Directora: Renata Silva

Director-adjunto: Rena-
ta Silva

Preço: 1,90

Edição número 1
                                  ...
NOTICIAR 27 de Novembro 2008                                                         2



                                ...
NOTICIAR 27 de Novembro 2008                                                 3




ACTUAL




 O desemprego afecta maiorit...
NOTICIAR 27 de Novembro 2008                                                                                              ...
NOTICIAR 27 de Novembro 2008                                                              5


ECONOMIA




 Portugal escap...
NOTICIAR 27 de Novembro 2008                                                                           6




INTERNACIONAL...
NOTICIAR 27 de Novembro 2008                                                         7



SOCIEDADE

                     ...
NOTICIAR 27 de Novembro 2008                                                           8


                               ...
NOTICIAR 27 de Novembro 2008                                                              9



            Depois ficam za...
NOTICIAR 27 de Novembro 2008                                                                   10



SOCIEDADE



        ...
Noticiar
Noticiar
Noticiar
Noticiar
Noticiar
Noticiar
Upcoming SlideShare
Loading in …5
×

Noticiar

1,061 views
980 views

Published on

Jornal realizado para a cadeira de Ateliês de Jornalismo, no 3º e último ano do Curso de Ciências da Comunicação da UP

0 Comments
0 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

No Downloads
Views
Total views
1,061
On SlideShare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
7
Actions
Shares
0
Downloads
4
Comments
0
Likes
0
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Noticiar

