Giddensa.becku .lashs .1997._a-modernização-reflexiva

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Giddensa.becku .lashs .1997._a-modernização-reflexiva

  1. 1. ......... Modern ização ~ U LU m ......... ReflexivaH oje em dia, falar em destradicional 1 parece, de início, estranho, sobretudo em rda ênfase que algumas formas do pensam n CI) Z LUpós-moderno colocam no retorno à tradi C CEntretanto, falar de destradicionalização nãonifica falar de uma sociedade sem tradições - lon adisso... Em um contexto de cosmopolitaniglobal, as tradições precisam se defender,estão sempre sendo contestadas. É de partiimportância, neste aspecto, o fato de o "sub moculto" da modernidade, envolvendo tradiçõafetam os gêneros, a família, as comunidades I -- > >< "-e outros aspectos da vida social cotidiana, ter f eudo exposto e submetido à dimensão pública. I-eu a::: O 1m U" m --N C ••• eu -a O pOLíTICA, TRADiÇÃO E ESTÉTICA :E NA ORDEM SOCIAL MODERNA
  2. 2. E ste l i v r o a p r e s e n t a o debate entre três autores europeus contemporâneos— Ulrich Beck, Anthony Giddense Scott Lash — e se configuracomo uma contribuição à dis-cussão das concepções e diag-nósticos sobre a modernidade, MODERNIZAÇÃO REFLEXIVAinvestida do caráter de moder-nidade reflexiva, sobre suastransformações, seu processode crise e sobre as conseqüên-cias que daí podem ser tiradasem termos de suas configu-rações atuais. O debate em torno da mo-dernidade, que assume tonsdiversos no cenário interna-cional, se reveste de uma densi-dade muito significativa nasociologia européia, especial-mente nas ciências sociais domundo a n g l o - s a x ã o . Desseponto de vista, a publicaçãodeste livro permite que o públi-co brasileiro possa acompanhara continuidade da produçãosobre o tema de um autor jábastante conhecido, comoAnthony Giddens, bem comoperceber o quadro de inter-locuções entre autores comquem o público brasileiro temmenor intimidade. No livro,de fato, a explicitação da dis-cussão sobre a caracterizaçãoda contemporaneidade, feita apartir de perspectivas distintasentre si, suplanta a simplesjustaposição dos textos quecaracterizaria apenas uma cole- 54»
  3. 3. FUNDAÇÃO EDITORA DA UNESP Presidente do Conselho Curador Antônio Manoel dos Santos Silva Diretor-Presidente José Castilho Marques Neto ULRICH BECK Assessor Editorial Jézio Hernani Bomfim Gutierre ANTHONY GIDDENS Conselho Editorial Acadêmico SCOTT LASH Aguinaldo José Gonçalves Álvaro Oscar Campana Antônio Celso Wagner Zanin Carlos Erivany Fantinati Fausto Foresti José Aluysio Reis de Andrade Marco Aurélio Nogueira Maria Sueli Parreira de Arruda MODERNIZAÇÃO Roberto Kraenkel Rosa Maria Feiteiro Cavalari REFLEXIVA Editor Executivo Túlio Y. Kawata Editores Assistentes POLÍTICA, TRADIÇÃO E ESTÉTICA Maria Apparecida F. M. Bussolotti NA ORDEM SOCIAL MODERNA Maria Dolores Frades Tradução de Magda Lopes Revisão Técnica de Cibele Saliba Rizek l |<£d LTNESP N F U N D A Ç Ã O
  4. 4. Beck, Ulrich Modernização reflexiva politic Copyright © 1995 by Ulrich Beck, Anthony Giddens, Scott Lash. a, tradição a estética na orde Título original em inglês: Re/Iexive Modernization: m social moderna Politícs, Tradition and Aesthetics in the Modem Social Order. 316.3/B393m Copyright © 1995 da tradução brasileira: <153é>63/99) Fundação Editora da UNESP (FEU). Av. Rio Branco, 1210 01206-904-São Paulo-SP Tel./Fax: (011)223-9560 SUMÁRIO Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (C1P) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Beck, Ulrich, 1944- Modernização reflexiva: política, tradição e estética na ordem social moderna / Ulrich Beck, Anthony Giddens, Scott Lash; tradução de Magda Lopes. - São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1997. - (Biblioteca básica) Título original: Reflexive Modemization. 7 Prefácio Bibliografia. ISBN 85-7139-143-2 11 Capítulo l A reinvenção da política: 1. Civilização moderna 2. Estrutura social 3. Pós-modernismo I. Giddens, Anthony. II. Lash, Scott III. Título. IV. Série. rumo a uma teoria da modernização reflexiva Ulrich Beck 97-0720 CDD-305 Introdução: o que significa modernização reflexiva? Autocrítica da sociedade de risco Subpolitica - retorno dos indivíduos à índice para catálogo sistemático: sociedade Caminhos para uma nova modernidade l. Estrutura social: Sociologia 305 A invenção do político 73 Capítulo 2BIBLIOTECA CENTRAL A vida em uma sociedade pós-tradicional UFES Anthony Giddens As ordens da transformação Depreciando a carne A repetição como neurose: a questão do vício Escolhas e decisões A natureza e a tradição como complementares A tradição contextual ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE DIREITOS REPROQRAF1COS Guardiães e especialistas Sabedoria e especialização Tradição o DIREITO" na modernidade Globalização e abandono da tradição EDITORA AFILIADA Destradicionalização Tradição, discurso, violência
  5. 5. 6 MODERNIZAÇÃO REFLEXIVA135 Capítulo 3 A reflexividade e seus duplos: estrutura, estética, comunidade Scott Lash Por que modernidade "reflexiva"? Ação ou estrutura? Reflexividade: cognitiva ou estética? O "eu" ou o "nós" Conclusões: a comunidade reflexiva e o self207 Capítulo 4 PREFÁCIO Réplicas e críticas Autodissolução e auto-risco da sociedade industrial: o que isso significa? Ulrich Beck Risco, confiança, reflexividade Anthony Giddens Sistemas especialistas ou interpretação situada? Cultura e instituições no capitalismo desorganizado Scott LJSÍI A idéia deste livro foi originalmente sugerida por Ulrich Beck. Scott Lash havia lecionado durante algum tempo na Alemanha, e Lash e Beck255 índice remissivo começaram a enxergar alguns pontos comuns no trabalho um do outro. Só posteriormente Giddens e Beck observaram detidamente os escritos recíprocos. No entanto, uma vez estabelecido este intercâmbio triplo, muitas convergências surpreendentes emergiram entre o que de início se constituía de linhas de trabalho diferentes. Elas convergiam para vários temas dominantes. A reflexividade - embora compreendida de maneiras muito diferentes em cada um dos três autores - é um dos temas mais importantes. Para todos nós, a prolongada discussão sobre modernidade versus pós-modernidade tornou-se cansativa e, assim como muitas discus- sões desse tipo, acabou resultando pouco produtiva. A idéia da moder- nização reflexiva, independente de se usar ou não esse termo como tal, rompe as amarras em que essas discussões tenderam a manter a inovação conceituai. A noção de destradicionalização, entendida de modo adequado, é um segundo tema comum. Hoje em dia, falar em destradicionalização parece, de início, estranho, sobretudo em razão da ênfase que algumas formas do pensamento pós-moderno colocam no retorno à tradição. Entretanto, falar de destradicionalização não significa falar de uma
  6. 6. MODERNIZAÇÃO REFLEXIVA MODERNIZAÇÃO REFLEXIVAsociedade sem tradições - longe disso. Ao contrário, o conceito refere-se nosso pensamento tem de ser do tipo "como se". Em muitos aspectosa uma ordem social em que a tradição muda seu status. Em um contexto de nossas vidas, tanto individual quanto coletiva, temos de construirde cosmopolitanismo global, as tradições precisam se defender, pois estão regularmente futuros potenciais, sabendo que essa mesma construçãosempre sendo contestadas. E de particular importância, neste aspecto, o pode, na verdade, impedir que eles venham a acontecer. Novas áreas defato de o "substrato oculto" da modernidade, envolvendo tradições que imprevisibilidade são muito freqüentemente criadas pelas próprias ten-afetam os gêneros, a família, as comunidades locais e outros aspectos da tativas que buscam controlá-las.vida social cotidiana, ter ficado exposto e submetido à discussão pública. Nessas circunstâncias ocorrem transições importantes na vida coti-As implicações desse fato são profundas e ao mesmo tempo de âmbito diana, tanto no caráter da organização social quanto na estruturação dosmundial. sistemas globais. As tendências para a intensificação da globalização Um terceiro enfoque comum é uma preocupação com questões interagem com - e são a causa de - mudanças na vida cotidiana. Noecológicas. Embora aqui, mais uma vez, existam algumas diferenças entre presente, muitas mudanças ou tomadas de decisão políticas de muitanós, concordamos em que as questões ecológicas não podem ser sim- influência sobre nossas vidas não derivam da esfera ortodoxa da tomadaplesmente reduzidas a uma preocupação com o "ambiente". O "ambien- de decisão: o sistema político formal. Ao contrário, elas moldam e ajudamte" soa como um contexto externo à ação humana. Porém as questões a redefinir o caráter da ordem política ortodoxa.ecológicas só vieram à tona porque o "ambiente" na verdade não se Conseqüências políticas práticas fluem da análise dessas questões,encontra mais alheio à vida social humana, mas é completamente Nossos vários diagnósticos do que poderiam ser essas ramificaçõespenetrado e reordenado por ela. Se houve um dia em q.