Apostila teol contemporanea curso

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  • 1. Curso de Teologia ContemporâneaProfessor Pr. Josias Moura de Menezes
  • 2. Pag. 2 Curso de Teologia ContemporâneaÍndice da apostilaCurso de Teologia Contemporânea.................................................................................................................... 1Parte 01: TEOLOGIAS PRÉ CONTEMPORÂNEAS ............................................................................................... 41. Influências da teologia Contemporânea .................................................................................................. 42. MÍSTICA E TOMÍSTICA ................................................................................................................................ 53. A influência da reforma e contra reforma................................................................................................ 54. A reação católica a reforma....................................................................................................................... 55. Galileu e a inquisição ................................................................................................................................. 66. A Bíblia foi a grande vítima de todos os confrontos entre a Igreja e as novas idéias ........................... 67. A atuação nociva do liberalismo teológico neste período ...................................................................... 68. O que é alta crítica? ................................................................................................................................... 7Parte 02: O LIBERALISMO TEOLOGICO .............................................................................................................. 8Parte 03: NOVO MODERNISMO ....................................................................................................................... 169. Karl Barth - UM NOVO ORTODOXISMO?................................................................................................ 1610. Emil Brunner - Cristo Absoluto ou relativo? ..................................................................................... 18Parte 04:NOVAS CORRENTES TEOLÓGICAS ..................................................................................................... 1911. A TEOLOGIA DO MITO ......................................................................................................................... 1912. A teologia da esperança ...................................................................................................................... 2113. JÜRGEN MOLTMANN – O FUNDADOR DA TEOLOGIA DA ESPERANÇA............................................ 23Parte 05: AS TEOLOGIAS SOCIAIS ..................................................................................................................... 241. Na teologia social é ressaltado o conteúdo ético e social da Igreja. .................................................... 242. É boa a aproximação entre teologia e ciências sociais?........................................................................ 243. Grandes nomes do evangelho social ...................................................................................................... 244. O evangelho social na América do sul .................................................................................................... 255. Em que momento o evangelho social ganha destaque......................................................................... 256. Os três passos básicos da teologia da libertação de Leonardo Boff..................................................... 257. O movimento do evangelho social teve o seu lado positivo: ............................................................... 258. Nascimento da TDL no Brasil................................................................................................................... 269. Eventos que precederam o nascimento da TDL no Brasil ..................................................................... 26
  • 3. Pag. 3 - Curso de Teologia Contemporânea.10. Características da TDL ......................................................................................................................... 2711. Porque a teologia da libertação não produziu resultados tão positivos na américa latina? ......... 28Parte 06: Texto para debate: A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO - O CRISTIANISMO A FAVOR DOS EXCLUÍDOS............................................................................................................................................................................ 29Parte 07: Texto para debate- A teologia social de Calvino............................................................................. 341. Introdução ................................................................................................................................................ 342. Genebra na Época de Calvino.................................................................................................................. 353. O Governo de Genebra ............................................................................................................................ 354. A Situação Social em Genebra................................................................................................................. 355. As Mudanças Introduzidas por Farel em Genebra ................................................................................ 366. As reações as mudanças trazidas por Farel ............................................................................................ 367. É neste momento de mudanças que Calvino chega a Genebra ........................................................... 368. O Ensino de Calvino.................................................................................................................................. 379. A Responsabilidade Social da Igreja........................................................................................................ 3910. Conclusões ........................................................................................................................................... 45Parte 08: A teologia evolucionista ................................................................................................................... 4611. A TEOLOGIA EVOLUCIONISTA ............................................................................................................. 4612. O que foi publicado na revista isto é.................................................................................................. 47Parte 09: Teologia relacional- Um novo “deus” no mercado......................................................................... 471. Introdução ................................................................................................................................................ 472. Seus pontos principais podem ser resumidos desta forma: ................................................................. 483. A teologia relacional traz um forte apelo a alguns evangélicos, pois diz que Deus está mais próximode nós e se relaciona mais significativamente conosco do que tem sido apresentado pela teologiatradicional. ......................................................................................................................................................... 49Parte 10: A TEOLOGIA DA PROSPERIDADE- UMA RESPOSTA À TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO? ..................... 511. Introdução ................................................................................................................................................ 512. A base doutrinária .................................................................................................................................... 523. UMA TEOLOGIA DE RICOS PARA OS POBRES: O CASO DA IURD........................................................... 544. A VISÃO BÍBLICA E TEOLÓGICA................................................................................................................ 605. Considerações finais ................................................................................................................................ 646. Informações sobre o professor ............................................................................................................... 64
  • 4. Pag. 4 Curso de Teologia Contemporânea Parte 01: TEOLOGIAS PRÉ CONTEMPORÂNEAS1. Influências da teologia ContemporâneaA atual teologia contemporânea recebeu a influência de inúmeras manifestaçõesteológicas e filosóficas do passado.Para uma melhor compreensão da Teologia Contemporânea é imprescindívelconhecer as principais correntes ou tendências teológicas, desde os dias apostólicosque a influenciam:  A Teologia Bíblica: procura conhecer a Deus, seus atributos e sua vontade, através de uma reflexão a respeito dos temas presentes tanto no Antigo como no Novo Testamento, considerados como infalível Palavra de Deus  A Teologia Católica: por sua vez, que corresponde às teologias moral (orienta o comportamento humano em relação aos princípios religiosos), dogmática (estuda os elementos da fé, ou seja, as doutrinas), bíblica (estuda o caráter de Deus, seus atributos e sua vontade a nosso respeito, com base na Bíblia) e patrística (estuda a religião de acordo com a interpretação dos pais da Igreja, da tradição e do magistério);  A Teologia Protestante enfatiza o retorno às origens e à reinterpretação das Escrituras, tendo Cristo como única perspectiva. Seus temas principais são: somente a Escritura, somente Cristo, somente a fé, somente a graça;  A Teologia Natural ou Teodicéia, busca o conhecimento de Deus baseando-se na razão humana;  A Teologia Especulativa tem por fundamento o estudo sintético dos textos sagrados, apoiado nos conhecimentos filosóficos do homem. Nesta categoria pode ser classificada a teologia tomística, de Aquino. A Teologia Contemporânea origina-se diretamente do método especulativo, e desde a Reforma Protestante tem tomado várias direções, conforme as designações recebidas: Teologia modernista, teologia neomodernista, teologia da esperança, teologia do evangelho social, teologia do cristianismo sem religião, teologia da morte de Deus etc, conforme veremos no decorrer desse estudo;  A Teologia Mística fundamenta-se na experiência religiosa que permite ao iniciado supor-se imediatamente relacionado com a divindade, sendo sinais dessa união as visões, os êxtases, as profecias e os estigmas. Características da teologia mística: o A teologia mística não tem caráter reflexivo. o Não da prioridade ao uso da razão. o Evidência as experiências .
  • 5. Pag. 5 Curso de Teologia Contemporânea o Da maior importância a sentimentos, emoções, do que ao uso do intelecto.2. MÍSTICA E TOMÍSTICAA filosofia grega ameaçou toda a estrutura do Cristianismo, tentando helenizar asdoutrinas apostólicas, ou seja, contextualizá-las à luz da cultura grega.As doutrinas passaram a ser examinadas a luz da razão e da lógica.A influência da teologia filosófica de Tomas de Aquino:Com Tomás de Aquino, no século XII, ressurge a teologia especulativa, mas comoutras vestes.Esse famoso doutor do catolicismo procurou explicar racionalmente os dogmascristãos, e acabou invertendo o princípio bíblico de que "pela fé entendemos", aoafirmar que o conhecimento conduz à fé.É o pai não apenas da teologia tomística, mas também da filosofia tomística, como jávimos.3. A influência da reforma e contra reformaCom o advento da Reforma Religiosa no século XVI, a tradição católica foi desafiadapelos reformadores.Os reformadores apegaram-se às Escrituras Sagradas e trouxeram à lume os grandesfundamentos da fé cristã, como: a autoridade suprema da Bíblia, a justificação pela fé,o verdadeiro significado dos sacramentos, o sacerdócio universal dos crentes, etc.As divisas protestantes tornaram-se célebres: Solus Cristus, Sola Scriptura, Sola fide,Sola gratia.4. A reação católica a reformaA Igreja Católica, ao ver-se ameaçada, organizou a sua contra reforma principalmenteatravés da convocação do concilio de Trento, que se reuniu durante 18 anos, de 1545 a1563.O que acontece neste concílio?Nesse célebre concilio ficaram confirmados pela Igreja Católica todos os dogmasanteriormente aceitos. A tradição foi considerada de valor igual ao da Bíblia, e aindajuntaram-se ao cânon do Antigo Testamento os livros e aditamentos apócrifos.
  • 6. Pag. 6 Curso de Teologia Contemporânea5. Galileu e a inquisiçãoAcusado de perjúria e heresia pelos clericalistas, o grande físico, já com 70 anos, foicitado a comparecer perante o Tribunal da Inquisição, em Roma.Na manhã do dia 22 de junho de 1633, ajoelhado ante seus inimigos, Galileu, parasalvar a vida, abjura seus "erros e heresias" e "renega" todas as suas sensacionaisdescobertas.O decreto do Papa urbano VIII diante das novas descobertas científicasFoi nos dias de Galileu, quando mais se digladiavam teólogos que pretendiam sercientistas e cientistas que pretendiam ser teólogos, que o papa Urbano VIII, pontíficede 1632 a 1644, assinou o seu infalível (!!!) decreto: "Em nome e pela autoridade de Jesus Cristo, cuja plenitude reside em Seu vigário, o Papa, declaramos que a afirmação de que a terra não é o centro do mundo e de que ela se desloca com um movimento diurno é coisa absurda, filosoficamente falsa; e errônea, quanto à fé".Constatamos uma clara incapacidade da teologia católica de acompanhar e explicar osinúmeros avanços científicos que estavam acontecendo naquele período.6. A Bíblia foi a grande vítima de todos os confrontos entre a Igreja e as novas idéiasA posição medievalista da Igreja Católica nos primeiros séculos da Idade Moderna, emrelação ao desenvolvimento da cultura, trouxe males sem conta a ela mesma,Porque à medida em que a ciência começou a provar os "absurdos" condenados pelareligião, esta começou a ser contestada por eminentes escritores, secularistas eirreverentes, a cujos olhos o romanismo não passava de um mal social e um entrave aoprogresso dos povos.7. A atuação nociva do liberalismo teológico neste períodoO que o liberalismo teológico não é? O liberalismo teológico não é uma religião ouuma organização ideológica possuidora de templos, funcionários ou sociedades.O que o liberalismo é? Ele é, simplesmente, uma tendência de ajustar o Cristianismoaos conceitos da *Alta Crítica da Bíblia, da ciência e das filosofias modernas. Estatendência apresenta-se hoje sob diversos outros títulos, como modernismo,racionalismo, nova teologia, etc.
  • 7. Pag. 7 Curso de Teologia Contemporânea8. O que é alta crítica?Em exegese, Alta crítica é o nome dado aos estudos críticos da Bíblia. Sua abordagemtrata a Bíblia como literatura, utilizando-se do aparato crítico normalmente aplicado atextos literários semelhantes.Caracteriza-se, de uma forma geral, por não partir do dogma da inerrância bíblica paraefetuar suas análises.Em contraste com a Baixa crítica, seu foco está no estudo dos autores dos textosbíblicos, seu processo de formação editorial, sua transmissão histórica e o contexto deformação, denominado Sitz im Leben.Exemplo de atuação da alta CríticaOs fundamentos históricos dessa tendência remontam, de acordo com a maioria dosautores, ao ano de 1753, quando Jean Astruc (1684-1766), francês incrédulo eprofessor de medicina em Paris, publicou anonimamente, em Bruxelas, em francês, olivro Conjecturas Sobre as Memórias Originais que Parece Terem Sido Usadas porMoisés na Composição do Gênesis.Nesse livro Astruc, que foi médico do rei da Polônia e de Luís XV, da França, duvida daorigem mosaica dos cinco primeiros livros do Antigo Testamento e aventa a hipótesede existirem duas fontes literárias — Jeovista e Eloísta — partindo-se dos nomesusados para se referirem a Deus.Antes dessa data, muito raramente alguém ousava criticar assim a Palavra de Deus,lançando dúvidas sobre a sua historicidade tradicionalmente aceita.Os mesmos métodos de desintegração aplicados ao Antigo Testamento foramtambém aplicados, de maneira violenta, ao Novo, lançando descrédito sobre o seuvalor histórico e resultando, em alguns casos, no completo desaparecimento dapessoa divina de Jesus Cristo, para instalar em seu lugar apenas um profetadestituído de todos os seus atributos sobrenaturais.O nascimento da teologia liberalDo emaranhado dessas teorias nasceu o movimento liberalista, hoje presente nasartes, na música, nos costumes sociais e, como vimos, na própria Teologia. É ele oprincipal responsável pelo relaxamento dos padrões éticos, em virtude da sua atitudeirreverente em relação à Divindade e das dúvidas acerca da inspiração das Escrituras,que lança nos corações.
  • 8. Pag. 8 Curso de Teologia ContemporâneaSem a poderosa influência moralizadora da Palavra de Deus, os homens seembrutecem, como descreve o apóstolo Paulo no capítulo 2 da sua Carta aosRomanos.Em 1780, o hebraísta alemão Eichrodt aceitou a hipótese de Astruc e afirmou que osreferidos documentos tinham características, estilos e expressões distintas um dooutro. Igen, em 1798, também alemão, julgou ter descoberto, dentro do documentoEloísta do Gênesis, diversas características de estilo e expressões. Por isso foi eleconsiderado o descobridor do segundo documento Eloísta.Na Escócia, o padre católico romano, Alexander Gaddas, anunciou ter encontrado noPentateuco diversos documentos (1798-1800). Parte 02: O LIBERALISMO TEOLOGICOI. NOMES PRINCIPAISVejamos agora alguns nomes implicados no liberalismo teológico, responsáveis pelosnovos rumos tomados pelo protestantismo:A. Friedrich Schleiermacher (1768-1834)1. Teólogo e filósofo alemão, embora anti-racionalista, ensinou que não há religiõesfalsas e verdadeiras. Todas elas, com maior ou menor grau de eficiência, têm porobjetivo ligar o homem finito com o Deus infinito, sendo o cristianismo a melhor delas.2. Ao harmonizar as concepções protestantes com as convicções de burguesia culta eliberal, Schleiermacher foi considerado radical pelos ortodoxos, e visionário pelosracionalistas. Na verdade, o seu pensamento filosófico-teológico, embora consideradoliberal, está mais perto do transcendentalismo de Karl Barth.B. Johann David Michalis (1717-1791)1. Teólogo protestante alemão, foi o primeiro a abandonar o conceito da inspiraçãoliteral das Escrituras Sagradas.C. Adoff Von Harnack (1851-1930)
  • 9. Pag. 9 Curso de Teologia Contemporânea1. Teólogo protestante alemão, defende em sua obra principal História dos Dogmas: aevolução dos dogmas do cristianismo pela helenização progressiva da fé cristãprimitiva.Em outra obra, A essência do cristianismo, reduziu a religião cristã a uma espécie deconfiança em Deus, sem dogma algum e sem cristologia.D. Albrecht Ritschl (1822-1889)1. Ritschl ressaltou o conteúdo ético da teologia cristã e afirmou que esta deve basear-se principalmente na apreciação da vida interior de Cristo.E. David Friedrich Strauss (1808-1874)1. Foi o teólogo alemão que maior influência exerceu no século XIX sobre os não-teólogos e não-eclesiásticos. Tornou-se professor da Universidade de Tubingen comapenas 24 anos. Quatro anos mais tarde, em 1836, foi furiosamente afastado do cargoem virtude de sua obra, denominada Vida de Jesus, criticamente estudada.2. No ano de 1841 lançou, em dois volumes, sua Fé Crista - Seu DesenvolvimentoHistórico e seu Conflito com a Ciência Moderna. Nesta obra está negandocompletamente a Bíblia, a Igreja e a Dogmática.Em 1864 publicou uma segunda Vida de Jesus, quando procurou então distinguir oJesus histórico do Cristo ideal segundo a maneira típica dos liberais do século XIX. Emsua A Antiga e a Nova Fé, publicada em 1872, adota a evolução darwiniana emcontraste com a fé bíblica.3. Para Strauss, Jesus é mero homem. Insiste em que é necessário escolher entre umaobservação imparcial e o Cristo da fé.Ensinou que é preciso julgar o que os Evangelhos dizem de Jesus pela lei lógica,histórica e filosófica, que governa todos os eventos em todos os tempos. Não achou enão procurou um âmago histórico, mas interessou-se apenas em mostrar a presença ea origem do mito nos evangelhos.4. Seu conceito do mundo é o de matérias subindo para formas cada vez mais altas.À pergunta: "Como ordenamos nossas vidas?" - responde: autodeterminação,seguindo a espécie.5. Nas obras de Strauss não há lugar para o sobrenatural. Os milagres são mitos,contados para confirmar o papel necessário de Jesus, daí as referências ao VelhoTestamento. Em resumo, Jesus é uma figura histórica. Da vida de Jesus nada sabemos,sendo tudo mito e lenda.6. Considerado o mais erudito entre os biógrafos infiéis de Jesus, Strauss encerra oúltimo capítulo da sua segunda Vida de Jesus com estas palavras: "...aparentemente
  • 10. Pag. 10 Curso de Teologia Contemporâneaaniquilaram a maior e mais importante parte daquilo que o cristão se acostumou a crerconcernente a Jesus; desarraigaram todos os encorajamentos que ele tem tirado desua fé e privaram-no de todas as suas consolações. Parece que se achamirremediavelmente solapados os inesgotáveis depósitos de verdade e vida que pordezoito séculos têm sido o alimento da humanidade; o mais sublime atirado ao pó,Deus despido de sua graça, o homem despojado de sua dignidade, e o laço entre o céue a terra rompido. Recua a piedade em horror diante de um ato tão temeroso deprofanação, e, forte como é na impregnável evidência própria de sua fé, ousadamenteconclui que - não importa se um criticismo audaz tentar o que lhe aprouver tudo o queas Escrituras declaram e a Igreja crê acerca de Cristo subsistirá como verdade eterna;nem sequer um jota ou um til será removido."7. Philip Schaff comenta que Strauss professa admitir a verdade abstrata dacristologia ortodoxa, "a união do divino e humano , mas perverte-a, emprestando-lheum sentido puramente intelectual, ou panteísta. Ele nega atributos e honras divinas àgloriosa Cabeça da raça, mas aplica os mesmos atributos a uma humanidade acéfala.Destarte, ele substitui, partindo de preconceitos panteístas, uma viva realidade poruma abstração metafísica; um fato histórico por uma mera noção; a vitória moralsobre o pecado e a morte por um mero passo na filosofia e em artes mecânicas; oculto do único vivo e verdadeiro Deus por um culto panteísta de heróis, ou própriaadoração de uma raça decaída; o pão nutriente por uma pedra; o Evangelho deesperança e vida eterna por um evangelho de desespero e de final aniquilamento."F. Sorem Kierkegaard (1813-1855)1. Teólogo e filósofo dinamarquês. Filho de um homem rico torturado por dúvidasreligiosas e sentimentos de culpa, Kierkegaard adquiriu complexos de naturezapsicopatológica e possíveis deficiências somáticas. Estudou teologia na universidade deCopenhague, licenciando-se em 1841.2. Atacou a filosofia de Hegel e afastou-se mais e mais da Igreja Luterana, por julgá-lamuito pouco cristã. Para o teólogo dinamarquês, entre as atitudes (fases) estética,ética e religiosa da vida, não há mediação, como na dialética de Hegel, e não há entreelas transição, no sentido de evolução. Para chegar da fase estética à fase ética oudesta à religiosa é preciso dar um salto (ser iluminado, converter-seinstantaneamente) que transforme inteiramente a vida da pessoa.3. Para Kierkegaard, só o cristianismo é capaz de vencer heroicamente o mundo, sendoo panteísmo cultural de Hegel impotente contra a consciência do pecado e contra omedo e temor. Criticou o hegelianismo em sua acomodação ao mundo profano, pornão ser capaz de eliminar a angústia e admitir a existência de contradições irresolúveisentre o cristianismo e o mundo, cabendo ao homem escolher existencialmente entreesta e aquela alternativa: ser cristão ou ser não-cristão.