  1. 1. Directora: Renata Silva Director-adjunto: Rena- ta Silva Preço: 1,90 Edição número 1 NOTICIAR 27 de Novembro de Fundador: Renata Silva 2008 Sai às quintas-feiras www.noticiar.pt Grátis com o seu Internacional jornal: Mais de 100 mortos EM DESTAQUE: em Bombaím Explicações no desemprego A cidade indiana de Bombaim foi, esta quarta-feira à noite, alvo de ataques terroristas, dos quais resultaram cerca de 125 mortos e 300 feridos. P6 Economia Portugal é dos países Inauguração Cine-Teatro da OCDE com maior Constantino Nery diferença entre ricos e pobres Portugal é um dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) onde há maior diferença entre ricos e pobres. Na mesma O desemprego é cada vez maior em Portugal. O ensino é uma das áreas mais posição encontram-se os Estados afectadas. Em resposta às não colocações, às dificuldades e à incerteza, os Unidos. Atrás de Portugal e EUA professores recém-licenciados procuram um lugar em centros de explicações. Matosinhos: Fogo e música no regresso do surgem a Turquia e o México. P 2/4 Cine-Teatro Constantino Nery P5 P 13 Cultura EM DESTAQUE: World Press Photo O melhor do fotojornalismo inter- Maria José Magalhães:“ Temos que lutar para que a nacional e nacional está exposto, igualdade se concretize cada vez mais” a partir desta sexta-feira, no Fórum da Maia, com fotografias P 7/8/9 do World Press Photo 2008 e da última edição do Prémio Fotojor- nalismo Visão/BES. P 13 Notícias sempre actualizadas em: www.noticiar.pt
  2. 2. NOTICIAR 27 de Novembro 2008 2 DESTAQUE ACTUAL EXPLICAÇÕES NO DESEMPREGO Foto: Renata Silva Quando o número de desempregados chega a atingir os 40 mil, os centros Renata Silva de explicações são vistos por muitos professores como uma oportunidade para o futuro, quer como negócio próprio, quer como emprego na área do ensino. renatas@noticiar.pt O desemprego é cada vez maior em Portugal. O O desemprego constitui ainda uma preocupação, coisa que não está a ser bem feita. ensino é uma das áreas mais afectadas. Em res- mesmo para quem trabalha num centro de expli- posta às não colocações, às dificuldades e à cações. As perspectivas de futuro são outras e a Diana Magalhães também critica a situação incerteza, os professores recém-licenciados pro- quantidade da procura para tão pouca oferta tam- de desemprego no ensino em Portugal. Revela curam um lugar em centros de explicações. bém é preocupante. Diana Magalhães afirma que está muito mais difícil do que quando aca- Estes centros são hoje em grande número e a que, todas as semanas, a caixa de e-mails enche bou o curso e que a selecção de professores é procura por parte dos professores é muita. Uns com currículos de muitos recém-licenciados à hoje em dia mais apertada. Os anos de serviço criam os seus próprios negócios, abrindo novos procura de emprego. “ Todas as semanas tenho contam muito e os colégios não aceitam pes- centros de estudos e apostando nos mesmos e que arquivar uma série de currículos. Muitas soas sem experiência. Afirma ainda conhecer outros procuram trabalho enviando currículos vezes vêm cá pessoalmente, perguntar se estão casos de colegas suas que estão actualmente para os mais diversos locais. a precisar de professores”, afirma. O panorama a completar a parte exigida pela reestruturação define-se. Não há colocações e o trabalho procu- do curso da Faculdade de Letras, muitos anos Situado na Rua do Campo Alegre, o Centro de ra-se em tudo o quanto é parte: colégios priva- depois de já terem deixado de estudar. Catari- Estudos Diana Magalhães representa um destes dos, centros de explicações, escolas, etc. na Brito também não se poupa nas críticas. A casos. Diana Magalhães criou o seu próprio situação é precária e tem tendência para pio- negócio há dez anos atrás. Acabou o curso de Foi o que fez Catarina Brito. É uma das professo- rar: “ Há mesmo muitos professores e se não Línguas e Literaturas Modernas - variante Portu- ras a trabalhar neste centro de explicações. Com aceitarmos determinadas condições, alguém guês Alemão na Faculdade de Letras da Univer- um sorriso e até alguma esperança, conta que aceitará”, revela. O panorama acaba por ser sidade do Porto em 1989. Chegou a dar aulas, andou a espalhar currículos por vários locais. Até generalizado. A maioria das colegas de facul- por motivos de substituição, durante 5 meses. que em 2005 encontrou trabalho no centro de dade de Catarina Brito estão em centros de Desde então, nunca mais conseguiu colocação. explicações Diana Magalhães, onde revela gos- explicações a trabalhar. Procurou durante vários anos, até que há dois tar do que faz, embora não seja uma situação anos atrás acabou por desistir. Farta de incerte- estável. Licenciou-se em Português via ensino, Desemprego, precariedade e proliferação zas, Diana Magalhães, revela: “ Gostei tanto da na Universidade do Minho e terminou o estágio dos centros de explicações experiência do ensino que resolvi de uma outra em 2002. Desde então, nunca foi colocada e forma, estando ligada ao ensino e não estando espera sempre por uma colocação, embora saiba sujeita a ser chamada ou não, na incerteza, criar que, na lista, o seu nome se encontra entre os Existem cerca de 40 mil professores no um centro de explicações.” Para além do Centro 4000. desemprego. As condições dadas aos profes- de Estudos trabalhou também como secretária. sores em Portugal são precárias. Muitas esco- Contudo, alguns professores acabam mesmo por ficar colocados. Diana Magalhães, como qual- las não têm condições, os alunos são malcom- Num ambiente de ensino e de alegria por parte quer directora de um centro, fica preocupada portados, os salários são baixos, muitos das crianças, que insistiam em ser entrevistadas, com a situação, pois eram pessoas com quem docentes são pagos a recibos verdes. As exi- foram-se revelando outros factos acerca do cen- contava e que têm de deixar de trabalhar lá. gências para a entrada de professores nas tro de explicações. No início, segundo afirma a Colocada ficou a professora Carla Cruz que, ape- escolas são muitas e pede-se cada vez mais professora, o centro teve poucos alunos e o pre- sar de ter encontrado emprego, conseguiu conju- um prolongamento do estudo, algo que não é juízo foi grande. É também um negócio que não gar o seu horário com o do centro. Esta foi a pri- possível a muitos. Catarina Brito revela que compensa face ao ensino, como nos demons- meira vez que foi colocada, mas confessa gostar não pode continuar os estudos porque o que trou. As explicações acabam forçadamente em mais do seu trabalho como explicadora do que ganha não dá para pagar. Junho, tempo de férias e começam em Setem- bro. Natal e Páscoa são alturas complicadas. As do trabalho que realiza agora enquanto professo- João Louceiro, dirigente sindical da FEN- regalias também não são muitas. Sem direito a ra. A professora já tem larga experiência em cen- PROF, revelou ao JN que mesmo os professo- subsídios, Diana Magalhães tem que pagar a tros de estudo. Já desde o primeiro ano da facul- res colocados, muitos deles, estão a trabalhar todos os professores, ainda que os pais fiquem a dade que trabalha em centros de explicações em condições precárias e a ganhar a recibos dever. para cobrir as despesas da faculdade. Carla Cruz verdes, sendo considerados “ prestadores de licenciou-se no ano lectivo 2005-2006 em Quími- serviços”. Hoje em dia o trabalho no centro é maior. Exige ca, ramo educacional, mas, neste momento, lec- dedicação a cem por cento. O centro de Estudos ciona EFAS (Ensino e Formação de Adultos), Diana Magalhães tem cerca de seis professores incluída este ano na candidatura de professores, a trabalhar e são vários os alunos que o frequen- uma disciplina para adultos, que diz ser comple- tam. tamente diferente do trabalho realizado com crianças. Descreve a situação do ensino em Por- tugal como caótica e revela que há alguma
