz que recebera umaherança do pai e pensava utilizá-la para comprar terras em Misiones. Essa versão é retomada poruma fonte oficial cubana, o Acios histórico, biográfico y militar de Ernesto Guevara, t. l, publicado emHavana em 1990 (p. 25). Porém, em uma longa entrevista com José Grigulevich, incluída no livro jácitado (I. Lavretsky), o pai do Che diz textualmente:“Célia herdou uma plantação de erva-mate em Misiones” (p. 14).(**) Ernesto Guevara Lynch, op. cit., p. 139. Em outra versão, Guevara pai trocou os papéis, contudomanteve a atribuição de culpas: “Em 2 de maio de 1930 Célia e eu fomos na-Todavia, esse não foi o primeiro mal pulmonar do menino; quarenta dias depois de nascer, ele foi
  7. 7. 8atacado por uma pneumonia que, segundo Ercilia Guevara Lynch, sua tia, “quase o mata”. Essaprimeira infecção respiratória põe em dúvida a explicação paterna sobre a etiologia da asma do Che;o mencionado resfriado tinha seus antecedentes. De qualquer modo, desde o primeiro ataque àbeira do rio da Prata até junho de 1933 as crises asmáticas de Ernestinho se dariam quasediariamente, de maneira exasperante e devastadora para os pais, mas acima de tudo para Célia,que afora a carga desigual que suportava nos cuidados para com o enfermo, carregava uma fortedose de culpa. Somavam-se à que seu marido lhe atribuía pelo incidente no rio, os antecedenteshereditários, de que na época apenas se suspeitava mas de que hoje se tem certeza. Célia foraasmática na infância; havia, portanto, 30% de chance de que um de seus filhos padecesse dadoença; tudo indica que foi o que ocorreu com Ernesto. A pneumonia aos quarenta dias de vida e oresfriado no Clube Náutico podem ter agido como detonadores de uma grande predisposiçãogenética, mas não provocaram a asma.Os três anos transcorridos entre o surgimento e a estabilização da doença parecem ter marcado ocasal de modo acentuado e, indiretamente, o filho; os relatos de familiares, amigos e dos própriospais do Che são comoventes.* Foi sem dúvida durante esse período que Célia construiu sua relaçãomaternal entremeada de obsessão, culpa e adoração — relação que muito em breve engendrariauma espécie de educação particular, à qual o Che deveria, pelo resto da vida, seu gosto pela leiturae a curiosidade intelectual insaciável.A família perambularia pela Argentina ao longo de cinco anos, buscando uma moradia quebeneficiasse a saúde do menino ou ao menos não a agravasse. Finalmente a encontrariam em AltaGracia, uma estância de veraneio a quarenta quilómetros da cidade de Córdoba, nas encostas dasierra Chica, a seiscentos metros de altitude. O ar seco e límpido, que atraía turis-dar com Teté. O dia ficou frio, passou a ventar e logo Teté começou a tossir. Nós o levamos aomédico, que diagnosticou asma. Talvez já estivesse resfriado, ou quem sabe herdou a enfermidade,já que Célia fora asmática quando criança” (Lavretsky, op. cit., p. 15).(*) A mãe do Che confirma, por exemplo, os cuidados do pai com o menino. “Aos quatro anosErnesto já não resistia ao clima da capital. Guevara Lynch [assim se refere ao marido depois daseparação] acostumou-se a dormir sentado à cabeceira de seu primogénito, para que ele, recostadoem seu peito, suportasse melhor a asma” (Célia de Ia Serna, testemunho publicado em Granma,Havana, 16/10/67, p. 8). Célia morreuem 19deabrilde 1965;oteste-munho obviamente foi recolhidoanos antes de ser divulgado.tas e tuberculosos, moderou as crises asmáticas de Teté, embora não as tivesse curado nemespaçado sensivelmente. A enfermidade ficou sob controle graças ao clima de Alta Gracia, aoscuidados médicos e à personalidade do menino. E, sobretudo, à excepcional devoção e carinho desua mãe.Nessa montanha mágica ao pé da serra de Córdoba cresceria Ernesto Guevara de Ia Serna, com opai consagrado à construção de casas no . pequeno município e a mãe à criação e educação domenino e suas duas irmãs, Célia e Ana Maria, e o irmão menor, Roberto; o caçula dos Guevara deIa Serna, Juan Martín, nasceria mais tarde em Córdoba. Tudo isso configurava um oásis deintrospecção e placidez, em meio a um país que se despedia dos anos dourados e ingressava, juntocom o mundo, nas desgraças da Depressão e em suas inesperadas sequelas políticas. A crisemundial de 1929 não só destruiu as pretensões ervateiras do pai do Che, como também destroçouem poucos anos o mito da Argentina aprazível e próspera. O golpe de 1930 deu início a um longoperíodo de instabilidade política, e a queda dos preços e da demanda internacional dos principaisitens de exportação da Argentina inaugurou uma interminável letargia económica, só interrompidapelo breve boom das matérias-primas no imediato pós-guer-ra. Porém, a crise inaugurou tambémuma época de mobilização social, de polarização ideológica e transformações culturais a que nemAlta Gracia nem as elites protegidas e ilustradas de províncias como Córdoba poderiam ficarimunes.Em um primeiro momento, as exportações dos produtos do pampa não sofreram a catástrofe docobre chileno ou do café brasileiro, por exemplo. Não obstante, na Argentina, os rendimentosrelativos à exportação se reduziram em 50% entre 1929 e 1932, e o colapso não foi menosdemolidor e prenhe de consequências que em outros países da região. Ele teve um duplo efeito nasociedade austral. Por um lado, a crise gerou considerável desemprego agrícola, basicamente dearrendatários impossibilitados de cumprir os termos de seus contratos; por outro, as restrições àsimportações por causa da escassez de divisas e crédito externo ativaram o desenvolvimento de umaindústria manufatureira nacional, tanto de bens de consumo como de alguns bens de produção.Esse fenómeno contribuiu para o crescimento acelerado da classe operária argentina. Duas cifrasindicam a transformação social desse período: em 1947, 1,4 milhão de imigrantes procedentes daszonas rurais haviam acorrido a Buenos Aires, e meio milhão de operários tinham se incorporado aoproletariado, duplicando seus efetivos em apenas uma década.Os migrantes constituiriam os famosos cabecitas negras; os operários, uma nova classetrabalhadora, menos forasteira e menos branca que a dos princípios do século, mais vinculada àindústria nacional que ao processamento de artigos de exportação, mais afastada da classe médiatradicional que a da idade de ouro do yrigoyenismo. O fosso entre os segmentos médios ilustrados etradicionais, de um lado, e o novo estamento operário, de outro, se refletiria, dez anos mais tarde, nodesencontro entre a esquerda argentina socialista, intelectual e pequeno-burguesa e o peronismoem ascensão, populista e irreverente.Os anos de Ernesto em Alta Gracia apenas começavam, mas muito em breve algumas de suas
