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Saffer elenca as principais características requeridas    5. Método e técnicas de pesquisade um bom design para interface ...
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NOTA: Esta pesquisa foi elaborada para oPrograma Avançado de Cultura Contemporânea daUniversidade Federal do Rio de Janeir...
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Artigo luiz-agner-usihc-2012

  1. 1. USABILIDADE DO JORNALISMO PARA TABLETS: UMA AVALIAÇÃO DA INTERAÇÃO POR GESTOS EM UM APLICATIVO DE NOTÍCIAS Luiz Agner Doutor em Design pela PUC-Rio1. IntroduçãoO presente trabalho propõe uma avaliação deusabilidade, comunicabilidade e arquitetura deinformação das interfaces que são comuns nasmídias que pressupõem a interação por meio degestos, tendo como embasamento teórico aErgonomia da Interação Humano-Computador(IHC), a Semiótica, a Arquitetura de Informação(AI) e os estudos em Cibercultura.O que se pretende é fornecer uma contribuição para Figura 1 - Gestos conduzem a navegação do leitor na ediçãoa definição de novos parâmetros que venham a digital “O Globo A Mais”, vespertino do jornal O Globo com conteúdo exclusivo para o Ipad.orientar o Design, a editoração visual e o processode criação de interfaces, de forma a garantir aqualidade da interação - respeitando-se as 2. Os tablets e as novas práticas de leiturapossibilidades, limitações e requisitos cognitivos doleitor imersivo, durante o uso de dispositivos móveis Em uma década, o computador se transformou, deequipados com aplicativos de notícias. uma tecnologia culturalmente invisível, em um mecanismo fundamental da nossa culturaDesse modo, o presente estudo vai buscar um (Manovich, 2010).método de abordagem da interação baseada emgestos, acolhendo a contribuição de diferentes linhas Desse modo, a nossa sociedade adicionou uma novateóricas - como as que propõem aplicar conceitos da e fundamental dimensão à cultura: o software, e emErgonomia e da Semiótica ao desenvolvimento de particular, o software cultural que nos permiteinterfaces - avaliando a usabilidade na apresentação acessar, produzir e compartilhar conteúdos. Asde conteúdos noticiosos. Interessa-nos interfaces (ícones, gestos, folders, sons, animações,especialmente a abordagem das interfaces voltadas cliques e toques) são também, em si mesmas,para a disseminação da informação em apps de softwares culturais intermediando interações entrepublicações jornalísticas digitais para o Ipad. pessoas e mídias, e entre pessoas e pessoas. Nesse contexto, percebe-se que novas práticas deApresentaremos e analisaremos, neste artigo, para leitura têm surgido – mediadas pelas interfaces deefeito de estudo de caso, alguns aspectos da dispositivos portáteis como os e-book readers eprodução e do consumo de conteúdos informativos, tablets – inseridos e absorvidos rapidamente peloenriquecidos com recursos de hipermídia e de mercado editorial e pelos jornais. São exemplosinteratividade, no aplicativo O Globo A Mais, uma dessas novas práticas a leitura conectada e a leiturapublicação vespertina para o tablet da Apple, do compartilhada.jornal carioca O Globo (figura 1).
