Lira dos Vinte Anos   Lira   dosVinte Anos   Álvares de AzevedoFonte: AZEVEDO, Álvares de. "Lira dos Vinte Anos". São Paul...
Lira dos Vinte Anos                                                                  ÍNDICEÀ MINHA MÃE ......................
Lira dos Vinte Anos“SPLEEN” E CHARUTOS ......................................................................................
Lira dos Vinte AnosLIRA DOS VINTE ANOS                                                                    À MINHA MÃECanta...
Lira dos Vinte AnosPRIMEIRAPARTE          Página 5
Lira dos Vinte Anos                        NO MAR                                                                SONHANDOL...
Lira dos Vinte AnosAs cândidas formas movendo de leve!                     Dos teus olhos pela luz?E eu vi-a suave nas águ...
Lira dos Vinte AnosToda a chorar-se por elaQue a chamava doutra vida?                                                     ...
Lira dos Vinte AnosQue fazem de amor gemer!...                  E os perfumes, o luar,E nas noites indolentes             ...
Lira dos Vinte AnosNão era um sonho mentido:                                        Foi mais uma ilusão! de minha fronteMe...
Lira dos Vinte AnosE sua alma cansou na dor convulsa                                                              Amo o ve...
Lira dos Vinte AnosNão tem mais fogo o cântico das aves                      Minh’alma exalarei no céu da Itália!Nem o val...
Lira dos Vinte AnosEu podia sonhar inda um momento,                                     Como da noite o bafo sobre as água...
Lira dos Vinte Anos                                                           Foram anjos de amor, que vagabundosCREPÚSCUL...
Lira dos Vinte Anos                                                          E os raios d’oiro, cintilando vivos,         ...
Lira dos Vinte AnosModula seus gemidos namorados,                        Ó santa Malibran! fora tão doceNão trina assim tã...
Lira dos Vinte AnosPálida Italiana! hoje esquecida.                       E terei tua imagem mais formosaO escárnio do ple...
Lira dos Vinte AnosDá-me um beijo, abre teus olhosPor entre esse úmido véu:                                               ...
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos
Upcoming SlideShare
Loading in …5
×

Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos

3,114 views

Published on

0 Comments
2 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

No Downloads
Views
Total views
3,114
On SlideShare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
2
Actions
Shares
0
Downloads
35
Comments
0
Likes
2
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Azevedo, aluísio. a lira dos vinte anos

  1. 1. Lira dos Vinte Anos Lira dosVinte Anos Álvares de AzevedoFonte: AZEVEDO, Álvares de. "Lira dos Vinte Anos". São PauloMartins Fontes, 1996. (ColeçãoPoetas do Brasil)Texto proveniente da Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro(http://www.bibvirt.futuro.usp.br)Digitalizado por Marian Nieves (marian_n@uol.com.br)Transformado em PDF por Paulo Sérgio Cardosopscardoso@ig.com.br Página 1
  2. 2. Lira dos Vinte Anos ÍNDICEÀ MINHA MÃE ............................................................................................................................ 4PRIMEIRA PARTE ..................................................................................................................... 5NO MAR ..................................................................................................................................... 6SONHANDO ............................................................................................................................... 6CISMAR...................................................................................................................................... 7AI JESUS!................................................................................................................................... 7ANJINHO .................................................................................................................................... 7ANJOS DO MAR......................................................................................................................... 8[Tenho um seio que delira] ................................................................................................................. 8A CANTIGA DO SERTANEJO .................................................................................................... 8[Quando, à noite, no leito perfumado] .................................................................................................... 9O POETA.................................................................................................................................... 9[Fui um doudo em sonhar tantos amores...] .......................................................................................... 10[Quando falo contigo, no meu peito].................................................................................................... 10NA MINHA TERRA ................................................................................................................... 11ITÁLIA....................................................................................................................................... 12A T............................................................................................................................................ 13CREPÚSCULO DO MAR .......................................................................................................... 13CREPÚSCULO NAS MONTANHAS.......................................................................................... 14DESALENTO ............................................................................................................................ 14PÁLIDA INOCÊNCIA ................................................................................................................ 15SONETO [Pálida, à luz da lâmpada sombria,] ..................................................................................... 15ANIMA MEA.............................................................................................................................. 15A HARMONIA ........................................................................................................................... 16VIDA ......................................................................................................................................... 17C............................................................................................................................................... 17EPITÁFIO no túmulo de Silva Pereira Junior ............................................................................ 18O PASTOR MORIBUNDO ........................................................................................................ 18TARDE DE VERÃO .................................................................................................................. 18TARDE DE OUTONO ............................................................................................................... 19CANTIGA.................................................................................................................................. 20SAUDADES .............................................................................................................................. 20ESPERANÇAS ......................................................................................................................... 21VIRGEM MORTA...................................................................................................................... 21HINOS DO PROFETA .............................................................................................................. 22 I Um canto do século ............................................................................................................. 22 II Lágrima de sangue.............................................................................................................. 23 III A tempestade..................................................................................................................... 24LEMBRANÇA DE MORRER ..................................................................................................... 25SEGUNDA PARTE ................................................................................................................... 27UM CADÁVER DE POETA ....................................................................................................... 28IDÉIAS ÍNTIMAS....................................................................................................................... 31BOÊMIOS................................................................................................................................. 33 Página 2