  • 11. Pag. 11 Curso de Teologia Contemporânea4. São profundos os conceitos de Kierkegaard sobre os estágios da vida, a diferençaentre ser e existir, o subjetivo e o objetivo, o desespero, os critérios positivos para averdadeira existência, etc.Eis alguns deles: a. No estágio estético, o homem leva uma existência imediata e não refletiva, faltando a diferenciação entre ele e o seu mundo; No estágio ético, o homem assume a responsabilidade pelo seu próprio ser, procura alcançar-se a si - o que não pode fazer; No estágio religioso, reconhece a impossibilidade de viver conforme gostaria e descobre que o pecado é não ser o que Deus deseja que seja, e que só se alcança este estado proposto por Deus através de algo que vem de fora - o próprio Deus; b. o tempo (e espaço) trata do que o homem é, da sua existência; a eternidade significa que, embora o homem viva no tempo e no espaço, ele não está totalmente determinado por estes elementos; a existência fala de liberdade, possibilidade, do ideal, da obrigação; o momento de decisão é quando a eternidade intercepta o tempo; c. o objetivo cultural é aquilo que é, enquanto o homem fica entre o que é e o que ele pode e deve ser. A ciência limita-se ao estudo do que é, ao que ela chama "a verdade"; mas os fatos claramente aceitos jamais encerram a verdade; d. a essência do ser humano aparece quando traz a eternidade para dentro do tempo. Cada homem há de sofrer porque vive numa realidade muito física: liberdade versus tempo; e. o único que realmente resolveu o paradoxo do tempo e da eternidade foi Jesus Cristo. Ele mesmo foi um paradoxo: Deus e homem; limitado e ilimitado; ignorante e conhecedor de tudo.5. S. Kierkegaard, redescoberto na Alemanha por volta de 1910, é considerado oprecursor da teologia transcendental, de que Karl Barth, no século XX, é o principalrepresentante.II. EXAME CRÍTICOA. Principais Doutrinas Liberais1. Foi a partir de meados do século XIX, como conseqüência da grande vitalidadeintelectual e reorientação do pensamento, que nasceu a teologia liberal. Foi esta umaépoca de renascimento religioso em geral e, em particular, de expansão doprotestantismo, institucional e geográfica mente, caracterizada pelas missões esurgimento das sociedades bíblicas.
  • 12. Pag. 12 Curso de Teologia Contemporânea2. O liberalismo teológico, em sua essência, procura libertar as consciências cristãsdas suas amarras escolásticas, apontando-lhes as exigências da razão. Realça apessoa de Deus como a fonte de toda a verdade e enfatiza a necessidade de umacerteza sincera na busca da verdade, embora reconheça a impossibilidade do serhumano alcançar um conhecimento pleno da verdade absoluta.3. A maioria dos teólogos da atualidade considera hoje insustentável essa premissaliberalista de que o espírito humano não possa mover-se em regiões para além doalcance dos sentidos, além do raciocínio meramente racional. Para Platão, o intelectotem idéias supersensíveis, inexplicáveis à luz da razão, sendo que é neste reino queresidem os característicos principais e distintivos da alma humana. Modernamente, écada vez maior o número dos que conhecem uma área essencialmente metafísica,portanto fora do alcance dos meios físicos, na qual o espírito obedece às leis de suaprópria natureza.4. Segundo os teólogos liberais, o protestantismo precisa "incorporar à sua teologiaos valores básicos, as aspirações e as atitudes características da cultura moderna,ressaltando, dentre outros, o imperativo ético do Evangelho." (Enciclopédia Mirador).Dessa pregação nasceu o evangelho social, onde a mensagem de Cristo deixa de ser opoder de Deus para a salvação e regeneração do homem, para tornar-se apenas umafórmula social, impotente. "A Igreja transcende os métodos e as fórmulas humanas.Ela produz aquela vida plena de riqueza, que é o espírito livre e nobre em ação; pensaos melhores pensamentos; aceita os mais elevados ideais e os reveste de umalinguagem irresistível. Assim ela infunde um poder criador na sociedade de espíritoshumanos... Não há fórmula suficiente boa para tornar boa uma sociedade, se não forexecutada por homens bons. O cristianismo não elabora fórmulas, mas cria os homenscapazes de insuflar força moral em qualquer fórmula" (Lynn Harold Hough).5. O movimento liberalista não reivindicou apenas amplas liberdades para oexercício da razão, mas pregou a tolerância entre as denominações protestantes,aproximando-as, através da minimização das diferenças doutrinárias.6. O ressurgimento da intolerância religiosa no seio do catolicismo romano, nasprimeiras décadas do século passado, o que resultou na prisão e morte deprotestantes em diversos países, especialmente na Estônia, Lituânia, Letônia, Turquia,Pérsia, Portugual e Espanha, contribuiu também para aproximar entre si asdenominações evangélicas. A organização, em 1846, da Aliança Mundial Evangélica,em Londres, foi uma resposta ao estado de insegurança em que se achavam váriascorrentes do protestantismo. Essa Aliança muito fez pela liberdade de culto em todo omundo.7. Mas o espírito liberal reclama ainda respeito pela ciência e pelos métodoscientíficos de pesquisas, o que implica na aceitação franca do estudo, tanto do mundomaterial como da crítica bíblica e da história da Igreja. Foi, valendo-se desse estado de
  • 13. Pag. 13 Curso de Teologia Contemporâneaespírito favorável, que Darwin publicou a sua célebre obra As Origens das Espéciesatravés de meios de seleção natural,em 24 de novembro de 1859, que provocouviolentas e intermináveis polêmicas.8. O liberalismo teológico aceita também o princípio da continuidade, ou seja,considera mais importantes as semelhanças do que os contrastes, admitindo-se aidéia da evolução para superar os abismos existentes entre o natural e espiritual,entre o homem e seu Criador, enfatizando mais a imanência do que a transcendênciade Deus; o liberalismo prega ainda a confiança do homem no futuro, gerada pelasgrandes conquistas em todos os campos da ciência.9. Não há dúvida de que o sonho liberalista do século passado mostra a cada diamais impossibilidade de materializar-se. A teoria da evolução está hoje negada pelosprincipais cientistas, e as conquistas da ciência moderna têm trazido, ao lado do seuinegável progresso, resultados catastróficos. A confiança do homem no futurodesvanece-se hoje à luz dos fatos atuais e a exemplo de amargas experiênciasrecentes. Quanto à imanência de Deus, sugere esta ênfase que a Divindade estáidentificada com a totalidade das existências, afirmando, panteisticamente, que tudo éDeus e Deus é o tudo. Elimina-se, destarte, toda a concepção da personalidade divinae, em conseqüência, considera-se o homem um irresponsável. Quando se nega oconceito de Deus, como o Criador onipotente que está acima de todas as coisas quecriou, corre-se o risco de cair no fatalismo, característico dos cultos orientais e,infelizmente, em expansão no Ocidente. Sinais da presença do fatalismo em nossosdias são os horóscopos, o fetichismo e até mesmo os biorrítmos, rejeitados comoanticientíficos por grande número de médicos renomados.10. Ainda em relação à ênfase dada pelo liberalismo à imanência de Deus em tudo, háuma implicação séria, quando se trata do problema do pecado. Despersonalizando adivindade, é o homem colocado no centro de tudo, como a medida de tudo. Issosignifica que o fim do homem é estar satisfeito consigo mesmo, com seus horizontesetc. O Dr. John A. Mackay afirma que o pecado, como fator na existência humana, éterrivelmente real, e é coisa que os filósofos balconizados sempre trataram de fazerdesaparecer por meio de argumentos arrazoados. Com a expressão balconizados faziaele referência a Aristóteles e Renan, como símbolos daqueles para quem "a vida e ouniverso são objetos permanentes de estudo e contemplação". ()B. Outras Doutrinas Liberais1. Os credos primitivos são arcaicos e sem realidade para o mundo moderno.2. A mente do homem é capaz de raciocinar segundo os pensamentos de Deus.3. A mente deve estar aberta à verdade independentemente da fonte.
  • 14. Pag. 14 Curso de Teologia Contemporânea4. As doutrinas cristãs são símbolos de verdades racionais conhecidas pela razãohumana.5. A divindade de Jesus era uma declaração simbólica do fato de que todos os homenspossuem um aspecto divino.6. 0 conceito bíblico da revelação de Deus na história era ingênuo e pré-filosófico.7. Os itens "4, "5" e "6" do parágrafo anterior sofreram influência do idealismoabsoluto de Hegel e Letze. Os demais itens justificam plenamente alguns dos títulos doliberalismo: modernismo e racionalismo.8. Como vimos, para o liberalismo Deus está presente em todas as fases da vida e nãoapenas em alguns eventos espetaculares. Assim, o método de Deus é o caminho damudança progressiva e da lei natural, e o nascimento virginal de Cristo não condiz coma realidade, pois Deus está presente em todos os nascimentos.9. Defendendo assim a imanência de Deus, o liberalismo podia aceitar a teoria daevolução, não negando a Deus, todavia, um ato criador, ou seja: Ele teria criado aprimeira célula viva, da qual vieram todos os seres viventes, inclusive o homem.10. O liberalismo reage contra um evangelho individualista, capaz de salvar o homemdo inferno e não da sociedade corrompida, e insiste em que o reino de Deus não éalém-túmulo e nem milênio, mas sim a sociedade ideal edificada pelo homem com oauxílio de Deus.11. Na busca duma "sociedade ideal" muitos teólogos se têm inclinado para umaespécie de socialismo cristão, envolvendo-se em movimentos subversivos poracreditarem que as doutrinas de Marx e Engels, se destituídas de seu ateísmo,estariam em melhores condições de atender aos reclamos dos povos pela justiça socialde que a própria mensagem evangélica.C. Sua atuação no Brasil1. A entrada do liberalismo no Brasil remonta ao segundo decênio deste século,quando a Imprensa Metodista editou Pontos Principais da Fé Cristã, livro que nega adoutrina da expiação. Depois surgiram inúmeras obras modernistas, inclusive ReligiãoCristã, traduzida do italiano pelos reverendos, Dr. Alexandre Orechia e MatatiasGomes dos Santos.2. As primeiras vítimas da teologia liberal em nossa pátria, segundo o falecidoreverendo Raphael Camacho, apareceram por volta de 1930, na Faculdade Evangélicade Teologia, no Rio de Janeiro. Muitos livros adotados nesse estabelecimento deensino religioso eram modernistas, como também o eram quase todos os seusprofessores.
  • 15. Pag. 15 Curso de Teologia Contemporânea3. Segundo Raphael Camacho, o rev. Othoniel Motta, professor de Geografia Bíblica,costumava dizer em classe: "Eu sou o pai dos hereges... Eu oro pelos mortos." O rev.Epaminondas do Amaral, professor de exegese do Velho Testa mento, negava tudo oque há de sobrenatural na Bíblia. O rev. Bertolaze Stela escreveu no "Estandarte", em11/9/41, que todos os manuscritos da Bíblia foram contaminados por grandes modificações, e que não há esperança de se encontrar entre eles um texto que estejapróximo dos originais. Em "O Estandarte" de 15/9/53, este mesmo ministro escreveu:"Somente as palavras de Jesus constituem os ensinos e a religião de Cristo... a Bíbliacontém a palavra de Deus." e fez suas as palavras do rev. Miguel Rizzo Jr., em A NossaMística: "Para uns a suprema autoridade está na Igreja (Católica Romana); para outros,nos espíritos do além (espíritas); para outros nas Escrituras (evangélicos), mas para nósestá em Cristo." Eis aqui a heresia chamada cristicismo, que desassocia Cristo da Bíbliae afirma que somente as palavras ditas por Cristo é que são inspiradas.4. Em 1938 os modernistas se manifestaram mais publicamente, de modo especial noseio da Igreja Presbiteriana Independente, sendo então resistidos pelosfundamentalistas, liderados pelo rev. Camacho. Travou-se acirrada luta doutrinária,luta que levou o rev. Camacho a desligar-se dessa Igreja e a organizar, em 11 defevereiro de 1940, a Igreja Presbiteriana Conservadora.5. Também o ex-padre Humberto Rohden, escritor, conferencista e autor de umatradução do Novo Testamento em português, no seu livro Pelo Prestígio da Bíblia naEra Atômica, faz uma dura arremetida contra o evangelismo bíblico do Brasil e umaexposição das teorias modernistas do pastor batista norte-americano, Harry E. Fosdick.
  • 16. Pag. 16 Curso de Teologia Contemporânea Parte 03: NOVO MODERNISMO9. Karl Barth - UM NOVO ORTODOXISMO?Esta teologia é comumente conhecida por barthianismo, por ter como seu principalautor Karl Barth (1886-1968), considerado o maior teólogo do século XX.Este sistema possui ainda vários outros nomes: teologia dogmática, teologia da crise,neo-ortodoxia, teologia transcendental, modernismo-negativista e teologia de Lund.Alguns dados sobre Karl BarthKarl Barth nasceu na Suíça, lecionou teologia nas universidades de Gottingen, Muniquee Bonn, mas foi demitido deste último posto pelo governo hitlerista, em 1935. E, porresistir às tentativas do ditador de nazificar a Igreja Reformada da Alemanha, teve seusdiplomas de teologia anulados.Com a derrota do nazi-fascismo, recupera sua cátedra em Bonn, de onde mais tarde setransfere para Basiléia. Aposentou-se em 1961 e iniciou a elaboração da sua teologia.O pragmatismo e a teologia dialética de Karl BarthBarth abandonou o terreno firme da lógica e ingressou no mundo fabuloso dopragmatismo, doutrina que considera a ação superior ao pensamento e aceita o valorprático como critério da verdade.Hegel passou a aceitar que a presença da verdade está na verdade na síntese, quecorresponde ao grau intermediário entre a tese e a antítese.Barth, ao aplicar esta fórmula ao cristianismo histórico, considerou-o como a tese, omodernismo como a antítese e o novo modernismo como a síntese.Dentro de um esquema teológico dialético coexistem pacificamente doutrinasantagônicas: o certo e o errado, a verdade e a mentira.Daí a teologia de Barth ser também denominada de teologia dialética ou da crise.Violando dessa maneira as regras pelas quais se estabelece se uma tese é verdadeiraou não, o barthianismo acabou negando o caráter absoluto da verdade.A teologia de Karl Barth manteve alguns pontos de vista ortodoxosNão se pode deixar de reconhecer que, sob vários aspectos, a teologia de Barth foi umretorno, embora aparentemente, às várias doutrinas bíblicas desprezadas peloliberalismo, como a Trindade, o nascimento virginal de Cristo, as duas naturezas de
  • 17. Pag. 17 Curso de Teologia ContemporâneaCristo unidas numa só pessoa, conforme aceita pelo Concilio de Calcedônia (ano 451) epela Reforma Protestante, a salvação somente pela graça e a justificação unicamentepela fé.Em virtude destes pontos de vista, foi o barthianismo chamado também deneomodernismo e neo-ortodoxia.A respeito da pessoa de Jesus, é interessante ler o que Barth escreveu em1960, em um tempo de revisão da sua própria teologia: “Nesses anos tive que aprender que a doutrina cristã precisa ser exclusivamente e de forma conseqüente, em todos os seus enunciados, direta ou indiretamente, doutrina de Jesus Cristo como da palavra viva de Deus dita a nós, se é que ela deve fazer jus ao nome que tem bem como edificar a igreja cristã no mundo tal qual ela pretende ser edificada como igreja cristã. Olhando em retrospecto para os meus estágios anteriores, fico me perguntando como foi possível que não aprendi nem disse isso já muito antes. Quão lenta é a pessoa humana, justamente quando se trata das coisas mais importantes!” Portanto, observamos que na teologia de Karl Barth, procurou-se preservar a cristologia.ALGUMAS FALHAS DA TEOLOGIA DE BARTH  Mas a teologia de Barth possui falhas seríssimas: a Bíblia não é a Palavra de Deus, apenas a contém. Por isso pode ela ser criticada à vontade.  Estabelece um falso contraste entre a autoridade espiritual da Igreja, por ele aceita, e a sua autoridade legal, que rejeita. Assim, deixou a porta aberta à discussão acerca de doutrinas.  Segundo esta teologia transcendental, o mundo está cheio de contradições, inclusive na religião. Por isso os seguidores desta escola admitem sistemas que se excluem mutuamente.  Um dos seus líderes declarou: Em face do modernismo e da fé histórica, não se deve dizer um ou outro, mas um e outro. Isto eqüivale a aceitar a doutrina de que Jesus é o único mediador entre Deus e o homem e ao mesmo tempo admitir a mediação de Maria. Um transcendentalista, portanto, assemelha-se a um balconista que vende exatamente o produto que o freguês deseja, seja este freguês cristão histórico ou liberal.