  2. 2. Surge no mercado de consumo uma profusão de Entre as revistas brasileiras que já possuem versãotablets, computadores móveis em formato de para tablet podemos citar: Veja, Exame, Cartatabuletas com telas sensíveis ao toque, interação por Capital, IstoÉ, IstoÉ Dinheiro, Info, Casa e Jardim,gestos e conexão sem fio à Internet. Entre os tablets Época, Época Negócios, Status, Superinteressante,podemos citar, além do Ipad, os seus concorrentes: Você S/A, Caras, Galileu, Quatro Rodas, Casa eKindle Fire, HP Touch Pad, Sansung Galaxy Tab, Construção, etc. Entre as estrangeiras: Time,LG Optimus Tab, Motorola Xoom, Blackberry Newsweek, Life, Wired, Vogue, The New Yorker,Playbook, Toshiba Folio, Positivo Ipy, e Acer Popular Mechanics, Fortune, Rolling Stone,Iconia, entre outros. National Geographic, MacWorld, Sports Illustrated, entre outras (Bouças, 2011).Diante das mudanças que se avizinham, a indústriada mídia se reposicionou e o jornalismo procura se Como foi colocado, esta pesquisa focalizará, comoreinventar para acompanhar a revolução: um estudo de caso, a publicação vespertina O Globo Aexemplo é o jornal The Daily, lançado Mais, lançada pelo principal diário carioca, um dosexclusivamente para o formato Ipad. Outro exemplo primeiros do mundo a apresentar um conteúdode publicação nesta linha é o aplicativo brasileiro O exclusivo produzido para o tablet da Apple.Globo A Mais, da empresa jornalística O Globo. 4. Um novo paradigma: a interação gestualCabe-nos o desafio de investigar se, e de que forma,essas recentes tecnologias de produção e consumo Segundo Saffer (2009), um gesto pode serda informação influenciaram a efetividade, a considerado como qualquer movimento físicoeficiência e a satisfação (leia-se usabilidade) do detectado através de sensores por um sistema digital,leitor durante a interação com as novas mídias, na ao qual poderá responder sem o auxílio deconstrução dos significados da leitura (Agner, 2011). mecanismos tradicionais, como mouses ou canetas. Gestos originam-se de qualquer movimento ou3. A revolução na linguagem jornalística estado do corpo humano.Segundo a reportagem da tv GloboNews (2011), a Desse modo, um movimento de cabeça, um piscarhistória do jornalismo para dispositivos móveis está de olhos ou um toque no chão com a ponta do sapatoarriscando os seus primeiros passos. De acordo com pode ser interpretado como um gesto. Oa Associação de Editores Online dos EUA, os reconhecimento de gestos é um tópico específico daleitores de jornais norte-americanos que usam tablets Ciência da Computação e da Tecnologia daseriam, já no início deste ano, 54 milhões de Linguagem e objetiva interpretar a comunicaçãopessoas. Os aplicativos de notícias já estariam entre corporal humana a partir de algoritmos matemáticos.os mais usados nos novos dispositivos portáteis.Após a popularização dos tablets, surge a inevitável Stevens (2011) lembra-nos que as “antigas”indagação: como produzir e consumir textos interfaces WIMP (windows, icons, mouse, pointer)noticiosos no novo formato para a mídia digital? tiveram sua origem nas décadas de 60 e 70 nos laboratórios PARC da Xerox. Sistemas desse tipoAo discutir a busca de uma nova linguagem para os utilizam o deslocamento do mouse em umajornais e revistas produzidos para dispositivos superfície horizontal plana para mover ou selecionarmóveis, Primo (2011) pretendeu pensar sobre o objetos correspondentes na tela. Nos últimosfuturo dos periódicos, salientando que a inovação quarenta anos, temos interagido do modo concebidoainda é pouca e que estes engatinham no novo por Douglas Engelbart, Alan Kay, Tim Mott, Larryformato. Em sua opinião, o jornal The Daily estaria Tesler, e outros engenheiros e designers da época:compreendendo bem a utilização das através da metáfora do desktop. Mas esses métodospotencialidades da linguagem dos tablets, pois de manipulação indireta estão sendo rapidamenteapresenta um conteúdo inédito para o formato, com preteridos em função da manipulação diretavinculação a mídias sociais. (conceito seminal proposto por Ben Shneiderman em 1983) e, em poucos anos, os sistemas centrados no mouse provavelmente nos parecerão tão arcaicos como hoje são as interfaces de linha de comando ao estilo MS-DOS.
