FACULDADES INTEGRADAS HÉLIO ALONSO CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL PUBLICIDADE E PROPAGANDA
ROSA ANGÉLICA DE SOUZA CAMPOS <ul><li>NOS TEMPOS DA BOSSA NOVA </li></ul><ul><li>Orientadora: Profª. Doutora Gilda Korff D...
ROSA ANGÉLICA DE SOUZA CAMPOS NOS TEMPOS DA BOSSA NOVA <ul><li>Projeto experimental de final de Curso, apresentada nas Fac...
AGRADECIMENTOS <ul><li>Agradeço a meus pais que me propiciaram a oportunidade de iniciar este curso, bem como a meu marido...
RESUMO: <ul><li>A Bossa Nova surgiu em um momento muito especial da história do Brasil. Redemocratizado após o fim da Segu...
SUMÁRIO <ul><li>1.  INTRODUÇÃO   ............................................................................................
1. INTRODUÇÃO <ul><li>Podemos dizer, sem sombra de dúvida que, a partir dos anos 50 o Brasil vivia a mais criativa e produ...
<ul><li>Olha que coisa mais linda/ mais cheia de graça/ é ela a menina/ que vem e que passa/ no doce balanço/ a caminho do...
2. SOCIEDADE E CULTURA NOS ANOS 50   <ul><li>Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, o mundo foi dividido em dois bl...
<ul><li>empresa criada nos anos 40, tiveram seu auge nos anos 50, e seus atores foram consagrados pelo público. O teatro d...
<ul><li>mais geral sobre a reconstrução nacional, em curso desde o início dos anos 50 até os primeiros anos da década segu...
<ul><li>país e apontava os caminhos da renovação. Artistas brasileiros como Ivan Serpa e Abraham Palatnik participaram da ...
<ul><li>2.2 CINEMA BRASILEIRO NOS ANOS 50 </li></ul><ul><li>A renovação no cinema na época, da mesma forma que no teatro, ...
<ul><li>2.3 A COPA DO MUNDO DE 1958 </li></ul><ul><li>A derrota que o Brasil sofreu para a seleção do Uruguai na final da ...
<ul><li>Jules Rimet, presidente da FIFA e organizador da copa, comentou sobre o que acontecera: &quot;O silêncio estava ab...
<ul><li>Mas a Copa de 1958 foi diferente. Apesar do medo da ausência de grandes craques como Ademir e Zizinho, o eterno me...
<ul><li>Ainda em 1958, Juscelino Kubitschek, o presidente sorridente, tornou-se também um presidente &quot;pé quente&quot;...
<ul><li>2.4 AS MUDANÇAS NA IMPRENSA </li></ul><ul><li>Os anos 50 foram marcados por mudanças significativas na imprensa br...
<ul><li>A construção de Brasília atraiu uma grande oposição ao governo. O Correio da Manhã via na transferência da capital...
<ul><li>As revistas semanais, com circulação nacional, tiveram seu período áureo durante os anos JK, com a introdução de u...
<ul><li>A Manchete revolucionou a forma com que eram feitas as revistas da época, publicando reportagens com imagens de im...
<ul><li>2.5 TRANSFORMAÇÕES NA LITERATURA </li></ul><ul><li>Fazia tempo que não aconteciam novos movimentos ou correntes li...
<ul><li>Na prosa, nomes conhecidos continuavam a produzir: Graciliano Ramos, com seus grandes romances publicados, que nos...
<ul><li>2.6 TRANSFORMAÇÕES NO RÁDIO </li></ul><ul><li>Dia 8 de janeiro de 1951, às 20 horas entrava no ar, pela Rádio Naci...
<ul><li>O rádio-jornalismo não se limitava, porém, às campanhas políticas nacionais. Na segunda metade da década, a Rádio ...
<ul><li>2.7 TRANSFORMAÇÕES NO TEATRO </li></ul><ul><li>Assim como ocorria com o cinema, a renovação estética no teatro lig...
3. A TELEVISÃO <ul><li>Em setembro de 1950 foi inaugurada a primeira emissora de TV, a TV Tupi, em São Paulo, a partir daí...
<ul><li>Existiam cerca de 200 mil aparelhos de televisão no Brasil quando uma séria crise militar irrompeu no governo JK, ...
4. NOS TEMPOS DA BOSSA NOVA <ul><li>A década de 50 foi também marcada pelo aparecimento de uma geração de músicos e poetas...
<ul><li>Pode-se dizer que, apesar de o Papa da Bossa Nova ser baiano, ela surgiu na Zona Sul do Rio de Janeiro, num períme...
<ul><li>Este “berço dourado” foi o responsável por muitos dos ataques desferidos à Bossa Nova por aqueles estudiosos e crí...
<ul><li>Aliás, a revolução da Bossa Nova foi também determinante na transformação das cantoras brasileiras. Antes, elas se...
<ul><li>Também foi a Bossa Nova a responsável pelo incremento dos grupos vocais em nossa música. Não é que não existissem ...
<ul><li>Sua matéria-prima básica era a música que ouviu na Recife de seus pais, mas com um novo sentimento. Aos vinte e po...
<ul><li>Além de João Gilberto, famoso pelo talento e algumas excentricidades, há ainda outras “figurinhas carimbadas”, com...
<ul><li>4.1 A BOSSA NOVA DURANTE A DITADURA </li></ul><ul><li>Os tempos subseqüentes ao surgimento da Bossa Nova foram mui...
<ul><li>Se tal afirmação é realmente verdadeira, está na hora de falar de Carlos Lyra, que mixava à perfeição as duas pers...
<ul><li>A TV Record serviu de cenário para movimentos artísticos fundamentais da nossa música. A MPB engajada, representad...
5. TOM JOBIM - UM CAPÍTULO À PARTE   <ul><li>Compositor, arranjador e maestro, Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim ...
6.  CONCLUSÃO <ul><li>  Após este raios-X feito durante as décadas de 50 e 60, um misto de nostalgia e orgulho deste Brasi...
7. REFERÊNCIAS  <ul><li>1. CD-ROM: Almanaque Abril. SP, Editora Abril, 1998; CD-Rom: Folha de S. Paulo, edição 99 </li></u...
BIBLIOGRAFIA <ul><li>1. CASTRO, Ruy. Chega de saudade. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. </li></ul><ul><li>2. CUNHA, ...
8. ANEXOS <ul><li>8.1 CURIOSIDADES </li></ul><ul><li>Antes mesmo que o 78 rpm de “Chega de Saudade”  invadisse as rádios –...
<ul><li>“ Samba de uma nota só”, assim como “Desafinado”, tornou-se desde o começo um hino da Bossa Nova – uma espécie de ...
<ul><li>8.2. ENTREVISTA COM JOÃO DONATO * </li></ul><ul><li>Se perguntarem três nomes responsáveis pela Bossa Nova, além d...
<ul><li>Você sente saudades dessa época? </li></ul><ul><li>JD:  Sinto saudade. Mas é uma lembrança prazerosa. E tem muito ...
<ul><li>Você falou no Tom Jobim. Tem uma história de que ele tinha uma foto sua em cima do piano dele, é verdade? </li></u...
<ul><li>Queria saber sua teoria para o inventor da batida da Bossa Nova.  </li></ul><ul><li>JD:  Bom, tem muitas histórias...
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Aqui está minha monografia de final de Curso de Comunicação Social, pela qual obtive nota 10.
Uma bela homenagem a nossa Bossa Nova.

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Monografia

  1. 1. FACULDADES INTEGRADAS HÉLIO ALONSO CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL PUBLICIDADE E PROPAGANDA
  2. 2. ROSA ANGÉLICA DE SOUZA CAMPOS <ul><li>NOS TEMPOS DA BOSSA NOVA </li></ul><ul><li>Orientadora: Profª. Doutora Gilda Korff Dieguez </li></ul><ul><li>Rio de Janeiro </li></ul><ul><li>Campus Botafogo </li></ul><ul><li>2007 </li></ul>
  3. 3. ROSA ANGÉLICA DE SOUZA CAMPOS NOS TEMPOS DA BOSSA NOVA <ul><li>Projeto experimental de final de Curso, apresentada nas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), Campus Botafogo, como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda). </li></ul><ul><li>Orientadora: Profª. Doutora Gilda Korff Dieguez </li></ul><ul><li>Rio de Janeiro </li></ul><ul><li>2007 </li></ul>
  4. 4. AGRADECIMENTOS <ul><li>Agradeço a meus pais que me propiciaram a oportunidade de iniciar este curso, bem como a meu marido que me incentivou a concluí-lo. </li></ul>
  5. 5. RESUMO: <ul><li>A Bossa Nova surgiu em um momento muito especial da história do Brasil. Redemocratizado após o fim da Segunda Guerra Mundial, nosso País começava a se encontrar com seu destino. A economia crescia com a industrialização, a migração do campo para a cidade tornava as nossas metrópoles verdadeiros cadinhos culturais, o cinema brasileiro conquistava a Palma de Ouro em Cannes com o filme “O Pagador de Promessas”, a Seleção Canarinho se redimia do fracasso de 1950 e arrebatava sua primeira Copa do Mundo na Suécia em 1958 e, é claro, um justo sentimento de euforia invadia a alma brasileira. </li></ul><ul><li>Apesar da dureza da censura, o exílio daqueles que se atreveram a contestar a ditadura militar, imposta a partir da Revolução de 64, e a tentativa de se minar a criatividade dos artistas engajados na “luta” fez com que florescesse, apesar de rotulado por alguns como um movimento de “alienados”, essa nova forma de expressão na nossa música serviu como um oásis no meio de um deserto e, como muitos acreditam, sua criação teria funcionado como uma válvula de escape - na beleza de seus versos uma nostalgia dos tempos de pré-revolução, ou mesmo a possibilidade de se mascarar a difícil situação que o país atravessava. </li></ul>
  6. 6. SUMÁRIO <ul><li>1. INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 6 </li></ul><ul><li>2 . SOCIEDADE E CULTURA NOS ANOS 50 ............................................................... 8 </li></ul><ul><li>2.1 A ARTE BRASILEIRA NOS ANOS 50 ...................................................................... 9 </li></ul><ul><li>2.2 CINEMA BRASILEIRO NOS ANOS 50 ................................................................... 11 </li></ul><ul><li>2.3 A COPA DO MUNDO DE 1958 ............................................................................... 12 </li></ul><ul><li>2.4 AS MUDANÇAS NA IMPRENSA ............................................................................ 16 </li></ul><ul><li>2.5 TRANSFORMAÇÕES NA LITERATURA ................................................................ 20 </li></ul><ul><li>2.6 TRANSFORMAÇÕES NO RÁDIO ........................................................................... 21 </li></ul><ul><li>2.7 TRANSFORMAÇÕES NO TEATRO ........................................................................ 23 </li></ul><ul><li>3. A TELEVISÃO ............................................................................................................ 25 </li></ul><ul><li>4. NOS TEMPOS DA BOSSA NOVA ............................................................................ 27 </li></ul><ul><li>4.1 A BOSSA NOVA DURANTE A DITADURA ..............................................................32 </li></ul><ul><li>5. TOM JOBIM - UM CAPÍTULO À PARTE .................................................................. 35 </li></ul><ul><li>6. CONCLUSÃO ............................................................................................................ 36 </li></ul><ul><li>7. REFERÊNCIAS .......................................................................................................... 37 </li></ul><ul><li>8. ANEXOS .................................................................................................................... 38 </li></ul><ul><li>8.1 CURIOSIDADES ...................................................................................................... 38 </li></ul><ul><li>8.2 ENTREVISTA COM JOÃO DONATO ...................................................................... 40 </li></ul>
  7. 7. 1. INTRODUÇÃO <ul><li>Podemos dizer, sem sombra de dúvida que, a partir dos anos 50 o Brasil vivia a mais criativa e produtiva fase da nossa cultura vista até hoje. Não só a cidade do Rio de Janeiro fervilhava culturalmente, mas o Brasil começava a viver o início de uma fase que dificilmente esqueceremos e que deixou marcas profundas e permanentes no nosso País. </li></ul><ul><li>Um turbilhão de acontecimentos se fundia ao mesmo tempo na arquitetura, nas artes, no cinema, nos esportes, na imprensa, na literatura, música, rádio, teatro, na política e na televisão. Todos esses movimentos impulsionavam o Brasil para o futuro. Um futuro de transformações que se reflete até os dias de hoje. </li></ul><ul><li>No decorrer deste trabalho veremos como as décadas de 50 e 60 foram importantes e como tudo isso interferiu na criatividade do País. Afinal era muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, e em pouco tempo. </li></ul><ul><li>Para culminar, o Governo do Presidente Juscelino Kubitschek – um dos mais dinâmicos de toda nossa história republicana – transferiu em 1960 a Capital do Rio de Janeiro para Brasília, um sonho arquitetônico de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa erguido no Planalto Central do País. O Brasil, enfim, se tornava moderno, se livrava de um crônico complexo de inferioridade e podia olhar de frente para as outras nações do mundo. </li></ul><ul><li>Em meio a tantos acontecimentos, surgia aí um movimento musical único, a Bossa Nova, com influência do jazz americano, no que se referia ao apuro técnico, aliada a uma linha melódica simples, quase de “uma nota só” e muita suavidade ao cantar. Este movimento surge na década de 50, resiste aos duros tempos da Ditadura e até hoje é reverenciada pelo mundo. </li></ul><ul><li>Lembra que tempo feliz/ Ah, que saudade/ Ipanema era só felicidade/ era como se o amor doesse em paz... (Carta ao Tom - Tom Jobim e Vinicius de Moraes) </li></ul><ul><li>Dias de luz/ festa do sol/ e o barquinho a deslizar/ no macio azul do mar. (O Barquinho - Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli). </li></ul>