  8. 8. principais características transpareceriam. A primeira que salta à vista se baseia na continuidade daperpétua peregrinação, agora reduzida ao perímetro da cidadezinha de veraneio. Segundo Roberto,o irmão mais novo do Che, depois de residir seis meses no Hotel Grutas a família mudou-se, em1933, para Vilia Chichita; dali iria para uma casa mais ampla, Vilia Nydia, em 1934, e em seguidapara Chalet de Fuentes, em 193 7, Chalet de Ripamonte, em 1939, e novamente Vilia Nydia em1940-1. Para Roberto Guevara tantos deslocamentos tinham uma explicação: “Como os contratos 9venciam, tínhamos de mudar”. Sem dúvida seria absurdo atribuir a futura e extremada inclinaçãoerrante de Che Guevara a esse permanente perambular de sua família. Porém, o constante ir e vircertamente adquiriu uma naturalidade muito peculiar no universo do menino. De cidade em cidadeaté os cinco anos, de casa em casa até os quinze; a normalidade gue-varista residia no movimento,que amenizava a uniformidade dos outros aspectos de sua existência. Também reavivava aesperança de começar de novo e superar tensões familiares — afetivas, financeiras — que não fal-tavam no agora mais populoso lar de Ernesto e Célia.E nessa época que a relação de Célia e Teté se torna essencial na vida dos dois e ultrapassalargamente, em intensidade e proximidade, o vínculo de Ernestinho com o pai e das outras criançascom a mãe. A enfermidade de Ernesto filho explica-o em grande parte: nada como a culpa e aangústia de uma mãe em relação ao filho para gerar uma devoção maternal sem limites. A simbioseentre Célia e o Che, que alimentaria a correspondência, a existência afetiva e a própria vida deambos durante os trinta anos seguintes, inicia-se nesses anos lânguidos de Alta Gracia, quandoErnesto aprende, no colo da mãe, a ler e escrever, a vê-la e sobretudo ser visto por ela. Essarelação chega a tal ponto que quem conheceu Ernesto e os irmãos na juventude se assombra comas diferenças físicas e de caráter entre eles, muito anteriores àcelebridade do filho maior e à sombra que inevitavelmente projetaria sobre os demais integrantes dafamília. Qual o motivo? A explicação talvez esteja no olhar de Célia, repleto de culpa, angústia e 10amor no caso de Ernesto, de simples carinho maternal no caso dos demais.Outro sinal distintivo desse prelúdio da adolescência deriva do primeiro: consolida-se de modo maispreciso o papel do chefe da família. Guevara Lynch era, simultaneamente, um grande boémio, umformidável amigo dos filhos, um provedor medíocre e um pai distante e indiferente. Sem dúvida sãoautênticas suas recordações sobre as horas passadas com o filho, nadando, jogando golfe, dando-lhe atenção e falando-lhe da vida. Mas também o eram o desligamento durante o resto do tempo e adisplicência ante as necessidades do menino e da família. Enquanto a mãe fazia as vezes de pro-fessora, organizadora do lar e enfermeira, Guevara Lynch construía casas em sociedade com oirmão e passava longas horas no Sierras Hotel, ponto de reunião e lazer da sociedade abastada deAlta Gracia.*A enfermidade continuava atormentando Ernestinho. Impediu-o de obter uma educação primária“normal”, substituída pelo empenho didático da mãe: “Eu ensinava as primeiras letras a meu filho,mas Ernesto não podia ir à escola por causa da asma. Só cursaria regularmente o segundo, oterceiro grau; o quinto e o sexto, ele os cursou como pôde. Seus irmãos copiavam os deveres e eleestudava em casa”.”Se o pai de Ernesto desempenhou um papel central foi o de inculcar ao menino um gosto voraz peloesporte e o exercício físico e a convicção de que era possível vencer à base de pura força devontade as limitações e penas que a doença impunha.** Tanto Ernesto pai como Célia eramesportistas, gente que amava o campo e a natureza, e conseguiram transmitir esse gosto ao fi-(*) Decerto os Guevara de Ia Serna saíam juntos, sobretudo ao chegar a Alta Gracia. E sem dúvidanão se pode tomar ao pé da letra testemunhos como o de Rosário Gonzáiez, que trabalhou comoempregada doméstica, encarregada em especial das crianças, entre 1933 e 1938. Mas eles ilustramuma tendência que se aguçaria com o tempo: “Os pais de Ernesto saíam bastante, eram muito denoitadas, iam ao Sierras Hotel todas as noites, desde as sete, para jantar. Chegavam demadrugada, às quatro, às cinco... Todos os dias; isso era frequente. saíam às sete, às oito, iamembora e não vinham jantar. Os meninos jantavam sozinhos” (Rosário Gonzáiez, entrevista com oautor, Alta Gracia, 17/2/95).(**) Mais uma vez proliferam as interpretações sobre a verdadeira responsabilidade de cada um dospais do Che nessa etapa. Segundo o irmão Roberto, o papel central, inclusive nesse particular,coube à mãe: “Era uma criança muito doente... Mas conseguiu se impor à doença com seu caráter eforça de vontade. Houve nisso muita influência de minha mãe” (Roberto Guevara de Ia Sema,testemunho reproduzido em Cupull e Gonzáiez, op. cit., p. 82).lho. Como este precisava realizar esforços muito superiores aos de uma criança sadia para desfrutarrealmente dos prazeres do exercício físico, desde pequeno começou a desenvolver uma força devontade descomunal. Foram os pais do Che que descobriram o único remédio possível para otormento crónico. Concluíram que o único tratamento razoável consistiria em continuar a medicá-lo eem fortalecê-lo por meio de tónicos e exercícios apropriados, como natação, jogos ao ar livre, 12passeios pêlos montes, equitação.Dessa forma, a crescente e indispensável (para ele) vontade de superação física se transformariaem traço decisivo da vida do jovem Ernesto. Também o seria a heterogeneidade social do círculo deamizades, o contato frequente dos meninos Guevara de Ia Serna com amiguinhos de diferentesclasses sociais. Entre eles figuravam os caddies* do clube de golfe de Alta Gracia e os camareirosdos hotéis, os filhos dos pedreiros das diversas obras de Ernesto pai, assim como as famíliaspobres das redondezas da série de casas que os Guevara foram alugando. Em cada uma delasapareciam multidões de meninos, uns vindos de lares de classe média, outros de origem popular,
  9. 9. uns brancos como Ernesto e seus irmãos, outros de pele mais escura, ou morochos, como RosendoZacarias, vendedor de doces nas ruas de Alta Gracia. Meio século mais tarde, este ainda lembrava 13(talvez com ajuda do mito de que “o Che era uma criança perfeita, sem problemas”) como todosbrincavam sem distinções nem hierarquias. Desde então Ernestinho mostrava uma facilidade notóriapara relacionar-se com gente alheia ao seu meio cultural e social.Das longas horas passadas em casa e na cama nasce a predileção de Ernesto filho pela leitura. Eledevorava os clássicos para leitores infantis de sua idade e época: os romances de aventuras deDumas Filho, Robert Louis Stevenson, Jack LondoneJúlio Veme e, naturalmente, de Emílio Salgari.Mas lê também Cervantes e Anatole France, de Pablo Neruda e Horacio Quiroga, e dos poetasespanhóis, Machado e Garcia Lorca. Tanto o pai como a mãe contribuíram para despertar-lhe ogosto pela leitura: Ernesto Guevara Lynch, pêlos romances de aventuras; Célia, pela poesia e, naépoca em que o educou em casa, pelo idioma francês. Na escola propriamente, Ernesto era apenasbom aluno, segundo as recordações de uma de suas professoras, que o igualavam em inteligênciaàs irmãs menores mas atribuía mais assiduidade a estas.Para a professora Elba Rossi Oviedo Zelaya, Ernestinho viveu dois vínculos familiares distintos coma educação: o de Célia, sempre presente, fis-(*) Rapazes que carregam os tacos e o equipamento dos jogadores. (N. T.)calizando de perto a instrução do filho, e o de Ernesto pai, mais distante. Diz a educadora sobre omenino Che:Conheci apenas a mãe. Ela era realmente muito democrática, uma senhora que não se incomodavaem pegar um menino qualquer, levá-lo até sua casa, colaborar com a escola... tinha umtemperamento adorável. Ia à escola todos os dias e a todas as reuniões de pais, com todos osmeninos no carrinho, e no caminho outras crianças se juntavam a eles. O pai era um senhor bemdistinto que vivia no Sierras Hotel, pois era gente de família. Devo tê-lo visto alguma vez por acaso;não ia à escola, não falava com as professoras. Sei apenas que frequentava bastante o Sierras,porque naquela época era o melhor hotel de Alta Gracia. Com ela falamos várias vezes, dequestões escolares e outras coisas. Tudo era com ela; ele, se foi à escola, eu nunca vi; 14talvez o tenha visto alguma vez, alguém pode