  3. 3. Lira dos Vinte Anos“SPLEEN” E CHARUTOS ......................................................................................................... 40I Solidão............................................................................................................................... 40II Meu anjo ............................................................................................................................ 40II Vagabundo......................................................................................................................... 40IV A Lagartixa ........................................................................................................................ 40V Luar de verão .................................................................................................................... 40VI O poeta moribundo ........................................................................................................... 41É ELA! É ELA! .......................................................................................................................... 41TERCEIRA PARTE................................................................................................................... 42MEU DESEJO........................................................................................................................... 43SONETO [Um mancebo no jogo se descora]...................................................................................... 43SONETO [Ao sol do meio-dia eu vi dormindo] .................................................................................... 43POR QUE MENTIAS?............................................................................................................... 43[Toda aquela mulher tem a pureza]..................................................................................................... 43AMOR....................................................................................................................................... 43FANTASIA ................................................................................................................................ 44LÁGRIMAS DA VIDA ................................................................................................................ 44SONETO [Os quinze anos de uma alma transparente].............................................................. 45LEMBRANÇA DOS QUINZE ANOS.......................................................................................... 45MEU SONHO............................................................................................................................ 45O CÔNEGO FILIPE .................................................................................................................. 46TRINDADE ............................................................................................................................... 46SONETO [Já da morte o palor me cobre o rosto,] ..................................................................... 46MINHA AMANTE ...................................................................................................................... 46EUTANÁSIA ............................................................................................................................. 47DESPEDIDAS........................................................................................................................... 47TERZA RIMA ............................................................................................................................ 47PANTEÍSMO............................................................................................................................. 48DESÂNIMO............................................................................................................................... 48O LENÇO DELA ....................................................................................................................... 49RELÓGIOS E BEIJOS .............................................................................................................. 49NAMORO A CAVALO ............................................................................................................... 49PÁLIDA IMAGEM...................................................................................................................... 49SEIO DE VIRGEM .................................................................................................................... 50MINHA MUSA ........................................................................................................................... 50MALVA-MAÇÃ .......................................................................................................................... 51PENSAMENTOS DELA ............................................................................................................ 51POR MIM? ................................................................................................................................ 52LÉLIA........................................................................................................................................ 52MORENA .................................................................................................................................. 5212 DE SETEMBRO ................................................................................................................... 53SOMBRA DE D. JUAN.............................................................................................................. 54NA VÁRZEA ............................................................................................................................. 55O EDITOR ................................................................................................................................ 56OH! NÃO MALDIGAM! ............................................................................................................. 56DINHEIRO ................................................................................................................................ 57ADEUS, MEUS SONHOS!........................................................................................................ 57MINHA DESGRAÇA ................................................................................................................. 57PÁGINA ROTA ........................................................................................................................... 2 Página 3