  8. 8. <ul><li>Olha que coisa mais linda/ mais cheia de graça/ é ela a menina/ que vem e que passa/ no doce balanço/ a caminho do mar... (Garota de Ipanema - Tom Jobim e Vinicius de Moraes). </li></ul><ul><li>Como afirma Roberto Menescal em um de seus depoimentos acerca da Bossa Nova: cada canção dessas (e muitas outras compostas durante o mesmo período) são autênticas telas em que os artistas “pintaram” com cores suaves a bela natureza carioca, onde o mar é dominante. Ou seja, verdadeiros “impressionistas”. </li></ul><ul><li>Uns ainda afirmam ter sido a Bossa Nova um movimento de elite, mas isto nós vamos esmiuçar direitinho durante este trabalho. </li></ul>
  9. 9. 2. SOCIEDADE E CULTURA NOS ANOS 50 <ul><li>Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, o mundo foi dividido em dois blocos e surgiam duas superpotências: EUA e URSS. Isto estimulou a penetração da cultura norte-americana no Brasil que já acontecia desde os tempos da guerra, quando o Brasil se aliou aos EUA. O “The American Way of Life” difundia-se em todo o mundo ocidental e um espírito de otimismo e de esperança, um novo modo de viver propiciado pela produção em massa de bens manufaturados de uso pessoal e doméstico tomou conta do País. </li></ul><ul><li>Ao longo da década de 1950, essas transformações se consolidaram e alteraram o comportamento de parte da população brasileira nos grandes centros urbanos e a paisagem urbana se modernizava, a construção de casas e edifícios ganhou formas mais livres, mais funcionais, menos adornadas e a decoração de interiores ficou mais despojada, de acordo com os princípios da arquitetura e do mobiliário moderno. </li></ul><ul><li>Surgiam novos produtos fabricados com materiais plásticos, fibras sintéticas, que os tornavam mais práticos e acessíveis. A chamada sociedade urbano-industrial crescia, sustentada por uma política desenvolvimentista que se aprofundaria ao longo da década, através do que era difundido pelas revistas, pelo cinema norte-americano e pela televisão, introduzida no país em 1950. </li></ul><ul><li>Já se podia notar a expansão dos meios de comunicação, tanto no que se refere ao lazer quanto à informação, muito embora seu raio de ação ainda fosse local e não globalizado como é hoje. O rádio se expandiu no início dos anos 50, quando houve um aumento da publicidade. As populares novelas do rádio veiculavam propagandas de diversos produtos. Na televisão, a publicidade não mais se limitava a vender produtos, e as próprias empresas eram produtoras dos programas que patrocinavam. Houve um aumento da tiragem dos jornais e revistas, e popularizaram-se as fotonovelas, lançadas no início da década. O cinema e o teatro também participaram desse processo, tanto do lado das produções de caráter popular quanto das produções mais sofisticadas. No caso do cinema, as chanchadas, comédias musicais produzidas pela famosa Atlântida, </li></ul>
  10. 10. <ul><li>empresa criada nos anos 40, tiveram seu auge nos anos 50, e seus atores foram consagrados pelo público. O teatro de revista, que misturava humor e música, fazia bastante sucesso. Apesar de originárias da década de 1940, as experiências tanto de um cinema industrial, como foi o caso daquele produzido pela Vera Cruz, quanto de um teatro menos popular, como o do Teatro Brasileiro de Comédia, ainda perduraram ao longo dos anos 50. </li></ul><ul><li>Era um tempo em que o otimismo e a esperança traziam profundas alterações na vida da população, permitindo à classe média, dos centros urbanos consumir novos e mais produtos, e esta empolgação com o novo trazia incutido, em várias áreas da cultura, o desejo de transformar a realidade de um país subdesenvolvido e construir uma nação realmente independente. </li></ul><ul><li>O entusiasmo deu origem a vários movimentos no campo artístico. Eram novas formas de pensar e fazer o cinema, o teatro, a música, a literatura e a arte que se aprofundavam, numa reformulação do que havia sido feito até então. Em alguns casos, consolidou-se um movimento que já se iniciara em décadas passadas, e outros nasceram naquele momento e se tornaram marcos, referências de renovações estéticas que viriam a se firmar mais plenamente mais tarde. </li></ul><ul><li>O cinema, o teatro, a música, a poesia e a arte, movidos pela crença na construção de uma nova sociedade abraçavam expressões artísticas e estéticas inovadoras que vinham sendo praticadas não só em outras partes do mundo, mas também no próprio país. Essa foi, em linhas gerais, a marca do processo de renovação estética em curso ao longo da década de 1950. Por outro lado, o vigor do movimento cultural encontrava estimulava setores das camadas médias urbanas em franca expansão, sobretudo universitárias, sintonizadas com o espírito nacionalista da época, e com a crença nas possibilidades de desenvolvimento do país. </li></ul><ul><li>Os chamados &quot;anos dourados&quot; de espírito otimista, que consagraram o governo de Juscelino Kubitschek, englobaram todo um conjunto de mudanças sociais e manifestações artísticas e culturais que ocorreram dentro de um debate </li></ul>
  11. 11. <ul><li>mais geral sobre a reconstrução nacional, em curso desde o início dos anos 50 até os primeiros anos da década seguinte. </li></ul><ul><li>2.1. A ARTE BRASILEIRA NOS ANOS 50 </li></ul><ul><li>Os ideais construtivistas oriundos da década de 30 invadiram o cenário das artes plásticas no início dos anos 50. Nesse momento, os conceitos da arte moderna contagiavam o Brasil centrados na forma, na cor e no espaço. Ao longo dessa década, as tendências do construtivismo - expressas no concretismo e no neoconcretismo - e da abstração informal iriam consolidar-se, num movimento de renovação da arte brasileira que recusava a figuração e a representação realista e saía em defesa tanto da linguagem geométrica ou informal quanto da abstração. </li></ul><ul><li>A arquitetura e a arte naquele momento visavam introduzir uma racionalidade modernizadora na organização do espaço social. Essa união já havia inspirado em 1919 a criação da primeira escola de desenho industrial moderno, a Bauhaus, com o objetivo de ligar arquitetura à arte. A Bauhaus propunha uma arte não apenas decorativa, mas também funcional, de modo a atender às necessidades da sociedade industrial e tornar mais harmonioso o cotidiano das pessoas. </li></ul><ul><li>A presença de uma arquitetura moderna brasileira já se fazia sentir desde os anos 30, quando o arquiteto suíço Le Corbusier inspirou as linhas gerais do projeto do edifício-sede do Ministério da Educação e Saúde no Rio de Janeiro, que viria a ser desenvolvido por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer entre outros arquitetos de renome, e incluiria jardins desenhados por Roberto Burle Marx. De fins da década de 30 até os anos 50, surgiriam outros projetos de obras públicas identificados com os princípios da moderna arquitetura, consagrada com a construção de Brasília, no governo JK. </li></ul><ul><li>A renovação no campo das artes plásticas aconteceu a partir da realização da I Bienal Internacional de São Paulo, em 1951, que reuniu artistas e público brasileiro e nos colocou em contato com o que vinha sendo produzido no exterior. Na época, o crítico Mário Pedrosa já questionava o que vinha sendo realizado no </li></ul>
  12. 12. <ul><li>país e apontava os caminhos da renovação. Artistas brasileiros como Ivan Serpa e Abraham Palatnik participaram da I Bienal com trabalhos que se inseriam dentro dos princípios da arte construtiva. Da mesma forma, o escultor Franz Weissman já realizava suas primeiras esculturas geométricas. </li></ul><ul><li>Em 1952, surge o grupo concretista Ruptura, em São Paulo, liderado entre outros pelo artista Waldemar Cordeiro. Entre outros nomes ligados ao movimento concreto, figuravam os poetas Décio Pignatari, Augusto de Campos e Haroldo de Campos. Afinado com os princípios do movimento concretista, esse grupo ligava-se mais ao aspecto material das palavras e à sua ordenação espacial na construção do sentido do que à poesia discursiva. No Rio de Janeiro, o grupo Frente realizou sua primeira mostra em 1954, com trabalhos dos artistas Ivan Serpa, Aluísio Carvão, Lygia Clark e Lygia Pape, entre outros. </li></ul><ul><li>As divergências entre os grupos paulista e carioca acabaram por provocar uma cisão entre eles, que foi publicada no Manifesto Neoconcreto divulgado no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil no início de 1959. Em linhas gerais, o manifesto valorizava a expressão subjetiva contra a supervalorização da racionalidade que estaria sendo feita pelos paulistas, numa atitude considerada mecanicista. O documento foi assinado pelo chamado grupo do Rio, que era composto, entre outros, por Amílcar de Castro, Franz Weissman, Lígia Clark, Lígia Pape e o poeta Ferreira Gullar. Juntou-se também ao movimento o artista Hélio Oiticica. Os concretistas paulistas, por sua vez, orientavam seus trabalhos para os segmentos artísticos diretamente vinculados à emergente base industrial: as artes gráficas e o design. Foi assim que Hércules Barsotti e Willys de Castro fundaram, em 1954, o Estúdio de Projetos Gráficos. Na verdade, os dois eram independentes do grupo concreto paulista e desenvolviam trabalhos de natureza construtiva que no final da década viriam a estar mais identificados com os neoconcretos. </li></ul><ul><li>O concretismo e a abstração foram duas tendências importantes na arte brasileira daquele momento. Presentes em pinturas, gravuras e esculturas, obtiveram consagração nas Bienais Internacionais de São Paulo, realizadas, a partir de 1953, no Parque Ibirapuera, projetado por Oscar Niemeyer e outros arquitetos. Outros pontos de atração e difusão dos novos princípios foram os museus de Arte Moderna de São Paulo e do Rio, que foram criados em fins da década de 1940 respectivamente por Francisco Matarazzo Sobrinho e por Paulo Bittencourt e Niomar Muniz Sodré, e tiveram suas novas sedes inauguradas nos anos 50 - o MAM de São Paulo, no Ibirapuera, e o MAM do Rio, projetado por Affonso Eduardo Reidy, no Aterro do Flamengo. Sob o signo do moderno, a arte e arquitetura brasileiras se fundiam. </li></ul>
  13. 13. <ul><li>2.2 CINEMA BRASILEIRO NOS ANOS 50 </li></ul><ul><li>A renovação no cinema na época, da mesma forma que no teatro, veio acompanhada por questões de ordem política: tratava-se fazer um cinema com nova linguagem e temática popular. A absorção de aspectos da cultura popular era um movimento geral que abrangia todo o cinema da época, desde aquele produzido pela Vera Cruz, passando pelas chanchadas, até os filmes feitos por jovens que iriam promover uma verdadeira revolução estética no cinema brasileiro. Nelson Pereira dos Santos foi o primeiro deles, podendo ser considerado o precursor do que no início dos anos 60 passaria a ser denominado cinema novo. </li></ul><ul><li>A fase inicial do cinema brasileiro moderno foi bastante influenciada pelo estilo neo-realista do cinema italiano que abordava os efeitos da guerra e problemas de ordem social, como em Roma Cidade Aberta (1945), de Roberto Rosselini, e O Ladrão de Bicicleta (1948), de Vitorio de Sicca, dois filmes bastante conhecidos do período. No Brasil, Rio 40 graus (1955) e Rio Zona Norte (1957), ambos dirigidos por Nelson Pereira dos Santos, inauguraram o diálogo com o neo-realismo, trazendo à tela o universo urbano. O mesmo Nelson Pereira dos Santos produziu logo depois O Grande Momento (1958), dirigido por Roberto Santos. Ao contrário do cinema industrial, tratava-se de produções de baixo orçamento e de caráter autoral que, numa linguagem realista, traziam uma abordagem humanista tanto da realidade nacional quanto da cultura popular. Entre as mudanças estéticas mais importantes, destaca-se a utilização de longas seqüências que procuravam um registro da realidade tal como ela se apresentava. </li></ul><ul><li>Esse movimento se desenvolveu sobretudo no Rio de Janeiro e na Bahia, onde, já no fim da década de 1950, existia uma intensa atividade cineclubista. O grande nome do cinema novo, Glauber Rocha, iniciava então sua carreira em Salvador, com a realização de seu primeiro filme, o curta-metragem O Pátio (1959), e as primeiras filmagens do que viria a ser seu primeiro longa-metragem, Barravento, lançado três anos depois. As inovações estéticas empreendidas por Glauber Rocha e outros cineastas viriam a aprofundar ainda mais a renovação da linguagem do cinema brasileiro nas décadas futuras. </li></ul>