  • 18. Pag. 18 Curso de Teologia ContemporâneaO desabafo de Francis A. SchaefferFrancis A. Schaeffer narra o desabafo de um ateu sueco, Dr. Hedeinus, professor deFilosofia da Universidade de Uppsala, que chamou os teólogos transcendentalistas de"ateus, disfarçados em bispos e pastores: “Se tal é o cristianismo, não o quero; os seus conceitos não são nem claramente definidos, nem mesmo definíveis; a posição dos seus defensores é mais vacilante do que a minha."10. Emil Brunner - Cristo Absoluto ou relativo?Emil Brunner (1889-1966). Teólogo suíço; exerceu grande influência no protestantismodos Estados Unidos, país onde proferiu diversas preleções. Suas obras foramtraduzidas para o inglês antes mesmo que as de Barth.Sintese do pensamento teológico de Brunner  A teologia de Brunner, também conhecida por "dialética" e "da crise", descreve a busca da verdade por meio de debates entre as posições contrárias.  Brunner acha que há alguma revelação fora da Bíblia, embora não acredite que a teologia natural inclua a teologia revelada, discordando nesse ponto do liberalismo de Barth.  Entende que a Bíblia é o único critério pelo qual podemos julgar a verdade e a suficiência do conhecimento acerca de Deus, que se encontra em outros lugares.  Diferentemente de Barth, Brunner admite que se pode achar verdade no filósofo, no ateu ou no adepto de seitas não cristãs, assim estabelecendo diálogo com eles, mas reconhecendo que eles não podem possuir suficiente e completo conhecimento verdadeiro de Deus.A teologia Brunniana e Jesus  Na teologia brunniana, o dogma de Jesus sem pecado é ato de fé e não base de fé. "Cremos que ele é sem pecado por crermos nele. Não é que cremos nele por causa de Ele ser sem pecado."  Brunner nega, além de outros, o nascimento virginal de Cristo, os 40 dias pós- ressurreição, e a ascensão física do Senhor.  As questões acima apresentam implicações seríssimas: ao admitir que Jesus Cristo pode ser conhecido historicamente, Brunner faz perder tudo.  Na teologia de Brunner, A relação do homem com Deus não pode ser expressa em termos racionais e lógicos, mas apenas em termos de mitos;  Qualquer tentativa para provar a revelação está errada;
  • 19. Pag. 19 Curso de Teologia Contemporânea  Acerca do pecado, nega a herança de culpa de Adão, aceitando apenas a queda individual;  O cristão deve ser um eterno revolucionário, não se conformando com as reformas sociais, sempre imperfeitas;  O amor de Cristo revela o amor humano, que é possibilidade impossível;  A queda não modificou a natureza e estrutura essenciais do homem, assim como a cegueira não retira o olho do corpo;  No momento em que a pessoa se transcende, surge a memória da perfeição original. Parte 04:NOVAS CORRENTES TEOLÓGICAS11. A TEOLOGIA DO MITOA teologia do mito tem como um de seus principais criadores o teólogo alemão RudolfBultmann (1884-1976), que em 1941, numa conferência intitulada "O NovoTestamento e a Mitologia", disse que esta parte das Escrituras está cheia de mitos àluz dos quais se deveriam examinar a pessoa de Cristo e o comportamento da igrejaapostólica.A visão do Buultimann dos escritores do NTPara Bultmann, todos os escritores do Novo Testamento pensavam e escreviam tendoem vista uma visão global do mundo antigo, no qual havia três divisões: a superior ouinvisível, habitada pelos anjos, o mundo sobrenatural de Deus; o mundo inferior,escuro, habitado pelos demônios; e o nosso mundo, que fica entre os outros dois.Segue-se, portanto, que a revelação vem em símbolos que devem ser decodificados.Para usar o termo de Bultmann, devem ser desmitologizados.Numa de suas conferências, afirmou Bultmann que hoje "não se pode utilizar a luzelétrica e os aparelhos de rádio, apelar para medicamentos e clínicas modernasquando se está enfermo, e ao mesmo tempo crer nos milagres do Novo Testamento.“De acordo com essa visão, pode-se crer em Jesus Cristo e aceitá-lo como Deus eSalvador sem a necessidade de acreditar no nascimento virginal, na encarnação, notúmulo vazio, na ressurreição e na segunda vinda. Todos estes elementos seriamderivados da mitologia judaica e do gnosticismo helenístico.Segundo Bultmann, a desmitificação dos evangelhos não significa a eliminação domito, como procurou fazer a teologia liberal, mas a sua interpretação através de uma
  • 20. Pag. 20 Curso de Teologia Contemporâneahermenêutica particular, sendo eles necessários por oferecerem ao homem condiçõesde perceber o enigmatismo do mundo.Assim, através da sua reinterpretação, o mito seria utilizado como instrumento auxiliarna compreensão da existência humana.O que é a desmitologização que Bultman propõe?Em seu questionamento sobre as escrituras, há a necessidade de extrair todo oelemento mitológico, que segundo ele, encobre o entendimento das sagradasescrituras para o homem moderno.Vê na demitologização, um instrumental importante para a atualização damensagem bíblica tornado-a compatível com o mundo tecnológico e cientificoque vivemos hoje.O homem/mulher moderno, embora seja um ser que viva em uma sociedade demuitos símbolos e sinais, precisa decodificar o significado desta vasta simbologia.Carece de um tradutor ,ou seja, necessita de uma ferramenta que atualize alinguagem mitológica das Sagradas Escrituras, vigentes à época, para o código delinguagem e a cultura dos nossos dias.Segundo Bultiman, o uso do processo da demitologização das Escrituras elucida,esclarece e traz nitidez ao leitor, acerca do que realmente a mensagem bíblica quernos dizer hoje em dia.Pois para o homem/mulher secularizado os elementos mitológicos das escrituras,fruto de uma cultura passada há quase dois mil e quinhentos anos não fazemnenhum sentido. Devem ser extraídos, sem a perda do conteúdo original, poissem uma decodificação e uma atualização do sentido, a mensagem não nos diz oporquê, ou pior ainda, pode levar a uma interpretação dúbia e incompreensível.A Escritura não explica a si mesma, conforme ensina a hermenêutica da ReformaProtestante, mas está sujeita aos métodos modernos da ciência autônoma e àspressuposições filosóficas;EXAME CRÍTICO DA TEOLOGIA DE BULTIMAN Bultmann rejeita, por considerá-los mitológicos: 1)Os conceitos neotestamentários de que o reino escatológico está prestes a irromper na história; 2)de que o mundo atual está governado por elementos demoníacos
  • 21. Pag. 21 Curso de Teologia Contemporânea 3) e de que o sobrenatural intervém no mundo, manifestando-se através de milagres. Na sua reinterpretação do evangelho, elimina o sentido original dos termos encontrados no NT e os recria adotando uma nova significação. Ex. Segundo a visão tradicional, o problema do homem é o seu pecado, segundo o Evangelho, e a solução é o sacrifício de Cristo. Para Bultmann, tal problema é a sua finitude. O uso da filosofia contemporânea para formular a fé cristã pode distorcer o ensino cristão, introduzindo idéias estranhas ao Cristianismo através da reinterpretação da terminologia tradicional, e acomodar a fé cristã à filosofia tradicional; Ao ensinar que a teologia existencialista é antropocêntrica, concorda com Fenerbach de que a teologia tornou-se antropologia; Depois do programa de desmificação dos evangelhos, o Jesus que sobra é tão débil que jamais chamaria a atenção de alguém, e muito menos motivaria a sua lealdade. Um Jesus assim insignificante tem sido o tema de peças teatrais profanas e irreverentes, como a "Jesus Cristo Superstar", na qual Judas Iscariotes é o verdadeiro herói e Cristo não passa de uma figura covarde, que duvida a todo momento da sua missão; Bultmann ignora por completo o papel do Antigo Testamento na formação do Novo, ao considerar este eivado de mitos e influenciado pelo gnosticismo ou helenismo; A "Sola fide" de Bultmann nada tem de semelhante à de Lutero, que se baseava no testemunho bíblico.12. A teologia da esperançaEnquanto o Barthianismo era antiescatológico, a teologia da esperança procura levar asério a história e o futuro, reagindo assim ao existencialismo de Barth e Bultmann, queenfatiza o aqui e o agora.Principais representantes desta teologiaTrês líderes destacados do novo movimento são os teólogos alemães JürgenMoltmann (Reformado), Wolfhart Pannenberg (Luterano), e Johannes Metz (CatólicoRomano).A teologia da esperança tem sido articulada nos Estados Unidos por dois teólogosluteranos, Carl Braaten e Robert Jenson, cujas obras muita coisa têm feito parapopularizar o novo movimento.
  • 22. Pag. 22 Curso de Teologia ContemporâneaNo Brasil, Rubem A. Alves, com umas poucas revisões dele mesmo, muita coisa fezpara converter a teologia da esperança em programa de ação.Às vezes essa teologia era chamada de futurologia...Porque? Por ser um modo de encarar a teologia e as preocupações teológicas daperspectiva do futuro e não do passado ou do presente.O passado e o presente somente têm valor com referência ao futuro. A realidadeainda não é; está orientada para o futuro.A questão da existência de Deus pode ser respondida somente no futuro, pois Deusestá sujeito ao tempo enquanto este se esforça em direção ao futuro.A teologia da esperança é caracterizada...  Como uma reação ao desespero existencialista,  Pela fé no futuro e pelo otimismo,  A esperança baseia-se na promessa divina e o cristão suporta as contradições do presente porque vive na expectativa do futuro.  Não enxergar uma solução para seus dilemas presentes. Assim, a teologia da esperança acha que não podemos encontrar respostas para as nossas questões atuais na sociedade de hoje.  Abrange mais do que geralmente se reconhece tradicionalmente como sendo teologia, falando a rigor. Sua orientação secular permite que seja combinada com qualquer número de matérias, inclusive a política e a biologia.  A teologia da esperança vê um esboço para sua exposição nas temáticas escatológicas. Ela entende a realidade a partir de uma perspectiva escatológica. O movimento também é chamado de teologia futurista.  A teologia da esperança reage contra o subjetismo da neo-ordoxia, visto que sua abrangência vai além do universo pessoal e interior de individuo. Esta teologia se dirige ao mundo como mundo.  A teologia da esperança foi a resposta do público a teorias como a que Deus está morto, idéia que foi criada na década de 60. Os teólogos futuristas deixaram para trás o sepulcro criado para Deus. O humanismo dos teólogos de Deus-está-morto veio a ser a sementeira em que a teologia da esperança deitaria raízes.
  • 23. Pag. 23 Curso de Teologia Contemporânea13. JÜRGEN MOLTMANN – O FUNDADOR DA TEOLOGIA DA ESPERANÇA Jürgen Moltmann nasceu em 18 de abril de 1926 em Hamburgo. Iniciou seus estudos de teologia numa situação inusitada. Com dezesseis (1943) foi convocado pelo exército alemão onde teve, segundo ele mesmo, “uma carreira breve e sem glória”. Após seis meses na guerra, foi feito prisioneiro no campo de concentração de Northon-Camp, na Inglaterra. Ali se encontravam também alguns professores de teologia que ministravam lições aos seus companheiros; dentre eles, Jürgen Moltmann. Em 1948 retornou para Alemanha onde deu continuidade nos seus estudos na Universidade de Göttingen até 1952. De 1953 a 1958 exerceu atividades pastorais em Bremen. Suas especialidades foram: História dos Dogmas e Teologia Sistemática, iniciou sua docência em 1958 passando pela Escola Kirchliche Hochschule de Wuppertal, pela Universidade de Bonn, Universidade de Tübingen, Due University - EUA (no caráter de professor visitante). “Depois de Karl Barth, Jürgen Moltmann é considerado o mais conhecido e influente teólogo reformado do século XX” (LEITH, 1997, p.234).
  • 24. Pag. 24 Curso de Teologia Contemporânea Parte 05: AS TEOLOGIAS SOCIAIS1. Na teologia social é ressaltado o conteúdo ético e social da Igreja.Portanto, nas teologias sociais, analisamos as seguintes questões: Qual é a realidade social na qual está inserida a igreja? Qual o papel da igreja junto aos problemas encontrados na sociedade? Como a Igreja pode ser um instrumento de transformação social?2. É boa a aproximação entre teologia e ciências sociais? Alguns teólogos, de perfil, fundamentalista, rejeitam por completo tal aproximação, Na prática, ocorre o contrário, pois qualquer teologia é feita num ambiente cultural e que a influência. Ao estabelecer um diálogo com as Ciências Sociais, o teólogo cristão terá, por sua vez, de renunciar sua posição cômoda de considerar sua religião um santuário protegido de críticas. Assim, “...as Ciências Sociais poderiam desempenhar um papel importante de autocompreensão crítica dentro da Teologia”, desde que tenhamos a consciência de que nem tudo pode ser explicado sociologicamente.3. Grandes nomes do evangelho social O evangelho social teve como o seu maior intérprete o pastor Batista Walter Rauschembusch (1861-1918), professor no seminário batista de Rochester, de 1897 até o seu falecimento. Um outro grande nome a lembrar é o do Pastor Martin Luther King, que lutou nos Estados contra o preconceito racial e a injustiça social contra os negros. Ele foi o responsável por disseminar a prática do protesto não violento, semelhantemente a Gandi. o Há uma frase de Martin Luter King: “Eu não me preocupo tanto com as palavras dos desonestos e as atitudes dos corruptos. Eu me preocupo muito mais, quando os bons fazem silêncio.”
  • 25. Pag. 25 Curso de Teologia Contemporânea4. O evangelho social na América do sul Na América do Sul, esse movimento pode também ser identificado como a "teologia da libertação", com o propósito comum de estabelecer-se a "justiça social", até mesmo por meio de uma revolução. O sucesso da teologia da libertação na América do sul deve-se aos seguintes fatores: o Grandes índices de desemprego. o Diferenças sociais alarmantes. o Pobreza. o Diferenças Extremas entre classes sociais. o A ausência de uma teologia relevante ao contexto da América latina, que nascesse no berço dos países subdesenvolvidos.5. Em que momento o evangelho social ganha destaque A teologia do evangelho social alcançou maior sucesso nos anos seguintes à Primeira Guerra Mundial, pelo fato de se atribuir às injustiças sociais as causas da grande conflagração internacional que ceifou milhões de vidas. Precisamos entender que no evangelho social, a Igreja é o instrumento de libertação para uma sociedade que está inserida numa estrutura social injusta e corrupta.6. Os três passos básicos da teologia da libertação de Leonardo Boff No Brasil, Leonardo Boff, que é um dos principais defensores da TDL, estabelece três passos básicos para a sua TDL: o Ver: Aqui observamos os problemas sociais existentes e nos tornamos conscientes de sua existência. o Pensar: Neste passo, teorizamos teologicamente as questões sociais que serão abordadas pela Igreja na sociedade. o Agir: este é o passo da práxis, da ação, onde os fiéis são convocados para promover mudanças e transformações nas estruturas sociais.7. O movimento do evangelho social teve o seu lado positivo: Procurou levar a Igreja a empenhar-se em atividades mais amplas em favor dos menos favorecidos da sorte, Criticou os governos corruptos e os sistemas ideológicos injustos.
  • 26. Pag. 26 Curso de Teologia Contemporânea Foi uma resposta nova da ética cristã em uma nova situação histórica, pois, particularmente nos Estados Unidos, era grande o número de problemas decorrentes do rápido crescimento industrial. A consciência cristã, assim desafiada, converteu-se numa "consciência social".8. Nascimento da TDL no Brasil A Teologia da Libertação nasceu da influência de três frentes de pensamento: o O Evangelho Social das igrejas norte-americanas, trazido ao Brasil pelo missionário e teólogo presbiteriano Richard Shaull; o A Teologia da Esperança, do teólogo reformado Jürgen Moltmann; o A teologia política que tinha como seus grandes expoentes o teólogo católico Johann Baptist Metz, na Europa, e o teólogo batista Harvey Cox, nos EUA.9. Eventos que precederam o nascimento da TDL no Brasil Há uma série de eventos que precederam o nascimento da Teologia da Libertação: o 1952: O missionário presbiteriano Richard Shaull chega ao Brasil trazendo o Evangelho Social e cria uma estreita relação com os pastores presbiterianos Rubem Alves e Jaime Wright; o 1964: O teólogo reformado Jürgen Moltmann publica sua obra Teologia da Esperança; o 1965: O teólogo batista Harvey Cox publica A Cidade Secular; o 1967: O teólogo católico Johann Baptist Metz pronuncia a conferência Sobre a Teologia do Mundo; o O marco do nascedouro da Teologia da Libertação no Brasil, está na publicação de uma obra de Rubem Alves, criticando a teologia metafísica de uma forma geral e propondo o nascimento de novas comunidades de cristãos animados por uma visão e por uma paixão pela libertação humana e cuja linguagem teológica se tornava histórica. o A primeira participação católica no lançamento da Teologia da Libertação foi a publicação da Teologia da Revolução, em 1970, pelo teólogo belga radicado no Brasil José Comblin. o Em 1971, Gustavo Gutiérrez publicou Teologia da Libertação. Somente em 1972, Leonardo Boff surge no cenário teológico com a publicação de Jesus Cristo Libertador. Como Rubem Alves estava asilado nos EUA neste período, Boff passou a ser o mais conhecido representante desta corrente teológica que vivia no Brasil, devido à proteção recebida pela ordem dos franciscanos, à qual ele pertencia.
  • 27. Pag. 27 Curso de Teologia Contemporânea10. Características da TDL O quadro de degradação apresentado na América Latina é o fundamento gerador do conceito de libertação. A libertação, então, é toda “ação que visa criar espaço para a liberdade” (BOFF, 1980, p. 87). o Ser livre, neste sentido, é não estar sob o jugo da lei alheia; é poder construir-se autonomamente. o O processo histórico da América Latina foi e é dominado por diversas leis e conceitos teológicos estranhas a ela. o A América do Norte, em especial os EUA, e os países europeus, sempre impuseram aos latino–americanos seus valores, suas políticas, sua cultura, etc. o Neste sentido, a libertação no seio da América Latina, é a luta pela liberdade da cultura, dos valores, da economia, da política latino- americanos, frente às diversas opressões advindas de um modelo imperialista que rege a práxis do hemisfério norte em suas relações com o hemisfério sul, especialmente como o povo latino–americano. Devido à pobreza e à nefasta degradação do povo latino-americano, a libertação deve ser entendida como superação de um processo de exclusão; já que esta é a conseqüência direta da relação norte–sul, onde milhões de homens e mulheres empobrecem e se deterioram porque ficam à margem (excluídos) do processo econômico e político norteado pelo capitalismo imposto pelos EUA e Europa. Compete à teologia da libertação a tarefa de discursar sobre Deus a partir da ótica de um processo excludente e a partir da realidade concreta dos excluídos. O teólogo da libertação, portanto, deve ter este duplo olhar: olhar para Deus e olhar para o excluído. Olhar para Deus é a fonte de toda libertação possível e o olhar para o excluído identifica onde há necessidade de libertação. A teologia da libertação deve começar por se debruçar sobre as condições reais em que se encontra o oprimido de qualquer ordem que ele seja.” (BOFF, 1996, p. 40). Após a leitura sócio–analítica, o teólogo da libertação deve-se deparar com a Bíblia Sagrada. o A Bíblia deve fornecer subsídios para que se possa identificar a face de Deus e sua ação libertadora, nos diversos momentos históricos, sob as quais vive o teólogo e seu povo. o Há, então, no processo de elaboração da teologia da libertação, uma imbricação necessária entre a análise sócio–analítica da realidade e a Bíblia Sagrada. Esta última fornece o sentido teológico da práxis libertadora proposta pela teologia da libertação. A teologia da libertação pretende mostrar que Deus não está em uma esfera trans–histórica; mas, ela quer mostrar que Deus encarna-se na história, gera
  • 28. Pag. 28 Curso de Teologia Contemporânea libertação de um povo humilhado, gera vida e esperança a um povo crucificado e sem sonhos. o Podemos dizer, metaforicamente, que a teologia da libertação anuncia a ‘’descida’’ de Deus de sua esfera transcendente e “celeste” e mostra-o como agente dignificador dos humilhados da terra. o Deus não é mais um conjunto de doutrinas e especulações, mas é a fonte de toda a luta pela justiça e igualdade. Por isso, Deus se manifesta nas lutas históricas pela justiça, pela inclusão e pela superação de toda opressão vigente na humanidade. “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.”(Ex 20,2). Eis a face de Deus anunciada pela teologia da libertação: Deus que tira o povo da opressão, da servidão. A teologia da libertação surge para mostrar que Deus é “Pai – Nosso”; portanto os homens e as mulheres devem se relacionar como irmãos e irmãs, sem haver exclusão, sem haver opressão ou sem qualquer tipo de violação da dignidade humana. Lutar pela libertação é valorizar a paternidade universal de Deus, que se manifesta nas relações justas e fraternas entre todos os seres humanos.11. Porque a teologia da libertação não produziu resultados tão positivos na américa latina? A grande discussão com os teólogos sociais gira em torno do que o homem mais precisa: Alimento para o corpo ou para a alma? Eles acham há uma falta mais da alimentação do corpo do que da alma, ou acha que as pessoas só estão sendo alimentadas bem espiritualmente. o Os teólogos sociais ensinaram que não adianta a Igreja alimentar espiritualmente sem dar o pão. O problema é que muitos preocuparam-se mais com o pão. As teologias sociais deram muita ênfase aos aspectos materialistas da existência humana. Sabemos que o materialismo sempre teve a tendência de favorecer as bases do ateísmo filosófico, e por isso foi rejeitado por muitas pessoas.
