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  • 1. Cultura QUARTA-FEIRA • 22 DE MAIO DE 2013Diário do MinhoEste suplemento faz parte da edição n.º 29951de 22 de maio de 2013, do jornal Diário do Minho,não podendo ser vendido separadamente> “Em legítima defesa...”– Galiza, Espanha - Agosto de 2012[Foto de V. B. Vasconcellos]
  • 2. II Diário do MinhoQUARTA-FEIRA, 22 de maio de 2013CulturaCulturaAquele André Brun dá-me cabo do juízo!Aquele André Brun dá-me cabo do juízo!A somados nadasO ontem do nadaé o nada de amanhã,quem partiu não ‘stá cá,quem foi já não o é,é sombra deitadaque vagueou de pé,no cacifo adormeceu,no silêncio se perdeu,sua voz sucumbiueco que jamais se ouviuna longínqua morada.Estrela que se apagouno mundo de corre e corre,onde todo ser vivo morre,não há fortes sem aisnem fracos protegidosnem criminosos escondidosem escuros labirintos,são ignorados famintostítulos e coroas riais.Reina aqui a paz eterna,neste sagrado museu,onde se guardao valor da cada troféu,de feitos e de glórias,ligados às memóriasdesta comunidade fraterna!M. R. Silva(Inédito. Trofa, 9-12-11)Palco da PoesiaPoema cor de lutoVou escrever um poema cor de lutoPara um testamento de amor;E se em vida comi o fruto.Posse do alheio que o deixou morrer,De gaivotas farei um andorPara passear sobre as ondas:A musa que fiz reviverE será minha e do infinito...Virão os anjos em jeito de rondasCantar para nós os seus hinos.Tocarão os sinos,Crescerão abetos no Natal.E então um poema será ditoCom voz de papoila-mulher, papoila-flor.E será um poema cor de calPara uma promessa de amor.Américo Brito(Inédito. Abril de 2013)1Ferme du bois 2, 16 de Junho de 1917A aurora abria-se e a claridade dos very--ligthsvaisendosubstituídapelosolaindapálido do início do estio. Como toupei-ras negras vamos emergindo do nossoburaco para o triste inferno a que fomosvotados pelo governo republicano.– Pedro de Freitas 3, ainda sobrou rum?– O lazarento cospe terra e acena-meafirmativamente.Adoramosasmanhãs,são tranquilas como a morte e isso éuma bênção caída do céu.Aventuro-me a pôr a cabeça acima datrincheira perscrutando o horizonte ea linha de arame farpado. Lembro-mesubitamente das irmãs Ajus e Joé 4edo seu famoso opiário por detrás docoliseu. A noite é terrível, em Lisboaa noite era a dança e o frenesim dosbotequins, aqui é o triste inferno vividona carne, e agradecemos ao governorepublicano por tal dádiva.Uma hora antes do cair da noite aper-ta-se-nos o estômago, as sombrasenvolvem-nos e todos nos interroga-mos: O von da costa virá? A baionetado boche irá tentar espetar-se-nos nobulho, deixando as nossas tripas pelalama? Os oficiais da retaguarda nãosabem disso, atulhados na burocraciadosegurobunker.Malditos!comoeuosdetesto!, não sabem que de noite todosos medos estão à flor da pele. Não sa-bem que ou vamos de patrulha com oalicatetentandofuraroaramefarpadoetomar uma trincheira ou então ficamosà espera que eles caiam em cima denós com aqueles elmos pontiagudos agritarem pelo imperador...Malditos oficiais de retaguarda! E quan-do não é isso, é o maldito gás debaixoda trabuzanada das metralhadoras.Escutamos os ecos da guerra em plenaescuridão e nossos corações são comoasnossasolheiras,fundasenegras,semesperança nem remissão. Lá estão eles,os malditos, a inspeccionar-nos:– Hora das visitas, meu alferes. – Cen-suraPedro.Àfrentedelesumoficialquetirou o curso comigo, André Brun desua graça, parecia bem disposto depoisde ter tido uma noite confortável comuma cama fofa de palha. Fuma umacigarrilha e admoesta-me:– Alferes Malheiro!, existem homensque já estão a dormir vestidos encosta-dos aos sacos, é uma falta de aprumo!E está tudo cheio de cartuchos vaziosno chão, é um desmazelo!–AndréBrun,vocêsóservemesmoparaescrever comédias, não é verdade?– Como?– Nada. – Brun vê um livro de courocaído, apanha-o e abre-o. Olha paramim e comenta:– Então… se em vez de escrever vocêtratasse do aprumo das trincheiras es-távamos bem melhor. – Riem-se todos.Passa-me o meu diário.Raios!,quandoéqueeuescreviisto?Foiontemdecerto.Andomesmorepetitivo,pudera!, todos os dias a viver o mesmoinferno. Releio as primeiras linhas:“A aurora abria-se e a claridade dosvery-ligths vai sendo substituída pelosol ainda pálido do início do estio…” ◗1Escritor, jornalista e dramaturgo.2Frente da primeira Grande Guerra nonorte de França.3Soldado que participou na GrandeGuerra e que deixou um diário escrito.4Curandeiras vindas de Xangai, estabe-lecidas em Lisboa.Mário EscotoEnvio de trabalhos para publicação neste suplementoDiário do MinhoCulturaCultura Diário do Minho / Secção CulturalRua de S.taMargarida, 4 - 4710-306 Braga; Fax: 253609469. E-mail: cultura@diariodominho.pt22.Maio.2013N.º 699Aristides de Sousa Mendes doAmaral e Abranches nasceu emCabanas de Viriato – Canas deSenhorim, a 19 de Junho de 1815,e faleceu a 3 de Abril de 1954com 68 anos, em Lisboa.Vivendo em ambiente familiarcatólico, conservador e monár-quico, licenciou-se em Direitopela Universidade de Coimbra,seguindo a carreira diplomáticae exercendo funções em inúme-ras delegações portuguesas portodo mundo, com desempenhonotável, o que lhe granjeou re-putação e prestígio, recebendocondecorações e louvores.De eventual ascendência judaicamuito remota e estando refe-renciado pertencer à linha des-cendente do Rei David, casado ecom 14 filhos, protagonizou umdesempenho de grande dimen-são humana e marco histórico,na salvação de mais de 30.000refugiados, nomeadamente ju-deus,aquandodaSegundaGuerraMundial, altura em que sendoCônsul em Bordéus, facultouvistos de entrada para Portugal,contra as determinações do Go-verno Português, heroicidade játraduzida em filme e em livros.Esta atitude de não obediência,desencadeou procedimentos pu-nitivos, provocando o seu afasta-mento da carreira diplomática eproibindo-o de exercer advoca-cia, o que com o falecimento desua esposa e vicissitudes infelizesda sua vida pessoal, contribuírampara que morresse na miséria,abandonado.O reconhecimento público epolítico, só ocorreu, inicialmenteem Israel em 1960, com diversasmanifestações promovidas pororganizações ligadas à memóriado Holocausto e posteriormenteem Portugal após 1986, com aatribuição