ter dito que se tratava do senhor Guevara.Talvez os dois aspectos mais notáveis da passagem de Ernesto por algumas escolas públicas deAlta Gracia, onde cursou o primário — a San Martín primeiro, a Manuel Solares depois —, se devamà atitude dos pais e às consequências do fato de frequentar justamente escolas públicas, nos anosdo ocaso da Argentina oligárquica. O Che se impressionaria sobretudo com a tensão entre um paísainda homogéneo e uma incipiente diversidade que já se chocava com as tendências igualitárias daeducação pública, laica e obrigatória. A obrigatoriedade do ensino primário não possuía um caráterapenas de princípios; quando a asma impedia o menino de assistir às aulas, sua mãe recebiarequerimentos da autoridade responsável indagando sobre os motivos da ausência. E na escolaErnestinho sofreria os efeitos contraditórios das vertiginosas mutações da sociedade argentina. Osdois colégios de Alta Gracia em que esteve matriculado eram frequentados por crianças dosarredores da cidade, do “campo”, como se dizia comumente nessa região da Argentina: de origemrural, em alguns casos morochos, procedentes de lares humildes, que constituíam a primeirageração escolarizada. A grande diferença entre a Argentina e o resto da América Latina naquelaépoca (exceto o Uruguai e, em menor medida, o Chile) residia na existência dessa instituiçãoigualadora por excelência (junto com o serviço militar, implantado antes do sufrágio universal): aeducação pública. O imenso fosso que sempre separou o Che adulto de muitos de seus compa-nheiros cubanos e do resto da América Latina, no que toca ao trato e à sensibilidade para cominterlocutores de classes, raças, etnias e padrões educacionais diferentes, nasce desse encontroprecoce com a igualdade. Brotatambém da experiência da diversidade, típica da educação republicana em um continente onde aselites não costumam gozar do privilégio do encontro com os outros.Contudo, procurar a igualdade não equivale a encontrá-la. O surgimento nos anos 30 de novasclasses sociais, compostas em parte de imigrantes de segunda geração e em parte de gente vindado velho campo dos gaúchos e estâncias, não perdoou nenhum dos setores da sociedade argenti-na. Nas escolas de Ernesto estudavam meninos pobres, de ascendência italiana, espanhola e rural;graças a suas professoras e à excepcional herança cultural recebida de Célia, o Che dispôs deoportunidades únicas e evidentes para defrontar-se com os contornos da desigualdade. Porém,essas mesmas vantagens lhe outorgaram a distinção de ser um prematuro primus interpores:o menino que, graças à cultura e abastança (relativa) dos pais e à autoconfiança gerada por um larestável e aprazível, gozou do privilégio de se destacar desde muito cedo, de converter-se nodirigente das turmas escolares, de ocupar uma posição de liderança entre os amiguinhos. Avocação têmpora para líder, que muitos admiradores descobrem no Che desde a mais longínquainfância, talvez provenha de seus possíveis dotes de chefe, mas deriva também de uma situaçãosocial privilegiada.*SL^~ Last but not least, remonta a esses anos passados no sossego de Alta Gra-cia o início dapolitização do primogénito dos Guevara de Ia Serna. Assim como ocorreu com milhões de jovens eadultos do mundo inteiro, a Guerra Civil espanhola despertou a curiosidade política do menino. Seuinteresse e o acompanhamento das glórias e tragédias de Madri, Temei e Guernica não seconcentrarão nas facetas ideológicas, internacionais ou mesmo políticas da conflagração, mas nosaspectos militares e heróicos. Desde 193 7 ele pren-(*) “Lembro que muitos meninos o seguiam no quintal; ele subia em uma árvore que havia ali,
  10. 10. grande, e todos os meninos o rodeavam porque ele era como um líder; depois ele saía correndo eos outros iam atrás, já se notava que era o chefe... Devia ser por causa da família, que era umafamília distinta; o menino sabia falar melhor tudo o mais. Percebia-se uma diferença. O fato de elesvirem de Buenos Aires já lhes dava um ar de superiores aos outros. Aqueles meninos vinham deoutro ambiente, tinham se criado de maneira diferente. Por exemplo: não lhes faltava material; paraos meninos mais pobres muitas vezes era preciso conseguir alguma coisa, não tinham lápis de cornem material para pintar; a eles nunca faltou nada. Era uma outra categoria; bem, isso não senotava, porque não eram de desprezar os outros, em absoluto. Estavam perfeitamente integradosno grupo. Mas falavam melhor, faziam melhor as coisas, os deveres, tudo. Não deixavam deentregar os deveres como as outras crianças, que muitas vezes não têm ajuda em casa, e voltampara a escola sem fazer os deveres” (Elba Rossi Oviedo Zelaya, entrevista com o autor. Alta Gracia,17/2/95).dera um mapa da Espanha na parede de seu quarto, onde seguirá a marcha dos exércitosrepublicano e franquista, e construirá no jardim de casa uma espécie de campo de batalha, com 15trincheiras e montes. Vários fatores contribuirão para fazer da causa da República espanhola ocrisol da consciência política do prematuro aficionado das atualidades mundiais.Em 1937 seu tio Cayetano Córdova Itúrburu partiu para a Espanha. Jornalista e membro do PartidoComunista Argentino, foi contratado como correspondente estrangeiro pelo diário Crítica, de BuenosAires. A tia Carmen viajou com os dois filhos para Alta Gracia; foi viver com a irmã durante a estadiado marido na Espanha. Assim, todos os despachos, comentários e artigos transmitidos do front porCórdova Itúrburu passavam pelas vilas e chalés dos Guevara em Alta Gracia. A chegada de notíciasde além-mar se transformava em um acontecimento; o conteúdo delas aumentava ainda mais aexcitação. As vezes Córdova mandava também revistas e livros espanhóis, os quais reforçavam ainformação detalhada que aterrissava na imaginação do pequeno Ernesto, onde ficaria gravada parasempre.Outro fator importante na conscientização do Che foi a chegada a Cór-doba e depois a Alta Graciade várias famílias expulsas da península Ibérica. A mais significativa, pela intimidade queestabeleceria com o núcleo dos Guevara, foi a do médico Juan Gonzáiez Aguilar, que despacharapreviamente a esposa e os filhos para Buenos Aires e depois para Alta Gracia. Quando caiu aresistência republicana, o próprio Gonzáiez Aguilar — amigo de Manuel Azana e colaborador deJuan Negrín, último presidente do governo legalista — exilou-se na Argentina. Seus filhos, Paço,Juan e Pepe, se matricularam com o Che no liceu Deán Funes, de Córdoba, em 1942;durante um ano os adolescentes percorreram juntos os 35 quilómetros de Alta Gracia até a escola.A amizade entre as duas famílias durará décadas, e será dos relatos dos Gonzáiez Aguilar, assimcomo de outros refugiados que transitavam por sua casa — o general Jurado, o compositor Manuelde Falia —, que Ernesto Guevara filho adquirirá boa parte de sua sensibilidade e solidariedade paracom os republicanos. A guerra da Espanha foi a experiência política fundamental da infância eadolescência do Che. Nada o marcou tão fundo nesses anos como a luta e a derrota dosrepublicanos: nem a Frente Popular francesa, nem a expropriação do petróleo no México, nem oNew Deal de Roosevelt, para não falar do golpe argentino de 1943 ou mesmo da jornada de 17 deoutubro de 1945 e do advento de Perón.Os pais transmitiram a Ernesto uma grande parcela das próprias posturas políticas. Concluída aguerra da Espanha e esmagados os republicanos, teria início a Segunda Guerra Mundial; o pai domenino de onze anos fundou a seção local da Ação Argentina, em cujo setor infantil logo inscreveuo filho. Típica