  3. 3. NOTICIAR 27 de Novembro 2008 3 ACTUAL O desemprego afecta maioritariamente os Um estudo publicado no ano 2000 licenciados dos cursos da Faculdade de por três investigadores da Universidade de Letras pertencentes essencialmente aos cur- Aveiro (Jorge Adelino Costa, António Neto sos de História, Línguas e Literaturas e Cultu- Mendes e Alexandre Ventura), revela que “ ras e Geografia. À semelhança destes cursos uma das razões por detrás do aumento do estão muitos outros que abrem vagas de ano número de centros de explicações em Portu- para ano e recebem cada vez mais aspiran- gal está relacionada com a existência de uma tes a um lugar no ensino. Por todo o país, há grande quantidade de professores desempre- muitas situações de desemprego. Só no ensi- gados, que (devido à pouca oferta) não con- no básico, ficaram de fora, este ano lectivo, seguirão uma colocação numa escola num cerca de 80% dos professores candidatos. As futuro próximo e estão assim disponíveis queixas dos alunos são muitas. como trabalhadores qualificados para assu- mir uma nova ocupação social comummente Joana Valente, estudante da Escola Superior conhecida como "explicador". de Educação e que frequenta o curso de Ensino Básico, afirma que “fechar os cursos” Nesta análise, os autores apresentam ainda era uma solução para diminuir a situação de o que está por detrás da principal razão que desemprego no ensino em Portugal. Afirma leva à criação de centros de explicações: “A ainda que o governo não deveria fechar as dificuldade em obter uma colocação numa escolas, dificultando o acesso dos alunos ao escola, que tem sido experienciada nos últi- ensino e dos professores à sua profissão. A mos anos (motivada pela baixa taxa de natali- quantidade de anos nos quais já se imaginam dade e consequente diminuição do número há espera de uma colocação leva a que alu- de alunos, turmas e necessidade de profes- nos, aspirantes a professores, como Joana, sores) levou a que as explicações se tornas- estejam dispostos a trabalhar em qualquer sem a actividade principal de muitos profes- ramo e oportunidade de ensino que ocorra. sores (…).” Já Salomé Castro, aluna também da Escola Para muitos docentes, o primeiro contacto Superior de Educação e futura professora do com o ensino e a única forma de o manter é o Ensino Básico, é mais crítica em relação ao trabalho em centros de estudos. Segundo o governo e ao ensino de hoje em dia: “ Bem, artigo, não existem mais desenvolvimentos se observarmos apenas o sector da educa- porque a investigação sobre esta problemáti- ção, é óbvio que o panorama não é muito ca é reduzida. positivo. Parece que a nossa política educati- va está mais direccionada para um processo Diana Magalhães é, por isso, um exemplo, ensino-aprendizagem “envelhecido”. Isto é, dos muitos professores que durante anos não em vez de dar oportunidade aos mais recen- conseguiram colocações e que resolveram tes profissionais da educação que, natural- por sua conta e risco criar um centro de expli- mente, têm uma pré-disposição para novas cações, negócio cada vez mais em expan- metodologias e técnicas de construir e orien- são, para fazerem face ao desemprego e não tar a aprendizagem das crianças, desenvolve se desligarem do que é o conceito de ensino. e implementa reformas (alargamento da ida- de da reforma, desertificação do interior; encerramento de escolas, etc.) que a frus- tram e “atrofiam” as perspectivas de futuro da população mais jovem”, afirma. Também Salomé não dirige os seus horizon- tes unicamente para o ensino nas escolas. O ensino nos Países de Língua Oficial Portu- guesa e também o trabalho como explicadora não são postos de lado. Para a jovem estu- dante, interessa que os professores não sejam “ simples parasitas da sociedade”. Por parte dos centros de explicação, há tam- bém muita procura. Muitos são os anúncios que vemos diariamente em jornais como o Jornal de Notícias a pedir professores das mais variadas áreas do ensino para trabalhar em centros de estudo por todo o país. É uma realidade difícil de refutar. Particulares ou em casa própria e por iniciativa do recém- Foto: Renata Silva licenciado, os centros de explicações são cada vez mais uma solução para o desem- prego no ensino. Diana Magalhães acabou o curso em 1981, leccionou temporariamente e a partir daí nunca mais obteve colocação. Criou um Centro de Estudos no Porto.
  4. 4. NOTICIAR 27 de Novembro 2008 4 ACTUAL Foto: Renata Silva Trabalhadores da APDL frequentam o sistema de RVCC em horário laboral Novas Oportunidades na APDL DESTAQUES DA Renata Silva renatas@noticiar.pt SEMANA Os motivos para terem abandonado os estudos Os trabalhos vêm de casa. As experiências são Violência Doméstica: são vários. Aos 53 anos, Fernando Oliveira só reveladas. agressores passam a usar tem o 9º ano porque não teve condições para continuar a estudar. Tirou o curso de Serralheiro A APDL recebe, assim, desde o mês de Outubro pulseira electrónica e não foi difícil obter emprego. Com um sorriso a formação para os seus funcionários. nos lábios, revela que as Novas Oportunidades O programa das Novas Oportunidades é para Futebol Clube do Porto são para ele "um desafio pessoal". Valdemar Cabral, dos recursos humanos, "uma vence o Fenerbahçe para a Já Cláudia Amorim tem 32 anos, fez o 9º ano ferramenta de motivação para os trabalhadores" que se torna vantajosa para a empresa. O horá- Liga dos Campeões através de um curso profissional e teve a oportu- rio é laboral para tornar mais fácil o acesso à for- nidade de começar a trabalhar na APDL. A ideia era parar um ano, mas depois não pôde voltar a mação. "Nós tentamos dentro das possibilidades Mais de 100 mortos nos eliminar aquilo que seriam entraves ao proces- estudar. Destaca a facilidade e vantagem por ter atentados em Bombaím formação dentro do local de trabalho e em horá- so", acrescenta. rio laboral. "Em termos profissionais sentimo-nos Os resultados têm sido positivos. "Em todas as Cine-Teatro Constantino sem dúvida queiramos ou não, mais realizados" , acções nós sentimos que eles querem continuar revela a aluna. Cláudia Amorim não descarta ain- e estão motivados para obter a sua certificação. Nery é reinaugurado da a hipótese de prosseguir estudos. Mesmo os que estão a obter certificação no bási- A história de Joaquim Matos é diferente. Não tra- co, já estão a pensar obter a certificação também Crise está a afectar as ao nível do secundário", revela. Com o sistema balha na APDL e tomou a iniciativa de se inscre- compras dos portugueses ver nas Novas Oportunidades. Sempre com inte- de RVCC são as experiências de vida que dão o resse em fazer formações e progredir nos estu- conhecimento e certificam o aluno. Portugal escapa à reces- dos, foi impedido por não ter os estudos míni- Até agora meio milhão de portugueses já fre- mos. Defende que as Novas Oportunidades são são no terceiro trimestre quentou o programa das Novas Oportunidades. "uma forma de verificar e de atestar as capacida- Tal como a APDL, perto de 500 empresas estão do ano des que as pessoas têm" inscritas na iniciativa. O governo tem como meta Estes são apenas três exemplos de formandos a formação de 1 milhão de adultos até 2010, do programa Novas Oportunidades. Pelas 15 números que aos olhos de muitos parecem horas começava mais uma sessão do sistema de impossíveis e que causam polémica devido ao Reconhecimento e Validação de Competências facilitismo na atribuição dos certificados. (RVCC) na APDL. A APDL é uma das empresas que está a utilizar o programa Novas Oportunidades para dar for- mação aos seus funcionários, a nível do ensino básico e secundário. A formação é académica e pretende ver reconhecidas competências. Nas palavras de Helena Maia, formadora do Cen- tro de Serviços e Apoio às Empresas (CESAE), o objectivo consiste em "ajudar os adultos no senti- Fonte: ANQ; dados de Março de 2007 do de falarem sobre o seu percurso de vida e identificarem as competências que desenvolve- ram a nível de experiência." O RVCC assenta O formando das Novas Oportunidades encontra-se na faixa em três áreas de competências chave: Área etária entre os 25 e os 34 anos Cidadania e Profissionalidade (CP), Área Socie- Infografia Noticiar dade, Tecnologia e Ciência e Área Cultura, Lín- gua e Comunicação. Nesta sessão, sentaram-se à mesa cerca de dez alunos. Sentiu-se motivação no ambiente, em que todos se encontravam inscritos de livre von- tade e com a ambição de ver concluído o ensino secundário. Há mais pessoas inscritas para obter qualificação ao nível do ensino básico, do que do ensino secundário.