úe os seres políticas diferem entre si. Entretanto, todos nós negamos a paralisia dahumanos souberam o que era a "natureza", agora não o sabem mais. vontade política que aparece na obra de tantos autores que, após aAtualmente, o quê é "natural" está tão intrincadamente confundido com dissolução do socialismo, acreditam não haver mais lugar para programaso que é "social", que nada mais pode ser afirmado como tal, com certeza. políticos ativos. O que ocorre é mais ou menos o contrário. O mundoDa mesma forma que muitos aspectos da vida são governados pela da reflexividade desenvolvida, em que a interrogação das formas sociaistradição, a "natureza" transformou-se em áreas de ação nas quais os seres torna-se lugar-comum, é um mundo que em muitos casos estimula ahumanos têm de tomar decisões práticas e éticas. A "crise ecológica" abre crítica ativa.uma grande quantidade de questões relacionadas essencialmente à plas- O formato deste livro é o seguinte: cada um de nós escreveuticidade da vida humana atual - o afastamento do "destino" em tantas independentemente um ensaio substancial sobre aspectos da moderni-áreas das nossas vidas. zação reflexiva. Os três ensaios foram guiados pela perspectiva comum acima mencionada, embora não tenhamos procurado esconder nossas Os paradoxos do conhecimento humano que alimentaram as visões diferenças um do outro. Subseqüentemente, cada um de nós escreveupós-modernas - em que eles estão com freqüência relacionados à morte respostas críticas às contribuições dos outros dois. Estas aparecem noda epistemologia - podem ser agora compreendidos em termos mais final do livro na mesma seqüência das apresentações originais.mundanos, sociológicos. Hoje em dia, os mundos social e natural estão As contribuições de Ulrich Beck foram traduzidas do alemão para ototalmente influenciados pelo conhecimento humano reflexivo; mas isso inglês por Mark Ritter.não conduz a uma situação que nos permita ser, coletivamente, os donosdo nosso destino. Muito ao contrário: o futuro se parece cada vez menos Ulrich Beckcom o passado e, em alguns aspectos básicos, tem se tornado muito Anthony Giddensameaçador. Como espécie, não temos"mais uma sobrevivência garantida, Scott Lashmesmo a curto prazo - e isto é uma conseqüência de nossos própriosatos, como coletividade humana. Hoje em dia, á noção de "risco" éfundamental para a cultura moderna justamente porque grande parte do
  7. 7. CAPÍTULO l A REINVENÇÃO DA POLÍTICA: RUMO A UMA TEORIA DA MODERNIZAÇÃO REFLEXIVA U/ricK Becíc Introdução: o que significa modernização reflexiva? É razoável prever que o ano de 1989 vai ficar na história como a datasimbólica que marca o fim de uma época. Sabemos muito bem que 1989foi o ano em que, de forma bastante inesperada, acabou o mundocomunista. Mas isto será lembrado desta forma daqui a cinqüenta anos?Ou o colapso dos Estados-nações comunistas do Centro e do LesteEuropeu será então interpretado de modo similar ao atentado de Saraje-vo? Apesar de sua aparente estabilidade e postura auto-indulgente, jápodemos perceber que o Ocidente também foi afetado pelo colapso doLeste. "As instituições afundaram em seu próprio sucesso", diria Mon-tesquieu. Uma afirmação enigmática, mas excepcionalmente atual. OOcidente é confrontado por questões que desafiam as premissas funda-mentais do seu próprio sistema social e político. A principal questão queora enfrentamos é se a simbiose histórica entre o capitalismo e ademocracia - que caracterizava o Ocidente - pode ser generalizada emuma escala global, sem consumir suas bases físicas, culturais e sociais.Será que não veremos o retorno do nacionalismo e do racismo na buropa
  8. 8. 12 MODERNIZAÇÃO REFLEXIVA A REINVENÇÃO DA POLÍTICA 13precisamente como uma reação aos processos da unificação global? E - lismo é seu próprio coveiro, mas significa também algo completamentedepois do final da Guerra Fria e da redescoberta da amarga realidade da diferente. Primeiro, não é a crise, mas, repito, as vitórias do capitalismoguerra "convencional" - não chegaremos à conclusão de que temos de que produzem a nova forma social. Segundo, isto significa que não é arepensar, na verdade reinventar, nossa civilização industrial, agora que luta de classe, mas a modernização normal e a modernização adicionalo velho sistema da sociedade industrializada está se desmoronando no que estão dissolvendo os contornos da sociedade industrial. A constela-decorrer do seu próprio sucesso? Será que não estão por surgir novos ção que está surgindo como resultado disso também nada tem em comum—^contratos sociais? com as utopias até agora fracassadas de uma sociedade socialista. Em vez "Modernização reflexiva" significa a possibilidade de uma (auto)des- disso, o que se enfatiza é que o dinamismo industrial, extremamentetruicão criativa para toda uma era: aquela da sociedade industrial.1 O veloz, está se transformando em uma nova sociedade sem a explosão"sujeito" dessa destruição criativa não é a revolução, não é a crise, mas a primeva de uma revolução, sobrepondo-se a discussões e decisõesvitória da modernização ocidental. políticas de parlamentos e governos. Por isso, supõe-se que modernização reflexiva signifique que uma A burguesia não pode existir sem continuamente revolucionar os instrumentos de produção, ou seja, as relações de produção, e, portanto, mudança da sociedade industrial - ocorrida sub-repticiamente e sem todos os relacionamentos sociais. A manutenção inalterada do antigo modo planejamento no início de uma modernização normal, autônoma, e com de produção, ao contrário, era a condição primária para a existência de uma ordem política e econômica inalterada e intacta - implica a radica- todas as classes industriais anteriores. A revolução constante da produção, lização da modernidade, que vai invadir as premissas e os contornos da a perturbação ininterrupta de todas as relações sociais, a incerteza e agitação sociedade industrial e abrir caminhos para outra modernidade. permanentes distinguem a era burguesa de todas as anteriores. Todos os O que foi afirmado é exatamente aquilo que é considerado fora de relacionamentos estabelecidos e fixados, com sua série de idéias e pontos questão no antagonismo unânime existente entre as duas principais de vista veneráveis, estão sendo destruídos; todos os novos tornam-se autoridades da modernização simples - os marxistas e os funcionalistas obsoletos antes de poderem se fixar. Tudo o que é sólido dissolve-se no ar, - ou_seja, não haverá uma revolução, mas umajnoya sociedade. Desta tudo o que é sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente obrigadas a forma, o tabu que estamos rompendo é a^quacão_tócita entre latência e enfrentar com racionalidade as condições reais de suas vidas e de suas relações com seus semelhantes.2 imanência na mudança social. A idéia de que a transição de uma época social para outra poderia ocorrer não intencionalmente e sem influência Se, no fundo, a modernização simples (ou ortodoxa) significa política, extrapolando todos os fóruns das decisões políticas, as linhas deprimeiro a desincorporaçâo e, segundo, a reincorporação das formas conflito e as controvérsias partidárias, contradiz o auto-entendimentosociais tradicionais pelas formas sociais industriais, então a modernização democrático desta sociedade, da mesma forma que contradiz as convic-reflexiva significa primeiro a desincorporaçao e, segundo, a reincorpora- ções fundamentais de sua sociologia.ção das formas sociais industriais por outra modernidade. Do ponto de vista convencional, está acima de todos os desastres e Assim, em virtude do seu inerente dinamismo, a sociedade moderna experiências amargas que marcam as revoltas sociais. Mas isso não precisaestá acabando com suas formações de classe, camadas sociais, ocupação, acontecer. A nova sociedade nem sempre nasce da dor. Não apenas apapéis dos sexos, família nuclear, agricultura, setores empresariais e, é pobreza crescente, mas também a riqueza crescente, e a perda de um rivalclaro, também com os pré-requisitos e as formas contínuas do progresso no Leste, produzem uma mudança axial nos tipos de problemas, notécnico-econômico. Este novo estágio, em que o progresso pode se escopo da relevância e na qualidade da política. Não somente as causastransformar em autodestruição, em que um tipo de modernização destrói do desastre, mas também o intenso crescimento econômico, a tecnifica-outro e o modifica, é o que eu chamo de etapa da modernização reflexiva. ção rápida e a maior segurança no emprego podem desencadear a A idéia de que o dinamismo da sociedade industrial acaba com suas tempestade que vai impulsionar ou impelir a sociedade industrial rumopróprias fundações recorda a mensagem de Karl Marx de que o capita- a uma nova era.