  14. 14. <ul><li>2.3 A COPA DO MUNDO DE 1958 </li></ul><ul><li>A derrota que o Brasil sofreu para a seleção do Uruguai na final da primeira Copa do Mundo de futebol realizada no Brasil em 1950, deixou na memória da população marcas muito profundas. O Maracanã mais do que lotado assistiu silencioso ao gol de Alcides Ghiggia, enquanto milhares e milhares de brasileiros acompanhavam o lance pelo rádio, incrédulos com os 2 x 1 do placar. A derrota tornou-se um verdadeiro fantasma, e na Copa de 54, vestido com o uniforme da seleção húngara, mais uma vez Edegardo atormentou o espírito dos brasileiros. Afinal o Brasil sempre foi, em ocasiões de disputas internacionais – seja da Taça Jules Rimet, da Copa Rocca ou do Campeonato Sul-Americano de Futebol –, a &quot;pátria de chuteiras&quot;. </li></ul><ul><li>O Brasil confirmou sua posição de grande favorito já nos primeiros jogos do grupo da final. A Suécia foi eliminada no dia 09 de julho de 1950, perdendo por 7-1 (quatro gols de Ademir, dois de Chico e um de Maneca) e a Espanha, no dia 13 de julho, perdendo por 6-1 (dois gols de Ademir, dois de Chico, um de Jair e um de Zizinho). A multidão assistiu em massa a essas duas performances (139.000 e 153.000 espectadores), dizendo aos gritos, mais e mais numerosos, &quot;O Brasil há de ganhar!&quot; (O Brasil vai ganhar!). No dia 16 de julho, o Brasil enfrentou o Uruguai, que até o momento tinha somente empatado contra a Espanha (2-2) e com uma vitória magra sobre a Suécia (3-2), virando o jogo com dois gols nos últimos quinze minutos, impediu que o Brasil se tornasse campeão por antecipação. Foi nesse clima de “já ganhou” que mais de 200 mil pessoas foram ao estádio do Maracanã naquela tarde de 16 de julho, ou seja, quase um décimo da população da cidade do Rio de Janeiro estava presente. O Brasil precisava somente do empate para ser campeão do mundo. Ninguém acreditava no Uruguai, que foi completamente dominado no início do jogo, frente a um Brasil que partia com tudo na tentativa de marcar. Mas o Uruguai resistia. Ao retornar do vestiário, os canarinhos pareciam preocupados. Os jogadores não tinham o direito de perder, um reles empate já seria frustrante para o grandioso público presente. Ao final do 1º tempo, embora o placar favorecesse o Brasil, os assobios se elevavam das tribunas por parte dos espectadores, já inquietos, uma vez que, até então, o placar ainda não saíra do zero. Na 2ª etapa, a certeza do título aumentou com o gol do brasileiro Friaça logo aos 2m. Entretanto, o que parecia ser o início de uma grande festa se transformou no princípio da maior grande tragédia já vivida pelo futebol brasileiro. Os uruguaios, Schiaffino, aos 21m, e Ghiggia, aos 34m, se encarregaram de virar a partida, dando ao Uruguai o seu segundo título de campeão mundial. O episódio entrou para a história como “Maracanazo”, uma das maiores zebras de todos os tempos. </li></ul>
  15. 15. <ul><li>Jules Rimet, presidente da FIFA e organizador da copa, comentou sobre o que acontecera: &quot;O silêncio estava absoluto, ás vezes difícil de se acreditar&quot;, uma vez que uma multidão de duzentas mil pessoas continuavam sem concordar que haviam sido 'roubadas' de um título que consideravam dela por direito. Jules Rimet havia preparado um discurso em português para parabenizar os vencedores, que ele esperava ser os brasileiros. Sendo assim, levou um susto quando, a caminho do campo, a multidão parara, e não havia hino, celebração, conquista de copa, nem nada. A federação brasileira havia também feito 22 medalhas de ouro com o nome dos jogadores nelas (na época a FIFA não dava medalhas aos vencedores, como agora), que também nunca foram usadas. </li></ul><ul><li>Em entrevista concedida por Ghiggia (autor do segundo gol) Rimet falou: “O silêncio era tão grande que se uma mosca estivesse voando por lá, ouviríamos seu zumbido.&quot; </li></ul><ul><li> Com este resultado e a celebração arruinada, os organizadores da Copa do Mundo deixaram Jules Rimet sozinho no campo, segurando a taça nas mãos. Com nenhuma cerimônia o ajudando, Rimet teve que chamar Varela para presenteá-lo com a taça. Este foi o segundo e último título do Uruguai até 2006, e eles são o País há mais tempo na fila, 56 anos. (E a fila vai continuar por pelo menos 4 anos a mais, uma vez que o Uruguai não se classificou para a Copa de 2006, perdendo para a Austrália a vaga na copa). </li></ul><ul><li>A sociedade Brasileira fico em choque depois da copa de 1950. Muitos jornais se recusaram a aceitar o fato que eles haviam sido derrotados, um famoso jornalista se aposentou, e até mesmo alguns fãs cometeram suicídio. Os jogadores foram todos crucificados pelo público. Muitos silenciosamente se aposentaram, enquanto outros nunca mais foram considerados para a Seleção novamente. </li></ul><ul><li>A Seleção Brasileira decidiu mudar a cor dos uniformes depois da derrota pois consideraram isto como azar. Antes do “Maracanazo”, o uniforme titular brasileiro era branco com gola azul e shorts brancos, e foi mudado para o que é usado até hoje, camisa amarela com gola azul e shorts azuis. </li></ul>
  16. 16. <ul><li>Mas a Copa de 1958 foi diferente. Apesar do medo da ausência de grandes craques como Ademir e Zizinho, o eterno mestre Ziza, ídolo de Pelé e Zico, a Copa de 58 parecia desde o início estar fadada a um outro destino. Parecia que o clima vivido pelo país desde o início do governo de JK se havia realmente espalhado por todos os setores da sociedade brasileira. Naquele mesmo ano de 1958, a fachada do palácio da Alvorada, em Brasília, já se encontrava concluída, ilustrando as capas das principais revistas e jornais de circulação nacional. Havia um clima de euforia que compensava até os elevados índices de inflação, e que em muito se identificava com o presidente sorridente, com o decavê e o fusquinha rodando pelas ruas, enquanto a bossa nova tocava nas vitrolas e nas rádios. </li></ul><ul><li>O clima de entusiasmo com a seleção brasileira começou ainda na fase da preparação com os jogadores como Garrincha, Pelé, Gilmar e Didi e a Confederação Brasileira de Desportos – que antecedeu a CBF – pôde contar com decidido apoio do governo federal, com verbas mais do que suficientes para garantir a formação de um bom time e o início antecipado dos treinamentos. Deixou-se assim de confiar apenas no talento dos jogadores – desde 1950, sabíamos que tínhamos os melhores do mundo – e passou-se a fazer uma avaliação científica de seu estado físico e a promover um preparo adequado. Os princípios científicos e modernos enfim chegavam ao futebol! </li></ul><ul><li>A formação inicial da seleção canarinho era Gilmar (3), De Sordi (14), Bellini (2), Orlando (15), Nilton Santos (12), Dino (5), Didi (6), Joel (17), Mazzola (18), Dida (21) e Zagallo (7). E Garrincha e Pelé na reserva. Do grupo, hoje, são lembrados, não necessariamente nesta ordem, o grande capitão Bellini, homenageado com uma estátua em frente ao portão principal do Maracanã, a quem devemos o maravilhoso gesto da taça sendo erguida; Nilton Santos, que se tornou a &quot;enciclopédia&quot; do futebol brasileiro; Zagallo, cuja trajetória seria muito mais marcada pelos dois outros títulos que trouxe como técnico e depois como supervisor, o tri e o tetracampeonatos. Sem dúvida, Pelé e Garrincha continuarão ocupando um lugar único na história do futebol brasileiro. Um, estreando com apenas 17 anos, e o outro, com suas pernas tortas, entortando as defesas adversárias. Mas seria uma injustiça não falar de Didi, o criador da &quot;folha seca&quot;, cuja serenidade fez com que na final da Copa contra o time da casa, após estarem perdendo de 1 x 0, os jogadores conseguissem superar o trauma de 50 e dar a volta por cima. </li></ul>
  17. 17. <ul><li>Ainda em 1958, Juscelino Kubitschek, o presidente sorridente, tornou-se também um presidente &quot;pé quente&quot;. Afinal, durante seu governo, os brasileiros viram não apenas a seleção de futebol ser campeã do mundo, mas outros esportes trazerem novas alegrias. Muitos deles, de natureza essencialmente amadora, entraram na onda do futebol. Foi o momento de torcer por Eder Jofre, no boxe, por Maria Ester Bueno, no tênis, pelas seleções femininas de basquete e de vôlei e pela masculina de basquete. Foi ainda o momento em que surgiam os irmãos Fittipaldi – Emerson e Wilson –, que então davam os primeiros passos nas corridas de kart. Ademar Ferreira da Silva logo no primeiro ano do governo JK, mais precisamente em 27 de novembro de 1956, tornou-se o primeiro atleta brasileiro a conquistar, em duas olimpíadas consecutivas, a premiação máxima. Durante a competição realizada em Melbourne, na Austrália, garantiu a medalha de ouro na prova de salto triplo, confirmando o resultado que obtivera nas olimpíadas de Helsinque 4 anos antes. </li></ul><ul><li>Não é a toa que durante muito tempo, o que mais se ouviu neste país foi a marchinha de Wagner Maugeri, Maugeri Sobrinho, Vítor Dago e Lauro Müller: </li></ul><ul><li>A taça do mundo é nossa </li></ul><ul><li>Com o brasileiro, não há quem possa! </li></ul><ul><li>Eeeeta esquadrão de ouro, </li></ul><ul><li>É bom no samba, </li></ul><ul><li>É bom no couro! </li></ul>
  18. 18. <ul><li>2.4 AS MUDANÇAS NA IMPRENSA </li></ul><ul><li>Os anos 50 foram marcados por mudanças significativas na imprensa brasileira, com a introdução de novas técnicas de apresentação gráfica, inovações na cobertura jornalística e renovação da linguagem. Nessa época o Diário Carioca, jornal do Rio de Janeiro, introduziu o lead e criou em sua redação uma equipe de copidesque que passou a desempenhar papel formador de novos quadros para o jornalismo. Foi aí também que houve a reforma do Jornal do Brasil, tão importante para se entender as transformações subseqüentes nos jornais de todo o país. </li></ul><ul><li>Na segunda metade da década de 1950, a imprensa brasileira começou a modificar a forma era feito o jornalismo: de combate, crítica, doutrina e de opinião. Essa forma de jornalismo político convivia com o jornalismo popular, que tinha como característica o grande espaço para a crônica e o folhetim. A objetividade da linguagem não era uma preocupação. Gradualmente, passou-se a praticar um jornalismo que privilegiava a informação, que separava o comentário pessoal da transmissão objetiva da notícia. O crescimento dos jornais e revistas passou também a depender mais da publicidade do que dos classificados. Ainda nesse período predominavam os jornais vespertinos, mas, com a chegada da televisão, sobretudo a partir dos anos 60, eles foram cedendo o lugar aos jornais matutinos. </li></ul><ul><li>A imprensa escrita de maior circulação no Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais foi a que contestou a eleição e a posse de Juscelino Kubitschek, respectivamente os jornais O Globo e Diário de Notícias, O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. Todos eles eram ligados à UDN, e se posicionaram contra a posse de JK. O Diário Carioca e a Última Hora, do Rio de Janeiro, e o Estado de Minas defenderam a política de Juscelino durante todo o seu período de governo. Outros jornais, como o Correio da Manhã, O Jornal, Diário da Noite, Jornal do Brasil, apresentaram críticas à política econômica então adotada, mas não fizeram oposição sistemática a JK. Via-se já aí a grande influência que a imprensa exerceria na política. </li></ul>
