Marcelo rubens paiva   estadão - 2014 maio 17
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Marcelo rubens paiva   estadão - 2014 maio 17 Marcelo rubens paiva estadão - 2014 maio 17 Document Transcript

  • %HermesFileInfo:C-10:20140517: C10 Caderno 2 SÁBADO, 17 DE MAIO DE 2014 O ESTADO DE S. PAULO Veja o ensaio e ouça a música inédita do Ira! estadao.com.br/e/ira! Música I nvejo quem não tem celular. Existem e são admiráveis. São poucos. Estão em extinção. Quando precisam falar com al- guém, ligam de um fixo. Admiro pessoasque ligamdofixo.São eco- nômicas. Sem contar que a ligação é clara e não cai. Invejo quem não tem carro, nem cartaoucarteira demotorista. Vai a lugaresapé,usa“condução”oubici- cleta, e volta de carona ouracha um táxi.Nuncasoprounumbafômetro. Nãoestãoemextinção.Negamare- volução industrial. São pessoas mais econômicas e descomplica- das. Talvez por isso, mais felizes. E invejo quem não está no Face, Twitter, Insta, Linkedin, G+, What- sApp, em lugar nenhum: o que não existe virtualmente, nunca “teve” Orkut nem sabe o que é o extinto MSN. São seres analógicos, mais evoluídos do que a maioria. Cami- nham, olham o nada ou algo sem a urgência de um registro fotográfico ou um comentário, uma curtida, uma postagem. Mandam cartas e cartões-postais escritos à mão. Ne- gam a revolução tecnológica. Estão no topo da linha evolutiva. Sim,existegentequenãosecomu- nica, nem curte, nem posta. Não criti- ca, nem milita, nem lamenta a morte de um ídolo para amigos, conhecidos, seguidoresdesconhecidoseamigosde amigos.Nãoseindigna,nãoserevolta, não se mostra. Não mostra seus gatos, seuspratos,suamãenodiadelas.Nem relatasuasviagens.Nãopensa,nãoex- põe,não seexibe para centenasoumi- lhares de pessoas. Logo, não existe? Nem o pôr do sol retrata. Nem a lua temo seu momento. Oque diráde um nascer do sol? Existe? Sobre os guaranis-caiovás, o alie- nado analógico não emitiu opinião em público, nem militou contra a sua extinção. Rachel Sheherazade? Nem sabe quem é. Não entende por que algumas celebridades aparecem com cartaz escrito “bring back our girls”.Nãolamentaparamuitosaon- da delinchamentos,o descaso como dinheiro público, não cita Mahatma Gandhi, Caio Fernando Abreu, Nel- son Rodrigues, Cazuza, Verissimo, Renato Russo, Millôr. Ainda não anunciou sua nova posi- ção ideológica, nem em quem não vai votar, não elogiou a simplicidade de José Mujica, o presidente uruguaio, não se revoltou contra a perseguição a gays e garotas da banda Pussy Riot na Rússia, não riu das barbeiragens que eles, os russos, bêbados, praticam nas estradas,nemcomentouquenoRiode Janeiro se diz “bandalha”, não barbei- ragem, ou transgressão. Não postou fotos do carro sem per- missãonavagadedeficiente,doprefei- to de Londres indo de bike pro traba- lho, do primeiro-ministro do Reino Unido indo de metrô pro trabalho, do príncipe William flagrado na classe econômicacomoumplebeu.Nãoviuo comercial que todos devem ver, o ví- deo a que todos devem assistir, a foto que vai fazer as pessoas pensarem de outra maneira, fotos que vão mudar a vida, a rotina, a forma como trabalha- mos, do animalzinho que quer apenas ser amado, do outro que, em vez de devorar a presa, cuida dela. Nãosoubedacidade queDEVEvisi- tar,dolivroqueDEVEler,dofilmeque DEVEver,doclipequeTEMqueassis- tir, do hotel em que um