  9. 9. 14 MODERNIZAÇÃO REFLEXIVA A REINVENÇÃO DA POÜTICA 15 A maior participação das mulheres no mercado de trabalho, por conceituações tradicionais, favorecendo-as, sobrepondo-se a elas e inten-exemplo, é bem-vinda e encorajada por todos os partidos políticos, pelo sificando-as. Desse modo, seria possível perguntar:menos aparentemente, mas também causa uma revolução na lenta Primeiro, sob que condições a modernização reflexiva se transformamarcha das ordens ocupacionais, políticas e privadas convencionais. A em determinado tipo de crises sociais?flexibilizaçãp temporal e contratual do trabalho assalariado tem sido Segundo, que desafios políticos estão ligados aos desafios reflexivosreivindicada e modernizada por muitos, mas em resumo rompe as velhas e que respostas a eles são em princípio concebíveis?linhas limítrofes existentes entre o trabalho e o não trabalho. Exatamente Terceiro, qual o significado e a implicação das superposições daporque essas pequenas medidas com grandes efeitos cumulativos não modernização reflexiva com os desenvolvimentos antagônicos - prospe-surgem de maneira espalhafatosa, por meio de votações controvertidas ridade e seguridade social, crise e desemprego em massa, nacionalismo,no parlamento, antagonismos políticos programáticos ou sob a bandeira pobreza mundial, guerras ou novos movimentos migratórios? Comoda mudança revolucionária, a modernização reflexiva da sociedade então as modernizações reflexivas devem ser decodificadas em constela-industrial ocorre silenciosamente, por assim dizer, despercebida pelos ções contraditórias em uma comparação internacional e intercultural?sociólogos, que, sem questionar, continuam a coletar dados de acordo Será que a modernidade - quando aplicada a si mesma - contémcom as antigas categorias. A insignificância, a familiaridade e freqüente- uma chave para seu autocontrole e sua autolimitação? Ou essa abordagemmente o desejo de mudanças escondem seu escopo da sociedade em simplesmente libera mais um redemoinho em um turbilhão de aconte-mutação. Apenas uma maior quantidade dos mesmos acontecimentos - cimentos sobre os quais não se tem mais nenhum controle?assim acreditam as pessoas - não pode produzir nada qualitativamentenovo. O desejado + o familiar = nova modernidade. Esta fórmula soa e parece Autocrítica da sociedade de riscoparadoxal e suspeita. A modernização reflexiva, como uma modernização ampla, solta emodificadora da estrutura, merece mais que curiosidade filantrópica por Qualquer um que conceba a modernização como um processo deser uma espécie de "nova criatura". Também politicamente, esta moder- inovação autônoma deve contar até mesmo com a obsolescência danização da modernização é um fenômeno importante que requer a maior sociedade industrial. O outro lado dessa obsolescência é a emergência daatenção. Em certo aspecto, implica inseguranças de toda uma sociedade, sociedade de risco. Este conceito designa uma fase no desenvolvimentodifíceis de delimitar, com lutas entre facções em todos os níveis, igual- da sociedade moderna, em que os riscos sociais, políticos, econômicos emente difíceis de delimitar. Ao mesmo tempo, a modernização reflexiva individuais tendem cada vez mais a escapar das instituições para oenvolve apenas uma dinamização do desenvolvimento, que, em si, controle e a proteção da sociedade industrial.embora em contraposiçãõ~a uma base diferente, pode ter conseqüências Duas fases podem ser aqui distinguidas: primeiro, um estágio emexatamente opostas. Em vários grupos culturais e continentes isso é que os efeitos e as auto-ameaças são sistematicamente produzidos, masassociado ao nacionalismo, à pobreza em massa, ao fundamentalismo não se tornam questões públicas ou o centro de conflitos políticos. Aqui,religioso de várias facções e credos, a crises econômicas, crises ecológicas, o autoconceito da sociedade industrial ainda predomina, tanto multipli-possivelmente guerras e revoluções, sem esquecer os estados de emer- cando como "legitimando" as ameaças produzidas por tomadas degência produzidos por grandes catástrofes - ou seja, no sentido mais decisão, como "riscos residuais" (a "sociedade de risco residual").estrito, o dinamismo do conflito da sociedade de risco. Segundo, uma situação completamente diferente surge quando os É claro que a modernização reflexiva deve ser analiticamente distin- perigos da sociedade industrial começam a dominar os debates e conflitosguida das categorias convencionais da mudança social - crise, transfor- públicos, tanto políticos como privados. Nesse caso, as instituições damação social e revoluções - mas pode também coincidir com essas sociedade industrial tornam-se os produtores e legitimadores das ameaças
  10. 10. 16 MODERNIZAÇÃO REFLEXIVA A REINVENÇÃO DA POLÍTICA 17que não conseguem controlar. O que acontece aqui é que alguns aspectos política e científica) não deve obscurecer o mecanismo não refletido eda sociedade industrial tornam-se social e politicamente problemáticos. quase autônomo da transição: é exatamente a abstração que produz ePor um lado, a sociedade ainda toma decisões e realiza ações segundo o proporciona realidade à sociedade de risco.padrão da velha sociedade industrial, mas, por outro, as organizações de Com o advento da sociedade de risco, os conflitos da distribuiçãointeresse, o sistema judicial e a política são obscurecidos por debates e em relação aos "bens" (renda, empregos, seguro social), que constituíramconflitos que se originam do dinamismo da sociedade de risco. o conflito básico da sociedade industrial clássica e conduziram às soluções tentadas nas instituições relevantes, são encobertos pelos conflitos de distribuição dos "malefícios". Estes podem ser decodificados comoReflexão e reflexividade conflitos de responsabilidade distributiva. Eles irrompem sobre o modo como os riscos que acompanham a produção dos bens (megatecnologia À luz desses dois estágios, o conceito de "modernização reflexiva" nuclear e química, pesquisa genética, a ameaça ao ambiente, supermili-pode ser diferenciado em contraposição a um equívoco fundamental. tarização e miséria crescente fora da sociedade industrial ocidental)Este conceito não implica (como pode sugerir o adjetivo "reflexivo") podem ser distribuídos, evitados, controlados e legitimados.reflexão, mas (antes) autoconfrontação. A transição do período industrial No sentido de uma teoria social e de um diagnóstico de cultura, opara o período de risco da modernidade ocorre de forma indesejada, conceito de sociedade de risco designa um estágio da modernidade emdespercebida e compulsiva no despertar do dinamismo autônomo da que começam a tomar corpo as ameaças produzidas até então no caminhomodernização, seguindo o padrão dos efeitos colaterais latentes. Pode-se da sociedade industrial. Isto levanta a questão da autolimitação daquelevirtualmente dizer que as constelações da sociedade de risco são produ- desenvolvimento, assim como da tarefa de redeterminar os padrões (dezidas porque as certezas da sociedade industrial (o consenso para o responsabilidade, segurança, controle, limitação do dano e distribuiçãoprogresso ou a abstração dos efeitos e dos riscos ecológicos) dominam o das conseqüências do dano) atingidos até aquele momento, levando empensamento e a ação das pessoas e das instituições na sociedade conta as ameaças potenciais. Entretanto, o problema que aqui se colocaindustrial. A sociedade de risco não é uma opção que se pode escolher é o fato de estes últimos não somente escaparem à percepção sensorial eou rejeitar no decorrer de disputas políticas. Ela surge na continuidade excederem à nossa imaginação, mas também não poderem ser determi-dos processos de modernização autônoma, que são cegos e surdos a seus nados pela ciência. A definição do perigo é sempre uma construçãopróprios efeitos e ameaças. De maneira cumulativa e latente, estes últimos cognitiva e social. Por isso, as sociedades modernas são confrontadas comproduzem ameaças que questionam e finalmente destroem as bases da as bases e com os limites do seu próprio modelo até o grau exato emsociedade industrial. que eles não se modificam, não se refletem sobre seus efeitos e dão O tipo de confrontação das bases da modernização com as conse- continuidade a uma política muito parecida. O conceito de sociedadeqüências da modernização deve ser claramente distinguido do aumento de risco provoca transformações notáveis e sistêmicas em três áreas dedo conhecimento e da cientificacão no sentido da auto-reflexão sobre a referência.modernização. Vamos recordar a transição autônoma, indesejada e Primeiro, há o relacionamento da sociedade industrial moderna comdespercebida da reflexividade da sociedade industrial para aquela da os recursos da natureza e da cultura, sobre cuja existência ela é construída,sociedade de risco (para diferenciá-la e contrastá-la com reflexão). Sendo mas que estão sendo dissipados no surgimento de uma modernizaçãoassim, "modernização reflexiva" significa autoconfrontação com os efeitos amplamente estabelecida. Isto se aplica à natureza não humana e à culturada sociedade de risco que não podem ser tratados e assimilados no humana em geral, assim como aos modos de vida culturais específicossistema da sociedade industrial - como está avaliado pelos padrões (por exemplo, a família nuclear e a ordem baseada na diferença entre osinstitucionais desta última.3 O fato de esta própria constelação poder mais sexos) e aos recursos de trabalho social (por exemplo, o trabalhotarde, em um segundo estágio, vir a se tornar objeto de reflexão (pública, doméstico da esposa, que convencionalmente não tem sido reconhecido