  19. 19. <ul><li>A construção de Brasília atraiu uma grande oposição ao governo. O Correio da Manhã via na transferência da capital o esvaziamento político do Rio de Janeiro. Brasília foi apontada ao mesmo tempo como possível geradora de um processo inflacionário e como &quot;abertura para o oeste e um núcleo político e social no centro do país&quot;. O Jornal do Brasil foi declaradamente contrário a Brasília e acusou JK de responsável pela corrupção e pelos desmandos havidos na construção da cidade. Condenou a política econômica de JK e chegou a defender as pressões do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre o governo para que este contivesse a inflação. O Estado de S. Paulo, também criticava a construção de Brasília pelos mesmos motivos, mas por ocasião de sua inauguração, em 21 de abril de 1960, publicou um encarte especial sobre o acontecimento e ressaltou a importância de Brasília, que se tornara um centro de atração mundial por sua arquitetura. A Folha de S. Paulo defendeu o modelo econômico adotado por JK, mostrando-se favorável à associação com capital estrangeiro, que traria para o país tecnologia mais avançada. O jornal O Globo manteve uma oposição sistemática ao governo e em seus editoriais criticava a construção de Brasília, atribuindo a inflação aos elevados gastos de JK. O Globo também defendeu a posição do FMI, que defendia um maior combate à inflação e restrição ao crédito, mas viu como positiva a implantação da indústria automobilística. </li></ul><ul><li>Surgiu, então, uma imprensa extremamente nacionalista, que passou a combater a opinião dos jornais de maior circulação e prestígio, principalmente os do eixo Rio-São Paulo, que não abriam espaço para a divulgação das posições nacionalistas, e sim defendiam teses favoráveis à participação de capitais estrangeiros no desenvolvimento industrial do país. Para romper as dificuldades de divulgação de suas idéias, os nacionalistas criaram pequenos jornais, em geral tablóides semanais. O jornal nacionalista O Semanário começou a circular no início do governo JK, em abril de 1956, mas sua viabilidade dependia da solidariedade militar, principalmente do Exército. </li></ul>
  20. 20. <ul><li>As revistas semanais, com circulação nacional, tiveram seu período áureo durante os anos JK, com a introdução de uma nova estética na distribuição das fotografias. A revista O Cruzeiro, do Rio, deu espaço a grandes reportagens onde a cor e as imagens eram dominantes, e apoiou sem muito alarde o governo JK. A revista Manchete da Editora Bloch, também do Rio, foi uma grande divulgadora das propostas desenvolvimentistas de JK e valorizou o slogan &quot;50 anos em 5&quot;. A Manchete foi a primeira empresa jornalística a instalar uma sucursal em Brasília. Estabeleceu-se uma forte relação de amizade entre o dono da empresa, Adolfo Bloch, e Juscelino Kubitschek, o que levou inclusive a família do ex-presidente a decidir, quando da sua morte em 1976, a velar seu corpo na sede da Manchete. </li></ul><ul><li>Outra revista mensal, a Senhor, publicada no Rio de Janeiro a partir de março de 1959, inovou o panorama das artes gráficas, adotando um formato e paginação muito originais. Destacava ensaios fotográficos e o conteúdo da revista privilegiava os temas culturais, abrindo espaço especialmente para as artes. Foi a revista que melhor divulgou as inovações artísticas e culturais que tiveram lugar durante os anos JK. </li></ul><ul><li>A revista Manchete ajudou a criar a fama dos anos JK como &quot;anos dourados&quot; e a tornar o presidente uma figura popular. &quot;Brasília e Manchete cresceram juntas&quot;, disse Adolfo Bloch. Fundada em abril de 1952, a revista valorizava o aspecto visual, o colorido, a paginação. Nela JK era apresentado como homem simples, do povo, que transmitia confiança nos destinos do país. Essa confiança se fazia presente de forma concreta, já que JK era mostrado como um homem de ação, empreendedor e inovador. </li></ul>
  21. 21. <ul><li>A Manchete revolucionou a forma com que eram feitas as revistas da época, publicando reportagens com imagens de impacto geradas pelo governo JK: estradas, usinas hidroelétricas, fábricas e, principalmente, Brasília. Em 1959, uma reportagem de Murilo Melo Filho fazia a avaliação dos três anos do governo JK e falava do presidente como um &quot;plantador de cidade&quot;. Murilo Melo Filho e o fotógrafo Jáder Neves passaram a visitar Brasília toda semana para acompanhar o andamento das obras. </li></ul><ul><li>A revista também dedicou muitos números à &quot;odisséia do Planalto&quot; e assim como o Jornal O Globo fez em seu encarte especial, publicou um número especial por ocasião da inauguração de Brasília. Essa edição histórica, de 21 de abril de 1960, teve tiragem de 760 mil exemplares que se esgotaram em 48 horas. Uma das manchetes dizia: &quot;Começa aqui a nova História do Brasil: JK recebe as chaves da capital&quot;. Nessa edição aparece a imagem do sino que anunciou a morte de Tiradentes e que também proclamou a inauguração de Brasília. A revista relacionava, através de belas imagens, a primeira missa rezada em Brasília, por ocasião da inauguração de uma capela em 1957, com a Primeira Missa do Brasil em 1500. Foi no sermão dessa missa de 1957 que D. Carmelo Mota, cardeal arcebispo de São Paulo, fez referência a uma profecia de D. João Bosco, que em sonho teria visto a nova capital do país no Planalto Central. Finalmente, a relação entre o plano piloto da cidade e o sinal da cruz era realçada pela menção à explicação de Lúcio Costa: &quot;O plano piloto de Brasília nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da Cruz.&quot; </li></ul><ul><li>Este número especial da revista valorizava o caráter arquitetônico moderno dos principais edifícios: o Palácio da Alvorada, o Brasília Palace Hotel, o Supremo Tribunal Federal, o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e 11 edifícios ministeriais. As reportagens mostravam a grande festa da inauguração, com missa, cerimônia no Congresso, desfile de candangos e baile, tudo com a presença de autoridades dos três poderes, representantes de países estrangeiros, funcionários, candangos e 30 índios carajás vindos da ilha do Bananal para participar do acontecimento. A frase de JK, em discurso de 2 de outubro de 1956, era relembrada com destaque: &quot;Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta Alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino.&quot; </li></ul>
  22. 22. <ul><li>2.5 TRANSFORMAÇÕES NA LITERATURA </li></ul><ul><li>Fazia tempo que não aconteciam novos movimentos ou correntes literárias no Brasil. Depois da Semana de Arte Moderna de 1922, que foi o marco inicial de uma liberação estética que rompeu com os códigos acadêmicos e subverteu a maneira de pensar e de escrever anterior, as polêmicas pareciam ter cessado, e os manifestos desaparecido. Tudo era permitido, e tudo era simplesmente moderno. Na década de 30, assistiu-se ao amadurecimento das conquistas, seja na poesia, seja na prosa, com o romance regionalista e introspectivo; na década seguinte, a busca do rigor formal comum a um grupo de poetas fez com que fossem identificados como a &quot;geração de 45&quot;. Depois disso, nenhuma novidade foi apontada, até o ano de 1956, quando surge a poesia concreta. Como o modernismo de 1922, o concretismo não se restringiu à literatura, e teve a ver também com as artes plásticas. </li></ul><ul><li>O concretismo não foi a única manifestação literária da época. Ao longo dos anos 50, poetas das três gerações anteriores, maravilhosamente representadas por Manuel Bandeira (20), Carlos Drummond de Andrade (30) e João Cabral de Melo Neto (40), continuavam a publicar e a serem lidos, além de Murilo Mendes, Jorge de Lima, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, entre outros. Manuel Bandeira, estreante em 1917 com A Cinza das Horas, lançava em 1954 sua biografia literária, Itinerário de Pasárgada, escrevia crônicas, traduzia e acrescentava à sua obra poética, Estrela da Tarde (1958), documentando, segundo Ledo Ivo, &quot;a última tentação de sua disponibilidade intelectual&quot; ao incluir &quot;experiências com a cognominada poesia concreta&quot;. Drummond, surgia em 1930 com Alguma Poesia, atingia a maturidade na expressão de seu &quot;sentimento do mundo&quot; e recebia pleno reconhecimento da crítica e do público. João Cabral, o poeta da objetividade que se apresentara em 1942 com Pedra do Sono, combinava rigor formal e preocupação social em Cão sem plumas, de 1950, e Morte e Vida Severina, de 1956. </li></ul>
  23. 23. <ul><li>Na prosa, nomes conhecidos continuavam a produzir: Graciliano Ramos, com seus grandes romances publicados, que nos anos 60 iriam inspirar o chamado cinema novo, lançava em 1953 Memórias do Cárcere. Jorge Amado inovava seu estilo publicando Gabriela, Cravo e Canela, em 1958, primeiro de uma série de romances pitorescos sobre tipos baianos que alcançariam enorme sucesso. No Sul, Érico Veríssimo prosseguia com sua longa saga, O Tempo e o Vento (1949-1961). Fernando Sabino lançava um romance que marcou época: Encontro Marcado, de 1956. Os anos 50 foram também o período de ouro da crônica, que em alguns casos, como o de Rubem Braga, deixou de ser tópica para se situar a meio caminho entre prosa e poesia. Dois nomes, ligados ao romance e ao conto, alcançaram então o respeito da crítica, por sua obra extremamente pessoal e inovadora: Clarice Lispector, com Laços de Família (1960) e Maçã no Escuro (1961), e João Guimarães Rosa, publicou em 1956 Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas, passando assim a ocupar lugar central na ficção de vanguarda brasileira. </li></ul><ul><li>Do grupo dos concretistas, um núcleo paulista chamava a atenção, os irmãos Haroldo e Augusto de Campos e Décio Pignatari, e outro carioca, formado por Ferreira Gullar, Reinaldo Jardim – editor do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil (SDJB) - e José Lino Grünewald. Valorizar a construção verbo-visual do poema, substituindo a estrutura frásica do verso por estruturas nominais capazes de estabelecer relações espaciais, era o projeto que unia a todos, ao menos no início, como o demonstravam as primeiras antologias Noigrandes (1952, 1955 e 1956), e o próprio SDJB. No fim da década uma cisão separou cariocas e paulistas. Enquanto Ferreira Gullar voltava ao verso e se dedicava a uma poesia politicamente engajada, o grupo paulista prosseguia com suas experiências. Depois de publicar o &quot;Plano-piloto para poesia concreta&quot; em Noigrandes no 4 (1958), os paulistas teriam na revista Invenção sua principal referência. Ambas as correntes teriam importantes desdobramentos ao longo da década de 1960. </li></ul>