  3. 3. Saffer elenca as principais características requeridas 5. Método e técnicas de pesquisade um bom design para interface gestual. São elas:(1) detectabilidade: refere-se à importância das O projeto de pesquisa empregado neste trabalhoaffordances, conceito cunhado pelo psicólogo inclui duas técnicas de ênfase qualitativa: asGibson e popularizado por Don Norman; (2) entrevistas exploratórias semiestruturadas e a técnicaconfiabilidade: a interface deve parecer segura; (3) de observação de usuários STBI.ser responsiva: fornecer uma resposta instantânea aousuário (em até 100 milissegundos); (4) adequação: As entrevistas exploratórias procuraram reunirprecisa ser adequada ao contexto (dependendo da depoimentos colhidos com profissionais do mercadocultura, há gestos que são insultuosos); (5) envolvidos com a criação e produção de conteúdosignificância: ter significado específico para as para aplicativos de jornais ou revistas voltados paranecessidades do usuário; (6) inteligência: deve os tablets (particularmente o Ipad, da Apple):realizar eficientemente o trabalho que o ser humano jornalistas, designers, editores, produtores, técnicosnão pode realizar tão bem; (7) sutileza: a capacidade e especialistas em experiência do usuário. Nestede predizer as necessidades do usuário; (8) artigo, apresentaremos alguns resultados de duasdivertimento: gerar o engajamento do usuário destas entrevistas, com a reprodução de algumasatravés da diversão; (8) estética: deve ser prazerosa declarações selecionadas pertinentes ao estudo deaos sentidos visual, auditivo e háptico; (9) ética: não caso.solicitar gestos que façam as pessoas pareceremtolas em público ou que só possam ser executados Após as entrevistas, será aplicado o método depor jovens e usuários saudáveis. observação denominado STBI - Scenario and Tasks Based Interviews (Entrevistas Baseadas em CenáriosApesar de todo o alvoroço mercadológico gerado em e Tarefas), uma variante do teste de usabilidade notorno das possibilidades abertas pelos novos campo - alternativa desenvolvida pelo autor, emdispositivos, em recente coluna para a revista parceria com outros pesquisadores de InteraçãoInteractions, o psicólogo cognitivo e pesquisador da Humano-Computador. Esta técnica foi inicialmenteInteração Humano-Computador (IHC), Donald aplicada à avaliação de usabilidade de dispositivosNorman, apontou que a recente corrida dos móveis empregados durantes a coleta de dadosengenheiros de software para desenvolver interfaces demográficos assistida por computadores de mão egestuais tem levado ao esquecimento dos princípios será comentada com detalhes mais adiante.e dos padrões sedimentados do Design de interação(Norman e Nielsen, 2010). Os problemas atuais das A amostragem será do tipo intencional, uma amostrainterfaces gestuais lembram os primórdios da web e não probabilística subordinada aos objetivosdo lançamento do navegador Mosaic, quando os específicos da pesquisa.recursos de mapeamento de imagens eram utilizadosde modo indiscriminado e incoerente pelos 6. Resumo das entrevistas realizadasdesigners. Conforme informado no tópico anterior, uma dasSegundo Norman e Nielsen (2010), as interfaces que técnicas qualitativas de pesquisa aplicadas ouviuse beneficiam dos recursos de interação gestual têm alguns profissionais do mercado envolvidos com asido desenvolvidas com ignorância em relação a produção de conteúdo e o design de aplicativos paraprincípios elementares e padrões consolidados do Ipad. Entrevistamos Adriana Barsotti, carioca, 43Design de Interação. Parecem esquecer qualidades anos, jornalista formada pela ECO-UFRJ (1988),essenciais de um projeto de interação como, a mestranda em Comunicação Social pela PUC-Rio evisibilidade de affordances, o feedback, a editora de pesquisa e desenvolvimento digital doconsistência, as reversibilidade de ações, a jornal O Globo. Entrevistamos também Telio Lealdetectabilidade de funções, a escalabilidade das Navega Junior, 42 anos, designer formado peloresoluções de telas e a confiabilidade das operações. Centro Universitário da Cidade (RJ), com pós- graduação em Ensino da Arte pela UniversidadePor ser um tema emergente e complexo, ainda não Veiga de Almeida (RJ), diagramador d’O Globo Ahá estudos relevantes nesta linha realizados no Mais e blogueiro do site O Globo.Brasil, com usuários de língua portuguesa.