  • 29. Pag. 29 Curso de Teologia ContemporâneaParte 06: Texto para debate: A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO - O CRISTIANISMO A FAVOR DOS EXCLUÍDOS(SUGESTÃO DE LEITURA: Leia este texto de forma crítica, detectando quais são ascompatibilidades e incompatibilidades entre as idéias expostas pelo autor e a nossavisão evangélica). Texto de Alexandre Marques CabralNão poucas vezes a teologia cristã se configurou de forma totalmente antiquada emseus discursos e, conseqüentemente, em seus conceitos. A teologia cristã duranteséculos, preocupou-se com o hyperurânio de Platão, com o motor imóvel deAristóteles, com a cidade de Deus de Agostinho, menos com as problemáticashistóricas que fatalmente orientavam a vida social do homem.É comum nos depararmos com textos clássicos da teologia e sermos levados àsnuvens, aos céus, como, por exemplo, num texto de Irineu ou de S. Agostinho deHipona. Mas, qual a razão disto? Isto ocorreu por mera vontade dos teólogos?Certamente, não.O instrumental filosófico utilizado pela teologia cristãA teologia cristã configurou-se de forma retrógrada por muito tempo, devido aoinstrumental filosófico que ela utilizou para discursar acerca de Deus. Talinstrumental derivava-se da metafísica clássica que tem como característica formularconceitos anacrônicos, desconsiderando o caráter histórico do homem – ou seja,desconsiderando o homem enquanto ser histórico, que se faz (constrói) no tempo.Conseqüências do uso deste instrumental filosófico na teologiaA conseqüência disto, é que os dados da revelação cristã – Bíblia – foram entendidoscomo realidades atemporais e ahistóricas. Por isso, por muito tempo – certamente,também ainda hoje – entendeu-se Deus, Reino dos Céus, inferno, etc., comorealidades totalmente transcendentais, totalmente destacadas dos processos e faseshistóricas da humanidade.A reação da modernidade ao método tradicional adotado pela teologia cristã.Esta forma de discurso acerca de Deus foi submetida à crítica com o advento damodernidade e do pensamento contemporâneo. A metafísica, que foi a “pedraangular” da teologia clássica, foi fortemente criticada a partir da modernidade.Descobriu-se, após séculos de especulação, a história como característica essencialdo homem e a cultura como âmbito de toda construção histórica. Com isso, o
  • 30. Pag. 30 Curso de Teologia Contemporâneapensamento ocidental, largou aquele transcendentalismo metafísico, tornando-se porisso mais imanentista. Isto influenciou fortemente a teologia.O encontro do homem com Deus – chamado pela teologia da GRAÇA – passou a serpensado como realidade histórica: Deus se manifesta ao homem situando-se históricae culturalmente, ou seja, o encontro de Deus com o homem difere-se na história emsuas diversas épocas, e difere-se na pluralidade cultural que se dá no seio dahumanidade.Obviamente, isto gerou uma certa relativização no discurso sobre Deus; porém,valorizou a historicidade como característica essencial do ser humano, além devalorizar a multiplicidade de formas de Deus se apresentar ao homem, superando,assim, o anacronismo clássico metafísico que norteava o pensamento teológico noentendimento da relação homem – DEUS.O nascimento da teologia da libertação e seu contexto histórico.A chamada Teologia da Libertação está inserida nesta última fase do pensamentoocidental que destacamos acima: a fase da valorização da história, da cultura e dadiversidade de formas de manifestação do encontro do homem com Deus. Ela é umateologia propriamente cristã; por isso, utiliza a Bíblia como pressuposto necessário deseus discursos.A expressão “teologia da libertação”, já mostra o sentido norteador deste discursoteológico. O genitivo que aparece na expressão citada – DA LIBERTAÇÃO -, mostra-nos que a libertação é o horizonte regulador do discurso acerca de Deus, e, aomesmo tempo, mostra-nos que o Deus do discurso é fonte de libertação. Esta semanifesta concretamente nos diversos momentos do processo histórico de um povo.Conseqüentemente, a teologia da libertação torna-se força geradora de ações queviabilizam uma práxis libertadora, segundo as necessidades advindas das diversascircunstâncias sob as quais um povo está submetido.“A teologia da libertação é um movimento teológico que quer mostrar aos cristãosque a fé deve ser vivida numa práxis libertadora e que ela pode contribuir paratornar esta práxis mais autenticamente libertadora” (MONDIN, 1980, p. 25). Nestesentido, o cristão é impelido a viver a práxis libertadora nas diversas épocas dahistória.Como surgiu o termo libertaçãoO termo libertação foi cunhado a partir da realidade cultural, social, econômica epolítica sob a qual se encontrava a América Latina, a partir das décadas de 60/70 doúltimo século. Os teólogos deste período, católicos e protestantes, assumiram alibertação como paradigma de todo fazer teológico.
  • 31. Pag. 31 Curso de Teologia ContemporâneaVejamos o quadro social da América Latina no período originário da teologia dalibertação: “O ambiente político é geralmente caracterizado pela presença de governos que administram o poder arbitrariamente em vantagem dos ricos e dos poderosos, fazendo amplo uso da força e da violência. (...) O ambiente econômico e social está marcado pela miséria e pela marginalização da maior parte da população. Os recursos econômicos são controlados por um pequeno grupo de privilegiados. (...) No ambiente cultural se verifica ainda uma notável dependência da Europa e dos Estados Unidos. Na ciência como na filosofia, na arte como na literatura, quase nada é concedido à originalidade das populações latino-americanas” (Ibidem, p. 25- 26).O quadro de degradação apresentado na América Latina é o fundamento gerador doconceito de libertação. A libertação, então, é toda “ação que visa criar espaço para aliberdade” (BOFF, 1980, p. 87).Ser livre, neste sentido, é não estar sob o jugo da lei alheia; é poder construir-seautonomamente.A America Latina sempre foi influenciada por ideologias externasO processo histórico da América Latina foi e é dominado por diversas leis estranhas aela. A América do Norte, em especial os EUA, e os países europeus, sempre impuseramaos latino–americanos seus valores, suas políticas, sua cultura, etc.Neste sentido, a libertação no seio da América Latina, é a luta pela liberdade dacultura, dos valores, da economia, da política latino-americanos, frente às diversasopressões advindas de um modelo imperialista que rege a práxis do hemisfério norteem suas relações com o hemisfério sul, especialmente como o povo latino–americano. Tal relação impõe ao hemisfério sul a cultura do hemisfério norte.Devido à pobreza e à nefasta degradação do povo latino-americano, a libertação deveser entendida como superação de um processo de exclusão; já que esta é aconseqüência direta da relação norte–sul, onde milhões de homens e mulheresempobrecem e se deterioram porque ficam à margem (excluídos) do processoeconômico e político norteado pelo capitalismo imposto pelos EUA e Europa.
  • 32. Pag. 32 Curso de Teologia ContemporâneaA teologia da libertação discursa sobre Deus a partir da ótica da realidade dosexcluídos.Desta forma compete à teologia da libertação a tarefa de discursar sobre Deus a partirda ótica de um processo excludente e a partir da realidade concreta dos excluídos.O teólogo da libertação, portanto, deve ter este duplo olhar: olhar para Deus e olharpara o excluído.Olhar para Deus é a fonte de toda libertação possível e o olhar para o excluídoidentifica onde há necessidade de libertação.Olhando para Deus – ou Cristo -, a teologia da libertação diferencia-se de todomovimento libertador laico, já que a libertação apresentada pela teologia enxerga nosprocessos históricos a possibilidade de presentificação da nova ordem escatológicaanunciada por Cristo, ou seja, o Reino de Deus – ordem de justiça e da superação detoda opressão possível, na sociedade e no cosmos.Ao pretender olhar para o excluído e para o sistema gerador de opressão, comopressuposto de todo fazer teológico, a teologia da libertação difere-se radicalmentedas teologias clássicas, pois supera o anacronismo destas, circunscrevendo aexperiência de Deus no âmbito do engajamento do fiel na luta contra todo osofrimento humano historicamente situado.Compreendendo o fenômeno da opressão e da exclusãoPara que haja elaboração da teologia da libertação é mister que se compreenda osfenômenos da opressão e da exclusão. Estes devem ser compreendidos através deuma mediação sócio – analítica, “Libertação é libertação do oprimido.Por isso, a teologia da libertação deve começar por se debruçar sobre as condiçõesreais em que se encontra o oprimido de qualquer ordem que ele seja.” (BOFF, 1996,p. 40).O método utilizado para elucidar sócio–analiticamente o fenômeno da opressão e daexclusão pela teologia da libertação, é o método histórico- dialético.A influência do marxismo na teologia da libertaçãoO marxismo passa a ser a filosofia predominante na análise sócio–analítica feita pelateologia da libertação. Porém, o marxismo é utilizado como instrumento, não tendofim em si mesmo. “Na teologia da libertação o marxismo nunca é tratado em simesmo, mas sempre a partir, e em função dos pobres” (Ibidem, p. 45). O sentidoúltimo da teologia não é Marx, mas Deus.Após a leitura sócio–analítica, o teólogo da libertação deve-se deparar com a BíbliaSagrada. A Bíblia deve fornecer subsídios para que se possa identificar a face de Deus e
  • 33. Pag. 33 Curso de Teologia Contemporâneasua ação libertadora, nos diversos momentos históricos, sob as quais vive o teólogo eseu povo. Há, então, no processo de elaboração da teologia da libertação, umaimbricação necessária entre a análise sócio–analítica da realidade e a Bíblia Sagrada.Esta última fornece o sentido teológico da práxis libertadora proposta pela teologia dalibertação.Na teologia da libertação a religião é vista como um fator de mobilizaçãoCom a gênese da teologia da libertação na América Latina, “a religião passa a ser umfator de mobilização e não do freio” (BOFF, 1980, p. 102).A religião não mais se apresenta como “ópio do povo”. Ela passa a ser fonte delibertação e de esperança para o homem.A religião, desta forma, não se reduz a uma ideologia que mantém o status quo sociale político; também não é mais fonte de discursos etéreos.A teologia da libertação pretende mostrar que Deus não está em uma esfera trans–histórica; mas, ela quer mostrar que Deus encarna-se na história, gera libertação deum povo humilhado, gera vida e esperança a um povo crucificado e sem sonhos.Podemos dizer, metaforicamente, que a teologia da libertação anuncia a ‘’descida’’ deDeus de sua esfera transcendente e “celeste” e mostra-o como agente dignificador doshumilhados da terra.Deus não é mais um conjunto de doutrinas e especulações, mas é a fonte de toda aluta pela justiça e igualdade. Por isso, Deus se manifesta nas lutas históricas pelajustiça, pela inclusão e pela superação de toda opressão vigente na humanidade. “Eusou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.”(Ex 20,2).Eis a face de Deus anunciada pela teologia da libertação: Deus que tira o povo daopressão, da servidão.O céu almejado pela humanidade, não é pensado como realidade post mortem. Estecéu que fora pensado pela teologia clássica como realidade distante que semanifestaria no porvir, encarna-se no “agora”, através da práxis do povo em prol dadignidade humana: cada conquista popular, no que tange a uma relação mais justaentre os homens, presentifica o céu no seio da humanidade.A teologia da libertação surge para mostrar que Deus é “Pai – Nosso”; portanto oshomens e as mulheres devem se relacionar como irmãos e irmãs, sem haver exclusão,sem haver opressão ou sem qualquer tipo de violação da dignidade humana. Lutarpela libertação é valorizar a paternidade universal de Deus, que se manifesta nasrelações justas e fraternas entre todos os seres humanos.
  • 34. Pag. 34 Curso de Teologia Contemporânea Parte 07: Texto para debate- A teologia social de Calvino1. Introdução Muitos de nós, não conhecem o pensamento teológico social de Calvino, pelo fato dos modernos manuais de teologia não fazerem referencia a tudo o que reformador produziu nesta área especifica. Faremos uma síntese de tudo que Calvino produziu nesta área. A Reforma Protestante ocorrida no século XVI não foi somente um movimento espiritual e eclesiástico. Teve também aspectos e dimensões políticas e sociais. Calvino, bem como os outros reformadores, deu atenção aos problemas sociais de sua época. Talvez pelo fato de ser da segunda geração de reformadores, Calvino podia ter uma visão mais ampla e amadurecida sobre o assunto. o Ele esforçou-se para entender qual deveria ser o papel da Igreja cristã na reconstrução de uma sociedade justa que refletisse a vontade de Deus em termos de justiça social. Essa questão era extremamente aguda para os reformadores, particularmente pelo fato de viverem numa época e numa situação de grandes problemas sociais. o Não é de se admirar que em suas Institutas da Religião Cristã, bem como em seus comentários Calvino freqüentemente trata de questões relacionadas com a responsabilidade social da Igreja e do Estado. Duas considerações importantes. o Primeiro. Não devemos dissociar o pensamento social de Calvino da sua teologia. Calvino era acima de tudo um teólogo, um homem da Igreja. Ele não era um político, nem ativista social, mas essencialmente um pastor e um estudiosos das Escrituras. Seu pensamento social desenvolveu-se dentro da estrutura de seus pressupostos teológicos e bíblicos. Calvino construiu a sua teologia social a partir da sua convicção de que Cristo é Senhor de todos os aspectos da vida humana, e de que a Palavra de Deus deve regular todas as áreas da vida. o A segunda consideração. Não devemos dissociar o pensamento social de Calvino da época em que ele viveu. Embora sua teologia social brotasse de princípios bíblicos válidos e atuais para todas as épocas, Calvino só poderia dar-lhes expressão dentro das circunstâncias históricas em que viveu e labutou. Naquela época, a Igreja Católica Romana era o grande poder econômico e político. Prevalecia naquela época o sistema econômico e social medieval e a monarquia como sistema de governo.
  • 35. Pag. 35 Curso de Teologia Contemporânea2. Genebra na Época de Calvino A cidade de Genebra foi o local onde Calvino passou a maior parte de sua vida, pregando, pastoreando e ensinando. Ali passou momentos de grande popularidade e também de rejeição. Foi ali que sua teologia social amadureceu, à medida em que enfrentava os males sociais que oprimiam Genebra bem como as demais cidades da Europa medieval.3. O Governo de Genebra Genebra, antes da Reforma e da chegada de Calvino, era um bispado, uma importante cidade. Seu comando estava nas mãos de três autoridades: o O bispo, que era não somente o chefe espiritual da Igreja, o "príncipe de Genebra", como teoricamente, era o soberano da cidade, com poderes para cunhar moedas, comandar a cidade em tempo de guerra, julgar apelações, e perdoar crimes. o Depois vinha o magistrado, incumbido da defesa da cidade, da guarda, e da execução de prisioneiros. o E por fim, o Conselho de Genebra, composto de Conselheiros de entre os moradores da cidade, que julgavam as questões criminais concernentes aos leigos (os pecados dos sacerdotes era competência do bispo), cuidavam do abastecimento da cidade, das finanças da cidade, e mantinham a boa ordem durante a noite através da polícia. Este era o sistema adotado pela maioria das cidades européias católicas. Quando Genebra adotou oficialmente a Reforma (1536), o bispo foi despojado do seu poder, e os Conselheiros assumiram suas funções. Durante o período de bispado em Genebra, a Igreja Católica representada pelo bispo estivera acima do Estado. Com a expulsão do bispo, o Conselho assumiu suas funções, e agora o Estado estava acima da Igreja (agora Reformada). A Igreja permanecia ligada ao Estado, e estava debaixo do poder do Conselho de Genebra (cujos Conselheiros agora eram protestantes), que tinha em suas mãos o poder de disciplinar, designar os pastores, bem como a função de sustentá-los financeiramente.4. A Situação Social em Genebra Graves problemas sociais afligiam Genebra naquela época (bem como a Europa em geral). o Havia pobreza extrema, agravada por impostos pesados.