  24. 24. <ul><li>2.6 TRANSFORMAÇÕES NO RÁDIO </li></ul><ul><li>Dia 8 de janeiro de 1951, às 20 horas entrava no ar, pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro, o primeiro capítulo de O Direito de Nascer, do cubano Félix Caignet. A mais famosa novela da história do rádio brasileiro ficou em cartaz até setembro de 1952, num total de 260 capítulos. No ano seguinte, a Rádio Nacional inaugurava um novo estúdio de rádio teatro, com tantos recursos que foi considerado o melhor do mundo na época. Em 1953, sob o patrocínio de Melhoral e do Leite de Magnésia de Philips, estreou a série Jerônimo, o herói do sertão, de Moysés Weltman, que ficaria no ar até 1967. </li></ul><ul><li>Durante toda a década de 50 as dramatizações eram componentes-chaves da programação das principais emissoras do país. Do elenco da Rádio Nacional faziam parte os artistas mais famosos, campeões dos concursos de &quot;Melhores do Rádio&quot;, realizados periodicamente pelas revistas especializadas, como a Revista do Rádio e a Radiolândia. A Rádio Mayrink Veiga contava com um elenco de radio teatro de 26 pessoas, além de quatro estúdios, um auditório, uma orquestra com 41 músicos e um conjunto regional. </li></ul><ul><li>Outro sucesso do entretenimento radiofônico da Rádio Nacional era o programa de auditório, sendo seguida pelas concorrentes. A Rádio Tupi, ainda na avenida Venezuela, forçada por um incêndio em suas instalações, remodelou inteiramente seu auditório, aumentando sua capacidade para 1.600 pessoas, o que lhe valeu o apelido de &quot;o Maracanã dos auditórios&quot;. Além deste, a emissora de Assis Chateaubriand contava com três estúdios, três orquestras, dois conjuntos regionais e um enorme quadro de artistas e locutores. </li></ul><ul><li>A utilização do rádio para fins políticos não foi menos significativa. No início da década, a Rádio Globo ocupava quarto lugar na disputa pela audiência no Rio de Janeiro e inovava com programas como a Tribuna Política, que continha depoimentos das principais lideranças parlamentares. Outro destaque de sua programação era o Conversa em Família, onde simulava-se uma conversa familiar à mesa do jantar, onde os principais assuntos políticos eram debatidos. </li></ul>
  25. 25. <ul><li>O rádio-jornalismo não se limitava, porém, às campanhas políticas nacionais. Na segunda metade da década, a Rádio Farroupilha destacou-se na cobertura internacional de crises como a do canal de Suez, durante o conflito entre Egito e Israel, com transmissões ao vivo e troca de mensagens entre os pracinhas do contingente de paz brasileiro e seus familiares no Brasil. </li></ul><ul><li>Outra emissora a investir e a inovar nesse setor do rádio-jornalismo foi a Rádio Jornal do Brasil, que em 1959 inaugurou um serviço de utilidade pública que trazia diversas informações de interesse coletivo aos ouvintes, como endereços de serviços públicos, auxílio na aquisição de remédios, etc. A estratégia da JB completava-se com uma programação musical baseada em discos. A rádio foi, além disso, uma das primeiras a apoiar o movimento da Bossa Nova e a divulgar a nova música popular brasileira, instituindo um prêmio ao compositor revelação do ano. </li></ul><ul><li>Também a Rádio Tamoio fazia sucesso na época com uma programação dedicada à música, também utilizando discos. Já a Rádio Ministério da Educação teve várias orquestras, como a sinfônica, de câmara, de sopros e a afro-brasileira, além de um quarteto vocal e outro de cordas, um conjunto de música antiga, um coral, um trio, vários duos e um quadro de solistas. Além do mais, a emissora estatal gravava discos para irradiação em emissoras estrangeiras e investia em programas educativos, como o Colégio do Ar, que, em convênio com a Divisão de Ensino Secundário do MEC, conferia anualmente centenas de diplomas a jovens e adultos. </li></ul><ul><li>Em função da concorrência do advento da televisão, que a cada dia tomava proporções maiores, as mudanças enfrentadas pelo meio conduziram a uma série de novas experiências de gestão e programação. A Rádio Globo, por exemplo, criou um dos formatos mais bem-sucedidos, centrado na figura do comunicador: um verdadeiro mestre-de-cerimônias, com liberdade e capacidade de improvisação, além de forte empatia com os ouvintes. </li></ul><ul><li>Estas e outras inovações foram decisivas para que o rádio se preparasse para enfrentar os difíceis novos tempos que, na passagem dos anos 50 para os anos 60, trouxeram o declínio do modelo de programação centrado em música ao vivo e novelas, que havia sido a base do sucesso da Rádio Nacional. </li></ul>
  26. 26. <ul><li>2.7 TRANSFORMAÇÕES NO TEATRO </li></ul><ul><li>Assim como ocorria com o cinema, a renovação estética no teatro ligava-se não só à temática, mas também à forma de encenação. Com um despojamento semelhante ao do cinema, o novo espetáculo teatral se fazia sem cenários, num palco no centro da platéia, impondo maior entrosamento entre atores e público. A interpretação e a temática eram igualmente mais realistas. </li></ul><ul><li>A introdução desse tipo de experiência no Brasil coube ao Teatro de Arena de São Paulo, que foi criado em 1953 já com uma disposição cênica distinta da que se usava até então. A arena, com os atores no centro da sala e o público em redor, implicava não só uma redução do espaço físico teatral, mas também o menor custo dos cenários. Já em meados da década de 50, juntamente com o Teatro Paulista do Estudante, o Teatro de Arena passou a privilegiar a abordagem dos problemas sociais e políticos, num esforço de conscientização e de criação de um teatro popular, abolindo definitivamente a interpretação pomposa em prol da representação mais realista. Trazer para a cena a realidade brasileira, encenando textos da dramaturgia nacional, contrapunha-se ao que fazia o Teatro Brasileiro de Comédia, que produzia espetáculos caros com uma dramaturgia que não expressava os problemas nacionais, dirigida às classes média e alta da sociedade. </li></ul><ul><li>Romper com esta temática e a forma convencional de representação teatral foi também um dos objetivos do Grupo Oficina, formado em 1958 por universitários da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo. Apesar das propostas distintas que orientavam os dois grupos, tanto o Teatro de Arena quanto o Oficina, liderados respectivamente por Augusto Boal e José Celso Martinez Corrêa, desenvolveram suas experiências em sintonia com o teatro de vanguarda norte-americano e europeu e com a dramaturgia do alemão Bertold Brecht. </li></ul><ul><li>Ainda nesta mesma época, novos autores surgiriam na dramaturgia brasileira, voltados para uma temática nacional, como foi o caso de Oduvaldo Viana Filho (Vianinha) e Gianfrancesco Guarnieri. Entre as peças escritas e exibidas nessa época figuram as consagradas: Eles não usam black-tie , de Gianfrancesco Guarnieri; Chapetuba Futebol Clube , de Oduvaldo Viana Filho, e Revolução na América do Sul, de Augusto Boal. O desenvolvimento das questões colocadas por esses grupos e esses dramaturgos teve importantes e variados desdobramentos para o teatro brasileiro nas décadas seguintes, tanto no que dizia respeito à conscientização popular e ao esforço de atingir um público amplo, quanto à possibilidade de aprofundamento das questões de caráter estético </li></ul>
  27. 27. 3. A TELEVISÃO <ul><li>Em setembro de 1950 foi inaugurada a primeira emissora de TV, a TV Tupi, em São Paulo, a partir daí o país tornava-se o primeiro do continente e o quarto do planeta a possuir o meio de comunicação que em pouco tempo transformaria toda a vida em sociedade. Em seguida à Tupi surgiram a TV Paulista, a TV Record, a TV Cultura e, já ao final da década, a TV Excelsior, em São Paulo. Em 1951 era inaugurada a TV Tupi, no Rio, e anos mais tarde as TVs Rio e Continental. </li></ul><ul><li>No início, é claro, a televisão ainda perdia para o cinema e para o rádio, diversões preferidas da maior parte da população, pois ela ainda engatinhava em suas gestões, tanto artística quanto administrativa. Com as limitações tecnológicas do período, a transmissão era feita sempre ao vivo, com o auxílio apenas de filmes, e o raio de difusão era limitado ao âmbito regional. Mesmo assim, quando Juscelino Kubitschek assumiu o governo em 1956, algumas das primeiras mudanças trazidas pelo novo veículo já se faziam notar. Com o processo de industrialização do país, acelerado pelo novo governo, a televisão e o automóvel passariam a ser sinônimos de modernidade e progresso. </li></ul><ul><li>Naquele mesmo ano de 1956, televisão se expandia para além dos grandes centros, já que até então as transmissões alcançavam um raio de apenas 100 quilômetros. A primeira emissora a transmitir em rede foi a Record, de São Paulo. Ao mesmo tempo, iniciou-se a ascensão da TV ao topo do mercado publicitário brasileiro. Os potenciais da propaganda veiculados por este veículo foram rapidamente percebidos, e seu uso por políticos em campanha se tornou freqüente, o que acabou se refletindo, mais tarde, nas políticas de concessão dos canais e de regulação da nova ferramenta de debate. </li></ul>
  28. 28. <ul><li>Existiam cerca de 200 mil aparelhos de televisão no Brasil quando uma séria crise militar irrompeu no governo JK, em novembro de 1956, pelas declarações antigovernistas do general Juarez Távora que foram transmitidas pela TV Tupi, em desobediência a recomendações do então ministro da Guerra, o general Henrique Lott. Távora foi punido por seu pronunciamento. Em 1957, novas críticas à política do presidente Juscelino Kubitschek provocaram a censura ao programa Noite de Gala, da TV Rio. Em 1960, foi a vez de as eleições movimentarem politicamente a televisão. Carlos Lacerda utilizou intensamente a programação da TV Rio em favor da candidatura de Jânio Quadros à presidência da República, apoiada pela UDN. </li></ul><ul><li>Ao final da década deu-se a introdução de uma das maiores inovações tecnológicas da história do veículo. Em 1960, no programa Chico Anísio Show, da TV Rio, foram utilizados, pela primeira vez, os recursos do videoteipe na televisão brasileira. Outras emissoras logo se beneficiaram da novidade, descobrindo novos usos e aplicações. Os tempos da improvisação e das gafes folclóricas de garotas-propaganda começavam a ser superados. </li></ul><ul><li>A maturidade do novo veículo já indicava que grandes transformações viriam logo adiante. Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo puderam assistir, em abril do mesmo ano, à inauguração de Brasília, graças ao envio de gravações em videoteipe do evento. No fim da década - e do governo de Juscelino Kubitschek - o país tinha praticamente triplicado, em relação a 1956, o número de residências com de aparelhos de TV. Num curto espaço de tempo, passara-se de cerca de 34 mil residências com televisores, em 1954, a 598 mil em 1960. </li></ul>
  29. 29. 4. NOS TEMPOS DA BOSSA NOVA <ul><li>A década de 50 foi também marcada pelo aparecimento de uma geração de músicos e poetas que mudou definitivamente o estilo de nossa música popular: a Bossa Nova, que foi atacada pelos críticos mais ortodoxos como mera influência do jazz em nossa música. Nada mais retrógrado e fora da realidade, porque, se alguma influência houve, ela se deu no sentido contrário, com os maiores músicos americanos prestando homenagens sem conta à Bossa Nova. É só lembrar as gravações de Frank Sinatra com Antonio Carlos Jobim, as do saxofonista Stan Getz, as de Ella Fitzgerald, assim como as de Sarah Vaughan. Como sempre, o “novo” causa embaraço e temor ao “estabelecido”, e a Bossa Nova chegou para sepultar um jeito excessivamente romântico e europeizado que cobria de mofo parte da riqueza de nossa música. </li></ul><ul><li>Como vimos anteriormente, a Bossa Nova surgia em uma circunstância muito especial da história do Brasil, que redemocratizado após o fim da Segunda Guerra Mundial, começava a se encontrar com seu destino. </li></ul><ul><li>Há quem considere decisivo o surgimento de um baiano chamado João Gilberto, que com seu jeito “diferente” de cantar e tocar violão subverteu a máxima que garantia que “bom cantor, tinha que ter vozeirão”. João chegou de mansinho (não fosse baiano...) com um repertório que incluía músicas novas e releituras de antigos sucessos da MPB. E o seu primeiro disco, “Chega de Saudade”, gravado e lançado em 1959, tornou-se a primeira pilastra do monumento nacional chamado de Bossa Nova. Na verdade, a Bossa Nova não chegou para relegar ao passado a nossa memória musical. Muito ao contrário, revigorou o samba urbano, trazendo um acento diferente que encantou o mundo. </li></ul>