de inúmeras conde-corações a título póstumo e areabilitação da sua memória, emdiversos actos, programas e ini-ciativas de cariz político e cultural,sendo de grande valor simbólico,a iniciativa promovida para a re-construção da sua casa em Caba-nasdeViriato,queseencontraemruínas e está classificada comoMonumento Nacional.A comemoração do dia da mortede Aristides Sousa Mendes, a3/4/1954, neste período Pascal,faz-nos recordar outro descen-dente da linha de David, que tãorevolucionáriofoinosensinamen-tos que propagou e na vivênciaque protagonizou, entregando-sena ajuda a todos e para todos,acabandoabandonadoàinjustiçados homens, mas reabilitado pelajustiça divina.Que natureza é a nossa em quesendo protagonistas da maiorheroicidade, somos capazesdas maiores atrocidades, numavariabilidade imprevisível e irra-cional, para nós e para os outros,perdendo toda a dignidade queimpregna o ser humano?O individualismo e o colectivis-mo fundem-se numa amálgamaexplosiva e clivante, provocandograndes rupturas individuaise sociais, impulsionando umpercurso de vivência com falsasideias e falseada felicidade, definal auto destrutivo.Reflectir com humildade, com aforça dos valores morais e como procedimento ético que devenortear a nossa existência, seráuma atitude corajosa a incutir navida de cada um, nestes tempostambém conturbados e confu-sos, e que Aristides Sousa Men-des traduziu na frase: “Se há quedesobedecer, que seja a umaordem dos homens e nunca auma ordem de Deus”. ◗A natureza humanaA natureza humanaPORA. MANUEL DOS SANTOSMÉDICO PSIQUIATRA
  • 3. CulturaCultura IIIDiário do Minho QUARTA-FEIRA, 22 de maio de 2013José Fernandes da Silva, poeta emúsico natural de Braga e residen-te em Vila Verde, acaba de perfazervinte anos de intensa criação artís-tica, tendo dado à estampa nesteperíodo mais de duas dezenas deobras do foro musical e poético.No ano de 1992, este profícuo eversátil autor iniciou-se nos doisgéneros artísticos, ao publicarCofre de Ternuras e Canções daMinha Escola. Nascido em 1948 naLageosa, Sobreposta, José Fernan-des da Silva, em plena infância,ficou privado da visão num infelizacidente, tragédia que não o im-pediu de prosseguir estudos e dese tornar telefonista-recepcionista.O seu gosto artístico levou-oporém a obter o Bacharelato emComposição, pelo Conservatóriode Música Calouste Gulbenkian,título académico que lhe valeu aentrada no ensino oficial, sendoactualmente professor do quadrode Educação Musical na EB 2,3 deMoure, Vila Verde.Quando publicou Relicário (1993),José Manuel Mendes, numa dasbadanas da capa, diria que “apoesia de José da Silva Fernandesprocura sempre o registo das vi-vências e das sensações pessoais.”E ao comentar o título seguinte(Celeiro de Retalhos, 1994), omesmo escritor, aliás amigo deinfância do autor, nota que “numalinguagem que muito deve aosritmos populares e musicais dasconstruções clássicas, a sua pala-vra fala das relações com a natu-reza e os seres, da vibração íntimae dos sentimentos, sem demitir osobressalto metafísico, os registossolidários, a deceptividade ante odesconcerto do mundo”. A títulode exemplo deste pensamento,citemos apenas a primeira quadrado poema Presto: “Queria ter umcavalo / mas um cavalo de vento/ que a qualquer hora, num halo /me levasse o pensamento...”Paralelamente à publicação depoesia, José Fernandes da Silva foidando à estampa também obrasmusicais, do foro lúdico, didáctico,religioso e tradicional (cantaresde Natal, Reis e Janeiras). Quandovieram a lume as Aclamações aoEvangelho, já em 2009, o PadreAntónio Rodrigues, fraterno com-panheiro do autor, abre o prefácioda obra com estas justas e ilumi-nantes palavras: “Não há ninguémque, tendo perseguido durantemuitos anos, com toda a suadeterminação e sem desânimos,um determinado objectivo, dele sepossa dizer que se não apaixonou.E quem fez da escrita, música,poesia ou romance, o sonho dosseus dias e vai semeando comoquem reparte pedaços da suaalma, esse já se tornou para todosmais que um luminar, um guia ouum exemplo; ele é um pedaço detodos nós, entra na nossa almae fica cantando aí a sua músicae dizendo aí as suas composições.”Palavras igualmente abonatórias,mas merecidas, recebeu-as o au-tor do escritor João Lobo, o qual,no prefácio de Barca de Esperan-ça (2000), assevera que“... dar à estampa um livro ilu-minado pela singeleza das coisassimples, por entre esta ásperafuzilaria a que chamamos civili-zação, é um momento grave decombate.” E mais à frente, o mes-mo escritor, sublinha que “... na suasimplicidade infinitamente como-vente (o poeta) soube deixar-nosao lume da consciência um livroque arrancando do lirismo telúricoregional é sugestivamente rico emsensações visuais, fundamentecatártico no seu pode emotivo,sincero nos temas que trata...”.Vejamos, como pequena ilustra-ção destas ideias, estes quatrodecassílabos: “Com ternura recor-do aquele dia, / em que p’la vezprimeira te encontrei; / o vendavalde frases, de alegria; / o prolonga-do abraço que te dei!”Já em 1997, Maria Teresa Lobato,a propósito de Alfobre de Amores,um título de poesia infanto-juvenil,dado à estampa três anos depois,dizia que “José Fernandes da Silvaalude a sensações pessoais e asituações onde o sentir e a mu-sicalidade que lhe é inerente serevelam, onde a generosidade dasdádivas simples mas significativasda vida se sobrepõe ao vazio dasincongruências de certo mundomoderno e metropolitano.” Apropósito do mesmo livro, AlfredoPedrosa, ao escrever uma recen-são crítica no jornal da EB 2,3 deVila Verde, adianta que (o poeta)surge-nos “como um homem quejoga com as sílabas e as palavrasde uma forma invulgarmente au-têntica, até instintiva, gostosamen-te entregue a um infinito espectá-culo de sensações, transpirando oambiente bucólico em que temosa felicidade de estar inseridos deuma forma intensa e objectiva.”Também a escritora Maria do CéuNogueira se associa a este laudé-mio generalizado, pois, segundoela, “ler Alfobre de Amores foi pe-netrar no mundo maravilhoso dainfância.” E prossegue: “Pela mãodo seu autor, José Fernandes daSilva, apequenei-me e revivi, en-cantada, os meus tempos de me-nina. Cantei e dancei, fiz diabrurasinocentes sob o olhar atento dosmeus pais, trepei às árvores e aosmuros da quinta onde nasci, proveitodos os sabores dos frutos madu-ros, bebi, insaciável, a água pura ecristalina das fontes, nadei no Neiva,o rio das belas trutas, e corri, louca,pelos caminhos de erva fresca quecalcava de pés descalços.”Quando o José Fernandes da Silvame convidou para prefaciar o seumais recente título poético, Rama-lhete de Safiras (2012), reparei quea obra estava mergulhada numdenso halo de misantropia, e queo seu costumado confessionalis-mo redentor e auto-compadecidodeclinava já para um tom elegíacoe passadista, e para a assumpçãode um indisfarçável desencantoexistencial. Deste modo, Rama-lhete de Safiras marca de formainiludível a entrada de José Fer-nandes da Silva na senectude davida, tanto mais que na sua in-trospecção contrita admite: “...aospoucos, começo a ver desfeito / omeu sonho de vida...”