  • 36. Pag. 36 Curso de Teologia Contemporânea o Os trabalhadores eram oprimidos por baixos salários e jornadas extensas de trabalho. o Campeava o analfabetismo, e a ignorância; havia aguda falta de assistência social por parte do Estado; o Prevalecia a embriagues e a prostituição. o Destacava-se o vício do jogo de cartas, que levava o pouco dinheiro do povo. o As trevas espirituais características da Idade Média refletiam-se nas condições morais e sociais das massas. Essa era a situação que prevalecia em Genebra antes da chegada da Reforma espiritual, a qual deu lugar, em seguida, a reformas sociais, econômicas e políticas, mesmo antes de Calvino chegar à Genebra.5. As Mudanças Introduzidas por Farel em Genebra Guilherme Farel foi o grande líder destas mudanças em Genebra. Sob sua influência, o Conselho da cidade cria o Hospital Geral no antigo Convento de Santa Clara, para dar atendimento médico aos pobres. O Conselho também passou a regulamentar a vida dos seus cidadãos: o Proíbem-se as danças de ruas, a polícia é mobilizada para manter a ordem nas ruas, são promulgadas leis que regulamentam o uso dos bares, que proíbem jogo de cartas, blasfemar o nome de Deus, e servir bebidas durante o horário do sermão. o Torna-se proibido vender pão e vinho a preços acima dos estipulados; são proibidos todos os dias santos, à exceção do domingo. Passa a ser obrigatório a todos os cidadãos de Genebra irem ouvir o sermão de domingo, sob pena de pesadas multas. E a instrução pública se torna obrigatória, pela primeira vez na Europa.6. As reações as mudanças trazidas por Farel Evidentemente, nem todos em Genebra estavam satisfeitos com as pesadas proibições impostas pelos Conselheiros, que por sua vez, seguiam a Farel. As leis, por demais severas, que excedem os limites do razoável, provocam insatisfação, mesmo entre crentes verdadeiros.7. É neste momento de mudanças que Calvino chega a Genebra Foi a esta altura que Calvino chegou a Genebra. Ele estava apenas de passagem pela cidade. Seus planos eram de prosseguir em frente e achar um local tranqüilo
  • 37. Pag. 37 Curso de Teologia Contemporânea onde pudesse estudar e escrever. Tinha na época 27 anos de idade, e havia acabado de publicar a primeira edição das Institutas. Quando Farel soube que Calvino estava na cidade foi visitá-lo, e instou com o jovem teólogo a que ficasse ali em Genebra, para ajudá-lo no trabalho de reforma. É conhecida a história de como Calvino, após ter apresentado toda sorte de desculpas, finalmente rendeu-se, aterrorizado pela maldição que o velho reformador invocou sobre ele, em caso de recusa. Assim, ele ficou, para ajudar Farel a solidificar as reformas eclesiásticas e sociais em Genebra. Em breve, Genebra iria tornar-se o centro espiritual e social da Reforma protestante na Europa. Foi ali em Genebra, trabalhando como pregador, mestre e pastor na Igreja de Genebra, e lidando com as questões sociais mencionadas acima, que Calvino desenvolveu sua teologia social. No que se segue, procuraremos sintetizar seus pontos principais, concentrando-nos no que Calvino ensinou como sendo a responsabilidade social da Igreja de Cristo.8. O Ensino de CalvinoA causa dos males sociais Fundamental para entendermos o pensamento de Calvino nesta área é termos em mente que para ele as causas da pobreza, miséria e a opressão, bem como da perversão e da corrupção da sociedade humana, estavam enraizadas na natureza decaída do homem, que por sua vez, remonta-se à Queda no Éden. Este princípio é crucial no entendimento de Calvino. Para ele, o pecado do homem havia trazido toda sorte de transtorno à ordem social: Pela queda do homem foi demolida toda ordem social, e em Adão tudo foi amaldiçoado por Deus, como está escrito em Romanos 8.20-23, onde Paulo afirma que a criação de Deus está em cativeiro imposto pelo pecado do homem. A queda do homem introduziu perturbações profundas na sociedade humana, incluindo distúrbios na vida conjugal e familiar. Para Calvino, o caos econômico é causado pela ganância dos homens, e pela incredulidade de que Deus haverá de nos suprir as necessidades básicas, conforme Cristo nos promete em Mateus 6. Calvino denuncia neste contexto, pecados sociais como: Estocagem de alimentos (trigo), monopólios, e a especulação financeira, como tendo origem no egoísmo e na avareza do homem. Ele denunciava aqueles que preferiam deixar deteriorar-se o trigo em seus celeiros, para que ali fosse devorado por bichos, e apodrecesse, ao invés de ser vendido, quando a necessidade do povo se fazia sentir. Por identificar biblicamente a raiz dos transtornos sociais, Calvino estava em posição de elaborar uma solução que atingisse o problema em seus fundamentos.
  • 38. Pag. 38 Curso de Teologia ContemporâneaO Senhorio de Cristo Um segundo princípio que norteava a teologia social de Calvino era que o Cristo vivo e exaltado é Senhor de todo o universo. Os milagres que Ele exerceu sobre a ordem natural (acalmar a tempestade, por exemplo; ou tirar uma moeda da boca do peixe) demonstram esta realidade, diz Calvino. Portanto, a obra de restauração realizada por Cristo não se limita apenas à nova vida dada ao indivíduo, mas abrange a restauração de todo o universo — o que inclui a ordem social e econômica. Desta forma, a atenção de Calvino como pastor e mestre, se estendeu para além das questões individuais e "espirituais". Se Cristo era o Senhor de toda a existência humana, era dever da Igreja dar atenção às questões sociais e políticas.A Restauração da Sociedade Para Calvino, a restauração inaugurada por Cristo ocorre inicialmente no seio da Igreja. É na Igreja que a ordem primitiva da sociedade, tal qual Deus havia estabelecido, tende a ser restaurada. Na Igreja, as diferenças exacerbadas entre as classes sociais, econômicas e raciais, bem como os preconceitos delas procedentes, desaparecem, pois Cristo de todos faz um único povo (Gl 3.28; Ef 2.14). Calvino não concebia a total abolição das classes sociais. Ele concebia a coexistência harmônica entre a Igreja e instituições como o Estado, a sociedade e a família, com as suas respectivas estruturas e funcionamento. É na Igreja, porém, que as relações sociais de trabalho sofrem profundas alterações, ensina o reformador. Os patrões continuam patrões, mas aprendem a exercer sua autoridade sem opressão, ao passo que os empregados (que continuam empregados) aprendem a serem subordinados sem recriminação. Na Igreja, diz Calvino, Jesus Cristo estabelece entre os cristãos a justa redistribuição dos bens destinados a todos. Isto se dava através da atividade diaconal, trazendo alívio para as necessidades dos pobres e oprimidos, com recursos vindos dos ricos e abastados. Quando Calvino falava em restauração social, ele tinha em mente uma sociedade civil governada por cristãos reformados, que aplicassem os princípios bíblicos às questões sociais, políticas e econômicas. Ou seja, um Estado que fosse orientado pela Igreja no exercício de suas funções.Para Calvino a reforma social não é perfeita, pois os efeitos do pecado não sãotodo eliminados. É também importante notar que para Calvino a reforma da sociedade não é completa nem perfeita, visto que os efeitos do pecado não são de todo eliminados na presente época. É uma restauração parcial, portanto. Ela não
  • 39. Pag. 39 Curso de Teologia Contemporânea consegue estabelecer plenamente a justiça no mundo presente. Ao mesmo tempo, ela não abole determinados aspectos da ordem social: permanece a hierarquia determinada por Deus entre o homem e a mulher, o patrão e o empregado, os pais e seus filhos.Quando ocorrerá então a completa reforma da sociedade? A plena abolição dos distúrbios agora presentes da ordem social (as injustiças, a opressão, a corrupção, por exemplo) só se efetuará plenamente no Reino de Deus, no fim dos tempos, para o qual marcha toda a história dos homens e do universo. Sua vinda será precedida por convulsões cósmicas. Então, Jesus Cristo regressará em glória, e o príncipe deste mundo será aniquilado. Assim, será então estabelecido o novo céu e a nova terra, onde habitam plenamente a justiça (2 Pe 3.13; cf. Is 65.17; 66.22; Ap 21.1). Portanto, para Calvino, a Igreja é uma antecipação do reino de justiça a ser introduzido por Cristo em sua vinda. Como tal, ela funciona no presente como uma sociedade provisória, governada pelas leis de Cristo. Embora já refletindo estes ideais, a Igreja ainda não o faz de forma perfeita, o que ocorrerá apenas no fim dos tempos.9. A Responsabilidade Social da Igreja Quais as responsabilidades da Igreja nesta restauração provisória da sociedade? Podemos resumir o ensino de Calvino em três aspectos fundamentais. Segundo ele, a Igreja tinha um ministério didático, um político, e um social.Ministério Didático Esse ministério da Igreja era para ser exercido através dos seus pastores e mestres. Consistia na instrução pública e particular, através de sermões e orientação individual, quanto ao ensino bíblico sobre a administração dos bens outorgados por Deus ao Estado e ao indivíduo. Em outras palavras, Mordomia Cristã.A ênfase do ministério didático: a questão do trabalho e do descanso. Tomemos como exemplo a questão do trabalho e descanso. De acordo com Calvino, a Igreja deveria através do ministério regular de seus pastores, instruir seus membros no ensino das Escrituras sobre o assunto. Em suas Institutas Calvino escreveu o que possivelmente foi o seu ensino em Genebra sobre o trabalho: só Deus alimenta o homem — dele vem as forças e as condições para que o homem trabalhe, e com seu suor, compre seu pão.
  • 40. Pag. 40 Curso de Teologia Contemporânea O trabalho, portanto, é algo eminentemente digno pois é a realização da vontade de Deus para o homem. Assim, o homem não se realiza plenamente, senão no trabalho, pois foi para isto que foi criado e vocacionado, conforme está escrito em Gênesis 1 e 2. O pecado tirou a alegria e a graça que acompanhava o trabalho no início. A queda introduziu no mundo e na sociedade humana os distúrbios sociais relacionados com o trabalho (Gênesis 3). Mas, em Cristo o homem reencontra a alegria e o gosto do labor. Quanto ao descanso, Calvino insistia que era necessário proporcionar aos trabalhadores um dia de descanso, o sábado cristão, que é o domingo, conforme sua interpretação do quarto mandamento (Êxodo 20.8-11). O descanso físico, porém, está intimamente ligado ao espiritual — sem Cristo, não há descanso verdadeiro no domingo. Assim, Calvino via a profanação do domingo como a origem da corrupção do trabalho. Segundo ele, é necessário cessarmos dos nossos labores, como Deus cessou dos dele (He 4.3). O que fez o conselho de genebra? Assim, conforme Farel já havia orientado, o Conselho de Genebra, debaixo da influência de Calvino, aboliu todos os feriados católicos e determinou que no domingo cessasse todo labor em Genebra. A função do púlpito no ministério didático? Através do púlpito, exercendo o seu ministério didático, a Igreja então levantava o ânimo moral do trabalhador assegurando-lhe que mesmo os trabalhos mais humildes são honrados por Deus, e que Deus assim determinou que pelo trabalho o homem encontrasse sua vocação na vida. E que em Cristo, o trabalhador encontraria a alegria e a satisfação que deveriam acompanhar o labor diário. o Havia um outro aspecto do ministério didático da Igreja que consistia em repreender, através das pregações, os membros que estivessem incorrendo em pecados sociais: Assim, os pastores de Genebra, orientados por Calvino, denunciavam do púlpito a prática da cobrança de juros excessivos por parte dos agiotas. Da mesma forma denunciavam a vadiagem. Vadiagem e parasitagem é pecado, ensinava Calvino. Para ele, quando Deus criou o homem e o ordenou cultivar a terra, condenou com este gesto a ociosidade e a indolência. Não há nada mais oposto à ordem da própria natureza do que consagrar a vida à beber, comer, e dormir, sem indagar sobre o que fazer (Sl 128.3; 2 Ts 3.10- 12).
  • 41. Pag. 41 Curso de Teologia Contemporânea Calvino também falava contra o desemprego causado pela ganância dos ricos. Privar um homem do seu trabalho é pecado contra Deus — pois trabalho é dom de Deus, e o dever que ordenou ao homem, ensinava Calvino. É tirar-lhe a vida — pois os trabalhadores pobres dependem dia a dia do seu labor para o pão com se sustentam e às suas famílias — ao contrário dos ricos, que têm propriedades, reservas, etc. Assim, promover o desemprego, na opinião de Calvino, seria um atentado à vida do pobre, e portanto, um pecado contra o mandamento "Não matarás". Esse era o primeiro aspecto da responsabilidade social da Igreja no pensamento de Calvino, ou seja, instruir seus membros, pela pregação da Palavra, acerca dos princípios bíblicos sobre o trabalho e o descanso.Ministério Político Ao lado do Estado, a Igreja tinha um outro ministério, na teologia social do reformador, a saber, o ministério político. Para entendermos melhor o que Calvino tem a dizer sobre isto, vamos primeiro entender seu pensamento sobre a relação entre a Igreja e o Estado. A relação entre a Igreja e o estado. Podemos resumi-lo no que Calvino tem a dizer sobre Romanos 13.1-7, uma passagem onde o apóstolo Paulo menciona as autoridades e nossos deveres para com elas. Para Calvino, a Igreja e o Estado são duas instituições procedentes de Deus (Rm 13.1-2); são instrumentos de Deus para a vinda do Seu Reino na terra. A Igreja constitui-se como as primícias deste Reino vindouro, como já vimos; o Estado, por sua vez, deve manter a ordem provisória na sociedade humana. Portanto, existem entre as duas instituições laços duráveis e essenciais, e não simples relações ocasionais. Qual a missão do Estado no pensamento de Calvino? Ainda com base em Romanos 13, Calvino sustenta que 1)o Estado deveria manter a ordem na sociedade (conforme sua interpretação de 1 Tm 2.1-2), 2)prover o sustento da Igreja, 3) e promover os meios necessários para que haja a pregação fiel da Palavra de Deus entre os cidadãos. Ou seja, usando o poder civil dado por Deus, as autoridades deveriam envidar todos os esforços para que a religião verdadeira prevalecesse na terra. O estado não devia gerenciar os negócios da igreja. Porém, para Calvino isto não implica qualquer ingerência do Estado nos negócios da Igreja. O Estado faz estas coisas através de uma boa legislação que garanta a livre pregação da Palavra de Deus. A edificação da Igreja se faz apenas pela pregação da Palavra no poder do Espírito, e não pela interferência do poder do Estado. E aqui Calvino critica os demais reformadores que desejavam uma união entre Igreja e Estado, e que o Estado tomasse conta dos negócios da Igreja (como ocorreu parcialmente na Alemanha).
  • 42. Pag. 42 Curso de Teologia ContemporâneaQual seria então a missão política da Igreja? Em primeiro lugar, orar pelas autoridades constituídas (1 Tm 3.1-2). E isto, em qualquer país em que os cristãos se encontrassem, independente da forma de governo daquele pais, por mais hostis que as autoridades fossem, para que se convertam e venham ao bom senso, assim como Jeremias exortou os cativos a que orassem pela Babilônia (Jr 29.7). Em segundo lugar, a Igreja deveria, quando necessário, advertir as autoridades, quando estas esquecessem o senso divino do seu ofício, quando abusassem do poder, quando cometessem injustiça, quando tolerassem injustiças contra os pobres, os fracos e os oprimidos. Se a Igreja cessar de vigiar o Estado, diz Calvino, ela se torna cúmplice da injustiça social, cessando de cumprir sua missão política. Em terceiro lugar, a Igreja também deveria, como parte de sua tarefa, tomar a defesa dos pobres e fracos contra os ricos e poderosos. Ela deveria consistentemente alertar o Estado a que proteja os fracos, os oprimidos e explorados pelos ricos, os que não possuem poder político ou econômico, e não têm proteção social. Neste sentido, a Igreja deve sempre denunciar ao Estado, os ricos que exploram a miséria alheia em tempo de calamidade, os que tiram partido da sua situação social ou oficial para se enriquecerem e se porem a coberto. Calvino entendia que estas atitudes eram apropriadas para a Igreja pois refletiam o ensino da lei de Moisés e do ministério dos profetas, ao denunciarem a opressão social em Israel. Em quarto lugar, a Igreja deveria recorrer à autoridade do Estado na aplicação de sanções disciplinares, e solicitar do Estado as medidas necessárias para a manutenção da ordem e da justiça social. Em resumo, o ideal reformado era este: uma Igreja politicamente livre, inteiramente dependente da Palavra de Deus, em um Estado que lhe respeite e lhe favoreça o ministério.Ministério Social O outro aspecto da responsabilidade social da Igreja era a assistência social. A Igreja, segundo a teologia social de Calvino, deveria envolver-se ela mesma no cuidado dos pobres, dos órfãos e das viúvas — enfim, dos necessitados. E isto sem fazer distinção entre os da igreja e os de fora. Ou seja, a assistência social da Igreja deveria contemplar inclusive os estrangeiros e refugiados que chegavam a Genebra.Qual o órgão responsável pelo ministério social da igreja? O órgão encarregado do ministério social da Igreja, diz Calvino, é o diaconato. Foi Calvino quem primeiro resgatou esta função bíblica do ofício diaconal.