  5. 5. NOTICIAR 27 de Novembro 2008 5 ECONOMIA Portugal escapa à recessão técnica no Países como a Alemanha, a Espanha, a terceiro trimestre do ano Itália, a Hungria e o Reino Unido apresentam um crescimento negativo nesse período. A Renata Silva Alemanha, a Estónia e Itália já tinham atingido valores inferiores a zero no segundo trimestre renatas@noticiar.pt o que significa que se encontram em recessão técnica. Segundo uma estimativa apresentada esta sexta- feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), Portugal é o país da zona Euro que escapa à recessão técnica, isto, ao crescimento económico Portugal é dos países da OCDE com maior negativo durante dois trimestres consecutivos no diferença entre ricos e pobres terceiro trimestre de 2008. Renata Silva No terceiro trimestre deste ano a economia portu- guesa não registou qualquer variação do Produto Interno Bruto, face ao mesmo período do ano Saiu esta terça-feira um relatório da O relatório revela que“ o aumen- anterior. O crescimento estagnou nos 0,7 por cen- Organização para a Cooperação e to tem sido significativo e gene- to. Desenvolvimento Económico (OCDE) ralizado, afectando mais de três que revela os números da desigualda- quartos dos países da OCDE”. de e crescimento económico dos seus Países como a França, Espanha Estes dados contrariam o que já tinha sido aponta- vários países nos últimos 20 anos. De e Irlanda são excepções. Com do pela Comissão Europeia que previa um decrés- acordo com os números apresenta- baixos valores encontram-se a cimo do PIB em 0,3 por cento e a entrada em dos, Portugal está entre os membros Dinamarca, a Suécia e Luxem- recessão nos últimos três meses do ano. da OCDE onde a disparidade entre burgo. ricos e pobres é mais elevada. Na zona Euro, de acordo com dados do Eurostat A desigualdade está a diminuir divulgados também esta sexta-feira, o PIB caiu 0,2 Os Estados Unidos estão na mesma nas faixas etárias mais velhas e por cento. Ou seja, todos os países da moeda úni- posição que Portugal. Já a Turquia e o a aumentar nas camadas mais ca estão no seu conjunto a sofrer uma recessão México encontram-se com valores jovens e em famílias com crian- técnica neste terceiro trimestre. mais elevados. ças. Paulo Azevedo defende reforço da indústria para combater défice comercial Segundo o estudo, os 10% mais OCDE pede mais esforços pobres em Inglaterra ganham, em Diana Albuquerque média, mais dinheiro que uma pessoa A OCDE pede no relatório para em Portugal. que sejam tomadas políticas albdiana@noticiar.pt sociais por parte dos países para Desigualdade cresce entre os diminuírem esta diferença. A jovens e as famílias com crianças ajuda na inserção no trabalho é Preparar empresas para os momentos difí- uma das medidas sugeridas. Um sector difícil mas fulcral para equilibrar a ceis As diferenças entre ricos e pobres balança comercial portuguesa. Estas foram aumentaram na grande maioria dos Esforços também na educação e algumas das opiniões sobre o papel da indústria No debate foi defendida a necessidade das países da OCDE. nos serviços são também descri- no futuro de Portugal expressas esta terça-feira indústrias portuguesas aumentarem a qualidade tos pela OCDE como soluções na Biblioteca Almeida Garrett, no Porto. dos seus produtos. O objectivo é fazer face a para o combate à desigualdade. um mercado cada vez mais competitivo no O presidente da Comissão da Administração da estrangeiro. BA Vidro, Carlos Moreira da Silva, reconheceu que "não é fácil atrair as pessoas para a indús- "Tem que se valorizar o que Portugal representa tria". Apesar do retrato, os participantes da con- lá fora", afirmou Frederico Fortunato, gerente da ferência, organizada pela "Exame" e pelo Kyaia. Crise afecta o Natal das famílias portuguesas "Expresso", convergiram na importância deste O presidente da comissão executiva da Unicer, Renata Silva sector para a economia portuguesa. António Pires de Lima, enfatizou a importância das empresas estarem atentas ao futuro da As famílias portuguesas vão gastar Contudo, segundo revela a O presidente da Comissão Executiva da Sonae, indústria. "Procuramos preparar a empresa para menos 4,8 por cento do que em 2007, consultora, as crianças não vão Paulo Azevedo, vê no sector industrial a solu- um panorama que se adivinha nada bom", dis- segundo revela a consultora Deloitte ser afectadas pela crise, visto ção para combater o défice da balança comer- se. "É nos momentos de dificuldade que se vê o num estudo divulgado esta quarta- não estar previsto um decrésci- cial portuguesa. "O importante não é irmos aos valor das empresas". feira. A crise económica vai afectar as mo de prendas compradas supermercados do nosso país e vermos produ- tos unicamente nossos, mas sim irmos ao tradicionais compras de Natal. pelos adultos. estrangeiro e encontrarmos produtos portugue- A grande maioria dos inquiridos neste Quanto aos presentes mais ses", frisou. estudo acredita que Portugal está em oferecidos pelos portugueses, recessão, ao passo que 77 por cento o estudo indica que as prefe- afirma que tem menor poder de com- rências são, por ordem decres- pra e que o rendimento é também infe- cente, roupa, livros e dinheiro. rior ao de 2007. O estudo realizou-se em 15 As famílias portuguesas acreditam ain- países europeus e na África do da num pior cenário de crise para Sul entre 29 de Setembro e 10 2009. de Outubro baseado numa amostra de 18.178 consumido- "Neste cenário, os portugueses preten- res representativa da popula- dem adquirir presentes mais úteis e ção de cada um dos países. estarão muito atentos às promoções efectuadas nesta época do ano", refere a Delloite.
  6. 6. NOTICIAR 27 de Novembro 2008 6 INTERNACIONAL Foto: Arko Datta—Reuters Mian Khursheed - Reuters Mais de 100 pessoas morreram nos atentados de Bombaim Mais de 100 mortos em ataques terroristas na Índia Sara Lima Azevedo saraazevedo@noticiar.pt O terceiro e maior ataque ao Hotel Marriott em Islamabad A cidade indiana de Bombaim foi, Para além dos dois hotéis, foram esta quarta-feira à noite, alvo de ata- também atacados dois hospitais e Explosão em Islamabad faz 53 mortos e 266 feridos um quartel da polícia no sul da cida- ques terroristas, dos quais resulta- ram cerca de 125 mortos e 300 feri- de. De acordo com o jornal "Público", Renata Silva dos. as autoridades confirmaram a explo- renatas@noticiar.pt são de uma bomba num táxi e um Os ataques terroristas em Bombaim rabi feito refém no ataque contra um provocaram, ate às 17h00 desta O Hotel Marriott foi, este sábado, Após o ataque, os Estados Unidos sus- edifício de apartamentos conhecido quinta-feira, 125 mortos e centenas alvo do maior atentado terrorista des- penderam o serviço consular no Paquis- como Chabad House. de feridos nas explosões e disparos de 2001, em Islamabad. 