. Esta toadadisfórica e lamentosa pode ver--se em sonetos como o CânticoFinal, onde o poeta confidencia:“Imensas vezes, Mãe, nas horas deamargura, / ugio nos teus dotes deternura...” Em contraponto a estaderrota anímica, José Fernandesda Silva deita mão das sempreencantatórias redondilhas paraabordar matéria mais comezinhae grácil, e para fugir talvez aotormentório da existência: “A Luainfinita / é hóstia bendita /feita deluar: / formoso luzeiro, / que nãotem parceiro / para o imitar!”Em Ramalhete de Safiras o leitormergulha no perturbador lirismode um poeta que persiste estoica-mente em renunciar aos sedutorescantos de sereia da sociedadecontemporânea e se aferra aos va-lores perenes e inamovíveis do seuafectuoso ideário. Neste universode grande coerência e solidezmoral abundam não só poemassaídos do peito de um Eu lírico,de que cito, a título de exemplo,o primeiro dístico de Escravidão:“Era bem tempo de apagar o círio,/ que alumia há anos o martírio...”;mas também poemas saídos deum Eu social, como se verifica emOutros Tempos: “Já não se reza oterço, como outrora, / nos pacífi-cos lares das aldeias...” A expressãode uma emoção redentora a umtempo e solidária a outro, leva opoeta a alimentar o gosto pelobucólico: “Lua pura, véu da noite /derrama bento luar...”; pelo nostál-gico: “Já gozei dias felizes...”, pelacontemplação: “Infindáveis tapetesde verdura...”, pela identificaçãocom a dor alheia: “Jamais com-preendi qual a razão / dele tomaraquela decisão (...) atendendo aque foi arrebatado / por um golpebrutal da fera Sorte...”, e por todoum tipo de proposições que vãodesde a confissão de desgostospessoais até ao desagravo cris-tológico, passando por hinos aoamor conjugal, ao culto mariano eà saudade, esta bem expressa emelegias e epitáfios.Ramalhete de Safiras também érelicário de saudade e de luz sim-bólica de tudo o que é grandiosa-mente belo, como a misteriosa luzque nimba a noite e o dia, e queJosé Fernandes da Silva perdeuacidentalmente na sua infância. ◗DoDo “Cofre de Ternuras” (1992)“Cofre de Ternuras” (1992)aoao “Ramalhete de Safiras” (2012)“Ramalhete de Safiras” (2012)No 20.º aniversário da vida literária de José Fernandes da SilvaNo 20.º aniversário da vida literária de José Fernandes da SilvaPORFERNANDO PINHEIROESCRITORO poeta e músico JoséFernandes da Silva,autor de “Ramalhetede Safiras”, nasceu emSobreposta (Braga) evive em Vila Verde. Oseu primeiro livro foipublicado há 20 anos.
  • 4. IV Diário do MinhoQUARTA-FEIRA, 22 de maio de 2013CulturaCulturaDurante a primeira metade doséculo passado, viveu na fregue-sia de Barbudo, concelho de VilaVerde, um médico muito respei-tado, casado com uma senhoranatural da freguesia da Lage, domesmo concelho, pertencente auma conceituada família da então,denominada “Quinta do Alferes”.Deste casamento não houve filhos,mas trouxeram da dita “Quinta doAlferes”, para sua companhia uma,irmã da esposa e uma filha desta.A irmã era mãe solteira.O médico era muito bondoso,e tinha fama de responder comprontidão e desvelo a quem osolicitasse na doença, mesmo paralocalidades de difícil acesso. Alémde raramente cobrar honorários,era frequente deixar aos maisnecessitados a sua contribuiçãopara a compra dos medicamen-tos. Profundamente religioso, eracatólico praticante. Também eramonárquico.Mais tarde, em 1927, a sobrinha,filha da irmã, contraiu matrimó-nio e todos ficaram a partilhar amesma habitação, com a quintaanexa. Deste casamento nasceramonze filhos.Acontece que entre eles, emconversa divertida, por vezes, di-ziam que sua mãe era filha de um«Chasco». E brincavam com estahistória de família sem qualquersombra de maldade. Do seu nomeverdadeiro nada sabiam. Queteria falecido vítima de um tiro derevólver que um filho da “Casa doAlferes” lhe terá disparado volunta-riamente, quando o mencionado«Chasco», que morava próximo,tentava aproximar-se da avó, comintenções um pouco suspeitas.Pois que de ambos já existia umafilha, que era a sua mãe. E tão con-vencidos e conformados viveramcom esta versão, que nunca senti-ram necessidade de saber não só aidentidade do avô, mas também asreais causas que motivaram a suatrágica morte. E, por isso, a maio-ria dos netos partiu deste mundosem nunca ter conhecido o seunome. Mas ficaram seus bisnetos etrinetos e consideramos que estestêm todo o direito, se o desejarem,de saber a sua identidade. Nestaconformidade fomos em demandadessa história. Delimitadas as bali-zas temporais, fomos encontrá-lanos primeiros anos da República,encaixada em certos aconteci-mentos ocorridos no concelho deVila Verde, e relatados pela im-prensa da época.Um pouco distante do rescaldodas comemorações do primei-ro centenário da implantaçãoda República, achamos, mesmoassim, que teria interesse a suadivulgação.Os primeiros anos da República:ambiente político, sociale económico do País.Nessa altura, em 1916, a Europavivia mergulhada na PrimeiraGuerra Mundial – 1914-1918. EmPortugal, após a queda do governode Bernardino Machado e a suasubstituição por um ministério to-talmente democrático, o presiden-te Arriaga, alarmado com a vio-lência da luta política e cedendo apressões dos seus amigos políticose pessoais, decidiu intervir. Assim,em Janeiro de 1915, promovendoa demissão do Governo, confiouao seu amigo pessoal, generalPimenta de Castro, a tarefa deorganizar