  • 43. Pag. 43 Curso de Teologia Contemporânea Ele ensinou que os diáconos eram ministros eclesiásticos, encarregados de toda a assistência social da Igreja (Atos 6.1-7), e como tal, deveriam ser eleitos conforme as regras estabelecidas por Paulo em 1 Timóteo 3.8-13. Até hoje em algumas igrejas Reformadas a administração financeira da Igreja e o uso dos recursos para a assistência aos pobres e necessitados é atribuição da junta diaconal.As ações diaconais básicas na teologia social de calvino O diaconato, como braço do ministério social da Igreja, se desenvolve em três ações básicas, segundo Calvino: o 1) Administração dos bens destinados à comunidade. A igreja recebia recursos para a assistência social de duas fontes: a generosidade dos fiéis nas coletas levantadas para este fim aos domingos, e o tesouro do Estado, através do Conselho de Genebra, que votava verbas para este fim. Estes recursos eram recebidos e administrados pelos diáconos. o 2) Distribuição de forma justa e igual entre os necessitados. Os diáconos cuidavam que todos os genuinamente carentes tivessem participação igual nos bens destinados aos pobres. Num ambiente marcado pela opressão social e pelas desigualdades, os diáconos certamente tinham muito trabalho a ser feito, e necessitavam de muita sabedoria para faze-lo. o 3) Visitação e cuidado dos doentes. As guerras, a falta de saneamento público, as epidemias, a falta de assistência médica do Estado, e a pobreza, deixavam um saldo enorme de pessoas doentes. O ministério dos diáconos incluía o cuidado para com estas pessoas, utilizando-se quando necessário dos recursos da Igreja. Uma observação importante. É necessário observar que no pensamento de Calvino o ministério social da Igreja era de apoio ao Estado. Cabia ao governo civil cuidar dos pobres, doentes e necessitados. Mas, como se tratava de uma tarefa de enormes proporções, a Igreja vinha como apoio e auxílio, dando ela mesma assistência social onde necessário.A Prática Social de Calvino em Genebra Persuadido por Farel, Calvino se deixa ficar em Genebra para auxiliar nas reformas necessárias. Logo ficou claro que, para ele, isto incluía ir além das reformas eclesiásticas. Debaixo de sua influência, a Igreja passa a agir de forma marcante na vida social e política da cidade. Aquilo que ele expõe em suas Institutas procurou aplicar de forma prática às necessidades de Genebra. O diaconato é organizado e entra imediatamente em ação. O Hospital Geral, fundado por Farel, dá assistência médica gratuita aos pobres, órfãos e viúvas, com
  • 44. Pag. 44 Curso de Teologia Contemporânea médicos de plantão pagos pelo Estado. É criada a primeira escola primária obrigatória da Europa. Os refugiados chegados a Genebra recebem treinamento profissional e assistência médica e alimentar, enquanto se preparam para exercer uma profissão. Os pastores intercedem continuamente diante do Conselho de Genebra em favor dos pobres e dos operários. o O próprio Calvino intercedeu várias vezes por aumentos de salários para os trabalhadores. o Os pastores pregavam contra a especulação financeira, e fiscalizavam parcialmente os preços contra a alta provocada pelos monopólios. o Debaixo da influência dos pastores, o Conselho limita a jornada de trabalho dos operários. o A vadiagem é proibida por leis: vagabundos estrangeiros que não tem meios de trabalhar, devem deixar Genebra dentro de três dias após a sua chegada. E os vagabundos da cidade devem aprender um ofício e trabalhar, sob pena de prisão. O Conselho institui cursos profissionalizantes para os vadios e os jovens, para que ele possam entrar no mercado de trabalho. E finalmente é digno de nota que havia uma vigilância da parte de Calvino e demais pastores de Genebra contra a má administração pública. Houve inclusive o caso de um funcionário corrupto que foi despedido por influência de Calvino. O próprio Calvino levava uma vida modesta, apesar de todo o seu prestígio e influência. Na prática, procurou viver intensamente os princípios que defendera em sua teologia social. A sua influência estendeu-se além do seu tempo.A influência da teologia social de Calvino sobre os puritanos e as confissões defé. Os Puritanos, autores da Confissão de Fé de Westminster e dos dois Catecismos, foram profundamente influenciados pelo ensino de Calvino, e sua teologia social não foi exceção. No capítulo sobre o Magistrado Civil (Cap. XXIII) a Confissão de Fé reflete: a)o ensino de Calvino sobre a vocação social e política dos cristãos (par. 2), b)a independência da Igreja do Estado, para gerir seus próprios interesses, c)e o dever do Estado de proteger a Igreja cristã (par. 3), d)o dever do Estado de assistir e proteger os necessitados independentemente das convicções religiosas dos mesmos (par. 3), e)bem como o dever dos cristãos de honrar e de submeterem-se ao Estado (par. 4). Um outro exemplo são as contínuas referências à questões sociais e econômicas nestes símbolos da fé reformada. A exposição no Catecismo Maior do sexto
  • 45. Pag. 45 Curso de Teologia Contemporânea mandamento, "Não matarás", inclui como deveres exigidos "... a justa defesa da vida contra a violência... o uso sóbrio do trabalho e recreios ... confortando e socorrendo os aflitos, e protegendo e defendendo o inocente". Como pecado, são incluídos "... a negligência ou retirada dos meios lícitos ou necessários para a preservação da vida ... o uso imoderado do trabalho .... a opressão .... e tudo que tende à destruição da vida de alguém".10. Conclusões Augusto Nicodemos conclui esta discussão com duas observações sobre o ensino social de Calvino. o Primeiro, a teologia social calvinista estava profundamente enraizado em sua teologia e em sua interpretação das Escrituras. Era fruto de suas convicções teológicas. Portanto, é impossível entender as reformas sociais que empreendeu em Genebra sem os pressupostos da sua teologia. o Segundo, o pensamento social de Calvino tem produzido abundante fruto na história da humanidade, após a Reforma. Muitas das universidades, escolas, e asilos de que temos notícia foram fundados por calvinistas. Boa parte das críticas feitas contra os calvinistas, de que são levados à inércia e paralisia social por causa de sua ênfase na soberania de Deus em detrimento da responsabilidade humana, simplesmente revela um desconhecimento (proposital?) dos fatos e uma ignorância do que seja o Calvinismo. o E finalmente, cabe-nos perguntar em que sentido uma teologia social calvinista poderia nos ajudar hoje, aqui e agora, no Brasil. Evidentemente existem profundas diferenças culturais, políticas e religiosas entre a Suíça do século XVI e o Brasil do século XXI. Mas existem muitas semelhanças também, particularmente no que se refere aos problemas sociais. Além do mais, os princípios elaborados por Calvino para atender às questões sociais e econômicas são válidos para nós hoje, pois são bíblicos. Quer na Suíça medieval, quer no Brasil moderno, permanece como verdade imutável o fato de que a raiz da opressão social é espiritual e moral, como Calvino apregoou. Bem como o fato de que Jesus Cristo é o Senhor de todas as coisas, em todos os lugares, e em todas as épocas, e que seu reino se estende à política, à sociedade e à economia tanto de genebrinos quanto de brasileiros. Assim, creio que a Igreja evangélica brasileira (especialmente os reformados) deveria envolver-se em todos estes aspectos, usando os meios apropriados, lícitos e legais para protestar, advertir e resistir à injustiça social, usando a pregação da Palavra para chamar ao arrependimento os governantes corruptos, os ricos
  • 46. Pag. 46 Curso de Teologia Contemporânea opressores e os pobres preguiçosos, e exercitando obras de misericórdia e assistência social através de uma diaconia treinada e motivada. Todo este envolvimento social deve acontecer sem perder de vista que a missão primordial da Igreja é promover a reforma (parcial e provisória) da sociedade através da proclamação do Evangelho de Jesus Cristo, aguardando os novos céus e a nova terra onde habita a plena justiça de Deus.Autor: Rev. Dr. Augustus Nicodemus LopesFonte: Calvino e a responsabilidade social da Igreja, Editora PES, 24p, 10,5x18cm, A.N. Lopes. Parte 08: A teologia evolucionista11. A TEOLOGIA EVOLUCIONISTA Considerada por seus fundadores e críticos como uma nova interpretação do Gênesis, a teologia evolucionista aceita o darwinismo como verdadeira ciência. Quanto à nossa origem, acreditam os teólogos evolucionistas que Deus realmente nos criou, não da maneira narrada pelo Gênesis, mas na forma primitiva de uma simples célula viva, e isso há algumas centenas de bilhões de anos. Argumentam que dessa primitiva e única célula originou-se todo o reino vegetal e animal. Daí para cá aceitam integralmente o evolucionismo. Essa corrente teológica prosperou muito mais no seio do catolicismo romano do que no protestantismo. Até o papa, no caso Paulo VI, em declaração através do LObservatore, afirmou que os teólogos dentro da Igreja Católica Romana deveriam ter a permissão de admitir que o homem evoluiu gradualmente de algum organismo primitivo. Sugere o órgão do Vaticano que os primeiros capítulos da Bíblia não devem ser interpretados do ponto de vista histórico e natural. Não é difícil descobrir as bases da teologia evolucionista. A Bíblia ensina que duas coisas, entre outras, deveriam acontecer em nossa época: progresso da ciência e diminuição da fé: "Tu, porém, Daniel, encerra as palavras e sela o livro, até ao tempo do fim; muitos o esquadrinharão, e o saber se multiplicará" (Dn 12.4). "Digo-vos que depressa lhes fará justiça.
  • 47. Pag. 47 Curso de Teologia Contemporânea Contudo, quando vier o Filho do homem, achará porventura fé na terra?" (Lc 18.8) "E, por se multiplicar a iniqüidade, o amor se esfriará de quase todos" (Mt 24.12). A cada novo sucesso, a ciência, se propõe a ir um pouco mais além, e realmente tem ido. A ciência moderna planeja criar vida em laboratório, realizar clonagens humanas e selecionar e congelar genes humanos para futuras procriações em condições artificialmente preparadas. Qual o papel da fé num contexto como este?12. O que foi publicado na revista isto é No dia 27 de Dezembro de 1999, a revista Época publicou um artigo intitulado Rastros de Deus. Nesse artigo, Martha San Juan França teve o objetivo de demonstrar que há lugar para a fé na ciência moderna. Em todo o artigo seu maior objetivo foi mostrar as duvidosas possibilidades de se crer somente na Teoria Evolucionista de Darwin, ou, no relato bíblico de Gênesis a respeito das origens (sobretudo, do homem). Sendo assim, Martha tentou evidenciar a coerência e possibilidade de se crer numa teologia evolucionista. Segunda Martha, na era da interdisciplinaridade, teólogos que abraçaram a ciência e cientistas que buscam algo mais do que os cálculos matemáticos, discutem também a integração entre os dois campos. Parte 09: Teologia relacional- Um novo “deus” no mercado1. IntroduçãoAs ondas gigantes que provocaram a tremenda catástrofe na Ásia no final dedezembro de 2004 afetaram também os arraiais evangélicos, levantando perguntasacerca de Deus, seu caráter, seu poder, seu conhecimento, seus sentimentos e seurelacionamento com o mundo e as pessoas diante de tragédias como aquela.Dentre as diferentes respostas a essas perguntas, uma chama a atenção pela ousadiade suas afirmações: Deus sofreu muito com a tragédia e certamente não a haviadeterminado ou previsto; ele simplesmente não pôde evitá-la, pois Deus não conheceo futuro, não controla ou guia a história, e não tem poder para fazer aquilo quegostaria. Esta é a concepção de Deus defendida por um movimento teológicoconhecido como teologia relacional, ou ainda, teísmo aberto ou teologia da aberturade Deus.A teologia relacional, como movimento, teve início em décadas recentes, emboraseus conceitos sejam bem antigos. Ela ganhou popularidade por meio de escritoresnorte-americanos como Greg Boyd, John Sanders e Clark Pinnock. No Brasil, estas
  • 48. Pag. 48 Curso de Teologia Contemporâneaidéias têm sido assimiladas e difundidas por alguns líderes evangélicos, às vezes deforma aberta e explícita.A teologia relacional considera a concepção tradicional de Deus como inadequada,ultrapassada e insuficiente para explicar a realidade, especialmente catástrofes comoo tsunami de dezembro de 2004, e se apresenta como uma nova visão sobre Deus esua maneira de se relacionar com a criação.2. Seus pontos principais podem ser resumidos desta forma:1. O atributo mais importante de Deus é o amor. Todos os demais estão subordinadosa este. Isto significa que Deus é sensível e se comove com os dramas de suas criaturas.2. Deus não é soberano. Só pode haver real relacionamento entre Deus e suascriaturas se estas tiverem, de fato, capacidade e liberdade para cooperarem oucontrariarem os desígnios últimos de Deus. Deus abriu mão de sua soberania para queisto ocorresse. Portanto, ele é incapaz de realizar tudo o que deseja, como impedirtragédias e erradicar o mal. Contudo, ele acaba se adequando às decisões humanas e,ao final, vai obter seus objetivos eternos, pois redesenha a história de acordo comestas decisões.3. Deus ignora o futuro, pois ele vive no tempo, e não fora dele. Ele aprende com opassar do tempo. O futuro é determinado pela combinação do que Deus e suascriaturas decidem fazer. Neste sentido, o futuro inexiste, pois os seres humanos sãoabsolutamente livres para decidir o que quiserem e Deus não sabe antecipadamenteque decisão uma determinada pessoa haverá de tomar num determinado momento.4. Deus se arrisca. Ao criar seres racionais livres, Deus estava se arriscando, pois nãosabia qual seria a decisão dos anjos e de Adão e Eva. E continua a se arriscardiariamente. Deus corre riscos porque ama suas criaturas, respeita a liberdade delas edeseja relacionar-se com elas de forma significativa.5. Deus é vulnerável. Ele é passível de sofrimento e de erros em seus conselhos eorientações. Em seu relacionamento com o homem, seus planos podem ser frustrados.Ele se frustra e expressa esta frustração quando os seres humanos não fazem o que elegostaria.6. Deus muda. Ele é imutável apenas em sua essência, mas muda de planos e atémesmo se arrepende de decisões tomadas. Ele muda de acordo com as decisões desuas criaturas, ao reagir a suas próprias decisões. Os textos bíblicos que falam doarrependimento de Deus não devem ser interpretados de forma figurada. Elesexpressam o que realmente acontece com Deus.
  • 49. Pag. 49 Curso de Teologia ContemporâneaEstes conceitos sobre Deus decorrem da lógica adotada pela teologia relacionalquanto ao conceito da liberdade plena do homem, que é o ponto doutrinário centralda sua estrutura, a sua "menina dos olhos".De acordo com a teologia relacional, para que o homem tenha realmente pleno livrearbítrio, suas decisões não podem sofrer qualquer tipo de influência externa ouinterna. Portanto, Deus não pode ter decretado estas decisões e nem mesmo tê-lasconhecido antecipadamente. Desta forma, a teologia relacional rejeita não somente oconceito de que Deus preordenou todas as coisas (calvinismo) como também oconceito de que Deus sabe todas as coisas antecipadamente (arminianismotradicional).Neste sentido, o assunto deve ser entendido, não como uma discussão entrecalvinistas e arminianos, mas destes dois contra a teologia relacional. Vários líderescalvinistas e arminianos no âmbito mundial têm considerado esta visão da teologiarelacional como alheia ao Cristianismo.3. A teologia relacional traz um forte apelo a alguns evangélicos, pois diz que Deus está mais próximo de nós e se relaciona mais significativamente conosco do que tem sido apresentado pela teologia tradicional.Segundo os teólogos relacionais, o Cristianismo histórico tem apresentado um Deusimpassível, que não se sensibiliza com os dramas de suas criaturas. A teologiarelacional, por sua vez, pretende apresentar um Deus mais humano, que constrói ofuturo mediante o relacionamento com suas criaturas. Os seres humanos são, dessaforma, co-participantes com Deus na construção do futuro, podendo, na verdade,determiná-lo por suas atitudes.Contudo, a teologia relacional não é novidade. Ela tem raízes em conceitos antigos defilósofos gregos, no socinianismo (que negava exatamente que Deus conhecia o futuro,pois atos livres não podem ser preditos) e especialmente em ideologias modernas,como a teologia do processo. O que ela tem de novo é que virou um movimentoteológico composto de escritores e teólogos que se uniram em torno dos pontoscomuns e estão dispostos a persuadir a igreja cristã a abandonar seu conceitotradicional de Deus e a convencê-la que esta "nova" visão de Deus é evangélica ebíblica.Mesmo tendo surgido como uma reação a uma possível ênfase exagerada naimpassividade e transcendência de Deus, a teologia relacional acaba sendo umproblema para a Igreja Evangélica, especialmente em seu conceito sobre Deus.Embora os evangélicos tenham divergências profundas em algumas questões,reformados, arminianos, wesleyanos, pentecostais, tradicionais, neopentecostais eoutros, todos concordam, no mínimo, que Deus conhece todas as coisas, que é
  • 50. Pag. 50 Curso de Teologia Contemporâneaonipotente e soberano. Entretanto, o Deus da teologia relacional é totalmentediferente daquele da teologia cristã. Não se pode afirmar que os adeptos da teologiarelacional não são cristãos, mas que o conceito que eles têm de Deus é, no mínimo,estranho ao Cristianismo histórico.Ao declarar que o atributo mais importante de Deus é o amor, a teologia relacionalperde o equilíbrio entre as qualidades de Deus apresentadas na Bíblia, dentre asquais o amor é apenas uma delas. Ao dizer que Deus ignora o futuro, é vulnerável emutável, deixa sem explicação adequada dezenas de passagens bíblicas que falam dasoberania, do senhorio, da onipotência e da onisciência de Deus (Isaías 46.10a; Jó 28;Jó 42.2; Salmo 90; Salmo 139; Romanos 8.29; Efésios 1; Tiago 1.17; Malaquias 3.6; Gn17.1 etc.). Ao dizer que Deus não sabia qual a decisão de Adão e Eva no Éden, e quemesmo assim arriscou-se em criá-los com livre arbítrio, a teologia relacional otransforma num ser irresponsável. Ao falar do homem como co-construtor de Deus deum futuro que inexiste, a teologia relacional esquece tudo o que a Bíblia ensina sobrea queda e a corrupção do homem. Ao fim, parece-nos que na tentativa extrema deresguardar a plena liberdade do arbítrio humano, a teologia relacional está disposta asacrificar a divindade de Deus. Ao limitar sua soberania e seu pleno conhecimento,entroniza o homem livre, todo-poderoso, no trono do universo, e desta forma, deixa-nos o desespero como única alternativa diante das tragédias e catástrofes destemundo e o ceticismo como única atitude diante da realidade do mal no universo,roubando-nos o final feliz prometido na Bíblia. Pois, afinal, poderá este Deusignorante, fraco, mutável, vulnerável e limitado cumprir tudo o que prometeu?Com certeza a visão tradicional de Deus adotada pelo cristianismo histórico porséculos não é capaz de responder exaustivamente a todos os questionamentos sobre oser e os planos de Deus. Ela própria é a primeira a admitir este ponto. Contudo, épreferível permanecer com perguntas não respondidas a aceitar respostas quecontrariem conceitos claros das Escrituras. Como já havia declarado Jó há milênios(42.2,3): "Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado.Quem é aquele, como disseste, que sem conhecimento encobre o conselho? Naverdade, falei do que não entendia; cousas maravilhosas demais para mim, coisas queeu não conhecia."