  11. 11. 18 MODERNIZAÇÃO REFLEXIVA A REINVENÇÃO DA POLÍTICA 19como trabalho, ainda que tenha sido ele, em primeiro lugar, que crescentes, mas as desigualdades e a consciência de classe perderam suapossibilitou o trabalho assalariado do marido).4 posição central na sociedade. E mesmo o eu [sei/] não é mais o eu ine- Segundo, há o relacionamento da sociedade com as ameaças e os quívoco, mas se tornou fragmentado em discursos fragmentados do eu. problemas produzidos por ela, que por seu lado excedem as bases das Hoje em dia, espera-se que os indivíduos dominem essas "oportunidades idéias sociais de segurança. Por essa razão, assim que as pessoas tomam arriscadas",5 sem serem capazes, em razão da complexidade da sociedade consciência deles, são capazes de abalar as suposições fundamentais da moderna, de tomar as decisões necessárias em uma base bem fundamen- ordem social convencional. Isto se aplica a componentes da sociedade, tada e responsável, ou seja, considerando as possíveis conseqüências. como os negócios, o direito ou a ciência, mas se torna um problema particular na área da ação política e da tomada de decisões. Terceiro, as fontes de significado coletivas e específicas de grupo (por O retorno da incertezaexemplo, consciência de classe ou crença no progresso) na cultura da sociedade industrial estão sofrendo de exaustão, desintegração e desen-cantamento. Estas deram apoio às democracias e às sociedades econômi- Neste contexto, devemos também reconsiderar a essência da "crisecas ocidentais no decorrer do século XX ésua perda conduz à imposição ecológica" atual. A metamorfose dos efeitos colaterais despercebidos dade todo esforço de definição sobre os indivíduos; é isso que significa o produção industrial na perspectiva das crises ecológicas globais nãoconceito do "processo de individualização". Mas agora a individualização parece mais um problema do mundo que nos cerca - um chamadotem um significado bastante diferente. Para Georg Simmel, Emile "problema ambiental" - mas sim uma crise institucional profunda daDurkheim e Max Weber, que teoricamente moldaram este processo e o própria sociedade industrial. Enquanto esses desenvolvimentos foremesclareceram em vários estágios no início do século XX, a diferença está vistos em contraposição ao horizonte conceituai da sociedade industrial,no fato de que atualmente as pessoas não estão sendo "libertadas" das e, portanto, como efeitos negativos de ação aparentemente responsável ecertezas feudais e religiosas-transcendentais para o mundo da sociedade calculável, seus efeitos de destruição do sistema permanecerão irreconhe-industrial, mas sim da sociedade industrial para a turbulência da socie- cíveis. Suas conseqüências sistemáticas aparecem apenas nos conceitos edade de risco global. Espera-se que elas convivam com uma ampla na perspectiva da sociedade de risco, e somente então elas nos tornamvariedade de riscos globais e pessoais diferentes e mutuamente contradi- conscientes da necessidade de uma nova autodeterminação reflexiva. Natórios. sociedade de risco, o reconhecimento da imprevisibilidade das ameaças provocadas pelo desenvolvimento técnico-industrial exige a auto-reflexão Ao mesmo tempo, pelo menos nos países industrializados, extrema- em relação às bases da coesão social e o exame das convenções e dosmente desenvolvidos do Ocidente, esta libertação está ocorrendo sob as fundamentos predominantes da "racionalidade". No autoconceito dacondições gerais do welfare state, ou seja, em contraposição ao cenário sociedade de risco, a sociedade torna-se reflexiva (no sentido mais estritoda expansão da educação,~grandes demandas por mobilidade no mercado da palavra), o que significa dizer que ela se torna um tema e um problemade trabalho e uma juridificação bastante avançada dos relacionamentos para ela própria.de trabalho. Estas tornam o indivíduo um indivíduo - ou, mais exata-mente, apenas um indivíduo - detentor de direitos (e de obrigações). As O cerne dessas irritações é que poderia ser caracterizado como ooportunidades, ameaças, ambivalências da biografia, que anteriormente "retorno da incerteza à sociedade". O "retorno da incerteza à sociedade"era possível superar em um grupo familiar, na comunidade da aldeia ou significa aqui, antes de tudo, que um número cada vez maior de conflitosse recorrendo a uma classe ou grupo social, devem ser cada vez mais sociais não é mais tratado como problemas de ordem, mas como problemaspercebidas, interpretadas e resolvidas pelos próprios indivíduos. Certa- de risco. Tais problemas de risco são caracterizados por não terem soluçõesmente, ainda podem ser encontradas famílias, mas a família nuclear está ambíguas; ao contrário, são distinguidos por uma ambivalência fundamen-se tornando uma instituição cada vez mais rara. Há desigualdades tal, que pode em geral ser compreendida por cálculos de probabilidade, l
  12. 12. 20 MODERNIZAÇÃO REFLEXIVA A REINVENÇÃO DA POLÍTICA 21 mas que não podem ser resolvidos dessa maneira. É sua ambivalência risco vai finalmente se tornar incapaz de agir. O ponto que se destaca fundamental que distingue os problemas de risco dos problemas de ordem, aqui é que, por fim, a expansão e a intensificação da intenção do controle que por definição estão voltados para a clareza e a faculdade de decisão. Em terminam produzindo o oposto. face da crescente ausência de clareza - e este é um desenvolvimento que vem se intensificando - desaparece quase obrigatoriamente a fé na factibi- Isto significa, no entanto, que os riscos não apenas pressupõem lidade técnica da sociedade.6 decisões, mas definitivamente também liberam decisões - tanto indivi- duais como em um sentido fundamental. As questões de risco não podem A categoria do risco defende um tipo de pensamento e ação social ser transformadas em questões de ordem, porque estas últimas seque não foi de forma alguma percebido por Max Weber. É pós-tradicional asfixiam, por assim dizer, por causa do pluralismo imanente das questõese, em certo sentido, pós-racional, pelo menos no sentido de não ser mais de risco e se metamorfoseiam sub-repticiamente por trás das fachadas dainstrumentalmente racional (post-zweckrational). Entretanto, os riscos têm estatística, em questões morais, questões de poder e de puro decisionis-sua origem precisamente no triunfo da ordem instrumentalmente racio- mo. Considerando de outra maneira, isso também significa que asnal. Somente depois da normalização, seja de um desenvolvimento questões de risco necessitam ou - mais cautelosamente - apelam para oindustrial além dos limites do seguro, seja do questionamento e da forma "reconhecimento da ambivalência".7perceptível de risco, torna-se reconhecível que - e em que extensão - as Em sua revisão de Rislc Society,8 Bauman criticou o "otimismo" -questões de risco anulam e fragmentam, por seus próprios meios e de alguns chamariam de ilusão - que é também uma base do meudentro para fora, as questões de ordem. Os riscos tornam-se mais diagnóstico. Esta crítica, como pode ser dito a partir da minha perspectiva,evidentes na matemática. Estas são sempre apenas probabilidades, e nada fundamenta-se no difundido equívoco de que as questões de risco sãomais, que não excluem nada. Hoje em dia é possível afugentar as críticas questões de ordem, ou pelo menos podem ser consideradas como tal.com um risco de quase zero, somente para lamentar a estupidez do futuro São exatamente isso, mas também é justamente isso o que não são. Aopúblico - após a ocorrência da catástrofe - por má interpretação das contrário, são a forma pela qual a lógica instrumentalmente racional dodeclarações de probabilidade. Os riscos são infinitamente reprodutíveis, controle e da ordem é conduzida em virtude do seu próprio dinamismopois se reproduzem juntamente com as decisões e os pontos de vista com ad absurdum (compreendido no sentido da "reflexividade", ou seja,que cada um pode e deve avaliar as decisões na sociedade pluralista. Por despercebido e indesejado, não necessariamente no sentido da "reflexão";exemplo, como os riscos das empresas, dos empregos, da saúde e do ver anteriormente). Isto implica que aqui começa uma ruptura, umambiente (que por sua vez se transformam em riscos globais e locais, ou conflito no interior da modernidade sobre as bases da racionalidade e oimportantes e sem importância) devem se relacionar um com o outro, autoconceito da sociedade industrial, e isto está ocorrendo bem no centroser comparados e colocados em uma ordem hierárquica? da própria modernização industrial (e não em suas zonas marginais ou Nas questões de risco, ninguém é especialista, ou todo mundo é naquelas que se sobrepõem ao âmbito da vida privada).especialista, porque os especialistas pressupõem o que se espera que eles A sociedade industrial, a ordem social civil e, particularmente, otornem possível e produzam: a aceitação cultural. Os alemães vêem o welfare state e o Estado previdenciário9 estão sujeitos à exigência de semundo perecendo ao mesmo tempo que as suas florestas. Os britânicos fazer que as situações da vida humana sejam controláveis pela racionali-estão escandalizados com os ovos - contendo substâncias tóxicas - que dade instrumental, manufaturável, disponível e (individual e legalmente)consomem no café da manhã; é dessa forma que começa a sua conversão contabilizável. Por outro lado, na sociedade de risco, o lado imprevisívelà causa ecológica. e os efeitos secundários desta demanda por controle conduzem ao que Entretanto, o ponto decisivo é que o horizonte se obscurece à medida tem sido considerado superado, o reino da incerteza, da ambivalência -que os riscos crescem. Pois os riscos nos dizem o que não deve ser feito, em suma, da alienação. Entretanto, esta é também a base de umamas não o que se deve evitar. Alguém que considera o mundo como um autocrítica da sociedade - expressa por múltiplas opiniões.10