  4. 4. Ambos nos forneceram informações importantes Segundo Telio Navega, ainda não houve umapara a compreensão do processo de trabalho pesquisa específica de usabilidade sobre o novoempregado pela equipe de redação e de produção do produto:aplicativo. “A gente não fez ainda essa pesquisa porque temAdriana descreve-nos a sua função de editora como somente dois meses que saiu. Além disso, havia a“um trabalho que mistura um pouco a concepção de questão do sigilo.”um produto novo (o que tradicionalmente seriatarefa do Marketing) e a edição.” Apesar de não terem sido aplicados testes de usabilidade para avaliar as interfaces gestuais doNa posição de quem faz a interlocução entre a aplicativo, a equipe identificou uma série deredação e a tecnologia, Adriana nos explica que o questões pertinentes quanto a este aspecto. Segundoseu objetivo ali é “desenhar o escopo dos projetos, Adriana:definir junto com as editorias os objetivos de umnovo site ou produto, que funcionalidades ele que “A gente percebeu vários entraves na usabilidade:precisará ter, e discutir as possibilidades e algumas matérias, por exemplo, tinham muito maisalternativas com a área de tecnologia. Ou seja, a conteúdo e os leitores “passavam batido”, ou seja,concepção de qualquer produto digital, seja para nem percebiam que ele existia... Outros problemasweb, seja para celular ”. de usabilidade eram: a orientação horizontal e vertical, e como retornar ao ponto inicial, dentro doAdriana nos informa como se deu a concepção do Globo A Mais como também no aplicativo como umprojeto do vespertino, a partir de uma pesquisa de todo”.prospecção e identificação de novos hábitos deleitura entre os leitores de O Globo: Alguns problemas identificados foram abordados e resolvidos pela equipe de forma “intuitiva”, a partir“Fizemos pesquisas entre os usuários do aplicativo da verificação do modelo de uso do aplicativo entredo Globo antigo (que apresentava apenas a os próprios colegas de redação:reprodução da edição impressa, com link para osite) para identificar os hábitos de leitura.” “A gente notou que, se fosse ao ar daquele jeito, as pessoas não encontrariam todo o conteúdo e nãoDe acordo com Telio Navega, diagramador da saberiam como usar o produto. Iria ter muito ruídoequipe do Globo A Mais: e muita reclamação. Isto eu acho que é uma novidade para o jornalismo porque a gente nunca“Nossa idéia era fazer um vespertino, um jornal que teve que se preocupar com isto [a usabilidade dassaísse às seis horas da tarde e fosse pegar o público interfaces]... Então a gente resolveu inserir diversosque estivesse saindo do trabalho. Um produto ícones que, muitas vezes, podem ser redundantesindependente do jornal impresso, com conteúdo para o usuário que está acostumado e tem maisexclusivo que antecipasse o que vai sair no dia intimidade com os tablets. Preferimos pecar peloseguinte no Globo.” excesso [de ícones] do que pela falta”(figura 2).Em consonância com o enfoque e os objetivos desteartigo, perguntamos aos entrevistados sobre aexperiência do usuário e a usabilidade do aplicativo.A editora Adriana Barsotti afirmou que tem poucosdados disponíveis para passar:“Quanto a isto temos poucos dados para te passar.Inicialmente, foi para o ar uma versão com umdownload muito demorado, o que acabou ofuscandoa crítica em relação ao produto editorial em si.Todas as opiniões na loja da Apple se concentraramnisso (críticas ao download). Além disso, a gente Figura 2 – Alguns dos signos metalingüísticos de apoio àacha que é muito cedo para fazer pesquisas, então a navegação do leitor virtual, espalhados pelo conteúdogente ainda não fez...” hipermídia do aplicativo O Globo A Mais.