organização antifascista, a Ação Argentina fez um pouco de tudo naqueles anos:realizou comícios e levantou fundos em favor dos Aliados, combateu a penetração nazista naArgentina, descobriu casos de infiltração de ex-tripulantes do couraçado alemão GrafSpee (atracadoà baía de Montevidéu em 1940) e difundiu informações sobre o avanço militar das forças aliadas.Como lembra seu pai, “toda vez que havia um ato organizado pela Ação Argentina ou que tínhamos 6de fazer uma averiguação importante, Ernesto me acompanhava”.’A descrição anterior ficaria truncada se não situasse a guerra da Espanha no ambiente argentino daépoca, e em especial no contexto da ascensão de uma direita local nacionalista, católica evirtualmente fascista. Para a intelectualidade argentina dos anos 30, radical, socialista ou comunista,com ou sem raízes italianas ou espanholas, a xenofobia e o conservadorismo de escritores comoLeopoldo Lugones, Gustavo Martínez Zuviría e Alejan-dro Bunge, de publicações como Crisol,Bandera Argentina e La Voz Nacionalista e sua expressão política em círculos da oficialidade médiado exército constituíam o pior dos inimigos. O nacionalismo argentino dos anos 30 era anti-semita,racista e eugênico, fascista e filo-hitierista. Naturalmente voltou-se para o franquismo a partir de1936.0 discurso xenófobo era-lhe particularmente caro, sobretudo diante do surgimento da novaclasse operária procedente do interior, “negra” e “pele-vermelha”.* O fato de esse nacionalismoconter também sua vertente “social” e “antiimperia-lista”, sua faceta “desenvolvimentista” (emboratodos esses termos sejam anacronismos) e industrializadora, não impedia que a esquerda argentinade velha estirpe o contemplasse espavorida, e com razão.O desenlace desse drama contraria todas as previsões. A ascensão de Perón deixaria, por um lado,os nacionalistas descontentes e, por outro, a esquerda desorientada e órfã de massas. No augedesse nacionalismo con-(*) Lugones finalmente defendeu o fim de toda imigração que não fosse branca, e Bunge, em seuartigo “Esplendor e decadência da raça branca”, assinalava que “todo o vigor da raça [...] dopatriotismo de seus homens superiores e da abnegação do espírito cristão deve voltar-se desde
  11. 11. agora para restaurar o quanto antes o conceito da bênção dos filhos e das famílias numerosas,particularmente nas classes mais afortunadas” (cit. por David Rock, La Argentina autoritária, BuenosAires, Ariel, 1993, p. 117).servador e católico encontra-se parte da resposta ao enigma sobre a reação da esquerda argentina— e do Che — diante do principal acontecimento do século no país: a chegada de Perón ao poder.O pequeno Ernesto seguirá os pais, o antiperonismo juvenil dele será tão visceral como o de seusprogenitores, tão engajado como o de seus pares na universidade, tão lógico e a um só tempodesligado da realidade argentina como o do resto da esquerda portenha. Apenas vinte anos maistarde ele conseguirá fechar o círculo, tornando-se amigo dos representantes de Perón em Havana,em particular de John William Cooke,* e servindo de canal de ligação de Perón inclusive comAhmed Ben Bella, presidente da Argélia, ao solicitar-lhe ajuda para articular uma entrevista daquele 17com Gamai Abdel Nasser.Quando a família Guevara partiu para Córdoba, em 1943, já estavam cristalizados os principaistraços da infância e adolescência do Che. A casa permanecia sempre aberta; por ela desfilavamcrianças, amigos, visitas e inclusive pessoas de passagem, tudo numa grande desordem regidaapenas pela hospitalidade para com os forasteiros e pela liberdade da criançada da família.Velocípedes e bicicletas circulavam pelo interior da residência, almoçava-se a qualquer hora e nãofaltavam convidados. Não sobrava dinheiro; parte do caos doméstico brotava das dificuldadeseconómicas do casal — nunca angustiantes, mas constantes —, assim como da ausência deErnesto pai e da indiferença de Célia por esse género de assuntos. A ampla liberdade para ascrianças — de almoçar a qualquer hora, convidar a multidão de amigos, guardar os pertences comoe quando quisessem — tinha como contrapartida uma certa falta de estrutura. As consequênciasdessa desordem fizeram-se sentir mais intensamente quando os laços que uniam o casal Guevarade Ia Serna passaram a se tornar frágeis.Um ano antes de toda a família se mudar para Córdoba, Ernesto foi matriculado pêlos pais noColégio Nacional Deán Punes, escola secundária pública de qualidade, ligada ao Ministério daEducação. Os membros da(*) A amizade entre o Che e Cookè teve início quando este chegou a Cuba em 1960, tendo sidorecebido por Guevara no aeroporto de Havana. Foi selada em 25 de maio de 1962, em um atoconjunto dos argentinos em Cuba, celebrando o dia da independência de seu país (cf. ErnestoGoldar, “John William Cooke: de Perón ao Che Guevara”, Todo es historia, Buenos Aires, jun. 1991,vol. 25, n” 288, p. 26).elite local — à qual Ernesto pertencia por direito — costumavam estudar no Colégio Montserrat; osda classe média emergente preferiam o Deán Funes. A escolha dos pais se revelou afortunada.Ernesto conviveria durante cinco anos com jovens de diferentes origens sociais e profissionais.Claro que não se deve exagerar; nos anos 40, Córdoba era uma cidade relativamente homogénea,branca e burocrática, inserida em uma província agrícola ainda próspera e onde a segregaçãogeográfica dissimulava as inegáveis diferenças sociais. Porém sua população já disparara. Passoude 250 mil habitantes em 1930 para 386 mil em 1947: um crescimento vertiginoso e nunca visto nacidade. Os habitantes de renda mais baixa, recém-chegados do campo e dedicados à prestação deserviços, se aglomeravam na periferia. Em alguns bairros, as moradias rústicas dos pobresconfinavam com a cidade “bonita”. A industrialização viria depois, com a chegada da indústria auto-mobilística, em fins da década de 40.Iniciava-se uma nova etapa para o Che, tanto na escola como na eterna luta contra a asma: emCórdoba ele começou a participar ativamente de competições esportivas organizadas, e sobretudo ajogar rúgbi. Era o esporte preferido da Argentina angiófila: violento e cerebral. Algumas partidas serealizavam no Lawn Tennis Club, onde Ernesto também jogou ténis e golfe, e praticou natação. Ali oimberbe estudante secundarista fez amizade com dois irmãos: Tomás, da mesma idade que ele, eAlberto Granado, seis anos mais velho, com os quais viveria aventuras decisivas. Tomás foi ogrande amigo da adolescência; Alberto, o da juventude, das viagens e da abertura para o mundo.Juntos fizeram o colegial, tiveram os primeiros casos amorosos e se viram expostos à efervescênciapolítica que sacudiu a vida do país a partir de 17 de outubro de 45: a irrupção de Perón, doscabecitas negras e do autoritarismo argentino, católico e conservador.O rúgbi tinha duas implicações para o jovem asmático, já marcado pêlos estragos pulmonaresclássicos na enfermidade respiratória. Por um lado, constituía um excepcional desafio. Já então sesabia que, de todos os fatores que causam crises asmáticas, a prática de exercícios vigorososprovoca a maior incidência de ataques.* Superar as crises e controlá-las com a vontade, um inaladorou mesmo injeções de epinefrina, tudo isso logo se converteu em um tipo de comportamento queGuevara adotaria até o último de seus dias. Ao mesmo tempo, o rúgbi atribui aos jogadores váriospapéis(*) “O exercício físico é o desencadeador mais comum da asma. Oitenta por cento dos doentes deasma sofrem algum tipo de estreiteza do peito, tossem ou ofegam ao se exercitar” (Thomas F. Plant,Children withasthma. Nova York, Pedipress, 1985, p. 56).e funções, uns mais exigentes que outros. A posição de meio-scrum* tinha para Ernesto a grandevantagem de ser a mais estática e estratégica, menos móvel e tática. A posição escolhidabeneficiaria Ernesto de duas maneiras:dando-lhe oportunidade de desenvolver seus dotes de líder e estrategista e permitindo-lhe jogar semter de atravessar o campo durante a partida inteira. Isso não significa, evidentemente, que osacessos não acontecessem. As vezes o surpreendiam ao longo da partida, obrigando-o a refugiar-