  30. 30. <ul><li>Pode-se dizer que, apesar de o Papa da Bossa Nova ser baiano, ela surgiu na Zona Sul do Rio de Janeiro, num perímetro que ia de Copacabana a Ipanema. É que ali vivia uma geração de Jovens extremamente talentosos: Tom Jobim, Roberto Menescal, Carlos Lyra, Nara Leão, Vinicius de Moraes, Ronaldo Boscoli e muitos outros. Reunidos em apartamentos em Copacabana como dos pais de Nara, ou do poeta e compositor Osvaldo Santiago (parceiro de Braguinha), eles iam trocando figurinhas, namoros, harmonias, melodias, letras de música... Jobim, o mais profissionalizado de todos, já que vivia de tocar na noite e dos arranjos que começava a escrever, viria a se tornar um ícone da Música Popular Brasileira, seja nas suas parcerias com Newton Mendonça ou com Vinícius de Moraes. Se bem que uma de suas canções mais conhecidas (ao lado de “Garota de Ipanema”, feita em parceria com Vinícius), e que é considerada a música brasileira de maior número de gravações e execuções em todo o mundo, foi feita sem parceiros: a maravilhosa “Águas de Março”, que em dueto com Elis Regina, até hoje certamente ainda encanta desde o mais simples ouvinte até os anjos no Paraíso. </li></ul><ul><li>O que havia de realmente diferente naquela nova música que surgia era o fato de que seus autores não vinham dos morros, como os sambistas tradicionais, ou das camadas mais desfavorecidos do tecido social brasileiro. Quase todos nasceram em ambientes de classe média ou alta, o que lhes proporcionou uma educação mais ampla. Puderam estudar música de forma sistemática, e em suas vitrolas rodavam, além dos discos de música brasileira, os grandes compositores americanos como George Gershwin, Richard Rodgers e Cole Porter, tendo sido influenciados por eles no que se refere ao apuro técnico, aos arranjos e à qualidade das gravações. </li></ul>
  31. 31. <ul><li>Este “berço dourado” foi o responsável por muitos dos ataques desferidos à Bossa Nova por aqueles estudiosos e críticos mais severos. Para eles, só a música vinda do “povo” poderia ser rotulada de “verdadeiramente brasileira”. Se estes acertavam no alvo ao apontar o samba, o choro, o baião e alguns outros ritmos como os verdadeiros produtos de nossa cultura, erravam feio ao discriminar a Bossa Nova por não ter ela nascido em favelas, mocambos ou mangues. Havia algo de errado no reino da sociologia da música, e o tempo se encarregaria de mostrar quem estava com a razão... </li></ul><ul><li>É preciso destacar também o estupendo avanço na tecnologia de gravação – microfones mais sensíveis, a construção de estúdios de primeira qualidade, a passagem do HI-FI (alta fidelidade) para o sistema estéreo, o surgimento do LP, aposentando definitivamente as pesadas “bolachas” de 78 rotações por minuto. Não era mais preciso ter voz de tenor (como Francisco Alves) para tocar o coração do público. Bem é verdade que alguns poucos artistas, como Mário Reis e Dick Farney já haviam mostrado o caminho da suavidade, mas eram ambos figuras isoladas em um cenário onde o “dó de peito” dominava. </li></ul>
  32. 32. <ul><li>Aliás, a revolução da Bossa Nova foi também determinante na transformação das cantoras brasileiras. Antes, elas se dividiam em “carnavalescas” (Carmem Miranda, Linda e Dircinha Batista) e trágicas (Elizeth Cardoso, Maysa e até Claudete Soares, que mais tarde se “Bossanovizou” como diziam na época). A partir daí, a interpretação passou a marcar presença de modo muito mais suave. Exemplo claro é o de Nara Leão, que de tanto ouvir música em casa acabou por se tornar a musa da Bossa Nova. </li></ul><ul><li>Com seu fio de voz Nara conquistou uma legião de admiradores dentro e fora do círculo musical, tornando-se uma típica cantora da Bossa Nova e marcando, definitivamente, o seu lugar na história de nossa música popular. É só ouvir com atenção as faixas com Nara (“Esse seu Olhar”, “Outra Vez”, “Wave”, “Samba de Uma Nota Só”). É bom destacar que esta última faixa é bem um retrato da arquitetura musical da Bossa Nova - uma linha melódica muito simples, quase de “uma nota só” mesmo, que balança marota sobre uma harmonia com poucos, mas bem escolhidos acordes. </li></ul><ul><li>Duas artistas que também deram sua contribuição foram Sylvia e Cláudia Telles, com “Discussão” e “Ilusão à Toa”. Outro fio de voz que também podemos citar é o de Astrud Gilberto, que foi casada com João Gilberto e mais tarde com o saxofonista americano Stan Getz. Astrud foi uma das responsáveis pela difusão da Bossa Nova nos Estados Unidos, e pode ser ouvida nesta viagem sonora em “Só Tinha que Ser com Você”. </li></ul><ul><li>Elis Regina também não resistiu aos encantos da Bossa Nova, tendo gravado muitas faixas solo ou com Tom Jobim. Se havia alguma dúvida quanto ao “pedigree” da Bossa Nova, já que as suas musas não eram verdadeiras “divas vocais”, elas se dissiparam a partir do momento em que Elis gravou Tom, Carlos Lyra e muitos outros. </li></ul>
  33. 33. <ul><li>Também foi a Bossa Nova a responsável pelo incremento dos grupos vocais em nossa música. Não é que não existissem antes, como atesta a presença marcante dos paulistas Demônios da Garoa, muito vinculados à obra do grande Adoniran Barbosa, ou os Namorados (mais tarde “Garotos”) da Lua. Mas é que as vozes passaram a ser tratadas como instrumentos, com harmonias mais complexas em vez de uníssonos ou no máximo acordes em terças (maiores ou menores). Com o estudo da harmonia se tornando comum entre os jovens músicos, certamente a tessitura vocal só teria a ganhar. Data do começo dos anos 60 o surgimento de dois grupos que até hoje se mantém fiéis à sua origem: os rapazes do MPB-4 e as meninas do Quarteto em Cy. Acompanhando cantores e compositores em festivais ou em shows solo, estes dois grupos marcaram presença ao longo de décadas de boa música, irreverência e resistência cultural quando as nuvens pesadas da censura escureceram os horizontes culturais brasileiros, a partir de 1968. O Quarteto em Cy gravou “Soneto do Amor Total”, “Imagem”, “Canto de Ossanha” e “Chega de Saudade”, dentre outras com versos de Vinicius de Moraes, um “mulherólogo” diplomado, que ao longo de seus diversos casamentos tratou de criar “receitas para o amor eterno”... Enquanto este durasse, é claro. Então, nada melhor do que quatro mulheres para interpretá-las! </li></ul><ul><li>É bom que se citem Os Cariocas, um verdadeiro combinado de vozes e instrumentos, em eternas disputas com o mítico Tamba Trio. Já o MPB-4 sempre foi combativo na escolha de seu repertório e na temática de seus shows. Certamente os quatro rapazes também cantaram as dores e alegrias do amor, mas estavam sempre conectados com a realidade social do país, como estavam, aliás, muitos dos jovens daquela época. </li></ul><ul><li>Outro grande nome de nossa música: Edu Lobo, filho do jornalista e compositor Fernando Lobo (autor do livro “Na Mesa do Vilarinho”, fundamental para quem quer saber mais sobre a nossa música, além de sucessos como “Nega Maluca”), não é o que se pode chamar de “Bossanovista”, por natureza, mas era - e é – certamente, um passo adiante na evolução de nossa arte maior. </li></ul>
  34. 34. <ul><li>Sua matéria-prima básica era a música que ouviu na Recife de seus pais, mas com um novo sentimento. Aos vinte e poucos anos, já era considerado um gênio por canções como “Arrastão”, ganhando festivais sem conta e emocionando as platéias com seu jeito tímido e rosto de bom moço. Por trás daquela imagem, um músico talentosíssimo, exigente e rigoroso em seu trabalho, que até hoje reluz na música brasileira. </li></ul><ul><li>Assim como os cantores e os compositores, também os músicos brasileiros absorveram com ardor as lições da Bossa Nova. Grandes instrumentistas sedimentaram sua carreira e criaram uma escola bem brasileira de tocar e arranjar. Durante o período dos grandes programas de música ao vivo na TV Brasileira, a “batalha” entre os grupos instrumentais a cada dia se sofisticava mais. E tanto o Rio de Janeiro quanto São Paulo abrigaram verdadeiros “templos” de música. Tamba Trio, Jongo Trio, Bossa Três, Copa cinco, o grupo de Sérgio Mendes, todos verdadeiros escretes a serviço da música. </li></ul><ul><li>Também aí se vê outra dramática mudança provocada pela Bossa nova. Em décadas anteriores, os solistas eram as figuras de frente das formações: Waldir Azevedo, Pixinguinha, Jacob do bandolim e muitos outros. Mas a nova música destacava a seção rítmica dos grupos, geralmente formado por piano, bateria e baixo. Esta foi a verdadeira base da Bossa Nova em disco e shows ao vivo, e o nome de Luiz Eça, do Tamba Trio, é um dos que brilham mais forte. Eça fez arranjos para um sem-número de shows e discos, além dos próprios. </li></ul><ul><li>Sérgio Mendes é um dos mais bem-sucedidos músicos brasileiros no exterior. Seus discos sempre estiveram nas paradas de sucesso e ele deve muito à Bossa Nova – e ela a ele... Com o Bossa Rio, o Brasil 66 e outras formações, Sérgio foi um dos artistas que solidificaram este jeito brasileiro de fazer música. </li></ul><ul><li>Não há dúvidas de que os fabricantes de violão foram muito beneficiados pela Bossa Nova. Mais prático que o pesado acordeão e mais simples de tocar que o vetusto piano, rapidamente o violão perdeu a aura de “instrumento de malandro” e subiu na escala social. Se João Gilberto já emprestara um ar moderno ao “pinho”, a revalorização deste tradicional instrumento se deu pelas mãos de um grande artista, Baden Powell, que faz em seis cordas a música de muitos instrumentos. </li></ul>
  35. 35. <ul><li>Além de João Gilberto, famoso pelo talento e algumas excentricidades, há ainda outras “figurinhas carimbadas”, como por exemplo João Donato. Considerado um dos mais criativos músicos brasileiros de todos os tempos, Donato também coleciona uma obra avara, mas muito bem construída. Um exemplo é “A Rã”, que recebeu letra de Caetano Veloso muitos anos depois de composta e foi gravada por Gal Costa. </li></ul><ul><li>Com tudo isso, há que se perguntar, se alguém ainda duvida da força da Bossa Nova. </li></ul><ul><li>Bem, há sempre os saudosistas, que apostam todas suas fichas na força de uma tradição imutável e esterilizada. </li></ul><ul><li>Mesmo entre os artistas de outras linhas da MPB, como os tropicalistas Caetano Veloso e Gilberto Gil, a Bossa Nova é uma unanimidade. Caetano sempre destacou a importância de João Gilberto e Tom Jobim e outros em sua vida artística. Gil, um artista de amplo espectro musical, compôs algumas músicas calcadas na Bossa Nova, e também presta reverência a este movimento artístico. Para não falar os roqueiros, como Lobão e Cazuza, que também escutaram os discos básicos da Bossa Nova, mesmo sendo adeptos das guitarras elétricas, do rock e do blues. </li></ul><ul><li>As muitas homenagens prestadas em incontáveis festivais internacionais, as gravações de famosos instrumentistas, a reverência dos críticos diante do “Brazilian Beat” são provas mais que suficientes de que a Bossa Nova, Brasileira de alma e coração, tem um espírito universal que toca aos amantes da boa música de qualquer quadrante do planeta. Exagero? </li></ul><ul><li>Pois bem,o mais novo mercado da Bossa Nova é o Japão, onde o público a venera de forma tão intensa que artistas japoneses estão gravando discos com os temas mais importantes até mesmo em japonês! </li></ul><ul><li>É claro que a riqueza musical brasileira tem ainda tesouros imensos para serem explorados, mas a Bossa Nova brilha no lábaro estrelado para sempre, e será sempre uma referência fundamental para quem quiser saber quando e como foi que a nossa música rompeu as barreiras da língua e dos mercados estrangeiros, para ser aceita universalmente como uma das mais belas expressões do jeitinho brasileiro de ser. </li></ul>