  4. 4. Lira dos Vinte AnosLIRA DOS VINTE ANOS À MINHA MÃECantando a vida, como o cisne a morte. Se a terra é adorada, a mãe não é maisBOCAGE digna de veneração. Digest of hindu law.Dieu, amour et poésie sont les trois mots que je voudrais seulsgraver sur ma pierre, si je mérite une pierre. Como as flores de uma árvore silvestreLAMARTINE Se esfolham sobre a leiva que deu vidaSão os primeiros cantos de um pobre poeta. A seus ramos sem fruto,Desculpai-os. As primeiras vozes do sabiá não Ó minha doce mãe, sobre teu seiotêm a doçura dos seus cânticos de amor. Deixa que dessa pálida coroaÉ uma lira, mas sem cordas; uma primavera, mas Das minhas fantasiassem flores; uma coroa de folhas, mas sem viço. Eu desfolhe também, frias, sem cheiro,Cantos espontâneos do coração, vibrações Flores da minha vida, murchas floresdoridas da lira interna que agitava um sonho, Que só orvalha o pranto!notas que o vento levou - como isso dou a lumeessas harmonias.São as páginas despedaçadas de um livro nãolido...E agora que despi a minha musa saudosa dosvéus do mistério do meu amor e da minha solidão,agora que ela vai seminua e tímida, por entre vós,derramar em vossas almas os últimos perfumesde seu coração, ó meus amigos, recebei-a nopeito e amai-a como o consolo, que foi, de umaalma esperançosa, que depunha fé na poesia e noamor - esses dois raios luminosos do coração deDeus. Página 4
  5. 5. Lira dos Vinte AnosPRIMEIRAPARTE Página 5
  6. 6. Lira dos Vinte Anos NO MAR SONHANDOLes étoiles s’allument au ciel, et la brise du soir erre doucement Hier, la nuit d’été, que nous prêtait ses voiles,parmi les fleurs: rêvez, chantez et soupirez. Était digne de toi, tant elle avait d’étoiles! GEORGE SAND VICTOR HUGOEra de noite: - dormias, Na praia deserta que a lua branqueia,Do sonho nas melodias, Que mimo! que rosa! que filha de Deus!Ao fresco da viração, Tão pálida... ao vê-la meu ser devaneia,Embalada na falua, Sufoco nos lábios os hálitos meus!Ao frio clarão da lua, Não corras na areia,Aos ais do meu coração! Não corras assim! Donzela, onde vais?Ah! que véu de palidez Tem pena de mim!Da langue face na tez!Como teus seios revoltos A praia é tão longa! e a onda braviaTe palpitavam sonhando! As roupas de gaza te molha de escuma...Como eu cismava beijando De noite, aos serenos, a areia é tão fria...Teus negros cabelos soltos! Tão úmido o vento que os ares perfuma! És tão doentia...Sonhavas? - eu não dormia; Não corras assim...A minh’alma se embebia Donzela, onde vais?Em tua alma pensativa! Tem pena de mim!E tremias, bela amante,A meus beijos, semelhante A brisa teus negros cabelos soltou,Às folhas da sensitivas! O orvalho da face te esfria o suor, Teus seios palpitam - a brisa os roçou,E que noite! que luar! Beijou-os, suspira, desmaia de amor!E que ardentias no mar! Teu pé tropeçou...E que perfumes no vento! Não corras assim...Que vida que se bebia Donzela, onde vais?Na noite que parecia Tem pena de mim!Suspirar de sentimento! E o pálido mimo da minha paixãoMinha rola, ó minha flor, Num longo soluço tremeu e parou,Ó madresilva de amor, Sentou-se na praia, sozinha no chão,Como eras saudosa então! A mão regelada no colo pousou!Como pálida sorrias Que tens, coraçãoE no meu peito dormias Que tremes assim?Aos ais do meu coração! Cansaste, donzela?E que noite! que luar! Tem pena de mim!Como a brisa a soluçar Deitou-se na areia que a vaga molhou.Se desmaiava de amor! Imóvel e branca na praia dormia;Como toda evaporava Mas nem os seus olhos o sono fechouPerfumes que respirava E nem o seu colo de neve tremia...Nas laranjeiras em flor! O seio gelou?...Suspiravas? que suspiro! Não durmas assim!Ai que ainda me deliro O pálida fria,Entrevendo a imagem tua Tem pena de mim!Ao fresco da viração, Dormia: - na fronte que níveo suar...Aos ais do meu coração, Que mão regelada no lânguido peito...Embalada na falua! Não era mais alvo seu leito do mar,Como virgem que desmaia, Não era mais frio seu gélido leito!Dormia a onda na praia! Nem um ressonar...Tua alma de sonhos cheia Não durmas assim...Era tão pura, dormente, O pálida fria,Como a vaga transparente Tem pena de mim!Sobre seu leito de areia! Aqui no meu peito vem antes sonharEra de noite - dormias, Nos longos suspiros do meu coração:Do sonho nas melodias, Eu quero em meus lábios teu seio aquentar,Ao fresco da viração; Teu colo, essas faces, e a gélida mão...Embalada na falua, Não durmas no mar!Ao frio clarão da lua, Não durmas assim.Aos ais do meu coração. Estátua sem vida, Tem pena de mim! E a vaga crescia seu corpo banhando, Página 6
  7. 7. Lira dos Vinte AnosAs cândidas formas movendo de leve! Dos teus olhos pela luz?E eu vi-a suave nas águas boiando Que morte! que morte bela!Com soltos cabelos nas roupas de neve! Antes seria viver!Nas vagas sonhando Ai Jesus!Não durmas assim... Que por um beijo perdidoDonzela, onde vais? Eu de gozo morreriaTem pena de mim! Em teus níveos seios nus?E a imagem da virgem nas águas do mar Que no oceano dum gemidoBrilhava tão branca no límpido véu... Minh’alma se afogaria?Nem mais transparente luzia o luar Ai Jesus!No ambiente sem nuvens da noite do céu!Nas águas do mar ANJINHONão durmas assim...Não morras, donzela, And from her fair and unpolluted flesch May violets spring!Espera por mim! HAMLET Não chorem... que não morreu! CISMAR Era um anjinho do céuFala-me, anjo de luz! és glorioso Que um outro anjinho chamou!À minha vista na janela à noite Era uma luz peregrina,Como divino alado mensageiroAo ebrioso olhar dos frouxos olhos Era uma estrela divinaDo homem, que se ajoelha para vê-lo, Que ao firmamento voou!Quando resvala em preguiçosas nuvens, Pobre criança! Dormia:Ou navega no seio do ar da noite. ROMEU A beleza reluzia No carmim da face dela!Ai! quando de noite, sozinha à janela Tinha uns olhos que choravam,Co’a face na mão te vejo ao luar, Tinha uns risos que encantavam!...Por que, suspirando, tu sonhas, donzela? Ai meu Deus! era tão bela.A noite vai bela,E a vista desmaia Um anjo d’asas azuis,Ao longe na praia Todo vestido de luz,Do mar! Sussurrou-lhe num segredo Os mistérios doutra vida!Por quem essa lágrima orvalha-te os dedos, E a criança adormecidaComo água da chuva cheiroso jasmim? Sorria de se ir tão cedo!Na cisma que anjinho te conta segredos?Que pálidos medos? Tão cedo! que ainda o mundoSuave morena, O lábio visguento, imundo,Acaso tens pena Lhe não passara na roupa!De mim? Que só o vento do céu Batia do barco seuDonzela sombria, na brisa não sentes As velas d’ouro da poupa!A dor que um suspiro em meus lábios tremeu?E a noite, que inspira no seio dos entes Tão cedo! que o vestuárioOs sonhos ardentes, Levou do anjo solitárioNão diz-te que a voz Que velava seu dormir!Que fala-te a sós Que lhe beijava risonhoSou eu? E essa florzinha no sonho Toda orvalhava no abrir!Acorda! Não durmas da cisma no véu!Amemos, vivamos, que amor é sonhar! Não chorem! lembro-me aindaUm beijo, donzela! Não ouves? no céu Como a criança era lindaA brisa gemeu... No fresco da facezinha!As vagas murmuraram... Com seus lábios azulados,As folhas sussurram: Com os seus olhos vidradosAmar! Como de morta andorinha! Pobrezinho! o que sofreu! AI JESUS! Como convulso tremeu Na febre dessa agonia!Ai Jesus! não vês que gemo, Nem gemia o anjo lindo,Que desmaio de paixão Só os olhos expandindoPelos teus olhos azuis? Olhar alguém parecia!Que empalideço, que tremo,Que me expira o coração? Era um canto de esperançaAi Jesus! Que embalava essa criança? Alguma estrela perdida,Que por um olhar, donzela, Do céu c’roada donzela...Eu poderia morrer Página 7