  12. 12. se na arquibancada, onde ostensivamente ele mesmo se aplicava uma injeção de adrenalina 18através da roupa, talvez para chamar atenção. O desafio era enorme e ao mesmo temposuperável, dadas determinadas condições — uma combinação que haveria de perdurar na vida deGuevara, tanto quanto a asma, pois, ao contrário do que ocorre em muitos casos de asma infantil, osofrimento do Che não se esvaneceu com a idade.As explicações psicanalíticas para a etiologia da asma não têm aceitação entre os médicos;** adoença é acima de tudo hereditária. As interpretações baseadas na angústia do doente, em suaincapacidade de exteriorizá-la e na impossibilidade de enfrentar a ambivalência geradora da afliçãotalvez sirvam mais para explicar a permanência da enfermidade que a sua origem. Sãoespecialmente sugestivas para se compreender a evidente dificuldade do Che, ao longo de toda avida, com emoções ou desejos contraditórios, na família, na escola, nos amores e inclusive empolítica. A asma seria a resposta do Che para uma angústia recorrente e primária, impossível de serexteriorizada ou verbalizada e que, contida, provoca o sufocamento. A angústia, por sua vez, surgiae se exacerbava com a frequência e a ubiqüidade da ambivalência, inadmissível para Ernestojustamente pela angústia que desencadeava. A única cura possível — que ele j amais alcançaria —seria esquivar-se da ambivalência recorrendo à distância, à viagem e à morte.Entre os fatores que provocam a asma figuram vários de origem fisiológica — as infecções virais, oexercício físico, o pó ou qualquer elemento(*) “O meio-scrum é uma ligação entre o ataque e a defesa [...] E o homem que inicia a jogada deataque [...] e o mais indicado para constituir-se em líder dentro do campo, pois cons-tantementedeve dar ordens aos atacantes [...] Sua função não requer velocidade, mas controle de bola [...]Exigia-se dele uma função estática, na qual não corria o risco de ficar sem fôlego” (Hugo Gambini,Ei Che Guevara, Buenos Aires, Paidós, 1968, p. 48).(**) “A asma provém de um complexo conjunto de fatores fisiológicos que ainda nãocompreendemos em sua totalidade. Mas podemos afirmar com certeza que não é produto de umarelação irregular entre mãe e filho ou qualquer outro problema psicológico, como foi sugerido nopassado” (Plant, op. cit., p. 62).que cause alergia e as mudanças de clima —, aos quais se somam problemas emocionais: ostormentos afetivos, a sensação de perigo iminente, a expectativa, situações conflitivas,aparentemente sem saída e nas quais toda alternativa implica custos. O vínculo entre a dilataçãodos brônquios contraídos e a adrenalina leva situações que acarretam descargas endógenas deadrenalina — como o combate, por exemplo — a evitar crises, enquanto outras, que requeremdecisões, podem desencadeá-las justamente em virtude da ausência de descargas endógenas de 19adrenalina. Se essa interpretação está correta, ajuda em grande medida a elucidar a incapacidadedo Che para aceitar a presença simultânea dos contrários em sua vida: os problemas e odistanciamento dos pais, a contradição intrínseca do peronismo, a ambiguidade da relação dele comChichina Ferreyra. Por fim, Guevara não poderia conciliar os imperativos da sobrevivência da 20Revolução Cubana com as épicas e notáveis aspirações humanistas e sociais que lhe quis incutir.Com base em seus boletins escolares, ficamos sabendo que Ernesto era um estudante mediano,tendo se destacado em humanidades. Em 1945, seu quarto ano de colegial, por exemplo, distinguiu-se em literatura e filosofia;obteve notas medíocres em matemática, história, química, e verdadeiramente desastrosas em 21música e física. Sua total falta de ouvido tomou-se proverbial: não diferenciava ritmos nemmelodias, nem jamais se aventurou na dança ou no aprendizado de algum instrumento. AlbertoGranado contaria anos depois como isso se evidenciou em uma viagem que fizeram pela Américado Sul:Tínhamos combinado que eu lhe daria um tapinha cada vez que pudesse dançar, e ele só haviaaprendido o tango, que se pode dançar sem ter ouvido. Era o dia do aniversário dele, e o Che fezum discurso fantástico, que para mim provava que aquele rapaz não era um louco, que tinha algumacoisa; ele dançava com uma indiazinha, enfermeira do leprosário do Amazonas. E então tocaram“Delicado”, um baião que estava na moda e, além disso, era das músicas preferidas da namoradaque Ernesto tinha deixado em Córdoba. Quando lhe dei o tapinha, lá foi ele, dando os passos dotango. Era o único. Eu não conseguia parar de rir, e quando ele percebeu ficou zangado comigo.” 23Seu inglês também era sofrível: no quarto ano ficou com média 3, enquanto seu francês, aprendidoem casa com Célia, chegou a ser rico e fluente, quem sabe mais ainda rico. Contudo, o seu níveleducacional geral e a cultura do Che, segundo os companheiros, sobressaíam. Ele comprava livrosde todos os ganhadores do Prémio Nobel de literatura; discutia constante-mente com os professores 24de história e literatura. Tinha conhecimentos de que os demais nem sequer suspeitavam. Seusresultados apenas satisfatórios* deviam-se talvez ao acúmulo de atividades: os esportes, o xadrez (que jogaria a vidainteira, adquirindo uma perícia notável), o primeiro emprego, no Departamento Provincial de Viação,em Córdoba, e depois em Vilia Maria. Como disse seu pai, “era um mago do emprego do tempo”.”Um episódio da época ilustra a generosa e obstinada vocação de Ernesto filho para superar oabismo que o separava dos setores mais humildes da sociedade de Córdoba e rechaçar asevidências mais flagrantes de injustiça. A rua Chile, onde residia a família Guevara, confinava comuma das favelas mais pobres da cidade. Ali os excluídos e despossuídos, recém-chegados docampo, viviam em casas de papelão e zinco, como em toda a América Latina. No monturovagabundeava um personagem de Dante: o chamado Homem dos Cachorros, um aleijado, privadodas pernas, que se arrastava em um carrinho de brinquedo, ladeado por um par de cães nos quais