  5. 5. A editora Adriana Barsotti nos dá mais detalhes novo programa para o enriquecimento (áudio,sobre os ícones do aplicativo: vídeo, fotos etc.). Não é uma ferramenta comercial, é um programa personalizado desenvolvido pela“Nós poluímos a interface com diversos ícones de DigitalPages, a empresa que armazena e hospeda‘mãozinhas’, porque três semanas antes do os arquivos do Globo A Mais. A gente o chama delançamento nós começamos a fechar edições como ‘programa enriquecedor’.”se fossem para valer. Neste ponto, as pessoas daredação d’O Globo que estavam fora do projeto Com o conteúdo enriquecido com fotos, animações,começaram a usar: o diretor de redação, os editores infográficos, vídeos, áudio e interação por gestos, oexecutivos... E aí a gente percebeu que eles tiveram aplicativo de notícias tem atraído a simpatia dosdificuldades, apesar de já serem usuários de jornalistas mais antigos de O Globo,tablets”. tradicionalmente ligados à mídia impressa, explica Telio Navega:De acordo com a editora: “O jornalista de texto está adorando porque“Eles [os autores do projeto gráfico e de interação] consegue publicar um texto inteiro no Ipad (nopartiram da premissa de que os usuários já estavam papel a sua matéria seria cortada). O scroll é umaíntimos da tecnologia dos tablets, e a primeira palavra mágica para o jornalista antigo, aí ele ficainterface criada não era tão explícita no que se naquele ‘scroll eterno’ de várias páginas. Eles estãorefere a onde você deveria tocar, onde deveria virar todos empolgados. (...) Devido a estes recursos deas páginas, onde encontrar mais fotos, onde ampliar enriquecimento extra, o leitor permanece maisos vídeos, etc”. tempo lendo no Ipad em comparação com o impresso. Os jornalistas das ‘antigas’ podem serSegundo Adriana, O Globo A Mais foi criado com lidos de uma forma diferente, a que não estãobase no projeto gráfico desenvolvido pelo escritório habituados. E todos querem ser lidos.”espanhol de design Cases, empresa contratada para oredesenho dos produtos de O Globo, sendo que o A editora Adriana Barsotti esclarece as razões doprojeto acabou ficando muito mais parecido com sucesso do novo produto dentro da redação:uma revista do que com um jornal: “A redação d’O Globo impresso sempre ofereceu“Esta não foi a intenção inicial explícita, mas o muita resistência ao site da internet. Este sempre foibriefing passado para a empresa que fez o layout foi o patinho feio. Os repórteres não enxergam o siteo de que seria um produto que fizesse um recorte do como uma vitrine, eles querem publicar nodia até aquele horário, sem atualização, para não se impresso, pois aí a matéria repercute mais. No casotornar mais do mesmo.” da publicação no tablet, aconteceu justamente o contrário: as pessoas do impresso todas queremO diagramador Telio Navega explica: publicar no Globo A Mais. E este é o pulo do gato dos tablets, pois você tem uma experiência de“O projeto da Cases incluiu o papel [a edição leitura agradável juntamente com todas asimpressa de O Globo], o site (que está no ar) e o vantagens da internet, numa interface gráfica bonitaIpad. Buscaram a padronização para facilitar a e prazerosa, que une os dois mundos.”produção, mas o enriquecimento do conteúdo é oque nos dá mais trabalho.” E Adriana conclui:Telio nos conta como a equipe de diagramadores de “Pela primeira vez, o glamour do impresso estáO Globo A Mais costuma trabalhar para fazer o presente”.enriquecimento de conteúdos a partir das soluçõesdesenvolvidas pela empresa paulista DigitalPages, O diagramador Telio Navega afirma que estáresponsável por viabilizar tecnologicamente o apreciando muito a experiência de trabalhar em umprojeto do escritório espanhol Cases: projeto inovador, que considera um legítimo representante do “futuro do jornalismo”.“No Ipad, nós fazemos a página no InDesign[software de diagramação] e precisamos de um Segundo ele:
  6. 6. “As pessoas não lêem mais jornal. Os leitores de Tarefas (STBI – Scenario and Tasks Basednotícias estão na Internet, não compram nem Interview).assinam mais jornais. Esta é a grande dificuldadedos jornais atuais: as pessoas que trabalham nos Este método, também de cunho qualitativo, foijornais são pessoas mais velhas, que estão longe proposto a partir da flexibilização dos testes dedeste público, e não conseguem entender o que usabilidade de campo, de modo que pudessem seracontece.” adaptados ao contexto do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A técnica dePara Adriana Barsotti, os jornais brasileiros estão em avaliação foi pensada para ser aplicada com acondições privilegiadas em relação aos estrangeiros, participação de usuários que utilizam PDAspois não vivem quedas significativas nas vendas. (Personal Digital Assistants), dispositivos móveis para coleta de dados durante as pesquisas estatísticas“Temos esta vantagem: podemos experimentar um domiciliares. Esta será a primeira vez que a técnicaproduto novo sem colocar em risco um negócio que STBI será aplicada para um estudo de usabilidadeainda é a galinha dos ovos de ouro”. relacionado a aplicativos para tablets.Segundo Adriana: A técnica está descrita com mais detalhes em uma dissertação de mestrado do Departamento de“A aposta é que o Globo A Mais atraia outros tipos Informática da UNIRIO – Universidade Federal dode leitores para o Globo, porque a publicação já Estado do Rio de Janeiro (Tavares, 2011).carrega o entretenimento dentro dele. Você podeestar falando sobre o tema mais sério, e você tem ali A expressão Entrevista Baseada em Cenários ealgo lúdico”. Tarefas foi cunhada para evitar gerar ansiedade nos participantes e para evitar sugerir que estariamDe acordo com Telio, o sucesso da nova publicação sendo “testados” - pois o teste é, na verdade, dorefletiu-se no aumento das vendas de assinaturas: software. É um tipo de entrevista semi-estruturada fundamentada em cenários de uso, tarefas e“Com este lançamento, O Globo dobrou o seu declarações – registradas em áudio e vídeo.número de assinantes digitais: ficamos surpresos.Voltar para o papel é uma coisa que não queremos A amostra de participantes dessas Entrevistas seránem pensar!” composta basicamente por jovens, estudantes do ciclo básico do curso de graduação em ComunicaçãoEntretanto, apesar do sucesso e da inovadora Social de uma universidade particular no Rio delinguagem conquistada, observa-se que a publicação Janeiro. Estes alunos ainda optarão futuramente porainda não possui uma editoria de design específica, uma de suas habilitações: Publicidade e Propaganda,com foco no design de interação com os usuários Rádio/TV ou Jornalismo.(UX). Segundo a Adriana Barsotti: 8. Palavras finais“Não temos uma editoria de design específica, aárea de arte do jornal [impresso] produz para o Este trabalho pretende fornecer uma contribuiçãoIpad também, mas não é uma editoria à parte. Nós para a definição de parâmetros que venham atemos aqui três diagramadores que vieram do jornal orientar o Design, a editoração visual, e o processoimpresso. Na fase de concepção do produto, a gente de criação de interfaces, de forma a garantir apercebeu que ele tinha mais características de qualidade da interação - respeitando-se asimpresso do que de site.” possibilidades, limitações e requisitos cognitivos do leitor imersivo.7. Desdobramentos da pesquisa Desse modo, o presente estudo acolherá aApós a conclusão da etapa de entrevistas contribuição de diferentes linhas teóricas - como asexploratórias, o presente trabalho de pesquisa que propõem aplicar conceitos da Ergonomia e dainiciará uma segunda rodada de avaliações que fará Semiótica ao desenvolvimento de software -uso do método de observações com usuários, avaliando a meta-comunicação e a usabilidade nadenominado Entrevistas Baseadas em Cenários e apresentação de programas de notícias. Interessa-nos especialmente a abordagem das interfaces gestuais