  8. 8. Lira dos Vinte AnosToda a chorar-se por elaQue a chamava doutra vida? I Tenho um seio que deliraNão chorem... que não morreu! Como as tuas harmonias!Que era um anjinho do céu Que treme quando suspira,Que um outro anjinho chamou! Que geme como gemias!Era uma luz peregrina,Era uma estrela divina IIQue ao firmamento voou! Tenho músicas ardentes, Ais do meu amor insano,Era uma alma que dormia Que palpitam mais dormentesDa noite na ventania Do que os sons do teu piano!E que uma fada acordou!Era uma flor de palmeira IIINa sua manhã primeira Tenho cordas argentinasQue um céu d’inverno murchou! Que a noite faz acordar, Como as nuvens peregrinasNão chorem! abandonada Das gaivotas do alto mar!Pela rosa perfumada,Tendo no lábio um sorriso, IVEla se foi mergulhar Como a teus dedos lindinhos- Como pérola no mar - O teu piano gemer,Nos sonhos do paraíso! Vibra-me o seio aos dedinhos Dos anjos louros do céu!Não chorem! chora o jardimQuando marchado o jasmim VSobre o seio lhe pendeu? Vibra à noite no mistérioE pranteia a noite bela Se o banha o frouxo luar,Pelo astro ou a donzela Se passa teu rosto aéreoMortos na terra ou no céu? No vaporoso sonhar!Choram as flores no afã VIQuando a ave da manhã Como tremem teus dedinhosEstremece, cai, esfria? O saudoso piano teu,Chora a onda quando vê Vibram-me n’alma os anjinhos,A boiar um irerê Os anjos loiros do céu!Morta ao sol do meio-dia?Não chorem!... que não morreu! A CANTIGA DO SERTANEJOEra um anjinho do céu Love me, and leave me not.Que um outro anjinho chamou! SHAKESPEARE, Merch. Of VeniceEra uma luz peregrina, Donzela! Se tu quiserasEra uma estrela divina Ser a flor das primaverasQue ao firmamento voou! Que tenho no coração: E se ouviras o desejo ANJOS DO MAR Do amoroso sertanejo Que descora de paixão!...As ondas são anjos que dormem no mar,Que tremem, palpitam, banhados de luz... Se tu viesses comigoSão anjos que dormem, a rir e sonhar Das serras ao desabrigoE em leito d’escuma revolvem-se nus! Aprender o que é amar... - Ouvi-lo no frio vento,E quando, de noite, vem pálida a lua Das aves no sentimento,Seus raios incertos tremer, pratear... Nas águas e no luar!...E a trança luzente da nuvem flutua...As ondas são anjos que dormem no mar! Ouvi-lo nessa viola, Onde a modinha espanholaQue dormem, que sonham... e o vento dos céus Sabe carpir e gemer!...Vem tépido, à noite, nos seios beijar!... Que pelas horas perdidasSão meigos anjinhos, são filhos de Deus, Tem cantigas doloridas,Que ao fresco se embalam do seio do mar! Muito amor, muito doer...E quando nas águas os ventos suspiram, Pobre amor! o sertanejoSão puros fervores de ventos e mar... Tem apenas seu desejoSão beijos que queimam... e as noites deliram E as noites belas do val!...E os pobres anjinhos estão a chorar! Só o ponche adamascado,Ai! quando tu sentes dos mares na flor O trabuco prateadoOs ventos e vagas gemer, palpitar... E o ferro de seu punhal!...Por que não consentes, num beijo de amor, E tem as lendas antigasQue eu diga-te os sonhos dos anjos do mar? E as desmaiadas cantigas Página 8
  9. 9. Lira dos Vinte AnosQue fazem de amor gemer!... E os perfumes, o luar,E nas noites indolentes E as aves a suspirar,Bebe cânticos ardentes Tudo canta e diz - amor!Que fazem estremecer!... Ah! vem! amemos! vivamos!Tem mais... na selva sombria O enlevo do amor bebamosDas florestas a harmonia, Nos perfumes do serão!Onde passa a voz de Deus, Ah! Virgem, se tu quiserasE nos relentos da serra Ser a flor das primaverasPernoita na sua terra, Que tenho no coração!...No leito dos sonhos seus!Se tu viesses, donzela,Verias que a vida é bela Dreams! dreams! dreams!No deserto do sertão: W. COWPERLá têm mais aroma as flores Quando, à noite, no leito perfumadoE mais amor os amores Lânguida fronte no sonhar reclinas,Que falam do coração! No vapor da ilusão por que te orvalhaSe viesses inocente Pranto de amor as pálpebras divinas?Adormecer docemente E, quando eu te contemplo adormecidaÀ noite no peito meu!... Solto o cabelo no suave leito,E se quisesses comigo Por que um suspiro tépido ressonaVir sonhar no desabrigo E desmaia suavíssimo em teu peito?Com os anjinhos do céu! Virgem do meu amor, o beijo a furtoÉ doce na minha terra Que pouso em tua face adormecidaAndar, cismando, na serra Não te lembra do peito os meus amoresCheia de aroma e de luz, E a febre do sonhar de minha vida?Sentindo todas as flores,Bebendo amor nos amores Dorme, ó anjo de amor! no teu silêncioDas borboletas azuis! O meu peito se afoga de ternura... E sinto que o porvir não vale um beijoOs veados da campina E o céu um teu suspiro de ventura!Na lagoa, entre a neblina,São tão lindos a beber!... Um beijo divinal que acende as veias,Da torrente nas coroas Que de encantos os olhos ilumina,Ao deslizar das canoas Colhido a medo, como flor da noite,É tão doce adormecer!... Do teu lábio na rosa purpurina...Ah! Se viesses, donzela, E um volver de teus olhos transparentes,Verias que a vida é bela Um olhar dessa pálpebra sombriaNo silêncio do sertão! Talvez pudessem reviver-me n’almaAh!... morena, se quiseras As santas ilusões de que eu vivia!Ser a flor das primaverasQue tenho no coração! O POETAJunto à águas da torrente s Un souvenir heureux est peut-être sur terreSonharias indolente Plus vrai que le bonheur. A. DE MUSSETComo num seio d’irmã!...- Sobre o leito de verduras Era uma noite: - eu dormia...O beijo das criaturas E nos meus sonhos reviaSuspira com mais afã! As ilusões que sonhei! E no meu lado senti...E da noitinha as aragens Meu Deus! por que não morri?Bebem nas flores selvagens Por que no sono acordei?Efluviosa fresquidão!...Os olhos têm mais ternura No meu leito adormecida,E os ais da formosura Palpitante e abatida,Se embebem no coração!... A amante de meu amor, Os cabelos recendendoE na caverna sombria Nas minhas faces correndo,Tem um ai mais harmonia Como o luar numa flor!E mais fogo o suspirar!...Mais fervoroso o desejo Senti-lhe o colo cheirosoVai sobre os lábios num beijo Arquejando sequiosoEnlouquecer, desmaiar!... E nos lábios, que entreabria Lânguida respiração,E da noite nas ternuras Um sonho do coraçãoA paixão tem mais venturas Que suspirando morria!E fala com mais ardor!... Página 9
  10. 10. Lira dos Vinte AnosNão era um sonho mentido: Foi mais uma ilusão! de minha fronteMeu coração iludido Rosa que desbotouO sentiu e não sonhou... Uma estrela de vida e de futuroE sentiu que se perdia Que riu... e desmaiou!Numa dor que não sabia... Meu triste coração, é tempo, dorme,Nem ao menos a beijou! Dorme no peito meu!Soluçou o peito ardente, Do último sonho despertei e n’almaSentiu que a alma demente Tudo! tudo morreu!Lhe desmaiava a tremer, Meus Deus! por que sonhei e assim por elaEmbriagou-se de enleio, Perdi a noite ardente...No sono daquele seio Se devia acordar dessa esperança,Pensou que ele ia morrer! E o sonho era demente?...Que divino pensamento, Eu nada lhe pedi: ousei apenasQue vida num só momento Junto dela, à noitinha,Dentro do peito sentiu... Nos meus delírios apertar tremendoNão sei!... Dorme no passado A sua mão na minha!Meu pobre sonho doirado...Esperança que mentiu... Adeus, pobre mulher! no meu silêncio Sinto que morrerei...Sabem as noites do céu Se rias desse amor que te votava,E as luas brancas sem véu Deus sabe se te amei!Os prantos que derramei!Contem do vale as florinhas Se te amei! se minha alma só queriaEsse amor das noite minhas! Pela tua viver,Elas sim... que eu não direi! No silêncio do amor e da ventura Nos teus lábios morrer!E se eu tremendo, senhora,Viesse pálido agora Mas vota ao menos no lembrar saudosoLembrar-vos o sonho meu, Um ai ao sonhador...Com a fronte descorada Deus sabe se te amei!... Não te maldigo,E com a voz sufocada Maldigo o meu amor!...Dizer-vos baixo: - Sou eu! Mas não... inda uma vez... Não posso aindaSou eu! que não esqueci Dizer o eterno adeusA noite que não dormi, E a sangue frio renegar dos sonhosQue não foi uma ilusão! E blasfemar de Deus!Sou eu que sinto morrer Oh! Fala-me de amor!... - eu quero crer-teA esperança de viver... Um momento sequer...Que o sinto no coração! E esperar na ventura e nos amores,Riríeis das esperanças, Num olhar de mulher!Das minhas loucas lembranças,Que me desmaiam