  13. 13. descarregava toda a fúria que seu destino lhe inspirava. Toda manhã, ao sair do buraco na terra quelhe servia de casa, açoitava os cães, que só com grande esforço conseguiam iça-lo até o nível darua. O rosto convulsionado e os ganidos dos animais anunciavam a aparição dele; era umacontecimento no bairro. Um dia, as crianças da favela começaram a zombar do Homem dosCachorros e a apedrejá-lo. Ernesto e seus amigos, que literal e figurati-vamente viviam na rua decima, assistiram ao espetáculo e o interromperam. Ernesto exortou seus conhecidos da favela a darum fim naquilo. O Homem dos Cachorros, em vez de agradecer ao jovem Che, fulminou-o com umolhar gelado, repleto de um ancestral e irremediável ódio de classe. Nas palavras de DoloresMoyano, que relata o episódio, o disparate deu uma grande lição a Ernesto: os inimigos do homem 26não eram os meninos pobres que o apedrejavam, mas os meninos ricos que tentavam defendê-lo.Ernesto aprenderia a lição apenas em parte.Esses anos marcam um distanciamento na relação conjugal dos pais e o agravamento dos traços depenúria e desordem já presentes em Alta Gracia. Data de então o romance — mais ou menosconhecido nos restritos círculos de Córdoba, nos quais a família se movimentava — de ErnestoGuevara Lynch com Raquel Hevia, cubana de beleza excepcional, conhecida na cidade comomulher sedutora e alegre.** Não foi a primeira nem a última(*) Há uma certa continuidade em suas preferências escolares: um boletim do primário, datado de1938, atesta que sua melhor média foi em história, seguida por educação moral e cívica, enquanto odesempenho em desenho, trabalhos manuais e música era precário, e os resultados em aritmética egeometria, medianos (ver Korol, p. 35).(**) “Raquel Hevia era fascinante. Era belíssima, e Ernesto estava encantado com ela” (Betty Feijin,entrevista com o autor, Córdoba, 18/2/95).das aventuras de Ernesto pai; como recorda Carmen, a prima enamorada do Che, “sabia-se que ele 27era muito mulherengo; Célia sabia”.Atriz de algum talento, a mãe de Raquel se instalara em Córdoba por motivos de saúde. Foi durante 28a guerra que teve início a relação com Ernesto pai. Apesar da notoriedade do caso — “Era um 29espetáculo em Córdoba” —, Guevara Lynch em certa ocasião levou a moça para visitar sua casa,o que certamente não agradou ao Che nem a sua mãe. O incidente marcou a tal ponto Ernesto filhoque, alguns anos depois, quando em meio a uma conversa sua namorada Chichina Ferreyra citou onome da mulher, ele respondeu, cortante e irritado: “Nunca mencione esse nome na minha 30presença”.Logicamente as tensões no seio do casal Guevara de Ia Serna perduravam e se agravavam, agoraafetando os cinco filhos, três deles já maiores. Como recorda Betty Feijin, contemporânea deGuevara e por muitos anos esposa de Gustavo Roca, um advogado de Córdoba de quem ele setomaria amigo íntimo mais tarde, em Cuba:A vida familiar era complicada. Lembro-me de quando nasceu Juan Martín, o menor dos irmãos deErnesto, e fui vê-lo. Lembro-me da casa onde viviam;deparei com uma coisa que me pareceu tão desorganizada... dava uma sensação de pobreza, dedescuido. Célia era uma mulher muito inteligente, bastante atraente como pessoa, podia-seconversar muito bem com ela, mas sentia-se que as coisas não iam bem... E ai, uma dessas coisasque as crianças comentam: que Ernesto estava separado. Houve diversos períodos de grandesdivergências conjugais e de problemas financeiros. Inclusive viviam pobremente; bem do ponto devista sociocultural, mas com seriíssimas limitações económicas.*Dolores Moyano desenvolveu uma tese sobre a vida doméstica da família Guevara nessa fase. Emsua solidão, e diante das crescentes dificuldades dos filhos menores para se desenvolver em umambiente caracterizado já não só pela desordem mas também por apuros financeiros e pela crise docasamento, talvez a mãe adoradora e adorada tenha sucumbido à tentação de pôr o filho mais velhono lugar do pai. A primeira separação(*) Feijin, op. cit. O pai do Che alude a essas “divergências conjugais” da seguinte maneira: “Aimprensa mundial [...] se pôs a fazer soar sua charanga de invenções e mentiras. Alguns‘comentaristas’ chegaram a afirmar que em nossa casa minha mulher e eu sentávamos à mesacada qual com um revólver na cintura para dirimir qualquer discussão a tiros. Porém, nada disseramsobre como nos complementamos em tudo o que se referisse à luta pêlos ideais políticos e sociais”(Guevara Lynch, op. cit., p. 105).propriamente dita dos Guevara — provisória, ambígua, relativa — só ocorreria em Buenos Aires, em1947, mas em todo caso seu prólogo já estava em curso.* A complexidade da situação ficou namemória de Carmen Córdova: “Era como se Ernesto [pai] tivesse ido embora, pois decidiu que iria,mas logo reaparecia. Tampouco era uma relação de rompimento do casal ou o fim do casamento”.”Em 1943 nascera o último filho do casal, juan Martín. Sua relação com Ernesto seria representativada adolescência em Córdoba e em seguida da mocidade portenha do Che. Nessa relaçãocomprova-se a teoria de Dolores Moyano: “Eu era como uma espécie de irmão-filho: Ernesto erameu pai e meu irmão ao mesmo tempo. Levava-me para passear, carregava-me nos ombros, 32brincava comigo e eu o via como meu pai”.Nas outras tarefas da casa — e evidentemente não se tratava apenas de funções domésticas —talvez Célia estivesse começando a solicitar de maneira inconsciente mas firme uma maiorresponsabilidade de seu primogénito e preferido. Segundo um primo irmão de Ernesto, o Che entre-gava sempre à mãe uma parte dos salários provenientes dos variados empregos que conseguira nacapital nessa época. “Tive a impressão de que de algum modo, pouco a pouco, ele começava a 33substituir o pai.” E provável que essa exigência não se verbalizasse nem chegasse a uma
  14. 14. formulação explícita; a comunicação entre mãe e filho admitia insinuações e meias palavras. Poucoa pouco, em vista da crescente pressão materna, o jovem Che iria se distanciar; não no que serefere ao carinho ou à dedicação aos pais e irmãos, mas fisicamente. A isso se deveria em parte oinício de suas viagens logo a seguir, com o posterior e interminável perambular pelo mun-(*) Alguns biógrafos a situam algum tempo antes, em Córdoba. Assim, Marvin Resnick, em TheBlack Beret, the life and mearúng ofChe Guevara (Nova York, Ballantines Books, 1970), afirma: “Em1945, quando Ernesto ainda estava no colegial, os Guevara se separaram. O sr. Guevara mudou-separa outra casa, mas via a esposa e os filhos todos os dias” (p.27).JáDanielJames,emseuCrieGuevara:aí)iogTflprry (Nova York, Stein and Day, 1969), diz que aseparação se deu quando a família chegou a Buenos Aires, em 1947. Martin Ebon, em Crie: themaking ofa legend (Nova York, Universo Books, 1969, p. 15), concorda: a separação ocorreu emBuenos Aires, em 1947. Por fim, Carlos Maria Gutiérrez, talvez o mais qualificado dos biógrafos —embora seu texto jamais tenha sido pubi içado na íntegra —, afirma que a separação ocorreu em1950 (LUÍS Bruschtein/Carlos Maria Gutiérrez, “Los hombres, Che Guevara”, Página 12, BuenosAires, p. l). Não é preciso dizer que nem o próprio pai do Che nem nenhuma das fontes oficiais ouoficiosas cubanas menciona a separação do casal. Aparentemente, preferem manter imaculada, emtodos os sentidos possíveis da palavra, até a mais tenra infância de Ernesto Guevara.do.* Esse enfoque serve também para explicar em parte a decisão inicial de estudar engenharia emCórdoba, quando seus pais e irmãos já tinham se mudado para Buenos Aires. Porém não chegaraainda o momento da separação. Por diversos motivos, que examinaremos depois, ele modificariaseu plano original; seguiria a família até a capital, embora nunca tivesse chegado a lançar realmenteraízes em Buenos Aires.Remonta a esses tempos de colegial o primeiro encontro do Che com Maria dei Carmen (Chichina)Ferreyra. O namoro só se concretizou três anos mais tarde, em 1950, quando Guevara cursavamedicina na Universidade de Buenos Aires. Mas nesse período o grupo de amigos de Ernesto jácomeça a convergir com o de Chichina: muitos primos e primas dela são também próximos deGuevara, dos Granado e de outros do mesmo círculo de amizades. Convergência, não assimilação.O Che veste-se de maneira diferente (até provocativamente desarrumada), tem gostos distintos euma cultura muito superior. Em alguma parte recôndita de sua psique assoma uma ténuepolitização, nesse momento ainda revestida de um tom exclusivamente emocional: simpatia esentimentos nobres para com os menos favorecidos que ele; disposição de lutar por todos os meios,mas sem saber muito bem para quê, nem por quê.Um dos episódios mais citados da biografia do Che é o que Alberto Granado relatou: sua própriadetenção em Córdoba, em 1943, por ter assistido a uma manifestação estudantil antigolpista.Quando Ernesto o visitou no comissariado de polícia, Granado pediu-lhe que convocasse comoutros amigos manifestações dos secundaristas. Segundo a versão consagrada, o Che respondeu,atónito: “Sair em passeata para que caiam em cima de nós? Nem louco. Eu só saio se levar umbufoso [uma pistola]”. Mais que um sinal premonitório da vocação revolucionária ou mesmo dapropensão para a violência, o incidente denota no Ernesto Guevara de dezesseis anos uma com-batividade desnorteada e uma ideia da correlação de forças: não convém brigar se não se pode 34ganhar.