conhecido fi- cou para ser invejado, da nova banda dequeTODOSestãofalando,dacrian- ça que surpreende e faz algo incrível e inesperado,queprovacomoexistein- teligência emquem menos se espera. Não leu sobre o alerta contra golpes praticados,atorcidaparaquenãoha- ja Copa, que algum repórter interna- cional falou (mal) de nós, sobre o complexo de vira-lata que temos, e que a unanimidade é burra. Nãoviuafotodeumaflorquedesa- brochou numa selva de pedras, a pia- da, a gostosa, a amiga fazendo biqui- nho, a amiga fazendo cara de sexy, a listadoquedifereoshomensdasmu- lheres, as últimas sobre maconha, as fotos da repressão policial brutal, de como era antigamente, o filme raro encontrado, bons exemplos feitos por pessoas altruístas, enquanto o acomodado só reclama, a denúncia contramaus-tratoscontraanimais,o poema, a charada, o superatleta que faz coisas com uma incrível habilida- de, voa sobre abismos, pedala sobre montanhas, a ilusão de ótica que faz bolinhas se moverem e que parece mágica,o pedidodeque“alguém tem que fazer alguma coisa”, as provas de que houve a realização de um sonho, o astro com uma banana na mão. Nem descobriu que alguns amigos têm opiniões aterradoras. Pensar que há dez anos não exis- tiam redes sociais. Há 20, a internet não era regulamentada, nem existia o consórcio W3C (World Wide Web Consortium). Há 30, não tinha celu- lar nem computador pessoal no Brasil. A maioria não tinha telefo- ne nem máquina fotográfica. E éramos bem informados e edu- cados. Militávamos contra a possí- velextinçãodeumanaçãoindígena, protestávamos contra linchamen- toseodescasocomodinheiropúbli- co, líamos Mahatma Gandhi, livros deCaioFernandoAbreu,Verissimo eMillôr,comprávamosdiscosdoCa- zuzaeRenatoRusso,anunciávamos nossa posição ideológica em but- tons, broches e pins na jaqueta, vía- mos o comercial que todos deviam, sabíamos do livro que DEVÍAMOS ler,dofilmequeDEVÍAMOSver,da novabandadequeTODOSestavam falando,do“complexodevira-lata”, cria do Nelson Rodrigues (cujas pe- ças assistíamos) em maio de 1958, mesesantesdeoBrasilganharapri- meiraCopadoMundo,numacrôni- ca publicada na Manchete Esportiva, relembrada por Ruy Castro no livro Os Garotos do Brasil (Foz). Víamos fotos da repressão poli- cialbrutal,desvendávamosachara- da,opoema,ailusãodeóticaquefaz bolinhassemoverem,nolivrodeilu- sões de óticas que todos tinham. Éramosmaisdiscretos.Menosan- siosos.Nãoprecisávamosdaaprova- ção alheia. Não precisávamos cha- mar tanta atenção, nem criar a ilu- são de que somos melhores do que somos. Somente éramos. Após sete anos, o Ira! volta à ativa Banda se apresenta hoje na Virada Cultural mostrando clássicos como ‘Envelheço na Cidade’ e a inédita ‘ABCD’ NA WEB Meexponhologoexisto Sim, existe gente que não se comunica, nem curte, nem posta, não critica, nem milita MARCELO RUBENS PAIVA SEGUNDA-FEIRA LÚCIA GUIMARÃES TERÇA-FEIRA ARNALDO JABOR QUARTA-FEIRA ROBERTO DAMATTA QUINTA-FEIRA LUIS FERNANDO VERISSIMO SEXTA-FEIRA IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO MILTON HATOUM SÁBADO LAURA GREENHALGH MARCELO RUBENS PAIVA SÉRGIO AUGUSTO DOMINGO VERISSIMO JOÃO UBALDO RIBEIRO HUMBERTO WERNECK FÁBIO PORCHAT ●✽ E-mail: marcelo.rubens.paiva@estadao.com Blog: http://blog.estadao.com/blog/marcelorubenspaiva João Paulo Carvalho Ovigor físiconãoémaisomes- mo. Visivelmente