  36. 36. <ul><li>4.1 A BOSSA NOVA DURANTE A DITADURA </li></ul><ul><li>Os tempos subseqüentes ao surgimento da Bossa Nova foram muito conturbados por questões políticas e sociais. O Brasil, que com a Revolução de 1964 passou a ter os militares no poder, caminhava rapidamente para uma confrontação à qual a arte não poderia furtar-se. Os artistas ditos “engajados” preferiam cantar as gritantes diferenças sociais que estavam à vista de todos, e rejeitavam como “alienada” a produção que apontava suas lentes em outras direções. Sérgio Ricardo, Geraldo Vandré, Téo de Barros e muitos outros enveredaram por aquele caminho, mas os letristas da Bossa Nova preferiam “pintar” paisagens impressionistas em sua poesia. </li></ul><ul><li>Sob esta ótica, exemplar é “Desafinado”, de Tom Jobim e Newton Mendonça, um dos melhores momentos de João Gilberto. Mais que pintores ou desenhistas, Jobim e Mendonça focalizaram com rara precisão os novos tempos na música brasileira: “Fotografei você com a minha Rolleyflex/ revelou-se a sua enorme gratidão...”. Se era moderno no começo dos anos 60, hoje é eterno. É a poesia captando a fluidez do tempo que uma simples foto tenta estancar. </li></ul><ul><li>A disputa entre “engajados” e “alienados” terminou com a interferência de uma terceira parte - a censura. Com vários de seus maiores nomes no exílio (ou na prisão). Os “engajados” perderam força e foram obrigados a se utilizar cada vez mais de metáforas, o que contribuiu em muito para que as suas obras se distanciassem do grande público. Hoje, passadas três décadas daqueles tristes dias, já se percebe uma terceira via: eles não eram opostos, mas complementares. Os brados de alerta dos mais politizados tinham sua razão de ser, mas não eram menos importantes as canções dos artistas mais poéticos. Afinal, já disse alguém, uma verdadeira revolução se faz com palavras de ordem numa das mãos e um livro de poesia na outra... </li></ul>
  37. 37. <ul><li>Se tal afirmação é realmente verdadeira, está na hora de falar de Carlos Lyra, que mixava à perfeição as duas personas, o poeta e o político. Lyra foi um dos fundadores do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes, sempre atuando em prol de uma conscientização maior dos brasileiros. Seus discos traziam pérolas românticas e suaves como o pout-pourri de uma super-balançante Leila Pinheiro. Mas a face política também não sossegava – compôs com Chico de Assis a panfletária “Canção do Subdesenvolvido”. Com o Golpe Militar de 64, Lyra optou por sair do país. Gravou discos no México e tocou nos Estados Unidos com Stan Getz, e lá fora pôde reconciliar-se com a Bossa Nova. </li></ul><ul><li>Uma época especialmente conturbada da história brasileira, o Regime Militar, começou com o Golpe que depôs o presidente João Goulart, em 1964, e foi encerrada - de forma pacífica - com a eleição indireta de Tancredo Neves e a posse de José Sarney como Presidente da República, em 1985. Nos primeiros anos do governo militar, a economia prosperou e obras faraônicas começaram a serem feitas - como a Ponte Rio- Niterói e a Rodovia Transamazônica. O crescimento econômico e o sentimento de anticomunismo, em plena Guerra Fria, foram dois alicerces importantes para os generais. </li></ul><ul><li>A face mais negra dessa história foi a restrição às liberdades individuais, intensificada principalmente a partir da aprovação do Ato Institucional número 5, de 1968, que aumentou os poderes do Presidente. Nesta época, intensificou-se a repressão e a perseguição aos opositores do regime. Muitos intelectuais e artistas foram exilados, e boa parte da classe artística se engajou contra o regime e deu a cara a tapa. Notadamente, foi um dos períodos mais férteis e turbulentos da nossa música popular. </li></ul><ul><li>A Bossa Nova ficou marcada como a trilha sonora do governo democrático de Juscelino Kubitschek. O Brasil ia bem, o sentimento de confiança era generalizado. Os principais temas das letras das canções - revolucionárias musicalmente - eram o amor, o sorriso e a flor. Com os novos tempos, eram necessários conteúdos mais agressivos, politizados. Era o início da época dos grandes Festivais da Música, grande atração da TV, que crescia como nunca, ocupando o lugar do rádio como principal meio de comunicação popular. Os festivais eram uma febre e revelaram artistas como Edu Lobo, Caetano Veloso, Elis Regina e Jorge Benjor (na época Jorge Ben), além de Chico Buarque de Hollanda, que conseguiu como poucos fazer oposição ao regime de forma inteligente, com letras que permitiam várias interpretações e enganavam os censores da época. Mesmo assim, teve que assinar algumas músicas sob o pseudônimo Julinho de Adelaide. </li></ul>
  38. 38. <ul><li>A TV Record serviu de cenário para movimentos artísticos fundamentais da nossa música. A MPB engajada, representada por figuras emblemáticas como Geraldo Vandré (autor da clássica &quot;Pra não dizer que não falei das flores&quot;), fazia oposição também ao grupo da Jovem Guarda, liderado por Roberto Carlos, o “tremendão” Erasmo e a “ternurinha” Vanderléia. O programa do Rei era a grande audiência da época (ele recorda o período na canção &quot;Jovens Tardes de Domingo&quot;). As letras eram completamente desvinculadas da realidade nacional. O radicalismo tomou conta também deste meio. Compositores que não abordavam temas &quot;contra o sistema&quot; acabavam sofrendo represálias de companheiros de profissão. Até o momento em que surgiu um pessoal que botou mais lenha na fogueira e virou tudo de cabeça pra baixo: os Tropicalistas. </li></ul><ul><li>Caetano Veloso, Mutantes (grupo que revelou Rita Lee), Gilberto Gil, Nara Leão (que havia sido uma das musas da bossa) e Tom Zé faziam parte do histórico CD &quot;Tropicália Ou Panis Et Circencis&quot;. O movimento misturou num mesmo caldeirão muitas influências e estilos, e defendia uma única bandeira, acima de tudo: a liberdade de expressão. Para bom entendedor, um recado claro: a favor da liberdade e contra o policiamento, tanto o político da Ditadura como o estético da &quot;linha dura&quot; da MPB. Foi um dos momentos mais criativos da nossa história musical. </li></ul>
  39. 39. 5. TOM JOBIM - UM CAPÍTULO À PARTE <ul><li>Compositor, arranjador e maestro, Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1927. Começou a estudar piano aos 14 anos com o alemão Hans Koellreutter, introdutor da música dodecafônica no Brasil. Enquanto completava seus estudos, foi pianista em casas noturnas do bairro de Copacabana. Destacou-se com a composição &quot;Teresa da Praia&quot; (1954), em parceria com Billy Blanco, e dois anos depois criou canções para a peça Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes. </li></ul><ul><li>Suas primeiras composições, com letra do mesmo poeta Vinícius, integram o disco Canção do Amor Demais (1958), de Elizeth Cardoso, considerado como o marco inicial da Bossa Nova. Em 1962 participou do Festival de Bossa Nova no Carnegie Hall de Nova York. Em 1963 compôs a música &quot;Garota de Ipanema&quot; com letra do parceiro Vinicius, que veio a se tornar uma das canções mais conhecidas e gravadas em todo o mundo. Em 1967, gravou o disco Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim. Nos Estados Unidos, trabalhou com músicos e intérpretes como Stan Getz, Ella Fitzgerald, Andy Williams e Nelson Riddle. </li></ul><ul><li>Considerado um dos principais compositores brasileiros de todos os tempos, reconhecido internacionalmente, é autor de clássicos da música popular brasileira, como &quot;Desafinado&quot; e &quot;Samba de uma Nota Só&quot;, com letras de Newton Mendonça, &quot;Corcovado&quot;, &quot;Sabiá&quot; e &quot;Retrato em Branco e Preto&quot;, com letras de Chico Buarque de Holanda e &quot;Águas de Março&quot;, entre outros. Faleceu em 1994. </li></ul>
  40. 40. 6. CONCLUSÃO <ul><li> Após este raios-X feito durante as décadas de 50 e 60, um misto de nostalgia e orgulho deste Brasil aqui retratado, faz com que a esperança de dias melhores não seja uma vã utopia. </li></ul><ul><li>A época de ouro desses anos passados são como uma injeção de ânimo na alma aA nos lembrar que o potencial do povo brasileiro, em todas as esferas, permanece em algum lugar, ainda que aparentando estar adormecido, aguardando o momento de ser despertado e de ser utilizado a favor do desenvolvimento da nossa arte, cultura, economia e principalmente de nossa sociedade, basta que a nossa criatividade, aliada a uma grande vontade de progredir, como nos remete nossa bandeira, refloresça. </li></ul><ul><li>Realizando este trabalho me dei conta de um Brasil rico em arte, sensibilidade, criatividade e competência, porém perdido no emaranhado de sua própria história subdesenvolvida. Um país em permanente estado de ebulição artística, repleto de folclore, de alegrias e tristezas. </li></ul><ul><li>Espero que esta leitura faça aflore em todos o mesmo sentimento despertado em mim, que já havia esquecido do quão grandioso é este nosso passado recente, mas que apesar de tão próximo, já parece relegado a segundo plano, em um canto qualquer de nossas memórias. </li></ul>
  41. 41. 7. REFERÊNCIAS <ul><li>1. CD-ROM: Almanaque Abril. SP, Editora Abril, 1998; CD-Rom: Folha de S. Paulo, edição 99 </li></ul><ul><li>2. DONATO, João (músico, compositor). Entrevista. Revista Elle. Novembro de 2002. </li></ul><ul><li>3. FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS – Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil </li></ul><ul><li>4. FUNDAÇÃO OSCAR NIEMEYER </li></ul><ul><li>5. INSTITUTO ANTONIO CARLOS JOBIM – Jardim Botânico – Rio de Janeiro </li></ul><ul><li>6. INTERNET - Site Memorial JK - http://www.memorialjk.com.br/ </li></ul><ul><li>7. MENESCAL, Roberto. Depoimento de concedido à Reader´s Digest , no lançamento da coletânea em comemoração aos 40 anos de Bossa Nova em novembro de 1997. </li></ul><ul><li>8. INTERNET - O Brasil na Copa - 1950 - O Desastre do Maracanazo – </li></ul><ul><li>http://esporte.uol.com.br/ copa/2006/historia/1950/brasil.jhtm </li></ul>
  42. 42. BIBLIOGRAFIA <ul><li>1. CASTRO, Ruy. Chega de saudade. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. </li></ul><ul><li>2. CUNHA, Cínthia Mattos da. Monografia - Bossa Nova – Recordar é Viver. RJ, 2004. Monografia (Bacharelado em Comunicação Social – Jornalismo). Faculdades Integradas Hélio Alonso) </li></ul>
  43. 43. 8. ANEXOS <ul><li>8.1 CURIOSIDADES </li></ul><ul><li>Antes mesmo que o 78 rpm de “Chega de Saudade” invadisse as rádios – antes mesmo de ter saído o disco -, fitas domésticas, de rolo, contendo a voz e o violão de João Gilberto já circulavam pela Zona Sul. </li></ul><ul><li>A palavra “bossa” era usada pelos músicos para definir alguém que cantasse ou tocasse diferente. </li></ul><ul><li>A música “Desafinado” escrita por Newton Mendonça e Tom Jobim, que na época tocavam na noite do Rio de Janeiro, foi cruelmente inspirada na incompetência dos cantores da noite carioca, que às vezes eles tinham que acompanhar e a intenção era escrever um samba que parecesse uma defesa dos desafinados, mas tão complicado e cheio de alçapões dissonantes que, ao ser cantado por qualquer um deles, iria colocá-lo em apuros. </li></ul><ul><li>João Gilberto deixava aberta a porta do apartamento de Ronaldo Bôscoli e ia para o outro extremo do corredor, onde ficava o elevador. Ronaldo tinha de se colocar no extremo oposto, dentro do apartamento, para ficar o mais distante possível de João Gilberto e tentar ouvi-lo, enquanto este sussurrava o mais baixo que podia: “O pato. O pato.” </li></ul><ul><li>João Gilberto queria testar até quanto poderia enunciar bem baixinho e ainda assim ser ouvido, usando o corredor como uma espécie de megafone. E, com isto, aproveitava para ensaiar “O pato”. Os vizinhos de Ronaldo não eram obrigados a saber daquilo e, a princípio, estranharam aquele homem postado no fim do corredor dizendo: “O Pa-to. O Pa-to”. </li></ul><ul><li>Mas acabaram se acostumando. Quem demorou a se habituar foi o próprio Ronaldo, que chegou a comentar com seus três ou quatro companheiros de quarto e sala: “Se esse pato não for gravado logo, vai morrer de velhice.” </li></ul>