  • 51. Pag. 51 Curso de Teologia Contemporânea Parte 10: A TEOLOGIA DA PROSPERIDADE- UMA RESPOSTA À TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO?1. IntroduçãoO IBGE trouxe uma constatação chocante para a ideologia dos propagadores dateologia da prosperidade no Brasil... Foi comprovado, no último censo de 2006, queos evangélicos são os que mais contribuem com a sua religião, apesar disso, são osreligiosos mais pobres do País. Ou seja, essa teologia na prática não funciona.Bem, com a palavra os pregadores da prosperidade!Essa é uma das doutrinas principais pregada por todos esses movimentos. Trata-se deuma substituição do Evangelho da Graça, pelo “evangelho” da ganância.Oral Roberts, um dos principais pregadores dessa heresia, chegou a escrever um livrointitulado How i learned Jesus Was Not Poor (“Como aprendi que Jesus Não foiPobre”) É comum ouvimos da boca dos pregadores da prosperidade coisas do tipo: “Você é filho do Rei, não tem por que levar uma vida derrotada.” A principio uma frase dessas pode até pode parecer ortodoxa. Mas, o que muitos talvez não saibam, é que para esses pregadores, “vida derrotada”= é ser pobre, ter dificuldades financeiras, ficar doente etc.T.L Osborn, ensina em seu livro Curai Enfermos e Expulsai Demônios, que Paulojamais esteve doente contradizendo o seguinte texto: ”E vós sabeis que vos preguei o evangelho a primeira vez por causa de uma enfermidade física. E, posto que a minha enfermidade na carne vos foi uma tentação, contudo, não me revelastes desprezo nem desgosto; antes, me recebestes como anjo de Deus, como o próprio Cristo Jesus”.(Gal.4.13,14).É interessante saber que Osborn no começo de seu ministério se apoiou em líderesheréticos como William Marrion Branham.T. L. Osborn, no folheto intitulado Um Homem Chamado William Branham, escreveu oseguinte: "Esta geração está incumbida: uma geração na qual Deus tem caminhado em carne humana na forma de um Profeta. Deus tem visitado seu povo. Porque Um grande Profeta Tem-se Levantado entre Nós"Osborn trata a pessoa de Branham como se fosse o próprio Deus. Em outro lugar nomesmo folheto, diz:
  • 52. Pag. 52 Curso de Teologia Contemporânea "Deus tem enviado o irmão Branham no século 20 e tem feito a mesma coisa. Deus em carne, novamente passando por nossos caminhos, e muitos não o conheceram. Eles tampouco o teriam conhecido se tivessem vivido no tempo em que Deus cruzou seus caminhos no corpo chamado Jesus, o Cristo."A teologia da prosperidade une o fútil ao desagradável, ou seja, é uma mistura deganância e comodismo. Os adeptos da teologia da prosperidade acham que nóstemos direito de reivindicarmos o que quisermos de Deus, esquecendo da soberaniadivina. Cito abaixo alguns textos bíblicos, que refutam esse evangelho falso, quepromete ao homem uma vida de prosperidade material, atiçando-lhe a ganância.Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugemcorroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros nocéu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nemroubam;(Mat.6.19,20)“... é enfatuado, nada entende, mas tem mania por questões e contendas de palavras,de que nascem inveja, provocação, difamações, suspeitas malignas, altercações semfim, por homens cuja mente é pervertida e privados da verdade, supondo que apiedade é fonte de lucro. De fato, grande fonte de lucro é a piedade com ocontentamento. Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemoslevar dele. Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. Ora, os quequerem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatase perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor dodinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a simesmos se atormentaram com muitas dores. Tu, porém, ó homem de Deus, fogedestas coisas; antes, segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, amansidão.(1Tim.6.4-11)Com o intuito de entender como a aspiração por bens materiais se relaciona com acosmovisão política dos neopentecostais, tentaremos num primeiro momentoesclarecer, ainda que de forma muito breve, o desenvolvimento da Teologia daProsperidade e, num segundo momento, ilustrar, a partir do exemplo da IgrejaUniversal do Reino de Deus  IURD, uma das denominações de mais rápidocrescimento na América Latina nas duas últimas décadas, como esta doutrina foiapropriada e difundida neste subcontinente, para então discorrermos sobre suaparticipação na política.2. A base doutrináriaA Teologia da Prosperidade pode ser considerada como um desdobramento dofundamentalismo norte-americano, o qual, após a crise de 29, reorienta sua ética emfavor de uma maior participação na esfera pública, devido, em boa medida, ao
  • 53. Pag. 53 Curso de Teologia Contemporâneaaumento de seus contingentes e, por via de conseqüência, de seu peso eleitoral; paraorientar suas práticas, sob a égide da Guerra Fria, desenvolvem inicialmente a doutrinado Milenarismo, calcada na perspectiva escatológica. Foi desenvolvida de duasmaneiras: a primeira, compreendida como pós-milenarista, consiste na crença de quese os fiéis adotarem uma ética solidária durante mil anos, Jesus voltará para julgá-los epremiá-los. Daí sua ênfase na ajuda mútua, na devoção, na filantropia. Desta convicçãocompartilham os assim chamados Evangelicals, como Billy Graham e Jimmy Carter.Esta compreensão foi pouco a pouco sendo considerada utópica, donde uma segundacorrente interpretativa, a do pré-milenarismo. Nesta versão, não cabe aos crentestentar melhorar a situação do mundo, pois a decadência faz parte dos planos de Deus.A ruína precede a segunda vinda de Cristo, que virá para conduzir os eleitos até oscéus, e depois retornará para com eles dominar a Terra, para julgar os descrentes epremiar os fiéis. Isto explica sua recusa às políticas sociais ou a qualquer sorte defilantropia, pois os males sociais são vistos como castigo divino aos infiéis; portanto, apobreza dos hispânicos e dos negros (cujo atendimento era financiado pelos"laboriosos brancos") só seria superada pela sua conversão (born again). É nestecontexto que se organiza a Maioria Moral, cujo objetivo era influenciar a política tendoem vista a recristianização da América. Esta influência é perseguida através daevangelização em massa, com uso intenso dos meios de comunicação.É desta corrente que surge uma outra variante, segundo nossa compreensão, maisradical ainda, qual seja, a Teologia do Domínio, que pretende transformar o mundoatravés de suas elites dirigentes. Para tanto, deve-se conquistar o poder através dassuas instituições oficiais, mas, fundamentalmente, formar as elites de amanhã. É poristo que, além de investirem na Igreja Eletrônica, criam universidades e escolas paraeducar os "seus" jovens. A Liberty University é o exemplo paradigmático destatendência: ministra-se ali um ensino rigorosamente científico, com disciplinas econteúdos seculares. São jovens que, em regime de internato, preparam-se para,quando profissionais, resistirem à sedução da modernidade, o que lhes garantirá umavitória cultural nos Estados Unidos e depois, em todo o planeta.Segundo Stoll, a convicção de ter a elite norte-americana um papel especial no planode Deus, levou a que muitos crentes aderissem, de forma ainda mais entusiástica, àpregação da doutrina em todo o mundo, mensagem acompanhada por umanticomunismo virulento, visto como representante de Satanás na Terra. Contra ele, aprincipal virtude do capitalismo deveria ser difundida, ou seja, a prosperidade e oespírito de iniciativa. Dentre as três, é esta última a mais difundida na América Latina,e quiçá, em todos os demais continentes.A Teologia da Prosperidade ou Confissão Positiva teve sua origem na década de 40nos Estados Unidos, sendo reconhecida como doutrina na década de 70, quando sedifundiu pelo meio evangélico.
  • 54. Pag. 54 Curso de Teologia ContemporâneaPossuía um forte cunho de auto-ajuda e valorização do indivíduo, agregando crençassobre cura, prosperidade e poder da fé através da confissão da "Palavra" em voz alta e"No Nome de Jesus" para recebimento das bênçãos almejadas; por meio da ConfissãoPositiva, o cristão compreende que tem direito a tudo de bom e de melhor que a vidapode oferecer: saúde perfeita, riqueza material, poder para subjugar Satanás, umavida plena de felicidade e sem problemas. Em contrapartida, dele é esperado que nãoduvide minimamente do recebimento da bênção, pois isto acarretaria em sua perda,bem como o triunfo do Diabo. A relação entre o fiel e Deus ocorre pela reciprocidade,o cristão semeando através de dízimos e ofertas e Deus cumprindo suas promessas.3. UMA TEOLOGIA DE RICOS PARA OS POBRES: O CASO DA IURDEsta estrutura de pensamento pode ser encontrada nos livros do bispo Edir Macedo,fundador e principal líder da IURD, nas décadas de 80, 90 e ano de 2001.Nesta denominação, os pastores afirmam que só não é abastado quem não quer: asbênçãos estão ao alcance de todos mediante a fé, inclusive com a alteração radical derealidades miseráveis em vidas prósperas; porém, se alguém tiver qualquerenvolvimento direto ou indireto com o Diabo ou não estiver disposto a "sacrificar"para a obra de Deus, não será agraciado. Este mecanismo permite explicar porquemuitos fiéis não alcançam a graça.Segundo Gomes, o termo "graça" pode ser traduzido pela posse de bens em vista desua fruição, sinal da natureza bondosa de Deus. Contra a Sua vontade, antepõe-se umelemento perturbador, o Diabo, o qual, embora inferior em seu poder, interfere nestarelação, para confundir os fiéis e impedi-los de usufruir dos bens. Não é portantoprimordialmente o pecado (individual ou social) que impede a posse dos bens, mas oDiabo, que age segundo seu próprio arbítrio, contra quem o crente deve lutar. Umavez que a responsabilidade fica por conta do fiel e do Diabo, cria-se uma linha detensão entre a posse da bênção e a atuação diabólica.Por estas razões de ordem doutrinária, a dinâmica Benção  Diabo  Posse, e, emoutro extremo, a vontade de Deus, é que a Teologia da Prosperidade corrobora com oanseio de acomodação ao mundo de certas lideranças, com a possibilidade demobilidade social para alguns fiéis e com a manutenção de um status já adquirido paraoutros, sem o sentimento de culpa. Em vez de ouvir num sermão que "é mais fácil umcamelo atravessar um buraco de agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus"(Mateus 19,24 e Marcos 10,25), agora a novidade reside na possibilidade de desfrutarde bens e riquezas, sem constrangimento e com a aquiescência de Deus.Para os afortunados, esta abordagem traz alívio; para os pobres, o direito de possuircomo filho de Deus. Segundo Edir Macedo, Jesus veio pregar aos pobres para queestes se tornassem ricos. Arrependimento e redenção, tema central no Cristianismo, e
  • 55. Pag. 55 Curso de Teologia Contemporâneaas dificuldades nesta vida para o justo de Deus são temas raramente tratados. Por isso,na busca da bênção, o fiel deve determinar, decretar, reivindicar e exigir de Deus queEle cumpra sua parte no acordo; ao fiel compete dar dízimos e ofertas. A Deus cabeabençoar.Macedo ensina como proceder:Comece hoje, agora mesmo, a cobrar dEle tudo aquilo que Ele tem prometido (...) Oditado popular de que promessa é divida se aplica também para Deus. Tudo aquiloque Ele promete na sua palavra é uma dívida que tem para com você (...) Dar dízimos écandidatar-se a receber bênçãos sem medida, de acordo com o que diz a Bíblia (...)Quando pagamos o dízimo a Deus, Ele fica na obrigação (porque prometeu) de cumprira Sua Palavra, repreendendo os espíritos devoradores (...) Quem é que tem o direitode provar a Deus, de cobrar dEle aquilo que prometeu? O dizimista! (...) Conhecemosmuitos homens famosos que provaram a Deus no respeito ao dízimo e setransformaram em grandes milionários, como o sr. Colgate, o sr. Ford e o sr. Caterpilar.(MACEDO, Vida com Abundância, p. 36)E prossegue:Ele (Jesus) desfez as barreiras que havia entre você e Deus e agora diz  volte paracasa, para o jardim da Abundância para o qual você foi criado e viva a Vida Abundanteque Deus amorosamente deseja para você (...). Deus deseja ser nosso sócio (...). Asbases da nossa sociedade com Deus são as seguintes: o que nos pertence (nossa vida,nossa força, nosso dinheiro) passa a pertencer a Deus; e o que é dEle (as bênçãos, apaz, a felicidade, a alegria, e tudo de bom) passa a nos pertencer. (MACEDO, Vida comAbundância, pp. 25,85-86)Ao estabelecer esta relação de reciprocidade com Deus, o que ocorre é que Ele, Deus,fica na obrigação de cumprir todas as promessas contidas na Bíblia na vida do fiel.Torna-se cativo de sua própria Palavra.Devido a essa abordagem, a Teologia da Prosperidade é alvo de muitas críticas entreos pastores evangélicos, que alegam ser tal mensagem dirigida propositadamente aum contingente pobre que busca alívio para suas aflições. Ainda, que esta doutrinabusca confrontar Deus e diminuir sua soberania, pois é o fiel quem define qual seja avontade de Deus e não o contrário.Nas palavras do pastor batista Isaltino Coelho:Há poucos meses, ocorreu em Brasília um congresso que mostrava os princípios paraenriquecer. Um dos temas foi "Como se apossar das riquezas dos incrédulos"(...). Ateologia da prosperidade quer tirar a cruz do crente (...). Não se trata de masoquismoespiritual. Isto é uma lei da vida. No mundo há sofrimentos (...). A teologia daprosperidade é alienante, parcial, injusta, setorial e elitista. A idéia de que riquezas
  • 56. Pag. 56 Curso de Teologia Contemporâneapessoais são resultado de nossa espiritualidade agrada muito a quem tem bens.(Isaltino Gomes Coelho, pastor batista, Raio de Luz n. 91, 1993)Ao entender a Teologia da Prosperidade como injusta, cremos que o pastor citado estáconsiderando os muitos pobres, que durante longo tempo de suas vidas buscarãocompreender porque as bênçãos exigidas de Deus não ocorreram. Eles terão de lidarcom a angústia por terem falhado ou permitido que o Diabo roubasse sua graça. Ouseguir os conselhos de Edir Macedo: Nós ensinamos as pessoas a cobrar de Deus aquiloque está escrito. Se Ele não responder, a pessoa tem de exigir, bater o pé, dizer tô aqui,tô precisando. (MACEDO, Folha de S. Paulo, 20/6/1991).O tema da prosperidade faz-se bastante presente também nos cultos da IURD eprogramas de TV. Uma das técnicas utilizadas pela Igreja é a da repetição dasmensagens nas pregações: normalmente, versam sobre prosperidade financeira versusação diabólica. Ação que passou a ser denominada ao longo do ano de 2001 deencosto: termo bastante genérico para classificar diversos males espirituais e quetambém possui conotações pejorativas para as religiões afro-brasileiras. Isto pode serentendido como uma mudança de estratégia na abordagem acerca das artimanhassatânicas: o universo religioso a ser atacado continua sendo o mesmo, porém, semagredir frontalmente aqueles que participam de cultos espíritas, de umbanda oucandomblé. Numa programação diária, a Rede Record exibe o programa "Ponto de Luz Sessão Espiritual de Descarrego", em que o pastor e apresentador exorta os queassistem sobre os perigos de acabar se tornando vítima de um encosto, sujeição muitocomum, e ter a vida comprometida por estes espíritos. A ênfase recai sobre uma vidaanterior e sem prosperidade financeira, e a experiência atual, após tornar-se membroda Universal, em que o entrevistado declara ter havido melhora em seu padrão deconsumo. Subjaz no discurso um deslocamento que relega os fatores sociais comoconseqüências históricas, em favor da disputa, por Satanás, do Reino de Deus. Osproblemas sociais são bastante enfocados, porém, sem assumir ares de mudançasconquistadas pelos próprios homens, porque as "desgraças" ocorridas no dia a dia ouaté mesmo os valores sociais dominantes são fruto de uma atuação maléfica. Paraexplicar e enfrentar tal atuação, estão os homens escolhidos por Deus. Segundo Kepel,são homens com capacidade de inscrever os fatos acontecidos no mundo numasucessão de causalidades obedientes a um plano de Deus do qual eles seriam osintérpretes por excelência (...).No discurso da IURD e em suas mensagens, autorizadas pelos fiéis porquereconhecidas pelos mesmos como provenientes de Deus, é visível esta tendência demergulhar-se em um mundo somente espiritualista que reforça a figura do Diabo noinconsciente da coletividade; coletividade esta que luta todo o tempo contra o que nãovê, mas que está à sua volta: o Diabo; e purifica-se através do exorcismo: umaexpulsão pública do Mal que habitava o corpo do fiel.
  • 57. Pag. 57 Curso de Teologia ContemporâneaA este propósito devemos lembrar, mais uma vez, que segundo a doutrina da IURD, oindivíduo não é exatamente a sede do pecado, o que exigiria dele o arrependimento,mas uma vítima da ação maligna: o ato de pecar não deriva de sua escolha, mas o Malé fruto do encosto que atrapalha a sua vida, em especial a financeira, sinal de bênção.Essas práticas remontam a uma tradição de demonologia da época medieval, contudo,a perseguição empreendida contra Satanás se dá, hoje, numa expulsão pública eviolenta que expõe o possesso como a vítima canalizadora do Mal, e nãonecessariamente um indivíduo que fez um pacto com o Diabo. Num mundo queagoniza mediante as constantes lutas entre o Bem e o Mal, todos somos vítimas empotencial, sem responsabilidade pelos nossos atos, uma vez que vivemos à mercê deum conflito espiritual. Segundo Macedo, o mero contato ou aproximação comespíritas, por exemplo, pode acarretar em possessão demoníaca. Novamente éenfatizada a figura do Diabo, cuidadosamente construída através da Pedagogia doMedo.Medo, porque a satanização dos acontecimentos desenvolve estruturas emocionais nofiel que em tudo vê não a mão de Deus, ou a responsabilidade de seus atos sobre ocurso da sua história, mas do Diabo, que acaba por tornar-se um referencial decomportamentos socioculturais. Para a cura das doenças, solução para o casamento,prosperidade financeira e tantos outros problemas é necessário o exorcismo, que traráo milagre e a libertação. O próprio Macedo admite que, pelo menos na hora em queocorre o exorcismo, a pessoa fica curada. Ser curado ou adquirir livramento pelaexpulsão de Satanás é um ritual necessário, pois, conforme Macedo, a mera recusa emaceitar a atuação de um demônio pessoal é um indício de possessão.Desta feita, Deus, na IURD, é um instrumento nas mãos do fiel. Ironicamente, Ele,Deus, deve ser obediente e cumprir todas as exigências feitas pelo fiel, principalmentedaquele que paga o dízimo: Tudo que fazemos, seja correntes ou campanhas, é comespírito de luta, exigindo de Deus (grifo nosso) aquilo que Ele nos prometeu. (MACEDO,Mensagens, p. 22)A relação que se estabelece agrega um forte simbolismo ao dinheiro: o fiel propõetrocas com Deus para conseguir a bênção desejada. Cabe ao fiel demonstrar revoltadiante de Deus e "de dedo em riste" exigir que as promessas bíblicas se cumpram. ATerceira Onda ou Neopentecostalismo se caracteriza exatamente por este tipo derelacionamento do fiel com Deus, inspirada na Teologia da Prosperidade: o cristão temdireito a tudo de bom e de melhor neste mundo. Nas palavras de Macedo: A Bíblia temmais de 640 vezes escrita a palavra oferta. Oferta é uma expressão de fé. Se Deus nãohonrar o que falou há três ou quatro mil anos, eu é que vou ficar mal. (MACEDO, OGlobo, 29/4/1990).Neste discurso, a soberania de Deus é compartilhada pelo fiel na relação de troca. Éincentivado que o fiel se acomode ao mundo das novas tecnologias, acumule riquezas,
  • 58. Pag. 58 Curso de Teologia Contemporâneamore melhor, possua carro e não tenha sentimento de culpa por não negar o mundo;pelo contrário, a conduta ascética tem diminuído entre os pentecostais desde adécada de 70.Na relação de troca o fiel dá o dízimo, ofertas, participa das campanhas: É necessáriodar o que não se pode dar. O dinheiro que se guarda na poupança para um sonhofuturo, esse dinheiro é que tem importância, porque o que é dado por não fazer faltanão tem valor para o fiel e muito menos para Deus. (MACEDO, Isto É Senhor,22/11/1989).E tem a garantia dos pastores de que Deus cumprirá sua parte: Ele ficará na obrigaçãode cumprir Sua Palavra. (MACEDO, Mensagens, p. 23). E ainda, O ditado popular deque promessa é dívida se aplica também a Deus. (CRIVELLA, 501 Pensamentos doBispo Macedo, p. 103)A ênfase na necessidade de dízimos e ofertas é explicada pelos líderes da IURD: caso ofiel não alcance o sucesso almejado, a responsabilidade e a falha são suas:É certo que muitas pessoas neste mundo são ricas, mesmo sem possuírem Deus nocoração. Vencem, entretanto, porque confiam na força do seu trabalho, e por isso, sãopossuidoras de uma riqueza honesta e digna. (...) Reafirmo que nossa vida depende denós mesmos. (MACEDO, Mensagens, pp. 27, 22).Algumas das características do discurso iurdiano denotam a recomendação deautoconfiança; o fiel deve crer nele mesmo, em sua capacidade individual. A estratégiaoferecida pela IURD, baseada na Teologia da Prosperidade, estimula o membro daigreja a ser participativo nos cultos em relação a ofertas e dízimos e reivindicar peranteDeus aquilo que lhe pertence por direito. Se todo o discurso sobre espiritualidade vematrelado à intervenção do Diabo, quando se trata de dinheiro, o fiel tem de ir à luta ebuscar a Deus com revolta, que neste caso, assume um sentido de inconformidadecom a própria situação: doença, pouco dinheiro, ser empregado assalariado, etc., e éDeus quem tem que assumir Sua posição diante do fiel: a IURD assim o exige. PorqueDeus é obrigado  como em um contrato  a fazer sua parte; Ele é pago para isto!Depende apenas de você o que será feito de sua vida, pois quem decide nosso destinosomos nós mesmos. Não são as outras pessoas; não é Deus, nem o Diabo. (...) Nãoadianta ficar só jejuando ou orando. É preciso buscar o que você quer; fazer a suaparte, e então falar ousadamente com Deus, revoltado com a situação. Você deve daro primeiro passo, pois Deus não o fará por você. (MACEDO, Mensagens, p. 28)As doações em dinheiro ou bens são presentes colocados no altar de Deus, logo, parauma grande bênção, um valioso presente! A fé é um instrumento de troca; umamercadoria, e nesta relação "toma lá, dá cá", a imagem de Deus torna-se mais próximae trivializada, em oposição à doutrina difundida pelo protestantismo histórico e pelocatolicismo tradicional, a partir da qual reverência e submissão são enfatizadas.