fora de for- ma, Nasi para, puxa um pouco de ar, pega o banquinho. Senta meiosemjeito,descompromis- sado, com as pernas abertas. “Achoquedáparamelhorarna- quela parte antes do refrão, não?Vamosláforabaterumpa- po,precisofumar”,diz,jácansa- dodoensaioquedura20minu- tosemum estúdio nazonaoes- te da capital paulista. “Prefiro algo assim, ouve só...”, afirma Scandurra à banda antes de deixar a sala para conversar com o Estado. O tempo pas- sou para os cinquentões do Ira!. O cabelo caiu, a barriga cresceu, mas a essência jovial e agressiva do rock‘n’roll con- tinua intacta. Após um hiato de 7 anos, um dos conjuntos mais importantes do cenário nacional volta à ativa hoje, pa- raabriraViradaCultural,às18 h, no Palco Júlio Prestes. Há brilho nos olhos da dupla, que às vezes precisa apenas de uma singela troca de olhares para que tudo se acerte duran- te o ensaio. “Tem sido assim desde que decidimos nos jun- tarpara esteshoweanova tur- nê Núcleo Base. Só boas ener- gias. A gente executa cada mú- sicacomo se fosse aúltima. Fi- zemos algumas modificações nos arranjos das canções, já que temos formas diferentes de tocar. Mas, no geral, todas elas estão com uma pegada es- pecial que resume os 30 anos de banda”, conclui Scandurra. Depoisdeumaseparaçãocon- turbada,querendeumuitasbri- gas na Justiça – hoje, segundo eles, superadas –, Nasi e Scan- durraouviramosapelosdosfãs edecidiramretomaroIra!.Sem André Jung e Ricardo Gaspa, dois integrantes da formação original,abandapaulistanaago- ra conta com Daniel Rocha, fi- lhodeEdgard,nobaixo,Evaris- to Pádua, na bateria, e Johnny Boy nos teclados. Um quinteto poderoso, que mostra entrosa- mentoemalgunshitsdogrupo: Girassol, Tarde Vazia e Prisão das Ruas. “Essa mescla de expe- riência e juventude só traz coi- sas interessantes para o Ira!. As participaçõesdeGaspaeAndré são inegáveis, mas estamos comsanguenovoparaoutraeta- pa da nossa carreira. Nesses 7 anosemqueabandaparou,tive a oportunidade de trabalhar commuitagentelegaletalento- sa.Isso,somadaàexperiênciae bagagem profissional que te- mos, só melhora o resultado fi- nal”, acrescenta. OrepertóriodoshowdaVira- da será recheado de clássicos. De Flerte Fatal e Envelheço na Ci- dade, passando pelas emblemá- ticas Dias de Luta, Flores em Você e a inédita ABCD. Escrita por Scandurra, a música é o come- çodeumanovaetapanacarrei- ra dos paulistanos. “Ainda não pensamos em lançar um disco. As coisas precisam ser feitas passoapasso.Quandonosjun- tamos, isso ficou claro. Em al- gunsensaios,euapresenteima- terial, mas achei tudo um pou- co cru”, revela Scandurra. “A gentenãopodefazeralgoapres- sado. Precisa ter qualidade pa- ra honrar a história do Ira! e manter o nível dos trabalhos mais importantes da banda”, complementa Nasi. Em outubro, a dupla já havia se juntado para tocar em um showbeneficente.Aapresenta- ção contou com a participação de Arnaldo Antunes e Paulo Ri- cardo. No final, o que era para ser intimista virou um ‘campo de guerra’, com direito a músi- cascantadasemcoro.Umfrene- si rock’n’roll. “A retomada da bandanãopoderiaterumcená- riomelhordoqueaVirada.Tra- ta-se da nossa cidade (São Pau- lo) em um palco aberto a to- dos. Não vamos deixar a galera pararumminuto”,brincaNasi. Nasi e Scandurra. Eles retomam o Ira! com novo quinteto, que já mostra entrosamento JF DIORIO / ESTADÃO