o ministério, com o fimde pacificar a Nação e de presidir,com imparcialidade, às eleiçõeslegislativas que se avizinhavam.Tinha o apoio dos Evolucionistas,dos Unionistas, de parte do exér-cito, e dos monárquicos, isto é,de todas as correntes opostas aoPartido Democrático.Muitos republicanos começaram arecear um perigo monárquico pordetrás das medidas de tolerânciagovernamentais. Fruto dessa situa-ção, no dia 14 de Maio de 1915, osdemocráticos fizeram eclodir umarevolução armada em Lisboa, queteve a participação da marinha,de parte do exército e de grandenúmero de civis.Assim, Arriaga viu-se obrigado ademitir-se e o Congresso elegeuTeófilo Braga para completar o seuperíodo presidencial. As eleiçõeslegislativas realizadas a 13 deJunho de 1915 deram aos demo-cráticos a maioria absoluta nasduas câmaras. Foram as primeiraseleições gerais na vigência daConstituição de 1911.Em Agosto, Bernardino Machadofoi eleito presidente da Repúblicapara o quadriénio 1915-1919. Onovo parlamento iniciou a ses-são a 2 de Novembro de 1915 emanteve-se em funções até à suadissolução, ocorrida no dia 6 De-zembro de 1917, na sequência dogolpe de Estado de Sidónio Pais.Nos princípios de 1916, a Grã-Bre-tanha, deparando-se com dificul-dades crescentes na obtenção detransportes marítimos, solicitou dePortugal que requisitasse as deze-nas de navios mercantes alemãesque se encontravam fundeadosnos portos continentais, insularese ultramarinos. Calculando os ris-cos e as vantagens, o governo por-tuguês procedeu à requisição dasembarcações (Fevereiro de 1916).A Alemanha respondeu com a de-claração de guerra a Portugal (9 deMarço). No dia seguinte, é Portugalque declara guerra à Alemanha.Perante essa grave situação doPaís, Democráticos e Evolucionis-tas assentaram na constituiçãode uma União Sagrada, cedendoAfonso Costa a presidência doMinistério ao seu antigo adver-sário António José de Almeida,Acontecimentos ocorridos no concelho deAcontecimentos ocorridos no concelho deVila VerdeVila Verdeem tempos conturbados da 1.ª Repúblicaem tempos conturbados da 1.ª República– uma história de família– uma história de famíliaPORANTÓNIO RODRIGUES MORAISMESTRE EM HISTÓRIA DAS POPULAÇÕESPELA UNIVERSIDADE DO MINHO“Uns dias depois, o‘Commércio do Minho’ do dia 14 do mesmo mêsde Novembro dá notícia de que na noite de sexta-feira, dia 10 de No-vembro, na freguesia da Lage, concelho de Vila Verde, Avelino JoséFerreira, proprietário da‘Casa do Alferes’, de 28 anos, matou com umtiro de revólver, Domingos Gonçalves Pimentel, o ‘Chasco’, alfaiatede33anos, natural da freguesia de Gême, ambos residentes naquelafreguesia da Lage, isto é, três dias após as referidas prisões.”
  • 5. CulturaCultura VDiário do Minho QUARTA-FEIRA, 22 de maio de 2013conservando apenas a pasta dasFinanças.O governo da União Sagradateve de cumprir a difícil missãode organizar uma força expedi-cionária que fosse combater emFrança. Como consequência daguerra, as condições de vida dasmassas populares agravaram-se,escasseando os géneros de primei-ra necessidade, até ao extremo dafome.Os acontecimentosque abalaramo concelho de Vila Verde.Nessa altura, o País vivia num cli-ma de grande turbulência políticae social, a que o concelho de VilaVerde não esteve imune. Neleocorreram graves acontecimentosque os jornais da cidade de Braga,«Commércio do Minho» e outros,e ainda a “Folha de Vila Verde”,noticiaram e classificaram como“actos de malvadez”.Desses actos fizeram parte, no dia4 de Novembro de 1916, em VilaVerde, a explosão de uma bombano peitoril uma janela da casa daCâmara e, ainda na madrugadado mesmo dia, outra contra oposto do registo civil do lugar daPortela, freguesia de Atães.Reforçando o cariz marcadamen-te político, em Marrancos, fre-guesia do concelho de Vila Verde,explodiu outra bomba junto dacasa do dr. Joaquim de Oliveira,deputado pelo círculo de Braga.Também foi noticiado que “foramcortados alguns postes da linhatelegráfica e apareceram pinheirosatravessados nas estradas”.Igualmente na cidade de Bragaexplodiram bombas, em Maxi-minos, na casa do Sr. Bento deOliveira, Governador Civil substi-tuto, e do Dr. Domingos Pereira,deputado por este círculo. Todaselas produziram apenas prejuízosmateriais.O ambiente em que se viviacontinuava a ser de muita tensãoentre a Igreja e o poder instituído,fruto das medidas anticlericaisque já vinham do Governo Provi-sório presidido por Afonso Costa.Embora a Igreja, em 1916, setornasse mais flexível para com onovo regime, e no plano políticocomeçasse a firmar alianças comos elementos mais conservadoresdo republicanismo, porém, man-teve e não abandonou a aliançatradicional com a Monarquia ecom os aristocratas.Por isso, não admira que sobremuitos sacerdotes do conce-lho de Vila Verde e sobre outroscidadãos ligados à Monarquiarecaíssem as suspeitas de esta-rem por de trás dos mencionadosacontecimentos.Nessa conformidade foram efec-tuadas prisões, continuandoas investigações por parte dasautoridades, de harmonia com aimprensa da época.O “Commercio do Minho”, de Bra-ga, de 9 de Novembro, relata queno passado dia 7 (3ª. feira), “transi-taram do comissariado da políciapara a cadeia civil de Braga, fican-do ali à disposição do Sr. Adminis-trador do concelho de Vila Verde,os presos que vieram daquela Vilasob arguição da autoria no casodas bombas ali lançadas”.Esta mesma notícia é-nos dadatambém pela “Folha de Vila Verde”,de 19 de Novembro, de formapormenorizada: “de terem estadodetidos no posto da guarda re-publicana e cadeia de Vila Verde,seguiram para Braga, escoltadospor força armada”, os párocosdas freguesias de Azões, de DuasIgrejas, da Loureira, de Aboim ealguns leigos.Noticia ainda o jornal vilaverden-se que “sob a acusação de pedi-rem votos e praticarem outrosdelitos também foram chamadosà Administração, diversos cava-lheiros”. Eram provenientes dasfreguesias da Lage, de Vila Verde,do Pico, de Escariz, de Azões, eainda os párocos de Doçãos, daLage, de Godinhaços, deS. Cristóvão do Pico e da Portelae também padres de Valdreu e deGodinhaços.Assassínio de DomingosGonçalves Pimentel– o «Chasco»Uns dias depois, o “Commérciodo Minho” do dia 14 do mesmomês de Novembro dá a notíciade que na noite