assim?Ou então, de noite, a medo Só um olhar por compaixão te peço,Choraríeis em segredo Um olhar.... mas bem lânguido, bem terno...Uma lágrima por mim! ........................................................................... Quero um olhar que me arrebate o siso, Me queime o sangue, m’escureça os olhos, Me torne delirante!Dorme, meu coração! Em paz esquece ALMEIDA FREITASTudo, tudo que amaste neste mundo!Sonho falaz de tímida esperança Sur votre main jamais votre front ne se pose,Não interrompa teu dormir profundo! Brûlant, chargé d’ennuis, ne pouvant soutenir Tradução do Dr. Octaviano Le poids d’un douloureux et cruel souvenir; Votre coeur virginal en lui-même repose.Fui um doudo em sonhar tantos amores... Th. GautierQue loucura, meu Deus! Ricorditi di me...............Em expandir-lhe aos pés, pobre insensato, DANTE, PurgatórioTodos os sonhos meus! Quando falo contigo, no meu peitoE ela, triste mulher, ela tão bela, Esquece-me esta dor que me consome:Dos seus anos na flor, Talvez corre o prazer nas fibras d’alma:Por que havia de sagrar pelos meus sonhos E eu ouso ainda murmurar teu nome!Um suspiro de amor? Que existência, mulher! se tu souberasUm beijo - um beijo só! eu não pedia A dor de coração do teu amante,Senão um beijo seu E os ais que pela noite, no silêncio,E nas horas do amor e do silêncio Arquejam no seu peito delirante!Juntá-la ao peito meu! E quando sofre e padeceu... e a febre _____ Como seus lábios desbotou na vida... Página 10
  11. 11. Lira dos Vinte AnosE sua alma cansou na dor convulsa Amo o vento da noite sussurranteE adormeceu na cinza consumida! A tremer nos pinheirosTalvez terias dó da mágoa insana E a cantiga do pobre caminhanteQue minh’alma votou ao desalento... No rancho dos tropeiros;E consentirás, ó virgem dos amores, E os monótonos sons de uma violaDescansar-me no seio um só momento! No tardio verão,Sou um doudo talvez de assim amar-te, E a estrada que além se desenrolaDe murchar minha vida no delírio... No véu da escuridão;Se nos sonhos de amor nunca tremeste, A restinga d’areia onde rebentaSonhando meu amor e meu martírio... O oceano a bramir,E não pude, febril e de joelhos, Onde a lua na praia macilentaCom a mente abrasada e consumida, Vem pálida luzir;Contar-te as esperanças do meu peito E a névoa e flores e o doce ar cheirosoE as doces ilusões de minha vida! Do amanhecer na serra,Oh! quando eu te fitei, sedento e louco, E o céu azul e o manto nebulosoTeu olhar que meus sonhos alumia, Do céu de minha terra;Eu não sei se era vida o que minh’alma E o longo vale de florinhas cheioEnlevava de amor e adormecia! E a névoa que desceu,Oh! nunca em fogo teu ardente seio Como véu de donzela em branco seio,A meu peito juntei que amor definha! As estrelas do céu.A furto apenas eu senti medrosa IITua gélida mão tremer na minha!... Não é mais bela, não, a argêntea praiaTem pena, anjo de Deus! deixa que eu sinta Que beija o mar do sul,Num beijo esta minh’alma enlouquecer Onde eterno perfume a flor desmaiaE que eu viva de amor nos teus joelhos E o céu é sempre azul;E morra no teu seio o meu viver! Onde os serros fantásticos roxeiamSou um doudo, meu Deus! mas no meu peito Nas tardes de verãoTu sabes se uma dor, se uma lembrança E os suspiros nos lábios incendeiamNão queria calar-se a um beijo dela, E pulsa o coração!Nos seios dessa pálida criança! Sonho da vida que doirou e azulaSe num lânguido olhar no véu de gozo A fada dos amores,Os olhos de Espanhola a furto abrindo Onde a mangueira ao vento que tremulaEu não tremia... o coração ardente Sacode as brancas flores...No peito exausto remoçar sentindo! E é saudoso viver nessa dormênciaSe no momento efêmero e divino Do lânguido sentir,Em que a virgem pranteia desmaiando Nos enganos suaves da existênciaE a c’roa virginal a noiva esfolha, Sentindo-se dormir...Eu queria a seus pés morrer chorando! Mais formosa não é, não doire emboraAdeus! Rasgou-se a página saudosa O verão tropicalQue teu porvir de amor no meu fundia, Com seus rubores... a alvacenta auroraGelou-se no meu sangue moribundo Da montanha natal...Essa gota final de que eu vivia! Nem tão doirada se levante a luaAdeus, anjo de amor! tu não mentiste! Pela noite do céu,Foi minha essa ilusão e o sonho ardente: Mas venha triste, pensativa e nuaSinto que morrerei... tu, dorme e sonha Do prateado véu...No amor dos anjos, pálido inocente! Que me importa? se as tardes purpurinasMas um dia... se a nódoa da existência E as auroras daliMurchar teu cálix orvalhoso e cheio, Não deram luz à diáfanas cortinas sFlor que respirei, que amei sonhando, Do leito onde eu nasci?Tem saudade de mim, que eu te pranteio! Se adormeço tranqüilo no teu seio E perfuma-se a flor, NA MINHA TERRA Que Deus abriu no peito do poeta,Laisse-toi donc aimer! Oh! l’amour c’est la vie! Gotejante de amor?C’est tout ce qu’on regrette et tout ce qu’on envie, Minha terra sombria, és sempre bela,Quand on voit sa jeunesse au couchant décliner!............................................................................... Inda pálida a vidaLa beauté c’est le front, l’amour c’est la couronne: Como o sono inocente da donzelaLaisse-toi couronner! No deserto dormida! V. HUGO No italiano céu nem mais suaves I São da noite os amores, Página 11
  12. 12. Lira dos Vinte AnosNão tem mais fogo o cântico das aves Minh’alma exalarei no céu da Itália!Nem o vale mais flores! Ver a Itália e morrer!... Entre meus sonhos III Eu vejo-a de volúpia adormecida...Quando o gênio da noite vaporosa Nas tardes vaporentas se perfumaPela encosta bravia E dorme, à noite, na ilusão da vida!Na laranjeira em flor toda orvalhosa E, se eu devo expirar nos meus amores,De aroma se inebria... Nuns olhos de mulher amor bebendo,No luar junto à sombra recendente Seja aos pés da morena Italiana,De um arvoredo em flor, Ouvindo-a suspirar, inda morrendo.Que saudades e amor que influi na mente Lá na terra da vida e dos amoresDa montanha o frescor! Eu podia viver inda um momento,E quando, à noite no luar saudoso Adormecer ao sol da primaveraMinha pálida amante Sobre o colo das virgens de Sorrento!Ergue seus olhos úmidos de gozo IIE o lábio palpitante... A Itália! sempre a Itália delirante!Cheia da argêntea luz do firmamento, E os ardentes saraus, e as noites belas!Orando por seu Deus, A Itália do prazer, do amor insano,Então... eu curvo a fronte ao sentimento Do sonho fervoroso das donzelas!Sobre os joelhos seus... E a gôndola sombria resvalandoE quando sua voz entre harmonias Cheia de amor, de cânticos e flores...Sufoca-se de amor E a vaga que suspira à meia-noiteE dobra a fronte bela de magias Embalando o mistério dos amores!Como pálida flor... Ama-te o sol, ó terra da harmonia,E a alma pura nos seus olhos brilha Do levante na brisa te perfumas:Em desmaiado véu, Nas praias de ventura e primaveraComo de um anjo na cheirosa trilha Vai o mar estender seu véu d’escumas!Respiro o amor do céu! Vai a lua sedenta e vagabundaMelhor a viração uma por uma O teu berço banhar na luz saudosa,Vem as folhas tremer, As tuas noites estrelar de sonhosE a floresta saudosa se perfuma E beijar-te na fronte vaporosa!Da noite no morrer... Pátria do meu amor! terra das glóriasE eu amo as flores e o doce ar mimoso Que o gênio consagrou, que sonha o povo...Do amanhecer da serra Agora que murcharam teus loureirosE o céu azul e o manto nebuloso Fora doce em teu seio amar de novo...Do céu da minha terra! Amar tuas montanhas e as torrentes E esse mar onde bóia alcion dormindo, ITÁLIA Onde as ilhas se azulam no ocidente,Ao meu amigo o Conde de Fé Como nuvens à tarde se esvaindo...Veder Napoli e poi morir. Aonde à noite o pescador moreno I Pela baía no batel se escoa...Lá na terra da vida e dos amores E murmurando, nas canções de Armida,Eu podia viver inda um momento... Treme aos fogos errantes da canoa...Adormecer ao sol da primavera Onde amou Rafael, onde sonhavaSobre o colo das virgens de Sorrento ! No seio ardente da mulher divina,Eu podia viver - e porventura E talvez desmaiou no teu perfumeNos luares do amor amar a vida, E suspirou com ele a Fornarina...Dilatar-se minh’alma como o seio E juntos, ao luar, num beijo erranteDo pálido Romeu na despedida! Desfolhavam os sonhos da venturaEu podia na sombra dos amores E bebiam na lua e no silêncioTremer num beijo o coração sedento... Os eflúvios de tua formosura!Nos seios da donzela delirante Ó anjo de meu Deus, se nos meus sonhosEu podia viver inda um momento! A promessa do amor me não mentia,Ó anjo de meu Deus! se nos meus sonhos Concede um pouco ao infeliz poetaNão mentia o reflexo da ventura, Uma hora da ilusão que o embebia!E se Deus me fadou nesta existência Concede ao sonhador, que tão-somenteUm instante de enlevo e de ternura... Entre delírios palpitou d’enleio,Lá entre os laranjais, entre os loureiros, Numa hora de paixão e de harmoniaLá onde a noite seu aroma espalha, Dessa Itália do amor morrer no seio!Nas longas praias onde o mar suspira Oh! na terra da vida e dos amores Página 12