  44. 44. <ul><li>“ Samba de uma nota só”, assim como “Desafinado”, tornou-se desde o começo um hino da Bossa Nova – uma espécie de carta de princípios, que os musicólogos esmiuçaram com tanta profundidade que não se sabe como ela chegou a ser um sucesso popular. Nunca tão poucos compassos provocaram discussões tão longas. </li></ul><ul><li>Nos anos 60, a Brastemp criou a sua geladeira “Príncipe Bossa Nova”, que era “ maior por dentro e menor por fora”. A Westinghouse inventou a máquina de lavar a cores – o esmalte era a cores – e ela foi chamada de Bossa Nova. </li></ul><ul><li>Em 1962 Vinícius de Moraes e Baden Powell ficaram quase noventa dias trancados no apartamento de Vinícius, no Parque Guinle e, após o consumo de 20 caixas de whisky, saíram de lá com 25 canções prontas. Dentre elas, “Berimbau”, “Canto de Ossanha”, “Consolação” e etc. </li></ul><ul><li>Tom e Vinícius não fizeram “Garota de Ipanema” no Bar Veloso e que hoje se chama Garota de Ipanema. Tom compôs meticulosamente a melodia em sua nova casa, na Rua Barão da Torre e Vinícius escreveu a letra em Petrópolis, como havia feito com a “Chega de saudade”. Na verdade ele não nasceu se chamando “Garota de Ipanema” e sim “Menina que passa” – e toda a sua primeira parte era diferente. Era assim: Vinha cansado de tudo/ De tantos caminhos/ Tão sem poesia/ Tão sem passarinhos/ Com medo da vida/ Com medo do amor/ Quando na tarde vazia/ Tão linda no espaço/ Eu vi a menina/ Que vinha num passo/Cheia de balanço/ Caminho do mar. </li></ul><ul><li>Na noite do dia 21 de Novembro de 1962, a Bossa Nova subia ao palco do tradicional Carnegie Hall em Nova Iorque, quando o presidente da gravadora americana Áudio Fidelity, Sidney Frey, resolveu convidar Tom Jobim e João Gilberto para um show na Big Apple. Frey, que já havia estado no Brasil algumas vezes, passou um telegrama para a Divisão de Difusão Cultural do Itamaraty – cujo chefe era o conselheiro Mário Dias Costa - demonstrando seu interesse e pedindo o apoio do Governo Brasileiro. O concerto foi um sucesso absoluto e ninguém, nem mesmo o próprio Itamaraty, imaginaria que ele pudesse superar o sucesso do samba de Carmen Miranda, que chegara às telas de Hollywood nos anos 40. Cerca de três mil pessoas lotaram a sala e outras mil ficaram do lado de fora. </li></ul>
  45. 45. <ul><li>8.2. ENTREVISTA COM JOÃO DONATO * </li></ul><ul><li>Se perguntarem três nomes responsáveis pela Bossa Nova, além dos dois básicos, João Gilberto e Tom Jobim, o terceiro é certamente João Donato. O falecido Tom Jobim não se esquecia do amigo: em cima de seu piano havia uma foto de João Donato. João Gilberto também não - na verdade era mais fácil Donato esquecer de comparecer a um encontro com o amigo, na década de 50. Eles sentavam à beira da praia, no Rio de Janeiro, e ficavam falando mal da vida, questionando como aqueles &quot;quadrados&quot; faziam sucesso. </li></ul><ul><li>- Tínhamos as mesmas opiniões. Éramos jovens, não tínhamos muito que fazer, então ficávamos reclamando de tudo , lembra Donato . Era uma época em que a música era feita por pouquíssimos, em que o talento preponderava e as lojas de discos, como a antiga Murray, no Rio, trazia seis disquinhos compactos da mais nova sensação jazzística - que eram disputados a tapas. </li></ul><ul><li>O pianista, que agora mora em Brasília, além de ter doado um pouco de seu toque para a Bossa Nova em fase de gestação, mudou-se para os Estados Unidos no começo dos anos 60 e passou a tocar com os jazzistas locais em orquestras latinas, a grande sensação musical da época por aquelas bandas. Ficou conhecido por lá e as enciclopédias internacionais não esquecem disso. </li></ul><ul><li>Hoje, Donato é uma pessoa mais do que qualificada para falar sobre a qualidade da MPB. Existe uma pobreza muito grande. Falta um Tom Jobim. É como no futebol, parece que a época de ouro foi nos anos 60, 70. Isso acabou. Aí depois já tinha virado outra coisa. Com a Jovem Guarda e a Tropicália tudo ficou meio sem colorido. Só modismo passageiro. Nada ficou , relata, afirmando que música no sentido &quot;arte&quot; da coisa só mesmo Aquarela do Brasil, de Ari Barroso. </li></ul><ul><li>Nessa época a Bossa Nova não era páreo para a música latina? </li></ul><ul><li>JD: Os americanos anunciaram a bossa nova como uma nova modalidade da música, como sendo a &quot;música de hoje&quot;. Com o dixieland, suingue, bebop, rock e essa seqüência de estilos, foi uma benção, segundo os músicos de jazz, o surgimento da bossa nova. Porque o rock não oferecia muita riqueza de improvisação, era rústico, primário, primitivo. A bossa nova dava espaço para improvisações. Os americanos ficaram muito felizes com a influência da música brasileira no jazz. E ficou para sempre como uma forma delicada de se tocar uma música universal. </li></ul>
  46. 46. <ul><li>Você sente saudades dessa época? </li></ul><ul><li>JD: Sinto saudade. Mas é uma lembrança prazerosa. E tem muito a ver com o meu tempo da juventude. Foi dos meus 25 aos 38 anos. . </li></ul><ul><li>Você acha que a MPB hoje está musicalmente mais pobre, no sentido de composição, harmonia, melodias? </li></ul><ul><li>JD: Acho sim. Existe uma pobreza muito grande. Falta um Tom Jobim. Ele faz uma falta irreparável. É como no futebol, parece que a época de ouro foi nos anos 60, 70. Isso acabou. Aí depois já tinha virado outra coisa. Com a Jovem Guarda e a Tropicália tudo ficou meio sem colorido. Só modismo passageiro. Nada ficou. A coisa que ficou mesmo foi a Bossa Nova, que vai existir para sempre. Virou sinônimo de música bonita, agradável aos ouvidos, feita com letras de poetas. Não existia nenhuma revolta, um movimento agressivo. Não se tinha de dar tantas explicações para a música. A bossa nova era a música do amor, se auto-explicava. Era puramente música. </li></ul><ul><li>Você acha que com o fim da ditadura, Caetano, Gil, Chico e outros perderam um pouco do incentivo criativo, e que agora é que seria a hora deles mostrarem suas músicas? </li></ul><ul><li>Quem dos novos compositores atuais você admira, acha bacana e inovador musicalmente? </li></ul><ul><li>JD: Não gosto de nenhum compositor novo, depois do Tom Jobim ficou difícil. Eu me acostumei com o jazz. Só consigo pensar em Tom Jobim, Johnny Alf, João Gilberto. Por enquanto não fui surpreendido por nenhuma música atraente, que reúna melodia, harmonia e ritmo. Hoje qualquer um faz música, o problema é esse. Para mim a coisa parou aí. Mas não podemos mudar a época que nascemos. Nascemos nesse momento, e na verdade não existem culpados para isso tudo. Se música dá dinheiro, ninguém é culpado disso. Solução não tem, falta é material humano. Falta mais Rádio Nacional, Rádio Câmara. Você liga o rádio e ouve essa mesma bobagem repetidamente. Se você tocar a Xuxa dez vezes as pessoas vão começar a gostar, aprovar e consumir. É a repetição, coisa do subconsciente. Assim até eu e o mérito é de ninguém. Mas não dá para ser Don Quixote e lutar contra os moinhos. O negócio é deixar o barco correr e fazer sua parte. O banal é o mais fácil de ser feito. </li></ul>
  47. 47. <ul><li>Você falou no Tom Jobim. Tem uma história de que ele tinha uma foto sua em cima do piano dele, é verdade? </li></ul><ul><li>JD: Sim. Uma vez eu e ele tocamos juntos no Canecão e tiraram uma fotografia. E era essa que ele tinha lá. Quando fui até a casa dele, Tom me disse: &quot;Ó, tá vendo o quanto gosto de você?&quot;, e apontou para a foto em cima do Steinway dele. Ele tinha dois pianos de cauda em casa. </li></ul><ul><li>Você e o João Gilberto costumam se encontrar, se falar ao telefone? Nunca pensaram em um projeto recente juntos de gravação? </li></ul><ul><li>JD: Nos falávamos muito aos 18, 20 anos. Desde o primeiro dia. Agora com mais raridade. Meu relacionamento com ele era como era com o Tom Jobim. Hoje temos outras atividades. Aos 18 não tínhamos nada para fazer, éramos mais vagabundos, dava para se encontrar diariamente para não fazer nada. A vida mudou. Surgiram compromissos. Mas nos falamos. </li></ul><ul><li>E um projeto juntos? </li></ul><ul><li>JD: É, quem sabe? Mas precisa da vontade dos dois, ao mesmo tempo. Se acharmos que é isso que queremos fazer, um dia sai. O Nélson Motta disse que seria um dos discos mais significativos da MPB. Falta absorver a idéia. Mas por mim tudo bem. Vamos ver se um dia acontece. </li></ul><ul><li>Tem uma história de que quando você tocava acordeão no Copacabana Palace, na década de 50, o João ficava esperando seus intervalos na beira do mar para conversarem. </li></ul><ul><li>JD: O João não tinha nada o que fazer, não trabalhava à noite, e ele sentia que faltava com quem conversar. Era essa a questão. Conversávamos sobre tudo, &quot;por que a música estava assim?&quot;, &quot;por que só os quadrados e os bregas davam certo?&quot;, &quot;por que o sucesso era todo voltado para coisas tão banais?&quot;, &quot;por que as pessoas são tão burras?&quot;, &quot;por que as pessoas rasgavam as roupas dos artistas&quot;, &quot;por que se tem de gritar para ser cantor?&quot;. Isso até que um dia chegou a vez dele. Ele virou o cantor venerado por todos. Mas nos encontrávamos para falar mal das coisas, da vida. Reclamávamos bastante. Tínhamos as mesmas opiniões. Tinha ocasiões que entrava o Tom também. Dividíamos as mesmas insatisfações. Esse grupinho tornou-se o início de tudo, da bossa nova. Pegaram o Vinicius de Moraes para fazer letras e começaram a fazer um tipo de música que atingiu o mundo todo. </li></ul>
  48. 48. <ul><li>Queria saber sua teoria para o inventor da batida da Bossa Nova. </li></ul><ul><li>JD: Bom, tem muitas histórias. Tem a de que ele tirou do ritmo de meu acordeão. Tem a parte do João. Mas foi a coordenação de todo mundo junto. Ninguém inventou nada sozinho. Não foi Santos Dumont que inventou o avião. Ele foi um deles. Não dá para dizer &quot;eu inventei&quot;. Você de uma conversa com um amigo sai pensando metade das coisas dele como se fossem suas. É um absurdo o quanto isso acontece. Tem duas músicas que duas pessoas dizem que são delas e na verdade são minhas. </li></ul><ul><li>Quais são? </li></ul><ul><li>JD: Ah, uma do João Gilberto e outra do Caetano Veloso. Coisa que eu acabei de mostrar e tempos depois a pessoa aparece com a música dizendo que é dela. No caso do Caetano fui a um show dele e no camarim disse que a tal música era minha. Ele parou, pensou e disse: &quot;Não é que é mesmo?&quot;. E aí no palco confessou a coisa para mais de mil pessoas e todo mundo riu, bateu palmas. É aquela música que fala &quot;Você já tá pra lá de Marrakesh&quot; (Qualquer Coisa). A do João é a Undiú. Ele diz que é dele. Mas não somos parceiros na música (risos). Mas não fizeram isso por maldade, não. Acontece. Eu mesmo já devo ter feito isso. </li></ul><ul><li>O que acha do Quincy Jones ter dito na biografia dele que quem criou a Bossa Nova foi Dizzy Gillespie? Muitos músicos já debocharam a valer desse comentário dele. </li></ul><ul><li>JD: Conheci o Quincy Jones quando ele esteve no Brasil justamente nessa época, com o Dizzy Gillespie. É sempre mais fácil manter o relacionamento quando nos encontramos em épocas assim. Ele ficou de gravar uma música minha, Aquarius. Entreguei a partitura e tudo, mas até agora não vi nada. Sobre o comentário dele vai ver que era uma questão pessoal, coisa de camaradagem com o Dizzy. Não vai ser isso que vai mudar a procedência da Bossa Nova, que foi feita por essa turma: Jobim, Johnny Alf, Donato, Newton Mendonça... </li></ul><ul><li>Na verdade o jazz tem uma ligação muito forte com a Bossa Nova. A Bossa Nova é o jazz com uma cor mais alegre, esperançosa, não? </li></ul><ul><li>JD: Sim, é só tirar a parte do blues, da reclamação. Tira essa parte e vira a mesma coisa. E o jazz tem muito a coisa do improviso. </li></ul><ul><li>Por que não foi ao histórico show da bossa nova no Carnegie Hall, em 1962? </li></ul><ul><li>JD: Convidarem-me na véspera. Eu disse: &quot;Perá aí. Aqui não é a casa da mãe Joana. Se me avisassem com uma semana de antecedência&quot;. Eu teria de organizar tudo em cima da hora, arranjar babysitter para minha filha que estava com um ano. Eu já morava lá, desde 1959. O João Gilberto me ligou e disse para eu ir para o aeroporto que tinha uma passagem me esperando. Não dava. E eles pensaram muito antes de fazer o show em Nova York. Como eu não estava incluído, não fui. Eles podiam ter lembrado. Era só um telegrama, dar um telefonema dizendo &quot;queremos o João Donato&quot;. Faltou me incluírem na lista mesmo. Entrou o lado político também. Segundo alguns, eu não deveria ter recusado o convite, deveria ter largado tudo e comparecido. </li></ul><ul><li>Você se arrependeu? </li></ul><ul><li>JD: Claro que não (diz, enfático). Não me arrependi. Talvez tenha demorado um pouco mais para minha carreira subir, pois dizem que aquele show foi um marco divisor e todos que participaram dele fizeram sucesso a partir dali. </li></ul><ul><li>Entrevista concedida a Ricardo Ivanov (Revista Elle - Novembro de 2002) </li></ul>
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