de sexta-feira,dia 10 de Novembro, na freguesiada Lage, concelho de Vila Verde,Avelino José Ferreira, proprietárioda “Casa do Alferes”, de 28 anos,matou com um tiro de revólver,Domingos Gonçalves Pimentel,o «Chasco», alfaiate, de 33 anos,natural da freguesia de Gême,ambos residentes naquela fregue-sia da Lage, isto é, três dias apósas referidas prisões.Mas entre o dia 11 de Novembro,sábado, e o dia 13, segunda-feira,restituídos à liberdade todos ospresos por nada se averiguar queos comprometesse.Sobre o homicídio, vejamos o quedizem documentos da época.Atingido o objectivo da identifica-ção desse ramo parental, fomosem busca das razões que provo-caram o homicídio, tendo comopano de fundo os graves aconte-cimentos relatados.A imprensa da cidade de Bragae local apontava que na origemda contenda estavam causaspolíticas e ainda outras anterio-res à proclamação da República.Que o “Chasco” era republicano eque teria ofendido gravemente ahonra da família da “Casa do Al-feres”, que era monárquica, e quea partir daí tornaram-se inimigosirreconciliáveis.E à luz das notícias da imprensa ede documentos fidedignos, fomoscompreendendo que, emboratenham existido causas remotas,a causa próxima do fatal desfechoterão sido as suspeitas que sobresi («Chasco») recaíram de ter de-nunciado junto da Administraçãodo concelho Vila Verde algunsresidentes na freguesia da Lage.Outros documentos referem que,perante o crime, o Administradordo concelho de então participouno dia seguinte – 11 de Novem-bro de 1916 –, ao Delegado doProcurador da República de VilaVerde, a ocorrência do homicí-dio. Comunicava “que no dia 10de Novembro, seriam 19 horas,no lugar de Bouçós, freguesia daLage, deste concelho, quando alipassava em companhia de outrosindivíduos, manso e pacífico, foi,sem mais nem menos, assassi-nado a tiro de revólver ou pistola– Domingos Gonçalves Pimen-tel, solteiro, alfaiate, da mesmafreguesia. Que o assassinadotinha ido desta Administração deprestar declarações sobre os últi-mos acontecimentos, sendo logoameaçado”.Declarações de testemunhas quepresenciaram o homicídio, sobpalavra de honra!Todas as testemunhas relacio-naram esta morte com os gravesacontecimentos deste concelho,porque o falecido era “republica-no e o homicida um autênticomonárquico”.Algumas narraram que poucoantes de se dar o assassinatoestiveram com Avelino JoséFerreira numa taberna sediada nolugar de Bouçós; que o referidoAvelino convidara um grupo dehomens que o acompanhavampara irem à sua residência beberuma pinga de vinho e ao pas-sar em frente ao assassinado, oAvelino disse a seguinte frase:“bamos comer quatro castanhase beber uma pinga de água-pépara fazer teré-té-té para o Chas-co”; que chegados ao portão doAvelino apareceu neste momen-to o referido «Chasco» que lheperguntou: Que é que quer ao«Chasco»? E num dado momentoo homicida “mete a mão ao bolso,puxa de uma pistola, desfechandoum tiro sobre o «Chasco», quecaiu redondamente morto”. Outramais disse que a seguir ao homi-cídio o Avelino pôs-se em fuga.Uma outra relatou que ouviu dizerao Avelino que tinha queixa deum homem do lugar e dizendoque era o «Chasco» por este terchamado à Administração doconcelho algumas pessoas da suafreguesia.Os mesmos documentos dão-nosa conhecer que o Avelino con-fessou o crime e foi preso. Quatromeses passados foi transferido dacadeia para ser julgado no Tribu-nal no dia 26 de Abril de 1917.Referem, por fim, que o AvelinoJosé Ferreira foi absolvido semselos nem custas, com alegação deter agido em legítima defesa. Nar-ram também que, enquanto o au-tor do homicídio tinha em sua mãoum revólver, a vítima tinha apenasuma pedra com que o agredira.Convém insistir que se viviamtempos de grande conflitualidade,em que a Monarquia pretendia re-conquistar o poder e a Repúblicarespondia, procurando defender--se a todo o custo.Já em relação à justiça praticadadurante estes primeiros anos, aHistória diz-nos que os tribunaisda República, infelizmente, con-tinuavam a funcionar com umvasto número de juízes, confes-sadamente monárquicos e, nessamedida, suspeitos de julgaremparcialmente; e não era umasuspeição: o contrário também,é provável, que terá sido verda-deiro.Por fim, julgamos que no seio deoutras famílias poderão eventual-mente contar-se episódios idên-ticos, que paixões, preconceitos eo próprio tempo terão deturpado.Em nossa opinião, seria interes-sante que pudessem ser confir-mados e devidamente enqua-drados no tempo, pois que dessetrabalho talvez pudesse resultaralgum ganho para a história dasrespectivas comunidades.◗Vila Verde, Abril de 2013Vila Verde, na actualidade
  • 6. VI Diário do MinhoQUARTA-FEIRA, 22 de maio de 2013CulturaCultura“Em sintonia com o povo e o pároco, o Cóne-go Avelino de Jesus da Costa (na foto), natu-ral do Barral, é o grande promotor, a alma detodo este projeto, que integra ainda o novoSantuário da Senhora da Paz, edifício maisrecente, em sistema basilical de três naves.”A caminho do centenário da Senhora da PazA caminho do centenário da Senhora da PazAparições do BarralAparições do Barralocorreram há 96 anosocorreram há 96 anosPORLUÍS AREZESPROFESSOR DE LÍNGUA PORTUGUESANO ENSINO SECUNDÁRIOPONTEPONTEDA BARCADA BARCAFaltam quatro anos para o cen-tenário das aparições de NossaSenhora, no lugar do Barral, VilaChã S. João, Ponte da Barca.Tudo remonta a 1917. A Euro-pa continuava em guerra. Nastrincheiras lamacentas do velhocontinente caíam milhares decadáveres e, na frente de batalha,estavam Portugueses, combatiamhomens de Ponte da Barca! Por cá,Miguel Calheiros e Passos deci-dira, em 1916, erguer, no montede Santa Rita, sobranceiro à sededo concelho, um monumento àSenhora da Paz.Longe de todo este mundo de afli-ções, vive, em “extrema pobreza”,o pequeno Severino Alves. Tem10 anos de idade e reside com suamãe, que enviuvara cinco mesesantes, e com mais seis irmãos.Todo o seu tempo de menino éocupado com os rebanhos, nasredondezas do Barral.No dia 10 de maio de 1917, Severi-no inicia o dia, com a mesma roti-na de sempre – o nosso pastor vaipara os montes com as ovelhas.Nos seus dedinhos de miúdo, cor-rem as contas do terço que rezadevotamente, aplicando metadepelo pai e a outra metade a NossaSenhora. Até