  • 59. Pag. 59 Curso de Teologia ContemporâneaDependendo do grau de interesse do ofertante, o presente, por mais caro que seja,ainda assim se torna barato diante daquilo que está proporcionando ao presenteado.Quando há um profundo laço de afeto, ternura e amor entre o que presenteia e o querecebe, o presente nunca deve ser inferior ao melhor que a pessoa tem condições dedar. (MACEDO, O Perfeito Sacrifício: o significado espiritual do dízimo e ofertas, p. 12)O fiel deve sacrificar o "seu tudo". A IURD tem uma campanha em que estimula o fiel adoar o máximo que puder na espera da bênção. Muitas pessoas dão tudo o que têmnaquele momento de sua vida: uma caderneta de poupança, o dinheiro para comprarcomida, o dinheiro para o ônibus, e assim por diante.Aqueles que vêem as doações das ofertas com maus olhos, ou seja, do ponto de vistameramente mercadológico, principalmente do lado da Igreja, também têmdificuldades para compreender a razão da vinda do Filho de Deus ao mundo. (...) hajavista que a oferta está intimamente relacionada com a salvação eterna em CristoJesus. (MACEDO, O Perfeito Sacrifício: o significado espiritual do dízimo e ofertas, p.14)O adepto é conclamado a concorrer por melhores condições num mundo de extremadesigualdade social. E ainda tem de assumir uma responsabilidade a mais: a de tersucesso, senão sua vida pode estar comprometida com as forças malignas ou com suaprópria incapacidade de gerenciar suas possibilidades. Há muitas oportunidades paraaqueles que vivem nos bolsões de pobreza? É onde se encontram muitas igrejas daUniversal. Mas, mesmo assim, é preciso "sacrificar" diante de Deus e, de preferência,em dinheiro: Aqueles que examinam o custo do sacrifício jamais sacrificarão umagrande oferta, e aqueles que não sacrificam para a obra de Deus jamais conquistarãoqualquer vitória. (CRIVELLA, 501 Pensamentos do Bispo Macedo, p. 21).Colocado nestes termos, é o fiel quem decide: Tudo depende de você. Se perseverar,automaticamente conquistará as bênçãos de Deus. E assim, entrará na terraprometida. (MACEDO, Mensagens, p. 21).E a igreja administra a sua doação: A árvore proibida, no paraíso, representava odízimo, isto é, a parte de Deus na qual o homem não podia sequer tocar, emborapudesse regá-la e fazê-la crescer. (CRIVELLA, 501 Pensamentos do Bispo Macedo, pp.99-100). Já ao fiel cabe expulsar Satanás, participar das correntes de prosperidade, lersobre como muitos irmãos conseguiram resultados exigindo de Deus o que têmdireito. De resto, aquele que não alcançar uma bênção, não dará testemunho nemserá citado nos livros.
  • 60. Pag. 60 Curso de Teologia Contemporânea4. A VISÃO BÍBLICA E TEOLÓGICAEncontramos no Antigo Testamento pelo menos dez diferentes palavras da línguahebraica que pertencem ao mesmo campo de significado, a saber: prosperar, ter êxitoe sucesso, sair-se bem, fazer crescer, fortalecer, pacificar, ser frutífero, fartar-se eriqueza.Portanto, a Bíblia tem seu próprio conceito de prosperidade. Como este conceito étão diferente da maioria dos atuais, é necessário que estejamos atentos e abertos àantiga, porém sempre correta, proposta bíblica.O que é prosperar? Como a prosperidade, prioritariamente, não é obter vantagenspessoais ou ganhar dinheiro, como a Bíblia trata este assunto? Vejamos algunsexemplos: 1. O profeta Ezequiel relaciona prosperidade para a casa de Israel com a videira que dá frutos (Ez. 17.1-10; cf.Sl. 1.3); 2. Quando Josué assumiu a liderança do povo, em lugar de Moisés, Deus lhe fez algumas instruções decisivas que definem a prosperidade: ser forte e corajoso, não temer e andar nos seus caminhos (Js. 1.1-9); 3. Na oração de Neemias encontramos uma outra definição de prosperidade: praticar a misericórdia, isto é, ser bondoso e leal para com Deus e os seus semelhantes (Ne. 1.11); 4. Muitos textos bíblicos definem o êxito e sucesso na vida com a conduta sábia, o discernimento e a perspicácia no trato com a instrução de Deus (Dt. 29.9; 1 Rs. 2.3; Ec. 10.10; 11.6); 5. Trazer paz ao mundo também pode ser considerada uma atitude de sucesso (Sl. 122.6-7); 6. O povo de Deus entendia que fazer o bem e agir corretamente na vida era ser próspero (Jó 21.13; Sl. 106.5); 7. Uma definição bíblica que resume todas as demais é a seguinte: o próspero é uma pessoa que imita o agir de Deus. O Salmo 1 encontra esta pessoa. É o justo.Evidentemente, toda a Bíblia proclama que Deus é a causa direta da prosperidade dosjustos (Gn. 39.3,23; Is. 48.15; Ez. 17.9-10; Ne. 2.20). Entretanto, Deus usa umapedagogia, isto é, um jeito correto e instrutivo para nos dar a sua ajuda e sua graça.Assim, a Bíblia mostra que a prosperidade do povo de Deus vem:
  • 61. Pag. 61 Curso de Teologia Contemporânea o Pelo sofrimento e pela graça de Deus (Is. 53.10), que ensina que o começo de todo bem sucedido empreendimento humano reside na capacidade da pessoa para sofrer; o Pela fidelidade e lealdade a Deus e ao povo de Deus (Jr. 13.7-10; Dn. 6.9); o Pela busca do temor do Senhor (I Cr. 26.5); o Pela prática da justiça (Sl. 1.3); o Pela posse (descida) do Espírito de Deus (Jz. 14.6; 19; 15.14).É possível que estejamos repetindo conceitos e definições, porém a Bíblia é umatestemunha instrutiva. Ela, através de suas reportagens, nos oferece pistas paraobtermos sucesso na vida. Nela aprendemos que, em primeiro lugar, a obtenção deprosperidade é precedida de pedido, apelo, por parte da pessoa interessada (Sl.118.25); segundo, através de uma vida de piedade e fidelidade à instrução de Deus (Js.1.7-8; Dt. 29.9; I Cr.31.21); terceiro, através da insistente busca de sabedoria (Ec. 2.21;11.6).Também encontramos na Bíblia alguns textos que tratam a prosperidade de formabastante negativa. Para os autores bíblicos, a prosperidade como ganho, sucesso eêxito nos empreendimentos da vida conflita com os princípios básicos da fé.Dois textos ilustram estes princípios:1. Porque prosperam os malvados? (Jr. 12.1-6) Ao lermos este texto, percebemos queele é um corpo constituído de duas partes: na primeira, o profeta faz. Em tom dequeixa, uma tremenda acusação contra Deus (vv. 1-4); na Segunda parte, temos umadura resposta de Deus (vv. 5-6). Este tipo de diálogo apimentado, entre o profeta eDeus, nós o encontramos em Habacuque (1.2; 2.4) e constitui a preocupação centraldo livro de Jó.A questão geradora da queixa de Jeremias é: Porque os ímpios prosperam? Diantedisso, o profeta abre um processo jurídico contra Deus: Eu vou abrir um processocontra Ti (v. 1 a). O surpreendente, aqui é que ele acusa Deus de ter permitido, comseu silêncio, o Domínio dos malfeitores sobre os justos (comparar Ha. 1.2-4; 12-17).Sua justificativa tem dois tipos de argumento: O primeiro é direto: Apesar de seremdesleais (v. 1b), usarem dos feitos de Deus para encobrirem suas más ações, (v.2),provocarem a destruição dos animais e aves (v.4 a) e propagarem mentiras sobre Deus(v. 4b), esses malvados (como lobos vestidos de cordeiros) prosperam e gozam detranqüilidade (v. 1b) e o segundo é indireto: O profeta justifica sua acusação,mencionando algumas conseqüências danosas e provocadas pelos prósperos ímpios:primeiro, a gula de prosperidade alimenta e multiplica a deslealdade (v. 1b); segundo,a ansiedade pelo lucro fácil não tem limites, agredindo e destruindo a natureza a florae a fauna (v. 4 a) a ponto de justificar seus atos com uma mentira, Deus não vê o nossofuturo (v. 4b).
  • 62. Pag. 62 Curso de Teologia ContemporâneaO pequeno diálogo se encerra de modo surpreendente para o profeta: o pior estavapor vir. Aqui, o profeta não recebe uma resposta satisfatória e tranqüilizadora para oproblema do mal e do sofrimento, provocado pelas pessoas prósperas, que eleexperimentava na própria carne.2. A prosperidade dos ímpios incomoda os crentes (Sl. 37.1-40). Este Salmo mostraoutro exemplo da crise de fé causada pela prosperidade das pessoas más, egoístas,violentas, opressoras e descrentes. A maior parte do Salmo é admoestação (vv. 1-11 e22-40). O restante trata das descrições do inimigo (vv.12-15), do justo e do ímpio(vv.16-26).O salmista busca orientar, animar e sustentar a esperança do crente fiel para que estese mantenha firme diante de toda provocação causada pela prosperidade dos ímpios(vv. 10.39-40).Diante do sucesso dos malvados, o salmista recomenda: o Não te exasperes, não invejes (v.1); o Confia no Senhor e faze o bem, habita a terra e cultiva a fidelidade, põe tuas delícias no Senhor, confia teu caminho ao Senhor e nele espera, descansa no Senhor e espera nele, não te exasperes, acalma a ira, reprime o furor (vv. 2-8); o Evita o mal e faze o bem (v.27); espera no Senhor e segue o caminho (v.34); o Observa o homem íntegro e atenta no que é reto (v. 37) o Todas estas recomendações são justificadas pela fé na atuação de Deus. o Ele satisfará os desejos de teu coração; fará surgir tua justiça como a aurora e o teu juízo como o meio-dia; o Ele realizará os desejos de teu coração e atuará (vv. 4-6); o Os malfeitores serão exterminados e os que esperam no Senhor possuirão a terra (v.9); o O Senhor se ri do ímpio, porque vê chegando seu dia (v. 13); o O Senhor firma os passos do homem... porque ele o sustenta pela mão (v. 24); o Ele ama o que é justo e não sustém os justos (v. 17); o Ele conhece os dias dos íntegros (v. 18); o O Senhor não abandona os que lhe são fiéis (v. 28); o O Senhor não entrega o justo nas mãos dos ímpios, nem permite que o condenem no tribunal; o Ele te dará posse da terra (vv. 33-34); o O Senhor socorre e livra os justos (v. 40).A extensa lista de justificativas tem sua razão, pois, certamente, a prosperidade cresciaentre o ímpios. Em conseqüência disso, o salmista (bastante perturbado!) escreve esse
  • 63. Pag. 63 Curso de Teologia Contemporâneamanual de instrução para os crentes, que poderíamos intitular: COMO ENFRENTAR ASOBERBA DOS ÍMPIOS.Como enfrentar a soberba dos ímpios. Diante de nós estão duas experiências, mas umsó problema: a tentadora idéia de ser financeira ou artisticamente próspero. A difícilexperiência de Jeremias e a crise de fé vivida pela comunidade do salmista podem noslevar a estabelecer uma cartilha orientadora para os crentes.A Bíblia conhece a prosperidade como uma atitude sábia de enfrentar e responder àsagressões da vida com bondade, lealdade, fé, ação justa, solidariedade (Sl. 37.6).A idéia de prosperidade, espúria à Bíblia, é a mesma oferecida a Jesus por satanás (Mt.4.1-11; cf. Mc.1.12-13; Lc. 4.1-13). É uma prosperidade relacionada a dinheiro, lucro, êxito na vida esucesso nos empreendimentos pessoais. Na denúncia de Jeremias (12.1-6), osprósperos são inimigos do servo de Deus, cometem perversidade contra as pessoas,contra a natureza, promovem a descrença. No caso do salmista, o perfil dos homensprósperos é mais amplo, e a repercussão de seus atos é, aparentemente, maior. Ogesto dessa gente má provoca sentimentos de indignação e inveja (v.1), irritação (v.7),ira, furor e impaciência (v. 8), entre outras reações. Por todas essas razões, a Bíbliadistingue dois tipos de prosperidade.A forma de prosperidade, denunciada por Jeremias e pelo salmista, é extremamenteperigosa para a estabilidade e o bem-estar da vida humana. É uma prosperidade quegera pobreza, desnível social, descrença, sacrifício dos mais fracos, falta desensibilidade para com a natureza, soberba de uns e humilhação de outros, complexosde inferioridade, medo. Tudo isso ocorre porque o valor maior é o dinheiro, apromoção pessoal, o êxito empresarial. Quando a dignidade humana estiver sujeita aodinheiro, o mundo ficará perigoso para se viver. É por essa razão que o salmista grita:“socorro, Senhor!” (Sl. 12.1) e o profeta Jeremias se impacienta: “Até quando”? (Jr.12.4). O sistema de vida que a teoria da prosperidade defende está cheio decompetições: patrão/empregado; nação rica/nação pobre. Quem é mais forte exploraou elimina o mais fraco.O texto de Jeremias e o de Salmos ensinam o crente como enfrentar o sistema de vidados prósperos. Ambos sugerem formas para confrontar esse inimigo. O salmista é maisobjetivo e sugere formas de enfrentar essa praga que está apagando da memória dopovo o conhecimento de Deus. O texto de Jeremias (12.1-6) reflete toda aperplexidade do crente diante do crescimento de prosperidade e poder dos ímpios.Enquanto isso, o Salmo 37 tenta instruir os crentes fiéis para enfrentar o problema.Quando a Bíblia fala da justiça divina, ela não quer dizer que Deus castiga os pecadorese premia os justos. Se isso ocorresse, os templos estariam abarrotados de pessoas.
  • 64. Pag. 64 Curso de Teologia ContemporâneaAcontece que o ensino bíblico acerca da justiça divina não é utilitarista. O princípio, édando que se recebe, não retrata bem o ensino da justificação.A solução do problema em torno da prosperidade dos ímpios e do sofrimento dosjustos não é imediata, isto é, a transferência direta dos bens dos ímpios para oscrentes. A Bíblia ensina que a superação desse problema não tem data marcada, masestá na fidelidade do justo (cf. Hab. 2.4). Tanto Jeremias como o salmista não orientamos perplexos crentes a fugirem para longe dos ímpios, mas a se manterem firmes na fé.Por isso o grande apelo do salmista é: confiar em Deus (vv. 3,5,7,34) e esperar que umdia a justiça divina possa restabelecer a paz na terra.5. Considerações finais1. O estudo sobre o tema da prosperidade deve levar em consideração todos os textosbíblicos e não apenas alguns em particular, como os teólogos da prosperidadecostumam fazer para sustentar suas idéias;2. O estudo deve levar em conta o contexto no qual surge o tema da prosperidade e,portanto, seguir rigorosamente os princípios de interpretação bíblica;3. O conceito bíblico de prosperidade contrapõe, como vimos anteriormente, oconceito difundido hoje em dia nos meios evangélicos. Na abordagem do tema énecessário que esta diferenciação seja considerada.4. Deve ficar sempre claro que Deus é o autor da vida, consequentemente, Ele é oresponsável pelo sucesso, pelo êxito ou prosperidade do Seu povo;5. Vivemos numa sociedade que busca a prosperidade a qualquer custo, renunciando asolidariedade, a justiça, o bem-estar dos outros, atitudes estas compatíveis à cidadaniado Reino de Deus.6. Informações sobre o professorPr Josias Moura de Menezes foi Professor nas seguintes instituições: STEB(Seminárioteológico Batista Mineiro), Faculdade Batista da Lagoinha (BH/Minas Gerais),Seminário Congregacional de Brasília/DF (Extensão), Fater (Faculdade Teológica doRecife), Curso preparatório para Lideres: Igreja Congregacional Central de BH/ MG,STEAD - Seminário teológico Evangélico Assembléia de Deus no Rio Grande do Norte -Extensão Macau/RN. Atualmente leciona no Instituto Bíblico Betel Brasileiro em JoãoPessoa e no STEC - Seminário Teológico Congregacional.Lecionou nestes anos as seguintes matérias: Teologia sistemática, Hermenêutica,Homilética, teologia pastoral, administração eclesiástica da igreja, Implantação edesenvolvimento de igrejas, Análise em Romanos e Apocalipse, Liderança cristã,
  • 65. Pag. 65 Curso de Teologia ContemporâneaAconselhamento pastoral, Escatologia, Introdução a filosofia, TeologiaContemporânea, Apologêtica, Filosofia da Religião e Lógica Filosófica.Na área secular lecionou: Comunicação e postura pública, Marketing pessoal,planejamento estratégico, Relações humanas na empresa, Cursos de informática(Windows,Word, Acess, Excel, Internet, Corew Draw), Música instrumental.Para outras informações acesse o site: www.josiasmoura.wordpress.com