  13. 13. Lira dos Vinte AnosEu podia sonhar inda um momento, Como da noite o bafo sobre as águasNos seios da donzela delirante Que o reflexo da tarde incendiava,Apertar o meu peito macilento Só a idéia de Deus e do infinitoMaio, 1851. - S. Paulo No oceano boiava! Como é doce viver nas longas praias A T... Nestas ondas e sol e ventania!No amor basta uma noite para fazer de um homem um Deus. Como ao triste cismar encanto aéreo PROPÉRCIO Nas sombras preludia!Amoroso palor meu rosto inunda, O painel luminoso do horizonteMórbida languidez me banha os olhos, Como as cândidas sombras alumiaArdem sem sono as pálpebras doridas, Dos fantasmas de amor que nós amamosConvulsivo tremor meu corpo vibra... Na ventura de um dia!Quanto sofro por ti! Nas longas noitesAdoeço de amor e de desejos... Como voltam gemendo e nebulosas,E nos meus sonhos desmaiando passa Brancas as roupas, desmaiado o seio,A imagem voluptuosa da ventura: Inda uma vez a murmurar nos sonhosEu sinto-a de paixão encher a brisa, As palavras do enleio!...Embalsamar a noite e o céu sem nuvens; Aqui nas praias, onde o mar rebentaE ela mesma suave descorando E a escuma no morrer os seios rola,Os alvacentos véus soltar do colo, Virei sentar-me no silêncio puroCheirosas flores desparzir sorrindo Que o meu peito consola!Da mágica cintura. Sonharei... lá enquanto, no crepúsculo,Sinto na fronte pétalas de flores, Como um globo de fogo o sol se abismaSinto-as nos lábios e de amor suspiro... E o céu lampeja no clarão medonhoMas flores e perfumes embriagam... De negro cataclisma...E no fogo da febre, e em meu delírioEmbebem na minh’alma enamorada Enquanto a ventania se levantaDelicioso veneno. E no ocidente o arrebol se ateia No cinábrio do empíreo derramandoEstrela de mistério! em tua fronte A nuvem que roxeia...Os céus revela e mostra-me na terra,Como um anjo que dorme, a tua imagem Hora solene das idéias santasE teus encantos, onde amor estende Que embala o sonhador nas fantasias,Nessa morena tez a cor de rosa. Quando a taça do amor embebe os lábiosMeu amor, minha vida, eu sofro tanto! Do anjo das utopias!O fogo de teus olhos me fascina, Oceano de Deus! Que moribundo,O langor de teus olhos me enlanguece, A cantiga do nauta mais sentidaCada suspiro que te abala o seio Tão triste suspirou nas tuas ondas,Vem no meu peito enlouquecer minh’alma! Como um adeus à vida?Ah! vem, pálida virgem, se tens pena Que nau cheia de glória e desperanças,De quem morre por ti, e morre amando, Floreando ao vento a rúbida bandeira,Dá vida em teu alento à minha vida, Na luz do incêndio rebentou bramindoUne nos lábios meus minh’alma à tua!Eu quero ao pé de ti sentir o mundo Na vaga sobranceira?Na tu’alma infantil; na tua fronte Por que ao sol da manhã e ao ar da noiteBeijar a luz de Deus; nos teus suspiros Essa triste canção, eterna, escura,Sentir as virações do paraíso... Como um treno de sombra e de agonia,E a teus pés, de joelhos, crer ainda Nos teus lábios murmura?Que não mente o amor que um anjo inspira, É vermelho de sangue o céu da noite,Que eu posso na tu’alma ser ditoso, Que na luz do crepúsculo se banha:Beijar-te nos cabelos soluçando Que planeta do céu do roto seioE no teu seio ser feliz morrendo! Golfeja luz tamanha?Dezembro, 1851. Que mundo em fogo foi bater correndo Ao peito de outro mundo; - e uma torrente CREPÚSCULO DO MAR De medonho clarão rasgou no éterQue rêves-tu plus beau sur ces lointaines plages E jorra sangue ardente?Que cette chaste mer qui baigne nos rivages?Que ces mornes couverts de bois silencieux, Onde as nuvens do céu voam dormindo,Autels d’où nos parfurns sélèvent dans les cieux? Que doirada mansão de aves divinas LAMARTINE Num véu purpúreo se enlutou rolandoNo céu brilhante do poente em fogo Ao vento das ruínas?Com auréola ardente o sol dormia,Do mar doirado nas vermelhas ondasPurpúreo se escondia. Página 13
  14. 14. Lira dos Vinte Anos Foram anjos de amor, que vagabundosCREPÚSCULO NAS MONTANHAS Com saudades do céu vagam gemendoPálida estrela, casto olhar da noite, E as lágrimas de fogo dos amoresdiamante luminoso na fronte azul do Sobre as nuvens pranteiam?crepúsculo, o que vês na planície? OSSIAN Criaturas da sombra e do mistério,I Ou no purpúreo céu doureis a tarde,Além serpeia o dorso pardacento Ou pela noite cintileis medrosas,Da longa serrania, Estrelas, eu vos amo!Rubro flameia o véu sanguinolentoDa tarde na agonia. E quando, exausto o coração no peito Do amor nas ilusões espera e dorme,No cinéreo vapor o céu desbota Diáfanas vindes-lhe doirar na menteNum azulado incerto, A sombra da esperança!No ar se afoga desmaiando a notaDo sino do deserto... Oh! quando o pobre sonhador medita Do vale fresco no orvalhado leitoVim alentar meu coração saudoso Inveja à águias o perdido vôo sNo vento das campinas, Para banhar-se no perfume etéreo...Enquanto nesse manto lutuoso E, nessa argêntea luz, no mar de amoresPálida te reclinas Onde entre sonhos e luar divinoE morre em teu silêncio, ó tarde bela, A mão do Eterno vos lançou no espaço,Das folhas o rumor... Respirar e viver!E late o pardo cão que os passos velaDo tardio pastor! II DESALENTOPálida estrela! o canto do crepúsculo Por que havíeis passar tão doces dias?Acorda-te no céu: A. F. DE SERPA PIMENTELErgue-te nua na floresta morta Feliz daquele que no livro d’almaDo teu doirado véu! Não tem folhas escritasErgue-te!... eu vim por ti e pela tarde E nem saudade amarga, arrependida,Pelos campos errar, Nem lágrimas malditas!Sentir o vento, respirando a vida Feliz daquele que de um anjo as trançasE livre suspirar. Não respirou sequerÉ mais puro o perfume das montanhas E nem bebeu eflúvios descorandoDa tarde no cair... Numa voz de mulher...Quando o vento da noite agita as folhas E não sentiu-lhe a mão cheirosa e brancaÉ doce o teu luzir! Perdida em seus cabelos,Estrela do pastor, no véu doirado Nem resvalou do sonho deleitosoAcorda-te na serra, A reais pesadelos...Inda mais bela no azulado fogo Quem nunca te beijou, flor dos amores,Do céu da minha terra! Flor do meu coração, III E não pediu frescor, febril e insanoEstrela d’oiro, no purpúreo leito Da noite à viração!Da irmã da noite, branca e peregrina Ah! feliz quem dormiu no colo ardenteNo firmamento azul derramas dia Da huri dos amores,Que as almas ilumina! Que sôfrego bebeu o orvalho santoAbre o seio de pérola, transpira Das perfumadas flores...Esse raio de luz que a mente inflama! E pôde vê-la morta ou esquecidaEsse raio de amor que ungiu meus lábios Dos longos beijos seus,No meu peito derrama! Sem blasfemar das ilusões mais puras IV E sem rir-se de Deus!Lo bel pianeta he ad amar conforta Mas, nesse doloroso sofrimentoFaceva tutto rider l’oriente DANTE, Purgatório Do pobre peito meu, Sentir no coração que à dor da vidaEstrelinhas azuis do céu vermelho, A esperança morreu!...Lágrimas d’oiro sobre o véu da tarde,Que olhar celeste em pálpebra divina Que me resta, meu Deus? aos meus suspirosVos derramou tremendo? Nem geme a viração... E dentro, no deserto do meu peito,Quem, à tarde, crisólitas ardentes, Não dorme o coração!Estrelas brancas, vos sagrou saudosasDa fronte dela na azulada c’roaComo auréola viva? Página 14