que, por volta dasoito horas, numa ramada, pertoda ermida de Santa Marinha, ésurpreendido por uma enormeluz vinda do céu... É um clarão tãoforte e tão brilhante que o meninofica possuído por um medo fasci-nante.Vencida a emoção, dá alguns pas-sos, atravessa um portelo e olhaem redor. Nesse momento, avistauma Senhora! Tem as mãos postase o indicador da mão direita desta-cado em determinada direção. Oseu rosto é lindo, como nenhumoutro. Veste-se de branco e ummanto azul cobre-lhe a cabeça.Toda Ela é cheia de luz e de es-plendor! Fascinado com tamanhabeleza celestial, o nosso pastorrecua uns passos, maravilhado, ecai por terra.Readquirido o ânimo, ergue-se eexclama:– Jesus Cristo!Não voltou a ver a Senhora!...No dia seguinte, 11 de maio, sexta--feira, quando passa no mesmolocal com o rebanho, o porteloabre-lhe a alma para uma novavisão. Ali está, de novo, a Senhoracheia de graça e de luz.Severino cai por terra, de joelhos.Olha, depois, o rosto sorridenteda Senhora e diz-lhe o que o seupároco lhe havia aconselhado:– Quem não falou ontem, falehoje...Então, a voz da aparição, “diferen-te do falar de todos os mortais”,manifesta-se, acalmando-o:– Não te assustes, sou Eu, menino!E prossegue: – Diz aos pastores domonte que rezem sempre o terço,que os homens e mulheres rezemo terço e cantem a “Estrela doCéu”. E as mães que têm os filhoslá fora que rezem o terço, cantema “Estrela do Céu” e se apeguemComigo, que hei de acudir aomundo e aplacar a guerra.– Sim, Senhora! – responde Severi-no extasiado, ao que a visão, olhan-do para a ramada, acrescenta:– Que gomos tão lindos! Quecachos tão bonitos!O pastorinho olha e, quando sevolta, vê que a extraordinária apa-rição já tinha desaparecido.Rezem o terçoe cantem a “Estrela do Céu”A sua fé de criança garante-lheque acabara de ser protagonistade um acontecimento sobrenatu-ral. Corre a espalhar a Boa Nova.Ele quer partilhar tão grande mara-vilha com as “mães dos filhos dalocalidade que estão no exército”.Entre outros, há um facto que atodos deixa perplexos: a referênciaà “Estrela do Céu”, uma oração quese cantava na freguesia, “quandohavia alguma calamidade ou guer-ra”, mas que – segundo o pároco– caíra em desuso há mais dequatro décadas, pelo que o povo adesconhecia.Severino não estava, portanto,a faltar à verdade. E, “a todosquantos se acercam dele e põemem dúvida o que ele viu e relata,responde invariavelmente:– Se quiserem acreditar, queacreditem; se não quiserem, quenão acreditem. Eu fiz a minhaobrigação, avisando como memandaram”.A notícia espalha-se pelas re-dondezas. De tal forma que, umasemana depois, no dia 17 de maio,festa da Ascensão do Senhor,juntam-se “já numerosos devotosno local das aparições”.No dia 1 de junho, primeira sexta-feira, chega ao conhecimentode Sebastião de Vasconcelos,advogado do Porto, com ligaçõesfamiliares a Ponte da Barca. No diaseguinte, ele faz-se ao caminho.Vai ao encontro do pequeno Seve-rino. “E ali – lê-se num manuscritoinédito da sua autoria, divulgadopelo Cónego Avelinode Jesus daCapela da Senhora da Paz,no Lugar do Barral, freguesia de Vila Chã S. João (Ponte da Barca)
  • 7. CulturaCultura VIIDiário do Minho QUARTA-FEIRA, 22 de maio de 2013Costa –, no meio do povoado,entre crianças, ouvi a descriçãosimples e impressionante que mefez, que tem sido sempre invaria-velmente repetida”.Os elementos que recolhe nestaprimeira viagem ao Barral dãocorpo a dois artigos que, a 9 dejunho de 1917, publica nos jornaiscatólicos do Porto, “A Ordem” e“Liberdade”, e que temos seguidode perto nesta apresentação. Otítulo é sugestivo: “Nossa Senhorado Barral?”.Peregrinos aos milharesOs textos despertam enormeinteresse, esgotando-se ambos osjornais, facto que levou “A Ordem”a fazer uma separata do seu artigopara atender os inúmeros pedi-dos. No mesmo dia da publicaçãodos textos, o “Senhor Bispo doPorto aprovava a ‘Estrela do Céu’,concedendo 100 dias de indul-gência a quem a rezasse”. Desdeaí, espalharam-se aos milhares aspagelas com a “Estrela do Céu” eos jornais publicaram-na, repeti-damente. A 28 de julho, “A Ordem”anuncia ter à venda a música daantífona.Em finais de 1917, Sebastião deVasconcelos “mandou fazer umaestampa segundo as indicaçõesdo ‘vidente’ […], com a legendaRegina pacis na frente […] e ‘Súpli-cas à Virgem Santíssima pela paz’,no verso”.Muitos jornais divulgam, entretan-to, os artigos e publicam outrasnotícias, ao longo dos meses deverão, de tal modo que as apa-rições do Barral já eram pratica-mente conhecidas em todo o Paíse nas Ilhas Adjacentes, quandoveio a público a primeira notíciadas aparições de Fátima, que saiuem O Século, a 24 de julho de 1917.Face à repercussão dos aconteci-mentos do Barral, o “Sr. Arcebispode Braga nomeou ‘uma comissãode graves e conceituados teólo-gos’, que foi ao local, logo a 20 dejulho de 1917, para colher elemen-tos para o processo canónico,segundo informaram os ‘Echos doMinho’ (órgão oficioso da diocesede Braga) de 22 deste mês”.Os peregrinos acorrem aos mi-lhares, vindas das mais diversasterras. O jornal “A Ordem”, queapenas se refere ao caso deFátima a 27 de outubro, divulgaos acontecimentos do Barralcom entusiasmo, em númerosseguidos. Nas edições de 16 e 17de junho de 1917, diz que a “devo-ção do Terço do Rosário ganhoumuito com a narrativa do casodo Barral” e noticia que “tem sidouma verdadeira peregrinação parao lugar do Barral, em Ponte daBarca, tantas são as pessoas queali vão interrogar o pastorinhoSeverino Alves acerca da Apariçãode Maria Santíssima e ver o local”.Esta afluência mantém-se durantevários anos, passando a diminuirdepois de 1926. Nem seria deesperar outra coisa, pois, no local,nem sequer fora construída umaimagem, muito menos uma cape-la. A atenção e a devoção vão-se,progressivamente, concentrandoem Fátima, onde Nossa Senhorase manifestara, dois dias maistarde, a 13 de maio do mesmoano... E, assim, as aparições daSenhora da Paz quase caem noesquecimento.Quase! Porque, 50 anos depois,Fátima cruzar-se-ia, de novo, como Barral.Centro Marianoconhece uma nova almaForam, de facto, os historiadoresde Fátima que contribuíram parareavivar o interesse pela Senhorada Paz. Consultando a imprensade 1917 para saberem o que seescrevera sobre a Cova de Iria e,assim, prepararem o 50.