  13. 13. 22 MODERNIZAÇÃO REFLEXIVA A REINVENÇÃO DA POLÍTICA 23 Pode-se demonstrar que não somente as formas e medidas organiza- Não estamos nos referindo aqui àqueles antagonismos múltiploscionais, mas também os princípios e categorias éticos e legais, como fundamentalmente difusos, ambivalentes e resmungões em sua tendênciaresponsabilidade, culpa e o princípio de punir o poluidor (procurando e efeito políticos gerais, que os críticos praticantes do criticismo podema origem dos danos, por exemplo), assim como os procedimentos de e desejam rejeitar por serem "superficiais" e não afetarem a "lógica" dodecisão política (como o princípio da maioria) não são adequados para desenvolvimento social. Em vez disso, um conflito fundamental revela-secompreender ou legitimar este retorno da incerteza e da falta de controle. por trás disso; um conflito que promete se tornar característico da épocaAnalogamente, é verdade que as categorias e os métodos da ciência social de risco. Este conflito já está minando e corroendo as coordenadasfalham diante da vastidão e da ambivalência dos fatos que devem ser políticas da velha sociedade industrial, ou seja, os antagonismos ideoló-apresentados e considerados. gicos, culturais, econômicos e políticos que se agrupam em torno da Não somente as decisões devem ser consideradas aqui; ao contrário, dicotomia seguro/inseguro e tentam se distinguir uns dos outros. Emé vital restabelecer as regras e as bases das decisões, as relações de validade um sentido político e existencial, a questão e decisão fundamental quee a crítica das conseqüências imprevisíveis e irresponsáveis (conceituali- aparece é: será que a nova imprevisão e desordem fabricadas sofrerãozadas a partir da reivindicação de controle). Sendo assim, a reflexividade oposição segundo o padrão do controle racional instrumental - ou seja,e a impossibilidade de controle do desenvolvimento social invadem as recorrendo às velhas ofertas da sociedade industrial (mais tecnologia,sub-regiões individuais, desconsiderando jurisdições, classificações e mercado, governo etc.)? Ou estão tendo início aqui um repensar e umalimites regionais, nacionais, políticos e científicos. No caso extremo, nova maneira de agir, que aceitam e afirmam a ambivalência - mas, então,quando se trata de enfrentar as conseqüências de uma catástrofe nuclear, com conseqüências de longo alcance para todas as áreas da ação social?não há mais a possibilidade de alguém ser não participante. Inversamen- Em correspondência ao eixo teórico, pode-se chamar o primeiro de linearte, isto também implica que todos os que estão sob esta ameaça são e o segundo de reflexivo. Ao longo da interpretação analítica e empíricanecessários como participantes e parte afetada, e podem parecer igual- desta distinção, a interpretação "politicamente empírica" e "filosóficamente auto-responsáveis. normativa" desses termos gêmeos está se tornando possível e necessária Em outras palavras, a sociedade de risco é tendencialmente também (mas isso ultrapassa o propósito deste ensaio).uma sociedade autocrítica. Os especialistas em seguros (involuntariamen- Esta constelação metateórica social, política e teórica aparece e sete) contradizem os engenheiros de segurança. Enquanto estes últimos intensifica com a modernização reflexiva. Somente na redefinição dodiagnosticam risco zero, os primeiros decidem: impossível de ser segura- presente os limites da velha ordem explodem e as ambivalências irredu-do. Especialistas são anulados ou depostos por especialistas de áreas tíveis - o novo distúrbio da civilização de risco - aparecem abertamente.opostas. Políticos encontram resistência de grupos de cidadãos, e a Desse modo, há cada vez menos formas sociais (padrões de atuação)gerência industrial encontra boicotes de consumidores organizados e produzindo ordens de ligação e ficções de segurança importantes para apoliticamente motivados. As administrações são criticadas pelos grupos ação. Esta crise das ficções da segurança da sociedade industrial implicade auto-ajuda. Finalmente, até os setores poluidores (por exemplo, a que as oportunidades e compulsões para a ação se abram, e entre elasindústria química no caso de poluição marítima) devem enfrentar a uma deve permanentemente decidir, sem qualquer reivindicação deresistência dos setores afetados (neste caso, a indústria da pesca e os soluções definitivas - um critério pelo qual viver e agir na incertezasetores que vivem do turismo litorâneo). Estes poluidores podem ser torna-se uma espécie de experiência básica. Quem pode fazer e aprenderquestionados pelos outros setores, controlados e talvez até corrigidos. Na isso, como e por quê, ou por quê não, torna-se por sua vez uma perguntaverdade, a questão de risco divide as famílias, grupos profissionais de biográfica e política fundamental da época atual.trabalhadores químicos especializados em todos os níveis até a gerência,11 Muitos dizem que o colapso do socialismo real puxou o tapete dee com muita freqüência até os próprios indivíduos. O que a cabeça quer qualquer crítica social. O oposto, sim, é verdadeiro: o contexto para ae a língua diz pode não ser o que a mão (finalmente) faz. crítica, mesmo para a crítica radical, jarriais foi tão favorável. A petrificação
  14. 14. 24 MODERNIZAÇÃO REFLEXIVA A REINVENÇÃO DA POLÍTICA 25da crítica, que foi um significado da predominância da teoria marxista diversos tipos de condições históricas, mas sim ao mesmo tempo e sobentre a intelligentsia critica por mais de um século, acabou. O pai as condições gerais do welfare state, na sociedade desenvolvida de trabalhotodo-poderoso está morto. Na verdade, a crítica social pode agora tomar industrial, como vem se desenvolvendo desde a década de 1960 emnovo fôlego, assim como abrir seus olhos e torná-los mais perspicazes. muitos países industriais do Ocidente. Muitos candidatos à posição de objeto entraram e saíram do palcoda história mundial e intelectual: a classe trabalhadora, a intelligentsiacrítica, a esfera pública, os movimentos sociais das mais variadas tendên- A individualizaçao como forma socialcias e composição, mulheres, subculturas, juventude e especialistasalternativos. Na teoria da modernização reflexiva, a base para a crítica é Na imagem da sociedade industrial clássica, as maneiras coletivas deconcebida, de certo modo, como autônoma. Não há objeto claramente viver são compreendidas de uma forma que se assemelha às bonecasdefinível. Em virtude de sua dinâmica independente e de seus sucessos, russas que se encaixam uma dentro da outra. A classe supõe a famíliaa sociedade industrial está escorregando para uma terra de ninguém, de nuclear, que presume os papéis dos sexos, que presume a divisão doameaças sem garantia. A incerteza retorna e prolifera por toda parte. A trabalho entre homens e mulheres, que presume o casamento. As classescrítica não marxista da modernização, pequena e concreta, mas também também são concebidas como a soma das situações familiais nucleares,grande e fundamental, está se tornando um fenômeno cotidiano dentro que se parecem uma com a outra e são diferenciadas de outras "situaçõese fora de sistemas e organizações (não somente às margens e nas zonas familiais" típicas de classe (aquelas da classe alta, por exemplo).de justaposição das esferas da vida privada). Linhas de conflito estão Até a definição empírico-operacional do conceito de classe faz usosurgindo em relação a o quê e ao como do progresso, e estão se tornando da renda familiar, ou seja, a renda do "chefe da família", uma expressãocapazes de organizar e de realizar coalizões.12 inclusiva, mas que na prática implica claramente características masculi- nas. Isso significa que a participação do trabalho das mulheres não está de modo algum "registrada" ou "avaliada" na análise de classe.14 Dito de Subpolítica - retorno dos indivíduos à sociedade outro modo: quem considera como base a renda do homem e a renda da mulher, separadamente, deve traçar a imagem de uma estrutura social