53 pessoas tão. George Bush condenou o atentado que atingiram hotéis de luxo, restau- O “Times of India” revelou que o pri- morreram e 266 ficaram feridas. e alertou para a continuidade da luta rantes e hospitais. meiro tiroteio começou por volta das Entre os feridos encontram-se pelo contra a ameaça terrorista. Também a 22h33 (17h03 em Lisboa) na princi- Pelo menos outras três vítimas mor- menos 7 alemães e 2 norte america- União Europeia condenou o atentado pal central ferroviária da cidade. De tais são cidadãos estrangeiros: um nos. Entre as vítimas mortais estava terrorista: “ Condeno nos termos mais acordo com o "Público", italiano, um australiano e um japo- o Embaixador da República Checa. enérgicos o vil ataque terrorista no Isla- "testemunhas contam que dois nês, segundo a AFP. De acordo com mabad”, afirma Javier Solana, represen- homens armados com metralhadoras a Lusa, estavam cinco portugueses Um carro com 600 quilos de explosi- tante da União Europeia para a política AK-47 e granadas mataram pelo entre os cerca de 200 turistas estran- vos embateu contra o portão do hotel externa. menos dez pessoas e feriram deze- geiros que, entretanto, conseguiram Marriott. A explosão provocou uma nas de outras antes de serem abati- escapar do hotel Taj Mahal. enorme cratera à entrada do hotel e Um grupo chamado “ Combatentes do dos pelos agentes que acorreram ao Várias pessoas foram feitas reféns local". destruiu janelas e portas. Deflagra- Islão” reivindicou a autoria do atentado. em dois hotéis de cinco estrelas, ram no hotel focos de incêndio. Ainda assim, não é certo que os ata- mas, de acordo com informação O Hotel Marriott tem 290 quartos e é ques tenham sido levados a cabo por divulgada pela polícia indiana de Este é o terceiro e o maior ataque ao frequentado por estrangeiros que visi- este grupo islamita, tendo em conta Maharashtra, já terá sido retomado o hotel de luxo, localizado na capital do tam ou residem na cidade. O condutor que vários meios de comunicação controlo da situação no Taj Mahal, Paquistão. da viatura que embateu contra o hotel social acreditam que a acção pode onde, segundo a Reuters, foram terá morrido no ataque registado no iní- ter sido conduzida pelo Lashkar-e- encontrados hóspedes refugiados A explosão fez desabar o tecto de cio da noite de ontem. Dezenas de car- Taiba. Este grupo extremista, sedia- nos quartos e vários cadáveres. uma sala de banquetes, onde se ros que se encontravam no parque de do no Paquistão, é responsável por estacionamento ficaram danificados. Há, ainda, cerca de 20 a 30 reféns alguns dos atentados na Índia nos encontravam entre 200 a 300 pes- no Trident-Oberoi, entre eles vários últimos anos. O principal motivo é o soas que celebravam o fim do Rama- estrangeiros, e alguns dos atacantes fim da presença indiana em Caxemi- dão, período de jejum respeitado no interior, onde terá deflagrado um ra, região dos Himalaias disputada pelos muçulmanos. incêndio ainda esta noite. O hotel, pelos dois países vizinhos. situado na parte Sul da cidade de Para a noite do ataque terrorista Bombaim, encontra-se cercado por De acordo com a agência Lusa, um estava agendado um jantar no hotel elementos do Exército e comandos dos homens armados do hotel Obe- Marriott entre o presidente paquista- das forças antiterroristas indianas. nês e o seu primeiro-ministro. O jan- roi disse que os ataques foram per- tar foi desmarcado em cima da Relatos de pessoas que consegui- petrados como forma de chamar a ram escapar aos ataques indicam hora. atenção para a discriminação dos que os assaltantes procuravam cida- dãos estrangeiros, sobretudo britâni- muçulmanos na Índia. O atentado ocorreu horas depois de cos e norte-americanos para toma- o actual presidente Paquistanês, Asif rem como reféns. As autoridades de saúde de Bom- Ali Zardari, viúvo da ex-primeira Islamitas reivindicam os ataques baim confirmaram ter recebido, até ministra Benazir Butto, se ter com- prometido a continuar na luta contra Os ataques foram reivindicados por ao momento (17h00 de quinta-feira), os fundamentalistas islâmicos. um grupo islamita que se apresenta 125 corpos e 327 feridos, um número como os Mujaedines do Deccan. Em que não será ainda definitivo. Em 2001, o então presidente Pervez pequenos grupos, o grupo atingiu o Musharraf anunciou o seu apoio à restaurante Café Leopold e o termi- guerra contra o terrorismo, desenca- nal de transportes públicos Chhatra- deada pela administração Bush após pathi Shivaji, com armas automáticas os atentados do 11 de Setembro. e granadas praticamente em simultâ- neo.
  7. 7. NOTICIAR 27 de Novembro 2008 7 SOCIEDADE “ É preciso sempre lutar para que a igualdade se concretize cada vez mais” Feminista desde a sua juventude, defensora de uma educação para Luta pelos direitos a igualdade, voz de muitas das mulheres mulheres. Assim é Maria José Magalhães, vice-presidente da “Isto não está garanti- União para as Mulheres Alternati- do para ninguém” va e Resposta e professora na Faculdade de Psicologia e Ciên- Inícios do feminismo cias da Educação da Universida- “ As mulheres eram de do Porto. A docente fala dos consideradas extra- Fotos: Renata Silva temas que acompanham a sua terrestres, quando carreira, tais como a igualdade de não eram considera- géneros, o tratamento a vítimas das lésbicas.” de violência doméstica e o abor- to. Mentalidade dos jovens Renata Silva “ As raparigas renatas@noticiar.pt continuam a achar É vice-presidente da União para as que é importante Mulheres Alternativa e Resposta. Já casar” publicou vários livros e estudos sobre discriminação de género e vio- lência doméstica. Como nasce o inte- A vice-presidente da UMAR diz que “Ainda há muito trabalho para fazer” resse pelo feminismo? É uma pergunta interessante. Porque eu era anti-feminista quando era jovem. Tenho um grande respeito pelas pes- O que via na altura quando olhava Então ainda hoje a evolução se Há feministas para todos os gostos soas que são anti-feministas porque para a sociedade é muito diferente encontra muito lenta? (risos). também fui. Logo após o 25 de Abril, em termos discriminação de géneros colocou-se a questão de fazer ou não Sim. Há muita coisa que ainda não está Ainda se justificam os movimentos face ao que vê hoje? fazer grupos só de mulheres e de fazer conseguida. As mulheres continuam a feministas? um trabalho feminista na sociedade. Na Da água para o vinho. A sociedade nos receber em média salários inferiores aos época, algumas mulheres defendiam dos homens. As mulheres recebem 80% Sim e sobretudo das jovens. Ainda anos 70 e nos anos 80 em Portugal era que era importante haver grupos de do salário masculino, em termos de há muito trabalho para fazer. Tal um atraso de vida que até custa recor- mulheres e grupos feministas. Eu acha- média. O grupo social onde as mulheres como aconteceu no primeiro quartel dar. Para as mulheres então a diferença do século XX, isto não está garantido va que não era preciso haver um traba- são mais prejudicadas é o das licencia- lho específico para as mulheres. A ver- era abismal. A grande maioria das para ninguém. É preciso sempre lutar das, o que é um paradoxo porque as dade é que a pouco e pouco comecei a mulheres estava muito coarctada. Havia para que a igualdade se concretize mulheres são as que têm mais sucesso constatar que o que elas diziam era ver- reuniões onde o marido impedia a espo- escolar no ensino superior. A jornada de cada vez mais, mas também para dade. As mulheres não tinham o mesmo sa de falar publicamente. Havia uma trabalho das mulheres também é maior manter as conquistas que já conse- direito à palavra, não tinham as mesmas violência contra as mulheres generaliza- do que a dos homens. Parece que o dia guimos. Vemos que as raparigas, nos possibilidades de intervenção, mesmo da e simbólica com um peso imenso