(*) Jorge Ferrer, no relato pessoal anteriormente citado, diverge de maneira enfática dessainterpretação de Dolores Moyano: “Em nenhuma de nossas conversas Ernesto mencionou ou dissealgo que sugerisse que se sentia pressionado por Célia em qualquer sentido, ou incomodado pêlosproblemas financeiros da família. Conhecendo Célia, estou convencido de que em nenhumacircunstância ela teria incomodado algum dos filhos com seus problemas e muito menos comproblemas financeiros”. Convém recordar que os anos a que Dolores Moyano se refere são os deCórdoha, enquanto Ferrer conviveu mais de perto com o Che em Buenos Aires. Em segundo lugar,ela fala de impulsos mais inconscientes, menos literais; Ferrer busca uma literalidade que semdúvida não existiu, mas cuja ausência não invalida a análise mais sofisticada de Dolores Moyano.Essa nascente consciência política seria inevitavelmente marcada pela influência dos pais, daintelectualidade de Córdoba e da escassa atenção que o próprio Che consagrava a temas políticosem suas conversas e momentos de ócio com os amigos. Ele não era um colegial apaixonado peloprocesso político, nem imbuído de paixões políticas particularmente vigorosas ou claras.* jáesboçava um viés de antiamericanismo exacerbado,‘não de todo atípico na intelectualidade da época em Córdoba, “a douta”.** Também abriga umindubitável sentimento antiperonista, mas proveniente sobretudo do ciclo antiautoritário que incluiu aguerra da Espanha, a luta contra o nazismo na Europa e na Argentina, a oposição ao golpe deEstado de 1943 e a rejeição de Perón por parte da velha esquerda da classe média intelectualizada.Não se encontra em nenhum relato, por exemplo, a rea-ção de Ernesto ao que foi sem dúvida, namemória dos argentinos que o testemunharam, o acontecimento político-social mais importante desuas vidas até então: a jornada de 17deoutubrode 1945 em Buenos Aires, quando a classe operáriatomou as ruas para resgatar Perón da ilha onde se encon-‘ trava preso e conduzi-lo pêlos ares, metafórica e fisicamente, à Presidênciada República. rf’4- Em fins de 1946 o jovem Guevara concluiu seus estudos secundários;passou o verão trabalhando no Departamento Provincial de Viação em Vil-la Maria. Seu emprego,assim como certa inclinação — mas não destreza — para a matemática e a decisão de seu melhoramigo, Tomás Granado, de entrar na Faculdade de Engenharia de Córdoba, o induziam a seguiressa carreira na cidade provinciana. Sua família já partira para Buenos Aires, ocupando a casa da
  15. 15. mãe de Ernesto Guevara Lynch. Porém, em março de 1947, a avó do Che, Ana Lynch, adoeceu, e oneto foi à capital cuidar dela em seus últimos dias. Após a morte da avó, Ernesto tomou umadecisão crucial: matricular-se na Faculdade de Medicina de Buenos Aires e voltar a viver com ospais, em uma casa da rua Araoz. Esta, contudo, já não espelhava por(*) Sabemos, pela reprodução de algumas páginas de seus cadernos filosóficos ou ‘Dicionáriofilosófico”, que ele começou a ler Marx e Engeis em 1945, aos dezessete anos: pelo menos o Anti-Duhring, o Manrfesto comunista e A guerra civil na França. No entanto, pelas anotações do jovemleitor, trata-se de leituras de índole mais filosófica que política, ainda que tenham sem dúvida surtidoum efeito político.(**) O garçom do Sierras Hotel, que Ernesto pai frequentara antes e ao qual Ernesto rilho retornavacom seus amigos em algumas ocasiões, recorda que ele nunca pedia Coca-Cola e, se a ofereciam,recusava com veemência: “Ficava frenético”. A precisão da lembrança pode, contudo, deixar algo adesejar (Francisco Fernández, entrevista como autor, Alta Gra-cia, 17/2/95).inteiro um lar. Conforme narra euremisticamente Roberto Guevara: “Ernesto frequentava muito umestúdio, bem velho, que tinha na rua de Para-guay, 2034, primeiro andar, A”.” Ou, como recorda umprimo de ambos, mais próximo de Roberto que de Ernesto na idade e na vocação: “Nos últimostempos seus pais já estavam praticamente separados; Ernesto, suponho, em geral não ia dormir emcasa. Quando estavam na Araoz ele tinha seuestúdio de arquiteto, na rua de Paraguay, perto da faculdade de medicina, onde dormia”.’”Ernesto residiria na Araoz até deixar a Argentina, em 1953. Portanto, chegará em definitivo aBuenos Aires pouco mais de um ano depois de Perón tomar-se presidente; partirá para sempre dapátria menos de um ano após amorte de Evita Perón, em 26 de fevereiro de 1952, no início do ocaso do primeiro período de Perónno poder.2ANOS DE AMOR E INDIFERENÇA: BUENOS AIRES, PERÓN E CHICHINAO capítulo portenho de Che Guevara será simultaneamente de formação — não poderia ser deoutra maneira: os anos universitários, como as viagens, forment lajeunesse — e prelúdio da etapaseguinte, decisiva e apaixonante. Abrangerá sua introdução no amor, a viagem e a profissão falida,assim como um vislumbre adicional — não mais que isso —de despertar político. Essa etapa temlugar em um ambiente excepcional: a profunda transfiguração da Argentina que começa eml°deoutubrode 1946, com a posse de J uan Domingo Perón no cargo de presidente constitucional daRepública argentina.Três explicações podem ser dadas para a decisão de Ernesto Guevara de Ia Serna de ingressar naFaculdade de Medicina da Universidade de Buenos Aires. A primeira foi a morte de sua avó, AnaLynch, motivo que goza de numerosos adeptos, em virtude da coincidência no tempo com aresolução do candidato a engenheiro, já matriculado na Escola de Engenharia, de estudar medicina.* Ernesto, consternado pelo falecimento de sua única avó, com quem(*) O primeiro adepto é evidentemente seu pai, que relaciona de modo direto a decisão de estudarmedicina com a morte da avó do Che: “Recordo que [Ernesto] me disse:‘Velho, mudo de profissão. Não seguirei engenharia, vou dedicar-me à medicina’” (Ernesto GuevaraLynch, Mi hijo el Che, Madri, Planeta, 1981, pp. 226-47). Sua irmã Célia partilha esse ponto de vista:“Ele via que não podia fazer nada por ela, que estava morrendo, e então achou que devia estudarmedicina [...] por isso mudou de engenharia para medicina” (Célia Guevara de Ia Serna, depoimentocolhido em Adys Cupull e Froilán Gonzáiez, Emestito: vivo y presente. Iconografia testimoniaAi de iflinfância y lajuventud de Ernesto Che Guerara Í928-1953, Havana, Editora Política, 1989, p. 111).Outros biógrafos que enfatizam essa conexão são J. C. Cernadas Lamadrid e Ricardo Halac, queafirmam: “Assim que a família Guevara chega a Buenos Aires, a avó Lynch adoece. Ernesto [...]acompanha-amantinha desde pequeno uma relação estreita e carinhosa, reagiu como o jovem impulsivo eobstinado que já então se tomara. Visando evitar que outros morressem do mesmo mal, ele sepropôs encontrar uma cura para a enfermidade que a matou (um derrame cerebral, segundo a irmãdo Che);* para tanto, não havia outro caminho a não ser estudar medicina. A explicação não éabsurda e, embora possa parecer insuficiente, é preciso outorgar-lhe certa importância.A segunda explicação diz respeito ao câncer mamário detectado em Célia de Ia Serna Guevara,**um diagnóstico que abalou profundamente seu filho.