º aniver-sário destas aparições, acabarampor encontrar numerosos artigossobre o Barral, situação que alte-rou o rumo dos acontecimentos.Em agosto de 1967, Fátima acolheo XII Congresso Mariano Interna-cional para assinalar o cinquen-tenário das aparições. O Cón.Prof. doutor Avelino de Jesus daCosta, historiador e catedrático daUniversidade de Coimbra, é con-vidado para colaborar e apresentauma comunicação que despertagrande interesse: “As aparições deNossa Senhora do Barral, a 10 e 11de maio de 1917”.A devoção à Senhora da Paz estáa ganhar nova alma. Com au-torização do Arcebispo Primaz,Avelino da Costa – também nas-cido no Barral e contemporâneodo vidente pastorinho – escreveuma série de artigos no “Diário doMinho”, que, em parte, são publi-cados nos jornais “Novidades”, “AVoz” e “O Povo da Barca”. E, emsintonia com o pároco e os seusconterrâneos, logo pede auto-rização para mandar fazer umaimagem e para erigir uma capelano local.A 24 de junho de 1967, a imagemda Senhora da Paz é benzida ecolocada num nicho, à veneraçãodos fiéis. E a Confraria de SantaAna decide promover a cons-trução da capela, cuja licença éassinada, em maio de 1968, porD. António Ribeiro, na altura bispoauxiliar de Braga e futuro cardealpatriarca.Muito trabalhoe várias inauguraçõesOrçado em cerca de 400 contos,o templo é decorado com quartzocristalizado e a inauguração acon-tece a 15 de setembro de 1969,com a bênção do vigário-geralda arquidiocese, o então cónegoe futuro bispo auxiliar de Braga,D. Carlos Pinheiro.“A solene bênção e inauguraçãoda capela-monumento atingiramum brilhantismo que ultrapassouo que era de esperar por ter sidoem dia de semana, o tempo estarmuito chuvoso e ter havido emalguns meios obstrucionismo àcapela e à sua inauguração”, es-creve, na altura, Avelino de Jesusda Costa.O dia festivo, que mereceu umareportagem da RTP, fica, entreoutros aspetos, marcado tambémpela estreia do “Hino de NossaSenhora da Paz”, letra de CastroGil e música de Manuel Borda.Pouco tempo volvido, já a capelaera considerada pequena para aafluência de devotos. Para reme-diar o mal, projeta-se a constru-ção de uma cave por baixo doadro e de uma pequena casa derecordações, junto da oliveira, queficara como recordação de 1917.A 2 de maio de 1971, é benzidaa cripta e o altar de quartzo, umenorme bloco cristalizado, omaior existente em Portugal, comcerca de três toneladas de peso.Neste ano, a festa da Senhora daPaz regista a presença de altasindividualidades, tais como o go-vernador civil do distrito e o pre-sidente da Câmara Municipal dePonte da Barca, sendo a procissãopresidida pelo Vigário-Geral.Em 1972, a festa celebra-se a 20de agosto, com a bênção e inau-guração dos painéis de azulejoque revestem as paredes da criptae representam a Última Ceia, asaparições do Sagrado Coraçãode Jesus em Paray-le-Monial, asaparições de Nossa Senhora emLa Salette, Lourdes, Pontmain,Fátima e Banneux, os SantuáriosMarianos da Peneda, Sameiro eVila Viçosa, e também de dois pai-néis, cada um com seu anjo emsaudação à Virgem Maria, tendoo da direita a legenda “Ave, Maria,cheia de graça” e o da esquerda“Por Maria a Jesus”.A 15 de Setembro de 1974, porocasião do 5.º aniversário da bên-ção da Capela, é inaugurada umaimagem do Sagrado Coração deJesus (4,20 m de altura), de braçosabertos.Apesar da fortee persistente oposição...O Santuário da Senhora da Paznão pára de crescer, de se afirmarcomo um centro de vida espirituale de devoção mariana. Apesarda “forte e persistente oposiçãode pessoas, que antes nos de-viam ajudar. A pretexto de que asaparições não foram ainda apro-vadas pela autoridade eclesiástica(mas também não foram rejeita-das por ela), faz-se campanha eobstrucionismo contra o templo edevoção a Nossa Senhora da Paz”– lamenta-se Avelino de Jesus daCosta, em outubro de 1976.Independentemente dos con-tratempos, no ano seguinte, a29 de maio, acontece mais ummomento-alto: é inaugurado omonumento ao Coração Imacu-lado de Maria, cerimónia que étestemunhada por um elevadonúmero de devotos. São tambémerigidos monumentos ao Anjo daGuarda de Portugal e à Paz, esteúltimo constituído por um pe-destal de quartzo cristalizado, emcima do qual esvoaça uma pom-ba em bronze.O local é cada vez mais um pontode atração de peregrinos e demuitos turistas, até do estrangeiro,sobretudo ingleses, atraídos, emgeral, pela beleza da magníficacoleção de cristais de quartzo,considerada uma das melhoresdo mundo.Em sintonia com o povo e o pá-roco, o Cón. Avelino de Jesus daCosta é, ao longo deste período, ogrande promotor, a alma de todoeste projeto que integra ainda onovo Santuário da Senhora daPaz, edifício mais recente, emsistema basilical de três naves.Hoje, este é um centro comalgum movimento religioso e tu-rístico. O dia maior é o da peregri-nação que se realiza no último do-mingo de maio. Mas, ao longo detodo o ano, várias são as pessoasque por lá passam, gente devota daSenhora da Paz, gente atraída pelabeleza natural de um cenário comhorizontes largos e convidativos,gente interessada numa visita aosmonumentos e à Biblioteca-Museuque apresenta uma rica coleção decristais de quartzo.É um património único, mas aindapouco valorizado, seja ao níveldo turismo de natureza, seja emtermos de turismo religioso e aténo âmbito pastoral.Ninguém está, evidentemente,obrigado a dar crédito às apa-rições, mas qualquer pessoa debom senso terá de convir que aSenhora da Paz possui um enor-me potencial que permanecequase virgem.As celebrações do centenário,dentro de quatro anos, bempoderão ser a alavanca capaz detransfigurar o Barral, afirmando-o como um centro da devoçãopopular no Alto Lima e um localde visita obrigatória.Deus queira que assim aconteça!E que o homem sonhe, para que aobra nasça...Ponte da Barca, Maio de 2013Monumento à Senhora da Paz e ao Imaculado Coração de Jesus, situado junto à Capela-santuário