em das mulheres é maior que o dos homens estudos que se fazem, continuam a junto com os seus companheiros e relação aos dias de hoje. O 25 de Abril (risos). Em termos semanais, as mulhe- achar que é importante casar. Fez-se camaradas nas mesmas associações, res trabalham mais 17 horas do que os uma investigação, há pouco tempo, de facto trouxe o fim do Estado fascista, as mulheres não eram ouvidas, nem homens, em média. Em termos familia- com adolescentes que responderam mas não trouxe a igualdade de direitos valorizadas da mesma maneira, não res, como sabemos, a violência domésti- que gostavam que ainda houvesse logo, foi passo a passo muito lutado. O tinham as mesmas possibilidades de ca é 99,9% contra as mulheres. A vio- princesas e gostavam de ser prince- Código Civil é mudado só em 1978 com sas. Isto ainda perdura muito nas participação, nem as mesmas possibili- lência contra os homens é estatistica- a liderança da Leonor Beleza que teve raparigas. As raparigas das classes dades de decisão. Assisti várias vezes, mente irrelevante. em diversas situações, a mulheres a um papel fundamental na mudança do trabalhadoras são as primeiras a res- serem humilhadas. Umas nunca mais Código Civil, não só na mudança da lei, Acha que o conceito de feminismo é ponder que se casassem e o marido voltaram a intervir em público, outras mas também na auscultação das opi- hoje diferente do seu conceito ini- ganhasse o suficiente para a família saíram de debates a chorar, em temas niões das mulheres em vários pontos do cial? não queriam trabalhar. Depois sobra que eram quentes como o aborto, a con- país. E mesmo assim o Código Civil para elas, sobra no divórcio, na vio- tracepção, o trabalho doméstico, o salá- muda e há décadas em que muitas coi- Quando o feminismo da primeira vaga lência doméstica, sobra até nas pos- rio igual, etc. Com os meus 18, 19 anos começou, aquelas senhoras sofreram sibilidades de sociabilidade das suas sas se mantêm na desigualdade para as a minha posição tinha mudado e come- muito, algumas sofreram nas suas vidas crianças, de colocar as suas crianças mulheres. Tudo é feito muito devagar e cei a participar nos grupos de mulheres, pessoais e familiares e eram considera- em equipamentos com jardim-de- com grandes custos para todas as naqueles grupos mais radicais na época das contra-natura. Ao fim destas déca- infância. Isso é bastante aflitivo por- mulheres e aí as mulheres das classes das de trabalho penso que ganhamos e a deixar as organizações mistas. Ain- que significa que afinal não consegui- trabalhadoras têm nitidamente maiores credibilidade e já conseguimos afirmar mos passar bem a mensagem. da por cima na altura as mulheres eram consideradas como extraterrestres, dificuldades. na sociedade portuguesa que os femi- quando não eram consideradas lésbi- nismos são plurais, que o feminismo não cas. é só uma perspectiva: vai desde a mais marxista, até à mais liberal.
  8. 8. NOTICIAR 27 de Novembro 2008 8 Em Portugal: Maria Teresa Horta, Maria Não há no meio disto três ou quatro SOCIEDADE Isabel Barreno, Madalena Barbosa, mulheres? Não se pode fazer 5-5? Manuela Tavares, Teresa Joaquim, Vir- Como é que as raparigas podem apren- gínia Ferreira, Irene Pimentel, Idília de der a valorizar as outras mulheres? Castro Osório…Cada uma com o seu contributo. “A violência doméstica só “A violência doméstica pode vai para agenda pública em calhar a qualquer uma” 1999/2000” As mulheres estão agora mais cien- tes da sua posição na sociedade? “Vemos, ouvimos e lemos. Não pode- Há quanto tempo está na UMAR? Sim. Em geral as mulheres estão mais mos ignorar”. O que é que esta afir- cientes da sua discriminação, mas Costumo dizer que entrei para a UMAR mação de Sophia de Mello Breyner também do seu poder. Ainda não con- significa para si? em Nova Iorque no ano 2000. Antes seguimos perceber que nós juntas, disso era dos outros grupos feministas Usamos essa frase numa campanha radicais mais pequenos. somos muito fortes e ainda não con- quando começamos com o Observatório seguimos passar essa mensagem de Conte-nos um pouco do seu percurso das Mulheres Assassinadas: “A violên- que se as mulheres se unissem isto na UMAR. cia doméstica também mata. Vemos, dava uma volta em três tempos. Tam- ouvimos e lemos, não podemos ignorar”. Já tinha sido convidada pela UMAR para bém se as mulheres resolverem parar, Significa que não podemos fechar os um seminário comunista no Montepio nada anda. E não é preciso pararem olhos e cruzar os braços em relação em 1998. Já tinha estado em muitos todas. Basta pararem algumas. àquilo que é a opressão, a discrimina- sítios com a UMAR, que também era Como é a mulher do século XXI? ção e a pobreza ao nosso lado. Penso uma organização participante em even- que as pessoas hoje em relação à vio- tos desde os anos 80. Na altura era da Pois sim (pausa para reflectir) é uma direcção da APEM (e continuo a ser) lência contra as mulheres estão bastan- mulher fragmentada, tem várias caras, (Associação Portuguesa dos Estudos te e cada vez mais alertadas. Ainda há várias condições. Mulheres que já sobre as Mulheres) e fui me aproximan- dificuldade em agir e em apelar. Há ain- ascenderam ao topo que contratam do e a certa altura inscrevi-me. Depois uma mulher para tratar da casa e não da zonas onde as mulheres sofrem mui- houve uma circunstância em que foi vêem naquela pessoa outra mulher. to e é preciso sabermos que a violência quase exigida a minha participação acti- Atingem lugares de governo, mas não doméstica pode calhar a qualquer uma, va. Tinha um grande trabalho já nas chegaram lá com uma consciência mesmo à que está mais prevenida, à questões da reivindicação do aborto feminista e às vezes até acham que que não quer casar, à que acha que vai com os grupos feministas radicais. Para são tão boas que chegaram lá pelo impor-se face ao companheiro ou namo- mim estava muito claro como é que mérito próprio e que já não precisam rado. íamos lutar contra os argumentos do de dar cavaco a ninguém (também não e o que é que estava em causa. Fui não quero Cavaco). As mulheres das Enquanto professora universitária, ganhando protagonismo nessa área e classes trabalhadoras que vivem em lida diariamente com jovens. Os foram-me solicitando que eu dissesse o situações terríveis, as desemprega- jovens de hoje são mais ou menos que era preciso dizer e sou hoje respon- das, as mulheres dos bairros sociais, interessados por feminismo? sável por essa área. as mães adolescentes. As mulheres que têm dificuldade em ir ao centro de São mais. Há hoje muitos jovens inte- A UMAR é um produto do 25 de Abril. saúde, que engravidaram e têm medo ressados no feminismo, muitos mais que O que significou para si, enquanto de ser recriminadas por fazer um nos anos 80 e 90. Sobretudo as rapari- feminista, o 25 de Abril? aborto. As empregadas domésticas, gas. as crianças que abandonam a escola. Uma revolução inacabada. Em muitos As jovens todas cheias de expectativa Defende uma educação para a cida- aspectos da vida das mulheres só temos que acabam o curso superior e cons- dania e para a mudança de mentalida- conseguido alterar muitos anos depois tatam que afinal o mercado de traba- des. Por que etapas deveria passar do 25 de Abril. Do ponto vista feminista, lho é uma selva insuportável. O que essa formação? foi sobretudo uma alteração para a liber- eu gostaria é que esta mulher frag- dade política e uma alteração em rela- Tem que haver numa formação inicial Prevenção da mentada com vários casos, com ção às classes trabalhadoras, não signi- várias experiências fosse cada vez para docentes. Tem de haver cadeiras violência mais, articulando estas várias faces e ou módulos para a prevenção da violên- ficou um grande passo para as questões cia doméstica e um saber