  15. 15. Lira dos Vinte Anos E os raios d’oiro, cintilando vivos, PÁLIDA INOCÊNCIA Como chuva encantada se gotejamCette image du cíel - innocence et beauté! Nas folhas do arvoredo recendente, LAMARTINE Parece que de afã dorme a naturaPor que, pálida inocência, E as aves silenciosas se mergulhamOs olhos teus em dormência No grato asilo da cheirosa sombra.A medo lanças em mim? E que silêncio então pelas campinas!...No aperto de minha mão A flor aberta na manhã mimosaQue sonho do coração E que os estos do sol d’estio murchamTremeu-te os seios assim? Cerra as folhas doridas e procuraE tuas falas divinas Da grama no frescor doentio leito.Em que amor lânguida afinas É doce então das folhas no silêncioEm que lânguido sonhar? Penetrar o mistério da floresta,E dormindo sem receio Ou reclinado à sombra da mangueiraPor que geme no teu seio Um momento dormir, sonhar um pouco!Ansioso suspirar? Ninguém que turve os sonhos de mancebo, Ninguém que o indolente adormecidoInocência! quem dissera Roube das ilusões que o acalentamDe tua azul primavera E do mole dormir o chame à vida!As tuas brisas de amor!Oh! quem teus lábios sentira E é tão doce dormir! é tão suaveE que trêmulo te abrira Da modorra no colo embalsamadoDos sonhos a tua flor! Um momento tranqüilo deslizar-se! Criaturas de Deus se peregrinamQuem te dera a esperança Invisíveis na terra, consolandoDe tua alma de criança, As almas que padecem... certamenteQue perfuma teu dormir! Que são anjos de Deus que aos seios tomamQuem dos sonhos te acordasse, A fronte do poeta que descansa!Que num beijo t’embalasseDesmaiada no sentir! Ó floresta! ó relva amolecida, A cuja sombra, em cujo doce leitoQuem te amasse! e um momento É tão macio descansar nos sonhos!Respirando o teu alento Arvoredos do vale! derramai-meRecendesse os lábios seus! Sobre o corpo estendido na indolênciaQuem lera, divina e bela, O tépido frescor e o doce aroma!Teu romance de donzela E quando o vento vos tremer nos ramosCheio de amor e de Deus! E sacudir-vos as abertas flores Em chuva perfumada, concedei-me SONETO Que encham meu leito, minha face, a relva... Onde o mole dormir a amor convida!Pálida, a luz da lâmpada sombria,Sobre o leito de flores reclinada, E tu, Ilná, vem pois! deixa em teu coloComo a lua por noite embalsamada, Descanse teu poeta: é tão divinoEntre as nuvens do amor ela dormia! Sorver as ilusões dos sonhos ledos, Sentindo à brisa teus cabelos soltosEra a virgem do mar! na escuma fria Meu rosto encherem de perfume e gozo!Pela maré das água embalada...- Era um anjo entre nuvens d’alvorada Tudo dorme, não vês? dorme comigo,Que em sonhos se banhava e se esquecia! Pousa na minha tua face bela E o pálido cetim da tez morena...Era mais bela! o seio palpitando... Fecha teus olhos lânguidos... no sonoNegros olhos as pálpebras abrindo... Quero sentir os túmidos suspirosFormas nuas no leito resvalando... No teu seio arquejar, morrer nos lábios...Não te rias de mim, meu anjo lindo! E no sono teu braço me enlaçando!Por ti - as noites eu velei chorando Ó minha noiva, minha doce virgem,Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo! No regaço da bela natureza, Anjo de amor, reclina-te e descansa! ANIMA MEA Neste berço de flores tua vida Límpida e pura correrá na sombra,E como a vida é bela e doce e amável!Não presta o espinhal a sombra ao leito Como gota de mel em cálix brancoDo pastor do rebanho vagaroso, Da flor das selvas que ninguém respira.Melhor que as sedas do lençol noturnoOnde o pávido rei dormir não pode? Além, além nas árvores tranqüilas SHAKESPEARE, Henrique VI, 3ª p. Uma voz acordou como um suspiro... São ais sentidos de amorosa rolaQuando nas sestas do verão saudoso Que nos beijos de amor palpita e geme?A sombra cai nos laranjais do vale, Ah! nem tão doce a rola suspirandoOnde o vento adormece e se perfuma... Página 15
  16. 16. Lira dos Vinte AnosModula seus gemidos namorados, Ó santa Malibran! fora tão doceNão trina assim tão longa e molemente... Pelas noites suaves do silêncioEm argentinas pérolas o canto Nas lágrimas de amor, nos teus suspiros,Se exala como as notas expirantes Na agonia de um beijo, ouvir gemendoDe uma alma de mulher que chora e canta... Entre meus sonhos tua voz divina!É a voz do sabiá: ele dormia Ó Paganini! quando moribundoEbrioso de harmonia e se embalava Inda a rabeca ao peito comprimias,No silêncio, na brisa e nos eflúvios Se o hálito de Deus, essa alma d’anjoDas flores de laranja... Ilná, ouviste? Que das fibras do peito cavernosoÉ o canto saudoso da esperança, Arquejava nas cordas entornandoÉ dos nossos amores a cantiga Murmúrios d’esperança e de ventura,Que o aroma que exalam teus cabelos, Se a alma de teu viver roçou passandoTua lânguida voz... talvez lhe inspiram! Nalgum lábio sedento de poesia,Vem, Ilná, dá-me um beijo: adormeçamos... Numa alma de mulher adormecida,A cantilena do sabiá sombrio Se algum seio tremeu ao concebê-lo...Encanta as ilusões, afaga o sono... Esse alento de vida e de futuroÓ! minha pensativa, descuidosa, - Foi o teu seio, Malibran divina!Eu sinto a vida bela em teu regaço, Ah! se nunca te ouvi, se teus suspiros,Sinto-a bela nas horas do silêncio Desdêmona sentida e moribunda,Quando em teu colo me reclino e durmo... Nunca pude beber no teu exílio...E ainda os sonhos meus vivem contigo! Nos sonhos virginais senti ao menosAh! vem, ó minha Ilná: sei harmonias Tua pálida sombra vaporosaQue a noite ensina ao violão saudoso Nesta fronte que a febre encandeceraE que a lua do mar influi na mente; Depor um beijo, suspirar passando!E quando eu vibro as cordas tremulosas, Meu Deus! e, outrora, se um momento a vidaComo alma de donzela que respira, De poesia orvalhou meus pobres sonhos,Coa nas vibrações tanta saudade, Foi nuns suspiros de mulher saudosa,Tanto sonho de amor esvaecido... Foi abatida, a forma desmaiada,Que o terno coração acorda e geme Uma pobre infeliz que descorandoE os lábios do poeta inda suspiram! Fazia os prantos meus correr-me aos olhos!Anjo do meu amor! se os ais da virgem Pobre! pobre mulher! esses mancebosTêm doçuras, têm lágrimas divinas, Que choravam por ti... quando gemias,É quando, no silêncio e no mistério, Quando sentias a tua alma ardenteSobre o peito do amante se derramam No canto esvaecer, pálida e bela,No sufocado alento os moles cantos... E teu lábio afogar entre harmonias- Cantos de amor, de sede e d’esperanças - Almas que de tua alma se nutriam!Que nos lábios febris lhe afoga um beijo! Que davam-te seus sonhos, e amorosasOuves, Ilná?... meu violão palpita: Desfolhavam-te aos pés a flor da vida...Quero lembrar um cântico de amores... Ai quantas não sentiste palpitantes,Fora doce ao poeta, teu amante, Nem ousando beijar teu véu d’esposa,Nos ais ardentes das maviosas fibras Nas longas noites nem sonhar contigo!Ouvir os teus alentos de mistura E hoje riem de ti! da criaturaE as moles vibrações da cantilena Que insana profanou as asas brancas!...Este meu peito remoçar um pouco! Que num riso sem dó, uma por uma,Virgem do meu amor vem dar-me ainda Na torrente fatal soltava rindo,Um beijo! um beijo longo, transbordando E as sentia boiando solitárias...De mocidade e vida; e nos meus sonhos As flores da coroa, como Ofélia!...Minh’alma acordará - sopro errabundo Que iludida do amor vendeu a glóriaDa alma da virgem tremerá meus seios... E deu seu colo nu a beijo impuro...E a doce aspiração dos meus amores Eles riem de ti!... mas eu, coitada,No condão da harmonia há de embalar-se! Pranteio teu viver e te perdôo. Fada branca de amor, que sina escura A HARMONIA Manchou no teu regaço as roupas santas? Por que deixavas encostada ao seioMeu Deus! se à vezes, na passada vida, s A cabeça febril do libertino?Eu tive sensações que emudeciam Por que descias das regiões doiradasEssa descrença que me dói na vida E lançavas ao mar a rota liraE, como orvalho que a manhã vapora, Para vibrar tua alma em lábios dele?Em seus raios de luz a Deus me erguiam Por que foste gemer na orgia ardenteFoi quando à vezes a modinha doce s A santa inspiração de teus poetas...Ao sol de minha terra me embalava Perder teu coração em vis amores?E quando as árias de Bellini pálido Anjo branco de Deus, que sina escuraEm lábios de Italiana estremeciam! Manchou no teu regaço as roupas santas? Página 16