dividida, que nunca poderá ser novamente reunida em uma única A palavra "individualizaçao"13 não contém vários dos significados imagem. Estes são apenas exemplos de como, de certa maneira, asque muitas pessoas lhe atribuem com o intuito de serem capazes de categorias das situações de vida e da conduta de vida da sociedadepensar que ela não significa absolutamente nada, Não significa atomiza- industrial presumem uma à outra. Com a mesma certeza, elas estão sendoção, isolamento, solidão - o fim de todos os tipos de sociedade - ou sistematicamente desincorporadas e reincorporadas - é essa a importân-desconexão. Também se ouve com freqüência a declaração refutável de cia da teoria da individualizaçao.que ela significa a emancipação ou a renovação dos indivíduos burgueses Elas estão sendo substituídas não por um vazio (que é precisamenteapós sua morte. Mas se todos esses são equívocos convenientes, então o o alvo da maior parte das refutações à teoria da individualizaçao), masque poderia ser um consenso em relação ao significado do termo? antes por um novo tipo de condução e disposição da vida - não mais "Individualizaçao" significa, primeiro, a desincorporação, e, segun- obrigatória e "incorporada" (Giddens) nos modelos tradicionais, masdo, a reincorporação dos modos de vida da sociedade industrial por baseada em regulamentos do welfare state. Este último, no entanto,outros modos novos, em que os indivíduos devem produzir, representar considera o indivíduo como ator, planejador, prestidigitador e diretor dee acomodar suas próprias biografias. Daí a palavra "individualizaçao". A cena de sua própria biografia, identidade, redes sociais, compromissos edesincorporação e a reincorporação (nas palavras de Giddens) não convicções. Colocando em termos mais simples, "individualizaçao"ocorrem por acaso, nem individualmente, nem voluntariamente ou por significa a desintegração das certezas da sociedade industrial, assim como
  15. 15. 26 MODERNIZAÇÃO REFLEXIVA A REINVENÇÃO DA POLÍTICA 27a compulsão para encontrar e inventar novas certezas para si e para os industriais a metade das mulheres (pelo menos) trabalham fora de casa,outros que não a possuem. Mas também significa novas interdependên- inclusive aquelas que têm filhos. As pesquisas documentam que para acias, até mesmo globais. A individualização e a globalização são, na próxima geração de mulheres, uma carreira e a maternidade serãoverdade, dois lados do mesmo processo de modernização reflexiva.15 certamente consideradas parte de seus planos de vida. Se a tendência Para colocar de outra maneira ainda, a reclamação sobre a individua- para as famílias de duas carreiras continuar, então duas biografiaslização que está atualmente em moda - a invocação dos "sentimentos individuais - educação, trabalho, carreira - terão de ser consideradas juntas e mantidas sob a forma de família nuclear.compartilhados", a dissociação dos estrangeiros, a tendência a mimar afamília e os sentimentos de solidariedade, transformados em uma teoria Anteriormente, as regras do casamento baseado no status domina-moderna, o comunitarismo - tudo isso é propagado em contraposição a vam como imperativos (a indissolubilidade do casamento, os deveres daum passado baseado na individualização estabelecida. Estas são, em sua maternidade e assim por diante). Isso certamente reduzia o escopo damaioria, reações à experimentação de aspectos intoleráveis da individua- ação, mas também obrigava e forçava os indivíduos a ficarem juntos. Emlização, que está assumindo características anômalas. contraste com isso, hoje em dia não há um modelo, mas vários modelos, Mais uma vez, a individualização não é baseada na livre decisão dos especificamente aqueles negativos: modelos que requerem que as mulhe-indivíduos. Usando a expressão de Sartre, as pessoas são condenadas à res construam e mantenham carreiras educacionais e profissionais pró-individualização. A individualização é uma compulsão, mas uma com- prias como mulheres, porque do contrário enfrentarão a ruína em casopulsão pela fabricação, o autoprojeto e a auto-representação, não apenas de divórcio e permanecerão dependentes do dinheiro do marido dentroda própria biografia, mas também de seus compromissos e articulações do casamento - com todas as outras dependências simbólicas e reais queà medida que as fases da vida mudam, porém, evidentemente, sob as isso lhes traz. Estes modelos não consolidam a união das pessoas, mascondições gerais e os modelos do welfare state, tais como o sistema a dissolvem e multiplicam as dúvidas. Assim, forçam todo homem eeducacional (adquirindo certificados), o mercado de trabalho e a regra mulher, tanto dentro como fora do casamento, a operar e persistir comosocial, o mercado imobiliário e assim por diante. Mesmo as tradições do agente individual e planejador de sua própria biografia.casamento e da família estão se tornando dependentes de processos Direitos sociais são direitos individuais. As famílias não podemdecisórios, e todas as suas contradições devem ser experimentadas como reivindicá-los, somente os indivíduos, e mais precisamente os indivíduosriscos pessoais. trabalhadores (ou aqueles que estão desempregados, mas desejam tra- Por isso, "individualização" significa que a biografia padronizada balhar). A participação nas proteções e benefícios materiais do welfaretorna-se uma biografia escolhida, uma biografia do tipo "faça-você-mes- state pressupõe na grande maioria dos casos participar da força demo" (Ronald Hitzler), ou, como diz"Giddens, uma "biografia reflexiva".16 trabalho. Isto está confirmado pelo debate sobre as exceções, entre outras,Independente do que um homem ou uma mulher foi ou é, o que ele ou salários para o trabalho doméstico ou uma pensão para as donas de casa.ela pensa ou faz constitui a individualidade do indivíduo. Isso necessaria- A participação no trabalho, por sua vez, pressupõe uma participação namente não tem nada a ver com coragem civil ou personalidade, mas sim educação, e ambos pressupõem a mobilidade e a prontidão a ser móbil.com opções divergentes e com a compulsão para apresentar e produzir Todas essas exigências não ordenam nada, mas requerem que o indiví-esses "filhos bastardos" das decisões tomadas por si mesmo e pelos outros duo consinta em se constituir como um indivíduo, para planejar,como uma "unidade". compreender, projetar e agir - ou sofrer as conseqüências que lhe serão Mas como se deve conceber mais precisamente a conexão entre a auto-infligidas em caso de fracasso.individualização e o welfare state, entre a individualização e o mercado de Aqui novamente o mesmo quadro: decisões, possivelmente decisõestrabalho legalmente protegido? Um exemplo que poderia esclarecer isso impossíveis, certamente não decisões livres, mas forcadas pelos outros eé a biografia profissional: para os homens, isso é ponto pacífico, mas arrancadas de si mesmo, a partir de modelos que conduzem a dilemas.para as mulheres é algo controvertido. Não obstante, em todos os países Estas são também decisões que colocam o indivíduo como um indivíduo
  16. 16. 28 MODERNIZAÇÃO REFLEXIVA A REINVENÇÃO DA POLÍTICA 29que está no centro das coisas e desestimula os modos de vida e a interação tentado a dizer, cujos antagonismos são ali estimulados - raramente aindatradicionais. Talvez contra a sua vontade, o welfare state seja um arranjo oferecem quaisquer explosivos que possam produzir lampejos do políti-experimental para o condicionamento dos modos de vida centralizados co. Sendo assim, está se tornando cada vez menos possível extrair decisõesno ego. Pode-se injetar o bem comum nos corações das pessoas como da superestrutura corporativista e político-partidária. Inversamente, asuma vacina obrigatória. Esta ladainha da comunidade perdida permanece organizações dos partidos, os sindicatos e grupos de interesses similaresdualista e moralmente ambivalente, enquanto a mecânica da individua- fazem uso das inúmeras questões livremente disponíveis para martelarlização permanece intacta, e ninguém realmente as questiona seriamente juntos os pré-requisitos programáticos para a continuação de sua existên-nem deseja ou é capaz de fazê-lo. cia. Interna e externamente, pelo menos assim parece, o político está perdendo sua polarização e também sua qualidade utópica, criativa. Em minha opinião, este diagnóstico se apoia em um erro de categoria,Política e subpolítica a equação entre política e Estado, entre a política e o sistema político; a correção desse erro não priva o diagnóstico de seus elementos verdadei- Este tipo de individualização não permanece privado - torna-se ros, mas apesar disso transforma-o em seu oposto.17 As pessoas esperampolítico em um sentido novo, definido: os indivíduos individualizados, encontrar a política nas arenas a ela designadas, e executada pelos agentesaqueles que lutam consigo mesmos e com seu mundo, não são mais os devidamente autorizados: parlamento, partidos políticos, sindicatos etc."protagonistas" da sociedade industrial simples e clássica, como supunha Se os relógios da política param aqui; desse ponto de vista, o políticoo funcionalismo. Os indivíduos são construídos através de uma interação