sobre a cida- de igualdade de género. doméstica encontrando uma face comum. dania das mulheres. As professoras O é que é facto é que a violência Quais são as pessoas da história também foram formadas nesta socieda- “ Como é que do feminismo que mais a inspiram? de que ensina a submissão das mulhe- doméstica só vai para a agenda pública em 1999/2000. Foi regulamentada no se pode pensar res. Elas não ensinarão de outra manei- ano 2000 e portanto quase século XXI. Foram-me muito inspiradoras as femi- ra se não tiverem uma formação. É pre- que se pode nistas radicais dos anos 70. A Kate ciso que os professores sejam alertados Foi uma revolução política, ideológica. Millett, a Shulamith Firestone, a Ger- Mas muita coisa ainda ficou por fazer. abrir um centro para o que têm que ensinar de forma maine Greer que tem escritos de aba- diferente. Valorizar as raparigas e dar- de atendimento Os números de violência no namoro nar as nossas concepções todas. A lhes formação para que elas também Juliet Mitchell que discutiu sobre o saídos nos últimos estudos revelam a vítimas de vio- sejam líderes. Há todo um conjunto de trabalho doméstico e fez uma investi- valores muito elevados. As vítimas de mensagens, livros, textos e formas de lência domésti- gação: “ o trabalho doméstico tem tan- dar as disciplinas que é preciso mudar violência no namoro procuram a to valor e é tão importante para o lucro para uma educação igualitária. As disci- UMAR? ca duas vezes capitalista como o trabalho nas fábri- plinas escondem a participação das por semana das cas”. As sufragistas, a Cady Stanton, Algumas procuram. Mas procuram em mulheres nas várias áreas. Outro dia fez aquelas mulheres que sujaram as muito menor número do que as casadas 15h às 17h da -se um levantamento das autoras e ser estátuas e foram presas e na prisão e já com filhos. Elas acreditam que por o Camões e o Gil Vicente e o Eça de tarde?” fizeram greve de fome, só para pedir o amor conseguem transformar o monstro Queirós e o Pessoa? voto das mulheres. Ferreira, Irene em príncipe encantado. Quando gostam, Pimentel, Idília de Castro Osório… parece que nenhum conselho adianta. “A mulher do século Violência doméstica XXI é uma mulher “ Não se muda um agres- fragmentada” sor com conversa”
  9. 9. NOTICIAR 27 de Novembro 2008 9 Depois ficam zangadas com famílias e Que tipo de apoio é oferecido de vio- As mulheres vítimas de violência SOCIEDADE amigos, fica completamente isolada, o lência doméstica e violência no andam muitas vezes com não sei quan- que significa que ainda fica mais vulne- namoro, em especial por parte da tos processos atrás. Nunca há leis com- rável à acção do agressor que também UMAR? pletamente boas. Toda a lei depende da trabalha muito para isso. E depois ela forma como é aplicada. A maioria de quando der conta está casada e com Temos vários serviços, gerimos casas nós (UMAR), ao ler aquela lei, acha que filhos e está completamente no fundo do de abrigo do estado, temos centros de tem de haver cada vez mais uma sensi- poço. Vêm ter connosco e quando vêm atendimento nas casas de abrigo das bilização dos magistrados em relação às dizem que não querem deixar o namora- mulheres que estão incógnitas com os questões das mulheres vítimas de vio- do. Querem que nós consigamos por seus filhos. Há um regulamento que diz lência doméstica. Quando são maltrata- obra e graça do espírito santo que eles das e ainda por cima eles têm posições que há um período a partir do qual se deixem de ser agressores. Não se muda sexistas em relação a isso, é tão má faz uma reavaliação para ver se ela já um agressor com conversa. Há uma esta lei como a anterior. A nova lei é está em condições de sair ou não e benéfica na medida em que diminui a ideologia nos ensina a sermos donos do nosso destino e portanto as raparigas depois arranjar emprego, habitação, litigiosidade dos divórcios. As vítimas de ainda por cima estudantes universitá- colocação para os seus filhos, etc. violência são um pretexto para o veto do rias, mais conscientes, têm um namora- Temos centros de atendimento onde as Presidente da República. Tem a ver com do que as trata mal e não conseguem mulheres não vivem lá, mas são atendi- os sectores mais conservadores da aguentar e acabam com eles. Mas não das, fazem terapias psicológicas, têm sociedade portuguesa que ainda acham tomam precauções. Os agressores, acompanhamento jurídico, social, etc., que o casamento é mais importante que mesmo os que são mais “light” têm uma para conseguirem encontrar um projecto o bem-estar individual das pessoas e concepção de que elas lhes pertencem. de autonomia pessoal. que a família deve manter-se com todo Alguns matam e a seguir suicidam-se. o esforço. Há uma campanha em Espanha que diz Acha que Portugal está preparado para se suicidarem antes. Nós temos Ainda faz sentido falar da mulher para reduzir os números da violência que nos unir. Calha a qualquer uma de enquanto parte mais fraca? doméstica? nós. Não estamos livres de ser alvo de Faz, porque é ela a parte mais fraca no alguma acção mais fatal, porque infeliz- Está preparado. Tem que ter é mais juí- mente isto não é um problema indivi- zo na forma como os dinheiros públicos sentido económico, no sentido social e dual. Elas também têm que aprender estão a ser utilizados. É preferível gastar no sentido político. que pedir ajuda não é apenas bom para um bocadinho mais e pagar um pouco Nos últimos anos tem-se falado de elas, vítimas de violência, mas também melhor às técnicas que estão nos cen- vários temas que envolvem a mulher: é bom para estabelecer redes de solida- tros de atendimento e fazer formação e riedade e apoio para as amigas. exigir-lhes que elas façam um bom tra- o aborto, a lei do divórcio, os salários balho, do que financiar uma instituição mais baixos que os dos homens, a Apesar dos números elevados, acha para pagar uma ninharia a uma técnica tomada de consciência sobre o que pode haver uma evolução positi- que logo que tenha um emprego melhor aumento da violência doméstica. Em va no que toca à mentalidade das se vai embora. Quando ela começa a que é que a discussão sobre estes novas gerações? aprender a saber o que há-de fazer com temas se reflectiu numa evolução do as vítimas, já ela vai trabalhar para outro próprio país? Claro que pode. Temos que fazer essa sítio. Não faz sentido, pagarmos por mudança e construir esta rede entre exemplo a psicólogas, juristas e assis- Na questão do aborto, a discussão foi nós. Percebemos que há muitos sinais tentes sociais que estão a trabalhar com crucial porque foi a que mais atravessou que nós podemos identificar, muitas coi- vítimas de violência porque é um traba- a sociedade portuguesa e que mais tor- sas que eles fazem e que são logo indi- lho de risco, é um trabalho que exige nou claro o que estava em causa. O que cadores que eles são agressores. Essa especialização. Ainda não há um conhe- estava em causa era se as mulheres noção, podemos transmiti-la às jovens, cimento suficiente do que é as vítimas tinham direito a decidir sobre a sua vida às famílias, às crianças, para percebe- precisam, de forma que estes serviços ou se era a sociedade ou se era o pai rem e também dar às amigas e às pró- não têm muitas vezes boas respostas quem decidia. E na violência doméstica prias mães algumas indicações do que para as mulheres. Como é que se pode também é muito isto que está em causa. devem fazer quando as raparigas estão pensar que se pode abrir um centro de Mas a violência doméstica, apesar de enamoradas e que a gente se apercebe atendimento a vítimas de violência tudo, veio à consciencialização das pes- que ele é um agressor. Colegas nossas doméstica duas vezes por semana das soas com grande consenso. Há mais dizem: “ A minha irmã é casada e perce- 15h às 17h da tarde? Nas juntas de fre- problema com o que se faz com as víti- be-se que é vítima de violência, o que é guesia, dizem que têm um centro de mas de violência doméstica e com os que faço?”