  17. 17. Lira dos Vinte AnosPálida Italiana! hoje esquecida. E terei tua imagem mais formosaO escárnio do plebeu murchou teus louros! Nas vigílias do val:Tua voz se cansou nos ditirambos... - Será da vida meu suave aromaE tu não voltas com as mãos na lira Teu lírio virginal.Vibrar nos corações as cordas virgens IVE ao gênio adormecido em nossas almas Que importa que o anátema do mundoNa fronte desfolhar tuas coroas!... Se eleve contra nós,............................................................................ Se é bela a vida num amor imenso Na solidão - a sós? VIDA Se nós teremos o cair da tarde E o frescor da manhã:Oh! laisse-moi t’aimer pour que j’aime la vie!Pour ne point au bonheur dire un dernier adieu E tu és minha mãe e meus amoresPour ne point blasphémer les biens que l’homme envie E minh’alma de irmã?Et pour ne pas douter de Dieu! Se teremos a sombra onde se esfolham ALEXANDRE DUMAS I As flores do retiro...Oh! fala-me de ti! eu quero ouvir-te E a vida além de ti - a vida inglória -Murmurar teu amor... Não me vale um suspiro?E nos teus lábios perfumar do peito Bate a vida melhor dentro do peitoMinha pálida flor. Do campo na tristezaDe tua carta nas queridas folhas E o aroma vital, ali, do seioEu sinto-me viver... Derrama a natureza...E as páginas do amor sobre meu peito E, aonde as flores no deserto dormemE, quando, à noite, delirante durmo, Com mais viço e frescor,Deito-as no peito meu... Abre linda também a flor da vidaNos delíquios de amor, ó minha amante, Da lua no palor.Eu sonho o seio teu... C...A alma que as inspirou, que lhes deu vida Oh! não tremas! que este olhar, esteE o fogo da paixão... abraço te digam quanto é inefável - o deE derramou as notas doloridas abandono sem receio, os inebriamentos deDo virgem coração! uma voluptuosidade que deve ser eterna. GOETHE, FaustoEu quero-as no meu peito, como sonhoTeu seio de donzela, Sim! coroemos as noitesPara sonhar contigo o céu mais puro Com as rosas do himeneu...E a esperança mais bela! Entre flores de laranja Serás minha e serei teu! IIA nós a vida em flor, a doce vida Sim! quero em leito de floresRecendente de amor, Tuas mãos dentro das minhas...Cheia de sonhos, d’esperança e beijos Mas os círios dos amoresE pálido langor... Sejam só as estrelinhas.A tua alma infantil junto da minha Por incenso os teus perfumes,No fervor do desejo, Suspiros por oraçãoNossos lábios ardentes descorando E por lágrimas... somenteComprimidos num beijo... As lágrimas da paixão!E as noites belas de luar e a febre Dos véus da noiva só tenhasDa vida juvenil... Dos cílios o negro véu...E este amor que sonhei, que só me alenta Basta do colo o cetimNo teu colo infantil! Para as Madonas do céu!Vem comigo ao luar: amemos juntos Eu soltarei-te os cabelos...Neste vale tranqüilo... Quero em teu colo sonhar...De abertas flores e caídas folhas... Hei de embalar-te... do leitoNo perfumado asilo. Seja lâmpada o luar!Aqui somente a rola da floresta Sim!... coroemos as noitesDas sestas ao calor Da laranjeira co’a flor...O tremer sentirá dos longos beijos... Adormeçamos num temploE verá teu palor. - Mas seja o templo do amor.À noite encostarei a minha fronte É doce amar como os anjosNo virgem colo teu; Da ventura no himeneu:Terei por leito o vale dos amores, Minha noiva, ou minh’amante,Por tenda o azul do céu! Vem dormir no peito meu! Página 17
  18. 18. Lira dos Vinte AnosDá-me um beijo, abre teus olhosPor entre esse úmido véu: TARDE DE VERÃOSe na terra és minha amante, Viens!... Que l’arbre pénétré de parfums et de chants,És a minh’alma no céu! ..................................................................... Et l’o,bre et le soleil, et l’onde et la verdure,NO TÚMULO DO MEU AMIGO Et le rayonnement de toute la natureJOÃO BAPTISTA DA SILVA PEREIRA JÚNIOR Fassent épanouir comme une double fleur La beauté sur ton front, et l’amour dans ton coeur!EPITÁFIO V. HUGOPerdão, meu Deus, se a túnica da vida... Como cheirosa e doce a tarde expira!Insano profanei-a nos amores! De amor e luz inunda a praia bela...Se da c’roa dos sonhos perfumados E o sol já roxo e trêmulo desdobraEu próprio desfolhei as róseas flores! Um íris furta-cor na fronte dela.No vaso impuro corrompeu-se o néctar, Deixai que eu morra só! enquanto o fogoA argila da existência desbotou-me... Da última febre dentro em mim vacila,O sol de tua gloria abriu-me as pálpebras, Não venham ilusões chamar-me à vida,Da nódoa das paixões purificou-me! De saudades banhar a hora tranqüila!E quantos sonhos na ilusão da vida! Meu Deus! que eu morra em paz! não me coroemQuanta esperança no futuro ainda! De flores infecundas a agonia!Tudo calou-se pela noite eterna... Oh! não doire o sonhar do moribundoE eu vago errante e só na treva infinda... Lisonjeiro pincel da fantasia!Alma em fogo, sedenta de infinito, Exaurido de dor e d’esperançaNum mundo de visões o vôo abrindo, Posso aqui respirar mais livremente,Como o vento do mar no céu noturno Sentir ao vento dilatar-se a vida,Entre as nuvens de Deus passei dormindo! Como a flor da lagoa transparente!A vida é noite! o sol tem véu de sangue... Se ela estivesse aqui! no vale agoraTateia a sombra a geração descrida!... Cai doce a brisa morna desmaiando:Acorda-te, mortal! é no sepulcro Nos murmúrios do mar fora tão doceQue a larva humana se desperta à vida! Da tarde no palor viver amando!Quando as harpas do peito a morte estala, Uni-la ao peito meu - nos lábios delaUm treno de pavor soluça e voa... Respirar uma vez, cobrando alento;E a nota divinal que rompe as fibras A divina visão de seus amoresNas dulias angélicas ecoa! Acordar o meu peito inda um momento! Fulgura a minha amante entre meus sonhos, O PASTOR MORIBUNDO Como a estrela do mar nas águas brilha,CANTIGA DE VIOLA Bebe à noite o favônio em seus cabelosA existência dolorida Aroma mais suave que a baunilha.Cansa em meu peito: eu bem sei Se ela estivesse aqui! jamais tão doceQue morrerei... O crepúsculo o céu embelecera...Contudo da minha vida E a tarde de verão fora mais bela,Podia alentar-se a flor Brilhando sobre a sua primavera!No teu amor! Da lânguida pupila de seus olhosDo coração nos refolhos Num olhar de desdém entorna amores,Solta um ai! num teu suspiro Como à brisa vernal na relva moleEu respiro... O pessegueiro em flor derrama flores.Mas fita ao menos teus olhos Árvore florescente desta vida,Sobre os meus... eu quero-os ver Que amor, beleza e mocidade encantam,Para morrer! Derrama no meu seio as tuas floresGuarda contigo a viola Onde as aves do céu à noite cantam!onde teus olhos cantei... Vem! a areia do mar cobri de flores,E suspirei! Perfumei de jasmins teu doce leito;Só a idéia me consola Podes suave, ó noiva do poeta,Que morro como vivi... Suspirosa dormir sobre meu peito!Morro por ti! Não tardes, minha vida! no crepúsculoSe um dia tu’alma pura Ave da noite me acompanha a lira...Tiver saudades de mim, É um canto de amor... Meu Deus! que sonhos!Meu serafim! Era ainda ilusão - era mentira!Talvez notas de ternuraInspirem o doudo amorDo trovador! Página 18

×