  7. 7. voltadas para a disseminação da informação editorial parâmetros que orientem o trabalho dos designers deem jornais e revistas digitais criados para tablets. interação que pretendem desenhar publicações para dispositivos com interfaces sensíveis aos gestos sobDe acordo com Manovich (2008), temos a o ponto de vista da sua centralidade no leitornecessidade premente de investigar a onipresença do imersivo.software na contemporaneidade, pois ele passou adesempenhar um papel fundamental em nossa 10. Referências bibliográficascultura. As interfaces (ícones, folders, sons, gestos,animações, cliques e toques) são, em si mesmas, AGNER, Luiz. Em busca de um olharsoftwares culturais que intermedeiam as interações interdisciplinar sobre a arquitetura de informação, adas pessoas com as mídias e delas com as outras usabilidade e a metacomunicação em dispositivospessoas. Podemos observar que as interfaces de móveis com interfaces gestuais. Anais do Simpósiointeração natural (natural user interfaces) integram- Nacional da ABCiber. Florianópolis: ABCiber,se neste contexto geral. 2011. ISBN: 978-85-61682-64-4Atualmente, pode ser notada a emergência de BOUÇAS, Cibelle. Revistas têm nos tablets novapráticas de leitura mediadas por computadores fonte de receita. Valor Econômico, 2 de dezembroportáteis, máquinas pessoais poderosas basicamente de 2011. Pág B3.voltadas para a recepção e a leitura de informação,para internet, interação social e jogos – que estão GLOBONEWS. Programa GloboNews Especial:sendo inseridas na nossa cultura cotidiana e no Evolução dos tablets obriga o jornalismo a semercado editorial, com grande impacto e velocidade. encaixar em um novo formato de informação – 10/07/2011 [online]. Disponível emAs telas sensíveis ao toque hoje difundem notícias, http://g1.globo.com/videos/globo-news/globo-news-fotos, infográficos, ilustrações, charges, anúncios, especial/. Acesso em julho 2011.crônicas e editoriais que se tornaram dinâmicos, coma inclusão de áudio de qualidade, vídeos, animações, MANOVICH, Lev. Software Takes Command.vibrações e fotografias manipuláveis, tudo com Version november 2008 [online]. Disponível emgrande apelo estético e visual. O modelo de www.softwarestudies.com/softbook . Acesso:interação sensível aos gestos, adotado por essas dezembro 2010.máquinas, levanta a promessa de revolucionar arecepção e os requisitos de produção da linguagem NORMAN, Donald; NIELSEN, Jakob. Gesturaljornalística. Interfaces: A Step Backward in Usability. Interactions. Vol. 17, issue 5, sept-oct. 2010. p. 46-Este artigo tem o objetivo de iniciar a discussão de 49.alguns aspectos de uma pesquisa em curso, queprocura centrar-se na recepção e no consumo de PRIMO, Alex. Núm3ro Primo: Jornalismo para Ipadnovas formas de apresentação da informação e Kindle [online]. Disponível emjornalística, disseminadas com a introdução de http://www.youtube.com. Acesso: Junho 2011.tecnologias de interação baseada em gestos —discutindo-as e problematizando-as a partir da SAFFER, Dan. Designing gestural interfaces.incorporação de conceitos e métodos de avaliação O´Reilly, Sebastopol, 2009.multidisciplinares. STEVENS, Chris. Designing for the iPad. JohnApresentamos aqui aspectos e informações inéditas Wiley & Sons, 2011. 336p.de nossa pesquisa com ênfase nos resultados de duasentrevistas-chave realizadas com profissionais da TAVARES, Patricia Z. Estudo de usabilidade paraequipe de jornalistas e diagramadores do aplicativo PDAs utilizados em coleta de dados nas entrevistasde notícias O Globo A Mais. pessoais para pesquisas domiciliares. Dissertação (Mestrado em Informática). Universidade Federal doEnfatizamos a necessidade de questionar as Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2011.premissas do emprego dos tablets como plataforma 222p.de distribuição da informação jornalística, e avaliarseus erros e acertos, para a identificação de
  8. 8. NOTA: Esta pesquisa foi elaborada para oPrograma Avançado de Cultura Contemporânea daUniversidade Federal do Rio de Janeiro (PACC-UFRJ).

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