como um todo parou de funcionar. Isso desconsidera duas coisas.discursiva complexa que é muito mais aberta do que supunha o modelo Primeiro, a imobilidade do aparato governamental e de seus órgãosfuncionalista de papéis sociais. Ao contrário, o fato é que as instituições subsidiários é perfeitamente capaz de acompanhar a mobilidade dosestão se tornando irreais em seus programas e fundações, e por isso agentes em todos os níveis possíveis da sociedade, ou seja, o fracasso dadependentes dos indivíduos. As usinas nucleares, que podem destruir política com a ativação da subpolítica. Qualquer um que olhe a políticaou contaminar por todo um milênio, são avaliadas como riscos e de cima e espere resultados está negligenciando a auto-organização do"legitimadas" em comparação ao hábito de fumar, que é estatisticamente político, que - pelo menos potencialmente - pode movimentar "subpo-mais perigoso. Nas instituições, está começando a haver uma busca pela liticamente" muitos ou até todos os campos da sociedade.consciência de classe perdida "lá em cima" e "cá embaixo", porque os Segundo, o monopólio político das instituições e dos agentes políticos,sindicatos, os partidos políticos e outros construíram seus programas, a dos quais os últimos dominavam a constelação política da sociedadefiliação de seus membros e o seu poder tendo isso como base. A industrial clássica, está incorporado em opiniões e julgamentos. Estedissolução das famílias pelo pluralismo pós-familial está sendo despejada continua a ignorar o fato de que o sistema político e a constelaçãonas velhas garrafas conceituais, arrolhada e armazenada. Em resumo, um historicamente política podem ter um com o outro a mesma relaçãomundo duplo está adquirindo vida, e uma parte dele não pode ser existente entre as realidades de duas épocas diferentes. Por exemplo, orepresentada na outra: um mundo caótico de conflitos, jogos de poder, aumento do bem-estar social e o aumento dos riscos condicionaminstrumentos e arenas que pertencem a duas épocas diferentes, aquela mutuamente um ao outro. Na medida em que isso se torna (publicamente)do "não ambíguo" e aquela da modernidade "ambivalente". Por um lado, consciente, os defensores da segurança não estão mais no mesmo barcoestá se desenvolvendo um vazio político das instituições; por outro, um que os planejadores e produtores de riqueza econômica. A coalizão darenascimento não institucional do político. O sujeito individual retorna tecnologia e da economia fica abalada, porque a tecnologia pode aumentaràs instituições da sociedade. a produtividade, mas ao mesmo tempo coloca em risco a legitimidade. A À primeira vista, quase tudo parece argumentar contra isso. As ordem judicial não estimula mais a paz social, pois sanciona e legitima as Lquestões que são discutidas nas arenas políticas - ou, poder-se-ia ficar desvantagens juntamente com as ameaças e assim por diante.
  17. 17. 30 MODERNIZAÇÃO REFLEXIVA A REINVENÇÃO DA POLÍTICA 31 Em outras palavras, o político invade e irrompe além das responsa- temer que as indústrias químicas venham a continuar com suas propa-bilidades e hierarquias formais. Isso é mal compreendido, particularmen- gandas de página inteira e se reestabeleçam como uma associaçãote por aqueles que claramente comparam a política com o Estado, com conservacionista.o sistema político, com as responsabilidades formais e com as carreiras Confessadamente, tudo isso é apenas "fachada", oportunismo pro-políticas de tempo integral. Um "conceito expressionista de política", gramático e, de vez em quando, até um repensar intencional.-As ações eambivalente e de muitos níveis (Jürgen Habermas), que nos permite os pontos de origem dos fatos estão em grande parte intocados. Mas issoposicionar a forma social e a política como mutuamente variáveis, está permanece verdadeiro: os temas do futuro, que agora estão na boca desendo introduzido aqui por uma razão muito simples. Porque abre a todos, não se originaram da previsão dos governantes ou das brigas nopossibilidade de pensar aquilo que cada vez mais enfrentamos hoje em parlamento - e certamente também não tiveram sua origem nas catedraisdia: a constelação política da sociedade industrial está se tornando não do poder do mundo dos negócios, da ciência e do Estado. Forampolítica, enquanto o que era não político no industrialismo está se, colocados na agência social em contraposição à resistência concentradatornando político. Esta é uma transformação de categoria do político sem desta ignorância institucionalizada pelos grupos moralizadores e gruposmudanças de instituições e com elites de poder intactas que não foram dissidentes, ambos em dificuldades, disputando uns com os outros osubstituídas por novas.18 encaminhamento mais adequado, divididos e cheios de dúvidas. A Assim, procuramos o político no lugar errado, nas tribunas erradas subpolítica conseguiu uma vitória temática absolutamente improvável.e nas páginas erradas dos jornais. Aquelas áreas de tomada de decisão Isto se aplica não somente ao Ocidente, mas também ao Lesteque têm sido protegidas pelo político no capitalismo industrial - o setor Europeu. Há grupos de cidadãos - contrários a toda a intelligentsia daprivado, os negócios, a ciência, as cidades, a vida cotidiana etc. - são ciência social - que partiram do zero, sem nenhuma organização, em umaprisionadas nas tempestades dos conflitos políticos da modernidade sistema de conformidade vigiada, e apesar de tudo, sem máquinasreflexiva. Um ponto importante aqui é que quanto mais este processo copiadoras ou telefones, conseguiram obrigar o grupo governante a recuaravança, o que ele significa e para onde ele conduz mais depende das e ceder, apenas se reunindo em uma praça. Esta rebelião dos indivíduosdecisões políticas, que não podem ser simplesmente aceitas, mas devem da vida real contra um "sistema" que supostamente os dominava porser formadas, programaticamente planejadas e transformadas em possi- completo em sua existência cotidiana é inexplicável e inconcebível nasbilidades para a ação. A política determina a política, ampliando-a e lhe categorias e teorias prevalecentes. Mas não é apenas a economia planejadaconcedendo poder. São essas possibilidades de uma política da política, que está falindo. A teoria dos sistemas, que concebe a sociedade comouma (re)invenção do político após a comprovação de sua morte, que independente do sujeito, também tem sido amplamente contestada. Emdevemos ampliar e esclarecer. uma sociedade sem consenso, desprovida de um cerne legitimador, é O fenômeno socialjnais assombroso e surpreendente - e talvez o evidente que até mesmo uma simples rajada de vento, causada pelo gritomenos compreendido - da década de 1980 foi o inesperado renascimento por liberdade, pode derrubar todo o castelo de cartas do poder.de uma subjetividade política, dentro e fora das instituições. Neste As diferenças entre os exuberantes cidadãos do Leste e do Oeste sãosentido, não é exagero dizer que os grupos de iniciativa do cidadão óbvias e têm sido freqüentemente discutidas, mas não é bem isso quetomaram o poder politicamente. Foram eles que colocaram em debate a ocorre em relação ao seu considerável terreno comum: ambos têm umaquestão de um mundo em perigo, contra a resistência dos partidos orientação superficial, extraparlamentar, não são vinculados a classes ouestabelecidos. Em parte alguma isso está tão claro quanto no espectro da partidos, e do ponto de vista organizacional e programático são dispersosnova "aparente moralidade" que está assombrando a Europa. A compul- e inimigos uns dos outros. O mesmo ocorre com suas carreiras vertigi-são para se engajar na salvação ecológica e na renovação do mundo, nosas da pobreza para a riqueza: criminalizados, marginalizados, ridicu-enquanto isso, torna-se universal. Ela une os conservadores aos socialistas larizados, mas posteriormente participantes de programas políticos e dase a indústria química a seus arquicríticos do Partido Verde. Pode-se quase declarações do governo ou até da derrubada de um governo. L