*** Conforme a versão relatada ao autor porRoberto Guevara, irmão menor do Che, e Roberto Nicholson, primo do cirurgião que atendeu Célia,adia a dia, até a morte. Essa experiência parece ter sido determinante; poucos dias depois ele decideficar na capital e começar a estudar medicina” (J. C. Cemadas Lamadrid e Ricardo Halac, Yofuitestigo: el “Che” Guevara, Buenos Aires, Editorial Perfil, 1986, p. 20). Dois admiradores argentinos,Estehan Morales e Fabián Rios, em seu “Comandante Che Guevara” (Cuademos de América Latina,1/10/68, p. 5), também atribuem o estudo da medicina a “um fato singular: a morte da avó paterna”.A versão cubana raais ou menos oficial também é essa: “Em seguida ao fatal desenlace [da avó] [...]ele se matricula na faculdade de medicina” (Atlas histórico, biográfico y militar de Ernesto Guevara,Havana, 1990,t. l, p. 37).(*) Célia Guevara de Ia Sema, op. cit. O pai também afirma que a causa moreis foi um derramecerebral, e não o câncer que vários biógrafos apontam (Guevara Lynch, op. cit., p. 247).(**) Entre os partidários dessa tese figuram Andrew Sinclair: “A morte da avó de câncer, e a luta da
  16. 16. mãe contra a mesma enfermidade levaram o Che a ser doutor” (Andrew Sinclair, C/ie Guevara,Nova York, Viking Press, 1970, p. 3). Vários outros biógrafos do Che mencionam a enfermidade damãe como o fator que o levou a cursar medicina (cf. Daniel James, Che Guevara: a biography, NovaYork, Stein and Day, 1969; Martin Ebon, Che: the makingofa legend. Nova York, Universe Books,1969; Marvin Resnick, The Black Beret, the life and meaning ofChe Guevara, Nova York, BallantineBooks, 1969). Um biógrafo alemão, cujo texto contém numerosos erros e claras fantasias (ver maisadiante a nota da página 65), mas inclui também acertos interessantes, relaciona a enfermidade damãe com o empenho do Che em encontrar uma cura para o câncer em seu pequeno laboratóriodoméstico com porquinhos-da-índia, mas não com a decisão de estudar medicina: “Quando suamãe teve de se submeter a uma operação, em virtude de um tumor canceroso no seio, ele construiuum laboratório amador e começou a fazer experiências com porquinhos-da-índia, na esperançaotimista de desvendar o segredo dessa enfermidade” (Frederik Hetmann, Yo tengo siete vidas,Madrid, Lóguez Ediciones, 1977, p. 23).(***) “Célia, minha mulher, foi tratada com radioterapia para erradicar um tumor maligno. Um diadisse-me que encontrara uma protuberância no seio [...] Os médicos [...] decidiram operá-laimediatamente [...j Quando [Ernesto] se deu conta de que levavam a mãe para a sala de operaçõese o resultado da intervenção era incerto, perdeu a serenidade (...] Seguiu passo a passo o processode cura de sua mãe” (Guevara Lynch, op. cit., p. 247).primeira operação foi em 12 de setembro de 1945.* Extirpou-se uma parte considerável do seio emrazão da presença de um tumor maligno e “muito ati-vo”. A cirurgia foi um êxito e não teve maioresconsequências. Ocorreu, portanto, dois anos antes da decisão do Che de estudar medicina e semdúvida foi fundamental em suas opções. Em outubro de 1949 Célia queixou-se de que a cicatriz daoperação de 1945 a estava incomodando; em princípios de 1950 foi submetida a nova intervenção,em que se extirpou todo o seu seio e extraiu-se o aparelho reprodutivo. Célia demorou muito maispara se recuperar dessa operação, e dezessete anos mais tarde morreria de câncer, talvez porcausa de sequelas do tumor inicial. Não é difícil supor que um rapaz extraordinariamente apegado àmãe, ao saber um belo dia que ela padecia de câncer, ainda que os médicos j ulgassem que aenfermidade específica de Célia fosse curável, tenha sofrido um golpe devastador.** Se Ernestoresolveu se dedicar à medicina para impedir que outros morressem como sua avó, maiores motivosteria para tentar evitar uma hipotética (ainda que provável) recaída da mãe, figura muito maispróxima e intensamente ligada a ele que Ana Lynch.Nenhuma das fontes oficiais cubanas sequer menciona a enfermidade de Célia, muito menos osefeitos que teve na vida, carreira e personalidade do filho. * * * Também não se fala da separaçãodos pais do Che — parece que(*) Esses fatos foram relatados ao autor por Roberto Guevara, o irmão mais novo do Che, duranteuma entrevista realizada em Buenos Aires, em 22 de agosto de 1996. Por sugestão dele, foipossível consultar pessoas diretamente relacionadas com os médicos que atenderam Célia. Apessoa que realizou a investigação por conta do autor também pôde corroborar alguns fatos junto aCélia Guevara, irmã do Che. Em um depoimento escrito, Jorge Ferrer, amigo próximo de Ernestodurante esse período, assinala que “quando descobriram o tumor de Célia, Ernesto já estavacursando o segundo ano de medicina” (Jorge Ferrer ao autor, 11/3/96). Ferrer desconhecia aexistência do primeiro tumor e da primeira operação. Talvez isso se devesse a um certo segredoque cercava a enfermidade de Célia. Dolores Moyano, por exemplo, acreditava que as repetidasreclusões de Célia em seu quarto deviam-se a uma depressão (Dolores Moyano, entrevista com oautor, Washington, DC, 26/2/96).(**) “Quando Ernesto era estudante de medicina, sua mãe foi operada do seio em virtude de umpossível tumor maligno. O Che ficou tremendamente afetado” (testemunho de Armando March, 3encontrado em Primera Plana, n 251, Buenos Aires, 17/10/67, p. 29).(***) A enfermidade da mãe não é mencionada em nenhuma das obras cubanas dedicadas ao temaque pudemos consultar: nem no Atlas histórico (op. cit.), nem Adys Cupull e Froilán Gonzáiez emsuas obras a respeito (L/n homhre bravo, Havana, Editorial Capitán San LUÍS, 1994), nem notrabalho mais recente publicado com o apoio de fontes cubanas — Jean Cormier, com acolaboração de Alberto Granado e Hilda Guevara, Che Guevara, Paris, Éditions du Rocher, 1995.os heróis revolucionários não podem incluir em sua biografia episódios penosos ou amargos: os paisnão brigam nem adoecem, nem os tropeços de suas vidas têm maior influência sobre os filhos.Algum dia haverá que se examinar por que o stalinismo, em qualquer de suas versões, seja a polarou a tropical, só reconstitui homens maus ou perfeitos, nunca seres humanos normais que, por seutalento e pela época em que vivem, se transformam em personagens extraordinários.Por último, há a tese de que Ernesto estudou medicina em busca de um alívio para sua própriaenfermidade respiratória.* Além do peso dos teste->• munhos em seu apoio,** ela possui umapoderosa justificativa intrínseca. A especialização medicado Che orientou-se precisamente para asalergias;*** suas investigações sob a orientação do dr. Salvador Pisani, na faculdade de medicina,também permaneceram nessa área.**** Inclusive durante o período que passou no México antes deembarcar na expedição do Granma — única fase em que ele exerceu sua profissão —, seuesporádico e escasso trabalho médico girou em torno de problemas alérgicos e dermatológicos.***** Não seria descabido pensar que sua própria doença contribuiu de alguma maneira para aescolha de uma carreira para a qual ele não tinha nenhuma vocação aparente.(*) John Gerassi, o divulgador da obra do Che nos Estados Unidos, menciona essa explicação, masconfere-lhe maior importância como fator que levou Ernesto a especializar-se em alergias: “Mas o

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