  • 8. VIII Diário do MinhoQUARTA-FEIRA, 22 de maio de 2013CulturaCulturaNa Revista Cultural – DOM FAFES–, da Câmara Municipal de Fafe,no volume XVII, n.º 17/18, cor-respondente aos anos de 2010 e2011, comemorativo do centená-rio da implantação da República,entre as diversas colaborações,acentuando aspectos da histórialocal – ensino, saúde, cultura–, avulta o artigo, subordinadoao título em epígrafe, da autoriade D. Joaquim Gonçalves, coma colaboração do Prof. DoutorAntónio Franquelim Neiva Soares,que vamos apreciar.Iniciamos estas breves notas,observando que este estudoresultou da convergência de duascircunstâncias, de certo modo,afins – a conclusão do AnoSacerdotal, que assinalou os 150anos da morte de S. João MariaVianney, Cura d’Ars, em Junho de2010, e o facto de, nesse mes-mo ano, D. Joaquim Gonçalvescelebrar as bodas de ouro sacer-dotais, efemérides que se propôscomemorar na dupla perspectiva:pastoral e cultural,No plano pastoral, além do apro-fundamento da doutrina sobre osacerdócio, efectuado no contex-to das celebrações festivas, reali-zadas na diocese de Vila Real e nasua terra natal, mereceu-lhe par-ticular atenção o problema dasvocações sacerdotais, de tantaimportância no contexto eclesial.A dimensão cultural, iniciada pelaelaboração do elenco dos páro-cos de Revelhe, que foi possívelidentificar, com menção especialdaqueles que o acompanharamao longo da sua caminhada,desde a entrada no Seminário,até ao episcopado. A par desta,foi surgindo outra lista, tal como aprecedente, destinada a revelar eperpetuar a memória dos padresoriundos desta mesma paróquia,fazendo-os emergir do silênciodos arquivos paroquial e diocesa-no, este, há cem anos, apropriadopela República e, posteriormente,integrado do Arquivo Distrital deBraga.A organização destas listas depárocos e de padres naturais deRevelhe constitui um preciosocontributo para a história des-ta paróquia e traduz, de formainequívoca, a estreita ligação deD. Joaquim Gonçalves à sua terranatal, patente também noutrosaspectos do estudo em análise.Nesse sentido, assumem particu-lar relevo os apontamentos sobrea vida autónoma das paróquiasde Cortegaça e Revelhe, tendoa primeira sido incorporada nasegunda, em data desconhecida,mas compreendida entre 1551 e1571, possivelmente, por decisãode D. Frei Bartolomeu dos Már-tires, de cuja actividade pastoral,através da Arquidiocese de Braga,constam outros casos similaresde uniões e desmembramentos.A título de exemplos, basta recor-dar que, em Melgaço, em 1572--1573, uniu as de Santa Maria doCampo – actualmente, evocadana igreja da Misericórdia – e a deS. Facundo à de Santa Maria daPorta, e que, dada a extensão docouto e freguesia do Mosteiro dePaderne, dela desmembrou as dePárocos de RevelhePárocos de Revelhee Padres naturais da Paróquiae Padres naturais da ParóquiaCubalhão e de Cousso, emboranos primeiros tempos conser-vassem uma ténue ligação àparóquia-mãe.Além de ter acompanhado a vidade Cortegaça, cuja referênciamais antiga consta da doaçãode Pedro Toderigues à Sé deBraga, em 3 de Abril de 1157, atéà sua incorporação em Revelhe,o Autor proporcionou aos inte-ressados um conjunto de infor-mações, por vezes contraditóriasentre os autores citados, sobre atoponímia local, a começar pelade Cortegaça, não deixando demencionar a arbitrariedade dealguns nomes mais recentes, quegostaria de ver alterados. Nestedomínio, o caso mais estranho eincompreensível é o da barragemconstruída na freguesia de Reve-lhe, mas referida como sendo deQueimadela! Também aqui, a pardo pormenorizado conhecimen-to da região, é patente o amor àterra que o viu crescer.Mas o grande objectivo desteestudo era revelar os nomes dospárocos de Revelhe, ampliadacom a incorporação de Corte-gaça, e os dos sacerdotes daíoriundos, tendo identificado trintae dois párocos, desde 1548 até àactualidade, e vinte e quatro pa-dres daí naturais, desde meadosdo século XV. Na impossibilidadede traçar a biografia de cada umdeles, estes dois conjuntos foramenriquecidos com os dados pes-soais e outras informações quepôde reunir.Como estímulo à leitura atentada lista dos párocos, observamos,apenas, que Domingos JoséPereira (1791-1797) e José Joa-quim de Araújo (1812-1850) foramCavaleiros da Ordem de Cristo,tendo o segundo permaneci-do nas funções paroquiais, emRevelhe, quase trinta e oito anos.Em data mais recente – podendohaver, ainda, quem dele se recor-de –, pastoreou esta freguesia oP. Francisco José Galvão (1907--1930), que, além de exímio violi-nista e flautista, ligou o seu nomeà paróquia que lhe estava confia-da, pela acção cultural, concreti-zada na organização de «Bandade Revelhe», que tanto prestígiocontinua a ter.Quanto aos vinte e quatro sacer-dotes naturais de Revelhe, a que,na segunda metade do séculoXVI, ficou definitivamente ligadaCortegaça, apraz-nos anotar queos quatro últimos: José Gonçal-ves, Joaquim Soares, D. JoaquimGonçalves e Albano Nogueira,estão, felizmente vivos, aos quaisdesejamos longa vida e óptimasaúde. Também em relação aeles, não sendo necessário deter-nos em aspectos biográficos,porque bem conhecidos, vem apropósito observar que os irmãosGonçalves (José e D. Joaquim)são naturais do lugar de Cortega-ça, que perpetua a memória daextinta paróquia, acima referida.Acerca do autor, D. JoaquimGonçalves, seria grave omitirque, após a formação humanísti-ca e teológica nos Seminários deBraga, licenciou-se em Filosofia,na Faculdade de Letras do Porto,PORPROF. DOUTORJOSÉ MARQUESPROFESSOR APOSENTADODA UNIVERSIDADE DO PORTOleccionou no ensino secundárioe, após a ordenação episcopal, foiBispo Auxiliar de Braga, Coadjutore Titular de Vila Real, de que éBispo Emérito.Os resultados deste estudo,apesar do longo período crono-lógico abrangido e não obstantealgumas lacunas, são muitopositivos e proporcionam dadoshistóricos, para os tempos maisremotos, geralmente desconhe-cidos, integrando-se, por isso, nosobjectivos culturais da RevistaMunicipal, que o acolheu.Resta, agora, esperar que, no futu-ro, surjam respostas semelhantesao convite dirigido porD. Joaquim Gonçalves aos páro-cos da sua antiga diocese de VilaReal, no cinquentenário da suaordenação sacerdotal, para faze-rem listas «dos seus antecesso-res, a fim de manter viva entre opovo a memória dos respectivospastores e estimular as vocaçõesao sacerdócio», convite que bemse pode tornar extensivo aos dasoutras dioceses portuguesas. ◗D. Joaquim Gonçalves,Bispo Emérito de Vila Real(natural de Revelhe – Fafe)