  18. 18. MODERNIZAÇÃO REFLEXIVA A REINVENÇÃO DA POLÍTICA 3332 E claro que se poderia dizer: tempi passati. Para muitas pessoas, a afastam delas, junto com pelo menos parte de sua existência, suaintrojeção pode ser difícil, mas mesmo os "caçadores" que têm se identidade, seu compromisso e sua coragem. Sua retirada, no entanto,mobilizado nas ruas da Alemanha desde o verão de 1992 contra os não é apenas uma retirada, mas ao mesmo tempo uma emigração para"estrangeiros" (e qualquer um que considerem como tal), assim como o novos locais de atividade e identidade. Estes parecem tão obscuros eapoio dissimulado e indeterminado que encontraram no caminho para inconsistentes, especialmente porque esta imigração interna freqüente-o topo da política - em maio de 1993, a modificação do direito mente ocorre de maneira pouco convicta, com um dos pés, digamosconstitucional fundamental ao asilo teve o apoio de uma maioria de dois assim, enquanto o outro está ainda apoiado na velha ordem.terços no Parlamento - sim, até esta ralé está utilizando e se aproveitando As pessoas deixam o "ninho" do seu "lar político" passo a passo e das oportunidades da subpolítica. Isto deixa uma amarga lição. A questão por questão. Mas isso significa que ora as pessoas estão do lado subpolítica está sempre disponível para o lado oposto ou para o partido da revolução, ora estão apoiando a reação; ora estão se afastando, ora da oposição, com seus objetivos contrários. estão se envolvendo. Isso não se ajusta mais no planejamento de uma O que parecia ser "uma retirada não política à vida privada", "nova ordem sobre a qual os especialistas em pesquisa do mapa político podem introjeção" ou "cuidado das feridas emocionais" da antiga visão da basear sua análise. Aqui também se aplica o "fim da clareza" (Bauman). política pode, quando visto do ângulo oposto, representar a luta por uma As formas de envolvimento político, protesto e retirada misturam-se em nova dimensão do político. uma ambivalência que desafia as velhas categorias de clareza política. A impressão ainda prevalecente de que a consciência e o consenso Desse modo, a individualização dos conflitos e dos interesses políti- social "evaporam" no "calor" dos processos de individualização, com cos não significa desengajamento, "democracia da pesquisa de opinião" certeza não é inteiramente falsa, mas também não é absolutamente e esgotamento da política. Mas surge um engajamento múltiplo contra- correta. Ela ignora as compulsões e as possibilidades de se fabricarem ditório, que mistura e combina os pólos clássicos da política de forma compromissos e obrigações sociais, não importa até que ponto sejam que, se pensarmos nas coisas em relação à sua conclusão lógica, todo experimentais (por exemplo, a representação do novo consenso geral em mundo pensa e age como um direitista ou um esquerdista, de maneira relação às questões ecológicas). Estas podem tomar o lugar das velhas radical ou conservadora, democrática ou não democraticamente, ecológi- categorias, mas não podem ser nelas expressadas e contidas. ca e antiecologicamente, política e não politicamente, tudo ao mesmo Faz sentido distinguir entre contextos e formas diferentes de indivi- tempo. Todos são pessimistas, pacifistas, idealistas e ativistas em aspectos dualização. Em alguns países, particularmente na Suécia, Suíça, Holanda parciais do seu ser. Entretanto, isso só significa que as clarezas atuais da e Alemanha, estamos lidando com uma "individualização a todo risco". política - direita e esquerda, conservador e socialista, retraimento e Ou seja, os processos de individualização surgem a partir e no interior participação - não são mais corretas ou efetivas. de um ambiente de prosperidade e segurança social (não para todos, mas Para este tipo de prática, que pode ser mais facilmente percebida de para a maioria das pessoas). Por outro lado, as condições do lado oriental forma negativa que positiva - não instrumental, não dominadora, não da Alemanha - e em especial nos países anteriormente comunistas e no executora, não determinada por papéis, não instrumentalmente racional Terceiro Mundo - conduzem a uma inquietação de dimensão completa- - há somente conceitos esmaecidos e confusos, que ostentam e zombam mente diferente. de maneira quase caluniadora com palavras como "comunal" e "holísti- A cultura individualizada do dia-a-dia do Ocidente é simplesmente co". Toda essa recusa de rótulos pode ser bem-sucedida apenas negando uma cultura de acúmulo de conhecimento e autoconfiança: educação ou omitindo o estado das coisas, mas não se livrando dele. Abaixo e por mais aprimorada e em maior escala, assim como empregos e oportuni- trás das fachadas da velha ordem industrial, que às vezes ainda está dades melhores para se ganhar dinheiro, em que as pessoas não mais brilhantemente polida, estão ocorrendo mudanças radicais e novos apenas obedeçam. Os indivíduos ainda se comunicam e atuam em pontos de partida, de modo não completamente inconsciente, mas conformidade com as antigas fórmulas e instituições, mas também se também não inteiramente consciente e de uma forma dirigida. Mais
  19. 19. MODERNIZAÇÃO REFLEXIVA •A REINVENÇÃO DA POLÍTICA 3534parecem uma coletividade cega, sem uma bengala ou um cão, mas com Se se transfere a distinção entre polity, policy e politics para aum faro Para ° *lue é pessoalmente correto e importante e, se elevado ao subpolitica (sub-politics) (isto eqüivale à investigação das multivariadasnível da generalidade, não pode ser totalmente falso. Esta não-revolução práticas de modificação da estrutura da modernidade), então vêm à tonaripo centopéia está em andamento. Está expressa no ruído de fundo das as seguintes perguntas:polêmicas em todos os níveis e em todas as questões e grupos de Primeiro, como a subpolitica (sub-polity) é constituída e organizadadiscussão, no fato, por exemplo, de nada mais "passar em brancas institucionalmente? Quais são as fontes do seu poder, stias possibilidadesnuvens"; tudo deve ser inspecionado, seccionado em pequenos pedaços, de resistência e o seu potencial para a ação estratégica? Onde estão seusdiscutido e debatido incansavelmente, até que afinal, com a bênção da pontos de mudança e quais os limites da sua influência? Como o escopoinsatisfação geral, ocorra esta "reviravolta" particular que ninguém deseja, e o poder de moldar as coisas emergem no despertar da modernizaçãotalvez apenas porque do contrário há o risco de uma paralisia geral. Estas reflexiva?são as dores do parto de uma sociedade de ação nova, uma sociedade de Segundo, com que objetivos, conteúdo e programas a subpoliticaautocriacão, que deve "inventar" tudo, mas não sabe como, com quem (sub-policy) é conduzida, e em que áreas de ação (ocupações, profissões,fazê-lo e com quem absolutamente não fazê-lo. fábricas, sindicatos, partidos etc.)? Como a subpolitica (sub-policy) é A ciência política ampliou e elaborou seu conceito de política em objetivada, restrita, conduzida e implementada em não-política (non-pol-três aspectos. Primeiro, investiga a constituição institucional da comuni- icy)7. Que estratégias - por exemplo, "precauções de saúde", "seguridadedade política em que a sociedade se organiza (polity); segundo, a substân- social" ou "necessidades técnicas" - são aplicadas para este propósito,cia dos programas políticos para determinar as circunstâncias sociais como e por quem?(policy), e, terceiro, o processo de conflito político com relação à divisão Terceiro, que formas e fóruns organizacionais da subpolitica (sub-pol-de poder e às posições de poder (policies).* Aqui não é o indivíduo que itics) estão emergindo e podem ser observados? Que posições de poderé considerado apropriado à política; as questões é que são dirigidas aos estão abertas, solidificadas e modificadas aqui, e como? Será que háagentes corporativos, ou seja, coletivos. conflitos internos em relação à política (policy) de uma empresa ou de Em primeiro lugar, a subpolitica (sub-politics) distingue-se da "política" um grupo (política de trabalho, de tecnologia ou de produto)? Será queporque se permite que os agentes externos ao sistema político ou corpo- há coalizões informais ou formalizadoras pró ou contra algumas opçõesrativo apareçam no cenário do planejamento social (este grupo inclui os estratégicas? Será que os círculos ou os grupos de trabalho especializados,grupos profissionais e ocupacionais, a intelligentsia técnica nas fábricas, ecológicos e feministas estão se separando no interior dos gruposas instituições e o gerenciamento de pesquisa, trabalhadores especializa- ocupacionais ou das relações de trabalho nas fábricas? Que grau edos, iniciativas dos cidadãos, a esfera pública e assim por diante), e, em qualidade de organização estes últimos exibem (contatos informais,segundo, porque não somente os agentes sociais e coletivos, mas também encontros para discussão, estatutos, revistas especializadas, trabalho deos indivíduos, competem com este último e um com o outro pelo poder , publicidade dirigido, congressos ou código de ética)?de conformação emergente do político. Subpolitica (sub-politics), então, significa moldar a sociedade de baixo para cima. Visto de cima, isto resulta na perda do poder de implementa- ção, no encolhimento e na minimização da política. No despertar da subpolitização há oportunidades crescentes de se ter uma voz e uma As palavras polity, policy e polittcs têm a mesma tradução em português - "política". Em participação no arranjo da sociedade para grupos que até então não inglês, elas têm diferenças sutis. Segundo o Dicionário Oxford, polity é (1) a forma ou o processo de governo; (2) a sociedade como um Estado organizado. Policy é definido - estavam envolvidos na tecnificação essencial e no processo de industria- como uma declaração escrita dos termos de um contrato de seguro. E poiitics como lização: os cidadãos, a esfera pública, os movimentos sociais, os grupos visões e crenças políticas. Para manter a diferença estabelecida pelo autor, optamos por . especializados, os trabalhadores no local de trabalho; há até mesmo incluir as palavras polity, policy, sub-polity e sub-policy no original. (N. R. T.) oportunidades para os indivíduos corajosos "moverem montanhas" nos

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