. Uma reacção que nós não atendimento com uma técnica. Se sabe agressores. Como actuar, também há devemos ter é: “ não percebo como é que há muitos casos de violência hoje IPSS que recebem financiamento que tu aguentas e continuas a andar doméstica, devia exigir que ali ficassem para tratar as mulheres vítimas de vio- com ele”. Esta atitude não ajuda a contratadas, pelos menos, três técnicas. lência doméstica, mas depois o que ten- mulher vítima de violência. Dizia-se: “ tam é que homem e mulher se conci- Olha tu é que sabes o que tens a fazer. Quando vetou a proposta de lei do liem, mas desde que preservem que a No teu caso pedia ajuda. Há especialis- divórcio, o Presidente da República mulher não é vítima por mim tudo bem. tas com quem devias falar, independen- anunciou que a lei devia ter em conta temente do que decidas para a tua rela- a protecção da parte mais fraca, nes- O que é que o feminismo lhe dá no ção”. É muito perigoso, elas saírem ou te caso a mulher. O que é que acha dia-a-dia? acabarem com eles. Ela tem que avaliar sobre o veto do Presidente da Repú- Energia, satisfação, trabalho, bem-estar, o tipo de relação que tem o marido ou blica? humor, estar bem comigo mesma. O namorado e como pode sair dessa rela- ção. Nessa avaliação é importante que feminismo ensinou-me primeiro a gostar O senhor Presidente da República, o esteja alguém que perceba e olhe para de mulheres e depois a aceitar-me a professor Cavaco Silva não sabe nada os dados e diga “Se está a pensar aca- mim como sou. O mais importante é da violência doméstica. A questão que bar com o seu marido, mude de casa, aprendermos a gostar de nós, é eu gos- ele levanta é a do ressarcimento da víti- deixe de atender o telemóvel, vá passar tar de mim. Para gostar de mim tenho ma. É claro que ela não pode ficar sem uns dias para casa da sua família, que gostar das outras mulheres, das nada. As vítimas vêm queixar-se e ponha os seus vizinhos à cautela, fale novas, das velhas, das cientistas, por- depois começa o processo de divórcio com as suas colegas, etc.” Mesmo que eu também sou um bocadinho disso que habitualmente é litigioso e dura 3 assim não temos a certeza que essa tudo. anos. avaliação seja completamente segura. Temos que fazer passar esta informa- ção.
  10. 10. NOTICIAR 27 de Novembro 2008 10 SOCIEDADE Foto: CIG Governo propõe pulseira electrónica para travar agressores Renata Silva Pobreza envergonhada O Chefe do Estado aproveitou renatas@noticiar.pt aumenta em Portugal para reiterar o papel das miseri- córdias na luta contra a pobreza O governo lançou, segunda-feira, uma proposta Renata Silva ao longo dos séculos. A UMAR lançou uma nova campanha para de lei que aborda a prevenção e a protecção das combater a violência doméstica. “ Eu não vítimas de violência doméstica. As medidas apre- renatas@noticiar.pt O aumento dos pedidos de aju- sou cúmplice” tem como objectivo mobilizar sentadas podem ser consultadas no portal do os homens para que estes sejam solidários e da às várias instituições de governo. Realizou-se esta terça-feira a não apoiem os agressores e terá a duração apoio social é confirmado pelo de um ano. Associada a esta iniciativa está inauguração da sede da União presidente da UMP, Manuel O uso de pulseira electrónica é uma das propos- uma petição online e projectos de sensibili- das Misericórdias Portuguesas Lemos que sublinha o aumento tas para afastar o agressor da vítima. No Dia zação para a causa. (UMP) onde Cavaco Silva dis- Internacional pela Eliminação da Violência contra dos pedidos de desculpa por cursou acerca do aumento da as Mulheres, Salomé Coelho, do Observatório de O primeiro projecto realizou-se no sábado parte dos pais que não têm Mulheres Assassinadas da União de Mulheres pobreza envergonhada no passado e serviu como homenagem às dinheiro para pagar as creches Alternativa e Resposta (UMAR), revela ao NOTI- mulheres. “ Fomos aos locais onde as país. dos filhos. CIAR que esta era “ uma medida já prevista e mulheres foram assassinadas e fizemos uma que se espera que seja mesmo definitivamente homenagem”, descreve Salomé Coelho. O Chefe do Estado afirmou posta em prática”. Manuel Lemos diz que o proble- que estão a desenvolver-se “ ma também se estende à tercei- “No dia em que lançamos a campanha, novas formas de pobreza, A UMAR aprova estas medidas, em que se des- havia dados de que outra mulher tinha sido ra idade visto haver “uma maior como a pobreza envergonha- taca também a prisão preventiva sem ser em assassinada”, acrescenta. pressão para acolhermos ido- situações de flagrante delito. “ É um grande da.” Devido à crise económica sos nos lares” e “famílias a avanço. Ainda bem que o governo tomou esta e às dificuldades atravessa- posição”, afirma Salomé Coelho. recolher os seus idosos desses das, tem-se assistido a um mesmos lares na expectativa aumento de pedidos de ajuda Número de mulheres assassinadas duplicou que a sua escassa pensão pos- por parte dos portugueses. face a 2007 sa contribuir para equilibrar o Estas afirmações vêm confir- orçamento familiar.” Segundo dados do Observatório de Mulheres Assassinadas relativos a 2008, 44 mulheres mor- mar o que o Presidente da Para o presidente da UMP, só reram vítimas de violência doméstica.“É assusta- República tinha previsto, quan- através de uma reflexão é que dor. São os valores mais altos desde 2004”, afir- do em Maio de 2007 promoveu ma Salomé Coelho. se pode “gerar um consenso a iniciativa “Roteiro para a alargado na sociedade portu- Inclusão” com o objectivo de guesa que permita em estreita reflectir sobre “ os novos desa- cooperação com o Governo, fios no domínio da pobreza e propor soluções equilibradas a da exclusão social, as causas, instituições”. Manuel Lemos SAÚDE SOLIDARIEDADE os novos contextos, os novos sublinha ainda que “não é só pobres, o desemprego ou a Projecto Gripenet regressa este mês Nova campanha do Banco Alimentar este distribuindo dinheiro às pessoas dificuldade no pagamento de fim-de-semana que se resolve o problema da O projecto Gripenet, iniciativa da Instituto empréstimos à habitação.” pobreza e exclusão.” Calouste Gulbenkian da Ciência vai arrancar Realiza-se este fim-de-semana mais uma São nestas situações, de acor- novamente no mês de Novembro. O objectivo é campanha do Banco Alimentar contra a A União das Misericórdias Por- do com o que revela Cavaco monitorizar em tempo real a epidemia sazonal Fome. Estão mobilizados para esta acção tuguesas e o Governo assina- Silva, que surgem os chama- da gripe. 20.540 voluntários. Esta campanha vai poder ram um protocolo de financia- dos “ novos pobres” que ajudar 245.269 mil pessoas desfavorecidas. mento. O projecto consiste num site onde qualquer escondem a cara perante a pessoa se pode registar e responder a um Os 14 bancos alimentares de todo o país vão sociedade e permanecem anó- inquérito sobre os sintomas da gripe, desde efectuar a recolha de alimentos nos principais nimos quando procuram o que resida em território nacional e tenha ende- hiper e supermercados. apoio de instituições de solida- reço electrónico. riedade social. A Universidade do Porto está inserida há 3 anos na iniciativa, através da divulgação do projecto nos vários sites das faculdades. “ A tentativa era sabermos se estas acções que vamos fazer poderão ter ou não algum impacto na redução da actividade gripal na própria uni- versidade”, afirma Carla Lopes, coordenadora do projecto na UP. Com os mesmos objectivos do Gripenet, existe também a Gastronet para monitorizar a activi- dade da gastroenterite a nível nacional.

×